Dificuldades de aquisição do género em alemão L2: um estudo experimental
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151 DificulDaDes De aquisição Do género em alemão l2. um estuDo experimental Cristina Flores, Joana Matos, Telma Moreira & Duarte Oliveira1 Universidade do Minho 1. Introdução Nos últimos trinta anos, a aprendizagem do alemão como língua não nativa (doravante L2) tem percorrido altos e baixos em Portugal. Enquanto nos anos noventa ainda era, no ensino básico e secundário, uma segunda língua estrangeira frequentemente escolhida, embora em número bastante inferior ao francês, o interesse pela aprendizagem do alemão em contexto escolar foi decrescendo aceleradamente até ao final da última década. Os motivos deste decréscimo são variados e não importa aqui debatêlos (para uma discussão deste tema, veja a publicação de Grossegesse & Koller 2006). A redução drástica de alunos do ensino básico e secundário com conhecimento de alemão teve consequências profundas no ensino superior, onde as tradicionais licenciaturas de filologia alemã tiveram de se adaptar à nova realidade de os estudantes iniciarem a aprendizagem do alemão na universidade. A crise económica da última década, coincidente com políticas de austeridade, aumento de desemprego e necessidades de emigração, voltou a aumentar o interesse pela língua alemã, desta vez por razões predominantemente económicas e em contextos profissionais mais amplos. Atualmente, a aprendizagem do alemão no ensino básico e secundário é apoiado pelo projeto de ‘escolas piloto’ do Goethe Institut2, e 1 O presente trabalho foi desenvolvido no âmbito da UC de Metodologias de investigação em linguística do Mestrado em Estudos Luso-Alemães da Universidade do Minho. 2 http://www.lissabon.diplo.de/Vertretung/lissabon/pt/06/03__Weshalb__ Deutsch__lernen/pilotschule-protokoll.html
152 CRISTINA FLORES, JOANA MATOS, TELMA MOREIRA & DUARTE OLIVEIRA tem crescido sobretudo em escolas particulares, registando perto de 10.000 alunos (Riedel & Abrantes 2017), número bastante reduzido em comparação com as outras línguas estrangeiras como o inglês, o francês e o espanhol. No ensino superior e nos cursos de alemão oferecidos por centros de línguas, o interesse pela aprendizagem desta língua é muito elevado, embora, na maioria dos casos, se restrinja a dois ou três anos de aprendizagem da língua (não passando, por isso, além do nível B1). O presente trabalho foca, precisamente, a competência linguística a alemão de um grupo de estudantes do ensino superior, que, em média, estuda esta língua há dois anos e meio. O principal objetivo consiste em descrever o conhecimento que os falantes desenvolveram da categoria gramatical ‘género’, um domínio do alemão conhecido como sendo de difícil aquisição e foco de vulnerabilidade linguística mesmo em estados avançados de aquisição. Em concreto, pretende-se, através da aplicação de três instrumentos de recolha de dados, analisar o conhecimento dos três géneros do alemão, avaliar o grau de transferência da língua primeira (L1), a correlação entre o conhecimento do género e o conhecimento lexical dos falantes e, ainda, o seu grau de contacto com a língua alemã. 2. Género 2.1. A categoria ‘género’ em alemão Em alemão existem três géneros gramaticais: masculino, feminino e neutro. Dado o conceito da arbitrariedade do signo linguístico, o género da grande maioria dos nomes não depende de uma semântica naturalística e biológica: o facto de a palavra mesa ser feminina em português e masculina em alemão (der Tisch) não tem nenhuma relação direta com o conceito que estas combinações de sons definem.
