Ecrãs e lusofonia: uma circum-navegação tecnológica pela contingência lusófona no Youtube
Abstract
Esta época, marcada pela omnipresença das tecnologias de informação e comunicação, objetiva “a era do ecrã-global” (LIPOVETSKY & SERROY, 2010b). A esta dinâmica não é alheia a contingência lusófona. No YouTube, as diversas comunidades lusófonas espelham a sua contingência, tendo por base a imagem e o vídeo. O objetivo deste artigo é o de analisar a dinâmica lusófona no YouTube, questionando: como está representada a lusofonia no ecrã-global YouTube? Neste, quem é que mais a representa? E que ética, que estética, que narrativas e que culturas emanam os lusófonos, nos ecrãs em rede, na atual contingência coletiva?
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C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 5 Ecrãs e lusofonia: uma circum-navegação tecnológica pela contingência lusófona no YouTube Sreens and Lusophony: a technological circumnavigation by the Lusophone contingency on YouTube Pantallas y lusofonía: una circunnavegación tecnológica por la contingencia lusófona en YouTube Pedro Rodrigues Costa ORCID iD http://orcid. org/0000-0002-1223-6462 Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 6 Submissão: 15-5-2019 Decisão editorial: 18-5-2020 RESUMO Esta época, marcada pela omnipresença das tecnologias de informação e comunicação, objetiva “a era do ecrã-global” (LIPOVETSKY & SERROY, 2010b). A esta dinâmica não é alheia a contingência lusófona. No YouTube, as diversas comunidades lusófonas espelham a sua contingência, tendo por base a imagem e o vídeo. O objetivo deste artigo é o de analisar a dinâmica lusófona no YouTube, questionando: como está representada a lusofonia no ecrã-global YouTube? Neste, quem é que mais a representa? E que ética, que estética, que narrativas e que culturas emanam os lusófonos, nos ecrãs em rede, na atual contingência coletiva? Palavras-chave: Lusofonia, digital, influência, YouTube, internet. ABSTRACT This era, marked by the ubiquity of information and communication technologies, aims at “the era of the global screen” (LIPOVETSKY & SERROY, 2010b). This dynamic is not unrelated to the Lusophone contingency. On YouTube, the various Portuguese-speaking communities mirror their contingency, based on image and video. The purpose of this article is to analyze the Portuguese speaking dynamics on YouTube, asking: how is Portuguese speaking on the YouTube global screen? In this one, who represents you the most? And what ethics, what aesthetics, what narratives and what cultures do the Portuguese speaking people, on the networked screens, in the current collective contingency? Keywords: Lusophony, digital, Influencers, Youtube, Internet. RESÚMEN Esta era, marcada por la ubicuidad de las tecnologías de la información y la comunicación, apunta a “la era de la pantalla global” (LIPOVETSKY & SERROY, 2010b). Esta dinámica no está relacionada con la contingencia lusófona. En YouTube, las diversas comunidades de habla portuguesa reflejan su contingencia, basada en imágenes y videos. El propósito de este artículo es analizar la dinámica de habla portuguesa en YouTube, preguntando: ¿cómo se habla portugués en la pantalla global de YouTube? En esta, ¿quién te representa más? ¿Y qué ética, qué estética, qué narrativas y qué culturas tienen los portugueses, en las pantallas en red, en la actual contingencia colectiva? Palabras clave: Lusofonía, digital, influencers, Youtube, internet
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 7 1. A técnica como intelecto contingente Ao axioma “a tecnologia como extensão do humano” estão associadas as perspetivas prometeica e fáustica. A prometeica sublinha a força do inconsciente na técnica (MARTINS, 2011, 16). A fáustica entende a técnica como uma “expressão egoísta e voltada para si própria” (MARTINS, 2011, 38). Esta dialética convoca-nos à reflexão sobre consciente e inconsciente. Durkheim (2004) considerava o “consciente coletivo” como o conjunto de crenças e sentimentos comuns entre os sujeitos. Por sua vez, Gabriel Tarde (1992) atribuía às técnicas geradoras da imprensa o notável feito de colocar sujeitos, desconhecidos entre si, em contacto “intermental” à distância, aproximando por imitação os que fisicamente estariam distantes. Simmel, em A Filosofia da Moda (1905), refletia sobre o facto de o sujeito beneficiar do sossego de não permanecer sozinho no seu agir com a moda, levando-o a vestir o mesmo que os outros. Nos três casos, a coisa coletiva forneceria uma espécie de “universal” conduzindo o sujeito individual “ao trilho que todos percorrem” (SIMMEL, 2008, p. 24). A ideia de exteriorização técnica objetivava assim a dimensão da consciência. Por seu turno, Carl Jung aprofundava o estudo das relações de causa e efeito tendo por base o in-
