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1 E-Revista de Estudos Interculturais do CEI-ISCAP N.º 13, maio de 2025 A Aritmética dos Tempos: Compaixão, hospitalidade e reparação no Gerador The Arithmetic of Time: Compassion, hospitality and reparation in Gerador Chisoka Simões 1 Sheila Khan 2 Rosa Cabecinhas 3 RESUMO: O presente trabalho tem por vontade abrir uma matriz de pensamento e de partilha pública, ainda pouco amadurecida, em torno da relação entre realidade social portuguesa e a emergência dos meios de comunicação alternativos, nomeadamente de natureza digital. Nesse sentido, pretendemos compreender qual a responsabilidade histórica, cívica e social que os meios de comunicação alternativos têm, a partir de três pilares de pensamento social: Compaixão (Nussbaum, 2001), Poética da Hospitalidade (Almeida, 2023) e, por último, Reparação Histórica (Hall, 2018). No seguimento desta intenção reflexiva e crítica, apresentamos como trabalho de campo uma entrevista realizada à plataforma digital Gerador, entrevista construída a partir das nossas questões de investigação: podem os meios de comunicação alternativos digitais contribuir para a integração de 1 Chisoka Simões é doutorando em Estudos Culturais no Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, Portugal, e bolseiro de investigação no projeto “MigraMediaActs – Migrações, Media e Ativismos em Língua Portuguesa: Descolonizar Paisagens Mediáticas e Imaginar Futuros Alternativos” do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS). A sua investigação académica atual centra-se no património cultural e na imigração no Noroeste de Portugal, abordando dimensões como território, identidade e migração. 2 Sheila Khan é socióloga, investigadora do CICANT – Centro de Investigação em Comunicações Aplicadas e Novas Tecnologias, Universidade Lusófona; professora auxiliar da Universidade Lusófona e comentadora do painel do programa Debate Africano da RDP África. É doutorada em Estudos Étnicos e Culturais pela Universidade de Warwick. As suas publicações mais recentes são: Racismo e Vigilância Racial. Modernity Matters (eds. com Nazir Can e Helena Machado, Routledge, 2021); Reparações Históricas: Desestabilizando Construções do Passado Colonial, Revista Comunicação e Sociedade, vol.41 (eds., com Vítor Sousa e Pedro Schacht Pereira); ‘Pós-memórias Femininas: Vozes e Experiências na Gramática do Mundo’ (eds. com Sandra Sousa e Susana Pimenta); Djaimilia Pereira de Almeida: Tecelã de Mundos Passados e Presentes (eds. com Sandra Sousa, 2023), e, recentemente, ‘Emerging Perspectives on Afro-Descendant Production: Memory, Identity and Global Diaspora’, Portuguese Literary & Cultural Studies (2025, em preparação; eds. com Sandra Sousa). 3 Rosa Cabecinhas é professora no Departamento de Ciências da Comunicação e investigadora no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) da Universidade do Minho. Desempenhou funções como Diretora do Departamento de Ciências da Comunicação, Diretora do Mestrado em Ciências da Comunicação e Diretora do Doutoramento em Estudos Culturais. Atualmente, é Investigadora Principal do projeto “Migrações, Media e Ativismos em Língua Portuguesa: Descolonizar Paisagens Mediáticas e Imaginar Futuros Alternativos” (financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia) e co-coordena a linha de investigação “Espaço Público” no projeto CONCILIARE – Confidently Changing Colonial Heritage (2024-2027), financiado pelo programa Horizonte Europa.
