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Redação e tradução de guias turísticos de cidades chinesas: o caso da empresa ArrivalGuides

Marques, Pedro Miguel da Silva

Abstract

O presente relatório tem como foco as atividades desenvolvidas ao longo do estágio na empresa ArrivalGuides, situada em Gotemburgo, Suécia, contextualizando-as com a situação atual da indústria da informação turística. Deste modo, este trabalho encontra-se dividido em três capítulos. No primeiro capítulo pretende-se dar a conhecer a empresa, o seu modelo de negócio, estrutura e regulamento. São também descritas as atividades desenvolvidas no âmbito do estágio. O segundo capítulo foca-se no enquadramento teórico dos tópicos levantados pela componente prática do estágio: os vários tipos de turismo; o consumo, presença online e impacto da informação turística no consumidor; e o estado atual e passado do turismo recetor na República Popular da China. São também analisados os resultados de um inquérito relativo ao consumo de informação turística realizado no âmbito deste relatório. Por último, o terceiro capítulo expõe as metodologias utilizadas no estágio e os problemas encontrados na criação de guias turísticos de cidades, apresentando as soluções adotadas na resolução destes.

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ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual CC BY-NC-SA https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/ iii AGRADECIMENTOS Gostaria de deixar o meu profundo agradecimento a todos aqueles que contribuíram direta e indiretamente a concretização deste trabalho. Começo por deixar o mais sincero agradecimento à Doutora Bruna Peixoto, por ter aceite ser minha orientadora e por toda a ajuda e atenção despendida ao longo deste projeto. O meu percurso académico não teria sido o mesmo sem os docentes da Licenciatura em Línguas e Culturas Orientais e do Mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês: Tradução, Formação e Comunicação Empresarial, aos quais agradeço por todo o conhecimento que partilharam comigo e por todas as experiências que me fizeram vivenciar. À Professora Doutora Sun Lam, pelo apoio dado durante licenciatura e durante o mestrado. À minha família, pelo apoio inesgotável ao longo de todo o meu percurso académico. À Mariana Gomes, por nunca hesitar em me apoiar. À Catarina Assunção, à Cláudia Pinto, ao Diogo Pereira, ao Francisco Teixeira, ao Hugo Veloso, ao João Cruz, à Paola Fong e ao Paulo Freitas, por terem estado ao meu lado ao longo de todo o meu percurso académico. À Annalisa Trevisan, à Audrey Ferré, à Brixhilda Dedej, ao Matt Jones, ao Victor Betus e à Roberta Sandri, por tudo o que me proporcionaram dentro e fora do trabalho. À Polina Davydova, pelo excelente exemplo de chefia. Ao programa Erasmus+ e à empresa ArrivalGuides por me terem possibilitado esta experiência profissional e académica. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. v Redação e tradução de guias turísticos de cidades chinesas: o caso da empresa ArrivalGuides RESUMO O presente relatório tem como foco as atividades desenvolvidas ao longo do estágio na empresa ArrivalGuides, situada em Gotemburgo, Suécia, contextualizando-as com a situação atual da indústria da informação turística. Deste modo, este trabalho encontra-se dividido em três capítulos. No primeiro capítulo pretende-se dar a conhecer a empresa, o seu modelo de negócio, estrutura e regulamento. São também descritas as atividades desenvolvidas no âmbito do estágio. O segundo capítulo foca-se no enquadramento teórico dos tópicos levantados pela componente prática do estágio: os vários tipos de turismo; o consumo, presença online e impacto da informação turística no consumidor; e o estado atual e passado do turismo recetor na República Popular da China. São também analisados os resultados de um inquérito relativo ao consumo de informação turística realizado no âmbito deste relatório. Por último, o terceiro capítulo expõe as metodologias utilizadas no estágio e os problemas encontrados na criação de guias turísticos de cidades, apresentando as soluções adotadas na resolução destes. Palavras-Chave: Consumo de informação turística; Guias turísticos; Turismo na República Popular da China vi Writing and translating travel guides for Chinese cities: ArrivalGuides company case study ABSTRACT The main objective of this report is to expose, analyze, and contextualize the activities conducted throughout the internship at the company ArrivalGuides, based in Gothenburg, Sweden. This work is therefore divided into three chapters. The first chapter serves the purpose of introducing the company, its structure, business model and regulations, as well as the activities conducted during the internship. The second chapter aims to provide a theorical context to the issues raised by those activities—the various types of tourism; the consumption of travel information, it’s online presence, and it’s impact on the consumer; and the current estate of inbound tourism in the People’s Republic of China. This chapter also contains the analysis of a travel information consumption survey conducted in the context of this report. The last chapter focuses on the working methodologies adapted throughout the internship and the difficulties found while writing and editing travel guides for Chinese cities, as well as the solutions used to overcome these difficulties. Keywords: Consumption of travel information; Tourism in the People’s Republic of China; Travel guides vii 撰写和翻译中国城市旅游指南:ArrivalGuides公司案例研究 摘要 本实习报告的主要内容是展示本人在位于瑞典哥德堡的ArrivalGuides公司所进 行的与旅游信息相关的实习。因此,实习报告分为三章。第一章对公司进行了介 绍,既公司的结构、业务模式和法规以及实习期间本人执行的任务。第二章旨在 为这些任务的实际操作提供理论背景,既旅游产业的种类,旅游信息的消费,在 线信息对旅游消费者的影响,并分析了中国境内旅游业的过去与现状。这一章还 分析了在本报告范围内进行的旅游信息消费调查的结果。最后,在第三章,阐述 了整个实习过程中采用的方法和在创建城市旅游指南时遇到的问题,以及为解决 这些问题所采用的方案。 关键词: 旅行信息消费; 旅游指南;中华人民共和国的旅游业 4 Os POI são artigos constituídos por informações relativas ao ponto turístico em questão. Todos os POI devem conter o nome, localização (se aplicável), contacto (quando possível), horário e uma fotografia do ponto turístico sobre a qual o POI é elaborado. Por exemplo, os POI da secção “Ver & Fazer” devem ser artigos referentes a atividades ou atrações turísticas e recreativas (tais como museus, parques de diversão, monumentos, etc.), devendo conter toda a informação acima referida. Os POI são a fundação de todos os guias. O mínimo estabelecido de cinco POI por secção é por norma ultrapassado (o número de POI é consideravelmente maior em guias de cidades maiores e/ou de cidades patrocinadas, isto é, cidades cujas entidades turísticas solicitam os serviços B2C da ArrivalGuides de forma a terem um guia turístico na base de dados, fazendo com que, em média, um guia tenha entre sessenta a setenta e cinco POI). A escolha de uma cidade para elaborar um guia é o resultado de um de dois fatores: (i) o fator prioritário é a compra do serviço por entidades de turismo de uma cidade através da vertente B2C da ArrivalGuides; (ii) no caso de destinos turísticos em que entidades externas não recorrem aos serviços B2C da ArrivalGuides, a empresa escolhe, autonomamente, uma cidade em função da sua popularidade. Independentemente do motivo da criação, todos os guias estão disponíveis gratuitamente para o consumidor na página da ArrivalGuides. As entidades de turismo referidas tanto podem ser gabinetes de promoção do turismo como empresas de transporte de passageiros que operem rotas entre as cidades visadas, como é o caso da Eurowings. Caso o guia seja patrocinado por entidades promotoras do turismo, estas têm o direito de selecionarem e produzirem todo o conteúdo e a informação do guia, isto é, têm a possibilidade de controlar todos os pontos de interesse e as suas respetivas informações. Ainda na vertente B2C , uma empresa pode ainda solicitar a criação de um POI num guia, como acontece, por exemplo, com alguns restaurantes presentes nos guias da ArrivalGuides. No que diz respeito aos guias escolhidos pela empresa, há um foco na escolha de cidades com grande procura turística, sendo que a ArrivalGuides tenta, ao mesmo tempo, ter disponível um guia para as capitais de todas as nações. O modelo de negócio da empresa prioriza a vertente B2B do serviço, responsável pela quase totalidade dos ganhos. A vertente B2C serve, acima de tudo, como uma amostra dos serviços e do produto da empresa, permitindo em simultâneo o acesso gratuito do consumidor a todos os guias, em formato web e em PDF. O formato PDF é gerado automaticamente a partir dos POI do guia em questão. O conteúdo criado para a vertente B2B consta na página da ArrivalGuides, tal como o conteúdo criado fora dessa vertente. Na Fig. 2 apresenta-se o exemplo de um guia não patrocinado de uma cidade chinesa. 