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Francisca Vieira Campos Marafona Graça Como a pandemia influenciou o funcionamento das redações televisivas: o caso do Porto Canal Dissertação de Mestrado Mestrado em Ciências da Comunicação Informação e Jornalismo Trabalho efetuado sob a orientação de Professora Doutora Maria Helena Costa Carvalho Sousa Outubro 2022
DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
v Agradecimentos: A minha caminhada termina agora. Cinco anos depois de iniciar o meu percurso académico à procura do sonho, finalmente chegou o momento de sentir que o dever foi cumprido. Mas nada do que fiz teria sido possível sem algumas pessoas que se cruzaram na minha vida e, por isso deixo aqui o meu mais sincero agradecimento: À minha família, pelo apoio incondicional que sempre demonstraram. À minha irmã, por ter sido uma muleta nesta caminhada, a primeira a receber-me em casa de braços abertos e a partilhar comigo todos os momentos, fossem eles bons ou maus, um obrigada não chega para a pessoa que é metade de mim. À estrela que me guia em tudo o que faço na minha vida: a minha avó Mila. O pilar da minha existência, a que prometi nunca desistir e lutar pelo meu sonho até ao fim. A que me ensinou o que é resiliência e a quem devo tudo o que sou. Conseguimos, avó. Aos meus amigos, os antigos e os que se foram juntando a esta montanha-russa a que chamamos vida, por me mostrarem que nunca estava sozinha, por acreditarem em mim quando nem eu acreditava e por partilharem comigo todos os momentos com um sorriso na cara. A todos os professores que fizeram parte da minha vida académica, desde o primeiro ano até ao dia de hoje. A educação é algo que deve ser preservada e que sorte tive eu em todos os docentes, e não docentes, que me acompanharam nestes 17 anos de aprendizagem. À Professora Doutora Maria Helena Costa Carvalho Sousa, pela orientação dada, pelo carinho, disponibilidade e atenção. Pela paciência e pelos conselhos que fizeram com que este relatório fosse um bom “produto final” de anos de estudo. A toda a equipa do Porto Canal, pela receção calorosa, ensinamentos, paciência e por me terem sentido em casa. Um eterno obrigada por todas as experiências e amizades que ficaram. À Universidade do Minho, por ter sido uma “casa” no pouco tempo que estive em terras bracarenses, e por ter sido exatamente o que eu sempre esperei que fosse: desafiante e acolhedora. A tudo e todos os que fizeram deste momento possível: obrigada.
vi DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
vii Como a pandemia influenciou o funcionamento das redações televisivas: o caso do Porto Canal Resumo: A pandemia de Covid-19 veio alterar muita coisa numa sociedade que não estava preparada para um impacto tão significativo. De repente, as casas eram o lugar mais seguro e uma ida ao supermercado parecia tirada de um filme. Todos os setores sentiram alguma dificuldade de adaptação, e o jornalismo não foi exceção. Ao longo dos meses, e com um aumento do conhecimento sobre esta doença, algumas medidas restritivas foram gradualmente levantadas e a “normalidade” foi restaurada. Com o recurso à experiência na primeira pessoa num canal de televisão regional e com apoio a estudos científicos e entrevistas realizadas a profissionais da área, foi possível realizar este relatório de estágio que tem como principal tema perceber que mudanças foram sentidas nas redações televisivas, mais especificamente no Porto Canal onde foi realizado o estágio referente ao Mestrado em Ciências da Comunicaçãovertente de Informação e Jornalismo da Universidade do Minho. Palavras-chave: covid-19; jornalismo; redações televisivas; televisão
viii How the pandemic influenced the functioning of television newsrooms: the case of Porto Canal Abstract The Covid-19 pandemic changed a lot in a society that was not prepared for such a significant impact. Suddenly, homes were the safest place to be, and a trip to the supermarket seemed like something out of a movie. All sectors experienced some difficulty in adapting, and journalism was no exception. Over the months, and with increasing knowledge about this disease, some restrictive measures were gradually lifted and "normalcy" was restored. With the use of first-person experience in a regional television channel and with the support of scientific studies and interviews conducted with professionals in the area, it was possible to carry out this internship report that has as its main theme to understand what changes were felt in television newsrooms, more specifically in the Porto Canal where the internship related to the Master in Communication Sciences - Information and Journalism at the University of Minho took place. Key-Words: covid-19; journalism; television newsrooms; television
ix Índice Licença concedida aos utilizadores deste trabalho ...................................................... 4 Índice de figuras ...................................................................................................................... xi Introdução: ............................................................................................................................. 12 O Porquê do Porto Canal: ................................................................................................ 12 1-Experiência do estágio no Porto Canal .......................................................................... 13 1.1Descrição do Órgão de Comunicação ................................................................ 13 1.2Integração na Redação da Senhora da Hora: o papel do estagiário num canal de televisão .............................................................................................................. 16 1.3Experiência na Redação da Senhora da Hora: a divisão temática de um só estágio ................................................................................................................................. 17 1.4Jornalismo: A magia da “caixa mágica” desmistificada ................................ 19 1.5Primeira experiência como jornalista sem apoio ............................................. 23 1.6Produção na Senhora da Hora: o alicerce das emissões televisivas ............ 24 2No Dragão Arena: um canal, duas casas .................................................................. 26 2.1Produção no Dragão Arena: uma régie diferente ................................................ 28 2.2Última semana de estágio: ....................................................................................... 30 3Enquadramento Teórico ................................................................................................. 31 3.1Levantamento da questão científica: “Como a pandemia influenciou o funcionamento das redações televisivas: o caso do Porto Canal?” ......................... 31 3.2O que é a televisão e o seu contexto histórico ..................................................... 32 3.3O Processo Jornalístico ............................................................................................ 35 3.4O que foi a pandemia de covid-19? ........................................................................ 36 3.5Como é uma redação de televisão? ....................................................................... 36 3.6Comparação entre passado e presente: o que o covid veio alterar? ............... 37 4Metodologia de Investigação .......................................................................................... 40 4.1Como os jornalistas do canal viram a pandemia influenciar o trabalho jornalístico? ........................................................................................................................ 40 4.2Aspetos mais relevantes das entrevistas realizadas ........................................... 41 4.3Análise das mesmas nas características comuns e divergentes ...................... 44 5Apreciação global ao estágio .......................................................................................... 45 5.1Relação entre universidade e estágio .................................................................... 45 6Anexos ................................................................................................................................. 46
16 Tal cenário já não se verifica na redação do Dragão Arena, onde os cenários são fixos e originais em cada época desportiva. 1.2Integração na Redação da Senhora da Hora: o papel do estagiário num canal de televisão Os primeiros dias foram de muita adaptação, observação e ligeira dificuldade. A equipa de jornalistas que me recebeu foi atenciosa e tentaram ao máximo incluir-me nas atividades e processos jornalísticos possíveis, mas como era um período de férias para outros jornalistas, a redação necessitava do esforço de todos, pelo que nem sempre havia tempo ou disponibilidade para ajudar. Além deste fator, também o facto de nos encontrarmos em pandemia e ainda haver muitas restrições não ajudou na total integração inicial. Passei várias horas a tentar perceber o que fazer e como poderia ajudar, porque mesmo questionando nem sempre era fácil organizar a agenda incluindo os estagiários, que nesta fase eram três (comigo inclusive). No entanto, apesar de certas dificuldades, tenho a agradecer aos jornalistas que me receberam e que logo nos primeiros momentos me fizeram sentir parte da equipa. A primeira semana foi a mais complicada, mas depois de adaptada às normas e funcionamento do canal, já me sentia incluída no ambiente. O facto de o Porto Canal ser um canal regional ajuda a que a maior parte dos jornalistas sejam da zona norte do país e de uma faixa etária entre os 20 e os 50 anos, que fez com que a proximidade e a boa convivência fossem o normal de um dia de trabalho. Em termos profissionais, já me era confiado o microfone e inclusive eram-me dadas tarefas enquanto acompanhava as reportagens. Isto tudo na redação da Senhora da Hora. Ao fim de dois meses e meio, e depois de alguma insistência, consegui que me fosse dada a oportunidade de acabar o estágio na redação do Dragão Arena, dedicada ao desporto (área que também pouco dominava ou tinha experiência). A autorização foi dada e passados uns dias estava a entrar num sítio que acebei a chamar de “segunda casa”. A dinâmica do Dragão Arena era ligeiramente diferente da Senhora da Hora. O trabalho era realizado com mais leveza, os profissionais aproveitam e gostam genuinamente daquilo que fazem e criam um ambiente de trabalho muito mais acolhedor e em estilo “família”. Quando cheguei, foram-me logo apresentados todos os cantos à casa, desde a redação ao Arena, dos balneários às zonas restritas aos jornalistas e trabalhadores de lá. Ainda não tinha “aquecido a cadeira” depois da primeira reportagem em campo e já me estavam a convidar para um almoço.
