Algumas observações sobre a descrição das construções impessoais em português numa perspectiva comunicativa
Abstract
Neste trabalho, apresentamos algumas observações sobre a descrição das construções impessoais em português no quadro da gramática comunicativa, isto é, uma gramática que se dirige especialmente aos aprendizes de língua não materna e que tem por objetivo a inclusão, na descrição do funcionamento da língua, dos processos e fenômenos discursivos e comunicativos. Utilizando um corpus misto, que contém tanto exemplos fabricados quanto ocorrências autênticas, procuramos identificar estratégias linguísticas e enunciativas, além de fatores pragmáticos e sociolinguísticos que determinam a escolha, pelo locutor, das construções em questão, fazendo regularmente referência a suas características morfossintáticas
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292 Algumas observações sobre a descrição das construções impessoais em português numa perspectiva comunicativa1 Liliane Santos Université de Lille CNRS, UMR 8163, F-59000 Lille, France [email protected] Resumo: Neste trabalho, apresentamos algumas observações sobre a descrição das construções impessoais em português no quadro da gramática comunicativa, isto é, uma gramática que se dirige especialmente aos aprendizes de língua não materna e que tem por objetivo a inclusão, na descrição do funcionamento da língua, dos processos e fenômenos discursivos e comunicativos. Utilizando um corpus misto, que contém tanto exemplos fabricados quanto ocorrências autênticas, procuramos identificar estratégias linguísticas e enunciativas, além de fatores pragmáticos e sociolinguísticos que determinam a escolha, pelo locutor, das construções em questão, fazendo regularmente referência a suas características morfossintáticas. Como citar este capítulo: Santos, Liliane (2025): «Algumas observações sobre a descrição das construções impessoais em português numa perspectiva comunicativa», in: Johnen, Thomas/ Santos, Liliane/ SchmidtRadefeldt, Jürgen (eds.): Gramática Comunicativa e Ensino de Português Língua Não Materna num Mundo Multilíngue : Estudos In Memoriam do Professor Doutor João Malaca Casteleiro. Zwickau: Westsächsische Hochschule Zwickau, Fakultät Angewandte Sprachen und Interkulturelle Kommunikation (ZwIKSprache; 6), 292-321. ISBN: 978-3-946409-07-6; DOI: 10.34806/9783946409076-l 1Este trabalho retoma e aprofunda o conteúdo de trabalhos anteriores (Santos 2011, 2012, 2013a; 2013b) e, em suas linhas gerais, corresponde à comunicação apresentada por ocasião do 10º Congresso Alemão de Lusitanistas (10. Deutsche Lusitanistentag) em setembro de 2013 (ver Santos, 2013b). Por respeito ao Prof. Malaca Casteleiro, decidimos guardar o conteúdo apresentado em sua presença e com ele discutido.
293 Palavras-chave: Construções impessoais; Português Língua Não Materna; Gramática Comunicativa. Zusammenfassung: In diesem Beitrag werden einige Beobachtungen zur Deskription unpersönlicher Konstruktionen im Portugiesischen im Rahmen einer kommunikativen Grammatik vorgestellt – im Rahmen einer Grammatik also, die sich besonders an nicht-muttersprachliche Lernende richtet und die in die Deskription der Sprache und ihrer Funktionen diskursive und kommunikative Phänomene einbeziehen möchte. Auf der Grundlage eines Corpus aus authentischen und konstruierten Beispielen sollen die sprachlichen und Äußerungsstrategien sowie pragmatische und soziolinguistische Faktoren identifiziert werden, die für die Wahl bestimmter Konstruktionen durch den Sprecher ausschlaggebend sind. Dabei werden auch die morphosyntaktischen Charakteristika einbezogen. Schlagwörter: unpersönliche Konstruktionen; Portugiesisch als Fremdund Zweitsprache; Kommunikative Grammatik. 1 Introdução Retomando uma discussão anterior (cf. Santos 2011, 2012, 2013a, 2013b), da qual reexaminamos exemplos e análises, apresentamos, neste trabalho, alguns elementos que, de nosso ponto de vista, devem ser levados em consideração para uma descrição das formas de expressão da impessoalidade em língua portuguesa, de acordo com os pressupostos teóricos da gramática comunicativa. Em outros termos, nossa descrição pretende situar-se no interior de uma proposta de descrição dos fatos gramaticais especialmente voltada para o ensino-aprendizagem de língua não materna, descrição na qual as