5 Figura 2. Página inicial para o consumidor da ArrivalGuides 4 1.3. Contextualização das atividades realizadas no estágio O estágio foi realizado ao abrigo do programa Erasmus+ (Mobilidade de Estudantes para Estágios), com uma duração de 4 meses (de 29 de abril a 30 de agosto de 2019). A carga horária semanal era de 35 horas, que correspondem a 7 horas diárias, de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h. As tarefas realizadas foram: a) Criação e edição de guias turísticos Esta foi a atividade central e mais extensa do estágio. As cidades sobre as quais os guias tinham de ser elaborados eram atribuídas pela supervisora, tendo a tarefa um prazo de entrega indefinido. No entanto, a sua realização, normalmente, não excedia uma semana. 4 in http://www.arrivalguides.com/en [Acedido a 20 de setembro de 2019] 6 Todos os guias encontram-se alojados no sistema de gestão de conteúdo da empresa (CMS) (cf. Fig. 3). O CMS foi criado pela ArrivalGuides e conta com funcionalidades que permitem a edição e criação dos guias e dos seus POI diretamente na base de dados, o que torna desnecessário o uso de ferramentas ou programas externos à plataforma. O acesso ao CMS é somente cedido aos colaboradores da equipa de conteúdo. Figura 3. Página inicial do sistema de gestão de conteúdo Dada a natureza desta tarefa, a sua elaboração foi repetitiva e, por vezes, pouco gratificante. A quantidade de POI e a sua índole fez com que as estruturas frásicas e o vocabulário acabassem por ser repetidos com alguma frequência. No capítulo III apresentar-se-ão os métodos empregados para superar este problema. Os guias criados e editados ao longo do estágio foram maioritariamente referentes a localizações chinesas, sendo usado para o efeito fontes de pesquisa em chinês. b) Atualização de guias turísticos existentes Ao longo do estágio foram também editados guias referentes a localizações mundiais, por necessidade da empresa. No entanto, estas localizações representaram uma porção menor das 7 tarefas realizadas, pelo que o presente relatório prioriza o trabalho feito nos guias de localizações chinesas. A diferença na realização de guias de localidades chinesas e não chinesas consistiu maioritariamente nos meios de pesquisa utilizados. Tal como foi referido antes, a informação contida nos guias patrocinados é escolhida e produzida pelas entidades responsáveis. No entanto, quando o contrato do serviço prestado pela ArrivalGuides chega a um término e não é continuado por vontade da empresa, é necessário que o departamento de Conteúdo edite todo o guia, de forma a impor um tom mais neutro e menos publicitário – na sua maioria, os guias patrocinados têm excesso de exclamações, hipérboles e informações redundantes. No passado, a criação e edição de guias era uma tarefa cuja responsabilidade era entregue a terceiros, nomeadamente a agências de produção de conteúdo que contavam com colaboradores freelancer para a criação dos guias. A garantia de qualidade dos guias produzidos era então responsabilidade dos mesmos, o que resultou na ocorrência de algum conteúdo com erros gramaticais, erros de sintaxe frásica e informação em inconformidade com a realidade. Uma parte do estágio foi atribuída à correção deste mesmo conteúdo, pertencendo este a guias não limitados a localizações chinesas. c) Promoção dos guias turísticos A promoção dos guias turísticos constituiu uma parte mínima, porém importante, das funções executadas. Sendo o produto da empresa um serviço online, é necessário que o conteúdo seja escrito de forma a ser facilmente encontrado em motores de busca. Para tal é necessário recorrer a técnicas de Search Engine Optimization (SEO). SEO trata-se de “uma metodologia de estratégias, técnicas e táticas usadas para aumentar o número de visitantes de um website através da obtenção de uma posição mais destacada nas páginas de resultados de um sistema de pesquisa online ” 5 . Estas técnicas influenciam diretamente o teor do conteúdo escrito, uma vez que impõem o uso de termos e expressões que façam a página web em que o guia está inserido sobressair sobre os restantes resultados de pesquisa. Ainda no que toca à promoção do conteúdo, uma componente minoritária das atividades desenvolvidas consistiu na divulgação de conteúdo de forma a manter uma presença online 5 “Search engine optimization is a methodology of strategies, techniques and tactics used to increase the amount of visitors to a website by obtaining a high-ranking placement in the search results page of a search engine” (in https://www.webopedia.com/TERM/S/SEO.html [acedido a 30 de outubro de 2019]) (TdA) 8 significativa, através do uso de redes sociais (com foco na plataforma Instagram) e de publicações no blog da empresa (cf. Fig. 4). Figura 4. Página inicial do blog da ArrivalGuides 6 6 in https://blog.arrivalguides.com/ [Acedido a 9 de outubro de 2019] 9 2. Contexto atual do turismo Este capítulo ambiciona contextualizar o estado atual do turismo, as várias categorias em que a prática turística é realizada e a pesquisa que é feita no âmbito desta, com foco na informação online. Não esquecendo o contexto do estágio, são também explorados o passado recente e o presente da prática turística na República Popular da China. 2.1. Definição e tipos de turismo A World Tourism Organization (WTO) apresenta a seguinte definição de “turismo”: “Turismo é um fenómeno social, cultural e económico que implica a deslocação de pessoas para países ou locais fora do seu ambiente, para fins pessoais ou para trabalho/negócios.” 7 Segundo a WTO, o turismo surge, portanto, como uma subcategoria de viagem, conceito que, por sua vez, define como a deslocação feita por um viajante entre diferentes localizações geográficas, por qualquer motivo e durante qualquer período temporal. Os grandes avanços tecnológicos, diplomáticos, económicos e sociais fizeram com que a prática da viagem se tornasse mais acessível e conveniente que nunca (Joaquim, 2015). Neste contexto, considerando o significado lato da palavra “turismo”, Joaquim (2015, p. 17) define este conceito como “um fenómeno que abrange atividades, motivações e práticas tão diferenciadas entre si que o único elemento comum entre todas elas parece ser a mobilidade.” Esta palavra serve para unir um conjunto de fenómenos e atividades de naturezas diversas. Esta pluralidade de fatores faz com que os tipos de turismo variem em função de diferentes períodos temporais. Tureac e Turtureanu (2008, p. 92-94) afirmam que os tipos de turismo de uma época são o resultado das motivações e das estruturas culturais e sociais vigentes, assim como dos meios de transporte existentes. É de salientar que é impossível determinar se as atividades e produtos como aqueles desenvolvidos ao longo do estágio seriam possíveis de existir noutro tempo, passado ou futuro, com diferentes conjunturas políticas e económicas, costumes sociais e meios tecnológicos. Um serviço desta índole só existe neste momento porque todos estes fatores se conjugam de forma a permiti-lo. A categorização dos vários tipos de turismo, não 7 “Tourism is a social, cultural and economic phenomenon which entails the movement of people to countries or places outside their usual environment for personal or business/professional purposes.” (TdA), (WTO, n.d.) 10 obstante, também foi sendo definida por vários autores em função da sua contemporaneidade. Por exemplo, Hunziker & Krampf (1941, apud Tureac & Turtureanu, 2008) classificavam peregrinação e conhecimento científico como tipos e formas de turismo. Para Tureac e Turtureanu (2008, p. 93), a atividade turística pode geralmente ser dividida em seis tipos diferentes: “turismo de relaxamento; turismo de relaxamento e saúde; turismo de visita; turismo de trânsito; turismo de curta distância; turismo profissional.” 