17 Impossível não referir com mais cuidado e atenção esta redação e a integração neste local. Acabei por ganhar um afeto muito grande à redação, ao clube que já era do coração e às pessoas do Dragão Arena. De oito horas diárias que me eram pedidas fazer, cheguei a estar 14 horas em plena redação. Era, literalmente, uma segunda casa. Não passei tanto tempo na redação de desporto como passei na generalista, mas mesmo assim a proximidade foi muito maior e mentiria se não dissesse que não me custou vir embora. Mas até neste momento, não se despediram de mim com um “adeus”, mas com um “ate já” caloroso de quem acredita que ainda poderei voltar. Se dúvidas houvesse que o Porto Canal foi a melhor escolha que poderia ter feito para realizar o estágio de mestrado e um dos mais importantes na minha educação, ao fim de 3 meses não restavam. 1.3Experiência na Redação da Senhora da Hora: a divisão temática de um só estágio Sendo o Porto Canal um canal televisivo de informação generalista e desportiva, o meu estágio foi dividido em duas partes. Numa primeira fase (de agosto a outubro), estive na redação da Senhora da Hora, onde a incidência são os programas generalistas de informação e entretenimento, e onde comecei a desenvolver as minhas funções enquanto jornalista-estagiária. Inicialmente o meu trabalho consistiu em acompanhar os jornalistas em reportagens (“ Existe um género que contém em seu texto − ou pode conter − , todos e cada um dos demais géneros. É informativo, mas também opinativo. Pode tratar da atualidade, ainda que também permita a inclusão de algum texto de criação. Muitos autores consideram-no um híbrido entre os escritos informativos e os interpretativos, mas realmente trata-se da fusão de todos os géneros jornalísticos. É a reportagem.”) (Yanes, 2004, p. 25), e entrevistas (“ pode-se definir entrevista como “a técnica em que o investigador se apresenta frente ao investigado e lhe formula perguntas, com o objetivo de obtenção dos dados que interessam à investigação. A entrevista é, portanto, uma forma de interação social. Mais especificamente, é uma forma de diálogo assimétrico, em que uma das partes busca coletar dados e a outra se apresenta como fonte de informação” (Gil, 2008, p.109) para perceber como era feito o trabalho em televisão. Este acompanhamento era iniciado na preparação das questões que iriam ser colocadas posteriormente aos entrevistados, assim que se soubesse que iam acontecer.
18 Este trabalho de preparação consistia na pesquisa do tema\empresa\organização\pessoa que a entrevista ia consistir e, tendo em conta essa pesquisa, as perguntas eram estruturadas de forma lógica e organizada para haver um fio de condução durante toda a reportagem e facilitar o processo de criação da peça final. Alguns jornalistas preparavam estas questões com alguma antecedência, no entanto havia outros que (consoante a experiência ou o tema que podia ser repetitivo) não preparavam as questões e preferiam analisar a situação na chegada ao local e daí estipular as questões que muitas vezes vi surgirem naturalmente. Como o meu estágio iniciou em agosto, o que estava em atualidade eram as Eleições Autárquicas pelo que nas primeiras semanas de estágio, muito do meu trabalho foi acompanhar os políticos e candidatos em ações de campanha e “arruadas” (conceito utilizado pelos políticos para quando apenas andavam por ruas dos concelhos a fazer propaganda). No dia 17 de agosto, primeiro dia oficial do estágio, acompanhei uma das jornalistas numa reportagem no Mar Shopping Matosinhos, na inauguração da loja da Liga Portugal onde estiveram presentes celebridades como Pedro Proença e Helton. Na reportagem, tive também o direito, além de acompanhar de perto o trabalho da jornalista e do repórter de imagem, de elaborar perguntas para fazer aos presentes, no entanto foi a jornalista que as colocou. Após a reportagem, regressamos ao canal onde acompanhei a edição da peça, que posteriormente entraria no jornal da tarde, vendo de perto todo a preparação do texto, edição de imagem, sonorização e produto final. Neste dia foi-me também dado um “tutorial” do Adobe Premier (programa de edição de vídeo usado no canal) e algumas técnicas para facilitar o desenvolvimento e criação das peças televisivas (“ A reportagem (peça) divide-se em três tipos, com diferentes tempos (estes tempos não devem ser rígidos) e diferentes especificidades. Peça/Notícia (1min30); Pequena Reportagem (2’ - 3´00) são trabalhos mais extensos porque o assunto está na ordem do dia; Grande Reportagem (tópica e Intensiva)”. (UTAD TV, 2007, p.31) No dia seguinte, e já com bases mais sólidas na edição de vídeo, realizei a minha primeira tentativa de criação e edição de peça televisiva. O tema foi de desporto, editando uma peça sobre o Luís Filipe Vieira. Elaborei o texto, que foi depois corrigido pelos jornalistas e onde me deram indicações do que fazer e melhorar, sonorizei o texto corrigido com a ajuda de uma jornalista que me deu dicas de colocação de voz, entoação e respiração, e no fim criei a peça, cortando as imagens de vídeo, colocando o som a acompanhar o vídeo e fazendo os ajustes necessários. A peça não saiu
19 no jornal, mas foi elogiada pela qualidade tendo em conta que foi a primeira vez a editar vídeo e a criar uma peça para televisão. No terceiro dia foi-me introduzido o programa Dalet Digital Media Systems USA , que é usado pelo canal para produção dos programas e foi ensinado como se introduzia as peças e os off’s (“peças curtas, por norma só com imagens enquanto o pivot lê a notícia, Off é sequência de imagens sonorizadas pelo pivot.” (UTAD TV, 2007, p.44) e comecei a realizar off’s para ajudar as jornalistas que ficavam na redação a preparar os jornais do dia. Figura 2Redação Senhora da Hora captada pela estagiária 1.4Jornalismo: A magia da “caixa mágica” desmistificada A primeira ação de campanha que presenciei e acompanhei foi a de Ilda Figueiredo, candidata da CDU à Presidência da Câmara Municipal do Porto no Bairro da Maceda. Durante a manhã a candidata visitou um dos bairros mais problemáticos do porto e que precisava de obras com urgência. Depois de uma volta pelo bairro, a autarca candidata falou com os moradores de forma a entender os principais problemas e dificuldades vividos no bairro e quais as melhorias que procuravam. Antes de terminar, deu uma pequena entrevista ao Porto Canal e o jornalista deu-me
20 a oportunidade de ser eu a entrevistar alguns moradores, entrevistas essas que fizeram parte da peça final que saiu no jornal da noite (“Noite Informativa”). Neste momento coloquei em prática alguns dos ensinamentos ao longo da licenciatura e mestrado, tais como a criação de perguntas rápidas que fossem de encontro com o objetivo final da peça e com o assunto retratado, a colocação de voz aquando das questões, a posição como jornalista relativamente ao tripé e câmara, a comunicação que é necessária existir antes e depois com os entrevistados para que se sintam confortáveis para responder ao que é pedido, entre outras. Na chegada ao canal, foi-me indicado qual o formato das peças sobre as eleições autárquicas. O objetivo destas peças era dar a conhecer os candidatos à Câmara Municipal do Porto com a maior imparcialidade possível. Tentar esclarecer o que cada candidato andava a fazer nas arruadas e campanhas de rua e explicar, de forma coerente e simples para os espectadores, quais as propostas apresentadas e as medidas que pretendiam tomar. Apesar de toda a redação, ou seja, todos os jornalistas, estarem a realizar estas peças e cada