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 8 Pedro rodrigues Costa consciente: crenças, desejos, sede de poder e necessidades de aprovação social (JUNG, 1979; RIBEIRO & BRUMLIK, 2007). Estas forças dependeriam de presenças arquetípicas nos sujeitos, nas coletividades e nas coisas, tendendo a influenciar as dimensões da psique e do comportamento humano. Da teoria dos arquétipos surge o conceito de “inconsciente coletivo”, conteúdo acessível e carregado de uma emoção avassaladora (JUNG, 1942), como um “Deus empiricamente pesquisável” que “impera sobre os homens” (RIBEIRO & BRUMLIK, 2007, p. 57). A noção de inconsciente coletivo une psicologia e sociologia, radicalizando a “união entre ontologia estruturalista e metodologia hermenêutica” (RIBEIRO & BRUMLIK, 2007, p. 123). Ambas as noções – consciente e inconsciente coletivo – apresentam características fáusticas e prometeicas, sublinhando um duplo movimento: do individual para o coletivo e vice-versa. Na internet em geral, e no YouTube em particular, mais do que “consciência” ou “inconsciente” importa-nos a “contingência”, isto é, o facto de o sujeito viver na “circunstância” (HEIDEGGER, (1992/1962); ORTEGA Y GASSET, 1998), no seio de uma contingência consciente e inconsciente que o abraça coletiva e permanentemente (MAFFESOLI, 2001). Dentro de fluxos “líquidos” (BAUMAN, 2006), uma noção de “consciência de classe” perde a primazia para a noção de “contingência de classe”, mais apta para contar e entender “o homem no interior” das coisas (SARTRE, 1960, p. 118). Assim, estudar a internet e seus efeitos implica compreender as suas circunstâncias existenciais. As “circum-navegações tecnológicas” (MARTINS, 2018) objetivam a ação social e a cultura em dois movimentos: o da imitação, que engloba a repetição (também
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 9 Ecrãs E lusofonia: uma circum-navEgação tEcnológica pEla contingência lusófona no YoutubE a dos desejos e dos afetos) (TARDE, 1979; RECUERO, 2013); e o da diferenciação (de tudo quanto é capturado), que comporta rejeição e mudança (DELEUZE, 2000). A sociedade, “uma coleção de seres na medida em que se estão a imitar entre si” (TARDE, 1979, p. 76), ao atualizar-se permanentemente através da Internet, unifica-se em torno de um novo modo de comunicar, transportando e renovando os anteriores modos comunicacionais com novas possibilidades de interação e mediação. Experimentam-se e incorporam-se velhos e novos arquétipos, como também se transferem e transformam tradições e se operam novas imitações e diferenciações. Estas mesclas convocam-nos a pensar num “intelecto contingente”, um poderoso concentrado de razões, lógicas, tempos, ritmos, expressões e tendências que serve de substrato social para a ação, pensamento e tendência (COSTA, 2018). 2. Conceitos e métodos desta circum-navegação Sistemas como o Youtube, que memorizam e dispõem a informação, datando-a e expondo-a na contingência, têm por base algoritmos que privilegiam a repetição e a imitação de comportamentos, funcionando como pré-intelectos. Ambos permitem uma hierarquização contingencial, destacando o que vigora e se faz moda e escondendo o que no momento não é prioridade ou tendência. Tal origina imitação e propagação acelerada, consolidando ou iniciando “sentidos e culturas” (CASTELLS, 1999) e tornando a experiência “líquida e mutável” (BAUMAN, 2006). O ciberespaço é lugar conhecimento científico, sendo que esse “em língua portuguesa” (MARTINS, 2018, p.88). Estudar o Youtube é, portanto, estudar a contingência lusófona. Mas em que moldes é que
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 10 Pedro rodrigues Costa esta está a ser realizada pelos sujeitos lusófonos? Como está representada a lusofonia neste ecrã-global em rede? Quem mais a representa? Que arquétipos e culturas emanam os lusófonos nos ecrãs em rede na contingência coletiva, no atual intelecto contingente? Para responder a estas questões, estudamos desde 2017 os canais de Youtube no top 5 dos países lusófonos, revelando as atuais cinéticas em torno da estética, da cultura e das referências culturais na lusofonia presente no ecrã-global. O estudo sobre o intelecto contingente lusófono no Youtube enquadra duas dimensões: a dimensão de intelecto, que dá sentido, concebe narrativas, gera tendências e constrói lógicas, mas também arquétipos enquanto “estruturas inconscientes do agir humano” (RIBEIRO & BRUMLIK, 2007, p.54); e uma dimensão contingente, ou seja, que está a acontecer na