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Crise e conspiração Joel Felizes Professor Auxiliar do Departamento de Sociologia (Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho). ORCID: 0000-0001-7096-9114
138 Tratar das diversas conexões que se estabelecem entre os momentos de crise, como aquele que o mundo vive em 2020, motivada pela COVID-19, e a multiplicação de toda a espécie de teorias de conspiração é, no lugar da racionalidade científico-social em que nos encontramos, uma missão que se afigura à partida justificada, a bem da própria sanidade da sociedade. Todavia, para além da tarefa de denúncia do perigo que aquela multiplicação de pseudoteorias representa, podemos também procurar, em termos necessariamente breves, alguma explicação para estas manifestações típicas de uma certa irracionalidade. Sabemos de resto que, pelo menos no quadro das Ciências Sociais, aquilo em que as pessoas acreditam (ou dizem acreditar), por mais inverosímil que seja, pode ser sempre objeto de análise. Entremos, pois, um pouco nestes domínios obscuros das teorias da conspiração. O lado lúdico das teorias da conspiração O cientista político Michael Barkun identifica as seguintes características das teorias da conspiração: nada acontece por acidente; nada é o que parece; tudo está interligado (Barkun, 2013, pp. 3-4, citado em Butter & Knight, 2020, p. 1). A este fundo de motivação podemos ainda acrescentar uma explicação proveniente das neurociências: segundo alguns especialistas, a própria estrutura do nosso cérebro está especialmente preparada para detetar anomalias em algumas explicações e, ato contínuo, para “sobreinterpretar” esses detalhes aparentemente inconsistentes e atribuir-lhes causas prováveis. É um mecanismo semelhante ao que nos permite, num texto, completar palavras e ideias, mesmo se o que lemos tem falta de algumas letras ou até letras ou partes trocadas1. Uma das mais conhecidas teorias da conspiração é a que garante que afinal a ida dos astronautas à Lua foi um embuste (de proporções colossais, se olharmos à complexidade destas missões espaciais). Por exemplo, num inquérito recente apurou-se que 6,5% dos franceses acreditam nesta hipótese conspirativa2. Claro, estes duvidosos inquéritos esquecem que, para muitos dos inquiridos, pode ser, de facto, divertido dizer, sob a capa do anonimato, que se acredita em algo tão inverosímil. Esta tese de que afinal boa parte da popularidade das teorias da conspiração se deve simplesmente a um motivo lúdico, a uma brincadeira, parece consistente, pelo menos no caso de teorias absurdas como a que sustenta que o nosso planeta não é redondo, mas plano. Quase poderíamos dizer que aqueles que se esforçam por desmentir alegações tão desconchavadas acabam também por cair nesta armadilha de imbecilidade. Pensando ainda no caso da negação da ida à Lua, fará sentido perder tempo a tentar convencer alguém aparentemente cético de que a NASA não falsificou os desembarques, de que eles não foram encenados em Hollywood, com o patrocínio da Disney, com base num guião escrito por Arthur C. Clarke e dirigido por Stanley Kubrick, como alguns parecem querer acreditar? Haja paciência. 1 Ver, por exemplo, a edição nº 1187 da revista Science & Vie, de agosto de 2016, nas páginas 44-53. 2 Na mesma revista, página 49.
