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Impactos na agricultura brasileira utilizando diferentes cenários de demanda doméstica de etanol

Costa, Wanderson Santos,Ruivo, Heloísa Musetti,Soterroni, Aline Cristina,Ramos, Fernando Manuel,Pompermayer, Fabiano Mezadre

Abstract

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Costa, Wanderson Santos; Ruivo, Heloísa Musetti; Soterroni, Aline Cristina; Ramos, Fernando Manuel; Pompermayer, Fabiano Mezadre Working Paper Impactos na agricultura brasileira utilizando diferentes cenários de demanda doméstica de etanol Texto para Discussão, No. 3140 Provided in Cooperation with: Institute of Applied Economic Research (ipea), Brasília Suggested Citation: Costa, Wanderson Santos; Ruivo, Heloísa Musetti; Soterroni, Aline Cristina; Ramos, Fernando Manuel; Pompermayer, Fabiano Mezadre (2025) : Impactos na agricultura brasileira utilizando diferentes cenários de demanda doméstica de etanol, Texto para Discussão, No. 3140, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Brasília, https://doi.org/10.38116/td3140-port This Version is available at: https://hdl.handle.net/10419/331448 Standard-Nutzungsbedingungen: Die Dokumente auf EconStor dürfen zu eigenen wissenschaftlichen Zwecken und zum Privatgebrauch gespeichert und kopiert werden. 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Este trabalho foi produzido no âmbito do Termo de Execução Descentralizada acordado entre a Secretaria de Desenvolvimento da Infraestrutura do Ministério da Economia e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (TED/SDI/Ipea no 01/2019), vigente entre 2019 e 2022. A frente de trabalho em que este Texto para Discussão se insere foi coordenada por Edison Benedito da Silva Filho e Fabiano Mezadre Pompermayer. 2. Bolsista do Subprograma de Pesquisa para o Desenvolvimento Nacional (PNPD) na Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Diset/Ipea). 3. Bolsista do PNPD na Diset/Ipea. 4. Bolsista do PNPD na Diset/Ipea. 5. Bolsista do PNPD na Diset/Ipea. 6. Técnico de planejamento e pesquisa na Diset/Ipea. Texto para Discussão Publicação seriada que divulga resultados de estudos e pesquisas em desenvolvimento pelo Ipea com o objetivo de fomentar o debate e oferecer subsídios à formulação e avaliação de políticas públicas. © Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – ipea 2025 Impactos na agricultura brasileira utilizando diferentes cenários de demanda doméstica de etanol / Wanderson Santos Costa ... [et al.]. – Rio de Janeiro: Ipea, 2025. 26 p.: il., gráfs., mapas. – (Texto para Discussão ; n. 3140). Inclui Bibliografia. ISSN 1415-4765 1. Modelo de Uso do Solo. 2. Biocombustíveis. I. Costa, Wanderson Santos. II. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. CDD 338.10981 Ficha catalográfica elaborada por Elizabeth Ferreira da Silva CRB-7/6844. Como citar: COSTA, Wanderson Santos et al. Impactos na agricultura brasileira utilizando diferentes cenários de demanda doméstica de etanol. Rio de Janeiro: Ipea, ago. 2025. 26 p.: il. (Texto para Discussão, n. 3140). DOI: https://dx.doi.org/10.38116/td3140-port JEL: R11; R12; Q1; Q16. As publicações do Ipea estão disponíveis para download gratuito nos formatos PDF (todas) e EPUB (livros e periódicos). Acesse: https://repositorio.ipea.gov.br/. As opiniões emitidas nesta publicação são de exclusiva e inteira responsabilidade dos autores, não exprimindo, necessariamente, o ponto de vista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ou do Ministério do Planejamento e Orçamento. É permitida a reprodução deste texto e dos dados nele contidos, desde que citada a fonte. Reproduções para fins comerciais são proibidas. Governo Federal Ministério do Planejamento e Orçamento Ministra Simone Nassar Tebet Fundação pública vinculada ao Ministério do Planejamento e Orçamento, o Ipea fornece suporte técnico e institucional às ações governamentais – possibilitando a formulação de inúmeras políticas públicas