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Universidade do Minho Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Song Lin novembro de 2021 Palavras e Expressões com Carga Cultural na Monografia «Conhecimentos da Cultura Chinesa»: Análise de Estratégias de Tradução e Comparação das Versões Portuguesa e Inglesa Song Lin Palavras e Expressões com Carga Cultural na Monografia «Conhecimentos da Cultura Chinesa»: Análise de Estratégias de Tradução e Comparação das Versões Portuguesa e Inglesa UMinho|2021
Universidade do Minho Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas Song Lin novembro de 2021 Palavras e Expressões com Carga Cultural na Monografia «Conhecimentos da Cultura Chinesa»: Análise de Estratégias de Tradução e Comparação das Versões Portuguesa e Inglesa Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Sun Lam e da Professora Doutora Bruna Peixoto Dissertação de Mestrado Mestrado em Tradução e Comunicação Multilingue
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇ Õ ES DE UTILIZAÇ Ã O DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho acadé mico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas prá ticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licenç a abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissã o para poder fazer um uso do trabalho em condiç õ es nã o previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, atravé s do Repositó riUM da Universidade do Minho. Licenç a concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuiç ã o CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
iii Agradecimentos A elaboraç ã o desta dissertaç ã o nã o teria sido possível sem a ajuda valiosa de vá rias pessoas. Por isso esta pá gina é dedicada a todos aqueles que me manifestaram o seu apoio e contributo. Antes de mais, gostaria de expressar a minha gratidã o à s minhas orientadoras, Professora Doutora Sun Lam e Professora Bruna Patrícia Cardoso Peixoto. Agradeç o profundamente à Professora Doutora Sun Lam, por toda a ajuda, orientaç ã o, generosidade e simpatia, nã o só durante a realizaçã o deste trabalho, mas també m durante o percurso acadé mico que me permitiu chegar até aqui. Um muito especial agradecimento dirige-se igualmente à Professora Bruna Patrícia Cardoso Peixoto, que apesar de estar muito ocupada conseguiu disponibilizar o seu tempo para orientar este projeto. Perante uma aluna estrangeira, teve toda a tolerâ ncia, paciê ncia e compreensã o face aos meus problemas do uso da língua portuguesa. Agradeç o-lhe sinceramente pelo seu interesse por este trabalho, pela orientaç ã o dedicada, pelas sugestõ es inspiradoras, pelas correç õ es atentas, pela responsabilidade e pela sinceridade na orientaç ã o desta dissertaç ã o. Queria expressar o meu sincero agradecimento à Diretora do Curso de Mestrado em Traduç ã o e Comunicaç ã o Multilingue, Professora Doutora Maria Filomena Pereira Rodrigues Louro, pela oportunidade que me proporcionou de frequentar este mestrado na Universidade do Minho, pela confianç a depositada, pela ajuda imensa e pela paciê ncia demonstrada, ao nível pessoal e acadé mico. També m é impossível deixar de agradecer a todos os docentes e colegas no â mbito da traduç ã o e comunicaç ã o multilingue pelo conhecimento profissional e pela compartilha de experiê ncias que enriqueceram todo o meu percurso acadé mico. Nã o posso deixar de oferecer um agradecimento profundo ao José Joaquim Rodrigues Fernandes e à Maria Alice Arantes Cracel Fernandes, “os meus pais portugueses”, que não só me alugaram um quarto confortável, mas també m me ofereceram um lar cheio de amor e carinho, que me ajudaram a vencer os receios e hesitaç õ es no período inicial. Foi uma grande sorte termo-nos encontrado na vida. Fico-lhes muito agradecida pela consideraç ã o, paciê ncia, simpatia, amizade e ajuda que me dispensaram, e acima de tudo, pelo carinho e companhia que todos os dias me fizeram sentir. Agradeç o a toda a família portuguesa que me acolheu de braç os abertos. Agradeç o aos meus pais e aos meus avó s pelo carinho e pelo apoio firme. Agradeç o, com devido respeito, a todos os que me ajudaram e acompanharam nos momentos difíceis e felizes.
iv DECLARAÇ Ã O DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboraç ã o do presente trabalho acadé mico e confirmo que nã o recorri à prá tica de plá gio nem a qualquer forma de utilizaç ã o indevida ou falsificaç ã o de informaç õ es ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboraç ã o. Mais declaro que conheç o e que respeitei o Có digo de Conduta É tica da Universidade do Minho.
v Palavras e Expressõ es com Carga Cultural na Monografia « Conhecimentos da Cultura Chinesa» : Aná lise de Estraté gias de Traduç ã o e Comparaç ã o das Versõ es Portuguesa e Inglesa Resumo No contexto de globalizaçã o atual, a comunicaçã o intercultural entre a China e os países lusó fonos tem-se tornado, indubitavelmente, cada vez mais ampla. Na traduçã o Chinê s - Portuguê s, é exigida uma maior atenç ã o por parte do tradutor no tratamento de palavras e expressõ es que contê m conotaç õ es específicas culturais, que representam a cristalizaç ã o da cultura chinesa, possuindo estruturas e caraterísticas morfológicas completamente diferentes em relaçã o à s línguas ocidentais. A presente dissertaç ã o foca-se na traduç ã o das palavras e expressõ es chinesas com carga cultural, partindo de um estudo de caso da monografia intitulada « Conhecimentos da Cultura Chinesa – 中国文化常 识 zh ō ngguó wé nhuà chá ngshì » , com ediç õ es bilingues Chinê s/Portuguê s e Chinê s/Inglê s. No primeiro capítulo, procede-se a uma breve apresentaç ã o desta monografia e da Teoria da Receç ã o, bem como da definiç ã o das palavras e expressõ es com carga cultural e sua categorizaç ã o. O segundo capítulo explora a metodologia de traduç ã o sob o Prisma da Teoria da Receçã o, demonstrando seis estraté gias concretas de traduç ã o. O ú ltimo capítulo, permite-me, atravé s da minha visã o como aprendente e tradutora trilingue, fazer uma comparaç ã o entre as traduç õ es portuguesas e inglesas, atravé s de uma aná lise qualitativa e quantitativa de um corpus construído a partir de exemplos selecionados da referida monografia. Este trabalho visa averiguar as estraté gias de traduç ã o adotadas na monografia bilingue para cada categoria das palavras e expressõ es com carga cultural e mostrar os problemas e soluç õ es encontradas, contribuindo para a revisã o de traduç ã o e dando algumas sugestõ es para aqueles que tenham interesse nos estudos associados ao tema desta dissertaç ã o no futuro. Palavras-chave: aná lise comparativa de traduçõ es Chinê s/Portuguê s e Chinê s/Inglê s, cultura chinesa, estraté gias de traduç ã o, palavras e expressõ es com carga cultural
vi Culture–Loaded Words and Expressions in the Monograph « Common Knowledge About Chinese Culture» : Analysis of Translation Strategies and Comparison of the Portuguese and English Versions Abstract In current context of globalization, the intercultural communication between China and Portuguese-speaking countries becomes undoubtedly wide. In Chinese - Portuguese translation, translators should pay the greatest attention to translate the words and expressions with specific cultural connotations, because they have completely different structures and morphological characteristics from those of western languages to represent the crystallization of corresponding culture. The present dissertation focuses on the translation of Chinese culture-loaded words and expressions, starting from a case study of the monograph entitled « Common Knowledge About Chinese Culture – 中国文化常识 zh ō ngguó wé nhuà chá ngshì » with bilingual Chinese/Portuguese and Chinese/English editions. In the first chapter, this monograph and the Reception Theory are briefly introduced, and then, the definition of culture-loaded words and expressions, as well as their categorization are presented. The second chapter explores the translation methodology from the point of view of Reception Theory, and demonstrates six concrete strategies of translation. In the last chapter, from my point of view as a trilingual learner and translator, the qualitative and quantitative analysis and comparison are made between Portuguese and English translations of the corpus built from selected examples in the aforementioned monograph. This work aims to ascertain the translation strategies adopted for each category of culture-loaded words and expressions in the bilingual monograph, and shows the problems and solutions encountered throughout it, which contributes to the translation review and provides some suggestions for those who are interested in the relative studies in the future. Keywords: chinese culture, comparative analysis of Chinese/Portuguese and Chinese/English translations, culture-loaded words and expressions, translation strategies
vii 《中国文化常识》中的文化负载词及表达:翻译策略分析及葡萄牙语和英语版本的比较 摘要 全球化背景下,中国与葡语国家间的跨文化交流日益频繁。在中-葡翻译中,译者应 留意具有特殊文化涵义的词汇与表达,因其具有与西方语言完全不同的结构和词法特 征,能够传递相应的文化内涵。 本文以《中国文化常识》(中/葡、中/英双语版本)为对象,着重研究中国文化负 载词的翻译。第一章中,简要介绍该专著和“接受理论”,并对文化负载词进行定义和分 类。第二章基于“接受理论”探讨文化负载词的翻译方法,示范了六种翻译策略。最后一 章,由三语习者与译者视角,对比了所建语料库的英语和葡语翻译,并进行定性与定量 分析。 本文旨在阐释《中国文化常识》中各类文化负载词的翻译策略,针对遇到的问题提 出解决方案,助益该专著的翻译校订,并提出些许建议,谨供相关学者参考。 关键词:翻译策略,文化负载词及表达,中国文化,中/葡与中/英翻译的比较分析
xiv as línguas, sendo oferecido por fim o pinyin , tudo dentro das aspas, como se transcreve de seguida: « Conhecimentos da Cultura Chinesa – 中国文化常识 zh ō ngguó wé nhuà chá ngshì » 2. Palavras ou expressõ es inseridas em corpo de texto: a) Quando a palavra ou expressã o a destacar é Chinê s: apresenta-se primeiro os carateres chineses, seguidos de pinyin . Normalmente, acompanhar-se-á posteriormente a traduç ã o em Portuguê s ou explicaç õ es para clarificar o seu sentido, de acordo com a exemplificaç ã o que se apresenta. Ex: A expressã o 科举考试 k ē j ǔ k ǎ oshì é um tipo de sistema social relacionado com exames imperiais na China. b) Quando as palavras e expressõ es chinesas aparecem-se em corpo de texto para informaç ã o complementar, inserido em frase portuguesa, oferece-se primeiramente em Portuguê s, sendo apresentado entre parê ntesis em Chinê s seguido de pinyin . Ex: No ritual tradicional de casamento chinê s, a noiva cobre a cabeç a e o rosto com um vé u vermelho de seda (红盖头 hó ng gà itou ), cobrindo a sua vergonha. 3. Transliteraç ã o do chinê s neste trabalho: consiste no uso do pinyin (romanizaç ã o dos caratares chineses normalizada oficialmente), sem indicaç ã o de tons. Ex: Na monografia « Conhecimentos da Cultura Chinesa - 中国文化常识 zh ō ngguó wé nhuà chá ngshì » , há inú meras palavras e expressõ es que nã o tê m equivalentes diretos em portuguê s, pelo que uma das soluçõ es adotadas pelo tradutor é deixar a transliteraç ã o do chinê s, acrescentando explicaçõ es quando for necessá rio. (aqui o realce a negrito foi acrescentado por nó s) • Fonte dos Exemplos em Ediç õ es Bilingues É preciso salientar que todos os exemplos analisados neste trabalho oferecem indicaç ã o da pá gina em que ocorrem na versã o bilingue da monografia em aná lise.
1 Introduç ã o Atualmente, no contexto de internacionalizaç ã o, a comunicaç ã o intercultural tem-se tornado, indiscutivelmente, cada vez mais ampla. A fim de promover a compreensã o cultural, é imprescindível a realizaç ã o de uma comunicaç ã o eficaz e capaz de respeitar e entender a maneira de viver, pensar e agir de outro povo. Neste contexto, a atividade da traduç ã o é uma das realizaçõ es da representaç ã o de um povo atravé s da língua. No processo de traduç ã o, nã o é raro encontrar algumas palavras e expressõ es com carga cultural que exigem cuidado e abordagens diferentes por parte do tradutor. Estas palavras e expressõ es, que manifestam particularidades pró prias e específicas, sã o consideradas como uma pé rola de determinada língua, em que o componente cultural se demonstra com mais intensidade em relaç ã o à s outras expressõ es. Normalmente, para os falantes nativos é fá cil compreender tal carga cultural. No entanto, o sentido implícito e completo destas palavras e expressõ es culturais nã o é de fá cil compreensã o para todos os estrangeiros. Na língua chinesa, por exemplo, as palavras e expressõ es com carga cultural, que surgiram no processo da evoluç ã o da cultura, constituem uma das maiores riquezas da civilizaç ã o chinesa. Para algué m que nã o tem Chinê s como língua materna, a tarefa de entender a verdadeira aceçã o de tais expressõ es é bastante á rdua. Portanto, na passagem destes elementos culturais, o tradutor deve estabelecer uma relaç ã o nã o apenas entre os aspetos linguísticos, mas també m de todo o contexto cultural, social e histó rico entre a língua de partida e de chegada. Assim sendo, a traduç ã o de palavras e expressõ es com carga cultural reveste-se de crucial importâ ncia, especialmente no mundo atual, perante uma globalizaç ã o cada vez mais intensa, pelo que a forma como estas sã o traduzidas tem vindo a ser um tó pico cada vez mais atrativo no seio da investigaç ã o acadé mica. Graç as a esta visã o, sentimos pertinente explorar a metodologia de traduç ã o destinada a estas palavras e expressõ es culturalmente específicas. Apó s uma revisã o da literatura, optamos, neste trabalho, pela Teoria da Receç ã o como fundamento da metodologia, uma vez que esta oferece conceitos essenciais aos Estudos de Traduç ã o. Para alé m disso, escolhemos como caso de estudo a monografia « Conhecimentos da Cultura Chinesa – 中国文化常识 zh ō ngguó wé nhuà chá ngshì » , em versã o portuguesa e inglesa, dado que há inúmeras palavras e expressõ es culturais nesta obra que favorecem a sua leitura e transparê ncia e transmitem um maior conhecimento sobre a cultura chinesa. Por conseguinte, o nú mero destas palavras e expressõ es culturais é relativamente grande, o que possibilita a recolha de exemplos para
2 uma aná lise quantitativa e qualitativa mais refinada. Acresce ainda que as duas ediç õ es bilingues (Chinê s/Portuguê s e Chinê s/Inglê s) proporcionam as condiç õ es necessá rias para a prossecuç ã o desta dissertaç ã o no contexto trilingue. O presente trabalho visa, entã o, uma abordagem metodoló gica baseada na Teoria da Receç ã o sobre a traduç ã o das palavras e expressõ es culturalmente marcadas em Chinê s, assim como uma aná lise comparativa entre as respetivas traduçõ es em Portuguê s e Inglê s. Para este estudo, procuramos responder à s seguintes perguntas primordiais: • O que sã o as palavras e expressõ es com carga cultural? Qual é a sua classificaç ã o? • Como traduzir as palavras e expressõ es chinesas com carga cultural nã o só corretamente, mas també m pertinentemente na comunicaç ã o sino-portuguesa sob o prisma da Teoria da Receçã o? • Quais sã o as estraté gias concretas de traduç ã o destinadas a cada categoria? • No tocante à s estraté gias de traduç ã o, quais sã o as semelhanç as e diferenç as entre as versõ es portuguesa e inglesa por categoria? Relativamente à estrutura desta dissertaç ã o, o trabalho está organizado em trê s capítulos que abordarã o temas diretamente associados à s palavras e expressõ es chinesas com carga cultural e à s respetivas traduçõ es em Portuguê s e Inglê s. O primeiro capítulo focaliza-se na revisã o da literatura e no enquadramento teó rico. Procedemos, em primeiro lugar, à descriç ã o do estudo de caso deste trabalho, a monografia « Conhecimentos da Cultura Chinesa – 中国文化常识 zh ō ngguó wé nhuà chángshì ». Em seguida, apresentamos brevemente os conceitos basilares da Teoria da Receç ã o que representam o caminho que percorremos para formular a metodologia de traduç ã o. Posteriormente, discutimos a repercussã o desta teoria nos Estudos de Traduç ã o na China. No fim deste capítulo, elucidamos a definiç ã o das palavras e expressõ es com carga cultural, tendo como objetivo identificar as suas possíveis aceç õ es, procedendo, de seguida, à sua categorizaç ã o, bem como à exposiç ã o dos exemplos selecionados a partir da obra em aná lise, com o intuito de oferecer uma compreensã o ampla e explícita. O segundo capítulo é dedicado à metodologia da traduç ã o aplicada a este tipo de palavras e expressõ es, sob o prisma da Teoria da Receçã o. Para a construçã o desta metodologia, procuramos, primeiramente, elaborar “dois horizontes de expetativa”, com enfoque no “horizonte de expetativa do autor e do leitor”, com base na Teoria da Receçã o. Partindo destes horizontes, tentamos resumir as principais estraté gias de traduç ã o presentes
3 na monografia selecionada para este estudo, que depois serã o també m aproveitadas para a aná lise comparativa do corpus no capítulo seguinte. Estas estraté gias irã o ser demonstradas atravé s de exemplos elucidativos, de forma a agilizar uma profunda compreensão por parte do leitor deste trabalho. Na sequê ncia da metodologia de traduç ã o, abordamos, no capítulo trê s, uma comparaç ã o das estraté gias de traduç ã o nas ediç õ es de Chinê s/Portuguê s e de Chinê s/Inglê s, por diferentes categorias, no terreno da aná lise quantitativa e qualitativa dos dados obtidos. Começ amos por apresentar o corpus que constitui a base empírica deste capítulo. Procedemos, na segunda parte, à identificaç ã o das estraté gias de traduç ã o presentes no corpus , mostrando-se as diferentes soluç õ es nas duas versõ es e discutindo-se os dados obtidos. Por fim, tentamos averiguar quais as principais estraté gias que podem ser aplicadas à s diferentes categorias, atravé s de uma aná lise quantitativa. Para alé m dos trê s capítulos referidos, desenvolvemos, por fim, uma conclusã o de acordo com os resultados da aná lise, assim como uma breve reflexã o sobre as limitaç õ es e o futuro deste trabalho.
