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O contributo do design na consciência da economia circular para padrões de consumo sustentáveis: o co-design como abordagem exploratória no concelho da Maia

Barbosa, Marta Damas

Abstract

O Homem moderno apresenta-se como o responsável pela exploração continua e linear de recursos e, consequentemente, pela poluição e desgaste do meio-ambiente, contribuindo para um sistema em crise. A presente investigação procura perceber como o co-design pode promover um entendimento mais alargado sobre as questões do consumo sustentável e economia circular da sociedade, tendo o concelho da Maia como um território de ação. Através de uma abordagem processual alicerçada em dois grandes momentos procura-se, inicialmente, realizar um enquadramento teórico sobre temas como a economia circular (EC), sustentabilidade e desenvolvimento sustentável. Estes, influenciam novos modelos de ação na prática do design, como o design participativo e a cocriação que, em estreita relação com os novos modelos industriais e económicos da EC, integram as pessoas como parte ativa na solução. O enquadramento teórico permite retirar conclusões que informam o segundo momento, um plano de investigação-ação com jovens entre os 15 e os 34 anos de idade residentes e estudantes na cidade da Maia. Aqui, através de sessões colaborativas, espera-se que os jovens identifiquem oportunidades de intervenção no território da Maia e desenvolvam soluções para as mesmas, culminando num processo de sensibilização e consciencialização para os padrões de consumo sustentáveis e a EC. Por fim, a presente investigação procura contribuir para discussão de como as práticas de sessões colaborativas de design podem contribuir para a participação e criação de propostas de cenários mais sustentáveis, modelos de cidadania ativa e adoção de comportamentos orientados para a economia circular.

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Universidade do Minho Escola de Arquitetura, Arte e Design Marta Damas Barbosa O contributo do design na consciência da economia circular para padrões de consumo sustentáveis: o co-design como abordagem exploratória no concelho da Maia Junho de 2023 Universidade do Minho Escola de Arquitetura, Arte e Design Marta Damas Barbosa O contributo do design na consciência da economia circular para padrões de consumo sustentáveis: o co-design como abordagem exploratória no concelho da Maia Dissertação de Mestrado Mestrado em Design de Produto e Serviços Trabalho efetuado sob a orientação do(a) Professor Doutor João Sampaio Professora Doutora Cecilia Carvalho Junho de 2023 Despacho RT - 31 /2019 - Anexo 3 Declaração a incluir na Tese de Doutoramento (ou equivalente) ou no trabalho de Mestrado DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-CompartilhaIgual CC BY-SA https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/ 1 AGRADECIMENTOS Ao professor João Sampaio, pelo processo de orientação marcado por um acompanhamento próximo, repleto de paciência e apoio. À professora Cecília Carvalho, pela coorientação e apoio. À professora Carmen Madureira e aos restantes professores da Escola Básica e Secundária de Águas Santas, por me receberem de braços abertos e tornarem parte da minha dissertação possível. Aos meus pais e irmão, por todo o apoio, confiança e amor. À Dra. Catarina, pelo seu acompanhamento crucial neste processo. Ao Pedro, pelo constante incentivo, amor e companheirismo. À Inês, pela amizade, ajuda e opiniões valiosas. 2 Despacho RT - 31 /2019 - Anexo 4 Declaração a incluir na Tese de Doutoramento (ou equivalente) ou no trabalho de Mestrado DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. 3 RESUMO O Homem moderno apresenta-se como o responsável pela exploração continua e linear de recursos e, consequentemente, pela poluição e desgaste do meio-ambiente, contribuindo para um sistema em crise. A presente investigação procura perceber como o co-design pode promover um entendimento mais alargado sobre as questões do consumo sustentável e economia circular da sociedade, tendo o concelho da Maia como um território de ação. Através de uma abordagem processual alicerçada em dois grandes momentos procura-se, inicialmente, realizar um enquadramento teórico sobre temas como a economia circular (EC), sustentabilidade e desenvolvimento sustentável. Estes, influenciam novos modelos de ação na prática do design, como o design participativo e a cocriação que, em estreita relação com os novos modelos industriais e económicos da EC, integram as pessoas como parte ativa na solução. O enquadramento teórico permite retirar conclusões que informam o segundo momento, um plano de investigação-ação com jovens entre os 15 e os 34 anos de idade residentes e estudantes na cidade da Maia. Aqui, através de sessões colaborativas, espera-se que os jovens identifiquem oportunidades de intervenção no território da Maia e desenvolvam soluções para as mesmas, culminando num processo de sensibilização e consciencialização para os padrões de consumo sustentáveis e a EC. Por fim, a presente investigação procura contribuir para discussão de como as práticas de sessões colaborativas de design podem contribuir para a participação e criação de propostas de cenários mais sustentáveis, modelos de cidadania ativa e adoção de comportamentos orientados para a economia circular. PALAVRAS-CHAVE: Economia circular; Consumo sustentável; Co-design ; Investigação-ação, Consciencialização 4 ABSTRACT The modern man emerges as the one responsible for the continuous and linear exploitation of resources and, consequently, for the pollution and deterioration of the environment, contributing to a system in crisis. This research seeks to understand how co-design can promote a broader understanding of sustainable consumption and circular economy issues in society, with the municipality of Maia as a territory of action. Through a two-step processual approach, we seek, initially, to carry out a theoretical framework on topics such as circular economy (CE), sustainability and sustainable development. These topics influence new models of action in design practice, such as participatory design and co-creation, which, in close relation to the new industrial and economic models of CE, integrate people as an active part of the solution. The theoretical framework allows drawing conclusions that inform the second moment, an action-research plan with young people between 15 and 34 years old living and studying in the city of Maia. Here, through collaborative sessions, young people are expected to identify opportunities for intervention in the territory of Maia and develop solutions for them, culminating in a process of awareness raising for sustainable consumption patterns and CE. Finally, this research seeks to contribute to the discussion of how the practices of collaborative design sessions can contribute to the participation and creation of proposals for more sustainable scenarios, models of active citizenship and adoption of behaviours oriented towards the circular economy. KEY WORDS: Circular economy; Sustainable consumption; Co-design; Actionresearch, Awareness 11 Figura 75Ideias preliminares .................................................................................... 157 Figura 76Resposta ao OX Tool .................................................................................. 158 Figura 77Avaliação do entendimento prévio dos conceitos e impacto do workshop nos mesmos ................................................................................................................ 160 Figura 78Avaliação do processo do workshop ......................................................... 161 Figura 79Avaliação geral do workshop ..................................................................... 162 Figura 80Caracterização sociodemográfica dos participantes ................................. 164 Figura 81Entendimento prévio dos conceitos .......................................................... 166 Figura 82Avaliação do impacto do workshop no entendimento dos conceitos ....... 167 Figura 83Avaliação das ferramentas utilizadas ........................................................ 168 Figura 84Avaliação dos tópicos abordados .............................................................. 169 Figura 85Avaliação da dinâmica do workshop ......................................................... 169 Figura 86Avaliação da participação no workshop .................................................... 170 Figura 87Avaliação geral do workshop ..................................................................... 171 12 1. INTRODUÇÃO Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (IRP, 2018), ao manter os padrões de produção e consumo atuais, serão necessárias 180 bilhões de toneladas anuais de recursos materiais para satisfazer as necessidades da população de 2050. Posto isto, torna-se necessário caminhar para a adoção de padrões de produção e consumo mais sustentáveis que se afastem da lógica linear vigente, promovendo alterações no paradigma industrial e social. Pessoalmente, o interesse nesta mudança de paradigma tem vindo a desenvolver-se pelo estudo do design, em especial o design de produto. Esta, é uma área que, podendo ser considerada como a maior criadora da cultura material é, consequentemente, um contributo para o sistema linear de produção e consumo. No entanto, acredita-se que esta disciplina deve procurar responder às necessidades ambientais e sociais da sociedade atual, caminhando numa direção que promova a mudança de paradigma industrial e social. Uma das alternativas emergentes ao sistema linear é a economia circular, que tem o potencial de transformar o atual sistema no sentido do desenvolvimento sustentável, baseado nos princípios de redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais e energia. No entanto, aplicando os conceitos do desenvolvimento sustentável e da economia circular ao design de produto e serviços entende-se que o objetivo é prolongar o valor dos produtos e materiais através de ciclos de vida maiores, e com isto reduzir o uso de recursos e produção de resíduos. Williams (2019) aponta três estratégias fundamentais para os processos circulares: looping , regeneração e adaptação; complementadas por ações como a otimização, partilha, substituição e localização. Ao examinar estes princípios de design para a economia circular, é possível entender que o foco está nos aspetos técnicos e físicos do produto, ou ainda na otimização do sistema em que este se insere. Contudo, se “o objetivo é fazer circular produtos ao seu mais alto nível de valor, o comportamento do cliente pode tornarse uma parte importante do sistema” (Wastling et al., 2018, p.1). Esta perspetiva tem sido subestimada no design para a EC, “principalmente porque a economia circular é vista como uma solução liderada pelo produtor” 13 (Wastling et al., 2018, p.15) e com pouca consideração pela dimensão social no contexto mais amplo da economia circular. Posto isto, o design pode influenciar as perceções e padrões de consumo de uma sociedade (De los Rios & Charnley, 2017), focando-se no valor intangível dos sistemas. Se esta disciplina coloca a experiência humana no centro das suas práticas, sendo este um importante ponto de partida para uma inovação significativa, podemos concluir que os designers têm as abordagens processuais que possibilitam compreender as pessoas, influenciar valores, atitudes e desejos do utilizador nesta mudança de padrões de produção e consumo (Lofthouse & Prendeville, 2018). De modo a projetar para a mudança de comportamentos, o designer pode tomar partido de ferramentas que permitam as mais diversas intervenções (Michie et al., 2011), das quais se salientam: • Educação-aumentar o conhecimento ou a compreensão; • Formação-criar as competências; • Exemplodar um exemplo que permita às pessoas ambicionarem ou imitarem; • Permissãoaumentar os meios/reduzir as barreiras para aumentar a capacidade (para além da educação) ou a oportunidade. Posto isto, surge a questão “como pode o designer contribuir para a adoção de padrões de consumo mais sustentáveis e circulares?”. A presente investigação, tendo como mote esta questão, espera, assim, ajudar a preencher uma lacuna na atual literatura de design para a economia circular, caminhando numa direção que promova a mudança de paradigma industrial e social. Para tal, acredita-se que é fundamental tirar partido do caracter interdisciplinar da disciplina do design, utilizando abordagens processuais que permitam ao designer atuar como mediador e facilitador na adoção/promoção de padrões de consumo individuais e coletivos mais sustentáveis. Assim, propõe-se a contribuir para uma perspetiva que tem sido subestimada no design – a importância da dimensão social e comportamental no contexto da economia circular. Para tal, pretende abordar os padrões de consumo no contexto dos jovens na faixa etária entre os 15 e os 34 anos, residentes, estudantes e/ou trabalhadores na cidade da Maia, através do uso do design como ferramenta mediadora e 14 transformadora que procura a mudança social através da produção participativa de conhecimento. Além disso, destaca-se que a presente investigação parte alinha-se com os Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável desenvolvidos pelas Nações Unidas, agindo como contributo local para o alcance destas metas tão urgentes, especificamente dos seguintes ODS: • Objetivo 4Educação de qualidade: o Até 2030, garantir que todos os alunos adquiram conhecimentos e competências necessárias para promover o desenvolvimento sustentável, inclusive, através da educação para o desenvolvimento sustentável e estilos de vida sustentáveis, direitos humanos, igualdade de género, promoção de uma cultura de paz e de não violência, cidadania global, valorização da diversidade cultural e da contribuição da cultura para o desenvolvimento sustentável • Objetivo 12Garantir padrões de consumo e de produção sustentáveis: o Até 2030, garantir que as pessoas, em todos os lugares, tenham informação relevante e consciencialização para o desenvolvimento sustentável e estilos de vida em harmonia com a natureza • Objetivo 13Ação climática: o Melhorar a educação, aumentar a consciencialização e a capacidade humana e institucional sobre medidas de mitigação, adaptação, redução de impacto e alerta precoce no que respeita às alterações climáticas Neste sentido, acredita-se que o presente projeto tem o seu valor na educação e ou sensibilização de jovens para estes problemas, de modo que estes possam adotar e difundir práticas mais conscientes e sustentáveis de consumo, promovendo assim novas atitudes e comportamentos sociais. 15 1.1. DESENHO DA INVESTIGAÇÃO 1.1.2. Problema de investigação Perante a necessidade de respostas à atual urgência climática e à consolidação da EC como potencial resposta, surge o problema de investigação, e, por isso, o mote da mesma: • Que abordagens do design que permitem a promoção de um entendimento mais alargado sobre as questões do consumo sustentável e economia circular da sociedade? 1.1.3. Questão de investigação Como forma de resposta ao problema identificado, e definindo um ângulo de análise, a questão de investigação consiste em: • Como poderá o designer, com recurso a abordagens de co-design, atuar como mediador e facilitador, contribuindo para a adoção de padrões de consumo sustentável entre os jovens? 1.1.4. Objetivos de investigação Para responder à questão de investigação apresentada, e também como forma de a guiar, foram definidos os seguintes objetivos: • Identificar fatores-chave e oportunidades de intervenção do design que permitam a sensibilização e consciencialização para a EC e consumo sustentável; o Desenvolver com o público-alvo dinâmicas que, através do codesign, permitam intervenções fundamentais para a mudança de comportamentos, nomeadamente a educação, sensibilização ou consciencialização acerca de padrões de consumo sustentável; • Utilizar o concelho da Maia como contexto de ação e possível laboratório de experimentação de modelos e estratégias processuais. 