scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

O Oriente Médio como Novo Heartland? Geopolítica, Energia e Poder no Século XXI

Hage, José Alexandre Altahyde; Martins, João Henrique Cervantes Falleiros; Fagundes, Murilo Seri

Abstract

Este artigo examina o conceito de Heartland, de Halford J. Mackinder, à luz das dinâmicas geopolíticas atuais, buscando entender se o Oriente Médio pode ser reinterpretado como um Heartland funcional no século XXI. A partir de revisão bibliográfica e dados empíricos, discute três eixos principais: posição geoestratégica, centralidade energética e projeção de poder. O estudo identifica pontos de convergência e limites para aplicar a teoria de forma literal, e propõe uma releitura que enxerga o Oriente Médio como uma zona pivotal mais fluida, marcada por interdependências, disputas simbólicas e fragmentação — contribuindo para o debate sobre a centralidade territorial na ordem mundial contemporânea.

Full text

57 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellector.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 O Oriente Médio como Novo Heartland? Geopolítica, Energia e Poder no Século XXI 1 The Middle East as the New Heartland? Geopolitics, Energy, and Power in the 21st Century José Alexandre Altahyde Hage Professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo e do Programa de PósGraduação em Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC. Pós-doutoramento em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-7487-489X. E-mail: [email protected]. João Henrique Cervantes Falleiros Martins Especialista em Diáspora Vasca pela Universidade do País Basco (UPV/EHU). Especialista em Direito Internacional Humanitário pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas). ORCID: https://orcid.org/0009-00046696-8759. E-mail: [email protected]. Murilo Seri Fagundes Mestrando em Relações Internacionais pela Universidade Federal do ABC (UFABC). Especialista em Direito Internacional pelo Centro de Estudos em Direito e Negócios (CEDIN). Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Temas de Segurança Internacional Abrangente e Humana (GEPETESIAH/UFABC - CNPQ); Membro do Grupo de Pesquisa Diálogo Ambiental, Constitucional e Internacional (Diálogo ACI/UNIFOR - CNPQ). Lattes: http://lattes.cnpq.br/4570021715256102; Orcid: https://orcid.org/0000-0001-6535-5417; E-mail: murilopfagund[email protected]om. 1 Recebido para Publicação 15/05/2025. Aprovado para Publicação em 05/07/2025. DOI https://doi.org/10.5281/zenodo.18009336 58 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellector.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 Resumo Este artigo examina o conceito de Heartland, de Halford J. Mackinder, à luz das dinâmicas geopolíticas atuais, buscando entender se o Oriente Médio pode ser reinterpretado como um Heartland funcional no século XXI. A partir de revisão bibliográfica e dados empíricos, discute três eixos principais: posição geoestratégica, centralidade energética e projeção de poder. O estudo identifica pontos de convergência e limites para aplicar a teoria de forma literal, e propõe uma releitura que enxerga o Oriente Médio como uma zona pivotal mais fluida, marcada por interdependências, disputas simbólicas e fragmentação — contribuindo para o debate sobre a centralidade territorial na ordem mundial contemporânea. Palavras-chave: Geoestratégia, Geopolítica, Heartland, Oriente Médio, Soberania. Abstract This article examines Halford J. Mackinder’s concept of the Heartland considering current geopolitical dynamics, seeking to understand whether the Middle East can be reinterpreted as a functional Heartland in the 21st century. Based on a literature review and empirical data, it discusses three main axes: geostrategic position, energy centrality, and power projection. The study identifies points of convergence and limitations for applying the theory literally and proposes a reinterpretation that views the Middle East as a more fluid pivotal zone, marked by interdependencies, symbolic disputes, and fragmentation — contributing to the debate on territorial centrality in the contemporary world order. Keywords: Geostrategy, Geopolitics, Heartland, Middle East, Sovereignty. 59 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellector.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 Introdução Oriente Médio sempre foi mais do que um simples ponto no mapa. É uma região onde passado e presente se misturam, entrelaçando histórias de poder, fé, identidade e ambição. Ao longo do século XX e, principalmente, nas primeiras décadas do século XXI, esse território se firmou como um dos lugares mais sensíveis e estratégicos da política global. Não à toa, sempre que se fala em guerras longas, intervenções estrangeiras ou disputas entre grandes potências, o Oriente Médio costuma estar no centro da discussão. Desde a queda do Império Otomano e as divisões territoriais feitas pelas potências europeias após a Primeira Guerra Mundial, a região vem sendo moldada por influências externas – um legado que ainda pesa (FROMKIN, 1989; ANDERSON, 2012). Cada novo conflito ali não surge do nada: ele carrega marcas profundas de pactos antigos, feridas históricas e interesses que atravessam gerações. No cenário atual, em que a ordem mundial vai deixando de ser dominada pelos Estados Unidos para dar lugar a um arranjo mais disperso e competitivo, o Oriente Médio segue com um papel central nas engrenagens da política internacional. A ascensão da China, a reconfiguração estratégica da Rússia e os movimentos oscilantes da política externa norte-americana só aumentaram o número de países tentando influenciar a região (KAPLAN, 2012; COHEN, 2015; MEARSHEIMER, 2019). A disputa hoje vai além do controle físico do território – o foco está em quem determina os fluxos de energia, segurança e até da narrativa global. Há vários fatores que explicam por que essa área continua tão relevante. Um deles é a posição geográfica privilegiada, que conecta Europa, Ásia e África. O domínio de postos-chaves como os estreitos de Ormuz, Bab el-Mandeb e o Canal de Suez afeta diretamente o comércio mundial. Além disso, o Oriente Médio abriga algumas das maiores reservas de petróleo e gás do planeta – recursos que, mesmo com a transição energética em curso, ainda sustentam diversas economias (BP, 2023). Soma-se a isso um quadro constante de instabilidade: conflitos na Síria e no Iêmen, o impasse entre israelenses e palestinos, a atuação de milícias armadas, grupos extremistas e o avanço de empresas militares privadas (BARNETT, 2012; GOLDBERG, 2016). Tudo isso compõe o que Jean-Pierre Filiu (2014) chamou de “geopolítica da desordem”. Diante desse cenário, uma pergunta ganha fôlego: será que o Oriente Médio, com todo seu peso estratégico e simbólico, pode ser visto como o novo “Heartland” do século XXI? A ideia remete à clássica teoria de Halford J. Mackinder que, ainda em 1904, apontava a Eurásia como o centro geográfico do poder mundial. Para ele, quem dominasse esse “coração continental” controlaria a chamada “Ilha Mundo” – e, com isso, o rumo do planeta. Anos depois, o próprio Mackinder passou a incluir o Oriente Médio como uma possível zona central nesse tabuleiro (MACKINDER, 1943). É a partir dessa provocação teórica que este trabalho se desenvolve. A intenção aqui não é só revisitar conceitos geopolíticos tradicionais, mas analisá-los à luz das mudanças mais recentes. Ao observar o Oriente Médio sob esse prisma, a proposta é entender se a relevância da região – marcada por conflitos, mas também por fortes interdependências – a coloca como novo eixo das disputas globais. Em outras palavras, será que o Oriente Médio deixou de ser apenas palco de crises para se tornar o ponto de virada da geopolítica do século XXI? O 60 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellector.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 A Teoria do Heartland e suas Releituras Geoestratégicas Quando Halford John Mackinder (1904) apresentou sua famosa conferência The Geographical Pivot of History à Royal Geographical Society, em 1904, não estava só lançando uma nova teoria – ele estava questionando o pensamento estratégico dominante da época. Em pleno auge do imperialismo britânico e do poder naval global, Mackinder teve a ousadia de mudar o foco: em vez de periferia marítima, ele voltou os olhos para o interior da Eurásia. Sua ideia era provocadora – o verdadeiro centro de gravidade do poder mundial não estaria nos oceanos, mas em terra firma, no imenso território que ele chamou o Heartland. Mackinder, dominar o Heartland – essa vasta região que se estende entre os