4 Capítulo I - Revisã o da Literatura e Enquadramento Teó rico Este capítulo pretende apresentar o estudo de caso deste trabalho, a monografia intitulada « Conhecimentos da Cultura Chinesa – 中国文化常识 zh ō ngguó wé nhuà chá ngshì » , em versã o bilingue Chinê s/Portuguê s, bem como conceptualizar a Teoria da Receç ã o e definir palavras e expressõ es com carga cultural. Discutimos ainda, de forma breve, a repercussã o dessa Teoria nos Estudos de Traduç ã o, assim como a classificaç ã o dessas palavras e expressõ es culturais de forma a estabelecer um enquadramento teó rico geral para a aná lise da obra em questã o. 1.1 Apresentaç ã o da Monografia A monografia « Conhecimentos da Cultura Chinesa - 中国文化常识 zh ō ngguó wé nhuà chá ngshì » , compilada pelo Gabinete para os Assuntos Chineses Ultramarinos do Conselho de Estado da Repú blica Popular da China, é direcionada a aprendentes de Chinê s como língua estrangeira. Podendo ser utilizado como maté ria didá tica, esta monografia apresenta um conteú do alargado em termos da cultura chinesa. O mesmo pode ser utilizado ainda por todos os que manifestem interesse nesta temá tica. Nos ú ltimos anos, com o rá pido crescimento econó mico, social e cultural da China, acompanhando o seu estatuto internacional em ascensã o e os seus fortes laç os comerciais com o resto do mundo, tem-se vindo a testemunhar um aumento da procura de conhecimento sobre a realidade da China e do ensino de Chinê s. Com o propó sito de atender à procura por parte dos alunos estrangeiros de materiais que lhes permitam desenvolver conhecimentos vinculados à cultura chinesa, e de ao mesmo tempo promover o intercâ mbio cultural entre a China e o resto do mundo, o Gabinete para os Assuntos Chineses Ultramarinos do Conselho de Estado da Repú blica Popular da China elaborou ediç õ es bilingues em diferentes idiomas, as quais contê m o mesmo conteú do adaptado por especialistas, estudiosos e professores chineses e estrangeiros versados nos temas abordados sob a tutela do Hanban (Conselho Internacional da Língua Chinesa) e do Instituto Confú cio Central 1 . A monografia em versã o bilingue Chinê s/Portuguê s conta somente com a publicaç ã o de uma ediç ã o, datada de janeiro de 2015. A ediç ã o bilingue mais recente é a de Chinê s/Inglê s, tendo a mesma sido publicada em maio de 2017. Importa referir que os tradutores, tanto da versã o portuguesa 1 O Instituto Confú cio é uma organizaç ã o pú blica sem fins lucrativos que visa transmitir a cultura chinesa e dar apoio ao ensino de Chinê s, constituindo uma plataforma de intercâ mbio cultural entre a China e o resto do mundo. ( Hanban , 2014).
5 como da inglesa, sã o chineses e que as equipas de revisã o incluem dois sinó logos (um portuguê s e um inglê s). Os principais autores dessas ediç õ es sã o Ren Qiliang (任启亮) e Shi Xu (时序). O tradutor da ediç ã o Chinê s/Portuguê s é Yu Ling (蔚玲) e os revisores sã o Dé bora Portela e Zhou Hanjun (周汉军). O tradutor da ediç ã o Chinê s/Inglê s é Wang Guolei (王国蕾) e os revisores sã o Gu Zhengkun (辜正坤), Guo Zhuzhang (郭著章) e Devon Williams. No que se refere ao conteú do, esta obra traça um amplo leque. Divide-se em dez tó picos dedicados à cultura chinesa, como segue: Ideologia tradicional chinesa, Virtudes tradicionais chinesas, Literatura clá ssica da China, Ciê ncias e tecnologia na China antiga, Arte tradicional da China, Relíquias culturais da China, Arquitetura tradicional chinesa, Artesanato chinê s, Costumes populares chineses e Vida dos chineses. No início do cada tó pico, é apresentada uma breve introduç ã o, seguindo-se o conteú do, acompanhado de vá rias notas de rodapé a explicar algumas palavras e expressõ es idiomá ticas relativas a cada um dos temas. Com o propó sito de nã o sobrecarregar o leitor com informaç ã o e facilitar a compreensã o das temá ticas, os textos sã o curtos, acompanhados de inú meras imagens ilustrativas. A obra apresenta-se como uma janela que permite aos leitores desfrutarem de um maior conhecimento sobre a China, oferecendo paralelamente uma ponte de acesso ao mundo da língua chinesa. 1.2 Teoria da Receç ã o e Traduç ã o Tentamos, nesta parte, demonstrar uma conceptualizaç ã o que sirva para refletir sobre a Teoria da Receç ã o, també m chamada de Esté tica da Receçã o, no â mbito da traduç ã o, com base na discussã o teó rica desenvolvida por estudiosos nesta temá tica. Para tal, apresentamos primeiramente uma síntese da Teoria da Receç ã o, com os conceitos basilares. Discutimos posteriormente a sua influê ncia e repercussã o no campo dos Estudos de Traduç ã o na China. 1.2.1 Síntese da Teoria da Receçã o No â mbito da literatura, a Teoria da Receç ã o trouxe uma nova perspetiva para a autoria textual. A Teoria da Receç ã o, uma teoria literá ria que tem em vista a obra escrita enquanto produç ã o e receçã o, que discute a relaçã o direta entre autor, obra e leitor, foi formulada pela primeira vez em 1967, na
6 Universidade de Constanç a, Alemanha, pelo que a mesma é por vezes denominada também “Escola de Constança”, sendo representada por vá rios vultos dessa Universidade, tais como Hans Robert Jauss, Wolfgang Iser, Manfred Fuhrmann, Karlheinz Stierle, Hans Ulrich Gumbrecht etc. Destes, Jauss e Iser foram os principais expoentes a construir caminhos teó ricos para a compreensã o da obra literá ria sob um novo â ngulo, contribuindo significativamente para a formaç ã o e o desenvolvimento da Teoria da Receçã o (Figurelli, 1988). Apresentamos de seguida um apanhado sobre as principais ideias de ambos. Hans Robert Jauss (1994) é considerado o principal representante da Teoria da Receç ã o. Para ele, o cará ter artístico de um artigo é dado pelo efeito que o mesmo causa em seus leitores. Foi a partir da sua abordagem do ponto de vista da receç ã o que surgiu a expressã o “Esté tica da Receçã o”, da qual se destacam os dois conceitos mais importantes por si propostos: “horizonte de expetativa” e “distância estética”. Em relaç ã o ao primeiro conceito, “horizonte de expetativa”, Jauss (1994) entende que “[a] literatura como acontecimento cumpre-se primordialmente no horizonte de expetativa dos leitores, críticos e autores, seus contemporâneos e pósteros, ao experienciar a obra.” (p. 26). Nesta perspetiva, Jauss (1994) acrescenta que o “horizonte de expetativa” é responsável pela primeira reação e ato interpretativo do leitor ao texto literá rio, portanto, encontra-se no conhecimento individual que se rege por um conjunto de crenças, de princípios adquiridos e ideias apreendidas. Assim, as experiê ncias literá rias e aquisiçõ es culturais do leitor, sejam adquiridas atravé s de leituras prévias ou da vida quotidiana, pressupõem a sua base de saber, ou seja, o seu “horizonte de expetativa”. Quanto ao conceito “distância estética”, Jauss (1994) considera que uma obra pode satisfazer o horizonte de expetativa do leitor ou causar o afastamento entre ambos, em maior ou menor grau, levando-o a uma nova conceçã o da realidade. A distâ ncia entre o horizonte de expetativa do leitor e a sua realizaç ã o é designada pelo autor “distância estética”. Iser (1978), um dos teó ricos da Esté tica da Receçã o, procura aprofundar as relaç õ es entre a obra e o leitor, buscando a receç ã o, isto é , resposta pú blica ao texto. No decorrer de formulaç ã o das ideias do Iser, foram desenvolvidos alguns termos conceituais, sendo dada maior ê nfase à Teoria da Receçã o. Apresentamos em seguida os dois termos mais importantes desta teoria. Segundo Iser (1978), numa obra literária existem “espaç os vazios” ( blanks em inglê s), també m chamados “lacunas” ( gaps em inglê s), que sã o articulaç õ es invisíveis, possibilitando a conexã o dos segmentos textuais. Tais espaç os vazios servem como uma condiç ã o para um diá logo eficiente entre a
7 obra literá ria e o seu leitor, uma vez que “whenever the reader bridges the gaps, communication begins. The gaps function as a kind of pivot on which the whole text-reader relationship revolves. Hence the structured blanks of the text stimulate the process of ideation to be performed by the reader on terms set by the text” (p. 169). É inegável que completar esses espaç os constitui um desafio para o leitor, na medida em que se provoca um rompimento com o horizonte das expetativas do leitor, implicando assim uma nova organizaç ã o das representaç õ es já construídas. Iser (1978) declara que tais espaç os vazios nã o necessitam, forç osamente e completamente, de ser preenchidos, mas que precisam da formaç ã o do objeto imaginá rio e das mudanç as de perspetiva geradas pelo leitor. Com isso, Iser (1978) propõ e que o processo de preenchimento dos espaç os vazios do texto literá rio conduz o leitor à aç ã o e ao uso da sua capacidade imaginativa e criativa. Uma boa leitura depende do diá logo entre o autor e o leitor. O autor deve fornecer um equilíbrio entre os espaç os vazios e o pró prio texto, e o leitor deve ter capacidade emocional e intelectual e vontade de participar neste diá logo proposto pelo autor, sendo que o processo de leitura é um processo dialó gico e criativo que preenche os espaç os vazios para aceder ao sentido de forma subjetiva e imaginativa. Iser (1978) també m introduz o conceito de “leitor implícito”, entendido como uma estrutura textual, não possuindo existência real, que proporciona “pistas” no ato da leitura. De acordo com o autor (Iser 1978), If, then, we are to try and understand the effects caused and the responses elicited by literary works, we must allow for the reader’s presence without in any way predetermining his character or his historical situation. We may call him, for want of a better term, the implied reader. He embodies all those predispositions necessary for a literary work to exercise its effect—predispositions laid down, not by an empirical outside reality, but by the text itself. Consequently, the implied reader as a concept has his roots firmly planted in the structure of the text; he is a construct and in no way to be identified with any real reader. (p. 34) A partir deste conceito, Iser (1978) acrescenta que o leitor implícito nã o é um leitor real, nem mesmo um leitor virtual: trata-se de um leitor específico, com habilidades “refinadas” de leitura, com grande bagagem de conhecimento prévio, ou seja, especializado. Assim, no processo de criaç ã o de uma obra literá ria, atravé s da sua organizaç ã o textual, o leitor implícito emerge antecipadamente na mente do autor, tendo o autor de considerar os efeitos previstos sobre o leitor. Portanto, no processo de
8 leitura, o leitor implícito facilita o leitor real a encontrar o melhor mé todo de interpretaç ã o no ato de leitura e, simultaneamente, a obra-fonte literá ria assume o controlo pertinente da atividade do leitor. Resumidamente, Jauss (1994) sustenta que as obras literá rias sã o consideradas um conjunto aberto de possibilidades, uma vez que leitores de diferentes contextos culturais criam horizontes e assimilaç õ es desiguais a cada leitura, o que provoca uma experiê ncia esté tica distinta. Por sua vez, Iser (1978) considera que os textos apresentam apenas organizaç õ es ou estruturas primá rias, deixando muito por elucidar ou imaginar ao leitor e salienta que a leitura literá ria é um processo de interaç ã o entre o texto e o leitor, o que representou um padrã o revolucioná rio de tratamento das críticas literá rias e da histó ria de literatura. 1.2.2 Teoria da Receç ã o na traduç ã o na China A Teoria da Receçã o nos Estudos de Traduç ã o tem uma histó ria com mais de 30 anos na China. O estudo mais antigo sobre esta teoria está registado no Jornal Chinê s dos Tradutores (« 中国翻译 zh ō ngguó f ā nyì ») em 1987, num artigo redigido por Yang Wuneng (1987), em que o autor aponta que os estudos anteriores se davam demasiado ê nfase à relaç ã o entre o texto original e o tradutor, ignorando o papel do escritor da obra-fonte, bem como do leitor-alvo. Yang Wuneng (1987) afirma que, na traduç ã o literá ria, a identidade dos tradutores é abrangente, sendo que estes sã o nã o só acadé micos e investigadores, mas també m inté rpretes e recetores. Um tradutor profissional deve concluir a sua tarefa, a qual inclui a interpretaç ã o, aceitaç ã o e recriaç ã o do texto, considerando simultaneamente o autor, o texto original e o leitor-alvo. Posteriormente, surgiu um grande nú mero de artigos relacionados com a Teoria da Receç ã o e a traduç ã o. Cada vez mais teó ricos começ aram a abandonar a visã o tradicional dos Estudos de Traduç ã o, passando a adotar esta nova perspetiva teó rica. Em 1990, Mu Lei (1990) introduz conceitos e mé todos de traduç ã o do ponto de vista da Teoria da Receçã o, evidenciando vá rios exemplos típicos de traduç ã o das expressõ es idiomá ticas. He Wei (1999) declara que há uma relaç ã o recíproca entre o texto e o leitor, e o texto-fonte nã o pode ser o ú nico fator considerado para a traduç ã o. Para He Wei, uma traduç ã o é , na verdade, uma comunicaç ã o e diá logo entre o texto e o leitor/tradutor. Ma Xiao (2000) faz um esclarecimento sobre o papel do recetor e a sua capacidade de aceitaç ã o ao nível linguístico e cultural no processo da traduç ã o literá ria.
9 Bian Jianhua (2005) considera que a Teoria da Receçã o oferece uma nova visã o em relaç ã o à crítica da traduç ã o. O tradutor qualificado deve alcanç ar um equilíbrio entre o texto original e a subjetividade do leitor. Hu Kaibao (2006) afirma a importâ ncia da Teoria da Receçã o nos Estudos de Traduç ã o. Para alé m disso, expressa que nã o existe uma traduç ã o definitiva. O leitor-alvo desempenha um papel fundamental e decisivo na receçã o da traduç ã o, e nã o na pró pria traduç ã o do texto. Zhou Xiaomei e Lu Jun (2009) ressaltam a importâ ncia do conceito de “leitor implícito” formulado por Iser (1978) para os Estudos de Traduç ã o no Journal of Foreign Languages publicado pela editora da Universidade de Estudos Internacionais de Xangai, salientando que a atividade da traduç ã o pode ser considerada como uma aç ã o comunicativa entre o autor e o tradutor, devendo assim o bom tradutor considerar-se como o “leitor implícito”, respeitando e transmitindo o espírito do texto de partida, produzindo uma traduç ã o com fidelidade ao sentido do original e compatibilidade com o estilo do original. Levando-se em conta o que foi relatado acima, sabemos que a leitura literá ria é um tipo de diá logo entre o autor e o leitor, por meio da obra, e que o tradutor, como leitor especial, desempenha um papel fundamental na construçã o duma ponte intermé dia entre o autor e o leitor-alvo, sendo assim esta teoria dá importâ ncia fulcral aos Estudos de Traduç ã o. Dizemos que a atividade de traduç ã o també m é considerada como uma aç ã o comunicativa entre o autor e o tradutor. Para alé m disso, cogita-se que esta teoria fornece a um tradutor uma nova perspetiva, passando por um acentuado grau do papel do leitor. O tradutor atua inicialmente como um leitor, de forma a comunicar com o autor e os carateres surgidos no texto original e, em seguida, interpreta e traduz o sentido transmitido da língua de partida. Num contexto intercultural, ao longo da criaç ã o do texto-alvo, ocorre primeiramente uma fusã o entre o horizonte histó rico do tradutor e o horizonte do texto-fonte. O horizonte daí resultante é caraterizado pela linguagem e cultura de chegada, produzindo finalmente o texto-alvo. Desta forma, podemos afirmar que a Teoria da Receç ã o tem uma notável repercussã o no â mbito da traduçã o. 1.3 Palavras e Expressõ es com Carga Cultural Nesta secç ã o, propomo-nos levar a cabo uma apresentaç ã o das palavras e expressõ es com carga cultural, tendo como objetivo identificar as suas possíveis aceç õ es, procedendo de seguida à sua categorizaç ã o, bem como à exploraç ã o dos seus exemplos, selecionados a partir da obra
16 Ex3: LP (CN): 红盖头 hó ng gà itou (pá g. 228) LC (PT): vé u vermelho de seda sobre a cabeç a No ritual tradicional de casamento chinê s, a noiva cobre a cabeç a e o rosto com um vé u vermelho de seda (红盖头 hó ng gà itou ), cobrindo a sua vergonha. Quando os recé m-casados se deitam, o noivo retira o lenç o vermelho da face da noiva. Na cultura chinesa, a cor vermelha é importante, pois é um símbolo de amor, fidelidade, boa fortuna, animaç ã o, esperanç a, felicidade, etc., tendo frequentemente um sentido positivo. Portanto, o vé u vermelho da noiva representa as felicidades de casamento e atrai boa sorte. Para alé m disso, os chineses acreditam que o ato de cobrir a cabeç a com um vé u denota o fim do azar anterior; a retirada do vé u significa o começ o da vida e um futuro pró spero para os recé m-casados. Ex4: LP (CN): 月饼 yuè b ǐ ng (pá g. 248) LC (PT): bolo da lua No dia 15 de agosto do calendá rio lunar chinê s é realizada a Festa do Meio Outono. Segundo os costumes, neste dia os chineses apreciam a lua bonita, cheia e brilhante enquanto comem um tipo de doce tradicional chamado bolo da lua (月饼 2 yuè b ǐ ng ). Em algumas regiõ es do país, é també m chamado de bolo da reuniã o familiar (团圆饼 tuá nyuá n b ǐ ng ), uma vez que no pensamento dos chineses, este tipo de bolinho redondo simboliza a reuniã o e harmonia familiar. A parte externa dos bolos é estampada com figuras típicas de boa sorte. 1.3.2.3 Palavras e Expressõ es Sociais As palavras e expressõ es sociais com carga cultural demonstram costumes populares, tradiç õ es, regras sociais, padrõ es de comportamento, có digo de é tica, valores de moralidade, é poca, economia, política, virtudes tradicionais, estrutura familiar de diferentes grupos é tnicos, etc. Este tipo de vocabulá rio possui um cará ter ú nico de cultura. Ao contrá rio das palavras e expressõ es materiais com carga cultural que evidenciam os objetos percetíveis, as palavras e expressõ es sociais explicitam algo impercetível. Estas palavras e expressõ es tê m geralmente origem em factos sociais, podendo refletir certo contexto histó rico e cultural. Como por exemplo: 2 月饼 yuè b ǐ ng (bolo da lua) é um tipo de bolinho redondo chinê s, o qual é recheado pasta de feijã o vermelho ou de semente de ló tus, sendo um dos pratos principais na Festa do Meio Outono da China.
