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Prefácio: Para uma leitura compreensiva das políticas de comunicação

Oliveira, Madalena

Abstract

[Excerto] Por definição e por sugestão própria da denominação, os observatórios são instituições dedicadas a um trabalho que supõe, antes de mais, observar. Surgiram originalmente para monitorizar fenómenos físicos, naturais e geográficos. Hoje, são também uma prática comum no contexto das ciências sociais, mantendo o princípio da observação como etapa fundamental da investigação científica. Sendo estruturas muito convenientes “ao desenvolvimento de pesquisas com sentido continuado sobre problemáticas que não se esgotam em projetos circunscritos no tempo”, os observatórios “pressupõem um acompanhamento longitudinal dos fenómenos e uma leitura sobre tendências de evolução” (Paulino et al., 2017, p. 72).

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Prefácio: Para uma Leitura Compreensiva das Políticas de Comunicação https://doi.org/10.21814/uminho.ed.103.1 Madalena Oliveira Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Braga, Portugal https://orcid.org/0000-0001-8866-0000 [email protected].pt Por definição e por sugestão própria da denominação, os observatórios são instituições dedicadas a um trabalho que supõe, antes de mais, observar. Surgiram originalmente para monitorizar fenómenos físicos, naturais e geográficos. Hoje, são também uma prática comum no contexto das ciências sociais, mantendo o princípio da observação como etapa fundamental da investigação científica. Sendo estruturas muito convenientes “ao desenvolvimento de pesquisas com sentido continuado sobre problemáticas que não se esgotam em projetos circunscritos no tempo”, os observatórios “pressupõem um acompanhamento longitudinal dos fenómenos e uma leitura sobre tendências de evolução” (Paulino et al., 2017, p. 72). Vinculado ao sentido da visão, o ato de observar é, no entanto, muito mais profundo do que a ação de ver. Significa “olhar com atenção para”, sendo também sinónimo, por exemplo, de “examinar” e “fazer ver”. É, portanto, expectável que os observatórios não se limitem a um trabalho exclusivamente descritivo ou constativo. Se esse é, em parte, o seu ponto de partida, na missão para que são projetados está também a convicção de que são plataformas privilegiadas para a interpretação dos comportamentos humanos e das práticas sociais e culturais, bem como para a sua análise extensiva no tempo. 12 prefácio É esse olhar diacrónico, de estudo sistemático, que faz dos observatórios um instrumento de conhecimento tão relevante à leitura compreensiva de realidades dinâmicas como são os processos de agenciamento das sociedades. Constituindo-se como uma estrutura focada em políticas, o PolObs, que é um projeto do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, tem na sua matriz esta vocação para observar, monitorizar, interpretar e analisar. Apresenta-se como um observatório que visa seguir atentamente as ações que mobilizam os campos da ciência, da comunicação e da cultura em Portugal, as estratégias de atuação dos agentes com responsabilidades nestes setores e os desafios inerentes a uma lógica de desenvolvimento sustentável. Fazendo um trabalho que é, prioritariamente, de investigação (fundamental e aplicada), orienta-se também para um horizonte de intervenção, no pressuposto de que os resultados da observação sistemática podem igualmente contribuir para o exercício de influência dos atores e das instituições competentes. Nesse contexto e na determinação para adicionar à constatação um efeito performativo, o PolObs assume o compromisso de, não fazendo apenas o relato das suas observações, produzir reflexão crítica e facilitar instrumentos para a fundamentação do debate público. Com este enquadramento, ou seja, com o propósito de organizar um referencial teórico para o trabalho de observação quotidiana, a equipa de coordenação do PolObs inscreveu no plano de atividades do observatório, como objetivo estratégico, a organização e publicação de três livros coletivos. Segmentado pelas três áreas principais de observação, políticas de ciência, políticas de comunicação e políticas de cultura, este conjunto de obras tem o propósito de reunir perceções informadas pela vasta experiência de investigadores de ciências sociais atentos às matérias de governação. Políticas da Comunicação: Hibridismos e Opacidades é o primeiro volume desta trilogia. Editado por