possibilidade do presente, assinalando e marcando todos os que lhe estão sujeitos. Devido ao formato que esta rede social encerra, esta investigação implica utilização de três conceitos acessórios: i) O conceito de visualização, como medidor quantitativo, realça a capacidade de propagação. Assume-se que quanto maior é o número de visualizações, tanto maior é a sua propagação e por isso também a sua força nos processos de imitação, diferenciação e socialização. Este conceito fornece- -nos o alcance dos vídeos analisados. ii) O conceito de categorização, registando a influência no setor. Por este prisma, consideramos aqui uma aproximação à noção de “campo social” e de “poder simbólico” em Bourdieu (2001), onde a categorização das tipologias, associado ao seu posicionamento, demonstra o poder e a posição no campo social YouTube. Pressupõe-se que uma quantidade assinalável de vídeos
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 11 Ecrãs E lusofonia: uma circum-navEgação tEcnológica pEla contingência lusófona no YoutubE num determinado campo de ação específico constitui forte impacto em dimensões particulares. iii) O conceito de influenciador digital, extraído da expressão anglo-saxónica influencer e que define e categoriza, em linguagem corrente, a ação de youtubers, blogers, gamers, instagramers e todos aqueles que, em ambiente digital, influenciam grandes massas populacionais. Este é, habitualmente, um sujeito ou grupo com estratégias de influência sobre determinados públicos (gastronomia, música, séries, assuntos do dia-a-dia, etc.). Utiliza habitualmente plataformas como o Youtube, entre outras capazes de aceder a quantidades massivas de visualizadores e com isso receber gratificações (sociais, financeiras, sociais). O youtuber que é “influenciador digital” identifica os que “fazem parte de um nicho específico no digital e, dentro deste grupo, possuem um volume de conexões superior à média das pessoas que pertencem a esse nicho” (MESSA, 2016, s.p.). A ideia de nicho é fundamental: núcleos concentrados em gostos ou áreas que formam comunidades “subjetivas”. No entanto, importa assinalar as diferenças entre “influenciadores digitais” e “influenciadores de marketing”. O segundo é apenas uma parte do primeiro, pois está investido por uma marca ou empresa que se foca em produtos e vendas. Já o influenciador digital em sentido lato é mais abrangente na busca de gratificações, procurando também as sociais, as opinativas e as de influência subjetiva (MENEZES, 2014). Nem todos os youtubers são influenciadores e vice-versa. São influenciadores aqueles que têm algum poder na decisão dos atores: compras, conversações, estilos de vida, gostos. Há youtubers que o não fazem e influenciadores que, não sendo provenientes do universo digital, fazem-no em ambiente digital (KARHAWI, 2017).
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 12 Pedro rodrigues Costa Para tal, utilizamos a plataforma SocialBlade – repositório online de dados com sede em www.socialblade.com – porque agrupa as estatísticas sobre usos e dinâmicas de redes sociais (YouTube, Instagram, Facebook, entre outras)1. Ao facilitar a exibição de dados em tempo real, a plataforma desenvolveu um ranking próprio sobre o Youtube de modo a classificar os canais de utilizadores. Este ranking, doravante denominado de SBR, baseia-se em três grandes indicadores: uploads, subscritores e visualização de vídeos. Fornece assim pistas e listagens sobre os maiores influenciadores digitais. Finalmente, socorremo-nos do “paradigma indiciário” – “atitude orientada para a análise de casos individuais, reconstruíveis somente através de pistas, sintomas, indícios” (GINZBURG, 1989, p. 154). Com um enfoque em “isotopias figurativas” (BERTRAND, 2003) oriundas do Top 1 de cada país, analisamos o intelecto contingente presente no Youtube e que paira no universo lusófono. 3. Lusofonia, Youtube e limitações do estudo A Lusofonia, comunidade de povos em língua portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Galiza, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, Goa, Damão e Diu), é uma rede diversa e alargada (SOUSA, 2017). Os dados disponíveis nas plataformas gratuitas não nos permitem ter uma visão total do conjunto. Assim, Galiza, Guiné- -Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, Goa, Damão 1 Plataforma criada por Jason Urgo em 2008. Em 2010 começou a acompanhar o YouTube. Optamos pela escolha do SocialBlade em detrimento de outras possíveis porque nos garante facilidade na seleção, na ordenação e na usabilidade da lista dos canais de Youtube. Disponível em <https://socialblade. com/>. Acesso em: 02 de fev. 2019.