17 Ex1: LP (CN): 科举考试 k ē j ǔ k ǎ oshì (pá g. 8) LC (PT): Exames Imperiais A expressã o 科举考试 k ē j ǔ k ǎ oshì é um tipo de sistema social relacionado com os exames imperiais da China. Este tipo de exame, criado na dinastia Sui (d.C. 581 - 618), consistia num tipo de teste para selecionar de entre a populaç ã o os letrados e militares que viriam a colaborar na governaç ã o e defesa do país. Este sistema foi sendo aperfeiç oado ao longo dos seus 1300 anos de histó ria e abolido perto do final da dinastia Qing (1905). Quanto à cultura, o sistema de exames imperiais reflete a ideia política de que as pessoas sá bias conseguem governar o país (贤能治国 xiá n né ng zhìguó ), bem como o conceito nacional de grande unificaç ã o (大一统 dà y ī t ǒ ng ) e o valor educacional de que um bom estudioso vai ser um oficial (学而优则仕 xué é r y ō u zé shì ) formulado pelo confucionismo. Ex2: LP (CN): 奉亲养老 fè ngq ī n y ǎ ngl ǎ o (pá g. 18) LC (PT): respeito e amparo aos pais O respeito e amparo aos pais (奉亲养老 fè ngq ī n y ǎ ngl ǎ o ) é um dos valores essenciais de moralidade na China. No pensamento tradicional, a naç ã o chinesa considera o respeito e amparo aos pais, ao nível físico, psicoló gico e financeiro, como uma responsabilidade obrigató ria do bom filho. Desta forma, os chineses acreditam que só as pessoas que cuidam meticulosa e atenciosamente dos seus pais sã o honestas, fidedignas e gratas aos favores alheios. Portanto, esta expressã o social com carga cultural reflete um dos valores vitais de moralidade para a sociedade chinesa. Ex3: LP (CN): 庙会 mià ohuì (pá g. 236) LC (PT): feira de templo No mundo ocidental, existe o Carnaval que é uma grande festa com desfiles, brincadeiras, espetá culos e festejos. Na China, a feira do templo (庙会 mià ohuì ) é uma das atividades sociais mais importantes no Ano Novo Chinê s, constituindo també m ela pró pria uma forma ú nica de cultura folcló rica. Nesta feira, para alé m do comé rcio de vá rios produtos típicos e diferentes iguarias, també m se fazem apresentaç õ es artísticas e espetá culos de ó peras populares. Todas as atividades realizadas na feira de templo refletem a arte tradicional, os há bitos e os costumes locais, revestindo-se de grande importâ ncia no â mbito de promoç ã o e transmissã o da cultura chinesa. Sendo assim, em 2008, a feira do templo (庙会 mià ohuì ) foi considerada como “Patrimó nio cultural intangível da China” (国家级非 物质文化遗产 guó ji ā jí f ē iwù zhí wé nhuà yích ǎ n ).
18 1.3.2.4 Palavras e Expressõ es Filosó ficas As palavras e expressõ es filosó ficas com carga cultural expressam ideias, rituais, tradiç õ es, podendo ainda referir-se a objetos provenientes das crenç as religiosas, bem como a fabulosas personagens criadas atravé s de lendas do folclore, etc. Na China, a maioria dos chineses é , de alguma forma, influenciada pelo confucionismo. As ideias propagadas pelo seu fundador, Confú cio, constituem valores é ticos que repercutem em todos os â mbitos da vida. Para alé m disso, o budismo e o taoísmo també m prevalecem entre o povo chinê s desde a antiguidade, tendo també m estes uma enorme repercussã o na vida social. Numerosos mosteiros e templos construídos nos tempos antigos sã o uma forte evidê ncia que revela a popularidade destas duas religiõ es. Atualmente, muitas famílias chinesas vã o ao templo ou mosteiro para rezar pela paz e felicidade, nomeadamente em ocasiõ es especiais, tais como o Ano Novo Chinê s e o Festival das Lanternas 3 , etc. É neste contexto que se encontram as palavras e expressõ es intimamente relacionadas a estas crenç as, sendo uma demonstraç ã o explícita da crenç a religiosa, do sistema de valor, do modo de pensar, etc., dos chineses. Consideramos que a ideologia tradicional chinesa e os mitos chineses da antiguidade tê m grande impacto sobre o desenvolvimento da filosofia e da literatura chinesa, constituindo uma parte importante da cultura chinesa. Assim sendo, as palavras e expressõ es no que diz respeito à s crenç as religiosas, à mitologia e à literatura de lendas chinesas pertencem à s palavras e expressõ es filosó ficas com carga cultural. Na obra « Conhecimentos da Cultura Chinesa – 中国文化常识 zh ō ngguó wé nhuà chá ngshì » , surgem vá rias palavras e expressõ es filosó ficas, como por exemplo: Ex1: LP (CN): 修身养性 xi ū sh ē n y ǎ ngxìng (pá g. 2) LC (PT): culto moral e temperamento refinado Nesta expressã o filosó fica, 修身 xi ū sh ē n assume o significado de cultivar o cará ter moral ou de se ter uma alma pura e o coração verdadeiro e 养性 y ǎ ngxìng significa formar uma boa natureza humana. 3 O Festival das Lanternas é celebrado no dia 15 de janeiro do calendá rio lunar chinê s. Segundo a tradiç ã o, durante este festival, os chineses costumam apreciar as lanternas coloridas e adivinhar os enigmas nelas escritos.
19 Na ideologia tradicional chinesa, o culto moral e temperamento refinado (修身养性 xi ū sh ē n y ǎ ngxìng ) é um conceito importante que demonstra uma relaç ã o harmoniosa e perfeita entre o corpo e o espírito do Homem. O conceito desta expressã o faz parte da cultura chinesa. Lou Yulie (2019), professor de Filosofia da Universidade de Pequim, sustenta que a cultura chinesa é um tipo de cultura do culto moral e do temperamento refinado (修身养性 xi ū sh ē n y ǎ ngxìng ). Pode-se dizer que sob a influê ncia profunda do confucionismo na antiguidade, os chineses valorizavam esse tipo de ideologia tradicional mais do que raciocínio ló gico. Ex2: LP (CN): 女娲补天 N ǚ W ā b ǔ ti ā n (pá g. 32) LC (PT): Reparaç ã o do Cé u por Nu Wa Na antiga mitologia chinesa, a deusa Nu Wa (女娲 N ǚ W ā) é considerada como a mã e da humanidade. Reparação do Cé u por Nu Wa (女娲补天 N ǚ W ā b ǔ ti ā n ) é uma das histó rias mais antigas da mitologia chinesa. Diz-se que nã o havia Homem quando o cé u e a terra foram separados por Pangu 4 . Foi Nu Wa que criou o ser humano com barro amarelo. A partir daí, o Homem começ ou a viver em paz e felicidade na terra. Mas um dia o cé u desabou de repente, deixando um enorme buraco nas alturas. Como consequê ncia, aves de rapina voavam feroz e livremente, ferindo mortalmente as pessoas e inundaç õ es assolavam a terra, deixando os seres humanos numa situaçã o caó tica. Vendo todo o sofrimento do Homem, Nu Wa derreteu pedras coloridas para reparar o cé u e matou os animais de rapina, assim criando a sociedade humana e restabelecendo a paz e harmonia entre os humanos. Na cultura chinesa, esta histó ria reflete o espírito destemido dos antepassados da naç ã o chinesa na luta contra as catá strofes naturais. Ex3: LP (CN): 王母 wá ngm ǔ (pá g. 68) LC (PT): Rainha Mã e do Cé u A Rainha Mã e do Cé u (王母 wá ngm ǔ), considerada como uma divindade celeste de grandes poderes, é uma antiga deusa chinesa que surge frequentemente nos mitos e lendas da China antiga. També m é uma imortal simbolizada no taoísmo. A imagem da Rainha Mã e do Cé u (王母 wá ngm ǔ), para os chineses, reflete a beleza feminina ideal e simboliza harmonia, paz, saú de, longevidade, etc. 4 Na mitologia chinesa, Pangu (盘古 Páng ǔ) é considerado como o primeiro ser vivo no universo. A sua histó ria começ a antes do início dos tempos e serve como uma explicaç ã o para a criaç ã o do universo. Diz-se que Pangu nasceu de um ovo que sustentava todo o cosmos. Quando acabou por se libertar, libertou o universo e separou a terra e o cé u.
20 Ex4: LP (CN): 仙人 xi ā nré n (pá g. 230) LC (PT): imortais Na perceçã o dos chineses antigos, 仙人 xi ā nré n é um tipo de imortal que atua na vida de seus devotos. Com muita frequê ncia, os imortais sã o encontrados no taoísmo, lendas, obras literá rias e textos tradicionais. Os taoistas consideram-nos como o ideal má ximo visto que os imortais sã o eternos, livres e omnipotentes. Assim sendo, 得道成仙 dé dà o ché ngxi ā n (adquirir Tao 5 e tornar-se num imortal) constitui o credo religioso dos taoistas. 1.3.2.5 Palavras e Expressõ es Linguísticas As palavras e expressõ es linguísticas com carga cultural relacionam-se com os atributos específicos de uma língua, que retratam os traç os histó ricos e culturais. Consideramos que os prové rbios e as expressõ es idiomá ticas que originam em poemas, obras literá rias, lendas e contos alusivos pertencem à s expressõ es linguísticas com carga cultural. Veja-se alguns exemplos selecionados do livro « Conhecimentos da Cultura Chinesa – 中国文化 常识 zh ō ngguó wé nhuà chá ngshì » . Ex1: LP (CN): 三人行,必有我师焉 s ā nré n xíng, bìy ǒ u w ǒ sh ī y ā n (pá g. 4) LC (PT): Uma daquelas trê s pessoas caminhando, necessariamente, será meu professor Esta expressã o tem origem na obra « Analectos de Confú cio» (« 论语 lú ny ǔ» ), a qual constitui um importante livro doutrinal do confucionismo. A palavra trê s (三 s ā n ) expressa neste contexto um significativo ou elevado nú mero de pessoas. A palavra professor (师 sh ī) significa uma pessoa com as melhoras qualidades com quem os outros podem aprender. Esta expressã o significa que é melhor nã o se ser presunç oso, uma vez que sempre há algué m com quem se pode aprender. Cada pessoa tem os seus pontos fortes e mé rito, pelo que devemos aprender com uma atitude modesta as boas qualidades dos outros. Esta expressã o realça o mé rito da modé stia, levando a sabedoria do Confú cio a geraç õ es posteriores. 5 Apresentamos o conceito de “Tao” na página 30 deste trabalho.
21 Ex2: LP (CN): 亲尝汤药 q ī nchá ng t ā ngyà o (pá g. 18) LC (PT): provar o Xarope pela Mã e Esta expressã o surge dum conto popular da China que relata a histó ria do imperador Han Wen da dinastia Han do Oeste (a.C. 202 – d.C. 9), afamado por ser benevolente e um bom filho. Reza a histó ria que a sua mã e padecia na cama havia trê s anos e que o imperador cuidava dela dia e noite, provando pessoalmente o xarope que a mã e tinha de tomar antes de lho servir. Este conto, Provar o Xarope pela Mã e (亲尝汤药 q ī nchá ng t ā ngyà o ), representa as virtudes de respeito e amparo aos pais apreciadas pelos chineses, tendo sido divulgado ao longo do tempo, transmitindo atravé s das geraç õ es o conceito do bom filho. Ex3: LP (CN): 一诺千金 y ī nuò qi ā nj ī n (pá g. 24) LC (PT): Uma promessa vale por mil onç as Na língua chinesa, existe um tipo de expressã o, normalmente constituída por quatro carateres, designada chengyu (成语 ché ngy ǔ), podendo ser traduzida como expressõ es idiomá ticas. Este exemplo, uma promessa vale por mil onç as (一诺千金 y ī nuò qi ā nj ī n ), é uma chengyu , com origem num conto popular da China. Reza a histó ria que no período dos Reinos Combatentes, no reino Chu, havia um homem chamado Ji Bu (季布 Jì Bù ), famoso por nunca faltar à sua palavra. Ele era conselheiro do rei de Chu, e os seus conselhos ajudaram a derrotar o reino Han por vá rias vezes. Em 206 a.C., poré m, o rei do reino Han conseguiu estabelecer a dinastia Han do Oeste (a.C. 202 – d.C. 9), ordenou a prisã o de Ji Bu e anunciou que qualquer pessoa que apanhasse Ji Bu receberia mil onç as, enquanto aqueles que o escondessem seriam punidos com o extermínio de trê s clã s da sua família. No entanto, Ji Bu era um homem justo e nunca faltava à s suas promessas, pelo que todos o queriam proteger e ningué m abdicaria do paradeiro de Ji Bu por mil onç as. Desta forma surgiu um ditado entre o povo que dizia que a promessa de Ji Bu é mais valiosa do que ouro (得黄金百斤,不如得季布一诺 Dé huá ngj ī n b ǎ ij ī n, bù rú dé jìbù y ī nuò ). Dessa frase se originou a expressã o linguística “uma promessa vale por mil onç as (一诺千金 y ī nuò qi ā nj ī n )”. As chengyu possuem origem em histó rias antigas, literatura tradicional e contos chineses, transmitindo um grande leque de emoç õ es humanas, pertencendo assim à s expressõ es linguísticas com carga cultural. Como afirmamos, as chengyu ocorrem quase sempre na forma de quatro carateres, poré m existem exceções, tal como o quarto exemplo que se apresenta de seguida.
22 Ex4: LP (CN): 一日为师,终身为父 y ī rì wé ish ī , zh ō ngsh ē n wé ifù (pá g. 26) LC (PT): Professor por um dia, pai por toda a vida Como tradiç ã o de longa data, a naç ã o chinesa respeita os professores e valoriza a educaç ã o. A expressã o, Professor por um dia, pai por toda a vida (一日为师,终身为父 y ī rì wé ish ī , zh ō ngsh ē n wé ifù ), descreve o respeito a estes profissionais, com origem na obra de « Mandamentos da Família de Tai Gong » (《太公家教 Tà i G ō ng ji ā jià o 》) escrita por um poeta da dinastia Qing (d.C. 1636 – 1912) chamado Luo Zhenyu (罗振玉 Luó Zhè nyù ). Esta expressã o linguística també m constitui uma chengyu na cultura chinesa, reverenciando a profissã o de docente. Este capítulo debruça-se sobre a apresentaç ã o da monografia que propomos como estudo de caso deste trabalho e os fundamentos teó ricos necessá rios para a realizaç ã o do mesmo. No capítulo que se segue apresentamos uma aná lise sobre a metodologia de traduç ã o aplicada à s palavras e expressõ es com carga cultural, sob o prisma da Teoria da Receç ã o, que neste capítulo se abordaram.
23 Capítulo II - Metodologia de Traduç ã o de Palavras e Expressõ es com Carga Cultural sob o Prisma da Teoria da Receç ã o Tendo em conta o que foi apresentado no primeiro capítulo, sabemos que as palavras e expressõ es chinesas com carga cultural sã o aquelas que denotam conteú dos inerentes à vida do povo chinê s, tendo relaç ã o com o seu convívio social. A conotaç ã o deste tipo de palavra ou expressã o é profunda, pois representa a cristalizaç ã o da cultura chinesa, espelhada numa longa histó ria. Desta forma, é particularmente difícil encontrar equivalentes em outra cultura no que diz respeito a estas palavras e expressõ es, com caraterísticas muito sui generis . Para alé m do desafio de traduzir o sentido deste tipo de palavra ou expressã o ao nível linguístico e cultural, o tradutor arca com a responsabilidade de proporcionar ao leitor, o má ximo possível, o horizonte de expetativa suscitado pelo autor, bem como, em simultâ neo, o prazer da leitura. Perante tal, este capítulo debruç a-se sobre a metodologia de traduç ã o aplicada a este tipo de palavras e expressõ es, sobre o â ngulo da Teoria da Receçã o. Desta forma, pretendemos, primeiramente, elaborar os horizontes de expetativa do autor e do leitor, tendo em conta a investigaç ã o levada a cabo por Zhou Xiaomei e Lu Jun (2009). Posteriormente, tentamos resumir as principais estraté gias de traduç ã o surgidas na monografia em questã o, classificando-as consoante os dois horizontes referidos. Estas estraté gias irã o ser apresentadas com exemplos elucidativos, de forma a agilizar uma mais profunda compreensã o por parte do leitor deste trabalho. 2.1 Horizontes de Expetativa Percebemos que para alé m do autor e o seu pró prio texto, a Teoria da Receç ã o salienta um terceiro componente do circuito literá rio, o leitor. Baseando-se nesta teoria, Zhou Xiaomei e Lu Jun (2009) apontam que o tradutor, como leitor especial, desempenha um papel decisivo porque constró i uma ponte comunicativa, por meio da obra traduzida, entre o autor e o leitor. No processo de traduç ã o, o tradutor aproxima-se do horizonte de expetativa 6 do autor atravé s da obra original, considerando-se como o “leitor implícito”, transmitindo tanto quanto possível no texto traduzido os pensamentos e o estilo de escrita do autor. 6 Apresentamos o conceito de “horizonte de expetativa” na página 6 deste trabalho.