139Sociedade e crise(s) O lado trágico das teorias da conspiração A torção da verdade e a crença em complôs tem, como todos sabemos, uma longuíssima história, frequentemente marcada por toda a espécie de tragédias. Para nos atermos a épocas e alegadas conspirações sobre as quais existe documentação, valerá a pena reter alguns exemplos que, de algum modo, estão também inscritos na história de Portugal. São casos como os da perseguição que foi movida à ordem religiosa dos Templários, no início do século XIV, pelo rei francês Filipe, o Belo, e que desencadeou o fim desta outrora poderosa congregação. Os rumores postos então a circular sobre os templários (acusados de heresia e de todo o tipo de imoralidades) são similares aos que, também desde longa data, vilipendiam os judeus (pelo menos desde o século XI), ou até a maçonaria (pelo menos desde o século XVIII). Por razões históricas e infelizmente trágicas, o caso das conspirações atribuídas ao povo judaico é particularmente emblemático. Por exemplo, numa edição especial da revista L’Histoire (2019)3, dedicada ao antissemitismo em França, é possível percorrer as diferentes eras da judeofobia, com origens na Antiguidade, pois os judeus foram frequentemente os “bodes expiatórios” ideais para cada nova crise. Claro, como fundamento mais ou menos evidente desta teoria de conspiração judaica está a reiterada acusação, recorrente ao longo da história, de que foram os judeus, o “povo deicida”, os responsáveis pela morte de Jesus Cristo. Para alguns, a referência aos conhecidos (e comprovadamente apócrifos) Protocolos dos Sábios de Sião, datados de 1903, serão uma reedição desta judeofobia. Mais tarde, a catástrofe que se abate sobre este povo durante a Segunda Guerra Mundial, tem por trás igualmente a ampla divulgação, especialmente pelo regime nazi, de todo o tipo de ficções conspirativas que tinham por alvo esta comunidade. As (desconcertantes) conspirações de hoje Chegamos então aos nossos tempos com uma razoável dose de construções de edifícios conspirativos que misturam todo o tipo de referências, algumas retomando as velhas teorias que referimos, como parece suceder com o caso das conspirações e desmesurada influência atribuídas aos chamados Illuminati, grupo improvável, mas popularizado em obras de ficção como os romances de Dan Brown. Esta ligação entre literatura e teorias da conspiração permite-nos de novo fazer esta associação entre o prazer da leitura e o prazer de imaginar que o mundo que nos rodeia não é assim tão aborrecido, pois nele vive uma vasta legião de indivíduos e de organizações, a quem atribuímos intenções maléficas (a chamada Nova Ordem Mundial). São, pois, os novos supervilões da banda desenhada da nossa infância e juventude e que por isso nos podem fazer ascender ao estatuto de super-heróis, numa luta contra um perigo iminente para toda a humanidade. No caso da conspiração dos Illuminati, ela é descrita pelo escritor Jean-Jacques Bedu do seguinte modo: 3 Ver edição número 83 (abril-junho), que tem como tema de capa “L’antisémitisme en France”.
140 Os Illuminati prepararam o caminho para um governo mundial único, responsável desde o século XVII por todos os males do mundo: a Revolução Francesa, a Guerra da Independência Americana e a Revolução Bolchevique; as duas Guerras Mundiais; o assassinato de John Fitzgerald Kennedy; os atentados de 11 de setembro de 2001 e, em outras áreas, a pretexto de regular a população mundial e a eliminação de certas raças consideradas nocivas, são responsáveis pela SIDA, bem como pelo aumento do número de cancros ligados ao uso de aditivos alimentares e de ondas eletromagnéticas. (Bedu, 2005, p. 78) Não surpreende por isso que um dos nomes mais citados em muitas das atuais teorias da conspiração seja o do multimilionário investidor de origem judaica George Soros, hoje com 90 anos. Soros, juntamente com outros multimilionários como Bill Gates e ainda com o apoio de figuras como o ex-Presidente dos EUA Barack Obama e a antiga senadora e candidata presidencial Hillary