Full text
março de 2022
UMinho|2022
Carla Sofia P er eira Lacer da José
POLÍTICAS EDUC A TIV AS E CURRICUL ARES:
D AS INTENCIONALID ADES GO VERNA TIV AS
ÀS PRÁ TICAS CURRICUL ARES
Carla Sofia Per eir a Lacerda José
POLÍTICAS EDUC A TIV AS E CURRICUL ARES:
D AS INTENCIONALIDADES GO VERNA TIV AS
ÀS PRÁ TICAS CURRICUL ARES
Universidade do Minho
Instituto de Educação
T rabalho ef etuado sob a or ientação do
Professor Doutor José Augusto Pacheco
T ese de Doutor amento
Doutor amento em Ciências da Educação
Especialidade em Desen volviment o Curricular
março de 2022
Carla Sofia P er eira Lacer da José
POLÍTICAS EDUC A TIV AS E CURRICUL ARES:
D AS INTENCIONALID ADES GO VERNA TIV AS
ÀS PRÁ TICAS CURRICUL ARES
Univer sidade do Minho
Instituto de Educação
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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DIREIT OS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS
Este é um trabalho académ ico que pode ser utilizado por terceiros desd e que respeitadas as regras e
boas práticas internacionalm ente aceit es, no que conce rne ao s direitos de autor e d ireitos cone xos.
Assim, o pres ente trabalho po de ser utilizado nos termos pr evistos na licença abaixo indicada .
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Minho.
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Atribuição CC BY
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AGRAD ECIMENTOS
Mais do que contribuir com uma nova i nvestigação na área científica a q ue se propõe esta tese,
a m esma sempre pretendeu ser o motivo maior de um crescimento pessoal, profissional e académico.
As horas dedicadas à leitura de text os, livros e artigos científicos , q ue em nada se relacionavam com os
capítulos que ia escrevendo, faziam -me perceber o tempo despendido, a s páginas em branco, as
reflexões em cat adupa, mas em contrapart ida, uma certa sensação de completude, uma certa
sens ação de aprendizagem sobre o que ia faz endo. Foi nesta tríade de missão, de mot ivação e de
aprendizagem que sempre compreendi este trabalho. Um trabalh o que tinha necess ariamente de fazer,
não pelo s imples fact o de o concluir, mas pelo prazer que o mesmo me deveria p roporcionar ao fazê -lo
e ao sen ti-lo a crescer com igo e n a minha aprendizagem, qu e só a partir das reflexões con juntas fui
capaz de desenvolver e por isso é agora ch egada a altura de agradecer a todos quantos me ajudaram
ness e c rescimento.
O Doutor Alberto Cart agena por ter sido um grande responsável pela minha con tratação, bem
como o Doutor Fern ando Amaro e o D outor António Ferreira Gomes. F o ram es tes os meus pi lares,
foram estes profes sores q ue me iniciaram nas discussões do cam po científico das Ciências da
Educação e nos Estudos Curriculares.
Na Universidade de Aveiro, conheci uma grande referência na área do currículo, a Profes sora
Doutora Maria do Céu Rol dão, com quem tive o privilégio de ser o rientada na dissertação. Foram
muitas e longas as horas que m e deixavam a pensar as suas orientações e ques tões colocadas, nem
sempre fáceis de resolver, de responder e/ou de corresponder . Talvez na é poca não percebesse que
eram inquie tações n ecessárias para a reflexão, para a produção de novo co nhecimento que era
essen c ial provocar.
Paulo Freire diz que ni nguém ensina aquilo que sabe, mas aquilo que é e o Professor José
Augusto Pacheco é o professor do exemplo, do tra balhador acérrimo, determinado, perseverante,
amigo, leal. Obrigada Professor por tudo o que na mi nha vida representa, pelo exemplo que me deixou
e que sempre se pautou por uma admirável dedicação, empenho, investigação no seu desempenho
profissional, não apenas por ser o grande profissional que é, mas pelos valores que tanto o
caracterizam. A sua pesso alidade é um dos exemplos que procurarei sempre seguir, a excelência da
sua profissionalidade na humildade pessoal s ão princípi os que guardarei como sendo um dos melhores
exemplos de que se pode ter nome, h abilitações, saberes, cargos e ai nda assim ser imenso no seu
próprio ser.
Um outro agradecimento vai para a minha colega e amiga a Doutora Ana Paula Cardoso, pilar de
amizade sem andaimes, que sempre es teve ao meu lado nas questões pessoais e profissionais. Que
sempre m e apoiou nas tare fas académicas e investigativas, nas q uestões pe ssoais e profissionais. Que
foi um pilar significativo para o meu crescimento como pessoa e como p rofissional, dando-me conta de
que os bons valores humanos ainda exist em e são cultivados de uma forma permanente numa
amizade que será para sempre.
Aos meus colegas de área científica Henrique Ramal ho, João Rocha e Maria Figueiredo por
sempre estarem lá quando deles pr ecisei, por serem c olegas e amigos com espírito de camaradagem e
por me pouparem a algumas reuniões o u tarefas de trabalho para que a minha entrega fosse ef etiva.
À minha família que não sofreu com a m inha ausência porque sempre soube estar presente, o
que me fez atrasar a conclusão deste trabalho, mas a satisfação com a qual conseg ui concili ar a minha
vida pessoal, com a m inha vida como investigadora e professora fizeram -me per ceber o q uanto estas
três dimensões são relevantes para mim ao s e assu mirem como pilares de crescimento como ser
humano!
A todos o meu OBRIGADA!
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DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE
Declaro ter at uado com integridade na elaboração do pres ente trabalh o académico e confirmo
que não recorri à prática de plágio nem a q ualquer fo rma de utilização indevida ou falsificação de
informações ou resultados em nenhuma das etapas conduce nte à sua elaboração.
Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ét ica da Univers idade do M inho.
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POLÍTICAS ED UCATIVA S E CURRICUL ARES: D AS INTENCI ONALIDADE S GOVERNATI VAS ÀS
PRÁTICAS CURRICUL ARES
RESUMO
O presente trabalho pretende u compreender a forma como as polí ticas educativas, ao longo d a
democraci a em Portugal, conseguiram construir e s ustentar a escola p ública portuguesa. Neste ent r echo,
pretendeu-se, a partir da an álise aos vinte e u m programas de Governo, compreender o que se pretendeu
alcançar e o que efeti vame nte se consegu iu realizar na construção do siste ma e ducativo, da escola , do
currículo e dos alunos e como essas medidas tiveram impacto n as práticas curriculares d as escolas e dos
professore s.
As política s educativas nacionais nem sempre se assumem por si mesmas e na conjuntura
internacional, na qual vivemos, as forç as de influênci a , que gravitam à volta dos países que avocam
compromissos, pactos, ligaçõe s a organizações n ão governamentais, crescem fortemente. As orga nizações
que têm por f inalidade comparativa o desenvolvimento de competências dos alunos de dif erentes ciclos de
ensino, e ntre dife rentes países, assumem-se como forças de grande infl uência na de terminação das
diretrizes sobre o que o currículo deve ser.
Nessa medida, importou compre ender como essas políticas educativas se assumiram na
contextualização nacional e transnacional, que objetivos e que re comendações s e constr uíram à lu z das
críticas de quem a estas análi ses se tem dedica do , percebendo-se o enfoque que as áreas curriculares da
literaci a e da numeracia assumem nos currículos escola res, na t enta tiva de colocar a educação ao serviço
dos mercados e do q ue estes almejam na (re)construção dos mode los sociais.
Também se reconfigurou relevante neste trabalho analis ar as formas como as políticas educativas
desencadei am as mudanças e a inovação a partir das reformas educativas, salientando -se neste quadro a
Lei de B ases do S istema Educativo, como a mudança que mais alterações trouxe p ara as escolas, sendo
aqui assu mida como a maior inovação educativa até ao momento, sendo capaz de acolher diferentes
reformas e reorganizaç ões curriculares sem pôr em causa os seus p rincípios e pre ssupostos.
O currículo, que se ass umiu na sua mu ltidimensionali dade, enquadrou -se nas práticas curriculares
dos professore s como centro nevrálgi co da sua ação educativa, muitas veze s influenciado pe las
determinações norma tivas que i nflamam os disc ursos dos profi ssionais, mas nã o alteram de modo
significativo as su as prática s, criando-se aqui u m mote para a análise da su a ide nti dade e a importância
que as emoções assumem n a forma como os profe ssores alteram as suas
práxis
.
Após a revisão de literatura i nformada e que permitiu a compreensão da rele vância que a
triangulação das políticas educativas deve ser capaz de assumir em torno da escola, do currículo e d os
professore s analisaram-se, na orientação desses pri ncípios, os programas dos Governos cons titucionais,
destacando-se os dos XIII e XIV Governos por serem aquele s que mais ênfase atribuír am ao currículo e por
se considerar, neste est udo, o período mais associado aos propósitos investigativos do que atu almente as
medidas de p olítica prenuncia m.
Neste quadro, optámos por uma met odologi a de nature za quali tativa , com recurso à pesquisa
documental e análise de conteúdo aos programas de Governo, às investigaçõ es que ti veram por objetivo a
compreensão deste período , bem como os discursos dos protagonist as, alguns mini stros da educação e
secretários de estado, a partir de uma análise extensiva que i nferiu que muitas foram as medi das que se
preconizaram, retratando uma real idade educativa a melhorar nas escolas, no trabalho curricular dos
professore s, na sua colaboração e articulação, no sentido de proje to, apenas liminarmente presente nos
discursos, mas pouco efetivo nas práticas, o que possi bili tou a compreensão do esforço que as políti cas
educativas têm de ser capazes de assumir na construção da autonomia das escolas e na responsabili zação
de todos os atores educa tivos.
Palavras-chav e: currículo; políticas educativas e curricu lares; prática s curriculares ; refo rmas
educativas; r eorganização curr icular.
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EDUCATIONA L AND CUR RICULUM PO LICIES: F ROM GOVERNME NT INTENTI ONALITIES TO
CURRICULA R PRACTICES
ABSTRACT
This research aims to understand how t he educational policies managed t o construct and su stain the
Portuguese public school of democracy in Port ugal. For this purpose, the twenty -one governm ent programs
were analyzed t o understand the intended objectives and which ones were effectively obtained in
constructing the education system, the school, and its curriculum, and how th ese measures impacted th e
teachers’ classroom prac tices.
The nat ional educational policies do not always assume, by t hemselves and in the international
context in which we l ive, the dominant ideas prevalent in the co unt ries that proc laim common compromises,
treaties, liaisons t o non -governmental organizations. These organizations, having as a comparative objective
the development of stu dents ’ competencies at different educational levels in partici pat ing countries, exert
great influence i n determining norms about the curriculum.
In t his context, it w as rel evant t o unders tand how these educational p olicies worked i n the national
and su pranational context, which objectives and recommendations were constructed under t he guideli nes of
those who work in th is field, detecting the focus that the literacy and numeracy area s assume in the
schools’ curriculum, in trying t o place the educational system at t he service of the marketplace and of its
demands in the (re )construction of the soci al models.
It was also considered relevant in this work t o analyze the ways th e education al polici es affect the
changes and the innovations departing from t he educatio nal reforms, emphasizing in this cont ext t he “Lei
de Bases do Sistema Educativo” (Educational System B asic Law) as th e infl uence t hat generated more
changes in the schools, here being considered the be st educational innovation up to t his date, capable of
accommodating reforms and reorganizations in the curriculum within i ts principl es and orientations.
The curriculum, assumed in its multidimensionali ty, entered the teachers’ educa tional practices as
the n evralgic center of their educational activity, very often influenced by normat ive determinations th at
inflame the professionals’ discourse bu t do not significantly alter their practice s, th us creating a point for
analyzing their ident ity and the relevance that their emotions assume in the way teachers change their
praxis.
Follow ing the literature review, which allow ed u s t o understand the relevance that the t riang ulation of
the educational policies must assume around the school, th e curriculum, and the teachers, we analyzed the
programs of th e constitutional governments, emphasizing th e programs of the XIII and XIV governments,
because of t heir more significant emphasis on the curriculum and for this p eriod bei ng co nsidered in our
research as bei ng more associated to the purposes of t he educational poli cies.
In this context, we opted for a met hodology of qualitative nature and for the method of documental
and content analysis of the government programs and of research studies that ha d as their objective t he
understanding of th is period, as well as t he intervenients’ speeches, such as ministers of education and
secretaries of stat e, using a meta -analysis that co ncluded that ma ny measu res were proposed, describing
an educational reality to be improved in the schools, in th e teachers curricular activities, in their
collabo ration and articulation, as a project, bare ly de tected in thei r discourse, but with little effect in thei r
practice s, thu s al lowing us t o understand the effort that the educational p olicie s have to assume in the
construction of the sc hools’ autonomy and the responsibi lization of all educational intervenients .
Keywords : c urricular practices; curricular reorganizatio n; curricu lum ; educational and c urricular policies;
educational refo rms.
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ÍNDICE GERAL
DIREIT OS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTI LIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS ...... ii
AGRAD ECIMENTOS ......................................................................................................... iii
DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE ....................................................................................... iv
RESUMO ........................................................................................................................... v
ABSTRACT ........................................................................................................................ vi
ÍNDICE GERAL ................................ ................................................................................. vii
ÍNDICE DE FIGUR AS ......................................................................................................... x
ÍNDICE DE TA BELAS ......................................................................................................... x
LISTA DE SIGLAS ............................................................................................................. xii
INTRODU ÇÃO ................................................................ ................................................... 1
I. ENQUADR AMENTO TE ÓRICO ....................................................................................... 17
Capítulo 1. As políticas de Estado: de um quadro c aracterizador da educação às
influên cias nacionais e transnacionais ........................................................................... 17
1.1. O Estado e as políticas de educação .......................................................................................... 17
1.2. A globalização e o neoliberalismo como fat ores externos na det erminação das políticas educativas
........................................................................................................................................................ 27
1.3. As tendên cia s transnacionais/supr a nacionais de a ção governativa sobre a educação ................. 35
1.4. A influên cia do Banco Mundial, da OCDE e da UNESCO sobre a educação ................................. 42
Capítulo 2. As reformas educativas: uma análise concetual ........................................... 47
2.1. Os conceitos: reforma, inovação e melhoria ............................................................................... 47
2.2. As implicações de mudança e de inovação das ref o rmas educativas na vida das escolas ............ 50
2.3. A mudança educativa nu ma perspetiva sistémica e ecológica ..................................................... 62
2.4. Da reforma educativa ao campo pessoal da mudança ................................................................ 70
Capítulo 3. Do currículo às identidades profissionais dos professores ............................ 77
3.1. O campo espe c ífico do currículo: uma abordagem socio histórica .............................................. 77
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A ti pai q ue estarás aus ente neste prese nte que tamb ém é nos so!
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INTRODU ÇÃO
Ao ter por tema de estudo as questões da educação, das políticas educativas, da escola, do
currículo e dos pro fessores, faz-se presente uma frase de Paulo Freire (1989) qu ando refere que a
leitura é um ato de amor, nes te contexto afir ma -se qu e também a escrita des ta t ese será um ato de
amor. Um ato que fará uso de um vasto manancial de investigação sobre educação, políticas
educativas, escola, curríc ulo, desempenho profissional dos professores, pa ra um imperativo de
compreensão educativa que t em por tema central as intencion alidades governativas das políticas
educativas e curriculares às práticas das escolas e dos professores.
Podemos considerar q ue, os projetos políticos sempre são projetos de mudança s ocial (St oer &
Magalhães, 20 05) e no campo da edu cação , sempre h averá uma relação estreita entre as políticas
educativas, as escolas, o currículo e os p rofessores e a forma como estes campos de ação se
entrecruzam e i nterconectam. É neste introito que pretendemos triangular e stes campos de análise: as
políticas educativas, a forma como essas po líticas são interpretadas pe los documentos e normativos
oficiais, pelas escolas e pe los profess ores, num olhar curricular que no s permita a com preens ão das
mudanças e/ou ref o rmas percebidas em Portugal.
Nas últimas décadas, Portug al assis tiu a um conjunto a ssin a lável de mudanças (Abrantes, 2001;
Afonso, 1 998, 20 01, 2002, 2009, 2 020; Pacheco, 2014 , 2018). A revolução de abril viria a alt erar a
sociedade portugues a nos mais divers os quadrantes, desde a política, à economia, à vertente social,
educacional, cultural e ideol ógica. Os fenómenos da liberalização, da democrat ização, da massificação,
passando pe los da globalização, do multiculturalismo e o incremento cada vez maior das novas
tecnologias de i nformação e comunicação ressurgiram após décadas de imers ão em contextos de
opressão e de ditad ura. E se era mais ou menos fácil alterar políticas opressiv a s para políticas
democráticas, a vertente da educação estaria longe de poder ser aquilo q ue se almejava. Havia a
consciên cia de que não era suficiente abrir a escola a todos, para que todo s os problemas da
educação estivessem resolvidos. Era, efetivamente, uma estrutura difícil de alt erar e, desde o início, só
se conseguiriam resultados satisfatórios, se se inve stisse numa educ ação mais desafiante, mais
democrática e também mais crítica.
A política, a economia, a cultura, as relações sociais e laborais registaram grandes
transformações, muito dinamizadas pe las tecnologias digitais. Os processos de globalização
transportaram consigo novas formas de pensar, de atuar de decidir e, a par dess as mudanças,
também os sistemas educativos sofreram transformações profun das (Sa ntomé, 2006b) .
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O país reerguia-se, assim, d e anos de atraso cujos alicerces do seu desenvolvimento estariam
centrados na ree struturação económica, diríamos fina nceira. Controlar a s contas públicas e cont ribuir
para um Estado robusto financeir amente fora a pretensão do Estado Novo. As mudanças anunciavam -
se como um imperativo para a melh oria das condições de vida, pois era nece ssário recuperar o país ,
herdeiro de uma crise eco nómica em grande medida provocada pelo colonialis mo e ditadura em que
esteve mergulhado em quase cinco décadas.
Se o retrat o social não er a animador , o educacional não era consolador, já que Portu gal
apresentava u ma tax a de analfabetismo muito elevada e as ins tituições escolares, qu e eram poucas,
apresentavam consider áveis problemas de e strutura, de orga nização e gestão. Os p rofessores, com
pouca formação, lecionavam, sem que qualquer estatuto lhes fosse reconhecido e a sua colocação nas
escolas era feita segu ndo os princípios de clie ntelismo e caciquismo (Programa do I Governo
constitucional, 1976). Havi a m uito trabalho a fazer no âmbito das políticas, pois que só dessa forma se
conseguiri a qualificar a m ão - de - obra necessária à reconstrução social. As “frent es de batalha” não
anunciavam um trabalho f ácil nem encorajador para o poder político, que tinha , inevitavelmente, de
estabelecer prioridades e pr incípios a alcançar na sua governação.
Foram necess ários vários anos até chegar a um process o de acalmia organizativa no campo
educativo. A aprovação da Lei de Bases do Sistema Educativo, em 1986, traria à educação o que há
muito se aclamava, após sucessivas tom adas de posse e quedas de Governo s constitucionais. A escola
estava, assim, a ser construída segundo um conjunto de princípios ambicioso s e o reconhecimento da
sua relevância cedo a tornou obrigat ória e disponível para todo s, porque passou a estar acessível a
cada um (Gardou, 2009). E se a universalidade, a obrigatoriedade e a gratuitidade transpunham para a
educação básica esses princípios, outro s, como o de t er sucesso na escolarização , estariam longe de
ser alcançados.
Esta conquista normativa da democratização do ensin o permitiu que a s prioridades sobre a
educação não se centrassem na sua g eneraliz ação, que para alguns investigadores foi prematura, por
considerarem que ainda não tinham sido alcançados o acesso e o sucesso escola res efetivo s, fe z com
que se desviassem as políticas e os investigadores para outros cam pos de análise mais suscetíveis de
preocupação, pelo mediat is mo gerado à volta deles, mas t ambém m ais efémeros. P ara alguns
decisores políticos, a democrat ização da escola era um feito alcançado e, portanto, teria de se abrir o
campo das preocupações escolares para uma agenda cogita da no espaço europeu.
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Mas se estes princípios mormente designados e impressos nos mais diferentes manifestos
políticos, produção normati va e o reconhecimento de todos, independentemente do seu estatuto social,
económico e cultural, terem direi to à educação, par ece ter sido abandonada a preocupação com a
democratização da escola, com a possibi lidade de a escola poder ela própria ser uma instituição onde
todos se reconheçam, ond e t odos possam, at ravés d ela, desenvolver competências essenciais para a
sua in tegraçã o social. Como refere Lima (20 02) , parece ter s ido substituída a preocupação da
democratização da escola pela da modernização. Esta crítica muito visível e m te xtos e ar tigos de
opinião vão aq ui m erecer u ma maior atenção, pois qu e efetivamente parece-no s que as p reocupações
de agenda política se centraram em seguir panfletos eleitoralistas e recomendações supranacionais ,
que coloca ram a enfâse na qualificação da escola, na sua melhoria e competitividade e não tanto na
sua generalização a todos os que nela têm direito de a frequentar e ter sucesso n a sua aprendizagem.
Situando-nos no princípio da democrat ização da escola, mesmo que esta não seja uma realidade
alcançada, é importante clarificar os processos de m udança e reforma pelos q uais a escola passou.
Situar o início da democratização da escola com a revolução de abril é pouco rigoroso, já que a
reforma Veiga Simão anunciava princípios da democratização do ensino. O reco nhecimento ao direito
de t odos frequentarem a escola, indepen dentemente do seu sexo, etnia, estra to social, cultural e
económico foi trazido pela publicação da Lei n.º 5/73, de 25 de j ulho, pelo então Ministro da Educação
Nacional Veiga Simão . Estava presen te, nesta lei, o princípi o de assegurar a t odos os portugues es o
direito à educação, segundo a ca pacidade e o mérito de cada um, garantindo a liberdade de ensin o em
todas as suas m odalidades. No entanto, esta lei não chegou a ser aplicada na sua generalidade, sendo
a Lei de Bases do Sistema Educativo, a Lei n.º 46/86, de 14 de outubro , a ef etivar o reconhecimento
da igualdade de oportunidades de acesso e sucess o es colares.
No que à realidade portugues a diz respeito é também na década de 1980 que se assiste a
grandes alterações nos discursos das políticas educat ivas (Fernandes , 2 006) . Est a década ficará para
a educação como uma referên cia incontornável, desde logo por ter sido nessa é poca aprovada a Lei de
Bases do Sistema Educativo que ainda h oje vigora, embora com três alterações ao seu conteúdo. No
entanto, os princípios, o s pressupostos, a “arquitetura”, m antêm -se no e ssencial, tendo sido capaz de
abraçar difer entes reformas ou revisões curriculares. Alterações que sempre tentaram melhorar o
sistema educativo, a sua orga nização, o seu conteúdo, o seu compromisso par a com todos os que
frequentam a escola. Todos têm tido o direito de ace sso à escola, mas nem sempre ao sucess o nas
suas aprendizagens. Este “não garante” de sucess o a t odos os que frequentam a escola tem
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conduzido alguns i nvestigadores à compreensão das r azões pelas quais o sistema escolar não permit e
que todos os alunos tenham suces so nas suas aprend izagens.
A década de 1980 é, manifestamente, a nível mun dial, u m tempo de reform as e ducativas que
compreendem mudanças estrat égicas nos diferentes pontos críticos do sistema educativo (Pacheco,
2006 a). Em Portugal, com maior ou menor insistência, as decisões políticas t iveram em consideração
algumas medidas, que procuraram at enuar pro blemas oco rridos ao longo de décadas. Desde logo ,
com a aprovação da Lei de Bases do Sistema Educativo, em 1986, que “e nquadra um desejo de
estabilidade e configuração do sistema educativo, que fo i primeiramente tentada com a reforma Veiga
Simão de 1971 a 1973” (Pacheco, 2006 a, p. 3), por exem plo. Quando a massificação dava conta dos
seus dilemas orga nizacionais, ocorreu a 1.ª reforma do sistema educativo da era democrát ica. Essa
reforma, que veio a prevalecer nos seus princípios até hoje, centrou -se essen cialmente na
modernização dos conteúdos das disciplinas. Mas foram vários os normat ivos que vieram, de forma
mais ou menos expressiva, a alt erar práticas e conceções dos professores nas escolas. O Despacho
normativo n.º 98-A/92, de 20 de junho, que definia a avaliação das apre ndizagens dos al unos do
ensino básico é t alvez o m elhor exemplo do quant o as conceções sobre p rát icas de avaliaçã o se
modificaram, desde logo com a impossibi lidade de re provação dos alunos no 1.º ano de escolaridade,
do 1.º ciclo do en sino básico (ceb), considerando o ciclo como unidade definidora da
aprovação/retenção, sendo a progressão o percurs o normal a considerar, t endo por isso a retenção
carácter excecional. A verd ade é que estes princípios nem sempre foram acolhid os ou bem enten didos
e foi-se consagrando, nas conceções dos profe ssores, que a Adm inis tração central teria decidido, a
partir de um normativo, a passagem automática dos alun os no ensino básico.
Este mero exem plo, serve apenas pa ra ilustrar o quanto podem ser contraditó rios os d iscursos,
as interpretações, as práticas sobre as po líticas educat ivas. A forma com o, por vezes,
intencion alme nte, se pretende promover uma prática de mudança ou uma inovação, que no t erreno é
deturpada como se a mesma pretendesse um outro objetiv o, que não aquele q ue lhe deu origem. Se,
por um lado, t emos assistido a uma cada vez maior proliferação de inve stigações no ca mpo educativo,
que teorizam sobre o mel hor caminho a seguir, por outro lado, não é menos verdade que tam bém
assistimos a uma crescente publi citação de n ormativos. Portanto, e neste entrecho, é importante
compreendermos como es tas articulações se concretizam, se fundamentam, se articulam desde a
Administração central, entidade definidora das políticas educativas, até ao trabalho das escolas e dos
profess o res.
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A década de 1980 ficou co nhecida como uma época, cuja ênfase foi colocada na igualdade de
oportunidades individuais e na j ustificação da neces sidade de uma refo rma que tinha por objetivo
atenuar o insucesso escolar dos alunos e m elhorar a qualidade das sua s aprendizagens; já na década
de 1990, reconhece-se a importância da organização do sistema escolar, expre sso no imperativo de
uma política de diferenciação que t inha por objetivo p roporcionar uma real iguald ade de oportunidades
a todos os alunos (Leite, 2003).
É, precisamente, nos finais da década de 1990, qu e ocorreu uma reorganização curricular,
quando em Portugal se ass istiu a uma m udança das políticas educativas que atr ibuía às e scolas, aos
profess o res e ao currículo a grande responsabilidade de articular e gerir esforços para que, de forma
coordenada, se pudessem respeitar os co ntextos, as diferenças a partir de u ma gestão curr icular
flexível.
O período compreendido entre 1995 e 2 002 representou, no nosso país, um tempo de
mudanças de política educat iva significativas no modo com o se pretendia compreender, i nterpretar e
implementar os
curricula
escolares. As políticas educativas, demarcadas por mudanças substanciais a o
nível c urricular, co nduzir am a um período de diálogo, de reflexão de vário s agentes educativos q ue, a
par de um processo de formação de educadores de infân cia e professores do en sin o básico (motivado
pela Lei n.º 115/97, de 1 9 de setembro que alt era a LBSE ), permitiram que o currículo ganha sse um
certo protag onismo, tentando -se a part ir daí alt erar as prát icas dos profe ssores, nomeadam ente as
centradas na construção de novos ins trumentos cu rriculares. Este período, que culmin aria com a
aprovação do Decreto-lei n .º 6/2001, de 1 8 de janei ro, que aprov ou a
Reorganização Curricular do
Ensin o Básico
, foi entendido por alg uns como se ndo i gual a muitos períodos polí ticos, cuja agenda se
centrava em fazer diferente para demarcar u ma posição educativa. N o en tanto, parece -nos q ue pode
não ter sido bem assim, pelo que é um período que merecerá a nossa particular atenção por ter no
âmago da sua génese as ques tões curriculares.
No que concerne à reorganização curricular de s se período, Pach eco (2006a ), defende que o
discurs o de inovação em torno desta reforma não se ass umiu como um processo inovador, pois a
inovação ficou c ircunscrita à aprovação de normat ivos, à s alterações do s plano s curriculare s, a um
novo regime de avaliação das aprendizagens, à substituição da Área -Escola pela Á rea de Projeto, a
novos programas (somente para o ensino secundário), à abordagem curricular por competências
(somente no bás ico ) e à organização curricular por projetos.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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Embora se recon heça, em alg uns documentos iniciais de trabalho, em torno da reorganização
curricular, que a muda nça que se proclamava viria a a lterar significativamente as práticas curriculares
dos professores, a verdade é que algumas inves tigações nos dão conta do contrário (cf. Roldão, 2005).
Tendo presente alguns estudos que no s reportam para as implicações desta s e de ou tras
reformas nas escolas e nos professores, e sta investigação não se apresenta para refutar ou não as
conclusões ora ch egadas, n em pretende ser ap enas m ais um estudo que pretend e concluir o que já foi
divulgado; pretende antes realizar uma investiga ção qu e contribua para uma teoria histórica (Goodson,
2008) sobre a s políticas educat ivas dos difere ntes Governos co nstitucionais em Port ugal, centrando as
escolas, os professores, o currículo e os alunos e m con textos de transformação e de reforma.
O
Projeto de Refle xão Participada sobre os Currículos do Ensino Básico,
q ue t eve por intenção
lançar “um debate reflexivo sobre o cu rrículo da educação bá sica, suas finalidades e gestão, no sentido
de melhorar a eficácia e a dequação das práticas educa tivas” (Ministéri o da Educa ção, 1997, p. 9),
inser e- se numa política internacional no final de um período de reforma, que em muitos países
ocidentais decorre ao longo das décadas de 1980-1990, entre as quais destac amos a reforma
curricular portuguesa de 1989, cuja generalização se c onclui no final da década de 1990. Verificou -se,
com esta reforma, a dificu ldade de se produz ir mudança por via apenas da alt eração dos t extos
curriculares e programáticos e pela diversidade de situações que atualment e se encontram nas
escolas. Iniciou-se, assim, um projeto que pr essupôs a intervenção ef etiva de diversos elementos:
currículo, escola, docentes, avaliação, pois que a investigação mais recente também nos tem mostrado
que as reformas implemen tadas de cima para baixo não t êm produzido o efeito desejado, e q ue a
forma de se gerar mudanças de práticas curriculares se relaciona com o desenvolvimento de
estratégias de projetos curriculares contextualizados, fundamentados, planeados e implementados pela
escola e professores envolvidos em cada contexto (Ministério da Educação, 1997).
Este discurso po lítico tem sido corroborado por diferentes i nves tigadores (Goodson, 20 08;
Habermas, 2002; Hargreaves & Fink, 2007) que também referem, no essencial, q ue as mudanças não
se decreta m. Mas se este discurso é unanimemente aceite por investigadores, decisores políticos e
profess o res, a verdade é q ue continua a estar n o palco das preocupações, dos agentes educativos, o
insu ce sso da maioria das reformas. Nesta perspetiva, considera -se que importa negociar um novo
equilíbrio entre a Administração central e as prát icas curriculares dos professores, que se esperam
inovadoras. Embora co nsigamos compreender, a partir da leitura de vários docu mentos de trabalh o,
que anteciparam esta reorga nização, que esteve p res ente a premissa do comprometimento das
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escolas e dos professores na n egociação da reforma, a verdade é qu e isso não se tem verif icado na
prática, insurgindo-se alguns i nvestigadores nacionai s e i nternacionais (Bolívar, 2007; Lima, 2011;
Goodson, 20 08) a referirem que as mudanças educat ivas têm tido lugar independentemente das
crenças, dos sentidos e da missão pessoal dos pr ofessores.
Este conjunto de mudanças, de reformas, de publicitação de normativos, de produção de textos
e de inves tigações despertam a c uriosidade inquietante para o entendimento dos sentidos, dos
significados, das implicações e das consequências que as reformas ( ou contrarreformas) podem
assumir nas escolas nas prát icas curriculares dos prof essores. É neste entrecho de motivação que este
estudo pretende com preender como foi sendo definida a política educativa ao longo da construção da
democracia em Portugal. Pois, que nesta investigação parte -se do pressuposto de que nenhuma
análise curricular pode con siderar-se completa se não coloca r no seu âmag o uma atenção à definição
de política educativa presente, numa determinada época e n um determinado contexto.
Podemos constat ar que a democratização do ensino em Portugal é um fenómeno recente e daí
os seus efeitos ser em ainda premat uros no que à ef etivação da cultura e educação diz respeito. O
alargamento da escolaridade obrigatória correspondeu a um aumento g radual da escolarização dos
cidadãos e passados quase 50 anos as preocupações educativas foram ta mbém elas sofrendo
transformações. Se a preoc upação inicial de alarg amento da escolaridade a todos foi uma prioridade,
esta deixou de o se r para o ser a da qualidade na educação. Contudo, e embora o país estivesse, ao
longo destas quatro décadas, imerso em reformas e/ou em pe quenas/grandes mudanças e struturais
no ca mpo educativo, a verdade é que o mesmo parece ainda reclamar princípi o s e objetivos com uns
que ainda n ão fo ram totalmente alcançados.
Como refere Pacheco ( 2011), as m udanças na e ducação têm -se sucedido desde que a
instituição escolar se tor nou uma realidade h istórica em resposta aos desafios sociais, económicos,
políticos e culturais . A mudança é assim encarada como uma prerrogativa polí tica que encara a
educação com o alg o, que estando ao seu serviço, deve ser capaz de alt erar as prá ticas es colares, q ue
são sempre apontadas com um ou outro aspeto a melhorar. Independentemente do ca mpo concet ual
do conceito mudança ou do conceito reforma, da sua abrangência, semelhança ou difere nça
terminológica que possa existir entre os co nceitos, importa aq ui situar que é nossa preocupação tentar
compreender a forma como as mesmas foram propostas e implementadas ao longo dos anos, da ndo
sobretudo relevo às que ao currículo diz respeito.
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As reformas e as implicaçõ es das mudanças que se e speram fazer s entir vã o me recer, da nossa
parte, uma at enção especial na análise fenomenológica da própria m udança e da sua relação com as
escolas e com os professores. Centrando-nos na educ ação pública e na responsabilidade que o Estado
tem perante a sua conceção e desenvolvim ento, nece ssitamos de com preender as opções de pol ítica
educativa das últimas déca das e compreender essas opções num quadro de relação supranacional,
institucional e profissional.
A este propósito t ambém Bolívar (2007, p. 20) refere a importância de se faz er uma
“fenomenologia da mudança educativa, investigando o significado que, numa sit uação organizativa e
com uma política curricular determinadas, tem um dado curriculum para os parti cipantes (professores
e alunos)”. Esta compreen são só é possível se co nse guirmos centrar o estudo no objeto central de
inves tigaçã o que é o currículo, m as ao centrá -lo no currículo expandi-lo para a s diversas dimensões
onde o mesmo ocorre, d esde as políticas educat ivas, à escola, passando necessariamente pelo s
profess o res que lhe dão corpo a partir das suas práticas reais.