2 comunidades sociais e históricas silenciadas e marginalizadas? E como fazer a normalização destas comunidades na gramática pós-colonial portuguesa? PALAVRAS-CHAVE: Compaixão; Hospitalidade; Reparação; Meios de Comunicação Alternativos Digitais ABSTRACT: This work aims to establish a new framework of thought and public sharing, which is still in its early stages, regarding the relationship between Portuguese social reality and the emergence of alternative media, particularly of a digital nature. In this sense, we intend to understand the historical, civic and social responsibilities that alternative media have, based on three pillars of social thought: Compassion (Nussbaum, 2001), Poetics of Hospitality (Almeida, 2023) and, finally, Historical Reparation (Hall, 2018). Following this reflective and critical intention, we present as fieldwork an interview carried out with the digital platform Gerador, an interview constructed from our research questions: can digital alternative media contribute to the integration of silenced and marginalised social and historical communities? And how can these communities be normalised within post-colonial Portuguese grammar? KEYWORDS: Compassion; Hospitality; Reparation; Digital Alternative Media 1. Introdução: A Aritmética dos Tempos Ninguém passa a tempestade sem querer se abrigar Ninguém nos perdeu por azar Quem quiser pintar passados. Vai ter muito p'ra emendar. Sérgio Godinho, Delicado, Nação Valente, 2018. Seria impossível escrever este texto sem nos colocarmos no tempo controverso e pleno de lutas, reivindicações, surpresas, quezílias e controvérsias que nos exigem alguma serenidade de espírito. Todos os dias, somos confrontados com eventos, ao nível mundial, que perturbam e contradizem muito das nossas esperanças que acreditávamos já prontas para serem vitórias de cidadania, liberdade, democracia e, acima de tudo, de solidariedade. Os meios de comunicação educam-nos para alguma apatia e uma total falta de empatia para tantos conflitos políticos em múltiplos continentes. Esta observação não resulta de nenhum alarido, nem de uma conversa solta de rua. É, com rigor, resultado dos tempos sociais aos quais os meios de comunicação não escapam como dispositivos das nossas sociedades, comunidades, grupos sociais e cidadãos. Desaceleração da nossa atenção e compreensão relativamente à invasão da Ucrânia pela Rússia, o genocídio em curso em
3 Gaza (A. L. Coelho, 2025), a instabilidade política resultantes de golpes de Estado em vários países africanos, as crises humanitárias no Sudão, na Líbia. A instabilidade social e económica em vários países da América Latina e, contra todas as vagas de fé e de resistência, o regresso de Donald Trump à Casa Branca levando consigo todo um séquito de políticos e sequazes fanáticos pela construção de uma América [do Norte] Grande, hegemónica, redutora de liberdades e de direitos civis conquistados com tanto suor, sacrifício e sangue durante longas e extensas décadas. A ascensão da extrema-direita na Europa não pode deixar-nos hesitantes quanto ao retorno (Riemen, 2012) de uma determinada gramática histórica e sociológica que põe em perigo e, agora a partir de muitas vozes que o dizem sem pudor e com ânsia de destruição, os grandes pilares humanistas que se enraizaram após a Segunda Guerra Mundial: Liberdade, Fraternidade e Igualdade. Valores que a Revolução Francesa cantava entre os oponentes a uma visão do mundo que se regulava pela anulação do Outro, este duramente subjugado, ostracizado e invisibilizado na sua dignidade pelas lógicas coloniais e imperiais europeias, essa grande experiência que deixou um legado por extirpar e por sanear até aos dias de hoje (Khan, 2021; M’charek et al., 2014; Santos, 2007; Stoler, 2016; Trafford, 2021). A Modernidade ocidental é, ainda, uma memória viva nas narrativas, identidades de milhares de sujeitos sociológicos, mesmo na viragem de uma marcha histórica para o que designamos de pós-colonialismo. Muitas sequelas desta modernidade ocidental resistente encontram-se entre nós, nos nossos quotidianos, instituições, relações interpessoais e culturais (Raposo et al., 2019). O que é frequentemente chamado por colonialidade