16 1.1.5. Abordagem metodológica Para que os objetivos de investigação sejam cumpridos, será fundamental identificar as condições necessárias para a adoção de padrões de consumo sustentáveis pelos jovens e, partindo destas, identificar oportunidades de intervenção do design na consciência e educação da EC. Assim, pretende-se refletir sobre os contributos do design, para a adoção de padrões de consumo sustentáveis através da economia circular, partindo de um contexto locala cidade da Maia, e com foco nos jovens entre os 15 e os 34 anos de idade. Uma vez que a mudança social requer a partilha de conhecimentos e a participação como instrumentos de poder e controlo (Creswell, 2010), esta investigação assume o paradigma participativo e emancipatório. A abordagem é de investigação-ação, compreendendo, portanto, um processo cíclico de constante aperfeiçoamento e ajuste de métodos e ações. Este, é guiado por quatro faseso planeamento, a ação, a observação e a reflexão, de onde são retiradas conclusões que informam o seguinte ciclo de ação. Posto isto, e também devido à necessidade de envolvimento no contexto e de identificação e análise de hábitos, normas e valores propõe-se a utilização de métodos mistostirando partido, maioritariamente, de métodos qualitativos, onde se esperam recolher dados através da observação participante com recurso a diário de campo e da análise textual e de imagens. Além disso, acredita-se que o recurso métodos quantitativos como os questionários, será fundamental para a validação de dados (e reflexão), permitindo avaliar cada etapa e informar futuros ajustes. 1.1.6. Estrutura da dissertação A estrutura assume 4 partes, onde o corpo principal da investigação está inserido nos primeiros quatro capítulos, sendo respetivamente os quintos e sextos referentes às referências bibliográficas e anexos relativos a diversas ações desenvolvidas no decorrer da presente investigação. O Capítulo 1, contendo a introdução e o desenho da investigação, enquadra a presente investigação. O Capítulo 2 é referente ao enquadramento da temática em estudo, sendo esta dividida em três momentos. O primeiro, apresenta uma contextualização da temática, 17 permitindo um melhor entendimento dos seguintes momentos. O segundo, foca-se na economia circular, abrangendo as suas definições, princípios e estratégias. Aqui, é também apresentada a relação da economia circular com o design de produto e impacto a nível de modelos de negócios. O terceiro momento parte das conclusões da relação do design com a economia circular e apresenta fatores e abordagens chave do design, explorando o papel crucial que esta disciplina pode ter na procura de soluções mais holísticas no contexto da EC. Aqui, são identificadas abordagens colaborativas e participativas. O Capítulo 3 apresenta a parte prática da presente investigação, incluindo o primeiro e segundo ciclo de investigação-ação. Dentro do segundo ciclo, são descritas as decisões processuais, os modelos de ação, a preparação, dinamização e análise da implementação de workshops de co-design em contexto escolar. O Capítulo 4 apresenta as considerações finais, onde são descritas as ponderações sobre o trabalho desenvolvido, a capacidade de resposta aos objetivos propostos e as recomendações para trabalhos futuros. 18 2. ENQUADRAMENTO TEÓRICO 2.1. CONTEXTUALIZAÇÃO 2.1.1. Economia linear O Homem desde a sua existência utiliza os recursos naturais para sobrevivência e, como Manzini (1993) refere, quando dotado da habilidade de produzir artefactos nos primeiros anos da sua existência, este recorreu a materiais como a madeira, a pedra, os ossos, os chifres e o couro para construir ferramentas e objetos. Assim, observamos que a exploração e utilização de materiais naturais é tão antiga quanto a própria humanidade. Porém, só milhares de anos depois, com o desenvolvimento económico e tecnológico, é que surge a extração de materiais a partir de recursos naturaisbens de origem biológica, hídrica, energética ou mineral, resultando em materiais como o metal. A partir destes avanços, estes materiais (como o metal) ganham importância e, em épocas como a Revolução Industrial, chegam mesmo a substituir os materiais naturais como a madeiraaltura em que as profundas transformações culturais, sociais e económicas aceleraram a multiplicidade de materiais desenvolvidos pelo Homem. A Revolução Industrial foi um processo significativo de transformação social e económica que teve início em Inglaterra durante dois períodos distintos — entre 1760 e 1830 — e, posteriormente, em entre 1870 e 1914. Durante esta revolução a produção artesanal foi substituída pelo sistema fabril, que, dotado de máquinas a vapor, eletricidade e petróleo, introduz a mecanização em grande escala. Assim, iniciam-se transformações nos países da Europa e na América do Norte, que se tornam predominantemente industriais devido ao desenvolvimento das cidades causado pelo êxodo rural das populações e consequente concentração das mesmas nas cidades (Martins et al., 2013). Assim, as populações que migraram das zonas rurais em busca de melhores condições de vida, beneficiam as indústrias através de uma crescente mão de obra que, por sua vez, leva a uma maior eficiência industrial. Também com os avanços na área dos transportes e fabricação, as oportunidades de compra e venda tornaram-se mais rápidas e eficientes que, aliadas a 19 uma crescente prosperidade e mobilidade social, levam a um aumento do número de pessoas com rendimento disponível para consumo. Surge então a comercialização de bens para os particularesque rapidamente se torna uma parte importante da vida quotidiana. Assim, é a partir dos anos 50 que a relação entre as pessoas e seus pertences muda, impulsionada por um sistema de massificação da produção. É neste contexto da revolução industrial que o design e “a identidade do projetista se fortalece”, ao acompanhar as transformações sociais, económicas e tecnológicas para satisfazer as necessidades e os desejos da sociedade. Prova disso é a empresa Josiah Wedgwood, fundada em 1750 , que “pode ser vista como um centro onde se manifestaram diferentes áreas do design, como o design de produto e o design gráfico, além de uma das primeiras empresas a empregar o designer como profissional responsável pelo projeto” (Martins et al., 2013, p.142). Paralelamente surge então, nos primeiros tempos de industrialização, um modelo linear de extração, produção, consumo e geração de resíduos ( take-makedispose ) que rapidamente se torna o modus operandi empresarial. Neste modelo, as empresas extraem matéria-prima que utilizam para fabricar produtos em massa, que posteriormente vendem a um consumidor - que depois o descarta quando já não serve o seu propósito (MacArthur Ellen Foundation, 2013). Assim, foi-se caminhando num sentido industrializado e consumista que, nos anos 60 culmina num consumo massificado assente em materiais sintéticos e obsolescência programada que não ponderava os impactos ambientais da sua expansão. Com isto, a sociedade mergulha num período de descuido em relação à utilização dos recursos naturais (Velenturf & Purnell, 2021), em que o foco são os lucros e o consumo, e onde as consequências ambientais e sociais ficam em segundo plano. Porém, qualquer sistema baseado no consumo e não no uso restaurativo de recursos implica perdas significativas ao longo de toda a cadeia de valor (MacArthur Ellen Foundation, 2013) e profundas incompatibilidades com um desenvolvimento sustentável da sociedade (Velenturf & Purnell, 2021). Com isto, a revolução industrial levou também a uma transição da anterior visão cíclica do mundo para uma visão em que o progresso é visto como seguindo uma lógica linear e unidirecional (Birkeland, 2002). 20 2.1.2. Sustentável e sustentabilidade Em 1713, época de crise europeia devido à escassez de recursos florestais, Hans Carl von Carlowitz introduz o termo “sustentável” na sua obra Sylvicultura oeconomica , onde defende que o respeito pela integridade ecológica e pela disponibilidade de recursos naturais deveria ser o guia para toda a atividade humana, incluindo nas dimensões económica e social (Garcia & Pruner, 2016). Posto isto, entende-se que a “ideia sustentabilidade não é um movimento ambientalista moderno, mas sim uma forma de pensar e de agir enraizada nas culturas das sociedades que se tem vindo a desenvolver ao longo de séculos” (Feil & Schreiber, 2017, p.673), impulsionado pelas crises do sistema (energético) desde a antiguidade. O termo sustentabilidade “ganhou espaço e visibilidade em virtude das discussões sobre as fontes energéticas e recursos naturais, ou seja, que diziam respeito às relações entre humanos e meio ambiente, e, em especial, a problemas de deterioração da relação entre ecologia global e desenvolvimento económico” (Feil & Schreiber, 2017, p.673). De facto, “as pressões sobre os sistemas económicos globais e locais e os desafios colocados pela desigualdade social começaram a ser levantados por cientistas, economistas e até designers já nos anos 60” (Obiols et al., 2019, p.173). Dentro da disciplina do design, entre o final da década de 60 e início da década de 70, começa a ser questionado o paradigma dominante do design que tinha o seu foco no mercado, consumo e obsolescência planeada. Neste sentido, Pazmino (2007), refere a obra de Victor Papanek “Design for the Real Word" de 1971, como uma obra polémica e que até hoje é um marco na mudança de paradigma para a prática do design mais consciente. De forma mais especifica, Pazmino diz que a obra referenciada possibilita “mostrar um caminho alternativo para o designer, o desenvolvimento de um design não para o mercado e sim para o individuo, para a comunidade” (Pazmino, 2007, p.3). Paralelamente, em 1972 deu-se a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, onde foi abordada a possibilidade de articular o crescimento económico e industrial com os problemas ambientaisconsiderando-os como problemas globais e que, como tal, requerem cooperação 27 otimizar a utilização - e não a produção - de objetos, componentes e moléculas ao seu mais alto nível de utilidade e valor, gerindo os seus stocks de forma lucrativa. De facto, o único consenso em termos dos objetivos da EC parece ser que esta “visa aumentar a eficiência da utilização dos recursos, com especial foco nos resíduos urbanos e industriais, para alcançar um melhor equilíbrio e harmonia entre economia, ambiente e sociedade” (Sehnem et al., 2019, p.795). Assim sendo, entende-se que os objetivos da EC (que se baseiam em princípios de desenvolvimento sustentável) se podem inserir num objetivo maioro de alcançar um desenvolvimento sustentável (Kirchherr et al., 2017; Velenturf & Purnell, 2021), implicando, por isso, a “criação de qualidade ambiental, prosperidade económica e equidade social, em benefício das gerações atuais e futuras" (Kirchherr et al., 2017, p.225). Ainda nesta linha, Suárez-Eiroa et al. (2019, p. 956) afirmam que o “objetivo da EC, no âmbito do desenvolvimento sustentável, deve ser o de “dissociar o desenvolvimento económico da utilização de recursos e resíduos finitos e da geração de emissões, mantendo-as (…) sob valores adequados às fronteiras planetárias”. Deste modo, é possível entender que a EC procura criar capital económico, natural e social, tornando-se uma alternativa ideal para enfrentar as crescentes preocupações ambientais, encarando-as, simultaneamente, como uma possibilidade de mudança e caminho para uma produção e consumo mais sustentáveis (Homrich et al., 2018). Porém, ainda pouca atenção é dada à questão social, como se irá abordar posteriormente. No entanto, e apesar de algum consenso no objetivo da EC, através da revisão bibliográfica foi possível constatar que as suas definições não são consensuais, sendo que há diferentes pontos de vista sobre estas, mas também acerca das suas prioridades (Alhawari et al., 2021; Homrich et al., 2018). Para melhor entendimento, elaborou-se uma tabela resumo das definições encontradas na revisão bibliográfica – tabela 1. 28 Tabela 1Principais definições de EC encontradas na bibliografia Autor(es) Definição Kirchherr et al., (2017, p.224225) "Uma EC descreve um sistema económico que se baseia em modelos empresariais que substituem o conceito de 'fim de vida' pelo conceito de redução, alternativamente reutilização, reciclagem e recuperação de materiais nos processos de produção/distribuição e consumo, operando assim a nível micro, a nível meso e a nível macro, com o objetivo de alcançar o desenvolvimento sustentável, que implica a criação de qualidade ambiental, prosperidade económica e equidade social, em benefício das gerações atuais e futuras". Stahel (2019) Uma EC gere stocks dentro da visão de uma sociedade sustentável. Abrange stocks (bens e capitais) naturais, humanos, culturais, financeiros e industriaiscom o objetivo de manter o seu valor (…) durante o maior tempo possível num contexto de monetarização. Os utilizadores-proprietários de objetos e bens controlam a sociedade e a economia circulares. MacArthur Ellen Foundation (2013, p.7) “Uma economia circular é um sistema industrial que é restaurador ou regenerativo por intenção e design. Substitui o conceito de "fim de vida" pela restauração, orienta-se para a utilização de energias renováveis, elimina a utilização de produtos químicos tóxicosque prejudicam a reutilizaçãoe visa a eliminação de resíduos através da conceção superior (superior design) de materiais, produtos, sistemas, e, dentro deste, modelos de negócio.” Alhawari et al. (2021, p.13) “(…) é o conjunto de processos de planeamento organizacional para a criação e fornecimento de produtos, componentes e materiais ao seu mais alto nível de utilidade para os clientes e a sociedade, através da utilização eficaz e eficiente dos ciclos do ecossistema, económico e do produto” Lofthouse e Prendeville (2018, p.452) “(…) é um modelo conceptual que apresenta uma alternativa à economia 'linear'. Assim, imagina como poderemos manter os recursos em uso durante o máximo de tempo possível, extraindo o valor máximo (utilização e troca) de produtos e materiais no fim de cada vida útil” Korhonen et al. (2018, p.39) “(…) é uma economia construída a partir de sistemas de produçãoconsumo social que maximiza o serviço produzido a partir do fluxo linear natureza-sociedade-natureza material e energia através do fluxo de produção. (…) A economia circular bem-sucedida contribui para as três dimensões do desenvolvimento sustentável.” Brandão et al. (2020, p.15) “(…) o conjunto de práticas que visam a minimização, tendo em vista a eliminação total, da extração de recursos e da produção de resíduos. (…) a sua ambição deve incorporar uma forte perspetiva de sustentabilidade” Suárez-Eiroa et al. (2019, p.958) “(…) é um sistema regenerativo de produção-consumo que visa manter as taxas de extração de recursos e as taxas de geração de 29 resíduos e emissões sob valores adequados às fronteiras planetárias, através do fecho do sistema (…) apoiando-se principalmente no design e na educação, e com capacidade para ser implementado em qualquer escala” European Parliament (2023) Um modelo de produção e consumo, que envolve a partilha, aluguer (leasing), reutilização, reparação, remodelação ( refurbish ) e reciclagem dos materiais e produtos existentes durante o maior tempo possível. (…) Na prática, implica a redução do desperdício ao mínimo. Apesar da miríade de definições presentes na literatura, as definições da EC apresentadas por Kirchherr et al. (2017) e MacArthur Ellen Foundation (2013) têm sido as mais usadas como base para o avanço da EC, apesar das suas diferenças evidentes. Por um lado, a definição de MacArthur Ellen Foundation (2013) tem um foco industrial, utiliza uma linguagem mais orgânica ("restaurativa e regenerativa") e identifica alguns dos principais elementos e objetivos de uma EC (energias renováveis, eliminação de produtos químicos tóxicos e resíduos, design superior e modelos empresariais). Por outro lado, Kirchherr et al. (2017) introduzem na sua definição uma visão mais holística de uma EC que tem como objetivo o desenvolvimento sustentável, apesar de poder ser considerada “francamente utópica…embora possa não haver mal nenhum em ter isso como objetivo, o que em todo o caso ressoa com as aspirações multidimensionais do desenvolvimento sustentável“ (Ekins et al., 2019, p.7). A partir da tabela entende-se que Alhawari et al. (2021), Brandão et al. (2020) e Lofthouse e Prendeville (2018) definem a EC como um conjunto de práticas. Já Kirchherr et al. (2017), Korhonen et al. (2018) e Suárez-Eiroa et al. (2019) referem que a EC é um sistema de produção e consumo, pelo que se pode entender que nestas definições a EC é identificada como um sistema económico 1 . No entanto, esta é uma visão contrária a MacArthur Ellen Foundation (2013), que apenas define a EC como um sistema industrial. Porém, pode-se também concluir que, de uma forma ou de outra, a maioria dos autores considera a EC como um sistema regenerativo e restaurativo de recursos, que tem como objetivo substituir o conceito de “fim-de-vida” de produtos e materiais, de 1 Em que sistema económico se entende por um “sistema de produção, distribuição e consumo de bens e serviços de uma economia” - definição da Wikipédia 30 forma a “minimizar (e idealmente eliminar) a extração de recursos e da produção de resíduos” (Brandão et al., 2020). Para tal, são recorrentemente apontados princípios como os fluxos cíclicos (Alhawari et al., 2021; Korhonen et al., 2018) ou os ciclos fechados, como forma de manter materiais, componentes, produtos, energia e outros stocks 2 (Stahel, 2019) ao seu mais alto nível, durante o maior tempo possível. Outros princípios referidos