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Universidade do Minho Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Chen Jingyi outubro de 2021 Seguindo a Rota Marítima do Chá: da Ilha de São Miguel à Terra de Lingnan Chen Jingyi Seguindo a Rota Marítima do Chá: da Ilha de São Miguel à Terra de Lingnan UMinho|2021
Universidade do Minho Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Chen Jingyi outubro de 2021 Seguindo a Rota Marítima do Chá: da Ilha de São Miguel à Terra de Lingnan Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Sun Lam Dissertação de Mestrado Mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês: Tradução, Formação e Comunicação Empresarial
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial CC BY-NC https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/
iii Agradecimentos Fazer um mestrado na Universidade do Minho foi uma experiência de vida muito significativa. Gostaria de expressar os meus sinceros agradecimentos a todos aqueles que facilitaram a conclusão desta etapa académica. Em primeiro lugar, gostaria de agradecer à minha orientadora, a Professora Doutora Sun Lam, pelo seu apoio na realização da dissertação, manifestando o meu profundo respeito pelo seu amor ao ensino e o seu conhecimento acerca da cultura do chá. A sua orientação e auxílio, pessoal e académico, foram muito importantes para mim. À Fábrica Premium Tea 八百秀才, pelo apoio e acompanhamento da minha investigação sobre as plantações do chá preto em Yingde. Em especial, gostaria de agradecer à senhora Zhu, uma assistente desta empresa, que me concedeu uma entrevista divertida. Aos meus professores de estudos interculturais, pelas suas sugestões académicas e práticas, com as quais tenho beneficiado muito. À Fundação Macau, pela atribuição da Bolsa de Estudo “Uma faixa, Uma rota”, que me permitiu finalizar com sucesso o mestrado. Aos meus pais e amigos, pela compreensão, amor incondicional e pelo encorajamento para enfrentar as dificuldades da vida. Ao senhor António e D. Ilda, pela sua amizade e ajuda, durante a minha estadia em Braga. Por último, desejo agradecer a todos aqueles que me ajudaram durante o período passado na Universidade do Minho, pelas suas contribuições e amizades.
iv Seguindo a Rota Marítima do Chá: da Ilha de São Miguel à Terra de Lingnan Resumo Como se sabe, a China é o berço do chá. Em meados do século XVI, Portugal entrou em Macau em regime do arrendamento do território e, gradualmente, utilizou a cidade como porto para o comércio marítimo do chá e porcelana. Por esta via, os portugueses conheceram a cultura do chá, levando-a para Ocidente, onde se popularizou. Em 1878, a ilha de São Miguel, através do governo de Macau da época, contratou dois mestres do chá para ensinarem o cultivo e os métodos de fabrico do chá nesta ilha do arquipélago dos Açores. Desde então, Portugal tem sido o único país na Europa a ter os jardins de chás comerciais. A zona de Lingnan, na China, em particular a cidade de Yingde – com uma localização geográfica muito próxima de Macau - possui uma história antiga de cultivo do chá. A degustação do chá preto de São Miguel e do chá preto de Yingde revelou que os dois têm uma grande semelhança em termos de variedades das árvores do chá, formas das folhas, sabor e cores da infusão. Isto talvez signifique que a variedade do chá açoriano tenha sido introduzida a partir de Yingde através de Macau, nos tempos antigos. A presente dissertação pretende averiguar o papel de Macau no comércio do chá durante a dinastia Qing, explorar a história do cultivo do chá no Brasil e em Portugal, investigar as variedades e origens dos chazeiros, bem como fazer a comparação entre chás pretos. No final, devido à destruição de muitas relíquias e à falta de registos locais, especialmente de materiais históricos sobre o comércio entre a região do chá de Yingde e Macau, dos registos de emigração dos agricultores e das genealogias locais, não se conseguiu chegar a uma conclusão sobre a origem das sementes do chá dos Açores. Apesar disso, o processo de recolha de materiais textuais e de investigação de campo, na base desta dissertação, resultou, basicamente, numa revisão da história da comunicação intercultural entre a China e Portugal. Sendo assim, esta dissertação não é apenas um contributo para os Estudos Interculturais Português/Chinês , mas também um primeiro passo numa área de investigação que pode ser explorada com maior profundidade no futuro, embora esta escolha esteja cheia de incógnitas e desafios. Palavras-chaves: Chá preto, História do cultivo do chá, Ilha de São Miguel, Macau, Yingde.
v Tracing the Maritime Tea Road: from The Island of San Miguel to the Land of Lingnan ABSTRACT As is well known, China is the birthplace of tea. In the mid-sixteenth century, Portugal entered Macao under a territorial lease regime, and gradually used the region as a transit port for the maritime trade in tea and porcelain. Therefore, the tea culture was known by the Portuguese and became popular in Western countries. In 1878, the island of São Miguel in the Azores archipelago, through the Macao government at that time, hired two Chinese tea masters from Macao to go to the island teach tea cultivation and producing methods. Since then, Portugal has been the only country in Europe to have commercial tea garden. The zone of Lingnan, China, in particular the city of Yingde – with a geographical location very close to Macao – has an ancient history of tea cultivation. Tasting São Miguel black tea and Yingde black tea revealed that the two are very similar in terms of tea tree varieties, leaf shapes, flavors and brew colors. This perhaps means that the Azorean tea variety was introduced from Yingde through Macao in ancient times. This dissertation aims to investigate the role of Macao in the tea trade during the Qing dynasty, explore the history of tea cultivation in Brazil and Portugal, study the varieties and origins of teapots, as well as compare the two black teas. In the end, due to the destruction of many relics and the lack of local records, especially historical materials on trade between the Yingde tea region and Macao, farmers' emigration records and local genealogies, it was not possible to arrive at a conclusion on the origin of the tea seeds in the Azores. Despite this, the process of collecting textual materials and field research, on the basis of the dissertation, basically constitutes a historical review of intercultural communication between China and Portugal. Therefore, this dissertation is not only a contribution to Portuguese/Chinese Intercultural Studies , but also a first step towards an area of research that can be explored in greater depth in the future, although this choice is full of uncertainty and challenges. Key words: Black tea, Tea cultivation history, São Miguel Island, Macao, Yingde.
vi 从圣米格尔岛到岭南大地 – 海上茶道的寻根之旅 摘要 众所周知,中国是茶叶的故乡。16 世纪中期,葡萄牙以租借形式进入了中国澳门, 并渐渐以澳门为中转港开展了海上丝路的茶叶和瓷器贸易,茶文化开始被葡萄牙 人所了解,并在西方国家流行开来。1878 年,亚速尔的圣米格岛通过当时的澳门 政府,聘请了两位中国种茶师傅从澳门来到圣米格岛进行茶树种植和制茶方法的 教导,从此亚速尔成为了欧洲唯一一个拥有商业茶园的国家。而在中国的岭南地 区,英德是一座有着深厚种茶历史底蕴的城市,地理位置与澳门十分相近。笔者 通过对圣米格尔红茶和英德红茶的品鉴,发现两者无论在茶树品种,茶叶形态和 茶汤口感色泽方面都有着非常大的相似度,从而试图探讨亚速尔茶种是否有可能 是当年从英德通过澳门引入。为此,本论文梳理总结了清朝澳门在茶叶贸易中的 地位与作用,回顾巴西种茶史和葡萄牙种茶史,探讨茶树的种类和源头,并且对 两地的红茶进行了比较。出于很多历史遗迹的毁坏和地方志资料的缺失,特别是 英德茶区与澳门贸易往来的史料和当地茶农输出及族谱家谱的无从考证,最终无 法得出亚速尔的茶种和制茶技术是否来自英德的结论。但是,笔者通过为本篇论 文所进行的文字资料收集和实地考察的过程,其本身就是一次中葡两国跨文化交 流史的回顾。本篇论文既是对自己研修中葡跨文化研究课程的小结,也为将来可 能深入探讨的领域迈出了第一步,虽然这个选择充满了未知和挑战。 关键词:红茶,茶叶种植史, 圣米格岛,澳门, 英德.
vii Índice Introdução ....................................................................................................................................... 1 Capítulo I Informação geral sobre o chá preto .......................................................................... 5 1.1. Tipo de plantas Camellia sinensis e os seus produtos ......................................................... 6 1.2. A origem do chá preto ........................................................................................................ 6 1.3. Ambiente geográfico e de cultivo......................................................................................... 9 1.3.1. Situação na ilha de São Miguel ....................................................................................... 9 1.3.2. Situação em Yingde ...................................................................................................... 12 1.4. Especificação e classificação dos produtos ....................................................................... 13 1.4.1. A norma internacional .................................................................................................. 13 1.4.2. . A norma chinesa ......................................................................................................... 16 Capítulo II O papel de Macau no comércio do chá da dinastia Qing .................................... 18 2.1. Entreposto marítimo importante ....................................................................................... 19 2.1.1. Estabelecimento e desenvolvimento do porto de Macau ................................................ 19 2.1.2. Ponto de emigração de agricultores de chá para o Brasil e Portugal .............................. 22 2.2. Tipos de chás mais exportados de Macau ......................................................................... 24 2.3. Lojas e exportadores ........................................................................................................ 27 Capítulo III História da plantação do chá nos territórios da lusofonia: da China ao Brasil ........................................................................................................................................ 29 3.1. A iniciativa da realeza portuguesa ..................................................................................... 30 3.2. A ligação da realeza portuguesa com o governo de Macau ................................................ 31 3.3. A chegada de agricultores chineses .................................................................................. 34 3.3.1. Os primeiros cultivadores chineses ............................................................................... 34 3.3.2. Mais de 300 cultivadores chineses foram para o Brasil ................................................. 36 Capítulo IV A chegada do chá à ilha de São Miguel ................................................................ 38 4.1. Jacinto Leite, o introdutor do chá ...................................................................................... 39 4.2. Os motivos da plantação do chá ....................................................................................... 39 4.3. A chegada de Lau-a-pan e Lau-a-teng ................................................................................ 42 4.4. O chá na vida socioeconómica do povo micaelense .......................................................... 45
5 1. Capítulo I 2. Informação geral sobre o chá preto
6 1.1. Tipo de plantas Camellia sinensis e os seus produtos A Camellia sinensis é uma espécie de arbusto perene ou pequena árvore da família de plantas com flores teáceas, cujas folhas e botões são usados para produzir chá. Esta planta é cultivada principalmente em climas tropicais e subtropicais, em regiões com, pelo menos, 127 cm3 de chuva por ano. As plantas do chá preferem um solo de cultivo mais rico e húmido. A partir destas condições naturais, podemos encontrá-las no nordeste da Índia e sul da China. 1 Existem muitas maneiras de classificar os chás chineses. De acordo com o método de produção e o grau de oxidação (fermentação) dos polifenóis do chá, pode ser dividido em seis categorias: chá verde (não oxidado), chá branco (levemente oxidado), chá amarelo (levemente oxidado), chá azul (chá Oolong, semi-oxidado), chá escuro (pós-fermentado), chá preto (totalmente fermentado). Na ordem acima, a aparência da folha produzida muda de verde para verde-amarelo, amarelo, castanho-azulado e preto, e, consequentemente, a infusão do chá também muda para a cor correspondente das folhas. 1.2. A origem do chá preto O chá preto, que se denomina literalmente “chá vermelho” ( 红茶, hóng chá ) na China, é uma bebida conhecida e apreciada a nível mundial. As suas folhas vêm da Camellia sinensis , um arbusto indígena da Ásia, do género camellia , procedente da família das teáceas. Os caracteres chineses usados para designar este arbusto significam expressamente “árvore do chá” ( 茶树 , chá shù). 2 O chá preto pertence a um tipo de chá completamente oxidado, refinado por uma série de processos como murchamento, rolagem, oxidação e secagem, usando as folhas jovens da planta como matéria-prima. A oxidação refere-se ao contacto e reação química de polifenóis e dos ácidos tânicos do chá com oxigénio, o que dá origem a novos ingredientes e substâncias aromáticas como os thearubigins 3 , theaflavins 4 , álcoois, aldeídos, cetonas e ésteres. Portanto, as folhas do chá preto são pretas ou amarelo-alaranjadas, cuja infusão apresenta uma tonalidade vermelho-escura com aroma agradável. Devido à menor amargura, o sabor é mais doce e suave. De acordo com registos antigos e pesquisas modernas, chineses e estrangeiros, acredita-se que o 1 https://pt.wikipedia.org/wiki/Camellia_sinensis (consultado a 5 de novembro de 2021). 2 Rogério Sousa (2018). “Chá dos Açores — Uma Chávena de Céu na Terra” . In Medium , web log post, 16 de outubro de 2018. https://medium.com/made-in-azores/chá-dos-açores-uma-chávena-de-céu-na-terra-5547244af620 (consultado a 20 de março de 2020). 3 Thearubigins é um pigmento castanho-alaranjado encontrado no chá preto, resultante do processo de fermentação. 4 Theaflavins é um pigmento dourado encontrado no chá preto, resultante do processo de fermentação.