Montes Urais, o Ártico, o Himalaia e o deserto de Gobi – significava ter em mãos a chave para controlar a chamada “Ilha Mundo”, o grande bloco formado por Europa, Ásia e África. A frase que resume sua visão geopolítica virou um dos aforismos mais conhecidos da área: “Quem governa a Europa Oriental comanda o Heartland; quem governa o Heartland comanda a Ilha Mundo; quem governa a Ilha Mundo comanda o mundo” (MACKINDER, 1919, p. 106). O núcleo da teoria parte de uma lógica geográfica com forte viés determinista. Mackinder via no avanço das ferrovias um fator que estava mudando a dinâmica do poder global. Para ele, enquanto o domínio marítimo – tão valorizado por teóricos como Alfred T. Mahan (1890) – dependia de rotas frágeis e cadeias logísticas extensas, o poder baseado em terra oferecia uma alternativa mais estável, conectando grandes territórios de forma contínua e eficiente. Essa mudança conceitual teve efeitos profundos e moldou o pensamento estratégico do Ocidente ao longo do século XX. Durante as duas guerras mundiais – e de forma ainda mais marcante na Guerra Fria – a noção de um “coração geográfico do mundo” passou a influenciar doutrinas militares, decisões diplomáticas e embates ideológicos. Mesmo autores que mais tarde criticaram ou reformularam a proposta original – como Nicholas Spykman, Zbigniew Brzezinski e Saul Cohen – acabara, em boa parte, partindo justamente da provocação lançada por Mackinder (Ó TUATHAIL, 1996; COHEN, 2015). Com o tempo, o próprio Mackinder percebeu que sua teoria precisava evoluir. No livro Democratic Ideals and Reality (1919), ele apontou a Europa Oriental como uma área-chave de transição entre o poder terrestre e as potências marítimas, antecipando os cenários geopolíticos das grandes guerras. Já em The Round World and the Winning of the Peace (1943), ao refletir sobre os desdobramentos da Segunda Guerra, ampliou sua visão e passou a incluir áreas periféricas da Eurásia – entre elas, o Oriente Médio – como regiões de valor estratégico cada vez maior, tanto por sua posição entre três continentes quanto pelas reservas de petróleo e pela importância nos corredores logísticos intercontinentais (MACKINDER, 1943). Essa ampliação do conceito não negava a base da teoria original, mas permitia uma leitura mais flexível e funcional da ideia de centralidade geopolítica. O Heartland deixava de ser só um ponto fixo no mapa e passava a representar uma posição estratégica dentro do sistema internacional – definida menos pela geografia em si e mais pela capacidade de influenciar os fluxos de poder, energia e segurança. É com esse olhar mais amplo que surge a chance de entender o Oriente Médio como um “novo Heartland”. Não no sentido puramente territorial, mas como um ponto vital onde se cruzam interesses globais, disputas regionais e redes de dependência energética. O que está em jogo não é simplesmente controlar um espaço, mas conseguir moldar as estruturas e significados do poder no século XXI. 61 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellector.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 O Oriente Médio na Geopolítica Contemporânea: Centralidade Estratégica e Dinâmicas Regionais Geoestratégia e Fluxos Energéticos: O Papel Nodular do Oriente Médio Poucas regiões do mundo reúnem, de forma tão clara, os elementos que definem a centralidade geopolítica do século XXI como o Oriente Médio. Mais do que um território marcado por conflitos, ali existe uma combinação única de fatores – localização, recursos e fluxos – que o coloca como peça estratégica no cenário global. Localizado no ponto de encontro entre Europa, Ásia e África, o Oriente Médio funciona como uma ponte natural entre diferentes mundos, conectando territórios, populações e mercados. Sua posição geográfica, portanto, vai além da paisagem física – ela é um vetor ativo de influência e disputa (KAPLAN, 2012; FLINT; TAYLOR, 2018). Essa posição estratégica se traduz, na prática, no controle de corredores essenciais à infraestrutura logística global. O Estreito de Ormuz, por exemplo – por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo –, funciona como um termômetro da estabilidade regional. Qualquer sinal de tensão por ali se reflete quase imediatamente nos preços da energia e nas bolsas internacionais. Isso vale para o Canal de Suez, que encurta