Full text
Universidade do Minho Escola de Psicologia Sofia Miguel Alves Marques Ambivalência na Perturbação ObsessivoCompulsiva: Um Estudo Exploratório da Interação Cliente-Terapeuta junho de 2021 Ambivalência na Perturbação Obsessivo-Compulsiva: Um Estudo Exploratório da Interação ClienteTerapeuta Sofia Marques UMinho | 2021
Universidade do Minho Escola de Psicologia Sofia Miguel Alves Marques Ambivalência na Perturbação ObsessivoCompulsiva: Um Estudo Exploratório da Interação Cliente-Terapeuta Dissertação de Mestrado Mestrado Integrado em Psicologia Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Cátia Braga e do Professor Doutor Miguel Gonçalves junho de 2021
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
iii Agradecimentos Aos meus orientadores, Professora Doutora Cátia Braga, agradecer em primeiro lugar por toda a ajuda, motivação e paciência indispensáveis para a realização desta dissertação. E um obrigada especial a todo o apoio fundamental ao longo desde processo, à disponibilidade e ao treino e conhecimento que conseguiu transmitir. Ao Professor Doutor Miguel Gonçalves, não só pela oportunidade de me integrar no seu grupo de trabalho, mas também pela exigência, sugestões e por ser um excelente modelo a seguir. A toda a equipa de investigação, que permitiu melhorar o meu trabalho apresentação após apresentação, por todas as ideias e sugestões, espírito crítico e boa disposição a todas as sextas-feiras de manhã. Também por todas as apresentações dos professores e doutorados, que aumentaram ainda mais o meu interesse por esta área e pela investigação. Um obrigada fundamental aos meus colegas que estiveram diretamente ligados à realização deste projeto, sem o auxílio e esforço deles, este processo não seria possível. À minha família, que sempre me apoiou neste percurso, que me ouviu nos momentos de maiores dificuldades e que não me deixou desistir. Em especial, aos meus pais que foram incansáveis ao longo de todos estes anos. E por fim, aos meus amigos, pelos momentos de distração e também por, mesmo pouco ou nada perceberem do que fui fazendo ao longo do ano, estarem sempre dispostos a motivar e ajudar-me.
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Braga, 2 de junho de 2021
v Ambivalência na Perturbação Obsessivo-Compulsiva: Um Estudo Exploratório da Interação Cliente-Terapeuta Resumo A investigação tem sugerido que para clientes altamente resistentes e ambivalentes, modelos de intervenção menos diretivos obtêm melhores resultados. No entanto, estudos de caso têm demonstrado que esta relação entre diretividade e ambivalência pode ser mais complexa e poderá ser melhor compreendida analisando as interações cliente-terapeuta momento a momento. Por outro lado, a investigação tem sido relativamente silenciosa quanto às intervenções do terapeuta que podem não só promover a ambivalência, mas também a resolução da mesma. Este estudo pretende explorar a evolução dos momentos de ambivalência e da sua resolução, num caso de POC, assim como a interação clienteterapeuta nesses momentos, nas diferentes fases de terapia. As sessões terapêuticas foram codificadas para ambivalência, resolução de ambivalência, intervenções do terapeuta e respostas do cliente. A ambivalência, observada e autorrelatada, diminuiu essencialmente no final, onde ocorreram também mais momentos de resolução, principalmente por negociação. A ambivalência emergiu, principalmente, depois de intervenções de desafio, contrariamente à sua resolução que surgiu essencialmente depois de intervenções de suporte. Os resultados sugerem a possibilidade de os processos de resolução serem transdiagnósticos assim como a importância do equilíbrio entre intervenções de suporte e desafio na gestão dos momentos de ambivalência. Palavras-chave: ambivalência, colaboração terapêutica, perturbação obsessivo-compulsiva
vi Ambivalence in Obsessive-Compulsive Disorder: An Exploratory Study of the ClientTherapist Interaction Abstract Research has suggested that for highly resistant and ambivalent clients, less directive models achieve better outcomes. However, case studies have shown that this relationship between directivity and ambivalence can be more complex and better understood by analysing client-therapist interactions from moment to moment. On the other hand, research has been relatively silent on therapist interventions that can not only promote ambivalence, but also its resolution. This study aims to explore the evolution of the moments of ambivalence and its resolution in a case with OCD, as