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 13 Ecrãs E lusofonia: uma circum-navEgação tEcnológica pEla contingência lusófona no YoutubE e Diu ficaram de fora, restando-nos os dados sobre Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique e Portugal. Finalmente, e porque estamos a referir uma análise sobre a contingência mediada por Internet, alertamos para o facto de haver alguma possibilidade de volatilidade nos dados recolhidos. Por isso mesmo, recolhemos dados semelhantes sobre os países em estudo nos mesmos dias e muito próximos do ponto de vista horário. Deste modo, a informação sobre os cinco principais canais do Youtube de cada um dos países analisados reportam ao mesmo dia. 4. O top 5 lusófono no Ecrã-Global Youtube O cenário numérico do top 5, com dados estatísticos compilados desde 2017, permite-nos ter uma panorâmica sobre os “topos” do Youtube nos países analisados. Numa primeira análise, sobressaem quatro conclusões: i) A força avassaladora do Brasil no Youtube, na comunidade lusófona, mas também em todo o universo da Internet; ii) O número elevado de visualizações dos canais brasileiros; iii) O facto de o primeiro da lista brasileira constar top 10 mundial; iv) E o facto dos dados, em todos os países, revelarem sólidos crescimentos desde 2017. O canal brasileiro Kondzilla, na categoria de música, apresenta uma dinâmica arrebatadora em toda a expressão lusófona: quase 50 milhões de subscritores; supera os 23 mil milhões de visualizações; está inserido na categoria A+ (nível máximo da escala do SBR); nos últimos 30 dias, conta com mais de 500 mil milhões de visualizações2. 2 Disponível em <https://socialblade.com/youtube/user/ canalkondzilla>. Acesso em: 02 de fev. 2019.
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 20 Pedro rodrigues Costa cena. Na parte final do vídeo, já de noite, MC Kelke dança em torno do mesmo grupo, agora com os que jogavam voleibol. Há amantes que se beijam. E a música de MC Kelke funciona como banda sonora desses romances. MC Kelke exulta por estar bem com a vida. De acordo com a narrativa do videoclipe, a sua música faz senti-lo bem e gera bem-estar, alegria e paz nas pessoas. Eis o arquétipo de felicidade. Já em “Envolvimento”, videoclipe de MC Loma (na versão do canal Kondzilla)11, a artista está numa esplanada ao telefone e visivelmente irritada12. Mas eis que chega o seu motorista com um carro descapotável. Ela sai da esplanada e entra no carro após o motorista lhe abrir a porta. Começa assim o videoclipe. Depois, MC Loma canta no carro em andamento e de seguida no meio das suas bailarinas (desta feita, tendo um automóvel branco de marca BMW como pano de fundo). De repente, o cenário altera-se para um lugar de cor dourada, onde MC Loma está coberta de ouro e joias e com gestos semelhantes às esfinges. Entretanto, as três, MC Loma e as suas duas bailarinas aparecem num cenário noturno, de discoteca. O videoclipe acaba com MC Loma a entrar na casa luxuriante onde o motorista a havia deixado. É agora momento de perguntar: o que faz, no intelecto contingente daqueles que são influenciados por estas narrativas, muitas delas sem grande ligação entre letra e vídeo, este tipo de conteúdos e dinâmicas? Tendo em consideração o dispositivo teórico, os arquétipos de perfeição, sensualidade, erotismo e 11 Por uma questão de coerência com os restantes vídeos, optamos pela versão do Canal Kondzilla em detrimento da versão oficial (amador). 12 Disponível em: <https://www.youtube.com/ watch?v=lgJOJAmXlBw>. Acesso em: 02 de fev. 2019.