um ter uma espécie de “estilo” de reportagem pessoal, todas as peças seguiam um fio condutor que começava por dizer qual era o candidato, o partido e o que tinha feito naquele dia. Seguia-se a descrição mais pormenorizada do evento, sempre acompanhado de imagens ilustrativas e de acordo com o que estava a ser descrito, e finalizava-se com as principais medidas para que ficasse na memória dos espectadores. Todas as peças, como é suposto em televisão, tinham entre um minuto e meio a dois minutos no caso de ser necessário explicar melhor alguma parte. Também acompanhei a ação de campanha da candidata pela CDU, Diana Ferreira, ao Centro de Logística de Canelas. Esta campanha centrava-se em valorizar a classe trabalhadora e do setor público e privado e, portanto, acompanhei não só a candidata a apresentar as propostas e ouvir as queixas dos trabalhadores, mas também presenciei um direto da jornalista que acompanhei, e, mais tarde e já em Matosinhos com outro candidato, foi-me dada a primeira oportunidade para realizar um falso direto (“Um directo serve para fazer um resumo do assunto do acontecimento, contar pormenores, dar informações. Serve também para assinalar a presença da estação televisiva no local do acontecimento”(UTAD TV, 2007, p.33), um falso direto é o equivalente só que não é transmitido na hora, sendo muitas vezes guardado para uso posterior ou como treino para estagiários. Como tinha presenciado um de manhã, limitei-me a tentar imitar a jornalista que depois da primeira tentativa sem qualquer orientação, me explicou algumas técnicas para fazer diretos e me deu liberdade de criar um texto, corrigir e em seguida gravar três “takes” para ter a maior experiência possível. A experiência foi aterrorizante uma vez que nunca tinha estado na
21 posição de estar à frente da câmara e, portanto, não sabia como reagir, qual a posição correta das mãos, cara, cabelo nem como conseguir conduzir o texto de forma coesa e sem me perder. Pelo menos dois dos takes foram cortados a meio, uma vez que estava a tentar decorar o texto que tinha escrito em vez de o deixar fluir naturalmente, e acabava por me perder e começar de novo. O último take correu relativamente bem, para primeira tentativa de falso direto, mas mesmo assim ainda havia um grande caminho para percorrer. Ao mesmo tempo que acompanhava os jornalistas em reportagens de autárquicas, fazia também trabalho de redação a ajudar quem ficava como responsável pelas edições. Nestas alturas fazia essencialmente off’s e “ TH ” (“ Talking Heads, consistem no corte de declarações de entidades ou pessoas que explicam e complementam a peça, por vezes são usadas unicamente como imagem de uma peça, sendo apenas introduzidas pelo pivot para contextualizar o conteúdo.” (Jornalistas do canal aquando do estágio, 2021). Na primeira semana limitava-me a fazer a junção de imagens, mas no fim da mesma já me começaram a dar mais responsabilidade de escrever algumas notícias, ainda que tivessem de ser sempre corrigidas antes de serem inseridas no sistema DALET . Este processo, por vezes, fazia com que alguns dos off’s realizados pelas estagiárias não entrassem nas edições porque não eram corrigidos a tempo. Este assunto foi discutido entre todas as estagiárias e com alguns jornalistas que nos acompanhavam e foi depois falado com a responsável pelos estágios e resolvido na medida do possível. Sendo que o estágio começou em agosto, altura em que muitos jornalistas aproveitam para tirar férias devido à falta de acontecimentos, ou pelo menos, menos do que no resto do ano, isto também influenciou o início do meu estágio. Na altura fazia o horário das 14h às 21h, e, portanto, só conseguia acompanhar o início da edição da noite (atualmente existe a Edição da Tarde, mas na altura ainda não) e as primeiras horas eram a tentativa de organização dos acontecimentos que ainda se podiam desenvolver, e o início da criação das peças que iam entrar na edição da noite, que podiam até ser repetidas das da manhã ou alteradas conforme o avanço da situação. A 25 de agosto acompanhei uma das jornalistas mais experientes ao Centro de Vacinação de Gaia, que no dia anterior tinha tido problemas numa das arcas de refrigeração e bastantes vacinas tinham ficado estragadas. O Porto Canal foi averiguar o que se tinha passado e tentar falar com algumas pessoas para reportar não só o problema, mas também a resolução do mesmo e a retoma ao modelo de vacinação até ali aplicado. Apesar de nos terem sido colocados alguns entraves à entrada e acesso ao recinto de vacinação, e chegarmos mesmo a temer que não nos deixassem realizar as entrevistas, tudo se resolveu pelo melhor e conseguimos a autorização de
22 entrada e captação de imagens no interior. Pude assistir de perto a entrevista à enfermeira responsável pelo Centro, a um dos enfermeiros que injetava a vacina e a pessoas que aguardavam a segunda e terceira dose da vacina contra a Covid-19. Depois disto, foi ainda necessário aguardar pelo chefe do Centro e enquanto isso acontecia, a jornalista pediu-me para ir fazer vox-pops (“ A expressão Vox-Pop significa «Vox Populi», ou seja «voz do povo» e é uma expressão utilizada pelos órgãos de comunicação social para se referir a entrevistas junto do público” 1 ) que consistia em fazer perguntas flash a utentes do centro sobre o problema da refrigeração e a resolução do mesmo para depois acrescentar à reportagem. A única orientação dada foi a de tentar o máximo de pessoas possível. Também era a primeira vez que fazia algo desse género e, portanto, as primeiras pessoas perceberam que era algo que não estava habituada a fazer e acabavam por não me dar respostas. Quando percebi como tinha de abordar o público, comecei a ser mais assertiva e espontânea a fazer as perguntas e consegui obter bastantes respostas, e diferentes umas das outras, que no caso era o mais importante para perceber se as pessoas sabiam o que se tinha passado. No fim, regressei para junto da jornalista que me perguntou como tinha corrido e que se prontificou a voltar a fazer o mesmo comigo para ela observar se estava a realizar o trabalho da forma correta. Durante cerca de 10 minutos deixou-me fazer as entrevistas da forma como estava a fazer, e depois mostrou-me como podia melhorar. Considerei a atitude de grande ajuda e aprendizagem porque aprendemos muita coisa na teoria enquanto estamos a tirar o mestrado, mas nem sempre é fácil aplicar a teoria na prática. Após a jornalista me mostrar como fazer os vox-pops de forma mais eficaz, deu-me, mais uma vez, espaço para o fazer sozinha e congratulou-me por ter conseguido perceber como fazer e aplicar as dicas com exatidão. Nesse dia não tive material para realizar a peça, mas no dia seguinte, e sem ter visto o resultado final da peça da jornalista, foi-me pedido para realizar uma peça de dois minutos sobre o serviço para apresentar à jornalista que acompanhei e à coordenadora do estágio. Realizei a peça e apresentei como pedido e foram-me apontadas coisas a melhorar como: sonorização da peça (nomeadamente a velocidade a que falava, que devido à zona de onde sou faz com que fale mais rápido do que é suposto numa peça televisiva), os cortes de imagem que necessitam de uma transição que eu não sabia colocar, mas que me ensinaram e ao facto de ter de deixar uma “cauda” no fim das peças com imagem a decorrer, mas sem som. Por outro lado, também elogiaram a facilidade com que realizei a notícia, sem correções de linguagem, a escolha das imagens, a colocação correta dos vox-pops (a atenção em colocar um entrevistado do lado direito 1 in https://knoow.net/ciencsociaishuman/jornalismo/vox-pop/ consultado a 20 de outubro de 2022