7 chá preto nasceu entre o final da dinastia Ming ( 明 , míng, 1368-1644) e início da dinastia Qing ( 清 , qīng, 1644-1912). De acordo com o conhecimento popular, o chá preto originou-se no Passo de Tongmu ( 桐木关 , tóngmùguān), junto à montanha de Wuyi ( 武夷山 , wǔyíshān) no final da dinastia Ming. Segundo a lenda, naquele período, o exército do norte do império chegou ao Passo de Tongmu, e alguns dos soldados pernoitaram nas instalações de uma fábrica do chá, usando as folhas do chá em secagem como colchão. Quando os fabricantes voltaram, repararam que as folhas do chá verde ficaram escuras. Para não desperdiçar a colheita, os fabricantes secaram as folhas com carvão e venderam o chá a preço baixo. Nos anos seguintes, receberam encomendas deste tipo do chá “preto e fumado” e, assim, a fábrica deixou de fazer chá verde e passou a produzir o chá com oxidação provocada por secagem a carvão. Nasceu assim o chá preto, que se tornou muito apreciado pelos consumidores da Europa. Todavia, ZONG (2017) tem uma opinião diferente sobre a origem do chá preto. Ele supõe que este terá surgido na dinastia Yuan ( 元 , yuán, 1211-1279), na zona histórica e tradicional do chá, Yixing ( 宜 兴 , yí xìng), na província de Jiangsu ( 江苏 , jiāng sū) 5 . O chá de Jin Zi Mo ( 金字末 , jīnzì mò), um tipo de chá em pó, popular sobretudo junto da etnia mongol na dinastia Yuan, terá sido o precursor do chá preto. 6 “ 金字 ” (jīn zì) refere-se à sua cor dourada, significando que a infusão desse chá é vermelha-dourada. O método de coloração vermelho-tijolo fora já descrita em Coleção de Utensílios e Eventos 7 , num capítulo sobre tingimento. “…depois de tingir com chá preto, em seguida, mergulhe o tingimento com pasta de ferro para obter a cor de vermelho-tijolo” 8 Isto revela que na dinastia Yuan as pessoas já conheciam o "chá preto” e usavam esta técnica de tingimento em bebidas ou corantes. No entanto, não há registos claros dos processos de fabricação ou razões do nascimento do chá preto. Posto isto, o chá preto tem aparecido antes da dinastia Ming. Gradualmente, o chá preto popularizou-se não apenas na China, tornando-se um produto essencial na cultura ocidental do chá, espalhando-se pelo mundo. Em 1650, os Países Baixos assumiam a liderança marítima, procurando oportunidades de negócio, levando chá preto da cidade de 5 Zong, W. F. (2017), p. 212. 6 Ibidem , p. 211. 7 居家必用事类全集 (Jūjiā bì yòngshì lèi quánjí), Coleção de Utensílios e Eventos Domésticos , é um livro antigo da dinastia Yuan, contendo dez volumes com eventos domésticos e aforismos. 8 Texto original: “用红茶染,铁浆轧之” (Yòng hóngchá rǎn, tiě jiāng yà zhī). (Traduzido pela autora)
8 Wuyishan (província de Fujian, China) para a Europa. O chá preto é oxidado, o que lhe confere uma vantagem sobre o verde, em termos de transporte e conservação a longa distância. Assim, o chá preto rapidamente se tornou popular entre os comerciantes europeus, substituindo esmagadoramente o chá verde e outros tipos de chás. Em 1662, Catarina de Bragança (filha de D. João IV de Portugal) casou com D. Carlos II de Inglaterra, levando folhas de chá preto entre os bens do seu dote. Este episódio, frequentemente referido pelos portugueses, mostra que a aristocracia lusitana tinha já hábito de tomar chá, não só como um tonificante para a saúde, mas também como uma bebida social. Desta forma, a cultura do chá preto divulgou-se entre as cortes, de Portugal a Inglaterra. 9 Atualmente, o chá preto é produzido principalmente nos países asiáticos, não só na China, mas também no Sri Lanka, Índia, Indonésia, entre outros. As tabelas seguintes mostram as variedades e designações dos chás pretos mais famosos. [Tabela 1: Os chás pretos mais famosos da China] Fonte: https://zh.wikipedia.org/wiki/红茶 9 Cof. Takeshi Isobuchi (2011), The History of Black Tea . (Tradutor: Zhao Yan, 2014).
9 [Tabela 2: Chás pretos populares noutros países asiáticos] Fonte: https://zh.wikipedia.org/wiki/红茶 1.3. Ambiente geográfico e de cultivo 1.3.1. Situação na ilha de São Miguel O arquipélago dos Açores - território autónomo de Portugal, composto por nove ilhas e situado no Atlântico, entre as latitudes 37º e 40º N e as longitudes 25º e 31º W 10 - são a única região da Europa a cultivar chá em escala industrial. A ilha de São Miguel é uma zona essencial neste contexto, representando o berço do chá em Portugal, desde o século XIX, e um setor económico primordial, após o fracasso do setor da laranja. No entanto, desde meados do século XX que as fábricas de chá vinham encerrando e as plantações eram substituídas por pastos para gado bovino. As exceções são a Gorreana, que produz chá verde Hysson e chá preto (Orange Pekoe, Pekoe e Broken Leaf) desde 1883, e a Fábrica de Chá Porto Formoso, que reabriu em 1998 e produz unicamente chá preto. 11 Os Açores são a parte emersa de um conjunto de vulcões localizados na interceção da cordilheira central do oceano Atlântico, que se estende de sul para norte. São Miguel, a maior ilha do arquipélago, tem assim natureza vulcânica, sendo composta por dois núcleos montanhosos distintos, separados por 10 http://www.ivar.azores.gov.pt/geologia-acores/localizacao-geografica/Paginas/default.aspx (consultado a 5 de abril de 2020). 11 Luís Mendonça de Carvalho, “Os segredos do chá”, blog da revista Jardins https://revistajardins.pt/os-segredos-do-cha/ (consultado a 5 de abril de 2020).
10 uma plataforma central. A ilha apresenta, portanto, um revelo montanhoso, existindo também muitas fontes termais e água com elevado teor de enxofre. Tal como as outras ilhas do arquipélago, São Miguel é influenciada pelas correntes e ventos marítimos, especialmente pela corrente do Golfo que atua como regulador das ilhas, mantendo as temperaturas entre 14 e 26℃ durante todo o ano. O clima de São Miguel caracteriza-se por temperaturas amenas com fracas amplitudes térmicas anuais, elevada humidade relativa do ar e por uma pluviosidade distribuída ao longo do ano, embora com menos expressão nos meses mais secos de verão. Devido à sua localização, a ilha é atingida por muitas tempestades atlânticas. No entanto, esse fator não é prejudicial às plantações de chá. José António Pacheco sublinha que “…na época de ventos mais intensos, a planta encontra-se no seu período de dormência e, por conseguinte, sem folhas novas” . 12 A maior cidade, Ponta Delgada, tem um clima mediterrânico subtropical com temperaturas de baixas variações sazonais e diárias. O clima ideal para as plantas do chá é tropical e subtropical com alta humidade e precipitação adequada. 13 Ou seja, os Açores têm condições ideais para as plantações de chá que, eventualmente, não poderão ser encontradas noutro ponto da Europa. A condição do solo é muito importante para o desenvolvimento do chá. Na ilha de São Miguel, o solo é argiloso e rico em ferro, com pHs que oscilam entre 7 e 5 (entre neutro e ácido). O relevo da ilha fornece à cultura uma proteção fundamental que desempenha um papel no desenvolvimento da planta do chá. 14 As plantas do chá preto são criadas a partir de mudas de Camellia sinensis , variedade chinesa derivada da família das teáceas. Por causa do clima (não há estação seca, nem estação chuvosa), é raro o surgimento das pragas normais do chá. Consequentemente, não é necessário aplicar produtos químicos como adubos, pesticidas e conservantes, ou seja, o chá preto que é cultivado na ilha de São Miguel segue o modo de produção biológico. Isso é também considerado como um dos pontos atrativos do chá preto dos Açores. 15 A via seminal e a propagação vegetativa são dois métodos diferentes de obter novas plantas do chá. Dado que as sementes oriundas da China podem facilmente perder a sua capacidade de 12 Pacheco (2016), p. 29 . 13 Sousa, L. M. D. F. (2012), p. 24. 14 Oliveira, C. (2012). Plantação de Chá Gorreana. Entrevista Online da Associação dos Jovens Agricultores Micaelense. http://ajamcja.com/wpcontent/uploads/2012/02/entrevista2.pdf (consultado a 10 de abril de 2020). 15 Introdução do chá nos Açores. www.gorreana.net (consultado a 10 de abril de 2020).