well as the client-therapist interaction in these moments, in different phases of therapy. Therapeutic sessions were coded for ambivalence, ambivalence resolution, therapist interventions and client responses. The ambivalence, observed and selfreported, essentially decreased towards the end, where there were also more moments of resolution, mainly by negotiation. Ambivalence mainly emerged after challenging interventions, in contrast to its resolution which emerged essentially after supportive interventions. The results suggest the possibility that the resolution processes are transdiagnostic, as well as the importance of balancing supportive and challenging interventions in managing moments of ambivalence. Keywords: ambivalence, therapeutic colaboration, obsessive-compulsive disorder
vii Índice Ambivalência na Perturbação Obsessivo-Compulsiva: Um Estudo Exploratório da Interação ClienteTerapeuta ............................................................................................................................................ 9 Método ............................................................................................................................................. 11 Participante ......................................................................................................................... 11 Terapia e Terapeuta ............................................................................................................. 12 Medidas/Instrumentos ......................................................................................................... 12 Procedimento ...................................................................................................................... 13 Análise de Dados ................................................................................................................. 14 Resultados ....................................................................................................................................... 14 Discussão......................................................................................................................................... 23 Referências ...................................................................................................................................... 29 Anexo A. ........................................................................................................................................... 33 Índice de Tabelas Tabela 1. Divisão das Sessões do Processo Terapêutico por Diferentes Fases e Módulos da Terapia .. 14 Tabela 2. Intervenções do Terapeuta Antes dos Momentos de Ambivalência, nas Diferentes Fases de Terapia ............................................................................................................................................. 18 Tabela 3. Intervenções Do Terapeuta Depois dos Momentos de Ambivalência, nas Diferentes Fases de Terapia ............................................................................................................................................. 18 Tabela 4. Resposta do Cliente às Intervenções do Terapeuta Depois dos Momentos de Ambivalência, nas Diferentes Fases de Terapia .............................................................................................................. 19 Tabela 5. Intervenções do Terapeuta Antes dos Momentos de Resolução por Dominância, nas Diferentes Fases de Terapia .............................................................................................................................. 20 Tabela 6. Intervenções do Terapeuta Depois dos Momentos de Resolução por Dominância, nas Diferentes Fases de Terapia ............................................................................................................................. 20 Tabela 7. Resposta do Cliente às Intervenções do Terapeuta Depois dos Momentos de Resolução por Dominância, nas Diferentes Fases de Terapia ................................................................................... 21