294 intenções comunicativas e enunciativas do falante ocupam um lugar central, pois o que se considera importante é a capacidade do aprendiz em criar enunciados pragmaticamente aceitáveis e não somente gramaticalmente corretos, como ocorre nas propostas tradicionais de ensino de línguas não maternas, que trabalham com o método “apresentação-prática-produção” (Cunha/ Santos 2021). Assim, observaremos mais de perto construções nas quais o sujeito verbal é representado por: x alguém , x tu/você , x a gente/nós , x todo (o) mundo , as pessoas , 3ª pessoa do plural x se /Ø Nossa descrição mostrará que, na escolha da estratégia comunicativa, diferentes fatores – como o tipo de generalização que se pretende alcançar, a abrangência do referente do sujeito, assim como a inclusão ou não do locutor ou do interlocutor entre os referentes do sujeito –, além de fatores sociolinguísticos (como o registro, a faixa etária e a classe social do locutor) devem ser levados em consideração na descrição do uso das construções impessoais em português. Tendo em vista que, geralmente, as gramáticas e os manuais didáticos tratam a língua como um sistema de regras de combinação de palavras para formar frases, a impessoalidade – como, aliás, os demais fatos gramaticais – recebe um tratamento por “grandes famílias de palavras” (Matte Bon 1995: VII), o que provoca ao menos um problema importante: o tratamento em unidades isoladas de
295 fatos que poderiam – e deveriam, e mereceriam – ser reunidos. Dessa opção metodológica decorre a impermeabilidade entre os diferentes pontos da descrição, cuja inter-relação não se percebe. Além disso – ou justamente por isso –, o tratamento dado à impessoalidade pelos manuais didáticos concentra-se geralmente nos chamados verbos impessoais , com haver e fazer como paradigmas. De modo semelhante, os estudos linguísticos sobre o fenômeno muitas vezes prendem-se a um único aspecto da questão – por exemplo, entre inúmeros outros, as “orações impessoais” (Franchi/ Negrão/ Viotti 1998), o “sujeito nulo” (Barbosa/ Duarte/ Kato 2005; Carrilho 2003; Gonçalves 2002), os “sujeitos indeterminados” (Duarte/ Kato/ Barbosa 2001). E, mesmo quando escolhem um ponto de vista mais abrangente (cf. Ilari 2010), tais estudos têm geralmente pouca ou nenhuma influência sobre a produção de materiais didáticos para o ensino de Português, seja como língua materna, seja como língua não materna. No entanto, como se sabe, as formas de expressão da impessoalidade são múltiplas e variadas, assim como múltiplos e variados são os papéis e as atitudes do locutor, elemento essencial para a definição das diferentes nuances de cada uma das estratégias utilizadas e dos operadores escolhidos. Para nosso trabalho, escolhemos um corpus misto, composto de exemplos autênticos e exemplos fabricados, alguns dos quais resultam da manipulação e/ou adaptação de ocorrências autênticas. Apesar das inúmeras críticas que se pode fazer ao uso de exemplos fabricados, acreditamos que devem ser usados quando se deseja (a) focalizar a atenção num ponto ou elemento preciso da descrição
296 e/ou (b) fazer emergir características que não aparecem nos exemplos autênticos. 2 Pressupostos teóricos: gramática comunicativa e estratégias Tomamos como ponto de partida a ideia de que “aprender uma língua significa aprender a se comunicar” (Wilkins 1974: 3, nossa tradução), mas não apresentaremos aqui uma discussão aprofundada sobre o que é a gramática comunicativa, discussão para a qual remetemos a trabalhos anteriores (Santos 2008, 2011, 2012). Neste trabalho, somente destacaremos os elementos que consideramos mais importantes, começando pela observação de que a descrição da gramática de uma língua não se reduz à descrição do “sistema da língua” – seja no sentido tradicional, seja no sentido estruturalista. Como indica Suso López (2004), A descrição da gramática de uma língua deve integrar tudo o que esteja envolvido no funcionamento da língua em situação de comunicação: as regras derivadas dos usos, as regras segundo as quais a comunicação ocorre, as modalidades dos discursos e dos textos que os locutores interiorizaram e que utilizam continuamente […]. Neste sentido, possuir a “gramática” de uma língua equivale a possuir uma competência interiorizada dessa língua (Suso López 2004: 203, nossa tradução). Nessa mesma linha de pensamento, Matte Bon (1995) define gramática comunicativa como