11 germinação, 16 a propagação vegetativa é o método mais comum, usado na maioria dos chazeiros no mundo, já que conserva as características da planta materna. O processo pressupõe colocar estacas colhidas dos brotos em viveiro, onde permanecem em ambiente húmido e arejado. Nota-se que, independentemente do método utilizado para a propagação, as mudas são retiradas do viveiro dois anos depois, sendo transplantadas para o local onde eventualmente crescerão. 17 O Inverno é um período apropriado para cultivar o chá, pois naquele período a planta está em repouso vegetativo e o solo apresenta altos valores de humidade. Como o chá é uma planta muito estável, a preparação do terreno deve ser feita bem antes de levar as mudas até ao local de plantação final. Inicia-se uma lavoura profunda e cruzada, para deixar o solo bem misturado, o que estimula o desenvolvimento das raízes. Sobre o compasso de plantação José António Pacheco salienta que: “O compasso de plantação 150 x 60 cm, ou seja, 150 cm de distância entre linhas de plantas e 60 cm entre plantas, dentro da mesma linha, permite uma condução da cultura em forma de sebe, o que facilita a poda e a colheita mecânica. A densidade de plantação resultante, ou seja, o número de plantas por hectare é de 10890, o que se enquadra dentro dos valores recomendados pelas estações experimentais do chá.” 18 O objetivo da poda, realizada três vezes entre fevereiro e março, é sobretudo manter a altura da planta entre os 0,9 e 1,5 metros. Isto não só estimula a rebentação dos gomos, como também facilita a colheita. As plantas do chá crescem até aos seus quartos ou quintos anos antes das primeiras folhas poderem ser colhidas. Se as plantas forem cuidadosamente aparadas, podem durar até setenta anos. 19 No passado, a colheita era feita manualmente pelas mulheres e raparigas, mas agora é feita pelos homens, utilizando pequenas máquinas. “Colhe-se o Pekoe terminal e três folhas, não se utilizando a terceira folha na preparação do chá.” 20 A primavera (abril a junho) é a melhor estação para colher as folhas, altura em que produção gera uma grande quantidade. Após a recolha das folhas frescas, seguese o murchamento, processo que retira alguma humidade das folhas para serem enroladas sem se partirem. Esta operação deve ser executada num ambiente ventilado com pouca luz. O grau do murchamento avalia-se de acordo com o peso de 100 folhas. 16 Pacheco, J. A. (2016), p. 30. 17 Idem, ibidem . 18 Pacheco, J. A. (2016), pp. 30-31. 19 Sousa, L. M. D. F. (2012), p. 24. 20 Chá dos Açores-Produtos Tradicionais Portugueses. https://tradicional.dgadr.gov.pt/pt/cat/outros-produtos-vegetais/292-cha (consultado a 13 de abril de 2020).
12 1.3.2. Situação em Yingde A cidade de Yingde está localizada no noroeste da província de Guangdong, no meio do curso do rio Norte, na extremidade sul da cordilheira de Wuling ( 五岭 , wǔ lǐng) e na cordilheira de Nanling ( 南 岭 , nán lǐng), onde é apropriado cultivar chá. O relevo de Yingde é mais alto a Norte e mais baixo a Sul, apresentando um clima de monção subtropical, quente e chuvoso, sem frio intenso ou calor extremo. A temperatura média anual é de 20,7℃. O mês mais quente é julho com uma temperatura média de 28,8℃; o mês mais frio é janeiro com uma temperatura média de 10,7℃. A pluviosidade média anual é de 162 dias com 1876,8 mm. A humidade relativa média é de 79% e o período anual livre de geada é de 316,7 dias. As condições do solo são superiores. As encostas e os terraços são compostos por solos férteis, vermelhos e amarelos. A quantidade de matéria orgânica e de nitrogénio do solo está acima da média, apresentando maioritariamente um pH ácido - entre 4 e 5,5 - extremamente adequado para o crescimento de chazeiros. A área adequada para o cultivo de chá ultrapassa os 200.000 mu ( 亩 , mǔ). 21 A melhor época para plantar as mudas do chá é de novembro a março do ano seguinte, sendo habitual fazê-lo em fila única ou fila dupla. Numa plantação em fila única, um hectare contém 10 mil a 15 mil mudas; na plantação em fila dupla, um hectare contém 30 mil a 45 mil mudas. É indispensável prestar atenção ao sombreamento, para melhorar o ambiente ecológico dos jardins de chá, sendo a Acacia confusa 22 considerada uma árvore de sombra excelente. Habitualmente, é necessário remover a cobertura superficial do solo no inverno, removendo as ervas daninhas: 10 a 15 cm é um rebaixamento superficial, 20 a 25cm é profundo. Os chás jovens podem ser fertilizados pela primeira vez um mês após a planta, sendo possível fertilizar 5 a 6 vezes por ano. Aos chás cujas colheitas estão a entrar em operação, aplica-se adubos orgânicos no outono e inverno, em valas com uma profundidade de 40 a 50 cm. Neste caso, fertilizase 4 a 5 vezes por ano, antes da rebentação em cada estação. Em Yingde utilizam-se métodos de poda adequados aos chazeiros, de acordo com os seus 21 Mu (亩, mǔ) é uma medida de superfície, frequentemente usada no sul da Ásia. 1 mu equivale a cerca de 666.7 m2. 22 A Acacia confusa cresce em regiões tropicais e subtropicais, sendo adequada a sua utilização como árvore de sombra por ser extremamente resistente à seca e não exigir elevadas condições do solo.
13 princípios botânicos e idade. Aos mais jovens cortam-se os brotos terminais para manter a sua forma completa e inibir o crescimento apical. Aos mais maduros geralmente corta-se 3 a 5 cm de camada de folhas verdes e ramos irregulares acima da copa, ou 8 a 12 cm dos ramos mais fracos. Os mais velhos, sem capacidade de germinação, são podados até 1/3 ou metade da altura original dos chazeiros, dependendo do grau de envelhecimento. No entanto, se nenhum dos métodos anteriores ou mesmo o aumento da quantidade de fertilizantes puder restabelecer o potencial dos chazeiros velhos, deve cortar-se a copa inteira da raiz (menos de 5 cm do solo), permitindo que os gomos brotem para formar uma copa nova. 1.4. Especificação e classificação dos produtos 1.4.1. A norma internacional O chá preto de folhas inteiras Para classificar o chá preto, temos de começar pelas qualidades mais básicas, nomeadamente Pekoe (P.), Orange Pekoe (O.P.) e Flowery Orange Pekoe (F.O.P.), classificação que é determinada no momento da colheita. 23 Pekoe (P.), “pek-hô” em Hokkien 24 e 白毫 (bái háo) em chinês, referia-se inicialmente ao broto. Quando o primeiro chá preto foi trazido para a Europa pelos holandeses da província de Fujian em 1605, “pek-hô” tornou-se a palavra holandesa para Pekoe. Depois, quando os britânicos começaram a comercializar o chá, usaram a palavra Pekoe para se referirem a este chá, o que acontece até hoje na língua inglesa. No entanto, com o desenvolvimento do sistema de classificação do chá preto, Pekoe perdeu o seu significado original, referindo-se agora à segunda folha a partir do botão, normalmente mais curta. Orange Pekoe (O.P) refere-se à primeira folha a partir do botão. O seu nome é enganador pois, na verdade, este tipo de chá não é alaranjado nem tem aroma de laranja, remetendo para o nome de uma família da nobreza holandesa a “Casa de Orange-Nassau”. Quando foi introduzido na Europa, o chá era uma bebida para ricos, apenas acessível à aristocracia. Por conseguinte, a Companhia Holandesa 23 Apresentação da classificação do chá preto. https://shop.teascovery.com/Article/Detail/15635 (consultado a 1 de maio de 2020). 24 Hokkien é um grupo de dialetos chineses mutuamente inteligíveis, falados em todo o sudeste asiático e por grande parte da diáspora chinesa, que teve origem no sul da província de Fujian.
14 das Índias Orientais adicionou “orange” à palavra Pekoe, estratagema que visou, por um lado, acentuar a alta qualidade e elegância do chá e, por outro lado, associá-lo a um comportamento característico da aristocracia. Flowery Orange Pekoe (F.O.P) diz respeito ao botão terminal, referindo-se ao chá que é apanhado dum gomo com duas folhas. A terceira e quarta folha da planta são chamadas Pekoe Souchong e Souchong, respetivamente. Nem todas as regiões de produção do chá colhem estas folhas: a grande maioria dos Peoke Souchong (P.S.) e Souchong (S.) são colhidos por máquina. 25 As classificações anteriormente mencionadas são as básicas, seguindo-se, uma classificação em função das condições de colheita da F.O.P.. Quanto maior for a classificação, maior será a integridade da forma do chá e maior será o teor dos botões. • Golden Flowery Orange Pekoe (G.F.O.P) refere-se ao ponto dourado no fim dos botões. Esta classificação do chá resulta da utilização de mais botões tenros. • Tippy Golden Flowery Orange Pekoe (T.G.F.O.P) também tem botões dourados como o anterior, mas em quantidade e qualidade superiores. • Finest Tippy Golden Flowery Orange Pekoe (F.T.G.F.O.P) com um teor de brotos superior a 25% e alta qualidade. • Special Finest Tippy Golden Flowery Orange Pekoe (S.F.T.G.F.O.P) é a classificação mais alta do chá preto, que pressupõe uma exigência muito elevada de qualidade, igualmente reveladora da sua raridade. A produção de chá preto em Darjeeling não é tão grande como em outras partes da Índia, mas ainda é produzida em grandes quantidades, de modo que o processo de produção depende, em parte, de máquinas. Não obstante, existem alguns chás muito ricos que são feitos à mão, e alguns comerciantes marcam “hand roled” (enrolados à mão) no rótulo para enfatizar a sua raridade - esses chás são geralmente classificados acima do F.T.G.F.O.P. 26 25 Classificação do chá preto. http://cuppa.com.tw/tea_classification.html (consultado a 1 de maio de 2020). 26 Apresentação da classificação do chá preto. https://shop.teascovery.com/Article/Detail/15635 (consultado a 1 de maio de 2020).