Esta anális e da mudança e ducacional, no contexto da s pol íticas edu cativas decorrentes e suas
implicações nas conceções e práticas curriculares dos professores, fora e studada por Bolívar (2007)
sob a realidade espanhola e uma das conclusões a que o autor chega é exa tamente a importância
desta relação se estabelecer. Nenhuma política educativa pode t er êxito se não for capaz de alcançar o
âmago do t rabalho do profes sor. Nenhuma política educativa é bem implementa da se a mesma não for
ao en contro dos desejos pessoais dos professores. Esta relação entre possívei s reformas, que se
esperam implementar, no sentido de provocar mudanças e inovações substanciais, estão circu nscri tas
a decisões de política educativa e curricular qu e o Estado possa t omar, e nesse sentido import a
compreender a relação que se estabelece no s difer e ntes m omentos do pr ocesso de reforma com os
diferentes agen tes implicados.
É tam bém de referir um estudo longitudinal , liderad o por Goodson (2008) e financiado pela
Spencer Fo undation
sobre a mudança nas escolas. O m esmo dá -nos co nta da importância de se
compreender a mudança c omo processo, isto é, o de compreender ao longo de um período longo de
tempo o contexto sócio histórico dos process os de m udan ça. O trazer para o ce ntro da análise, dos
contextos da mudança, “os tempos e os espaços em que a mudança é promovida, alimentada,
consolidada e continuada” (p. 119). Esta ideia de que a mudança não é u m produto, mas uma
condição faz com que a dimensão pessoal dos sujeitos, as paixões e os objetivos pessoais ganhem um
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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sentido de lugar, da í o conceito de “personalidade da mudança” t razido por Goodson para aqui neste
trabalho ser também analisado na ótica das reformas que em Portugal se lev aram a cabo.
Não h á edu cação sem política educativa que es tabele ça prioridades, metas, conteúdos (Freir e ,
2001), tal com o não h á política educativa sem escolas que g arantam a operacionalização do que
centralmente se defina, para que estas possam imple mentar at ravés dos seus professores, os projetos
que diferentes Go vernos lev aram a cabo. Já Meyer ( 20 00) anunciava há mais de três década s de que
não h á acordos sobre os f ins da educação, da m esma forma que não h á acordos sobre as formas de
os prosseguir. Significa is to que não há uma con ceção com um sobre o que deve s er a educação e o
seu conteúdo, tal como não há consens o qua nto aos fatores de eficácia dos sis temas educativos e
embora se enun ciem fins e objetivos a alcançar e estes se inscrevam n um conjun to comum de
categorias curriculares , não h á um entendimento do que essas catego rias significam e como serão
priorizadas. Ora, isto conduz a uma proliferação de ferramentas fiáveis de avaliaç ão da educação e da
sua eficácia (D a le, 2006, 2008).
No m undo, a principal organização a produzir disc urso sobre a educação é a Organização de
Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e no seu encalço o Banco Mundial. O seu
surgimento corresponde ao lançamento do Sputnik pelos russos e os movimentos gerados em torno do
que se a ndava a ensinar em outros países, para qu e tenha sido a antiga União Soviética a ser a
responsável por tal acontecimento. Foi desta organização que surgiu a reforma da matemática
moderna e o discurso d a “qualidade”, da “eficácia” e da “avaliação”, que surgem de forma
proeminen te na educação, a partir da década de 1980 , onde o di scurso da inovação para esta
organização é em si um progresso para a educação (Charlot, 2006).
Assim, e nes te e ntrecho, consideramos qu e sem uma motivação pessoal não h averá
compromisso, nem tão pouco a melhoria ocorrerá, por essa razão, as políticas educativas não devem
centrar-se ape nas nos resultados, sem que a ntes se promovam estratégias de envolvi me nto dos
profess o res no alcance de sses resultados (Bolívar, 2013). Pelo que importa, a os decisores políticos,
questionarem-se sobre o m odo como essas po líticas v ão modificar as práticas dos professores e dos
al unos. Pois q ue nenhuma reforma res olve por si só um problema educacional ( Charlot , 2006) .
Precisamos de o lhar para as m udanças e para as reformas educat ivas como pr ocessos q ue se
movem em diferentes direções, de de ntro para fora e de fora para dentro. E ste movimento bidirecional
reflete-se nas convicções e missões pes soais e profissionais dos professores, q ue assim são encaradas
como propuls oras para as reformas que se pretendam encetar. Est as reformas só serão bem -
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No C apítulo 6, de acordo com o definido no capítulo d a metodologia analisamos, os vinte e um
programas dos Governos constitucionais, tendo em conta as quat ro dimensões a qui consideradas para
a análise - a
Administração Central/Ministério da Educ ação
, a
Escola
, os
Profess o res
, o
Currículo
e os
Alunos
- a partir da s seguintes categorias -
Situação Ret ratada
,
Princípi os a A lcançar
,
Medidas
Concretas a Tomar
,
Normativos Publicados
. Estas categorias e dimensões de análise permitiram-nos
respostas às que stões colocadas, bem como o alcan ce dos objetivos de investigação definidos –
aspetos que merece ra m a nossa maior atenção aquando d a apresen tação das conclus ões do estudo.
Por fim, mas não menos importante , os pensamentos, as reflexões geradas e m torno deste
processo de elaboraçã o da tese, que não sendo escritos fizeram parte de um apanágio de
aprendizage ns que se desenvolveram em conjunto com todos os autores li dos e citados. Por que um
trabalho, embora solitário na escrita de quem o desenvolve, sempre é acompanhado pelas
observações, pelo q ue se lê e pelo que se interpreta. Espera - se , no entanto, que as ideias dos autores
aqui cit ados não estejam des virtuadas nos sentidos, nos significados ou nos propósitos com os quais
foram produzidas. Um trabalh o de análise é também um trabalh o de interpretação e de
reinterpretação, de um olhar crítico, de um olhar informado, mas também formado pelo contexto
social, cultural, ideológ ico e político em torno do que é , e de como interpreta o que lê. I s so faz da
leitura sempr e uma releitura, e como dizia Boff (1977), um ponto de vista é sem pre a vista de um
ponto, o ponto de onde os pés pi sam. Esperemos qu e os nossos sejam capazes de pisar o terreno
necess ár io para o alcance dos objetivos e da problemática que nos propomos abor dar.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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I. ENQUADR AMENTO TE ÓRICO
CAPÍTULO 1. AS PO LÍTICAS DE ES TADO: DE UM QUADRO C ARACTERIZADOR DA
EDUCAÇÃO ÀS INFLUÊNCIAS NACIONAIS E TRANSNACIONAIS
1.1. O Estado e as políticas de educação
Começar a escrever sobre o Estado e as suas opções para com a edu cação não é tarefa fácil .
Desde logo, po rque é imp ortante situarmo -nos num contexto específico e, sendo a sua delimitaçã o
histórica, social, po lítica e e conómica relevante, há que compreender estas influências que porventura
o Estado possa t er pera nte as decisões que t oma, ao nível da s políticas educat ivas. Estam os
conscien tes que uma análi se rigorosa terá sempre de se fazer, tendo em conta esse contexto social e
político, mas também investigativo. O nosso olh ar deve, assim, cruzar-se com o olhar dos que
estudaram, também, estas questões, para que uma triangulação de relações epistémicas se faça.
Almerindo Janela Afonso, A ntónio Teodoro, Fátima A ntu nes, João Barroso, Leonor Torres , José Augusto
Pacheco, Licínio Lima, Rui Canário, St ephen St oer e Carlinda Leite, entre o utros, são investiga dores
que t êm colocado no centro da sua pesquisa o Estad o na configuração das políticas educat ivas e
curriculares, com a preocupaçã o de aprofundar o modo como tais políticas se art iculam a nível macro,
meso e micro, pois t odos têm em comum um quadro teórico -conceptual sustentado por St ephen Ball,
quando identifica as fases de produção da s políticas. As suas capacidades h ermenêu ticas, embora
distintas, deixam ressalvar uma abordagem crítica, numa t entativa de des vendar a pretensa
objetividade com a inevitável subjetividade, t ão característica e presente nos prog ramas e ações dos
Governos.
Embora as políticas se context ualizem num Go verno, as mesmas, po r si só, devem ser
compreendidas nas formas e cont extos que lhes dão origem. É recorrente, como refere Ball (2006), a
desconexão s ubstantiva das pesquisas em política educacional da arena geral da pol ítica social.
Baseado na análise da ontologia política, alerta-nos para a quase inexistência de pesquisas sob re
política edu cativa. Os olhares epistémicos tendem a dirigir-se para o âmago da escola, para as
questões organizacionais, administrativas ou de gestão, para o trabalho dos professores, para a
concretização e desenvolvimento das aprendizagens dos alunos, para as form as como os ag entes
educativos, nomeadamente os pais, se orientam e se direcionam perante a escola. Raras são as vezes
em que as investigações trazem ao palco das preocupações as questões refe rentes ao s text os dos
programas n ormativos, ensaios documentais de lin h agem política, que s e tra duzem em variadas
formas de interpretações que cada um fará dos mesmos.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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A tradução prática do modo com o as políticas de educação ch egam às escolas e são perceb idas
pelos professores re sultam n um processo de reinterpretação n ormativa sobre o que obrigatoriamente
se deve faze r, sem q ue se conh eça de facto o projeto político -ideológico que lhe d eu origem. Por vezes,
existe uma certa associação ao que cientificament e se defe nde e é l egitimador conducente a um
preâmbulo que se lhe associa, mas que rapidamente se distancia por um articulado burocrático e por
vezes pouco democrát ico sobre o que se deve fazer nas escolas. Outras s ituações oco rrem em que, ao
se desconhecer o processo empírico ideológico (Apple, 1982, 1999, 2000) sobre eventuais medidas a
tomar, são t omadas, por forças paralelas, articuladas e desarticuladas, de políticas supranacionais,
transnacion ai s e que economicamente se justificam pe lo caráct er econom icista qu e, nos últimos anos,
se tem tentando impor em Portugal (Afon so, 2014; Pacheco, 2016).
Como refere Ball (20 06, p. 18), “o desenvolvimento epistemológico nas ciências humanas,
como a educação, funciona politicamente e é intima mente imbricado no ger enciamento prático dos
problemas s ociai s e pol íticos”. Mas a educação é um projeto político -ideológico (Freire, 1 992) e, por
isso, não se pode dissociar das políticas educativas mais amplas. Assim, importa que haja uma
preocupação pelos fatores contextuais , socias, político s, económicos, qua nto pela abstra ção decorrente
de muitas pesqu isas sobre política edu cacional. Ball ( 2006, p. 22) afirma, ainda, que “as pesquisas
sobre políticas educacionais não possuem um sentido de ‘lugar’. Ela s não local izam as pol í t icas em
nenhum quadro que ultra passe o nível nacio nal, nem conseguem dar uma expl icação analítica ou
conduzir a um sen tido de localidade nas análises das realizações políticas”. Com efeito, são análises
gerais que parecem situar- se em qualquer espaço, sem que o espaço seja devidam ente analisado nas
suas características mais particulares e específi cas.
No reconhecimento destas limitações e configurações políticas, h á, t ambém, a presente
desconexão substantiva entre as pe squisas em política educacional e as políticas sociais. Uma anál ise
educacional não pode alhear -se da política social mais ampla, elas estão imbricad as e conect adas nas
suas mais profundas raízes. A análise dos discursos de ambas pode ajudar -nos a compreender
algumas das suas relações, bem como as t endências que nos espaços e nos tempos algumas das
medidas de política educativa e social tomaram corpo.
Estas considerações de Ball permitem -nos perceber os riscos que porventura podemos correr ao
fazer uma análise crítica sobre as políticas educa cionais. Nessa medida, delimitamos, neste estudo, o
espaço português , mesmo com o reconhecimento das infl uências supranacionais, sendo certo que a
democratização do ensino em Portugal demarca a época a partir da qual recaem as nossas dili gências.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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Assim, elegemos o surgimento do Estado social ou E stado -providência, qu e se desenvolveu no
século XI X, para início da nossa viagem sobre a análise dialógica entre a políti ca educacional e a
política social mais ampla.
A Europa, após a segunda g uerra mundial, tenta va r eerguer-se de um con flito devastador que
custou milhões de vidas e a destruição de inúmeras infraestruturas. Após essa destruição, a luta de
poderes fez-se nas mais dif erentes inst âncias e não fal taram por isso teorias a darem conta da forma
como os Estad os se deveriam reerguer em função d e parcerias, apoios e coliga ções ass umidos na
altura. As teorias socialistas, capitalistas, liberais e neoliberais dominavam , nomeadamente no contexto
de relação entre o Estado e a ca pacidade individu al de se gerar riq ueza. E à expansão capitalista, que
se seguiu à segunda g uerra mundial, pelas t ensões que se viveram entre o capital e o trabalho, o
capitalismo e a dem ocracia, a legitimação e a acumulação, a resposta, na maioria dos países da
Europa, foi a da instauração do Estado -providência (Afonso, 2002). É nesta conjunção que surge o
welfare state
, o Estado de bem-estar social, muitas vezes designado por Estado providên cia, ou
simplesmen te Est ado social , e que atingiu o seu maior auge na Europa , com o fim da segunda guerra
mundial e o surgimento da indus trialização. O Est ado ficari a, assim, com a responsabilidade de
proteger os interess es dos cidadãos nos mais diferen tes campos de necessidades básicas , como
proteção social, segurança, saúde e educação (Afonso, 2002, 2020 ).
Foi cre scendo a crença de que o Estad o deveria, ele próprio, garantir, pela via democrática
(Afonso, 2020), um con junt o de bens e serviços como a educação e a saúde e ain da assim garantir
também que as empresas se pudessem reerguer . Mas a par desta c rença, surge tam bém a idei a de
que a economia devia estar ela própria regulada pelo m ercado sem que o Estad o se preocupasse com
a forma com o se desenvolvia. Naturalmente que daqui surgiram várias teorias e d efens ores dos ideais
preconizados. Os liberais acreditavam que o Estado não devia intervir n a economia, mas apena s
garantir que todos os serviços básicos de saúde, educação e segurança fossem responsabilidade do
Estado. O liberalismo, que surge como perspetiva humanitária de respeito pela liberdade indiv idual,
pelo respeito coletivo dos direitos h umanos, vem a tomar uma nova roupagem quando oco rre uma
reinterpretação des se l iberalismo à l uz do s ideais da economia, nos Estad os U nidos da América. A
economia passa a ser a ciência que determina a forma como o mu ndo s e deve orga nizar. O Estado,
segundo os n eoliberais, não deve intervir na economia, sendo os mercados a regularem -se a si
próprios pelo espírito da livre concorrên cia.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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Este Estado social
1
, que, para além de outras obriga ções, tinha também por determinação
oferecer uma educação de base a todos os indivíduos, pois que o desenvolvimento e o crescimento de
um Estad o passariam sempre por um investimento forte na educação, manifestou -se de distintas
formas em função das opções políticas qu e o s diferentes países do mundo foram tomando.
A par da ideologia do Estado social, muito susten tada pelas teorias Keynesianas, surge um
movimento de reação contrário que tivera o seu apogeu em meados das d écadas de 1970 e,
particularmente, na década de 1980. O movim ento neoliberal que viria a revolucionar e a influenciar as
governações dos E stados a nível m undial, que t iveram a oportunidade de ensaiar o Keyne sianismo,
passou a tomar corpo no vazio deixado pela nova crise do capitalismo e pela derrocada do socialismo
real. As críticas ao Estado providência as sentaram nas considerações de q ue os indivíduos sabem
melhor do que o Estado o qu e é m elhor para eles. O mercado, enquanto espécie de organização, é
quem melhor pode distribuir os bens e serviços, at é aqueles que d urante décadas estiveram sob a
alçada e responsabilidade do Estado, fazen do crer , também, que a desigualdade entre os i ndivíduos,
bem como o acesso a determinados be ns, é sempre desigual e diferenciada, por ser uma característica
natural da sociedade (Afonso, 2002).
Esta relação de, por um lado, o Estado ter a obrigação de proteger os cidadãos dessas
necessidades básicas e, por outro, de se assumir com responsabilidades na intervenção económica,
conduziu -o a conflitos difíceis de gerir. Face a esses conflit os, florescem imediat amen te as críticas da
nova direita (neoliber alismo económico e neoconservadorismo político), que reclamam uma redefinição
do papel e da função do Estado (Afonso, 2002 ; Barro so 20 05; B arroso, Carvalho, Fontoura & Afon so,
2007 ) e q ue, de acordo com os países e tendências governativas vigentes, essas forças neoliberais têm
mais ou menos expr e ssão.
A partir dos anos de 19 80, através do
tatcherismo
e do
regganismo
, assistiu-se ao surgimento
das políticas neoliberais, c om a redução do papel do Estado e a criação de mercados, ou quase -
mercados, nos sectores tradicionalmente públicos, c omo a saúde e a educaç ão. Estas “políticas
neoliberais” afetaram diretamente muitos outros países e foram consideradas como referê ncias a
seguir pelas grandes organizações i nternacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o
1
Estado de bem-est ar social, Estado social também conh ecido por Estado providênc ia, (em inglês
Welfar e State
) é um tipo de Estado que tem
como preocupações centrais a promoção d o bem -estar social e ed ucacio nal. É o reg ula mentador da economia, da política, da saúde, da segurança , da
educação e que em parceria com organiz ações privadas (estes com intervenções distinta s em f unção dos países em que esta tipol ogia de E sta do exista) e
sindicato s g arantem serviços públicos e p roteção à população . Esta forma de org anizaç ão de Estado, que teve origem após a II Guerra Mundial, em pleno
período de depressão eur opeu, desenvolveu-se na E uropa e de forma mais intensa nos países nórdicos, como a Suécia, a Dinamarca, a Noruega e a
Finlândia, so b a orientação do eco nomista e sociólogo sueco Karl Myrdal. O fim do nazismo e do fascismo faria m crescer as teo rias sociais indiss ociáveis à
existência de qualquer cidadão .
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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Banco Mundial (BM), a Organização para a Cooperaçã o do Desenvolvimento Económico (OCDE), e ntre
outras e que culminou co m o “consenso de Washingt on”, cujas principais dire trizes pas savam por:
“disciplina orçamental, reforma fiscal, eliminação da s barreiras às trocas i nternacionais, privatização e
desregulamentação, com o consequente apagam ento da intervenção d o Estado” ( Barroso, 2005, p.
741). Com o vi rar do milénio, Barroso (2005) é de opinião de que se assiste a um recuo das teorias
mais radicais do neoliberalis mo e ao aparecimento de propostas alternativas que vão no sentido de
procurar um equ ilíbrio entr e o Estado e o mercado, ou mesmo no sen tido de superar esta dicotomia
pela reativação de formas de interven ção sociocomunit ária na gestão das questões de ordem pública.
Estas relações entre o Estado e o mercado sempre se fizeram sentir, de forma mais ou m enos
presen te, con soante os países em que se possa centrar a nossa análise. Embora estas tendências
tenham sido disseminadas por diferentes investigadores, um pouco por todo o mundo, a verdade é
que, em Portugal, só a partir do final do ano de 1970, é que o Es t ado as sumiu o prin cípio de
redistribuir os bens e ssenciais, como o direito à saúde, à segurança, à e ducação, por t odos,
indepen de ntemente do seu estatuto social, cultural e condição económico financeira. At ravés de um
pacto social e fiscal, em que os grupos sociais em função dos seus rendimentos, contribuíam com um
imposto progressivo para o Estado, este redistribuía de forma igual e equitativa, por todo s os cidad ãos,
uma série de prestações sanitárias, educativas e socais. Ainda se verifica uma certa t end ência para a
interven ção sociocomu nitária da gestão da coisa pública (Barroso, 2005) quando alguns destes
serviços estão em risco de não se rem s uportados essencialmente pelo Estado. Portanto, e em bom
rigor, não podemos afirmar que todos os países da Europ a sofrem de pol íticas neoliberais, a questão é
que oco rrem governações q ue t endencialmente implementam políticas mais neoliberais do que outras,
havendo u ma certa tendên cia de os representantes de ideologias mais direcionadas à esquerda
assumirem-se cont ra as mesmas e t entarem alertar sobre os destinos a que essas políticas neoliber ai s
podem conduzir u m país.
Estas relações e estas co nfluências na gestão de um Estado determinam -se com o relevantes
para posicionarmos a educação e a responsabilizaç ão do Estado para com a mesma, num
direcionamento nem sempre cons ensual. A ntes da segunda guerra mundial, o Est ado pensava a
educação em termos de construção de uma nação em paz solidária com os o utros, onde a inculcação
de valores se fazia por forma a que a ed ucação defe ndesse os ideais e a ide ntidade de uma nação
(Bauman, 2005). A partir dos anos de 1950, m as sobretudo, nos anos de 1960, o Estado, por es te
enquadramento social e p olítico torna-se um Estado desenvolvimentista, pensa a educação numa
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lógica económica e social do desenvolvi mento, muito n a ótica de que a educação deve estar ao serviço
da economia e estabelecer com ela uma estreita relação (Charlot, 2007).
O posicionamento destas t endên cias educacionais, nas décadas de 1950 e 1960, não é
claramente igual em todos os países, nomeadamente nos países da União Europeia. As políticas de
Estado que se fizeram sentir, de forma mais ou menos presente, na ótica das políticas neoliberais e no
posicionamen to do Estado para com a edu cação, também sofreram
nuances
dife renciadas. O projeto
de construção europeia, na sua primeira fase, pretend eu alca nçar um compromisso que vi sava o bem -
estar generalizado, o plen o emprego e a criação de classes médias numerosas, t endo por base a
propriedade privada e a li berdade de mer cado, con substanciado no
welfare stat e
(Marques et al.,
2008).
Este in cremento do Estado social na Europa determinou uma expansão e investimen to em
diferentes áreas sociais. Cedo se percebeu que uma sociedade sustentável, com o compromisso de a
si garantir um con jun to de bens e serviços pa ssíveis de acesso a todos, deveria orientar -se pa ra o
progresso da educação, pois que se acreditava que haveria um benefício económi co se a m ão - de -obra
fosse instru ída, trei nada nos sistemas educacion ais.
A expansão da edu cação escolar vai- se tornando as sim um investimento soci al de primeira
importância em todo o mundo, percebe ndo-se que nã o há desenvolvi mento económico sem recursos
humanos qual ificados pelo sistema escolar. A produtividade do trabalho evolui, à medida que evol ui a
qualificação profissional inicial dos recursos humanos das empresas (Azevedo, 2007 ). O Estado
comanda o crescimento económico e coloca a educação ao serviço do seu desenvolvimento (Ch arlot,
2007). Essa política encontra um amplo consenso social, p or gerar novos empregos qualificados, por
exigir uma escolaridade mais longa, permitindo pensar que a educação pode ser a responsável por um
maior desenvolvimento nacional.
O princípio de que a educaç ão não é uma alavanca da transformação social, m as sem ela a
sociedade não evolui (Freir e, 1992), permite -nos perceber que a tendência do investimento do Estado
era para que a educação pudesse apoiar a transformação social q ue se almejava. Consoante crescia o
espaço europeu, e se def iniam as li nhas disci plinad oras desse espaço, a s mesmas começavam a
ganhar contornos educativos e culturais contra as funções de reprodução social d e classes, há muito
confinadas à escola. A Europa det erminava pressu postos políticos em defesa de uma identidade
nacional, com incidência numa escolaridade obrigatória com diferentes opções formativas.
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Embora, em Portugal, a reforma Veiga Simão seja a promotora de u ma educação
democratizante, na assunção de u m lugar ce ntral na recomposição do Estado, é com a revolução d e
abril que os problemas educativos ganham um novo espaço político, tornando -se num ca mpo
privilegiado de legitimação de uma nova democracia. Nas palavras de Teodoro e Aníbal (2007, pp. 16 -
17),
no campo específico das políticas de educação, a revolução permitiu uma nova
centralidade para os proble mas educativos, remobilizando as aspirações de acesso aos
diferentes níveis de escolarização, amplificado no início dos anos 1970 pelo di scurso
meritocrático do último ministro da Educação do Estado Novo, e abrindo novas frentes
nos plano s da participação na gestão escolar e n a reformulação das estruturas e
conteúdos de ensino. A ed ucação, nesse período de crise revolucionária, para além de
um aceso palco de lutas políticas, tornou -se um ca mpo privilegiado de l egitimação da
nova situação democrát ica, apostada em mostrar uma radical mudança face às
anteriores políticas obscurantistas do Estado Novo.
A reforma Veiga Simão, cons umada pela Lei n.º 5/73, de 25 de julho, deu iníc io à edu cação
democratizante em Portugal. Ainda não t ínhamo s assistido à revolução de abril para percebermos que
a educação dava os seus primeiros pas sos para a de mocratização do ensino. Nat uralmente que e sta
revolução foi um dos marcos mais significat ivos para essa democrat ização, por ela própria representar
esses ideai s de liberalização e democratização. Portugal trilhava os primeiros passos do que se ria viver
numa sociedade mais plural, mais liberal e também ela, numa primeira tentat iva, de se transformar
numa sociedade mais democrática. Os primeiros anos que se sucederam ao 25 de abril foram anos de
conturbação política e, na educação, ainda se con siderou a continuidade dos p rincípi o s da reforma
iniciada em 1973, mas ce do se percebeu que Portu gal iria tomar um novo ru mo com a economia
direcionada para o espaço europeu.
De facto, a integração de Portugal, em 1986, na Comu nidade Económica Europeia (CEE), depois
apelidada de Un ião Europeia (UE), viria a influen ciar as políticas educativas, ag ora direcionadas para
um espaço de características cont extuais indefinidas, m as cujos discursos dos Est ados membros,
susten tavam um conceito de educação intimamente ligado ao mundo da economia e do trabalho
(Teodoro & A níbal, 2007). Esta relação viri a a influenciar os camin hos que a educação viria a trilhar,
rompendo, pelo menos ao nív el dos discursos, com paradigmas tradicionalmen te ac ademicistas e
sequencialis tas de uniformida de de saberes.
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Esta in tegraçã o originaria uma consonância imediat a nos discursos políticos e económicos,
abarcando os domínios cult urais e educacionais. A s r eformas e as mudanças d os outros países da
Europa passaram a ser inspiradoras para Portugal que t entou coadjuvar -se aos mesmos pri ncípios e às
mesmas aspirações. Se por u m lado, se ass istia a discursos de co ntextualização, de territorialização,
de flexibilidade perante as diferenças nacionais, por outro, os discursos internacionais permeabilizavam
modelos que inspi ravam as decisões políticas , eco nómicas, culturais e educacionai s europ eus.
A redefinição do papel de P ortugal na Europa viria a inf luen ciar as po líticas nacionais. Acreditava -
se, como ainda hoje se acredita , embora se faça pouco para sustentar esta premissa, que a sociedade
seria tão mais desenvolvida quanto o fosse a educação (Pach eco, 2000a). A sociedade portuguesa
necessitava urgentemente de se ree rguer e a superação dos seus problemas p assava efetivamente
pela integração na Europa e por um forte investimento na educação. Portugal ao assumir a integração
comunitária foi como que implementar um motor exógeno de desenvolvimento no interior do país, cujo
discurs o sobre a educação se centrou na qualificação da mão - de -obra necessária para a requalificação
da economia (Hursh, 2006; Charlot, 2007; Pacheco 2008).
Este pressuposto, de a educação ser a panaceia da reestru turação da economia, como já
analisámos, não é verificáv el apenas nesta altura. Vários investiga dores deram -nos conta disso, bem
como do facto de a nível mundial existir um movimento de reconstrução dos sistemas escolares, no s
finais da guerra fria. Pedró e Puig ( 1998) referem q ue, na Europa ocide ntal, e no fi nal da segu nda
guerra mundial, os países t iveram a consciência de qu e se deveria usar a escola para a reconstrução
social do si stema político dem ocrático e também na qualificação da mão- de -obra para a reconstrução
da economia, muitas vezes debaixo da batuta do Plano Marshall
2
dos Estados Unidos. Ma s, em
Portugal, António Oliveira Salazar considerou um de sperdício investir na educa ção e permitiu que o
país ficasse imerso numa desculturalização n unca vista durante décadas. Se outros países da Europa
se desenvolveram, muito por força destas tendências de investimento na educa ção a partir de um
Estado social, no fi nal da segunda guerra mundial, Portugal confinou -se a um empobrecimento
intelectual que s ó viria a ter alguma transformação nos finais da década de 1970.
2
Com o f inal da II guerra mundial, muitos países ficaram destruídos, era então necessário um investiment o f inanceiro para a reconstrução destes
países. Nos E sta dos U nidos pel o então secretário de estado George Ma rshall foi criado um plano econó mico, cujo objetivo princ ipal e ra pos sibilitar a
reconstruçã o dos países capitalistas . O plano f oi colocado em m archa em 194 7 pelos Estados Unidos da América, conseguindo uma certa hegemonia
perante os países que r ecuperava m da II guerra mundial. O plano Marsha ll tinha por objetivo apoiar financ eiramente os países capitalist as destruídos e
com isso conseguir fortalecer os laços comerciais exportando privilegiadamente para esses p aíses da Eur opa Ocidental. Com os países capita listas
fortalecidos ficou mais fácil e seguro para o bloco capita lista f azer fr ente ao socialismo durante a guer ra fria. Reino Unido , França e Inglaterr a foram os
países que receb eram mais aju da finance ira.
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O Tratad o de Maastricht, assinado n a cidade que lhe deu o nome, em 1992, t rouxe profundas
implicações para a integraçã o europeia. Um dos obj etivos do Tratado era o d e contribuir para o
desenvolvimento de uma educação de qualidade, excluindo, no en tanto, quaisquer processos de
harmonização na organizaçã o dos sistemas ed ucativos europeus. Não havia propostas concretas e
diretrizes com uns a que a educação se devesse reg er, contudo i sso não foi limitador para que o
incremento da mobilidade de estudantes se começasse a fazer sentir na construção de uma cidadania
europeia ativa (Marques et al., 2008). Os países membros da U E adotaram reformas educativas e
curriculares com uma identidade formad a em t orno da s paredes do Tratado de M aastricht, que exc lui
um sentido amplo da Europa mesmo quando procura inclu sões (Popkewitz, 2011) .
As reformulações das relações do poder impõem novas i nterpretações da presença do Estado na
escolarização, qu e opta ao longo dos anos por investir na edu cação, enquanto forma de promover o
desenvolvimento da econo mia, a reanimação cultural e o desen volvimento individual (Popkewitz,
1994). Numa primeira fas e, a am bição da educação foi construir a escola básica e obri g atória para
todos. Prolongou-se a escolaridade obrigat ória, abriu -se o primeiro segmento do que era o en sino
secundári o e ocorreu uma m assificação da escola (F ormosinho, 1992), com efeitos de reprodução
social (Bourdieu & Passeron, 2008), mas também de democrat ização (Charlot, 2007) .
No entanto, esta responsabilidade de o E stado assumir a educação e a ssumir o dever de a
estender a toda a população, com eça a t er outros contornos. Por m omentos, e talvez por força da s
contingências externas, co meçou-se a focar sobre a s questões da qualidade e eficiência da e scola.
Barroso (2005) aponta a descen tralização do si stema educativo, a aut onomia das escolas, a livre
escolha da escola pelos pais, o reforço de procedimentos da avaliação e prestação de contas, da
diversificação da oferta escolar, da contratualização da gestão escolar e da prestação de determinados
serviços como indicadores de mudança. Têm sido es te s os sinais que têm vindo, na opinião do autor, a
(...) alterar os modos de regulação dos poderes públicos no sistema escolar
(muitas vezes com recurs o a dispositivos de mercado), ou de substituir esses pod eres
públicos por entidades priv adas em muitos dos dom ínios q ue constituíam, at é aí, um
campo privilegiado da intervenção do Estado (p. 276 ).
Parecem ser cada vez mais convergentes os modos de regulação das políticas educa cionais, q ue
se elaboram e realizam sobretudo e através do Estado (Stoer, 2008). A introdução dos padrões de
eficiência e qualidade, a privatização dos serviços, a mercadorização do conhecimen to parecem ser os
discurs o s comuns que a Europa aparenta sustentar com o sendo os caminhos do futuro (Pacheco,
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modelo de governação (O lsse, & Peters , 2005), a par da s mu danças no cu rrículo, na avaliação e no
trabalho dos professores , encontram -se em curso h á mais de três décadas (Reino Unido e os Estados
Unidos da América). Trata-se de um processo com plexo e não li near, conduzido sob distintas forças
políticas e diferentes Gover nos, com avanços, inflexões e recuos, com hesitações, resistências e lutas.
A sua influ ência é visível no quadro de importantes organizações internacionais e na ag enda da maioria
dos Governos, em distintos continentes e países, com par ticular incidência na União Europeia e no s
seus vi nte e sete estados-m embros, ainda que, mesmo aqui, de forma s con sideravelmente
diferenciadas (Lima, 2001).
Para além de se denu nciarem, h á já alg uns anos , práticas de pê ndulo neoliberal n as qu estões
da educação, algumas in vestigações têm -nos permitido pe rceber algumas das co nsequências dess a s
práticas. A partir da tese de Ramalho (2012) , é possível fundamentar esta perspetiva que aqui se quer
trazer à análise; o mesmo demonstra que a conjuntura política e id eológica dos últimos anos tem sido
reveladora de práticas educacionais desarticuladas que em nada parecem favorecer a melhoria das
aprendizagens dos alunos. Medidas avulsas têm sido t omadas, normativos têm sido publicados sem
qualquer fundamentação conecta da com as práticas reais. O s propósitos anunciados de melhoria
apenas são visíveis nos papéis, sendo depois com pletamente desvirtuados nas prát icas reais. Só quem
não conhece as escolas acredita que e ssa produção n ormativa tenha efeitos posit ivos na melhor ia da
sua organi zação, administração e gestão curricu la r. Um bom exemplo disto sã o as atuais propostas
governativas no âmbito da avaliação de de sempenho profissional, qu e parecem resultar
essen c ialmente no conflito entre pa res, na de sconfiança e no desvio da atenção do professor para
aquilo que não é essencial e, mais recen temente, na fusão das escolas em mega agrupamentos.
Para os neoliberais, as políticas públicas e sociais que o Estado toma, no sentido de regular os
desequilíbrios gerados pelo desenvolvimento da acumulação capitalista, são con sideradas um dos
maiores entraves a este mesmo desenvolvimen to e respons á veis, em grande medida, pela crise que
atravessa a sociedade. A intervenção do Estado, para os neoliberais, constitui u ma ameaça ao s
interess es e liberdades i ndividuais, inibe a livre iniciativa, a concorrência privada, e pode bloquear os
mecanismos que o próprio mercado é capaz de gerar com vi sta a restabelecer o seu eq uilíbrio. Uma
vez mais, o livre mercado é apontad o pelos neoliberais como o g rande equalizador das relações e ntre
os indiv íduos e das oportunidades n a estrutura ocupacional da sociedade. Coerentes com estes
postulados, os neo liberais não defendem a responsabilidade do Estado em relação ao oferecimento de
educação pública a t odo cidadão, em termos univ ersalizantes, de maneira padr onizada. Um sistema
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estatal de oferta de escolarização compromete, em última instância, as possibilidades de escolha por
parte dos pais em relação à educação desejada para seus filhos (Hofling, 2001).