de forma decisiva as rotas comerciais entre Europa e o Oceano Índico, e para o Estreito de Bab al-Mandeb, ligação crucial entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden, conectando o Oriente Médio ao Chifre da África. Esses pontos de passagem são, ao mesmo tempo, artérias vitais da economia global e zonas de vulnerabilidade – basta uma interrupção para desencadear um efeito dominó sobre cadeias de suprimento, segurança alimentar e fluxos comerciais (Klare, 2008; O’sullivan, 2013). Nos últimos anos, o Oriente Médio também passou a ter um papel mais ativo na estratégia de expansão da China por meio da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI). Com investimentos em portos, ferrovias e centros logísticos nos Emirados Árabes Unidos, Irã e Egito, a região virou um elo-chave entre as rotas terrestres da Ásia Central e os corredores marítimos que ligam o Oceano Índico ao Mediterrâneo (Rolland, 2017; Chen; Lin, 2022). Esse novo desenho de conectividade global reforça o protagonismo do Oriente Médio em uma ordem internacional cada vez mais policêntrica, onde a disputa por influência já vai muito além do eixo atlântico. Quando se trata de energia, a importância do Oriente Médio salta ainda mais aos olhos. Segundo o Statistical Review of World Energy, a região concentra cerca de 48% das reservas comprovadas de petróleo do planeta e 38% das de gás natural. Países como Arábia Saudita, Irã, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Qatar não apenas possuem esses recursos – eles também controlam sua extração, distribuição e, muitas vezes, até sua precificação, por meio da OPEB. Em um mundo ainda altamente dependente de combustíveis fósseis, essa capacidade de regular a oferta energética dá à região um peso enorme na balança econômica e política global (BP, 2023). Mas o petróleo, como destacou Daniel Yergin (2024), não é só uma mercadoria – é poder. Ele sustenta alianças, alimenta conflitos, mantém regimes e, em muitos casos, serve de justificativa para intervenções militares sob o argumento da “segurança energética”. Nesse cenário, a política energética anda de mãos 62 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellector.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 dadas com a política de defesa, com a diplomacia e até com a própria sobrevivência de Estados que dependem estruturalmente da exploração e exportação desses recursos. No cenário geopolítico atual, o Oriente Médio não é só um palco de conflitos – é um verdadeiro nó estratégico do sistema internacional. Ter controle, exercer influência ou até simplesmente manter presença na região garante vantagens significativas, tanto para grandes potências em busca de projeção quanto para atores locais que querem escapar de relações de dependência. É justamente nessa encruzilhada entre geografia, energia e poder que se encontra a raiz de sua importância. E essa centralidade já não parece mais periférica ao velho “Heartland” – talvez ela seja, cada vez mais, o novo centro em torno do qual gira a segurança global. Multipolaridade Assimétrica e Disputa de Influência: Atores Globais e Regionais no Oriente Médio O cenário geopolítico do Oriente Médio passou, nas últimas décadas, por mudanças profundas. O que antes era um sistema dominado pela rivalidade entre Estados Unidos e União Soviética – e depois pela hegemonia norte-americana no pós-Guerra Fria – hoje mostra uma configuração bem mais dispersa e dinâmica. Embora Washington e Moscou ainda sejam figuras centrais na região, a diversidade de interesses, alianças e intervenções aponta para uma mudança estrutural em direção à multipolaridade (EHTESHAMI, 2017; LUSTICK, 2021). Essa transição fica clara não só pela presença contínua das potências tradicionais, como os EUA com bases militares espalhadas pelo Golfo Pérsico e a Rússia que reforça sua influência com apoio direto ao regime sírio, mas, principalmente, pelo surgimento de novos atores, estatais e não-estatais, que disputam espaço e legitimidade fora das lógicas convencionais do sistema internacional. Entre os movimentos mais marcantes desse novo cenário, a ascensão da China se destaca. Diferente da postura confrontacional adotada por outras potências, Pequim tem seguido uma aproximação econômica silenciosa, mas constante. Por meio da BRI, fortalece sua presença com