24 Segundo Zhou Xiaomei e Lu Jun (2009), neste contexto, perante diferentes circunstâ ncias, o tradutor pode adotar diferentes mé todos de traduç ã o. Para o leitor, uma leitura pode ser uma forma de ganho, enriquecendo o conhecimento sobre uma cultura estrangeira atravé s de palavras e expressõ es totalmente desconhecidas. Neste caso, o tradutor pode aproximar-se do horizonte de expetativa do autor, proporcionando ao leitor a reproduç ã o do “panorama” do texto original. No entanto, vá rias referê ncias a elementos desconhecidos podem causar, inegavelmente, um choque cultural ao leitor. A fim de evitar mal-entendidos e tornar a obra original mais legível e apreciada na cultura-alvo, o tradutor pode por vezes fazer algumas alteraç õ es de maneira adequada, para que as caraterísticas estilísticas de traduç ã o estejam mais pró ximas ao horizonte de expetativa do leitor. Deste modo, podemos elaborar dois horizontes ao traduzir palavras e expressõ es com carga cultural: horizonte de expetativa do autor e horizonte de expetativa do leitor. Apresentamos de seguida, de forma resumida, estes dois horizontes de expetativa. 2.1.1 Horizonte de Expetativa do Autor Se o tradutor for realmente fiel ao texto original, o leitor, de diferente contexto cultural, irá receber vá rias informaç õ es exó ticas, sendo obrigado a sair da sua “zona de conforto” com finalidade de reconhecer a diferença cultural. Segundo Zhou Xiaomei e Lu Jun (2009), alguns leitores que já conhecem algumas obras de determinada cultura estrangeira, aproximam-se ativamente do horizonte de expetativa do autor. Com o alargamento dos seus horizontes literá rios e o enriquecimento da sua compreensã o, estes leitores tê m gosto em conhecer a cultura estrangeira, procurando os sentimentos exó ticos que esta lhe possa transmitir. Neste caso, estes possuem capacidade subjetiva para descobrir e entender culturas estrangeiras. Para alé m disso, a partir do conceito de “espaços vazios 7 ” formulado por Iser (1978), manifestam-se mú ltiplas possibilidades de interpretar e compreender subjetivamente o sentido da obra original, provocando diferentes efeitos esté ticos sobre a mesma obra. Tendo em conta os potenciais valores esté ticos da obra, em vez de converter os “espaços vazios” em “explicitaçõ es”, o tradutor pode proporcionar grande possibilidade de prazer esté tico de leitura ao leitor. 7 Apresentamos o conceito de “espaços vazios” na página 6 deste trabalho.
25 É entre o efeito do texto e a receç ã o do seu leitor que acontece o diá logo subjetivo de leitura. Desta forma, o tradutor pode recorrer à s estraté gias de traduç ã o a partir do horizonte de expetativa do autor, com o objetivo de introduzir as “novidades” da cultura estrangeira e deixar os “espaços vazios” a preencher pelo leitor. 2.1.2 Horizonte de Expetativa do Leitor Em algumas circunstâ ncias, os significados das palavras ou expressõ es marcadas pela cultura nã o podem ser literalmente vertidos para o leitor. Por exemplo, se houver excesso de conteú dos estranhos no texto traduzido, a experiê ncia de leitura poderá perder-se. Sendo assim, o prazer de leitura perder-se-á por causa dos vá rios obstá culos linguísticos e choques culturais. Por outro lado, devido à s caraterísticas típicas de palavras e expressõ es culturais, é normal o leitor estrangeiro entender os seus sentidos com influê ncias diató picas da língua materna. Nesta situaç ã o, se o leitor nã o compreender os aspetos culturais específicos da língua original, adivinhará o significado de acordo com o seu pró prio entendimento, podendo assim possibilitar a má interpretaç ã o do texto de partida. Assim sendo, de forma a prevenir mal-entendidos e estranhezas que impeç am a inteligibilidade de uma obra, o tradutor necessita de prestar mais atenç ã o, de vez em quando, ao horizonte de expetativa do leitor, fazendo algumas alteraç õ es em relaçã o à traduç ã o literal, proporcionando assim uma traduç ã o inteligível. Importa ainda salientar que de acordo com Zhou Xiaomei e Lu Jun (2009), a permissã o destas “alteraç õ es” nã o significa que a obra original possa ser reescrita, acrescentada, apagada ou mal interpretada pelo tradutor. Deste modo, consideramos que o tradutor qualificado tem a responsabilidade de alcanç ar um equilíbrio entre a obra original e a capacidade de receç ã o do leitor-alvo, produzindo um texto traduzido mais fluente e coerente possível, e oferecendo simultaneamente uma boa experiê ncia de leitura para os seus destinatá rios.
32 Ex6: LP (CN): 旗袍 qípá o (pá g. 256) LC (PT): qipao O qipao , també m denominado de Cheong-Sam em cantonê s, sendo um vestido tradicional chinê s, é considerado como o representante má ximo do vestuá rio feminino da China. É inegável que o qipao ocupa uma posiçã o de destaque no vestuá rio tradicional, dado que nã o apenas mostra as caraterísticas típicas da cultura chinesa em busca de harmonia, mas també m reú ne as té cnicas orientais de confeç ã o. Para esta palavra, o tradutor utiliza a estraté gia de empré stimo a fim de introduzir no lé xico do leitor portuguê s um novo substantivo tipicamente chinê s. Face aos exemplos apresentados, podemos resumir a utilizaç ã o do Empré stimo na traduç ã o destes termos a trê s razõ es: • A primeira está relacionada com a utilizaç ã o de palavras curtas do TP, tais como jiaozi e qipao , o que levou a “empré stimo total” das mesmas no TC. • A segunda refere-se à s expressõ es que contê m alguns elementos desconhecidos na LC, tais como Qilin Traz o Filho e Festa de Duanwu . No que concerne a estes casos, sendo muitas vezes difícil ou quase impossível substituir os elementos lexicais exó ticos como Qilin , faz-se uso dos mesmos, traduzindo o restante, fazendo assim uso de “empré stimo parcial”. • A terceira trata-se de “decalque”, tal como o confucionismo e o taoísmo que foram feitos a fim de criar um efeito estilístico com adaptaç ã o foné tica e ortográ fica na língua-alvo. Levando-se em conta o anteriormente exposto, podemos afirmar que a estraté gia de empré stimo contribui para a introduç ã o das palavras e expressõ es estrangeiras na língua de chegada. No entanto, em algumas situaç õ es, para ultrapassar o choque cultural, aconselhamos o tradutor a aplicar algum recurso explicativo, tal como uma nota de rodapé ou uma explicaç ã o entre parê ntesis, tal como propomos na traduç ã o do termo 饺子 ji ǎ ozi , por exemplo, jiaozi (ravió lis chineses), o que possibilitará ao leitor conhecer uma palavra originada na língua chinesa, evitando simultaneamente alguma possível estranheza na leitura.
33 2.2.1.2 Traduç ã o Literal Como todos sabem, com muita frequê ncia, é difícil de encontrar palavras ou expressõ es completamente equivalentes entre duas culturas diferentes. A traduç ã o literal aceita esta impossibilidade de produzir numa língua uma có pia de um texto criado noutra. Quanto a esta estraté gia, Vinay e Darbelnet (1958) sustentam que: [l]iteral, or word for word, translation is the direct transfer of a SL text into a grammatically and idiomatically appropriate TL text in which the translators’ task is limited to observing the adherence to the linguistic servitudes of the TL. (p. 86) Assim sendo, percebemos que para alé m do empré stimo, a traduç ã o literal constitui també m uma das estraté gias de traduç ã o que permite ao leitor conhecer uma cultura estrangeira, aproximando-se do horizonte de expetativa do autor. Este mé todo de traduç ã o é feito palavra por palavra, sendo que há uma correspondê ncia exata entre textos de partida e de chegada. Recorrendo a esta estraté gia, o tradutor pode conservar a naturalidade do original. Pegando nas palavras acima transcritas de Vinay e Darbelnet (1958), “(...) a tarefa dos tradutores é limitada ao cumprimento das dependê ncias linguísticas da LC”, sendo assim, o estilo e a forma da escrita, em rigor, devem ser os mesmos do original. Poré m, em virtude das diferenç as lexicais e gramaticais entre duas línguas tã o diferentes, Vinay e Darbelnet (1958) salientam que a traduç ã o literal é uma transcodificaç ã o direta do texto-fonte para o texto-alvo, sendo mais aconselhável o tradutor fazer algumas mudanç as pertinentemente ao nível linguístico para que o recetor possa entender melhor o conteú do, produzindo um resultado comunicativamente adequado. Para ilustrar a aplicaç ã o desta estraté gia, apresentamos seis exemplos da monografia em aná lise, como segue na Tabela 3. Tabela 3: Traduç õ es Exemplificativas – Traduç ã o Literal Pá gina LP (CN) LC (PT) 22 岁寒三友 suìhá n s ā ny ǒ u trê s amigos em tempos de frio 37 一日不见,如隔三秋 y ī rì bù jià n, rú gé s ā nqi ū Um dia sem ver é como trê s outonos
34 60 «红楼梦 hó ngló umè ng » « Sonho do Pavilhã o Vermelho» 138 一言九鼎 y ī yá n ji ǔ d ǐ ng palavra que pesa mais do que nove dings 228 一拜天地,二拜高堂,夫妻对拜 y ī bà i ti ā ndì, èrbà i g ā otá ng, f ū q ī duìbà i Dediquem a primeira reverê ncia ao Cé u e à Terra! Dediquem a segunda reverê ncia aos pais! Troca da terceira reverê ncia entre o casal. 246 宁愿荒废一年田,不愿输掉一年船 nìngyuà n hu ā ngfè i y ī niá n tiá n, bù yuàn sh ū dià o y ī niá n chuá n Preferir abandonar por um ano o solo fé rtil do que perder a competiç ã o de barcos do dragã o Ex1: LP (CN): 岁寒三友 suìhá n s ā ny ǒ u (pá g. 22) LC (PT): trê s amigos em tempos de frio A expressão “trê s amigos em tempos de frio” (岁寒三友 suìhá n s ā ny ǒ u ) pertence à s expressõ es ecoló gicas com carga cultural visto que a palavra 三友 s ā ny ǒ u , que significa literalmente trê s amigos, refere-se especificamente a trê s plantas, sendo elas o pinheiro, o bambu e a flor da ameixeira. Os chineses espiritualizam e adoram verdadeiramente estas trê s plantas, em virtude da sua vitalidade mesmo no rigoroso frio do Inverno. Sã o estes trê s amigos que, unidos pela mesma aspiraç ã o, aguardam, determinadamente, a chegada da Primavera. Por isso, as trê s plantas sã o denominadas de “Três amigos em tempos de frio” e dotadas de qualidades nobres, simbolizando a integridade pessoal admirada e desejada pelos chineses. A representaç ã o dos “Três amigos em tempos de frio” é també m um tema decorativo comum em roupas, construç õ es e utensílios antigos da China, simbolizando bom auspício. Esta noç ã o cultural da combinaç ã o das trê s plantas, com todo o seu valor simbó lico, acaba por ser ignorada, preferindo o tradutor valer-se do mé todo de traduç ã o literal para abordar esta expressã o. Julgamos que a fim de conservar o seu valor simbó lico e a sua referê ncia das plantas, a proposta “Pinheiro, Bambu e Flor da Ameixeira – Três perseverantes amigos nos picos do frio” seria mais explicativa e poé tica.
35 Ex2: LP (CN): 一日不见,如隔三秋 y ī rì bù jià n, rú gé s ā nqi ū (pá g. 37) LC (PT): Um dia sem ver é como trê s outonos “Um dia sem ver é como três outonos” (一日不见,如隔三秋 y ī rì bù jià n, rú gé s ā nqi ū) é uma expressã o chinesa da antiguidade, com origem no « Livro de Odes» (« 诗经 sh ī j ī ng »), primeira coletâ nea poé tica da China. Esta expressã o descreve a ansiedade de um homem pela sua amada, sendo que um ú nico dia sem a ver parece-lhe trê s anos, representados pelo outono. Convém salientar que “três outonos” é uma metáfora usada para subentender “muito tempo” ou “longo tempo”. Visto que esta expressã o linguística tem origem na literatura tradicional chinesa, o tradutor opta por transladá -la na perspetiva da língua de partida, conservando o sentido original. No entanto, essa correspondê ncia formal a nível semâ ntico e gramatical da língua portuguesa, ignorando o objeto do verbo “ver”, pode causar mal-entendido, sendo que “sem ver” pode significar “uma pessoa cega”, mais concretamente, “que ou quem perde a capacidade de ver”, não cumprindo assim a sua funç ã o na transmissã o eficaz da informaç ã o original, já que “sem ver” refere-se na língua-fonte a “deixar de ver algué m que se quiser ver”. Deste modo, poderiamos traduzi-la à partida como “Um dia sem ver a amada é tão longo como três outonos”. No entanto, esta expressã o, que inicialmente descrevia a ansiedade entre dois amantes, passou mais tarde a referir-se à s saudades entre bons amigos. Assim sendo, propomos uma alteração do ponto de vista: a preposição “sem” e o verbo “ver” mudam para o adjetivo “ausente”, evitando a ambiguidade por falta do objeto. Portanto, julgamos que a tradução “um dia ausente é como três outonos” seria mais bem conseguida. Ex3: LP (CN): «红楼梦 hó ngló umè ng » (pá g. 60) LC (PT): « Sonho do Pavilhã o Vermelho» A obra « Sonho do Pavilhã o Vermelho» , como uma das obras primas da literatura chinesa, atingiu o auge da ficç ã o clá ssica, possuindo uma posiçã o importante na histó ria da literatura mundial. A traduç ã o literal de 红楼 hó ngló u é edifício vermelho. Neste exemplo, 红楼 hó ngló u indica especialmente a mansã o dos nobres, tendo o tradutor adotado a palavra “pavilhão”. Por ser uma grande obra literá ria, este romance tem uma reputaç ã o mundial, pelo que foi traduzido para vá rias línguas, tais como A Dream of Red Mansions em inglê s, Sueñ o en el pabelló n rojo em espanhol e Sonho do Pavilhã o Vermelho em portuguê s, etc. O tradutor da monografia emprega a traduç ã o portuguesa acima mencionada. Naturalmente, cremos que para o título da obra, sobretudo para o título de uma obra mundialmente famosa, caso já exista uma traduç ã o globalmente conhecida, é melhor respeitar esta convenç ã o.
36 Ex4: LP (CN): 一言九鼎 y ī yá n ji ǔ d ǐ ng (pá g. 138) LC (PT): palavra que pesa mais do que nove dings Nesta expressã o, 一言 y ī yá n significa uma palavra e 鼎 d ǐ ng representa um utensílio chinê s de bronze, gravado com ornamentaç ã o delicada, simbolizando o poder na antiguidade. Na consciê ncia da naç ã o chinesa, o ding (鼎 d ǐ ng ) testemunha a civilizaç ã o brilhante, sendo considerado como o “portador da cultura tradicional”. Para alé m disso, os chineses utilizam “nove dings ” para “pesar” uma palavra decisiva e determinante que faz cessar qualquer hesitaç ã o ou dú vida. O tradutor da monografia utiliza a traduç ã o literal e o empré stimo na abordagem desta expressã o linguística, procurando ser o mais fiel possível ao estilo textual. Na verdade, na língua portuguesa, há uma expressã o correspondente, sendo “palavra de honra”. Segundo o Dicioná rio Priberam da Língua Portuguesa (Academia Galega da Língua Portuguesa, n.d.), “palavra de honra” pode ser uma “exclamação usada para exprimir convicção ou compromisso” ou uma “manifestação verbal de promessa ou compromisso”. Consideramos que se o tradutor se aproxima mais ao horizonte de expetativa do leitor, a tradução “palavra de honra” seria uma boa proposta, facilitando a perceç ã o do leitor portuguê s. Ex5: LP (CN): 一拜天地,二拜高堂,夫妻对拜 y ī bà i ti ā ndì, èrbà i g ā otá ng, f ū q ī duìbà i (pá g. 228) LC (PT): Dediquem a primeira reverê ncia ao Cé u e à Terra! Dediquem a segunda reverê ncia aos pais! Troca da terceira reverê ncia entre o casal A expressão “Dediquem a primeira reverê ncia ao Cé u e à Terra! Dediquem a segunda reverê ncia aos pais! Troca da terceira reverência entre o casal” refere-se a uma cerimó nia importante para o casal nos rituais da boda tradicional chinesa. Segundo o pensamento antigo chinê s, só depois desta cerimó nia de reverê ncias é que os noivos estarã o oficialmente casados. Nesta expressã o, o cará ter 拜 bà i significa um ato essencial de cortesia para prestar reverê ncias, equivalente a “fazer a vénia”. Esta cerimó nia consta de trê s procedimentos: primeiro, os noivos prestam reverê ncias ao Cé u e à Terra (一拜天地 y ī bà i ti ā ndì ), manifestando a veneraçã o e adoraç ã o à Natureza; posteriormente aos pais ( 二 拜 高 堂 èrbà i g ā otáng ), demonstrando o respeito e agradecimento pelo seu carinho e cuidados; por fim, prestam reverê ncia um ao outro (夫妻对拜 f ū q ī duìbà i ), afianç ando a fidelidade, o amor e o respeito na vida conjugal.
37 Este ritual é naturalmente desconhecido de outros povos. Caso o tradutor apagasse esta descriç ã o pormenorizada e a trespassasse como “cerimónia chinesa de reverências”, dificultar-se-ia realmente a reproduçã o da linguagem geral e do tom da obra, uma vez que as repetiç õ es e padrõ es rítmicos em chinê s sã o de grande importâ ncia nã o só para o enredo da narrativa, como també m para a experiê ncia esté tica de leitura. Por conseguinte, o tradutor interpreta o significado da língua de partida sem distorç õ es de qualquer natureza, relatando a ideia de literalidade e oferecendo uma traduçã o mais clara. Ex6: LP (CN): 宁愿荒废一年田,不愿输掉一年船 nìngyuà n hu ā ngfè i y ī niá n tiá n, bù yuàn sh ū dià o y ī niá n chuá n (pá g. 246) LC (PT): Preferir abandonar por um ano o solo fé rtil do que perder a competiç ã o de barcos do dragã o No que se refere a esta expressã o chinesa, temos de mencionar uma atividade bastante popular denominada “regata de barcos do dragão”, sendo um costume popular na Festa do Barco do Dragã o. A populaç ã o das zonas rurais da China dá grande importâ ncia a esta prá tica dado que está conotada à cultura tradicional chinesa. É neste contexto que se origina o ditado “Preferir abandonar por um ano o solo fértil do que perder a competição de barcos do dragão”. Com o propósito de manter a integridade e fidelidade deste ditado, o tradutor recorre à estraté gia de traduç ã o literal na transposiçã o desta expressã o cultural. Pela observaç ã o das traduç õ es exemplificativas acima analisadas, entendemos que no processo de translaç ã o, a estraté gia de traduç ã o literal fornece uma possibilidade de manter a fidelidade do texto-fonte e de realizar uma traduç ã o aceitável para um outro verná culo, mediante a melhor equivalê ncia possível a fim de que a linguagem utilizada seja a mais apropriada. Neste caso, o tradutor tem de garantir que as normas gramaticais e os costumes do uso da língua de chegada aceitem as estruturas linguísticas e o estilo de escrita que foram transpostos da língua de partida por meio do mé todo de traduç ã o literal.
