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Universidade do Minho Escola de Psicologia Patrícia Daniela Grandinho Martins Validação do Questionário de Competências Sociais e Emocionais em Adolescentes Portugueses outubro de 2023 UMinho | 2023 Patrícia Daniela Grandinho Martins Validação do Questionário de Competências Sociais e Emocionais em Adolescentes Portugueses
Universidade do Minho Escola de Psicologia Patrícia Daniela Grandinho Martins Validação do Questionário de Competências Sociais e Emocionais em Adolescentes Portugueses Dissertação de Mestrado Mestrado em Psicologia Clínica na Infância e na Adolescência Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Teresa Freire Coorientação da Doutora Ana Teixeira outubro de 2023
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
iii Agradecimentos A vida é uma oportunidade de conhecer e viver coisas maravilhosas, de nos surpreender e nos colocar à prova, ou por meio de um desafio ou pela concretização de um sonho, tal como o término deste percurso. Por isso, não posso deixar de agradecer a todos os alunos e representantes das escolas que se prontificaram ajudar na recolha de dados como intermediários do processo e como participantes: sem vocês este trabalho não teria sido possível. À Professora Doutora Teresa Freire e à Doutora Ana Teixeira, agradeço pela orientação, disponibilidade e paciência para comigo e ao Grupo de Investigação em Desenvolvimento Positivo e Funcionamento Ótimo pelo olhar crítico, pelas reflexões e questões que tanto me ensinaram. À Ana e à Diana agradeço o companheirismo, a ajuda, e apoio demonstrados ao longo deste nosso percurso, bem como a amizade que começou aqui, mas que espero levar para a vida. Agradeço, ainda, à Jacinta, à Lígia, ao Nuno e ao Hugo pela partilha de experiências, pelo companheirismo e pelos momentos de apoio e amizade. Agradeço aos amigos de uma vida e aos amigos que conheci ao longo deste meu percurso académico a amizade e todos os momentos partilhados. Agradeço à minha família e de modo particular aos meus pais pelo apoio, pela paciência, pelos conselhos e por todos os esforços realizados para que pudesse concretizar este sonho. Por fim, agradeço-me por não ter desistido apesar de todas as dificuldades e obstáculos, por ter sido resiliente e mantido a determinação, a força, a fé, o foco, … e o sonho: “Eles não sabem que o sonho É uma constante da vida Tão concreta e definida Como outra coisa qualquer (…) Eles não sabem que o sonho É tela, é cor, é pincel, Base, fuste, capitel, Arco em ogiva, vitral, Pináculo de catedral, Contraponto, sinfonia, Máscara grega, magia (…) Eles não sabem, nem sonham, Que o sonho comanda a vida. Que sempre que um homem sonha O mundo pula e avança Como bola colorida Entre as mãos de uma criança.” Pedra Filosofal António Gedeão e Manuel Freire
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Braga, 13 de Outubro de 2023 (Patrícia Daniela Grandinho Martins)
v Validação do Questionário de Competências Sociais e Emocionais em Adolescentes Portugueses Resumo O estudo das competências sociais e emocionais começou durante os anos 90 a partir das investigações de Mayer e Salovey. Também neste período começaram a surgir programas de desenvolvimento destas competências nos contextos educacionais cujo objetivo era melhorar o comportamento pró-social, as atitudes, os problemas de conduta e o desempenho académico. Para tal começou-se a estudar competências como a autoconsciência, a autogestão, consciência social, comportamento pró-social e tomada de decisão responsável de forma a proporcionar mudanças positivas nos adolescentes e nos contextos onde estão inseridos. Deste modo, o objetivo deste estudo foi validar o questionário de competências sociais e emocionais (SEC-q) em adolescentes portugueses uma vez que esta escala inclui todas estas competências sociais e emocionais num único instrumento de medida. Os resultados apontam para uma escala, com bons indicadores de validade, com 16 itens, agrupados em 4 fatores que refletem as competências sociais e emocionais: (1) Consciência social e comportamento pró-social (α=0.863); (2) autoconsciência (α=0.852); (3) tomada de decisão responsável (α=0.840; (4) autogestão (α=0.762), com um alfa de Cronbach total da escala de 0.927 mantendo a estrutura da escala original. Palavras-chave: Adolescência, Competências Sociais e Emocionais, Mudanças Positivas