153 DIFICULDADES DE AQUISIÇÃO DO GÉNERO EM ALEMÃO L2. UM ESTUDO… De acordo com estimativas de corpora, a maioria dos substantivos alemães tem género masculino (ca.50%), seguindo-se o feminino (30%), sendo o neutro o género menos frequente (20%) (cf. Bauch 1971, apud Stöhr et al. 2012). A característica a destacar na atribuição do género em alemão é a ausência de marcas gramaticais indicativas do género no substantivo. A marcação do género ocorre apenas no singular e, não no substantivo, mas em elementos que o acompanham, como determinantes possessivos ou demonstrativos, os artigos definidos e indefinidos ou os adjetivos. A tabela 1 apresenta a marcação do género nestes elementos no nominativo singular (a sua variação nos outros casos não será aqui sistematizada). com artigo definido com artigo indefinido com demonstrativo com adjetivo & artigo indefinido masculino der Tisch (mesa) ein Tisch dieser Tisch ein kleiner Tisch feminino die Sonne (sol) eine Sonne diese Sonne eine kleine Sonne neutro das Buch (livro) ein Buch dieses Buch ein kleines Buch Tabela 1. Marcação de género em alemão (no nominativo/singular) Apesar da generalizada ausência de marcação de género existem, em alemão, algumas tendências, de ordem morfológica, semântica e fonética, que dão pistas sobre a atribuição do género. Porém, e aqui reside a grande dificuldade observada na aquisição desta categoria gramatical por aprendentes L2, existem muitas exceções a estas ‘regras’ e elas, muitas vezes, contradizem-se. Algumas destas regras são abordadas em contexto de sala de aula, de forma a facilitar o processo de aprendizagem desta categoria.
154 CRISTINA FLORES, JOANA MATOS, TELMA MOREIRA & DUARTE OLIVEIRA As regras morfológicas são, provavelmente, as mais abordadas em contexto de instrução. Estão maioritariamente relacionadas com os sufixos derivacionais de certos nomes: nomes que terminam em -ung, -keit e -heit são femininos (die Unterhaltung ‘a conversa’, die Gerechtigkeit ‘a justiça’, die Freiheit ‘a liberdade’); nomes derivados que terminam em -chen e -lein são neutros (das Bettchen ‘a caminha’, das Tischlein ‘a mesinha’) e nomes com o sufixo -er são geralmente masculinos (der Stromzähler, ‘o contador da luz’) (Steinmetz 1986). As regras semânticas prendem-se com o significado do substantivo, pelo que o género gramatical dos nomes que denotem seres humanos correspondem, na sua generalidade, ao seu género biológico. Assim, os nomes que denominam os machos e as fêmeas de cada espécie são, respetivamente, masculinos e femininos, enquanto nomes de espécies animais tendem a ser neutros. No entanto, e como mencionado em cima, muitas vezes existem sobreposições contraditórias destas regras. Um exemplo clássico é o substantivo Mädchen (‘menina’), que, a seguir uma regra semântica de atribuição de género de acordo com o sexo natural, deveria ser feminino. No entanto, a terminação em –chen sobrepõe-se à regra semântica, tornando o substantivo neutro (das Mädchen). As regras semânticas também dizem respeito à atribuição de género de certos grupos de nomes inanimados, por exemplo: nomes que denotam bebidas alcoólicas são, geralmente, masculinos (ex. der Wein ‘o vinho’, der Whiskey ‘o uísque’). O mesmo se aplica a nomes que se referem a pedras (ex. der Stein ‘a pedra’, der Fels ‘o rochedo’), etc. (Steinmetz 1986). No que toca às regras de cariz fonético, há tendências específicas nas terminações fonémicas de certos nomes. Zubin e Köpcke (1981), por exemplo, mostram que nomes monossilábicos terminados na consoante [-t] são geralmente femininos e nomes que terminem em [-ts] são geralmente masculinos.
155 DIFICULDADES DE AQUISIÇÃO DO GÉNERO EM ALEMÃO L2. UM ESTUDO… Em geral, estas regularidades desafiam a noção tradicional de que o género seja atribuído de forma totalmente arbitrária em alemão. 2.2. Aquisição do género em alemão L1 e L2 Para as crianças que adquirem o alemão como L1, a aquisição do género não apresenta grandes dificuldades. Embora a produção de algumas formas agramaticais ainda seja comum aos três anos de idade, vários estudos mostram que, por volta dos quatro anos, a aquisição do género está praticamente concluída (Mills 1986, Szagun et al. 2007). Esta observação contrasta com o processo de aquisição do género no alemão como L2. Os resultados dos estudos existentes mostram a dificuldade e morosidade que a aquisição desta propriedade gramatical representa para os aprendentes, mesmo quando a aquisição do alemão ocorre na infância enquanto L2 precoce. Wegener (1995), por exemplo, mostra que crianças falantes nativas de turco, polaco ou russo, que emigraram para a Alemanha aos 5-6 anos, demonstraram durante um período prolongado problemas na atribuição do género. Além disso, fatores como a idade de início da aquisição e a quantidade/qualidade do input também influenciam este processo (Montanari 2014, Ruberg 2013). Comparando crianças e adultos, Lemke (2008) demonstra que os falantes L2 adultos apresentam significativamente mais dificuldades do que as crianças na aquisição do género, assim como um maior grau de transferência da sua L1. Relativamente à transferência da L1, vários estudos sugerem que os falantes cuja língua materna também faz a distinção do género gramatical dos substantivos tendem a adquirir com maior facilidade o género em alemão do que falantes cuja L1 não possui essa propriedade, como é o caso do inglês ou do turco (Ellis et al. 2012, Wegener 1995).
