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A emoção na linguagem verbal: das interjeições ao calão na Fala Bracarense

Teixeira, José

Abstract

No século de história da moderna Linguística pós-saussureana, a dimensão lógica e racional das línguas foi a vertente tida como o principal elemento estruturador, enquanto outros, mais ligados à emotividade, vistos como de menor importância. As interjeições foram, assim, uma categoria nitidamente negligenciada, porque tidas como elementos marginais da estrutura do sistema linguístico que apenas servem para revelar uma parte da dimensão emocional das línguas. Ora essa dimensão pode atingir limites considerados não deverem ser ultrapassados, como os que distinguem a língua aceitável das palavras normais da inaceitável das palavras não normais, dos “palavrões”, da linguagem do calão. E como muitas das interjeição roçam ou se apoiam em “palavrões”, o interesse por estas duas áreas das partes do discurso tem sido bastante refreado, funcionado este pouco interesse como a cerca sanitária que impede a contaminação do que verdadeiramente deve interessar às ciências da linguagem. No entanto, quando a Linguística se debruça sobre a língua quotidiana real e não apenas sobre a dos textos formais, a dimensão emotiva, as interjeições e o calão mostram como, para tentar perceber o funcionamento real das línguas, o estudo da dimensão emotiva não pode ser completamente afastado. Assim, a partir de um corpus oral de 90 entrevistas integradas no projeto Perfl Sociolinguístico da Fala Bracarense procurar-se-á mostrar a importância das duas componentes (as interjeições e o calão) como essenciais, não apenas para a caraterização da variedade de fala da região de Braga, mas, igualmente, para percebermos o funcionamento das línguas holisticamente consideradas.

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Xosé Manuel Sánchez Rei (editor) 13 mOnOgRafía Estudos sobre gramática e sociolingüística galego- -portuguesas Estudos sobre gramática e sociolingüística galego-portuguesas Xosé Manuel Sánchez Rei (editor) 13 Grupo de Investigación Lingüística e Literaria Galega Directores: Teresa López Fernández (Universidade da Coruña) e Xosé Manuel Sánchez Rei (Universidade da Coruña) Secretario: Carlos-Caetano Biscainho-Fernandes (Unversidade da Coruña) Edita: Servizo de Publicacións da Universidade da Coruña Depósito Legal: C 1601-2021 ISBN: 978-84-9749-819-7 Distribúe: Consorcio Editorial Galego: [email protected] Deseño: Torné Asociados Maquetación: Antonio Souto 3 13 Índice xeral Introdución Xosé Manuel Sánchez Rei 7-16 Lingua de calidade: un concepto integrador para tender pontes e superar as diferenzas entre isolacionismo e reintegracionismo Neal Baxter 17-26 Actitudes e aptitudes en relación á lingua galega do profesorado novo do ensino secundario: contributos desde unha experiencia no mestrado profesionalizante (2013-2021) Carlos-Caetano Biscainho-Fernandes 27-48 Ainda os marcadores apresentativos em Português Europeu: imagina, repara e olha Isabel Duarte 49-65 Revertendo o proceso de substitución lingüística: a figura do suxeito neofalante na Galiza actual María Fernández Zas 67-85 Entre a fonética e a sintaxe: crase, combinación de unidades lingüísticas e segmentación copulativa nas secuencias rimáticas das cantigas Manuel Ferreiro 87-105 A obra de Xosé Ramón Freixeiro Mato: unha sede nacional para a lingua galega María Pilar García Negro 107-115 Traduçom de qualidade e galego de qualidade: a propósito do tratamento tradutivo das denominaçons vernáculas de organismos na prosa ficcional Carlos Garrido 117-139 A lingua galega en Internet após dúas décadas Xavier Guinovart 141-156 O sufixo -az no galego-portugués medieval Xoán Luís López Viñas 157-178 Análise sociolingüística e tradutolóxica das versións do inglés realizadas pola irmandiña María Luz Morales María Jesús Lorenzo-Modia 179-190 Antonio Benito Fandiño e o Entremesiño do Antroido pr’os rapaces (1813) Ramón Mariño Paz / Damián Suárez Vázquez 191-204 Contextos de uso do marcador discursivo pronto e ethos discursivo Maria Aldina Marques 205-219 Índice xeral 4 13 Partículas vocativas de origem nominal no galego, português e romeno Aurélia Merlan 221-241 O humor gráfico como estratexia social fronte ás ideoloxías lingüísticas hexemónicas. Unha nota sobre a historia sociolingüística do galego Estefanía Mosquera Castro 243-258 Da norma, da norma linguística e do português do Brasil Sandra Pérez López 259-273 O léxico do Romanceiro frente ao léxico da Lírica Cortês: convergências e divergências Natália Pires 275-292 Escrita