21 país prprio.” 40 Em 1685, no 24º ano do reinado de Kangxi ( 康熙 , kāng xī) 41 , o governo Qing estabeleceu a Administração de Vigilância Aduaneira 42 em Macau, passando Macau a ser uma das quatro alfândegas da China. 43 Em 1757, o governo Qing estipulou expressamente que todos os navios mercantes estrangeiros que chegassem a Cantão deviam passar pela alfândega de Macau. Os produtos exportados por Macau eram provenientes de Cantão, e os produtos estrangeiros importados eram dali enviados para Cantão e distribuídos por todo o país, ou seja, Macau era o porto principal da região. Portugal já tinha construído um vasto império marítimo, que abrangia os oceanos Atlântico, Índico e Pacífico, pelo que o porto de Macau se tornou o centro da rede comercial no Oceano Pacífico, a partir do qual foram estabelecidas três importantes rotas internacionais: a rota Cantão-Macau-GoaLisboa; a rota Cantão-Macau-Nagasaki e a rota Cantão-Macau-Manila-América Latina. De acordo com registos históricos, Macau progrediu de um pequeno cais de pesca em apenas algumas décadas, após a abertura do porto em 1553, tornando-se uma cidade próspera, comercial e residencial. Nessa altura, havia navios que chegavam a Shantou ( 汕头 , shàn tóu), Xiamen ( 厦门 , xià mén) e Ningbo ( 宁波 , níng bō), navegando de Macau para nordeste. A oeste, foi possível chegar a Goa (Índia), sede do império colonial português na Ásia, e circum-navegar o Índico até à Europa através do Cabo da Boa Esperança; a sul, foi possível chegar aos países do Sul. 44 O desenvolvimento e êxito estrondoso do porto de Macau mereceu rasgados elogios nos registos históricos. Em Poem de Macau de Qu Dajun ( 屈大均 , qū dàjūn), lê-se: “Entre muitos portos na província de Guangdong, o porto de Macau é grandiosíssimo.” 45 Já o Esboço de Macau, escrito por dois oficiais da Defesa Costeira de Macau na dinastia Qing, enfatizou que: “ligando Macau à China interior há apenas um terreno que pode servir para o 40 História dos Ming. 41 Kangxi ( 康熙, Kāngxī ) (1662-1722) foi a 3ª era do imperador da dinastia Qing. 42 Em chinês, 关部行台, (guān bù xíng tái). 43 Wang, J. R. & Guo, D.Y. (2007), p . 578 . 44 Zhou, S.X. (1999), p . 3. 45 Poem de Macau 澳门诗 ( Àomén shī ) foi escrito por Qu Dajun em 1689. O poema apontou a ambição dos colonos ocidentais em relação à China e também destacou a grandeza do porto de Macau. “广东诸舶口, 最是澳门雄” ( Guǎngdōng zhū bó kǒu, zuì shì àomén xióng ) . (Traduzido pela autora)
22 transporte de alimentos. Por baixo de Macau é o mar. Assim, partindo da China interior é fácil chegar a Macau de barco pelo Mar Interior.” 46 Devido ao encerramento das fronteiras da China ao exterior durante as dinastias Ming e Qing, outros portos estavam fechados, e as pessoas do Leste e do Oeste tinham de passar ou permanecer em Macau se quisessem ir para a China. Sendo o maior porto de Guangdong, Macau transformou-se naturalmente num centro de navegação que ligava a Ásia, a Europa e os Estados Unidos, tornando-se um importante porto para o comércio externo e a navegação internacional. 2.1.2. Ponto de emigração de agricultores de chá para o Brasil e Portugal Como oportunamente mencionado, as vantagens geográficas únicas de Macau, o facto de os portugueses estabelecerem o seu próprio império marítimo e criarem algumas rotas marítimas dali para diversos destinos, catapultou o porto de Macau para uma posição especial no transporte marítimo e no comércio internacional. De acordo com fontes históricas e documentais, agricultores chineses embarcaram de Macau para o Brasil e Portugal com o objetivo de levarem conhecimento sobre o chá. O primeiro grupo (três pessoas) chegou ao Rio de Janeiro em junho de 1809, como registado em História da Imigração Chinesa no Brasil no Século 19 47 . Segundo o livro, os agricultores partiram de Macau a 18 de março de 1809, na fragata Ulisses , que participou na derrota do pirata Cheung Po Tsai 48 levado ao Brasil para cumprimentar o Príncipe Regente. 49 Este navio assumiu várias missões de transporte dos agricultores chineses do chá para o Brasil. Em 1813 e 1815, por exemplo, os agricultores foram enviados para o Brasil, juntamente com sementes e mudas valiosas, e não só isso, seguiram também 10 carpinteiros para trabalharem nos estaleiros do Rio de Janeiro. Além da fragata Ulisses , a nau D. Maria I , o navio Nossa Senhora da Luz e o navio Luconia também estiveram envolvidos na missão de transporte dos agricultores. 46 Breve Monografia de Macau 澳门记略 ( àomén jì lüè ) foi escrita por dois oficiais de Defesa Costeira de Macau da dinastia Qing, Yin Guangren e Zhang Rulin. Essa foi primeira obra da história da China a apresentar Macau sistematicamente do ponto de vista de político. Texto original: “澳惟一茎系于陆。 馈粮食,馀尽海也。以故内洋舟达澳尤便捷…” (Ào wéiyī jīng xì yú lù. Kuì liángshí, yú jǐn hǎi yě. Yǐ gù nèi yáng zhōu dá ào yóu biànjié). (Traduzido pela autora) 47 Chen, T.R. & Liu, Z.Q. (2017) , 19 世纪中国人移民巴西史 (19 Shìjì zhōngguó rén yímín bāxī shǐ). 48 Cheung Po Tsai foi um pirata chinês famoso, da província de Guangdong, que atuou junto do delta do Rio das Pérolas entre 1800 e 1810. Na batalha da Boca do Tigre (janeiro de 1810) foi derrotado por forças macaenses e pelos navios portugueses. 49 Informação sobre a fragata Ulisses . Fonte: https://arquivohistorico.marinha.pt/details?id=8502 (consultado a 23 de julho de 2020) .
23 [Imagem 3: Sementes de Camellia sinensis] Normalmente, o Ouvidor-Geral de Macau, Miguel de Arriaga Brum da Silveira, apresentava antecipadamente a missão ao conde das Galveias, João de Almeida Melo e Castro. Esta foi uma das provas mais fortes de que Macau era um ponto da embarcação. No total, entre 1809 e 1815, Macau enviou mais de 300 trabalhadores chineses para o Brasil. 50 Mais tarde, tentou-se produzir chá na ilha de São Miguel, para ultrapassar a crise económica provocada pela doença das laranjeiras, sendo a ilha um exportador importante de laranja nessa altura. Com a intenção de aumentar a produção do chá e os benefícios daí advindos, foram convidados dois especialistas chineses que conheciam a cultura e preparação do chá no século XIX. Em 1878, o mestre cultivador e o seu ajudante/intérprete vieram a Portugal, a convite da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, transportando vários utensílios e instrumentos relacionados com o chá. 51 Eles partiram de Macau para a Europa no navio África , chegando depois à ilha de São Miguel no vapor Luso . 52 Dois dias após a chegada, o jornal O Açoriano Oriental publicou uma reportagem sobre o assunto: “ Já estão entre nós os Chinos que vêm para a preparação do chá. Chegaram no navio Luso e desembarcaram à europeia, trazendo os seus carrapichos envoltos na cabeça. (…) O mentor dos Chinos também nos afirma que suas mercês envergam domingo 50 Chen, T.R. & Liu, Z.Q. (2017), p . 49. 51 Moura, M. F. D. O. (2019), p . 285. 52 Silva, R. M. E. D. (2014), p . 41.
24 próximo as suas farpelas e dão a sua passeata pela cidade. ” 53 Do acima exposto, podemos confirmar que o porto de Macau não só contribuiu para o comércio mundial do chá, mas também para a exportação da cultura chinesa do chá e das técnicas de seu cultivo. 2.2. Tipos de chás mais exportados de Macau Após as dinastias Ming e Qing, a procura do chá pelos europeus aumentou. Zhao Yi apontou em Crónicas Yan Pu 54 : “Desde a dinastia Ming, instalaram-se postos administrativos de comércio e transporte do chá. O Oceano Atlântico fica a 160 mil quilómetros da China. Quando chegam os navios comerciais estrangeiros, o chá é a mercadoria mais procurada. Os mercantes compram muitos chás e regressam com a carga cheia. O consumo do chá chegou até aos países ocidentais.” 55 Naquela época, registou-se um boom na produção e processamento de chá em várias áreas da China; muitos comerciantes compravam pessoalmente os chás nas plantações continentais. No início do século XIX, os chás exportados de Macau foram os seguintes: 武夷 (Bohea) , 屯绿 (Twankay) , 松 萝 (Singlo) , 小种 (Souchong) , 珠茶 (Gunpowder) , 工夫 (Congou) e 熙春 (Hyson). 56 O chá Bohea produzido em Wuyishan entrou o mercado europeu muito cedo, transportado pelos holandeses para a Batávia (hoje Jacarta) em 1607. Seguidamente, os ingleses foram a Xiamen para comprar Bohea. A pouco e pouco, este tornou-se uma bebida habitual no dia-a-dia de alguns europeus e, na ausência de outro tipo de chá no mercado londrino, os europeus passaram a chamar o Bohea de 53 Moura, M. F. D. O. (2019), p . 293. 54 Zhao, Y. (dinastia Qing) 檐曝杂记 ( Yán pù zájì ) é uma coleção de escritos diversos sobre a vida do escritor, relatando a sua experiência na cidade de Pequim, Cantão, Guizhou, Yunnan e outros lugares, envolvendo regimes e institutos, eventos militares do governo, segredos palacianos, o intercâmbio entre chineses e estrangeiros, os exames imperiais, costumes populares, poesia e pintura, bem como comentários de leitura e outros aspetos. 55 Versão original em chinês: “ 自前明设茶马御史,大西洋距中国十万里,其番船来,所需中国物亦惟茶是急,满船载归,则其用且极 西海以外 .” ( Zìqián míng shè chá mǎ yù shǐ, dàxīyáng jù zhōngguó shí wàn lǐ, qí fān chuán lái, suǒ xū zhōngguó wù yì wéi chá shì jí, mǎn chuán zài guī, zé qí yòng qiě jí xīhǎi yǐwài ). (Traduzido pela autora) 56 Wang, J. R. & Guo, D. Y. (2007), p . 579.
25 "chá chinês". 57 Destaque-se, contudo, que alguns nomes que aparecem em registos históricos, descrevem chás muito diferentes dos atuais. Às vezes, o mesmo nome de chá tem significados diferentes de acordo com os tempos. De facto, o Bohea refere-se ao chá preto “Lapsang Souchong”, mas, nos séculos XVII e XVIII, significava também o chá Oolong de Bohea. 58 O chá a que os europeus chamam Twankay é um chá verde tradicional da China, conhecido como “ouro verde”. Principalmente processado em Tunxi ( 屯溪 , tún xī), na região montanhosa do sul da província de Anhui ( 安徽 , ān huī), é ainda chamado de “Verde de Tun” ( 屯绿 , tún lǜ ) em chinês. De acordo com Resumo do Chá no Sul de Anhu 59 , o Twankay começou a ser exportado para a Europa e os Estados Unidos através de Macau desde o período do Reino Celestial de Taiping (1851-1864). Desde então, este chá verde vem emergindo no mercado internacional. Em 1896, 22º ano de imperador Guangxu ( 光绪 , Guāngxù) 60 , havia 139 fabricantes do chá “Cha Hao” ( 茶号 , chá hào) 61 em Tunxi, alguns produziam e vendiam chás classificados como "tributos especiais" para exportação que se tornaram famosos. Criado durante o período de Longqing ( 隆庆 , Lóngqìng), o chá Singlo, também intitulado pelos ocidentais após ser vendido na Europa, recebeu o nome da montanha de Songluo ( 松萝 ,sōng luó), no condado de Xiuning ( 休宁 , xiū níng), província de Anhui 62 . De acordo com Nota de Chá ( 茶录 , chá lù), de Feng Shike ( 冯时可 , féng shí kě), o método de fazer Singlo foi inventado na dinastia Ming por um monge chamado Dafang ( 大方 , dà fāng). Singlo é um chá verde cujas folhas são secadas a altas temperaturas para inibir a fermentação, mantendo-o verde. Como este método funcionava melhor do que as folhas feitas ao vapor, estendeu-se rapidamente a Anhui, Jiangxi, Fujian, Hubei e outros locais. Sucessivamente a área de plantação e produção de Singlo expandiu-se, até se tornar um chá de 57 Fonte: https://books.google.pt/books?id=XuQ5DwAAQBAJ&pg=PT208&lpg=PT208&dq=%E6%AD%A6%E5%A4%B7%E8%8C%B6+%E8%8D%B7%E5%85%B0&source= bl&ots=Moj_BAS_lo&sig=ACfU3U3IKDRoe2bue5kfaWlYqoL20b2yAQ&hl=zh-CN&sa=X&ved=2ahUKEwjLmqiGKfqAhWl6uAKHXclBcoQ6AEwAHoECAkQAQ#v=onepage&q=%E6%AD%A6%E5%A4%B7%E8%8C%B6%20%E8%8D%B7%E5%85%B0&f=false (consultado a 29 de junho de 2020) . 58 Zou, X. Q. (2007), p . 47. 59 皖南茶叶概述, (wǎnnán cháyè gàishù), Oficina de Tunxi da China Tea Company (1950). 60 Gungxu ( 光绪, Guāngxù ) (1875-1908) foi a 11ª era da dinastia Qing. 61 “Cha hao” ( 茶号, chá hào ) é o nome dado às fábricas ou oficinas de processamento de chá. Depois da aquisição e refinamento dos chás, estes eram transportados para os portos e vendidos para o estrangeiro. A maioria dos fundadores eram proprietários de terras, capitalistas ou nobres com ligação às regiões das plantações ou centros de distribuição de chá. 62 Longqing ( 隆庆, Lóngqìng ) (1567-1572) foi a 12ª era da dinastia Ming.