8 As autoras subdividem, consequentemente, estes tipos de turismo em função da escolha do propósito do viajante. O turismo de relaxamento (que busca o lazer e o escape ao ambiente diário do viajante), o turismo de visita (em que o viajante procura não só recreação mas também cultura, de forma a expandir os seus horizontes) e o de curta distância inserem-se na categoria de turismo voluntário, resultado da escolha da livre vontade do viajante, em busca de lazer. No turismo forçado (que consiste na deslocação turística como resultado de fatores externamente impostos ao viajante) encontram-se o turismo de relaxamento e saúde (por aconselhamento médico), o turismo de trânsito (feito por necessidade de transporte com um outro destino), e o turismo profissional (implica que a viagem é feita para usos ou benefícios profissionais do viajante). Hunziker e Krampf (1941, apud Tureac & Turtureanu, 2008), por sua vez, excluem o turismo profissional como tipo de turismo, uma vez que este está relacionado a uma atividade com fins lucrativos, afastando-se assim do conceito de atividades relacionadas com lazer ou com cuidados de saúde. Para a WTO, não são consideradas deslocações turísticas aquelas feitas involuntariamente por refugiados, militares e diplomatas. Tureac e Turtureanu (2008, p.95-97) consideram que o turismo de lazer é o mais predominante em termos de participação, sendo, consequentemente, o mais importante, especialmente em populações urbanas, mais ainda em grandes centros económicos, devido à acumulação de stress na realização de atividades fundamentais à dinâmica económica. Este turismo é uma prática menos comum em zonas rurais, não só por problemas de acesso e mobilidade, mas também por estas zonas apresentarem rendimentos económicos relativamente baixos. Tureac e Turtureanu (2008) afirmam ainda que, no que toca à componente de lazer, as atividades escolhidas pelo viajante tanto podem ser de descanso total, como também atividades opostas àquelas exercidas pelo viajante no seu dia-a-dia laboral, ou seja, pessoas que exercem atividades profissionais relacionadas com o intelecto tendem a optar por atividades mais físicas 8 “Relaxing tourism; Relaxing and health care tourism; Visiting tourism; Transit tourism; Reduced distance tourism; Professional tourism.” (TdA) 11 durante a prática turística (como desportos, caminhadas ou excursões), ao passo que aquelas que conduzem atividades laborais mais físicas tendem a procurar atividades com uma componente mais orientada para a intelectualidade. Os autores salientam ainda que esta prática turística é geralmente mais procurada em períodos em que as férias dos adultos coincidem com as férias escolares, fator que aparenta estar relacionado com a sua duração, que varia entre uma a duas semanas. Ao contrário do que era praticado há meio século, atividades turísticas com este fim, com a duração de três a quatro semanas, não são atrativas para os viajantes face às dinâmicas do mundo contemporâneo. Estas circunstâncias fazem também com os viajantes procurem visitar, no mesmo período de férias, vários locais ao invés de apenas um. A opção do viajante neste tipo de turismo é influenciada por fatores diversos, tais como o clima em função da época do ano, as infraestruturas, a distância, e o nível de riqueza dos cidadãos locais: locais mais ricos tendem a ter atrações turísticas mais sofisticadas que atraem um público com maior poder económico, e locais em que os rendimentos locais são mais baixos tendem a ter ambientes naturais como atrações turísticas, que podem ser devidamente exploradas por viajantes com capacidades económicas mais modestas. Korneliussen e Greenacre (2017) salientam o desenvolvimento económico do país de origem do viajante como um fator determinante neste tipo de turismo. Viajantes de países economicamente menos desenvolvidos tendem a limitar as suas deslocações turísticas ao seu país de origem, estando estas frequentemente relacionadas com visitas a pessoas conhecidas. Já os viajantes de países economicamente desenvolvidos têm possibilidades de realizar viagens mais longínquas e, consequente, mais caras. Este tipo de viajantes tende a procurar novas experiências e têm ao seu alcance uma maior variedade de destinos. Esta variedade faz com que, ao contrário dos homónimos de países menos ricos, os viajantes de países mais ricos visitem novos destinos com mais frequência. Por último, Tureac e Turtureanu (2008) fazem uma distinção nas opções dos viajantes em função da idade. Os viajantes mais velhos optam por destinos considerados calmos, como montanhas, resorts em áreas florestais e locais conectados à natureza no geral, propícios a atividades como caminhadas e meditação. Os viajantes mais jovens, por sua vez, optam geralmente por resorts costeiros ou destinos relacionados com a prática desportiva, recorrendo, por esse motivo, a vários meios de informação turística para tomarem decisões relativamente à viagem, tendo a possibilidade de optarem por meios de informação com custos acrescidos. 12 2.2. Padrões de consumo de informação turística As informações turísticas procuradas pelo consumidor podem variar de viajante para viajante, em função de fatores como o custo da viagem e o conhecimento quanto ao destino (Tjøstheim, Tussyadiah & Hoem, 2007). O processo de pesquisa pode ser dividido em dois métodos: pesquisa interna e pesquisa externa. A pesquisa interna consiste no uso da memória a longo prazo, com base em experiências passadas, como fator de decisão quanto à viagem. Quando esta não é capaz de fornecer informação suficiente, o viajante recorre a fontes externas. Estas fontes, por sua vez, podem ser tanto comerciais (anúncios, guias de viagem, guias turísticos, etc.), como não comerciais (familiares, amigos, e experiências pessoais). (Tjøstheim et al., 2007) A pesquisa interna evidencia-se como preferível tendo em conta a relação custo/benefício (Zins, 2007). Um só documento de informação turística pode ser adequado aos dois métodos em simultâneo. Um blogue de viagem, por exemplo, é uma memória pessoal do autor, da sua perceção e conhecimento empírico, fazendo com que o leitor, ao lê-lo como preparação para a viagem, recorra ao método externo (Zins, 2007). Num estudo conduzido por Tjøstheim et al. (2007), 47% dos inquiridos indicam a Internet como fonte primária na pesquisa de informação turística, cerca de três vezes mais do que aqueles que preferem a segunda fonte mais apontada, os livros de guia turística (13%). Seguem-se familiares e amigos (12%) e agências de viagem (10%). Uma minoria dos inquiridos recorre a outras fontes (≤4%), tais como brochuras de operadores turísticos, documentários televisivos, gabinetes oficiais de turismo, revistas, feiras de turismo, entre outros. Quanto a fontes adicionais que complementem a informação fornecida pela Internet , familiares e amigos surgem como a opção preferida (50%). A informação dada por pessoas próximas ao viajante tem um grande peso no planeamento da viagem e pode assumir um papel discriminatório em decisões que tenham de vir a ser tomadas relativamente à viagem. (Laesser, 2004, apud Tjøstheim et al., 2007). Seguemse os guias turísticos (49%), brochuras distribuídas por operadores turísticos (49%) e agências de viagem (37%). Zins (2007) conduziu um estudo com conclusões semelhantes: 41% dos inquiridos usou a Internet pelo menos uma vez no processo de planeamento da viagem. A pesquisa na Internet é também classificada pelo autor em diferentes categorias, como a pesquisa em motores de busca (37%), agência de viagem online (21%), portais de viagem (31%), pesquisa de meios de transporte (23%) e websites do destino da viagem (35%). Nos restantes meios de informação com 13 percentagem elevada, mas inferior à da Internet , surgem as brochuras (27%), familiares e amigos (25%), agências de viagem (21%) e livros de guia turística e revistas (21%). Num estudo relativo às características do viajante conduzido por Kah e Lee (2016), 55,8% dos inquiridos apontou a Internet como fonte de informação utilizada antes da viagem, seguida de familiares e amigos (18,1%) e brochuras de turismo (10%). Korneliussen e Greenacre (2017) conduziram um estudo relativamente à importância dada aos meios de informação turística pelos então vinte e sete países membros da União Europeia. Neste estudo é possível observar o seguinte fenómeno: 29,3% dos inquiridos aponta amigos e pessoas próximas como a fonte mais importante de informação turística. Segue-se a Internet (21,9%), experiência pessoal (18,8%), agências de viagem/turismo (11,4%), catálogos e brochuras (5,5%), livros de guia turística e revistas (4,8%) e, por último, os média (3,2%). De acordo com os resultados do estudo, os países do norte da Europa (Dinamarca, Finlândia, Países Baixos e Suécia) tendem a preferir meios de informação turística que não envolvam contacto pessoal, ao contrário de países do sul da Europa (Chipre, Espanha, Itália e Portugal), que tendem a preferir meios de informação que envolvam mais contacto pessoal. Países com PIB per capita semelhante apresentam resultados também semelhantes, sendo que a importância da Internet como meio de informação turística é mais alta em países com produto interno bruto per capita mais alto. A maior percentagem de inquiridos a afirmarem a Internet como principal meio de informação turística encontra-se na Suécia (19,9%), Irlanda (19,8%) e Áustria (19,7%). Viajantes de países que, para além de proximidade no PIB per capita, possuam também proximidade geográfica, histórica e cultural, tendem também a aproximar-se nas respostas dadas, como acontece com Espanha e Itália. Portugal e Grécia são exceções e apresentam dados que se assemelham àqueles relativos a viajantes da Eslovénia, Eslováquia, Estónia e República Checa. No caso de Portugal, investigações anteriores (Gursoy & Umbreit, 2004, apud Korneliussen & Greenacre, 2017) demonstram que as fontes de informação turísticas usadas em Portugal divergem daquelas usadas por outros países latinos ao incidirem na experiência pessoal e não em fontes de informação externas. 2.2.1 Inquérito online sobre o consumo de informação turística Ao longo da realização do estágio, conduzi um inquérito online para determinar os padrões de consumo de informação turística (cf. Anexo I). Este inquérito não teve qualquer requisito de participação, admitindo pessoas de todas as nacionalidades e faixas etárias. As perguntas, 20 apud Choi et al., 2018). No contexto da informação turística, quando um meio recorre a uma parceria e/ou patrocínio com a UNESCO, como entidade promotora da proteção e preservação de património cultural e natural, pode aumentar a perceção de autoridade dos viajantes (Choi et al., 2018). c) Classificação por estrelas e perceção de adesão Tal como referido antes, elementos visuais de avaliação quantitativos ou qualitativos, como a classificação por estrelas, o número de análises e o ranking de vendas produzem um efeito adesão que pode influenciar a intenção de compra pela parte do consumidor (Sundar et al., 2008). No contexto online, o consumidor tende a assumir uma postura em função daquilo que vê noutros consumidores (Sparks et al., 2013). Entre as várias funcionalidades colaborativas, a classificação por estrelas é usada com frequência em websites de turismo (Choi et al., 2018). Para Choi et al. (2018), a credibilidade da informação interpretada pelo viajante com base nas sugestões visuais e nas perceções da informação tem um efeito positivo nas dimensões afetiva, cognitiva e conotativa do destino turístico. Segundo Tasci & Gartner (2007, apud He & Day, 2009), a imagem do destino é caracterizada pelos pelas fontes de informação consumidas antes, durante e após a viagem. A informação fornecida pelas tecnologias de informação intensifica a dissonância, enquanto que aquela fornecida por meios mais tradicionais intensifica a consonância (Kah & Lee, 2016). A teoria da dissonância cognitiva defende que os indivíduos procuram manter consistência entre vários tipos de cognição (como pensamentos, comportamentos, atitudes e crenças) (Festinger, 1957, apud Miller, Clark, & Jehle, 2015). Tipos de cognição inconsistentes (dissonâncias) causam desconforto e motivam o indivíduo a procurar harmonia e consistência entre os tipos de cognição (consonâncias). Para Kah e Lee (2016), no contexto da informação turística, fontes de informação dissonantes são usadas para adquirir informação e gerar alternativas previamente desconhecidas; fontes de informação consonantes são usadas para obter informação de forma a confirmar decisões previamente feitas: a pressão causada por largas quantidades de informação dissonantes leva ao uso das TIC (como a Internet e sistemas de navegação) para eliminar essa dissonância. Partindo da teoria da dissonância de Festinger (1957, apud Kah & Lee, 2016), que afirma que a dissonância aumenta com a duração e complexidade do processo de pré-decisão, Kah e Lee (2016) argumentam que os viajantes que pesquisam por um maior número de informações durante a viagem tendem a enfrentar mais dissonância: se esta 21 dissonância for de grande proporção, os planos do viajante são alterados. No entanto, se a dissonância entre a informação obtida pré-viagem e as circunstâncias da viagem for moderada, o viajante tende a procurar informação que vá de encontro àquela obtida pré-viagem. Kah e Lee (2016) conduziram um estudo sobre o impacto das fontes de informação turística na viagem com base na teoria da dissonância cognitiva. Quanto à preparação para a viagem, concluiu-se que, quanto maior for o número de atividades a desenvolver pelos viajantes ao longo da viagem, maior a pesquisa. Viajantes com maior tendência para elaborar planos de viagem espontâneos têm menos tendência a pesquisar por informação turística antes da viagem. Segundo o mesmo estudo, viajantes que pesquisam mais informação antes da viagem tendem a pesquisar por informação durante a viagem, utilizando tanto os meios de informação tradicionais (como mapas, guias turísticos e residentes locais), como as TIC (como o uso da Internet através de telemóveis). No que diz respeito às mudanças de comportamento durante a viagem, concluiuse que os viajantes que recorrem às TIC têm tendência a alterar os planos de viagem, enquanto que aqueles que recorrem aos meios tradicionais tendem a seguir os planos elaborados. Não obstante, os viajantes que pesquisam informação antes da viagem têm tendência a recorrer a variados meios de informação durante a mesma. Por último, os viajantes veem a dissonância aumentada e alteram os planos durante a viagem, tendem a visitar vários destinos e a planear uma maior variedade de atividades. 2.3. Contexto do turismo recetor na República Popular da China O turismo recetor define-se como a visita a um país feita por um visitante não residente nesse país (Comissão Europeia, 2010). Neste subcapítulo será brevemente contextualizada a história da República Popular da China, sobre a qual serão apresentados dados recentes relativos ao turismo recetor. 2.3.1. Contexto histórico Após a sua criação em 1949, a República Popular da China (RPC) manteve-se fechada a turistas estrangeiros até 1978 (Breda, 2004; Bi, Vanneste & van der Borg, 2016). A economia nacionalizada, tanto na procura como na oferta, era controlada e gerida pelo governo central, o que impedia o mercado livre (Bi et al., 2016). Desde a sua criação, a RPC enfrentou várias dificuldades a níveis de relações internacionais, que afetaram o setor turístico (Bi et al., 2016). Na 22 génese da sua criação, a RPC estava alinhada ideologicamente com a União Soviética, enfrentando, como consequência, isolação e embargos pela parte do bloco liderado pelos Estados Unidos da América. Porém, o desvinculamento da União Soviética em meados da década de 1950 veio a dificultar ainda mais a integração da RPC na comunidade internacional. Apesar de a economia do país se ter começado a desenvolver nos anos posteriores à sua criação, o seu crescimento veio a ser estagnado pelos efeitos catastróficos causados pelo Grande Salto em Frente 18 e pela Revolução Cultural 19 (Bi et al. , 2016). O movimento da Revolução Cultural não só tirou a cultura e o lazer da vida dos cidadãos da RPC (por serem considerados práticas burguesas e contraproducentes à ideologia comunista), como destruiu monumentos e património cultural, fazendo