são as políticas R ( R frameworks ), que Kirchherr et al. (2017) apontam como sendo os principais numa ECnuma logica hierárquica, em que primeiramente se encontra a redução e posteriormente a reutilização, reciclagem e recuperação de materiais. Apesar de os autores se guiarem pelos 4R’s 3 , fazem ainda referencia a outras políticas R, como os 9R’s 4 - também esta organizada de forma hierárquica que, apesar de tudo, não inclui a restauração e regeneração (Ekins et al., 2019). Neste sentido, Alhawari et al. (2021, p.18, p.18) concluem que a EC é um sistema de “ciclo duplo, por ser uma combinação de um sistema de ciclo fechado e de um sistema de recuperação”- que, através da “utilização eficaz e eficiente de ciclos do ecossistema, económicos e de produtos, mantêm o fluxo destes recursos num ciclo fechado”. Assim, a eficiência e desempenho dos recursos é otimizada, permitindo dissociar a extração e utilização dos recursos naturais da produção económica (Alhawari et al., 2021; Corvellec et al., 2021). Podemos também concluir que apenas alguns autores fazem referência direta aos facilitadores da ECnomeadamente os modelos de negócio, os utilizadoresconsumidores, o design, a educação e as escalas de implementação. Neste sentido, Ekins et al. (2019) referem ainda que “uma economia circular (…) não pode ser alcançada sem uma política pública sustentada e determinada.” Por fim, é também importante notar que Kirchherr et al., (2017) e Korhonen et al. (2018) referem que a EC deve contribuir para o desenvolvimento sustentável, sendo que Stahel (2019) refere ainda que “uma economia circular gere stocks dentro da visão de uma sociedade sustentável”, sendo estes, portanto, os únicos autores 2 Stocksreferindo os “naturais, humanos, culturais, financeiros e industriais” (Stahel, 2019) 3 4R’s: Reduzir, Reutilizar, Reciclar e Recuperar 4 9R’s: Recusar, Repensar, Reduzir, Reutilizar, Reparar, Remodelar ( Refurbish ), Remanufaturar, Reaproveitar, Reciclar, Recuperar 31 referidos a explicitar a relação da EC com a sustentabilidade ou desenvolvimento sustentável. Em suma, a literatura da EC apresenta diferenças consideráveis nas definições e conceptualização dos seus conceitos-chave (tabela 1). Porém, a partir dos conceitos discutidos, podemos entender a EC como um sistema económico que, contrariamente à economia linear, apresenta um ciclo fechado de produção-consumo onde os seus recursos são recorrentemente reaproveitados e reinseridos no sistema de forma (idealmente) infinita através de fluxos cíclicos que mantêm o valor destes recursos, eliminando assim a necessidade de extração de recursos naturais e o desperdício de recursos. McCarthy et al. (2018, p.14) referem ainda que as definições da EC “partilham um resultado semelhante: maior eficiência de recursos ou, por outras palavras, a dissociação da extração e utilização de recursos naturais do desempenho económico”. Porém, para que a EC contribua para o desenvolvimento sustentável e se constitua como “um conceito holístico que abrange as atividades de 'reduzir, reutilizar e reciclar' no processo de produção, circulação e consumo" (Kirchherr et al., 2017, p.6) é necessária uma "reforma completa de todo o sistema da atividade humana, que inclui tanto os processos de produção, como as atividades de consumo" (Homrich et al., 2018, p.11) e, consequentemente, mudanças de (e para) todos os atores sociais, tendo em conta os três níveis de implementação. No entanto, na maioria da literatura da EC, as perspetivas económicas e industriais apresentam-se como dominantes (Alhawari et al., 2021), demonstrando que a visão deste modelo tem, atualmente, o seu foco no desenvolvimento económico. Ao fazê-lo, coloca as preocupações ambientais em segundo plano, despolitizando as inevitáveis soluções de compromisso que terão de ser feitas para equilibrar os objetivos económicos e ambientais (Brandão et al., 2020). No entanto, a perspetiva social é ainda mais esquecida do que a questão ambiental, sendo apenas “periférica e esporadicamente integrada no conceito de economia circular” (Mies & Gold, 2021, p. 1). A implementação de estratégias na EC que careçam de uma abordagem holística das três dimensões da sustentabilidadeeconómica, social e ambiental 32 podem, portanto, resultar na implementação de uma EC que não é sustentável (Kirchherr et al., 2017). 2.2.3. Princípios e estratégias 2.2.3.1. Princípios Sendo a EC inspirada na natureza, se a circularidade dos sistemas criados pelo Homem (sistemas artificiais) fosse equivalente à dos sistemas naturais, conseguiríamos manter o equilíbrio nos ecossistemas e nos recursos naturais. Assim, os princípios da EC são uma tentativa de articular os sistemas artificiais da forma mais natural possível. Posto isto, foi possível concluir com a revisão bibliográfica que, sendo a EC um conceito guarda-chuva, os seus princípios guias variam consoante os autores e com a visão que cada um tem em relação à hierarquia mencionada anteriormente entre os aspetos social, económico, ambiental. No entanto, a partir das referências diretas aos termos “princípios”,” princípios teóricos” ou “estratégias teóricas” da bibliografia é possível encontrar alguns pontos em comum, resumidos na figura 3. Suárez-Eiroa et al. (2019) defendem que a EC tem como princípios i) minimizar as entradas de matérias-primas e saídas de resíduos ii) manter o valor dos recursos o maior tempo possível dentro do sistema, e iii) reintegrar os produtos no sistema quando atingem o seu fim de vida. De facto, os princípios mais usados na literatura, seguem o mesmo raciocínio ao referir “circular produtos e materiais, ao mantê-los em uso ao seu mais alto nível”, “desperdício é igual a alimento” e “eliminar resíduos e poluição”. Podemos ainda argumentar que Kirchherr et al. (2017) acrescentam a estas visões através das Políticas R, que devem seguir uma lógica de “hierarquia de resíduos”. Posto isto, entende-se que estes princípios têm como foco principal os nutrientes, componentes, materiais e produtossendo que a MacArthur Ellen Foundation (2013) faz a distinção entre nutrientes (e ciclos) biológicos e técnicos, para os quais são aplicadas estratégias diferentes. Este foco é também confirmado pela revisão de McCarthy et al. (2018) que resume três visões da EC a partir das diferentes definições encontradas na bibliografia, sendo estas: o fecho de ciclos de recursos, o 33 abrandamento de ciclos de recursos ou o estreitamento destes ciclos. Para tal, aponta características que são, na sua maioria, destinadas aos materiais ou produtos. Assim, é possível concluir que existe uma convergência científica sobre a importância de uma “perspetiva sistemática” numa EC (Kirchherr et al., 2017; MacArthur Ellen Foundation, 2013) e ainda um consenso sobre a necessidade desta ser implementada em três níveis (Suárez-Eiroa et al., 2019)- micro, meso e macro, apresentados por (Kirchherr et al., 2017) e que podem ser interpretados como os três níveis do sistema da EC, em que: • Macrodestaca a necessidade de ajustar a composição e estrutura industrial de toda a economia e refere-se à implementação de sistemas EC na sociedade como um todo (cidade, região, nação e a comunidade internacional). A este nível, a legislação é o principal instrumento a ser considerado. Além disso, conceitos como simbiose urbana, eco cidades, modelos de consumo colaborativo, gestão de Figura 3Esquema-resumo dos princípios da EC, elaborado pela autora 34 resíduos inovadores e programas de resíduos zero, entre outros, podem ser considerados como parte deste nível de implementação. • Meso/regionalrefere-se à interação dentro da rede entre empresas, uma rede que normalmente não precisa de estar dentro dos "limites do parque eco industrial" e que pode levar à simbiose industrial. • Microconsidera produtos, empresas e consumidores, bem como o que precisa de acontecer para aumentar sua circularidade. Neste sentido, se a implementação da EC deve acontecer, também, por parte da sociedade como um todo e de aspetos micro como consumidores, os seus princípios guias deveriam abranger essa necessidade de forma mais sólidaafinal, de nada serve a implementação de um novo modelo económico se a sociedade e os consumidores não participarem nele. Apesar de Kirchherr et al. (2017) apresentarem os princípios da EC da forma mais holística, existe ainda um foco naquilo que é a aplicação da EC na indústria, deixando de lado muitas questões, nomeadamente sociais, a que a EC se propõe a responder. Esta lacuna parece ser abordada por Velenturf e Purnell (2021) que enunciam, no “Manifesto para uma Sociedade Circular Sustentável”, princípios como “transformar o consumo”, “participação dos cidadãos nas transições sustentáveis”, “mudança participativa e multinível” e “mobilizar a diversidade para desenvolver uma pluralidade de soluções de economia circular”. Neste sentido, McCarthy et al. (2018) referem ainda que a EC tem como características, além do estreitamento de ciclos, a modificação do comportamento do consumidor que leve à diminuição da procura de novos bens, aumentando a adoção de economias alargadas de partilha e serviços. 2.2.3.2. Estratégias Se a economia circular é vista como uma abordagem promissora para a criação de um futuro mais sustentável e resiliente, para a sua implementação é necessário um conjunto de práticas e estratégias alinhadas com os seus objetivos, que serão posteriormente aplicadas através de facilitadores. A partir da revisão bibliográfica foi possível entender que, tal como nos princípios da EC, as práticas podem ser resumidas consoante três aspetos que se interligam: a perspetiva de sistemas, apoiada 35 por políticas R que, através de uma lógica hierárquica, contribuem para o terceiro aspetoos recursos (nutrientes, componentes materiais e produtos). Assim, numa perspetiva de sistema ( whole system perspective ) os sistemas naturais são utilizados como modelo (Velenturf & Purnell, 2021). Aqui, é necessário que todos os elementos sejam considerados na sua relação com as infraestruturas, ambiente e contextos sociaisportanto, entender como as partes se influenciam umas às outras dentro de um todo, e a relação do todo com as partes. Esta visão de sistema é suportada por estratégias que permitem manter o valor dos recursos durante o maior tempo possível, reduzindo o tamanho do sistema e, idealmente, fechando-o (SuárezEiroa et al., 2019). A (MacArthur Ellen Foundation, 2013) refere ainda que, quanto mais diversos estes sistemas forem, mais resilientes serão, apontando a modularidade, versatilidade e adaptabilidade como cruciais, bem como a colaboração e envolvimento de todos os atores do sistema. No entanto, para o sucesso de um sistema circular, são ainda apontadas outras práticas, nomeadamente as políticas R e as estratégias relacionadas com os produtos e materiais. As políticas R variam desde os 4R’s até aos 9R’s, no entanto, em todas elas é aplicada uma lógica hierárquica em que o primeiro “R” contribui mais para a sustentabilidade e daí em diante (Kirchherr et al., 2017). Assim, e após análise das políticas referidas, entende-se que as estratégias relacionadas com a prevenção de resíduos (quer por meio de redução, repensar, recusar, etc.) são cruciais numa EC, seguidas pela reutilização e posteriormente reciclagem. No entanto, (Kirchherr et al., 2017) referem que, a reciclagem é a prática mais comumente referida na literatura da EC, seguida pela reutilização e só depois a redução. Apesar de na literatura se encontrar uma vasta gama de estratégias, entende-se que o seu objetivo é eliminar resíduos do sistema, sendo que estes passam a ser revalorizados e transformados em recursos. Tal é conseguido através de (novos) fluxos de materiais (que permitam manter o valor dos mesmos durante o maior tempo possível) e através do (re)design superior e consciente de materiais, produtos, sistemas e, dentro deste, dos modelos de negócio. (Bocken et al., 2016; MacArthur Ellen Foundation, 2013; Nußholz, 2017) De facto, as principais estratégias relacionadas com os recursos e produtos na EC focam-se na melhoria da sua produção e uso (Kirchherr et al., 2017; Nußholz, 36 2017), sendo que Bocken et al. (2016) apresentam três estratégias fundamentais para a ciclagem de recursos: • Abrandamento dos ciclos de recursos, através do design de produtos de longa duração e da extensão da vida útil do mesmo; • Encerramento de ciclos de recursos, através da reciclagem; • Eficiência dos recursos ou estreitamento dos fluxos de recursos, com o objetivo de utilizar menos recursos por produto. Também McCarthy et al. (2018) referem o abrandamento, estreitamento e encerramento de ciclos de recursos como estratégias fundamentais numa EC, no entanto, acrescenta, ainda duas estratégias fundamentais: a melhoria da utilização de bens e a alteração do comportamento do consumidor. De igual forma, Nußholz (2017) vai além destas três estratégias, apresentando uma visão geral das várias estratégias de eficiência de recursos, onde incluí também as fases do ciclo de vida em que cada uma é implementada (Figura 3). Figura 4Síntese das categorias de estratégias de eficiência de recursos, de acordo com Nußholz, J. L. K. (2017). Circular business models: Defining a concept and framing an emerging research field. Sustainability (Switzerland), 9(10), 14–17. https://doi.org/10.3390/su9101810 43 Airbnb, em vez de criar formas acessíveis e equitativas de partilha sustentável (Hobson & Lynch, 2016; Lofthouse & Prendeville, 2018). A mudança para a EC é uma mudança radical que exigirá uma nova forma de pensar e de fazer negócios. As empresas têm o potencial de impulsionar a inovação dos modelos de negócios, explorar novos modelos de serviços e desafiar as perceções atuais dos seus consumidoresda propriedade para o desempenho. No entanto, para tal acontecer, os modelos de negócios precisam de envolver diversos atores para abordar simultaneamente os aspetos económicos, ambientais e sociais (Bocken et al., 2016; MacArthur Ellen Foundation, 2013; Moggi & Dameri, 2021). 44 2.3. UM NOVO MODELO DE AÇÃO PARA A ECONOMIA CIRCULAR Como visto anteriormente, para a real implementação da EC são necessários facilitadores que ponham em prática os seus princípios e estratégias. Estes são uma peça chave na mudança para um sistema circular e podemos entender que a literatura aponta as empresas, o design de produto e os modelos de negócio, referidos anteriormente, como os principais facilitadores. No entanto, se existem novos modelos de atuação na EC, é também preciso que o utilizador os aceite e participe nos mesmos, evitando entraves do utilizador a ações circulares como a falta de aceitação de novos modelos de negócio, a necessidade de propriedade, ou a perceção de produtos reutilizados como contaminados (Wastling et al., 2018). Esta perspetiva tem sido subestimada no design para a EC, principalmente porque a economia circular é vista como uma solução liderada pelo produtor, “colocando as ações quotidianas de todos nós num papel passivo e menor” (Hobson & Lynch, 2016; Wastling et al., 2018). Posto isto, é necessário que a EC vá além de um modelo económico e industrial, que tenha como objetivo acrescentar fluxos de materiais inversos à economia. Uma EC centrada na eficiência dos recursos (materiais e energéticos) e com uma reflexão limitada sobre o social corre o risco de não resolver o desafio da sustentabilidade relacionado ao sobre consumo de recursos (Lofthouse & Prendeville, 2018; Velenturf & Purnell, 2021). O progresso tecnológico por si só atrasaria o colapso do sistema (Velenturf & Purnell, 2021), sendo portanto essencial que ocorram percursos simultâneos a nível tecnológico e cultural/social. Para que a EC seja de facto "restaurativa, regenerativa e renovável" tem de ir à as raízes e origens das questões que pretende remediar (Hobson & Lynch, 2016). Posto isto, para uma implementação da EC bem-sucedida, é necessária uma mudança no “sistema de valores”, ou seja, o que a sociedade considera importante e para tal as intervenções sociais devem estar no centro da mudança (Hobson & Lynch, 2016; Velenturf & Purnell, 2021). Porém, a mudança deste sistema de valores não é fácil visto que existe um enviesamento dos consumidores no que toca a questões de sustentabilidadeestes, têm uma preferência para resultados mais próximos, mais presentes em vez de ponderar as consequências, refletindo-se muitas vezes num consumo materialista e 45 pouco ponderado (Trudel, 2018). Assim, é também importante incentivar os consumidores a adotar um foco futuro nos seus comportamentos. Neste sentido, destaca-se a pouca consideração pela dimensão social no contexto mais amplo da economia circular, que é, no entanto, uma questão central para estabelecer uma abordagem holística e sustentável (Mies & Gold, 2021). Seguidamente, serão abordados tópicos-chave como forma de resposta a estes desafios. 