26 exportação popular, que mais tarde se evoluiu para o “Chá Mee” ( 眉茶 , méi chá) 63 . Souchong é um tipo de chá preto produzido inicialmente em Wuyishan, província de Fujian. Em particular, o Lapsang Souchong ( 立山小种 , lìshān xiǎo zhǒng) proveniente do Passo de Tongmu (a área da produção original) regista uma qualidade excelente. Em 1610, os holandeses levaram-no como uma curiosidade para a Europa e, embora não fosse popular no início, passou a ser apreciado pelos nobres e comerciantes. Segundo Zou Xingqiu, durante o século XVII, embora o impacto económico da produção e comércio deste chá fosse limitado, o Lapsang Souchong foi o primeiro chá chinês a chegar ao mercado mundial. 64 Gunpowder é um chá verde, enrolado, de aparência redonda e firme, cor verde e corpo pesado. Assemelha-se a uma pérola verde-escura, tendo por isso o nome “Chá Pérola” ( 珠茶 , zhū chá) na sua terra de origem. O condado de Pingshui ( 平水 , píng shuǐ) localizado na cidade de Shaoxing ( 绍兴 , shàoxīng), província de Zhejiang ( 浙江 , zhèjiāng), é uma área ideal para a plantação de Gunpowder. Aliás, Pingshui é um condado no sudeste de Shaoxing, famoso por constituir um centro de distribuição comercial de chá durante um longo período na história. No início do século XVIII, o "Chá Gongxi" ( 贡 熙茶 , gòng xī chá), aclamado como a "pérola verde" pelos europeus, era realmente Gunpowder. Segundo relatos, o meio século entre 1843 e 1894 foi o período áureo do Gunpowder nos países ocidentais, com exportações de até 200.000 dan ( 担 , dān) 65 . Naquela época, o preço do chá Gunpowder no mercado de Londres ficava atrás apenas do Bohea. Congou, em chinês “ 工夫茶 ” (gōng fū chá), goza da reputação de “chá preto de suprema qualidade” da montanha Wuyi, em termos de rebentos mais pequenos, sendo a apanha dos mesmos mais demorada e o seu processamento mais sofisticado. O nome chinês do chá Hyson é “熙春” (xī chūn), também chamado de “贡熙” (gòng xī). Como mencionado acima, não só é um tipo de Twankey, mas também o antecessor do Gunpower. O seu nome teve origem numa expressão poética da China antiga para referir o ciclo das quatro estações, 63 Em chinês, “眉茶 ” ( méi chá ). É nomeado pela sua forma parecida a uma sobrancelha fina e delicada. 64 Zou, X.Q. (2007), p . 46. 65 Dan, ( 担, dān ) é uma medida de peso usada na China antiga. 1 dan equivale a 50 quilos.
27 salientando a beleza da primavera recém-chegada, representada pela verdura das folhas novas de chá. As áreas de plantação do Hyson concentram-se principalmente nas províncias de Anhui e de Jiangxi ( 江西 , jiāngxī). Após uma cuidadosa melhoria e revolução do “Cha Hao” em Huizhou ( 徽州 , huīzhōu) 66 , o chá Hyson tornou-se particularmente popular no mercado externo ao longo da dinastia Qing, especialmente na Rússia. Com a sua embalagem requintada e qualidade excelente, o seu volume de exportações atingiu 10 mil toneladas anuais, em meados do século XIX. 67 2.3. Lojas e exportadores Com o privilégio de pertencer à zona de Lingnan (Guangdong e Fujian) de produção de chá e gozar do estatuto de um porto com menos restrições da política imperiais, Macau prosperou no comércio de chá durante a dinastia Qing. Graças a Jeffrey Archer e à sua obra Encountering Macau: A Portuguese City-state On The Periphery Of China, 1557-1999 , temos acesso a algumas informações sobre as fábricas de chá em Macau. Na década de 1880, existiriam ali cerca de 15 fábricas de processamento de chá proveniente da China continental, destinado ao consumo europeu. Em média, cada fábrica possuía cerca de 600 funcionários, a grande maioria do sexo feminino, para além de 300 Culi 68 quem encarregavam as de tarefas posteriores como o fabrico de caixas de chá e outras indústrias. 69 O chá processado em Macau era normalmente para exportação. No início da dinastia Qing, Portugal desenvolveu vigorosamente o comércio de chá a partir de Macau. Entre 1690 e 1719, Macau enviou anualmente 500 a 600 dan 70 de chá para a Batávia, rota comercial que era controlada pelos navios mercantes portugueses e chineses. 71 Mais tarde, a Ingraterra era o maior exportador do chá de Macau: “ É contudo certo que a maior parte vai para Inglaterra e é de Inglaterra que o mercado português se abastece, consumindo por mão estrangeira produto saído da sua própria colónia. ” 72 Sobretudo após 1870, os ingleses passaram a ser o fornecedor de chá de Portugal, 73 já que o consumo nacional não era elevado e, portanto, não justificaria a exportação direta, apesar de Macau ser 66 Huizhou ( 徽州, huīzhōu ) é uma região administrativa na China antiga, que corresponde agora à cidade de Huangshan ( 黄山, huángshān ), na província de Anhui. 67 Fonte: https://www.puercn.com/z/1948814/ (consultado a 26 de outubro de 2021) 68 Culi era a designação dada a carregadores e trabalhadores pouco qualificados da Índia, China e outros países asiáticos. 69 Fonte: https://book.douban.com/reading/10584604/ (consultado a 29 de julho de 2020) . 70 De 25 mil a 30 mil quilos. 71 Liu, X., et al. (2010). Analysis on the decline of Macau's tea trade in Qing dynasty , p . 74. 72 Moura, M. F. D. O. (2019), p . 76. 73 Idem, p. 75.
28 considerada uma colónia portuguesa desde 1557. 74 De um modo geral, as lojas sedeadas nas cidades costeiras faziam também a transformação, para fornecer produtos finais para exportação. 75 Antes da Guerra do Ópio, a China era o único país que podia fornecer chá por grosso ao mundo. Os comerciantes e trabalhadores envolvidos na exportação do chá em Cantão mudaram-se para Macau, não só levando as fontes das mercadorias e clientes, mas criando também fábricas de processamento que eram maiores e mais avançadas do que as de Cantão. Em 1877 existiam duas grandes lojas de chá de Cantão estabelecidas em Macau. 76 Obviamente, a relação estreita entre os comerciantes de Macau e de Cantão foi uma das razões pela qual a exportação de chá se desenvolveu tanto em Macau. Sem embargo, a cena florescente não durou muito tempo. A partir de meados do século XIX, britânicos e holandeses desencadearam um boom nas suas colónias do sul da Ásia com a abertura de novas plantações de chá. Em resultado disso, o monopólio da China chegou ao fim, seguindo-se um declínio forte nas exportações do chá. No 13º ano de Guangxu (1887), a recessão no comércio do chá de Macau levou ao encerramento das lojas de chá e à miséria dos comerciantes que insistiram no setor. 77 A propósito, o chá comercializado pelas lojas de Macau vindo da China continental nessa altura era sobretudo chá preto, com uma pequena quantidade de chá verde também. Estes chás chegavam a Macau torrados e não torrados. O segundo tipo seria torrado em Macau e depois processado e embalado como produto final, para ser transportado para o exterior. Uma vez que a grande parte do chá enviado para Macau não era torrado, deteriorando a sua qualidade sob más condições de transporte: o chá ficava com um sabor desagradável, o que também afetou a exportação. 78 74 Idem, p. 76. 75 Fonte: http://economy.guoxue.com/?p=7216 (consultado a 31 de julho de 2020). 76 Zhang, X.H. (2015) . 77 Liu, X., Feng, W., Jiang, A., Fang, W., Zhu, Z., & Li, X. (2010), p . 75. 78 Idem, p . 76.
29 5. Capítulo III 6. História da plantação do chá nos territórios da lusofonia: da China ao Brasil
30 3.1. A iniciativa da realeza portuguesa Estima-se que, há cerca de 60 mil anos, vivia no Brasil um grupo de índios americanos que foram os primeiros humanos a aparecer neste território. Quando foi descoberto pelos europeus em 1500, havia aproximadamente 2 milhões de residentes na costa leste da América do Sul. 79 Existem relatos históricos divergentes sobre o primeiro europeu a chegar ao Brasil. Alguns consideram que foi o navegador português Duarte Pacheco Pereira, outros apontam o explorador espanhol Vicente Yáñez Pinzón. No entanto, segundo o Tratado de Tordesilhas, a frota portuguesa chegou a Porto Seguro, na Bahia, sob o comando de Pedro Álvares Cabral a 22 de abril de 1500. Assim, o território brasileiro foi reivindicado por Portugal. 80 No final do século XVIII ocorreu a Revolução Francesa e estabeleceu-se o Primeiro Império Francês em 1804, liderado por Napoleão. Seguiu-se a Guerra Peninsular em 1808, com o território português a sofrer várias vagas de invasões francesas e o exército português a ser necessário para manter a estabilidade nas colónias e escoltar os navios mercantes. À exceção da Grã-Bretanha e da Rússia, todos os países da Europa se tornaram territórios ou vassalos franceses. Por isso, D. João VI (futuro D. João VI) e a rainha Maria I levaram a família real e a corte para a colónia ultramarina do Brasil, mudando a capital de Lisboa para o Rio de Janeiro. Para além de não querer ser subjugada ou feita prisioneira, a Casa de Bragança não tinha força militar suficiente para lutar contra os franceses. Para resolver as dificuldades financeiras do Brasil, desenvolver a agricultura e o comércio locais, D. João VI apostou no cultivo de chá, especiarias, café e outras culturas, sendo o chá a sua primeira escolha por causa da sua preferência pessoal pela bebida. Naquela época, nenhum país cultivava chá além da China e do Japão. No Ocidente, o chá era considerado "exótico" pela aristocracia e monopolizado pelos comerciantes britânicos. No início do século XIX, D. João VI comprava chá no valor de cerca de um milhão de libras anuais ao império britânico, uma despesa de luxo exorbitante. A família real atravessava um período apertado, o tesouro nacional estava vazio, incapaz de suportar essa enorme despesa em moeda estrangeira. Sem escolha, o rei era forçado a negociar as pedras preciosas do Brasil para pagar o chá. No entanto, os comerciantes britânicos eram extremamente traiçoeiros, baixavam o preço das joias tanto quanto possível, ao mesmo tempo que elevavam o preço 79 A Pré-História do Brasil registrada , disponível em http://web.archive.org/web/20110519222451/http://www.sic.inep.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=161&Itemid=83&lang=br (consultado a 4 de novembro de 2020) . 80 Os 500 Anos da Brasil https://cic.unb.br/~weigang/br-ch/BRAZIL/500anos/ (consultado a 4 de novembro de 2020) .