Hursh (2006) refere que os discursos neoliberais apr esentam as medidas que urgentemente
devem ser t omadas como se não h ouvess e alternativa. A s suas perspetivas baseadas numa
fundamentação de rigor, de exc elência e de equidade fazem antever que as mesmas são nece s sárias e
que os cam inhos da privati zação, da introdução de mercados compet itivos, de um currículo padrão, de
testes estandardizados e d e sanções para as escola s que apre sentem maus resu ltados, são os únicos
possíveis.
O neoliberalismo evidencia uma política de desgaste das redes que sustentam o Estado e não se
inibem em m ostrar sinais desse desgast e, nomeada mente da rede p ública das escolas. O s disc ursos
de prestígio e dom esticação dos sindicatos, das de sregulações do mercado laboral e as m edidas de
priva tização da saúde, e de corte no sistema de pensões (Santom é, 2006 a) pa recem s er o mal, n ão
apenas do nosso país, mas de uma política internacional, cujas evidê ncias na educação se verifica no
descrédito da educação pública e no pr estígio da educação privada.
Para ampliar o escopo de ofertas em relação a orientações e modelos educacionais, e tam bém
para aliviar os setores da sociedade que contribuem através de impostos para o sistema público de
ensino sem utilizá-lo necessariamente, as teorias neoliberais propõem que o Estado divida – ou
transfira – s uas re sponsabilidades com o setor privado. Assim, além de possibilitar às famílias o direito
de livre escolha em relação ao tipo de educação deseja da para seus filhos, este se ria um caminho para
estimular a com petição entre os serviços oferecidos no mercado, mantendo-se o padrão da qualidade
dos mesmos. A propos ta de participação da verba pú blica para educação – primária e secun dária –
seria através de vale s oferecidos a q uem os solicitasse, para ‘com prar’ no me rcado os serviços
educacionais q ue mais se identificassem com su as expectat ivas e necessidades, arcando as famíl ia s
com o custo da diferença de preço, caso es te seja superior ao vale recebido (Hofling, 2001).
Enquanto uma revi são da literatura revela que, ao pass o que a política em geral e as políticas da
educação, em particular, tenham, na verdade, se tornado mais ‘neoliberais’ isto não significou uma
redução com pleta no pape l e no tamanho do Estado e de outros grupos na formulação e formação
dessas mesmas políticas (Burton, 2014). Na verdade, conseguimos encontrar sinais claros do m odo
como o Estado consegue estar ao serviço dos mercad os, implementando po líticas que lhes servem os
seus interesses, nomeadamente quando se coloca na disposição de continuar a fi nanciar i nstituições
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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privadas q ue oferecem s erviços ed ucativos que em épocas passadas se justificaram, mas que
atualmente se colocam em dúvida.
Perante as influências que os mercados têm exercido sobre os Estad os, Afonso (2003) considera
que parece fazer algum sentido não se poder convocar, sem profundas at ualizações, algumas das
teorias disponíveis sobre o Estado. Também não poderemos deixar de considerar que o Estado, em si
mesmo, enquanto sujeito h istórico e político, continue a existir, por isso, con t inuamos a preci sar de
teorias que deem co nta da redefinição do seu papel e que se jam capazes de expli car quais o s limites e
possibilidades da sua ação no context o das novas co ndicionantes megaestruturais. Neste sentido, o
autor considera que continua a ser necessário problemat izar os efeitos (n ão l ineares e co ntraditórios)
da globalização
e a sua c onfiguração como nova e poderosa ideologia, a análise sociológica da s
políticas educacionais continua a não poder abrir mão da referência ao pape l e à natureza d o Estad o
nacional e às s uas relações com as class es sociai s e a não dispensar, portanto , o entendimen to das
especificidades (cu lturais, sociais, políticas, económicas e educacionais) que estão impregnadas da (e
na) história de uma dada formação social. “Co mo fazê-lo, entretanto, sem uma teoria do Estado
reatualizada? Ou, então, como falar da reforma do Estado sem que se comece por ch amar a at enção
para a necessidade da reforma das teorias do Estado?” (Afonso, 2003).
O neoliberalismo t em de s er “detido”, por que diminui a liber dade, a democracia e a i gualdade
na sociedade e na educação, refere Hursh (2006). Ma s se alguns estão cont ra det erminadas políticas
indiciadoras de um certo neoliberalismo na educação, outros há que nos chamam a atenção para o
uso exagerado do termo na sua associação a um certo negativismo que parece ter sido introduzido
pelos defensores de uma maior intervenção do Estado. B urton (2014) constata isso e alerta -nos para
esse se ntido pejorativo com o qual o termo neoliber alismo tem sido usad o. Contudo, e neste t rabalho,
assumimos uma posição favorável e defensora dos princípios do Estado social qu e gratuitamente e de
forma equitativa, justa e dem ocrática redistribui por todos, independentemente da sua co ndição social,
económica e cultural os pilares da sua sustentação: saúde, educação, justiça e segurança. Se algumas
das medidas que se possam tomar vierem a diminuir a intervenção do Estado nessa redistribuição
democrática colocar-nos-emos contra todos os pressupostos que o possam assombrar.
Há outras perspetivas que defendem que as políticas educacionais encontram um a explicação
mais consistente na hipótese da exist ência de uma
agenda globalmente estruturada para a educação
.
Essa perspetiva, e ntre ou tros pressupostos, e nfatiza a centralidade d a eco nomia capitalista no
processo de globalização, entende o global como o conjunto de forças económicas qu e operam
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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supranacional e transnacionalmente, e discute os processos que levam à imposição de prioridades po r
parte de alguns Estados sobre outros (Afonso, 2003).
Nesta m edida, import a compreender as visões, as interpretações num quadro transnacional e
supranacional das tendências governativas no que à educação diz respeito, de modo a melhor
compreender a forma como essas influências se desenvolveram i nternacionalmente e como as
mesmas foram determinantes para com a educação do nosso país.
1.3. As tendências transnacionais/supranacionais de ação governativ a sobre a
educação
Face à dinâmica da g lobal ização, a política educativa redefiniu- se deixando de se centrar no
contexto nacional para se centrar no contexto transnacional e supranacional. A “construção da Europa”
trouxe consigo as ideias de democracia, que se op unham, de certa forma, aos ideais de Estado liberal.
A fundação do Conselho de Europa, em 19 49, troux e consigo o objetivo de su perar as dificuldades
provocadas pelo confronto bélico e o de aproximar as nações europeias. O s Estados foram assim
adquirin do um carácter mais intervencionista, ass umindo um compromisso de assegurar os direitos
fundamentais aos cidadãos, nomeadamente os da educação (Marques et al., 2008).
As orientações educativas subordinam-se as sim a um processo de decisão supranacional
(Pacheco, 20 09) que, emb ora deixe algumas decis ões para s erem tomadas pelos Estados m embros,
em nada alteram a existência de uma estrutura partil hada e consensualizada.
A “construção da E uropa” trouxe consigo o ideal de se potenciar o s Estados membros de um
espírito europeísta qu e só seria possível recorrendo a propostas do dom ínio cultural e educativo
(M arques et al., 2008). Por isso, a educação assume-se como um pilar importante na transmissão de
um conjunto de valores que agora importa fazer passar a quem a frequenta. Os ob jetivos educacio nais
estão cada vez mais confinados aos mesmos propósitos e assis te -se, em larga escala, à part ilha de
documentos e de relatórios de orga nizações não governamentais e internacionais a impor as diretrizes
do que se entende po r e ducação, bem como da forma como a mesma deve ser e ntendida e
concretizada.
Embora o objetivo primeiro da construção de uma Europa unificada fosse o d a abertura das
fronteiras pol íticas, económicas, sociais e culturais, com a proteção clara dos interesses desses
Estados membros, permitindo a livre circ ulação de p essoas, bens e serviços, o primeiro p as so para
que a m esma foss e ideologicamente forte e importante para os cidadãos era dotá -los de u m espírito
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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europeísta, que permitisse quebrar com o cetici smo exist ente sobre os be nefícios que a construção de
uma Europa unificada e democrática poderia representar para o bem-estar social.
Se, no início do século XX, foram at ribuídas à escola as funções de reprodução social de classes
(Bourdieu & Passeron, 200 8), de aparelho ideológico do Estado (Althusser, 20 09 ), todos percebemos
que é através desta que mais facilmente se consegue alcançar um “bom?” estatuto social. A
democratização do ensino ocorrida, em 1974, no nosso país, bem como a adesão de um grande
número de países à U nião Europeia, fez crescer uma perspetiva de educação essencialmen te
direcionada para novas f unções como para a co nsolidação do sistema po lítico -dem ocrático da
qualificação da mão- de -obr a necessária à reco nstrução da Europa (R ufino, 2 007). Nem sempre a
celebração de tratados entre os países membros da União Europe ia teve em con sideração a educação,
só nos anos de 1970 esta seria objeto das primeir as iniciat ivas europ eias.
Antunes (2 007) considera que os objetivos, as met as e os procedimentos de controlo são agora
definidos pelas instâncias supranacionais, que assumem de forma clara e inequív oca o controlo e a
regulação geral pelos sistemas de educação e formaç ão , nesta medida t ornam-se também a fonte de
fixação dos padrões a considerar, dos procedimen tos d e monitorização a operacionaliz ar.
Mas estas iniciativas salva guardavam a autonomia dos sistemas educativos de cada Estado -
membro, n ão havendo ainda a necess idade de harmonizar as políticas de educaç ão. Foi n o in ício da
década de 1990 , com o Tratado de Maastricht que as questões de educação rec ebem uma part icular
atenção, no entanto, ainda se con sidera importante n ão harmonizar os s istemas educativos dos
Estados membros (Marques et al., 2008).
Dale (2008), ao recorrer a u m estudo de Jessop ( 1999) sobre as dimensões de mudanças no
contexto político -económico mais abrangente, refere que há uma deslocação nas relações entre o
Estado e a economia, t ransitando o Estad o forte a partir das influências do mercado para u m Estado
mínimo, verificando-se est a deslocação no âm bito da educação numa certa corrosão dos recursos
educativos.
A mudança de perspetiva do nacional para o pós -nacional ou supranacional e a proliferação das
organizações internacionais (Saarine, 2 005) desvincularam as responsabilidades, outrora circunscritas
ao terri tório nacional, para um território internacional. Na educação isto significa que o Estado n ão é
necess ar iamente o detentor do monopólio da respetiva g overnação e t anto a proliferação das fontes de
governação, como a mudança da natureza da governação fazem com que o Estado, que antes fazia de
tudo, passe ele próprio a ser com andado por essas forças, sendo várias as instâncias a ass umir
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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responsabilidades g overnativas e independentes do Estado. Na educação isto significa que o plano de
análise nacional dos siste mas educativos deixa de o ser para passar a ser e ssencial e impre scindível
perceber as políticas educativas supranacionais.
As organizações internacionais/intergovernamentais, com destaque para a Organiz ação para a
Cooperação e o Desenvolvim ento Económico (OCDE), o Banco Mundial (BM), a União Europeia (UE), a
Organização Mundial para o Comércio (OMC) assumem um papel cen tral na af irmação e difus ão de
um conjun to de tendências que constituem um n ovo m odo de organizar a educação (Antunes, 2007).
Lima (2001) ad mite que a centralidade de organizações como a OCDE, a UNESCO, a UE, o BM,
a par da influên cia exercida por poderosos
think-tanks
à escala global, remeteu o Estado-nação e os
respetivos Governos para uma posição nova e mais co mplexa. A União Europeia, em muitos casos em
estreita relação com a OCDE, emergiu como grande at or político, supranacional, no dom ínio da
educação, da formação e da aprendizagem ao longo da vida. É possível identificar um racional político -
educativo dom inante, com os se us tópico s e conceitos -chave, objetos de apropriações e legitimações
diversificadas e não necessariamente unificadas ou absolutamente congruentes, fact o que não lhes
retira influência e que, pelo contrário, lhes confere uma certa plasticidade e capacidade de adaptação,
para além de fronteiras políticas, geográficas e culturais limitadas.
No mesmo sentido, Antunes (2007) co nsidera que, na atualidade, a U nião Europ eia, com o uma
instância supranacional, regula objetivos, princípios e fundamentos para a educação dos países q ue a
integram. O sis tema educativo pluralizou-se, heterogeneizou-se, balcaniz ou -se. Todos os dias nos
deparamos com mais uma parceria, uma extensão de funções o q ue nos permite perceber que talvez
não faça muito sentido falarmos em sistema educativo.
A partir de 1986, em Po rtugal, é visível uma po lítica s ocial convergente com a do s outros países
da Europa (Teodoro & Aníbal, 2007). As re formas educativas levadas a ca bo nos últimos anos revelam
a existência de conformismos com as reformas e as decisões po líticas implementadas noutros países
da Europa. Est a t endência é apenas criticável quando se opta por transpor refor mas de outros países
sem que s e tenha em con ta os contextos da sua implementação. Nenhuma reforma, por mais
semelhante na s ua funda mentação e preparação, p oderá ter efeitos iguai s em países que, pela sua
natureza, apresentam culturas s ociais e históricas diferentes.
No entendimento de Teod oro e Aníbal (2007), os discursos educat ivos e as modalidades de
governação acompanham uma certa convergência europeia de ideologias e pa drões de organização
ed ucativa, cons tituindo-se como instância supranacional, e a intervenção comunitária tem vin do a
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desenvolver políticas que reforçam essa convergência. Com o exemplo da progressiva
internacion al ização das po líticas, são apontados a valorização das competências , a avaliação externa
como g arantia da qu alidade e como instrumento de con trolo e a des estatização das escolas. É nesta
perspetiva que o s autores consideram que, no campo da educação, é possível identificar políticas que,
mesmo vindo de partidos ideologicamente diferentes, assu mem uma certa convergência internacional.
No caso concreto de Portug al, Roldão (2005) situa o plano i nternacion al como r esponsável po r
algumas das tendências educat ivas visíveis no paí s, desde logo, percebeu -se qu e as orientações
in ternacionais apontavam para um investimento na melhoria da qu alidade da aprendiz agem dos
alunos, e i sto poderia ser alcançado a partir do momento em que se investisse num processo de
autonomização por parte das escolas, que s eriam assim responsáveis pela c onstrução e gestão
curriculares numa contextualização de práticas educativas, onde o pr ojeto se ria o instrumento à volta
do qual se constituiriam práticas inovadoras e concertadas.
Se, por um lado, ocorrem discursos de aceitação e d e consonância com o que as t endências
supranacionais determinam, por outro, também são visív eis discursos que aler tam e contrapõem os
efeitos que as políticas supranacionais podem g erar. Pacheco (2009, 2011) situa -se neste último
campo ao referir os efeitos que a pedagogia por co m petências, as políticas d e uniformização e as
políticas de responsabilização dos profess ores e das e scolas pelos resulta dos escolares, podem g erar.
O autor considera que a g lobalização, ao funcionar como mecanismo de uniformização, t ece laços
entre conhecimento e eco nomia, entre ed ucação e formação, pela defesa do princípio de que há
benefícios eco nómicos se a mão - de -obra for bem instruída e treinada nos sistemas escolares e que
estes discursos ren ovados, s ob a ótica atual, de uma pedagog ia por competência s, não trazem nada
de novo.
Pacheco (2011 , p. 9) é de opinião que o disc urso da p edagogia por competências vem substituir
o discurso da pedagog ia por objetivos, vem e streitar a relação entre o que se ensina e se aprende e
neste context o coloca uma questão pertinente: “A abo rdagem das com petên cias equivale o u não a
uma mudança nas práticas curriculares decorrentes dos contextos de decisão aos níveis político -
administrativo, de gestão e de realização?”
Esta questão deixa da em aberto é colocada para nos permit ir pensar nas m udanças estruturais
que o discurso das competências provocou nas p ráticas curriculares das escolas e dos professores,
almejando um resu ltado, ou uma implicação de mudança, se quis ermos, não muito profunda.
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Quando se discutem as funções da escola e se percebe que não há entendimento sobre que
função deve a mesma de sempenhar na sociedade at ual, compreende -se qu e as tendências neoliberais
sobre as práticas que v êm sendo implementadas na regulação/avaliação dos resultados de
aprendizagem dos alunos, por indicadores
standard
para todo s os países da Uni ão Europeia, ar rastam
consigo uma política que coloca a escola e o trabalho dos profess ores num context o de
condicionamento aos program as e conteúdos que maior probabilidade t êm em sair num exa me. As
escolas e os professores são assim os intervenientes mais diretos, e t ambém por isso, mais
responsáveis em treinar os alunos para os testes, descurando o trabalho de análise e da reflexão crítica
em torno de tema s da at ua lidade, em torno de temas provindo s dos i nteresses dos alunos, ou o utros
temas que se revelem num espaço e context o determinados relevantes a trazer à análise e à
discussão.
Hursh (2006) refere mesmo que a escola tem sido um terreno disputado entre aqueles que
esperam que esta prepare os a lunos para a com petição dos m ercados e aqueles que am bicionam
formar cidadãos críticos, com valores humanistas. Nós questionamos se não será possível equacionar
estas duas o rientações. Se a escola ao cumprir a sua função social de corresponder às necessida des e
exigências sociais não poderá ela própria desenvol ver com petências críticas, valores de cidadania,
assumin do o cumprimento daquilo a que o relatório Ja cques Delores determinou enquanto pilares para
a educação: saber conhecer, saber fazer, saber estar, saber ser.
Mas se teoricamente colocamos a questão sobre a articul ação entre a escola, o mercado e o
Estado, tentando analisar com o estas variáveis se jogam, consegui mos perceber que Est ado
teoricamente promove políticas cujos objetivos parecem centrar -se na qualidade, na eficiência, na
eficácia, na promoção da justiça e equidade social, contudo, alguns investigadores t êm -nos dado conta
do contrário. O Estado ao promover políticas de a valiação estandardizadas, a pa rtir de indicadores de
rendimento, centrados nos alunos e, simultaneamente, ao defender políticas de flexibilização curricular,
de autonomia das escolas e dos professores está a ser incoerente em termos políticos (Santomé,
2006 a). Nas palavras do aut or:
Não faz sentido continuar a falar de currículo abert o e flexível, a não ser com o
um slogan propagandístico, mas vazio de conteúdo. C om os indicadore s acaba -se com
o discurso da flexibilidade, autonomia, integração e colabo ração. Estes conceito s
desaparecem ou ficam resumidos a meras palavras, cujos significados se perdem,
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assim como as filos ofia s que lhes da vam sentido e os convertiam em conceitos
atractivos e mobilizadores (p. 214).
Perante este cenário podemos t entar compreender a relação en tre essas política s e a razão de
aqui as considerarmos co ntraditórias ou incongruentes. Na verdade, e com base no estudo de
Santomé (20 06a), en tendem os que o
controlo burocrático do re ndimento dos al unos
, o
discurso do s
indicadores
, a
linguagem estandardizada
, traz um conjunto de consequências que em nada se
co mpatibilizam com o discu rso da flexibilidade curricular, com a autonomia das es colas, com a
descentralização dos órgãos de decis ão central.
O autor considera que as políticas atuais t raduzidas no controlo burocrático e centralizado da
avaliação t êm efeitos colaterais, como a valorização, por parte dos profess o res, dos conteúdos que têm
uma maior probabilidade de sair no exame e não do que poderiam interessar mais aos alunos.
Também esta seleção c ondicionada dos conteúdos proporciona um m odelo de ensino c uj as
preocupações se ce ntram na transmissão e posterior memorização e aplicação, por parte dos alunos,
desses conteúdos.
Esta rotinização, em prol de um fim específico, faz recriar (ou prevalecer?) a
educação bancária
,
que Paulo Freire já criticava . Não há lugar para a discussão de a ssuntos de interesse social dos alunos,
não havendo também lugar para a promoção de atitudes críticas e reflexivas so bre os prob lemas do
quotidiano, quando o s inter esses se centram em obter o melhor resu ltado possível nos exames, pois
que estes assuntos mais atuais e não enquadrados no currículo formal t êm pouca probabilidade de
serem contemplados ness es exam es. Deste retrato resulta que as escolas e o trabalho dos profess ores
ficam manietados à abordag em de cont eúdos que são valo rizados pelo pode r central, conducente a
uma pedagogia uniforme, independentemente dos context os diversificados e diferenciados, em que
atuam os professores.
Ora esta política, mais uma vez, pe naliza os mais afastados da cultura da escola e prestigia os
que nela se reveem. Estas práticas anunciam um regresso a estratégias de trabalho mais tradicionais e
autoritárias, onde a utilização do m anual
standard
que melhor prepare para o teste parece ter um lugar
privilegiado. “ Regressamos ao discurso da competiti vidade e da hierarquização t ípico dos modelos
capitalistas e que nas últimas décadas, se tinha deb ilitado, pelo menos discursivamente, face ao da
colaboração, colegialidade, solidariedade, democracia e justiça social ” (Santomé, 2006a, p. 217). Este
quadro de políticas, que por vezes parece adapt ar -se melhor ao s maus professor es, contagia os bons
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profissionais, já que também estes, são levados a adaptar metodologias de acordo com os formatos
estandardizados da avaliação.
Os resultados da s avaliações estandar dizadas servem para se fazerem rankings de escolas,
atribuindo os lugares de t opo aos estabelecimentos privados. Associa -se a cl assificação alcançada
pelos alunos nos exames nacionais em determinadas escolas ao rótulo da listagem das melhores
escolas. Concluindo-se de uma forma, completamente errada como afirma o autor, que “ as melhores
escolas e os melhores al unos são os do ensin o privado” (Santomé, 2006 a, p. 2 19).
Ao analisar as consequências de algumas da s reformas realizadas em alguns Estados dos
Estados Unidos da América, em que as escolas passaram de uma governação por uma co nselho
escolar e supervisionadas pelo Estado para as mãos dos empresários e políticos da sua cidade, Hursh
(2006) refere que essas re formas provocaram um fosso maior entre alunos que provêm de classes
socais alt as e alunos que, ao não terem poder econ ómico, frequentam escolas que preparam para
serviços que lhes permitem apenas manutenção na classe de onde já provinham. Embora o discurso
neoliberal trag a consigo a importância da ex igência, da eficiên cia, da igualdade, da justiça, a verdade é
que as suas implicações reais nas práticas da educaçã o mais não têm provocado que a distância ainda
maior entre pobres e ricos.
Estas práticas geram, a médio e a longo prazo, desigualdades e inj ustiças sociais ao
promoverem de uma forma errada, desigual e injusta os estabelecimentos cuja frequência requer
poder económico, que como sabemos não es tá acessível a todos.
Recusando as per spetivas da burocracia profissional, enquanto aliança no
contexto do Estado-providência e de políticas de índol e social-democrat a, bem como as
abordagens sociocomunitárias, ag ora representadas como radicalmente democráticas e
autonómicas, típicas de modelos de políticas sociais de inspiração crítica, emerge como
altern ativa a defesa da “teoria da escolha pública”, que necessariamente assenta na
competitividade entre escolas, induzida por novos pr ocessos de aval iação enquanto
instrumen tos privilegiados de regulação e meta -regulação de t ipo mercantil. Este
referen cial político-ideológico, que vem sendo i nvestigado h á mais de duas décadas,
remete para uma constelação de elementos de que so bressaem: a cultu ra e o
ethos
de
tipo empresarial; a defesa da priv atização seja em sentido pleno, seja como modo d e
gestão a introduzir nas org anizações p úblicas, design adamente através da criação de
mercados internos no seu seio; o elogio da liderança individual e da res petiva visão e
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e outra amplitude, ao nível da s escolas, e cuja realização depende, fundamentalmente,
dos professores.
Em geral, o conceito de re forma implica uma mudança no marco legislativo ou estrutural, o u
pelo menos, uma mudança global na configuração do s erviço p úblico da ed ucação. Não é necessário
aprofundar demasiado para ch egar à conclusão que são processos com semelhanças, dirigidos para
introduzir melhorias na realidade educativa, que se produzem, não obstante, a uma escala bem
diferente e de acordo com uma lógica t ambém diferente. Inovação e reforma r epresentam, pois, a
oportunidade de uma mud ança e são de fact o t entativas de mudança que pod em chegar a t omar
corpo e a generalizar-se, ou não.
Para Miles (1964, cit. por Pedró & Puig, 1998), inovação não é outra coisa que não uma
mudança específica nova e deliberada que se supõe contribuir para aumentar a efic ácia do sistema
educativo. Também Pedró e Puig (1998) referem que o Instituto Nacional de I nv estigação Pedagógica
Francês avançou identicamente com uma definição de inovação como processo, que tem como
intenção uma ação de mudança e, com o meio, a introduçã o de um elemento novo, de um sistema
novo no contexto previamente estruturado.
A terminologia e associação, que aq ui importa analisar, está naturalme nte centrada no contexto
educativo e o uso, o u até abuso, destes t ermos em textos e artigos científicos, e m documentos legais,
em normativos, levam -nos a concluir que de sde h á muito que se discorre e m educação sobre as
reformas que se fizeram, as mudanças q ue ocorreram , ou se esperam que oc orram, as inovações
praticadas, ou n ão, no sentido de se observarem melhorias nos contextos edu cativos. Estas relações
sempre fizeram sentido, poi s que o fenómeno está intrinsecamente associado à ex ploração da ideia da
forma com o se concebe e concretiza a educação e de que modo e ssa estrutura pode ser melhorada e
aperfeiçoada, numa dinâmica de mudança social que lhe é característica.
Popkewitz (1994) assever a que o interess e pelo problema da mudança educativa está
relacionado com o fact o de se acreditar que a revitalização económica e a transformação cultural e
social estão associadas à reforma da escola. Para o autor, a reforma, com o parte integrante das
relações sociais da es colarização, pode con siderar -se como um lugar estrat égico em que se realiza a
modernização das in stituiçõ es.
As reformas educat ivas são expressões privi legiadas de projetos políticos e um dos seus
principais instrumentos. Com frequência, as re formas educativas incorporam importantes elementos
de inovação que afetam os processos de ensino e apre ndizagem e os conteúdos curriculares (Pedró &
Puig, 1998).
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A reforma, na opinião de Cardoso (2000, p. 81), refere-se a processos de mudança mais
alargados se com parada à inovação, esta “designa processos de mudança m ais restritos, de carácter
sectorial e mais limit ados nas suas ambições”. A au tora, a partir de Ducro s e Finkelsztein (1986),
afirma que uma reforma im plica mudanças estruturais nas or ientações da política educativa, centra -se
normalmente no poder central e arreiga -se nas vertentes context uais dos sectores sociais, económicos
e políticos.
No mesmo sentido, Flores e Flores (1998) referem que a reforma pressupõe uma mudança
emanada da Administração Central, com efeitos na estrutura, fi ns ou funcionamento do sistema
educativo. Trata -se de alg o superiormente imposto que tem como campu s de melhoria t odos os
es tabelecimentos escolares .
A reforma e a inovação obedecem a lógicas dis tintas de mudança edu cativa, contudo n ão são
incompatíveis. Se à reforma se coloca a imposição, à inovação está associada à ades ão e ao
comprometimento da participação dos intervenien t es n o processo de mu dança (C ardoso, 2000, 2003).
Sebarroja (2001, p. 16) considera que existe uma definição basta nte aceitável, abrangente e
multidimension al de inovação, mesmo estando sujeita a diversas interpretações q ue são condicionadas
pela ideologia, pelas relações de poder relativamente ao conhecimento, pelas conj unturas eco nómicas,
políticas e socioculturais dos diversos agentes educativos, contudo não se p ode af astar da
(...) série de intervençõ es, decisões, processos, com algum grau de
intencionalidade e sistemat ização que t entam modificar at itudes, ideias, cult uras,
conteúdos, modelos e prát icas pedagóg icas e, por su a vez, i ntroduzir, seguindo uma
linha inovadora, novos projetos e programas, materiais curriculares, estratégias de
ensino e aprend izagem, modelos didát icos e uma outra forma de organizar e gerir o
currículo, a escola e a dinâmica da aula.
A mudança e a inovação centram -se na dinâmica do trabalho do professor. A s mudanças só
podem acontecer com a anuência do professor, por as mesmas implicarem, em maior ou menor grau,
o aba ndono, por part e dest e, de ideias vigentes, a alteração de atitudes, a substituição de hábitos, a
modificação de relações, as (re)aprendizagens e a reorganização, a d iversos níveis, na própria
instituição. Não é suf iciente criarem -se os contextos ideais para que a inovação seja uma realidade; é
importante, antes de mais, que os professores s e comprometam com ess as mudan ças e sej am eles
próprios “produtores” de inovação (Cardoso, 2003).
Pedró e Puig (1998) refe rem que as reformas educativas parecem centrar-se nos interesses dos
decisores políticos em colocar nas suas agendas governativas reformas estruturai s. À mudança de um
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Governo podemos, normalmente, associar uma modif icação de política e esta centra -se normalmente
em reformas que s e pretendem levar a cabo.
Estamos perante uma reforma quando uma mudanç a em larga escala é delineada, tendo por
objetivo uma alt eração de estrutura social, organizaci onal e política de um sistema educat ivo. Trata -se
de uma mudança de est rutu ra mais g eral, que abrange uma série de alt erações que se esperam levar
a cabo, talvez por i sso lhe s eja confe rida uma cat egorização quantitativa. A inovaçã o, por s ua vez, no
que qualitativamente se espera alt erar, centra -se nas e scolas e nas prát icas curriculares dos
profess o res.
Como é referido por Flor e s e Flores (1998, p. 83):
Se a inovação integra mudanças e specífi ca s, diret amente ligadas à prática
educativa e à ação dos professores, a reforma compreende m udanças e struturais e
globais da res ponsabilidade da Adminis tração Central e do poder político. A inovação
implica, por conseguinte, uma mudança real porque afecta, de forma directa, os
processos, as prát icas e as pessoas implicados n uma dada organização ou estrutura,
transformando-os.
A inovação e a reforma têm com o “pano de fundo” a mudança, algo que se pretende melhorar,
e se à reforma se associa, regra g eral, um resultado de uma ação política e legislativa, à inovação
associa-se a capacidade que os professores têm em alterar as sua s práticas. U m a reforma repre senta
sempre uma mudança de política educativa, segundo diversos autores. Nesta perspetiva, e sendo o
conceito de mudança a prevalecer com o estando presen te na reforma e na inovação, iremos aqui
tentar estudar alguns p ressupostos que poderã o esclarecer, de fo rma mais sustentada, a
operacionalização da mudança n as reformas e inovações educativas.
2.2. As implicações de mudança e de inovação da s reformas educativas na vida
das escolas
De acordo com Cardoso (2000), a partir da s ua t ese de douto ramento, em Portugal, o interesse
científico pela temática da inovação surge a partir da tradução da obra de Hassenforder ( 1972), sob o
título de
“A inovação do ens ino”,
depois Rui Grácio, em 1973, p ublica a obra
“Os Professores e a
reforma do ensino
” e, p osteriormente, em 1981 Manuela Santos publica s o b o título
“Inovação
educacional”
mais um t rabalho neste domínio e A ntónio Simões divulga o art igo, “Educação
permanente e reformas do sistema educativo portugu ês: três prioridades”, na
Revista Portuguesa de
Pedagogia
. A inda nesse ano, sob a direção de Rui Grá cio, foi traduzida a obra de Morrish (1981), com
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o título
“Para uma educação em mudança”.
No entanto, só a partir de meados da década de 1980 é
que as pu b licações sobre reformas e inovação começam a surgir em maior número.
Sendo estas as principais obras a iniciarem as publicações sobre as reformas e as inovações
educativas em Portugal é importante percebermos os caminhos que se definir am para que as mesmas
fossem possíveis de acont ecer e se a mudança po r decreto é viável, p orque se passa a introduzir
mudanças que efetivamente os normativos propõem, elas podem não provocar alterações efetivas nas
práticas a que se destinam. Podemos constatar que as mudanças ocorrem, quando as mesmas
produzem efeitos reais, sejam eles positivos ou negativos. Se a alteração é superficial, ou corresponde
apenas à produção de documentos, cujo efeito prático é nulo, ou quase inexistente, ou se a mudança
não corresponde a uma melhoria evidente nas práticas ou pressupostos pedagóg icos dos diferentes
agentes educativos, estam os perante algo que dificilmente alt era o
status quo
, não estamos, port anto,
perante uma inovação.
É importante analisar nas reformas enunciadas, as intenções de mudança e inovaç ão e também
analisar as práticas inovadoras que essa s reformas, pelo menos no campo da f ormulação teórica da
mudança, anunciam. Isto é, que finalidades e objetivos definem, que intencionalidades propalam, o
que efetivamente se pretende de verdadeiramente novo e diferente, que inovações são realmente
introduzidas. Este pressuposto, leva -nos a um trabalh o de análise que será realiza do mais à frente, no
sentido de compreender se, de fact o, os diferentes programas, dos sucessivos Governos
constitucionais portugue ses, após 1974, anunciavam reformas na educação, mu danças e inovações
nas práticas educativas e de que forma elas p ermit iram, ou não, a melhoria da qualidade da educação.
Cardoso (2000) alerta -nos para quatro cenários possíveis no s quais os e sforços de mudança
podem ser, o u não, bem -sucedidos. Um primeiro tem que ver com uma perceção errónea da
mudança, seja porqu e a mesma parece impossível de concretizar, seja porque n ão se lhe reconhece
mérito ou utilidade prática e, por isso, ela não é implementada. Um segundo cenário aponta para a
implementação efetiva da i novação, que resulta numa alteração do
status quo
instalado, mas apenas
circuns c rita a um pequeno grupo de professores e alunos, não altera ndo, de form a significativa, a vida
da escola. Um terceiro ce nário está re lacionado com um desfecho positivo da i nov ação, mas a mesma
não tem a durabilidade des ejável e está limitada a um período de tempo relativamente curto. O quarto
cenário, para o qual a autor a nos alerta, referindo ser este o desfecho que mais se am biciona, é aquele
em que a inovação ocorre de fo rma efetiva, infl uencia a vida de toda a escola de uma forma
permanente e on de as mudanças registam m elhorias por parte da maioria dos in tervenientes.
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Pedró e Puig (1998) refe rem que é pos sível compreendermos, a partir de um conjunto de
fundamentos, s e est amos perante uma reforma educa tiva, no verdadeiro sentido do termo, ou se
estamos apenas perante mais uma mudança de política educativa. Os fundamentos que os autores
apresentam para essa distinção prendem -se com os seguintes pressupostos, que devem estar todos
presen tes:
(i) Um primeiro pressuposto circunscreve- se ao acesso, a um bem comum, a um
organismo público, a um bem, at ividade ou serviço. Este bem, atividade ou serviço era
inexistente ou inacessível a um determinado grupo que agora passa a ter acesso ao
mesmo, ou então o contrário, um grupo ter acess o a um bem e deix a de o ter.