38 2.2.2 Estraté gias Orientadas pelo Horizonte de Expetativa do Leitor 2.2.2.1 Adaptaç ã o É de conhecimento geral que a traduç ã o é uma atividade de mediaç ã o entre culturas distintas, pelo que o “mediador”, ou seja, o tradutor, precisa de se assegurar de que o texto traduzido funciona de modo eficaz na cultura recetora, o que significa, particularmente, adaptar o texto à s caraterísticas linguísticas e pragmá ticas da língua de chegada. Sob esta perspetiva, Vinay e Darbelnet (1958) introduzem a estraté gia de adaptaç ã o e salientam que: (…) it is used in those cases where the type of situation being referred to by the SL message is unknown in the TL culture. In such cases translators have to create a new situation that can be considered as being equivalent. Adaptation can, therefore, be described as a special kind of equivalence, a situational equivalence. (pp. 90–91) Tal como Vinay e Darbelnet (1958) relatam, a adaptaç ã o pode ser considerada como um tipo especial de equivalê ncia, à qual o tradutor recorre quando a realidade cultural demonstrada do texto original é nã o só inexistente como també m desconhecida na cultura-alvo. Neste contexto, o tradutor deve criar uma nova situaç ã o, fazendo substituiç õ es de referê ncias culturais da língua de partida por referê ncias culturais da língua de chegada, que se adapta mais à língua-alvo. Desta maneira, vemos que, comparando com a traduç ã o literal, a qual trata apenas da mudanç a gramatical e reproduzindo com absoluta exatidã o todo o conteú do do texto original, a adaptaç ã o coloca a ê nfase na modificaç ã o dos elementos culturais da língua de partida, sendo um mé todo de traduçã o relativamente livre, recorrendo a ajustes necessá rios ou a palavras aná logas com o intuito de que o texto traduzido siga as regras e convenç õ es de uso praticado na língua de chegada. A estraté gia de adaptaç ã o é uma das estraté gias de traduç ã o mais escolhidas pelo tradutor da obra « Conhecimentos da Cultura Chinesa - 中国文化常识 zh ō ngguó wé nhuà chá ngshì » . Mostramos de seguida seis exemplos ilustrativos ( cf. Tabela 4).
39 Tabela 4: Traduç õ es Exemplificativas – Adaptaç ã o Pá gina LP (CN) LC (PT) 57 愿普天下有情人都成眷属 yuà n p ǔ ti ā nxià y ǒ uqíng ré n d ō u ché ng juà nsh ǔ Todos os namorados possam contrair matrimó nio como almejam 69 包办婚姻 b ā obà n h ū ny ī n matrimó nio imposto 102 «十面埋伏 shímià n má ifú » « Emboscadas em Todas as Direç õ es» 226 满月酒 m ǎ nyuè ji ǔ celebraç ã o do primeiro mê s de vida 281 白话文 bá ihuàwé n escrita moderna Ex1: LP (CN): 愿普天下有情人都成眷属 yuà n p ǔ ti ā nxià y ǒ uqíng ré n d ō u ché ng juà nsh ǔ (pá g. 57) LC (PT): Todos os namorados possam contrair matrimó nio como almejam “Todos os namorados possam contrair matrimónio como almejam” (愿普天下有情人都成眷 属 yuà n p ǔ ti ā nxià y ǒ uqíng ré n d ō u ché ng juà nsh ǔ) é um prové rbio bastante popular na China. Neste exemplo, 愿 yuà n é o verbo que significa “esperar ou desejar”. 普天下 p ǔ ti ā nxià tem o sentido de “em todo o mundo”. 有情人 y ǒ uqíng ré n indica “os namorados ou os amantes”. 眷属 juà nsh ǔ significa um casal. A traduç ã o literal desta expressã o é “desejar que todos os namorados amantes possam se tornar casados no futuro”. Achamos que o leitor-alvo talvez entenda a ideia geral desta traduç ã o literal, poré m, é , indubitavelmente, um pouco estranha para o leitor já que nã o respeita os costumes do uso da língua de chegada. Neste caso, o tradutor muda o ponto de vista e faz algumas alteraçõ es, substituindo a expressã o “tornar-se casados” (成眷属 ché ng juà nsh ǔ) por “contrair matrimónio”, acrescendo uma carga efetiva “como almejam” no texto traduzido, com o propó sito de se adaptar à s modalidades da língua de chegada.
40 Ex2: LP (CN): 包办婚姻 b ā obà n h ū ny ī n (pá g. 69) LC (PT): matrimó nio imposto Nesta expressã o, a palavra 婚姻 h ū ny ī n significa matrimó nio, enquanto a palavra 包办 b ā obà n exprime que algué m decide, unilateralmente e com poder absoluto, sem consideraç ã o pela vontade das partes envolvidas. Neste paradigma, nã o se pratica nem traduç ã o literal nem explicitaç ã o, utilizando a palavra “imposto” que tem o sentido de “ter de ser cumprido ou aceite, ou seja, obrigató rio”, de acordo com o Dicioná rio Priberam da Língua Portuguesa (Academia Galega da Língua Portuguesa, n.d.), no sentido de adaptá -la à semâ ntica desta expressã o e ao estilo da língua portuguesa. Ex3: LP (CN): «十面埋伏 shímià n má ifú » (pá g. 102) LC (PT): « Emboscadas em Todas as Direç õ es» A obra folcló rica « Emboscadas em Todas as Direçõ es» é umas das famosas melodias preservadas na China, que relata uma batalha feroz ocorrida no final da dinastia Qin (a.C. 221 – a. C. 207) em forma de musical. Este tipo de mú sica folcló rica chinesa, com o seu encanto e com as suas caraterísticas bem típicas, é um dos patrimó nios culturais do país. Nesta expressã o, a palavra 十面 shímià n significa literalmente as dez direç õ es, representando metaforicamente todos os lados no pensamento chinê s. O tradutor substitui dez direç õ es por todas as direçõ es, atenuando o sentido implícito desta parte, de forma a que o leitor possa perceber corretamente o seu sentido. Ex4: LP (CN): 满月酒 m ǎ nyuè ji ǔ (pá g. 226) LC (PT): celebraç ã o do primeiro mê s de vida A celebraç ã o do primeiro mê s de vida é um dos costumes populares chineses durante a fase de crescimento das crianç as. Nesta expressã o, a palavra 满月 m ǎ nyuè tem o sentido do primeiro mê s de vida. A traduç ã o literal da palavra 酒 ji ǔ é um tipo de vinho em portuguê s. Nã o obstante, para os chineses, aqui 酒 ji ǔ manifesta o banquete (酒席 ji ǔ xí ), em que se convida parentes e amigos para celebrar esta data especial. Se o tradutor recorrer ao mé todo de traduç ã o literal neste caso, trasladando como “vinho do primeiro mê s de vida”, o resultado poderá provocar estranheza ao leitor-alvo. Por este motivo, o tradutor troca “vinho” por “celebração”, adaptando este detalhe oculto da cultura chinesa ao pú blico portuguê s.
41 Ex5: LP (CN): 白话文 bá ihuàwé n (pá g. 281) PC(PT): escrita moderna A escrita moderna (白话文 bá ihuàwé n ) é uma língua escrita padrã o usada atualmente pela etnia Han 8 . A palavra 白话 bá ihuà aqui denota um tipo de língua chinesa escrita, utilizado depois do Movimento de 4 de Maio de 1919 9 . Tal como em Portugal, em que ocorreu uma evoluç ã o do Portuguê s arcaico para o Portuguê s moderno, també m na China ocorreu esta evoluç ã o. Na antiguidade, só os letrados e intelectuais da classe alta podiam conhecer a elegâ ncia dos textos literá rios, sendo que um grande nú mero de pessoas nã o sabia ler nem escrever. Desta forma, o nascimento da escrita moderna, sendo um aperfeiç oamento do modelo antigo, destinada à s pessoas de todas as classes, simboliza uma revoluç ã o nã o só ao nível da linguagem, mas també m ao nível do pensamento do povo chinê s. Para esta expressã o, o tradutor nã o recorre ao mé todo de empré stimo, tal como “escrita de baihua ”, mas sim à estraté gia de adaptaç ã o, traduzindo-a como “escrita moderna”, oferecendo uma traduç ã o entendível ao leitor portuguê s. Levando-se em conta o acima exposto, vemos que estes exemplos servem para ilustrar, de algum modo, a subjetividade do tradutor. Melhor dizendo, durante a traduç ã o, a tarefa do tradutor é pensar como interpretar os elementos linguísticos e culturais de maneira mais adequada, sem perder a fidelidade ao conteú do original. O mé todo de adaptaç ã o é usado, com muita frequê ncia, quando o elemento da língua de partida se encontra lexicalizado na língua de chegada, mas com outro significado, procurando-se substituir alguns elementos linguísticos usados na língua de partida pelos mais apropriados na língua de chegada. 8 A China é um país unificado de 56 etnias. A etnia mais numerosa é a Han, a qual pertence 91.51% da populaç ã o chinesa, de acordo com os ú ltimos dados do 6º Censo Nacional da China. 9 O Movimento de 4 de Maio de 1919, um movimento patrió tico do povo chinê s que teve lugar em Pequim a 4 de maio de 1919, constitui uma revoluçã o democrá tica contra o imperialismo e o feudalismo.
48 2.2.2.4 Explicitaç ã o Sabemos que a estraté gia de explicitaç ã o se prende com ampliaç ã o conceptual de algumas palavras e expressõ es, de modo a que o sentido do que é dito na língua de partida se torne mais compreensível para o leitor no contexto estrangeiro. No que diz respeito à explicitaç ã o, Chesterman (1997) declara que “(…) explicitation is well known to be one of the most common translatorial strategies. It refers to the way in which translators add components explicitly in the Target Text which are only implicit in the Source Text.” (p. 108) Desta forma, entendemos que a explicitaç ã o, como mé todo de traduç ã o, oferece a possibilidade de esclarecer o sentido opaco do texto original ao seu leitor. Com o propó sito de facilitar a compreensã o do leitor, o tradutor pode recorrer a esta estraté gia para tornar explícitos no texto traduzido alguns elementos que no texto original se encontram implícitos, por meio da adiç ã o de explicaçã o. Neste caso, acreditamos que se o tradutor escolher a estraté gia de explicitaç ã o, nã o é precisa a nota de rodapé . Selecionamos de seguida ( cf . Tabela 7) algumas traduç õ es exemplificativas da monografia « Conhecimentos da Cultura Chinesa - 中国文化常识 zh ō ngguó wé nhuà chá ngshì » no que se refere à estraté gia de explicitaç ã o. Tabela 7: Traduç õ es Exemplificativas – Explicitaç ã o Pá gina LP (CN) LC (PT) 106 脸谱 li ǎ np ǔ má scaras da Ó pera de Beijing 152 金缕玉衣 j ī nl ǚ yù y ī mortalha de jade e fios de ouro 188 唐三彩 tá ngs ā nc ǎ i cerâ mica tricolor da dinastia Tang 240 腊月 làyuè dezembro no calendá rio chinê s 260 鲁菜 l ǔ cà i escola gastronó mica da província de Shandong
49 Ex1: LP (CN): 脸谱 li ǎ np ǔ (pá g. 106) LC (PT): má scaras da Ó pera de Beijing A Ó pera de Beijing , sendo uma arte típica e tradicional chinesa, tem cerca de 200 anos de histó ria. As má scaras da Ó pera de Beijing (脸谱 li ǎ np ǔ), constituindo uma parte integrante da cultura artística chinesa, sã o as má scaras com distintos desenhos usadas por atores, a fim de ajudar a mostrar personagens, caraterísticas e temperamentos dos protagonistas da ó pera. A traduç ã o literal de 脸谱 li ǎ np ǔ é “desenhos do rosto”. No entanto, esta expressã o típica possui o seu pró prio significado na cultura chinesa, referindo-se exclusivamente à s má scaras destinadas à Ó pera de Pequim, pelo que o tradutor a traduz como “má scaras da Ó pera de Beijing ”, recorrendo à explicitaçã o. É , no entanto, curioso que, perante a necessidade de clarificar a expressã o, o mesmo opte por recorrer ao estrangeirismo Beijing , o qual poderá nã o ser facilmente identificado por todos os leitores como Pequim. Consideramos que a traduç ã o “máscaras da Ópera de Pequim” seria mais pertinente ao pú blico lusó fono. Ex2: LP (CN): 金缕玉衣 j ī nl ǚ yù y ī (pá g. 152) LC (PT): mortalha de jade e fios de ouro Em relaç ã o a esta expressã o, devemos mencionar uma realidade da antiguidade da China. A casa real da dinastia Han (a.C. 202 – d.C. 220) era supersticiosa, crendo que uma mortalha com placas de jade ligadas por linhas de ouro tinha o poder celeste de livrar os cadáveres da decomposiç ã o. Considera-se que a mortalha de jade e fios de ouro (金缕玉衣 j ī nl ǚ yù y ī) comprova o alto nível de confeç ã o praticada pelos artesã os da dinastia Han, constituindo uma das relíquias culturais mais importantes da China. Notamos que esta expressã o significa literalmente “roupa de jade e fios de ouro”. Poré m, este termo, na verdade, indica especificamente um tipo de mortalha. Neste caso, é necessá rio revelar o seu sentido implícito, tornando assim o texto traduzido o mais claro possível. Ex3: LP (CN): 唐三彩 tá ngs ā nc ǎ i (pá g. 188) LC (PT): cerâ mica tricolor da dinastia Tang A cerâ mica tricolor da dinastia Tang (唐三彩 tá ngs ā nc ǎ i ) é a denominaç ã o geral dum tipo de artesanato vidrado primoroso, refletindo a fisionomia social e caraterísticas da é poca. O seu nome completo em chinê s é 唐代三彩釉陶器 tá ngdà i s ā nc ǎ i yò u tá oqì . 唐代 tá ngdà i significa dinastia Tang; 三彩 s ā nc ǎ i refere-se à s trê s cores; 釉 yò u indica o esmalte e 陶器 tá oqì corresponde à cerâ mica. A
50 produç ã o desta cerâ mica chegou ao seu auge durante a dinastia Tang (d.C. 618 – 907), constituindo os seus produtos artesanais uma parte integrante do patrimó nio representativo da China. Este tipo de cerâ mica pode ter vá rias cores, tais como amarelo, verde, branco, azul, castanho, preto, ect. Destas, o amarelo, verde e castanho sã o as cores mais usadas, sendo denominada pelos chineses como cerâ mica tricolor. Do ponto de vista da traduç ã o, o tradutor recorre à explicitaç ã o, traduzindo-a como “cerâmica tricolor da dinastia Tang”, uma vez que manter a sua traduç ã o literal, “trê s cores de Tang”, poderia provocar alguma estranheza ao leitor. Portanto, para se distinguir 唐三彩 tá ngs ā nc ǎ i dentro dos outros tipos de cerâ micas que existem, consideramos que a tradução “cerâmica de esmalte tricolor da dinastia Tang” seria mais explícita. Ex4: LP (CN): 腊月 làyuè (pá g. 240) LC (PT): dezembro no calendá rio chinê s Na antiguidade, os chineses tinham a tradiç ã o de venerar deuses, prestando adoraç ã o aos antepassados, normalmente no ú ltimo mê s do calendá rio lunissolar chinê s. Esta atividade foi denominada la (腊 là ) pelos chineses, sendo assim, este mê s é també m chamado de mê s de la (腊月 làyuè ). Portanto, o tradutor esclarece brevemente o sentido desta expressã o na língua de chegada com o propó sito de evitar mal-entendidos por parte do leitor. No entanto, notamos que o tradutor opta pela palavra “dezembro” que é uma terminologia do calendá rio gregoriano, nã o indicando especificamente 腊月 làyuè . Neste sentido, pensamos que a traduç ã o “12ª lua do calendário lunissolar chinês” seria mais exata e mais congruente com o espírito chinê s. Ex5: LP (CN): 鲁菜 l ǔ cà i (pá g. 260) LC (PT): escola gastronó mica da província de Shandong Em Chinê s, o cará ter 鲁 l ǔ é a abreviatura da província de Shandong da China. A palavra 菜 cà i significa um prato ou um termo geral duma escola gastronó mica em Portuguê s. Sabemos que a culiná ria chinesa se carateriza pela sua diversidade, cores e sabores, diferenciando-se de regiã o para regiã o. A escola gastronó mica da província de Shandong é uma das escolas que merecem destaque. Se o tradutor recorrer ao mé todo de empré stimo neste caso como “comida ou prato de lu ”, o resultado
51 será confuso para o leitor, perdendo o seu verdadeiro sentido. Assim sendo, o tradutor emprega a estraté gia de explicitaç ã o para transpor o sentido implícito desta expressã o, evitando o uso do empré stimo. Tendo em conta os exemplos demonstrados, notamos que, de vez em quando, o tradutor escolhe a estraté gia de explicitaç ã o de forma a clarificar as palavras e expressõ es com carga cultural para que o texto de chegada possa ser considerado de fá cil compreensã o pelo leitor-alvo. Sob a ó tica da Teoria da Receçã o, o mé todo de explicitaç ã o ajuda o tradutor a preencher os “espaços vazios” do texto-fonte, procurando o que foi omitido ou apagado. Depois da aná lise dos exemplos acima apresentados, resumimos o uso do mé todo de explicitaç ã o nas trê s situaç õ es seguintes: • Alargamento do conteú do da expressã o condensada na língua de partida. (Ex1, Ex3) • Especificaç ã o de uma expressã o que possui o sentido implícito na língua-fonte. (Ex2) • Contenç ã o do uso da estraté gia de empré stimo. (Ex4, Ex5) Apó s a aná lise detalhada da metodologia de traduç ã o neste capítulo, ilustrada com exemplos retirados da monografia em questã o, elaboramos no pró ximo capítulo, para cada categoria das palavras e expressõ es com carga cultural, uma tabela com todos os exemplos e as suas traduç õ es do corpus que criamos neste trabalho. Procedemos ainda à aná lise das estraté gias de traduç ã o presentes nas ediç õ es bilingues Chinê s/Portuguê s e Chinê s/inglê s, de modo a proceder a uma comparaç ã o a nível quantitativo e qualitativo.