37 incluindo Leong-A-Ut, transportavam mudas de chá e bules para o Brasil, viagem que demorava entre 90 e 120 dias. Chegados ao Brasil, o grupo, num total de cerca de 45 pessoas, devia ser encaminhado para a fazenda de Santa Cruz, mas acabaria por trabalhar no Jardim Botânico até 9 de janeiro de 1815. 104 A 10 de setembro de 1814, Liang Chou, Ming Huang, Chian Chou e Tsai Huang chegaram ao Rio de Janeiro, estado a sul da Bahia, permanecendo na casa de António de Araújo e Azevedo, conde da Barca. Eles eram instruídos, provavelmente técnicos contratados para orientarem o cultivo de chá no Brasil. O líder da equipa era de Nanjing, na província de Jiangsu. 105 Entre 1808 e 1818, o comerciante britânico Jonh Luccock visitou o Brasil, publicando posteriormente o livro Notes on Rio De Janeiro, and the Southern Parts of Brazil. Na obra, descreve a visita às plantações de chá do Jardim Botânico e a conversa com os cultivadores chineses, da região de Cantão, especialmente o seu líder. 106 Além dos cantoneses, no início do século XIX, havia também um grupo dos emigrantes da província de Hubei no Rio de Janeiro, chegados via Macau, que viviam e trabalhavam no estrangeiro por causa da pobreza provocada por uma série de catástrofes naturais. Alguns cultivavam chá, via Macau, enquanto outros eram levados para a construção dos caminhos-de-ferro. 107 O Jardim Botânico do Rio de Janeiro continuou a cultivar chá até 1890, em 1909 ainda se podia encontrar dois chineses na gestão e manutenção das árvores do chá. A Fazenda de Santa Cruz e as plantações de Salvador terminaram o cultivo do chá em 1854 e 1830, respetivamente em consequência da mobilidade dos cultivadores e do clima. 104 Idem, pp. 62-63. 105 Fonte: http://huaren.haiwainet.cn/BIG5/n/2013/1127/c232657-19972290-2.html . 106 Chen, T. R. & Liu, Z.Q. (2017), p . 67. 107 Fonte: http://haiwai.people.com.cn/n/2012/0420/c232658-16962704.html (consultado a 1 de março, 2021) .
38 7. Capítulo IV 8. A chegada do chá à ilha de São Miguel
39 4.1. Jacinto Leite, o introdutor do chá Alguns estudos defendem que as plantas de chá já existiam na ilha Terceira antes de 1801, e o Capitão Geral dos Açores D. Antão de Almada escrevera ao rei contando-lhe sobre a sua existência 108 , o que leva a acreditar que foi Portugal a introduzir, oficialmente, o chá na Europa, e o primeiro país a cultivar e tentar fabricar chá. 109 Alguns sustentam que a planta do chá Camellia sinensis veio do Oriente no século XIX, por volta de 1820, pela mão de Jacinto Leite Pacheco. Nascido na ilha de São Miguel, este açoriano trabalhava no Brasil como comandante na Guarda Real de D. João VI. Talvez por esta razão, ele decidisse plantar as primeiras mudas de chá na sua propriedade das Calhetas, na Ribeira Grande, utilizando sementes trazidas do Rio de Janeiro. 110 Nessa altura, o chá não era produzido em grande escala ou colocado no mercado para consumo, sendo encarado como uma planta exótica. “ Por muito tempo o chá foi usado como planta ornamental (…) ”, salienta José Antnio Pacheco, no seu livro Porto Formoso - um chá no Oceano . 4.2. Os motivos da plantação do chá A principal fonte de rendimento das famílias açorianas, especialmente em meados do século XIX, era o cultivo de laranjas. A laranja, enquanto subsistência dos camponeses, na maioria das vezes era exportada para Inglaterra. Entre novembro e maio, os navios ingleses carregavam laranja nos portos dos Açores, dando cada ilha diferentes contribuições em termos de quantidades. Entre 1845 e 1854, segundo dados estatísticos, Ponta Delgada (São Miguel) forneceu a maior quantidade, 130 mil caixas por ano; Angra do Heroísmo (ilha Terceira) mais ou menos 24 mil caixas e a Horta (ilha do Faial) cerca de 3 mil caixas de laranjas. 111 Segundo a historiadora Sacuntala de Miranda, as laranjas eram cultivadas na ilha de São Miguel pelo menos desde o final do século XVII e parte da produção era exportada para o continente europeu. Dois séculos depois, a laranja chegou ao mercado britânico, tornando-se uma fonte de rendimentos dos micaelenses. 112 Por volta de 1850, a distribuição das exportações de São Miguel era a seguinte: as laranjas representavam 60%, os cereais 38% e outros géneros 2%. 113 Como se pode constatar, a laranja assumia um lugar respeitável na ilha para a maioria 108 Moura, M. (2014), p . 222. 109 Moura, M. (2015), p . 43. 110 Vieira, V. (Coord.), (2016), p . 13. 111 João, M. I. (2004), p . 80. 112 Moura, M. F. D. O. (2019), p . 118. 113 Caldeira, C. J. (1852), p . 321.
40 dos camponeses. No entanto, os bons tempos não duram para sempre. A presença de duas moléstias introduzidas veio revolucionar a economia e a sociedade açoriana. Desde 1838, o arquipélago dos Açores sofria com a chamada “lágrima” 114 , doença que resultava na perda prematura das laranjeiras, e que diretamente infetava não só as árvores, mas também a qualidade e quantidade dos frutos. “Todos os pomares da ilha foram quase simultaneamente atacados e em algumas quintas perderam ‑ se 100, 200, 300 e até 700 e 800 árvores sobre 1000. Mas não consta que em algum pomar fossem todas as árvores insultadas.” 115 Esta praga não ocorria apenas no arquipélago, mas existia também em Lisboa. O outro grande mal que levou à destruição da cultura das laranjeiras foi um pequeno inseto conhecido como Coccus hesperidum , praga maior das árvores dos citrinos, conhecida também como “Aphide”, “Piolho da casca”, “Bicho do Faial” e “Cochonilha das laranjeiras”. De acordo com uma informação de 1843, o Coccus hesperidum foi descoberto numa das quintas da Horta (Faial), em consequência da importação de arbustos (muito provavelmente, dois limoeiros) por Charles W. Dabney, o maior comerciante desta ilha e cônsul americano. Tendo em vista que esses arbustos eram altamente ornamentais e dotados de certo valor económico, não só ele, mas os seus amigos e vizinhos possuíam mudas vivas e sementes desses arbustos. 116 Acreditamos que este foi um comportamento altamente contagioso, propagando de forma rápida uma ampla área num curto período de tempo. Quando os insetos foram encontrados, já estavam na maioria das laranjeiras. 114 Queiroz, A. I., & Alves, D. (2019), p . 229. 115 Silveira, P. (2012), p . 335. 116 Idem, p . 230.
41 [Imagem 4: Distribuição histórica e primeiros registos da ocorrência do Coccus hesperidum)] Adaptado de: Praga e poder: histria do “devorista das laranjeiras” (Açores, Portugal, 1840-1860) “Sob a forma de uma moléstia, semelhante a uma espécie de ferrugem, ramificando-se pelos troncos, galhos e folhas, passou a afectar as laranjeiras. Teria uma rápida penetração nas árvores, bem como uma assinalável propagação nos diferentes pomares.” 117 No que diz respeito à situação de Ponta Delgada, o pânico instalou-se no final de 1843, sendo as árvores da ilha do Faial a origem deste desastre. Dado alguma negligência na gestão dos pomares, o grau de impacto foi ainda mais grave. 118 Por consequência, muitos agentes locais, incluindo a Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense (SPAM), encetaram iniciativas práticas para avaliar e extinguir os insetos. Decorridos 6 meses, foram criadas comissões para lutarem contra as pragas. Os lavradores estavam preocupados com a destruição das laranjeiras, se não contivessem o estrago como no Faial. 119 Para além das pragas, que eram um fator importante para forçar a economia de laranja a descer, havia também o problema do transporte. As condições de transporte eram muito más e a exportação da laranja para outros mercados europeus era um grande desafio. O transporte de fruta era maioritariamente efetuado por gado, cavalos e burros, tendo em conta a fragilidade da fruta, por vezes eram utilizados carros de boi. Se os problemas com o transporte por terra eram menores, o transporte marítimo acrescentava um perigo extra. Os navios carregados de laranjas avançavam através do mar agitado e, às vezes, enfrentavam tempestades. É difícil estimar o número de navios que se afundaram no mar, com prejuízos com a perda dos navios e também das laranjas. Todos estes problemas combinados, juntamente com a desvalorização no mercado e a concorrência de laranjas de outros locais, levaram a que o ciclo da laranja açoriana chegasse ao fim por volta de 1870. A economia dos Açores estava em crise. Como consequência, a SPAM, fundada a 11 de janeiro de 1843, em Ponta Delgada, foi reavivada. Após discussão por vários peritos, chegou-se à conclusão de que o cultivo do chá era bem-adaptado aos Açores, tanto em termos de clima como de solo e ambiente geofísico. Em resultado disso, o cultivo de chá formalizou-se nos Açores. 120 117 Silveira, P. (2012), p . 334. 118 Queiroz, A. I., & Alves, D. (2019), p . 232. 119 Idem, p . 236. 120 Silva, R. M. E. D. (2014), p . 40.