297 uma gramática que se baseia na análise do funcionamento dos idiomas a partir de uma perspectiva que leve em conta a comunicação; [uma gramática] em que se analisam todos os matizes e em que nada se dá por conhecido; em que se reconhece um novo papel central às interpretações dos enunciados analisados, como base para a compreensão do funcionamento do sistema. Também é uma gramática que situa os interlocutores e a interação no centro da análise. [Nesta perspectiva] adquire, portanto, importância fundamental o modo como os falantes dizem as coisas, em cada situação, de acordo com suas intenções comunicativas (Matte Bon 1995: VI, nossa tradução, sublinhado pelo autor). Sendo assim, trata-se de uma gramática para aprendizes estrangeiros que inclui necessariamente , na própria descrição dos fatos da língua, o contexto de utilização (ou situação de comunicação) e locutores concretos – e diversos. Em outros termos, trata-se de uma gramática que se constrói a partir e em torno dos processos, não das categorias – o que significa que, se não renuncia às categorias categorias gramaticais, essa perspectiva permite que emerjam categorias que a gramática tradicional desconhece. Dito de outro modo, trata-se de uma gramática do discurso e não do código . No interior desse quadro teórico, convém definir o conceito de estratégia linguística/enunciativa , crucial para nossa descrição. Utilizaremos, aqui, uma dupla definição: por um lado, a do Centro Nacional de Recursos Textuais e Lexicais francês (cf. Ortolang 2012: http://www.cnrtl.fr/definition/strat%C3%A9gie, nossa tradução), segundo a qual uma estratégia enunciativa corresponde ao “conjunto das escolhas de produção linguística com vistas a levar
298 adiante uma intenção enunciativa”. Por outro lado, utilizaremos a definição de Haverkate (1984: 40, nossa tradução), para quem “as estratégias [linguísticas] são utilizadas cada vez que, ao produzir um ato de fala, o falante tem a possibilidade de escolher, entre um conjunto de opções, a realização concreta do ato de fala em questão”. Assim, entendemos que as escolhas do locutor quanto à utilização (ou não) de uma certa construção impessoal obedecem a diferentes estratégias, as quais, por sua vez, provêm de seus objetivos comunicativos e/ou enunciativos. 3 Elementos de descrição Inúmeras razões, ligadas à situação de enunciação, podem levar um falante a não explicitar o referente do sujeito de um verbo: o fato de não saber qual é esse sujeito, de não querer dizer quem é, de não lhe interessar, na situação considerada e tendo em conta as suas intenções comunicativas, porque prefere ocultá-lo por alguma razão, etc. (Matte Bon 1995: 41, nossa tradução). Vamos, a seguir, apresentar algumas considerações a respeito das construções impessoais em português, concentrando nossa atenção naquelas em que a explicitação do referente do sujeito verbal é facultada ao falante – excluindo, portanto, desta discussão, as
299 construções intrinsecamente impessoais2e as construções com sujeito dito “oculto”3. Começaremos pelas construções com alguém . 3.1 Alguém Em trabalhos anteriores (Santos 2012, 2013a, 2013b), tínhamos partido da hipótese de que o locutor utiliza alguém quando não conhece a identidade do sujeito verbal, mas deseja indicar que se trata de uma pessoa específica. Para verificar novamente essa hipótese, comparemos os dois exemplos seguintes: (1) a. A Paula sorriu. b. Alguém sorriu. Como se vê, em (1a) o referente do sujeito verbal é definido e identificável: o uso do artigo definido reforça a indicação (já fornecida pelo uso do nome próprio) de que esse conhecimento é compartilhado pelos interlocutores. Em (1b), em contrapartida, o referente é apresentado como não identificável – ao menos pelo interlocutor. Pode ser, como indicamos há pouco, que o locutor desconheça a identidade do sujeito verbal. No entanto, como nada na construção nos indica que assim o seja, devemos considerar, no máximo, que esse tipo de construção é ambíguo quanto ao conhecimento da 2Consideramos “intrinsecamente impessoais” as construções que são tradicionalmente reunidas sob o rótulo de “sujeito inexistente” ou, na abordagem da gramática gerativa, sob a etiqueta de “sujeito nulo de pronome expletivo” (ou pro ). Trata-se, por exemplo, de certas construções com os verbos dar , fazer , haver , parecer , ir , ser , ter , além das construções com verbos que indicam fenômenos meteorológicos ( chover , ventar , nevar , etc.). 3Também chamadas, pela gramática gerativa, de construções de “sujeito nulo de pronome referencial (de referência definida ou arbitrária)”.