Mariana Lameiras e Helena Sousa, este livro tem um enfoque particular no campo da comunicação e dos média em Portugal, nas transformações da última década e na relação entre o sistema de comunicação e a democracia. Considerando o quadro geográfico e político mais amplo, o conjunto de textos que compõem esta obra não ignora os desafios tecnológicos e culturais do século XXI. Toma-os antes como a chave de leitura dos efeitos que as medidas de administração têm tido no rumo do sistema mediático, de informação e de comunicação. Organizado em oito capítulos, este volume tem cinco objetivos centrais: (a) identificar as principais linhas de orientação política no quadro da 13 políticas da comunicação: hibridismos e opacidades comunicação e dos média, em Portugal (e na Europa), na última década; (b) examinar os principais mecanismos de auto e de heterorregulação setorial e profissional nas diversas profissões dos média e da comunicação; (c) analisar a relação entre os média e a sociedade, dedicando especial atenção aos mecanismos de (re)construção do edifício democrático; (d) avaliar o poder efetivo das instituições públicas na reconfiguração de um sistema mediático que garanta as bases comunicacionais indispensáveis à convivência humana digna; e, de modo transversal, (e) facultar os recursos teóricos e metodológicos que possam contribuir para novas modalidades de ativismo e de participação dos cidadãos. Numa altura em que as transformações na tecnologia se experimentam a uma velocidade vertiginosa, com implicações muito significativas para a própria organização social, tornaram-se preocupações prioritárias matérias como a regulação dos meios, a monitorização da qualidade nos fluxos de informação e a acreditação de práticas que possam beneficiar a confiança dos cidadãos. Mantendo ainda a convicção de que o sistema mediático não é alheio a uma ideia de desenvolvimento sociocultural, Políticas da Comunicação: Hibridismos e Opacidades também é uma proposta para refletir em que medida pode a comunicação ser, como sugere Manuel ChaparroEscudero (2023), “uma arma para o empoderamento da cidadania” (p. 43). Objeto de discussão coletiva, os contributos que compõem este livro foram também debatidos, em reunião presencial, com o coordenador do Euromedia Research Group (https://euromediagroup.org/), diretor do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade de Salzburg (Áustria), Josef Trappel, um reconhecido especialista na área das políticas da comunicação e dos média. Complementando o cuidadoso processo de revisão de pares desencadeado pela Universidade do Minho, a apreciação deste consultor certifica o rigor desta publicação, editada no quadro da chancela UMinho Editora/Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade. Disponível em acesso aberto, este livro não será apenas uma referência para o núcleo de investigadores especializados em economia dos média e políticas de comunicação. Pelo contrário. A amplitude do tema e a perceção de que “o estudo das comunicações e dos média não é mais pensável sem a tentativa de compreensão das estruturas de mercado e das suas articulações com a esfera política” (Sousa, 2005, p. 5) sugerem que esta obra possa interessar, de forma expressiva, a um público muito diverso. Estudantes, investigadores e académicos, decisores políticos, profissionais da área da comunicação e dos média e mesmo todos os cidadãos atentos à comunicação 14 prefácio e aos fluxos de informação podem encontrar em Políticas da Comunicação: Hibridismos e Opacidades uma proposta de problematização de um setor que tem, hoje, inequívoca centralidade na vida coletiva. Agradecimentos Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto UIDB/00736/2020 (financiamento base) e UIDP/00736/2020 (financiamento programático). Referências Chaparro-Escudero, M. (2023). Para entender hoy la comunicación y el periodismo. In M. Chaparro-Escudero, L. Espnar-Medina, A. M. Tarbift, & L. Peralta-García (Eds.), Guía de transición ecosocial y principios éticos para nuestros medios (pp. 29–48). Edições Ciespal. Paulino, F. O., Oliveira, M., & Faria, J. (2017). Ombudsmen e observatórios de média: Proximidades e diversidades. Revista Internacional de Comunicación y Desarrollo, 2(6), 69–81. https://doi. org/10.15304/ricd.2.6.3944 Sousa, H. (2005). Economia política da comunicação e dos média: Novos cruzamentos e triangulações. Comunicação e Sociedade, 7, 5–8. https://doi.org/10.17231/comsoc.7(2005).1206