com que o sentido de apreciação da cultura no público geral desaparecesse, tornando o turismo doméstico quase inexistente (Bi et al. , 2016). Até 1978, havia um total de 137 hotéis com 15500 quartos de hóspedes na RPC (Han, 2009, apud Bi et al. , 2016). Uma das principais razões que levaram o Governo chinês a desenvolver o turismo foi o reconhecimento do potencial do setor em contribuir para o crescimento económico e em promover o desenvolvimento do país (Breda, 2004; Zhang & Zhao, 2008). Antes do desenvolvimento do setor turístico, a prática turística era vista pelo governo chinês não como uma ferramenta para o desenvolvimento económico, mas sim como uma ferramenta diplomática, totalmente controlada pelo estado (que controlava desde vistos de entrada até alojamento dos visitantes), usada para promover os feitos da RPC e estender a sua influência ao resto do mundo, não permitindo a interferência de qualquer entidade do setor privado. Os turistas recebiam regalias como banquetes e encontros com líderes do Partido Comunista Chinês, sendo motivados também a visitar fábricas, como forma de propaganda do governo chinês (Bi et al. , 2016). As áreas visitadas pelos turistas eram limitadas pelo governo central, que impunha preços inflacionados aos bens adquiridos pelos turistas, que só os podiam adquirir através de uma moeda reservada para este fim (Breda, 2001). A admissão da RPC pela Organização das Nações Unidas em 1971, a visita do então presidente dos EUA Richard Nixon em 1972 e o posterior reconhecimento da RPC pelos EUA em 1978 aceleraram o reconhecimento diplomático da RPC por outras nações (Breda, 2001). O desenvolvimento do setor turístico como uma indústria de serviços (e não de diplomacia nem propaganda) da RPC veio a ser iniciado por Deng Xiaoping em 1978, aquando da abertura 18 O Grande Salto em Frente (1958-1960) foi um movimento de coletivização iniciado por Mao Zedong com o objetivo de aumentar de forma rápido a produção industrial e agrícola da RPC. O fracasso deste movimento resultou na descida drástica do PIB da RPC e na morte de estimadamente 30 milhões de pessoas (Bi et al. , 2016; Breda, 2001). 19 A Revolução Cultural (1966-1976) foi uma campanha ideológica lançada por Mao Zedong com o visto de eliminar elementos considerados revisionistas e burgueses do Partido Comunista Chinês e da sociedade chinesa (Bi et al. , 2016; Breda, 2001). 23 económica do país (Breda, 2001). A indústria do turismo, principalmente a do turismo recetor, foi uma das primeiras a experienciar as reformas económicas da Política de Portas Abertas de Deng Xiaoping (1978). Em 1979, encorajava-se o investimento estrangeiro em hotéis e agências de viajem e, cinco anos mais tarde, passou a ser permitido o investimento dos governos locais, agências governamentais, coletivos e indivíduos (Breda, 2001), sendo as entidades governamentais de turismo descentralizadas ao longo desse período (Bi et al. , 2016; Breda, 2001). As várias medidas de abertura da indústria turística fizeram com que em 1998 o papel desta indústria na economia começasse a ter um papel relevante na economia da RPC (Bi et al. , 2016; Zhang, Weng & Bao . , 2019). Não obstante, com o crescimento económico e melhoria de condições laborais também o turismo doméstico aumentou, e, consequentemente, as suas receitas: em 1995, houve 629 milhões de movimentos no turismo doméstico, com uma receita de 137,6 mil milhões de yuans (CNTA, 1996, apud Bi et al. ); em 2017, o número de movimentos no turismo doméstico foi de 5 mil milhões, e a receita superou os 5.566 biliões de yuans (National Bureau of Statistics of China, 2018). O valor económico do turismo doméstico fez com que o governo chinês começasse a promover esta prática (Zhang et al. , 2019). Contudo, o maior desafio do turismo na RPC tem sido a compatibilização dos benefícios económicos, tanto do turismo doméstico como do turismo recetor, com um crescimento sustentável e equilibrado (Bi et al. , 2016). Essa problemática é o foco central da fase atual do desenvolvimento do turismo chinês (Zhang et al ., 2019). 2.3.2. Estatísticas recentes No quadro do mercado de turismo chinês, o turismo recetor divide-se em três categorias distintas de visitantes: compatriotas (visitantes provenientes de Taiwan, Macau e Hong Kong), chineses ultramarinos (visitantes de nacionalidade chinesa residentes fora da RPC, com exceção de Taiwan, Macau e Hong Kong 20 ) e estrangeiros (visitantes sem nacionalidade Chinesa) (Breda, 2004). Em 1978 o número de turistas estrangeiros na China era 77 vezes inferior aos 139 milhões registados no ano de 2017 (Zhang et al., 2019). A WTO (1998) previu, com base no crescimento económico da China e nas medidas então adotadas pelo governo chinês que, em 2020, a China surgisse como o principal destino turístico, com 137,1 milhões de chegadas de turistas nesse 20 A China contabiliza visitantes de Macau e Hong Kong como visitantes internacionais devido à política “Um País, Dois Sistemas”. As estatísticas da WTO contabilizam os visitantes de Taiwan, mas excluem os visitantes das Regiões Administrativas Especiais (Breda, 2004). 24 mesmo ano, subindo a uma média de 8% anuais entre os anos de 1998 e 2020. De acordo com as estatísticas oficias mais recentes da WTO (2019, cf. Gráfico 1), em 2018 a China recebeu um total de 62.900 milhões de chegadas de turistas, assumindo a quarta posição mundial, a seguir à França, Espanha e Estados Unidos da América, respetivamente. A WTO contabiliza apenas os visitantes que pernoitam em território chinês, não incluindo nas estatísticas visitantes de um dia, ao contrário do que acontece com as estatísticas da China National Tourism Administration (CNTA) (Breda, 2004)- Gráfico 1. Os dez países com mais chegadas de turistas em 2018 21 De acordo com a China Tourism Academy (2017), afiliada da CNTA, das 138 milhões de chegadas a território chinês em 2016, 28,2 milhões foram de turistas origem estrangeira. A Coreia do Sul ocupou o primeiro lugar na nacionalidade dessas chegadas (16,92%), seguida do Vietnam (11,25%), Japão (9,19%), Myanmar (8,63%), Estados Unidos da América (7,99%). Rússia (7,02%) e Mongólia (4,77%). Seguem-se outros países do sudeste asiático, como a Malásia, as Filipinas e Singapura. De acordo com o National Bureau of Statistics of China (2018), em 2017 a RPC recebeu 29 milhões de visitantes estrangeiros, originando uma receita de 123,4 mil milhões de euros. Apesar de países de língua inglesa (como os EUA, o Reino Unido e a Austrália) terem assumido um papel importante como mercados emissores na fase inicial do desenvolvimento no turismo da RPC, estes têm perdido quota de mercado para países emergentes do sudeste asiático (como Singapura, Malásia e Coreia do Sul) desde o final da década 1980 (Breda, 2004). A melhoria de 21 WTO (2019, p. 9) 25 relações diplomáticas e abolição de restrições às viagens também podem explicar o rápido crescimento de visitantes provenientes da Rússia e da Coreia do Sul (Breda, 2004). Nos anos seguintes à abertura do país em 1978, mais de 90% dos turistas que deram entrada na China tinham o leste da China (que, segundo os autores, inclui as províncias de Liaoning, Pequim, Tianjiin, Hebei, Henan, Shandong, Jiangsu, Xangai, Zhejiang, Fujian, Cantão, Guangxi e Hainan) como destino (Zhang et al., 2019) (cf. Gráfico 2). Segundo Zhang et al. (2019), a partir de 1989 até ao presente a percentagem de turistas com destino ao leste da China tem vindo a diminuir face ao aumento da percentagem de turistas com destino à China central (definida, segundo os autores, pelas províncias de Heilongjiang, Jilin, Mongólia Interior, Shanxi, Henan, Anhui, Hubei, Hunan e Jiangxi) e ao oeste da China (Xinjiang, Gansu, Ningxia, Shaanxi, Tibete, Qinghai, Sichuan, Chongqing, Yunnan e Guizhou). Atualmente, a região com mais receção de turistas estrangeiros contínua a ser o leste da China, seguida da China central e do oeste da China. Vermelho: leste da China. Amarelo: China central. Azul: oeste da China. Eixo vertical: percentagem de turistas recebidos. Eixo horizontal: ano. Gráfico 2. Percentagem do turismo recetor por região da China 22 Relativamente à divisão norte-sul do país, Zhang et al. (2019) recorrem à linha QinlingHuaihe, formada pela cordilheira montanhosa Qinling e pelo rio Huai. Esta divisão não é apenas geográfica, mas também cultural e climática (Xu & Mao, 2017). 