ocidental tardia (Khan et al., 2021), assume outras vestes e designações: racismo estrutural, discriminação racial, vigilância racial, ostracismo, entre tantos outros epítetos. Um dos grandes desafios deste tempo é compreender, mapear os caminhos pelos quais devemos calcorrear para refutar estas formas de hegemonia e de diferenciação humana ainda ativas. Essa vontade não é espontânea e requer um conhecimento minucioso destas posturas no interior das nossas estruturas de organização social e política (El-Enany, 2020; Gatrell, 2017; Lowe, 2015; Stone, 2018). É frequente olharmos para as nossas instituições como canais de perpetuação e de manutenção destas lógicas de colonialidade. Estudos ao nível das migrações (Macedo et al., 2024; Parmar, 2017, 2020; Parmar et al., 2020; Phillips et al., 2019), da criminalização (Machado & Granja, 2018, 2019; Machado et al., 2020; Phillips & Bowling, 2003), da educação (Araújo & Maeso, 2016; Balbé et al., 2024; Cabecinhas, 2023) e das lutas pelas liberdades civis (Maeso, 2021; Roldão et al., 2025) já demonstraram grande acuidade e rigor nas suas análises. Porém, outras realidades que, também elas, constituem janelas e espaços por onde veiculam e sobrevivem esse interior ideológico e histórico de preconceitos e de estereótipos perante o Outro, têm permanecido distantes de um exame cuidadoso. Com acuidade, referimo-nos aos meios de comunicação como dispositivos que vivem no seio de nações, comunidades e grupos sociais. A tradição do estudo da responsabilidade social, cívica e histórica dos meios de comunicação é, por ora, na sociedade portuguesa, uma consciência tímida e
4 quase inexistente (Posch et al., 2024). Ao contrário do que já podemos testemunhar em outros contextos geopolíticos de produção de conhecimento e de interação com a cidadania ao nível da comunicação (Usher & Carlson, 2022), sobre como os meios de comunicação contribuem como espaços de influência de uma determinada inclinação de encarar e de interpretar a diversidade do mundo humano, a cidadania comunicativa no contexto português exige de todos nós, cidadãos, profissionais, estudiosos, muita diligência, método e reconhecimento no exame das relações entre realidades sociais e os meios de comunicação. Uma aproximação atenta aos trabalhos realizados nas últimas décadas mostra uma enorme vigilância da parte de alguns setores mais compreensivos da comunicação com a responsabilidade de memória (Zelizer & Tenenboim-Weinblatt, 2014) perante as suas comunidades. Essa consciência trouxe para a arena pública a necessidade de um jornalismo mais compassivo, acolhedor e reparador quando confrontado com decisões de um longo passado jornalístico cúmplice com as liberdades civis nos Estados Unidos da América. Desta constatação emergiu o que, atualmente, se designa por jornalismo reparativo (Torres & Watson, 2023). Isto é, um compromisso ético e de memória relativamente a décadas de demonização, inferiorização, supressão de experiências humanas, nomeadamente, aquelas associadas às comunidades afro-americanas e latino-americanas (Dixon, 2003; Gray, 2015). Como observado por Usher e Carlson (2022), “as instituições de comunicação social, dado o seu papel na construção social da realidade, foram chamadas a prestar contas por ativistas da justiça racial por perpetuar o dominante status quo dos brancos” (2022, p.553). As autoras analisam a intricada e conivente relação entre contextos políticos e ideológicos norteamericanos e o papel corrosivo que os meios de comunicação foram assumindo na historicidade da cidadania afro-americana, argumentando ainda que, a influência na disseminação de representações e perceções sociais negativas, a obstrução ao conhecimento efetivo das comunidades subalternizadas, racializadas e descaracterizadas por uma linguagem jornalística inóspita representa o húmus para um exercício inevitável e, por conseguinte, urgente de compaixão, hospitalidade e de reparação quando a história da nação norte-americana e a história dos direitos civis afro-americanos (González & Torres, 2011) é, umbilicalmente, a história dos meios de comunicação. Nesse sentido, outras vozes acolhem este mesmo posicionamento ao salientar, “se há alguma