e oralidade pela análise de espectrogramas: fenómenos fonéticos individuais, comunitários e gerais Helena Rebelo 293-314 A concorrência ponta, ponto vs. punta, punto, e similares. Breve aproximaçom José Luís Rodríguez 315-331 Da subalternidade da língua galega no período autonómico Roberto Samartim 333-350 Algúns aspectos da sintaxe dialectal portuguesa dos inicios do século XX e a súa correspondencia co galego Xosé Manuel Sánchez Rei 351-368 Fontes de uma herança histórico-cultural portuguesa: os registos foraleiros manuelinos Olinda Santana 369-388 A emoção na linguagem verbal: das interjeições ao calão na Fala Bracarense José Teixeira 389-409 Para Xosé Ramón Freixeiro Mato, amante dos líricos acentos da nosa lingua e excelente coñecedor das cativantes falas en que ela se manifesta 389 13 A emoção na linguagem verbal: das interjeições ao calão na Fala Bracarense José Teixeira CEHUM Universidade do Minho Resumo: No século de história da moderna Linguística pós-saussureana, a dimensão lógica e racional das línguas foi a vertente tida como o principal elemento estruturador, enquanto outros, mais ligados à emotividade, vistos como de menor importância. As interjeições foram, assim, uma categoria nitidamente negligenciada, porque tidas como elementos marginais da estrutura do sistema linguístico que apenas servem para revelar uma parte da dimensão emocional das línguas. Ora essa dimensão pode atingir limites considerados não deverem ser ultrapassados, como os que distinguem a língua aceitável das palavras normais da inaceitável das palavras não normais, dos “palavrões”, da linguagem do calão. E como muitas das interjeição roçam ou se apoiam em “palavrões”, o interesse por estas duas áreas das partes do discurso tem sido bastante refreado, funcionado este pouco interesse como a cerca sanitária que impede a contaminação do que verdadeiramente deve interessar às ciências da linguagem. No entanto, quando a Linguística se debruça sobre a língua quotidiana real e não apenas sobre a dos textos formais, a dimensão emotiva, as interjeições e o calão mostram como, para tentar perceber o funcionamento real das línguas, o estudo da dimensão emotiva não pode ser completamente afastado. Assim, a partir de um corpus oral de 90 entrevistas integradas no projeto Perfil Sociolinguístico da Fala Bracarense procurar-se-á mostrar a importância das duas componentes (as interjeições e o calão) como essenciais, não apenas para a caraterização da variedade de fala da região de Braga, mas, igualmente, para percebermos o funcionamento das línguas holisticamente consideradas. Palavras-chave: Língua e emoção; interjeições; calão; língua oral; partes do discurso. Emotions and language: from interjections to slang in Braga´s Speech Variety Abstract: After one hundred years of post-Saussurean Linguistics, the logical and rational dimension of languages is still considered their main structuring element, while other elements, more linked to emotion, continue to be seen as less important. José Teixeira 390 13 Thus, interjections were clearly a neglected category, because they were seen as marginal elements of the structure of the linguistic system, only serving to reveal a part of the emotional dimension of language. Nevertheless, this emotional dimension can reach limits that are considered that should not be exceeded, such as those that distinguish the acceptable language of normal words from the unacceptable language of non-normal words, curse words and slang. As many of the interjections touch or rely on curse words, the interest in these two areas of the parts of speech has been quite restrained, functioning this minor interest as a sanitary barrier that prevents the contamination of what is thought to really matter to language sciences. However, when we look at the real everyday language and not just that of formal texts, the emotional dimension, interjections and slang show how, in order to understand the real functioning of language, the study of the emotional dimension cannot be ruled out. Thus, based on an oral corpus of 90 interviews, integrated in the Sociolinguistic Profile of Braga´s Speech Variety project, we will try to show the importance of these two components (interjections and slang), not only for the characterization of the speech variety of the region of Braga, but also to understand the functioning of languages at a holistic level. Key words: Language and emotion; interjections; slang; oral language; parts of speech. A emoção na linguagem verbal: das interjeições ao calão na Fala Bracarense 391 13 1. Línguas e