300 identidade do sujeito verbal pelo locutor. De fato, (1b) pode ter como encadeamento possível “mas não vou dizer quem”, o que mostra que o locutor conhece a identidade do sujeito do verbo. Observe-se, além disso, que a escolha do verbo nada muda com relação a essa interpretação de ambiguidade quanto ao (des)conhecimento da identidade do sujeito verbal pelo locutor: (1) c. A Paula telefonou. d. Alguém telefonou. Mais uma vez, a construção com alguém é ambígua, não havendo indicações quanto àquilo que o locutor sabe sobre a identidade do sujeito do verbo. Ao mesmo tempo, é importante observar que, tanto com relação a (1b) quanto com relação a (1d), o interlocutor pode reagir perguntando “ Quem ?”, o que mostra, uma vez mais, que o uso de alguém não indica de maneira clara se o locutor conhece ou não a identidade do sujeito verbal, pois o interlocutor pode fazer a hipótese de que seja o caso. Para ir um pouco mais longe, examinemos, agora, algumas construções interrogativas: (1) e. A Paula telefonou? f. Quem telefonou? g. Alguém telefonou? Os exemplos acima permitem as seguintes interpretações: em (1e), a pergunta incide sobre o sujeito do verbo, que é indicado claramente – e que, por isso mesmo, indica que seu referente é informação compartilhada pelos interlocutores (pode ser o caso, por exemplo, numa situação em que se esperava um telefonema da
307 Pode ser interessante comparar (9) e (4), tendo em vista que, nos dois casos, os locutores “se escondem” atrás de uma forma impessoal: a confrontação dos dois exemplos mostra que, mesmo se o efeito produzido é semelhante, os objetivos enunciativos que determinam a escolha de formas impessoais podem variar – acusar, no primeiro caso, não se mostrar arrogante, no segundo. No que diz respeito à concordância, como se sabe é de praxe recomendar o uso da 3ª pessoa do singular com a gente e da 1ª pessoa do plural com nós . Mas, como também se sabe, variações ocorrem, a gente sendo usado com a 1ª pessoa do plural, tanto no PB quanto no PE e nós sendo usado com a 3ª pessoa do singular em dialetos não padrão do PB. Se fatores sociolinguísticos explicam esse tipo de variação, tais fatores podem igualmente explicar a escolha entre a gente e nós . De acordo com Duarte/ Barbosa/ Kato (2003: 406), nós fica restrito “à fala de informantes mais velhos com escolaridade alta”. Resultados semelhantes foram encontrados por Lopes (1998) e por Matos (2009), entre muitos outros. 3.4 Todo (o) mundo / as pessoas / uma pessoa / 3ª pessoa do plural Com as expressões em questão, o locutor pode excluir-se ou não do conjunto dos referentes possíveis:
308 (10) Todo mundo vai ao circo – menos eu, menos eu9. (11) Se as companhias de seguro se negam a arriscar o seu dinheiro assegurando a indústria nuclear, por que se deve obrigar as pessoas a arriscarem as suas vidas?, questiona neste artigo Dietrich Fischer, director académico da World Peace Academy (Fischer, 2011). (12) Com marcação de 21 dias de antecedência conseguem-se preços de 30£ por quarto/noite! Neste caso, quando uma pessoa quer é dormir e sair para visitar o mais possível, acho que este “tratamento impessoal” destas cadeias de hotéis até é uma vantagem em relação aos famosos e típicos Bed&Breakfast britânicos... (Eugénio, 2010). (13) Dizem que a crise atingirá todos os setores. A 3ª pessoa do plural também pode ser utilizada para marcar um referente coletivo, como quando nos dirigimos a uma empresa, uma organização ou um corpo constituído de indivíduos. No entanto, em tais casos a 3ª pessoa do plural não adquire um valor impessoal, mesmo se o referente do sujeito ao qual nos dirigimos permanece um tanto indefinido, já que se trata de se dirigir a um coletivo, isto é, não se trata precisamente de se dirigir a um indivíduo – o que mostra, mais uma vez, a necessidade de diferenciar os critérios sintáticos dos semânticos na definição da categoria sujeito verbal . Note-se ainda que, das expressões acima exemplificadas, todo (o) mundo é a única que apresenta um valor universal: as demais, embora sendo genéricas, apresentam sempre algum tipo de restrição quanto à abrangência dos referentes a considerar, podendo, to9Versos iniciais da canção “O Circo”, do compositor Oscar da Penha (19241997), mais conhecido como Batatinha.