(ii) O segun do fundamento refere-se à obrigatoriedade de atuação ou atividade, ou à
proibição dessa at uação ou atividade. Os exemplos que os aut ores dão para este
fundamento é a existê ncia de períodos obrigatórios de escolarização, o calendário, as
condições de trabalho dos docentes.
(iii) O terceiro fundamen to relaciona-se com os anteriores e resume-se à operacionalidade
desses fundamentos durante um período de tempo suficientemente longo pa ra ter
efeitos visíveis .
Numa perspe tiva nacio nal, e tendo como referência as reformas, ou tentativa delas em Portugal,
após o 2 5 de ab ril de 19 74, podemos considerar q ue estes fu ndamentos se reúnem em tor no da
reforma educativa portuguesa da déca da de 1980, aquando da aprovação da Lei de Bases do Sistema
Educativo, em 1986, em que é consignado o direito a que as crianças, até aos 15 anos de idade,
indepen de ntemente do seu estrato social, cultural e económico acedam ao ensin o, passando este a ser
universal, obrigatório e gratuito.
O segundo fundamento est á tam bém presente na questão da obriga toriedade de frequen tarem a
escola e nela percorrerem um percurso definido, não por uma questão de opção, mas essencialmente
por uma q uestão de ob rigatoriedade. A apro vação da Lei de Base s do Si stema Educativo (Lei n. º
46/86, de 1 4 de outubro) permite-nos ter hoje uma visão das implica ções de modo a
compreendermos, passados 30 a nos, os seus re sultados e os seus efeitos, contudo, podemos tam bém
aqui referenciar q ue a prát ica da política nacional, em matéria de educação, é a dos Governos
seguirem as suas próprias soluções e prioridades, independen temente do trabalho realizado
anteriormente (OCD E, 1 984).
Portanto, se o terceiro fundamento de Pedró e Puig (1998) não permite que as reformas tenham
um tempo de radicalização então podemos estar perante reformas abortadas. Es tas dúvidas sob re os
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efeitos das reformas sus te ntadas, com a inexistência de estudos longitudin ais que nos permitam
compreender os efeitos da s reformas, qu e ao longo dos anos nos foram sendo apresentadas pelos
sucessivos Governos, n ão nos têm permitido compreender os seus reais efeitos.
Goodson (2008), ao se referir às reformas, às mudança s e às t eorias da mudança é crítico em
relação a estas por considerar que a mudança, embora compreendida em três pontos essenciais,
esses não são devidamente explorados. Primeiro, o aut or refere que embora se fale na mudança como
processo, e ssa perspetiva n ão é analisada de forma l ongitudinal e socio h istórica, en quanto pr ocesso
sociopolítico. Em segundo lugar, cham a a atenção para o context o da mudança, recomendan do nesse
sentido mais “ pe squisa so bre os tempos e o s espaço s em que a mu da nça é pr omovida, alimentada,
consolidada e continuada ” (p.119). Em terceiro lugar, o a utor chama também à análise a mudança
como condição que se ce ntra na paixã o e obj etivos pessoais. O autor refere q ue “ ca da vez mais se
analisa o modo como a vida pr ofissional e o trabalho, entendidos enquanto missões e pr oj etos
pessoais, se interligam com mudanças geradas interiormente e mandatadas extern amente” (p.119). A
esta terceira dimensão de anális e o autor designa -a de
“personalidade de mudança”
.
Para explicar o conceito de
“ personalidade de mudança ” ,
Goodson (2 008)
recorre ao
conhecimento profissional do professor e ao seu desenvolvimento pessoal, referindo que a re forma da
escola preci sa se r encara da como um dos aspetos do desenvolvimento pe ssoal e profissional do s
profess o res. Estes, no cont exto do seu profissionalismo, deverão encontrar ambientes sustentáveis que
lhes permitam desenvolver-se como profissionais: qu e respeitem o seu contexto de formação, de
trabalho, de história de vida, a sua person alidade, e que sejam construídos, segundo o aut or, tendo em
conta o contexto quotidiano de trabalho n a escola. É como uma espécie de ecologia natural, aquela em
que os profe ssores se mo vem e essa deve permitir -lhes percebe r as mudanças qu e precisam de
empreender para que os seus alunos aprendam mais e melhor.
Segundo Pedró e Puig (1998), a inovação educa tiva pode incluir, entre outras, uma ou várias
das dimensões seguintes no contexto educativo:
- A mudança das crenças e pressupos tos pedagógicos dos diferentes atores ed ucativos.
- A introdução de novas áreas ou conteúdos curriculares;
- A aplicação de novas abordag ens e estratégias dos process o s de ensino e
aprendizagem;
- A utilização de novos materiais e tecn ologias curricular es.
Cardoso (2000) discute trê s fatores de re sistência à i novação pedagógica. Um fator ligado ao
contexto social e escolar, outro ligado ao professor e um terceiro ao processo de mudança.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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O context o social influên cia o sistema escolar a partir do seu corpo de valores, de normas,
crenças e estruturas, que induz a inibir as inovações que não estão em con sonância com o seu modelo
existencial. Refere tam bém, a este propósito, o qu anto a cen tralização do sistema educativo pode ser
inibidor da inovação. Um sistema educativo rigida mente centralizado dificulta a introdução de
mecanismos de autonomia e de respons abi lização das escolas, da sua capacidade de resolver conflitos
e do seu talento em se recriar e rein ventar.
O professor, como segundo fator referido por C ardoso (2000), tem sido muitas vezes
relacionado com a ineficácia da inovação. A autora, citando Dalin (1978), diz -nos q ue embora o s
profess o res tenham sido o alvo privilegiado da atenção dos reformadores escolares, imputando às suas
características individuais os baixos índices de inovação, as mesmas não podem justificar
exclusivamente o fenómeno da resis tência à inovação, negligenc iando outros “pro blemas import antes,
como são a inovação em si m esma, as estruturas e xistentes e a gestão do processo inovador” ( p.
216). Os professores com frequência desconfiam da mudança e q uando e sta lhes é imposta por
instâncias exteriores à realidade em que trabalham, as mesmas são percebidas com apreensão.
Contudo, uma vez decididos a atuar na direção da inovação os mesmos procuram fontes, informa ções,
documentos que os aj udem a resolver o s seus problemas e as su a s dúvi das.
Um terceiro fator de resistência à mudança, tem que ver , na opinião de Cardoso (2000), com o
próprio processo de inovação em si. Embora a investigação científica já t enha em muito contribuído
para avanços nesta área, a perceção da mudança e a forma com o tem sido encarada e con duzida nem
sempre têm em conta aspetos globais fundamentais para a implementação da mesma. Por vezes,
“não é possível mudar part e de um sistema, sem mudar o todo que o integra” (p.219), e esta falta de
perceção global da mudança em edu cação t em-nos conduzido para mudan ças pontuais que não têm
conseguido atingir os objetivos que deram corpo à projeção da mudança. Da mesma forma que a
ausência de mudanças pode ser prejudicial, também a ocorrência de muitas m udanças, em
simultâneo, pode conduzir ao descrédito e ao desinvestimento das mesmas.
Também Nóvoa (1988) pro põe-nos uma reflexão em torno de três ideias. Uma primeira reporta -
se ao sistema educativo e à sua modernização q ue passa, necessariamente, por uma descentralização
desse sistema e uma capacitação das escolas em centrar a sua formação em si. Isto pressupõe que às
escolas seja concedida uma autonomia pedag ógica, curricular e profissional. O a utor considera que a
inovação não está nas estruturas do poder , ao n ível macro, nem tão pouco n a sala de aula, ao nível
micro, mas entre estes doi s polos. As e scolas e o s prof essores não têm sido capazes de gerar projetos
inovadores, desde logo pelo fact o de, no nosso país, as escolas, enquanto organizações, e os
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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profess o res, enquanto profiss ionais, não terem a auton omia e a respons abilização que lhes são
devidas.
Uma segunda ideia é a inovação para o sucesso educativo e a problemática que o conceito
sucesso educativo em s i gera. Como medir esse sucesso? U niformizando metas a alcançar por todo s
de forma igual? A partir da análise do relatório do Colég io de France de Pierre B ourdieu, o autor aponta
dois possíveis caminhos par a o sucesso educativo, um deles é a pluralidade e u m outro a diversidade:
Pluralidade de excelên cia, em vez da t radicion al imposição de uma norma.
Pluralidade das formas de sucesso educativo, em vez do veredito escolar. Diversidade
das estratégias de intervenção pedagógica, em vez da costumeira normalização e
massificação. Diversidade at ravés de uma pedagogia diferenciada, em vez da
obrigatoriedade de seguir ritmos e percursos definidos normativamente (Nóvoa, 1988,
p.8).
Uma t erceira ideia relaciona-se com a pers pet iva de que a inovação escolar só é pos sível com
uma conceção diferente de formação contínua de professores e com a implementação de pr ojetos
educacionais. I mporta, por isso, que sejamos ca pazes de recomeçar, uma e outra vez, a partir da
prerrogativa, que importa considerar, de q ue “a inovaç ão não se impõe. A i novação não é um produto.
É um processo. Uma atitude. É uma maneira de ser e de estar na educação” (p.8).
Os decisores políticos, ao delinearem as reformas e as implicações de mudança qu e se esperam
operar na e scola, esquecem -se de equacionar a s suas implicações reai s e e stas têm de t er em conta
as preocupaçõe s, os significados e as mot ivações daqueles q ue a s devem pôr em prática, no terreno,
como adverte Cardoso (2000). Não faz q ualquer sentido que se publique um nor mativo sobre o m odo
como os professores deve m organizar e g erir o currículo, ou então , como devem adapt ar -se a uma
determinada organiz ação escolar se esses normat ivos não forem fundamentados e planeados em
função da melhoria das aprendizagens dos alu nos e t ambém da superação das dificuldades com que
se confrontam os professores nela envolvidos. Q ueremos com isto dizer, que o conjunto de publicações
legislativas, a que po r v ezes assistimos, em nad a, ou muito pouco, afetam a qualidade de
aprendizagens que se de senvolvem na sala da aula, na medida em que os professores não as aplicam.
Parece ser a m udança q ue se dir ige às pe ssoas aq uela que mais efe itos pod e produzir, ou então,
aquela que na determinação política mais se espera alcançar, contudo nem sempre o decisor político
tem em conta o que pensam e o que fazem os p rofessores perante uma reforma educativa.
A analogia com sustentab ilidade ambiental revel a -se a este propósito esclar ecedora, como
reportam Hargreaves e Fink (2007), numa das suas obras, para nos da r conta da importância das
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
56
lideranças sustentáveis nas escolas, no sistema de ensino, nas políticas educat ivas, nas ap re ndizagens
dos alunos. Os autores traz em-nos diferentes exemplos para nos demon strar que vivemos num mundo
onde parece existir uma certa vertigem para a obtenção do lu cro a qualquer preço, u ma certa
esquiz o frenia para o co nsumo de qualquer coisa, independ entemente das consequências que esse
consumo possa trazer para os ecossistemas. Um primeiro desafio da mudança, n a opinião dos
autores, é percebermos que ela é desejável, um segu ndo é de que é exequível, sendo o maior desafio
de todos os que estão envolvidos nessa mudança, qu e ela seja durável e sustentável.
Hargreaves (1998) também faz referência a três dom ínios importantes sobre a mudança: o
trabalho
, o
tempo
e a
cultura
. No que ao
tempo
diz respeito, o autor d iz -nos de que o trabalh o do
profess o r evoluiu, tornou- se mais exigente e intenso. As partes do t rabalho do professor, que se
estudam para além da sala de aula, t ornaram -se m ais complexas, m ais numerosas e mais
significativas. E embora alguns professores se po ssam “ queixar ” dessa s t arefas, como não t endo um
impacto direto, ou um efeito positivo na aprendizagem dos alunos, a verdade é que alg uns estudos
confirmam que a concessão e interesse manifestados, por alg uns dos a spetos exteriores à sala de
aula, podem melh orar significativamente o que acontece no seu i nterior. O envolvimento nas tom adas
de decisões, o trabalho colabo rativo com os colegas, o empenhamento m anifes tado num
aperfeiçoamento contínuo, têm sido apontados po r Rosenholtz (1989, cit. por Harg reaves, 1998) como
te ndo um impacto visív el no sucesso dos alunos.
Em relação ao
t empo
, é referido pelos professores co mo sendo o que mais falta para o exercício
da sua profissionalidade. O
tempo
é apontado com o um constrangimento para as práticas de
planificação, para o empenho do esforço de inovação, para reunir com colegas e para refletir sobre os
progressos individuais dos alunos. Para Hargreaves ( 1998), a questão do
tempo
é fundamental para a
mudança, melhoria e desenvolvimen to profissional.
A
cultura
é analisada, pelo me smo aut or, na relevância que os processos colaborativos dos
profess o res podem assumir no exercício da sua profissão. Os ambientes escolares reportam o t rabalho
do professor para uma certa individu alização que, ao l ongo de décadas, lhe foi tão característic a.
Sendo a mudança efetiva o conceito que resulta como mais relevante na aplicação de eventuais
reformas, Goodson (2008) distingue essas mudanças como internas, ext ernas e pessoais. As i nternas,
fazem-se sentir no interior da escola; as externas, emanam d o poder central, de cima para baixo; a
pessoal, centra -se nas cr enças e missões pessoais que os indivíduos trazem para os processos de
mudança. O a utor alerta -nos para a importância dest es segmentos se harm onizarem. Através desta
perspetiva, é possível perceber que os agentes de mudança in terna, os que se colocam nas escolas
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
57
reagem normalmente às mudanças, mas já não as iniciam, como seria des ejável. Ao reagirem às
mudanças ext ernas não se comprometem e, por vezes , nem se reveem ne ssas m udanças, sendo
simples respondentes conservadores da mudança iniciada externamente. Essas grandes reformas
iniciadas externamente e de grande escala, quando não conseguem incorporar o sentido e entusiasmo
dos profess o res, en frentam problemas sérios de s ustentabilidade e g ener alização. Portanto, “ um a
direção e u ma definição externa da reforma de grand e escala n ão garante que as melhorias vão ser
implementadas e sus tentad as ” (p. 45).
Para que po ssamos ter nas escolas mudanças substantivas é import ante que a aliança se faça
entre as m udanças externas, internas e pessoai s. Sabe -se que são os professores, em última instância,
a pôr em prática as mudanças que permitem a su stentabilidade das reformas (Goodso n, 2008;
Hargreaves & Fink, 2000, 2007; Cardoso, 2000, 2002). Qualquer mudança que se deseja
implementar é importante que vá ao encontro dos desej os, das expetat ivas, das motivações e ideais
dos professores.
Como Goodson (2008) explica:
Para que a mudan ça educacional realmente saia do terreno da acção simbólica
triunfalista e entre no t erreno de mudanças substantivas na prática e no desempenho,
um novo equilíbrio entre mudança pessoal, interna e e xterna t erá de ser negociado. Só
então haverá um pl eno comprometimento com as questões de sustentabilidade e
generalização e as forças de m udança realmente avançarão. Em vez de mudanças
forçadas, teremos então forças de mudança na medida em que as novas condições de
mudança se envolvam em uma colaboração efectiva com os context os já existentes na
vida escolar (p. 52).
Por isso, é import ante dar à mudança pessoal um papel primordial na anális e da mudança
educacional. As teorias sobre mudanças procuram saber como as pess oas mudam essas instituições,
contudo, e na opinião de Goodson (2008), o importante é compreender como as pessoas mudam
internamente e como aquela mudança pessoal pode influenciar ou determinar uma mudança
institucional.
No entanto, assistimos cada vez mais a reformas educat ivas rápidas e estandardizadas que não
têm por preocupação compreender a forma como os professores poderão inter pretar e implementar
essas mudanças. Acredita-se que a arquitetura da mudança é a mais determinante para uma certa
correspondência na prática, ficando aquém a perceção dos contornos a que es sas mudanças podem
estar sujeitas quando chegam às escolas.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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para a gestão das práticas curriculares fundamentais ao desenvolvimento das aprendiz ag ens dos
alunos.
Nesta pers petiva, passamos à anális e do último contexto, o micro contexto – a sala de aula –
onde ocorre a m ediação en tre aluno, professor e o con hecimento. As decisões de política educativa só
fazem sentido na concretização deste último co ntexto, digamos que toda s as reformas ao serem
pensadas têm por referência o espaço sala de aula e a forma como a apren dizagem do aluno se
concretiza. Aqui oco rrem as aprendiz agen s sob re as for mas com as mesmas podem ser desenvolvidas
e é nessas formas como o currículo real ocorre, que está a grande mudança, ou não.
Consideramos q ue nenhum a reforma precisa de ocorr er se a aprendizagem para todos for uma
realidade. Se essa aprendizagem for significativa, se o que se ensina e se aprende corresponde ao que
so cialmente é necessário e se esse saber é justo, solidário e equitativo, se com ele o ad ulto que o
aprendeu for ca paz de se integrar socialmente e se ajustar às mudanças a que t odos estamos su jeitos,
pessoais e profissionais, as reformas não precisam de oco rrer. Mas não descurando esta relevância
que o e spaço sala de aula e o que nela ocorre assum em, consideramos que outros papéi s se devem
avocar numa profunda articulação sobre os objetivos, fin s e valores educat ivos, daí a importância de
considerarmos p e rtinentes alguns pr essupostos a que as reformas devem estar atentas.
As reformas e as inovaçõe s que as mesmas preconizam correspondem a necessidades num
mundo em mudança e em que o equilíbrio, a equidade, a justiça correspondem a ideais que, de forma
continuada, se procuram alcançar. Se as reformas se justificam pela desart iculação e distanciamento
entre o que se deseja que aconteça e o que acontece, as melhorias devem ocorrer de forma
sistemática e continuada num mundo que de for ma perm anente evolu i.
Pedró e Puig (1998) dã o-nos cont a que as reformas não são mais do que uma miragem, por
vezes, é importante os Governos anunciarem reformas para distrair os atores educativos dos
problemas reais. Entre o anúncio da reforma e a sua im plementação, ainda que parcial, podem passar -
se anos. É uma perspetiva h ipercrítica que se relaci ona com uma imag em m aqu ilhada de reforma
educativa, que se confunde, por vezes, com um conjunto de atos simbólicos de m udanças pontuais.
Numa segunda perspetiva, os autores consideram que os sis temas escolares são totalmente
indepen de ntes e autónomo s do sistema s ocial. As r eformas educativas obedecem à lógica pr ópria do
sistema escolar e funcionam com absoluta autonomia da sociedade. Numa outra perspetiva, e de
forma contrária à anterio r, os autores co nsideram que as reformas educativas não são senão parte da s
reformas sociais mais amplas. Esta terceira perspetiva é talvez aquela que mais argumentos acolhe.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
65
Os esforços de reforma educativa estão ext ernamente r elacionados com dimensões concorrentes
como a economia, a cultura, a política, a sociedade em geral. É comum ler-se que a relação da escola
e da sociedade se faz do mútuo desenvolvimento destas duas esferas. Não é possível desenvolver uma
sociedade sem se fomentar o desenvolvimento da educação. Com o lembrava Paulo Freire (1992), a
educação não é a alavan ca da t ransformação da socie dade, mas sem ela a transformação social não
ocorre.
Uma das teorias explicativas de reforma que Pedró e Puig (1998) nos trazem e que m ais relação
estabelece com as reformas escolares em Portugal são as que consideram as reforma s educativas
como fenómenos, que só p odem ser entendidas, enquadradas numa perspetiva i nternacional à escala
mundial, ou s upranacional. As respostas que as políticas edu cativas têm d ado, no con text o das
mudanças escolares, centram -se no imperativo do que a globalização e a internacion alização da
economia colocam à educa ção. Est a teoria é apelidada de
teoria da convergência
que e stá associada
com a
teoria da dependência
, segundo a qual os interesses em jogo serão os do capitali smo
internacion al. Neste cont exto, os orga nismos internacionais contribuem para a propagação das
estruturas e métodos de ensino q ue mais con vêm aos grupos i nternacionais dominantes, financiando e
prestando apoio às reformas educativas que favoreçam os princípios do capitalismo moderno e do
neoliberalismo.
As
teorias de convergência
e da
dependência
, na perspetiva de Pedró e Puig (1998),
apresentam-se no con text o de cau sas internacion ais; con tudo os autores t ambém nos referem a
existência de teorias de reformas educativas cuja causa é o contexto nacional. Neste âmbito , t emos
uma
teoria meliorística
, que ameaça uma causa nacion al com uma finalidade de estabelecer o
equilíbrio entre o desenvolv imento social e a nece ssária (re)adaptação e desenvolvimen to educacional.
Estamos perante reformas que são necessárias para o equilíbrio, a h armonia e a estabilid ade entre a
educação e o funcionamento da sociedade. Por sua vez, e t ambém no quadro das causas naciona is,
encontramos a
teoria dialética
n um marco de explicação de conflito nu ma matriz m arxista, cujas
reformas se desenvolvem numa base de conflitos de interesses entre diferentes classes socais.
Pedró e P uig (1998) consideram Torsten Husén como um dos maiores e studiosos das política s
educativas e do impacto da investigação psicopedagógica sobre as reformas em e ducação, por ter sido
um dos poucos autores a sugerir estratégias adequadas para conduzir reformas educativas ao êxito.
Os seus pressupos tos são os seguintes:
1. Uma reforma educativa só tem sentido se acompanhar uma reforma social;
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
66
2. Embora, com algumas exc eções, a maioria das reformas educativas iniciam -se com uma
vocação nacional, portanto desde um organismo centr al e planificador. O seu êxito está em
que a justificação da reforma seja partilhada à escala local e do centro escolar. É o mesmo
que dize r que a reforma deve ser percebida como uma necessidade das instituições
escolares. Se os destinatári os das reformas são as escolas e se são os professores que a s
levam a cabo, se estes não sentirem n ecessidade da re forma, quem a poderá efetivar?;
3. Se há um segredo na planificação das reformas é a lentidão. A nã o ser que uma reforma
educativa ac ompanhe uma verdadeira revolução política, a mesma encontr ará muitos
obstáculos derivados do fact o de que há -de contribuir para mudar muitos usos e costumes
bem enraizados. V encer esta inércia req uer tempo e g radualidade. Portanto , é melhor pecar
pela demora do que pela rapidez;
4. Uma reforma de am plo alcance requer também um vasto consenso e ntre os atore s
implicados, isto só se consegue se se envolverem tod os os atores educativos n uma efetiva
participação em todas as fases d e desenvolvimento de uma reforma;
5. Há que p rever, ao longo do processo de desenvolvimento de uma reforma, um conjunto de
estratégias dirigidas a vencer as resistências à mudan ça. A prin cipal resistência à mudança
provem da falta de informação sobre a própri a reforma e o futuro de cada pessoa i mplicada.
Neste sen tido, a melhor estrat égia é uma boa política de in formação e de difusão;
6. A última estratégia, e talvez a mais import ante de todas, consiste em criar, desde o mesmo
momento em que se deci de levar adiant e uma reforma, um mecanismo de controlo e
avaliação não só dos resultados da reforma, mas sim de todas e cada uma das etapas pelas
quais passa essa reforma.
A todos estes pressupostos a ter em conta acrescentaríamos um outro, não menos importa nte, e
que está relacionado com a formação dos professores. Em última instância são os professores q ue
implementam as reformas educativas e que as concretizam no terreno como algo novo, ou seja, que se
espera fazer dife rente; port anto é necess ário ac ompanhar este processo de mudança com processos
de formação em contexto. A informação é de fato essencial e imprescindível nos processos de reforma,
mas a formação próxima e real nos contextos em que são implementadas as novas medidas de política
educativa são mais do que necessárias, são insubstituíveis.
É possível percebermos, pela análise de investigações empíricas que tentaram compreender o
impacto de det erminadas reformas nas práticas e conceções dos professores, que h á “a necessidade
de questionar e clarif icar o senti do, a direcção e a profundidade da mudança” (Roldão et al., 2006,
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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p.76). Também as reformas implementadas em Portugal não têm conseguido alterar prát icas
pedagógicas uniformizadoras que t ratam t odos os alunos difere ntes como se de um só se trat asse,
nem têm conseguido alterar as conceções que os professores têm sobre o seu papel e função na
escola, focado na t ransmissão de saberes selecionados por um grupo de ilu minados (Fo rmosinho,
198 7). Também de referir que, mesmo tendo-se verificado, na últim a década, um crescente
inves timento por parte dos professores em realizarem inves tigações conducentes ao grau de mestre e
doutor, a verdade é que as mesmas parecem t er um impacto pouco significativo na apropriação pela
escola no seu todo (Roldão et al., 2006) .
É deste modo que concluímos esta análise com diferentes contributos de com o as reformas
devem pensar as mudanças para que as inovações oc orram. Os m esmos parecem centrar -se a vários
níveis, em diferentes context os, e se é bem verdade que os mesmos não garantem por si só uma
mudança, em conjun to eles podem apresentar uma certa força para que as alterações ocorram. Assim,
consideramos s e r importante que a diferentes n íveis se coloquem algumas recomendações.
Tabela 1 – Princípios a ter em conta, pelas reformas educativas, em diversos contextos
Contextos
Intervenien tes
Recomendações/determinações
mega contexto
BM, FMI, OCDE,
UNESCO
Estabelecer linhas orientadoras para os sistema s
educativos, ao fazer uso de estudos comparativos e ntre
diferentes Estados
Diss emi nar p ráticas e result ados escolares, descrevendo,
de forma clara e explícita, o modo como se podem
implementar práticas curriculares inovadoras
macro contexto
Estado, Governo,
Ministério da
Educação
Determinar pre ssupostos, princípios e postulados de
organização do sistema educativo e de ac ordo com
organizações supranacionais/transnacionais
Prescrever a organização, a composição e o
financiamen to da educação
Estabelecer princípios e orientações educativas que
permita a sua contextualização nos locais onde venham
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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a ser implementados
Prescrever o currículo nac ional com as aprendizagens
essen c iais a serem aprendidas por todos
Aferir da qualidade do sistema de ensin o
Estabelecer princípios g erais inovadores para a formaçã o
de profess o res
Promover formaç ão para a com preens ão dos p rincípios
de orga nização e adminis tração das escolas, da s
orientações didát icas, pedag ógicas e curricu lares, da
forma como o currículo nacional deve ser implemen tado
exo contexto
autarquias, pais e
encarregados de
educação,
comunidade educativa
Coordenar esforços para a concertação de políticas com
objetivos comuns
meso contexto
escolas e os seus
diretores
Interpretar, de forma concertada, os pressupostos
nacionais com os desejos profis sionais do s professores
Permitir que se co nstrua uma cultura de
responsabilização pelos resultados escolares
Incentivar práticas inovadoras conducentes à melhoria
das aprendiz agen s dos alunos
Promover práticas de art iculação, diferen ciação e
integração curriculares , de m odo a ocorrer uma
contextualização das aprendizagens dos alunos em
diferentes con text os
Possibilitar que todos na e scola tenham uma voz ativa e
participativa no trabalho curricular
Compreender as diferentes potencialidades dos
profess o res e articu lar essas ca pacidades com o t rabalho
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
69
que desenvolvem
Promover o trabalho cola borativo dos professores n as
escolas
Construir redes de iden tida de dos professores
micro contexto
profess o res
Valorizar a aut onomia profissional e o t rabalho curricular
que desenvolve
Reconhecer o seu papel na mudança educat iva e
questionar atitudes, crenças e hábitos instalados
Priorizar a aprendizagem real e significativa,
contextualizando a aprendiz agem com o saber que a
criança já possui
Cooperar com colegas, centros de formação e
instituições de formação de profess o res
Sentir o seu desempenho p rofissional como inacabado, a
carecer de formação continuada
Considerar a sua profissão com o comprometimen to
necess ár io para boas práticas curriculares
Nóvoa (1988) propõe -nos uma reflexão em torno de três ideias. Uma primeira reporta -se ao
sistema educativo e à sua modernização, que pas sa necessariamente por uma descentralização desse
sistema e numa capacitação das escolas em centrar a sua formação em si . Isto pressupõe que, à s
escolas, s eja cometida uma autonomia pedagógica cu rricular e profissional. O a utor considera q ue a
inovação não está nas estruturas do poder , ao n ível macro, nem tão pouco n a sala de aula, ao nível
micro, mas estre estes dois polos. As escolas e os professores não têm sido capazes de g erar projetos
inovadores, desde logo pelo fact o de as escolas, enq uanto orga nizações e os professores enquanto
profissionais, não terem tido a autonomia e a responsabilização que lhes e ram devidas. Uma segunda
ideia, tem a ver com a inovação para o suces so educativo e a problemática que o conceito sucesso
educativo em si gera. Como avaliar/medir esse s ucesso? Uniformizando metas a a lcançar por todos de
forma igual?
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
70
A com plexidade do processo ensino -aprendizagem é de t al forma intrin cado que o mesmo
parece sempre carecer de reparo, de aju ste, de mudança num ou no utro context o, o que significa que
as mudanças que se possam fazer sentir, sendo ela s bem ou m al delineadas, as mesmas parecem
articular-se com um conjunto de intervenientes cujos valores nem sempre se harmonizam, os
pressupostos nem sempre se conjugam e a s ua interpretação nem s empre ocorr e de forma pos itiva,
pelo que consideramos que mais do que compreender as formas como as políticas educativas ocorrem
ao nível externo, como as mesmas são interpretadas e reinterpretadas pelos diferentes at ores
educativos, importa também compreender o modo como mudam os profess ores as suas práticas.
2.4. Da reforma educativa ao campo pessoal da mudança
Conseguimos perceber, a partir da literatura cujos interess e s andam em torno das questões da
política educativa e da forma como esta pode e/ou deve fomentar a mudança nas escolas, melhorar o
sistema de ensino, i ncentivar o t rabalho dos profess or es e melhorar a quali dade de aprendizagem dos
alunos, que a mesma deve dar particular atenção a todas as variávei s intervenientes. E se é bem
verdade que a reforma por decreto não consegue ter sucesso sem q ue os professores se
comprometam com essa mudança, também é ver dade que a mesma deve ser ca paz de fomentar as
condições e ssenciais para que os p rofessores se possam envolver nas mudanças que se rão
necess ár ias para melhorar o sistema de ensino-aprendizagem.
Como Bolívar (2007) nos dá conta, relativamente ao facto de a polític a educativa para alguns ser
considerada ape nas um instrumento de mudança, e não necessariamente o ma is podero so, também
existe o perigo de subes timar o q ue as iniciat ivas po líticas podem fornecer para melhorar as prática s
dos professores. Nas palavr as do a utor, “interessam mudanças que sustentem a apren dizagem, e não
apenas que alterem a escola. (...) A política educativa, para poder ter uma incidência na melhoria, deve
em primeiro lugar ser co erente, ‘sistémica’, com um foco claro e sustentável no t empo” ( p.22).
Importa ainda referir, neste contexto, que o que tem de mudar na escola não se pode pre screver,
porque, na prática, as mudanças dependem em muito do que pensam e fazem os professores. Esta
dimensão pessoal da inova ção significa que, em último caso, a mudança se dissolve no que os sujeito s
sejam capazes de pensar e fazer com ela. Por isso, não é possível pensar e promover de modo
gerencialista a melhoria escolar.
Morgado (2011) , apoiando- se em Fullan e Ha rgreaves (2001), refere q ue as políticas educa tivas
têm fracassado porque não destacam a escola e os professores com o um todo relacionado com a
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
71
aprendizagem dos aluno s. Há uma exc essiva preocupação pelo ensino do s professores e não t anto
pela aprendiz agem.
As mudanças traçadas pelo poder político não podem alm ejar ter sucesso se as mesmas não
forem capazes de captar o interesse, a m otivação dos professores no seu envolvimento para com elas.
Esta perspetiva permite-no s com preen der o quanto é relevante o envolvimento dos professores nas
mudanças que se esperam fazer sentir nas escolas. Ma s se aos professores cabe, em última instância,
concretizar a mudança das práticas é também de consider ar que as mesmas de vem ser delineadas,
pensadas, planeadas. Sabe -se, e pelas características circuns c ritas ao nosso si stema educativo, que o
poder político tem determinado o cam inho que a educação deve assumir . Foram vários os a nos a criar
aquilo a que nós hoje chamamos de escola democrát ica e, por mais que se apele à mudança, a
verdade é que a mesma tem sido uma realidad e em alguns aspetos e uma miragem em relação a
outros
Independen temente dos anos em que nos possam os situar sobre a literatura referente à
educação é curioso que os dis cursos apontam para e vidências educativas qu e n em s empre estão de
acordo com os propósitos, objetivos pretendidos, have ndo sempre um certo res quício para algo q ue se
devia fazer dentro de um contexto que se caract eriza com toda a atenção. Apela -se a det erminações, a
cuidados a ter em conta, a modelos a seguir, a opções a tomar, mas na verdade , e pass ados anos,
consegue-se compreender que nem t udo permanece inalterado e que, efetivame nte, algo mudou na
educação portuguesa. Talvez t enhamos de t omar em consideração o sen tid o ou a natureza da
mudança e a forma como as mesmas podem ser mai s efetiva s e sustentáveis no desenvolvimento de
melhorias de práticas das escolas.
As estratégias para pôr em prática uma determinada política educativa funcionará melhor,
quando conseguem integrar as propostas das escolas (Bolívar, 2007). Na implementação das
mudanças é importante que a cultura organizacional e m contexto escolar possa s er considerada com o
uma
variável de controlo
e com o um instrumento de g estão e de assessoria que permita a criação de
um ambiente favorável às relações sociais e profissionais que se estabelecem nas escolas (Torres,
2008). O ambiente q ue a escola p roporciona aos profissionais que nela trabalham , a atitude dos
órgãos de gestão face à mudança, o espírito de entreajuda que fomenta, os espaços de t rabalho
conjun to que cria são apenas algumas das condições para que o s profe ssores se sintam motivados
para trabalhar em equipa.
Compreender o “sentimento” das escolas, a sua cultu ra organizacional parece centrar -se com o
uma prerrogativa a ter em conta aquando da definição do estado de arte da po lítica educativa que se
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
72
pretende seguir. Se aceitarmos que este seja um compromisso a estabelecer entre as partes
envolvidas nas opções que se tom am é importante reequacionar a natureza da mudança, o objeto da
mudança. Perceber-se o que se pretende alterar para que se criem todas as condições favoráveis para
que a mudança ocorra.
Morgado (2011) considera a cultura escolar como determinante para a qualidade dos proces sos
educativos e, embora ela surja como express ão de um conjunto de fat ores int ernos e ext er nos à
própria instituição, ela traduz a cultura dos docentes que aí trabalh am e influencia a forma com o
desenvolvem a sua atividad e, a sua manei ra de pensar , de sentir e de atuar. A cultura dos docentes, a
sua relação com os alunos, o que valorizam, ou não , será determinante para o sucesso da ação
inovadora.