racionalidade As ciências da linguagem de pendor cognitivo reabriram múltiplas dimensões na análise e explicação dos fenómenos linguísticos, sobretudo nas dimensões ligadas ao papel da emotividade nas línguas. Numa obra marcante, que aborda a relação entre o significado linguístico e as vivências humanas (Lakoff & Johnson, 1999), logo na “Introdução”, que se intitula “Quem Somos Nós” (Who Are We?), os autores procuram demonstrar como as Ciências Cognitivas reanalisam e alteram as perspetivas tradicionais do pensamento da chamada “civilização ocidental”, afinal as bases em que assenta toda a nossa tradição científica. Na verdade, há, sobretudo, três axiomas que pareciam inquestionáveis, até aos finais do século XX, para explicar a natureza humana: a importância da racionalidade, a necessidade da dimensão do pensamento consciente e a valorização da comunicação o mais objetiva e rigorosa possível, por oposição à informação-comunicação criativa e metafórica. No entanto, as primeiras linhas do primeiro capítulo da citada obra estilhaçam estes axiomas, contrariando mais de dois mil anos da supervalorização da racionalidade e defendendo que a forma como nos vemos se irá alterar radicalmente através da perspetiva cognitiva: The mind is inherently embodied. Thought is mostly unconscious. Abstract concepts are largely metaphorical. These are three major findings of cognitive science. More than two millennia of a priori philosophical speculation about these aspects of reason are over. Because of these discoveries, philosophy can never be the same again (Lakoff & Johnson, 1999: 4). Com efeito, a Linguística surge, nas primeiras décadas do século XX, herdando uma visão das línguas como estruturas essencialmente humanas, e portanto vistas como intrinsecamente racionais.1 O estruturalismo europeu busca, então, construir uma Linguística formal e objetiva, imitadora das ciências naturais. Na América, surge a visão da língua como um algoritmo de regras passíveis de serem formalizadas em moldes objetivos, moldes tidos como ideais para a construção de uma ciência no verdadeiro sentido do termo, que descartasse o obstáculo da subjetividade humana. 1 A Gramática de Port-Royal é, desde o título que toma, exemplo das conceções da língua como intrinsecamente racional. É nessa almofada da racionalidade (Grammaire Raisonnée) que as gramáticas posteriores se irão constituir, até ao comparativismo do século XIX, no qual se forma Saussure. José Teixeira 398 13 sido bastante limitada. Não admira, por isso, que a das interjeições, pertencentes sobretudo ao domínio da oralidade, tenha sido a categoria mais negligenciada, como diz Ameka. Acrescentando-se a particularidade de terem uma representação gráfica difícil (muitas até utilizam sons que não são fonemas) explica-se, em boa parte, a razão da negligência. As investigações através de corpora orais deveriam alterar a situação, mas isso nem sempre tem acontecido, porque, muitas vezes, nem anotadas são! Ainda que essenciais no discurso da oralidade, passam despercebidas, ou são secundarizadas, na recolha do pesquisador. Vamos tentar demonstrar estes aspetos através do corpus que serve de suporte a este texto. É constituído por um conjunto de entrevistas orais que procuraram recolher o modo de falar do espaço urbano de Braga5. Todo o processo de transcrição da oralidade para a escrita foi testemunha da tradicional subvalorização das componentes de reforço expressivo. Foi nestas componentes que houve mais hesitação e debate sobre quais e como se deveriam transcrever. Quando não existia padronizada uma forma ortográfica, cada transcritor, de início, ia seguindo a sua metodologia particular: por vezes fazia a transcrição aproximada do som onomatopeico, outras vezes inseria apenas a indicação de “som com a boca”, “clique coronal” ou somente “onomatopeia”. 5.1. As interjeições A designada função fática da linguagem costuma ser apresentada como a que procura assegurar a manutenção do funcionamento do canal de comunicação entre o emissor e o recetor (“estás a ouvir?”, “está lá?”) e indicada como detendo pouca importância discursiva. No entanto, ela está também ligada à manifestação de empatia entre emissor e recetor e testa se essa empatia se mantém positiva ou se altera. Ora na oralidade, é importante manter um feedback constante entre os participantes para que cada um esteja consciente das posições do outro, e, por isso, os elementos que expressam as posições de concordância / discordância são bastante frequentes. Só que nem sempre através de verbalizações formais do género “estou atento ao que estás a