instituição americana que deve pagar reparações, é o jornalismo” (Clark, como citado em Usher & Carlson, 2022, p.554). Esta consciência histórica conduz-nos para uma outra faceta inerente à funcionalidade dos meios de comunicação. Com rigor, a responsabilidade dos meios de comunicação como co-produtores de memórias coletivas e de autoridades de memória (Edy, 1999, 2006, 2014; Zelizer, 1993). Neste sentido, é relevante compreender o impacto de uma ausência de interesse e de reconhecimento das experiências humanas que fazem parte dos contextos sociais e históricos de eventos sonegados e ignorados pelos meios de comunicação. No entender de muitos estudiosos e jornalistas estas lógicas
5 de supressão de outras realidades sociais espelham uma certa cumplicidade com processos ideológicos e políticos que, repetidamente, contribuem para um empobrecimento de uma cidadania mais inteira e clarividente. É no seguimento destas várias fragilidades ancoradas a uma certa colonialidade de comunicação e de interação com o meio social envolvente, que emerge a urgência de um exercício cívico de compaixão (Nussbaum, 2001), hospitalidade (Almeida, 2013) e de reparação histórica (Hall, 2018), nomeadamente, no contexto português democrático e pós-colonial. 2. Contexto Português da Cidadania Comunicativa A exclusão sistemática das populações afro-europeias no discurso histórico pode ser compreendida através do conceito de colonialidade do poder (Quijano, 2005) ou da colonialidade ocidental tardia (Khan et al., 2021), pela persistência das estruturas de poder, como as hierarquias raciais estabelecidas durante o período colonial persistem nas sociedades, incluindo nas redes de conhecimento, como nos média. Nos média portugueses, esta colonialidade traduz-se na manutenção de narrativas eurocêntricas que atuam sob as vozes e experiências das comunidades racializadas e imigrantes, repercutindo-se nas suas representações sociais. A consideração de que estas comunidades são novidades ou elementos externos, alheios à sociedade portuguesa acabam por apagar memórias inteiras de gerações, historiografias, no que Alves (2016) descreve como uma racialização da imigração. Deste modo, para além de desconsiderar a história compartilhada, esta amnésia histórica (Cabecinhas & Barros, 2022) e afrofobia epistémica (Carruthers, 2020), também contribui para a exclusão contínua destas populações do discurso público dominante, tendo repercussões diretas na construção de uma consciência histórica inclusiva. Em relação aos indivíduos pertencentes a estes grupos, a falta de um conhecimento mais cabal e adequado reforça estereótipos negativos e limita as oportunidades de integração plena. É neste ponto que assenta a necessidade de uma prática de compaixão como criticamente elaborada pela filósofa Martha Nussbaum. De acordo com a autora, compaixão não é apenas uma dimensão emocional, mas quando acompanhada pelas vivências que são continuamente rasuradas por uma história hesitante (Lowe, 2015), falham na sensibilidade humana de inclusão nas nossas visões do mundo, de outras narrativas e identidades tão relevantes quanto complementares. Por conseguinte, o apelo à compaixão não resulta apenas de uma vontade sentimental, ela é, a partir da interpretação da filósofa, uma vontade cognitiva, um posicionamento clarividente e vigilante da nossa capacidade de escutar, compreender e de respeitar a dignidade dos outros. António Sousa Ribeiro apresenta com grande clareza e síntese o pensamento da autora ao detalhar compaixão da seguinte forma: (...) a relação que se estabelece com o sofrimento de outrem é movida pela compreensão de que esse sofrimento suscita questões que dizem respeito de maneira profunda a cada ser humano, desde logo, a questão da vulnerabilidade essencial do