Clinton, seriam, em conluio, os responsáveis por uma conspiração político-sexual destinada à tomada do poder naquele país, complô conhecido como “QAnon”, que coloca o chamado “deep state” no centro de um enredo tresloucado de teorias. Para se ter uma ideia da popularidade desta “teoria”, basta ir ao website da Amazon e procurar por livros sobre o tema “QAnon”. Lá encontramos livros que procuram expor e denunciar os disparates veiculados sob esta designação, mas também muitos (mesmo muitos) que fazem a apologia desta tese conspirativa. Entre eles, talvez valha a pena destacar um, de 2019 (QAnon: an invitation to the great awakening), seja pelo facto de não ter propriamente um autor (é subscrito por um coletivo intitulado WWG1WGA), seja sobretudo porque está, neste final de outubro de 2020, na posição 34 do ranking de vendas na secção de “Communication & Media Studies”. Por outro lado, não deixa de ser curioso que, ao selecionar-se aquele livro, apareçam mais abaixo sugestões adicionais de leitura dadas pela Amazon e que incluem livros recentes (setembro de 2020) como o do Congressista Devin Nunes, intitulado Countdown to Socialism, sobre o perigo de uns EUA dominados pelos ideais do Partido Democrata e de algumas das grandes empresas, incluindo as chamadas “redes sociais”. As similaridades entre este enredo montado por membros do Partido Republicano e os dislates da QAnon parecem evidentes, ou pelo menos assim o “julgou” o algoritmo informático da Amazon. Continuando nos EUA, valerá enfim a pena recordar o chamado “Pizzagate”, uma bastante estranha teoria que teve ampla divulgação em 2016 e que relacionava alguns dirigentes e apoiantes do Partido Democrata com uma rede de tráfico sexual que teria a sua sede na cave de uma pizaria em Washington DC. Viren Swami, da universidade inglesa de Anglia Ruskin, disse à BBC que este caso pode muito bem ser um exemplo de uma tendência crescente para uns EUA “hiperpartidários”, onde as teorias da conspiração alimentam as fações políticas: “o que está a acontecer nos Estados Unidos nos últimos dois anos é que as teorias da conspiração estão a ser usadas como arma política”, diz ele (The saga of ‘Pizzagate’: The fake story that shows how conspiracy theories spread, 2016).
141Sociedade e crise(s) Fátima e COVID-19 A referência ao chamado “Segredo de Fátima” ainda parece estar presente no imaginário português. Recentemente, por ocasião do centenário das “aparições”, a própria Rádio Renascença evoca a “revelação” (e explicação) da terceira parte do Segredo: “Poucas coisas motivaram mais teorias da conspiração à volta da Igreja do que a terceira parte do segredo de Fátima, ou o “terceiro segredo”, como ficou conhecido” (Avillez, 2017). Neste caso, as teorias da conspiração parecem não ter tido qualquer apaziguamento, pois voltaram a adensar-se, agora em volta de um suposto e muito nebuloso “quarto segredo”, que, tal como os fragmentos antes divulgados, estará pleno de profecias aterradoras, que, por isso, a hierarquia da Igreja Católica se esforça em desvalorizar. Importa, pois, ter em mente que o fenómeno de Fátima contém vários dos ingredientes típicos das teorias conspirativas e que, por isso, não deixará de estar sempre envolvido nesta mistura de crenças e de desconfianças. Pelo atrás exposto, facilmente se depreende porque é que a pandemia da COVID-19 tem gerado igualmente toda a espécie de teses conspirativas. Estas teses, como sugerimos atrás, parecem ter alguma responsabilidade no facto de, em países como os EUA, se revelar muito difícil a tarefa de conter a progressão da doença, apesar da excelência dos seus serviços de saúde. Para atalhar argumentos, basta mencionar que, dado o perigo de desinformação associado à divulgação de vídeos como o “documentário” Plandemic (2020)4, recheado de falsidades, ele foi retirado das principais plataformas globais de divulgação destes conteúdos. Este falhanço de alguns governos em lidar com uma situação de emergência também se pode entender quando vemos algumas das explicações dadas para o surgimento da