AMBIVALÊNCIA NA PERTURBAÇÃO OBSESSIVO-COMPULSIVA E INTERAÇÃO CLIENTE-TERAPEUTA 14 ausência de MA foi de .83. Em simultâneo, a resolução de ambivalência foi codificada utilizando o Sistema de Codificação de Ambivalência (SCRA; Braga et al., 2016). Os Codificadores D e E, ambos estudantes de mestrado, codificaram todas as sessões do caso, com supervisão e auditoria do Codificador A. Os Codificadores D e E realizaram previamente um treino, tendo codificado 13 sessões de um caso de Terapia Focada nas Emoções. O valor de K de Cohen para a identificação de resoluções (dominância e negociação) foi de .85. Após isso, as intervenções do terapeuta, antes e depois dos momentos de ambivalência e de resolução, assim como as respostas do cliente, foram codificadas utilizando o Sistema de Codificação de Colaboração Terapêutica (SCCT; Ribeiro et al., 2013). Os Codificadores B e D codificaram 50% das sessões e o Codificador A codificou todas as sessões. Todos os desacordos foram resolvidos por consenso, em processo de auditoria. O K de Cohen para as intervenções do terapeuta foi de .97 e para as respostas do cliente foi de .95. Análise de Dados De seguida faremos uma análise descritiva, constituída por quatro análises distintas: análise das frequências absolutas dos momentos de ambivalência, ao longo das sessões e fases da terapia; análise das frequências absolutas dos momentos de resolução, ao longo das sessões e fases da terapia; análise das percentagens das intervenções de suporte e desafio do terapeuta (antes e depois dos momentos de ambivalência e da sua resolução), ao longo das sessões da terapia; e, por fim, análise das percentagens de validação, invalidação e ambivalência do paciente às intervenções do terapeuta ao longo das sessões da terapia. Resultados A Tabela 1 mostra como foi realizada a divisão das sessões do processo terapêutico (um total de 21 sessões), para a descrição dos resultados, pelas diferentes fases (início, meio e fim) e módulos da terapia (do módulo 0 ao módulo 8). De notar, no entanto, que a sessão 11 do processo terapêutico não foi contabilizada uma vez que não houve registo de áudio da mesma, não tendo sido possível deste modo codificar a sessão. Tabela 1 Divisão das Sessões do Processo Terapêutico por Diferentes Fases e Módulos da Terapia. Fase da Terapia Sessão Módulo Descrição do Módulo Início s1 Módulo 0 Introdução s2 Módulo 1 Aumento da motivação para o tratamento s3, s4 Módulo 2 Psicoeducação e identificação das experiências emocionais
AMBIVALÊNCIA NA PERTURBAÇÃO OBSESSIVO-COMPULSIVA E INTERAÇÃO CLIENTE-TERAPEUTA 15 Meio s5, s6 Módulo 4 Avaliação e reavaliação cognitiva s7, s8 Módulo 5 Evitamento emocional e comportamentos guiados pelas emoções s9 Módulo 6 Consciência e tolerância das sensações físicas Fim s10, s12, s13, s14, s15, s16, s17, s18 Módulo 7 Exposição a situações e exposição interoceptiva s19, s20 Módulo 3 Treino de consciência das emoções s21 Módulo 8 Prevenção de recaída Os resultados serão enquadrados tendo em conta os objetivos do presente estudo: evolução dos Momentos de Ambivalência e dos Momentos de Resolução ao longo do processo terapêutico, interação cliente-terapeuta nos Momentos de Ambivalência e interação cliente-terapeuta nos Momentos de Resolução. No que diz respeito à interação cliente-terapeuta, iremos descrever duas intervenções do terapeuta (intervenção antes e depois dos Momentos de Ambivalência e de Resolução) e a resposta do cliente à intervenção do terapeuta depois desses momentos. Deste modo, Momentos de Ambivalência ou de Resolução sem intervenção do terapeuta antes ou depois desses momentos, não foram considerados para análise. Utilizando o SCA (Gonçalves et al., 2009)., foram codificados 130 MAs: 41 na fase inicial, 56 na fase intermédia e 33 na fase final da terapia. Relativamente às resoluções de ambivalência, utilizando o SCRA (Braga et al., 2016)., foram codificadas 42 resoluções (26 por dominância e 14 por negociação): na fase inicial foram encontradas 6 dominâncias e 4 negociações, na fase do meio foram contabilizadas 6 dominâncias e apenas 1 negociação e, por último, na fase final, 14 dominâncias e 9 negociações. Evolução dos Momentos de Ambivalência e dos Momentos de Resolução Quando observamos as frequências absolutas dos Marcadores de Ambivalência (MAs) face às pontuações do QAP (Oliveira et al., 2017), ao longo das sessões terapêuticas (Figura 1), observa-se que houve uma descida em ambas, sendo que as pontuações de QAP deixam de ser clinicamente significativas a partir da sessão 18, que é coincidente com a última sessão com MAs. Até à sessão 18, este paciente exibe valores de QAP clinicamente significativos, ou seja, a ambivalência autorelatada só foi resolvida a partir dessa sessão. Tomando em consideração a ambivalência medida com o SCA, a partir da sessão 19 deixaram de ocorrer MAs, sugerindo a resolução da ambivalência. Assim, as duas medidas de ambivalência, apesar de diferentes na sua evolução, são consistentes no momento de resolução da ambivalência: sessão 18.