6 corpo humano, sempre potencialmente exposto à dor. Dito ainda de outra forma, compaixão significa, nestes termos, o impulso para integrar o sofrimento alheio no quadro do nosso conhecimento do mundo, sendo, assim, indissociável de um impulso performativo, de um impulso para a ação. (Ribeiro, 2018, p.15). Este ‘impulso para a ação’ é crucial para o que a escritora luso-angolana, Djaimilia Pereira de Almeida, no seu livro de ensaios, O que é ser escritora negra hoje, de acordo comigo, mapeou e definiu como a poética da hospitalidade. Esta incursão pelo rol de ausências, de esquecimentos, fissuras levou a escritora a perceber a relevância de uma inclusão ativa do Outro, como parte dessa ferramenta indispensável que é a cidadania portuguesa. O recurso à sua própria experiência como sujeito pós-colonial assume a energia e a força vitais para uma maior interpretação da nossa realidade e das contradições inerentes a uma nação que se arroga o rótulo colorido de nação cosmopolita e democrática. Muitos dos trabalhos de Djaimilia Pereira de Almeida, estes de natureza ficcional (Khan & Sousa, 2023), confrontam a historicidade portuguesa com os seus aquedutos de afasia social e cultural, demonstrando minuciosamente, pelo detalhe dado a cada personagem, as prisões históricas onde são colocadas muitas comunidades imigrantes africanas e afrodescendentes da experiência da descolonização portuguesa. Na sua obra que é, simultaneamente, lugar de um pensamento sério e de metodologia social, a autora observa: Relegados para a condição de personagens vazias e estereotipadas, os indivíduos negros são raros no cânone português, sendo representados como seres humanos desprovidos de identidade. Todos sabemos que não se trata de uma história especificamente portuguesa. Sem uma certa dose inicial de ódio de si próprio, ninguém se torna um leitor negro ou um escritor negro em qualquer língua ocidental. Eu não teria sido aceite à mesa de alguns antecessores literários. Eles não foram capazes de descrever a minha linhagem, não a compreenderam, subestimaram-na, troçaram dela. Tal perda é particularmente nociva na vertente lusófona do problema, onde, ainda hoje, há uma mentalidade imperial mais ou menos branda que se recusa a admitir as suas formas idiossincráticas de obsolescência e violência institucional, menos ainda a reconhecê-la na vida e na ficção. (Almeida, 2023, p.72) É este plano de reivindicação da hospitalidade que amplamente se ancora aos processos e caminhos de reparação histórica. Reparar e reconstruir é uma dinâmica subjacente à revisão corajosa e destemida das hegemonias históricas da memória, da comunicação, das sociabilidades entre povos, grupos, comunidades e sujeitos individuais. Neste meridiano quase completo, é compreensível a relevância da reparação histórica que emerge nos contextos onde vozes desobedientes exigem compaixão e hospitalidade às suas histórias, percursos de vida e, principalmente, reconhecimento pela sua presença nos espaços sociais aos quais pertencem. Atenta a todos estes meandros sombrios das histórias entrelaçadas, a historiadora Catherine Hall (2008), aplicando o seu pensamento ao estudo das relações entre o império britânico e as populações pós-coloniais, salienta a importância de pensar
7 criticamente o passado e o seu prolongamento nas vidas dos seus sujeitos co-protagonistas dos fios de identidade, de cultura, de memória e história por onde, ainda hoje, circulam visões do passado e se vão tecendo uma outra compreensão e alternativas para a reescrita de uma gramática humana mais reparadora e clarividente. 3. Levantando o véu: Os meios de comunicação alternativos digitais Como encetar este itinerário no enquadramento de um cenário mundial tão ácido, instável a partir de vozes, ações e vontades clarividentes e lúcidas? Por outro lado, como manter esta lucidez nesta nova aritmética do tempo? Um modo de lidar com estes novos tempos – conturbados, voláteis e polarizados - é escutar meios que promovem um discurso contracorrente, meios que representam vozes insubmissas e que pretendem criar, desde já, um futuro diferente. Estas vozes podem ser encontradas nos meios de comunicação alternativos digitais. Ao longo do artigo, argumentar-se-á que os média alternativos não devem ser vistos apenas como uma resposta temporária à exclusão mediática, mas como um modelo sustentável para um novo cânone mainstream, para uma cidadania comunicativa onde compaixão, hospitalidade e reparação representam uma decisão importante e inadiável. Os média alternativos diferenciam-se dos média tradicionais por diferentes especificidades, nomeadamente pela