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 21 Ecrãs E lusofonia: uma circum-navEgação tEcnológica pEla contingência lusófona no YoutubE ostentação vigoram na contingência digital. Trata-se de uma narrativa sobre lugares luxuosos e modos da felicidade, em que o erotismo está omnipresente e a ostentação define uma espécie de arquétipo da perfeição. Ornamentado por objetos luxuriantes, o consumismo e as marcas servem de referenciais de tendência. 4.2. Wuant e o caso do fim da Internet Sobre o maior youtuber português – Wuant – o Jornal de Notícias conseguiu capturar uma parte da essência da sua influência numa reportagem intitulada “Ser Youtuber, o Sonho de Menino”. O artigo começa por descrever o caso da jovem Maria, de 11 anos, que havia chorado “baba e ranho” quando Wuant disse, devido ao aclamado artigo 13 da constituição europeia, que “o Youtube ia acabar, e que o canal do Wuant ia fechar”. Para Maria foi um choque porque “tudo o que ele diz é lei” – disse a sua mãe, Sandra Marques, a este jornal (LUZ, FERREIRA & ROCHA, 2018). O youtuber Wuant é um bom exemplo para descrever parte do intelecto que paira sobre a contingência: os seus conteúdos, formas e práticas servem de referência arquetípica para os sonhos profissionais e para as referências nas mais variadas dimensões da vida (crenças, desejos e necessidades de aprovação social) de milhões de jovens portugueses. Mas não só: como é possível observar pelos comentários aos seus vídeos, são muitos os indivíduos do Brasil e de outras paragens lusófonas que seguem o seu percurso. Ainda sobre o mesmo artigo do Jornal de Notícias, importa mencionar o clima de histeria que se instalou em Portugal, ultrapassando o público habitual
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 22 Pedro rodrigues Costa dos seus vídeos. O assunto levantado por Wuant era o do “fim da Internet”, num tom trágico e ao mesmo tempo gerando revolta contra os média tradicionais que alegadamente estariam por detrás de uma estratégia de aniquilação do futuro dos bloggers e youtubers de todo o mundo. Citando o próprio em declarações ao Jornal de Notícias: A Google provavelmente deixará de existir como existe na União Europeia; (…) Muita gente está a dizer que isto é o fim da internet. E eu concordo. O próprio YouTube mandou-me um e-mail para eu vos falar disto. (LUZ, P. S.; FERREIRA, R. R.; ROCHA, 2019, p. 2). Esta informação caiu nas redes sociais como uma bomba. Propagou-se para os jornais nacionais, provavelmente um dos grandes objetivos deste influenciador digital neste seu vídeo – alcançar mais públicos e propagar a sua rede de influência. É claro que, de acordo com Sandra Marques, enfermeira de profissão e mãe da jovem Maria que chorava “baba e ranho” ao ver o canal do Wuant e o anúncio do seu fim, isto é a pior coisa que alguém pode fazer para as crianças. Segundo esta ao Jornal de Notícias: Ela e as amigas também querem ser youtubers, porque tudo aquilo que eles lhes mostram é uma vida boa, em que o trabalho é prazer, é filmar e fazer paródias na internet, ganham todos imenso dinheiro e é como se estivessem sempre de férias. (LUZ, P. S.; FERREIRA, R. R.; ROCHA, 2019, p.7). As conclusões desta mãe sobre o sucesso de Wuant são semelhantes às que se encontram no sucesso do Funk do Canal Kondzilla (ainda que estejamos a descrever duas realidades totalmente diferentes, tanto
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 23 Ecrãs E lusofonia: uma circum-navEgação tEcnológica pEla contingência lusófona no YoutubE de entretenimento como de temáticas). Isto é, trata-se de uma atmosfera onde reina de igual modo a ostentação, a “vida boa”, geradora da ideia de que este tipo de “trabalho é prazer”, que é “fazer paródias” e ganhar “imenso dinheiro” como se estivessem “sempre de férias” (expressões usadas pela mãe da Maria), criam bases para orientar os desejos e os estilos de vida de referência. A ostentação promovida pelos youtubers em geral, ou como vimos no caso do Brasil pela cultura Funk mais visualizada, orienta-se para os desejos juvenis, onde reinam “espaços grandes e luminosos para jogar, ecrãs gigantes, máquinas de pipocas, de waffles e sumos (…), uma piscina, terraço com bela vista, a vida que qualquer miúdo gostava de ter” (Sandra Marques ao JN). Tal não significa uma crítica ao teletrabalho ou aos novos tipos de atividade profissional, mas antes ao teor “ostentatório” que tende a seduzir, quer pela via do consumismo como pela via do facilitismo inscrito na estética e nas narrativas – dois intelectos contingentes que se tornaram muito presentes entre as culturas juvenis13. Aquando desta polémica levantada por Wuant sobre “o fim da Internet”, suficientemente aliciante e astuta para se difundir massivamente e se tornar referência em todas as redes sociais e noticiários do espaço lusófono (português e brasileiro, sobretudo), a tristeza invadiu e preocupou, deprimindo milhares de crianças e adolescentes. Nesta senda, outros youtubers o imitaram neste assunto, cada um à sua maneira. Isto entronca num outro problema: o que é que os youtubers fazem, ou são capazes de fazer, para 13 Em Delírios de um Homem Fantasma (COSTA, 2018), é usada a metáfora do Hungry Ghost, espírito consumista e insaciável da atividade humana. O autor sugere um intelecto contingente marcado por este arquétipo-sombra.