156 CRISTINA FLORES, JOANA MATOS, TELMA MOREIRA & DUARTE OLIVEIRA Comparando os três géneros do alemão, tal como acontece na aquisição L1, também na aquisição L2, o conhecimento do neutro é o último a ser estabilizado - o que ocorre somente após ter sido feita a diferenciação entre masculino e feminino (Flagner 2008, Müller 1990). Relativamente aos princípios de atribuição do género (cf. Köpcke & Zubin 1984), os resultados não são consensuais quanto aos princípios que são mais fáceis de adquirir por parte de falantes L2. Segundo Corbett (1991), as regras semânticas prevalecem sobre as regras formais - morfológicas e, sobretudo, fonológicas – o que levaria a uma aquisição mais precoce destas regras. Contudo, muitos autores defendem que as línguas variam quanto à proeminência destes princípios, o que tem consequências para a sua aquisição. Neste sentido, alguns estudos defendem que, em alemão, as regras formais dominam sobre as regras semânticas, que apenas começam a tornar-se relevantes em fases mais avançadas de aquisição (Flagner 2008). 3. o estudo O presente estudo tem por base uma metodologia experimental, dividida em três momentos. Num primeiro momento foi realizado um inquérito sobre o grau de exposição linguística, seguindo o modelo do Bilingual Language Profile (doravante BLP) de Birdsong et al. (2012). O segundo corresponde à aplicação de uma Tarefa de Juízos de Gramaticalidade (TJG), de forma a testar o conhecimento do género em alemão por parte de 23 aprendentes cuja L1 é o português. O terceiro reflete-se num pós-teste de conhecimento lexical, que pretendeu apurar se os participantes conheciam os vocábulos utilizados na TJG na altura da sua execução. Nesta secção serão descritos, com mais detalhe, as tarefas aplicadas e o grupo experimental testado, concluindo com as principais questões de investigação que norteiam este trabalho.
157 DIFICULDADES DE AQUISIÇÃO DO GÉNERO EM ALEMÃO L2. UM ESTUDO… 3.1. Método A aplicação do inquérito sociolinguístico e motivacional prendeu-se com a necessidade de verificar, não só o historial linguístico dos participantes, mas também o uso, competência e motivação ou grau de identificação com as línguas estrangeiras que dominam (neste caso, inglês e alemão). Deste modo, foi possível traçar o perfil linguístico dos participantes (ver 3.2.) e permitir que os mesmos avaliassem a sua própria competência e utilização das línguasalvo, fatores que se poderiam manifestar relevantes no cruzamento com os resultados da segunda tarefa (TJG). O inquérito realizado foi baseado no BLP, um questionário originalmente desenvolvido por Birdsong et al. (2012) para avaliar o nível de dominância de falantes bilingues. Dado o propósito basilar do BLP e uma vez que os participantes analisados são aprendentes intermédios de alemão do ensino superior (com inglês como primeira L2) e não possuem um historial de bilinguismo com a língua ao nível da infância, revelou-se necessário fazer uma adaptação do inquérito de modo a torná-lo mais adequado ao grupo em questão. Estas alterações manifestaram-se especialmente na segunda secção (“Historial linguístico”), em que se optou por dar ênfase aos anos de instrução em detrimento do fator idade de aquisição, uma vez que a maior parte dos participantes apenas começou a aprender alemão em fase adulta. Além disso, o inquérito contrastou as duas línguas segundas dos falantes (inglês e alemão), em detrimento da(s) línguas primeira(s) como no teste original. O inquérito é composto por cinco partes (ver anexo 1): I. informação biográfica; II. historial linguístico; III. uso das línguas; IV. auto-avaliação da competência linguística; V. motivação/identificação com a língua. As partes II a V incluem um total de 19 perguntas com respostas quantificáveis numa escala correspondente a um número variável de pontos. Seguindo a proposta de quantificação do teste