independência (Karppinen & Moe, 2016), a inclusão de uma diversidade de perspetivas (Ihlebæk et al., 2022), um afastamento da cobertura mediática convencional ao realçar temas frequentemente negligenciados pelos média tradicionais (Holt et al., 2019), tal como, uma abordagem participativa e colaborativa, fruto de uma cultura participativa (Jenkins, 2006), e, também, pela realização do seu trabalho através de técnicas de jornalismo lento (Prazeres, 2018). Deste modo, desempenham um papel único na diversificação do ecossistema mediático, ao oferecerem uma contraparte necessária aos média tradicionais (Holt et al., 2019), assim, permitem revelar e partilhar outras narrativas sociais, trazendo uma nova tradição de partilha pública. Especificamente, a aprendizagem de narrativas sociais que têm sido silenciadas durante séculos no contexto nacional, o que afeta diretamente a representação de um número de identidades que comungam do mesmo território e, consequentemente, a construção de nações fraternas. Dentro destes grupos, podemos indagar sobre a categorização de diferentes grupos em específico. Nomeadamente, nos últimos anos, a representação das comunidades racializadas e imigrantes, nos média em Portugal tem sido alvo de uma tímida discussão, mas com relativa relevância 4 (Gorjão, 2018, 2016). Esta relevância surge devido a individualidades especificas, ligados à academia como 4 A destacar as reportagens jornalísticas de Joana Gorjão Henriques que abriu um novo tempo de debate, reflexão coletiva e de reconhecimento da existência de outras histórias de vida e de identidade longamente esquecidas e ignoradas e vencedor do prémio Associação Corações com Coroa, que premeia trabalhos sobre direitos humanos: https://www.publico.pt/2018/11/20/sociedade/noticia/serie-racismo-portuguesa-publico-ganha-premio-1851751
8 Cristina Roldão, à política, como Joacine Katar Moreira, mas também com o progressivo aparecimento de ativistas negros, como por exemplo, Mamadu Bá ou Paula Cardoso. A presença destes indivíduos nos média tornou-se especialmente evidente no contexto das comemorações dos 50 anos da revolução de Abril e consequentemente, dos 50 anos das independências das ex-colónias africanas. Apesar da presença histórica e ininterrupta destas comunidades em Portugal, os média tradicionais continuam a tratá-las como uma novidade ou mesmo uma exceção, o que reforça uma posição de exclusão da grande narrativa identitária do país. Esta marginalização mediática reflete dinâmicas mais profundas e estruturais de exclusão e colonialidade assentes no Norte Global, com repercussões globais. Estas comunidades, quando não são simplesmente silenciadas, acabam por ser incluídas sob enquadramentos específicos ou temáticos, maioritariamente ligadas à marginalidade criminal, pobreza, limitações de acesso à habitação. Nesse contexto, os média alternativos surgem como plataformas para a expressão dessas comunidades, sendo estes, um local de promoção de narrativas que desafiam as construções hegemónicas, em especial, pelo destaque e envolvimento direto destas populações (Henriques, 2018, 2016). Estas plataformas abordam frequentemente temáticas fraturantes e dissonantes da sociedade, as quais "não são tratadas pelos meios de comunicação tradicionais" (Teixeira & Jorge, 2021). Deste modo, estes podem ser os mesmos temas que nos média tradicionais são imputados com uma conotação negativa, pelo simples facto de incluírem minorias étnicas. Então, os média alternativos aproveitam esta viragem mediática, apresentando estas comunidades de um modo positivo, tendo assim têm uma abordagem contrastante e mais humanista, empática e reparadora. Pese embora o crescimento exponencial nas últimas décadas, há que sublinhar que estes média se encontram presentes no país há mais de um século (Posch et al, 2024), como o ainda em circulação A Batalha, fundado em 1919. Por exemplo, durante a 1ª República, existiu o jornal O Negro, que desempenhava uma função semelhante à que os média alternativos digitais desempenham hoje, num mundo já hiper-globalizado. Confirma-se, assim, a presença historicamente invisibilizada tanto dos média e das suas temáticas como da população que neles participa, uma realidade vivida em segundo plano, quase num espírito de clandestinidade. Dentro destes meios de comunicação alternativos presentes no país, surge o Gerador, a plataforma escolhida para este estudo de caso. A par do Gerador existem em Portugal outros média com abordagem semelhantes, nomeadamente a BANTUMEN, de 2015, com quem possuem uma parceria, Buala, de 2010, Afrolis e Divergente, ambos de 2014, Fumaça, de 2016, e a Afrolink, de 2019. Esta similaridade, consiste concretamente no fato de empregarem pessoas imigrantes ou