AMBIVALÊNCIA NA PERTURBAÇÃO OBSESSIVO-COMPULSIVA E INTERAÇÃO CLIENTE-TERAPEUTA 16 Figura 1 Representação Gráfica da Frequência Absoluta de MAs e Pontuação do QAP ao Longo das Sessões Terapêuticas. Quando observamos as frequências absolutas dos Momentos de Resolução face às pontuações do QAP, ao longo das sessões terapêuticas (Figura 2), verificamos que, nas últimas sessões da terapia, houve um aumento de Momentos de Resolução, sendo que é nessas mesmas sessões que as pontuações do QAP diminuem para valores que deixam de ser clinicamente significativos. Figura 2 Representação Gráfica da Frequência Absoluta de Momentos de Resolução e Pontuação do QAP ao Longo das Sessões Terapêuticas. Quando observamos as frequências absolutas dos MAs juntamente com a dos Momentos de Resolução, ao longo das sessões terapêuticas (Figura 3), parece existir uma tendência oposta, ou seja, 0 5 10 15 20 25 30 35 40 0 5 10 15 20 12345678910 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 Pontuação QAP Frequência Absoluta MAs Sessão MAs QAP 0 5 10 15 20 25 30 35 40 0 2 4 6 8 10 12345678910 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 Pontuação QAP Frequência Absoluta Momentos de Resolução Sessão Momentos de Resolução QAP
AMBIVALÊNCIA NA PERTURBAÇÃO OBSESSIVO-COMPULSIVA E INTERAÇÃO CLIENTE-TERAPEUTA 17 quando há mais Momentos de Resolução, há menos MAs e quando há menos Momentos de Resolução, há mais MAs. Nas últimas sessões (a partir da sessão 17) a frequência dos MAs decresceu e a de Momentos de Resolução teve uma subida mais elevada e estável. Figura 3 Representação Gráfica da Frequência Absoluta de Momentos de Resolução e de MAs ao Longo das Sessões Terapêuticas. Na discriminação das frequências dos Momentos de Resolução pelos tipos de resolução (Figura 4), observa-se que resoluções de ambivalência por dominância estiveram presentes em todo o processo terapêutico enquanto que resoluções de ambivalência por negociação surgiram essencialmente nas últimas sessões (a partir da sessão 17). Figura 4 Representação Gráfica da Frequência Absoluta de Cada Tipo de Resolução e de MAs ao Longo das Sessões Terapêuticas. 0 5 10 15 20 0 2 4 6 8 10 12345678910 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 Frequência Absoluta MAs Frequência Absoluta Momentos de Resolução Sessão Momentos de Resolução MAs
AMBIVALÊNCIA NA PERTURBAÇÃO OBSESSIVO-COMPULSIVA E INTERAÇÃO CLIENTE-TERAPEUTA 18 Interação cliente-terapeuta nos Momentos de Ambivalência Que interações precederam e seguiram os Momentos de Ambivalência, nas diferentes fases da terapia? Ao longo de todo tratamento as intervenções que mais precederam os Momentos de Ambivalência (Tabela 2) foram as intervenções de desafio, com 58,33% no começo da terapia, 75,41% no meio e 67,65% no fim da terapia. Seguido de intervenções de suporte (focado no problema e focado na inovação), sendo que o suporte focado na inovação foi o tipo de intervenção menos utilizado por parte dos terapeutas antes dos MAs, com apenas 13,89%, 11,48% e 5,88%, para o início, meio e fim da terapia, respetivamente. Tabela 2 Intervenções do Terapeuta Antes dos Momentos de Ambivalência, nas Diferentes Fases de Terapia. Intervenção do Terapeuta Fase da Terapia Início Meio Fim Desafio 58,33% 75,41% 67,65% Suporte Problema 27,78% 13,11% 26,47% Suporte Inovação 13,89% 11,48% 5,88% As intervenções que mais seguiram os MAs (Tabela 3) foram as intervenções de desafio, com 50,00%, 65,67% e 55,88% para o início, meio e fim, respetivamente. Seguido de intervenções de suporte, sendo o suporte focado na inovação a intervenção menos utilizada, com 16,67% no início e 14,76% no fim, mais uma vez. Tabela 3 Intervenções do Terapeuta Depois dos Momentos de Ambivalência, nas Diferentes Fases de Terapia. 0 5 10 15 20 0 1 2 3 4 5 6 12345678910 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 Frequência Absoluta MAs Frequência Absoluta Momentos de Resolução Sessão Dominância Negociação MAs