158 CRISTINA FLORES, JOANA MATOS, TELMA MOREIRA & DUARTE OLIVEIRA original, a pontuação máxima que pode ser obtida em cada uma das línguas é de 2183, correspondente a um grau muito elevado de domínio, contacto e identificação com a línguaalvo. A comparação da pontuação obtida em cada língua mostra a dominância relativa das duas línguas-alvo. Após a realização do inquérito, foi apresentada aos participantes uma TJG, com o objetivo de testar o seu conhecimento do género nominal em alemão. As palavras, apresentadas aleatoriamente, correspondem a três condições-base (morfológicas, semânticas e fonéticas). Estas três condições subdividem-se em três subcondições. Cada subcondição contém seis itens (três gramaticais e três agramaticais), perfazendo um total de 54 itens (27 gramaticais e 27 agramaticais). Do total de itens, 13 apresentam correspondência de género entre o alemão e o português (p. ex. al. “der Affe” e ptg. “o macaco”, ambos masculinos) e 14 divergem (p. ex. al. “die Luft”, feminino, vs. ptg. “o ar”, masculino). Para os nomes neutros em alemão não foi possível contemplar este fator, dada a inexistência de um género neutro em português. A tabela 2 apresenta as condições e subcondições, com exemplos retirados do teste. Gramatical Agramatical Condições morfológicas 1 A) -er + masculino der Fehler (o erro) (+) 1 B) -er + feminino *die Kugelschreiber (a caneta) (-) 2 A) -chen + neutro das Mädchen (a menina) 2 B) -chen + masculino *der Männchen (o macho) 3 A) -ung + feminino die Übung (o exercício) (-) 3 B) -ung + neutro *das Erzählung (o conto) 3 Para uma explicação detalhada das pontuações atribuídas a cada parte e do cálculo final, consulte: https://sites.la.utexas.edu/bilingual/scoring-and-interpreting-the-results/
159 DIFICULDADES DE AQUISIÇÃO DO GÉNERO EM ALEMÃO L2. UM ESTUDO… Condições semânticas 4 A) espécie + neutro das Pferd (o cavalo) 4 B) espécie + masculino *der Schwein (o porco) 5 A) animal macho + masculino der Affe (o macaco) (+) 5 B) animal macho + feminino *die Floh (a pulga) (-) 6 A) animal fêmea + feminino die Katze ( o gato) (-) 6 B) animal fêmea + neutro *das Ziege (a cabra) Condições fonéticas 7 A) [-t] + feminino die Luft (o ar) (-) 7 B) [-t] + neutro *das Macht (o poder) 8 A) [-ɛt]+ neutro das Bett (a cama) 8 B) [-ɛt] + masculino *der Ballett ( o ballet) 9 A) [-ts] + masculino der Pilz (o cogumelo) (+) 9 B) [-ts] + feminino *die Pelz (a pele) (+) (+) correspondência de género al.-ptg. (-) divergência de género al.-ptg. Tabela 2. Condições da Tarefa de Juízos de Gramaticalidade As condições selecionadas para o presente estudo permitem observar a importância das características morfológicas, semânticas e fonéticas no conhecimento do género em alemão. Dada a natureza maioritariamente explícita do conhecimento linguístico dos participantes, espera-se que a aquisição eficaz do género alemão se baseie em regras fundamentais apresentadas em contexto de instrução em sala de aula (Ellis et al. 2006) e que grande parte dos problemas da sua não-aquisição estejam associados a fenómenos de transferência interlinguística não só da língua materna, como também do inglês. Devido à extensão de tendências relativas ao género dos nomes inanimados em alemão, optou-se por restringir as subcondições a três regras substanciais relacionadas com a sua condição primordial, de índole morfológica, semântica ou fonética (Steinmetz 1986). No que toca às condições
166 CRISTINA FLORES, JOANA MATOS, TELMA MOREIRA & DUARTE OLIVEIRA diferenças são apenas marginalmente significativas (F (2,46) = 3,317, p = 0,045), ou seja, os aprendentes não mostram grande sensibilidade face aos fatores que podem determinar a atribuição do género (morfológicos, semânticos ou fonéticos), quando confrontados com itens gramaticais. Relativamente aos itens agramaticais, a situação é muito semelhante, isto é, observam-se taxas de acerto muito próximas nas três condições: a maior taxa de acerto é registada nas condições fonéticas (M = 41,2%, DP = 23,3), seguindo-se as condições morfológicas (M = 39,3%, DP = 24,9) e, com um valor muito próximo, as condições semânticas (M = 36,1%, DP = 20,3). Neste caso, uma Análise de Variância (ANOVA) para medidas repetidas mostra que as diferenças entre as condições agramaticais não são estatisticamente significativas (F (2,46) = 0,551, p = 0,580). Estes resultados revelam que, em geral e como