dizer”, “percebo / concordo com o que estás a dizer”, mas preferentemente através de elementos discursivos equivalentes, muito “condensados” fonologicamente, embora bastante fortes emotivamente. E são as interjeições os elementos que cumprem, em grande parte, este papel fático na interação discursiva. Pode servir de exemplo, para este funcionamento, o Hum-humn!da pessoa que conduzia a entrevista. Desde que seja considerado como palavra, passa a ser a 5 Projeto de investigação apoiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, denominado Perfil Sociolinguístico da Fala Bracarense (referência FCT PTDC/CLE-LIN/112939/2009, desenvolvendose de 2011 a 2014). A emoção na linguagem verbal: das interjeições ao calão na Fala Bracarense 399 13 palavra mais frequente de algumas entrevistas (por exemplo da 78M3D)6. Isto quer dizer que uma transcrição que não considere este elemento como relevante corre o risco de não reparar na “palavra”(?) mais frequente da interação discursiva. Realmente, há razões para este Hum-hum! não ser considerado uma palavra. Não é composto pelos fonemas do sistema da língua; é realizado como nasal com os lábios fechados; é ignorado pela lexicologia tradicional; normalmente sobrepõe-se ao discurso do interlocutor (é usado enquanto o outro fala) e a escrita tradicional considera, por norma, apenas uma linha sintagmática e não entende como normal a realização de enunciados sobrepostos, como maioritariamente acontece com este elemento7: 78M3D 106 [04:30.3] 107 [04:31.9] 108 [04:32.3] Ent2 [v] Hum hum. Fal78 [v] porque eu tinha faltado oito dias e eu disse: - Eu vou faltar oito dias, Outras vezes, aparece num espaço de hesitação do interlocutor e possui a função de mostrar interesse pelo discurso do outro, permitir que o mesmo complete a estrutura frásica, ainda não terminada: 78M3D 19 [00:49.2] 20 [00:49.7] Ent2 [v] •• Hum hum. Fal78 [v] com os meninos •• da catequesse. Reparando nesta tão frequente interjeição (por vezes a “palavra” mais utilizada na entrevista), vemos que ela não contém apenas a dimensão fática de constatar que se continua a comunicar, mas denota igualmente uma posição valorativa sobre o discurso do outro. Por isso mesmo, é que esta interjeição pode ganhar grande relevo. Ela não é normalmente aceite numa interação como, por exemplo, quando um entrevistador televisivo leva um candidato político a justificar os seus 6 Cada entrevista é referenciada através de um código (por exemplo 78M3D) constituído por um número (número da entrevista), uma letra (M para Mulher ou H para Homem), um número de 1 a 4, representando a faixa etária (1 = até 25 anos; 2 = 26 a 59 anos; 3 = 60 a 75 anos; 4 = + de75 anos) e uma letra representando a escolaridade (A = sem diploma, 0 a 3 anos de escolaridade; B = 4 a 9 anos de escolaridade; C = 10 a 12 anos de escolaridade; D = Licenciados). 7 Elementos e significado da transcrição: 78M3D = código da entrevista: falante 78, Mulher, faixa etária 3, escolaridade D; ..106 [04:30.3] = momento 106 da entrevista que acontece aos 4 minutos 31 segundos e 3 décimos de segundo; Ent2 [v]= faixa sonora das intervenções do entrevistador; Fal78[v]= faixa sonora do falante / entrevistado. José Teixeira 400 13 procedimentos. Esta microssequência discursiva, que normalmente é acompanhada com um acenar vertical da cabeça, significa concordância, e manifesta bastante empatia e assentimento entre os interlocutores que a usam. Pode, portanto, dizerse que é uma interjeição, não apenas de empatia, mas de simpatia, na medida em que a etimologia da palavra aponta para “emoções concordantes” (do grego syn = conjuntamente + pathos = emoção). Mas cada interjeição não possui apenas um valor emotivo. Por exemplo, a interjeição que prototipicamente representa o lamento (e, ao contrário da anterior, não apresenta qualquer dificuldade em ser grafada e englobada na vertente escrita do discurso) é o tradicional Ai!: Figura 1: mancha sonora de um “ai!” na entrevista 9H1D Repare-se na mancha sonora: este “ai!” é um enorme desabafo, valendo, aqui, “o que tenho sofrido!”: o espaço de silêncio anterior ao seu uso e a intensidade e duração (mais de meio segundo, o que é muito tempo para uma sílaba!) são mecanismos para reforçar o queixume da interjeição. Os valores, noutros contextos, são diferentes, mostrando um variado leque de possibilidades que um “ai!” permite. Frequentemente, aparece combinado com vocativos relativos aos elementos participantes no discurso (Ai António!) ou com a invocação de entidades divinas (Ai Jesus!; Ai meu Deus!, entrevistado 69M3A). Nestes usos, pode dizer-se que as vertentes “queixume, lamento” também estão presentes, mas vendo outros, na mesma entrevista, reconhece-se-se uma menor força deste valor de queixume/lamento em Ai (entrevistado 69M3A): 1) Ai, tu tens o teu dinheiro. 