vi Validation of the Social and Emotional Skills Questionnaire in Portuguese Adolescents Abstract The study of social and emocional skills began during the 90s following research by Mayer and Salovey. Also during this period, programs to develop these skills Started to emerge in educational contexts with the aim of improving prosocial behavior, attitudes, conduct problems and academic performance. To this end, we began studying skills such as self-awareness, self-management, social awareness, prosocial behavior and responsible decision-making in order to provide positive changes in adolescents and the contexts in which they are inserted. Therefore, the objective of this study was to develop and validate the social and emotional skills questionnaire (SEC-q) in Portuguese adolescents since this scale includes all these social and emotional skills in a single measuring instrument. The results point to a scale, with good validity indicators, with 16 items, grouped into 4 factors that reflect social and emotional skills: (1) Social awareness and prosocial behavior (α=0.863); (2) selfawareness (α=0.852); (3) responsible decision making (α=0.840; (4) self-management (α=0.762), with a total scale Cronbach's alpha of 0.927 maintaining the structure of the original scale. Keywords: Adolescence, Social and Emotional Skills, Positive Changes
vii Índice Introdução .......................................................................................................................................... 9 A Adolescência ............................................................................................................................... 9 Competências Sociais e Emocionais ............................................................................................... 9 Estrutura do SEL e as Competências............................................................................................. 10 Instrumentos de avaliação ............................................................................................................ 13 Objetivos do Estudo ...................................................................................................................... 14 Metodologia ...................................................................................................................................... 14 Amostra/Participantes .................................................................................................................. 14 Instrumentos/ medidas ................................................................................................................ 15 Questionário sociodemográfico .................................................................................................. 15 Questionário de Competências Sociais e Emocionais (SEC-Q) .................................................... 15 Trait Meta-Mood Scale (TMMS-24) ............................................................................................. 15 Questionário de Regulação Emocional para Crianças e Adolescentes ......................................... 16 Escala de autoestima de Rosenberg (RSES) ............................................................................... 16 Escala de Afeto Positivo e Afeto Negativo – Versão Reduzida (PANASVPR) ................................ 16 Procedimento ................................................................................................................................... 17 Estratégia de Análise de Dados ......................................................................................................... 18 Análises preliminares .................................................................................................................... 19 Sensibilidade ................................................................................................................................ 22 Analise fatorial Exploratória ........................................................................................................... 22 Análise das Correlações ................................................................................................................ 26 Discussão......................................................................................................................................... 28 Conclusão ........................................................................................................................................ 29 Limitações do estudo .................................................................................................................... 29 Estudos Futuros............................................................................................................................ 29 Anexo A: Parecer da Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas ............ 37 Anexo B: Questionário de Competências Socias e Emocionais em Adolescentes Portugueses ............ 38