observado nas condições gramaticais, os aprendentes não são sensíveis aos diferentes fatores que estão na base da atribuição do género em alemão. Passamos agora à análise das várias subcondições, começando por analisar as gramaticais. De facto, o gráfico 2 mostra que não existe uma grande variação entre as nove subcondições. O item 8A da condição fonética foi o mais acertado (M = 69,5%, DP = 23,9), seguido do item 3A da condição morfológica (M = 68,1%, DP = 33.3), referentes, respetivamente, às regras ‘–[ɛt] + neutro’ e ‘–ung + feminino’. Já os itens 5A (M = 48,6%, DP = 36,8) e 4A (M = 50%, DP = 36,8) da condição semântica foram os que apresentaram maior dificuldade aos participantes, respetivamente as regras ‘animal macho + masculino’ e ‘espécie + neutro’. Uma Análise de Variância (ANOVA) para medidas repetidas que incluiu os nove itens gramaticais mostra que as diferenças entre as subcondições 1A a 9A não são estatisticamente significativas (F (8,184) = 1,391, p = 0,203).
167 DIFICULDADES DE AQUISIÇÃO DO GÉNERO EM ALEMÃO L2. UM ESTUDO… Gráfico 2: Taxa de acerto nos itens das condições gramaticais Contrariamente aos gramaticais, os resultados dos itens agramaticais são bastante heterogéneos, apresentando maior variação, como se pode observar no gráfico 3. O item 8B da condição fonética foi o mais acertado (M = 63,9%, DP = 32,5), referente a [-ɛt] + *masculino. O item 7B, [-t] + *neutro, também da condição fonética, foi o menos acertado (M = 16,6%, DP = 27,8). Neste caso, uma ANOVA para medidas repetidas, que incluiu os nove itens agramaticais, mostra que as diferenças entre as subcondições 1B a 9B são estatisticamente significativas (F (8,184) = 5,543, p < 0,001). Os resultados revelam que não existe homogeneidade de taxas de acerto dentro das próprias condições, ou seja, os aprendentes não parecem seguir pistas fonéticas, morfológicas ou semânticas na aquisição do género nominal em alemão L2. Como será discutido adiante, este dado está certamente relacionado com o facto de estas pistas não serem consistentes e apresentarem muitas exceções e sobreposições contraditórias.
168 CRISTINA FLORES, JOANA MATOS, TELMA MOREIRA & DUARTE OLIVEIRA Gráfico 3: Taxa de acerto nos itens das condições agramaticais Se não são as pistas morfológicas, semânticas ou fonéticas que determinam o conhecimento dos aprendentes, passemos à análise comparativa do conhecimento dos três géneros (masculino, feminino, neutro). Pretende-se avaliar se os aprendentes revelam sensibilidade diferente face aos três géneros do alemão, em particular, se apresentam maiores dificuldades na atribuição do género neutro, por não existir na sua língua materna, o português. Relativamente às taxas de acerto por género, os resultados não mostram diferenças acentuadas para os itens gramaticais como é ilustrado pelo gráfico 4. Os itens femininos apresentam maior taxa de acerto (M = 62,5%, DP = 22,4), seguindo-se os itens neutros (M = 59,8%, DP = 16,6). Os itens masculinos apresentam uma taxa de acerto ligeiramente mais baixa (M =55,1%, DP = 21,4). Estas diferenças não são significativas, como revelado por uma ANOVA de medidas repetidas (F (2,46) = 1,346, p = 0,260).
169 DIFICULDADES DE AQUISIÇÃO DO GÉNERO EM ALEMÃO L2. UM ESTUDO… Gráfico 4: Taxa de acerto por género nos itens gramaticais Como pode ver-se no gráfico 5, no que diz respeito aos itens agramaticais, existem diferenças maiores entre géneros. Neste caso, é o género masculino que apresenta maior taxa de acerto (M = 46,3%, DP = 20,1), seguindose o género feminino (M = 383%, DP = 25,2). Por fim, é em relação ao neutro que os aprendentes apresentam maiores problemas (M = 31,9%, DP = 24,6), ou seja, quando confrontados com substantivos neutros que lhes são apresentados num outro género, os aprendentes têm grandes dificuldades em reconhecer essa agramaticalidade e atribuir o género neutro ao item em questão. Uma ANOVA revela que, nestas condições agramaticais, a diferença entre os géneros é estatisticamente significativa (F (2,46) = 3,862, p < 0,05). Um pós-teste Bonferroni revela que a diferença está entre o género masculino e o neutro (p = 0,039).