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 24 Pedro rodrigues Costa alcançar a propagação máxima e preencher o intelecto contingente com os seus assuntos? Tanto a demonstração de partes da cultura juvenil como a ostentação de corpos e fortunas revelam uma ética, uma estética e uma atitude para confrontar os tempos atuais. A posse da “mercadoria”, seja material ou corpórea, é a grande mensagem subliminar presente em ambos os casos. 4.3. A música e um saudosismo cultural em Cabo Verde Em “Colina de Pedra”, José Hopffer Almada parece querer exprimir a identidade cultural de Cabo Verde como resposta à música “Nha terra escalabrode” (GOMES, 2003, p. 266). Nesse poema, o autor diz: Ouvi este som dolente Repercutindo a saudade da minha alma As minhas almas ancestrais Dos degredados e negreiros A morna é um crepúsculo de lágrima Desta súbita e antiga recordação [...] O funaná é uma remora e dolorosa saudade De outros horizontes E nele circulam o negro e o Negreiro no imenso rio da farsa sobre a ilha (HOPFFER apud GOMES, p. 266) Este “diálogo”, entre poetas e músicos, mostra Cabo Verde como lugar de poesia e música. A morna, género musical cabo-verdiano, surge como “um crepúsculo de lágrima”, e o funaná, um outro género, como parte da “dolorosa saudade de outros horizontes” onde circulam “o negro e o Negreiro”. Unidos, geram a ideia do cabo-verdiano Mário Fonseca: “Mon pays est une musique” (BRITO, 1999).
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 25 Ecrãs E lusofonia: uma circum-navEgação tEcnológica pEla contingência lusófona no YoutubE Estas considerações ganham destaque quando analisamos o Top 5 cabo-verdiano. Surge-nos, precisamente em primeiro lugar, o canal CV Músicas antigas. Com forte presença da música na cultura de Cabo Verde, o sucesso de visualizações deste canal relembra artistas clássicos como Cesária Évora, Zeca Di inha Reinalda, Tito Paris, ou também sons recentes como Jay Moreira ou Mika Mendes. Mas não só: a cantora portuguesa Mariza, com “Beijo de Saudade”, consta entre os vídeos mais visualizados. Tal constitui indício de uma lusofonia abrangente, agarrada ao sentimento da saudade. Tanto a morna como o funaná, e o fado da Mariza, funcionam como arquétipos melancólicos que continuam a servir de base para a produção sonora e do imaginário gerado neste canal. Este pedaço de intelecto contingente cabo-verdiano, adornado pela “saudade” e inscrito na cultura poética, nas músicas antigas e obviamente na dinâmica deste canal, indicia um fio condutor representativo do espelho cultural vivido na ilha: uma espécie de saudade como cultura que paira na contingência, demonstrando a forte presença da musica nas escolhas dos internautas locais. 4.4. Um romance: ostentação ou decadência? Em “Vamos Ficar por Aqui”, videoclipe do angolano C4 Pedro com mais de 15 milhões de visualizações, o primeiro comentário da lista, no dia 05 de abril de 2019, é de Bkjarke K, utilizador de origem nórdica. Depois de ver e ouvir, escreveu: “Listened to this nice song on the radio when driving through Portugal. Miss Portugal”14. Este reparo coloca-nos de 14 Consultado em <https://www.youtube.com/ watch?v=QR_74m5GeLo>. Acesso em: 5 abr. 2019.
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 26 Pedro rodrigues Costa sobreaviso sobre o alcance da lusofonia. Ou seja, o povoamento cultural e estético transcende, e muito, qualquer fronteira contingente. Daí a referência “ecrã-global” (LIPOVETSKY & SERROY, 2010b). Este videoclipe inicia com uma imagem focada nas pernas de uma mulher, bronzeadas e brilhantes, em que essa calça uns sapatos cor-de-rosa e veste um vestido da mesma cor sob uma areia de praia dentro de uma espécie de garagem. A segunda imagem é a de C4 Pedro, a grafitar o seu nome no canto inferior direito da parede, precisamente a servir de assinatura a um coração vermelho de três metros pintado antes. Enquanto isso, as pernas bronzeadas e brilhantes mostram agora o rosto: trata-se de uma jovem sentada e imóvel, com tinta de várias cores espalhadas na face. Que quer isto dizer? A presença de múltiplas cores pretende mostrar que o amor é multifacetado? Que a música não tem cor? Que a mulher é seu símbolo? Até aqui, poderíamos pressupor que C4 Pedro iria transmitir apenas essas duas ideias: amor e multicor. Mas a parte seguinte, tanto da música como do vídeo, opera um corte radical: eis que em cena entra um som repetitivo e duas bailarinas que se prestam a uma espécie de vassalagem ao artista, ladeando-o e rastejando a seus pés. Seguidamente, uma mesa luxuriante, com mais de quatro metros, com velas e ornamentos de fruta, em que C4 Pedro aparece de smoking formal numa ponta e a mesma mulher, agora com um vestido vermelho, na outra. Mas dois C4 Pedro, um formal (de smoking) e outro mais informal (vestindo um casaco de couro), alternam no ecrã e no cenário (entre a garagem e a mesa luxuriante) a cantar a mesma música.