2.3.1. A mudança de comportamento Stahel (2019, p.21) afirma que, para a EC se tornar o padrão, a transição terá que ser facilitada “por mudanças de comportamento (…) e a motivação pessoal de baixo para cima ( bottom-up motivation )- como complemento à legislação de cima para baixo ( top-down ) (…) a adaptação de quadros políticos para refletir os novos objetivos (circulares) pode ser o maior desafio para os governos”. Muitos autores alertam para esta questão, sendo a tabela 2 ilustrativa de algumas citações encontradas na revisão de literatura que referem a mudança de comportamentos como um facilitador essencial na implementação e aceitação da EC por toda a sociedade. Tabela 2Referências encontradas na bibliográfica relativas à importância do comportamento do consumidor na EC Autor(es) O comportamento do consumidor e a sua importância na EC Velenturf & Purnell (2021) "(…) promover a suficiência, eficiência e desmaterialização” (Stahel, 2019) A EC terá de ser facilitada “por mudanças de comportamento (…) e a motivação pessoal de baixo para cima ( bottom-up motivation ) - como complemento à legislação de cima para baixo ( top-down )” Stahel (2019) “A pesquisa sobre o comportamento do utilizador também poderia acelerar a transformação” Kirchherr et al. (2017) “(Um importante) facilitador da CE. tal como os modelos de negócio, os consumidores” Alhawari et al. (2021, p.13) “(…) é o conjunto de processos de planeamento organizacional para a criação e fornecimento de produtos, componentes e materiais ao seu mais alto nível de utilidade para os clientes e a sociedade, através da utilização eficaz e eficiente dos ciclos do ecossistema, económico e do produto” 46 Esta mudança pode também ser impulsionada pela disciplina do design. De modo a projetar com a mudança de comportamentos em mente o designer pode seguir uma lógica de “Design for Behavioural Change” (DfBC) como defendido por Wastling et al. (2018). Para tal, os mesmos autores referem que o designer pode tomar partido de ferramentas como o Principio de Mudança de Comportamento, o Guia do Design Circular, o Modelo de Comportamento Circular e o modelo de intervenção Behaviour Change Wheel desenvolvido por Michie et al. (2011). Dentro das ferramentas inumeradas, destaca-se o último modelo pelas intervenções defendidas, que, como se irá ver a seguir, podem ser integradas em abordagens do design. Além disso, são ainda referidas estratégias digitais como uma direção a seguir, uma vez que uma aplicação pode facilitar diversas ações circulares. Tabela 3Behaviour Change Wheel, segundo Wastling, T., Charnley, F., & Moreno, M. (2018). 8 Design for circular behaviour: Considering users in a circular economy. Sustainability (Switzerland), 10(6). https://doi.org/10.3390/su10061743 Intervenção Função Educação Aumentar o conhecimento ou a compreensão Persuasão(Stahel, 2019) Utilizar a comunicação para induzir sentimentos positivos ou negativos ou estimular a ação Incentivo Criar uma expectativa de recompensa Coerção Criar uma expectativa de punição ou custo Formação Criar as competências Restrição Utilizar regras para reduzir a oportunidade de se envolver no comportamento alvo Reestruturação ambiental Mudar o contexto físico ou social Exemplo Dar um exemplo que permita às pessoas ambicionarem ou imitarem Permissão Aumentar os meios/reduzir as barreiras para aumentar a capacidade (para além da educação) ou a oportunidade (para além da reestruturação ambiental) 47 2.3.2. A ação conjunta Porém, quando se fala em mudança de comportamentos, há que ponderar aspetos como a influência social e o esforço coletivo, bem como a comunicação de e para a sustentabilidade. Afinal, para “que surja uma sociedade "circular", os padrões de consumo produzidos pelos estilos de vida, práticas sociais e sistemas de abastecimento terão de ser abordados” (Williams, 2019). Para tal, é fundamental caminhar numa direção de ações conjuntas que devem ter como base um ecossistema de partilha de conhecimentos, pessoas, infraestruturas e valores comuns para “aumentar a compreensão do contexto local e das suas necessidades” (Moggi & Dameri, 2021). Esta é uma visão cada vez mais presente na literatura da EC, sendo que, como visto na tabela 4, são vários os autores que defendem que aspetos como a colaboração, a participação e a partilha de conhecimentos estão no centro de um ecossistema circular, capacitando os cidadãos a “coproduzir soluções de economia circular de forma inclusiva, permitindo a mudança de valores sociais” e a aceitação do modelo circular. Aqui, é de destacar que a “participação e interação social regular dentro da redeformal e informalmente (…), tem também um efeito positivo na coesão social e na inclusão de grupos sociais marginalizados” (Lofthouse & Prendeville, 2018). Tabela 4Referências encontradas na bibliográfica relativas à ação conjunta na EC Autor(es) A ação conjunta na EC Velenturf e Purnell (2021) “são necessários sistemas participativos que envolvam cidadãos (ligando iniciativas grassroots à dimensão política) e (…) coordenação da EC entre diversos atores da sociedadegoverno, indústria, setor cívico, consumidores e academia (…) apelando à consciencialização e participação do público e (…) participação do cidadão em transições sustentáveis” Mies e Gold (2021) A colaboração, bem como a “participação ativa da sociedade, combinada com objetivos políticos claros, é considerada um prérequisito necessário para a transformação da sociedade em direção a uma EC”. Aqui, é ainda enfatizada a partilha de conhecimentos e infraestruturas, a resolução colaborativa de problemas e desenvolvimento de projetos. Moggi e Dameri (2021) “(são fundamentais) ações conjuntas que devem ter como base um ecossistema de partilha de conhecimentos, pessoas, infraestruturas e valores comuns…” é, portanto, necessário envolver "toda a rede de valores e ter em consideração os diferentes atores do sistema, bem 48 como as suas relações interrelacionadas”. Para tal, aponta incorporar “(…) ferramentas de envolvimento de múltiplos atores para compartilhar conhecimentos e melhores práticas (…), resultando num processo de cocriação de valor” Lofthouse e Prendeville (2018) “Participação e interação social regular dentro da redeformal e informalmente (…), que tem um efeito positivo na coesão social e na inclusão de grupos sociais marginalizados.” Leube e Walcher ( 2017) “(…) a cocriação, implicando a participação ativa de todos os interessados, está no centro de uma EC viável (…) conceitos tais como cocriação, desenho participativo ou desenho inclusivo são necessários” 2.3.2.1 A participação, colaboração e cooperação Perante a visão de que a colaboração e a participação são fatores cruciais numa EC, achou-se necessária uma clarificação dos termos "participação", "cooperação" e "colaboração"- termos que, especialmente no contexto do design, geram alguma confusão visto estarem relacionados com o “design participativo” e o “ co-design ”. Embora estes três termos envolvam uma ação conjunta, e segundo Sampaio (2016), diferem nas dimensões processuais, motivacionais (individual ou comum) e relacionais (envolvimento pontual ou constante e prolongado). A participação, segundo o dicionário, define-se como o “envolvimento em determinada atividade” ou como “parte” (de algo). Assim, entende-se que participação não requer que as partes envolvidas sejam ativas, mas sim que possam estar envolvidas ou ser consultadas em alguma iniciativa, projeto ou programa (Klimczuk, 2022). Podemos, portanto, caracterizar a participação como a “execução de uma tarefa pontual, através da ação individual da pessoa inserida numa sociedade orientada para um determinado impacto” (Sampaio, 2016). Arnstein (1969) exemplifica que a participação do governado no seu governo é o princípio básico da democracia. Assim sendo, podemos também entender a participação como participação na comunidade, eventos ou atividades sociais ou públicas relacionadas com a democracia e a sociedade civil (Klimczuk, 2022). Neste sentido Arnstein (1969), refere que a participação constitui o meio pelo qual os cidadãos podem promover reformas sociais significativas, sendo que “a participação sem redistribuição do poder é um processo vazio e frustrante para os grupos desprovidos de poder”. A autora apresenta ainda a “escada de participação 49 cidadã” (figura 7), onde ilustra oito etapas até à participação plena, distribuídas em oito degraus de uma escada, em que cada degrau corresponde a um nível diferente de poder do cidadão na tomada de decisões. Ainda relevante para a investigação, e relacionando a participação com a prática do design, Klimczuk (2022) refere ainda como exemplos de participação a co-produção e co-criação de serviços públicos (envolvimento e incorporação de cidadãos e utilizadores) que, além de contribuir para eficiência, eficácia e economia dos serviços públicos, aumenta também a responsabilização, representação e empoderamento dos cidadãos na resolução de problemas sociais. Assim, a participação pode ser entendida como uma abordagem individual e oportunidade de fazer algo (Klimczuk, 2022), sendo, portanto, um conceito com uma definição próxima do conceito de cooperação. A cooperação (trabalhar, operar simultaneamente), segundo Sampaio (2016), implica “tomar parte de algo”, pressupondo a tomada de ação por diversos intervenientes que partilhem um objetivo comum. Neste caso, os envolvidos não têm necessariamente de trabalhar em conjunto e de forma ativa, sendo comum existir uma divisão de tarefas. Por outro lado, a colaboração destaca a cooperação (e trabalho) ativa entre duas ou mais pessoas, grupos ou organizações que se concentram na invenção, criação ou produção de algo. Esta traduz-se, portanto, num processo de ação combinada, conjunta e simultânea que pressupõe um elevado nível de envolvimento de Figura 7Escada da participação cidadã, segundo Arnstein (1969) 50 todas as partes, orientado por um objetivo comum que responda às necessidades dos envolvidos (Klimczuk, 2022; Sampaio, 2016). Segundo Klimczuk (2022), Obiols et al. (2019) e Sampaio (2016) podemos referir a colaboração como uma abordagem de coevolução e co-design que procura obter um resultado mais holístico do que a cooperação. Para tal, implica o envolvimento e esforço conjunto de diversos atores (indivíduos, comunidades, organizações ou instituições) que pode ser aplicado em diversas escalaslocal, regional, nacional e internacional. Logo, envolve a cocriação, conseguida através da sinergia de aptidões, competências, informação e conhecimento únicos de cada envolvido, como forma de resposta a um objetivo comumdesde novas ideias, bens e serviços a uma nova “sociedade”. Neste processo, a qualidade da colaboração pode ser da responsabilidade e motivada pelos designers (Obiols et al., 2019), sendo que a sua eficácia depende do respeito de princípios comuns como a ação voluntária, respeito pelos parceiros, autenticidade dos objetivos e atividades ou a resolução conjunta de conflitos (Klimczuk, 2022). Além disso, no design, a colaboração pode envolver designers, utilizadores, clientes e outras partes interessadas que trabalham em conjunto para criar um design (produto ou serviço) que satisfaça as necessidades de todos, processo muitas vezes apoiado por ferramentas do design (Leube & Walcher, 2017). Figura 8A participação, cooperação e colaboraçãoos tipos de envolvimento que compreendem (figura da autora) 51 Posto isto, podemos entender que o conceito de participação apresenta uma definição mais restrita e com menor grau de envolvimento e tomada de decisão das partes interessadas quando comparado com o conceito de cooperação. Por outro lado, também a cooperação se apresenta como um conceito simplificado de colaboração e, portanto, posterior. Ainda que os dois últimos termos (cooperação e colaboração) sejam próximos a nível de significado, na colaboração tanto o relacionamento pessoal como o compromisso assumido perante o objetivo são mais próximos, duradouros e com maior índice de desenvolvimento do que num cenário de cooperação (Sampaio, 2016). 2.3.2.2. O Design Participativo Tanto a participação, como a cooperação e a colabração representam abordagens cruciais na disciplina do design. Atualmente, e segundo Sanders (2008), estas são evidentes em duas perspetivas opostas na prática da investigação em design (figura 9). Por um lado, o “design para as pessoas” – em que o designer é visto como um especialista que, no processo, consulta as pessoas- "sujeitos", "utilizadores" ou "consumidores" (lado esquerdo do mapa) e, por outro, o “design com as pessoas”, em que o designer assume uma postura participativa, ao valorizar e envolver as pessoas como co-criadoras no processo de design. Figura 9Mapa da investigação sobre design - os tipos de investigação. Apresentado por Sanders, (2008). On modeling an evolving map of design practice and design research. Interactions, 15, pp.13–17 52 Dentro do “design com as pessoas”, destaca-se o design participativo 5 que tem as suas origens entre os vários movimentos sociais, políticos e de direitos civis dos anos 60 e 70estando o seu início associado à procura de melhores políticas laborais por grupos sindicais em vários países ocidentais (Simonsen & Robertson, 2012). Tendo como exemplo os anos 70 nos países escandinavos, foi nesta altura que designers e investigadores procuraram responder, através da sua prática, ao crescente desejo de participação e envolvimento dos trabalhadores (utilizadores) na tomada de decisões, tendo como objetivo promover a democracia nos locais de trabalhoentendemos, então, que as sociedades ocidentais da altura estavam dispostas a participar em ação coletiva em torno de interesses e valores partilhados (Sampaio, 2016; Simonsen & Robertson, 2012). Simonsen e Robertson (2012) definem o Design Participativo (DP) como: “um processo de investigação, compreensão, reflexão, estabelecimento, desenvolvimento e apoio à aprendizagem mútua entre múltiplos participantes na "reflexão-em-ação" coletiva. Os participantes assumem tipicamente os dois papéis principais - utilizadores e designers - onde os designers se esforçam por aprender as realidades da situação dos utilizadores, enquanto os utilizadores se esforçam por articular os seus objetivos desejados e aprender os meios tecnológicos adequados para os obter.” Assim, entende-se o DP como uma abordagem que ajuda a moldar situações futuras ou até mesmo sociedades futuras, através do envolvimento ativo das pessoas que serão servidas através do design, de forma a assegurar que o produto/serviço projetado satisfaz as suas necessidades e é benéfico (Duda et al., 2022; E. B.-N. Sanders, 2008; Simonsen & Robertson, 2012). Posto isto, as pessoas (futuros utilizadores) desempenhem um papel crítico no design, definindo os seus próprios requisitos de “uso” futuro. Só ao considerar as pessoas como participantes na inovação é possível que utilizadores e designers aprendam em conjuntoa “criar, desenvolver, expressar e avaliar as suas ideias e visões”, num processo (de design) que deve ter como base a 5 Embora atualmente seja reconhecido como design participado ( participatory design ) inicialmente era denominado por design cooperativo ( cooperative design ). 