14 Deste modo, o instrumento de medida Questionário de Competências Sociais e Emocionais (SECQ) desenvolvido por Zych et al. (2018) em Espanha, incluía na sua versão original 50 itens avaliados numa escala de tipo likert de 5 pontos em que 1 correspondia a discordo fortemente e 5 correspondia a concordo fortemente, organizada em 5 subescalas cada uma composta por 10 itens. Deste modo, foram distribuídos 10 itens para a autoconsciência, 10 para a consciência social, 10 para o relacionamento prósocial, 10 para a autogestão e 10 para a tomada de decisão responsável. Estes itens foram baseados na literatura recolhida sobre a temática das competências sociais e emocionais, contudo após uma análise fatorial exploratória foram eliminados os itens que saturaram em mais de uma dimensão e aqueles que saturaram abaixo de 0.30. Assim, a versão final deste instrumento é constituída por 16 itens, os itens 1, 2, 3, 4, avaliam a autoconsciência, os itens 5, 6, 7 avaliam a autogestão, os itens 8, 9, 10, 11, 12, 13, consciência social e o comportamento pró-social e os itens 14, 15, e 16 avaliam a tomada de decisão responsável. Este questionário tornou-se uma mais-valia para a realização de programas relacionados com as competências sociais e emocionais dos jovens e adolescentes podendo a sua validação vir a ser também uma mais-valia para os jovens e adolescentes portugueses. Objetivos do Estudo Este estudo tem como objetivos: 1) validar o instrumento Questionário de Competências Sociais e Emocionais (SEC-Q; ZYch et al., 2018) para a população adolescente portuguesa. São objeto de estudo a estrutura fatorial da escala para a população adolescente portuguesa e analisar as qualidades psicométricas (sensibilidade, fidelidade e validade) na avaliação de cinco dimensões: autoconsciência, consciência social, relacionamento pró-social, autogestão e tomada de decisão responsável. 2) Para além disso pretende-se estudar a relação destas dimensões com outros construtos relevantes na adolescência, como a inteligência emocional, o afeto positivo e negativo, estratégias de regulação emocional e autoestima. Este estudo intitulado Validação do questionário de Competências Sociais e Emocionais para Adolescentes Portugueses com a identificação (CEICSH 104/2023) cumpre os requisitos necessários para a sua execução tido parecer positivo por parte da Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas da Universidade do Minho (CEICSH). Metodologia Amostra/Participantes Participaram no estudo um total de 356 estudantes do ensino secundário (10º, 11º e 12º anos) da região norte de Portugal, no entanto, 3 não deram consentimento, 21 foram excluídos por não concluírem o questionário e os outros 21 estudantes foram excluídos por terem outra nacionalidade e o
15 estudo ser direcionado para adolescentes portugueses. Da amostra de 356 participantes fizeram efetivamente parte do estudo 311 sendo 208 do género masculino (66.9%), 101 do género feminino (32.5%) e 2 de outro género (0.6%) com idades compreendidas entre os 15 e os 22 anos (M=16.80; DP= 1.17). Adicionalmente, dos 311 participantes 30 (9.6%) tinham um nível socioeconómico abaixo da média, 268 (86.2%) tinham um nível socioeconómico na média e 13 (4.2%) tinham um nível socioeconómico acima da média. Instrumentos/ medidas Foi realizada uma metodologia quantitativa recorrendo a instrumentos de autorrelato. Assim sendo, foram utilizados os seguintes instrumentos: Questionário sociodemográfico Os participantes responderam a um breve questionário de forma a obter informações sociodemográficas como idade, sexo, nacionalidade, nível socioeconómico percebido e ano de escolaridade. Questionário de Competências Sociais e Emocionais (SEC-Q) O Instrumento de medida SEC-Q original (Zych et al., 2018) é constituído por 16 itens, os itens 1, 2, 3, 4, avaliam a autoconsciência, os itens 5, 6, 7 avaliam a autogestão, os itens 8, 9, 10, 11,12, 13, avaliam a consciência social e ao comportamento pró-social e os itens 14, 15, e 16 avaliam a tomada de decisão responsável. Este questionário apresentou alta consistência interna (α= 0.82) o que indica que o questionário tem boas propriedades psicométricas (Zych et al., 2018). Trait Meta-Mood Scale (TMMS-24) Este instrumento de medida foi originalmente elaborado por (Salovey et al., 1995) com 48 itens e 3 subescalas (atenção emocional, clareza emocional e reparo do estado emocional) respondidos numa escala de likert de 5 pontos em que 1 corresponde a discordo totalmente e 5 que corresponde a concordo totalmente. Posteriormente, em Portugal, foi validada uma versão reduzida por Queirós et al. (2005) com 24 itens. Os itens 1 a 8 avaliam a atenção emocional, os itens 9 a 16 avaliam a clareza sentimental e os itens 17 a 24 avaliam a reparação do estado emocional. Este instrumento pretende medir a inteligência emocional percebida através de mecanismos cognitivos, ou seja avaliar a capacidade que o sujeito tem de se aperceber dos seus estados de humor, a clareza com que os discrimina e a capacidade que tem ou não de os regular. O valor de alfa de Cronbach para a atenção emocional foi de 0.80, para a clareza de sentimentos foi de 0.79 e para a reparação do estado emocional foi de 0.85 revelando uma boa consistência interna.