e programas de desenvolvimento brasileiros – e disponibiliza, para a sociedade, pesquisas e estudos realizados por seus técnicos. Presidenta LUCIANA MENDES SANTOS SERVO Diretor de Desenvolvimento Institucional FERNANDO GAIGER SILVEIRA Diretora de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia LUSENI MARIA CORDEIRO DE AQUINO Diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas CLÁUDIO ROBERTO AMITRANO Diretor de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais ARISTIDES MONTEIRO NETO Diretor de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura PEDRO CARVALHO DE MIRANDA Diretora de Estudos e Políticas Sociais LETÍCIA BARTHOLO DE OLIVEIRA E SILVA Diretora de Estudos Internacionais KEITI DA ROCHA GOMES Chefe de Gabinete ALEXANDRE DOS SANTOS CUNHA Coordenadora-Geral de Imprensa e Comunicação Social GISELE AMARAL DE SOUZA Ouvidoria: https://www.ipea.gov.br/ouvidoria URL: https://www.ipea.gov.br SUMÁRIO SINOPSE ABSTRACT 1 INTRODUÇÃO ...........................................................................7 2 O MODELO GLOBIOM-BRASIL ...............................................10 3 COMPARAÇÃO ENTRE DIFERENTES CENÁRIOS DE DEMANDA DOMÉSTICA DE ETANOL NO BRASIL ................12 4 IMPACTOS DO CENÁRIO DE DEMANDA DE ETANOL ZERO NO USO DA TERRA ...................................................... 13 4.1 Tendência de área e produção de cana-de-açúcar entre os cenários ................................................................................18 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................24 REFERÊNCIAS ............................................................................25 SINOPSE Este trabalho avalia os efeitos sobre o uso da terra nas atividades de agricultura, pecuária e florestal quanto a um cenário hipotético de redução a zero da demanda doméstica brasileira por etanol combustível. Para tanto, utiliza-se o modelo Globiom-Brasil, que simula a decisão dos produtores sobre que atividade desenvolver considerando custos de insumos, preços de venda dos produtos, produtividade da terra e custos de comercialização e transportes, em um equilíbrio espacial de preços com trinta regiões de produção e consumo distribuídas pelo mundo, com detalhamento espacial do Brasil em células de cerca de 50 km por 50 km. Os cenários levam em consideração o controle do desmatamento ilegal, impactos das mudanças climáticas sobre as principais culturas agrícolas e projeções de demanda alinhadas com a narrativa socioeconômica SSP2. Eles diferem apenas quanto à demanda doméstica por etanol combustível: no cenário Linha de Base a demanda cresce conforme a tendência histórica até 2030, mantendo-se constante a partir daí até 2050, ano final da projeção; o cenário Etanol Zero mantém a tendência histórica até 2025, quando começa a decrescer monotonicamente até zerar em 2050. Os resultados indicam que a área de cana-de-açúcar no cenário Etanol Zero sofreria uma perda de 8,68 milhões de hectares (Mha) em 2050, comparado ao Linha de Base. Dessa área, 2,02 Mha seriam destinados a outras culturas agrícolas, 2,58 Mha para pecuária, 0,82 Mha para vegetação nativa e 3,20 Mha para áreas não produtivas. O retorno econômico agregado dos produtores seria reduzido em quase todos os anos da projeção, com a perda de rendimento da cana-de-açúcar não sendo compensada pelo ganho de rendimento nas outras atividades modeladas. Entretanto, o retorno das outras atividades seria maior que a perda provocada pela menor produção de cana-de-açúcar em 2050. Palavras-chave: modelo de uso do solo; biocombustíveis. ABSTRACT This work evaluates the effects on land use in agricultural and forestry activities in terms of a hypothetical scenario of reducing Brazilian domestic demand for fuel ethanol to zero. For this purpose, we use the Globiom-Brazil model, which simulates the producers’ decision on which activity to develop considering input costs, product sales prices, land productivity, and marketing and