170 CRISTINA FLORES, JOANA MATOS, TELMA MOREIRA & DUARTE OLIVEIRA Gráfico 5: Taxa de acerto por género nos itens agramaticais A última questão a guiar este estudo relaciona-se com a influência do português na aprendizagem do género nominal em alemão. Para responder a esta questão, analisamos os 13 itens que apresentam correspondência de género entre o alemão e o português, e os 14 itens que apresentam género oposto. Relembramos que, neste caso, não se incluiu o neutro por não ter correspondência em português. O gráfico 6 mostra as taxas de acerto por género (masculino e feminino), tendo em conta a sua (não)correspondência em português. Começamos por reportar os resultados relativamente aos itens masculinos. Curiosamente, a média de acerto dos itens masculinos é mais elevada quando este não tem género correspondente em português (M = 60,4%, DP = 36,1) do que nos casos em que o substantivo também é masculino na L1 dos aprendentes (M = 53,6%, DP = 23,9). No caso dos itens femininos, as taxas são muito semelhantes, atingindo uma média de 51,3%, (DP = 23,5) quando há correspondência com o português e 50,3% (DP = 18.9) quando o equivalente português não é feminino. Uma
171 DIFICULDADES DE AQUISIÇÃO DO GÉNERO EM ALEMÃO L2. UM ESTUDO… ANOVA revela que as diferenças entre os quatro tipos de género (masculino e feminino com e sem correspondência em português) não é estatisticamente relevante (F (3,69) = =,938, p = 0,427), pelo que podemos concluir que a atribuição do género na L2 não é motivada pelo género das palavras-alvo em português. Gráfico 6: Taxa de acerto por género [igual ou diferente do português] 4.2. Conhecimento lexical e índice BLP Depois de realizada a TJG, os participantes preencheram um questionário em que indicaram, para cada um dos substantivos usados na TJG, se conheciam a respetiva palava no momento de realização da tarefa. Os resultados deste questionário de conhecimento lexical mostram que, em média, os aprendentes conheciam 31,5 (DP = 8,4) das 54 palavras usadas no teste, sendo o valor mais baixo de 19 palavras e o mais alto de 47. Para averiguar se existe uma correlação entre a quantidade de palavras que cada aprendente conhecia e o seu desempenho na tarefa de juízos de gramaticalidade foram realizados vários testes de associação de Coeficiente de Correlação de Pearson. Em primeiro lugar foi avaliada a correlação entre as taxas de acerto globais nas condições gramaticais e con-
172 CRISTINA FLORES, JOANA MATOS, TELMA MOREIRA & DUARTE OLIVEIRA dições agramaticais e o conhecimento lexical. Dois testes de Coeficiente de Correlação de Pearson, um para as condições gramaticais e outro para as agramaticais, mostram que não existe uma associação significativa entre o índice de conhecimento lexical e o desempenho do grupo nas condições gramaticais (r = ,290, p = 0,228). Contudo, essa associação existe se correlacionarmos este índice com os resultados obtidos pelos participantes nas condições agramaticais, embora seja apenas marginalmente significativa (r = ,461, p = 0,047). Este resultado mostra que os aprendentes que conheciam um maior número de palavras usadas no teste foram, tendencialmente, os que obtiveram melhores resultados no reconhecimento de palavras apresentadas com um género errado e consequente correção desta agramaticalidade. Convém, assim, olhar com mais detalhe para as diferentes condições agramaticais para verificar se esta associação existe nas três subcondições. Começando pela condição morfológica (agramatical), um Teste de Correlação Pearson confirma que existe uma associação positiva significativa entre o índice de conhecimento lexical e as taxas de acerto nessa condição (r = ,472, p = 0,041). O mesmo se observa na subcondição semântica (agramatical). Neste caso, a associação entre o conhecimento lexical e a taxa média de acerto é ainda maior e mais significativa (r = ,548, p = 0,015). Os gráficos 7 e 8 apresentam a correlação entre as taxas de acerto por participante, nas subcondições morfológica e semântica agramaticais, e o seu índice de conhecimento lexical. Como podemos observar nos gráficos, o falante que apresenta o mais alto índice de conhecimento lexical (47 palavras) é precisamente o que tem taxas de acerto mais elevadas (acima de 90%). Já os participantes com menor índice são os que, tendencialmente, apresentam taxas de acerto mais baixas.