9 racializadas na sua equipa de redação ou direção, e se debruçarem sobre questões identitárias fundamentais para estas comunidades 5 (Posch et al., 2024). O Gerador foi fundado oficialmente em 27 de maio de 2014, e desde então tem vindo a consolidar-se como uma referência no panorama mediático e cultural português. Tal como outros meios independentes, destaca-se pela sua autonomia, expressa de forma clara no seu manifesto editorial: "O Gerador é independente de pressões políticas, económicas ou de outro tipo" (Gerador, 2014). Além disso, o compromisso com a diversidade é um dos seus pilares, com o Gerador a afirmar que "rejeita qualquer discriminação baseada no género, religião, origem étnica ou orientação sexual e defende os valores da pluralidade e diversidade cultural" (Gerador, 2014). A sua atuação também se reflete nas causas sociais que abraça, afirmando: "refletimos sobre as dinâmicas principais de uma sociedade moderna e progressista, como a desigualdade, a discriminação, o lugar de fala, a identidade e a orientação sexual ou as políticas de migração" (Gerador, 2014). 4. Jornalismo Reparativo: Gerador A capacidade reparadora do jornalismo, tal como apresentada por Torres e Watson (2023) e previamente analisada neste estudo, tem-se manifestado, em especial, no contexto dos meios de comunicação alternativos. Estes meios abordam frequentemente temas específicos contestados por estas comunidades, sobretudo em dimensões que perpetuam injustiças sociais. Neste domínio, existem plataformas norte-americanas como The Root, Prism, Colorlines e Democracy Now! que dedicam grande parte da sua dimensão editorial à produção de narrativas que surgem de vozes marginalizadas, nomeadamente a população afrodescendente. No entanto, é possível observar, neste espaço geográfico, que alguns canais pertencentes a grandes conglomerados de média, como o Vox, da Vox Media, possuem abordagens próximas dos média alternativos. O Vox, por exemplo, tem explorado questões fundamentais como, o tema das reparações históricas, através de peças jornalísticas como “Reparations Could Heal America” e “There's No Freedom Without Reparations”. Para além deste cenário, dentro destes média, o debate sobre reparações também é analisado noutras realidades geográficas, como no artigo “What New Zealand Can Teach Us About Reparations”, que reflete sobre as políticas de reparação na Nova Zelândia. Dado o legado da colonialidade vivido no presente no Sul Global, observam-se dimensões editoriais semelhantes em 5 Nomeadamente, dos conteúdos que o Gerador produziu na última década dentro desta dimensão, destacam-se vários temas centrais, como a descolonização dos manuais de História que continua por concretizar, refletindo, assim, a dificuldade em rever o ensino e a forma como o passado é contado. Nesta senda, o "colonialismo público" mostra como a memória do império ainda se mantém viva no espaço público e na forma como a história é lembrada. A restituição de património às ex-colónias tem sido debatida como uma questão de memória e identidade, levantando a necessidade de devolver bens culturais e reconhecer as marcas do colonialismo. Vítor de Sousa (2022) reflete sobre a pertença e a identidade, afirmando que não existe um carimbo que define quem é português. Também surge o questionamento de figuras históricas como Mouzinho de Albuquerque, e as suas relações com a memória pública nacional. Surge nas artes, a exploração de correntes artísticas, por exemplo, o afrossurrealismo e o afrofuturismo que propõem novas formas de representar uma sociedade mais inclusiva, ao desafiar a visão tradicional da história e ao projetar futuros alternativos.