Com efeito, essa cultura que pode dificultar ou facilitar a inovação e/ou melhoria proposta pela
administração central, pela própria escola, ou at é pelos depart amentos curriculares. O trabalh o dos
profess o res, que ao longo de décadas se caract erizou como um trabalh o isolado e solitário n ão
incentivou um certo crescimento e aprendizagem colegial e cooperativa entre os professores. Esta
postura individualista tem cons tituído um obstáculo ao acesso e à par t ilha de novas ideias, bem como
à definição de soluções para os problemas do ensino, estando ainda relacionada com a fragilidade da
relação com o saber na at ividade docente (Roldão, 2 001). Os ruídos que, por vezes, as interpretações
assumem no corpo dos doc entes têm sido prejudiciais para a implementação de novas práticas.
A compreensão das dificuldades e dos entraves para a implementação das mudanças apresenta -
se com o um princípio a t er em conta (Sácristán, 1991). Assim, surge a necessidade de, e perante
qualquer prática inovadora que se queira impleme ntar, com preender essas dificulda des. O isolamento
do trabalho dos professores tem sido apontado, pela in vestigação, como um fator impeditivo d a
implementação dessas práticas. A inves tigaçã o t em revelado que a colegialidade constitui um fator de
desenvolvimento profissional (Bolívar, 2007), na medida em que permite q ue os professores
aprendam, troquem experiências e partilhem aspetos a considerar no processo ensin o -apre ndizagem.
A autonomia e a de scentralização como incremento d a capacidade de t omada
de decisões a nível da escola parece ser uma condição estrutural necessária, ainda
que não suficiente, para en volver os agentes na tomada de decisões, no compromisso
colectivo e na aprendizagem da or ganização. É u ma expectativa pouco realista
acreditar que a descentralização provoque por si mes ma uma m elhoria institucional
da acção educativa (Bolívar, 2007, p.32).
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
73
A arquitetura das escolas (s alas de aula individuais, ausência de espaços letivos abert o s e
polivalentes) (Sacristán & Gomez, 1993) , bem como a própria o rganização curricular (especificamente
no que se ref ere à disciplinarização do conhecimento), transporta m consequências muito nega tivas
não só para o de senvolvimento profissional dos docentes , com o também para a melhoria das práticas
educativas e para o desenvolvimento de projetos coletivos de m udança, o que contribui para debilitar o
saber profissional dos professores e, consequen tement e, a sua profissionalidade (Morgado, 2011).
Parece recair no trabalho do professor a responsabilidade de gerar m udanças e e sta perspe tiva,
partilhada pelos dis c ursos pol íticos, can alizam para a s es cola s e professores gra nde parte das ações
que anunciam como sendo as necessárias, o u essenciais, para que a melhori a da s aprendizagens dos
alunos ocorra. Tal cond uz a desresponsabilizar as pol íticas e quem as conduz, bem como a relação
que estabelecem com as escolas e os trabalhos dos professores.
Se facilmente percebemos que as medidas
top-d own
não resultam, também p odemos
compreender que nenhum trabalho na escola resulta se os professores não sentirem que essas
medidas são necessárias e essenciais para a melhoria das apre ndizagens . Mais do que sentirem que
são necessárias para a melh oria das apre ndizagens dos alunos, as mesmas têm de ser, em primeiro
de tudo, consentâneas com o sentir do profess or e o entendimento de que são úteis. Por outra s
palavras, t êm de se enquad rar no trabalho que o profess o r gosta de fazer e que entende que é
importante e, por isso, quer fazer.
Não adianta muito decretar uma aut onomia, sem articular os m eios para que os profes sores a
possam construir (Bolívar, 2007) e se é bem verdade que trilhamos cam inhos sérios no sentido da
construção no rmativa da autonomia da s escola s, a v erdade é que pare ce não termos até hoje essa
autonomia, mesmo reconhecendo que as políticas educativas têm sido claras no sentido da promoção
da autonomia curricu lar da escola. Mesmo que os no rmativos sejam exuberantes na ideia de que a
escola é descentralizada, dispondo de autonomia par a flexibiliz ar e contextualizar o currículo através
dos seus projetos (Pacheco & Ma rques, 2 015) a i nvestigação dá -nos conta de que quanto mais se
decreta a autonomia mais ela se p erde nas práticas da s escolas.
As reformas concebidas, de cima para baix o, assim como os m odelos de m udança baseados no
saber dos e specialistas e nas disposições legais, reproduzem na escola a divisão t écnica e social de
trabalho entre as pessoas qu e pensam e plani ficam e as que pensam e a s que s e limitam a re cebe r
instruções e a executá -las mecânica e passivamente. Neste en foque político, o poder e a autonomia
dos professores diminuem extraordinariamente e está provado que essas reform as se não tiverem a
implicação e a pa rticipação efetiva dos professores, circunscre vem-se a mu danças secundárias,
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
80
de produção e - como é óbvio - aumentando os lucros da empresa (Varela de Freitas,
1999, p. 45).
A época em que se vivia em tor no da Revolução Indus trial e o context o no qual se produzira
conhecimento científico, em prol de uma realidade que alteraria de forma tão determinante as
sociedades mundiais, contribuíram para outras corre ntes teóricas que com eçavam a surgir, sendo
visível , como hoje, a prepon derância de algumas correntes que se sustentam nos “autores da moda”.
Baseadas na gestão científica de Frederick Taylor, es tas viriam a demarcar -se nos m ais diferentes
ramos do saber.
Nos estudos do currículo, e inspirado nesses fu ndam entos, Bobbitt dava -nos conta de que a
escola devia f uncionar segundo estes princípios da adm inis tração científica, indo concorrer com
vertentes consideradas mais progressistas, como a liderada por Dewey, c ujas posições se cen travam
no facto de a escola ser par te integrante da vida da comunidade e ter um importante papel na reforma
da sociedade.
Para Dewey e outros progressistas, a criança era coloca da no centro das preocupações do
currículo, indiferentes à id eia de currículo q ue Bobbi tt propunha, pois não tinh a em conta nem os
interess es, nem as experiên cias da criança - o s fatores psicológicos e os fat ores sociais. A influência de
Dewey foi det erminante no plano teórico e filosófico, mas a mesma não conseguiu encontrar à época
susten tabilidade teórica influente. A perspetiva tecnicista de Bobbitt viria a se r imp lementada no en sino
ao longo de décadas, gerando um movimento de eficiência social, onde o currículo se concetualizou
como altamente prescritivo (Varela de Freitas, 1999; Ta deu da Silva, 2000).
Esta visão de currículo teve os seus sucessores , re sultando dela diversas conceções, as quais
viriam mais tarde a marcar um importante período na conceção do conceito. T adeu da Silva (2000)
considera que Bobbitt fez como outros, antes e depois dele, limito u-se a desco bri-lo e a descrevê-lo,
criou uma noção particular de currículo; no entanto, aquilo que ele considerou ser o currículo tornou -se
uma realidade para um grande nú mero de escolas, professores e alunos.
O modelo de escola que B obbitt propunha era, de fact o, muito semelhante ao de uma empresa,
na medida em que a escola se devia preocupar em definir c laramente os fins/objetivos que p retendia
alcançar, estabelecer de seguida os métodos e estratégias para os at ingir e, no fi nal, verificar se foram,
ou não, at ingidos. Embora este tenha sido um marco fundamental no campo do curr ículo, é com Ralph
Tyler que encontra a sua consolidação, em 1949, quando este autor publica a obr a:
Basic Principles of
Curriculum and Instruction
. Ne sta obra, o c urrículo é também assumido c omo um ca mpo de
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
81
racionalidade técnica organizado em torno de quatro questões
3
essenciais, q ue decorre da sua
conceção de currículo, encarado como um conjunto de objetivos educacionais q ue a escola pretendia
alcançar. O seu modelo de orga nização do cu rrículo assinalou um importante m arco no sistema
educacional que vir ia a ser denominado no meio científico de
Rationale de Tyler
, t endo marcado a
perspetiva da racion alidade técnica do ensin o.
Muitas definições decorre m destes import antes estudos acer ca do
curriculu m,
sendo as
primeiras defi nições propostas por Tyler, Good, Belth, Phenix, Taba, Johnson, D’Hainaut, entre outros .
As mesmas correspondem a um plano de estudos, ou a um programa, m uito estr uturado e organizado
na base de objetivos, conteúdos e atividades, de acordo com a nature za das disciplinas. Neste sentido,
falar-se de currículo ou de programa representava a mesma realidade, surgindo muitas vezes como
sinónimos (Pacheco, 1996).
Kliebard (2011) reconhece Ralph Tyler como o inves tigador que mais viria a contribuir para a
delimitação do seu campo de estudo. O seu contributo t eórico, para além de mais duradouro, foi o q ue
teve um maior impacto na comunidade cien tífica e epistemológica na área do curr ículo. O seu
contributo, com o programa para a disciplina Educação 360, na U niversidade de Chicago e
posteriormente publicado sob o título:
Basic Principles of Curriculum and I nstruction
, viria a ficar na
história dos estudos curriculares.
A sua obra foi talvez uma das mais difundidas e citadas nest a área do conhecimento. Não existe
livro, manual, obra, ou artig o científico sobre o c urrículo que não refira os contri butos que Ralph Tyler
deu a es ta área do conhecimento. Este pressuposto, no entanto, não t eve os efeitos mais desejáveis:
se por um lado a mesma é mencionada por todo s os estudos cur riculares, a mesm a é quase sempre
referen ciada na associação às questões necessárias para a fundamentação, construção,
desenvolvimento e avaliação de um plano de ensino, configuran do -se o currículo com esse plano de
ensino. O e studo que Tyler realizou, no co ntexto dos estudos curriculares, per mitiu que muitos se
tivessem associado a es sa racionalidade técnica de construção e desen volvimento curricular
3
As questõ es a que se refere Tyle r são:
1. Que objetivos e ducaciona is deve a esc ola procurar atin gir?
2. Que experiênc ias educaciona is podem s er oferecidas que tenha m probabili dade de alca nçar esses propósitos ?
3. Como organizar eficiente mente essas e xperiências educacio nais?
4. Como podemos ter a ce rteza de que es ses objetivos est ão sendo alca nçados?
As respostas a estas questões d efiniriam no entender de Tyler, o curr ículo. Com estas quest ões, que ele considerava como essenciais a o
desenvolviment o do currículo, est e o currículo co meçava a desenvo lver -se co nsiderando três f ontes para sua definição : o aluno, o conhecimento e a
sociedade, sendo selecionado s a partir da fil oso fia da educaç ão e da psicologia da a prendizagem.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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assumin do- se durante muitas déca das a ideia de que as expressõ es currículo, programa, plano de
ensino represen tavam a m esma realidade, associando-se quase como sinónimos.
Este conceito de currículo altamente estruturado, que se torna visível nas prática s das escolas,
perdurando ao longo de algumas décadas no ensino e influenciando as co nceções ainda hoje
dominantes, era consentâneo com as conceções e prát icas curriculares daí decorrentes,
caracterizando-se também elas como muito sequ enciais, estruturais e previamente organizadas.
Em 1969 , surgem as principais críticas ao
Rationale de Tyler
, e ssencialmente com Joseph
Schwab, designadamente na obra:
The Prat ical: A language
for cur riculum
, onde considera a
necessidade de se inverter a orientação teórica do currículo e de se investir n a prática. Este é um
momento muito importante na reco nceptualização do currículo, na medida em q ue é considerado o
importante papel da prática e do professor n esse mesmo âmbito , criticando os seus antecesso res por
aplicarem modelos teóricos de ensin o, ape nas tendo em vi sta o alcance dos res ultados pré-definidos.
Os trabalhos produzidos a partir desta altura fazem ressaltar outras variantes e valências para a
compreensão da co nceção de currículo. Por exemplo, para Eisner (1 979) o ensino é um conjunto d e
atividades qu e transformam o currículo na prática para produz ir a aprendizagem. O ens ino e a
aprendizagem são, para es te autor, conceitos entendidos em interação recíproca. O ensino começa a
partir de u m plano curr icular prévio e a sua concretização pr ática só é uma realidade em termos da
aprendizagem que produz. Neste se ntido, também Kemmis (1988) refere que o currículo concerne a o
modo como o projeto educativo se concretiza nas a ulas.
A função da e scola, como fonte de aprendizagens alcançadas a partir de uma estrutura d e
conteúdos m inucios amente delimitados, foi evoluindo e as perspetivas que se tinha ac erca do currículo
não permaneceram as m esmas. A conceção de c urrículo como programa/plano de estudos foi
refutada por alguns teóricos ao afirmarem que o importante na aprendizagem do aluno não e ra apenas
o produto final, o comporta mento esperado por este, mas o processo em que o aluno é envolvido na
experiência da apr endizagem. Esta visão teve com o expoentes máx imos Stenhouse e Schwa b, que se
poderão situar na década de 197 0, quando começaram a emergir as teorias práticas do currículo.
A t eoria prática contradiz a teoria t écnica, não a crítica, m as acrescenta que, mais do que prever
a realidade e de esta estar apenas centrada no rigor do ensin o, do que se quer atingir enquanto
produto final, h á a necessidade de se i nvestir nas situaç ões e reações na aula. A t eoria prát ica foca o
seu estudo na natureza do processo ensino -aprendizagem, preocupando-se em ver o que se está a
fazer e qual é o objetivo, que mudanças se podem obter, com que custo ou pou pança e como se
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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podem realizar com o m ín imo de rutura da restante estrutura educativa (Schwab, 1985, citad o por
Pacheco, 1996).
Estas questões sobre a nat ureza do proces so de ensino-apre ndizagem, com a envolvente de
alunos, professores e conhecimento, começam a tr azer à luz da in vestigação preocupações não
sentidas antes. Começa -se a dar importância ao que se faz em detrimento daquilo que se pretende
fazer. Com eçam a surgir conceções de curr ículo com o uma negociação en tre alunos e professor, em
que o curr ículo não está unicamen te pré-det erminado, mas vai sendo deter minado ao longo do
processo, onde os al unos s ão os “ atores ” principais, a quem tem de se dar a devi da atenção, já que o
currículo será aquilo que os professores e alunos fizerem dele (Grundy, 198 7).
Ao analisar alg umas das conceções de currículo, St enhouse (1991), considera que, por um lado,
é assumido com o uma intenção, um plano, uma prescrição, aqui lo que se prete nde ver desenvolvido
na escola, por outro, é o que se pa ssa na s escolas. Aqui també m, estão presentes os aspetos que se
prendem com a intenção e a realidade, contudo, ele aperfeiçoa esta conceção afirmando que: “ um
currículo é uma tentativa para comunicar os princípios e ações e ssenciais de um propósito educat ivo,
de tal forma que permaneça aberto à discuss ão cr ítica e possa ser transladado efetivamente para a
prática ” (p. 29).
Estas perspetivas de c urrículo não o s ubmetem apenas aos co nhecimentos, m atérias a
transmitir, reportam-no para a mediação da realida de prática, tendo sido vis ível o aumento das
preocupações com a forma de como decorria o pl ano n a ação. Est a ideia de representação e ação é
discutida por Rasco ( 1994) ao a ssociar o conceit o de cur rículo à rep resentação e à ação. A
representação está relacionada com a forma como repres entamos o mundo, como o interpretamos e o
compreendemos, que teorias formulamos sobre ele. A ação focaliza uma fronteira com a
representação que nem sempre é nítida, at ua sobre a representação para a mediar e tran sformar. Em
termos concretos, a representaç ão está associada à cultura, à seleção do conhecimento, que remonta
às su as origens, à forma como se vê, pe nsa e expli ca o mundo en volvente. A a ção é a transposição
dessa cultura, conhecimento para a prática, que requer, em função dos condici onantes do con text o,
uma planificação.
Naturalmente que seria re dutor encontrar uma únic a definição de currículo que espelhasse
todas estas relações, no e ntanto, e ao ter presente a origem latina do t ermo, esta remet e -nos para a
conceção de currículo con struído socialme nte e definido como um percurso a seguir, ou a apresentar.
Nesta perspetiva, algo de comum at ravessa os tempos e as conceções no que ao currículo diz respeito,
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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na medida, em que a sua natureza é sempre idêntica e está inexoravelmen te associada ao
conhecimento que, em determinada época e em det erminado contexto, se espera fazer passar aos
mais jovens. É dessa passagem de saberes, de conhecimentos que trata o currículo, o currículo é por
isso o percurso de conhecimento que se medeia.
Assumin do aqui esta persp etiva de currículo como um veículo portador de prioridades sociai s
(Goodson, 1 997), importa também perceber que este sempre foi alvo de conflitos ao conflu írem em si
várias forças e influências sociais que pugnam por d ar prioridade aos objetivos que se e s peram ver
representados. Ao analisar os conflitos do currícu lo, Goodson (1997) distingue muitos conflitos sociais
e políticos travados na e scola, fazendo com q ue o currículo se apresente com o p roduto não i sento de
influências sociais, não apresentando tam bém, de uma forma imparcial, o conhecimento, t al com o ele
existe num determinado momento histórico.
Desta forma, estão associa dos ao termo, o conhecimento e o controlo, que funcionam a dois
níveis: por um lado, o cont exto social onde o conhecimento é concebido e produzido; e, po r outro, a
maneira com o esse co nhecimento é traduzido para ser utilizado n um determinado meio educativo. O
que varia é o m odo como este processo se concretiza num dado tempo e contexto (Roldão, 1999a;
Goodson, 2001).
Com o avanço das mudanças e inovações opera das na escola e na sociedade, outras
perspetivas de currículo surgem , outras dimens ões e mani festações emergem e as mesmas alargam
os estudos do currículo para outros campos de análise, surgindo as “ perspectivas ema ncipadoras de
currículo ” (Pacheco, 1996, p. 40), qu e se afastam, em termos concetuais, d as teorias técnica e
prática. Por isso, “ o currículo não é o resultado nem dos especialistas, nem do professor i ndividual,
mas dos profess ores agrupados port adores de uma consciência crítica e agrupados segundo interesses
críticos ” (p. 40). Estas visões críticas, sobre a as sociação do currículo com as estruturas sociais e
ideológicas do poder que o constrói, fazem com que as abordagens curriculares se comecem a centrar
num currículo muito agregado a diferentes teias de relação, nomeadamente, do poder, do saber, da
ideologia e da identidade, que colocam no centro do debate dos estudos curriculares as questões sobre
quem decide sobre o conhecimento e que cons equências daí advêm.
Apple (1997) elabora uma análise crítica do currículo, demarcando a influ ência da crítica
neomarxista às teorias tradicionais do currículo. Coloca no centro da s teorias educacionais as críticas
ao currículo, que o perspe tiva em t ermos estruturais e relacionai s. Para este autor, o currículo está
estreitamente relacionado com as estruturas econ ómicas e sociais mais ampl as. Enquanto Tyler
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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propun ha um processo rig oroso de escolha de fontes para a seleção do conhecimento considerado
relevante a ser ensinado e aprendido, Apple con sidera que o currículo não é um corpo neutro, inocente
e desinteressado, a sua seleção é o resultado de um processo que reflete os in teresses particulares
das classes e do s grupos dominantes.
Durante a nos, o estudo do currículo centrou- se na compreensão da relação que o conhecimento
tem com a reprodução da cultura dominante. Como arg umentaram Bourdieu e Passeron (2008) “o
capital cultural” dos pais em muito beneficiará o s s eus f ilhos na posse daqueles qu e são o s se us
códigos de lin guagem, as suas tradições, os seus valores e costumes. Esses códigos cu lturais ao se
associaram aos da escola irão servir de mecanismo facilitador de sucesso para quem os possui e
dificultador para quem deles se afast e. As crianças cujos pais são poderosos e ricos b eneficiam da
inclusão através do currículo, e os menos favorecidos sofrem a exclus ão pe lo conhecimento. A s
disciplinas escolares não são por isso definidas de u ma forma desinteress ada, mas numa relação
estreita com o poder e o s i nteress es de grupos sociais dominantes. Quanto mais poderoso for o grupo
social, maior é a probabilidade de ele exercer poder sobre o conhecimento escolar (Goodson, 2007).
Brian Davies, Mich ael Yo ung e Basil Bernstein revelaram que as escolas são domí nios políticos e
culturais que podem ser u sados com o locais de con trolo social. Segundo estes autores, a produção do
conhecimento nunca é inocente e está sempre, de algum modo , ligada a necessidades e manipulações
políticas. A juntar-se a estes também Henry Giroux, Mich ael Apple, Jo Anne Pagane, Jean Anyon, Philip
Wexler e Peter McLare n viriam a sustentar a ideia d e que uma análise crítica do currículo implica
questionar o que ele excl ui e não ape nas o que incl ui e estabelecer ligações e ntre o currículo e o s
processos culturais mais globais.
Uma disciplina, ao estar associada ao conhecimento, não pode deixa r de ser que stionada na sua
raiz epistemológica, a mesma está imbricada com o context o sócio histórico que lhe deu origem e
importa questioná-la tendo como referentes de análise esse con text o social e histórico. A partir de um
estudo de Reid (1985) , Goo dson (2001, p. 74) estabelece
que as disciplinas não podem ser como ‘destilações’ finais de um
conhecimento imutável e definitivo e não devem ser concebidas como estruturas e
textos incontestáveis e fundamentais. Isto daria lugar a uma epistemologia
profun damente imperfeita, pedagogicamente débil e intelectualmente dúbia, pois, no
saber humano, as ‘destil ações fin ai s’ e as verdades ‘fundamentais’são conceito s
ardilosos.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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Na esteira de Young (2 007, 2010, 2013), a influência que a Sociologia viria a ter no campo d o
currículo desviou as análises curriculares para um outro campo do conhecimento que não o se u
originário. O autor, ao re visitar o sociólogo francês Émile Durkheim e o psicólogo russo Lev Vyg otsky,
dá -nos conta que continuam por responder as questõ es sobre que conceitos, que teorias, que seleção
do conhecimento e com que base podemos t omar decisões, por responder. O autor salienta que a
inves tigaçã o, ao nível c urricular, está -se a direcionar para o campo da avaliação das aprendizagens, o u
então, para outros campos da educação e a afastar -se da quilo que considera ser o cerne do currículo –
o próprio conhecimento. Se Ralph Tyler propô s um mo delo racional do modo com o se poderia definir o
currículo, muitos que se lhe seguiram preocuparam -se com os efeitos que esse c urrículo poderia ter no
desenvolvimento do en sino, das aprendizagens dos alunos e nas estruturas sociais de classe (Apple,
1997), a partir da reprodução da cultura dominante (Sá cristan, 2013), ou e ntão n as formas com o esse
currículo é prescrito e influenciado (Pacheco, 2018b) e de que modo se estruturam as aprendizagens
consideradas relevantes (Ro ldão, 2000c, 2018b).
Esta multifocagem a que o currículo t em estad o sujeito, bem como as preocupações que sobre
ele recaem, leva-nos a con siderar que e ssa diversidade de enfoques nos permite compreender melhor
os limites do próprio conceito, bem com o o que permanece, independente mente da época, do
contexto, dos pressupostos t eóricos qu e se as sumem, ou as dive rsas manifestações a que o currículo
está sujeito, fazen do- nos perceber que o currícu lo terá sempre no seu embrião o conhecimento.
É nesta perspetiva que o currículo surge como um corpo de aprendizag ens socialmente
necess ár io fazer passar às gerações mais jove ns (Roldão , 2 017 ). Daí decorre a associação do currículo
à escola, que num compromisso de estabilidade, de legitimação se assume como entidade responsável
por fazer passar es se conhecimento num momento específico e previamente d eterminado. Contudo, a
escola, por força da estrutura que historicamente adotou na sua relação com o conhecimento, nem
sempre estabeleceu uma real comunicação com a re alidade (Roldão & Almeida , 2018a), sendo e sse
um desafio que hoje se coloca: o de desbra v ar esta relação que o currículo na sua
multidimension alidade estabelece com a escola.
3.2. A mult idimensionalidade do conceito de c urrículo e sua relação com a
escola e as práticas de ensino-aprendizagem
Percebeu-s e, pela análise anteri or, que n ão é fácil es crever de forma consensual s obre o
conceito de currículo. Es sa realidade faz dos Estudos Curriculares uma área do conhecimento h íbrido.
Os contributos oriundos de diferen tes ramos do conhecimento, com o a Filosofia, a Adminis tração, a
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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Psicologia, a Sociologia, a C iência Política, a História, a Teori a da Literatura, a Fenomenologia e,
recentemente, os Estudos Culturais (Pacheco & Pereira, 2007) fazem com que a s investigações sobre
o currículo se possam centrar nas mais diferentes an á lises. É por essa razão que faz sentido falar-se na
multidimension alidade dos es tudos curriculares, que sempre se caracterizam pela div ersidade de
focagens e pela crise persistente, pois jamais poderão deixar de ser entendidos como um campo de
fronteiras ambígenas na s suas raízes co ncetuais, funci onando na base de lógicas bem estruturadas ao
nível das suas práticas.
Vários investigadores (Bobitt, 1918; Tyler, 1949; Schwa b, 1969; Ta nner e Tanner, 1975; Eis ner,
1979; Sacristán, 1993; Kemmis, 1988; St enhouse, 1 991; Zabalza, 1997; Ro ldão, 1993, 1994, 1995,
1999 a, 19 99b, 2000a, 2001; Pacheco, 1996; Sá -Chaves, 1999, entre outros) preocuparam -se em
precisar um campo concetual para este termo, demonstrando a sua conceção de currículo, que em
função do tempo e do espaço social, político e cultural, em que emergiram essas conceções, sempr e
se relacionaram com o conh ecimento em si, o papel d a escola, da sociedade, do profess or e da visão
que se tin ha das práticas d e ensino e de aprendizagem, numa determinada época e contexto.
Parte-se, por isso, do pressuposto de que o currículo, ao se associar ao conhecimento, pode ser
perspetivado nas mais diferentes óticas e, se por um lado, essa multiplic idade de visões pod e
contribuir para um estudo aprofun dado do conceit o, por outro, torna -se um desafio difícil, mas
doravante interessante o de acrescentar algum conhecimento sobre este te ma – apresen tar as
relações que o conceito de currículo parece ter vindo a estabelecer, tr azendo à análise a
multidimension alidade do conceito no que sempre permaneceu ine rente ao próprio conceito: o
conhecimento.
A partir de um dos estudos de Goodson (2 001), é possível compreender q ue a primeira fonte da
palavra currículo remonta a 1663, em Gl a sgow, na Escócia. O
Oxford English Dictionary
localiza essa
fonte. O autor, recorrendo à etimologia da palavra , refere que as implicações etimológicas nos
reportam para uma “concepção de currículo construído socialmente e definido como um percurso a
seguir ou, significativamente, a apresentar” (p. 61). A s ua etimologia ass ociada a per curso, t rajetória
faz-nos perceber o quanto essa conotação nos pode canalizar para as mais diferentes interpretações de
trajetos, de percursos. Percursos esses que não surgem descontextualizados, eles estão imbricados
com os cont extos sociais, políticos, culturais e ideológicos, qu e em diferen tes épocas
permaneceram/permanecem.
O conceito de currículo desde o seu uso i nicial que representa a expressão, a proposta do
conhecimento organizado em forma de conteúdos q ue o compõem; é uma espécie de ordenação que
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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articula os episódios isolados das ações, sem as quai s esses ficariam desordena dos, isolados entre si,
ou simplesmente justapost os, provocando uma aprendizagem fragmentada. O currículo desempe nha
uma fu nção dup la: por um lado, organizadora e a o mesmo tempo u nificadora do ensin ar e do
aprender; e, por outro, cr iadora de um paradoxo, devido ao fact o de que nele se reforçarem as
fronteiras e as muralhas q ue delimita m os seus componentes, como po r exemplo, a s eparação e ntre
as matérias ou as disciplin a s que o compõem (Sacristán, 2013).
A forma como o con hecimento foi sen do estru tu rado e organizado na escola faz com que este
paradoxo, a que se refere Sa cristán (2013), coexista nestas duas perspetivas. Se por um lado importa
contribuir, através do ensino, para apr endizagens essenciais, significativas e u nificadoras por o utro
lado, essa ce ntralidade do conhecimento é entendida como um conjunto de conteúdos agrupados em
programas e planos de ensino que se e struturam, se o rganizam e sequencializam em ciclos, em anos
e em disciplin a s, que de algum modo contribuem para o fragmentar do conhecimento.
Sacristán (2013, p. 20) refere que
desde as suas origens que o currículo se t em mostrado uma invenção
reguladora do conteúdo e das práticas envolvidas nos processos de e nsino e
aprendizagem; ou seja, ele se com porta como um instrumento que tem a capacidade
de estruturar a escolarização, a vida d os centros educacionais e as práticas
pedagógicas, pois dispõe, transmite e impõe regras, normas e uma ordem q ue são
determinantes.
Contudo, esse instrument o, com o Sa cristán (2013) se refere ao currículo, não pode
simplesmen te ser encarad o como instrument al, ele foi se ndo rei nterpretado nas lógicas em que foi
sendo concetualizado e implementado na prática. A in stituição escolar, ao t er uma certa divisão do
tempo, uma certa especialização dos professores, uma ordem de ensino, uma sequência de
aprendizagens que se espe ram promover fez com qu e outras lógicas de interpretação da escola e do
currículo se revelassem com uma certa desconfiança, permanecendo quase incólume esta forma de
estruturar o ensin o e naturalmente o currículo.
Como refere Pacheco (2013, p. 4 50), “não é possível falar de projetos de formação sem a
inclusão de referências relat ivas a um
corpus
de saber es e valores, social e cultur almente reconhecido
como válido”. E, indepen dentemente da forma ou da estrutura em que esse projeto de formação
ocor ra, a ele sempre estará associado um conjunto de conhecimentos qu e se esperam ver transmitidos
e aprendidos pelas gerações mais jovens a que é necessário atender.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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A organização de alunos em turmas, a sequência ordenada de at ividades, a pr edeterminação do
tempo, a prossecução de um conjunto de graus e de níveis de aprendizagens, fizeram da prát ica
educativa uma realidade que, ao longo de décadas, se cristalizou. A ordem e a sequência esgotaram -se
num mundo onde a ordem e a sequência se coloca m continuamen te em questionamento. A linha de
montagem que teve tanto impact o no século XIX, assumiu - se , passado um século, como uma realidade
e a reinvenção de uma nova escola parece tardar.
Como bem refere Sacristán (2013, p. 3 1):
O estímulo de reprodução na transmis são cultural que os adultos fazem a
gerações de jovens, junto com as tradições escolares disciplinadoras (preocupadas
com ordem e disciplina e o comportamento) e as conceções dogmát icas do ensino,
tem inves tido de autorida de, de carácter re lativame nte sagrado, os conteúdos do
currículo, dando-lhes le giti midade e validade in questionável, bem como a g arantia de
que esses conteúdos representem verdades perenes. Isso não corresponde ao valor
que hoje sabemos que os currículos têm. Entre as tradições cur riculares a tradição
iluminista atribui à cultura o valor de ser um nutriente para o ser humano, ou seja, os
conteúdos são os mat eriais que fazem com que o ser h umano se desenvolva até
alcançar uma grande plen it ude.
A mudança provocada po r alterações impor tantes nas condiçõe s sociais e culturais, tem
reclamado à escola novas con ceções s obre o significado da s suas práticas, dos seus valores, da sua
função e dos fins ed ucativos a que s e propõe (Sacristán, 2000 b, 2000a ).
Apple (2001) considera que as e scolas, e nquanto instituições inseridas numa sociedade,
parecem desempenhar um a m ultiplicidade de tarefas: são órgãos reprodutores, uma vez que aj udam a
certificar e selecionar a for ça de trabalho, ajudam à ass imilação da forma e do conteúdo da cultura e
do conhecimento dos gru pos poderosos, definindo-o com o conhecimento le gítimo a ser preservado e
transmitido, ensinam norm as, valores, en sin ame ntos e uma determinada cultura, ajudam a legitimar o
conhecimento novo, a e stabelecer as novas classe s e os novos estratos sociais, s ão ag entes de criação
e de recriação de uma cultura predomin antemente eficaz.
Mas, na verdade, o aut or assever a que as escolas não podem ser vistas como meras instituições
de reprodução da cultur a dom inante, já que é diferente a forma como cada estudante rein terpreta e
aceita parcialmente o que é veiculado na escola. Os es tudantes não são seres passivos que assimilam
tudo o que a escola lhes transmite; como seres culturais reinterpretam os conteúdos à luz dos seus
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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onde o cu rrículo se percebe, se impl eme nta, se exper iencia e se traduz nas práticas de ensino e de
aprendizagem sofre influxos da complexificação a q ue as relações e ntre ess es cont extos estão sujeitas.
O currículo que ocorre na sala de aula e que se configura no que os professores pretendem
ensinar e no que ensinam d e facto, no que os alunos deviam aprender e efetivamente aprendem é alvo
de um microcosmo, cu jo co smo nem sempre e stá clar amente definido. E, se por um lado, os valore s e
as crenças a que estamos arreigados se naturaliz am nas prát icas de e nsino, as m esmas são
influenciadas por todo o contexto de organização da turma, da organização, da admin istração e gestão
da escola, das suas l ideranças explícitas e implícitas, das normas e orie ntações oficiais nacionais, bem
como dos documentos e struturantes internacionais, que claramente influenciam as opções que s e
tomam aquando da gestão do currícu lo.
Admitimos, por isso, que o currículo é uma construção onde são possív eis diferentes
interpretações, opções e respostas, entre alternativas poss íveis. O que está prescrito ou determin ado
não deixa de ser u m produto in certo, que poderia ser diferente no pas s ado, no presente e no futuro.
Não é alg o estável, neutro e universal, mas um territó rio controverso e conflituoso, a respeito do qual
se tomam decisões nem sempre convergentes, nem sempre iguais (Sacristán, 20 13). Os context os, da
sala de aula, da escola, da com unidade, do país e at é das organizações não g overnamen tais,
influenciam as opções e decisões que podem ser tomadas em torno do currículo.
De entre as opções que se tom am, o manual didático assume a maioria da s vezes e
praticamente em exclusivo especial relevância no dese nvolvi mento do curr ículo (S acristán, 2013). Ele
cria as possibilidades reais de implementação do currículo, ao interpretar o saber, ao desconstruí -lo, ao
operacionalizá-lo em at ividades teóricas e práticas, ao realizar mat rizes e sínte ses do que importa
saber. O co nhecimento que, por vezes, se e ncontra em forma de metas, com petências e/ou
aprendizagens essenciais, configura-se quase sempre numa listagem de conhecimentos que o aluno
sente na obri gação de sabe r pela via da memorização, da transposição e da compreen são.
Contudo, como observa Sa cristán (2013), “o pensamento sobre o currículo tem de desvelar a
sua n atureza reguladora, os código s por meio dos qu ais ele é fe ito, que mecanismos utiliza, como é
realizada essa natureza e que conse quências podem advir do seu funcionamento” (p.2 3). Nes te
sentido, devemos questionar o papel desse currículo n a escola, de que forma o mesmo contribui para
as práticas interculturais, p ara a promoção de u ma escola mais democrática, mais justa e equitativa ,
de que forma os nossos padrões educativos contribuem para a formação m oral e social do aluno, de
que modo ocorrem as práticas de currículo oculto e que sentido têm elas para os alunos e professores,
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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de que forma tratam os a educação e que finalidades pers eguimos nessa co nsciência crítica que
assumimos s ob re o currículo, a escola e a educação.