59 de facto, quando os designers criam, por exemplo, produtos, estão em certa medida (e intencionalmente ou não) a moldar o comportamento do utilizador. Além disso, e numa escala maior, destaca-se ainda o papel do design no desenvolvimento da economia intra e internacional que, inevitavelmente, levará também a efeitos indiretos em áreas tão diversas como a tecnologia, a pesquisa e desenvolvimento, os negócios ou até mesmo o equilíbrio social, o bem-estar coletivo e os padrões de consumo (Ferreira et al., 2020). No entanto, para que a disciplina do design se afirme como contributo para uma indústria e sociedade que tenha como objetivo o consumo sustentável de recursos são necessárias mais do que alterações técnicas aos produtos (Velenturf & Purnell, 2021; Wastling et al., 2018). Para obter uma EC verdadeiramente sustentável é necessário ponderar a dimensão social, através do "reconhecimento das necessidades e expectativas de todos os membros da sociedade e a aplicação de uma abordagem baseada em valores e em normas à economia circular em vez de uma lógica centrada no lucro" (Mies & Gold, 2021). Para tal, a pesquisa sobre design na economia circular precisa de “desenvolver conhecimentos sobre design de produtos e serviços, considerando normas, comportamentos, atitudes e os contextos da vida social das pessoas” (Lofthouse & Prendeville, 2018). Afinal, os problemas sociais fazem parte da realidade das cidades e nenhum profissional deve ignorá-los, muito menos o designer (Pazmino, 2007). Já na década de 60 e 70, em paralelo com os crescentes debates e preocupações ambientais, Victor Papanek, designer e professor, chamava a atenção para a necessidade de um design que percebe e soluciona problemas reais da sociedade. Também Maldonado, no seu livro seminal de 1970 intitulado “La Spreranza Progettuale” expressa a urgência de contrariar a rápida degradação do ambiente e a necessidade do designer “desempenhar um papel ativo no processo de mudança social” (Margolin, 2014, p.19). No entanto, ainda é visível a “falta de compromisso social do designer para a solução das necessidades reais, estilo de vida e cultura da população” (Pazmino, 2007). O designer precisa de assumir um compromisso real com a sociedade e com o meio ambiente, tornando-se necessário o estabelecimento de um design que assuma o seu papel fundamental no desenvolvimento de soluções inovadoras para os atuais 60 desafios locais e globaisnomeadamente os problemas sociais e ambientais (Obiols et al., 2019; Pazmino, 2007). Posto isto, o design, quando entendido como disciplina que se propõe a transformar as situações existentes em situações preferenciais (Simom, 1969), ou até mesmo como “um processo de resolução de problemas, uma prática, e um modo de pensar centrado nas pessoas” (Ferreira et al., 2020, p. 181), pode focarse no outro lado do espectrono valor intangível dos modelos e sistemas (De los Rios & Charnley, 2017). Se esta disciplina coloca a experiência humana no centro das suas práticas, sendo este um importante ponto de partida para uma inovação significativa, podemos concluir que os designers têm as ferramentas para compreender as pessoas, influenciar valores, atitudes, perceções e desejos do utilizador nesta mudança de padrões de produção e consumo (Lofthouse & Prendeville, 2018). Assim sendo, conclui-se que o design tem o potencial de facilitar a inovação no contexto da EC, bem como a sua aceitação e implementação por toda a sociedade, através de processos e estratégias que considerem as necessidades dos utilizadores e envolvam as pessoas como participantes na procura de soluçõesquer estas se materializem como produtos, serviços ou sistemas (Lofthouse & Prendeville, 2018; Obiols et al., 2019). Para tal, abordagens colaborativas e participativas como o design participativo e o co-design , são cruciais (Ferreira et al., 2020). 2.3.3.1. A educação para a Economia Circular Em linha com as abordagens colaborativas e participativas, Suárez-Eiroa et al. (2019) referem que uma estratégia fundamental para a implementação da EC é a educação para a mesma. De facto, (Mies & Gold, 2021) destacam as “medidas educacionais internas e externas sobre sustentabilidade e economia circular, dirigidas ao público, clientes e parceiros comerciais” como alavancas para a mudança de comportamento dos mesmos e, consequentemente, para a implementação da ECvisão corroborada por (Prieto-Sandoval et al., 2022) que refere o conhecimento sobre as questões ambientais como “fundamental para alcançar um comportamento próambiental”. 61 Tabela 5Referências encontradas na bibliográfica relativas à educação para a EC Autor(es) A educação para a EC Velenturf e Purnell (2021) “Criação de uma base de conhecimento global para a EC (…) Isto reúne formas diferentes de aprendizagem e conhecimento” Mies e Gold (2021) “(…) medidas educacionais internas e externas sobre sustentabilidade e economia circular, dirigidas ao público, clientes e parceiros comerciais… que visem educar e sensibilizar o público para os aspetos da economia circular e os benefícios ambientais e sociais daí resultantes” Suárez-Eiroa et al. (2019) “(…) uma estratégia fundamental para a implementação da EC é a educação para a mesma” Stahel (2019) “Informação sobre como fazê-lo (referente às estratégias da EC) - espalhar o conhecimento adquirido também é verdade para a aprendizagem social” Prieto-Sandoval et al. (2022) “(…) o conhecimento sobre as questões ambientais é fundamental para alcançar um comportamento pró-ambiental” Além disso, a educação é também “elemento-chave para melhorar a capacidade das pessoas para enfrentar os problemas ambientais gerados pelo atual modelo econômico e pela globalização” (Prieto-Sandoval et al., 2022). De facto, salienta-se que a educação e sensibilização da comunidade local são contributos importantes na capacitação e empoderamento local, além de benéficas na coesão social destas comunidades (Mies & Gold, 2021). Como visto anteriormente no ponto 2.3.2.3, abordagens como o co-design têm um potencial educativo enorme, ao envolverem as pessoas no processo e ao possibilitar espaços de aprendizagem informal. 62 3. TRABALHO DE CAMPO A partir da revisão bibliográfica foi possível concluir que o design para a EC tem, atualmente, o seu foco na parte técnica dos produtos. Perante este paradigma, questões como a mudança de comportamentos ou padrões de consumo tendem a ficar em segundo plano e a serem descartadas pelo design para a EC. No entanto, acredita-se que o design, como disciplina que coloca a experiência humana no centro das suas práticas (Lofthouse & Prendeville, 2018), tem as ferramentas para ir ao centro da questão que a EC se propõe a solucionaros padrões de produção e consumo da sociedade atual. Se estes são consequência de hábitos e comportamentos de cada um de nós, então a questão pertinente a colocar seria “como pode o designer contribuir para a mudança de comportamentos ou hábitos?”. Apesar de tal perspetiva poder ser considerada utópica, acredita-se que é digna de tentativa pela disciplina do design. Perante uma procura de soluções ou alternativas aos atuais padrões de produção e consumo, e segundo a revisão bibliográfica, constata-se que é fundamental caminhar numa direção de ações conjuntas,- que devem ter como base um ecossistema de partilha de conhecimentos, pessoas, infraestruturas e valores comuns para aumentar a compreensão do contexto local e das suas necessidades (Moggi & Dameri, 2021). Este é um processo que pode ser auxiliado pela implementação de abordagens colaborativas ou participativas, nas quais o designer pode ter um papel fundamental como facilitador ou mediador, tirando partido das diversas ferramentas que possui. Segundo Lofthouse & Prendeville (2018), esta é um processo que deve envolver uma “pesquisa participativa de ação que integra teoria com ciência aplicada e mudança nas políticas, na indústria e no público em geral”. Mies & Gold (2021) defendem que para promover tal participação e envolvimento público, é fundamental educar e sensibilizar o público para os aspetos da EC e dos seus benefícios ambientais e sociais. Para tal, e ainda segundo os autores feridos anteriormente, são apontadas campanhas de educação e sensibilização que incluam os vários atores em todo o processo de transformação, como elementos centrais para a implementação bem-sucedida da EC. De facto, através da bibliografia revista entende-se que a participação, colaboração e partilha, apoiadas pela educação 63 e apoio legislativo são práticas sociais que levam a uma implementação bem-sucedida da EC (Lofthouse & Prendeville, 2018; Moggi & Dameri, 2021; Williams, 2019). Assim, para a adoção destas práticas, metodologias como a investigação-ação e abordagens como o design participativo e o co-design apontam-se como essenciais no design para a EC que tenha em vista a adoção de padrões de consumo sustentáveis. Posto isto, para a presente investigação utilizou-se uma abordagem de co-design . Tal foi motivado pelas conclusões retiradas da revisão bibliográfica, nomeadamente pelo potencial educativo desta abordagem, derivado do envolvimento dos participantes num processo de criação de soluções, onde a aprendizagem tem lugar através da reflexão critica durante e após a ação. Por outro lado, e perante a metodologia de investigação-ação torna-se fundamental que a investigação se desenvolva numa lógica que fomente a ação na comunidade local através da sua mobilização, participação e decisãoiniciativas estas que podem, posteriormente, passar por processos de escalabilidade. Posto isto, definiu-se que o contexto de atuação seria a cidade da Maiaa comunidade local da autora. Partindo deste contexto de atuação, definiu-se a seguinte amostraestudantes, trabalhadores e/ou residentes entre os 15-34 anos. Apesar desta amostra constituir uma faixa-etária muito abrangente, tal decisão foi motivada pelo facto das etapas entre os 15-19, 20-24 e 25-34 anos serem consideradas as mais determinantes na vida dos jovens portugueses (Sagnier & Morell, 2021) e, por isso, as etapas onde se considerou que a presente investigação pudesse ter maior impacto. Além disso, e segundo o estudo realizado por Sagnier & Morell (2021), outra das motivações para a definição desta amostra foi o facto da maioria dos jovens entre os 15 e os 34 se sentirem “responsáveis por tentar reduzir as alterações climáticas”. Assim, para a parte prática da investigação, e segundo os objetivos, metodologia utilizada e conclusões da revisão bibliográfica, definiram-se as seguintes orientações: • Desenvolver e executar um projeto de co-design com os jovens maiatos que, tendo como ponto de partida a EC, contribua para adoção do consumo sustentávelcom foco na educação, consciencialização e sensibilização. • Pontos-chave: 64 o Designer como facilitador; o Constante avaliação e reajuste do plano inicial; o Abordagem guiada por ferramentas do design adequadas a cada fase de investigação; o Possível envolvimento de atores-chave do município; o Desenvolvimento de materiais de apoio aos processos aplicados. • Orçamento: limitado, apenas para impressão de materiais. Com as orientações definidas e o objetivo de implementação de uma abordagem de co-design , torna-se fundamental reunir o maior número possível de interessados. Este, seria um fator determinante no sucesso da investigaçãoafinal, só com um trabalho conjunto e participação ativa das partes interessadas seria possível atingir resultados holísticos que respondessem à questão de investigação. Assim, as maiores necessidades nesta fase do projeto definiam-se como: • Necessidade de divulgação da iniciativa; • Necessidade de adesão (e, portanto, participantes); • Necessidade de espaço para a realização das açõesidealmente físico. 65 3.1. O PROJETO “CIRCULA” De forma a facilitar o processo de divulgação do projeto, o primeiro passo passou pelo desenvolvimento de uma identidade do mesmo. Para tal, foi escolhido o nome “Circula”, por estar relacionado com os tópicos abordados na presente investigação, tornando a sua divulgação mais informal e atrativa à faixa etária escolhida. Assim sendo, o projeto “Circula” é parte integrante da presente dissertação, Seguidamente, foi desenvolvida uma identidade visual para o projeto (figura 11) que fosse, de certa forma, universal, divertida e informal, tendo em conta a faixa etária abrangente que se definiu. Esta, foi utilizada durante todas as fases do projeto, mantendo-se assim uma linguagem visual constante e identificativa do projeto “Circula” em todos os materiais realizados. 66 Figura 11Identidade visual do projeto "Circula" 67 3.1.2. Primeiro ciclo de investigação-ação Perante a necessidade inicial de adesão ao projeto de participantes que pudessem estar envolvidos no projeto de forma regular, foi necessário implementar uma estratégia que, por um lado divulgasse a iniciativa e, por outro, permitisse a inscrição voluntária das pessoas interessadas. Para tal, foi elaborado um questionário exploratório (anexo 1) que divulgou o projeto e avaliou o interesse e disponibilidade de potenciais participantes. Para tal, e tendo em conta a faixa-etária da amostra pretendida, definiu-se que esta ferramenta deveria tirar partido de uma linguagem informal, de modo a reduzir os entraves à participação dos mais jovens. Além disso, seria também importante utilizar a linguagem visual do projeto definida anteriormente, como referido na figura 11. Nesta fase, a divulgação do questionário, tendo em vista o levantamento da motivação em participar de forma voluntária dos jovens Maiatos, foi realizada através de canais online e físicos. Nos canais online, foram realizadas publicações nas plataformas Instagram, Facebook e Twitter , sendo que se pediu a colaboração de atores chave no municípiodesde associações de estudantes, a empresas e associações. Por outro lado, panfletos com uma breve explicação do projeto e um QR Code de acesso ao questionário foram distribuídos em zonas estratégicas (piscinas municipais, bibliotecas, fórum jovem, cafés e pequeno comércio). A estrutura do questionário estava organizada da seguinte forma: • Introdução da autora e da iniciativa, bem como da sua dinâmica; • Consentimento informado; • Recolha dados sociodemográficos através de perguntas de escolha múltipla, como forma de posterior avaliação do potencial de participação (se respondia à amostra); • Breve levantamento do conhecimento atual acerca da EC e do conceito de consumo sustentável, onde, visto tratar-se da medição de conhecimento/perceções individuas, se achou necessário utilizar uma escala de Likert com 5 opções de resposta, sendo que para auxílio à resposta se descreveu que: 68 o Zero (0), correspondente a “nem sei do que falas!”, demonstrando, portanto, conhecimento reduzido sobre as temáticas; o Dois (2), correspondente a “sei algumas coisas…”, demonstrando, portanto, algum conhecimento sobre as temáticas; o Cinco (5), correspondente a “sou pro nisso!”, demonstrando, portanto, elevado conhecimento sobre as temáticas; • Breve quiz com quatro perguntas acerca de dados de consumo em Portugal e no concelho da Maia, recolhidos pela autora do projeto, nas quais foram utilizadas respostas de escolha múltipla. Após todas as respostas concluídas os participantes obtinham uma classificação final (acertaste X de 4 perguntas) e uma breve explicação. Esta ferramenta tinha como objetivo realçar a situação atual de consumo em contextos próximos aos participantes, bem como evidenciar o seu conhecimento atual da situação. Assim, esperava-se incutir um sentido de urgência nos participantes, encorajando-os à ação, participação e mudança e, portanto, agindo como motivação à participação no projeto. o “Sabes quantos litros de água gasta um habitante em Portugal por dia (a nível doméstico)?” - Resposta: em média, 186 litros de água diariamentesendo Portugal o 3º país europeu que mais água consome a nível doméstico); o “E quanto será que um habitante do município da Maia gasta de água diariamente?” – Resposta: 148 litros de água por dia; o “E o lixo que fazemos? Sabes quantos kilos de lixo foram gerados por cada habitante em Portugal, no ano 2020?” – Resposta: em 2020 foram recolhidos 513kg de lixo por habitante, sendo que a média do Município da Maia se encontra um pouco abaixo, nos 460kg; o “Por ano, sabes quantas toneladas de material são extraídas para satisfazer o consumo de apenas um habitante em 75 3.1.3.1. Desenho do workshop Tendo em conta a solução encontrada para a implementação do 2º ciclo de intervenção e de forma a balizar os workshops de acordo com os objetivos do projeto, os participantes foram convidados a “apresentar uma proposta de serviço que promova a economia circular e/ou consumo sustentável no concelho da Maia, até 2030” (fig. 12). Este foi um objetivo definido de acordo com a importância da participação e ação local por parte dos cidadãos, neste caso os alunos maiatos. Além disso, devido aos contactos iniciados com a CMM e o interesse demonstrado em acompanhar o projeto, existiria a possibilidade de apresentar as propostas dos alunos à mesma, contribuindo para a continuação do projeto e para uma abordagem bottomup . Seguindo o ponto 2.3.2.3 e visto tratar-se de uma abordagem de co-design , o papel da autora do projeto seria o de facilitadora dos workshops , sendo que durante o processo a recolha de dados se realizaria principalmente através de observação participante e anotações em diário de campo. Assim sendo, foi necessário tirar partido de abordagens processuais e ferramentas especificas da disciplina do design, que facilitassem a expressão da criatividade dos envolvidos. Perante o desafio dado aos participantes, achou-se necessária uma abordagem que os guiasse neste processo e permitisse afunilar informação e ideias que culminassem numa proposta final. Para tal, definiram-se os seguintes momentos-chave do workshop , que iriam guiar a escolha das ferramentas de design a utilizar, representados na figura 13: Figura 12Objetivo dos workshops 76 Figura 13Momentos-chave do workshop 77 Com os momentos-chave do workshop assinalados, foi então possível definir quais as ferramentas, atividades e informações seriam utilizadas, tendo também em conta as especificações do contexto escolar (nomeadamente a limitação de tempo) e do público-alvo, em especial a sua faixa-etária. Seguidamente, os momentos-chave definidos foram relacionados com ferramentas a implementar, por forma a estruturar a abordagem processual do primeiro workshop : Para a fase inicial do workshop , foi crucial definir um momento que permitisse apresentar tanto o projeto como o workshop e a facilitadora aos participantes, sendo este o momento de introdução (figura 15). Neste momento, seria importante dar ênfase ao propósito do projeto, bem como à dinâmica do workshop - sendo que se definiram ainda algumas direções como forma de enquadramento dos alunos na dinâmica como, por exemplo, “vamos realizar atividades em grupos, em que todos os elementos são convidados a participar de forma ativa e dinâmica”, “não há ideias certas ou erradas, estamos só a testar hipóteses” ou ainda “não há ideias estúpidas, digam o que vos vier à cabeça!”