16 Questionário de Regulação Emocional para Crianças e Adolescentes O questionário de regulação emocional para crianças e adolescentes foi adaptado do questionário de regulação emocional por Gullone e Taffe (2012). O ERQ-CA surgiu com o intuito de avaliar o uso de duas diferentes estratégias de regulação emocional sendo elas a estratégia de supressão emocional e a estratégia de reavaliação cognitiva. A versão portuguesa foi validada para adolescentes portugueses por Teixeira et al. (2015). Esta é uma medida de autorrelato que avalia a capacidade dos indivíduos se regularem emocionalmente usando as duas estratégias. Este questionário é composto por 10 itens, sendo os itens (1, 3, 5, 7, 8 e 10) para a subescala de reavaliação cognitiva e os (2, 4, 6, 9) para a subescala de supressão emocional. Estes itens são respondidos numa escala de likert de 5 pontos onde 1 corresponde a discordo fortemente e 5 corresponde a concordo fortemente. Quanto mais elevadas forem as pontuações maior é o uso de determinada estratégia. O valor do alfa de Cronbach para a reavaliação cognitiva foi de 0.70 e para a supressão emocional de 0.65 o que significa que o questionário revelou bons resultados no que se refere à consistência interna. Escala de autoestima de Rosenberg (RSES) A escala de autoestima de Rosenberg (RSES) é uma escala originalmente elaborada por Morris Rosenberg (1965) sendo adaptada para a população portuguesa por Santos e Maia (2003). Esta escala permite avaliar a autoestima que cada individuo tem. Esta é composta por 10 itens, 5 itens estão na direção positiva sendo os itens 1, 3, 4, 7, e 10 correspondentes a afirmações de valorização da autoestima e os 5 itens restantes estão na direção negativa sendo os itens 2, 5, 6, 8 e 9 correspondentes a afirmações de desvalorização da autoestima. Estes itens são respondidos numa escala de likert de 4 pontos onde 1 corresponde a discordo fortemente e 4 corresponde a concordo fortemente, sendo os itens de orientação negativa invertidos. Deste modo, os resultados podem variar entre 10 e 40 o que significa que níveis mais elevados correspondem a níveis elevados de autoestima. Resultados mais baixos indicam baixa autoestima. Esta escala foi validada para a população adolescente portuguesa com um valor do alfa de Cronbach de 0.86 o que revelou boa consistência interna. Escala de Afeto Positivo e Afeto Negativo – Versão Reduzida (PANASVPR) A escala de afeto positivo e afeto negativo (PANAS) foi desenvolvida por Watson, Clark e Tellegen (1988) com o objetivo de medir o estado afetivo, o afeto traço e o humor experienciados pelos indivíduos. Esta escala foi adaptada para a população portuguesa numa versão reduzida por Galinha et al. (2014). Deste modo, o afeto negativo elevado reflete desprazer e mal-estar subjetivo medindo as seguintes emoções na sua versão final como assustado, amedrontado, atormentado, culpado e nervoso, por sua vez, o afeto positivo elevado reflete prazer e bem-estar subjetivo medindo as seguintes emoções na sua
17 versão final como interessado, entusiasmado, inspirado, ativo e determinado. Assim sendo, esta escala é composta na sua totalidade por 10 itens, 5 referentes ao afeto negativo (nervoso/a, amedrontado/a, assustado/a, culpado/a, atormentado/a) e os outros 5 referentes ao afeto positivo (inspirado/a, entusiasmado/a, inspirado/a, ativo/a, determinado/a). Estes itens são respondidos numa escala de tipo likert de 5 pontos onde 1 corresponde a “nada ou muito ligeiramente”, 2 “um pouco, 3 “moderadamente”, 4 “bastante” e 5 “extremamente”. Esta escala apresenta excelentes características psicométricas (sensibilidade, fidelidade e validade). O valor de alfa de Cronbach desta escala foi igual a 0.86 na escala de afeto positivo e de 0.89 na escala de afeto negativo. Procedimento O procedimento teve início com a tradução da escala de medida SEC-Q original. Posteriormente comparou-se a tradução em português com a língua original de modo a dissipar as discrepâncias linguísticas que surgiram através da técnica da reflexão falada. Trata-se de uma versão traduzida para efeitos de investigação, para posterior validação o que implicou que algumas expressões fossem ligeiramente alteradas na versão em português a fim de obter o mesmo sentido linguístico da versão original. Depois foi elaborado a partir da plataforma Qualtrics o questionário para resposta constituído pelo consentimento informado, o questionário sociodemográfico, o questionário de competências sociais e emocionais, a escala de regulação emocional para crianças e adolescentes, a escala da autoestima de Rosenberg, a escala Trait Meta-Mood , e a escala do afeto positivo e do afeto negativo (PANAS-VR). Num primeiro momento as escolas foram contactadas presencialmente, informadas e esclarecidas acerca dos objetivos do estudo, recolha de dados e suas implicações, bem como sobre a participação voluntária dos participantes, o anonimato dos dados e sua confidencialidade. Foi enviado um e-mail com toda a informação relatada no contacto presencial para formalizar o procedimento. Foi sugerido contactar os diretores de turma para fazerem chegar o consentimento informado aos pais de forma a autorizarem a participação do seu educando no estudo e envio posterior do link para resposta aos questionários. Foram garantidos os consentimentos informados dos pais e dos estudantes. Para os pais utilizouse um documento próprio distribuído pelo diretor/a de turma, ou de outra forma de acordo com a proposta de cada escola. Para os estudantes o consentimento surgiu no link de resposta aos questionários (caso o estudante não consentisse, o questionário terminava). Se o consentimento fosse dado, prosseguia-se com os questionários, na seguinte ordem: questionário sociodemográfico (idade, género, ano de escolaridade e nível socioeconómico e nacionalidade), seguindo-se a resposta aos questionários/instrumentos de medida. Estes apareceram em sequência diferentes aos participantes