309 das, incluir ou não o locutor (o que exclui o locutor, no exemplo (10), é a expressão “menos eu”). 3.5 Se / Ø Ao utilizar o pronome se , o locutor apresenta seu enunciado como tendo um valor universal, do qual está excluído: (14) Eu aprendi a fazer o sulfato de cobre com que se sulfatava as vinhas (PE) [DKB, 406]10 (15) Nem nas quadras de escola de samba do passado se fazia rodas de partido alto. (PB) [DKB, 406] Não discutiremos, aqui, questões relativas à concordância verbal nas construções com se , assim como não discutiremos os critérios que permitem diferenciar se indefinido de se indeterminado. Apenas gostaríamos de observar que, nessas construções, o apagamento e a consequente universalização do sujeito levam a uma construção em que o foco se encontra no estado de coisas expresso pelo verbo, mais do que no sujeito desse verbo. No que diz respeito à variação PE/PB, podemos observar, com Duarte/ Kato/ Barbosa (2001), que as construções com se constituem a estratégia preferida no PE, ao passo que, no PB, essas construções são preferidas por falantes mais velhos e de escolaridade mais alta. 10 Os exemplos identificados pelas iniciais DKB foram extraídos de Duarte/ Kato/ Barbosa (2001).
310 Quanto ao sujeito nulo (aqui representado pelo símbolo “Ø”), cabe notar que ocorre em enunciados infinitivos, em alternância com o pronome se : (16) Os médicos receitam Prozac [para Ø atingir a felicidade] e o Viagra [para se ter potência sexual]. (PB) [DKB, 406] (17) Mas [para se usar o preto] (...) as fábricas de pigmentos tiveram que produzir o preto em barda. (...) [Para Ø ter a adesão total da imprensa] há muito trabalho por trás. (PE) [DKB, 406] De acordo com Duarte/ Kato/ Barbosa (2001: 408), a ocorrência de se parece ser facilitada pelos contextos de infinitivos regidos por preposição, sobretudo para e de , “nas funções de adverbiais, relativas e completivas de nome, adjetivo e verbo”. 4 Considerações finais Como vimos, além da atitude e das intenções do locutor, fatores sociolinguísticos – classe social, grau de escolaridade, idade do falante – são extremamente importantes para explicar a escolha da estratégia de expressão de impessoalidade que o falante utiliza. Do mesmo modo, o registro é um fator de extrema importância na determinação dos instrumentos que serão utilizados pelo locutor numa construção impessoal, assim como fatores sintáticos. Fatores como a atribuição de um valor geral ou particular ao enunciado, a inclusão ou não do locutor e do interlocutor e a abrangência do referente – que pode ser apresentado como genérico, coletivo ou particular – explicam, igualmente, a escolha de tal ou tal forma.