. Seguidamente, o objetivo do workshop é apresentado, e como forma de auxílio perante um grupo de participantes com, provavelmente, níveis muito variados de conhecimentos cerca da EC e consumo Figura 14Momentos-chave e ferramentas propostas no desenho do workshop 78 sustentável, achou-se necessária uma breve explicação dos mesmos, que colocasse todos os envolvidos num patamar de conhecimento similar. Por fim, seriam apresentados os momentos-chave do workshop que iriam guiar os grupos no desenvolvimento das propostas (figura 16). Para tal, elaborou-se uma breve apresentação digital com estas informações, utilizando a linguagem visual do projeto e uma escrita informalo mais próxima possível da destes jovens. Figura 16Slide da apresentação digital, onde se apresentam a estrutura e objetivos do workshop aos participantes Figura 15Cartão explicativo do momento de introdução 79 Posteriormente, seria necessário introduzir o ritmo e dinâmica do workshop , pelo que se optou por introduzir uma dinâmica quebra-gelo ( ice breaker), como descrito na figura 17. Neste momento, esperava-se promover uma comunicação livre e partilha de ideias entre os participantes, como preparação para os momentos seguintes. Além disso, sabia-se que a maioria das turmas teriam avaliações em aulas anteriores ao workshop , sendo que o quebra-gelo tinha também um papel importante no relaxe e mudança de foco destes participantes. Não se achou necessário revelar informação pessoal (gostos, hobbies, etc), como noutros exemplos de quebra-gelo que têm o intuito de aproximar os participantesneste caso, o objetivo principal não era esse, visto serem alunos da mesma turma e tendo já afinidades definidas uns com os outros. Considerou-se assim Figura 17Cartão explicativo do jogo "palavras relacionas" 80 que este momento teria uma duração de, no máximo, dez minutos, e optou-se pela realização de um jogo de “palavras-relacionadas”, que atuaria também um pequeno brainstorm de palavras e ideias relacionadas com o objetivo final, pudendo abrir caminhos mentais para os momentos seguintes. A realização deste jogo inicia-se com a projeção de palavras-chave pré-definidas pela facilitadora como forma de introdução ao contexto de ação do workshop (fig. 18). Seguidamente, a turma reúne numa roda com a facilitadora e um participante inicia a primeira ronda ao selecionar uma das palavras pré-definidas. Assim, inicia-se uma ronda de palavras relacionadas, onde todos os participantes são convidados a dizer palavras relacionadas com a palavra da ronda (por exemplo, ao selecionar a palavra “natureza”, os seguintes participantes podem sugerir “árvores”, “água“, “rios”, “animais”, e por aí em diante). Figura 18Palavras-chave definidas para a ferramenta "palavras relacionadas" 81 Finalizados os momentos de introdução, teriam início os momentos de ideação. Para tal, decidiu-se utilizar, primeiramente, a ferramenta “círculo do mundo”, apresentada por Alaister Fuad-Luke. Com esta ferramenta, apresentada na figura 19, seria possível, através da partilha dos conhecimentos ou opiniões pessoais de cada participante acerca do contexto de ação, definir áreas temáticas e criar grupos por afinidade de áreas temáticas. Figura 19Cartão explicativo da ferramenta "Círculo do Mundo" 82 Seguidamente, e já em trabalho de grupo, propôs-se a utilização da ferramenta “gerador de hipóteses” (fig. 20) para o momento de identificação de oportunidades dentro das áreas temáticas e contextos de cada grupo. Aqui, os grupos teriam a oportunidade de iniciar a ideação de acordo com oportunidades identificadas, guiados por três questões-chave: • Suposições- “quais são, atualmente, os maiores desafios nesse contexto?”; • Motivações- “quais são as principais razões por detrás desses desafios?”; • Principais questõesregisto livre de hipóteses ou ideias para explorar. Figura 20Cartão explicativo da ferramenta "Gerador de Hipóteses" 83 Com as hipóteses definidas, os grupos passariam então à exploração de ideias que respondessem aos desafios encontrados, num registo de ideação livre e com recurso à ferramenta “geração de ideias”, apresentada na figura 21. Aqui, era pedido que registassem todas as ideias ou potenciais soluções que surgissem no grupo de modo a culminar em, no mínimo 3 e no máximo 5 ideias preliminares. Figura 21Cartão explicativo da ferramenta "Geração de Ideias" 84 Partindo das ideias preliminares de cada grupo, seria necessário um momento de seleção. Para tal, e de modo a promover a interação e discussão com os pares, optou-se pela ferramenta “ speed dating de ideias” (Sampaio, 2016), apresentada na figura 2. Perante esta ferramenta, cada grupo teria de apresentar as suas ideias preliminares aos restantes gruposgrupos estes que, após uma possível discussão de ideias, votam na ideia que considerem ter mais potencial através de autocolantes de votação. Após este momento, seria feito um intervalo. Figura 22Cartão explicativo da ferramenta "Speed Dating de Ideias" 91 Introdução No momento da introdução, a explicação dos conceitos “economia circular” e “consumo sustentável” gerou um momento de associação, discussão e questionamento acerca da “circularidade” de algumas práticas do quotidiano dos participantes. Concluiu-se que o uso de linguagem informal e exemplos próximos da realidade dos participantes foi crucial no entendimento dos conceitos e do workshop . Palavras relacionadas A realização do jogo num momento de quebra-gelo, apesar de ter tido um início lento e “a medo”, a partir do momento em que a facilitadora iniciou uma ronda a título de exemplo, este transformou-se num momento de pensamento livre e partilha de informação sem inibições. Acredita-se que perante a descrição, este momento respondeu aos seus objetivos. Círculo do mundo Perante esta ferramentaque marcava o começo dos processos de ideação, foi pedido que identificassem, de forma livre, áreas temáticas ou oportunidades relacionadas com a EC e/ou o consumo sustentável. Neste momento, relembrou-se que não existiam respostas certas ou erradas e que este era apenas um levantamento inicial de possíveis caminhos a seguir. No entanto, o início deste momento revelou-se demorado e foi visível uma apreensão por parte dos participantes de um dos grupos em registar respostas, tendo mesmo surgido questões como: “mas pode ser, por exemplo, saúde? É uma área em que se desperdiça muita coisa, mas não sei o que posso fazer com isto”. Porém, respondidas algumas questões e medos iniciais, foi uma ferramenta em que os participantes se envolveram de forma profunda e que permitiu a formação de grupos consoante afinidade das áreas temáticas escolhidas. Neste momento, a possibilidade de associar gostos e opiniões pessoais com o objetivo final revelou-se motivadora e encorajadora para os participantes. Contudo, devido a um início demorado, este momento não correspondeu aos 8 minutos máximos previstos, tendo-se prolongado por 15 minutos. 92 Gerador de hipóteses Na implementação desta ferramenta foi visível um nível de envolvimento maior por parte dos participantes na temática do workshop . A resposta às questões apresentadas nesta ferramenta deu-se em formato de tópicos ou breves perguntas, o que levou a um processo dinâmico, com um ritmo de exploração e debate de ideias bastante elevado onde não estava pressente a inibição inicial sentida nos participantes. Constatou-se que a utilização do gerador de hipóteses e das perguntas auxiliarespor exemplo, “quais são, atualmente, os maiores desafios nesse contexto?”, ajudou os participantes a explorar ideias de forma mais estruturada, guiadas por motivações e preocupações reais dos participantes que pudessem posteriormente ser respondidas. Figura 27Resultados da ferramenta “Círculo do Mundo" Figura 28Implementação da ferramenta "Gerador de hipóteses" 93 Geração de ideias Perante esta ferramenta observou-se uma grande partilha de informação e exploração de ideias com base nas respostas ao gerador de hipóteses. No entanto, quando foi pedido que os grupos começassem a analisar e selecionar a informação de modo a culminar em 3 a 5 ideias preliminares, notou-se alguma dificuldade de resposta, sendo que ambos os grupos queriam continuar a sua exploração de ideias. Porém, devido às limitações de tempo para esta ferramenta, tal não seria possível, pelo que a facilitadora sugeriu que cada grupo resumisse as ideias que achavam ter mais potencial numa pequena frase. A partir desta sugestão, o processo de análise e seleção foi mais rápido e intuitivo, resultando em 5 ideias preliminares de um grupo, e 3 ideias do outro grupo. Apesar de as indicações para esta ferramenta terem sido dadas corretamente, observou-se um desvio do pedido inicial que se acredita ter sido resolvido com a sugestão da facilitadora. Esta, ou ser uma nova “tarefa”, fez com que os participantes mudassem o foco da exploração para a análise e seleção atempadamente. o Grupo 1: 5 ideias preliminares o Grupo 2: 3 ideias preliminares Speed dating de ideias Os participantes compreenderam o que era pedido com esta ferramenta e a apresentação das ideias de um grupo aos restantes participantes mostrou-se benéfica, tendo resultado num debate em que ambos os grupos se questionaram mutuamente acerca de possíveis problemas de determinadas ideias. Esta troca de ideias resultou numa votação mais consciente acerca da proposta com mais potencial de cada grupo e na sugestão de algumas alterações. No entanto, e apesar da duração deste momento ter sido referida várias vezes, foi complicado acelerar este processo e, apesar de se entender que ambos os grupos ficaram interessados em questionar as ideias preliminares, os esforços da facilitadora não foram suficientes para que esta ferramenta cumprisse a duração prevista de 5 a 10 minutos. 94 OX Tool A utilização desta ferramenta foi crucial na definição das ideias de ambos os grupos, sendo que a sua implementação decorreu sem grandes dificuldades. De notar apenas que o segundo grupo teve alguma dificuldade em aprofundar as questões “com quem” e “como”, sendo que neste momento a facilitadora deu alguns exemplos não relacionados com a proposta do grupo que elucidaram e auxiliaram o grupo, resultando numa resposta mais detalhada e, consequentemente, uma estruturação da proposta mais aprofundada. Observou-se ainda que em os ambos os grupos, durante o desenvolvimento da estrutura da proposta final, o envolvimento, entusiamo e seriedade perante o objetivo do workshop aumentaram, chegando mesmo a referir “isto é uma ótima ideia, tem de ficar bem feito porque eu quero que chegue ao presidente da câmara”. Figura 29Implementação da ferramenta OX Tool 95 Cenário Esta ferramenta foi muito bem recebida pelos participantes, que procuraram cumpriram os seus dois objetivos. Primeiramente observou-se que ambos os grupos começaram pela finalização da estrutura da proposta, recorrendo a post-its. Nesse momento, notou-se alguma dificuldade de resposta a todas questões presentes no cartão informativo, porém, acredita-se que, mediante o tempo disponível, ambos os grupos responderam a questões-chave que permitiram ter uma estrutura mais sólida e que os fez pensar acerca dos fluxos necessários para uma real implementação das suas propostas. Aquando da representação visual das propostas, notou-se um claro envolvimento de todos os participantes, que procuraram trabalhar em grupo na seleção dos recursos visuais e na organização da representação. No entanto, o primeiro grupo conseguiu um cenário mais completo do que o segundo grupo, apesar de ambos terem sido bastante visuais, com uso de imagens, desenhos e identificação dos fluxos existentes nas suas propostas. De notar que o recurso a texto foi reduzido, sendo usado como uma breve explicação de pontos-chave. Importante ainda de referir que a implementação desta ferramenta excedeu o tempo esperado, sendo que a facilitadora informou os participantes desta situação e de que ainda se esperava implementar o momento de apresentação. Todos os participantes revelaram interesse em continuar a elaboração do cenário após terminada a duração esperada, pelo que concordaram em estender a duração do workshop para que fosse possível apresentar os cenários. Figura 30Propostas finais dos grupos 96 Apresentação A apresentação das propostas decorreu sem dificuldades nem inibições, sendo que após cada apresentação deu-se, organicamente, um debate entre todos os participantes acerca de possíveis ajustes para cada proposta. Observou-se que todos os participantes participaram na apresentação, estando orgulhosos das propostas que apresentaram e do facto de terem sido eles próprios a criar as propostas. Questionário Tal como planeado, aquando do encerramento do workshop , foi divulgado um QRCode de acesso ao questionário e pedido a todos os participantes que respondessem ao mesmo. Esta ferramenta obteve uma taxa de resposta de 100%. Figura 31Avaliação do entendimento prévio dos conceitos e impacto do workshop nos mesmos 97 Figura 32Avaliação do processo do workshop 98 Conclusões gerais Após a realização do primeiro workshop , e tendo em conta que um dos objetivos era testar a sua estrutura e ferramentas a utilizar posteriormente, foi possível retirar algumas conclusões informadas pela observação participante e pelas respostas ao questionário. A estrutura utilizada, numa lógica de afunilamento de ideias, resultou bastante bem no auxílio dos participantes e contribuiu para um crescente envolvimento e sentido de capacitação na resposta à temáticaque originou propostas finais bastante sólidas que os participantes acreditavam contribuir para um consumo sustentável e economia sustentável no seu concelho. Relativamente às ferramentas, concluiu-se que não seriam necessários grandes ajustes à sua implementação. Porém, achou-se que poderia ser benéfico o recurso a exemplos ou outras formas de auxílio por parte da facilitadora quando se notasse alguma inibição ou dificuldade em gerar ideias ou abrir discussão perante algumas das ferramentasnomeadamente no círculo do mundo, na geração de ideias e no OX Tool . Perante os materiais desenvolvidos, que seguiram a identidade visual do projeto e utilizaram uma linguagem informal, concluiu-se que contribuíram para uma melhor compreensão e aceitação das ferramentas propostas e, consequentemente, para um maior envolvimento e motivação em participar. A dinâmica do workshop foi bem recebida pelos envolvidos, que participaram ativamente na resposta a todos os desafios e procuraram trabalhar em grupo para tal. Figura 33Avaliação geral do workshop 99 De notar ainda que primeiramente foi apresentado o tema do workshop , e só depois a dinâmica do mesmo. Apesar de alguma indiferença ao tema, a introdução de uma dinâmica diferente e descontraída levou os participantes a demonstrar curiosidade pelo processo e uma maior predisposição a participar. Porém, a gestão do tempo por parte da facilitadora não cumpriu os objetivos esperados, sendo que a duração do workshop se prologou além do definido inicialmente. Apesar de isto não ter constituído um problema neste workshop , nos workshops seguintes, por serem em contexto de sala de aula, teria de ser algo cumprido segundo o desenho inicial, perante risco da não implementação de certas ferramentas. Figura 34Momentos ilustrativos do 1º workshop 100 3.1.3.3. Segundo workshop Local: Escola Básica e Secundária de Águas Santas Duração: 110 minutos Ano e área científica da turma: 11º ano, Curso de Ciências Socioeconómicas Nº de participantes: 10 Distribuição dos grupos: • Grupo 1: 3 elementos • Grupo 2: 3 elementos • Grupo 3: 4 elementos Figura 35Caracterização sociodemográfica dos participantes do 2º workshop 107 Cenário A implementação do cenário deu-se numa duração menor do que o previsto, devido a alguns atrasos na implementação das ferramentas anteriores. Posto isto, e perante o primeiro objetivo de finalizar a estrutura da proposta, foi dito aos participantes que se focassem em responder aos tópicos (presentes no cartão informativo) que fossem mais importantes para a compreensão da sua proposta. Posteriormente, teriam a oportunidade de traduzir a sua proposta numa representação visual, de acordo com o segundo objetivo desta ferramenta. Mais uma vez, constatou-se uma dificuldade inicial em compreender os conceitos e linguagem presentes no cartão informativo e, consequentemente, em responder aos mesmos. A facilitadora interveio, simplificando e dando exemplos que pudessem ser uteis, o que gerou um ritmo de trabalho mais dinâmico. No entanto, e devido ao facto de