18 pois foi feito uso do contrabalanceamento (gerado pela plataforma Qualtrics ). Este design refere-se a expor os participantes a diferentes ordens para garantir que efeitos como a fadiga não caíssem igualmente em todas as condições (Foley, 2004), evitando preocupações desta natureza. Uma vez terminado o questionário, existia um agradecimento explícito à participação. O Questionário teve a duração de 15-20 minutos, e foi realizado durante o período letivo. Estratégia de Análise de Dados Os dados recolhidos foram analisados através do software de análise estatística SPSS ( Statistical Package for the Social Sciences – versão 28). Para caracterizar a nossa amostra e as dimensões (autoconsciência, autogestão, consciência social, competências de relacionamento pró-social e tomada de decisão responsável, atenção emocional, clareza sentimental, reparo do estado emocional, reavaliação cognitiva, supressão emocional, afeto positivo, afeto negativo e autoestima) dos instrumentos de autorrelato a análise dos dados incluiu medidas de estatística descritiva (frequências, médias, desvios-padrão, assimetria, curtose, mínimo, máximo e alfa de Cronbach). Deste modo, para explorar as propriedades psicométricas do SEC-Q, análise de confiabilidade para cada item da escala, e restantes escalas do estudo foi utilizado o modelo de consistência interna de Cronbach que se refere à inter-relação de um conjunto de itens (Gliem & Gliem, 2003). Em seguida, foi examinada a validade de construto do SEC-Q, através da análise fatorial exploratória que testa a capacidade de uma escala realmente medir o construto que se propõe a medir (Westen & Rosenthal, 2003). Neste sentido, realizou-se uma análise fatorial exploratória (AFE), que é uma técnica estatística que estuda correlações entre um grande número de variáveis agrupando-as em fatores. Esta técnica permite a redução de dados, identificando as variáveis mais representativas ou criando um novo conjunto de variáveis, bem menor que o original (Hair et al., 2009; Kirch et al., 2017). A AFE é uma técnica dentro da análise fatorial cujo objetivo abrangente é identificar as relações subjacentes entre as variáveis. (Hongyu, 2018). A análise fatorial exploratória do SEC-Q foi realizada usando a rotação varimax e o método de componentes principais uma vez que se pressupôs que as subescalas do instrumento possam estar relacionadas. A adequação dos dados para a realização da análise foi avaliada através do teste de Kaiser-Meyer-Olkin e das correlações item-total. A adequação dos itens foi avaliada através dos pesos fatoriais e das comunalidades. Foi considerado que um item saturava num fator sempre que apresentasse uma saturação fatorial superior a 0.50 (Tabachnick et al., 2013). A interpretação das correlações foi efetuada, ponderando que os valores de r entre 0.10 e 0.30 equivalem
19 a correlações muito fracas, valores de r entre 0.30 e 0.50 fracas, e valores de r entre 0.50 e 0.70 moderadas, valores de r entre 0.70 e 0.90 fortes e acima de 0.90 muito fortes. Neste caso, por meio da análise AFE, foi examinado a estrutura de quatro fatores da SEC-Q para a amostra total de forma a atestar a validade do instrumento. Resultados Análises preliminares A Tabela 1 apresenta a estatística descritiva e os valores de assimetria e curtose para as dimensões que constituem a questionário SEC-Q. Todas as dimensões apresentam valores de curtose positivos (distribuição leptocúrtica) à exceção do item 5 que apresenta um valor negativo e valores de assimetria (negativa) próximos de zero. As médias dos itens do questionário variam entre 3.58 e 4.09 e os desvios-padrão variam entre 0.65 e 1.05. Quanto às subescalas as médias variam entre 2.78 e 3.87 e os desvios-padrão variam entre 0.45 e 0.83. Os resultados detalhados encontram descritos na tabela 1. A correlação item-total foi superior a 0.30 (variação: 0.58-0.74 - moderada) em todos os itens do questionário de competências sociais e emocionais (SEC-Q) o que indica uma consistência item-total aceitável. Quanto à consistência interna, o SEC-Q apresenta valores α= .93 considerados excelentes de acordo com Cicchetti (1994) e Damásio (2012). Segundo os mesmos autores as suas subescalas: autoconsciência α=.85; consciência social e comportamento pró-social α=.86; e tomada de decisão responsável α=.84 apresentam uma boa consistência interna e uma consistência interna aceitável para a subescala autogestão α=.76. Ainda em relação às subescalas PANAS-Afeto positivo α=.84; PANAS-Afeto negativo α=.87; QRECA-Reavaliação Cognitiva α=.81; apresentam uma boa consistência interna, QRECA-Supressão emocional α=.67; autoestima de Rosenberg α=.69; apresentam uma consistência interna aceitável, TMMS-Atenção Emocional α=.90; TMMS-Clareza Sentimental α=.90; TMMS-Reparação Estado Emocional α=.90; TMMS-total α=.94 apresentam uma consistência interna excelente.