52 Capítulo III - Comparaç ã o das Estraté gias de Traduç ã o das Palavras e Expressõ es com Carga Cultural na Versã o Portuguesa e Inglesa Na sequê ncia da metodologia de traduç ã o apresentada no capítulo anterior, procedemos, neste capítulo, a uma apresentaç ã o e descriç ã o de um estudo empírico e aná lise quantitativa em termos das estraté gias de traduç ã o para diferentes categorias relativas à s palavras e expressõ es com carga cultural, oferecendo seguidamente uma aná lise qualitativa da mesma. Sabemos que o Chinê s, pertencente à família das línguas sino-tibetanas, é bastante diferente das línguas da família indo-europeia, tais como o Portuguê s e o Inglê s. Para alé m disso, importa salientar que a língua portuguesa faz parte do grupo de línguas latinas e a inglesa pertence ao grupo de línguas germâ nicas, pelo que cremos necessá rio apresentar nã o só os exemplos e suas traduç õ es portuguesas, mas també m suas respetivas traduç õ es inglesas, com vista a verificar que estraté gias de traduç ã o foram utilizadas nas duas versõ es da monografia em aná lise, quais as que propiciaram maior nú mero por categoria, quais as diferenças entre estraté gias selecionadas pelos tradutor portuguê s e inglê s, e, simultaneamente, oferecer as nossas propostas para as traduç õ es que achamos menos adequadas. Para facilitar a comparaç ã o e a aná lise que se pretende realizar neste capítulo, apresentamos trê s partes principais: a primeira parte começ a por uma construç ã o do corpus que constitui a base empírica deste capítulo. Na segunda parte, apresentamos detalhamente as estraté gias aplicadas nas duas versõ es, em forma de tabela, para cada categoria, bem como a sua aná lise quantitativa e qualitativa. Por fim, procedemos à apreciaçã o geral dos dados obtidos para cada versã o, assim como a uma comparaç ã o geral, acompanhada das nossas observaç õ es. 3.1 Construç ã o do Corpus Para iniciarmos a aná lise a que nos propomos, começ amos por construir o corpus de expressõ es exemplificativas para cada uma das categorias. Uma vez que o nú mero de palavras e expressõ es culturais presentes na monografia « Conhecimentos da Cultura Chinesa – 中国文化常识 zh ō ngguó wé nhuà chá ngshì » é relativamente grande e dada a limitaç ã o de tempo a que este tipo de trabalho está sujeito, os resultados obtidos sã o limitados. Neste contexto, a construç ã o do corpus tem em vista selecionar preferencialmente os exemplos representativos e culturalmente marcados.
53 O nosso corpus conté m uma amostra de 58 exemplos ( cf . AnexoⅠ). Tendo em conta a classificaç ã o das palavras e expressõ es com carga cultural mencionada no primeiro capítulo, os exemplos constantes do corpus distribuem-se do seguinte modo: Tabela 8: Ocorrê ncia e Percentagem dos Exemplos Recolhidos da Monografia Categoria Ocorrê ncia Percentagem Palavras e Expressõ es Ecoló gicas (PEE) 8 14% Palavras e Expressõ es Materiais (PEM) 14 24% Palavras e Expressõ es Sociais (PES) 13 22% Palavras e Expressõ es Filosó ficas (PEF) 11 19% Palavras e Expressõ es Linguísticas (PEL) 12 21% Total 58 100% Podemos constatar que procuramos manter um relativo equilíbrio entre o nú mero dos exemplos selecionados para cada categoria a fim de nã o interfir negativamente quer na aná lise quantitativa quer na qualitativa, como se observa na Figura 1. Figura 1: Distribuiç ã o do Corpus
54 3.2 Aná lises Quantitativa e Qualitativa do Corpus É neste subcapítulo que iniciamos as aná lises quantitativa e qualitativa efetuadas do corpus , com a exposiç ã o dos exemplos selecionados, dados estatísticos e apresentaç ã o dos seus resultados. Estas aná lises sã o apresentadas de acordo com os quatro aspetos que descrevemos de seguida: • Exposiç ã o de uma tabela geral, com a ocorrê ncia das expressõ es em contexto trilingue, que inclui Nú mero (Nº), Pá gina (Pá g.), palavra ou expressã o em Chinê s (LP), em Portuguê s (LC) e em Inglê s (LC), bem como respetivas estraté gias de traduç ã o. Este tipo de tabela visa reunir, num mesmo suporte, os nú meros dos exemplos, as respetivas pá ginas da monografia em questã o, o Chinê s como língua de partida, o Portuguê s e o Inglê s como línguas de chegada, bem como as estraté gias de traduç ã o utilizadas, com o intuito de ilustrar as semelhanç as e diferenç as no tratamento das palavras e expressõ es chinesas com carga cultural em ambas as versõ es, permitindo assim ao leitor uma visã o comparativa e global. Temos consciê ncia de que a tabela que propomos nã o é uma tabela exaustiva ou definitiva (nem isso se pretendia), mas sim uma tabela aberta a discussã o e em construç ã o. As palavras e expressõ es do corpus sã o identificadas ao longo deste capítulo atravé s da ordem em que constam nas duas ediç õ es bilingues (versã o bilingue Chinê s/Portuguê s e versã o bilingue Chinê s/Inglê s), sendo oferecida a indicaç ã o da pá gina em que ocorrem, a qual coincide em ambas as ediç õ es. • Apresentaç ã o de um grá fico de barras para visualizaç ã o e comparaç ã o das estraté gias aplicadas em ambas as versõ es. • Exposiç ã o de um grá fico circular para mostrar a proporçã o da aplicaç ã o das estraté gias nas versõ es portuguesa e inglesa, tendo em conta as Estraté gias Orientadas pelo Horizonte de Expetativa do Autor (EOHEA) e Estraté gias Orientadas pelo Horizonte de Expetativa do Leitor (EOHEL) referidas no segundo capítulo ( cf . ponto 2.2) • Seleç ã o dos exemplos mais representativos do corpus e aná lise comparativa das diferentes estraté gias de traduç ã o de ambas as versõ es. Passamos agora às aná lises para cada categoria.
55 3.2.1 Aná lise Comparativa - Palavras e Expressõ es Ecoló gicas Nesta secç ã o, damos conta da aná lise quantitativa e qualitativa no que diz respeito à s palavras e expressõ es ecoló gicas (PEE) com carga cultural. Exibimos de seguida uma tabela comparativa ( cf . Tabela 9) com uma seleç ã o de expressõ es pertencentes a esta categoria. Tabela 9: Tabela Comparativa Geral – PEE Nº Pá g. Chinê s (LP) Portuguê s (LC) Inglê s (LC) LC (PT) Estraté gia LC (EN) Estraté gia 1 22 青松 q ī ngs ō ng pinheiro Traduç ã o Literal pine Traduç ã o Literal 2 22 岁寒三友 suìhá n s ā ny ǒ u trê s amigos em tempos de frio Traduç ã o Literal three friends in cold weather Traduç ã o Literal 3 68 喜鹊 x ǐ què pega Traduç ã o Literal magpie Traduç ã o Literal 4 230 麒麟送子 qílín sò ngz ǐ Qilin Traz o Filho Traduç ã o Literal +Empré stimo Kylin Brings the Son Traduç ã o Literal +Empré stimo (Decalque) 5 230 江南 ji ā ngná n sul do rio Yangzé Explicitaç ã o +Empré stimo (Decalque) southern China Apagamento 6 231 龙 ló ng dragã o Traduç ã o Literal dragon Traduç ã o Literal 7 231 龙凤呈祥 ló ngfè ng ché ngxiá ng Bons Agouros com a Presença do Dragã o e da Fé nix Explicitaç ã o Dragon and Phoenix Apagamento 8 238 舞狮 w ǔ sh ī danç a do leã o Traduç ã o Literal lion dance Traduç ã o Literal No sentido de possibilitar uma aná lise quantitativa das estraté gias de traduç ã o adotadas nas versõ es portuguesa e inglesa, fazemos uma contagem de ocorrê ncias. Com o objetivo de perceber melhor a divisã o de cada estraté gia, apresentamos o grá fico de barras ( cf . Figura 2), como a seguir se ilustra:
56 0 1 2 3 4 5 6 7 Empré stimo Traduç ã o Literal Adaptaç ã o Apagamento Equivalê ncia Explicitaç ã o Versã o Portuguesa Versã o Inglesa Figura 2: Ocorrê ncias de Estraté gias de Traduç ã o - PEE Segundo a Figura 2 acima exposta, observamos que se conta uma combinaç ã o de 10 estraté gias na versã o portuguesa e 9 na inglesa. A estraté gia de traduç ã o literal é a mais utilizada pelos tradutores tanto na versã o portuguesa como na inglesa. Notamos ainda que para estes exemplos, pró prios da cultura chinesa, nã o se encontram equivalentes perfeitos nem substituiç õ es adequadas nas outras duas línguas, pelo que os tradutores recorrem à s estraté gias de empré stimo, traduç ã o literal, apagamento e explicitaç ã o para transmitir o seu sentido original. Posto isto, cremos ser pertinente observar a distribuiç ã o destas estraté gias orientadas pelos dois horizontes de expetativa, como se observa nas Figura 3 e Figura 4. Figura 3: Percentagem dos Dois Horizontes em PT – PEE
57 Figura 4: Percentagem dos Dois Horizontes em EN – PEE Observando os grá ficos acima expostos ( cf. Figura 3 e Figura 4), é inequívoco que, seja na versã o portuguesa, seja na inglesa, as estraté gias orientadas pelo horizonte de expetativa do autor sã o mais adotadas do que as pelo horizonte de expetativa do leitor. Podemos concluir que no processo da traduç ã o das palavras e expressõ es ecoló gicas com carga cultural, ambos os tradutores preferem o horizonte de expetativa do autor, uma vez que é difícil encontrar os alvos com mesma carga cultural nas respetivas línguas de chegada. Em seguida, procedemos a uma aná lise comparativa dos exemplos selecionados cujas estraté gias de traduç ã o diferem em ambas as ediçõ es, como se destaca na tabela abaixo. ( cf. Tabela 10) Tabela 10: Seleç ã o de PEE para Aná lise Comparativa Pá gina LP (CN) LC (PT) LC (EN) 230 江南 ji ā ngná n sul do rio Yangzé southern China 231 龙凤呈祥 ló ngfè ng ché ngxiá ng Bons Agouros com a Presenç a do Dragã o e da Fé nix Dragon and Phoenix Ex1: LP (CN):江南 ji ā ngná n (pág. 230) LC (PT): sul do rio Yangzé LC (EN): southern China Nesta expressã o, a palavra江 ji ā ng indica especificamente o rio Changjiang (长江 chá ngji ā ng ) e a palavra 南 ná n significa sul. No conceito dos chineses, quando se fala nesta expressã o, pensam, imediatamente, nos belos versos de poesia antiga em que se descreve uma paisagem bonita e agradável, com casas brancas,
64 3.2.3 Aná lise Comparativa - Palavras e Expressõ es Sociais No que diz respeito à s palavras e expressõ es sociais (PES) com carga cultural, foram recolhidos 13 exemplos caraterísticos, como segue na tabela abaixo ( cf . Tabela 13). Tabela 13: Tabela Comparativa Geral – PES Nº Pá g. Chinê s (LP) Portuguê s (LC) Inglê s (LC) LC (PT) Estraté gia LC (EN) Estraté gia 1 8 科举考试 k ē j ǔ k ǎ oshì Exames Imperiais Adaptaç ã o Imperial Examinations Adaptaç ã o 2 18 奉亲养老 fè ngq ī n y ǎ ngl ǎ o respeito e amparo aos pais Adaptaç ã o respect and take care of the aged parents Adaptaç ã o 3 18 感恩图报 g ǎ n ē n tú bà o ser grato aos favores alheios Apagamento be grateful to others and seek ways to return their kindness Traduç ã o Literal 4 69 包办婚姻 b ā obà n h ū ny ī n matrimó nio imposto Adaptaç ã o arranged (forced) marriage Explicitaç ã o 5 124 国粹 guó cuì quintessê ncia da cultura Equivalê ncia quintessence of culture Equivalê ncia 6 228 一拜天地,二 拜高堂,夫妻 对拜 y ī bà i ti ā ndì, èrbà i g ā otá ng, f ū q ī duìbà i Dediquem a primeira reverê ncia ao Cé u e à Terra! Dediquem a segunda reverê ncia aos pais! Troca da terceira reverê ncia entre o casal. Explicitaç ã o First bow to the heaven and earth; second bow to the parents; third bow to each other Traduç ã o Literal 7 236 庙会 mià ohuì feira de templo Traduç ã o Literal temple fair Traduç ã o Literal 8 240 华夏子孙 huá xià z ǐ s ū n Chineses Apagamento The Chinese Apagamento 9 240 腊月 làyuè dezembro no calendá rio chinê s Explicitaç ã o The 12th lunar month Explicitaç ã o
65 10 244 踏青插柳 tà q ī ng ch ā li ǔ passear pelo campo Apagamento take an outing in the countryside and wear a willow twig on the head Explicitaç ã o 11 246 端午节 du ā nw ǔ jié Festa de Duanwu Traduç ã o Literal +Empré stimo The Dragon Boat Festival Explicitaç ã o 12 246 宁愿荒废一 年田,不愿输 掉一年船 nìngyuà n hu ā ngfè i y ī nián tiá n, bù yuàn sh ū dià o y ī nián chuá n Preferir abandonar por um ano o solo fé rtil do que perder a competiç ã o de barcos do dragã o Traduç ã o Literal We would waste one year’s farming rather than lose one year’s dragon boat race Traduç ã o Literal 13 281 白话文 bá ihuàwé n escrita moderna Adaptaç ã o Vernacular Chinese Adaptaç ã o Em seguida, apresentamos as ocorrê ncias das estraté gias que figuram nesta categoria. 0 0.5 1 1.5 2 2.5 3 3.5 4 4.5 Empré stimo Traduç ã o Literal Adaptaç ã o Apagamento Equivalê ncia Explicitaç ã o Versã o Portuguesa Versã o Inglesa Figura 8: Ocorrê ncias de Estraté gias de Traduç ã o - PES
66 De acordo com a Figura 8, conclui-se facilmente que a estraté gia de adaptaç ã o é mais escolhida pelo tradutor portuguê s e o inglê s prefere traduç ã o literal e explicitaç ã o. Para alé m disso, na versã o portuguesa, traduç ã o literal e apagamento sã o outras estraté gias utilizadas com frequê ncia e na versã o inglesa, usa-se adaptaç ã o frequentemente. A preferê ncia pelos horizontes de expetativa dos tradutores é exposta nas Figura 9 e Figura 10. 29% 71% Versã o Portuguesa EOHEA EOHEL Figura 9: Percentagem dos Dois Horizontes em PT – PES 31% 69% Versã o Inglesa EOHEA EOHEL Figura 10: Percentagem dos Dois Horizontes em EN – PES Como podemos constatar, na versã o portuguesa, o grupo de estraté gias orientadas pelo horizonte de expetativa do autor corresponde a 29% do total da amostra, correspondendo o outro grupo a 71%. Na versã o inglesa, revela-se uma regularidade aná loga, o que significa que seja na versã o portuguesa seja na inglesa, as estraté gias orientadas pelo horizonte de expetativa do leitor sã o as opç õ es preferenciais em relaç ã o à s outras, oferecendo assim as traduç õ es mais compreensíveis para o leitor-alvo.
67 Atentamos agora nos dois exemplos selecionados da amostra desta categoria para uma aná lise comparativa. Tabela 14: Seleç ã o de PES para Aná lise Comparativa Pá gina LP (CN) LC (PT) LC (EN) 18 感恩图报 g ǎ n ē n tú bà o ser grato aos favores alheios be grateful to others and seek ways to return their kindness 244 踏青插柳 tà q ī ng ch ā li ǔ passear pelo campo take an outing in the countryside and wear a willowing on the head Ex1: LP (CN): 感恩图报 g ǎ n ē n tú bà o (pá g. 18) LC (PT): ser grato aos favores alheios LC (EN): be grateful to others and seek ways to return their kindness A expressã o 感恩图报 g ǎ n ē n tú bà o reflete um dos valores vitais de moralidade para a sociedade chinesa. 感恩 g ǎ n ē n significa agradecer ou ser grato e 图报 tú bà o tem o sentido de retribuir os favores prestados. No tocante a este caso, o tradutor portuguê s mostra uma predileç ã o pelo apagamento, escondendo o sentido dos dois carateres chineses posteriores na língua-alvo. Por sua vez a traduç ã o inglesa conserva todo o conteú do original, recorrendo à traduç ã o literal. Achamos que ambas as traduç õ es fazem sentido nos seus respetivos contextos, diferindo nos horizontes de expetativa. Ex2: LP (CN): 踏青插柳 tà q ī ng ch ā li ǔ (pá g. 244) LC (PT): passear pelo campo LC (EN): take an outing in the countryside and wear a willowing on the head O Dia de Qingming , també m conhecido como o Dia da Limpeza dos Tú mulos, é um festival tradicional chinê s para reverê ncia aos entes falecidos. Neste dia, para alé m de render homenagem aos antepassados, 踏青插柳 tà q ī ng ch ā li ǔ, que significa literalmente dar um passeio e usar o ramo de salgueiro, també m é um costume essencial, uma vez que este período é o momento perfeito para passear pelo campo coberto pela vegetaç ã o verdejante. Esta atividade chama-se 踏青 tà q ī ng . Nos tempos antigos, durante esta excursã o, os chineses costumavam colocar ramos de salgueiro no cabelo com o intuito de afugentar maus espíritos e desejar votos de paz, harmonia e felicidade, chamando esta atividade de 插柳 ch ā li ǔ.