Um mundo em constante e imprevisível mudança faz - nos perceber que a “escola com
consciên cia i ntercultural” e com “personalidade cósmica”, não se coa duna com uma estru tura rígida e
sequencial na qual a s inst ituições escolares parecem f uncionar (Carneiro, 2001). E se dificilmente se
alteram essas estruturas, o
status quo
em q ue as e scolas parecem estar inst aladas e organizadas,
temos de ser capazes de encontrar soluções para q ue o currículo se rei nvente e se reconstrua, de
forma a encontrar nos seus destin atários n ovos modos de o perceber e interpr etar, fomentando uma
consciên cia cr ítica capaz de agregar e de incluir, ao invés de excluir e segregar.
Esta perspetiva compreensiva e abrangente tem a ver com a relação que o currículo estabelece
com a história de vida de cada pessoa, convém dizer com as narrativas de cada um. São os interesses
e as neces sidades movidos pelo contexto em que cada um vive e da forma como cada um a prende,
que nos conduzirá para u ma nova especificação curricular. Good son (2007), um dos precursores
desta perspetiva, considera que o currículo prescritivo está a dar os seus últimos passos, mas a nova
era do currículo para um novo futu ro social e educa c ional está lo nge de estar bem definida, talvez
pelos interesses que ai nda existem à volta da legitimação do currículo racion al e técnico. Com o o
próprio afirma:
Acredito que os esboços s obre a aprendizagem narrativa e o capital narrativo
fornecidos aqui são o início de uma nova especificação para o curr ículo. Estamos
apenas no começo. É um início que traz a esperança de que possamos, finalmente,
corrigir a “mentira fundamental” que se situa no âm ag o do currículo prescritivo. No
novo futuro social, devemos esperar q ue o currículo s e comprometa com as m issões ,
paixões e propósitos que as pessoas articulam em suas vidas. Isto seria
verdadeiramente um currículo para empoderam ento. Passar da aprendizagem
prescritiva aut oritária e primária para uma aprendizag em narrativa e terciária poderia
transformar no ssas instituições educacionais e fazê-la s cumprir sua antiga promessa
de ajudar a mudar o futuro social de seus alunos ( p. 51 ).
Goodson (2007) traz-nos à análise uma mudança de currículo, a passagem de uma
aprendizagem primária, de um currículo prescrito par a uma aprendizagem t erci ária, de um currículo
narrativo. Uma mu da nça que se espera fa zer tendo como centro de preocupação o aluno e as suas
circuns tância s de vida social, cultural, económica.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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A importância da mud ança do currículo como prescriç ão para o currículo com o narrativa serve
de base para analisar mitos importantes sobre o ensino público e a própria sociedade. Através de um
estudo de Goodso n (2008), que incidiu sobre a história da educação num espa ço t empor al de t rês
décadas, chegou-se à conclusão de que o cur rículo t radicional e a forma como determinados módulos
do ensin o são definidos, são eles próprios artifícios para a exclusão e não para a inclusão social.
Sob a ótica da experiência cultural subjetiva, a di scussão sobre o c urrículo fica m uito atrelada à
categoria da aprendizagem e mais afastada da qu estão dos conteúdos. Se a razão pela qual os
conteúdos são introduzidos, nas at ividades de e nsino de forma sequencial, se j ustifica com o sendo
essen c ial para o amad urecimento da experiência, esse critério deve ser encontrado pelo profess o r em
cada situação, uma vez que não é po ssível encontrar uma norma g eneralizável para qu e um projeto
formativo se aplique de igual forma a todos os que frequentam a escola, da í a importância de o
profess o r permanentemente se questionar s obre que c ultura proporcionar (Sacristán, 2013).
Goodson ( 2008) refere ainda que q uem decide sobre o conteúdo do currículo é sempre alguém
que considera a sua cultur a como válida. Ora, esta pres crição faz com que o s g rupos de interesses
poderosos sejam os aliados de um cu rrículo prescrito. As deliberações fornecem sempre regras de jogo
claras, são incompatíveis com o trabalho flexível e gera em si a reprodução de or dem social e cultural.
A ligação entre a reprodução s ocial e cultural, o conteúdo do curr ículo e os grupos de class es
poderosas é viciante e cíclica e uma das razões para que o currículo como prescrição não t enha
sucesso é o facto de o m esmo se alh ear do envolvimento, aqui relacionado c om os interesses e
necessidades daquele que aprende. O planeamento do currículo ao ser def inido prescritivamente
alheia-se das situações, circunstâncias e contextos em que o aluno aprende (Zabalza, 1992b, 1997,
1999), em que o aluno vive.
O grande mérito que esta perspetiva narrativa assum e é a de considerar a importância da
compreensão da aprendizagem dentro do contexto de vida (Goodson, 2007). A aprendizagem ganha
um sentido real quando a mesma vem ao encontro de uma necessidade, de uma dúvida de algo, ou de
alguma coisa que nos move para algo q ue precisamos de adquirir, desenvol ver e melhorar pelo
significado e importância que essa ap rendizagem terá na nossa vida. É com o se pensássemos ao
contrário do que até aqui fora proposto. Se antes alg uém determinav a exa tame nte o que os alunos
deviam aprender, agora assume-se a importância de poder aprender o que socialmente é considerado
necess ár io dentro do contexto de vida de cada um.
Isto pode levar-nos a d iscutir vária s questões que se prendem com a construção de uma
sociedade competitiva que, alguns defe nderão, só será possível se a ela se as sociar um determinado
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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tipo de conhecimento, o conhecimento da elite, aquele que permitiu qu e as sociedades se
desenvolvess em na m elhoria das suas competências tecnológicas, sociais , a ntropológicas, etc. Ou
então, uma sociedade que reconhece q ue todos os que nela vivem têm igualmente o direito de
desenvolver aprendizagens essenciais e significativas para o seu projeto de vida pessoal e profissional.
O envolvimento dos alunos só se concretizará se a aprendizagem qu e estiverem a desen volve r
tiver significado e sentido p ara e na s suas vidas. Isto leva -nos a concl uir que m ais do que o processo
de ensino importa compreender o processo de aprendizagem, como é que ele ocorre, como
permanece no sujeito, com o se consolida, que utilida de lhe é dada , que finalidades o pre sidem. É
como se pensássemos ao contrário no processo qu e antes, e ao longo de anos, fora ch amado de
processo de ensino-apren d izagem, talvez importe falar -se em process o de ap rendizagem-ensino.
O grande mérito desta perspetiva é a compreensão da aprendizagem dentro do context o de vida.
O envol vimento n a apren dizagem que suben tende a relação com as pes soas e com a sua vida
(Goodson, 2007) levará a que o que s e apre nde faça sentido, seja útil, sendo este envolvimento ca paz
de um verdadeiro us o do co nhecimento e da sua apropriação e aplicação.
Quando vemos a aprendizagem como uma resposta para situações reais , o
engajamento pode ser dado com o certo. Grande parte da literatura sobre
aprendizagem falha na abordagem dess a questão crucial do i nteresse, por isso a
aprendizagem é vista como uma tarefa formal que não se relaciona com as
necessidades e interesses dos alunos, uma vez que m uito do planemento curricular se
baseia nas defi nições prescritivas sobr e o que se deve aprender, sem nen h uma
compreensão da situação de vida dos alu nos (Goodson , 2007, pp. 249-250).
Também no mesmo sentido afirmat ivo da importância atribuída às narrativas, há quem se refira
à importância da etnografi a na compree nsão do currículo. A mudança de pa drões tradicionais do
currículo p rescritivo e de a prendizagem baseada em conteúdos para uma noção mais elaborada da
aprendizagem narrativa (Goodson, 2007), ou então, uma certa equidade curricu lar que permita a cada
um, no reconhecimento das suas d iferenças, apropriar -se de aprendizagens q ue p ossam ir ao encontro
das suas competências criat ivas, artísticas e empreen dedoras.
Queremos com isto dizer que o currículo deve ser cap az de assegurar que cada aluno, com o ser
individu al, se permit a ser aluno nas suas idiossincrasias, que seja alguém capaz de desenvolver as
suas com petências para uma certa emancipação qu e lhe permita uma real integração na vida social
para a melhorar e não apenas para nela se integrar de form a acrítica.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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A construção de uma cidadania verdadeiramente democrática carece de conteúdos culturais que
permitam des envolver nos alunos uma compreens ão mais racional do mundo e m que vivem (N óvoa,
2010) e precisa de utilizar m etodologias didát icas que prop iciem o desenvolvimen to de um
pensamen to crítico e criativo, no respeito, no diálog o e no convívio com pessoas de distintas culturas,
ideias e ideais. Esta prática educacional deve ser senti da nas e scolas e o cur rículo deve permitir que
estas práticas sejam uma realidade para todos os que frequentam a escola.
O currículo, no modo com o é fundamen tado e con struído, prevê um determinado público a
quem se destina. Nem se mpre esse público consegu e aceder a e sse currículo, desde logo, porq ue a s
suas características, as su as motivações, o seu capital cultural, as suas condições sociais, cu lturais,
psicológicas, não se ndo id ênticas, não co nseguem e star à altura de fa zer corr esponder ao que se
deseja - que todos sejam capazes de aprender. N este sentido, questionam -se alternat ivas, defendem-se
posições e estudam-se os mecanismos a que o currículo t em de estar sujeito, nas práticas da sua
aplicação. Somos herdeiros de uma tradição curricular uniformista - ensinar t udo a todos, com o se
todos fossem iguai s - foi e talvez ainda seja a máxima na qual a s práticas c urriculares das e scolas
ainda ocorrem. Importa por isso perceber a forma como o currícu lo tem sido reinterpretado no debate
político, no discurso norm ativo. Se o m esmo prevê mecanismos passíveis de serem criados n a s
escolas e pelos profes sores, para que os alunos sejam capazes de aceder ao currículo. Ou se a
intenção é essencialmente transpor para as escolas e para os professores a re spons abi lidade de, a
partir do currículo, fazer u m a seleção entre aqueles que têm sucesso e os que, não o alcançam.
3.3. O debate político em torno do currí culo, do seu desenvolvimento e gestão
Os discursos sobre o currículo nem sempre converge m nos diferentes domínios nos quais os
mesmos se situam. Se p or um lado a investigação nos diz o modo como o currículo deve ser
fundamentado, desenvol vido e avaliado, por outro lado t emos assistido a discursos no dom ínio político
que o situam nas formas como o mesmo se manifesta nos documentos orientadores e normativos. O
que a história nos diz sob re o currículo e de que forma a in vestigação t em interpretado este conceito
nem sempre tem permitido compreender a harmonia entre o que pol iticamente se e spera que
aconteça no cam po curricular e o que acontece na realidade. O m odo como o currículo t em sido
reinterpretado pelas di ferentes forças políticas - se há consensos sobre o q ue deve ser o conhecimento
da escola e de que forma tem sido (re)interpretado esse conhecimento no palco das decisões políticas
nacionais e supranacionais, bem como pelos diferent es agentes g overnativos - constitui um domínio
bastante relevante para a compreens ão deste tema.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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Esta pretensão condu ziu-nos à pes quisa de estudos inter nacionais que t ivessem objetivos
idênticos ao nosso e nessa procura en co ntramos um estudo de Michael Yo ung (2010), que teve por
finalidade analisar a reforma curricular do Governo Inglês , em 2003. O autor, ao c omparar a perspetiva
da direita e a perspetiva modernista refere que enquanto a primeira considera q ue t odas as tentat ivas
de mudar a estrutura disci plin ar do currículo desembocam num decréscimo dos níveis de exigência, a
segunda refere q ue não temos outra altern ativa sen ão permitir que o curr ículo responda às qu estões
de mercado, no sentido de existir uma m aior escolha relacionada com as opções de integração no
mundo do trabalho.
Ao analisar essa reforma curricular, Young (2010) refe re que a mesma se centrou na redução do
Currículo Nacional, designa damente na diminuição do número de di sciplinas obrig atórias para t rês - o
Inglês, a Matemát ica e as Ciências, passando todas as outras disciplinas presentes até en tão no
currículo a ser opc ionais e, ainda, na possibilidade de os alunos de 14 anos pas sarem a poder obter
diploma do ensin o secundário em áreas espe cíficas.
Estas mudanças que ti nham por objetivo permitir melhores classificações a níveis mais
elevados, alargar o número de oportunidades e diversificar o leque de escolhas, bem como prep arar
melhor os alunos em termos de empregabilidade, foram bem acolhidas pela maioria da “imprensa
séria” (aspas do a utor), ma s pouco cr iticadas por especialistas na área dos e studos curriculares (o u n a
Sociologia da Educação) e isto deve-se, na opinião do autor, à marg inalização da questão do
conhecimento, como o próprio refere:
Na minha opinião, isto reflecte a marg inaliz ação da questão do conhecimento
naquele campo a que aludi anteriormente, sem uma t eoria sobre que conhecime nto é
importante e qual o seu papel no currículo, os especialistas curriculares ficam com
pouco mais do que um sen timento de inqu ietação sobre as con sequências prováveis
do vocacionalismo prematuro e uma relutância em parecerem el itistas por defenderem
o currículo baseado em disciplinas - mas sem qualque r alternativa viável. O espaço foi
esvaziado pela t eoria curric ular e a s únicas alternativas sérias à s políticas curriculares
governamentais parecem vir da direita (p. 178).
Young ( 2010) ale rtava para os ef eitos da re forma curricular de 20 03 em Inglaterra ao
caminharem para um currículo por competências e para a redução do número de disciplin as
obrigatórias, pois considerava que se estava a caminhar para que os alunos ficassem com ma is
qualificações, mas sabendo muito pouco.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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A maioria das reformas curriculares q ue se fizeram na I nglaterra, nos últimos anos, t iveram
comummente com o objetivos que mais alunos alc ançassem sucesso na escola, que os alunos
pudess em be neficiar de um maior leque de escolhas e que ficassem melhor preparados em termos de
empregabilidade futura (Young, 2010). Esta análise é bastante relevan te para o presente estudo por
nos permitir estabelecer algun s paralelismos com a nos sa investigação.
O currículo, na cultura educacional port uguesa, está muito mais próximo da administração
central do que das escola s e dos seus at ores (Pach eco, 2002b) e sta caract erística coloca -o numa
posição de destaque perante os q ue a ssumem a responsabilidade de o defi nir. De terminar o conteú do
do currículo, a sua organização e princípios de imple mentação sempre foram responsabilidades do
poder central. Os discursos a favor de uma descentralização curricular têm vindo a ganhar forma e
sentido e é habitual ler-se, em programas do Governo, em manifestos eleitorais, em investigações e
artigos de opinião, que é neces sário responsabilizar os profess ores pela gestão do currícu lo nas
escolas. Doravante assiste-s e, tam bém, e quase em simultâneo, a práticas contrárias, que uniformizam
procedimentos, centralizam decisões e comparam avaliações. Estas dualid ades discordantes de
discurs o s não permitem um consenso em torno do que se espera fazer nas e scolas. Os discursos
caminham em diferentes sentidos e o s mesmos, p or vezes, vêm desprestigiar as práticas que se
desejam dos professores , bem co mo as decisões qu e são t omadas pelo poder cen t ral.
É esta tensão entre a homogeneização cultural, de modo a padronizar os conteúdos d e
aprendizagem, bem como os métodos de ensinar e fo rmas de avaliar, e a diversidade de culturas que
estão presentes nas escolas, que tem marcado profundamente as reformas educacionais que se vivem
em Portugal, como se de alg uma forma fosse possível conjugar a igualdade de op ortunidades c ulturais
com as desigualdades que são produzidas pela l ógica a que a escolarização está sujeita (Pacheco
2005 a ).
Em Portugal, só no final da década de 1980 se assistia às primeiras iniciativas legislativas de
tipo reformista que at ribuíam às escolas algumas pot en cialidades democrát icas (Lima, 2009). A Lei de
Bases do Sistema Educativo (Lei n.º 46/86, de 14 de outubro) consagrava um regime de aut onomia,
embora que e apenas par a o ensino s uperior, no entanto, ensaiava prin cípios de alg uma g estão
democrática das escolas, sendo o Decreto-lei n.º 43/ 89, de 3 de fevereiro, a consagrar o regime de
autonomia das escolas. Lia-se no seu preâmbulo que uma reforma educativa não se podia realizar sem
a ela se associar uma r eorganização da administração educacional, visando inverter a gestão
demasiado centralizada, transferindo alguns poderes d e decisão para as escolas. Pretendia-se alterar o
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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perfil da escola ao nível c ultural, pedagógico, administrativo e financeiro, potenciando a sua capacidad e
de comunicação com a com unidade. Surge tam bém, e pela primeira vez, em reg ime dem ocrático no
nosso país, a referência norma tiva ao projeto educativ o associada à autonomia da escola, como se
pode ler no preâmbulo do Decreto-lei n.º 43/89, de 3 de fevereiro:
A autonomia da escola concretiza-se na elaboração de um projecto educativo
próprio, constituído e executado de forma participada, dentro de princípios de
responsabilização do s vários intervenientes na vida escolar e de adequação a
características e recursos da escola e às solicitações e apoios da comunidade em que
se insere.
Ganhavam sentido e significado a autonomia da escola e a descentralização do sistema
educativo com o traves mestras para a reorganiz ação da educação. Acreditava -se que a
democratização, a igualdade de oportunidades e a j ustiça social seriam alcançad as se à escola fo s se
conferido um conjunto de responsabilidades que se viriam a figurar nas mais diversas dimensões e
funções e scolares. Também a extensão da autonomia aos estabelecimentos de ensino da educação
pré -escolar e do 1.º ciclo do ensino básico viri am a ser palco de preocu pação no normativo que
revogava o regime anterior de autonomia e declarava uma forma mais detalhada de compreender o
modo como a autonomia devia ser uma realidade nas escolas. O Decreto -lei n.º 115-A/98, de 4 de
maio, era então a expressão consag rada da reforma do sistema de ensino, no que à autonomia da
administração e g estão da escola diz respeito. Neste normativo é possível perceber -se que a escola
devia construir a sua a utonomia a partir das potencialidades e problemas do contexto comun itário e,
para isso, podia contar com uma nova atitude da ad minis tração central. Este refor ço de autonomia nas
escolas era justificado, no preâmbulo do normativo, como sendo necess ário para melhorar a g estão
dos recurs o s educativos a partir do seu projeto educativo.
Na senda das distintas governações, e com pouco mais de t rês anos, publicou - se, em 2011, um
novo normativo referente à
Reorganização Curricular d o Ensin o Básico
que ac rescentaria, ao reforço da
autonomia da s escolas, a construção de um Projeto C urricul ar de Escola. Esta nova designação trouxe
diferentes interpretaç ões sobre os instrumentos a elaborar. Na verdade, as escolas ainda não se
tinham confin ado à difusão do seu projeto educativo qu ando foram confronta das por uma nova
designação de projeto que muitas interpretaram como se de um novo instrumento de gestão se
tratasse. Consagra-se, n o desen volvimento da auton omia da escola, a elaboração de um projeto
curricular de escola, sem se perceber q ue art iculação se poderia fazer com o já anunciado projeto
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
104
educativo em normativo anterior, como se pode ler no preâmbulo do Decreto -lei n.º 6/2001, de 18 de
janeiro:
No quadro do des envolvimento da autonomia das escolas estabelece -se que as
estratégias de desenvolvi m ento do currículo nacional, visando adequá -lo ao context o de
cada escola, deverão ser objecto de um projecto curr icular de escola, conce bido,
aprovado e avaliado pelos respectivos órgãos de administração e g estão, o qual dever á
ser desenvolvido, em função do contexto de cada turma, num projecto curricu lar de
turma, concebido, aprovado e avaliado pelo professor titular de turma ou pelo conselho
de turma, consoante os ciclos.
Era referido no Decreto-lei n .º 6/2001, de 18 de janeiro, a forma como este projeto curricular se
poderia vir a in tegrar no projeto edu cativo, pois a referência aos instrumentos neste normativo estava
presen te no s princípios orientadores da organização e gestão curricular (artigo 3.º) na sua alínea g ),
onde se l ia que o reconhecimento da autonomia da escola se faz ia no sentido da defi nição de um
projeto de desenvolvi mento do seu currículo adequado ao seu contexto e integrado no respetivo projeto
educativo e no ponto 2, do art igo 11.º, onde era referid o que competia às escolas, no desenvolvimento
da sua autonomia e no âmbito do seu proj eto educativo, conceber, propor e gerir outras medidas
específicas de diversificação de oferta curricular. Est as designações não e sclareciam, no entanto, o
modo como se distinguiam estes proj etos (se é que se distinguiam) sendo as escolas com o apoio de
al gumas publicações decor rentes a decidir os modos com o passariam a construir estes in strumentos
de gestão e administração da escola.
Esta realidade permite -nos compreender que nem se mpre os normativos simplificam a vida nas
escolas, nem sempre se coa dunam e m práticas con certadas, por vezes também não se sabe se os
proponentes das li nhas orientadoras, que darão corpo e forma a um normativo, conhecem esse
conjun to de leis q ue regulam a vida das escolas, sendo estas, em última instância, a desbravar o
entendimento que desse conjunto de normas resulta.
Em 2008, mais um normativo importante para o estabelecimento da autonomia das escolas era
publicado, o Decreto-lei n.º 75/2008, de 22 de abril, que vigora até hoje com as alterações
introduzidas pelos Decret os-lei n.º 224/2009, de 11 de setembro e 137/2012, de 2 de julho. O
mesmo reforça a autonomi a das escolas, pelo menos em papel, na consagração, da elaboração de um
conjun to de i nstrumentos de gestão e da sua integração. É referido no artigo 9.º que o projeto
educativo constitui um documento objetivo, conciso e rigoroso, tendo em vista a m issão e as metas da
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escola, no quadro da sua autonomia pedagógica, curricular, cultural, administrativa e patrimonial. É
um documento que consagra a orientação educativa do agrup amento de escolas ou da escola não
agrupada, elaborado e aprovado pelos seus órgãos de administração e gestão, para um espaço
temporal de três anos, no qual se explicitam os princípios, os valores, as metas e estratégia s por forma
a se cumprir a função educativa das escolas.
Traduz-se em m atéria legislativa o modo como a autonomia das escolas deve ser praticada e vai -
se à exaustão de como a mesma deve se r implementa da a ponto de alguns autores (Lima, 2011), não
se reverem nessa “gestão democrát ica” centralm ente controlada e direcionada por uma e spécie de
controlo remoto.
A partir de meados da década de 1980, a categoria pol ítico -educat iva conhecida
por ‘gestão democrát ica’ das escolas vai sendo objecto de uma crescente
desvitalização e erosão nos discursos políticos e nos textos normat ivos. Trata -se, do
ponto de vista formal, da fase de produção de um ex tenso
corpus
de diploma s que
regulamentará ao detalh e a vida nas e scolas básicas e secundárias.( .. .) A
democratização do govern o das escolas básicas e secu nd árias, a autonomia e a
participação cidadã da comunidade socioeducativa permanecerão, em boa parte, com
o estat uto de promessas adiadas, quando não de discurso retórico circunscrito a
programas dos governos e a preâmbulos de diplomas legais, mas sem outras
consequências de maior ( L ima, 2011, pp. 65-66).
Se, por um lado, a preocupação em emanar doc u mentos legais se faz sentir pelas política s
educativas nacion a is, por outro, as mes mas parecem ser co ntraproducentes à m aterialização da
autonomia real da s escola s, que mais parece ape nas e só a existir no papel. Foram várias as c ríticas
apontadas (João Barroso, Licínio Lima, Jorge Adelino Costa, Leonor Torres, Carlos Estevão) por esses
normativos não serem capazes de premiar uma gestão autónoma e responsável nas e scolas. Muito se
escreveu sobre a autonomi a das escola s sem se perc eber a e scola como entidade autónoma, que se
questiona, que molda a sua forma de se organizar em fu nção dos desafios a que se coloca, em função
das suas características, idiossin crasias e das suas particularidades contextuais.
A questão da autonomia das escolas co nsegue apo ntar para espaços de interpretação múltiplos:
se por um lado o t ema da autonomia nos remete para uma certa centralidade do desenvolvimento
democrático de u ma instituição escolar, por outro, e num sen tido contraditório, fica ancorada a uma
certa vulgarização da sua utilização como instrumento político promotor de múltiplas reformas
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tenham por objetivo a rentabilização financeira. Est a centra -se no que as pessoas serão capazes d e
produzir e no qu e serão capazes de consumir. A prod ução e o consu mo é a linguagem de mercado
que importa com preender e em torno destes dois eixos a educação deve estar ao seu serviço. O
currículo assume-se assim como um instrumen to m uito poderoso porque ele terá de conter o que é
importante os alunos saberem.
O Estado, ao se deixar arreigar pelos interesses do mercado, pode aumentar o seu produto
interno bruto, mas isso não significa que terá cidadão s mais . É neste contexto que importa perceber o
que Estad o, a partir dos seus G overnos pr etenderam com a educação ao longo destes anos. Embora
os disc ursos dom inantes s ejam os de que a educação persegue um conjunto d e objetivos inseridos
num quadro político-legal democrático e de justiça educativa em que é conferido a todos o direito à
educação e ao sucess o escolar, a verdade é que nem sempre estes princípios foram consagrados e
alcançados em Portugal, havendo também algumas dúvidas se em algum lugar do mundo este
postulado foi sendo alcançado.
Esta realidade conduziu a uma certa produção científica, ac adémica e normativa nem sempre
convergente. E se nos propósitos educativos algumas políticas parecem en unciar a preocupação pe la
aprendizagem, pela qualidad e das apre ndizagens que a escola promove, pel o sucesso de todos o s
alunos q ue freq uentam a escola, a verdade é que, na maioria dos casos, import a perceber o que se se
quer dizer quando se fala de qualidade, ou quando se fala de sucesso escolar.
Estamos distantes de uma real com preens ão do f enómeno ed ucativo quando a taxa de
aprovação dos alunos é significativamente superior à taxa de retenção. Bem como estamos bem
distantes de compreender a qualidade da educação quando um país tem um PI B elevado, a ponto de
poder exercer sobre outro s países um certo d omínio. Na verdade, basta uma pequena elite bem
formada nas áreas cientifico -tecnológicas, alguns eco nomistas sem muitos escrú pulos e u ma mão de
obra com formação mínima para gerar riqueza a um país. E nessa explosão de crescimento económico
acentua-se mais gravemente o declín io da formação humanista, das artes, da educação para a
cidadania e os direitos humanos, pois que a maior intenção da educação é estar ao serviço dos
modelos nos quais as nossas sociedades se organizam e se gerem, is to é, estar ao servi ço dos
mercados, ao serviço do capitalismo.
É obvio que a nova economia está muito associada à capacidade de produzir e proces sar
informações que têm com o finalidade construir um conhecimento que contribua para o alimentar dos
mercados e serviços que possam interessar à população. Tal conhecimento deve es tar constantemente
a ser at ualizado para que a inovação capte o interesse do pú blico para consumir cada vez mais. No
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entanto, este t ipo de econ omia baseada num consumo desenfreado tem vindo a acentuar a
discriminação e a aumen tar a distância entre os que têm mais e os que têm menos ( Sacristán, 2013).
As opções políticas, no qu e à educação diz respeito, têm permitido que esta ass ociação aos
mercados se ramifique no s mais diferentes níveis, desde a mudanç a concetual à estandardização dos
resultados é possível per ceber nos documentos orientadores de organizações transnacionais e
supranacionais a valorização do conhecimento com o recurso económico, tor nando o indivíduo um
consumidor pe rmanente ao longo da vid a (Pacheco, 2018b). Esta conotação, nem sempre
desmascarada e assumida nos documentos legais, a ssume -se nas práticas e nas escolhas políticas de
educação na at ualidade, que não obstante alguns discursos se maneiem num discurso de currículo
mais flexível, a verdade é q ue a estrutura e organização que a e scola fomenta, bem como as práticas
de avaliação que se prom ovem muito dificilmente permitem a construção de outras realidades
educativas.
Continuar com um currículo centrado em conteúdos e e m metodologias pa ssiv as fa z com que os
alunos dificilmente consigam ver outra s possibilidades de co nstrução de conhecimento, ou at é de
valorização de outros conhecimentos que não aqueles que os programas preveem, impossibilitando -os
de exercer os seus poderes cívicos e de realizar leituras críticas sobre o q ue os rodeia, no sentido de
intervir na con strução de um mun do mais democrático, justo e solidário. Neste cont exto, as práticas
educativas acabam por resultar numa espécie de treino e à medida que a educação cai em semel hante
redutivismo a democratização das nossas sociedades é posta em causa. Poucas vezes os sistemas
educacionais foram encara dos sobre um po nto de vi sta mercantilista e utilitarista como na atualidade;
no presente, a s ua n ova missão é preparar a m ão de obr a para aumentar a rentabilidade económica
do capital (Sacristán, 2013).
A es cola e o seu currículo começam a tom ar contornos m ercantilistas e os post os de trabalho
disponíveis ou mai s apetecíveis começam a press ionar a escola para o que importa formar.
Sacristán (2013) considera mesmo que é es sa lente mercantilis ta que explica a debilidade das
ciências sociais, das humanidades e das art es, fre nte a algumas ciências experimentais, como
engenharias e m atemáticas que, atualmente, estão em primeiro plano, qu er no diagnóstico, quanto na
sugestão de alternativas, da elaboração de programas educacionais e do destino dos recursos
económicos disponíveis. Outro aspeto que o autor também aponta é o de que não se costuma ofe recer
aos alunos i nformações rel evantes que contribuam para o desenvolvimento de um pensamento crítico,
valores e atitudes solidárias e democrát icas. A forma como o conhecimento se organiza na escola, por
disciplinas, dificulta a visão das dimensões políticas, so ciais da atualidade, dando se destaq ue claro às
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ciências experimentais e à matemática, pois elas estão normalmente associadas a realidades de
progresso, de desenvol vimento económico e, consequentemente, de riqueza.
Na procura da con strução de um conhecimento neutro, idóneo, as ciências exp erimentais e a
matemática são vis tas como aquelas que cumprem esse pressuposto por se enquadrarem nas
pesquisas positivistas o que não acontece com as humanidades e as artes que raramente se
enquadram nessas pesquisas. C ontudo, as artes e as humanidades aj udam-nos a problematizar o
momento presen te, ajudam na construção de cidadãos e não de consumidores, permitem -nos explicar
a origem do atual estado das coisas, bem como muda r aquilo que não gostamos no nosso mundo
(Sacristán, 2013).
É nas disciplinas sócio h istóricas, art ísticas e h umanas que os alunos têm maior
probabilidade de perceber e analisar criticam ente os assuntos relacio nados com os
tradicionais modelos de exploração centrados na classe social, no sexo, na raça, na
sexualidade, na religião, no ter ritório, etc. Assim, é na h ora de trabalhar conteúdos
dessas áreas de conhecimento que se realiza uma educação das dimensões afetivas e
sociais. Algo muito necessário na atualidade, quando mais se ac usa a juventude de
não ter valores, de não saber se relacionar, ne m respeitar seus pais, mães,
profess o res e, em geral qualquer pessoa adulta que desempenhe cargos de
responsabilidade (Sacris tán, 2013, p. 82).
Pacheco (2018 b, p. 71) considera q ue há pelo menos duas formas de g overnamentalidade
curricular, com sig nificativo impacto e efeitos na apre ndizagem, no cu rrículo e no trabalho docente:
uma é a globalização que arrasta consigo estratégias de política e de funcionamento das escolas,
nomeadamente ao nível do conhecimento, da avaliação e da aprendizagem; outra é o neoliberalismo
como ideologia prestativa a dispositivos de mercado aplicados à educação, introduzindo nesta uma
linguagem de meritocracia e de competitividade, como é o “caso das abord agens centradas em
resultados e em
standards
, que derivam, por sua vez, de uma abordagem curricular regulada pelos
testes, com ênfase n a aquis ição de standards básicos em literacia e numeracia”.
Talvez estas realidades e estas conotaç ões nos permitam perceber que a escola não oper a no
vazio, não atua numa sociedad e oca d e conteúdo e, se este nem sempre corresponde ao desejado
devemos ser capazes de compreender o modo como esse conteúdo é capaz de correspon der à
construção de um mundo melhor, mais justo, mais s olidário e mais equitativo e a nós parece -no s que
só o currículo, como forma de conhecimento, a ens inar e a apre nder, é capa z de alcançar esse
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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desígnio. É t ambém na esteira desta realidade que co nsider amos re levante a for ma como o currículo
tem sido in terpret ado pelos professores e como tem sido legitimado nas escolas . Sendo cert o que o
trabalho do professor se legit ima pelo conhecimento que se espera fazer pas sar às gerações mais
jovens, é talvez neste quadro que o currículo é também ele próprio responsável pela construção e
desenvolvimento das iden ti dades profission a is dos professores.
3.4. O currículo na c onstrução das ide ntidades soc iais e profissionais dos
professores
Não é de estranhar que após tantas refo rmas a q ue te mos assistido nas últimas décadas sejam
também crescentes as opin iões e os estudos a darem -nos conta da forma como as mudanças devem
ocorrer, bem como o impacto que as mesmas devem ter nas práticas dos profes sores e,
consequentemente, na aprendizagem dos alunos. Neste contexto de contributos, qu e nos dão conta da
forma como as reformas devem ser pe nsadas, fundamentadas, planeadas e implementadas,
percebemos que não t êm sido muito profícuos os re sultados, pois que estes n ão são satisfatórios e
quase de forma contínua e sistemát ica assis timos a discursos políticos que incluem, nos seus
propósitos e nas suas agendas, as reformas educativas.
Não falt am teorias, explicaç ões, estudos a con firmar o s fracassos da s reformas e mudanças, j á
que uma reforma press upõ e sempre um conjunto de mudanças a instaurar. Assim, questionam -se as
razões pelas quais sucessivas reformas não têm alcançado os seus propósitos, as suas finalidades.
Ao nos debruçarmos sobre alguns estudos que tiveram por objetivo com preender as
consequências das reformas e das m udanças políticas que se quiseram implement ar, percebemos que
são vários a darem-nos conta das limita ções e/ou dos constrangimentos que essas reformas
passaram. Ora, se essas co nclusões se podem ler em diferentes e studos é importante pensarmos q ue
nem tudo permanece inalterado e que as escolas e os professores h oje não são ex at amente iguais aos
de décadas passadas e, port anto, algo evoluiu, m udou na realidade. Se essas m udanças estão, ou
não, de acordo com os princípios pelos quais foram pensadas, p rogramadas, proj etadas isso já é uma
outra questão, mas que alguma coisa de difer ente se en contra na e scola, isso também é uma
evidência. A preocupação aqui é perceber que muda nça é essa que sentem os professores sobre as
reformas e com o as inter pretam nas suas práticas? Se esta questão faz sentido, no trabalho que
pretendemos desenvolver, t ambém fará sentido compreender em que medida as interpretações dos
profess o res podem apoiar as mudanças que se esperam fazer sentir nas es cola s.