2) Ai, isso isso é para o teu irmão que o teu irmão é que 3) E eu… Ai, foi para/ quando eu ia para a minha irmã, 4) Digo assim: - Ai, vem aí o meu homem. 5) Ai, eu fiquei-lhe com uma gana! 6) • • • Ai, fiquei-lhe com uns nervos! Se em 5) e 6) o Ai traduz prioritariamente queixa (é um Ai de raiva...), em 1) é de lamento, mas também de chamada de atenção sobre uma situação. Aqui, o Ai transmite uma posição de não concordância: Ai, tu tens o teu dinheiro = Tu tens o teu dinheiro, mas não é agradável para mim dizeres-me isso. Este valor é caraterístico A emoção na linguagem verbal: das interjeições ao calão na Fala Bracarense 401 13 da construção Ai é?! = Tu pensas isso, mas eu acho que não! Em 3), o valor é o de lamento por, quem o usa, não se lembrar daquilo que o discurso exigiria, equivalendo a Ai caramba, não me lembro bem! Já em 2) e 4), o Ai traduz, sobretudo, o de “chamada de atenção”. Pode dizer-se, portanto, que os valores prioritários desta interjeição se centram nos de lamento e chamada de atenção. Ora a propósito destes valores, este corpus da Fala Bracarense mostra que também outras verbalizações, normalmente não vistas como interjeições pela ortografia, podem ser inscritas nas interjeições de lamento: 78M3D .. 527 [24:52.5] Fal78 [v] me de ter visto a coroação da rainha Isabel •• segunda, •• ((onomatopeia)) para aí .. 528 [24:56.4] Fal78 [v] quê, um mês depois de ela ter sido coroada ou dois. •• E esses documentários •• A onomotopeia não foi transcrita através de forma gráfica própria, porque a norma gráfica não tem forma de o fazer. A onomatopeia assinalada corresponde a uma realização que poderia ser transcrita por [pbhhhhhh] (som parecido com um sopro, que começa com os lábios em oclusiva surda e depois abre em sonora prolongada) e que apresenta, globalmente, o valor de “infelizmente não sei há quanto tempo; mais ou menos...”. É um valor de lamento, de quem fala, sobre si mesmo. Usa-se, também, em contextos como “[pbhhhh]...olha o chato que aí vem!”. A nível sonoro, difere muito de outras interjeições de lamento, por exemplo quando o lamento se destina a manifestar pesar perante o que o interlocutor diz, como em –O João teve um acidente. –[tshhhhhhhh] Coitado! Há, igualmente, outras interjeições que dificilmente serão aceites como elementos grafáveis, já que são compostas por sons exteriores ao sistema fonológico da língua. No corpus do falar bracarense é interessante verificar que, como o transcritor tinha a obrigação de representar todos os elementos sonoros usados no discurso, inseriu a indicação de que havia uma onomatopeia: 29H3C .. 199 [10:48.4] Fal78 [v] tristes era •• passar em frente à arcada, Rua •• ((onomatopeia)) •• ((hesitação)) Esta indicação ((onomatopeia)) aqui corresponde a [<ts] (forma que não pode ser representada pela grafia por não ser composta por fonemas do português). Por vezes, aparece referido como clique coronal ou clique apicoalveolar, e tem uma José Teixeira 402 13 pronúncia retroflexa .O Dicionário Houaiss (2001, s.v.) regista-a como interjeição, com a forma [ts] ou [tsc] e define-a como “ruído que se faz com a língua no céu da boca, para exprimir contrariedade ou reprovação”. Parece não ser tão palatal (“céu da boca”) como refere o Dicionário Houaiss, mas mais alveolar. Porém, escrevendo-a [ts], pode dar-se a ideia que é constituída por algo semelhante àqueles dois sons, quando, na realidade, é pronunciada retroflexamente, “para dentro”8. A indicação do valor “contrariedade” tem um raio significativo de variação. Com bastante frequência, é a contrariedade e lamento perante algo que se passa consigo mesmo (não se lembrar, por exemplo, do nome da rua, como na passagem anterior). Por isso, com alguma regularidade, aparece a preceder expressões “como é que hei de dizer”, ou outras semelhantes: 29H3 726 [37:42.1] .. 727 [37:44.4] Fal 69 [v] •• E então ((hesitação))… ••• ((onomatopeia)) Como é que eu hei de dizer? Mas também poderá ser um lamento por algo inevitável, mas que tinha mesmo que ser assim (não havia nada a fazer: se os alunos não se comportassem bem, tinham que ir ao diretor receber um castigo): 78M3D .. 