23 seguido de um do lado esquerdo) e no geral a realização da peça de forma coesa, percetiva, simples e elucidativa. 1.5Primeira experiência como jornalista sem apoio Perto do fim do meu estágio na redação da Senhora da Hora, fui chamada para ir realizar uma reportagem sozinha a Vila Real sobre o fecho de um dos Hotéis e Restaurantes mais conhecidos da região. A confiança que me foi depositada foi recebida com algum nervosismo, mas entusiasmo por finalmente poder realizar o trabalho de jornalista (apesar de ser estagiária) de forma independente e mostrar tudo aquilo que tinha aprendido ao longo dos dois meses anteriores no canal e durante todo o meu período com estudante de Ciências da Comunicação. Recordo-me de chegar à redação no dia da reportagem e estar agitada, não só por ser a minha primeira reportagem a solo como também por ser onde era. Em Vila Real tirei a minha licenciatura no curso, antes de envergar no mestrado na Universidade do Minho, e por isso, era um sítio muito especial para mim e onde tinha ligação afetiva com os locais e com as pessoas de lá. Claro que, como a profissão de jornalista exige que sejamos o mais isentos possível, vi-me obrigada a desligar o lado emocional e concentrar-me ao máximo no que teria de fazer. O Hotel em questão era o Hotel e Restaurante Miraneve, que era conhecido por estar aberto vinte e quatro horas e servir francesinhas, principalmente aos estudantes depois de uma noite universitária. À chegada, já um grupo de manifestantes (antigos funcionários do estabelecimento) se amontoavam à porta e, portanto, dei indicações ao repórter de imagem que me acompanhava de retirar algumas imagens de vídeo das pessoas que lá se encontravam e comecei a perceber qual a dinâmica e onde poderia retirar material para fazer a reportagem. Alguns minutos passaram e mais órgãos de comunicação chegaram (locais, regionais e nacionais), o que fez com que os responsáveis pela manifestação se vissem obrigados a prestar declarações e explicar o que se estava a passar e com que finalidade. De forma organizada, todos os jornalistas tiveram oportunidade de colocar questões aos responsáveis e aos lesados com o fecho do estabelecimento. Foi aqui que percebi que realmente estava a realizar um trabalho sério e que me apercebi da responsabilidade que tinha em mim. Consegui criar perguntas pertinentes consoante o que os entrevistados estavam a dizer e recolher material suficiente para aumentar a minha reportagem para uma peça de dois minutos que, devido à necessidade de ser realizada com urgência para entrar na edição da tarde, não a consegui fazer, mas que foi atribuída a uma outra
24 jornalista que entrou logo em contacto comigo para me orientar consoante aquilo que fosse vendo que faltava ou que podia ser acrescentado. Além de entrevistar os manifestantes e os responsáveis pela manifestação contra o fecho do Hotel, também recolhi testemunhos de vilarrealenses (habitantes de Vila Real) para entender o que achavam do fecho de um dos edifícios mais emblemáticos da cidade. Foi um desafio muito grande, mas que, simultaneamente, me deram ainda mais certezas sobre que caminho queria seguir: o jornalismo. Como referi, devido à falta de tempo entre o regresso à redação e a edição da tarde, não tive oportunidade de realizar a peça final, mas ainda consegui ajudar a jornalista que ficou com a peça a dar os retoques finais e ajudar a escolher as melhores imagens e alinhavar o texto. Senti-me completamente realizada, com todo o processo de trabalho jornalístico e com o resultado final. Esta reportagem aconteceu nos últimos dias em que estive na redação da Senhora da Hora, portanto não tive mais oportunidades de realizar reportagens sozinha, no entanto terminei o meu caminho em Matosinhos com o sentimento de dever cumprido e de muita aprendizagem. 1.6Produção na Senhora da Hora: o alicerce das emissões televisivas O estágio foi praticamente todo dentro do mesmo estilo, acompanhar os jornalistas, fazer as peças, corrigir, ajudar nos off’s e perceber o estilo de funcionamento da redação. Como o meu estágio era na área de informação e jornalismo, passei grande parte do tempo apenas com os jornalistas na parte da redação, no entanto o Porto Canal, e mais especificamente a redação da Senhora da Hora, era composta por mais áreas como: redes sociais, produção, online e gravação. Cerca de um mês depois de iniciar o estágio, pedi para conhecer o trabalho das outras áreas e foi-me dada autorização para passar dois dias na produção do canal. Nestes dias aprendi como se faziam os contactos com as entidades, como marcar entrevistas, como saber o que se passava nos locais e quais as entidades que eu devia manter o contacto permanente para recebermos as informações que necessitávamos para arranjar conteúdo noticioso. Ensinaram-me que entidades como Bombeiros, Polícias Municipais e Nacionais, órgãos de política, educação e saúde eram os primeiros a ser contactados. Ao mesmo tempo era necessário estar atento à plataforma PROCIV onde eram registados em tempo real os acidentes (de todo o tipo) ou ocorrências e conforme o
25 grau de gravidade, ligar para os meios locais e perceber se o que tinha acontecido tinha conteúdo noticioso ou não. Os distritos que eram mais regularmente visitados eram: Aveiro, Braga, Bragança, Porto, Viana do Castelo, Vila Real e Viseu devido à proximidade geográfica com a área do Grande Porto e também devido ao facto de ter equipas e enviados especiais do canal nesses locais. Algumas das características que determinava se uma informação era conteúdo noticioso ou eram: despistes e colisões entre que tipo de veículo e que tipo de feridos havia (graves e mortes eram os mais considerados); hora do alerta, local específico, se os feridos foram transportados para o hospital e que hospital, idades e sexos, quem foram as entidades que foram socorrer, se a estrada estava cortada e se ainda estavam pessoas no local. No caso de a ocorrência ser um homicídio poderia ou não ser realizada notícia, mas no caso de ser suicídio nunca era realizada reportagem, a não ser que a informação chegasse ao canal por outras vias tais como telefonemas de familiares ou pedidos de divulgação. Os dias na produção culminaram com o fim das eleições autárquicas e, portanto, estavam a darse os últimos debates entre os candidatos. O Porto Canal preparava uma edição especial só sobre as eleições e começou a produzir e apresentar vários debates de várias zonas do Grande Porto em direto. Cada estagiária foi selecionada para acompanhar um dos debates, e a mim calhou-me o de Vila do Conde. Nessa noite, fui responsável por criar cerca de três a quatro perguntas flash e de resposta curta para fazer aos candidatos convidados enquanto o direto não começava, e assim o fiz. Com ajuda e orientação da responsável de produção e da jornalista que iria mediar o debate, consegui juntar quatro perguntas que foram feitas aos candidatos Elisa Ferraz, Vítor Costa e Pedro Soares. Foi a primeira vez que, sem supervisão, me deixaram incorporar totalmente o papel de jornalista e realizar as entrevistas. Apesar de um constrangimento e problema técnico do repórter de imagem que não iniciou a gravação com um dos candidatos e tivemos de repetir a entrevista, foi uma experiência muito gratificante e enriquecedora e que me permitiu viver na plenitude aquilo que estudei durante os anos de licenciatura e mestrado e o que estava a aprender também durante o estágio.