22 Zhang et al. (2019) 26 Figura 7. Divisão do território da República Popular da China através da linha Qinling-Huaihe 23 No que toca ao turismo recetor nas regiões definidas pela linha Qinling-Huaihe, a zona sul sempre apresentou a maior percentagem de turistas, nunca ficando abaixo dos 70% do número total de turistas (Zhang et al. , 2019). Lilás: Região norte. Verde: Região sul. Eixo vertical: percentagem de turistas recebidos. Eixo horizontal: ano. Gráfico 3. Percentagem do turismo recetor por região da China em relação à linha Qinling-Huai-he 24 O segmento de visitantes compatriotas representa a maior percentagem de visitantes à RPC (cerca de 88% (Breda, 2004)). Fronteiras, línguas/dialetos e religiões em comum são tidas como fatores decisivos nos números crescentes do turismo recetor da RPC (Wang & Xi, 2016). De acordo 23 in https://en.wikipedia.org/wiki/File:Qinling_Huaihe_Line.png [acedido a 01/03/2020] 24 Zhang et al. (2019) 27 com Breda (2004), os visitantes compatriotas tendem a visitar as regiões onde possuem laços étnicos (Cantão, no caso dos visitantes de Macau e Hong Kong, e Fujian, no caso dos visitantes de Taiwan) e os visitantes internacionais tendem a ter grandes cidades como destino turístico (como Pequim e Xangai). Apesar de Cantão apresentar um número de visitantes internacionais elevado quando comparado com a norma nacional, os turistas estrangeiros representam apenas uma minoria dos visitantes nesta província quando comparados com o número de turistas compatriotas. 28 3. Processo de criação de guias turísticos de cidades chinesas No seguimento da contextualização teórica, segue-se, neste capítulo, a descrição das atividades desenvolvidas ao longo do estágio, as metodologias utilizadas, os problemas enfrentados e as soluções encontradas para os superar. 3.1. Sobre a criação de guias turísticos Os guias a editar eram atribuídos pela coordenadora do departamento de Conteúdo. Antes de iniciar a criação ou a edição de um guia é necessário fazer uma pesquisa intensiva sobre os pontos de interesse da cidade visada. No caso das cidades chinesas, a experiência pessoal e académica, tenha esta sido adquirida em Portugal ou na China, contribuiu para um conhecimento elementar dos marcos turísticos e históricos das grandes cidades da China. Um aspeto a ter em consideração ao longo do estágio foi sempre o da dimensão dos guias: ao invés de guias extensos e volumosos, como os criados pela Lonely Planet em versão impressa, os guias da ArrivalGuides são intencionalmente curtos e com um registo direto. Isto vai de encontro às necessidades dos clientes do serviço da empresa: por exemplo, a utilização do conteúdo da ArrivalGuides em sistemas de entretenimento em aviões visa dar aos utilizadores breves informações sobre o seu destino ou outros eventuais destinos, e não uma visão histórica, geográfica e culturalmente extensa acerca destes mesmos, como acontece em guias físicos. Como tal, é necessário escrutinar os pontos de interesse das localizações e optar por incluir aqueles que têm mais destaque e popularidade nas fontes utilizadas para a pesquisa. A pequena dimensão dos guias vai também de encontro aos padrões de acesso ao website por parte dos utilizadores, facilitando o seu acesso em dispositivos móveis, uma vez que, segundo dados do departamento de marketing da empresa, os acessos ao website da ArrivalGuides eram maioritariamente feitos a partir de smartphones, uma tendência que se tem vindo a acentuar. Neste contexto de utilização móvel e portátil, guias pequenos e concisos tornam-se então mais práticos e atrativos que guias extensos e complexos. Os guias gerados em PDF são também sucintos e de pequena dimensão quando comparados com guias mais tradicionais em formato impresso. A título de exemplo, o guia para a cidade de Paris da ArrivalGuides, quando gerado em PDF, tem um total de 30 páginas, ao invés das 224 do guia de bolso da Lonely Planet. A quantidade de informação é claramente superior no guia da Lonely Planet, pelo que a ArrivalGuides se foca em produzir guias com menos pontos de 29 interesse, no entanto preservando os pontos de interesse subjetivamente mais relevantes e que possam potencialmente cativar a atenção dos consumidores. No início do estágio foi fornecido o guia de estilo de edição da ArrivalGuides. Este guia define os seguintes aspetos como definidores do discurso adotado pela empresa: informado e nãopaternalista, amigável e acessível, conciso, inclusivo, respeitoso, moderno e claro. Esta abordagem adotada pela empresa visa alcançar um produto conciso, educativo, positivo e objetivo. Entre a vasta variedade do público que acede mensalmente ao serviço da ArrivalGuides destaca-se um público jovem-adulto, entre os vinte e os trinta anos, oriundo dos Estados Unidos da América, Austrália e alguns países europeus (maioritariamente da Suécia, Reino Unido, Alemanha e Itália), com um interesse particular em entretenimento noturno e informações práticas que estejam ligadas à indústria hospitaleira e à indústria da aviação comercial. A abordagem da ArrivalGuides tem como objetivo estabelecer uma melhor comunicação com este público maioritário (daí ser necessário a inclusão de POI de entretenimento noturno em todos os guias), incluindo também algum conteúdo de outras áreas, de forma a não excluir nenhum tipo de consumidor, desde viajantes a solo até grupos de amigos, famílias, ou casais de todas as idades e de todas as áreas. A empresa prioriza locais que considera de custo acessível, tentando incluir também um POI de um local de uma segmentação mais alta em todas as secções, de forma a atrair mais resultados através de pesquisas de motores de busca (cf. Figura 8). A empresa optou também por não incluir grandes marcas e cadeias comerciais, uma vez que, segundo a ArrivalGuides, estas mesmas cadeias não necessitam de projeção seja em que guia for. 3.2. Metodologia de trabalho Após a atribuição de uma tarefa pela supervisora, era inicialmente verificado se já havia alguma informação relativa à cidade atribuída na plataforma. No caso de já haver pontos de informação na plataforma, a supervisora indicava quais os aspetos que deveriam ser melhorados. Normalmente estes aspetos incidiam sobre erros de sintaxe e gramática, bem como sobre a conformidade dos pontos de informação para com a realidade. A tarefa de correção apresentouse como a mais monótona entre todas as tarefas realizadas ao longo do estágio. Por vezes as tarefas atribuídas incidiam também em reeditar guias de cidades que outrora foram patrocinadas por entidades externas, mas que o deixaram de ser. Nestes casos, era necessário reduzir o tom publicitário dos POI (nomeadamente reduzir a quantidade de adjetivos e eliminar qualquer ponto 36 Tabela 7. Expressões frequentemente encontradas em fontes de informação turística chinesas Palavra/Expressão Pinyin Tradução em inglês Tradução em português 景点 jǐngdiǎn scenic spot: point of interest local turístico 旅游线路 lǚyóu xiànlù tourist route rota turística 美术馆 měishùguǎn art gallery; art museum galeria de arte; museu de arte 文化 wénhuà culture cultura 必去 bìqù must-go imperdível 美食 měishí culinary delicacy iguaria 公园 gōngyuán (public) park; garden parque (público); jardim 火锅 huǒguō hotpot hotpot 码头 mǎtóu dock; wharf docas; porto 独家 dújiā exclusive exclusivo 秘方 mìfāng secret recipe receita secreta 索道 suǒdào ropeway teleférico 游船 yóuchuán cruise cruzeiro 洞 dòng cave cave 古镇 gǔzhèn ancient town cidade antiga 老街 lǎojiē old street rua antiga 商业街 shāngyèjiē commercial street rua comercial 地标建筑 dìbiāo jiànzhú landmark building marco arquitetónico 购物 gòuwù shopping fazer compras 游客 yóukè tourist turista 步行街 bùxíngjiē walking express rua de pedestres 观景台 guān jǐng tái observation deck ponto de observação 艺术中心 yìshù zhōngxīn art center centro artístico 山步道 shān bùdào mountain trail trilho de montanha 寺 sì Buddhist temple templo budista 值得一逛 zhídé yī guàng worth a visit vale a pena visitar 石刻 shíkè stone carving escultura em pedra, talha em pedra 茶馆 cháguǎn teahouse salão de chá 精彩 jīngcǎi wonderful deslumbrante 地图 dìtú map mapa 旅游攻略 lǚyóu gōnglüè travel guide guia turístico 繁华 fánhuá bustling vibrante 3.3. Identificação dos problemas encontrados e propostas de resolução Ao longo do período de realização do estágio foram encontradas várias dificuldades, principalmente no que toca à implementação de técnicas de SEO, da utilização de imagens de terceiros, da localização geográfica de pontos de interesse chineses e da monotonia e repetição das tarefas executadas. 