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 27 Ecrãs E lusofonia: uma circum-navEgação tEcnológica pEla contingência lusófona no YoutubE Subitamente, em género de atitude raivosa, o artista C4 Pedro atira tinta de cor amarela sobre o gigante coração vermelho. E remata, cantando: “não, vamos ficar por aqui, a nossa história chegou ao fim”. Numa espécie de fúria, C4 Pedro pega num martelo e começa a partir o coração pintado nos tijolos. Revoltado com o fim do romance, parte a parede enquanto o vídeo oscila com imagens das duas bailarinas a rastejar nos seus pés sobre a lama. Ao fundo, aparece uma outra bailarina em biquíni, realçando a silhueta. E logo desaparece. O ritmo da música oscila entre um erotismo constante e uma história de desamor, onde está presente um ambiente contraditório: a lama e a luxuria, o glamour e a decadência. Isto é, na verdade, o início de uma música com sonoridade e estilo Funk. Exatamente, o mesmo tipo de Funk paulista, com estética ostentatória e de certo modo com uma erótica que vimos no topo do Youtube brasileiro – mas também na maioria do Funk norte-americano. Estamos diante de uma imitação ética e estética, senão de narrativas e de estilos de vida, que configuram um intelecto contingente capaz de atravessar muito mais do que a lusofonia. Trata-se, pois claro, de uma “cultura-mundo” (LIPOVETSKY & SERROY, 2010a) em permanente ligação e circulação, absorvida e imitada muitas vezes de modo acrítico ou então apresentando contradições várias. Mas há mais duas questões que nos intrigam neste vídeo: a presença de duas mulheres de cor branca e do facto do piso se assemelhar a petróleo. Sobre a presença das mulheres de cor branca: estará aqui o produtor/realizador a querer alcançar outros públicos? A querer satisfazer outros desejos arquétipos? A apon-
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 28 Pedro rodrigues Costa tar para maior transculturalidade? Ou será apenas mera acaso ou coincidência? Não temos respostas concretas, mas assinalamos o facto. Relativamente à questão do petróleo, já não podemos invocar o acaso nem a especulação. Trata-se de um material simbólico, associado ao poder económico. Aqui temos que relembrar Bourdieu: “as ideologias devem a sua estrutura e as suas funções mais específicas às condições sociais da sua produção e da sua circulação” (BOURDIEU, 2001, p.13). Em ambos os casos, importa referir que todas as produções simbólicas, como também é o caso dos videoclipes em análise, funcionam como “instrumentos de poder e de dominação” (BOURDIEU, 2001, P. 10). 4.5 Onório Cutane e a contingência mágico-religiosa em Moçambique O vídeo com mais visualizações do youtuber moçambicano mais visualizado (Apóstolo Onório Cutane)15 conta com cerca de 530 mil visualizações. Intitulado de Curandeiro Recebe Libertação, neste é feita uma “libertação” a um sujeito que diz ser curandeiro e que quer abandonar o ofício. De acordo com o vídeo, o curandeiro possui cerca de 3000 demónios presos no interior. Para tal explicação, o apóstolo Onório Cutane pede ao curandeiro para fazer uma demonstração das suas técnicas. Enquanto isso acontece, o apóstolo acompanha um musical tocado ao vivo, cantando por cima, em jeito de improviso, no palco diante da plateia. De repente, e após o curandeiro demonstrar o seu “poder” ao chamar outros espíritos, algumas 15 Visualizado em <https://www.youtube.com/ watch?v=E7WjCIUykcs>. Acesso em: 15 de abr. de 2019.