transport costs, in a spatial price equilibrium model with 30 regions distributed around the world, with spatial detailing of Brazil in cells of about 50 x 50 km. The scenarios take into account the illegal deforestation control, climate change impacts on the main crops, and demand projections aligned with the socioeconomic narrative SSP2. The scenarios differ only in terms of domestic demand for fuel ethanol: in the Baseline scenario, demand grows according to the historical trends until 2030, remaining constant from then until 2050, the final year of the projection; the Zero Ethanol scenario maintains the historical trends until 2025 when it starts to decrease monotonically until reaching zero in 2050. The results indicate that the sugarcane area in the Zero Ethanol scenario would suffer a loss of 8.68 Mha in 2050 compared to Baseline. Within this area, 2.02 Mha would be allocated to other crops, 2.58 Mha to livestock, 0.82 Mha to native vegetation, and 3.20 Mha to non-productive areas. The producers’ aggregate economic return would be reduced in almost all years of the projection, with the loss of income from sugarcane not being compensated by the profits in the other modelled activities. However, the return on other activities would be greater than the loss caused by lower sugarcane production by 2050. Keywords: land use model; biofuels. TEXTO para DISCUSSÃO 7 3140 1 INTRODUÇÃO O Brasil é o único país do mundo com uso intensivo de etanol como combustível para automóveis. Seu uso em escala nacional teve início com o Programa Nacional do Álcool (Proálcool) das décadas de 1970 e 1980, em que veículos movidos a gasolina foram adaptados para utilizar o combustível renovável da cana-de-açúcar. Com a redução dos preços internacionais de petróleo na década de 1990, o etanol deixa de ser competitivo em relação à gasolina, levando a uma forte redução dos veículos fabricados com motores calibrados para consumir etanol. Parte desse efeito também foi devido à introdução, nessa época, da injeção eletrônica nos carros nacionais – tecnologia importada das fabricantes multinacionais, ainda não adaptada para o etanol. Nos anos 2000, os preços de combustíveis derivados de petróleo voltam a subir, mas os automóveis a etanol ainda não eram atrativos ao consumidor, provavelmente por receio da falta de oferta do combustível e da maior dificuldade de revenda do veículo em comparação ao movido a gasolina. No entanto, a busca por energias renováveis estava crescendo. Uma descoberta relativamente simples permitiu adaptar os sistemas de injeção de combustível em motores a combustão do ciclo Otto (como aqueles a gasolina e a etanol) para utilizar tanto gasolina como etanol, em qualquer proporção de mistura, gerando os chamados motores flex fuel, ou bicombustíveis. Ao fim da década de 2000 quase todos os automóveis fabricados no Brasil passaram a adotar os motores bicombustíveis. Em outros países também se passou a adotar tal tecnologia, com algum fomento ao uso do etanol, como o E85 (mistura de 85% de etanol com 15% de gasolina) disponível nos Estados Unidos e na Europa. Contudo, a oferta de etanol nesses países é bastante reduzida. Mesmo no Brasil, o mercado de etanol é bem menor que o da gasolina. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a participação do etanol hidratado no consumo total de combustíveis do ciclo Otto ficou entre 17% e 30% no período 2011-2021 (tabela 1). Vale ressaltar também o uso do etanol em mistura com a gasolina no Brasil. Na tabela 1 são apresentadas as quantidades de etanol anidro, usado na mistura com a gasolina A (produzida nas refinarias) para formar a gasolina C, utilizada nos automóveis brasileiros. Apesar de a tecnologia dos motores bicombustíveis estar dominada, a indústria automobilística passa por uma rediscussão do padrão a ser adotado no futuro, na busca por veículos que sejam menos poluentes e emitam menos gases de efeito estufa. Com isso, discute-se a substituição dos