37 Relativamente à utilização de técnicas de SEO, a maior dificuldade residiu na difícil compreensão da origem destas. Apesar de serem seguidas as instruções dadas quanto ao uso de técnicas de SEO, ficou por entender o porquê de estas técnicas serem assim usadas. Após esclarecimento do supervisor, fui informado de que, uma vez que os motores de busca online não revelam o seu funcionamento, todas as técnicas, inclusive as fornecidas pela empresa, são teorias especulativas acerca do funcionamento dos motores de busca. Como tal, as técnicas foram continuando a ser utilizadas, mesmo que a usa eficácia fosse desconhecida. Como cada POI necessita de uma imagem associada, a pesquisa por uma fotografia que cumprisse todos os requisitos da empresa era uma atividade que ocupava uma porção considerável de tempo. A pesquisa de imagens era feita tanto na plataforma para qual a ArrivalGuides tem licença para uso comercial (ShutterStock), ou plataformas de conteúdo de domínio público, como a Wikimedia Commons. A maior dificuldade residiu, porém, em encontrar imagens que não só cumprissem os requisitos acima mencionados (cf. pág. 35), mas também as regulações de direito de autor. A natureza comercial do produto da ArrivalGuides faz com que somente imagens com as licenças Creative Commons de Atribuição (CC BY, cf. Fig. 12) e Atribuição-CompartilhaIgual (CC BY-SA, cf. Fig. 13), as únicas que permitem o uso comercial, sejam permitidas no sistema de gestão de conteúdos. Os ícones destas licenças são frequentemente encontrados na mesma página que as imagens. Figura 12. Ícone da licença Creative Commons de Atribuição (CC BY) 27 Figura 13. Ícone da licença Creative Commons de Atribuição-CompartilhaIgual (CC BY-SA) 28 Nem sempre foi possível encontrar imagens ou fotografias disponíveis com licença para fins comerciais que pudessem ser atribuídas ao lugar, estabelecimento ou evento em questão. Quando tal aconteceu, recorreu-se ao uso de imagens genéricas com licença para uso comercial que fossem de encontro ao tópico em questão, sem comprometer a sua relação com a realidade. Este fenómeno foi recorrente em POI de estabelecimentos de restauração e cafés. Quando tal 27 in https://creativecommons.org/licenses/?lang=pt [Acedido a 21 de outubro de 2019] 28 in https://creativecommons.org/licenses/?lang=pt [Acedido a 21 de outubro de 2019] 38 aconteceu, eram utilizadas imagens genéricas que se assemelhassem àquelas vistas em imagens sem licenças comerciais, normalmente encontradas em plataformas de discussão e análise de pontos turísticos de livre participação, como a Mafeng Wo, a TripAdvisor e o Google Maps. No caso deste tipo estabelecimentos foram usadas imagens relativas aos produtos encontrados no seu menú. (cf. Fig. 14). Figura 14. POI representado por uma imagem genérica. 29 A interface utilizada no posicionamento dos locais dos POI é propriedade da Google, cujos serviços se encontram, à data da realização do estágio, bloqueados no território da República Popular da China. Os pontos de interesse presentes no serviço Google Maps são criados pela comunidade de utilizadores deste serviço. Estando este serviço indisponível em território chinês, os pontos de interesse no serviço são parcos, desatualizados, e, muitas vezes, contêm informação incorreta, ao contrário de um dos seus equivalentes chineses, o Baidu Maps 百度地图 Bǎidù dìtú, onde foi feita a pesquisa geográfica durante o estágio. Após a pesquisa na plataforma chinesa, procedia-se à tentativa de correspondência da mesma localização no Google Maps: caso o POI não constasse neste serviço, recorria-se à utilização das coordenadas geográficas. Surge aqui outra problemática, desta vez relativa à legislação da República Popular da China do licenciamento das coordenadas geográficas e mapeamento do seu território 30 . Segundo o “Artigo 2” desta legislação, cabe ao governo chinês autorizar e supervisionar a recolha por entidades terceiras de elementos ou formas geográficas, dimensões, posições espaciais, atributos, propriedades naturais e geográficas e infraestruturas construídas pelo Homem. De acordo com o 29 https://www.arrivalguides.com/en/Travelguide/CHONGQING/eating/chongqing-shiqimen-huoguo-128863 [Acedido a 26 de junho de 2020] 30 Surveying and Mapping Law of the People's Republic of China (2002), in http://www.fdi.gov.cn/1800000121_39_2073_0_7.html [Acedido a 28 de outubro de 2019] 39 “Artigo 1” da mesma, esta legislação procura o desenvolvimento económico nacional, a fortificação da defesa nacional e o desenvolvimento social. Apenas algumas empresas de mapeamento recebem então autorização para mapear o território chinês, entre as quais Baidu Maps, ABCMaps e Amaps, todas elas chinesas. Para contornar esta legislação, o serviço Google Maps usa um algoritmo para alterar as coordenadas de todos os elementos dos seus mapas em território chinês por uma medida proporcional (cf. Fig 14). Isto faz com que as localizações inseridas na plataforma da ArrivalGuides não correspondam à realidade, sendo que tal seria somente possível se fosse utilizada a interface de um serviço chinês que detenha autorização do governo chinês para mapear o território. Estas leis não se aplicam às Regiões Administrativas Especiais de Macau e Hong Kong (cf. Fig. 15). Figura 15. Vista sobre a cidade de Xangai na plataforma Google Maps 31 Figura 16. Vista sobre a cidade chinesa de Shenzhen e a Região Administrativa Especial de Hong Kong 32 31 https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/b/be/Google.com_Maps_in_China_coordinate_system_misalignment.png [Acedido a 25 de outubro de 2019] 32 in https://www.gearthblog.com/blog/archives/2015/08/chinese-street-maps-alignment-google-earth-google-maps.html [Acedido a 26 de junho de 2020] 40 Aconteceu, por vezes várias, encontrar informação distante da realidade e até mesmo errada em POI já existentes. Muitos dos POI que existiam no guia para Chongqing antes da sua edição eram provenientes de pesquisa em inglês em plataformas não usadas em grande escala na RPC, como a TripAdvisor e o Google Maps. Após uma pesquisa pelos mesmos pontos de interesse em plataformas de discussão e motores de busca chineses, concluiu-se que a informação de muitos desses POI estava em grande discordância da realidade, com erros na localização geográfica, no horário de funcionamento, na tradução do nome (a tradução assemelhava-se àquela apresentada por ferramentas de tradução automática), e, por vezes, estavam encerrados permanentemente ou nunca tinham chegado a existir. Estes POI foram prontamente apagados e substituídos por outros estabelecimentos ou locais aclamados e com análises recentes nas plataformas chinesas. Alguns dos POI inseridos carecem de popularidade e presença nas plataformas não chinesas. Por exemplo, o estabelecimento 重庆交通茶馆 (Chóngqìng jiāotōng cháguǎn), acrescentado ao guia de Chongqing como “Jiaotong Teahouse” (cf. Anexo II), tem um número reduzido de críticas no Google Maps, surgindo apenas como resultado no seu motor de pesquisa quando procurado pelo nome em chinês, e não se encontra disponível na TripAdvisor. Após a sua criação, a página web deste POI da ArrivalGuides surge, na altura da elaboração deste relatório, na primeira página de resultados do Google quando a expressão “Jiaotong Teahouse” é pesquisada, aumentando assim a visibilidade e o número de acessos ao website da empresa. Não obstante, a pesquisa em meios chineses também apresentou as suas barreiras. Sendo as plataformas usadas de participação livre, o seu conteúdo apresentava, por vezes, gírias utilizadas em redes sociais e fóruns da Internet. Apesar de estar serem em parte compreendidas devido ao conhecimento da língua chinesa, era frequente encontrar expressões desconhecidas. A título de exemplo, a expressão 辣鸡 (Làjī) aparecia com alguma