311 Com relação à exposição que acabamos de apresentar, cabe ao menos uma observação, relativamente ao fato de que essa descrição não tem a pretensão de ser exaustiva. Por exemplo, não mencionamos algumas outras formas de expressão da impessoalidade: (i) hiperônimo (18) Mulher não resiste a um amor impossível!11 (ii) 1ª pessoa do singular (19) L1 – Paulo, pode dirigir descalço? L2 – Pode. A lei diz que é proibido dirigir com calçado que não seja firme nos pés ou que comprometa o uso dos pedais. Então, se a lei não me proíbe de dirigir descalço, eu posso dirigir descalço12. (iii) há quem + verbo no subjuntivo (20) Há quem acredite em milagres. Como ocorre com os outros casos que comentamos, também com estes últimos a escolha dos instrumentos varia de acordo finalidade da estratégia linguística ou enunciativa do locutor. Assim, com o hiperônimo o locutor atribui um valor genérico ou universal a um propósito que apresenta como não lhe dizendo respeito; com a 1ª pessoa do singular, o locutor apresenta como sendo atribuível somente a si mesmo um enunciado que tem um valor genérico; com a 11 Extraído de um anúncio do filme Divã , de José Alvarenga Jr. (Downtown Filmes, Brasil, 2009), divulgado nos meios de comunicação brasileiros em 2009. 12 Adaptado de um informe publicitário divulgado nas rádios brasileiras em junho de 2013.
312 expressão há quem , o locutor indica referir-se a uma pequena quantidade de indivíduos. Neste caso, o enunciado não tem o valor geral que podem ter as outras formas de impessoalidade. Também consideramos ser importante observar que nossa descrição toca – sem aprofundar – duas outras questões. Em primeiro lugar, a do uso de critérios semânticos para definir categorias sintáticas13 e, em segundo lugar, o fato de que as categorias indefinido e impessoal não remetem à mesma realidade. Antes de concluir, gostaríamos de chamar a atenção para o fato de que, diferentemente do que ocorre em línguas como o francês e o italiano e à semelhança do que ocorre em espanhol, o português não permite a retomada do pronome pessoal sujeito de primeira pessoa do plural ( nós ) por uma forma impessoal14: (21) a. Noi , la domenica si lavora. b. Nous , le dimanche on travaille c. Nosotros , los domingos, trabajamos . d. Nós , aos domingos, trabalhamos 15 . (22) a. L1 – Che fate? L2 – Si prepara la cena. b. L1 – Qu’est-ce que vous faites? L2 – On prépare le dîner. c. L1 – ¿Qué estáis haciendo? L2 – ( Estamos ) Preparando la cena. 13 Para uma análise dessa problemática no caso específico das construções impessoais, ver Lopes (2006). 14 As séries (21a)-(21c) e (22a)-(22c) são extraídas de Matte Bon (1995: 46), ao passo que os exemplos (21d) e (22d) são adaptações dessas mesmas séries, feitas por nossos cuidados. 15 A fim de manter o paralelismo da construção, mantivemos o pronome nós em posição inicial. Parece-nos, no entanto, que a construção com esse pronome em posição contígua ao verbo (“Aos domingos, nós trabalhamos ”) seria mais natural – ao menos no PB.
313 d. L1 – O que (vocês) estão fazendo/a fazer? L2 – ( Estamos ) Preparando/a preparar o jantar16. Com relação aos exemplos (21a)-(21d), convém observar que, para as necessidades da exposição, decidimos manter o paralelismo sintático entre os quatro exemplos; assim, mantivemos o pronome nós em posição inicial em (21d). Parece-nos, no entanto, que é necessário levar em conta ao menos dois outros elementos: (i) o português permite uma retomada por a gente , o que daria (21) e. Nós , aos domingos, a gente trabalha. (ii) a construção com o pronome em posição contígua ao verbo parece mais natural – ao menos no PB –, como se pode ver em (21) f. Aos domingos, nós trabalhamos. Assim, (21e) sendo perfeitamente admissível em português, é necessário ajustar a descrição de maneira a levar em conta o fato de que, se a retomada por um pronome nem sempre é possível em português, essa retomada é (ou torna-se) possível se se fizer por uma locução pronominal. De modo similar, a descrição desses fenômenos deve considerar o fato de que (21f) mostra, pelo contraste com (21d) e (21e), que as construções com o pronome em posição 16 Utilizamos o verbo “preparar” para manter o paralelismo com os exemplos originais. Julgamos, no entanto, que as respostas mais espontâneas utilizariam o verbo “fazer” (“estamos fazendo/a fazer o jantar”).