173 DIFICULDADES DE AQUISIÇÃO DO GÉNERO EM ALEMÃO L2. UM ESTUDO… Em contraste, na subcondição fonética não existe qualquer associação entre as duas variáveis (r = ,029, p = 0,905), ou seja, neste caso, possuir um maior índice de conhecimento lexical não significa necessariamente ser mais assertivo no reconhecimento da agramaticalidade do género apresentado. Foram ainda aplicados sucessivos testes de QuiQuadrado para avaliar se existe uma correspondência direta entre o conhecimento de cada palavra e o reconhecimento da (a)gramaticalidade do seu género, porém, os resultados destes testes não foram conclusivos por não estar cumprido sistematicamente o pressuposto de frequência superior a 5 itens por célula. O alternativo Teste de Fisher não revela uma associação direta entre as duas variáveis, ou seja, o desempenho dos aprendentes na TJG não parece, no geral, derivar diretamente do conhecimento da palavra-alvo. A influência do conhecimento lexical sobre a assertividade no teste manifesta-se a um nível mais geral de proficiência lexical. Exceção são palavras muito frequentemente usadas na sala de aula, como por exemplo die Übung (fem, ‘o exercício), com um nível muito elevado de assertividade de género (83.3%) e de conhecimento lexical (95%). Gráfico 7: Correlação entre conhecimento lexical e taxa de acerto na subcondição morfológica agramatical Gráfico 8: Correlação entre conhecimento lexical e taxa de acerto na subcondição semântica agramatical
174 CRISTINA FLORES, JOANA MATOS, TELMA MOREIRA & DUARTE OLIVEIRA Por fim, foram analisados os valores obtidos no BLP com o intuito de observar se existe alguma correlação entre o índice de exposição ao alemão, por um lado, e a competência lexical ou o desempenho nas condições gramaticais e agramaticais, por outro lado. Os resultados de vários testes de Coeficiente de Correlação de Pearson mostram que não existe associação, nem entre o índice do BLP e o índice de conhecimento lexical dos falantes (r = -,240, p = 0,308), nem entre o primeiro e as taxas de acerto nas condições gramaticais (r = -,012, p = 0,957) ou as agramaticais (r = ,335, p = 0,109). Conclui-se, pela leitura destes resultados, que a quantidade de contacto com o alemão, aferida através do questionário usado, revela não ter atingido um nível suficientemente elevado para poder ter um efeito real sobre o conhecimento linguístico dos aprendentes. De facto, como vimos, o contacto com a língua alemã deuse, na grande maioria dos casos, quase exclusivamente em contexto de sala de aula a partir da adolescência tardia, não tendo sido suficiente para produzir efeito sobre o domínio investigado. 5. dIscussão fInal Globalmente, os resultados do presente estudo confirmam que a atribuição do género é um domínio gramatical que causa muitas dificuldades a aprendentes de alemão em níveis intermédios de aquisição, como demonstrado por outros estudos (Ellis et al. 2012, Wegener 1995). A taxa média de acerto é de aproximadamente 50%, situando-se no nível de casualidade. No entanto, o desempenho dos aprendentes não é de todo fruto de arbitrariedade, pois a diferenciação das taxas de acerto em condições gramaticais e agramaticais mostra que existe um desempenho significativamente diferente dos aprendentes perante itens gramaticais/agramaticais. Como esperado, os aprendentes apresentam mais dificuldades no reconhecimento e subse-