motores a combustão interna (como aqueles a gasolina, etanol e óleo diesel). Das três tecnologias mais consideradas – veículos híbridos, veículos elétricos e veículos a célula de hidrogênio – apenas a primeira ainda TEXTO para DISCUSSÃO 8 3140 usaria motores a combustão interna, o que permitiria o uso do etanol nos veículos, mas em geral ela é vista como uma tecnologia de transição. Os veículos a combustão de biocombustíveis até foram considerados, mas aparentemente deixados de lado pela possível competição por terra para a produção de alimentos que uma produção de biocombustíveis em larga escala, para atender à demanda mundial equivalente por combustíveis fósseis, provocaria.1 A utilização dessa tecnologia na transição energética para uma economia de baixo carbono tem sido considerada apenas como temporária. TABELA 1 Demanda do ciclo Otto e participação dos diferentes combustíveis Ano Gasolina A Anidro Hidratado Total Gasolina A Anidro Hidratado Milhões de m³ de gasolina equivalente % 2011 27,1 8,4 8,6 44,0 61 19 19 2012 31,8 7,8 7,9 47,4 67 16 17 2013 31,7 9,7 9,2 50,6 63 19 18 2014 33,4 11,0 9,8 54,1 62 20 18 2015 30,2 10,9 13,2 54,3 56 20 24 2016 31,4 11,1 10,9 53,4 59 21 20 2017 32,2 12,1 10,2 54,5 59 22 19 2018 28,0 10,2 14,1 52,3 54 20 27 2019 27,9 10,6 16,3 54,7 51 19 30 2020 26,2 9,8 13,9 49,8 52 20 28 2021 28,7 11,0 12,3 52,0 55 21 24 Fonte: EPE (2022). Obs.: O etanol anidro é usado na mistura com a gasolina A para formar a gasolina C, que é disponibilizada aos consumidores nos postos de combustível. Os volumes apresentados foram convertidos para o volume equivalente de gasolina A, conforme o poder calorífico de cada combustível. Assim, considerando que a decisão pela tecnologia dominante nos veículos automotores deve ser capitaneada pela indústria automobilística e pelos países com grandes mercados de automóveis (por exemplo, Estados Unidos, China e Europa), e que 1. Estudos que abordam a possível competição por terra para produção de alimentos versus para biocombustíveis apontam, em geral, a ausência de evidências significativas dessa competição (Ajanovic, 2011; Cobuloglu e Büyüktahtakın, 2015; Weng et al., 2019). Vale ressaltar, entretanto, que muitos desses estudos consideram apenas a situação atual, em que o volume de biocombustíveis é uma pequena fração do consumo de combustíveis líquidos. Ainda que sem analisar quantitativamente cenários de maior substituição dos combustíveis fósseis por biocombustíveis, é recorrente o alerta para a provável insustentabilidade desse cenário. Ajanovic (2011, p. 2070), por exemplo, chega a afirmar que “mesmo que todas as lavouras, florestas e pastagens atualmente não utilizadas fossem usadas para a produção de biocombustíveis, seria impossível substituir todos os combustíveis fósseis usados hoje nos transportes”. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 15 3140 As mudanças das principais classes de uso da terra nos cenários Linha de Base e Etanol Zero durante o período 2025-2050 estão ilustradas no gráfico 2. As variações mais significativas ao comparar os dois cenários ocorreram nas classes áreas não produtivas, pastagem e agricultura. Conforme ilustrado na figura 2, a área da classe agricultura no cenário Etanol Zero é reduzida em 6,67 milhões de hectares (Mha) em 2050, comparado ao cenário Linha de Base. Esta redução é distribuída pelo modelo nas classes áreas não produtivas (+3,2 Mha), pastagem (+2,58 Mha) e vegetação nativa (+0,82 Mha). O aumento das áreas não produtivas pode caracterizar abandono de produção relativo ao cenário Linha de Base. Embora esse abandono possa resultar em regeneração passiva, essa hipótese é descartada na modelagem porque os ganhos ecológicos desse tipo de restauração são incertos (Brancalion et al., 2016). Além disso, diferentemente de áreas destinadas para a restauração de ecossistemas, como as APPs e RL definidas pelo Código Florestal, as áreas não produtivas não são restringidas para conversão e podem