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Discursos sobre a pandemia: o discurso polémico para além do negacionismo

Ramos, Rui Lima

Abstract

Num cenário de pandemia provocado por um vírus invisível ao olho nu, o discurso sobre a situação sanitária global ganha relevo e converte-se em “discurso público dominante”, cruzando áreas diversas da vida individual e coletiva. O presente estudo analisa um destes discursos, uma crónica publicada num jornal nacional português de referência. Trata-se de um discurso polémico e contracorrente, que contesta outros discursos que circulam na esfera pública. São analisadas estratégias argumentativas, que passam pela tentativa de persuasão do leitor e pela construção do ethos do autor, e são analisadas as formas de relacionamento do autor com o espaço e os outros indivíduos, através da palavra.

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37 Ecolinguística: Revista Brasileira de Ecologia e Linguagem, v. 06, n. 03, p. 37-55, 2020. DISCURSOS SOBRE A PANDEMIA: O DISCURSO POLÉMICO PARA ALÉM DO NEGACIONISMO Rui Ramos (Centro de Investigação em Estudos da Criança/ Centro de Estudos Humanísticos/ Universidade do Minho – Portugal) Resumo: Num cenário de pandemia provocado por um vírus invisível ao olho nu, o discurso sobre a situação sanitária global ganha relevo e converte-se em “discurso público dominante”, cruzando áreas diversas da vida individual e coletiva. O presente estudo analisa um destes discursos, uma crónica publicada num jornal nacional português de referência. Trata-se de um discurso polémico e contracorrente, que contesta outros discursos que circulam na esfera pública. São analisadas estratégias argumentativas, que passam pela tentativa de persuasão do leitor e pela construção do ethos do autor, e são analisadas as formas de relacionamento do autor com o espaço e os outros indivíduos, através da palavra. Palavras-chave: Discurso polémico: Covid19; Coronavírus; Argumentação; Media; Negacionismo Abstract. Title: Discourses on the pandemic: polemic discourse beyond denialism. In a pandemic scenario caused by a virus invisible to the naked eye, the discourse on the global health situation becomes prominent and turns into a “publicly dominant discourse”, crossing different areas of individual and collective life. ECO-REBEL 38 The present study analyses one of these discourses, a chronicle published in a reference Portuguese national newspaper. It is a polemic and countercurrent discourse, which challenges other discourses that circulate in the public sphere. Argumentative strategies are analysed, which involve the attempt of persuading the reader and fabricating the author's ethos, as well as the author's forms of relationship with space and other individuals through words. Keywords: Polemic discourse; Covid19: Coronavirus; Argumentation; Media; Denialism Liberté Sur mes cahiers d’écolier Sur mon pupitre et les arbres Sur le sable sur la neige J’écris ton nom (…) Sur mes refuges détruits Sur mes phares écroulés Sur les murs de mon ennui J’écris ton nom (…) Et par le pouvoir d’un mot Je recommence ma vie Je suis né pour te connaître Pour te nommer Liberté Paul Eluard, Poésies et vérités, 1942 1. Introdução 1.1. O presente estudo pretende contribuir para o mapeamento dos discursos públicos sobre a pandemia provocada pelo vírus COVID-19, que afetou o mundo no final de 2019 e se prolongou até ao momento em que este é efetuado (em julho de 2020), prevendo-se, nesta data, que ainda permaneça afetando a humanidade durante muito tempo. Neste momento, o discurso sobre esta pandemia, construído com um foco médico, político, geoestratégico, económico ou com qualquer outro, transformou-se num “discurso público dominante” (JUNG, 2001): um discurso global, avassalador, cruzando um grande número de outros tópicos sociais, éticos, económicos, ambientais, de saúde pública, etc.; que não aborda um problema estanque, mas um agregado poroso de questões que pendem sobre a humanidade, ignorando fronteiras ou diferenças sociais, culturais ou religiosas, igualando a generalidade dos seres humanos sob a mesma ameaça; que configura um objeto invisível ao indivíduo, só percecionado pelas suas consequências (eventualmente mortais); e, sobretudo, que se constitui como um discurso significativo na configuração das experiências “em segunda mão” intermediadas pela comunicação social, que o faz impor-se e permanecer na esfera ECO-REBEL 39 pública, com um potencial de larga intervenção na sociedade, influenciando as perceções de cada indivíduo. 