68 A versã o portuguesa nã o conserva todo o conteú do exposto na língua-fonte, omitindo a interpretaç ã o da segunda atividade. Cremos que esta traduç ã o, de algum modo, demonstra uma quebra de fidelidade. Em comparaç ã o com a versã o portuguesa, a inglesa explica razoavelmente o sentido desta expressã o, preservando suficientemente o significado da língua de partida, com o intuito de o leitor poder conhecer uma nova cultura e costumes estrangeiros. Deste modo, poderíamos oferecer uma proposta de traduç ã o para portuguê s como “passear pelo campo com um ramo de salgueiro na cabeça”, tornando assim a expressã o mais explícita. 3.2.4 Aná lise Comparativa - Palavras e Expressõ es Filosó ficas Esta secç ã o dedica-se à aná lise dos exemplos pertencentes à s palavras e expressõ es filosó ficas (PEF) com carga cultural. Para tal, elaboramos de seguida uma tabela comparativa ( cf . Tabela 15). Tabela 15: Tabela Comparativa Geral - PEF Nº Pá g. Chinê s (LP) Portuguê s (LC) Inglê s (LC) LC (PT) Estraté gia LC (EN) Estraté gia 1 2 天人合一 ti ā nré n héy ī fusã o entre o Homem e o Cé u Traduç ã o Literal Nature and Man are one Adaptaç ã o 2 2 修身养性 xi ū sh ē n y ǎ ngxìng culto moral e temperamento refinado Adaptaç ã o moral cultivation and temper refinement Adaptaç ã o 3 5 己所不欲, 勿施于人 j ǐ su ǒ bù yù , wù sh ī yú ré n Nã o fazer aos outros aquilo que nã o gostaria que fosse feito a si mesmo Equivalê ncia Do as you would like to be done by others Equivalê ncia 4 8 儒家思想 rú ji ā s ī xi ǎ ng confucionismo Empré stimo (Decalque) Confucianism Empré stimo (Decalque) 5 10 道家思想 dà oji ā s ī xi ǎ ng taoísmo Empré stimo (Decalque) Taoism Empré stimo (Decalque) 6 10 道法自然 dào f ǎ zìrá n O Tao respeita a Natureza Traduç ã o Literal Tao is defined by nature Adaptaç ã o
69 7 24 一言既出, 驷马难追 y ī yá n jìch ū , sìm ǎ ná nzhu ī Palavra dita nã o volta atrá s Equivalê ncia What is said cannot be unsaid Equivalê ncia 8 32 女娲补天 N ǚ W ā b ǔ ti ā n Reparaç ã o do Cé u por Nu Wa Empré stimo +Traduç ã o Literal Nu Wa Mends the Sky Empré stimo +Traduç ã o Literal 9 68 王母 wá ngm ǔ Rainha Mã e do Cé u Explicitaç ã o Queen Mother of Heaven Explicitaç ã o 10 230 仙人 xi ā nré n imortais Adaptaç ã o the divine Adaptaç ã o 11 231 占卜吉凶 zh ā nb ǔ jíxi ō ng adivinhar a sorte Equivalê ncia read the future Equivalê ncia A ocorrê ncia das estraté gias utilizadas nesta categoria é apresentada na Figura 11. 0 0.5 1 1.5 2 2.5 3 3.5 4 4.5 Empré stimo Traduç ã o Literal Adaptaç ã o Apagamento Equivalê ncia Explicitaçã o Versã o Portuguesa Versã o Inglesa Figura 11: Ocorrê ncias de Estraté gias de Traduç ã o - PEF Observando a Figura 11 acima apresentada, é evidente constatar que o tradutor inglê s adota mais a adaptaç ã o no que respeita à s palavras e expressõ es filosó ficas com carga cultural. Para alguns exemplos, tanto na versã o portuguesa como na inglesa, os tradutores adotam com frequê ncia as estraté gias de empré stimo e equivalê ncia. Percebemos que quanto à filosofia, cada uma possui as suas pró prias teorias e os seus termos específicos. Sendo assim, o tradutor tem por vezes de empregar
70 palavras ou expressõ es da língua de partida para conservar a sua originalidade. Ao mesmo tempo, foi com alguma surpresa que descobrimos haver algumas expressõ es chinesas de conteú do equivalente à s expressõ es portuguesas e inglesas, como p.e.己所不欲,勿施于人 j ǐ su ǒ bù yù , wù sh ī yú rén (Nã o fazer aos outros aquilo que nã o gostaria que fosse feito a si mesmo), o que manifesta, de algum modo, que existem pensamentos filosó ficos mundialmente conhecidos. Procedemos també m à aná lise da proporç ã o de utilizaç ã o dos horizontes orientados pelos diferentes alvos, como se apresenta nas Figura 12 e Figura 13. 50%50% Versã o Portuguesa EOHEA EOHEL Figura 12: Percentagem dos Dois Horizontes em PT – PEF 33% 67% Versã o Inglesa EOHEA EOHEL Figura 13: Percentagem dos Dois Horizontes em EN – PEF No que concerne a versã o portuguesa, podemos facilmente constatar que há um equilíbrio quanto à s estraté gias orientadas pelos dois horizontes. Na versã o inglesa, as estraté gias orientadas pelo horizonte de expetativa do autor representam 33%, o que manifesta uma preferê ncia pelo uso das estraté gias orientadas pelo horizonte de expetativa do leitor.
71 Passamos a particularizar dois exemplos representativos para a aná lise comparativa. Tabela 16: Seleç ã o de PEF para Aná lise Comparativa Pá gina LP (CN) LC (PT) LC (EN) 2 天人合一 ti ā nré n héy ī fusã o entre o Homem e o Cé u Nature and Man are one 10 道法自然 dà o f ǎ zìrá n O Tao respeita a Natureza Tao is defined by nature Ex1: LP (CN): 天人合一 ti ā nré n héy ī (pá g. 2) LC (PT): fusã o entre o Homem e o Cé u LC (EN): Nature and Man are one A expressã o 天人合一 ti ā nré n héy ī é encontrada, com maior frequê ncia, no estudo do taoísmo, referindo-se à filosofia clá ssica chinesa. 天 ti ā n significa cé u e 人 ré n refere-se aos seres humanos, ou seja, ao Homem. A traduç ã o literal de 合一 héy ī é fusã o, possuindo o sentido implícito duma unificaç ã o em harmonia. Esta sabedoria tradicional chinesa representa a integraç ã o e a ligaç ã o inerente entre o cé u, a terra e os seres humanos, salientando uma relaç ã o equilibrada entre a Natureza e o Homem. É importante notar que, nesta expressã o, os chineses acreditam que 天 ti ā n (o cé u) tem o conceito implícito de 天道 ti ā ndà o (as leis da Natureza) e o cé u é sagrado e grandioso, que domina todas as manifestaç õ es da Natureza. Assim sendo, a palavra天 ti ā n (cé u) equivale a天道 ti ā ndà o (as leis da Natureza). O Homem, por sua vez, deve agir em comunhã o com a Natureza. Esta expressã o descreve desta forma uma convivê ncia harmoniosa e pacífica entre o Homem e a Natureza. Na versã o portuguesa, traduz-se como “fusã o entre o Homem e o Céu”, utilizando a traduçã o literal. A palavra “Céu”, no pensamento ocidental, para alé m do significado primitivo que é o espaç o onde estã o os astros, assume a conceç ã o religiosa de local de morada de Deus e para onde vã o os justos, depois da morte, por oposiç ã o ao inferno. No entanto, nesta aceç ã o nã o existe o conceito sobre a fusã o entre o Homem e o Cé u. Desta maneira, esta expressã o nã o indica o sentido simbó lico do “Céu” nem clarifica o que é “fusão”, causando, de algum modo, uma estranheza aos leitores do mundo lusó fono.
72 Na versã o inglesa, 天 ti ā n (cé u) foi traduzido como Nature (Natureza), em vez de Sky ou Heaven (Cé u). No mundo ocidental, é sabido que o Homem faz parte da Natureza. Vá rias histó rias dizem respeito ao modo como os seres humanos mantê m uma relaç ã o entre si e a Natureza. Neste caso, o tradutor inglê s recorreu ao mé todo de adaptaç ã o a fim de que a traduç ã o possa transmitir com precisã o o sentido da língua de partida e que o leitor-alvo possa entender melhor a mensagem transmitida. Levando-se em conta acima exposto, oferecemos a nossa proposta de traduç ã o “convivê ncia harmoniosa entre o Homem e a Natureza” que pensamos seria uma opç ã o mais pertinente e compreensível. Ex2: LP (CN): 道法自然 dà o f ǎ zìrá n (pá g. 10) LC (PT): O Tao respeita a Natureza LC (EN): Tao is defined by nature A expressã o 道法自然 dà o f ǎ zìrá n també m é uma das teorias filosó ficas mais conhecidas do taoísmo. O Tao (道 dà o ), como referimos no segundo capítulo, é a origem e evoluç ã o do universo. 法 f ǎ significa seguir, observar ou respeitar. 自然 zìrá n indica a Natureza. O taoísmo salienta que os seres humanos devem agir conforme a lei do Tao, e “respeitar o Tao” significa “agir em comunhã o com a Natureza”, visto que o Tao funciona de acordo com as leis da Natureza. Sob a visã o de traduç ã o, a versã o portuguesa é produzida literalmente e a inglesa é criada com algumas alteraç õ es. Consideramos que ambas as traduçõ es fazem sentido nas línguas de chegada. No entanto, tendo em conta a fidelidade na traduç ã o, a traduç ã o portuguesa seria mais adequada do que a inglesa. 3.2.5 Aná lise Comparativa - Palavras e Expressõ es Linguísticas A respeito das palavras e expressõ es linguísticas (PEL) com carga cultural, exibimos em seguida a Tabela 17, associada aos exemplos selecionados para esta categoria e suas traduç õ es nas duas versõ es, bem como as respetivas estraté gias adotadas.
73 Tabela 17: Tabela Comparativa Geral - PEL Nº Pá g. Chinê s (LP) Portuguê s (LC) Inglê s (LC) LC (PT) Estraté gia LC (EN) Estraté gia 1 4 三人行, 必有我师焉 s ā nré n xíng, bìy ǒ u w ǒ sh ī y ā n Uma daquelas trê s pessoas caminhando, necessariamen te, será meu professor Traduç ã o Literal From any three people walking, I will find something to learn for sure Adaptaç ã o 2 18 亲尝汤药 q ī nchá ng t ā ngyà o Provar o Xarope pela Mã e Explicitaç ã o Taste Liquid Medicine for Mother Explicitaç ã o 3 24 一诺千金 y ī nuò qi ā nj ī n Uma promessa vale por mil onç as Adaptaç ã o One promise equals to one ton of gold Adaptaç ã o 4 26 一日为师,终 身为父 y ī rì wé ish ī , zh ō ngsh ē n wé ifù Professor por um dia, pai por toda a vida Traduç ã o Literal A teacher for a day is a father for a lifetime Traduç ã o Literal 5 37 一日不见,如 隔三秋 y ī rì bù jià n, rú gé s ā nqi ū Um dia sem ver é como trê s outonos Traduç ã o Literal One day without seeing is like three autumns Traduç ã o Literal 6 52 离愁别恨 líchó u bié hè n dor da separaç ã o Apagamento grievance when lovers had to part Apagamento +Explicitaç ã o 7 57 愿普天下 有情人 都成眷属 yuà n p ǔ ti ā nxià y ǒ uqíng ré n d ō u ché ng juà nsh ǔ Todos os namorados possam contrair matrimó nio como almejam Adaptaç ã o All those in love shall be wedded Adaptaç ã o 8 60 «红楼梦 hó ngló u mè ng » « Sonho do Pavilhã o Vermelho» Traduç ã o Literal « A Dream of Red Mansions» Traduç ã o Literal 9 138 一言九鼎 y ī yá n ji ǔ d ǐ ng palavra que pesa mais do que nove dings Traduç ã o Literal +Empré stimo One word of promise is equal to nine dings Explicitaç ã o +Empré stimo
80 3.3.3 Comparaç ã o Geral das Duas Versõ es Esta subsecç ã o dedica-se à comparaç ã o quantitativa do uso das estraté gias de traduç ã o nestas duas versõ es. Antes de mais, pretende-se fazer uma contagem global da ocorrê ncia de cada estraté gia do corpus . Sendo assim, apresentamos a Tabela 19, com os cá lculos para identificar quantas vezes aparecem estas estraté gias de traduç ã o. Tabela 19: Estatística Descritiva Geral Estraté gias de Traduç ã o Ocorrê ncia Versã o Portuguesa Versã o Inglesa EOHEA Empré stimo 10 9 Traduç ã o Literal 20 19 Total 30 28 EOHEL Adaptaç ã o 12 15 Apagamento 6 6 Equivalê ncia 5 5 Explicitaç ã o 12 10 Total 35 36 Tal como se verifica na Tabela 19, registaram-se, no total, 129 ocorrê ncias, das quais 65 na versã o portuguesa e 64 na inglesa. Com vista a perceber melhor a distribuiç ã o destas variáveis, cremos funcional criar os grá ficos de barras e circulares para mostrar um contraste, por categoria, entre os dois horizontes e as duas versõ es ( cf . Figura 19, Figura 20, Figura 21). Em primeiro lugar, analisamos a Figura 19. A primeira conclusã o a que podemos chegar é a seguinte: em comparaç ã o com a versã o inglesa, o empré stimo, a traduç ã o literal, e a explicitaç ã o sã o ligeiramente mais utilizadas na versã o portuguesa. Pelo contrá rio, o tradutor inglê s mostra uma predileç ã o pela adaptaç ã o face ao portuguê s. Alé m do mais, reparamos que existe um equilíbrio em ambas as ediç õ es quanto à utilizaç ã o da equivalê ncia e do apagamento, o que constitui a terceira conclusã o a que podemos chegar. Em seguida, procuramos saber qual dos horizontes é o mais escolhido em cada versã o, a partir das proporç õ es dos grá ficos circulares. Como se pode facilmente constatar, tanto na versã o portuguesa como na inglesa, as estraté gias orientadas pelo horizonte de expetativa do leitor apresentam uma
81 percentagem elevada, ao passo que as orientadas pelo horizonte de expetativa do autor demonstram uma percentagem relativamente baixa. Claramente, a percentagem das estraté gias orientadas pelos dois horizontes é indubitavelmente, pró ximas pelo que podemos atestar que a distribuiçã o de dados provenientes de cada grupo está relativamente equilibrada. Na versã o inglesa, verificamos uma tendê ncia semelhante. Figura 19: Ocorrê ncias Gerais de Estraté gias de Traduç ã o Figura 20: Percentagem Geral dos Dois Horizontes em PT
82 Figura 21: Percentagem Geral dos Dois Horizontes em EN Do ponto de vista geral, é -nos permitido supor que para traduzir as palavras e expressõ es chinesas com carga cultural, seja o horizonte de expetativa do autor que visa “impor” as novidades da cultura estrangeira, seja o do leitor que visa proporcionar uma boa experiê ncia de leitura para os recetores, o tradutor pode selecionar qualquer horizonte de expetativa de acordo com cada situaç ã o concreta. Esta comparaçã o de distribuiç ã o das diferentes versõ es evidencia principalmente o desempenho e o foco dos tradutores portuguê s e inglê s, parecendo mostrar uma tendê ncia coincidente, embora um pouco diferente e bastante irregular. Cremos que o resultado obtido depende també m do corpus analisado. De qualquer maneira, sabemos que o corpus é limitado. Poré m, como referimos anteriormente, por constrangimento de tempo, nã o foi possível recolher todas as palavras e expressõ es com carga cultural presentes na monografia, analisando os seus sentidos culturais e as suas respetivas estraté gias de traduç ã o. Este trabalho pretende, desta forma, ser um estudo explorató rio que possa servir de base para um estudo mais aprofundado e significativo da traduç ã o deste tipo de palavras e expressõ es com carga cultural.