32 No entanto, a liberdade de imprensa e da comunicação social não é completamente literal, ou seja, prevê algumas regras que estão reguladas não só pela Constituição (Artigos 38º, 39º e 40º), como também pelo Código Deontológico dos Jornalistas que é seguido pelo compromisso de honra assim que o jornalista se profissionaliza na área. Alguns exemplos destas regras são, segundo o Código Deontológico em vigor e aprovado no 4º Congresso dos Jornalistas a 15 de janeiro de 2017 e confirmado em Referendo realizado a 26, 27 e 28 de outubro de 2017: “O jornalista deve salvaguardar a presunção de inocência dos arguidos até a sentença transitar em julgado. O jornalista não deve identificar, direta ou indiretamente, as vítimas de crimes sexuais. O jornalista não deve identificar, direta ou indiretamente, menores, sejam fontes, sejam testemunhas de factos noticiosos, sejam vítimas ou autores de atos que a lei qualifica como crime. O jornalista deve proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor” ou “O jornalista deve utilizar meios leais para obter informações, imagens ou documentos e proibir-se de abusar da boa-fé de quem quer que seja” (Novo Código Deontológico – Sindicato Dos Jornalistas, 2017).Estas limitações não são necessariamente negativas e permitem o regulamento e o bom funcionamento da profissão, mas levantam outras questões como as fontes de informação. “A regulação tem a ver, no fundo, com encontrar os meios concretos e efetivos de prestação de contas ( accountability) por parte dos meios e dos profissionais da comunicação que sejam consistentes com a noção de responsabilidade e simultaneamente com os princípios essenciais da livre expressão.” (McQuail, 2005, p.30) 3.2O que é a televisão e o seu contexto histórico A televisão é comummente conhecida como um sistema de transmissão de imagem e som à distância através de ondas hertzianas. “A noção de televisão surgiu com a combinação do vocábulo grego tele (“distância”) e o termo latim visio (“visão”). O conceito permite referir-se tanto ao sistema de transmissão como ao dispositivo que permite a visualização das imagens (também chamado televisor), a programação televisiva e a emissora de televisão. 2 ” O desenvolvimento da televisão como a conhecemos hoje em dia é complexo e já conta com mais de um século de história. O conhecido disco de Nipkow, de 1884, foi considerado como o primeiro aparelho de televisão. Ao longo dos tempos começaram a surgir outros equipamentos como os tubos catódicos, o leitor de vídeo, a digitalização e as transmissões via satélite que levaram a que 2 https://conceito.de/televisao
33 a televisão fosse considerada um produto resultante da evolução eletrónica que se iniciou no século XX. “ A televisão não se limita a distribuir papéis aos protagonistas e aos telespectadores. Serve simultaneamente de comentador, especificando a natureza desses papéis. Quanto mais longe estiver o telespectador do acontecimentofísica e psicologicamentemais a televisão ajuda a “levar a casa” o seu significado, conferindo-lhe interesse e relevância.” (Daniel Dayan e Elihu Katz, 2016, p.16) O nascimento deste meio de comunicação está associado a três homens: o russo Vladimir Zwarykin, que em 1923 criou o tubo iconoscópico; o escocês John Logie Baird que, em 1926, fez a primeira demonstração de uma televisão mecânica e o americano Philo Farnsworth que, em 1927, realizou a primeira transmissão e passou a década de 1930 a fazer demonstrações da mesma à volta do mundo. “Nesses vários enfoques a televisão é ressaltada alternativamente como lugar de alienação e empobrecimento cultural, criação de valores e mitos contemporâneos, instrumento de poder e reprodução da estrutura de dominação, espaço público e canal de acesso e participação (para citar apenas os traços mais marcantes ressaltados por um ou outro autor).” (França, 2006, p.1) Durante vários anos a televisão foi considerada um equipamento de luxo, que só podia ser adquirido por famílias ricas, “no Reino Unido apenas 3.000 pessoas possuíam televisões na década de 30”. Em 1934, a empresa alemã Telefuken começou a fabricar os primeiros aparelhos com tubo de raios catódicos e, cerca de dois anos depois, as Olimpíadas de Berlim foram transmitidas pela já conhecida televisão. Apesar do avanço rápido deste meio de comunicação de massas, a Segunda Guerra Mundial paralisou o fabrico e produção do mesmo, e apenas foi recuperado no fim do conflito onde surgiu espaço para mais canais transmissores e se generalizou a utilização da televisão nas casas. Em Portugal a televisão apareceu quase uma década depois do fim da guerra, sendo a data específica apontada como 15 de dezembro de 1955, aquando da constituição da Radiotelevisão Portuguesa, a estação pública de televisão. “As primeiras emissões experimentais da RTP só foram para o ar quase um ano depois, a 4 de Setembro de 1956, a partir da Feira Popular de Lisboa, e mais tarde, em Março de 1957, iniciaram-se as emissões regulares, desta vez já nos estúdios do
34 Lumiar, mas apenas abrangendo a área metropolitana de Lisboa. A partir desta data, a RTP foi crescendo, e no fim desse ano o grande Porto estava já abrangido. 3 ” Os anos 90 chegaram e com eles surgiram dois novos canais televisivos, desta vez da esfera privada: a SIC (Sociedade Independente de Comunicação) e a TVI (Televisão Independente). Segundo a Constituição da República Portuguesa, a atividade televisiva carece de licença, a conferir por concurso público. A Lei n.º 75/79, de 29 de novembro, começou por referir que a radiotelevisão só pode ser objeto de propriedade do Estado, o que seria concretizado com a sua concessão à RTP, nacionalizada em 1976. A mesma lei ditou o encerramento de todas as instalações onde fossem realizadas transmissões ilegais, assim como a prisão e aplicação de multas aos responsáveis pelas mesmas. “(…) já a Lei 58/90, de 7 de setembro, refere que a cobertura de âmbito regional dependeria da disponibilidade do espectro radioelétrico, segundo um plano técnico de frequências, priorizandose então o licenciamento de operadores nacionais privados, o que viria a acontecer em 1992 e 1993, com o lançamento da SIC e da TVI, respetivamente. Através da Lei n.º 31A/1998, de 14 de julho, a RTP tinha luz verde para avançar com a descentralização informativa por via das delegações regionais.”, foi a partir deste momento que se deu o alargamento da televisivo a canais de âmbito regional e não só nacional. “Quanto à divulgação de temas com interesse para regiões e comunidades locais específicas, a Lei n.º 32/2003, de 22 de agosto, ia mais longe, ao contemplar a possível integração de canais deste tipo no serviço público de televisão, o que aconteceria com a RTP N”, e mais tarde, com o Porto Canal (Em abril de 2018, a base de dados da ERC incluía dois operadores de televisão com serviços de programas difundidos no cabo, as proprietárias do Porto Canal e da Localvisão, e dois distribuídos na Internet, Fama TV – Famalicão e TDS – Televisão do Sul – Alentejo e Algarve). Hoje em dia a televisão é um meio de comunicação de massas presente em casas, estabelecimentos públicos e comerciais, escolas, hospitais e muitos outros locais, tendo-se tornado um meio completamente globalizado e, de certo modo, indispensável. Segundo o “Manuel de Jornalismo de Televisão” de Jorge Nuno Oliveira (Jorge Nuno Oliveira, 2017, p.9), existem vários géneros jornalísticos em televisão, “A comunicação jornalística em televisão não é uniforme. Os diferentes produtos socorrem-se de técnicas e efeitos muito diversos 3 http://www.img.lx.it.pt/~mpq/st04/ano2002_03/trabalhos_pesquisa/T_12/files/portugal.htm
35 para fazerem passar a mensagem e alcançarem os seus objectivos: serem vistos, ouvidos e entendidos pelo maior número possível de pessoas”. O autor descreve os principais géneros jornalísticos televisivos como peça de telejornal, reportagem de telejornal, documentário ou grande reportagem, entrevista, debate e apresentação. O que distingue estes géneros é a duração, “caso de uma pequena peça, uma pequena reportagem ou uma grande reportagem ou documentário”; o formato, “no caso de uma entrevista ou de um debate, ou de um pivô de telejornal ou de um vivo de reportagem”; a linguagem televisiva, “no caso de uma reportagem ou de uma entrevista; de uma peça de telejornal ou de um documentário, por exemplo” e a linguagem jornalística, “no caso de uma peça de telejornal ou de um documentário; de um vivo de reportagem ou de um pivô de telejornal”. Ao longo deste trabalho serão analisados os vários géneros em específico, sendo apoiados com alguns exemplos realizados ao longo do estágio. Também a escrita televisiva é diferente dos restantes meios de comunicação, pelo que exige técnicas e regras específicas. Segundo o mesmo manual, “Escrever para televisão exige o domínio de uma técnica muito apurada. A escrita audiovisual representa, no fundo, um corte absoluto com todos os parâmetros de escrita que nos ensinaram desde os tempos da escola. De uma escrita apoiada em sinais gráficos e destinada a ser lida vamos passar para uma escrita que representa sons. Uma escrita que se destina a ser ouvida e entendida logo à primeira vez e que, por isso, deve ser coloquial”. 3.3O Processo Jornalístico O processo jornalístico engloba não só os intervenientes, jornalistas e cidadãos, como também a análise, tratamento e formação da informação para resultar numa reportagem, “A produção de uma reportagem de televisão deve respeitar uma série ordenada e coerente de passos”(Jorge Nuno Oliveira, 2017, p.33). Alguns dos passos são a identificação do tema, a recolha de informações, a seleção das informações, a hierarquização das informações e a montagem. A principal distinção entre televisão e os outros meios, é a possibilidade de fazer notícia em direto. Ao longo do estágio foi dada a oportunidade de realizar falsos diretos, de forma a treinar para um direto real, pelo que este meio de fazer reportagem também será analisado.