se tornar produtivas novamente em qualquer momento da simulação. Cabe mencionar, ainda, que as áreas destinadas à produção de cana-de-açúcar em 2050, segundo o modelo, não seriam as usadas atualmente. As produtivas áreas do interior do estado de São Paulo reduziriam a produção de cana para produzir soja e milho no cenário base, enquanto a produção de cana migraria para o norte e o oeste. A migração para áreas não produtivas se daria nessas regiões, de menor produtividade e/ou maior custo de escoamento da produção, e também menos aptas para outras culturas. GRÁFICO 2 Trajetórias de uso da terra das principais classes do Globiom-Brasil nos cenários Linha de Base e Etanol Zero (2025-2050) 2A – Linha de Base 2B – Etanol Zero Elaboração dos autores. TEXTO para DISCUSSÃO 16 3140 FIGURA 2 Principais variações nas classes de uso da terra no cenário Etanol Zero, comparado ao cenário Linha de Base (2050) Elaboração dos autores. A figura 3 representa a distribuição espacial da diferença das principais classes de uso da terra entre os cenários Etanol Zero e Linha de Base em 2050. As maiores perdas de área de agricultura no cenário Etanol Zero (figura 3A) estão concentradas em São Paulo, Goiás e Minas Gerais, os maiores estados produtores sucroalcooleiros do Brasil. Em contrapartida, a diferença entre os cenários projeta um ganho de área da classe áreas não produtivas nestes três estados (figura 3B), o que reforça a hipótese de abandono de produção. Chama a atenção o aumento considerável dessas áreas não produtivas no extremo oeste de São Paulo, indicando que, mesmo com solo fértil, o custo de transição para outras culturas, somado aos demais custos de produção e escoamento nesses locais, levaria à inviabilidade da produção agrícola em parte dessas áreas. Para a classe pastagem, projetaram-se perdas e ganhos distribuídos por todo o território nacional, com uma pequena concentração de ganho de área na região noroeste do estado de São Paulo (figura 3C). Por sua vez, a classe vegetação nativa apresenta diferenças pontuais de área nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste (figura 3D). TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 17 3140 FIGURA 3 Diferença da área das classes agricultura, áreas não produtivas, pastagem e vegetação nativa entre os cenários Etanol Zero e Linha de Base (2050) (Em 1 mil hectares) 3A – Agricultura 3B – Áreas não produtivas 3C – Pastagem 3D – Vegetação nativa Elaboração dos autores. TEXTO para DISCUSSÃO 18 3140 Se observarmos a distribuição da área da classe agricultura para as dezoito culturas entre os dois cenários (figura 4), a área de cana-de-açúcar no cenário Etanol Zero sofreu uma perda de 8,68 Mha em 2050 devido à queda da demanda interna de etanol, comparado ao Linha de Base. As projeções indicam aumento de 1,49 Mha da área conjunta de soja e milho no mesmo período. As outras quinze culturas agrícolas tiveram pequenos acréscimos de área no cenário Etanol Zero em 2050, totalizando 0,53 Mha. FIGURA 4 Variações de área das culturas agrícolas na classe agricultura no cenário Etanol Zero, comparado ao cenário Linha de Base (2050) Elaboração dos autores. 4.1 Tendência de área e produção de cana-de-açúcar entre os cenários As projeções de área de cana-de-açúcar nos cenários Linha de Base e Etanol Zero em 2050 estão ilustradas na figura 5. Em ambos os cenários, as áreas de cultivo estão concentradas na região central do Brasil (São Paulo, Goiás e Minas Gerais). O modelo indica uma redução na área de 8,68 Mha, e na produção de 4 milhões de toneladas (Mt) da cultura em 2050 no cenário Etanol Zero (gráfico 3). Ao longo do tempo, entretanto, as projeções indicam uma estagnação, e leve redução, da produção de cana no cenário Etanol Zero, que contrasta com o crescimento constante do cenário base. Entre estes 8,68 Mha reduzidos no cenário Etanol Zero em relação ao Linha de Base, observa-se uma perda de 3,33 Mha no estado de São Paulo, 1,91 Mha em Goiás e 1,44 Mha em TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 19 3140 Minas Gerais. A distribuição espacial da diferença entre os dois cenários por todo o território nacional pode ser visualizada na figura 6. Como são áreas de relativamente mais alta fertilidade, é natural que sejam ocupadas por outras culturas agrícolas, deslocando as demais culturas para essas regiões liberadas pela cana-de-açúcar, com consequente redução da área de agricultura nas regiões menos produtivas. FIGURA 5 Área de cana-de-açúcar projetada nos cenários Linha de Base e Etanol Zero (2050) (Em 1 mil hectares) 5A – Cenário Linha de Base 5B – Cenário Etanol Zero Elaboração dos autores. Obs.: Zoom das áreas na região central do Brasil. TEXTO para DISCUSSÃO 20 3140 GRÁFICO 3 Evolução da área e produção de cana-de-açúcar nos cenários Linha de Base e Etanol Zero 3A – Área (Mha) 3B – Produção (Mt) Elaboração dos autores. FIGURA 6 Diferença da área de cana-de-açúcar entre os cenários Etanol Zero e Linha de Base (2050) (Em 1 mil hectares) Elaboração dos autores. TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 21 3140 Observando a evolução projetada da área e da produção de cana-de-açúcar para 2050, há uma redução de cerca de 31% na área e 32% na produção da cultura no cenário Etanol Zero (tabelas 3 e 4). Os resultados indicam uma redução de área de 46% e de 18% na produção para as regiões Sudeste e Centro-Oeste, respectivamente. A produção é reduzida em torno de 43% e 18% nestas duas regiões. TABELA 3 Valores projetados da área de cana-de-açúcar para o Brasil e por região nos dois cenários analisados (2050) (Em Mha) Cenário Brasil Sudeste Centro-Oeste Nordeste Sul Norte Linha de Base 28,06 10,36 14,22 3,07 0,36 0,05 Etanol Zero 19,38 5,60 11,71 1,73 0,32 0,02 Elaboração dos autores. TABELA 4 Valores projetados da produção de cana-de-açúcar para o Brasil e por região nos dois cenários analisados (2050) (Em Mt) Cenário Brasil Sudeste Centro-Oeste Nordeste Sul Norte Linha de Base 1356,71 599,79 611,29 131,71 12,09 1,82 Etanol Zero 916,76 339,28 499,25 66,48 10,84 0,91 Elaboração dos autores. Os valores projetados pelo Globiom-Brasil referem-se à cana-de-açúcar equivalente, que é transformada em açúcar e etanol. Todavia, vale ressaltar que, para o modelo, todo o etanol produzido no Brasil é consumido internamente. Tendo em vista tais considerações, o modelo projeta um aumento de 13,3% nas exportações de açúcar no cenário Etanol Zero em 2050, correspondendo a um crescimento de 9 Mt de açúcar, se comparado com o Linha de Base. O gráfico 4 exibe a evolução da exportação de açúcar durante 2025-2050 nos dois cenários analisados. As projeções para 2030 em ambos os cenários estão dentro do intervalo projetado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), em vermelho no gráfico (Brasil, 2021). No cenário Linha de Base, as exportações de açúcar no Brasil aumentarão em 87,6% de 2025 a 2050, enquanto esta porcentagem aumenta para 112,6% no cenário Etanol Zero para o mesmo período. TEXTO para DISCUSSÃO 22 3140 GRÁFICO 4 Evolução da exportação de açúcar para os cenários Linha de Base e Etanol Zero (Em Mt) 4A – Linha de Base 4B – Etanol Zero Elaboração dos autores. Obs.: As estimativas de exportação do Mapa para os limites superior, inferior e valor projetado para 2030 estão destacadas em vermelho. Além do efeito de aumento na produção e exportação de açúcar, a menor área destinada à cana-de-açúcar leva a uma maior produção de outras culturas, em especial soja e milho, assim como algum efeito sobre a produção de bovinos. A tabela 5 apresenta as quantidades produzidas das três principais culturas temporárias no país – cana-de-açúcar, soja e milho – em cada um dos cenários. TABELA 5 Quantidade produzida de cana-de-açúcar, soja e milho simulada pelo Globiom-Brasil em cada cenário (Em Mt/ano) Cenário Linha de Base Etanol Zero Ano Soja Milho Cana Soja Milho Cana 2000 32 32 295 32 32 295 2005 53 39 419 53 39 419 2010 82 54 610 82 54 610 2015 103 