314 inicial são provavelmente mais naturais quando se trata de retomar elementos do enunciado precedente do interlocutor; por exemplo, em resposta a uma pergunta (eventualmente com uma entoação interrogativa): (21) g. L1 – O que (vocês) fazem aos domingos? L2 – Nós , aos domingos, a gente trabalha. L2 – Nós ? Aos domingos, a gente trabalha. L2 – Nós ? Aos domingos? A gente trabalha. Como se vê, a descrição desses fenômenos vai bem além do que aqui propusemos. É por isso que gostaríamos de sublinhar, por fim, que uma descrição desses fenômenos, nessa perspectiva, deve ser amparada por uma descrição dos atos de fala da língua portuguesa, tal como a proposta por Johnen (2012), ou seja, uma descrição dos tipos de atos de fala e de suas funções convencionais ou convencionalizadas. Referências bibliográficas Referências teóricas Barbosa, Pilar/ Duarte, Maria E. Lamoglia/ Kato, Mary A. (2005): “Null subjects in European and Brazilian Portuguese”, in: Journal of Portuguese Linguistics 4, 2, 11-52, disponível online: https://jpl.letras.ulisboa.pt/articles/abstract/10.5334/jpl.158/ (20 junho 2021).
315 Carrilho, Ernestina (2003): “Construções de expletivo visível em Português europeu (não-padrão)”, in: Veiga, Alexandre (ed.): Gramática e Léxico em Sincronia e Diacronia: Um contributo da Linguística portuguesa . Santiago de Compostela, Espanha: Universidade de Santiago de Compostela, 29-38, disponível online: http://clul.ulisboa.pt/files/ernestina_carrilho/ernestina_carrilho _2003a.pdf (15 maio 2021). Cunha, Joana/ Santos, Liliane (2021): “Elaboração de Materiais Didáticos para o Ensino de Português Língua Não Materna numa Perspectiva Comunicativa: Uma Proposta”, in: Teixeira, Madalena/ Tavares, Teresa Cláudia/ Gorgulho, Ana Rita/ Macário, Maria João/Rodrigues, Patrícia/ Santos, Leonor (eds.): Anais do VI Simpósio Mundial de Estudos da Língua Portuguesa: Da união à diversidade . Santarém: Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Santarém, vol. 2, 2055-2072, disponível online: https://repositorio.ipsantarem.pt/bitstream/10400.15/3891/2/ Anais%20VI%20SIMELP%20- %20Tomo%202%20%281%29.pdf (28 abril 2024). Duarte, Maria E. Lamoglia/ Kato, Mary A./ Barbosa, Pilar (2001): “Sujeitos indeterminados em PE e PB”, in: Boletim da Associação Brasileira de Linguística 26, n. especial, 405-419, disponível online: https://web.archive.org/web/20240415140531/https://abralin.
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5 Sumário O Professor Doutor João Malaca Casteleiro – pioneiro da gramática comunicativa Thomas Johnen, Liliane Santos e Jürgen Schmidt-Radefeldt ...........8 Monsieur le Professeur João Malaca Casteleiro – un pionnier de la grammaire communicative Thomas Johnen, Liliane Santos, Jürgen Schmidt-Radefeldt .......... 33 João Malaca Casteleiro – ein Pionier der kommunikativen Grammatik Thomas Johnen, Liliane Santos, Jürgen Schmidt-Radefeldt ……… 59 Homenagem ao Professor Doutor João Malaca Casteleiro, eminente lexicólogo português, e meu amigo (Teixoso, Covilhã, 1936 – Lisboa, 2020) Jürgen Schmidt-Radefeldt ........................................................ 88 Alguns aspetos de uma gramática comunicativa do Português e sua contribuição para um ensino mais eficaz da língua a aprendentes estrangeiros João Malaca Casteleiro ............................................................. 95