36 3.4O que foi a pandemia de covid-19? A pandemia da doença causada pelo novo coronavírus 2019 (COVID-19) tornou-se um dos grandes desafios do século XXI. “A COVID-19 é uma doença infectocontagiosa causada pelo coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2), do inglês severe acute respiratory syndromeassociated coronavirus 2 . Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 31 de dezembro de 2019, em Wuhan, na China, foram descritos os primeiros casos de pneumonia causada por um agente desconhecido e reportados às autoridades de saúde. No dia 7 de janeiro de 2020, Zhu et al. anunciaram o sequenciamento do genoma viral e no dia 12 de janeiro, a China compartilhou a sequência genética com a OMS e outros países através do banco de dados internacional Global Initiative on Sharing All Influenza Data (GISAID).”(Augusta et al., 2020) Em Portugal, o primeiro caso de COVID-19 foi decretado a 2 de março de 2020 e a primeira morte foi registada duas semanas depois em Lisboa. A partir desse dia, o estado de emergência entrou em vigor e durante dois anos e meio o país atravessou a fase pandémica com diversas restrições, mais apertadas no início e com levantamentos ao longo do tempo. À data deste relatório de estágio, apenas se mantém a obrigatoriedade do uso de máscaras em serviços de saúde, mas nem sempre foi assim. O teletrabalho foi uma das grandes alterações sentidas pelos trabalhadores em época pandémica e muitos viram o trabalho completamente impedido de ser realizado, uma vez que nem todos os serviços se conseguiam adaptar a esta nova realidade. No caso do jornalismo televisivo, foram acionadas medidas e mecanismos que permitiam os jornalistas de continuar o serviço, apesar de limitados, e a informação continuou a circular. Algumas empresas mantiveram este método de trabalho durante algum tempo, mesmo quando deixou de ser obrigatório, mas a maior parte voltou à normalidade em 2021. 3.5Como é uma redação de televisão? Ao fazer a pesquisa documental sobre esta temática, foi possível verificar que não existem muitos trabalhos que retratem o histórico da cenografia televisiva, quer em Portugal, quer a nível internacional. O que existe é maioritariamente fotografias tiradas por jornalistas que ajudam a caracterizar os bastidores dos cenários televisivos, mas mesmo esses dados são pontuais e não cobrem a totalidade da história da televisão em Portugal.
37 Assim sendo, apenas é possível fazer uma descrição do que foi presenciado ao longo do estágio. No caso da redação da Senhora da Hora a mesma era dividida em dois andares. No andar de baixo estavam os jornalistas com vários computadores e com um vidro a dividir o espaço de trabalho e o cenário onde se faziam os jornais diários (“ Telejornal: Espaço dedicado por uma estação de televisão para apresentação de peças de carácter informativo. O actual e generalizado modelo de telejornal, conduzido por um pivô de informação, foi inaugurado na década de 50 pela BBC, no Reino Unido, e pelas cadeias televisivas, nos Estados Unidos” (Diciopédia, 2008), e no andar de cima estavam os chefes de redação, editores-chefes, produtores, os responsáveis pelas redes sociais e pelo site oficial. Numa outra zona, também no andar de cima, ficava a régie do canal, onde a entrada era mais restrita aos produtores e jornalistas. No Dragão Arena a redação era bastante diferente. Era apenas um piso onde estavam todos os jornalistas, produtores, repórteres de imagem, responsáveis pelas redes sociais e pelo site, a assessora do clube e os chefes. Apesar de ser estarem todos no mesmo piso, havia divisões. Os jornalistas estavam todos juntos numa secção, assim como os produtores noutra secção, os chefes tinham gabinetes individuais, e as redes sociais e site ficavam na mesma zona. 3.6Comparação entre passado e presente: o que o covid veio alterar? “A pandemia voltou a sentar as famílias em frente à televisão, restaurando o pleno triádico das suas funções comunicativas: informar, entreter e formar. Ong & Negra referem que a televisão pandémica funcionou como um “timekeeper”, introduzindo regularidades temporais que tinham caído em desuso”. (Baptista & Fcsh, 2021, p.22) A verdade é que, de facto, várias coisas tiveram de ser alteradas ao longo do período pandémico uma vez que o distanciamento social era a única medida preventiva que se conhecia no início. O jornalismo vive muito do contacto entre pessoas, da comunicação de proximidade, e com a pandemia de covid-19, tal não era possível, pelo que os jornalistas tiveram de adaptar as formas de obter informações e a forma como se fazia o trabalho televisivo , “Em Portugal, algo de semelhante ocorreu, com as televisões a lutarem para fixar a maior share de uma super audiência, obcecada por informação relativa ao mono tema Covid-19. Entre as figuras do meio televisivo catapultadas para a dimensão do estrelato nacional estão os pivots dos telejornais do prime time”.
38 Esta é a opinião defendida por Carla Baptista e que foi comprovada pelo estudo publicado no Diário de Notícias a 20 de março de 2020 intitulado “Consumo de televisão sobe 28% com a pandemia de Covid-19”. Neste artigo de Ana Marcela constam dados do início da pandemia, “em sete dias, em média mais de 620 mil telespectadores viram televisão, uma subida de 28% face à semana anterior. A semana em que o país declarou o Estado de Emergência por causa do covid19 foi a que gerou mais audiências este ano. 4 ” As recomendações dadas pela Direção-Geral de Saúde eram claras: ficar em casa, encerrar escolas, teletrabalho obrigatório, encerramento de estabelecimentos, etc. Os portugueses, assim como todo o mundo, viram, em questão de dias, a vida mudar e ficaram confinados a “quatro paredes”. Os entretenimentos possíveis passaram a envolver atividades, até então, ditas de “hobbies” e a televisão passou a ser a companhia de muitas famílias. Isto obrigou a uma procura pela informação muito grande e uma luta entre transmitir a realidade vivida e arranjar conteúdos noticiosos e com relevância maioritariamente sobre a mesma temática, “Com as suas emissões dedicadas ao tema do covid-19, acompanhando ao minuto a evolução do vírus em Portugal e no mundo, os canais com enfoque informativo estão a colher dividendos”. “Os blocos noticiosos nos canais generalistas também beneficiam do interesse dos telespectadores em manterem-se informados sobre a progressão do Covid-19. "Os canais generalistas lideram as audiências nos períodos da hora de almoço e do prime-time. O pico diário de audiências durante o dia (mais de 5,9 milhões de telespectadores médios) dá-se entre as 20h e 21h, momento em que são transmitidos os jornais informativos da noite em vários canais em simultâneo", destaca a UM/IPG Mediabrands.” 4 https://www.dn.pt/dinheiro/consumo-de-televisao-sobe-28-com-a-pandemia-de-covid-19-11972940.html
39 ~ Figura 5Gráfico demonstrativo retirado do artigo do Diário de Notícias
40 4Metodologia de Investigação 4.1Como os jornalistas do canal viram a pandemia influenciar o trabalho jornalístico? De forma a entender e complementar o trabalho de investigação realizado neste relatório, adotei o método qualitativo de pesquisa e entrevistei três jornalistas (duas de informação generalista e uma de desporto) e uma produtora a fim de encontrar pontos comuns na experiência no Porto Canal e reforçar o enquadramento teórico apresentado. As entrevistas foram realizadas via online, por email, nos dias 10,11 e 13 de outubro de 2022. As questões colocadas às entrevistadas foram as seguintes: - Nome: - Função: - Há quanto tempo trabalha em televisão: - Como vê a televisão hoje em dia, comparando com outros meios de comunicação social? - Qual a maior dificuldade sentida enquanto jornalista de televisão? - Como é que identifica o que é notícia ou que eventos são possíveis notícias? - Como é o processo de seleção? - Como é o debate com o produtor ou responsável pela escolha das notícias que vão passar no noticiário? - Quais são as principais características procuradas numa notícia? Ou seja, o que se procura para conseguir cativar o público? - Como é o processo noticioso? Desde o momento em que acontece algo até ao momento em que é transmitido ao público? - Qual a maior dificuldade neste processo? - Como é trabalhar em redação? - E como é trabalhar em redação em tempo de pandemia? - A pandemia teve um impacto direto no processo noticioso? Como foram resolvidas as dificuldades?