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 29 Ecrãs E lusofonia: uma circum-navEgação tEcnológica pEla contingência lusófona no YoutubE pessoas do público começam a manifestar-se: movimentos corporais estranhos e gritos primitivos. Onório Cutane, de microfone na mão, fala agora para o público que, afinal, contém elementos possuídos por demónios. Pede para ajudarem as pessoas que estão a manifestar demónios e para as juntarem num canto. Com isso, o curandeiro que está a demonstrar o seu poder aumenta a intensidade dos seus cânticos e dos seus movimentos exorcistas. A atenção da câmara está agora focada sobre ele. A histeria toma conta do lugar. De todas as esquinas daquele encontro, aparecem pessoas com demónios a serem transportadas para junto de outras na mesma situação. Passados alguns minutos, o apóstolo Onório Cutane interrompe e começa a falar para o público. A primeira frase, apontando para o curandeiro, é: “este senhor é curandeiro. Nenhum curandeiro tem o poder de curar a você. Só Jesus Cristo é que pode libertar”. Seguidamente, Cutane dirige-se ao curandeiro e começa a exorcizar o próprio curandeiro, dizendo em dialeto próprio (não lusófono): “Sai em nome de Jesus Cristo!”. Depois pergunta: “Quem és tu?”. Ao que o curandeiro, agora possuído e com voz alterada, responde: “fui escolhido para trabalhar no corpo dele”. Cutane insiste: “Que tipo de trabalhos?”. O curandeiro retribui: “buscaram meu espírito para vir habitar no corpo deste homem. Os que me levaram até este homem, tiveram dívidas no passado comigo”. Mas para Cutane a resposta é insuficiente: “E o que faz com ele?”. O demónio, possuindo o corpo e a voz do curandeiro, conclui: “Eu faço obras das trevas do curandeirismo”.
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 36 Pedro rodrigues Costa samento e metodologia de Ensino. São Paulo: Intercom, 2014. p. 551-558. MESSA, E. Influenciadores Digitais? #WTF: uma reflexão sobre a falta de visão das agências de publicidade sobre o universo de influência online. Youpix, 2016. MIZRAHI, M. A Institucionalização do Funk Carioca e a Invenção Criativa da Cultura. Antíteses, v. 6, n. 12, p. 855-864, jul./dez. 2013. DOI: 10.5433/1984-3356.2015v8n15p398 ORTEGA Y GASSET, J. Ensayos de crítica sobre Pio Baroja. El espectador I. Madrid: Alianza, 1998. RECUERO, Raquel. Atos de Ameaça a Face e a Conversação em Redes Sociais na Internet. In: PRIMO, Alex (Org.). Interações em Rede. Porto Alegre: Sulina, v. 1, p. 51-70. RIBEIRO, F.; BRUMLIK, M. Jung – A Consciência do Nosso Eu. Lisboa: Planeta Editora, 2007. SANTOS, M. S.; MATTOS, C. S. No ritmo neurótico: cultura funk e performances “proibidas” em contexto de violência no rio de janeiro. BDAE: PPCIS, 2006. SARTRE, Jean Paul. Questions de Méthode. Paris: Gallimard, 1960. SIMMEL, Georg. Fidelidade e Gratidão e Outros Textos. Lisboa. Relógio D’Água, 2004. SIMMEL, Georg. A Filosofia da Moda e Outros Textos. Lisboa. Gradiva, 2008. SOUSA, Vítor. Da Lusofonia à Portugalidade. Famalicão: Edições Húmus, 2017. TARDE, Gabriel. A Opinião e as Massas. São Paulo: Martins Fontes, 1992. TARDE, Gabriel. Les Lois D´imitation. Paris-Genebra. Coleção Ressources, 1979.
C&S – São Bernardo do Campo, v. 42, n. 2, p. 5-37, maio-ago. 2020 37 Ecrãs E lusofonia: uma circum-navEgação tEcnológica pEla contingência lusófona no YoutubE DaDos Do autor Pedro Rodrigues Costa é doutor em Ciências da Comunicação (Sociologia da Comunicação e Informação), pela Universidade do Minho, com a tese Entre o Ver e o Olhar: Ecos e Ressonâncias Ecrãnicas (2013). É mestre em Sociologia (especialização em Sociologia das Organizações e do Trabalho) e licenciado em Sociologia Geral. Entre as suas áreas de investigação constam as questões em torno da Cibercultura, Tecnologia e Estudos sobre ecrãs. É investigador do CECS, onde integra o Grupo de Estudos Culturais. ORCID: http://orcid.org/0000-0002-1223-6462 Email: [email protected] Morada: CECS-Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, ICS-Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Campus de Gualtar, 4710-057 Braga.