AMBIVALÊNCIA NA PERTURBAÇÃO OBSESSIVO-COMPULSIVA E INTERAÇÃO CLIENTE-TERAPEUTA 19 Intervenção do Terapeuta Fase da Terapia Início Meio Fim Desafio 50,00% 65,57% 55,88% Suporte Problema 33,33% 19,67% 44,12% Suporte Inovação 16,67% 14,76% Como é que o cliente respondeu às intervenções do terapeuta depois dos Momentos de Ambivalência, nas diferentes fases da terapia? Relativamente à resposta do cliente à intervenção do terapeuta depois dos MAs (Tabela 4), quando o terapeuta suportou o cliente, focando-se no problema, na maioria das vezes, este validou a intervenção. Quando o terapeuta suportou o cliente, mas focando-se na inovação, o que acontece apenas no início e no meio da terapia, o cliente também frequentemente validou a intervenção. Embora, em 22,22% das vezes, na fase média, o cliente tenha respondido com mais ambivalência. Por fim, quando o terapeuta desafiou o cliente depois dos MAs: na fase inicial, o cliente respondeu essencialmente com mais ambivalência (50,00%); na fase média, principalmente invalidou (37,50%) ou gerou mais ambivalência (32,50%); e, na fase final, o cliente validou mais frequentemente (47,37%), embora a maioria das vezes tenha respondido à intervenção do terapeuta ou com invalidação (31,58%) ou com mais ambivalência (21,05%). Tabela 4 Resposta do Cliente às Intervenções do Terapeuta Depois dos Momentos de Ambivalência, nas Diferentes Fases de Terapia. Fase da Terapia Intervenção do Terapeuta depois do Momento de Ambivalência Resposta do Cliente Validação Invalidação Ambivalência Início Desafio 33,33% 16,67% 50,00% Suporte Problema 100,00% Suporte Inovação 100,00% Meio Desafio 30,00% 37,50% 32,50% Suporte Problema 100,00% Suporte Inovação 66,67% 11,11% 22,22% Fim Desafio 47,37% 31,58% 21,05% Suporte Problema 93,33% 6,67% Suporte Inovação
AMBIVALÊNCIA NA PERTURBAÇÃO OBSESSIVO-COMPULSIVA E INTERAÇÃO CLIENTE-TERAPEUTA 20 Posto isto, os MAs foram precedidos essencialmente por desafio, em todas as fases. A ambivalência foi gerida, no início e meio, essencialmente com desafio novamente. No fim da terapia, também é gerida pelo terapeuta na maioria das vezes com desafio, mas existe uma maior proporção de suporte focado no problema, havendo também mais validação, por parte do paciente. Interação cliente-terapeuta nos Momentos de Resolução Que interações precederam e seguiram os Momentos de Resolução por dominância, nas diferentes fases da terapia? O tipo de intervenção que mais precederam Momentos de Resolução por dominância (Tabela 5), no início e no fim, foram essencialmente intervenções do tipo de suporte. No início, maioritariamente suporte focado na inovação (50,00%), e no fim suporte focado na inovação (28,57%) e focado no problema (28,57%) de igual forma. No entanto, no fim da terapia, o desafio (42,86%) tem um peso por si só maior do que qualquer um dos tipos de suporte nessa mesma fase. No meio, o mesmo não acontece, visto que a intervenção predominante é o desafio, com 83,33%. Tabela 5 Intervenções do Terapeuta Antes dos Momentos de Resolução por Dominância, nas Diferentes Fases de Terapia. Intervenção do Terapeuta Fase da Terapia Início Meio Fim Desafio 16,67% 83,33% 42,86% Suporte Problema 33,33% 16,67% 28,57% Suporte Inovação 50,00% 28,57% O suporte focado na inovação foi o tipo de intervenção que mais seguiu os Momentos de Resolução por dominância (Tabela 6) com 50,00%, 66,66% e 64,29%, para o início, meio e fim, respetivamente. Tabela 6 Intervenções do Terapeuta Depois dos Momentos de Resolução por Dominância, nas Diferentes Fases de Terapia. Intervenção do Terapeuta Fase da Terapia Início Meio Fim Desafio 33,33% 16,67% 28,57% Suporte Problema 16,67% 16,67% 7,14%