16 estilo, à abordagem na comunicação e à produção de conteúdo. Assim, consideramos que o Gerador propõe um novo entendimento de mainstream, que não exclui, mas inclui e integra as diversas vozes que, até então, estavam à margem. O Gerador pode ser um exemplo de como é possível criar caminhos para o jornalismo e a comunicação social, ao abrir portas para um futuro mais justo e representativo para todos. Esta movimentação fluída entre sectores – privado e públicosurge como uma mais valia. Os fundadores do Gerador expressaram uma visão otimista para o futuro da plataforma, ao destacar planos para estabelecer novas parcerias. Esse crescimento reflete uma tendência global de fortalecimento dos média alternativos, que têm vindo a ganhar maior relevância face ao declínio da confiança nos média convencionais, que se situa nos 58% no país (Iberifier, 2024). Assim, consideramos que o Gerador propõe um novo entendimento de mainstream, que não exclui, mas inclui e integra as diversas vozes que, até então, estavam à margem. Deste modo, pode-se considerar que se encontra numa fase avançada dentro da conceção de difusão de inovações na comunicação (Reis & Hostin, 2019), que pressupõe estágios progressivos desde o momento em que uma inovação é criada e se torna a norma em relação à população em geral.
17 Financiamento Este artigo foi desenvolvido no âmbito do projeto “MigraMediaActs – Migrações, media e ativismos em língua portuguesa: descolonizar paisagens mediáticas e imaginar futuros alternativos” (PTDC/COM-CSS/3121/2021), financiado por fundos nacionais através da FCT — Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Almeida, D.P. (2023). O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo. Companhia das Letras. Alves, A. R. (2016). (Pré) textos e contextos: media periferia e racialização. Política & Trabalho, (44), 91-107. Araújo, M., & Maeso, S. (2016). Os contornos do eurocentrismo: raça, história e textos políticos. Almedina. Balbé, A., Lins, L., & Cabecinhas, R. (2024). “Não tem como a gente fugir do que nos ensinam”: debates sobre memória pública e educação com estudantes do ensino secundário português. Estudos Ibero-Americanos, 50(1), 1-22. https://doi.org/10.15448/1980864X.2024.1.45807 Cabecinhas, R., & Barros, M. D. (2022). Produção de Conhecimento, Reparação Histórica e Construção de Futuros Alternativos. Entrevista com Miguel de Barros. Comunicação e sociedade, (41), 243-258. https://doi.org/10.17231/comsoc.41(2022).3719 Cabecinhas, R. (2023). “A memória da nação na era planetária. Passados e futuros em debate”. Análise Social, 249, lviii(4.º), 766-788. https://doi.org/10.31447/AS00032573.2023249.07 Callison, C. & Young. M.L. (2019). Reckoning: Journalism’s limits and opportunities. Oxford University Press. Carruthers, I. E. (2020). Remembrance–Toward Righteousness and Reparations. The Ecumenical Review, 72(1), 6-18. Coelho, A. L. (2025). Gaza está em toda a parte. Caminho. Coelho, R. G. (2019). An archaeology of decolonization: Imperial intimacies in contemporary Lisbon. Journal of Social Archaeology, 19(2), 181205. https://doi.org/10.1177/1469605319845971 Dixon, T.L. (2003). White news, incognizant racism, and new production biases. Review of Communication 3(3), 216-219. e Silva, R. T., Marçalo, M. J., & Lima-Hernandes, M. C. (2025). Lexicon pluricentrality and pluricircularity in Portuguese language varieties. Portuguese grammar: Usage-based perspectives, 4, 35. Edy, J. A. (2006). Troubled pasts: News and the collective memory of social unrest.
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