1463 [68:24.6] Fal78 [v] Se eles passassem de determinado limite, •• ((onomatopeia)) •• senhor diretor. equivale a “Se eles passassem de determinado limite, [<ts]=(lamento mas tinha que fazer algo desagradável) (eu mandava-os: vão ao) senhor diretor”. O [<ts] pode corresponder também a um lamento por algo triste que aconteceu e que deveria ter sido evitado (“[na guerra] estávamos ali a fazer ou a defender... [<ts]”, falante 29). Esta interjeição (parece-nos poder defender-se que é um elemento pertencente a esta categoria) contribui bastante para a economia linguística, na medida em que a sua presença permite inferir muito do discurso não realizado. No exemplo seguinte, equivale a “não podemos fazer nada!”. Este valor de contrariedade, por reconhecimento de impotência de ação, não aparece de forma explícita no discurso. A mulher informa o marido que há um terreno à venda que seria muito bom comprarem. O discurso do marido é apenas apresentado como9 “[<ts] e ó 8 Para assinalar essa caraterística absolutamente essencial, grafa-se aqui como [<ts], pretendendo o sinal [<] indicar a inversão retroflexa do fluxo de ar na articulação alveolar que é representada pelo t. 9 Na transcrição, como se vê, aparece apenas ((onomatopeia)) A emoção na linguagem verbal: das interjeições ao calão na Fala Bracarense 403 13 mulher...” e mais nada. A entrevistada acredita que o ouvinte deduz todas as inferências a partir da interjeição e do vocativo: “[<ts] E ó mulher...”, equivalendo a “tenho pena, mas o que é que podemos fazer?”. A interjeição [<ts] é destacada pelos espaços de silêncio antes e depois e pela forte intensidade sonora, bastante maior do que a das outras unidades do contexto (ver Figura 2, que retrata o registo sonoro). Figura 2: Interjeição retroflexa [<ts] na entrevista 69M3A 5.2. Emoções e “palavrões” do falar bracarense Quando Müller (1862: 336) afirma que a linguagem começa onde as interjeições acabam, está a apoiar-se na visão tradicional de que as interjeições não fazem parte da língua propriamente dita, são elementos marginais a que a grafia pode, por vezes, permitir (mas apenas a algumas) o poderem aparecer como elementos paralinguísticos. Parece-nos, no entanto, que a interjeição não pode ser vista como acessória ou marginal à totalidade do discurso. Não é a língua que começa onde as interjeições acabam: as interjeições também começam, continuam ou acabam o que a (outra parte da) língua nos permite no discurso. Elas possibilitam um conjunto muito importante de inferências, pois revelam perspetivas e pontos de observação sobre as posições emotivas do locutor. Ora a captação das emoções no discurso não é um elemento secundário na comunicação, como a tradição linguística de cunho estruturalista pensava, mas, talvez, uma das vertentes fundamentais da intercomunicação verbal, como as perspetivas cognitiva e pragmática defendem. Não será por acaso que as interjeições se interligam tão profundamente com o calão, dimensão que alia a ignorada importância que tem às proibições a que está sujeito. O sufixo aumentativo que transforma palavra em palavrão revela isso mesmo: palavra grande, cheia de peso, com muita força, uma espécie de arma e que, por isso, precisa de contextos muito especiais para ser usada. Uma das questões incluídas nas entrevistas do projeto Falar Bracarense era se em Braga se falava de forma diferente das outras regiões do país. José Teixeira 404 13 Um entrevistado, morador no centro histórico da cidade (Freguesia da Sé) resume a perceção popular sobre a especificidade da fala da região de Braga10 dizendo que em Braga há outra “pronúncia”. Mas o que o entrevistado quer dizer com a “pronúncia” típica do Minho não se se relaciona, apenas, com a fonética. Para o Sr. António, a “pronúncia do Minho” é “falar mal” ou “a pronúncia dos carvalhos acima”: Sim, e depois não é nada. É que nós aqui falamos muito mal, nesta zona fala-se muito mal, nesta zona. É carvalhos e carvalhos acima, mais assado. É é o • • • é a pronúncia daqui do Minho (entrevista 13H2B) Com a expressão “carvalhos e carvalhos acima”, o Sr. António refere, obviamente, o calão, usando um termo parónimo do termo calão efetivo. O entrevistado manifesta a consciência da perspetiva social sobre o calão, porque se autodenomina (ele e os vizinhos, porque o usam habitualmente) “um ordinário”, ele e os outros da zona onde morava: Porque nós, nesta zona, o que é que a gente esperava nesta zona? É uma zona de rua dos ordinários, • • não é? Que tudo • • tudo o que tinha numa numa zona assim destas, assim históricas, • • não há ninguém que seja santinhos. É só palavrões abaixo, palavrões acima. Ai isso não venha quem vier. Agora nem tanto, que agora • • os vizinhos, a maior parte já não moram aqui, não é? Mas antigamente, Nossa Senhora, era isto era aquilo, ma • • • Ui, Nossa