AMBIVALÊNCIA NA PERTURBAÇÃO OBSESSIVO-COMPULSIVA E INTERAÇÃO CLIENTE-TERAPEUTA 21 Suporte Inovação 50,00% 66,66% 64,29% Como é que o cliente respondeu às intervenções do terapeuta depois dos Momentos de Resolução por dominância, nas diferentes fases da terapia? Relativamente à resposta do cliente à intervenção do terapeuta depois dos Momentos de Resolução por dominância (Tabela 7), quando o terapeuta suportou o cliente, focando-se no problema, em todas as fases, o cliente validou sempre a intervenção. Quando o terapeuta suportou o cliente, mas focando-se na inovação, o cliente também validou sempre a intervenção no início e no fim, embora em 25,00% das vezes, na fase média, o cliente tenha respondido com invalidação à intervenção. Por fim, quando o terapeuta desafiou o cliente, este validou sempre nas fases inicial e média, no entanto, na fase final, o cliente respondeu ora validando (50,00%), ora invalidando (50,00%) a intervenção do terapeuta. Tabela 7 Resposta do Cliente às Intervenções do Terapeuta Depois dos Momentos de Resolução por Dominância, nas Diferentes Fases de Terapia. Fase da Terapia Intervenção do Terapeuta depois do Momento de Resolução Resposta do Cliente Validação Invalidação Ambivalência Início Desafio 100,00% Suporte Problema 100,00% Suporte Inovação 100,00% Meio Desafio 100,00% Suporte Problema 100,00% Suporte Inovação 75,00% 25,00% Fim Desafio 50,00% 50,00% Suporte Problema 100,00% Suporte Inovação 100,00% Que interações precederam e seguiram os Momentos de Resolução por negociação, nas diferentes fases da terapia? O tipo de intervenção por parte do terapeuta que mais precedeu os Momentos de Resolução por negociação (Tabela 8), no início e no meio foi o suporte, sendo que todas as negociações no início foram precedidas por suporte focado na inovação e no meio por suporte focado no problema. No fim, as
AMBIVALÊNCIA NA PERTURBAÇÃO OBSESSIVO-COMPULSIVA E INTERAÇÃO CLIENTE-TERAPEUTA 22 resoluções por negociação não foram precedidas por um único tipo de intervenção como nas fases anteriores, existindo não só intervenções de suporte, na maioria focado na inovação (55,6%), como também de desafio (33,33%). Tabela 8 Intervenções do Terapeuta Antes dos Momentos de Resolução por Negociação, nas Diferentes Fases de Terapia. Intervenção do Terapeuta Fase da Terapia Início Meio Fim Desafio 33,33% Suporte Problema 100,00% 11,11% Suporte Inovação 100,00% 55,56% Tanto no início como no meio da terapia, o tipo de intervenção por parte do terapeuta que seguiu sempre os Momentos de Resolução por negociação (Tabela 9) foi o suporte focado na inovação. No fim, a intervenção que mais seguiu um Momento de Resolução por negociação foi o suporte focado na inovação (55,56%), seguido do desafio (33,33%). Tabela 9 Intervenções do Terapeuta Depois dos Momentos de Resolução por Negociação, nas Diferentes Fases de Terapia. Intervenção do Terapeuta Fase da Terapia Início Meio Fim Desafio 33,33% Suporte Problema 11,11% Suporte Inovação 100,00% 100,00% 55,56% Como é que o cliente respondeu às intervenções do terapeuta depois dos Momentos de Resolução por negociação, nas diferentes fases da terapia? Relativamente à resposta do cliente à intervenção do terapeuta depois dos Momentos de Resolução por negociação (Tabela 10), em todas as fases da terapia, quando a intervenção era de suporte, quer focado na inovação, quer focado no problema (o que acontece apenas no fim), o cliente validou sempre. Quando era seguido de desafio, o que acontece apenas no fim também, a maior parte das vezes o cliente validou (66,67%), no entanto, em 33,33% das vezes o cliente respondeu com invalidação à intervenção do terapeuta.