pandemia. Por exemplo, citando um dos inúmeros representantes dos movimentos evangélicos norte-americanos: Pastor Ralph Drollinger, fundador do Capitol Ministries, um grupo religioso que se reúne semanalmente na Casa Branca (…), explicou que o coronavírus foi uma manifestação da ira de Deus sobre as nações. Segundo ele, a epidemia chegou para punir o “lesbianismo”, a “homossexualidade”, mas também a China e “a religião do ambientalismo”. (La carte des théories du complot sur le coronavirus (2020) Rudy Reichstadt, responsável pelo website que citámos (Conspiracy Watch), chama de “ópio dos imbecis” à crença nas teorias da conspiração (Reichstadt, 2019). Infelizmente, a sedução por divulgar uma crença (verdadeira ou não) numa teoria que até pode ser, para além de divertida, estimulante do pensamento crítico, não parece deter-se ante o choque de uma emergência de saúde pública que traz um elevado custo em vidas humanas e em bem-estar, sobretudo para populações mais vulneráveis. É caso para dizer que a imbecilidade pode matar. 4 Ver https://en.wikipedia.org/wiki/Plandemic
142 Epílogo: o declínio da verdade e da crítica Uma das características associadas à atual popularidade das teorias da conspiração é a sua rápida disseminação pelos caminhos da Internet e das chamadas redes sociais. Não podemos por isso desmentir que este ambiente digital comporta, quando usado de forma irresponsável, inegáveis riscos para a vida das sociedades. Por isso, vale a pena recordar as palavras de Moisés Martins, ao contextualizar o que podemos designar de uma falsa crença num inesgotável potencial da tecnologia: “O que se pede hoje à tecnologia, que nos dá ambientes de produção numérica (informática), é que nos resolva a crise da cultura” (Martins, 2011, p. 20). Mais adiante, Moisés Martins elenca referências maiores do pensamento ocidental (Michel Foucault, JeanFrançois Lyotard, Walter Banjamin e Guy Debord) para nos asseverar que estas novas (bio)tecnologias trazem também a “crise da razão histórica”, a “crise do narrador” e a consequente “crise da verdade”, significando o empobrecimento da experiência, na expressão de Benjamin, “a qual se esgota em excitação, efervescência, espetáculo, euforia, simulacro...” (Martins, 2011, p. 27). Este é, pois, um tempo em que as opiniões têm a exata medida máxima dos 140 carateres de um tweet, ou onde buscamos uma qualquer satisfação imediata em pequenos filmes como os do TikTok, cuja duração ideal está fixada, segundo os “especialistas”, em meros 16 segundos. Por isso, muito do que escrevemos atrás também deve ser atribuído a um efeito (só aparentemente) paradoxal, em que a multiplicação do acesso à informação e ao conhecimento parece traduzir-se numa crescente dificuldade em reduzir as teorias da conspiração ao seu lugar de exercício criativo e lúdico, que pode de facto ser também um saudável exercício de crítica e suspeita. Assim sendo, tais teorias acabam por redundar unicamente em lixo informativo, político e científico, apto a ser usado como arma de arremesso por um qualquer oportunista, ou apenas por um qualquer imbecil. Referências Avillez, F. (2017, 11 de maio). Quais são os segredos de Fátima? Rádio Renascença. https://rr.sapo. pt/2017/05/11/fatima-100-anos/quais-sao-os-segredos-de-fatima/noticia/83364 Bedu, J. J. (2005). Les sources secrètes de Anges & Démons. Monaco: Éditions du Rocher. Butter, M. & Knight, P. (Eds.) (2020). Routledge handbook of conspiracy theories. Londres: Routledge. https:// doi.org/10.4324/9780429452734 La carte des théories du complot sur le coronavirus (2020, 23 de março). Conspiracy Watch. https://www. conspiracywatch.info/la-carte-des-theories-du-complot-sur-le-coronavirus.html Martins, M. L. (2011). Crise no castelo da cultura. Das estrelas para os ecrãs. Coimbra: Grácio Editor. Reichstadt, R. (2019). L’opium des imbéciles: Essai sur la question complotiste. Paris: Grasset. The saga of ‘Pizzagate’: The fake story that shows how conspiracy theories spread (2016). BBC Trending. https://www.bbc.com/news/blogs-trending-38156985