Senhora! Isto, • • era geral, não vamos estar: • • - Eu sou um santinho. Não, não sou! Eu era era ordinário, também. • •• • Isso é que é assim mesmo, eu era ordinário • • (13H2B) A tradição liga, realmente, o calão a “ordinarice”. No entanto, o interesse que a linguística de matriz cognitiva e a psicologia têm sobre a relação entre linguagem e emoções mostram que o fenómeno do calão é mais complexo do que uma análise superficial e tradicional apresentava11. Em certos contextos de uso, a vertente da emotividade é muito mais importante do que a da ofensa ou agressividade, que pura e simplesmente pode nem sequer existir. Como defende o célebre psicolinguista norte-americano Pinker (2008: 406), “os tabuísmos, embora remetam aos aspectos mais repugnantes de seus referentes, não obtêm sua força só dessas conotações. O próprio status de tabuísmo dá à palavra um vigor emocional, independentemente do referente”. Ora é precisamente esta a dimensão habitual do uso popular do calão na fala bracarense. Não aparece para insultar ou agredir, mas como uma espécie 10 A entrevista ocorreu na freguesia da Sé, Braga, em 11 de abril de 2012. O entrevistado era do sexo masculino, 59 anos, reformado e com o 9º ano de escolaridade. 11 Nas últimas duas décadas, sobretudo, o calão tem sido abordado segundo novas perspetivas. Os conhecimentos, cada vez mais aprofundados, que vamos tendo sobre os processos neuronais ligados à expressão da emoção permitem, atualmente, perceber o papel do calão na linguagem, para além da visão simplista tradicional que o considerava uma forma paralinguística afastada da linguagem “normal” (começar por ver, por exemplo, Pinker, 2008). A emoção na linguagem verbal: das interjeições ao calão na Fala Bracarense 405 13 de bordão de emotividade. Por isso mesmo é que, em muitos contextos, o calão bracarense não apresenta a dimensão tabu12, passando a valer como um marcador de expressividade emotiva13. É interessante notar como nesta zona bracarense há, precisamente, a consciência destes valores emotivos e não ofensivos. O Sr. António, embora se autodenomine um “ordinário” por usar palavrões, assegura que não são ditos por mal, mas que é “um dom” (no sentido de “uma caraterística”), o “dom da pessoa”. Quando a entrevistadora lhe pergunta se os palavrões são usados para insultar alguém, ele garante que não contêm nenhum rancor: Não é de rancor, não é? É às vezes estar na brincadeira: - Ai o• • • tal. • • Mas mas , lá está, mas não é com aquele rancor, não é? • • Isto é que é assim mesmo” (entrevista 13H2B) e que é apenas o dom da pessoa (“Já é o o dom da pessoa, já é o dom da pessoa”) (entrevista 13H2B). Para além da falsa ideia de que o calão é, em todos os contextos discursivos, apenas “ordinarice”, está a de que, na atualidade, desapareceu dos usos urbanos. Parece, no entanto, estar a acontecer o inverso, já que o calão está, hoje, muito mais presente na interação social do que em épocas passados. Atualmente, aparece também em registos mais formais, como literatura, jornalismo e uso em redes sociais públicas14. O que leva o Sr António a dizer que antigamente se usavam muitos mais palavrões é o facto de, nessa altura, ele conhecer quase todos os moradores vizinhos na zona histórica do centro da cidade onde vivia e por isso falava com eles de forma conivente com o uso do calão. Mas, na atualidade, os antigos vizinhos já não moram lá e por isso ele já não tem a mesma familiaridade para usar calão (“Agora nem tanto, que agora • • os vizinhos, a maior parte já não moram aqui, não é? Mas antigamente, Nossa Senhora!“, entrevista 13H2B). Esta entrevista ilustra como o uso do calão, na fala popular bracarense, é algo de quase natural, de que o falante nem tem, muitas vezes, a consciência. Ao minuto 54’ 08’’ da entrevista (13H2B), logo a seguir a ter dito que antigamente, com os vizinhos, dizia muitos palavrões e por isso era “ordinário”, a entrevistadora perguntou-lhe se, na entrevista que estava a terminar, ele tinha feito um esforço para evitar usar palavrões (Então o senhor agora tentou não dizer muitos palavrões). 12 “As palavras também podem perder o caráter de tabu com o tempo.” (Pinker, 2008: 374). 