20 Tabela 1 Estatística descritiva dos itens do questionário de competências sociais e emocionais, subescalas, alfas de Cronbach e correlações item-total corregido Itens M DP Min./Max. Assimetria Curtose Alfa Cronbach Correlação item-total corrigido Item1 3.75 1.01 1-5 -0.83 0.41 0.923* 0.618 Item2 3.83 0.90 1-5 -0.88 1.10 0.921* 0.669 Item3 3.81 0.94 1-5 -0.83 0.58 0.922* 0.622 Item4 3.95 0.89 1-5 -1.00 1.57 0.922* 0.643 Item5 3.58 1.05 1-5 -0.57 -0.20 0.923* 0.618 Item6 3.76 1.03 1-5 -0.72 0.26 0.924* 0.575 Item7 3.99 0.91 1-5 -0.96 1.19 0.921* 0.663 Item8 3.68 0.97 1-5 -0.69 0.31 0.923* 0.601 Item9 3.86 0.91 1-5 -0.78 0.78 0.923* 0.620 Item10 3.78 0.90 1-5 -0.79 0.80 0.922* 0.636 Item11 3.96 0.99 1-5 -0.97 0.77 0.922* 0.641 Item12 3.85 0.87 1-5 -0.78 0.99 0.922* 0.641 Item13 4.09 0.84 1-5 -0.80 0.50 0.922* 0.638 Item14 3.74 0.94 1-5 -0.63 0.40 0.919* 0.737 Item15 3.80 0.91 1-5 -0.62 0.41 0.920* 0.711 Item16 3.67 1.00 1-5 -0.67 0.30 0.923* 0.608 Total 3.82 0.65 1-5 -0.88 2.00 0.927 -----------
21 Autoconsciência 3.84 0.78 1-5 -0.89 1.44 0.852 Autogestão 3.78 0.82 1-5 -0.65 0.56 0.762 Consciência Social Comportamento Pró-Social 3.87 0.70 1-5 -0.82 1.52 0.863 Tomada de Decisão Responsável 3.74 0.83 1-5 -0.49 0.25 0.840 PANAS-AP 3.25 0.69 1-5 0.843 PANAS-NA 2.78 0.81 1-5 0.871 QRECA-RC 3.53 0.67 1-5 0.807 QRECA-SE 3.36 0.72 1-5 0.671 AER 2.75 0.45 1.50-4 0.692 TMMSAE 3.69 0.79 1-5 0.902 TMMSCS 3.60 0.78 1-5 0.903 TMMSREE 3.62 0.79 1-5 0.900 TMMSTotal 3.63 0.66 1-5 0.941 Nota: *Alfa de Cronbach se item eliminado;
22 Sensibilidade O SEC-Q demonstra ter uma boa sensibilidade, uma vez que os participantes responderam em todas as categorias de resposta e em todos os itens da escala. As categorias de resposta eram compostas por uma escala de tipo linkert de 5 pontos em que 1 correspondia a “discordo totalmente”, 2 “discordo em parte, 3 “não concordo nem discordo”, 4 “concordo em parte” e 5 “concordo totalmente”, como se pode visualizar no exemplo proposto (tabela 2). Tabela 2 Exemplo da análise da sensibilidade do SEC-Q 1. Sei identificar as minhas emoções Frequência % % Acumulada 1-Discordo totalmente 12 3.9 3.9 2Discordo em parte 24 7.7 11.6 3Não concordo, nem discordo 64 20.6 32.2 4Concordo em parte 141 45.3 75.5 5Concordo totalmente 70 22.5 100. Total 311 100 ________ Analise fatorial Exploratória O SEC-Q foi sujeito a análise fatorial pelo método da análise de componentes principais onde foi escolhida a rotação Varimax com normalização de Kaiser uma vez que esta permite dispersar por vários fatores a variância explicada minimizando as redundâncias nas escalas. O índice de KMO (Kaiser-MeyerOlkin) ou índice de adequação da amostra indica o quão adequado é a aplicação da análise fatorial exploratória