175 DIFICULDADES DE AQUISIÇÃO DO GÉNERO EM ALEMÃO L2. UM ESTUDO… quente correção do género apresentado agramaticalmente. Respondendo à primeira questão de investigação, podemos então concluir que o género gramatical é, de facto, um domínio vulnerável no processo de aquisição do alemão como língua não nativa. Quanto aos princípios mais proeminentes na aquisição do género (morfológicos, fonéticos e semânticos), e respondendo à segunda questão de investigação, os resultados não mostram uma clara tendência. Isto significa que os falantes não parecem mostrar sensibilidade às diferentes pistas, mesmo as marcas morfológicas não são ainda claramente relacionadas com um determinado género. Este dado pode, certamente, ser explicado pela complexidade de regras de atribuição de género, muitas vezes até contraditórias, que dificulta a aquisição desta propriedade gramatical. Associada a esta complexidade está o reduzido nível de contacto com a língua alemã e consequente baixo nível de proficiência dos alunos, que (ainda) não permitiu impulsionar a aquisição do género através destes princípios. Vários estudos têm demonstrado que o fator mais influente na correta atribuição do género é o conhecimento lexical do falante (cf. Stöhr et al. 2012). O presente estudo vem corroborar esta observação, respondendo, assim à terceira questão. Existe, de facto, uma correlação positiva entre a quantidade de palavras que os participantes conhecem e o seu desempenho na tarefa de gramaticalidade. Isto significa que os aprendentes adquirem o género das palavras em alemão item a item, à medida que adquirem conhecimento lexical, não sendo (ainda) guiados por princípios formais ou semânticos. Um exemplo concreto é-nos dado pela comparação de nomes femininos terminados em -ung. Enquanto a taxa de acerto da palavra Übung (‘exercício’) é muito elevada (tratando-se de uma palavra frequentemente usada em sala de aula), a média de acerto de Unterhaltung (‘conversa’) é bastante mais baixa (sendo que metade dos
182 CRISTINA FLORES, JOANA MATOS, TELMA MOREIRA & DUARTE OLIVEIRA
183 DIFICULDADES DE AQUISIÇÃO DO GÉNERO EM ALEMÃO L2. UM ESTUDO…
184 CRISTINA FLORES, JOANA MATOS, TELMA MOREIRA & DUARTE OLIVEIRA anexo 2 Gramatical Agramatical Condições morfológicas 1 A) -er + masculino der Fehler (o erro) (+) der Teller (o prato) (+) der Dosenöffner (o abre-latas) (+) 1 B) -er + feminino *die Kugelschreiber (a caneta) (-) * die Taschenrechner (a calculadora) (-) *die Hunger (a fome) (-) 2 A) -chen + neutro das Mädchen (a menina) das Würstchen (a salsicha) das Brötchen (o pão) 2 B) -chen + masculino *der Männchen (o macho) *der Pärchen (o casal) *der Gummibärchen (a goma) 3 A) -ung + feminino die Übung (o exercício) (-) die Unterhaltung (a conversa) (+) die Mischung (a mistura) (+) 3 B) -ung + neutro *das Erzählung (a história/o conto) *das Überraschung (a surpresa) *das Empfehlung (a recomendação) Condições semânticas 4 A) espécie + neutro das Pferd (o cavalo) das Huhn (a galinha) das Rind (o gado) 4 B) espécie + masculino *der Schwein (o porco) *der Schaf (a ovelha) *der Reh (o veado) 5 A) masculino + masculino der Affe (o macaco) (+) der Hase (o coelho) (+) der Löwe (o leão) (+) 5 B) masculino + feminino *die Floh (a pulga) (-) *die Hund (o cão) (+) *die Vogel (o pássaro) (+) 6 A) feminino + feminino die Katze ( o gato) (-) die Maus (o rato) (-) die Ente (o pato) (-) 6 B) feminino + neutro *das Ziege (a cabra) *das Schlange (a cobra) *das Gans (o ganso)
185 DIFICULDADES DE AQUISIÇÃO DO GÉNERO EM ALEMÃO L2. UM ESTUDO… Condições fonéticas 7 A) -t + feminino die Luft (o ar) (-) die Frucht (o fruto) (-) die Welt (o mundo) (-) 7 B) -t + neutro *das Macht (o poder) *das Gewalt (a violência) *das Kraft (a força) 8 A) -et + neutro das Bett (a cama) das Fett (a gordura) das Tablett (o tabuleiro) 8 B) -et + masculino *der Ballett ( o ballet) *der Quartett (o quarteto) *der Etikett (a etiqueta) 9 A) -ts + masculino der Pilz (o cogumelo) (+) der Schmerz (a dor) (-) der Scherz (a piada) (-) 9 B) -ts + feminino *die Pelz (a pele) (+) *die Kranz (a coroa) (-) *die Blitz (o raio ) (+) Total: 27 gramaticais + 27 agramaticais = 54 itens (18 x 3 condições) 13 (+) alm=pt 14 (-) alm≠pt