algumas falhas na estrutura das propostas de todos os grupos, verificou-se uma fraca resposta às questões dadas no cartão informativo. Assim sendo, os grupos não utilizaram este momento para detalhar as suas propostas, sendo ainda observável que alguns participantes não entendiam a necessidade de maior detalhe. Posto isto, os grupos passaram rapidamente para a representação visual da proposta, tendo esta sido feita com recurso a imagens, pequeno texto e alguns desenhos. Este foi um processo em que os participantes voltaram a elevar o seu nível de empenho e envolvimento, motivados pela criação de algo visual que representasse a sua proposta. Perante esta ferramenta, concluiu-se que não cumpriu o objetivo de finalização da estrutura das propostas em nenhum grupo, mas que, por outro lado, a representação do cenário foi bastante visual, processo em que os envolvidos mostraram maior nível de participação. Figura 37Seleção dos materiais de apoio para realização do cartaz 108 Apresentação Não foi possível implementar o momento de apresentação entre grupos devido à falta de tempo. No entanto, enquanto uns grupos terminavam pequenas tarefas, a facilitadora foi reunindo com os restantes grupos, dando-se uma breve apresentação da proposta de cada grupo à facilitadora, que permitiu algum debate. Apesar de os participantes terem conseguido apresentar as suas propostas e demonstrado como respondiam ao objetivo do workshop , este momento não correspondeu ao objetivo de apresentação e debate entre participantes de diferentes grupos. Questionário O questionário distribuído pelos alunos obteve uma taxa de resposta de 90% (9 de 10 participantes), permitindo retirar as algumas conclusões que, juntamente com as conclusões da observação participante, informaram a primeira adaptação ao desenho do workshop . Figura 38Avaliação do entendimento prévio dos conceitos e impacto do workshop nos mesmos 109 Figura 39Avaliação do processo do workshop 110 Conclusões gerais Após a realização do primeiro workshop em contexto de turma e perante uma faixa etária mais jovem, foi possível tirar conclusões que levaram a ajustes nas ferramentas e materiais a utilizar posteriormente. Primeiramente, reconhece-se que a estrutura, numa lógica de afunilamento de ideias, não constituiu entraves significativos, sendo uma forma crucial de guiar e auxiliar os participantes no desenvolvimento de propostas numa dinâmica pouco familiar para os mesmos. Os momentos-chave definidos na estrutura foram respondidos, ainda que de forma menos aprofundada do que no workshop teste, o que pode ser explicado pela faixa etária dos participantes neste workshop . No entanto, perante as conclusões retiradas na implementação de cada ferramenta, entende-se que esta foi a questão mais problemática neste workshop . As ferramentas do círculo do mundo, gerador de hipóteses e geração de ideias levantaram bastantes entraves na participação dos envolvidos, gerando alguma incompreensão e dificuldade de resposta. Acredita-se que tal foi motivado pela complexidade destas ferramentas e pela linguagem e conceitos utilizados nos cartões explicativos das mesmas, que perante a faixa-etária dos participantes poderiam estar mais simplificados e adaptados. Assim sendo, seriam também necessários ajustes nos materiais de apoio fornecidos, especialmente nestes cartões. Estes fatores levaram a que a duração das ferramentas de ideação se prolongasse, comprometendo a correta implementação das ferramentas de Figura 40Avaliação geral do workshop 111 estruturação e representação ( OX Tool e Cenário). Por este motivo, e apesar de se terem retirado conclusões relevantes acerca da implementação destas ferramentas, não se realizaram alterações às mesmas após este workshop . Acredita-se que, perante a incorreta implementação por parte da facilitadora, não foi possível depreender se as respostas a estas ferramentas seriam facilitadas através do ajuste das próprias ferramentas ou através de uma implementação que seguisse a duração esperada. Assim sendo, decidiu-se utilizar o workshop seguinte para testar estas questões, através de uma gestão de tempo por parte da facilitadora mais correta que permitisse aferir quais as reais dificuldades nestas ferramentas. Os participantes deste workshop revelaram níveis de participação bastante diversos, sendo que, em especial o terceiro grupo, não demonstrou interesse numa participação ativa. Além disso, inicialmente foi percetível alguma estranheza por parte dos alunos perante a dinâmica do workshop , que se esperava criativa e descontraída, sendo que um aluno referiu ser “muito estranho estar de pé a trabalhar na sala de aula, a trabalhar como eu quiser e com a professora ali a olhar para nós sem dizer nada”. Posto isto, acredita-se que a introdução desta dinâmica promoveu, na maioria dos participantes, uma predisposição a participar no workshop e a trabalhar (e aprender) sobre as temáticas da EC e consumo sustentável. De salientar ainda que, a nível de facilitação, este foi um workshop desafiante devido aos entraves que surgiram e à constante necessidade de apoio em todos os grupos, algo que, perante a existência de uma única facilitadora, acabou por contribuir para uma facilitação menos rigorosa a nível de gestão de tempo, culminando na implementação das ferramentas finais de forma pouco organizada e de acordo com a duração esperada. Figura 41Momentos ilustrativos do 2º workshop 112 3.1.3.4. Adaptação ao desenho inicial Partindo tanto das conclusões do primeiro workshop (teste) como das conclusões retiradas na primeira implementação em contexto de sala de aula mencionadas acima, foi realizado um ajuste ao desenho do workshop . Este, foi motivado pelo facto de se ter observado uma diferença de resposta às ferramentas, perante faixas etárias bastante distintas. Se no primeiro workshop , o entendimento e compreensão das ferramentas e da sua linguagem não foi um entrave à participaçãosendo apenas sinalizada a necessidade de alguma exemplificação ou simplificação nas ferramentas do círculo do mundo e da geração de ideias, no segundo workshop , perante uma faixa etária entre os 15 e os 17 anos, algumas ferramentas constituíram dificuldades maiores, ditando um workshop que ficou aquém de alguns objetivos processuais. Assim sendo, e aliando a necessidade de simplificação de conceitos, ferramentas e ainda a necessidade de uma gestão de tempo mais eficiente, decidiu-se explorar alternativas às ferramentas iniciais de ideaçãomais especificamente às ferramentas círculo do mundo, gerador de hipóteses e geração de ideias. De salientar que foram estas ferramentas que, principalmente no segundo workshop , levaram a maiores dificuldades de resposta por parte dos participantes. Posto isto, foram desenvolvidas, pela autora do projeto, duas ferramentas que procuravam colmatar estas necessidades. Primeiramente, foi criada uma ferramenta que visou solucionar algumas das dificuldades sentidas nos momentos de definição das áreas temáticas e identificação de oportunidades e problemáticas. Em ambos os momentos, foi observável alguma dificuldade por parte dos participantes em lançar ideias sem medo de errar, sendo necessária uma intervenção da facilitadora que os motivasse a iniciar ambas as ferramentaso que tornava a sua implementação mais demorada do que o esperado. Esta foi uma questão que se deu com mais enfase nos momentos de definição de áreas temáticas, em especial no segundo workshop , provavelmente por ser um momento em que, apesar de os participantes ainda não estarem familiarizados com as temáticas ou conceitos apresentados, lhes era pedido que tomassem uma decisão que iria condicionar o restante processo. Assim, definiu-se que seria benéfico diminuir esta 113 pressão inicial que pudesse ser sentida pelos participantes, evitando momentos de inibição. Como forma de solução a todas estas necessidades, foi desenvolvida a ferramenta alvo sustentável, que integra tanto um momento de exploração de áreas temáticas, como um momento de identificação de oportunidades e problemáticas numa só ferramentacontribuindo para uma implementação mais rápida. Porém o maior objetivo desta ferramenta era auxiliar os participantes a iniciar debate interno e a explorar ideias, mesmo que muitos deles não se sentissem confiantes ou achassem que não tinham um nível de conhecimento que lhes permitisse responder às temáticas da economia circular e do consumo sustentável. Assim, esta ferramenta tinha também como objetivo familiarizar e envolver os participantes na definição de conceitos-chave necessários para a geração de ideias, demonstrando-lhes que todos eles tinham conhecimentos valiosos para a realização desta ferramenta. O alvo sustentável (figura 42) apresenta-se como uma ferramenta de implementação em turma (incluindo, portanto, todos os participantes) dividida em 4 fasescada uma equivalente a um anel do alvo. Partindo de um desenho do alvo, a facilitadora apresenta as diferentes fases em forma de pergunta, à qual os participantes são convidados a responder de forma livre e voluntáriasendo que podem inicialmente ser dados alguns exemplos de resposta pela facilitadora. Primeiramente, são exploradas as áreas de atuação (áreas temáticas), seguidas das estratégias (que possam ser implementadas como resposta à temática), dos meios de atuação (como é que as propostas se podem tornar realidade) e por fim o público-alvo (a quem podem ser destinadas estas propostas). Com o preenchimento das quatro fases do alvo sustentável, era também de esperar que os participantes pudessem iniciar o processo de geração de ideias de forma mais intuitiva e confiante, visto ter à sua disposição um alvo repleto de informação útil que lhes permitia, posteriormente, explorar ideias a partir deste. Assim, perante a ferramenta do alvo sustentável, que respondia a momentos de exploração de áreas temáticas, oportunidades e problemáticas, foi também desenvolvida pela autora do projeto uma ferramenta a utilizar no momento de geração de ideias. Após a realização do alvo sustentável numa dinâmica de turma, seria importante os participantes iniciarem o trabalho em grupopara tal, e tendo em conta 114 que se espera que a ferramenta do alvo sustentável resulte num apanhado de informação e exploração de ideias dadas pelos participantes, achou-se importante que os grupos pudessem recorrer a esta ferramenta, utilizando-o como base para a geração de ideias. Figura 42Cartão explicativo da ferramenta "Alvo Sustentável" 115 Posto isto, e fazendo a ponte com o nome “alvo sustentável”, desenvolveu-se a ferramenta “risco ao alvo” (figura 43), que, sendo a primeira ferramenta a ser implementada em grupos, tinha como primeiro objetivo cada grupo definir área temática a trabalharescolhendo uma das respostas dadas a esta fase no alvo sustentável. Com o tema de cada grupo definido, esperava-se ainda que os grupos pudessem explorar e gerar ideias através de conexões e ligações feitas a partir da informação do alvo sustentável. Apesar de se poder argumentar que fazer ligações ou conexões possa não ser uma geração de ideias livre e dinâmica, esperava-se que ao gerar ideias desta forma os grupos apresentassem menos dificuldades e inibições, sendo que a ferramenta anterior permitiria a todos os participantes lançar ideias iniciais. Posto isto, a ferramenta deveria culminar na seleção de 3 a 5 ideias preliminares de cada grupo. Figura 43Cartão explicativo da ferramenta "Risco ao Alvo" 116 Com o desenvolvimento destas duas ferramentas, o desenho do workshop sofreu também uma pequena alteração no momento de definição de áreas temáticas. Este momento, que no primeiro desenho do workshop constava como o primeiro momento de ideação, passou a ser implementado posteriormente, devido a uma necessidade sentida de primeiro, permitir aos participantes explorar questões como as referidas no alvo sustentável (áreas temáticas, estratégias, meios de atuação e até o público alvo), de modo permitir um maior entendimento destas questões e das suas inter-relações, que levasse a uma tomada de decisão relativamente à área temática mais informada e consciente das possibilidades existentes. Assim sendo, e seguindo este novo desenho do workshop (figura 44), foram retirados dos kits de apoio, os materiais referentes às ferramentas retiradas, sendo que foi acrescentado um cartão explicativo da ferramenta risco ao alvo, visto que o alvo sustentável seria realizado em turma e explicado pela facilitadora, sem necessidade de cartão explicativo. Figura 44Momentos-chave e ferramentas propostas na adaptação ao desenho inicial 123 Speed dating de ideias A seleção de ideias, onde se implementou a ferramenta speed dating de ideias, realizou-se sem dificuldades. A apresentação das ideias preliminares de cada grupo deu-se de forma mais rápida do que nos workshops anteriores devido às ideias preliminares estarem apresentadas em formato de palavras-chave. De salientar que esse formato permitiu aos participantes identificar possíveis falhas ou incoerências nas ideias preliminares de forma rápida e intuitiva. Por exemplo, uma das ideias do segundo grupo foi bastante questionada acerca da relação entre as palavras escolhidas, que os restantes grupos identificaram como incoerente. Assim, despoletou um breve debate e discussão de ideias que resultou em sugestões de modificações e direções para as ideias de cada grupo. Posteriormente, a votação procedeu-se sem dificuldades e de forma intuitiva devido aos debates e análises feitos anteriormente, o que teve também um efeito benéfico na aceitação da ideia final de cada grupo, notando-se que todos os grupos ficaram satisfeitos com as ideias escolhidas. OX Tool Após a explicação desta ferramenta os participantes não levantaram dúvidas e passaram à sua execução. No entanto, após alguns minutos de implementação, a facilitadora entendeu que todos grupos estavam a responder às perguntas da matriz OX Tool sem recorrerem às perguntas de apoio presentes no cartão explicativo. Isto resultou em respostas iniciais muito curtas e abrangentes, que contribuíam pouco para a definição de uma estrutura preliminar. Assim, perante a dificuldade dos grupos em responder às questões apresentadas no cartão explicativo (auxiliares essenciais para uma resposta à matriz mais completa e suficiente para se traduzir numa estrutura preliminar), a facilitadora achou necessária uma explicação simplificada das questões apresentadas no cartão. Tal foi feito através da reformulação destas questões, usando linguagem e exemplos que se esperavam ser familiar a esta faixa etária, mas mantendo o objetivo final de cada uma. Após este ajuste, a resposta dos grupos à ferramenta tornou-se intuitiva e orgânica, resultando em estruturas preliminares mais completas e a um trabalho em grupo dinâmico e com muito debate interno. Perante esta resposta, foi observável uma 124 crescente valorização dos elementos de cada grupo das suas propostas, que começavam já a olhar para as suas ideias como algo que se poderia mesmo tornar real. Posto isto, concluiu-se que perante as questões da matriz OX Tool , os participantes têm tendência a dar respostas muito gerais e curtas, pelo que se acredita que as questões de auxílio presentes no cartão informativo são essenciais para um maior detalhe das propostas. Porém, seria necessário ajustar a linguagem e conceitos utilizados nestas questões, visto que os alunos têm capacidade de resposta às mesmas, mas a forma como estas são introduzidas revela-se demasiado complexa, causando entraves no processo de resposta. Cenário Após a introdução desta ferramenta, os grupos realizaram a finalização das suas propostas com recurso a texto e pequenos tópicos que acrescentaram às respostas do OX Tool . No entanto, confirmou-se que os conceitos e perguntas apresentados no cartão explicativo eram muito complexos e necessitavam de ajustes, tendo estes causado alguma frustração e reticência nos participantes. Tal como no workshop anterior, e apesar de neste a duração da implementação do cenário ter sido a esperada, foi necessário a facilitadora recorrer a exemplificação e simplificação destas questões. Após isso, os grupos sentiram-se capazes de responder à ferramenta. A finalização da estrutura das propostas foi mais demorada do que o esperado, tendo, no entanto, produzido respostas bastante completas e coerentes com o objetivo final do workshop . Assim, a representação visual das propostas foi realizada numa duração menor do que o esperado, tendo os grupos recorrido ao uso de imagens numa lógica de ilustração de texto que tinham previamente escrito. Porém, os resultados, ainda que com informação um pouco dispersa, foram bastante visuais e explicativos das propostas de cada grupo. No processo de representação visual foi ainda observável um nível de participação e entreajuda elevado de todos os elementos dos grupos. 