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As investigações revelaram -nos, ao longo do tempo, qu e as m udanças
top-down
, as mudanças
decretadas e impostas ce ntralmente não resultaram. Mais recentemente também as investigações
(Sacristán, 1993, 2008, 2013; Pedró & Pu ig, 1998; Sebarroja, 2001; Benavente, 1999, 2001;
Barroso, 2004; Bolívar, 2007; Goodson, 2007, 20 08, 2 015; Torres, 2008, 2011; Lima, 2011;
Pacheco, 2005c, 2018) tê m revelado que as mudanças que t êm como princípio a autonomização e a
descentralização, em g eral, também não têm sido capazes de contribuir para a melhoria do sis tema
educativo. O tempo das grandes re formas, como refere Benavente (2001), já pa ssou, sendo vário s o s
discurs o s i novadores a alhearem -se de pronunciar n a definição das suas políticas educativas o termo
reforma. Ora, neste s entido parece que estamos a nec essitar de um “novo paradi gma de política e d e
trabalho inovador com as escolas” (Bolívar, 2007, p. 34) q ue permita, de forma equilibrada, q ue a
política educativa crie mecanismos conducentes à criaç ão de estratégias inovadoras das escolas e
vice-
versa
. Porque não basta legislar para mudar a escola (B enavente, 2001) é impo rtante perceber que
qualquer muda nça passa por envolver os at ores educativos que estão nas instituições escolares e qu e
nelas trabalham.
Se uma reforma foi um imperativo político dos s ucessivos Governos constitucionais, ela sempr e
te ve um forte impacto nos atores que lhe dã o corpo. E embora reconheçamos que são os profe ssores
os grandes decisores do sucesso escolar, o Estado t em responsabilidades crucia is na implementação
de m edidas inovadoras e efetivas nas escolas, se ja at ravés da garantia de co ndições mat eriais e
organizativas para uma efetiva igualdade de oportunidades, seja at ravés do estímu lo à aut onomia das
escolas e divulgação das boas práticas (Benavente, 2001).
Se as políticas linea res e burocráticas estão já de sacreditadas p ela evidência demonstrada por
várias investigações e pelas próprias práticas, isto não significa que a política educativa deixe de t er um
papel importante a de sempenhar, dado que “não é menos política o que se precisa, senão mais e
melhor política” (Bolíva r, 2007, p. 20). Uma política que perceba que nenhuma mudança se faz
sozinha, m as com o corpo de professores que na escola trabalh am e que são respons áveis pela s
práticas curriculares que atenuam as des igualdades e as assimetrias sociais.
Hargreaves ( 2003) tem con tribuído, com os seus estudos, para a compree nsão da relação entre
o papel do profess or e o pa pel do Estado na definição da política educativa. Ele chama a at enção para
o que as prioridades de política educativa podem fazer pela sociedade do conheci mento, bem com o o
papel do profe ssor nessa sociedade e alerta para as consequências reais de u m país assumir uma
educação pública de baixo custo. O pr óprio afirma que ,
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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se nos resignarmos à ideia de que a educação pública não conseguirá ser mais
do que um sistema de baixo custo, mantido por docentes com pouca qualificação, m al
pagos e sobrecarregados de trabalho, cuja função é m anter a ordem, ensinar para os
testes e seguir g uiões curri culares estandardizados, então nas pr óximas três décadas
os profe ssores não serão capazes de en sinar para a sociedade do conhecimento ou
para o mundo que existe para além dela, nem se empenharão nesse projecto (pp.14 -
15).
Os vário s discursos em torno da importância do papel do profess or na con strução da sociedade
do conhecimento exortam os professores a ocupar um dos lugares mais respeitados dessa sociedade,
esperando-se deles o empenhamento necessário para a construção de uma sociedade mais justa, mais
igualitária e mais democrática. E se por um lado se e spera que con tribuam, c omo re fere Hargreaves
(2003), para uma melhor ia dessa sociedade, por outro, também se espera que minimizem os
inúmeros problemas que a sociedade do conh ecimento gera. A esta quase dupla função do prof essor,
em torno de finalidades aparentemente contraditór ias, o autor chama d e “paradox o profissional”.
Mas se aos profes sores e aos diversos protag onistas educat ivos são at ribuídos importantes
papéis isso não dimi nui o papel dos Governos, a ntes o briga a uma reformu lação das responsabilidades
e das interven çõe s nas políticas lucidamente assumidas e continu adas (Benaven te , 2001).
Bolívar (2 007), na sua notável análise sobre a reconceptualização da “escola com o lugar d e
mudança”,
considera que as tarefas de colaboraçã o e trabalh o conjunto dos professores devem ter
como foco primordial, nas atividades de senvolvidas na sala de a ula, a melh oria dos níveis de
aprendizagem dos alunos, bem com o os processos de ensino dos p rofessores. Considera também
necess ár io o apoio ext erno à criação de condições pa ra que as escolas d esenvolvam internamente a
capacidade de mudança, com o é óbvio com alguma pressão para a melhorar nos m ais diferentes
níveis. Considera, ainda, que qualquer mudança só será efetiva se conseguir co mprometer as escolas
e os professores, mas para que isto seja possível, é necessário repensar o desenvolvimento profissional
dos docentes. Um dos meios que o autor considera mais enriquecedor é o trabalho colegial do
conjun to dos professores, pois será a partir da col aboração que os docentes m ais aprendem e,
consequentemente, mais evoluem no seu des envolvimento profissional.
Benavente (2001) considera que não é possível t ransformar a escola e os seus resultados sem
que a orga nização pe dagógica se altere, sem que a e scola se torn e ‘uma organi zação que apren de’,
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sem a constituição de equipas e de projetos ed ucativos, sem i nterrogar os tempos escolares, sem
inovar no domínio da gestão curricular e das pedagogias.
Num contexto de incertezas, de mudanças cada vez mais aceleradas, as reformas externas, para
terem alg um impacto, precisam de se dirigir e potenciar a capacidade interna das escolas de as levar a
cabo, confiando que só de sta forma se conseguem melh orar as aprendizagens dos alunos (Bolívar,
2007).
Bolívar (2007) adverte q ue as mudanças externas, as mudanças plan eadas para serem
executadas pelas escolas têm fracassado. Se numa “primeira vaga”, as refor mas recentralizadas
mediante estratégias
top-down
não foram bem - sucedidas, esse fracasso origi nou uma “segunda vaga”
reestruturan do a s reformas para a delegação da m elhoria e da qualidade para a s escolas e para os
profess o res. At ualmente, refere, e stamos numa “t erceira vag a” em que o foco se coloca na
aprendizagem dos aluno s e no rendimento da escola . O autor faz um retrato interessante sobre as
mudanças, passando a m e nsagem de que “é preferível ir g erando localmente pequenas e enraizadas
mudanças, in ovações didáct icas ao nível da aula” (p p.1 6 - 17).
Deste modo, o autor acredit a que nenhuma mudança pode compromet er as expectat ivas, ou as
emoções que os professor es têm so bre a melhoria da educação. As reformas não se podem fazer
contra os professores. A
dimensão pessoal da m udança
(Bolívar, 2007) surge no contexto da pós -
modernidade como um imperativo a ter em conta nos programas que vi sam uma mudança efetiva e a
melhoria das aprendizagens de um nú mero cada vez maior de crianças.
Como refere B olívar (2007 ), não é suficiente a bondade de uma política educativa.
Paralelamente, é preciso perguntar -se como é que a mesma incide nas identidades profission ais.
Como pode a política educativa det erminar mudanças nas práticas dos professores? Est a é talvez uma
das questões que m ais tem preocupado a i nvestigação que contribui para o estud o desta relação. E se
os estudos são vários, as respostas e as conclusões não são tantas as sim; mas a este propósito é
possível percebermos que as incidências das conclusões reportam -nos para prát icas colaborativas e
cooperativas dos professores, para pr áticas de autoavaliação continuadas e partilhadas, para o
estabelecimento de parcerias com os pais/encarregados de educação e com a comunidade local, para
lideranças fortes ao nível d a g estão das escolas ou para o desempen ho profi ssi onal dos pr ofessores
com competências de reflexão e meta-reflexão, por se entender o currículo como alg o aberto e flexível e
que precisa de ser ape rfeiçoado de acordo com os context os em que vai ser aplicado. Portanto,
poderíamos estar aqui a el encar de fact o um co njunto de pressupostos , que as investigações mais
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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recentes nos dão como certas para que a melhoria das aprendiza gens dos alunos seja uma realidade,
no entanto, parece-no s evidente que os p roblemas c ontinuam a existir e a persistir, canalizando -nos
alguma investigação para as utopias n o e nsino.
Hargreaves (2003), ao se r eferir aos aspetos que pod erão melhorar o desem penho profissional
do professor, de staca a i mportância de este apre nder e se desenvolver c omo profissional em
comunidade, em grupo, em colegialidade, em equipa, com outros professores. Não descura também a
participação dos pais na vi da escolar, cons iderand o- o s como parte integrante de “uma rede alargada
de aprendizagem da escola e dos professores” (p.49). N esta perspetiva, cons idera, a partir das
referên cia s de C oleman, que a inteligência emocional acrescenta valor à inteligência cognitiva, pois que
as compet ências emociona is melhoram significativamente o desempenho profis sional e a s relações
pessoais.
Para Hargreaves (2003), os profe ssores devem ser capazes de construir um novo
profissionalismo para a sociedade, que ele designa c omo a sociedade do conheci mento, e para que
essa cons tr ução da profissionalidade ocorra tem de abraçar várias e dif erentes co mponentes, a saber :
Promover uma ap rendizagem cog nitiva aprofundada; A prender a e nsinar de
forma diferen te da que foram ensinados; Empenhar -se numa aprendizagem
profissional contínua; Trabalhar e aprender em equi pas colegiais; Tratar os p ais
como parceiros na apr endizagem; Desenvolver a i nteligência colectiva e ba sear -se
nela; Construir a capacidade de mudança e de risco; Estimular a confiança nos
processos (p.45).
Referido deste modo , parece que a solução é simples e apenas é necessário colocar os
profess o res a trabalhar, a adaptar -se, a colaborar, a construir novas práticas que lhes permitam
alcançar melhores resultados. Ma s a solução não é fá cil. Não se pret ende tecer uma crítica a todos os
discurs o s que apontam soluções, porque também este trabalho pretende fazê -lo, de algum modo, para
contribuir para a melhoria dos resultados q ue as escolas apresentam , no que à aprendizagem dos
alunos diz respeito.
O próprio Hargreaves (2003) considera que os pressupostos enunciados necessitam de novas
abordagens de ensino e qu e o mesmo não se pode al hear de um conjunto de princípios que passam
pelo: i) en fatizar as competências de pensar/refletir d e ordem elevada; i i) abo rda r a apre ndizagem no
entendimento construtivista mesmo na perspetiva meta -reflexiva; iii) apre nder o conhecimento científico
sobre o cérebro; iv) definir estratégias de aprendizagem cooperativa; iv) utilizar um leque variado de
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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técnicas de avaliação; v) us ar tecnologias de informaç ão que permitam aos alunos realizar o seu
trabalho de forma autónoma.
Ainda a propósito de Hargreaves (2003) é possível perceber que ele faz um a referên cia a
Hopkins e embora o desc redibilize , não deixa de explicar o seu pensame nto de forma det alhada.
Assim, diz-nos que es te autor des creve t rês tipos de estrat égias para alcançar o sucesso das escolas
fracassadas/ineficazes , das escolas com baixo dese mpenho, bem como a manutenção das escolas
boas/eficazes.
Para as escolas fracassa das se t ornarem moderadamente eficazes, Hopkins propõe as
estratégias que de signa d e
tipo I
. Diz-no s que estas instituições fracassadas necessitam de níveis
elevados de interven ção e de um apoio alargad o e, normalmente, de uma nova liderança. As
estratégias concentram-se num conjunto muito vasto de questões orga nizacionais como os cód igos de
vestuário, a assiduidade, o comportamento dos alunos e a aparência da escola. Elas também foca lizam
a construção da competência e da confiança dos professores, aj udand o-os a desenvolverem u m
repertório limitado, embora específico, de es tratégias d e ensino eficazes.
As estratégias de
tipo II
ajudam as escola s moderad amente eficazes a tornarem -se eficazes.
Segundo Hopkins, estas ins tituições precisam de desenvol ver a cap acidade dos seus profe ssores e de
outros atores para fazerem progressos em áreas específicas do ensino e da aprendizagem. Pode -se
conseguir m uita coisa co m a liderança que já exist e e com os próprios recursos da escola, m as,
normalmente, é necessária algum a ajuda externa. Nestas escolas, as questões prioritárias são
prolongar a duração das aulas, g erar uma maior criatividade pedagóg ica, alargar o âmbito da liderança
realizada pelos docentes, escutar os alunos e as suas preocupações, motivar os professores
desiludidos e permanecer c entrados nos v alores e nos objetivos.
As estratégias de
tipo III
procuram assegurar q ue a s boa s escolas permaneçam eficazes. O
apoio externo é menos necessário, dado q ue e stas organizações são capaz es de criar e de manter as
suas próp rias re de s. As pa rcerias externas e a exposição a novas ideias e práticas mantêm a es cola
estimulada. O mesmo efeito é obtido com a realização de esforços contínuos para elevar as
expectativas relativas ao sucesso para concretizar mudanças estruturais d estinadas a melh orar a
colaboração e para dedicar tempo à celebração dos sucessos.
Hargreaves (2003) é crítico em relação à obra de Hopkins pelo facto de acreditar que as
reformas estandardizadas, rigorosamente medidas e especificadas enfraquecem a capacid ade de os
profess o res e nsinarem par a a sociedade do conhecimento. Quanto mais se legisla, quanto mais se
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
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determina o que fazer, com o fazer, mais as escolas ficam reféns do que se espera que aconteça,
retirando-lhes es sa capacidade de se pensarem a si própr ias como escolas que aprendem ao
experimentarem.
Também no nosso país se legislou em demasia a profiss ão de professor. Os documentos legais,
normativos e orientadores f oram crescendo, sendo hoje uma profissão muito codificada, controlada por
pressupostos, por recomenda ções, por p rogramações a diferentes níveis, que de alguma forma retiram
a liberdade do professor de pensar e de se r einventar na profissão. Os manuais são provas vivas de sta
realidade. A abertura e a análise de um manual, instrumento m uito pre sente nas rotinas do s
profess o res, pe rmite-nos concluir o qu a nto a planificação anual de uma disciplina pode ser capaz de
concretizar ao pormenor as ses sões de aula que ocorre m semanalmente.
Mas não é apenas a normatividade que retira do trabalho do profes sor a liberdade de se
reinventar na profiss ão, h á tam bém uma outra tem poralidade, nas funções d um professor ao se
deparar com a diversidad e de informações di sponíveis (Streck, 2009). E sta consciência de que o
conhecimento está em todo o lado faz com que as es colas e os seus profissionais se coloquem numa
outra posição, numa posição em que a perda da legitimidade da sua função, como veiculadores de
conhecimento, pode ser le gitimada. Há por is so uma outra temporalidade na profiss ão do professor,
uma temporalidade que precis a de ser compreendida em dimensões do que pode ser a educação e de
que modo a mesma pode ser in terpretada nestes novos context os.
Streck (2009 ) traz à anál ise, nas que stões da educação, a dimensão do sonhar. O autor acredita
que parte dos probl emas em edu cação t em a ver co m a perda da capacidade de sonhar da s nossas
escolas. O medo e a inse gurança vão inibindo as pessoas de idealizar. O fato de existir uma outra
temporalidade, onde a disponibili dade da informação está em todo o lado, as funçõ es do professor vão-
se proliferando, havendo a necessidade. por part e deste , de conhecer a realidade económica, social e
cultural na qual se realiza a prática educativa.
A qualidade de ensino depende em grande medida do cruzamento de vários fatores ,
nomeadamente do desenvolvimento curricular, do desenvolvimento organizacional e do
desenvolvimento profi ssional dos docentes (Be navente, 1999, 2001). E ste desenvolvimento
profissional, que se constrói ao nível da formação inicial e contínua, em m uito contribu i p ara o bom
desempenho profissional, mas este será tão mais capaz de se manter qua nto melhores forem a s
condições organizacionais que o su porta m.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
128
115/A-98, de 4 de maio decretava o regime de autonomia da administração e gestão dos
estabelecimentos escolares , autonomia essa considerada com o condição es sencial para uma gestão
curricular de escola, na m edida em que só a autonomia permite às escolas trilhar cam inhos próprios e
contextualizados em função das suas necessidades e i nt eress es diferenciados.
Em 1997, o Despacho n.º 4848/97, de 30 de julho da SE EI, veio viabilizar a prossecução de
Projetos de Gestão Curricular Flexível em escolas qu e o pretendess em, estabelecendo o quadro em
que os mesmos deveriam desenvolver-se, t endo s ido revogado pelo Despacho n.º 9590/99, de 14 de
maio, no sentido de atualizar os princípios que regula mentavam e orientavam os projetos experienciais
das escolas no âm bito do já referido
Projeto de Gestão Flexível do Currículo
, desde o ano letivo de
1997/1998 até 2000/2001
11
.
De acordo com os princípios do Decreto -lei n.º 6/2001, de 18 de janeiro foi lançado, em 2001,
pelo Ministério da Educação, o documento:
Currículo Nacional do Ensino B ásico
que definiu o conjun to
de com petências consideradas essenciais e es truturan tes para cada um dos ciclos do ensino bás ico;
definiu - se também o perfil de competências, bem como o t ipo de experiên cias ed ucativas, que deviam
ser proporcionadas a t odos os alunos des te nível de ensino. Foi um documento de referência para o
trabalho de con strução e des envolvimento dos projetos curricul ares de escol a e de turma, uma
referên cia central pa ra a c onstrução de uma nova c ultura de cur rículo e prática s mais autónomas e
flexíveis de gestão curricular, um instrumento essen cia l neste processo de inovação que se iniciou em
1996.
O
Documento Orientador das Políticas para Ensino B ásico:
Educação, Integração e Cidada nia
(M inistério da Educaçã o, 1998) considerava que as mudanças na educação básica só seriam
realmente significativas se operadas segundo perspetivas integradas e consisten t es que articulas sem
as aprendizagens, o currículo e a avaliação, as práticas docentes e os modos de organização e
funcionamento das escolas. A o contrário do que s e podia pe nsar, sobre as m udanças que a
Reorganização Curricular do Ensino Básico
trouxe, a verdade é que neste processo não houve alteração
de objetivos, de program as , não h ouve m udanças de fundo no regime de avaliação e no desenho
curricular. Operaram-se somente regulações pontuais com a introdução de n o vas áreas curriculares
não disciplinares com o o
Estudo Acompanhado
, a
Área do Pr ojeto
e a
Educação para a Cidada nia
, a
11
Dep ois do Dec reto- Lei n.º 6/2001 de 18 de janeir o, só s e consi deram no âmbito d o Projeto de Ge stão Flexíve l do
Currículo, as es colas do 3.º ciclo do ensino básico que entraram mais ta rde neste processo.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
129
obrigatoriedade da segunda língua estrangeira no 3.º ciclo do ensino básico e a rac ionalização da carga
horária dos alunos.
A organização curricular devia, segundo este documen to do Departam ento de Educação Básica,
obedecer a alguns princípios de forma a garantir uma efetiva congruência no percurso da escolaridade
para assim se alcançarem as orientações expre ssas pelo
Documento Orientador das Políticas para o
Ensin o Básico,
do Ministério da Educa ção (1998, p.18), que eram as seguintes:
1. Desenvolvimento de um eixo curricular com um que valorize as aquisições
fundamentais, integrando ad equadamente as com ponentes di sciplinares com as
componentes extra e transdis ciplinares;
2. Valorização do trabalho de projeto, quer no que diz respeito à educação
tecnológica, quer quanto à educação cívica, com c onsagração de tempos curriculares
no horário semanal dos alunos;
3. Redução e racionalização da ca rga horária letiva s emanal dos alu nos, com
reforço do desenvolvimento de atividades desportivas, culturais e de estudo;
4. Flexibilização cu rricular e da organização pedag ógica no sentido da
adequação do t rabalho à diver sidade dos context os e, simultaneamente, da promoção
de um ensino de melhor qualidade para todos;
5. Reforço da autonomia das escolas na elaboração, gestão e avaliação de
componentes region ai s e locais do currículo.
Com o enunciar de todas e stas linhas de m udança percebeu -se q ue as funções da escola básica
se distanciavam bastante daquilo que ai nda s e ass iste nas práticas curriculares do ensino básico.
Deste modo, considerava-se que a escola teria de tom ar, neste processo, um pap el mais ce ntral já que
a ela incumbia o papel da efetivação deste projeto. A escola não podia traduzir - se numa mera adição
de disciplinas, e la precisava de se a ssumir como um espaço privilegiado de educação para a cidadania
para todos os alunos que a frequentavam e de integrar, articular, adequar, na sua oferta curricular
experiências de ap rendizagem diversificadas e significat ivas para os alunos (M inistério da Educação,
2001).
Neste processo foi sendo corroborada a perspetiva de m udança da própria conceção de
currículo, c ujo conceito se mpre esteve muito ligado à ideia de programa, de roteiro de conteúdos, de
atividades letivas. Também podemos afirmar que, at é aqui, não tinha h avido a preocupação em termos
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
130
oficias, ou oficioso s, de esclarecer o que se entendia p or currículo, do ponto de vista da adminis tração,
aparecendo pela primeira vez definido este conceito em documento legis lativo, na h istória do nosso
sistema educativo, no Decreto-lei n.º 6/2001, de 18 de janeiro como se cita no capítulo 1, artigo 2.º:
Entende-se po r cu rrículo nacional o co njunto de apren dizagens e competências
a desenvolver pelos al unos ao longo do Ensino B ásico, de acordo com os objetivos
consagrados na Lei de Bases do Sistema Educat ivo para este nível de ensino, expresso
em orientações aprovadas pelo Ministério da Educação.
Este conceito de currículo articulava -se com todo s os documentos e m udanças que se
esperavam fazer sentir nas escolas. O currículo não de via continuar a ser as sumido com o o programa
de determinada disciplina, m as com o um corpo de aprendizagens que se pretendia promover a todo s
os alunos que frequentavam a escola.
A
Reorganização Curricular do Ensino B ásico
não prete ndeu ser uma reforma, ma s um p rocesso
de mudança g radual nas prát icas e cultu ras das escolas dos t rês ciclo s do e nsino básico, de modo a
proporcionar a todo s os alunos uma escolaridade básica única, mas não u niforme. O qu e sig nificava
que cada escola podia, dentro do currículo nuclear, organizar e g erir autonomamente todo o processo
de ensin o-aprendizag em, de forma a adequar- se às especificidades diferenciadas de cada contexto
escolar. Numa palavra, pode dizer-se que o propósito essen cial fo i o de criar melhores condições para
se concretizar uma formação de base para todos com qualidade das aprendizagens (M inistério da
Educação, 1999; 2000; 2001).
Este projeto procurou, fundam entalmente, desfazer conceções que foram sendo ultrap assadas
com os avanços e mudanças sociais e tecnológicas, permitindo aos professores refazerem as suas
ideias, as suas práticas repet itivas, rotinas e trabalho in dividual, contribuindo, par a o sucesso educativo
do aluno (Varela de Freitas, 2001).
Foi neste cont exto de autonomia, de flexibilidade, de re sponsabilidade q ue foram equacionadas
as mudanças que o
Reorganização C urricu lar do Ens ino Básico
anun ciava. Acreditava -se na
importância de todas estas dimensões com o fulcrais para o desenvolvimento do sucesso das
aprendizagens dos alunos. Mas uma escola rendida a uma cultura do passado, que a confinou a
práticas curriculares repetiti vas, de uma tradição centrada no ensino e na i nstrução passiva, ou q uase
passiva do s alu nos, ar reigada a programas elaborados a nível central e a manuais e scolares
minuciosamen te elaborados , para permitir aos professores a sua qua se substituição, não se
mostraram como indicadores favoráveis às alterações que se f aziam anunciar.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
131
4.2. A
Reorganização Curricular do Ensino Básico
sob o olhar das críticas
construídas
Embora tenhamos presen te o que Ball ( 2006) refere sobre a importância de as pesquisas e m
políticas de educação não se centrarem num tempo e specífico, é também importante esclarecer que,
embora possamos analisar os programas de Governo q ue se sucederam à revol ução de abril de 1974,
vamos at ribuir uma especial atenção aos programas do XIII e XIV Govern os constitucionais em virtude
do que foi já justificado na apresentação do estudo. No entanto, estam os conscientes que não são
apenas a s m edidas de stes Governos específicos que poderão ter co ntribuído para as prát icas das
escolas e dos pr o fessores do ensino básico no que ao currículo e à sua gestão diz respeito.
A anális e ao programa do XIII Governo constitucional centrar- se -á nos p rincípios e medidas
previstas para a educação, t endo por base de comparação as propo stas, as refor mas, as mudanças e
as melhorias avançadas e confirmadas pelos programas de Governo que prec ederam o XIII e XIV
Governos constitucionais, bem como as análises, as investigações, os relatórios respeitantes ao período
em causa.
As mudanças que ca racterizaram vários países na déc ada de 1990, como é o caso da Finlân dia,
Noruega, I rlanda, R eino Unido, Portugal, entre outros, tiveram como preocupação dar uma r e sposta
mais adequada à diversidade dos público s escolare s at ravés de processos de autonomização das
escolas, de flexibilização e de clarifi cação do currículo escolar por competências (Roldão et al., 2006).
Teodoro e Aníbal (2007) referem-se ao período de governação de António Guterres , como um
tempo que pretendeu dem arcar-se de g overnações anteriores ao proporem um a reforma educativa
susten tada pela discussão e diálogo, muito distinta das reformas
top-down
no sentido de alcançar um
“consenso nacional com o o campo privilegiado na educação e enfatizar a participação como
fundamento da democratização” (p. 21). É neste período que os autores consideram que o hibridismo
da política educativa surge mais patente: se, por u m lado, evidenciaram -se preocupações com a
igualdade de oport unidades e a inclusão, de que são exem plo, as medidas tomadas na criação de
Territórios Educat ivos de Intervenção P rioritária
e na criação de
Currículos Alt ernativos
, por outro,
considerou - se que o cu rrículo baseado em competências s ubme te a utilidade da educação à
produtividade económica, isto é, às exigências de mercado.
Se reduzido a essa função de art iculação da educ ação com o mundo do
trabalho, o currículo baseado em competências, apresentado na sua génese es colar
como participante de um modelo construtivista pr omotor de uma aprendizagem
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
132
reflexiva e emancipatória, transfigura-se num modelo regulatório, vocacionado pa ra a
especialização e controle de resu ltados (Teodoro & Aníbal, 2007, p. 22).
A “vertente construtivista”, como Teodoro e A níbal (2007) caracterizam a gover nação socialista
de A ntónio Guterres, fundamenta a n ossa análise pa ra a compreensão de programas, de relatórios, de
documentos de trabalh o, de normativos e de t antos outros textos e trabalhos que se produziram no
período em causa, que pela sua temática e objetivos, são aqui considerados com o relevantes para a
análise que se pretende realizar.
Roldão et al. (2006 , p. 69 ), ao se referirem ao
Parecer sobre o Projeto de Ges tão Flexível do
Currículo
, dão conta que “este t exto não se constituiu como um parecer externo de especialis tas, m as
antes como um olh ar analít ico e crít ico sobre um proc esso de inovação curricular com implicações na
decisão curricular e na organização do trabalho docente nas escolas”. Os autores t ecem elogios a este
trabalho que permitiu uma análise crítica às políticas c urriculares que orient aram o
Projeto de Gestão
Flexível do Currículo
.
É possível percebermos que o impacto imediato do inicial
Projeto de Gestão Flexív el do Currículo
e posterior
Reorganização Curricular do Ensino Básico
não foi muito positivo e terá ficado aquém do
esperado ou de sejável, sendo possível concluir, com as investigações realizadas, ness e período, q ue a s
escolas es tão comprometidas com três lógicas, ou m odelos, que se e ntrecruzam e qu e se traduzem
em práticas curriculares híbridas:
a) a lógica academicista - cen trada nos conteúdos e professor;
b) a lógica tecnicista - centrada nos objetivos e nos resultados predefinidos e
atomizados dos alunos;
c) a lógica social construtivista - centrada nas com petências a desenvolver pelo s
alunos através de experiências de aprendizagem integradoras e mobilizadoras de
saberes em si tuação (Roldã o et al., 2006, p. 74).
A confirmação de que a
Reorganização Curricular do Ensino Básico
não alca nçou os se us
propósitos é anunciada por vários investigadores (Pacheco, 2006b, 2006c ; Teodoro, 2003b; Teodoro &
Aníbal, 2007; Roldão, 2005; Roldão et al., 2006; Fernandes, 2011), nomeadamente por especialistas
que fizeram parte integrante deste processo de muda nça (Roldão et al., 2006). De entre os fatores
desfavoráveis ou condicionantes deste processo de mudança destacam-se os seguintes:
(a) a falta de consistência, clareza e continuidade nas políticas educativas e
curriculares; (b) o modo de orga nização da es cola e do trabalho docen te,
especialmente o conflito entre as normas que regulam a organi zação escolar pautadas
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
133
pela rigidez e uniformismo e as propostas curriculares e pedagógicas da RC que se
assumem como abertas, flexíveis e diferenciadas; (c) as dificuldades na construç ão de
uma cultura curricular e profissional, baseada na colaboração e c onstrução conjunta e
reflexiva de conhecimento; (d) a ausência generalizada de uma cultura de avaliação
enquanto estrat égia de regulação do t rabalho docente, bem como a falta de
dispositivos de avaliação interna e externa da própria R eorganização Curricula r (Roldão
et al., 2006, p.75)
Mas, se por u m lado, alg uns investigadores defendem que a revis ão curricul ar permitiu a
alteração de práticas pontuais dos professores, ce ntrando -se estas numa organização e gestão
curricular e na co nstrução de projetos curric ulares contextualizados, por outro lado, outros
inves tigadores, defendem que esta revisão curricula r não foi mais do que o prolongamento da
pedagogia por objetivos pela mais corretamente apelidada pedag ogia por competências (Pacheco,
2006 a). É possível percebe rmos, pela análi se a trabalhos (Pacheco, 20 06a; Teodoro & Aníbal, 2007;
Roldão, 20 05; Roldão et al., 2006; Fernandes, 2011) que ten taram compreender o impacto de
determinadas reformas nas práticas dos professores, que esta revisão curricular não tev e os efeitos
desejados. Mas talvez nenhuma reforma no imediato tenha alcançado críticas positivas sob os ef eitos
que sempre se desej am.
Ora, estas dua s perspetiv as sobre a mesma muda nça levam -nos a co nsiderá -las de forma
respeitosa, mas também de forma in stigante para a co mpreensão mais profunda dos fundamentos que
as sustentam. Os que são favoráveis à reorganização cu rricular defen dem -na pelo facto de esta ir ao
encontro de práticas de gestão curricular que há muito as investigações dão conta e que se cen tram na
importância da colaboração e cooperação dos professores, na existência de um currículo nacional
flexível, em parte definido a nív el cen tral e em parte definido a nív el da escola, na importância de se
repens a r o currículo como um projeto, de olhar o s program as com um sentido crítico, de considerar o
conhecimento não como um fim em si mesmo, mas como algo que precisa de ser context ualizado às
realidades e necessidades dos alunos, da importância de se introduzirem novas áreas de t rabalho, que
permitam aos alunos o desenvolvimento de competências de estudo, de cidadania e de integração do
conhecimento. Em suma, uma escola que se re sponsabiliza pelo sucesso e scolar dos alunos, mas
também pelo seu insucesso, que adota uma configuração do currículo enquant o projeto, como algo
aberto e provisório, que precisa de ser aperfeiçoado (Roldão, 2000a,2000b, 2000c), como instrumento
de trabalho dos professores e da s escola s, cons ideradas elas próprias entidades aut ónomas e com
responsabilidades curricular es.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
134
Estes desideratos n ão são refutados pe los críticos da reorga nização curricular, que, n a mesma
linha, defendem es ses princípios. No entanto, eles alert am para os efeitos e para o pouco impacto que
as medidas que compreendem a reorganização curricular têm tido na melhoria das aprendizagens dos
alunos. Pacheco (2006a) foi o investigador que, em Portugal, colocou mais reservas sobre a
reorganização curricular e talvez o que mais escreveu sobre a repercussão desta reorga nização na
melhoria das aprendizagens dos alun os .
Pacheco (2009 ) reco nhece que, nas ú ltimas décadas, o currículo tem uma presença significativa
nas refo rmas educativas em Port ugal. Destaca a reforma educativa de 1947 e 1986 (período do
Estado Novo e ano coinciden te com a aprovação da Lei de Bases do Si stema Educativo,
respetivamente) com o os períodos em que mais se discutiram as qu estões curriculares, s endo estas
assumidas de forma ainda mais significativa com o
Projeto de Gestão Flexível do Currículo
, em 1997.
No entanto, ao atribuir esta relevância na s discussões curriculares, nos distintos períodos enunciados,
critica o conteúdo das reformas:
A ‘curricularização’ da s reformas educativas traduz o lado menos positivo do
currículo, observando-se qu e a mudança corresponde tão- só a alterações de disciplina s
e cargas horárias na organização curricular; à revisão de normativos ligados à
avaliação, à g estão das escolas, às faltas dos alunos e pouco mais, ficando de lado as
mudanças estratégicas e inovadoras (p.125) .
Num trabalh o realizado por Benavente ( 2001), sobre o período de 1995 a 2001, durante o
qual foi Secretária de Esta do do XI II e XI V Governos constitucionais, a a utora, s em tecer críticas às
políticas prévias a 1 995, nem defender as colocadas em prática no seu mandato, como se pode ler na
síntese do seu art igo, centra o seu interesse na explicação que a educação teve no context o das
políticas públicas. Deste modo, salienta as principais iniciativas que marcaram, n a sua opinião, o XIII e
XIV Governos constitucionais e que enumeramos:
(1) continuidade d as linhas juri dicamente definidas na década anterior; (2)
crescimento da dotação o rçamental (concretizada em + 1% do PIB entre 1995 e
1999); (3) pacificação do sector, ‘fazendo as pazes’ com os professores e
reconhecendo-lhes um pap el fundamental na vida e ducativa e na sua melhoria; (4)
apresentação, a todos os parceiros, de um programa de t rabalho cujas principais
metas se traduziram na proposta de um ‘pacto educativo para o futuro’; (5) prioridade
ao desenvolvimento da ed ucação pré -escolar, entendida com o a primeira et apa da
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
135
educação básica, fator de democratização e de qualidade educativa; (6) lançamento de
medidas de gestão e de autonomia das e scolas, envolvendo todos os parc eiros
educativos e assegurando a sua participação na vida das escolas; (7) proce ssos de
reorganização curriculares no ensin o básico e no ensino secundário, partindo do
envolvimento dos professores em leituras críticas da r ealidade; (8) adoção de medidas
contra a exclusão escolar e social, partindo de boas prát icas mais ou m enos
‘escon didas em e scolas pioneiras e con sagrando modos flexíveis de organi zação
escolar e pedag ógica; (9) criação de uma Agência Nacional de Educação e Formação
de Adultos (sector h á muit o m arginalizado) capaz de reconhecer e validar formações
obtidas na vida e de oferecer aos adultos vias a rticuladas de educação e formação (pp.