41 Em seguida, estão transcritas as respostas de todas as entrevistadas bem como analisadas a fundo de forma a entender os pontos comuns e divergentes. 4.2Aspetos mais relevantes das entrevistas realizadas Inês Silva Pereira; Jornalista de Desporto; trabalha na área há 5 anos -Da minha perspetiva, a televisão continua a ser um meio de comunico confiável para os portugueses, mas nos últimos anos precisou de se reinventar para competir com páginas de jornais online e as redes sociais. Considero, ainda assim, que seja o segundo meio de comunicação mais visto pelos portugueses. À frente das notícias da rádio e dos jornais em papel. - Trabalhar em redação é o verdadeiro significado de trabalhar em equipa, porque em televisão, ao contrário do que se possa pensar, nunca trabalhamos sozinhos. - Em tempo de pandemia foi muito difícil trabalhar na redação porque os jornalistas trabalham muitas horas, por vezes em temas complicados, e nesse período deixámos quase de ser seres sociais. De partilhar ou de ouvir. - O processo noticioso viveu muito da atualidade e, por isso, regra geral a emissão girava muito à volta dos números, das reações dos protagonistas, desde os médicos ao governo. Um dos grandes desafios foi para os jornalistas de desporto, onde me integro, que se vê privado do objeto de trabalho porque todas as competições pararam. Foi tempo de aproveitar para fazer entrevistas e pensar diferente. Perceber como os atletas enfrentavam a pandemia em casa, perceber que impacto estava a ter a ausência de competição nos clubes e o que estava a ser feito para assegurar o recomeço seguro. Joana Almeida Carvalho; Jornalista Generalista; trabalha na área há dois anos - Penso que um dos “problemas” que sinto cada vez mais é o rigor utilizado na construção de notícias, se compararmos, por exemplo, com a rádio ou com o jornal impresso. Temos cada vez mais a urgência de dar “exclusivos” e, por vezes, isso faz com que, por vezes, o trabalho seja realizado com alguma rapidez o que pode resultar em pouca procura/pesquisa.
48 pontos, de forma a ser possível verificar a veracidade dos factos e das informações transmitidas pelas próprias fontes ao jornalista. - Nem sempre os nossos contactos querem avançar com informação, o que dificulta o processo de construção da notícia. - É um trabalho de equipa e que tem de ser feito, obrigatoriamente, com muita comunicação entre todos. - Não trabalhei em comunicação antes da pandemia, portanto não tenho termo de comparação. - Durante o período mais difícil e complexo, a pandemia acabou por influenciar muito os noticiários, uma vez que todos os assuntos eram sobre isso mesmo. Ana Rita Gonçalves, Jornalista Generalista, trabalha na área há dois anos e meio - Acho que sofremos um bocadinho de alterações no tempo das reportagens. Hoje em dia, como nas redes sociais é tudo muito mais rápido, quer o conteúdo que tu lês quer a forma como acedes ao conteúdo da televisão, também temos de combater um bocadinho isso, então acho que as reportagens hoje em dia são muito mais apelativas com mais grafismos, mais curtas, que tocam noutros temas. Portanto acho que a televisão está mesmo num combate para conseguir chegar às redes sociais e também para provar que tem essa credibilidade. Portanto hoje em dia eu acho que nós temos de ser muito mais apelativos, muito mais dinâmicos, muito mais criativos. Acho que nunca se usou tanto grafismos nas peças como agora e acho que é precisamente para isso que nós temos de ser mais multifuncionais, ou seja, para as pessoas poderem estar a perceber o que nós queremos dizer na reportagem com o som desligado por exemplo. Os estúdios de televisão também estão muito diferentes, muito mais tecnológicos, e eu acho que isso também se deve muito mais às redes sociais e a forma como é apresentado o telejornal, tanto o jornalista muito mais sério, com a voz mais colocada e gravata… hoje não, hoje nós vemos um jornal em que uma jornalista se emocionar está tudo bem portanto acho que a televisão também sofreu não só das redes sociais, mas também sofreu mudanças daquilo que nós somos hoje em dia enquanto sociedade. No nosso dia a dia, na nossa vida pessoal.
49 - A maior dificuldade que encontro na televisão, e que eu espero ter sempre essa dificuldade porque exige muito mais de mim diariamente e se eu um dia esquecer-me dessa dificuldade…não quero esquecer-me dessa dificuldade, que é eu falar sempre para, por exemplo, a avó no interior que não lê muito, que não sabe sobre a atualidade, que não tem forma de saber, portanto a nossa maior dificuldade é fazer do difícil fácil. O exemplo do concelho de ministros: como é que nós vamos explicar aquilo que foi discutido em conselho de ministros para as pessoas? Como é que vamos discutir assuntos se foram parlamentos? Como é que vamos passá-los para uma peça e torná-los fáceis e apelativos? Porque às vezes nós dizemos “hoje em dia as pessoas não percebem muito de política”, não percebem muito de política porque nós também não explicamos a política fácil, desconstruída, até divertida, portanto a maior dificuldade é sempre tornar do difícil o fácil e acho que isso é sempre a maior dificuldade de ser um jornalista. Se não for dificuldade é sempre a missão que é falar para aquela avozinha que tem de perceber bem aquilo que queremos dizer. -Para as pessoas do dia a dia que não trabalham em jornalismo pode ser difícil perceber se aquilo é noticioso ou não, mas como nós estamos todos os dias tão atentos à atualidade, como já sabemos muitos temas, já sabemos desde o início até ao meio determinado tema, eu consigo chegar a um sítio e perceber “isto é notícia ou não é notícia” e quando estamos em dúvida de possíveis notícias, nós temos as nossas fontes, que nós vamos fazendo ao longo do tempo, e portanto acho que isso é fácil de receber para um jornalista. - O processo de seleção das reportagens é sempre feito idealmente por uma equipa de produção no Porto Canal. Há uma equipa de produção, há um diretor de produção, há uma equipa de coordenação, há um diretor de coordenação, portanto eles é que selecionam isso e nós jornalistas também temos liberdade de chegarmos à redação e de sabermos por qual notícia queremos começar de determinada peça. O processo de seleção normalmente é feito por eles a menos que haja alguma coisa que foi selecionada por mim, marcada por mim, aí sou eu que decido, mas normalmente a equipa de coordenação é articulada com a equipa de produção. - Basicamente, não existe debate. Normalmente, a menos que sejam temas muito fraturantes ou grandes reportagens, ou algo agendado por mim, ou algo que eu tenho uma dúvida e que estou ali a debater ou alguma coisa que eu não concorde que quero fazer. Mas isso nunca me aconteceu. Portanto, normalmente não existe debate, uma vez que os jornalistas já estão muito pré-definidos daquilo que querem fazer quando chegam à relação. Tudo isso entre os jornalistas e entre os coordenadores. Eu só coordeno aos fins de semana e é uma condução muito levezinha.