125 Apresentação Tal como no workshop anterior, não foi possível implementar o momento de apresentação entre grupos devido à falta de tempo. Porém, e achando necessário um momento de conclusão e apresentação das diferentes propostas, a facilitadora foi reunindo individualmente com os grupos enquanto estes terminavam de colar imagens. Assim, deu-se uma pequena apresentação da proposta de cada grupo à facilitadora, que permitiu algum debate e questionamento. Por fim, não foi possível implementar corretamente esta ferramenta, tendo os seus resultados ficado aquém do esperado. Figura 50Propostas finais de dois grupos 126 Questionário O questionário obteve uma taxa de resposta de 100%, auxiliando a tomada de decisão de futuros ajustes ao desenho do workshop . Figura 51Avaliação do entendimento prévio dos conceitos e impacto do workshop nos mesmos 127 Figura 52Avaliação do processo do workshop 128 Conclusões gerais Com a realização do terceiro workshop foi possível avaliar a resposta à implementação das novas ferramentas aplicadasalvo sustentável e risco ao alvo. Além disso, e perante dúvidas anteriores acerca da necessidade de ajuste das ferramentas OX Tool e cenário, foram também retiradas conclusões valiosas sobre que direção seguir. Primeiramente, confirmou-se novamente que a estrutura do workshop está desenhada de forma benéfica à participação dos envolvidos, guiando a sua procura de respostas perante o objetivo final de forma dinâmica e estruturada. Relativamente às ferramentas surgiram duas conclusões importantes para os futuros workshops - se, por um lado, a introdução das ferramentas “alvo sustentável” e “risco ao alvo” foi positiva, a implementação das ferramentas OX Tool e cenário necessitava de ajustes. A implementação do “alvo sustentável” permitiu um crescente entendimento do contexto de ação, áreas temáticas e oportunidades por parte dos envolvidos. Este processo pareceu gerar um sentimento de confiança nos participantes em iniciar debate e partilhar informação de forma orgânica, em comparação com os workshops anteriores onde era visível alguma apreensão e inibição no início do processo de ideação. Estes fatores levaram a que os objetivos desta ferramenta fossem cumpridos, com uma qualidade de resultados superior quando comparados com as ferramentas “círculo do mundo” e “gerador de hipóteses”. Figura 53Avaliação geral do workshop 129 Após a implementação do “risco ao alvo“ pode-se afirmar que esta ferramenta respondeu aos objetivosa definição da área temática de cada grupo e posteriormente, a exploração e geração de ideias através de debate interno. Além disso, concluiu-se que esta ferramenta promoveu uma dinâmica de exploração nos participantes, não se verificando a dificuldade de lançar ideias referida nos workshops anteriores. Porém, constatou-se que seria necessária uma explicação da ferramenta menos complexa e confusa. Perante as dificuldades dos participantes em compreender a linguagem e conceitos das questões apresentadas nas ferramentas OX Tool e cenário, verificou-se que seria necessária uma modificação das mesmas. Assim, e apesar de se ter concluído que as respostas a estas questões contribuíram para uma melhor estruturação das propostas finais, seria importante simplificar a linguagem utilizada e, consequentemente, alterar os conteúdos apresentados nestes cartões explicativos. Por fim, destaca-se o nível de participação elevado de todos os participantes, que responderam proactivamente à dinâmica do workshop com interesse, curiosidade e seriedade, resultando em propostas que foram de encontro ao objetivo final. Apesar dos pequenos entraves referidos anteriormente, observou-se um grande interesse pela temática e curiosidade pela dinâmica apresentada. De referir ainda que, após o workshop , a professora da turma em questão salientou o elevado envolvimento dos alunos na dinâmica apresentada, expondo ainda a necessidade de mais dinâmicas como a deste workshop em contexto de sala de aula. Figura 54Momentos ilustrativos do 3º workshop 130 3.1.3.6. Readaptação ao desenho do workshop Partindo das conclusões retiradas acerca das ferramentas, desenvolveram-se algumas modificações que permitissem uma melhor implementação das ferramentas risco ao alvo, OX Tool e cenário. Primeiramente, em relação ao risco ao alvo, decidiu-se apenas alterar o formato de resposta proposto aos participantes. Em vez de ser proposta a realização de ligações entre as palavras dos anéis do alvo através de canetas de diferentes cores (sendo as ligações de cada cor representativas de uma ideia), decidiu-se propor que esta seleção de ideias fosse representada fora do alvo, sendo exemplificada da seguinte forma: • Ideia 1: moda (área temática) - eliminar e alugar (estratégias) - loja (meio de atuação) - crianças (público-alvo); • Ideia 2: transporte - adaptar - empresa – adultos. Seguidamente, e perante as conclusões retiradas da implementação da ferramenta OX Tool , foram desenvolvidas “cartões-questões” (figura 55) como forma de auxílio à resposta, através de perguntas com uma linguagem informal e conceitos simplificados. Assim, procurou-se responder à necessidade de clarificação das perguntas-chave mais complexas apresentadas nos workshops anteriores. Apesar de os objetivos de resposta se manterem iguais, acredita-se que este formato iria facilitar a resposta e compreensão da ferramenta OX Tool , contribuindo para uma implementação mais positiva. Por fim, tendo em conta que a maior dificuldade de implementação do cenário era também a complexidade da linguagem e conceitos utilizados, utilizou-se a mesma lógica de simplificação e desconstrução através do desenvolvimento de cartões questões de apoio à ferramenta “cenário” - apresentados na figura 56. Aqui, também os objetivos de resposta eram os mesmos que na ferramenta apresentada desde início, tendo sido apenas alterado o formato em que as questões se apresentavam. 131 Figura 55Cartões-questões da apoio à ferramenta OX Tool 132 Figura 56Cartões-questões de apoio à ferramenta "Cenário" 139 Figura 62Avaliação do processo do workshop 140 Conclusões gerais A realização do quarto workshop confirmou que a introdução dos cartõesquestões de auxílio às ferramentas OX Tool e cenário foi essencial para uma melhor compreensão e resposta às mesmas, sendo que o formato de “cartas” permitiu uma dinâmica mais lúdica durante esta implementação. As alterações ao formato de resposto do risco ao alvo foram também benéficas, diminuindo os entraves sentidos no workshop anterior. Assim sendo, concluiu-se que nem as ferramentas nem a estrutura do workshop necessitavam, até ao momento, de mais ajustes, sendo que estes teriam de ser motivados por dados obtidos nos workshops seguintes. No entanto, concluiu-se que a participação e o envolvimento dos participantes deste workshop foram menores do que nos anteriores. Acredita-se que um dos fatores determinantes para isso tenha sido o maior número de participantes que, perante uma única facilitadora, tornou a facilitação e introdução da dinâmica do workshop desafiantes. Além disso, foi também o workshop mais curto, onde não houve espaço para a facilitadora ir acompanhando individualmente os grupos e motivando o início de debates e troca de informação. Por fim, constatou-se que os participantes tiveram alguma dificuldade em integrar a dinâmica proposta pelo workshop , que, ao envolver um modo de trabalho e criação de propostas diferente do habitual em sala de aula, gerou uma estranheza inicial por parte dos alunos. Figura 63Avaliação geral do workshop 141 Todos estes fatores contribuíram para uma facilitação que se tornou muito cansativa e esgotante, e por isso de menor qualidade. Assim, em futuros workshops com tantos participantes será benéfica a existência de dois facilitadores. Figura 64Momentos ilustrativos do 4º workshop 142 3.1.3.8. Quinto workshop Local: Escola Básica e Secundária de Águas Santas Duração: 120 minutos Ano e área científica da turma: 11º ano, Curso de Línguas e Humanidades Nº de participantes: 18 Distribuição dos grupos: • Grupo 1: 3 elementos • Grupo 2: 3 elementos • Grupo 3: 3 elementos • Grupo 4: 3 elementos • Grupo 5: 3 elementos • Grupo 6: 3 elementos Figura 65Caracterização sociodemográfica dos participantes do 5º workshop 143 Objetivo e estrutura do workshop Perante os ajustes realizados justificados pelas conclusões dos workshops anteriores, este quinto workshop (quarto em contexto de sala de aula) tinha como objetivo implementar os ajustes finais das ferramentas, de modo a obter mais dados acerca de possíveis entraves. Préworkshop Previamente ao workshop , e com a confirmação do número de participantes, foram organizados 6 kits de trabalho com os materiais finais (figuras 58 e 59) - um para cada grupo, e disponibilizados os restantes materiais necessários, tais como o papel de cenário, tesouras, fita-cola e adesivos. Com a ajuda do professor desta turma, foi ainda possível reorganizar as mesas, juntando-as de forma a resultar em 6 mesas de trabalho, uma para cada grupo. Partindo da observação participante com recurso a diário de campo, foi possível retirar algumas conclusões relativamente ao workshop e às ferramentas utilizadas: Introdução O momento da introdução, implementado com recurso à projeção da apresentação, decorreu como esperado. Os participantes mostraram-se interessados na temática e abertos à participação no workshop , tendo o diapositivo referente à explicação da dinâmica causado algum espanto e curiosidade. Palavras relacionadas No momento de quebra-gelo foi, como planeado, pedido aos participantes que se levantassem e fizessem uma roda. De salientar que, tal como nos workshops anteriores, este pedido gerou alguma reticencia, tendo sido questionado à facilitadora “o que vamos fazer? Vou ter de falar para a turma?”. No entanto, após a explicação da ferramenta, a sua introdução decorreu de forma rápida e sem entraves, tendo os alunos proactivamente começado as rondas de forma desinibida e deixado os medos iniciais de lado. 144 Constou-se que este jogo gerou bastantes sorrisos nos participantes, que se mostraram confortáveis nesta dinâmica, resultando num momento de pensamento livre e partilha de informação sem inibições. Alvo sustentável Durante a implementação do alvo sustentável constatou-se que alguns dos alunos não interagiram nem participaram. No entanto, os restantes participantes integraram esta dinâmica com pensamento livre e exploração de ideias, tendo surgido várias vezes um debate relevante entre alunos durante a procura de respostas a esta ferramenta. Perante a implementação desta ferramenta, foi de salientar, comparativamente aos workshops anteriores, a proatividade e naturalidade com que os participantes iniciaram debate interno, levando a uma procura de respostas ao alvo sustentável mais dinâmica e em equipa. Risco ao alvo A implementação desta ferramenta decorreu como esperado, tendo sido de rápida e fácil resposta por parte dos alunos. As alterações realizadas ao momento de geração de ideias desde o primeiro workshop contribuíram para um processo que, com estes participantes, foi bastante intuitivo e criativo. Figura 66Alvo sustentável preenchido 145 A definição de ideias preliminares deu-se, então, de forma rápida, mas consciente de que as ligações (e escolhas) que os alunos estavam a fazer seriam importantes para o restante decorrer do workshop . Perante a indicação dada pela facilitadora de que os grupos poderiam escolher uma ou, no máximo, duas áreas temáticas, apenas o quarto grupo não cumpriu o pedido. A resposta a esta ferramenta produziu uma diversidade de ideias maior do que em workshops anteriores, tendo os grupos definido: • Grupo 1: 5 ideias preliminares • Grupo 2: 4 ideias preliminares • Grupo 3: 3 ideias preliminares • Grupo 4: 3 ideias preliminares • Grupo 5: 4 ideias preliminares • Grupo 6: 5 ideias preliminares Speed dating de ideias A implementação decorreu como esperado, ainda que de forma mais acelerada devido à quantidade de participantes presentes e às limitações de tempo. Assim, não existiu muito espaço de debate, tendo os participantes votado de forma pragmática consoante as suas motivações pessoais. Figura 67Realização do risco ao alvo 146 Porém, constatou-se que todos os grupos ficaram satisfeitos com as ideias selecionada, contribuindo para a participação ativa percecionada durante o resto do workshop . OX Tool Perante as ideias selecionadas, a introdução desta ferramenta foi muito bem recebida pela maioria dos grupos. Observou-se, em cinco grupos, uma curiosidade e proatividade muito grandes em trabalhar com esta ferramenta, algo que se acredita ter sido motivado pelos materiais de apoio disponibilizados, bastante visuais e didáticos, mas também pela possibilidade de os grupos trabalharem na definição da sua ideia. A resposta destes cinco grupos foi, por isso, muito autónoma, tendo sido suficiente para a sua compreensão e implementação a introdução dada pela facilitadora e os materiais de apoio presentes no kit de trabalhodos quais se ressalta a importância dos cartõesquestões. Estes, foram essenciais para um maior aprofundamento das respostas ao OX Tool perante uma faixa etária muito jovem. Assim, a facilitadora não necessitou de intervir ou auxiliar estes cinco grupos durante a estruturação das suas propostas, algo que contribui para um notável sentimento de capacitação e valorização dos envolvidos em procurar respostas ao objetivo dado. Isto, foi confirmado pelo facto de todos estes grupos, durante a implementação desta ferramenta, quererem mostrar à facilitadora o seu progresso de forma entusiasmada, algo exemplificado pelo seguinte comentário de uma aluna do primeiro grupo: “(facilitadora), olha esta grande ideia que nós tivemos, era tão fixe que isto se fizesse mesmo, nem que fosse aqui na escola” No entanto, perante uma resposta muito positiva e semelhante por parte dos cinco grupos referidos anteriormente, o quarto grupo apresentava já sinais de alguma indiferença à temática e resistência em responder a esta ferramenta. Devido a esta discrepância de envolvimento perante a restante turma, a facilitadora tentou questionar estes elementos acerca de necessidades ou dificuldades que pudessem estar a encontrar, tentando entender se existiam entraves relacionados com esta ferramenta em específico ou com o próprio interesse em participar destes alunos. Durante esta comunicação o grupo revelou algum desrespeito pela facilitadora, sendo que ficou bastante claro que não estavam disponíveis a participar de forma ativa no workshop . 147 Posto isto, optou-se por uma abordagem menos próxima com este grupo, relembrando que todos os alunos eram livres de não participar ou desistir, a qualquer momento, do workshop . Por fim, concluiu-se que a implementação desta ferramenta e dos cartõesquestões auxiliares foi bem-sucedida e bem recebida pela grande maioria da turma, que não necessitou de ajuda da facilitadora. Este facto, permitiu deduzir que os entraves sentidos com o quarto grupo não estavam relacionados com a ferramenta, mas sim com a sua predisposição em participar. Cenário Perante o elevado envolvimento da maioria dos alunos, a introdução do cenário deu-se de forma bastante fluída, tendo os participantes entendido a sua necessidade e o seguimento que esta ferramenta permitia dar ao OX Tool , como forma de encerramento do processo de criação. Primeiramente os grupos iniciaram a finalização da estrutura das suas propostas com recurso aos cartões-questões de auxílio ao cenário, sendo que todos eles entenderam como utilizar este material de apoio, pois tinham tido um contacto prévio com os materiais semelhantes na realização do OX Tool . Destaca-se ainda que o formato de resposta utilizado pelos alunos às questões presentes nestes cartões seguia maioritariamente uma lógica de “sim, e…” ou “sim, precisamos de (algo), através de”. Perante estes registos, concluiu-se que as perguntas presentes nestes cartõesquestões, colocadas através de uma linguagem informal e simples, permitiram aos grupos entender a relevância que certos fluxos de informação e relação tinham nas suas propostas. Assim, o momento de detalhe e finalização das estruturas originou respostas (e informação) muito completas, culminando em propostas que respondiam ao objetivo e que se apresentavam bem estruturadas. De ressaltar ainda que o quarto grupo também respondeu a esta ferramenta, ainda que de forma menos aprofundada. Seguidamente, no momento da representação visual das propostas, notou-se um claro envolvimento da maioria dos gruposexceto o quarto grupo. Estes participantes procuraram trabalhar em grupo na seleção dos recursos visuais e organização da representação das suas propostas, resultando em cenários muito 148 completos. Além disso, destaca-se nestes cenários o uso de texto em formato de tópicosmuitas vezes inserido em post-its , bem como a elevada utilização de recursos visuaisquer através de imagens ou até desenhos, tendo sido das únicas turmas a recorrer a desenhos. Figura 68Desenvolvimento dos cartazes