1.2. De entre todos os discursos públicos possíveis, buscámos um que fosse, de alguma forma, “contracorrente”, ou que contestasse o pensamento “mainstream”. Em princípio, são os discursos contracorrente que encerram um maior potencial de abalar as consciências, de sugerir leituras do mundo inovadoras e fraturantes, de suscitar a reflexão sobre as coisas e os seus estados de modo mais produtivo. Além disso, procurámos igualmente que o texto em causa refletisse sobre a relação entre os indivíduos e destes com o seu meio ambiente – ou, em termos próprios da linguística ecossistémica (Couto, 2015), incidindo sobre os usos da língua (L) por uma população (P), estabelecendo interações entre os membros da comunidade e destes com o seu território (T). Entre os discursos contracorrente, pontuam os negacionistas. É fácil ao indivíduo cruzar-se com estes discursos, normalmente sem fundamento, consideravelmente caricatos em função do conhecimento consolidado: terraplanistas, antivacinas, céticos das alterações climáticas, etc. Também em relação à pandemia houve e há discursos públicos negacionistas, com cambiantes diversas. Contudo, o discurso analisado não constitui um delírio sem fundamento, mas uma reação contra um outro discurso, o que entoa loas às vantagens das cidades silenciosas, vazias, sem trânsito, sem poluição sonora ou atmosférica, devido ao confinamento dos habitantes em suas casas, sugerido ou imposto em algum momento pela maioria dos governos. O autor (doravante locutor) afasta-se de tal posição, justifica a sua reação e procura congregar nessa reação o favor do leitor (doravante alocutário). 2. Quadro teórico 2.1. A abordagem adotada para este estudo é, por um lado, descritiva e, por outro, discursiva. Situase no lugar de confluência entre a Análise do Discurso de tradição francófona e a Linguística do Texto, com contributos mais recentes de abordagens afins e de áreas complementares, de índole discursiva e enunciativo-pragmática. Em particular, assumem relevo neste estudo a teoria da enunciação, na esteira de Bühler (1979), Benveniste (1975, 1978), Kerbrat-Orecchioni (1980) ou Fonseca, F. I. (1992); as questões de tipo/género textual (Adam, 1985, 1992, 2011); os contributos da Pragmática Linguística (a partir das propostas inaugurais de Searle, 1969); a questão da criação da imagem de si, ou ethos (inspirada em AMOSSY, 2010) e as reflexões da Linguística Ecossistémica (em particular, COUTO, 2015, 2019 e 2020) sobre a relação dos indivíduos entre si e com o seu meio, num processo interativo que passa necessariamente pela língua e os discursos. Nesta perspetiva, privilegiar-se-á a análise do “ecossistema social da língua” (COUTO, 2015: 60). 2.2. A perspetiva enunciativa-pragmática adotada concede relevo à dêixis como a categoria mais básica de construção do eu e do outro. Como é visível e fortemente atuante nos textos pertencentes ao tipo argumentativo (como é o caso), o compromisso do locutor com o conteúdo do seu dizer ECO-REBEL 40 passa pela afirmação da sua subjetividade, no sentido que Benveniste (1975, 1978) confere a este conceito, na medida em que a referenciação se constrói a partir da enunciação. E, aspeto absolutamente fundamental, a referenciação não é nem pode ser neutra, porque não pode ser descentrada do eu. As escolhas linguísticas e discursivas dependem, entre outros fatores, do género discursivo que, neste caso, é largamente devedor de uma determinada imagem do locutor. Tal imagem, ou ethos (AMOSSY, 2010), comporta uma dimensão prévia, ou pré-discursiva, fruto de enunciações anteriores, e uma dimensão discursiva, construída no discurso em causa. Da Linguística Ecossistémica tomamos, para além dos conceitos de população, língua e território, o de “comunidade de fala”, como se verá abaixo: “um ecossistema linguístico constituído por um território geralmente de pequenas proporções, em que os atos de interação comunicativa entre seus membros se dão com relativa frequência” (COUTO, 2016: 50). Cada ato de discurso ocorre no seu contexto próprio e, num cenário de normalidade, será adequado às normas em vigor na comunidade. Terá os efeitos perlocutórios em vigor nessa comunidade e, no caso, o exercício da influência assume um relevo incontornável, como é indiciado pela organização textual. 