50 - Não acho que isso funciona assim. Acho que a notícia é a notícia e ponto final. É “papo reto” ante a notícia. Eu não vou mentir, eu não vou dar a volta à notícia para torná-la mais apelativa. O que eu posso fazer é pegar na notícia tal e qual como ela é. Acho que isso é que faz de nós bons jornalistas e a notícia, tal como ela é, despida de outras coisas quaisquer. Pegar nela e dizer “ok, como é que eu posso explicar isto de uma forma mais dinâmica? Posso meter aqui um grafismo? Posso fazer aqui um trocadilho no texto? Posso brincar no texto? Posso ir gravar para a rua? Posso chamar a um especialista que explique isto da forma mais simples e desconstruída possível?”. Portanto, a notícia nunca pode ser mais apelativa. E a forma como nós apresentamos a notícia ao telespectador, a notícia tem de ser mesmo a pura verdade. O resto, nós podemos manusear no sentido de brincar com o texto, com as imagens, de fazer trocadilhos. Torná-lo mais apelativo. Como aquilo que eu dizia, por exemplo, no Parlamento há uma notícia, pegamos esta notícia tal como ela é. O Parlamento pode ser um bocado chato para as pessoas. “Como é que vou explicar isto? Portanto, desconstruir”, acho que é isso. - O processo noticioso, desde um momento em que acontece algo até ao momento em que é transmitido ao público, portanto, há sempre isto. No fundo, é um trabalho de uma grande equipa que nós temos. Temos também as agências noticiosas que nos mandam as agendas para o dia a seguir e para nós sabemos mais ou menos aquilo que vai acontecer e isso é feito pela produção. Depois a produção passa para a coordenação, a coordenação escolhe aquilo que vai ser transmitido, depois envia-nos em agenda. Cada jornalista no momento tem um serviço, uma reportagem para esse dia e vamos. Eu sei que às vezes o que acontece é que nós vamos para essa reportagem, chegamos lá e percebemos que aquilo não vai dar em nada, que não há notícia e podemos fazê-la ou não. Num mundo ideal, em que há sempre notícias e este esquema produção-coordenação, o jornalista traz para a redação, trabalha a reportagem e vai. Às vezes também acontece que vamos para um ministro. O ministro não fala logo não se vai fazer a peça, não se pode só fazer por fazer, porque o tempo em televisão é ouro. Nunca se pode desvalorizar o tempo em televisão, porque tempo em televisão de facto é caro. A maior dificuldade neste processo, às vezes, é conseguirmos ir a tudo, porque às vezes há dias em que acontece tudo e mais alguma coisa e nesses dias é uma relação muito mais agitada, muito mais pressionada. Portanto, às vezes a maior dificuldade é conseguir fazer tudo. Como somos um canal regional, e que cobrimos essencialmente a região norte do país, vamos ainda mais aos locais onde pode haver ainda mais para fazer. Mas normalmente nós temos as coisas bem organizadas. A maior
51 dificuldade é quando, perante a organização, surgem muitas notícias de última hora… apontam um acidente, um incêndio, o ministro vai falar de alguma coisa que não estava agendado. - Portanto, acho que também é a maior dificuldade de trabalhar em redação. Trabalhar em relação é desafiante, porque é um trabalho que, se nós não conseguimos lidar com pressão, mais vale não nos atrevermos a ir para uma relação, porque trabalhar em relação é um trabalho muito árduo. Às vezes as pessoas, eu acho que quando as pessoas veem um produto final na televisão, não têm noção das fases que esse produto passou para conseguir chegar àquele um minuto e meio. Portanto, o trabalho na relação é desafiante, porque nós fazemos muita coisa. Nós selecionamos as imagens, editamos as imagens, nós editamos as entrevistas, nós fazemos as entrevistas, escrevemos o nosso texto, escrevemos o pivot da peça, escrevemos os oráculos, vamos sonorizar, vamos enviar a peça. Portanto, há um trabalho muito grande e, às vezes, em pouco tempo, nós temos de fazer isso. Já me aconteceu o jornal estar a começar às 20 horas e são 19 horas e 58, e eu estou a exportar a minha peça para ela ser transmitida no início do jornal. Portanto, é um trabalho mesmo muito desafiante, mas depois, para mim é incrível. Eu gosto muito de trabalhar sob pressão. Gosta da adrenalina de uma redação, gosto do trabalho feito em relação. Gosto muito do trabalho feito em rua, mas também gosto de chegar, olhar para as coisas que fiz e pensar como é que posso começar, como é que posso terminar, como é que vou editar, que imagens vou escolher. Mas trabalhar em redação é sobretudo um tacho. Vou por a ferver, vou tentar sempre pôr tudo em grande pressão. Acho que é mais isso. - Em tempo de pandemia foi diferente, porque nós estamos habituados a uma redação cheia. Nós somos um grupo jovem no Porto Canal, portanto falamos quase todos a mesma linguagem e agora somos quase todos da mesma geração. E de repente ficou uma redação vazia e éramos pessoas individuais, cidadãos individuais que queriam proteger também as suas famílias, a sua saúde e das suas famílias, que também tinham de trabalhar. Tentávamos, era um misto de emoções. Nós estávamos a retratar o mundo, a realidade do mundo, mas não estávamos a retratar aquilo que nós víamos com os nossos olhos quando íamos ao supermercado, quando íamos aos hospitais. Tanto foi um misto porque não estávamos a dar notícias daquilo que eu, enquanto Rita e não enquanto jornalista, também não sabia e estava ainda a descobrir. E depois porque foi tudo para um lado de máscara, para primeiros casos de COVID e de saber os sintomas, explicar às pessoas os sintomas. O mais difícil foi não assustar as pessoas, porque era um tema muito desconhecido e, naturalmente, todas as pessoas se assustam com o desconhecido e com aquilo que não podem controlar tanto. Nós éramos os primeiros a dar isso às pessoas, não é? Eu acho. E não, não é falsa
52 modéstia, mas a verdade é que eu acho que, além dos profissionais de saúde, a comunicação social foi também igualmente importante na pandemia, porque trouxemos especialistas, fizemos peças, fomos para os hospitais, mostramos o que as pessoas não viam, explicamos as máscaras, se calhar interminavelmente. Foi demasiado, mas porque era aquilo que havia para falar. Mas no início eu acho que isso foi muito importante e para nós também foi desafiante, porque nós estávamos a aprender enquanto cidadãos e tínhamos que fazer o trabalho enquanto jornalistas. - Depois houve algumas mudanças na redação e é essencialmente essa a pergunta. Na redação estávamos menos pessoas porque começou a haver o teletrabalho e as peças em casa. Havia normalmente uma, duas pessoas no início. Depois fomos ajustando… menos computadores na relação, sempre mais em casa. Foi um ajuste ao longo do tempo também, com o decorrer da pandemia, - A pandemia teve um impacto direto no processo noticioso. Tivemos de ter mais cuidado como explicamos, tivemos de confirmar tudo. Na COVID-19 houve muitas fake news, portanto as pessoas diziam, sem saber, o que supostamente a COVID-19 se tratava. Com isto, aceitamos o convite da nova era. Nós tivemos de combater todas as notícias falsas que chegavam e que as pessoas acreditavam porque liam nas redes sociais e acreditavam que era verdade e não era. Portanto, acho que a maior dificuldade foi combater as fake news e mostrar que na televisão se ouviam coisas verdadeiras. E depois a dificuldade também era um cenário tão péssimo. Como é que não vamos assustar as pessoas? Como é que vamos trazer de boa energia? Nós às vezes comentávamos “nós temos que trazer pessoas boas, nós temos que ter um alinhamento com peças boas” porque de facto as pessoas estão confinadas. E foi muito assustador. Muitas mortes, muitos casos, muitas pessoas às urgências completamente cheias. Portanto, acho que a dificuldade foi combater as fake news. Desconstruir para as pessoas não se assustarem e trazer notícias boas ao público. Camille Ferreira, Produtora, trabalha na área há oito anos - Muitos dizem que a televisão está obsoleta devido ao crescimento e o domínio do digital, mas ainda há uma grande parcela de pessoas, principalmente mais velhas e mais pobres, que mantêm o hábito de assistir televisão. Porém, para manter a fidelidade de todos os tipos de audiência e brigar com o avanço tecnológico e alcance digital, a forma de se fazer televisão precisou mudar.
53 Por isso, há um grande investimento em plataformas de streaming, por exemplo. Ainda há espaço para todos os meios que souberem se adequar a um cotidiano cada vez mais “high-tech”. - Precisar fazer tudo ao mesmo tempo. Embora errado, algumas vezes o produtor atua sozinho na condução de um programa. Isso diminui muito a margem de erro e o nível de exigência dos superiores. - Costumamos tratar como notícia qualquer tipo de informação que seja de interesse público. - Em meios de comunicação sérios, há uma reunião chamada “Reunião de pauta”, em que produtores, jornalistas e o editor-chefe do programa, definem, em conjunto, todos os temas que serão abordados. Debates são feitos levando em consideração o que é relevante no dia, levando em consideração fatos que ocorreram no dia anterior e que podem acontecer também no dia seguinte. - O mesmo acima. Entretanto, com o surgimento de uma notícia de última hora, quem tem a autonomia para definir a relevância da notícia é sempre o editor-chefe do programa. - Existe uma estrutura básica que precisa ser seguida para construir uma notícia. Responder perguntas como “Quem?”; “O quê?”; “Quando?”; “Onde?”; “Como?”; “Por quê?”. Dessa maneira a audiência é condicionada a prestar atenção no tema exposto. Uma vez que o conteúdo segue uma pirâmide hierárquica em que a informação mais importante vem primeiro. - Trabalhar em um ambiente de redação é caótico, mas satisfatório. Tudo acontece ao mesmo tempo e é preciso estar atento ao que se passa para não deixar escapar algo importante. - Quando foi possível interromper o teletrabalho e voltar ao ambiente de redação, tornou-se uma rotina mais solitária e exaustiva devido ao pouco número de colaboradores e o excesso de trabalho. - Sim, pois não era possível estar na rua para checar eventos e fontes. Com a impossibilidade do contato direto, foi preciso adaptar-se às novas tecnologias para garantir que as notícias continuassem a chegar às pessoas.
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