sendo que os valores de KMO (=0.919) foram considerados excelentes. (Hutcheson & Sofroniou, 1999). O teste de esfericidade de Bartlett's (χ2=2728.775; p <0.01.) indicam que a matriz é uma matriz favorável (Tabachnick et al., 2013) e que tende a ser uniforme com o teste de KMO. Inicialmente os 16 itens do questionário foram distribuídos por 3 fatores, estrutura fatorial do modelo não forçado, que explicavam na sua totalidade, 63.91% da variância. A percentagem da variância explicada por cada fator foi de 23.85% para o fator 1 (autoconsciência), 22.10% para o fator 2 (autogestão e tomada de decisão responsável) e 17.96% para o fator 3 (consciência social e comportamento prósocial). Contudo, forçou-se a estrutura fatorial e os 16 itens do questionário foram distribuídos por 4 fatores que explicavam na sua totalidade, 68.55% da variância sendo a pertença dos itens ao fator
23 definida pela saturação mais elevada. A percentagem da variância explicada por cada fator foi de 22.479% para o fator 1 (consciência social e comportamento pró-social); 17.691% para o fator 2 (autoconsciência); 16.038% para o fator 3 (tomada de decisão responsável) e 12.340% para o fator 4 (autogestão). Todos os itens saturaram mais nos fatores correspondentes à escala de origem, com a exceção do item 7. Todos os dados detalhados encontram-se na tabela 3. Contudo, o item 7 vai manter-se no fator da escala de origem (fator 4autogestão) isto porque o nível de saturação entre os dois fatores (fator 3 (0.517) e 4 (0.434)) não é substancialmente significativo para que seja alterado. Além disso, conceptualmente o item 7 “ Tento alcançar os meus objetivos apesar das dificuldades “ deve manter-se no fator relacionado à autogestão, uma vez que esta está relacionada com a capacidade que cada um tem em gerir as próprias emoções, pensamentos e comportamentos de forma a atingir eficazmente as metas e objetivos a curto e longo prazo. A alteração para o fator 3 (tomada de decisão responsável) levaria a vieses na compreensão conceptual uma vez que a tomada de decisão responsável consiste na análise de situações de modo a perceber com exatidão se uma decisão deve ser tomada analisando os fatores que a possam influenciar. Nesta análise, ainda se pode verificar que as comunalidades de cada um dos itens é superior a 0.50 variando entre 0.586 - 0.805, ou seja, quanto maior a comunalidade, maior é o poder de explicação da variável pelo fator.
30 Em suma, e tendo em conta que esta temática pode ser explorada a partir de várias perspetivas esperamos que este estudo seja impulsionador de futuros investimentos na área de investigação em psicologia, sociologia e educação de forma a promover resultados positivos na saúde e bem-estar dos adolescentes.