13 Embora se possa objetar, com razão, que a maioria dos palavrões não é nem um pouco original [...] é possível observar certa afinidade com a poesia. Em ambos os campos os termos usados têm forte carga emocional e são bastante metafóricos (Hughes, 1991: 22) 14 Gonçalves (2016). José Teixeira 406 13 Segundo o entrevistado, Sr. António, ele não tinha usado nenhum! (Sim ! Penso que evitei todos, evitei tudo.). A entrevistadora não evitou o riso e o entrevistado intuiu, perante isso, que talvez “algum” tivesse escapado (Já podia ter fugido algum. Mas se calhar disse mesmo). Fugiram mesmo alguns, ao longo da entrevista: a, pá. • • - Ai, mãe! Digo assim: - Ai o caralho ! - Que isto vai… • • Eu era quarteleir o gajo meu colega fazia: - Ó Piri, • • caralho pá, empresta-me empresta-me uma roupa d • • Eu digo: - Não, senhor guarda, • • caralho • • ainda agora/ estou agora a vir de cia na avenida, vou-lhe estourá-lo todo, caralho ! Olhe, fugiu agora uma palavra. • - Anda aqui, mais aqui. • • - Raça do caralho ! ((incompreensível)) • • E tudo a diz E tudo a dizer que (é) raça raçaraçado caralho ! Digo: - Não. • • • - Andá cá tu, ó p era? Era um polícia. • • Eu: - Fugi, caralho , que é a polícia! • • E dizia o gajo, ( reensível)) : - Quem é e tal. • • E • • caralho , mal entrámos lá… - Oh, bonita: - Anda depois os pais recebiam os contrafés: - Caralho , Rabo? - Gugunana? E rasgavam os cont Repare-se que o falante está numa situação semiformal. Ao mostrar que não tem consciência da utilização que fez do calão, demonstra como, na maior parte das vezes, o respetivo uso não tem uma dimensão intencional e ofensiva. Na verdade, em muitas outras entrevistas, se nota que a consciência do uso é posterior à verbalização, e, tendo o falante a consciência da situação de alguma formalidade em que está, tenta evitar o termo do calão, realizando-o apenas até metade (Falante 80: “o meu filho mais velho também foi um bom... cara/... Ai, aquele também gozou bem a mocidade”; Falante 12: “pró diabo. Oh cara/... Maldita palavra que eu dei.”). Outras vezes, tenta evitar o calão, mas, sem o conseguir, imediatamente se procura corrigir (Falante 12: “o meu pai só estragou/ fodeu/ deu cabo de tudo”). Nota-se, variadas vezes, o desejo de evitar o calão que, se a conversa fosse fora daquele contexto semiformal, muito mais vezes apareceria. Por exemplo, a falante 80, mulher, consegue parar no limite do uso da palavra calão: “Ai, era umas dores do ((hesitação)) …”. Por isso, a listagem de calão recolhido nas entrevistas da fala bracarense15, não é ainda mais extensa porque os entrevistados se tentaram conter. Quando ganhavam mais um pouco de à-vontade, acontecia maior fluência. Note-se o que se passou com o falante 35. Durante toda a entrevista não tinha usado calão, mas nos minutos finais, depois de uma hora de conversa, com mais familiaridade com as entrevistadoras, o calão aparece bem explícito: “é que vai uma crise • • do caralho [...] querem é encher o cu para eles e foder os outros”. A variedade e naturalidade do calão é assumida, sobretudo, por homens e mulheres habituados às vivências mais tradicionais das épocas mais antigas. Os próprios explicitam a ideia de que falar assim (usar palavrões) faz parte do normal falar 15 Por não ser possível apresentar, aqui, a listagem recolhida das ocorrências dos usos do calão na Fala Bracarense, inserimos a seguir, na Figura 3, um gráfico que sintetiza o número das mesmas. A emoção na linguagem verbal: das interjeições ao calão na Fala Bracarense 407 13 do verdadeiro português e por isso, quando se usa (mesmo que seja uma mulher), ninguém se deve ofender: “Que elas [as raparigas jovens] agora mostram-lhes [aos rapazes] o cu! Com licença. Eu sou portuguesa, não tome a mal” (Falante 83). Ou como dizia a falante 83, somos portugueses (do Norte...) e não se pode levar a mal. O gráfico da Figura 3 sintetiza, nas entrevistas da Fala Bracarense, em número de ocorrências, os usos dos termos “mais calão” e dos eufemismos que o substituem. 10 20 30 40 50 60 1 picinhas 1 mandar àquela banda 1 coirões 1 borrado 1 filho da mãe 1 filho da polícia 2 racha(dela) 2 filha de uma puta 3 puta 3 caraças 3 (ir para o) carvalho 4 estupor 5 cu 6 Poça! 9 merda 12 foder 12 porra 12 raios (partam) 23 caralho 31 carago 60 Fogo! 0 Figura 3: Número das ocorrências dos termos ligados ao calão nas entrevistas 6. Conclusão: linguagem e emoção No início deste texto, partimos de três ideias estruturantes e radicalmente diferentes que a visão cognitiva tem sobre o fenómeno da comunicação linguística (Lakoff & Johnson, 1999): a mente não corresponde à ideia cartesiana de ser o oposto do corpo, mas uma forma de lidar com ele, pois temos uma mente corporizada, o pensamento não é estruturalmente racional e consciente, mas essencialmente inconsciente e os conceitos mais complexos são construídos metaforicamente. É certo que poucas décadas desta mudança de perspetiva não permitem que tomemos, para já, consciência plena do que isto implicará na compreensão de nós