regularidade em críticas a pontos de interesse, guias e caixas de comentários destes. Apesar de inicialmente achar que esta expressão se referia ao seu significado literal, “frango picante”, logo se tornou claro que a expressão não se estava a referir a isso, uma vez que não encaixava no contexto em que surgia. Após consultar amigos chineses, fiquei a saber que esta expressão faz parte da gíria do universo cibernético chinês, e é usada para criticar algo negativamente, pois a sua fonética assemelha-se à palavra 垃圾 (Lājī), cujo significado é “lixo”. Ainda no que toca às fontes de informação chinesa, o facto de os guias presentes nas plataformas não serem profissionais, mas sim feitos por voluntários, fez com que algumas vezes 41 apenas tenho sido aproveitado o elemento de interesse, e não a sua descrição, para a qual era feita outra pesquisa. O texto não utilizado continha muitas vezes adjetivos em quantidades exageradas, provérbios e gíria chineses, informação relativa a filmes chineses filmados no local em questão e, por vezes, informação que corria o risco de passar por vulgar caso fosse escrita em inglês, como é o caso da seguinte passagem: “Esta moderna e vibrante zona comercial, rodeada de ruas repletas de deliciosos restaurantes, é o sítio ideal para observar as lindas mulheres de Chongqing e acompanhar as últimas tendências da moda” 33 . Por último, o elevado grau de repetição das tarefas foi um dos maiores problemas encontrados ao longo de todo o estágio. A natureza do conteúdo produzido fez com que estruturas frásicas, expressões e vocabulários fossem frequentemente repetidos. Após um debate com a supervisora sobre o assunto, ficou estabelecido que isto é uma ocorrência normal, mesmo para colaboradores experientes da ArrivalGuides, sobre a qual não se devia depositar muito importância. Desde que o conteúdo e o corpo do texto fizessem sentido e fossem ocasionalmente usadas técnicas de SEO, não haveria problema em repetir estruturas frásicas e expressões, alternando também entre estas. 33 “繁华现代的商业中心、好吃一条街都聚集在周围,而且还是看重庆 美女、观摩时尚潮流的地 方。” in Zhu duoduo luxing gonglue (2018), in https://zhuanlan.zhihu.com/p/41362336 [Acedido a 26 de junho de 2020] (TdA) 42 3.4. Sobre o produto final Ao longo do estágio foi produzido conteúdo para os guias das seguintes localizações: Catmandu, Chengdu, Chongqing, Qingdao, Madeira, San José, Xiamen. Apesar de nem todas serem localizações chinesas, as localizações chinesas foram aquelas que ocuparam mais tempo de pesquisa e elaboração. O guia para a cidade de Chongqing, aquele sobre o qual foi despendido mais tempo, pode ser encontrado no Anexo II. Os métodos de pesquisa utilizados pela empresa dependem inteiramente de informações prestadas por terceiros, o que pode várias vezes induzir os colaboradores da ArrivalGuides em erro. A empresa não tem maneira de comprovar a informação obtida, pois para isso necessitaria de pesquisa feita no terreno, o que não consta no seu modelo de negócio e dificilmente constará no futuro. É de salientar a falta de tarefas relacionadas com tradução. Estas tarefas foram escassas e corresponderam apenas à tradução de alguns slogans de campanhas do website ou de elementos relativos aos menus de utilização do website por parte do consumidor. Quando exposta a situação, foi informado que o foco da empresa aquando do estágio era atualizar e produzir conteúdo relativo às localizações que me foram indicadas e que a tradução para as línguas de fluência desse mesmo conteúdo não se apresentava como prioridade. Este talvez tenha sido o elemento mais dececionante de todo o estágio, uma vez que, apesar de ser consultado bastante conteúdo em inglês e em chinês, não foi elaborada nenhuma forma prática de tradução entre estas línguas e o português. Ao longo do estágio foi também atribuída a tarefa de escrever uma publicação para o blog da empresa, sem me ter sido dada qualquer restrição. Foi também proposta a gestão das redes sociais da ArrivalGuides, com prioridade na rede social Instagram. Apesar de não ter sido dada muita importância a estas tarefas por parte da empresa, estas foram importantes para dar a conhecer a utilização de plataformas como o Wordpress e o Instagram na produção e promoção de conteúdo e desenvolver capacidades para uma utilização proficiente destas plataformas de blog e redes sociais. Foi gratificante no fim de cada tarefa aceder ao conteúdo disponibilizado online e ver este mesmo disponível para todos os consumidores da ArrivalGuides. Ainda que o conteúdo produzido possa vir a ser alterado no futuro, a sensação de ver o conteúdo produzido a materializar-se fez com que o tempo e esforço despendidos ao longo do estágio valessem a pena. 43 Conclusão A experiência de estágio de quatro meses de estágio na ArrivalGuides, na Suécia, deu-me a oportunidade não só de experienciar a vida no mercado de trabalho, mas também de o fazer noutro país, com uma cultura e um mercado laboral diferentes. A língua não foi um problema, uma vez que a fluência do inglês prevalece na sociedade sueca. Para além de esta oportunidade me ter feito crescer pessoal e profissionalmente, fiquei a conhecer um ambiente de trabalho onde um dia gostaria de regressar. Ao longo do estágio procurei utilizar os conhecimentos adquiridos no meu percurso académico, tanto na Licenciatura em Línguas e Culturas Orientais como no mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês: Tradução, Formação e Comunicação Empresarial. Este conhecimento prévio foi imprescindível para levar a cabo as atividades propostas durante o estágio. O estágio serviu também para complementar este conhecimento, uma vez que me familiarizou com outro registo mais informal da língua chinesa e com um campo lexical mais específico à informação turística. O enquadramento teórico deste relatório veio a confirmar a importância do papel da Internet no consumo de informação de consumo turístico. Os resultados do inquérito conduzido no âmbito deste relatório vão ao encontro dessa afirmação, que tem vindo a ser confirmada em vários estudos, também eles aqui referenciados. A discriminação dos diferentes tipos da prática turística levou também à correlação destes e dos meios de pesquisa de informação turística, assim como o impacto desta no viajante. O turismo recetor na República Popular da China encontra-se num estado diferente àquele dos anos posteriores à sua criação. O seu desenvolvimento económico e abertura comercial e diplomática fez com que os números do turismo recetor assumissem uma tendência crescente nos últimos anos. No último capítulo deste relatório são apresentados os problemas na busca por informação turística relativa a cidades chineses e criação de guias turísticos para as mesmas. As soluções aqui apresentadas são úteis para a obtenção e criação de conteúdo turístico relativo a cidades chinesas, com ênfase na vertente online , que tem uma forte componente visual e necessita de elementos que façam com que o consumidor os encontre. Embora a informação relativa à indústria do turismo recetor na República Popular da China ainda seja escassa, esta tendência poderá vir a inverter-se tendo em conta o constante crescimento económico do país. A generalização do uso da Internet na busca por informação turística justifica 44 a necessidade de uma presença em línguas não chinesas de guias turísticos de cidades chinesas, de forma a facilitar futuras viagens. 45 Bibliografia Amaro, S., & Duarte, P. (2013). Online travel purchasing: A literature review. Journal of Travel and Tourism Marketing , 30 (8), 755–785. doi:10.1080/10548408.2013.835227 Bergmeister, F. (2015). Shaping Southeast Asia: Tracing Tourism Imaginaries in Guidebooks and Travel Blogs. ASEAS : Österreichische Zeitschrift für Südostasienwissenschaften. 8 , 203208. doi: 10.14764/10.ASEAS-2015.2-6. Bi, L., Vanneste, D., van der Borg, J. (2016). Cultural heritage development in China: a contextualized trajectory or a global-local nexus? International Journal of Cultural Property , 23/2, 191-207. Breda, Z. (2004). O turismo na República Popular da China: In A , Amaro, R. Leão e S. Dias (coord.), 2004, Estudos Sobre a China VI, Volume II. Lisboa: ISCSP, pp. 567-594. 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