67 712 103 67 712 2020 122 87 838 122 87 838 2025 136 100 982 136 100 982 (Continua) TEXTO para DISCUSSÃO TEXTO para DISCUSSÃO 23 3140 (Continuação) Cenário Linha de Base Etanol Zero Ano Soja Milho Cana Soja Milho Cana 2030 156 129 1.149 157 129 952 2035 164 135 1.183 166 135 898 2040 179 149 1.254 182 151 859 2045 188 170 1.283 194 172 818 2050 198 198 1.357 203 205 917 Elaboração dos autores. Com base no Censo Agropecuário de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foram estimadas as margens médias das culturas de cana-de-açúcar, soja e milho em São Paulo, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, estados mais afetados nos cenários simulados. Os resultados foram de 42% para soja, 60% para milho e 15% para cana-de-açúcar. Para a estimativa dessas margens foram consideradas todas as despesas, com exceção do item arrendamento de terras, pois nem todos os produtores têm esse tipo de custo, alguns usam terras próprias, assim como para emular a remuneração do fator terra nessas atividades. Para a produção bovina, adotou-se a margem média estimada para pecuária como um todo nesses estados, em 28%. A partir dessas margens e tomando os rendimentos médios desses produtos entre 2018 e 2021 com base na Produção Agrícola Municipal do IBGE (PAM/IBGE) de 2023,7 simularam-se as perdas e ganhos de margens entre os dois cenários. Apesar de a redução da quantidade produzida de cana-de-açúcar no cenário Etanol Zero em relação ao Linha de Base ser bem mais pronunciada que o aumento de produção nas demais atividades, suas maiores margens compensam em parte a perda de retorno da atividade agropecuária do Brasil no cenário Etanol Zero. Na simulação para 2050 haveria inclusive maior retorno no cenário Etanol Zero que no Linha de Base. Isso deve ocorrer pela maior demanda por alimentos nos anos finais da projeção, assim como por menor produção desses produtos nos demais países simulados pelo Globiom-Brasil. O gráfico 5 ilustra como devem ocorrer as variações das margens entre os dois cenários. Nos anos iniciais, a perda de produção de cana-de-açúcar é preponderante. A produção das demais atividades modeladas vai crescendo lentamente a partir de 2030, devido à crescente demanda mundial por alimentos. A partir de 2045, a diferença na produção de cana-de-açúcar entre os cenários começa a reduzir, em virtude da maior exportação de açúcar brasileiro, a ponto de a margem agregada dessas atividades 7. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/pesquisa/pam/tabelas. TEXTO para DISCUSSÃO 24 3140 tornar-se maior no cenário Etanol Zero a partir de 2047. De qualquer forma, no horizonte de 2025 a 2050, o cenário Etanol Zero levaria a uma redução da margem agregada em torno de R$ 27 bilhões nessas atividades agropecuárias. Não foram feitas simulações sobre o efeito nos demais setores da economia, como produção de petróleo e derivados, insumos agropecuários etc., para os quais outras modelagens devem ser adotadas, como modelos de equilíbrio geral computável. Também não se consideraram diferenças nos preços de equilíbrio dessas commodities entre os cenários. GRÁFICO 5 Projeção do impacto diferencial nas margens de soja, milho, cana-de-açúcar e carne bovina: cenário Etanol Zero menos Linha de Base (Em R$ milhões/ano) Elaboração dos autores. Obs.: Valores interpolados para os anos intermediários entre os anos simulados no Globiom-Brasil. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo avaliou o efeito que um cenário hipotético de redução da demanda interna por etanol combustível traria sobre o uso da terra e a produção agropecuária brasileira. Por meio do modelo Globiom-Brasil, foram simuladas as escolhas dos produtores em relação à alocação de suas terras, considerando um cenário base, que assume uma demanda interna por etanol combustível crescente até 2030 e constante a partir daí, e um cenário alternativo, chamado de Etanol Zero, no qual essa demanda é reduzida a partir de 2025 até zerar em 2050.