megaprojetos de infraestrutura, firmando acordos inclusive com países que são rivais entre si – como Arábia Saudita, Irã e Israel (CALABRESE, 2022; CHEN; LIN, 2022). Essa estratégia pragmática, que evita se envolver diretamente em disputas políticas ou militares, têm ampliado o alcance do soft power chinês na região, sobretudo nos setores de tecnologia, energia e logística. A Turquia, por sua vez, sob a liderança de Recep Tayyip Erdoğan, segue um caminho diferente. Amparada por uma narrativa que busca resgatar o legado otomano, Ancara tem apostado em intervenções militares pontuais – como nas zonas de fronteira com Síria e Iraque – e ampliado sua influência em áreas sensíveis como o Cáucaso e o Líbano. Esse projeto de “neo-otomanismo” vai além de um discurso nacionalista: é uma estratégia concreta para reposicionar a Turquia como uma potência regional independente, capaz de atuar fora das estruturas da OTAN e da aliança entre Rússia e Irã (PHILLIPS, 2020). Ao mesmo tempo, os países do Golfo vêm ganhando força como atores capazes de influenciar o cenário político regional com cada vez mais autonomia. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar não só lideram nas agendas de energia e finanças, como também usam esses recursos para ampliar sua presença diplomática, cultural e militar. Seja por meio de coalizões armadas – como na guerra do Iêmen – ou através de estratégias de soft power, com o financiamento de universidades, centros religiosos e redes de mídia, esses países estão redesenhando os espaços de poder na região (GREGORY, 2019). 63 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellector.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 Dentro desse novo contexto, os Acordos de Abraão, firmados entre 2020 e 2021 com intermediação dos Estados Unidos, marcaram uma virada na ordem política regional. A normalização das relações entre Israel e países como Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão rompeu antigos tabus e resenhou alianças – especialmente com foco em uma oposição discreta ao Irã (Alrashid, 2021). Mais do que gestos diplomáticos, essas aproximações mostram um nível crescente de autonomia por parte dos Estados do Golfo, que agora ajustam seus alinhamentos com base em interesses próprios, mesmo que isso contrarie os desejos das grandes potências. Apesar das novas dinâmicas na região, a rivalidade entre Irã e Arábia Saudita continua sendo uma das divisões mais marcantes da política do Oriente Médio. Essa disputa vai além da geopolítica tradicional: é também uma batalha simbólica, que opõe modelos de Estados, visões religiosas e estratégias de influência transnacional. Países como Líbano, Síria, Iraque e Iêmen frequentemente viram palco dessa tensão, onde milícias, partidos e grupos armados disputam espaço e legitimidade em meio às divisões entre xiitas e sunitas (Wehrey, 2013). Nesse cenário confuso de interesses sobrepostos, alianças instáveis e múltiplas intervenções, o Oriente Médio se consolida como um espaço multipolar assimétrico. Ou seja, há vários polos de poder, mas sem um equilíbrio firme entre eles. O resultado é uma arquitetura de segurança fragmentada, marcada por instabilidade constante, negociações frágeis e muita imprevisibilidade. Conflitualidade Crônica e Erosão da Soberania: A Fragmentação do Estado no Oriente Médio No Oriente Médio, a guerra não aparece de tempos em tempos – ela faz parte do cotidiano. Ao longo do último século, foram raros os períodos sem algum tipo de conflito, seja entre Estados, dentro deles ou em formas híbridas. Essa constante não é fruto do acaso: está ligada às próprias origens dos Estados-nação na região, muitas vezes traçados de forma artificial pelas divisões arbitrárias impostas pelas potências coloniais no século XX. A Primavera Árabe, que estourou em 2010 com fortes demandas por reformas e justiça social, acabou escancarando a fragilidade das instituições estatais. O que veio depois foi uma reação em cadeira de colapsos, guerras civis e mudanças bruscas de soberania (LYNCH, 2014). Nesse ambiente de Estados enfraquecidos, atores não-estatais passaram a ganhar destaque. Mais do que forças desestabilizadoras, milícias e grupos insurgentes se tornaram, em muitos casos, autoridades paralelas. Hezbollah no Líbano, Hamas na Palestina, os Houthis no Iêmen e o grupo