3. O corpus 3.1. O texto selecionado para análise é um artigo de opinião (uma crónica) intitulado “As cidades mortas”, da autoria do sociólogo António Barreto e publicado no segundo caderno do diário Público em 12 de abril de 2020. Encontra-se transcrito em anexo, com os seus parágrafos numerados para facilidade descritiva (ver Anexo no final do artigo). Este jornal tem circulação nacional e reclama ser um diário de qualidade, tendo amplo reconhecimento no panorama português. Aos domingos, a edição inclui um segundo caderno, essencialmente com artigos mais longos do que os que ocupam diariamente o primeiro caderno, entre reportagens, entrevistas e artigos de opinião. É neste quadro que surge o artigo de António Barreto, numa rubrica regular intitulada “Grande angular”. 3.2. António Barreto é um líder de opinião largamente conhecido e reconhecido em Portugal. Doutorado em Sociologia, professor universitário jubilado, foi ministro, deputado, comentador televisivo e autor de documentários de cariz sociológico sobre a população portuguesa, assunto sobre o qual publicou larga bibliografia. Entre 2009 e 2014, foi Presidente do Conselho de ECO-REBEL 41 Administração da Fundação Francisco Manuel dos Santos, tendo criado o Pordata, um importante portal de informação estatística (inicialmente só sobre Portugal, mas depois alargado a outros espaços), de acesso gratuito. Estas breves observações prendem-se com o ethos prévio ou pré-discursivo do autor (AMOSSY, 2010). Tratando-se de um enunciador qualificado, é reconhecido não só como porta-voz da opinião pública, mas sobretudo como líder de opinião. Tal estatuto exige-lhe padrões de razoabilidade elevados, mas atribui-lhe igualmente um crédito de respeitabilidade relevante. 3.3. O título da rubrica anuncia o tipo de texto que o leitor encontrará. “Grande angular” é uma designação que remete para equipamento fotográfico ou cinematográfico e uma “lente grande angular” será uma que permite uma imagem ampla, uma visão alargada sobre uma determinada coisa ou estado de coisas. A par do título, a organização física da página do jornal sugere que se trata de um ponto de vista pessoal e assumido: o artigo é assinado e a fotografia do autor acompanha a assinatura. O relevo do autor é ainda manifestado pelo facto de o seu artigo ocupar toda a página, sem ter de partilhar o espaço com outros autores ou textos. O facto de António Barreto ser autor regular de uma rubrica com tal relevo constitui um incremento de credibilidade, reforçando o seu ethos pré-discursivo. 3.4. O texto em causa é, como indiciam os elementos paratextuais e peritextuais apontados acima, um artigo de opinião. Tal facto será comprovado pelo conteúdo, enunciativamente assumido. Na esteira de Adam (1985, 1992, 2011), classificar-se-á como texto argumentativo. É, portanto, construído sobre enunciações que lhe são prévias e que é suposto o enunciador conseguir recuperar da esfera pública. O discurso de opinião nos media constrói-se sobre esses discursos prévios, retoma-os e recupera as suas linhas de desenvolvimento mais relevantes para se aproximar ou afastar delas, para reforçar, reorientar ou inverter os seus rumos argumentativos. Não nos referimos somente a uma presença latente de discursos outros, prévios ou futuros, que assistem cada enunciação, como lembra Bakhtin (2006); referimo-nos mais especificamente a estratégias de retoma desses discursos outros, de forma mais ou menos explícita, para que possam ser identificados pelo alocutário e, assim, ser produtivos na interação verbal. Abaixo, identificaremos e analisaremos algumas dessas formas de retoma discursiva, para apontar alguns aspetos da heterogeneidade enunciativa que carateriza o artigo em causa. ECO-REBEL 42 4. Análise 4.1. O artigo em análise foi publicado em 12 de abril de 2020 no jornal Público. Fica assim definido o seu momento de enunciação e identificada a situação social para a qual