110 -111).
Das medidas de política edu cativa apresen tadas por Ana Benaven te, como a continu idade
educativa, o aumento do orçamento para a educação, o reconhecimento do importante papel do
pr ofessor na implementação da s medidas, a congregaç ão de parcerias para a concretização de um
Pacto Educativo para o Fut uro
, a priorização pela Educação Pré-escolar, o reforço da autonomia das
escolas, o esforço pelo envolvimento crítico dos professores nos proce ssos de reorganização curricular
dos ensinos básico e secun dário, a adoção de medidas contra a exclusão escolar e social e a criação
de uma
Agência Nacional de Educação e Formação de Adultos
, a aut ora e ex-Secret ária de Estad o de
Educação destaca, na sua análise, as medidas imedi atas que foram t omadas contra a exclusão e a
Reorganização Curricular do Ensino Básico
.
Em 1995, o XIII Governo C onstitucional a ssumiu que a educação e a formação
fariam parte do ‘núcleo duro’ da actividade governativa, criand o mesmo um Conselho
de Ministros e specífi co para a coordenação entre a Educação, a Cultura, a Ciência e a
Tecnologia, a Juve ntude e o T rabalho e Formação Profissional ( Benavente, 2001, p.
101)
As medidas mais emblemáticas, no âmbito da exclusão social, que a autora des taca foram os
Currículos Alternativos,
a criação dos
Ter ritórios Educ ativos de I nterven ção Prioritária
e os programas
destinados a jovens adole scentes pouco escolarizad os. Ressalva destas t rês medidas imediatas os
Currículos Alternativos
co mo sendo a m edida que mais contestação obteve por parte da opinião
pública. Os
Currículos Alternativos,
consagrados pelo Despacho n.º 22/SEEI /96, de 19 de junho
permitiam aos alunos, com retenção repetida e em risco de abando no escolar, terem ac esso a um
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
136
currículo difere nciado que lhes garantisse, no mes mo nível e scolar, de senvolver apre ndizagens
fundamentais. Estes projetos, criticados por sindicalist as, professores e especialistas em Ciências da
Educação, foram associados a uma “escola de 2.ª categoria”. No entanto, eram elaborados pelas
escolas e, posteriormente, apresentados e aprovados pelos serviços regionais e centrais do Ministério
da Educação. Um conselho de acompanham ento realizava um balanço anual a partir da monitorização
que reali zava nesse períod o, tratando-se, pois, de projetos regulados e supervisionados por órgãos
externos à escola.
Quanto ao s
Territórios Educat ivos de Intervenção Prioritária
, Benavente (2001) refere que as
escolas viveram processos de abertura e de reflexão em conjunto para alcançarem objetivos comuns.
Os professores tinham horas para desenvolverem estes projetos, tendo sido criadas condições para
que os professores, que estivessem envolvidos nesses projetos, pudessem perman ecer nessas escolas,
reduzindo-se o número de alunos po r turma, flexibilizando -se os currículos e d isponibilizando-se às
escolas m ateriais e recursos acre scidos nece ssários a projetos que tinham por finalidade o
desenvolvimento das aprendizagens dos alunos, numa plena inclusão.
Começando por algumas dez enas de escolas que se auto propus eram para a criação de
Territórios Educativos de Intervenção Prioritária,
em 1996 /1997, foram sendo adicionadas, cada vez
em maior número, nos an os seguintes, até que a s m edidas para a autonomia e administração das
escolas fossem as seguradas. No entanto, foram vários os obstác ulos existentes, c omo a coordenação
entre serviços e a di ficuldade em conseguir os recursos que eram sempre insuficientes face às
privações reais dos meio s sociais mais carenciados. Como aspetos positiv os, é salientada “a
solidariedade e at enção a context os difíceis, a articulaç ão entre recursos e ntre escolas p róximas; o
acompanhamento dos alunos na tra nsição e ntre ciclos; o dese nvolvi me nto de respostas originais (…) e
a mobilização dos parceiros educativos para a melhoria educativa” (Benavente, 2001, p. 114).
Novas perspetivas foram surgin do com a gestão f lexível do currículo, como uma maior
autonomia das escolas, o rompimento da aliança entre igualdade com o sinónimo de uniformidade,
centrando-se a educação nas competências a construir e não nos conteúdos program áticos a transmitir
(embora se construíssem a partir destes), formulavam- se competências transversais, relacionadas com
os proce ssos de utilização, comunicação e aplicação de conhecimentos, promovend o a apre ndizagem
ao longo da vida (Benavente, 200 1).
A autora referia-se à estratégia seguida pelo seu Minis tério nos anos em que foi Secret ária do
Estado da Educação, no âmbito do
Projeto de Gestão Flexível do Cu rrículo,
de forma muito apaix onada
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
137
e convicta, de que se estavam a dar passos importantes para o futuro da educação em Portugal.
Considerava a estratégia desta reorganização como a mais ad equada na medida em que considerava
fundamental o envolvimento livre das escolas num processo vo luntário de g es tão curricular a partir de
novas práticas de gestão flexível do currículo. O apoio dado às escola s que elaboravam projetos
adequados aos seus context os era sentido nos m ais di ferentes níveis. As t rês novas áreas curriculares
despertariam as escolas para um a gestão mais transver sal e, embora a carga horária global fosse
idêntica, as escolas tin ham uma maior liberdade de gerir e de dis tribuir esses tempos.
As novas áreas, embora trans versais, eram também elas curriculares. I mporta referir t ambém
que, pese embora o facto d e se querer implementar um projeto que permitisse às escolas gerir os seus
tempos letivos, a partir dos princípios de gestão curricu lar flexível, a ve rdade é que se v iria a confirmar,
com a publicação do Decreto -lei n.º 6/2001, de 18 de janeiro (que estabeleceu a
Reorganização
Curricular do Ensi no Bási co
para todas as escolas), que essa gestão estava condicionada pela
estrutura de um desenho curricular uniforme, cuja gest ão de tempo seria tam bém ela limitada por ficar
à decisão da escola apenas a atribuição de meio tempo let ivo. Este tempo, já de si diminuto, foi sendo
também, de forma quase generalizada, at ribuído às disciplinas mais problemáticas das escolas,
Português e Matemática, de modo mais ou menos u niforme.
Benavente (2001, p. 118), de forma entusias ta sobre o processo de
Reorganização Curricular do
Ensin o Básico
, referia que o process o co ntinuaria e que seria preciso tempo para saber quais os efeitos
finais; porém, a autora não tinha dúvidas qu e “se virou uma página na escola básica po rtuguesa”.
Relativamente às três novas áreas curriculares n ão disciplinares (
Estudo Acompanhado,
Formação Cívica
e
Área de Projeto
), a aut ora destacou o
Estudo A companhado
como sendo a área
capaz “de fazer mais pela democrat ização do que muitos discursos e boa s intenções” (Be navente,
2001, p. 11 9). A educação foi “afirmada como uma ‘paixão’ e uma prioridade, de modo a ultrapassar
o atraso português no espaço de uma geração” (Benavente, 2001, p.102) nos programas do XIII e XI V
Governos Constitucionais e não faltavam documen tos com discurs os românticos e apaixonados sobre a
viragem que a educação e o currículo estavam a passar.
O
slogan
da paixão pela educação des pertou a atenção da comunicação social para este
ministério. Todos os Governos democráticos e co nstitucionais tiveram a preoc upação em delinear,
definir, reorganizar e, até, reformar a educação, no e ntanto, torná -la uma priori dade no centro das
políticas foi uma atitude corajosa e arriscada destes Governos. Corajosa, porque os resultados v isíveis,
concretos não são fáceis d e obt er nem tão pouco se conseguem anali sar num mandato; exigem muito
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
240
Ao ní v el da Administração central c onseg uimos encontrar a publicação de cinco decr etos -lei: o Decreto-
lei n.º 370/83, de 6 de outubro, que concretiza va o princípio da i mparcialidad e na ação da admini stração
pública; o Decreto-lei n.º 24/84, de 16 de janeiro que determina va o estatuto disciplin ar dos funci onários e
agentes da administração central e local ; o Decreto-lei n.º 220/84, de 4 de julho, que estabelecia as
disposições, quanto à atribuição de subsídios e bolsas de estudo , re vogando o Decreto-lei n.º 420/78 , de 21 de
dezembro; o Decreto-lei n.º 299/8 4, de 5 de setembro , que transfer ia para os municípios competências em
matéria de organ ização e financiamen to dos transport es escolares e o Decreto- lei n.º 135/ 85, de 3 de maio, que
regulamenta va os procedimen tos de p rote ção à maternidad e . Assistimos também à publicação de uma lei, a Lei
n.º 4/84, de 5 de abril , sob re a proteção da maternidad e e da paternidade e ainda à publicação de duas
portarias para aprovar os regulamentos das bolsas de e studo de cu rta e longa duraç ão ( Portaria n.º 609/ 84, de
17 de ago sto e Portaria n.º 61 0/84, de 17 de ag osto, respetivamente).
Começavam a ser regula mentadas a lgumas das medidas que se pronunciava m como os apoios sociais,
através dos subsídios e das bolsas de e studo , a descentraliz ação começava a ganhar forma com a passagem de
competências re lativam ente à gest ão dos rec ursos. Não foi nesta legislatura que se c ons eguiu cr iar o Conselho
Nacional da Edu cação, nem a provar uma le i de bases do sis tema educativo .
No que respeita às escolas, ao se pretender c onsolida r a gestão democrát ica dos estabe lecimentos de
ensino preparatório e secundário, o Governo legislou dois decretos-lei, o Decreto-lei n.º 215/8 4, de 3 de j ulho ,
que define o regime aplicável às comissões inst alado ras de estabel ecimentos de ensino preparatório e
secundário e o Decreto-lei n.º 46/85, de 22 de fevereiro, que cria as escolas C+S (as escolas com o ciclo
preparatório de dois anos e o c iclo do secundár io). Com o Despa cho n.º 9/ME/8 3, de 11 de julho , o Governo
estabeleceu o regime de constituição, as competên cias e o mandato das comissões provisórias de
estabelecim entos de ensino preparatório e secundário e com o Despacho n.º 30/EBS/8 5, de 21 de setembro
fix ou a representação do pessoal docent e no conselho diretivo , e m função do número de alunos que irão
frequentar o e stab elecimento de ensi no. A Portaria n.º 295 /85, de 21 de maio aprov ou as regras de
funcionamento dos servi ços administrativos dos estabel ecimentos oficiais dos ensi nos preparatório e secundário,
bem como diversos impresso s a utilizar por aqueles servi ços e a Por taria n.º 672/8 5, de 11 de setembro fix ou o
número de elementos das comissões instaladoras de estabeleci mentos de ensino p repa ratório e secundário,
com u m número de alunos superior a 1000. Podemos conc luir que este Governo levou a cabo o que se propôs
fazer na sua legislatura ao criar as escolas C+S e ao legislar as formas como as mesmas dever iam
funcionar/orga nizar-se.
Ao nível dos p rofesso res, embora se continuasse a mante r a aspiração em se e laborar um e sta tuto dos
educadores de infância e do s professores do ensino primário , preparatório e secundá rio , o mesmo não foi
consagrado , sendo def inidas as habilitações próprias e suficientes para a doc ência dos ensinos preparatório e
secundário, a par tir da publica ção do Despacho norma tivo n.º 32 /84, de 9 de fever eiro .
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
241
No que ao currículo diz respei to, preten dia-se reestruturar o sistema educa tivo a partir de uma revisão
de programas e planos de est udo, mas não se con hece qualquer legislação nesse s entido.
Os apoios sociais que se pretendiam atribuir aos alunos foram objeto de confirmaçã o a partir da
publicação da Lei n.º 129/ 85, de 15 de abril, que isenta va as asso ciações de estudantes do ensino não sup erior
e as associações de pais de emolumentos e taxas pela inscrição no ficheiro central de pessoa s colet ivas e pela
requisição do cartão de id entificação.
6.1.10. Análise do Programa do X Governo constit ucional
O Programa do X Governo co nstitucional, que toma p osse a 6 de novembro d e 1985, é liderado por
Aníbal Cava co Silva, que repres enta pela primeira vez o Governo do Portugal demo crático , sem qualq uer
coligação. O Partido Social Democrata venceu as eleições para 20 me ses de governação , sem, no entanto, ter
alcançado uma maioria democrática, governando com algu ma fragilidade a que todos os Governos democráti cos
eleitos nestas condições es tão sujeitos.
As questões e ducat ivas surgem neste programa li gadas à valorização dos recursos humanos, e por
uma análise ao seu conteúdo percebe-se a relevância que se atribui à educação como fator det ermina nte p ara o
desenvolvime nto social, para o desen volvimento tecnológico, p ara a modernização da economia p or tuguesa
necessária para a esperada in tegração à CEE. Tal como se pode l er no programa
O Governo considera a Educ ação como um dos sectores prior itários da sua acção. A
priorização da Educação não significa, apenas ou principalmen te, uma a crescida injecçã o de
meios financeiros, mas impli ca o ataque decidido e articu lado aos principais proble mas que
vêm s endo diagnosticados desde há largos anos, quiçá décadas. Trata -se de realizar, de facto,
a sempre adiada reforma global do Sistema Educa tivo que abarque os pl anos pedagógico,
científico, administrativo financeiro, que cont emple uma política de recursos hu ma nos
motivadora, que racionalize e aperfeiçoe os re cursos físicos nos domínios das instalações e
equipamentos, e qu e c rie efec tivas condições para u ma participação de todos os inte rvenientes
na condução do processo edu cativo (Programa do X Governo constituciona l, 1985, p . 57).
Assumia-se o conjunto de problemas que a educação ao longo de déc adas sofreu e a ssumia -se um
compromisso e m fazer uma reforma séria com todos os intervenientes e duca tivos. Nes te sentido, foi criada,
desde logo, uma Comissão d e Reforma do Siste ma Educativo (CRSE) com a incumbência de realizar estudos e
investigaçõ es necessários à bo a reorganização do siste ma educativo, b em como à conceção de propos tas de
diplomas que ve rsassem os s eguintes asp etos:
- descentralização da adminis tração educa tiva;
- moderniza ção da estrutura c urricular;
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
242
- valorização dos recursos hum anos disponíveis, no meadam ente os professo res .
Estes três eixos de investime nto assumido s no programa do X Governo constituciona l fizeram com
que fossem as m edidas que abaixo se organizam, sintet izam e a presentam na tabela 12.
Tabela 12 - Análise ao Programa d o X Governo constitucion al (6 de novembro de 198 5 - 17 de agosto d e
1987)
Cat egorias
Dimensões
de Intervenção
Situação
Retratada
Princípios a
Alcançar
Medidas Concretas a
Tomar
Normativos
Publicados
Administração
Central (Estado/
Ministério da
Educação)
· Sistema
educativo
português longe
de corresp onder
aos legíti mos
anseios,
expectativas e
necessidades do
País
· Descentralizar a
administração da
educação
· Reduzir o núm ero
dos Serviços Centrais
· Reestruturar
globalmente a
orgânica e o
funcionamento do
Ministério na dupla
de racionalização e
desconcentração
· Reformular a
estrutura e os
métodos de g estão
financeira e o
controlo orçamental
· Alargar a rede da
educação pré-escolar
· Reforçar a
capacidade de
decisão d estes
órgãos
desconcentrados nos
domínios da gestão
financeira e dos
recursos humanos,
· Criar um serviço único
no domínio dos
equipamentos educativos
pela fusão das Direções-
Gerais de Equipa mento e
de Construções Escolares
· Editar uma publicação
periódica de informação
divulgação de temas
educativos e das normas
e disposições relativas ao
funcionamento do
Sistema Educativo
· Lançar um "programa
especial de
equipamentos
educativos" que
proporcione resposta
atempada e eficaz às
carências de instalações,
incluindo a sua
recuperação/manutenção
· Alargar a rede do ensino
técnico profissional
· Formular um a Le i Base
do Sistema Educativo que
alargue a escolaridade
obrigatória para 9 anos,
· Lei n.º 46/86, de
14 de outubro –
aprova a Lei de
Bases do S istema
Educativo
· Decreto-lei n.º
3/87, de 3 de
Janeiro - estabelece
o ord enamento
orgânico do
Ministério da
Educação e Cultura
· Lei n.º 31/87, de 9
de jul ho – Lei
orgânica do
Conselho Nacional
de Educação
(alterada pelo
Decreto-lei n.º
241/ 96, de 17 de
Dezembro)
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
243
dos equipam entos
educativos e das
relações com a
comunidade
· Reforçar e clarifi car
os meios do ensino
particular e
cooperativo nos
outros segmen tos de
ensino,
designadamente no
respeitante a
"contratos de
patrocínio"
· Desenvolver o
princípio da liberdade
de ensinar e
aprender através da
livre escolha da
modalidade de
ensino no âmb ito da
escolaridade
obrigatória
clarifique e consagre de
uma forma coerente a
estrutura educativa
· Criar o Instituto de
Educação Especial
Escola
· Apoiar
reforçadamente a
introdução de novas
tecnologias no ensino
não superior
· Decreto-lei n.º
197/87, de 30 de
abril – altera o
decreto-lei n.º 769-
A/76, de 23 de
outubro, fixando as
datas para a
realização de
eleições para os
conselhos diretivos
dos
estabelecimentos de
ensino prepara tório e
secundário
· Decreto-lei n.º
281/87, de 18 de
julho – altera o
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
244
Decreto-lei n.º
197/87, de 30 de
abril, f ixando as
datas p ara a tomada
de p osse dos
conselhos diretivos
dos
estabelecimentos de
ensino prepara tório e
secundário
Professores
· Valorizar os
recursos humanos
disponíveis,
designadamente
docentes, como fator
predominante da
qualidade de ensino e
aprendizagem
· Elaborar o estatuto da
carreira docente para o
ensino não s uperior,
contemplando, a
articulação entre níveis
de ensino e que
consagre,
nomeadamente, a
retribuição do mérito
profissional, a formaç ão
inicial e c ontínua e a
defi n ição clara dos
direitos e deveres
profissionais, e que possa
constituir um ins trumento
de dignificação e
motivação dos
professores
· Decreto-lei n.º
223/87, de 30 de
maio – def ine
categorias e carreiras
do pessoal docente
Currículo
· Modernizar a
estrutura curricular,
bem como de
métodos e técnicas
de ensino práti co, de
ensino aprendizagem
visando um a maior
criativid a de e espírito
crítico dos jovens e
uma melhor inserção
no seu espaço e no
seu tempo
· Prom over uma nova
política de manuais
escolares que promovam
a q ualidad e e diminua os
custos sem cair,
obviamente, no "livro
único"
· Aperfeiçoar o ensino do
português e a dif usão da
cultura portuguesa junto
das com unid ades
portuguesas, pel a revisão
de objetivos, métodos e
esquemas de apoio, pela
Lei n.º 19-A/87, de 3
de junho - adota
medidas de
emergência sobre o
ensino-aprendizagem
da língua portuguesa
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
245
coordenação e ntre as
diversas entidade s que
no estrangeiro promovem
a cultura e l íngua
portuguesas
· Articular e apoiar os
organismos do M inistéri o
da Educaç ão e Cultura na
promoção de integração
de discipli nas de índole
artística (literária, visual,
musical, etc.) nos
currículos escolares aos
vários níveis de ensino
Alunos
· Lei n.º 19/87, de 1
de junho - fixa o dia
do estudante
· Lei n.º 33/87, de
11 de julho –
regulamenta o
exercício do direito
de ass ociação de
estudantes
Pela leitura da tabela 12 conseguimos p erceber que o s istema educativo português estava longe de
corresponder aos legítimos ansei os do p aís e ao que era desejável para que Portugal aderisse à CEE da forma
mais compe titiva possível. Embora que este programa não se tenha apresentado com novas p ropostas, mas
antes com a consolida ção de me didas que já tinham sido avançadas em legis laturas anteriores, foi o que
conseguiu v er cumpridas a lgumas das medida s concretas anun ciadas. Desde logo , foi aprova da a Lei n.º 46/ 86,
de 14 de outubro que definia a L ei de Bases do Sistema Educativo (LBSE). Após um longo debate e de um
avolumar acentuado d e propostas de lei, a L BSE viria a ser aprovada por uma grande maio ria, na Assembleia da
República, a 14 de outubro de 1986, apenas com os votos co ntra do CDS e a absten ção do MDP-CDE.
Referimo-nos a um acentuado avo lumar de propostas pelo fato de terem s ido vários o s projetos a serem
discutidos e apresentados na Assembleia da República, alguns até c hegaram a ser aprovado s em Conselho de
Ministros, como foi o caso da Lei n.º 315/I, de 29 de abril, de 1980 , designada de Bases do Sistema Educativo,
foi aprovada em Conselho de Ministros, a 9 de abril de 1980, era então Primeiro -Ministro Francisco Sá-Carneiro
e Ministro da Ed ucação e Ciê ncia, Vítor Cres po.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
246
Ainda ne ss e ano, e m 1980, foi proposto o Proje to de Lei n .º 503 /I, de 14 junho 1980, designava-se de
lei quadro do sistema nacion al de e ducação e foi propost o pelos deputados do PS a 12 junho 1980 - Maria
Teresa Ambrósio, A gost inho de Jesus Doming ues, Carlos Lage, Jorge Sampaio, Salgado Zenha, António de
Almeida Santos, José Leitão, Ví tor Constâncio, Vítor Vasques, e Bento de Azevedo. Os dep utado s do grupo
parlamentar do MDP/CDE - Helena Cidade Moura, Herberto Goulart e Luís Catarino propu seram o projeto d e Lei
n .º 526/ I, de 26 de j unho de 1980 (Lei de Ba ses do Sistema de Educação). Os deputados do PS também
apresentara m u m Projeto de Lei (Lei n.º 180/II, de 2 de abril de 1981 ) e que intitular am de Lei Qu adro do
Sistema Nacional de Educação . Os depu tados do MDP/CD E voltam em 1981 a p ropor um outro projeto d e L ei
n.º 213/ II, de 14 de maio de 1981 . Também os deputado s do PCP apre s entaram em 1981 um projeto de Lei
com o n.º 226 /II, de 29 de maio de 198 1 e que se designava de Lei do Sistema Educa tivo. Os deputado s deste
partido voltaram em 1983 a apresentar est e mesmo projeto com o n.º 34/III, em 9 de junho de 1983. Os
deputados do PS aprese ntaram em 1981 o Projeto de Lei n.º 285/II, de 18 de dezembro de 1981 que
intitularam Lei-q uadro do sistema naciona l de educa ção. Este projeto d e lei invocava a reto ma do ant erior projeto
lei que não fora aprovado no parlamento e que p elas declarações de voto dos partidos da AD se devem ao fato
de não haver uma ampla disc ussão pública. Este projeto de lei foi também a provado em Conselho de Minis tros
a 14 de janeiro de 1982 , qua ndo Franc isco Pinto Balsemão era então Primeiro -Ministro (Conselho Nacional de
Educação, 2 017).
Os deputados do MDP/CDE apre s entavam novo Projeto de Lei com o n.º 170/III, de 28 de ju nho de
1983 , int itulando- o de Bases do Sistema de Educação . Neste projet o de lei referia-se a baixa escolaridade dos
portugueses comparativamen te aos restantes da europa, como França, Itália, Espanha, Grécia, Jugoslávia, que
apresentavam p or esta ordem um maior índice de alunos inscritos. Só na escolaridade p rimária Portugal
apresentava números semelhantes aos restantes países da europa. Havia, portanto, um baixo í ndice de alunos
inscritos no ensino secundário e e nsino superior e e ste fato devia -se, na opinião dos deputados do MDP/CDE,
ao fato da e scolaridade obrigatória ser de apenas de 6 anos, em 197 9. Também é referido aqui que a
escolaridade obrigatória em Portugal não se c umpre, que as carências quantitativas no siste ma educativo
contribuíram para o insucesso escolar, sendo Portu gal o país da europa onde ocorre mais rep etên cias. O grupo
parlamentar do MDP/C DE refere a inda, neste projeto de lei, que apres entou à Assembleia da Repúbli ca dois
projetos de lei de base do sistema de educação: um em junho de 1980 e um outro em maio de 1981 e foram
enviados para as e scolas para disc ussão pública, mas como foram “bloq ueados”, c omo referem, a presentam
uma terceira versão do p rojeto de lei inicial que mantém as suas li nhas mestras ape nas com adendas e
aperfeiçoam entos de algumas formulações.
Em 1 984 os dep utados do PS apre s entam nov ame nte u m Projeto de L ei c om o n.º 328 /III, de 3 de
maio de 1984 , que se intitularia de lei de bases do s istema e ducat ivo, mas todas estas iniciativas e projetos só
em 1986 tiveram a s ua expressão maior com a aprova ção da LBSE, com o Ministro da Educa ção e Cu ltura,
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
247
João de Deu s Rogado Salvador Pinheiro. Estava então ap rovada aquela que viria a ser até hoje a Lei da
organização, d a estrutura, da administração, do s princípios f undamenta is da educação e m Portugal.
Roberto Carneiro (2017, p. 53), num trabalhado realizado para o Conselho Naci ona l de Educação,
caracteriza a LBSE como “uma grande e longeva obra legislativa” e elogia o trabalho realiz ado por Eurico Lemos
Pires como re lator do docume nto, com as s eguintes palavras:
Aproveito esta o casião para dedicar um a palavra de especial reconhecimento, e louvor,
a Euri co Lemos Pires, i nfatigá vel i nvestigado r e eterno comba tente pela melhoria da e ducaç ã o
entre nós, o qual, por um raro golpe de sorte, e xer cia funç õ es de deputado ao tempo da
discussão p arlame ntar dos diversos projetos que conduzira m ao text o da Lei n.º 46/86, de 14
de outubro. Portugal, deve-lhe a sábia síntese de p rojeto s conflituais e a conduç ã o de um
processo negocial, na qualida de de deputado-relator, que se veio a saldar pela redaç ã o que
hoje nos ocupa da LB SE, a qual go za, apesar da turbulê n cia de q ue se rodeou a sua fe itura, de
uma robusta lógica, alé m de vincadas características modernizadoras que bosquejam um
futuro de pros peridade e de educaç ã o para todos (p. 53- 54)
Este Governo aprova outras imp ortan tes leis, nomeadamente a Lei n.º 31/87 , de 9 de julho , que
estabelece a Lei orgânica do Conselho Nacional de Educaçã o . Embora e ste órgão t enha sido cri ado em 1982, a
partir da aprovação do Dec reto- lei n.º 125 /82, de 22 de abril, como um órgão superior de consu lta do e ntão
Ministro da Educação e das Uni v ersidades, órgão superior de consulta do Ministro, “ que te rá como objectivo
propor medidas que garantam a adequação pe rmanente do sistema educativo aos i nteresses dos cidadã os
portugueses ”, como se p ode ler no artigo 1.º do Decreto -lei já referido. Na sequência da a provação da L BSE, ao
se referir no seu artigo 46.º ao Conselho Nacional da Educ ação, o De creto -lei que o criou sofre alterações com a
Lei n.º 31/87, de 9 de jul ho. Este diploma prevê a matriz que ainda hoje caracteriza o Conselho Nacional da
Educação, isto é, como órgã o com funções consultivas e ampla re presentatividade, com um elevado grau de
independênc ia e orientado para a formação de consensos. O pre siden te deix a de ser u m representante do
ministro e passa a ser el eito pel a Assembleia da República por maioria absoluta dos deput ados com efetividade
de funções. Desgo vernament aliza-se a composição do Conselho, pass ando a alargar-se o seu âmbito de
representatividad e a outros agent es da sociedade.
Ao nível da escola, e ste p ro grama não apresentava med idas significativas ou de relevo p ara e sta
dimensão e m análise, mas ainda assim foram aprovados dois decretos -lei: o De creto-lei n.º 197/87 , de 30 de
abril, que altera o Decreto-lei n.º 769-A/76, de 2 3 de outubro, fixando a s da tas para a realização de eleições
para os conselhos diretivos dos e stabelecimentos de ensino p reparatór io e secundário e o Decreto-lei n.º
281/ 87, de 18 de j ulho, que alt era o Decr eto-lei n.º 197/87, de 30 de abril, fixando as datas p ara a tomada de
posse dos conselhos diretivos dos estabel ecimen tos de ensino preparatório e secundário . Podemos perceber a
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
248
partir daqu i que a par do princ ípio da des centralização , a es cola era alvo d e um número cres cente de
regulamentação nor mativa.
Os professores, considerados neste programa como fator es predominantes da q ualidade de ensino e
aprendizagem, são também alvo de uma publicação normati va. O Decreto-lei n.º 223/87, de 30 de maio , define
categorias e carreiras do pessoa l docente. A partir deste normativo é p ossíve l pe rceb er que o regim e jurídico do
pessoal docente se dispersava p or vários diplomas legais, era extremamen te segmentado o que não se
coadunava a uma g estão eficaz. É possível per ceber, a partir deste diploma que estava em curso, o programa de
desenvolvime nto do sist ema educativo, no que à c riação de direções re g ionais da edu cação diz respeito. Este
programa ao ter como princípio a valorização do e s tatuto da carreira docente consideramo s que este diplom a
significava um importante passo da do nesse sentido.
A criação dos quadros de vinculação e afectação, a permitir uma gestão de pessoal
mais eficaz e desburocratiz ada; a dignificação dos cargos de che fia das unidade s de
administração das escolas em c onsonância com as inerentes responsabilidad es e
complexidades das fun ções; a adopção de mecanismos de mobil idade em plena adeq uação
com as re alidades do sistema educativo; a criação de novas carreiras para re sposta eficiente
às exigências do proce sso educativo, na perspectiva correcta de que t odos os recursos
humanos são agentes de acção educativa , e, finalment e, a definição clara dos conteúdos
funcionais e das dependênci as hi erárquico-funcionais de todas as carrei ras do pessoal não
docente - são os aspectos de modernização em que se aposta para alcançar a mudanç a que
se exige e m todas as com ponen tes de d esenvolvimento do siste ma ed ucativo (Pr eâmbulo do
Decreto-lei n.º 22 3/87, de 30 de maio)
Nesta l egislatura ainda cons eguimos assistir à publicação de mais três dipl o mas le gais. A L ei n. º 1 9-
A/87, de 3 de j unho, que adota medidas de emergência sobre o ensino -aprendizage m da língua portuguesa, no
que ao currículo diz re s peito e no âmbito dos alunos é aprova da a Lei n.º 19/87, de 1 de j unho, que fixa o dia
do estudante e a Lei n.º 33/87, de 11 de ju lho, que regulamenta o exercício do direito de associa ção de
estudantes.
Varela de Freitas (201 9), a respe ito da LBSE, diz que a mesma foi aprovada depois de muito prometida
e que a par da publicação da primeira lei de bases, da história da democracia em Portuga l, foi também criada a
Comissão de Reforma do Sistema Edu cativo. Um a das pri meiras publicações da CRSE data de 1987 , com o
título “Currículo e Desenvolvi mento Curricular: Problemas e Perspetivas”, da autoria de Fe rnando Augusto
Machado e Maria Fernanda Gonçalves (Edições Asa). Du rante dois anos a CRSE realizou um t rabalho de difusão
de posições nem sempre convergent es sobre a reforma, tendo o currículo ganho uma visão de c idadan ia.
Currículo e sse que era entendido pela C RSE como tudo aquilo que aco ntecia na escola e não apenas e só o
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
249
programa educacional da esco la. Iniciou -se a partir daqui um processo de reforma educativa consignada na
LBSE.
Pela voz do Mini stro da Educ ação, Fraústo da Si lva, as áreas de prioridade da política educativa nos anos
80 e ram três: a formação profissional, a formação de professores e a criação d e uma re de de institutos
politécnicos. João de Deus Pinheiro, enquanto Secretár io de Estado da Educação, considerou que estas
prioridades foram estabelecidas t endo em mente a adesão de Portugal à CEE e a sua abertura ao exterior. Era
necessário o país r evel ar um esforço de melhoria na capac itação, c ulturalização e educação dos portugueses.
Seriamos tão mais competitivos quanto mais fossemos capazes de mostrar ao e xterior a nossa capacidade de
progressão e d e desenvolv imento. Assim, e enquanto se mediam forças e se conjeturavam reforços na
consolidação da democracia em Port ugal, as forças extern as não se fizeram esp erar e a intenç ão de Po rtugal
integrar a europa levou a que a OCDE assumiss e um papel preponderante na i nflu ência para com a educação
em Portugal, na d écada de 19 80 (Teodoro, 2003a ).
6.1.11. Análise ao Programa do XI Governo constitucional
O XI Governo Constituciona l liderado pelo ainda A níbal Cavaco Silva, cujo gove rnação an terior não foi
concretizada com a maioria absoluta é -o desta vez, sen do o Partido Social Democra ta a levar a cabo mu itas das
medidas anun ciadas nos ant eriores programa s de Governos . Tomou posse a 17 de ag osto de 19 87 e termin ou o
seu mandato a 31 de outu bro de 1991, após 37 meses de governação. Portanto , foi este o primeiro Governo a
concluir o seu mandato.
Assume-se a edu cação como a lgo fundamental para a realiza ção pessoal e para o dese nvolvime nto do
país e assum e-se que à educ ação serão canalizadas v erbas para que a mesma consiga alcançar os p ropósitos
que há décadas se t êm colocado como objetivos a alcançar pe la educação, mas que até ao moment o ainda não
o foram. Deste modo, fazem-se referências a um compromisso financ eiro de aumento, por part e do Go verno, da
despesa púb lica para que a e ducação cumpra u m investim ento prioritário nes ta área.
Para a educação assumem-se medidas que até ao momento foram já anunciadas p or anteriores
Governos, mas cujos eixos estratégicos se configuram em três: um primeiro é o da e xigê ncia da
liberdade
, um
segundo eixo é o da
identidade nac ional
e o t erceiro respeit a ao
desenvolvimento da solida riedade.
Para melhor p erc ebermos que medidas foram anunciadas no programa do XI Governo constitucio nal
apresentamos as mesmas na tabel a 13.
POLÍTI CAS EDUC ATIVAS E CURR ICULARES: DAS I NTENCIONALID ADES GOVERNATIVAS À S PRÁTICAS CUR RICULARES
256
· Decreto-lei n.º
287/88, de 19 de
agosto – regulamenta
a p rofissionalização
em serviço
· Despac ho normativo
n.º 77/88, de 19 de
agosto – regulamenta
os concursos distritais
de professores dos
ensinos p reparatório e
secundário para
preenchimento dos
horários ainda
disponíveis após a
segunda parte do
concurso previsto no
Decreto-lei n.º 18/88
· Decreto-lei n.º
191/89, de 7 de
junho – alte ra o
De creto-lei n.º
223/87, de 30 de
maio, relativo a
categorias e carreiras
do pess oal não
docente
· Decreto-lei n.º
344/89, de 11 de
outubro – aprova o
ordenamento jurídico
da form ação dos
educadores de
infância e dos
professores dos
ensinos básico e
secundár io
· Decreto-lei n.º
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