AMBIVALÊNCIA NA PERTURBAÇÃO OBSESSIVO-COMPULSIVA E INTERAÇÃO CLIENTE-TERAPEUTA 23 Tabela 10 Resposta do Cliente às Intervenções do Terapeuta Depois dos Momentos de Resolução por Negociação, nas Diferentes Fases de Terapia. Fase da Terapia Intervenção do Terapeuta depois do Momento de Resolução Resposta do Cliente Validação Invalidação Ambivalência Início Desafio Suporte Problema Suporte Inovação 100,00% Meio Desafio Suporte Problema Suporte Inovação 100,00% Fim Desafio 66,67% 33,33% Suporte Problema 100,00% Suporte Inovação 100,00% De forma geral, os Momentos de Resolução foram precedidos principalmente por intervenções de suporte, essencialmente suporte focado na inovação. Esta resolução de ambivalência foi gerida em todas as fases com muito suporte, essencialmente suporte focado na inovação, novamente. O desafio precede mais as resoluções por dominância do que as por negociação, sendo que as resoluções por negociação são precedidas quase exclusivamente por suporte focado na inovação. Discussão Este estudo pretendeu explorar o modo como a ambivalência é resolvida num caso de sucesso diagnosticado com POC, assim como perceber que tipo de intervenções, por parte do terapeuta, antecederam e seguiram a emergência de ambivalência e da sua resolução. Ambivalência e Resolução de Ambivalência Relativamente ao progresso da ambivalência ao longo do processo terapêutico, neste caso, houve uma descida dos valores de QAP (Oliveira et al., 2017), sendo que esta medida de autorrelato de ambivalência atinge os seus valores mais baixos e clinicamente não significativos nas últimas sessões. Quanto à frequência dos MAs (Braga et al., 2019; Gonçalves et al., 2011), uma medida observacional de ambivalência, os resultados exibiram uma tendência decrescente na fase final da terapia, tendo-se registado frequências nulas nas últimas sessões. Estes resultados vão de encontro ao que estudos com outras perturbações, nomeadamente com a depressão, sugeriram que, em casos de sucesso, a
AMBIVALÊNCIA NA PERTURBAÇÃO OBSESSIVO-COMPULSIVA E INTERAÇÃO CLIENTE-TERAPEUTA 30 and ambivalence on therapy outcomes in cognitive behavioural therapy for generalized anxiety disorder. Cognitive Behaviour Therapy, 44 (1), 44-53. https://doi.org/10.1080/16506073.2014.959038 Calkins, A. W., Berman, N. C., & Wilhelm, S. (2013). Recent advances in research on cognition and emotion in OCD: A review. Current Psychiatry Reports, 15 (5), 357. https://doi.org/10.1007/s11920-013-0357-4 Engle, D., & Arkowitz, H. (2008). Viewing resistance as ambivalence: Integrative strategies for working with resistant ambivalence. Journal of Humanistic Psychology, 48 (3), 389-412. doi: 10.1177/0022167807310917 Glynn, L. H., & Moyers, T. B. (2010). Chasing change talk: The clinician's role in evoking client language about change. Journal of substance abuse treatment, 39 (1), 65-70. Gonçalves, M. M., Ribeiro, A. P., Mendes, I., Matos, M., & Santos, A. (2011). Tracking novelties in psychotherapy process research: The innovative moments coding system. Psychotherapy Research, 21 (5), 497-509. http://dx.doi.org/10.1080/10503307.2011.560207 Gonçalves, M. M., Ribeiro, A. P., Santos, A., Gonçalves, J., & Conde, T. (2009). Manual for return to the problem coding system —Version 2. Unpublished manuscript, University of Minho, Braga, Portugal. Lambert, M. J., Finch, A., Okiishi, J., and Burlingame, G. (2005). Administration and scoring manual for the OQ-10.2. (Salt Lake City, UT: OQ Measures, LLC). Leiman, M., & Stiles, W. B. (2001). Dialogical sequence analysis and the zone of proximal development as conceptual enhancements to the assimilation model: The case of Jan revisited. Psychotherapy Research, 11 , 311–330. doi:10.1080/713663986 Miller, W. R., Benefield, R. G., & Tonigan, J. S. (1993). Enhancing Motivation for Change in Problem Drinking: A Controlled Comparison of Two Therapist Styles. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 61 (3), 455-461. Miller, W. R., Rollnick, S. (2013). Motivational Interviewing: Helping people change . New York: The Guilford Press. Moritz, S., Niemeyer, H., Hottenrott, B., Schilling, L., & Spitzer, C. (2013). Interpersonal ambivalence in obsessive-compulsive disorder. Behavioural and Cognitive Psychotherapy , 41 (5), 594-609. https://doi.org/10.1017/S1352465812000574 Oliveira, J. T., Ribeiro, A. P., & Gonçalves, M. M. (2017). Questionário de Ambivalência em Psicoterapia (QAP). In M. M. Gonçalves, M. R. Simões, & L. S. Almeida (Eds.), Psicologia Clínica e da Saúde:
AMBIVALÊNCIA NA PERTURBAÇÃO OBSESSIVO-COMPULSIVA E INTERAÇÃO CLIENTE-TERAPEUTA 31 Instrumentos de Avaliação (pp. 101-113). Lisboa: PACTOR – Edições de Ciências Sociais, Forenses e da Educação. Ribeiro, A. P., Braga, C., Stiles, W. B., Teixeira, P., Gonçalves, M. M., & Ribeiro, E. (2016). Therapist interventions and client ambivalence in two cases of narrative therapy for depression. Psychotherapy Research, 26 (6), 681–693. http://dx.doi.org/10.1080/10503307.2016.1197439 Ribeiro, A. P., Gonçalves, M. M., Silva, J. R., Brás, A., & Sousa, I. (2015). Ambivalence in narrative therapy: A comparison between recovered and unchanged cases. Clinical Psychology & Psychotherapy, 23 (2), 166-175. https://doi.org/10.1002/cpp.1945 Ribeiro, A. P., Ribeiro, E., Loura, J., Gonçalves, M. M., Stiles, W. B., Horvath, A. O., & Sousa, I. (2013). Therapeutic collaboration and resistance: Describing the nature and quality of the therapeutic relationship within ambivalence events using the Therapeutic Collaboration Coding System. Psychotherapy Research, 24 (3), 346–359. http://dx.doi.org/10.1080/10503307.2013.856042 Ribeiro, A., Mendes, I., Stiles, W., Angus, L., Sousa, I., & Gonçalves, M. M. (2014). Ambivalence in emotion-focused therapy for depression: the maintenance of problematically dominant selfnarratives. Psychotherapy Research, 24 (6), 702-710. https://doi.org/10.1080/10503307.2013.879620 Ribeiro, E., Ribeiro, A. P., Gonçalves, M. M., Horvath, A. O., & Stiles, W. B. (2012). How collaboration in therapy becomes therapeutic: The therapeutic collaboration coding system. Psychology and Psychotherapy, 86 , 294–314. doi:10.1111/j.2044-8341.2012.02066 Stiles, W. B. (2009). Logical operations in theory-building case studies. Pragmatic Case Studies in Psychotherapy, 5, 9–22. doi:10.14713/pcsp.v5i3.973 Stiles, W. B., Elliott, R., Llewelyn, S. P., Firth-Cozens, J. A., Margison, F. R., Shapiro, D. A., & Hardy, G. (1990). Assimilation of problematic experiences by clients in psychotherapy. Psychotherapy, 27, 411-420. doi:10.1037/0033-3204.27.3.411 Tolin, D. F., Wootton, B. M., Bowe, W., Bragdon, L. B., Davis, E. C., Gilliam, C. M., & Worden, B. (2013). Diagnostic Interview for Anxiety, Mood, and OCD and Related Disorders (DIAMOND). Hartford, CT: Institute of Living/Hartford HealthCare Corporation. Urmanche, A. A., Oliveira, J. T., Gonçalves, M. M., Eubanks, C. F., & Muran, J. C. (2019). Ambivalence, resistance, and alliance ruptures in psychotherapy: It’s complicated. Psychoanalytic Psychology, 36 , 139–147. doi:10.1037/pap0000237 Wachtel, P. L. (1999). Resistance as a problem for practice and theory. Journal of Psychotherapy
AMBIVALÊNCIA NA PERTURBAÇÃO OBSESSIVO-COMPULSIVA E INTERAÇÃO CLIENTE-TERAPEUTA 32 Integration, 9 , 103–118. doi:10.1023/A:1023262928748 Westra, H. A., & Norouzian, N. (2017). Using motivational interviewing to manage process markers of ambivalence and resistance in cognitive behavioral therapy. Cognitive Therapy and Research, 42 , 193–203. https://doi.org/10.1007/s10608-017-9857-6
33 Anexo A