remete: o quadro geral de reação mundial à pandemia provocada pelo vírus COVID19. Os poderes políticos nacionais tinham decretado o “estado de emergência” e a generalidade dos cidadãos encontrava-se confinada às suas casas, em regimes de teletrabalho ou de suspensão do trabalho, isolados nos seus núcleos familiares e evitando todo e qualquer contacto não essencial. Muitas cidades apresentavam-se quase desertas, com as suas ruas silenciosas e vazias. É desta observação dos estados de coisas, evocada de forma explícita e implícita, facilmente partilhável entre locutor e alocutário, que o texto parte e se desenvolve. A estrutura textual é marcada por um eixo organizador de caráter opositivo. Este gera quatro contraposições relevantes para a sua retórica inerente, intimamente imbricadas entre si: a) a contraposição entre uma voz comum, evocada pelo locutor, e a sua própria voz; b) a contraposição entre a cidade morta e a cidade pujante de vida; c) a contraposição entre a face negra e a face criadora e livre da cidade; d) a contraposição entre a cidade e o campo. 4.2. “As cidades mortas” – assim se intitula o artigo em análise. O título de um artigo de imprensa assume um papel importante: congrega a atenção do leitor e inicia o processo de comunicação. Desempenha uma função cognitiva relevante, um papel projetivo na interação proporcionada pelo texto; constitui uma catáfora, a ser resolvida no corpo do artigo, o que vale por dizer que estabelece os laços inaugurais de cumplicidade entre locutor e alocutário, não só pelo convite à leitura que sempre estabelece, como pelo anúncio da sua temática e pela ativação dos primeiros pressupostos. O título de um artigo de opinião na imprensa, ao contrário dos artigos de informação, não tem de ser um resumo do conteúdo do artigo. Por isso se apresenta frequentemente elíptico ou incompleto, o que é compatível com algum exercício de sedução: o leitor é implicitamente convidado a completar a informação sugerida ou insinuada, lendo o artigo. No caso presente, o título encerra um outro atrativo: traça um cenário fortemente disfórico. Explora, desse modo, a atração mórbida pelo lado mais negro dos estados de coisas. ECO-REBEL 43 4.2.1. O quadro geral decorrente das coordenadas enunciativas e do título é telegraficamente resumido pelo locutor na abertura do artigo como “tempos difíceis”. Esta formulação económica conta com a cooperação interpretativa do alocutário e dá curso aos procedimentos de partilha e cumplicidade entre os dois. O alocutário sabe que o discurso da imprensa se focaliza no passado relevante recente (RAMOS, 1998) e que o locutor se pronuncia sobre a realidade social, política e económica do país. Assim, todas as coordenadas enunciativas (BENVENISTE, 1975, 1978) estão definidas: está clarificado o eu/aqui/agora que enforma qualquer enunciação e mesmo o assim (FONSECA, F. I., 1992), ou a modalização operada no/pelo discurso. De facto, o locutor manifesta desde a primeira frase o seu ponto de vista sobre as coisas e seus estados, com a qualificação que realiza dos “tempos”. 4.2.2. O reportório lexical do artigo inclui um conjunto relevante de expressões de alto valor disfórico, compatíveis com o desenho de “cidades mortas” e “tempos difíceis”. Por um lado, são identificáveis vários termos do campo lexical de “morte” e “destruição”: “cemitérios”, “bomba de neutrões”, “mata”, “ruínas”. Por outro lado, é fortemente marcada a ausência / a privação, nomeadamente pela repetição da preposição “sem” a cadenciar um conjunto de frases e segmentos frásicos sucessivos: “Pode haver alegria em cidades sem urbano, cidades sem conversa e sem intriga, cidades sem correrias, sem atrasos, sem reuniões, sem idas para o trabalho, sem escolas, sem crianças e sem sirenes de ambulâncias? Pode haver cidades sem polícias e ladrões?” (§ 2). 