31 Referências Bibliográficas Alzina, R. B., & Fernández, M. Á. (2000). Educación emocional y bienestar . Praxis. Aron, E. N., & Aron, A. (1997). Sensory-processing sensitivity and its relation to introversion and emotionality. Journal of personality and social psychology , 73 (2), 345. https://doi.org/10.1037/0022-3514.73.2.345 Blakemore, S. J. (2019). Adolescence and mental health. The lancet , 393 (10185), 2030-2031. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(19)31013-X Becker, D. (1994). O que é adolescência (13ª. Ed). São Paulo: Editora Brasiliense. Cantor, P., Osher, D., Berg, J., Steyer, L., & Rose, T. (2019). Malleability, plasticity, and individuality: How children learn and develop in context1. Applied developmental science , 23 (4), 307-337. https://doi.org/10.1080/10888691.2017.1398649 Cicchetti, D. V. (1994). Guidelines, criteria, and rules of thumb for evaluating normed and standardized assessment instruments in psychology. Psychological assessment , 6 (4), 284. https://doi.org/10.1037/1040-3590.6.4.284 Cohen, J., Cohen, P., West, S. G., & Aiken, L. S. (2013). Applied multiple regression/correlation analysis for the behavioral sciences . Routledge. Collaborative for Academic, S. a. (2013). CASEL GuideEffective Social and Emotional Learning ProgramsPreschool and Elementary School Edition. Chicago, IL: Author Covey, S. R. (2014). Leader in me . Simon and Schuster. Cristóvão, A. M., Candeias, A. A., & Verdasca, J. (2017). Social and emotional learning and academic achievement in Portuguese schools: A bibliometric study. Frontiers in psychology , 8 , 1913. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2017.01913 Damásio, B. F. (2012). Uso da análise fatorial exploratória em psicologia. Avaliaçao Psicologica: Interamerican Journal of Psychological Assessment , 11 (2), 213-228. Del Rey, R., Lazuras, L., Casas, J. A., Barkoukis, V., Ortega-Ruiz, R., & Tsorbatzoudis, H. (2016). Does empathy predict (cyber) bullying perpetration, and how do age, gender and nationality affect this relationship?. Learning and Individual Differences , 45 , 275-281. https://doi.org/10.1016/j.lindif.2015.11.021 Denham, S. A., Wyatt, T. M., Bassett, H. H., Echeverria, D., & Knox, S. S. (2009). Assessing socialemotional development in children from a longitudinal perspective. Journal of Epidemiology & Community Health , 63 (Suppl 1), i37-i52. http://dx.doi.org/10.1136/jech.2007.070797
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37 Anexo A Parecer da Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas Universidade do Minho Conselho de Ética Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas (CEICSH) Identificacão do documento: CEICSH 104/2023 Título do proieto: Validação do Questionário de Competências Sociais e Emocionais em Adolescentes Portugueses Equipa de Investigacão: Patrícia Daniela Grandinho Martins (IR), Mestrado em Psicologia Clínica na Infância e Adolescência, Escola de Psicologia, Universidade do Minho, Professora Doutora Teresa Freire (Orientadora), Escola de Psicologia, Universidade do Minho PARECER A Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas (CEICSH) analisou o processo relativo ao projeto de investigação acima identificado, intitulado Validação do Questionário de Competências Sociais e Emocionais em Adolescentes Portugueses. Os documentos apresentados revelam que o projeto obedece aos requisitos exigidos para as boas práticas na investigação com humanos, em conformidade com as normas nacionais e internacionais que regulam a investigação em Ciências Sociais e Humanas. Face ao exposto, a Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas (CEICSH) nada tem a opor à realização do projeto nos termos apresentados no Formulário de Identificação e Caracterização do Projeto, que se anexa, emitindo o seu parecer favorável, que foi aprovado por unanimidade pelos seus membros. O Presidente da CEICSH
38 Anexo B Questionário de Competências Socias e Emocionais em Adolescentes Portugueses Questionário de Competências Socias e Emocionais em Adolescentes Portugueses SEC-Q-AdolescentesVersão de Investigação Patrícia Martins, Ana Teixeira, Teresa Freire, 2023 Leia as frases e responda a cada uma, da forma que melhor se adequa à sua situação, utilizando a escala seguinte: 1 – Discordo Fortemente; 2 – Discordo Parcialmente; 3 – Não concordo nem discordo; 4 – Concordo Parcialmente; 5 – Concordo Fortemente. 1 2 3 4 5 1Sei identificar as minhas emoções 2Estou consciente dos pensamentos que influenciam as minhas emoções 3Sei distinguir uma emoção da outra 4Sei como as minhas emoções influenciam o que faço 5Sei como motivar-me 6Tenho claros os meus objetivos 7Tento alcançar os meus objetivos apesar das dificuldades 8Consigo perceber o que as outras pessoas sentem 9Estou atento às necessidades dos outros 10Geralmente, sei como ajudar as pessoas que precisam 11Tenho um bom relacionamento com os meus colegas de escola ou de trabalho 12Geralmente, costumo escutar de forma ativa 13Geralmente, ofereço ajuda quando precisam de mim 14Quando tomo decisões, analiso cuidadosamente as possíveis consequências 15Geralmente, costumo considerar as vantagens e desvantagens de cada opção antes de tomar decisões 16Não costumo tomar decisões de forma descuidada Muito obrigada pela sua colaboração.