42 4.3. A chegada de Lau-a-pan e Lau-a-teng Antes da chegada dos dois chineses aos Açores, tinha havido tentativas de fazer chá nas ilhas, mas os proprietários das plantas acabavam por fracassar. Afinal de contas, comparados com os chineses, os europeus não conheciam bem as suas características, colocavam as folhas tenras em frascos para murcharem, e depois tiravam-nas e faziam infusões para beber. O resultado era completamente imbebível, o chá era mau. 121 Assim, na sessão de 11 de dezembro de 1873, a SPAM decidiu procurar profissionais ou técnicos conhecedores do chá, para irem a São Miguel e orientarem os agricultores açorianos. Antes de tomarem esta decisão, pediram conselhos de várias fontes para confirmar a viabilidade da produção de chá com os chazeiros existentes, a fim de contratar produtores da “China, o berço original do chá”. 122 Avançaram com a contratação de dois técnicos chineses através de Macau, com planos para divulgar os métodos de cultivo e produção do chá, a fim de encorajar os agricultores locais. No processo de contratação, Augusto Cezar Supico, major de engenharia e diretor das obras públicas de Macau, prestou ajuda e forneceu muitas informações úteis, contribuindo significativamente para isto acontecer, uma vez que “ (…) ter residido algum tempo em São Miguel [e] possuir ali parentes a quem muito ama entendeu dever demonstrar o seu interesse pela Ilha, auxiliando-a numa ocasião bastante crítica e pela forma mais bizarra. ” 123 Além do mais, ele era sócio pagante da SPAM e leitor do jornal A Persuasão , cujo redator era seu irmão. Em 1875, a SPAM convidou-o a ajudar na contratação dos chineses e aquisição de sementes, arbustos do chá e ferramentas relacionadas. 124 Após muitas discussões e negociações, por fim, foi assinado um contrato com dois chineses a 13 de novembro de 1877, Lau-a-pan ( 刘亚板 ) e Lau-a-teng ( 亚定 ), com o objetivo de ensinarem os métodos do cultivo e de processamento do chá aos habitantes de São Miguel. O contrato mencionava várias coisas, incluindo os objetivos na ilha, os seus salários, o custo das viagens de regresso a Macau, as refeições diárias fornecidas e a indemnização por doença. Os dois especialistas partiram de Macau para Lisboa no navio África e depois chegaram à ilha de São Miguel no vapor Luso , a 5 de março de 1878. Lau-a-pan era mestre no cultivo e processamento; Lau-a-teng era o assistente no ensino, pois sabia falar português, desempenhando o cargo de intérprete. A SPAM disponibilizou uma moradia e 121 Cf. Moura, M. (2014), p . 223. 122 Silva, R. M. E. D. (2014), p . 40. 123 Idem, p . 296. 124 Idem, p . 267.
43 oficina do trabalho para ambos, mas estando o espaço ainda em preparação, começaram por se instalar na “casa da Caldeia Velha”, também chamada de “casa da Matta do Pico Arde”, pertencente a José do Canto. 125 Sobre a razão da SPAM recrutar os técnicos de Macau, argumenta Moura: “Parecem existir razões explícitas e implícitas para optar por Macau. Entre as primeiras, além das apontadas pela Direcção da SPAM, poder-se-ia acrescentar as vantagens de mão-deobra mais barata e de entenderem português. Entre as implícitas, Macau, como território do Império Colonial Português, administrado por portugueses, em princípio, seria de mais fácil contacto oficial: o Visconde de São Januário, um amigo, estudioso da flora, era governador de Macau. Há também na escolha laivos de patriotismo: Portugal fora pioneiro no chá, no conhecimento, comércio e fabrico (no caso o Brasil). Poderia, eventualmente, haver outro motivo: os Açores, agora que o Brasil se separara de Portugal, seriam o novo local do chá em território português?” . 126 A chegada dos dois chineses causou boa impressão em Francisco de Melo, um mateiro de José do Canto, e muitas pessoas ficaram curiosas. Nas cartas de Francisco de Melo a José do Canto de 8 de março e de 5 de abril de 1878, referia-se a poda de uma árvore do chá três dias depois da sua chegada à Ribeira Grande, e um fluxo constante de pessoas que os visitavam todos os dias. 127 A 7 de março, Lau-a-pan e Lau-a-teng foram à plantação de José do Canto e examinaram o ambiente do cultivo, apreciando as condições locais, ou seja, consideraram-nas adequadas para desenvolver o chá. “O chá de José do Canto fora objeto de múltiplos cuidados de poda e de plantação em finais de fevereiro de 1878. Tratara o do Pico da Pedra e do Porto Formoso, mas esmerara-se no do Pico Arde (Caldeira Velha) (…) Era uma pequena, mas excelente plantação de chá” (…) “Uma plantação num terreno inclinado, meia-encosta, exposto ao noroeste, em excelente estado.” 128 Em 1878 e 1879, Lau-a-pan utilizou as sementes trazidas de Macau, bem como algumas do Brasil (de acordo com diferentes versões da narrativa), todas da espécie da Camellia sinensis , juntando-as numa plantação local. A 25 de maio de 1878, Lau-a-pan fez o primeiro chá. Francisco de Melo pediu 125 Moura, M. F. D. O. (2019), p . 287. No fim do século XIX, o nome da fábrica era “Fábrica Canto da Caldeira Velha” ou “Chá Canto”. 126 Idem, p . 261. 127 Idem, p. 294. 128 Moura, M. F. D. O. (2019), p. 299.
44 autorização a José do Canto para aprender a fazer chá e, graças ao ensino de Lau-a-pan, ele passou a ter capacidade de o fazer. Três meses após a chegada dos dois chineses, os agricultores locais estavam motivados a cultivar chá e os sócios da SPAM receberam formação sobre métodos de plantação, aprendendo quer através da leitura, quer através da observação dos dois chineses a manipularem o chá. A confirmação do valor do chá ficou provada na reunião da comissão de acompanhamento, no mesmo ano. Ao examinar as amostras e identificar os seus aromas e sabores, todos ficaram muito satisfeitos com o chá cultivado e produzido pelos chineses, considerando o resultado positivo. 129 Entretanto, recebiam alguns sinais oficiais de que, graças à chegada dos dois chineses, seria promovida a indústria do chá, a fim de reanimar a economia da ilha após a crise da laranja. 130 Numa nota menos positiva, ficou registado o comportamento negativo dos dois chineses que fumavam grande quantidade do ópio - 15 a 18 gramas por um dia. Rafael de Almeida, o secretário da SPAM, registou as palavras delirantes proferidas depois de fumarem ópio. 131 Havia mesmo alguma dúvida no que respeita à sua capacidade: havia muitos emigrantes da China, mas a maioria deles eram vulgares e alguns eram degenerados e incompetentes, considerando-se não haver necessidade de uma pessoa de bom mérito viajar para um país distante para procurar uma vida melhor. 132 A 15 de julho de 1789 a SPAM rescindia o contrato com Lau-a-pan e Lau-a-teng e, dois dias depois, eles regressavam a Macau. A SPAM financiara 64.76% das despesas do projeto do chá neles. Nesta altura, o Governo Central e a Junta Geral também financiavam o projeto, o que aliviava a pressão da SPAM. Sem dúvida a organização atribuiu grande importância ao chá e à reanimação económica da ilha. 133 Como Margarida Machado sublinha: “Todos os autores da época são unânimes em dar a paternidade da indústria do chá à SPAM, pois foi ela que, com os seus artigos no Cultivador, com as experiências feitas nos terrenos dos seus sócios e com os esforços para a vinda de dois chineses para ensinarem a 129 Idem, p. 316. 130 Idem, p. 338. 131 Idem, p. 309. 132 Moura, M. F. D. O. (2019), p. 265. Em História da Imigração Chinesa ao Brasil no Século 19 (pp. 137-138), lê-se que a descrição dos imigrantes chineses é de facto controversa, uma vez que a maioria dos Culi chineses que foram "enganados" em recrutamentos naquela altura, foram sujeitos a prisão e abusos. Isto, juntamente com meses no mar, com roupas esfarrapadas e rostos magros, levou a que, ao chegarem aos países ocidentais e ao Brasil, causassem uma má impressão e assim os estrangeiros desenvolveram um preconceito contra os emigrantes chineses. 133 Idem, p. 332.
45 manipulação do chá, introduziu verdadeiramente esta indústria na ilha de São Miguel.” 134 4.4. O chá na vida socioeconómica do povo micaelense 4.4.1. Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense e José do Canto A Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense (SPAM) foi fundada 11 de janeiro de 1843, na cidade de Ponta Delgada, ilha de São Miguel. Os fundadores eram doze pessoas, proprietários e literatos, que chegaram a um consenso da necessidade de “estabelecimento d’uma Associação que promovesse e animasse o adiantamento da Agricultura na ilha de São Miguel” 135 . A associação funcionava com o objetivo de impulsionar o desenvolvimento da agricultura micaelense através dos seguintes meios: exploração de terras incultas, comunicação com associações fora do país e publicação do jornal oficial Agricultura Micaelense 136 para divulgar as espécies melhor adaptadas ao solo e clima dessa ilha. Uma das maiores realizações desta associação foi encontrar a planta que permitiria sair da crise da laranja, substituindo aquela cultura. Após muitas discussões, sessões entre os sócios e consultas, contrataram dois chineses de Macau, iniciativa que fez de Portugal o único país da Europa a cultivar o chá. Entretanto, cultivou campos experimentais, estabeleceu fábricas do chá, divulgou literatura a respeito do chá e criou um fundo de experiência do chá, nomeando uma comissão de acompanhamento. 137 Vale a pena notar que José do Canto se empenhou no estabelecimento da SPAM e da indústria do chá. José do Canto (1820-1898) nasceu a 20 de dezembro de 1820 em Ponta Delgada, irmão de Ernesto do Canto, fundador do Arquivo dos Açores e vice-presidente da SPAM em 1870. Homem rico com enorme interesse na natureza, não só participou na fundação da SPAM, mas também colaborou com António Feliciano Castilho no jornal Agricultura Micaelense entre 1847 e 1850, porque acreditava que “a educação era a chave para ultrapassar os problemas que via pelos campos.” 138 134 Machado, “Quando o chá de Macau mudou os Açores”, em https://www.revistamacau.com/rm2020/2016/04/19/quando-o-cha-de-macau-mudou-os-acores/ (consultado a 1 de abril de 2021). 135 Riley, C. G. (2001), p . 694. 136 Agricultura Micaelense foi um jornal mensal da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, dedicado à divulgação de conhecimentos agronómicos. Começou a publicar-se em outubro de 1843 e o último lançamento foi em março de 1852. A publicação esteve temporariamente interrompida entre 1845 e 1847. 137 Moura, M. (2014), p . 223. 138 Mónica, M. F. (2001), p . 970.