4.3. E em todo o parágrafo que carateriza esses “tempos difíceis”, o primeiro do artigo, o locutor evoca vozes dispersas, sem identificar os respetivos enunciadores. Trata-se de comentários e apreciações que circulam na esfera pública, desde os media institucionais às redes sociais, que louvam o silêncio das cidades desertas, a diminuição da poluição atmosférica ou sonora, a redução do número de turistas que enxameiam os centros urbanos. Aparentemente, vozes sensatas. O locutor parte, desta forma, de um terreno partilhado com o alocutário para construir a sua argumentação. Captada a benevolência do auditório, ele poderá adotar o rumo argumentativo que desejar. Numa abordagem linguística ecossistémica, poderia dizer-se que, com estes segmentos iniciais, foi estabelecida uma “comunhão” (COUTO, 2015: 70) entre locutor e alocutário que permitirá o desenvolvimento do “ato de interação comunicativa (idem, ibidem: 63) entre os dois. ECO-REBEL 44 4.3.1. A evocação das vozes outras opera-se através da estratégia de repetição: “Há quem diga explicitamente (…). Há quem pense e quem diga a sério (…). Há quem pense (…)” (§ 1). A estrutura sintática linear e a organização textual transparente permitem ao alocutário acompanhar o raciocínio do locutor, aproximando ambos. O texto ganha cadência e ritmo, tornando a leitura fácil e agradável. Ainda que estas enumerações possam parecer meras operações de referenciação objetivas, o efeito produzido é o do excesso – de gente a realizar enunciações e de elementos discretos que caraterizam os estados de coisas. 4.3.2. Outra estratégia que passa pela repetição prende-se com o uso da preposição “sem”, que marca enfaticamente a ausência, como foi referido, o que é compatível com o que o título do artigo anunciava, um cenário de morte da cidade (e nada marca a “ausência” como a morte). De novo, a repetição em segmentos curtos confere ritmo e até previsibilidade à estrutura sintática, numa estratégia de cativação do alocutário. 4.3.3. Assinale-se igualmente a repetição sucessiva de perguntas retóricas: “Pode haver sossego em cidades silenciosas e ruas vazias…?” (§ 2). Estes enunciados podem ser considerados “falsas perguntas”, na medida em que desrespeitam as condições preparatória e de sinceridade das perguntas verdadeiras. De facto, o enunciador que usa uma pergunta retórica somente procura a verbalização (material ou mental), pelo seu alocutário, do conteúdo proposicional já incluído no seu enunciado com forma interrogativa. Estes enunciados são caraterizados por uma inversão de polaridade entre a sua estrutura de superfície e o conteúdo proposicional que carreiam (Fonseca, 1993): ao interrogar sobre p, o locutor sugere não p. Assim, as quatro perguntas retóricas sucessivas, todas com a mesma estrutura, valem pela asserção veemente de sentido oposto: “não pode haver” os estados de coisas evocados. A conclusão, contudo, é aparentemente deixada ao alocutário, ainda que fortemente condicionado no seu raciocínio pela orientação argumentativa do locutor. A repetição cria uma sensação de gradação, de intensidade crescente na configuração dos estados de coisas. ECO-REBEL 51 Referências ADAM, J.-M. Les Textes: types et prototypes. Récit, description, argumentation, explication et dialogue. Paris: Nathan, 1992. 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Nem autocarros ou aviões por cima das cabeças. Há quem pense que o exemplo das cidades durante a epidemia deveria ser uma lição e levar as autoridades a fazer com que as cidades, depois, um dia, fossem mais ou menos o que são hoje: quase desertas. Ou com a beleza do silêncio dos cemitérios. 2. Tanto disparate! Sabe-se que a morte pode ser fotogénica e que a dor dos outros pode ser atraente. Mas daí a estabelecer a beleza destas cidades mortas vai um passo que roça a loucura ou a tolice. Pode haver sossego em cidades silenciosas e ruas vazias, com comércios fechados e sem passeantes? Pode haver paz em cidades sem vida, sem cheiro, sem ruído de fundo e sem agitação? Pode haver alegria em cidades sem urbano, cidades sem conversa e sem intriga, cidades sem correrias, sem atrasos, sem reuniões, sem idas para o trabalho, sem escolas, sem crianças e sem sirenes de ambulâncias? Pode haver cidades sem polícias e ladrões? 3. As cidades desta epidemia são cidades sem vida, paradas no tempo, sem alegria, são cidadescemitérios. São cidades depois da bomba de neutrões, que poupa as coisas, mas mata os seres humanos e os animais. As cidades com vida são grandes criações humanas, quase obras de arte, mas sem dúvida obras de génios, do génio de planeadores e de génios de milhares de indivíduos e de milhões de decisões que, sem plano, convergem e criam. A cidade é um dos cumes da criação ECO-REBEL 54 social. É na cidade que existe cultura, igualdade, democracia, discussão e tolerância. Sabemos que também pode haver crime, roubo, doença, acidente, mas tudo isso é nada comparado com a liberdade e a criação que a cidade nos dá. Nem com a alegria que nos proporciona. Até porque a cidade também é protecção [sic] e segurança. 