6 Observações sobre gramáticas comunicativas ou do diálogo incluindo sinais interactivos Jürgen Schmidt-Radefeldt ........................................................117 Um caso harmônico de aprendizagem da língua portuguesa e suas variantes através da gramática comunicativa em aulas de PLE na Universidade de Huelva Giselle Menezes Mendes Cintado.............................................. 148 As histórias digitais no contexto do ensino do Português no estrangeiro – um contributo para o fomento da comunicação Fátima Isabel Guedes da Silva e Estela Pinto Ribeiro Lamas ...... .167 O ensino de PLE a deficientes visuais espanhóis Lilian dos Santos Ribeiro ......................................................... 195 Das einfache Futur in ausgewählten Grammatiken und Lehrbüchern des Portugiesischen, Spanischen, Französischen und Italienischen aus dem deutschsprachigen Raum Karin Weise ............................................................................ 223 Avaliação da competência comunicativa oral de estrangeiros em português língua estrangeira/segunda língua: contribuições para a formação docente Alexandre do Amaral Ribeiro ................................................. 266
7 Algumas observações em torno da descrição da construções impessoais em português numa perspectiva comunicativa Liliane Santos ....................................................................... 292 Respostas curtas assertivas numa gramática comunicativa do português Thomas Johnen ..................................................................... 322 Entdeckungen im ILB: «eucalipto». in aller Munde Gunther Hammermüller .......................................................... 384 Bibliografia seletiva da obra do Professor João Malaca Casteleiro Jasmin Göthel, Thomas Johnen, Liliane Santos e Jürgen SchmidtRadefeldt ............................................................................... 433 Sobre as autoras e os autores deste volume/ Über die Autorinnen und Autoren dieses Bandes..............475
Zwickauer Forum Interkulturelle Kommunikation und Sprache (ISSN 2700-5968) http://www.fh-zwickau.de/zwiksprache Nr. 1: Sabine Dieng-Weiß (2019): Spanische Fachkräfte in der Krankenpflege in Deutschland: Erfahrungen und Erwartungen. ISBN: 978-3-946409-03-8; DOI: 10.34806/q7yr-7c44 https://d-nb.info/1210446189/34 Resumen en español. Nr. 2: Julia Gelinski (2019): Interkulturelle Erfahrungen deutscher Studierender in spanischen Unternehmen . ISBN: 978-3-946409-01-4; DOI: 10.34806/rfv9-b177 http://d-nb.info/1216496854/34 Resumen en español. Nr. 3: Thomas Johnen (2019): Nominale Anredeformen in Fernsehwahlduellen: ein multilingualer Vergleich . ISBN: 978-3-946409-02-1; DOI: 10.34806/19wq-t276 https://d-nb.info/1210449269/34 Resumo em português. Nr. 4 Bao Trang Ngo (2021): Integration der Vietnamesen in Ostdeutschland: Deutsche und vietnamesische Sichtweisen in qualitativen Interviews. ISBN: 978-3-946409-05-02; DOI: 10.34806/x4gd-gm78 https://d-nb.info/123599273X/34 7UXWɉQJWURQJWLɼQJYLʄW
Nr. 5 Thomas Johnen/ Christopher Mattern/ Jasmin Wunderlich (red.) (2023): Portugiesisch - Globale Sprache des 21. Jahrhunderts: Kulturen, Literaturen, Wissenschaft und Wirtschaft: Abstracts der Vorträge auf dem 15. Deutschen Lusitanistentag, 19.-23. September 2023, Westsächsische Hochschule Zwickau; Português - Língua global do século XXI: Culturas, Literaturas, Ciência e Economia; Caderno de resumos do 15° Congresso Alemao de Lusitanistas, 19 a 23 de setembro de 2023, Universidade de Ciências Aplicadas de Zwickau . ISBN: 978-3-946409-08-3; DOI: https://doi.org/10.34806/679p-3b04; https://d-nb.info/1312838353 Nr. 6: Thomas Johnen/ Liliane Santos/ Jürgen Schmidt-Radefeldt (eds.) (2025): Gramática Comunicativa e Ensino de Português Língua Não Materna num Mundo Multilíngue: Estudos In Memoriam do Professor Doutor João Malaca Casteleiro . ISBN: 978-3-946409-07-6; DOI: 10.34806/9783946409076 Zusammenfassungen auf Deutsch Nr. 7: Carlos Roberto de Oliveira Lima/ Gabriel Silva Xavier Nascimento/ José Raimundo Rodrigues (Orgs.) (2025, no prelo/ im Druck): Fontes para outras histórias da educação dos surdos . ISBN: 978-3-946409-09-0; Abstracts in English; ZusammenfasVungen auf Deutsch