Estado Islâmico (ISIS) em partes da Síria e do Iraque são exemplos claros disso. Não se limitam a usar a força: fornecem serviços, impõem regras, disputam legitimidade e mantêm redes transnacionais com apoio – direto ou indireto – de países como Irã, Israel, Turquia e Arábia Saudita (BYMAN, 2011). A Síria talvez seja o exemplo mais claro da complexidade dos conflitos atuais no Oriente Médio. O que começou como um levante popular contra o regime de Bashar al-Assad logo se transformou em uma guerra multilateral e altamente internacionalizada. De um lado, o Governo sírio com apoio firme de Rússia e Irã; de outro, uma infinidade de grupos rebeldes, cada um com sua própria agenda, além de jihadistas ligados à Al-Qaeda e ao ISIS – todos disputando território, poder e recursos. Estados Unidos, Israel e Turquia também se envolveram, direta ou indiretamente, apoiando aliados locais e transformando a Síria em um 64 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellector.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 campo de testes para “guerras por procuração” (PHILLIPS, 2016), onde grandes potências projetam influência usando forças intermediárias. Mas esse padrão não se limita à Síria. Iêmen e Líbia também mostram o colapso do Estado Central e o surgimento de áreas controladas por facções armadas, clãs tribais ou lideranças locais. Em muitos desses lugares, o Estado deixou de ser a principal – ou até mesmo uma – fonte de autoridade. O que se vê é o avanço do que alguns chamam de “geopolítica da desordem” (FILIU, 2014): um cenário onde a falta de instituições sólidas e consensos regionais abre espaço para zonas de soberania indefinida, proliferação de armas e presença constante de atores violentos e transnacionais. Esse cenário de fragmentação vai muito além da instabilidade regional. Suas consequências se espalham pelo mundo, com impactos humanitários e de segurança cada vez mais difíceis de controlar. Crises de refugiados em escala massiva, colapsos em sistemas de saúde e educação em zonas de guerra, a disseminação de ideologias extremistas e o risco de proliferação de armas químicas ou biológicas transformam os conflitos do Oriente Médio em desafios que ultrapassam fronteiras. O que acontece em Damasco, Trípoli ou Sanaa não fica restrito a esses locais – seus efeitos atingem a Europa, as sedes da ONU e os centros de decisões das grandes potências. Estamos diante de um cenário marcado não só pela violência, mas por uma transformação profunda na noção de autoridade e soberania. Um contexto em que o Estado, tal como definido no modelo westfaliano, está em crise – substituído por redes armadas, alianças frágeis e estruturas paralelas de poder. O Oriente Médio como Novo Heartland? Reinterpretação Funcional de um Conceito Clássico A crescente centralidade do Oriente Médio no cenário internacional de hoje levanta uma provocação teórica interessante: será que dá para reinterpretar o conceito de Heartland, criado por Halford Mackinder no começo do século XX, à luz das dinâmicas estratégicas atuais da religião? Na época, Mackinder estava focado no controle do interior da Eurásia – uma vasta área continental cercada por barreiras naturais, longe do alcance das potências marítimas –, mas o contexto atual pede uma visão menos baseada em geografia fixa e mais centrada na funcionalidade geopolítica. O Oriente Médio, mesmo sem coincidir com o Heartland tradicional, tem assumido um papel semelhante: tornou-se um eixo que articula fluxos estratégicos, com acesso limitado e alvo de disputas entre potências rivais. A ideia não é substituir o conceito original, mas atualizá-lo levando em conta as novas tecnologias, as interdependências globais e a redistribuição do poder no mundo. Elementos de Convergência com a Teoria Clássica: Geografia, Energia e Projeção de Poder Alguma semelhança entre a teoria de Mackinder e o cenário atual do Oriente Médio permite traçar paralelos sólidos, reforçando a ideia de que a região pode ser vista como um Heartland funcional no século XXI. O primeiro ponto de contato está na localização estratégica. Situado no cruzamento entre Europa, Ásia e África, o Oriente Médio é hoje um dos principais nós de circulação internacional. Seus corredores estratégicos – como o Canal de Suez, os estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb, os