4. O mistério, o encanto e a alegria da cidade foram analisados e cantados pelos melhores. Por Lewis Mumford, que, apesar da sua visão crítica das cidades contemporâneas, realçou como poucos a ideia de que a cidade, mais do que matéria e engenharia, é obra de espírito. Por Italo Calvino, que, melhor do que ninguém, mostrou que as cidades são como os sonhos, feitos de medos e de desejos. Por Santo Agostinho, que gravou as expressões Cidade de Deus e Cidade da Terra, com as quais quase resumiu a condição humana. Por Augusto Abelaira, que, na Cidade das Flores, nos levou, há mais de cinquenta anos, a uma Lisboa disfarçada de Florença, onde sugeriu que a palavra e a arte acompanhavam os desejos de juventude e que política e amor podiam andar juntos. Por Jacques Le Goff, que nos garantiu que, desde a Idade Média, foram as cidades que permitiram e criaram as ciências e as letras. E até por Alphonse Allais, que escarnecia dos que vociferavam contra os problemas urbanos, recomendando-lhes que simplesmente deveriam construir as cidades nos campos! 5. Para Marco Polo e o Kublai Khan, segundo Calvino, havia pelo menos 55 tipos de cidades. É possível. Todas elas com ideia e espírito. Todas com história e vocação. Todas com um lugar no património da humanidade. E parece que não há duas cidades iguais. Nem sequer parecidas. Há Veneza, única. Atenas e Esparta. Cusco e Machu Picchu. Tróia [sic], Cartago e Alexandria. Babilónia e Roma. Palmira, Constantinopla e Alepo. Foi nas cidades que se fizeram as universidades e as bibliotecas. Mas também as orquestras e os museus. Cada cidade é um resumo de vida e de história. Há nomes de cidades que nem precisam de ser ilustrados. A Cidade Proibida, da autoridade. A Cidade Aberta, da liberdade. A Cidade República e a Cidade Império. A Cidade de Arte. A Cidade Antiga. A Cidade Medieval. A Cidade Ideal, do Renascimento. A Cidade Industrial. A Cidade-Luz. A Cidade do Vinho. Ou a Cidade ao lado das Serras. E as duas cidades das cenas no tempo da revolução francesa! Há cidades mágicas, invisíveis, felizes, operárias, financeiras e burguesas. O que não há são cidades mortas, cidades desertas, cidades-cemitérios, cidades ruínas… Ou antes, não deveria haver. São contradições nos termos. ECO-REBEL 55 6. Um povo sem cidade é um povo triste. Ou atrasado. Ou conquistado. Ou escravo. O Imperador louco pegou fogo à cidade, Roma. Os deuses destruíram e castigaram as cidades de maus costumes, Sodoma, Gomorra e Pompeia. Quando fizeram campos de concentração na Alemanha, esvaziaram cidades. Quando sonharam com a reeducação de cidadãos na China, foram estes enviados para o campo. Quando pretenderam castigar os adversários e os homens livres na Rússia, foram deslocados para os campos. Quando os tiranos desejaram consolidar o seu poder no Camboja, tiraram milhões de pessoas das cidades. Napoleão e Hitler queriam as cidades, quiseram Moscovo, em Moscovo esbarraram e a guerra perderam. Os ditadores não se sentem bem nas cidades. Nem gostam de quem vive nas cidades, porque a liberdade é citadina. E porque cidadania vem de cidade. 7. As cidades são antros de crime e pecado. Têm noites malvadas e esquinas fatais. Têm escadinhas de droga e de assalto. Têm becos de má fama e calçadas de reputação duvidosa. Têm tango e fado. Têm esplanadas de espiões e mirones. Têm especuladores e açambarcadores. Têm criança abandonada, mulher explorada, homem bandido, velho adoentado e jovem a quem batem. Têm minorias oprimidas e máfias tribais. As cidades têm crime e doença, têm violência e drama, mas é nas cidades que encontramos o sentido criativo, a invenção e o progresso. As cidades têm exploração e despotismo, mas é nas cidades que temos liberdade. Aliás, a liberdade é urbana. Sociólogo Aceito em 01/07/2020. ECOLINGUÍSTICA: REVISTA BRASILEIRA DE ECOLOGIA E LINGUAGEM (ECO-REBEL), V. 6, N. 3, 2020.