46 Como profundo conhecedor de Botânica, mantinha-se frequentemente em contacto com proprietários de jardins botânicos em todo o mundo, comprando, vendendo e trocando plantas. A partir de meados do século XIX, fundou o seu próprio jardim botânico em Ponta 4.4.2. As Fábricas do chá de São Miguel O nome “Gorreana” é incontornável quando tratamos das fábricas de chá na ilha de São Miguel, já que é a única fábrica dos Açores que funcionou ininterruptamente desde finais de século XIX. O aparecimento da Gorreana remonta a 1870, pela mão de D. Ermelinda Pacheco Gago da Câmara (1832-1913) em a colaboração com os seus filhos José Honorato Gago da Câmara (1850-1903) e Simplício José Gago da Câmara (1851-1913), para substituir a laranja, que era o núcleo da economia micaelense em meados do século XIX. 139 Em 1883, produzia o primeiro quilo de chá Gorreana, num processo feito completamente manual, ou seja, sem ajuda de equipamentos e maquinarias. Não surpreendentemente, a produção de chá era baixa, dificultando o abastecimento do mercado. José do Canto desempenhou um papel crucial ao introduzir as primeiras máquinas na sua fábrica da Caldeira Velha, na Ribeira Grande. Passo a passo, a Fábrica da Gorreana realizou também a sua mecanização, no início do século XX. No final dos anos 1920, Jaime Hintze (1879-1945), um ilustre gestor e agricultor, proprietário de segunda geração da fábrica, casava com D. Angelina Gago da Câmara (1881-1940), neta de D. Ermelinda Pacheco Gago da Câmara. Ele conseguiu que a produção de chá aumentasse gradualmente, através duma gestão mecanizada eficaz. Além disso, desenvolveu a indústria agrícola e subprodutos, abriu a fábrica ao público e explorou a indústria do turismo, impulsionando o desenvolvimento económico da ilha de São Miguel. O mérito dele não ficou por aqui. No fim dos anos 1920, ele montou uma mini-hídrica junta à ribeira. Quando o chá oriundo das colónias ultramarinas (Moçambique) entrou no mercado português 140 , a Gorreana evitou um grande golpe, devido à redução do custo da energia proporcionada pela mini-hídrica. Hoje em dia, sob a orientação e gestão de Madalena Hintze Motta e de Sara Hintze Motta, sucessoras e membros da sétima geração, a Gorreana tornou-se um sítio turístico bem-sucedido. Os visitantes podem experimentar a apanha e preparação do chá, ao mesmo tempo, as máquinas 139 Vieira, V. (Coord.), (2016), p . 72. 140 Naquela época, o governo ofereceu apoios e protecionismo à África portuguesa na exportação para a metrópole com baixas taxas aduaneiras. Muitas fábricas açorianas encerraram sucessivamente, porque não tinham capacidade de competir com isso.
53 O murchamento é o processo básico de tratamento das folhas frescas. Neste passo, as folhas frescas colhidas perdem água uniformemente e o fluido celular é concentrado, o que leva a alterações nos componentes internos, de modo que as folhas frescas sofrem alterações físico-químicas. Assim as folhas tornam-se mais maleáveis e resistentes, o que facilita o processo seguinte. Na Porto Formoso, coloca-se as folhas em tabuleiros para murcharem numa sala com boa ventilação e longe da luz direta do sol, com a ajuda do ventilador. No entanto na Premium Tea, em razão da grande procura e produção, utilizam-se tanques de murchamento, um método semi-mecanizado com controlo manual do aquecimento. Esta técnica tem as vantagens de uma operação fácil, poupando mão-de-obra e melhorando a eficácia. A rolagem é um importante processo de moldar a forma e a qualidade interior do chá preto. Após serem sujeitas ao murchamento, as células foliares são danificadas e o extrato das folhas derrama-se, acelerando a oxidação enzimática dos compostos polifenólicos e lançando elementos para a formação do endoplasma único do chá preto. Depois da rolagem, o extrato das folhas transborda na superfície da folha que, depois da secagem, fica húmido e brilhante, dissolvendo-se facilmente em água quando se prepara e aumentando a concentração do chá. Agora, quase todas as fábricas utilizam roladores mecânicos, seja na China ou em Portugal. A fermentação é o processo chave da oxidação, que determina a qualidade do chá preto. O objetivo é promover mudanças profundas nos elementos interiores para a formação da cor, aroma e qualidade gustativa únicos do chá. Embora a oxidação do chá preto já tenha começado na rolagem, o tempo da fermentação ainda não é suficiente quando a rolagem termina, podendo durar muitas horas. Podemos observar claramente as mudanças das folhas depois do murchamento, da rolagem e da fermentação; a cor das folhas torna-se entre o esverdeado e o vermelho-escuro e o aroma transformam-se gradualmente de leve a maduro. Isso é a beleza do chá preto! A secagem é o último processo pelo qual passa o chá preto, feita a alta temperatura, para interromper a atividade enzimática (evitando a fermentação excessiva). A humidade das folhas do chá fica abaixo dos 7%, o que favorece a sua conservação. Nesta fase, o aroma é enriquecido. Em ambas as fábricas se utilizam máquinas: um secador equipado com tapete rolante.
54 Adaptado de: http://www.babaixiucai.com/products-detail/p-112.html Adaptado de: https://madeinazores.eu/pt/inicio/25-cha-preto-orange-pekoe-porto-formoso-80g.html e https://azoreangreenbean.com/cha-gorreanaorange-pekoe/ [Imagem 9: O chá preto de Yingde, 金毫 ] [Imagem 10: O chá preto de Yinghong Nº9] [Imagem 11: Orange Pekoe da Fábrica de Chá Porto Formoso] [Imagem 12: Orange Pekoe da Fábrica Gorreana]
55 5.3. Características da degustação Para perceber melhor a qualidade de um chá, a degustação é fundamental, pois permite incluir várias características do produto: aspeto e forma das folhas, cor da infusão, aroma e sabor. A degustação foi feita na fábrica de Yingde, com vários técnicos e comerciantes especializados do setor do chá. Nas fotografias abaixo, vê-se o chá preto da Fábrica de Porto Formoso (esquerda) e o chá preto nativo de Yingde Premium Tea (direita).
56 [Imagem 13: aparência dos dois chás] As folhas soltas das duas marcas possuem grande semelhança, ambas apresentam folhas inteiras, embora no chá preto Porto Formoso “Broken Leaves” aqui utilizado esteja mais danificado, já que os chineses dão importância à forma inteira e perfeita das folhas e os portugueses não têm esta preocupação, devido a hábitos muito diferentes de fazer e beber chá. Para uma visualização mais fácil, organizamos os resultados da comparação na tabela abaixo: Chá da Fábrica de Porto Formoso Chá Premium Tea Aparência de folhas secas Falta de integridade das folhas; existência das folhas heterogéneas; tiras soltas e velhas Folhas completas e tiras firmes; tamanho e forma consistentes Cor da infusão Cor vermelho-alaranjada clara, limpa e transparente Cor vermelho-alaranjada ligeiramente escura e um pouco turva Aroma Fresca e leve, com um vago aroma a flores Forte com algumas notas de carvão Sabor Doçura suave, concentração insuficiente Puro e autêntico, concentração suficiente, mas sem doçura Aparência de folhas usadas Um belo tom de âmbar, as folhas não são inteiras Homogéneo em tamanho e aparência das folhas, um belo tom de âmbar No geral, não se deteta grande diferença entre os dois chás. Em termos da qualidade, o chá preto açoriano poderá ser tecnicamente melhorado, no que diz respeito à homogeneidade de folhas, mas nota-se que é um produto muito puro, vindo de um local sem poluição, pureza que se transforma numa doçura quase floral. O chá de Yingde é mais tecnicamente “puro”, como um chá preto.
57 Conclusão Verificação das hipóteses e reflexões
58 Nesta viagem da “rota do chá marítimo” revisitamos o caminho do chá, não só como uma planta, uma bebida, uma parte da história humana, mas sobretudo como um conhecimento e uma forma de partilha por diferentes povos. Tive a sorte de poder viver em diferentes pontos do mundo, da minha terra-natal em Lingnan, China, a Macau, sem esquecer Portugal. Em sede do mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês: tradução, formação e comunicação empresarial , da Universidade do Minho, obtive muitos conhecimentos, não só linguísticos, mas sobretudo culturais e organizacionais, que abriram a minha visão sobre o mundo. Através deste tema de estudo, encontrei um motivo que me levou mais além na minha formação como estudante de língua portuguesa, formada numa universidade em Macau, local de encontro das culturas chinesa e portuguesa, ao tentar descobrir a história da comunicação oriente/ocidente através de uma bebida que faz parte do meu ADN: o chá. O facto de Portugal ser o primeiro e único país que cultiva chá na Europa e de ter recebido dois chineses, especialistas em técnicas de cultivo e fabrico, fascinou-me escrever sobre este tema permitiu-me utilizar e aprofundar conhecimentos. Para além de pesquisar documentação histórica e académica, propus-me visitar São Miguel e conhecer as plantações e os fabricantes portugueses, sentindo-me talvez em casa numa ilha no meio do Atlântico. Infelizmente, desde o início da redação desta dissertação, o mundo entrou em confinamento, por causa da pandemia. Todavia, a impossibilidade de viajar até à ilha de São Miguel foi, de alguma forma, compensada pela oportunidade de aprender todo o processo de apanha, secagem, oxidação e acabamento do chá preto, a partir de alguns chazeiros transplantados de São Miguel para o jardim do chá “O Sabor de Harmonia”, em Terras de Bouro. Ao conhecer este chá preto produzido manualmente, identifiquei-o como familiar, o que despoletou a hipótese de que, uma vez que os dois mestres vieram de Macau, talvez fossem nativos de Yingde. Com esta interrogação, iniciei a pesquisa que me conduziu num percurso tortuoso: não existe um caminho curto entre Açores e Yingde. Tudo aponta para a necessidade de uma investigação bem mais longa. Tive que seguir várias linhas históricas, desde os tipos de Camellia sinensis e os seus produtos de chá, às suas origens e designações, da sua comercialização ao papel de Macau, pesquisar sobre como as sementes chegaram ao Brasil via Macau e depois aos Açores, como nasceu a indústria do chá na ilha de São Miguel e, finalmente, se o chá preto de Yingde e de São Miguel são primos em
59 forma e sabor. Este trabalho abordou, talvez de uma forma extensiva, todos os aspetos acima mencionados, e só assim permitiu ver a história da divulgação do chá pelo mundo lusófono de uma perspetiva mais completa e objetiva. Sinto que fiz uma longa viagem pelo tempo e pelo espaço, terminando entre duas chávenas de chá, uma da China e outra dos Açores, com sabores tão semelhantes! Devo confessar que existem muitas falhas nesta tentativa de investigação. Esperava encontrar, nos arquivos locais de Guangdong, registos sobre a emigração de teicultores, sobretudo para o Brasil. Esta pesquisa ficou por fazer pois, durante o período de pandemia, as bibliotecas e os arquivos locais da cidade de Yingde permaneceram fechados, e as informações disponíveis online são extremamente limitadas. Podia, eventualmente, fazer um estudo genealógico das famílias com história de cultivo do chá, mas isso seria moroso e, por razões práticas, não foi possível. Este trabalho é como uma iniciação do meu primeiro ensaio académico, com imperfeições, mas com muitas portas abertas para o futuro. A cultura do chá é um património de muitos povos, oriundo da China e que fez ligação e eco entre culturas. O papel dos portugueses na divulgação do chá no mundo ocidental tem sido ignorado. Infelizmente, o Museu Nacional do Chá em Hangzhou é omisso quanto ao papel de Portugal, o mesmo acontece em muitos documentários televisivos na China. Esperamos que mais pessoas se interessem por este tema e que Portugal seja um dia reconhecido como um país importante nesta rota marítima do chá.
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