portos do Golfo e as rotas logísticas ligadas à BRI – fazem da região uma ponte natural entre zonas econômicas, áreas de conflito e grandes mercados. Assim como o Heartland clássico articulava o “interior do mundo” a partir da geografia 65 Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 www.revistaintellector.org.br Ano XXI | Volume XXII | Nº 44 | Julho/Dezembro 2025 | Rio de Janeiro | ISSN 1807-1260 física, o Oriente Médio conecta, hoje, o “centro funcional” do planeta em termos de energia, comércio e poder geopolítico (KLARE, 2008; ROLLAND, 2017). Em segundo lugar, o controle de recursos vitais reforça ainda mais essa comparação. Com cerca de 48% das reservas comprovadas de petróleo e 38% das de gás natural, o Oriente Médio concentra um ativo de poder que vai além da força militar. Na prática, isso configura um tipo de “poder estrutural”: a capacidade de influenciar o comportamento de outros por meio do controle da produção e da estabilidade dos mercados (BP, 2023; Yergin, 2024). Essa lógica se alinha à ideia de Mackinder de que a supremacia geopolítica não vem só da força bruta, mas também do domínio sobre infraestruturas que sustentam o sistema global. O terceiro ponto de ligação está no potencial de controle territorial e na projeção de influência a partir de posições estratégicas. Países como Irã, Turquia, Iraque e Síria atuam, cada um a seu modo, como zonas de transição entre grandes blocos geopolíticos. Controlar ou influenciar esses espaços significa ter acesso a rotas comerciais, zonas-tampão e fronteiras sensíveis. Na própria revisão de sua teoria, em 1943, Mackinder reconheceu que o valor estratégico de regiões periféricos da Eurásia – como o Oriente Médio – vinha justamente dessa capacidade de conectar áreas de poder em disputa (MACKINDER, 1943). Essas três dimensões – interconectividade geográfica, centralidade energética e projeção territorial – mostram que o Oriente Médio é muito mais do que uma zona marcada por conflitos constantes: ele pode ser visto como um verdadeiro pivô geoestratégico do século XXI. A diferença em relação ao Heartland original está na forma de controle – que antes era direto e físico, e hoje se dá por meio de alianças flexíveis, presença militar seletiva, redes logísticas e disputas tecnológicas. Pensar o Oriente Médio como um “novo Heartland” não significa adotar literalmente o modelo de Mackinder, mas sim reinventá-lo. É reconhecer que a centralidade geopolítica contemporânea não se apoia mais só em territórios massivos e isolados, e sim em regiões que, como o Oriente Médio, são funcionais e decisivas para o equilíbrio do sistema internacional. Limites da Transposição Conceitual: Vulnerabilidades Estratégicas e Fragmentação Sistêmica Apesar das semelhanças estruturais com a teoria de Mackinder, enxergar o Oriente Médio como “novo Heartland” exige cautela – tanto teórica quanto analítica. Aplicar diretamente o conceito original, criado pelo estudioso no início do século XX, esbarra em mudanças profundas no modo como o poder global se produz e nos próprios fundamentos da Geopolítica contemporânea. A primeira limitação é empírica. O Heartland clássico foi pensado como uma área de difícil acesso – uma espécie de fortaleza continental, cercada por barreiras naturais, que favorecia potências terrestres frente às marítimas. Na sua versão original, Mackinder via no isolamento do interior da Eurásia uma proteção contra invasões navais e, por isso, uma base segura para a construção de hegemonias duradouras (MACKINDER, 1904). O Oriente Médio, por outro lado, está em uma condição bem diferente: longe de ser impenetrável, é uma das regiões mais acessadas militarmente no mundo. A presença constante de bases dos Estados Unidos, Reino Unido, França e OTAN, somada a operações navais e aéreas frequentes no Golfo Pérsico, mostra o quanto a região está exposta (BARNETT, 2012; O’SULLIVAN, 2013). Essa vulnerabilidade vai justamente contra um dos pilares do conceito original: a ideia de inacessibilidade estratégica. Um segundo limite tem a ver com a transformação radical no campo das relações internacionais. A Teoria do Heartland foi criada em um tempo anterior à aviação de longo alcance, aos satélites, à internet, à guerra cibernética e à globalização financeira. No século XXI, a centralidade de um território não depende