83 Conclusã o A presente dissertaç ã o explora como traduzir as palavras e expressõ es chinesas com carga cultural de maneira adequada, bem como a aná lise comparativa entre as suas respetivas traduç õ es para Portuguê s e Inglê s, baseada na monografia intitulada « Conhecimentos da Cultura Chinesa – 中 国文化常识 zh ō ngguó wé nhuà chá ngshì » . No primeiro capítulo, apresentamos brevemente o caso de estudo e o fundamento teó rico do nosso trabalho. Neste sentido, evocamos a Teoria da Receç ã o e apresentamos sua repercussã o nos Estudos de Traduç ã o na China. Na segunda parte do capítulo, expomos a nossa perspetiva para a delimitaç ã o conceptual do termo “palavras e expressões com carga cultural” para descrever as palavras e expressões culturalmente marcadas a partir de uma vasta bibliografia de consulta. Visto que as palavras e expressõ es com carga cultural incluem gé neros diversificados, categorizamo-las como “Palavras e Expressõ es Ecoló gicas”, “Palavras e Expressões Materiais”, “Palavras e Expressões Sociais”, “Palavras e Expressões Filosóficas” e “Palavras e Expressõ es Linguísticas”, conforme a classificação da cultura formulada por Nida (1945). No sentido de oferecer uma compreensã o explícita destes conceitos, expomos as aceç õ es possíveis por categoria, bem como os respetivos exemplos selecionados da monografia que é objeto de aná lise neste trabalho. No segundo capítulo, tendo em conta a investigaç ão levada a cabo por Zhou Xiaomei e Lu Jun (2009) no que diz respeito à repercussã o da Teoria da Receç ã o nos Estudos de Traduç ã o, dividimos os “horizontes de expetativa” em “horizonte de expetativa do autor” e “horizonte de expetativa do leitor” para traduzir as palavras e expressõ es com carga cultural. À luz dos aspetos apresentados, sintetizamos as principais estraté gias de traduç ã o presentes na obra « Conhecimentos da Cultura Chinesa – 中国文化常识 zh ō ngguó wé nhuà chá ngshì » , como segue: a) Estraté gias Orientadas pelo Horizonte de Expetativa do Autor: Empré stimo, Traduç ão Literal. b) Estraté gias Orientadas pelo Horizonte de Expetativa do Leitor: Adaptaç ã o, Apagamento, Equivalê ncia, Explicitaç ã o A este respeito, elaboramos ainda uma tabela de apoio na qual se incluem as noç õ es de “estratégia”, “definição concisa” e “horizonte de expetativa”. Assim, durante a aná lise do corpus do terceiro capítulo, é essencial que o leitor consulte esta tabela, com o propó sito de identificar
84 acertadamente as diferentes estraté gias de traduç ã o aplicadas na língua de chegada. Vale a pena referir que para cada definiç ã o é facultada uma citaç ã o do autor, a fim de proporcionar ao leitor desta dissertaç ã o uma proposta e encorajá -lo a fazer posteriormente a sua pró pria pesquisa. No processo de enunciaç ã o destas estraté gias de traduç ã o, optamos por inserir uma definiç ã o relativamente explícita para cada uma, acompanhada de vá rios exemplos escolhidos da monografia. Na sequê ncia da apresentaç ã o destas estraté gias concretas, desenvolvemos, no terceiro capítulo, uma comparaç ã o relacionada com as traduç õ es portuguesa e inglesa do corpus que serve de base a este estudo empírico, bem como algumas tabelas e figuras que possibilitam e facilitam as aná lises quantitativa e qualitativa. Por meio da aná lise quantitativa das estraté gias adotadas por categoria, percebemos que existem semelhanç as e diferenças em termos da versã o portuguesa e inglesa: a) No caso de PEE: tanto o tradutor portuguê s como o inglê s demonstram uma inclinaç ã o para a traduç ã o literal. b) No caso de PEM: o tradutor portuguê s prefere mais a explicitaç ã o e o inglê s escolhe mais a traduç ã o literal e a adaptaç ã o. Ademais, com base nos excertos, notamos a possível tendê ncia por parte dos dois tradutores de empregar passagens que poderiam ser consideradas de difícil traduç ã o. c) No caso de PES: o tradutor portuguê s demonstra a tendê ncia de optar pela adaptaç ã o, enquanto o inglê s tem preferê ncia pelas estraté gias de traduç ã o literal e explicitaçã o. d) No caso de PEF: tanto na versã o portuguesa como na inglesa, as estraté gias do empré stimo e da equivalê ncia sã o as mais adotadas pelos tradutores. Com alguma surpresa, descobrimos haver algumas expressõ es chinesas de conteú do equivalente à s expressõ es portuguesas e inglesas. Para algumas doutrinas chinesas, tais como o confucionismo e o taoísmo, ambos os tradutores selecionam o empré stimo. Quanto à s outras, a versã o portuguesa valoriza mais a traduç ã o literal enquanto a inglesa prefere habitualmente a adaptaç ã o. e) No caso de PEL: o tradutor portuguê s opta frequentemente pela traduç ã o literal. Na versã o inglesa, para alé m da traduç ã o literal, o tradutor escolhe també m com muita frequê ncia as estraté gias de adaptaç ã o, apagamento e explicitaç ã o. Resumidamente, podemos afirmar que na traduç ã o de palavras e expressõ es chinesas com carga cultural existem semelhanç as entre o tradutor portuguê s e o inglê s, mas també m algumas diferenç as inegáveis. Na aná lise qualitativa, exemplificamos a este propó sito algumas semelhanç as e diferenças
85 entre ambas as versõ es por categoria. Posteriormente, procedemos à comparaç ã o das categorias mais comuns para cada estraté gia em ambas as versõ es, o que permitiu cumprir alguns dos objetivos delineados para esta investigaç ã o: a) No caso da versã o portuguesa: o empré stimo é utilizado mais frequentemente nas PEM e PEF; a traduç ã o literal nas PEE; a adaptaç ã o nas PEM e PES; o apagamento nas PES e PEL; a equivalê ncia nas PEF e a explicitaç ã o nas PEM. b) No caso da versã o inglesa: o empré stimo é també m utilizado mais frequente nas PEM e PEF; a traduç ã o literal nas PEE; a adaptaç ã o nas PEM; o apagamento nas PEL; a equivalê ncia nas PEF e a explicitaçã o nas PES. Ainda neste capítulo, comparamos a distribuiç ã o das estraté gias orientadas pelos horizontes de expetativa, com o objetivo de apurar qual o horizonte de expetativa mais escolhido em cada versã o. Tal exercício permite-nos chegar à conclusã o de que tanto o tradutor portuguê s como o inglê s dã o primazia à s estraté gias orientadas pelo horizonte de expetativa do leitor, relegando para segundo lugar as orientadas pelo horizonte de expetativa do autor, na abordagem das palavras e expressõ es culturais carateristicamente chinesas. Naturalmente, como mencionamos no fim do terceiro capítulo, acreditamos que os resultados acima relatados dependem do corpus analisado. Seria pertinente alargar o estudo das estraté gias escolhidas a todas as palavras e expressõ es com carga cultural presentes na monografia, de modo a apurar se a tendê ncia assinalada aqui se continua reiteradamente a verificar. O nú mero total dos exemplos analisados é algo restrito e esperamos que este aspeto possa ser ultrapassado numa aná lise futura de maior amplitude. O presente trabalho visa explorar as estraté gias concretas para traduzir palavras e expressõ es culturais por categoria, sendo nossa intenç ã o dar um contributo vá lido para a traduç ã o neste â mbito. Com efeito, os resultados obtidos atribuem valores numé ricos à s observaç õ es do uso destas estraté gias, com o fim de estudar estatisticamente possíveis relaç õ es entre categoria e estraté gias de traduç ã o. Se considerarmos a frequê ncia das estraté gias de traduç ã o, do ponto de vista geral, podemos deixar algumas sugestõ es. Para traduzir palavras e expressõ es culturais de diferentes categorias, podemos considerar primeiramente as estraté gias seguintes:
86 a) PEE: Traduç ã o Literal, Empré stimo. b) PEM: Explicitaç ã o, Adaptaç ã o, Empré stimo, Traduç ã o Literal. c) PES: Traduç ã o Literal, Adaptaç ã o, Apagamento. d) PEF: Empré stimo, Traduç ã o Literal, Equivalê ncia. e) PEL: Traduç ã o Literal, Apagamento, Adaptaç ã o. A respeito das propostas acima mencionadas, gostaríamos de acrescentar dois aspetos de clarificaç ã o. Em primeiro lugar, afirmamos a importâ ncia da recolha dos dados estatísticos para a nossa investigaç ã o empírica. As nossas sugestõ es sã o desenvolvidas pelos dados, privilegiando-se, desta forma, uma abordagem empírico-indutiva. A segunda clarificaç ã o é que nã o se verifica uma correlaç ã o absoluta entre a categoria e as estraté gias de traduç ã o. Estas propostas sã o formuladas a partir dos resultados adquiridos do corpus . Naturalmente, para traduzir palavras e expressõ es com carga cultural por diferentes categorias, podemos levar em conta as sugestõ es referidas, mas tal nã o significa que o tradutor tenha de escolher algum mé todo específico. Cada estraté gia tem as suas pró prias caraterísticas e vantagens e a relaç ã o entre as estraté gias orientadas pelos diferentes horizontes deve ser dialé tica e complementar, ao invé s de contraditó ria. De vez em quando, para traduzir algumas expressõ es culturais, nã o se pode adotar somente uma estraté gia. O tradutor deve optar pelas melhores estraté gias conforme diferentes circunstâ ncias, sendo responsável pelo seu equilíbrio para oferecer uma traduç ã o mais coerente, de forma a que o leitor possa ler o texto traduzido da mesma forma como o pró prio tradutor lê o original. Quanto à s limitaç õ es deste trabalho e consideraç õ es sobre o futuro, em primeiro lugar, verificamos que na monografia « Conhecimentos da Cultura Chinesa – 中国文化常识 zh ō ngguó wé nhuà chá ngshì », ambos os tradutores, para a versã o portuguesa e inglesa, sã o chineses e, portanto, conhecem indiscutivelmente a cultura chinesa. Vale a pena acrescentar que embora haja dois sinó logos (o portuguê s e o inglê s) nas equipas de revisã o, existem casos em que eles nã o compreendem bem o sentido do original, ou estes dois tradutores nã o as traduzem bem, criando assim algumas traduç õ es inadequadas. No corpus apresentado encontramos algumas traduç õ es que podem ser melhoras e, consequentemente, fazemos as nossas propostas de traduç ã o no processo da aná lise destas palavras e expressõ es, a fim de contribuir para a revisã o da monografia em questã o. Oferecemos em anexo ( cf. AnexoⅡ), de forma organizada, essas propostas de revisã o.
87 Em segundo lugar, o nosso corpus abrange 58 casos, tendo havido o cuidado de se selecionar os exemplos mais representativos e interessantes. De modo a explicar as palavras e expressõ es chinesas com carga cultural, para cada exemplo referido neste trabalho, apresentamos nã o só estraté gia de traduç ã o, mas també m o seu sentido cultural implícito. No entanto, devido ao constrangimento de tempo, é impossível recolher exaustivamente todas as palavras e expressõ es presentes na obra em aná lise, analisando as suas respetivas traduç õ es. Poré m, é preciso realçar que este trabalho, que funciona como uma investigaç ã o explorató ria, pode servir de base para um estudo mais aprofundado e significativo da traduç ã o deste tipo de expressõ es. Aspiramos ter, no futuro, uma oportunidade para analisar de forma mais global possível todas as estraté gias de traduç ã o no que diz respeito à s palavras e expressõ es culturais presentes na monografia « Conhecimentos da Cultura Chinesa – 中国文化常 识 zh ō ngguó wé nhuà chá ngshì » , bem como os sentidos culturais que as transportam. Em terceiro lugar, em relaç ã o à s estraté gias de traduç ã o apresentadas no segundo capítulo, estamos cientes de que nã o se engloba a totalidade das estraté gias de traduç ã o existentes. Para alé m disso, dada a exuberâ ncia dos Estudos de Traduç ã o, nã o se demonstra uma recolha exaustiva na coluna de definiç ã o. Listamos as estraté gias que consideramos mais importantes e mais frequentemente utilizadas nas duas versõ es em aná lise, bem como as definiç õ es que consideramos mais conhecidas no â mbito da traduçã o. Em quarto lugar, no tocante à aná lise das estraté gias utilizadas no corpus do terceiro capítulo, embora tenhamos consciê ncia de que a nossa classificaç ã o do uso das estraté gias para cada exemplo nã o possa ser considerada absoluta, visto que diferentes tradutores possuem diferentes opiniõ es, tratando-se, antes, de uma classificaç ã o aberta a discussã o e em construç ã o. Apesar destas limitaç õ es, acreditamos que os resultados obtidos ilustram a importâ ncia para as investigaç õ es posteriores. Esperamos que a presente dissertaç ã o possa preencher, de algum modo, a lacuna nos Estudos de Traduç ã o associados à s palavras e expressõ es com carga cultural, ou pelo menos, estimular o futuro desenvolvimento desta á rea. Estamos també m na expetativa de que as nossas propostas de traduç ã o possam dar um pequeno contributo para a revisã o da monografia « Conhecimentos da Cultura Chinesa – 中国文化常识 zh ō ngguó wé nhuà chá ngshì » e as nossas sugestõ es possam impulsionar a traduç ã o das palavras e expressõ es chinesas com carga cultural, promovendo, assim, a comunicaç ã o efetiva nã o só linguística, mas també m cultural entre a China e os países lusó fonos.
88 Bibliografia Aguiar, V. (1996). O leitor competente à luz da teoria literá ria. Revista Tempo Brasileiro , Rio de Janeiro, 124, 23-34. Aixelá , J. (1996). Culture - specific items in translation. Translation, Power, Subversion , 8, 52-78. Aixelá , J. (2013). Itens culturais-específicos em traduç ã o. (Traduç ã o de Mayara Marinho e Roseni Silva). Traduç õ es, Florianó polis, 5(8) . 185-218. Barbosa, L. (2008). O conceito de lexicultura e suas implicaç õ es para o ensino-aprendizagem de portuguê s língua estrangeira. Revista de Filologia e Linguística Portuguesa , (10-11), 31-41. Berman, A. (1985). Translation and the Trial of the Foreign. In L. Venuti (Ed.), The Translation Studies Reader (pp. 285-297). Londres e Nova Iorque: Routledge. Bian. J. 卞建华. (2005). 文学翻译批评中运用文学接受理论的合理性与局限性 Wé nxué f ā nyì p ī píng zh ō ng yù nyò ng wé nxué ji ē shò u l ǐ lù n de hé l ǐ xìng y ǔ jú xiànxìng [A racionalidade e as limitaç õ es da aplicaçã o da teoria da receçã o na crítica da traduç ã o literá ria]. Foreign Languages and Their Teaching. (1). 45-48. Disponível em http://kdoc.cnki.net/kdoc/docdown/pubdownload.aspx?dk=kdoc%3apdfdown%3a0c4abd1aab00 a085db36214d6665a830&lang=GB Brandã o, L. (2009). Teoria literá ria e traduç ã o. Cadernos de traduç ã o, 1(23), 9-21. Chesterman, A. (1997). Memes of Translation. The Spread of Ideas in Translation Theory . Amsterdão e Filadélfia: John Benjamin’s Publishing Company. Cui. Y. 崔永禄. (2004). 鲁迅的异化翻译理论 L ǔ xù n de yìhuà f ā nyì l ǐ lù n [Alienation Translation Theory Advocated by Lu Xun]. Journal of Zhejiang University (Humanities and Social Science) . 34(6). 143-149. Disponível em https://wenku.baidu.com/view/77aaaf6ccbaedd3383c4bb4cf7ec4afe04a1b16a.html
89 Figurelli, R. (1988). Hans Robert Jauss e a esté tica da recepç ã o. Revista Letras , 37. Galisson, R. (1987). Accé der à la Culture Partagé e in É tudes de Linguistique Appliqué e No. 67. Paris. Didier É rudition . Hanban. 汉办. (2014). Confucius Institute Headquarters. Disponível em http://english.hanban.org/node_7716.htm Hanban. 汉办. (2015). Conhecimentos da Cultura Chinesa . Beijing: Higher Education Press. Hanban. 汉办. (2017). Common Knowledge About Chinese Culture . Beijing: Higher Education Press. He. W. 贺微. (1999). 翻译: 文本与译者的对话 F ā nyì: Wé nb ě n y ǔ yìzh ě de duìhuà [Traduç ã o: Diá logo entre Texto e Tradutor]. Journal of Foreign Languages . (1). 42-48. Disponível em http://kdoc.cnki.net/kdoc/docdown/pubdownload.aspx?dk=kdoc%3apdfdown%3a0751b31972c4b 43ff60b634e9392ee8a&lang=GB Hu. K. 胡开宝. (2006). 论异化与《新世纪汉英大词典》中文化限定词的翻译 Lù n yìhuà y ǔ “x ī nshìjì hà ny ī ng dà cídi ǎ n” zh ō ng wé nhuà xiàndìngcí de f ā nyì [Discussã o sobre estrangeirizaç ã o e traduç ã o das palavras culturais presentes no « A New Century Chinese – English Dictionary» ]. Foreign Language Education . (1). 59-64. Disponível em http://kdoc.cnki.net/kdoc/docdown/pubdownload.aspx?dk=kdoc%3apdfdown%3a963398cc000d 8944201fb90656b016e7&lang=GB Hu, W. 胡文仲. (1999). 跨文化交际学概论 Kuà wé nhuà ji ā ojì xué gà ilù n [Introduç ã o aos Estudos de Comunicaç ã o Intercultural]. Beijing: Foreign Language Teaching and Research Press. Ingarden, R. (1979). A obra de arte literá ria . Traduç ã o: Albin E. Beau, Maria C. Puga e Joã o F. Barrento. 2. ed. Lisboa: Fundaç ã o Calouste Gulbenkian.
96 y ī rì bù jià n, rú gé s ā nqi ū 19 52 离愁别恨 líchó u bié hè n dor da separaç ã o grievance when lovers had to part 20 57 愿普天下有情 人都成眷属 yuà n p ǔ ti ā nxià y ǒ uqíng ré n d ō u ché ng juà nsh ǔ Todos os namorados possam contrair matrimó nio como almejam All those in love shall be wedded 21 60 «红楼梦 hó ngló umè ng » « Sonho do Pavilhã o Vermelho» « A Dream of Red Mansions» 22 68 喜鹊 x ǐ què pega magpie 23 68 王母 wá ngm ǔ Rainha Mã e do Cé u Queen Mother of Heaven 24 69 包办婚姻 b ā obà n h ū ny ī n matrimó nio imposto arranged (forced) marriage 25 102 «十面埋伏 shímiàn má ifú » « Emboscadas em Todas as Direç õ es» «The Ambush on All Sides» 26 106 脸谱 li ǎ np ǔ má scaras da Ó pera de Beijing facial make-up 27 124 国粹 guó cuì quintessê ncia da cultura quintessence of culture 28 138 一言九鼎 y ī yá n ji ǔ d ǐ ng palavra que pesa mais do que nove dings One word of promise is equal to nine dings 29 152 金缕玉衣 j ī nl ǚ yù y ī mortalha de jade e fios de ouro jade suit sewn with gold thread 30 166 诗情画意 pitoresco picturesque
97 sh ī qíng huàyì 31 188 唐三彩 tá ngs ā nc ǎ i cerâ mica tricolor da dinastia Tang Tang tricolor pottery 32 202 丝绸之路 s ī chó u zh ī lù Rota da Seda Silk Road 33 212 文房四宝 wé nfá ng sìb ǎ o quatro tesouros do escritó rio four treasures of the study 34 226 满月酒 m ǎ nyuè ji ǔ celebraç ã o do primeiro mê s de vida One-month-old feast 35 228 红盖头 hó ng gà itou vé u vermelho de seda sobre a cabeç a red veil 36 228 一拜天地,二 拜高堂,夫妻 对拜 y ī bà i ti ā ndì, èrbài g ā otá ng, f ū q ī duìbà i Dediquem a primeira reverê ncia ao Cé u e à Terra! Dediquem a segunda reverê ncia aos pais! Troca da terceira reverê ncia entre o casal. First bow to the heaven and earth; second bow to the parents; third bow to each other 37 230 麒麟送子 qílín sò ngz ǐ Qilin Traz o Filho Kylin Brings the Son 38 230 江南 ji ā ngná n sul do rio Yangzé southern China 39 230 仙人 xi ā nré n imortais the divine 40 231 龙 ló ng dragã o Dragon 41 231 龙凤呈祥 ló ngfè ng ché ngxiá ng Bons Agouros com a Presenç a do Dragã o e da Fé nix Dragon and Phoenix
98 42 231 占卜吉凶 zh ā nb ǔ jíxi ō ng adivinhar a sorte read the future 43 234 福寿双全 fú shò u shu ā ngquá n felicidade e longevidade fushou shuangquan - luck and health 44 234 诸事顺意 zh ū shì shùnyì Os negó cios vã o de vento em popa Everything goes as one wishes 45 234 百吉 b ǎ ijí Cem Nó s Baiji 46 236 庙会 mià ohuì feira de templo temple fair 47 238 舞狮 w ǔ sh ī danç a do leã o lion dance 48 240 饺子 ji ǎ ozi jiaozi (ravió lis) dumplings ( jiaozi ) 49 240 年糕 niá ng ā o niangao (pastel feito com arroz glutinoso) New Year cake 50 240 腊月 làyuè dezembro no calendá rio chinê s The 12th lunar month 51 240 华夏子孙 huá xià z ǐ s ū n Chineses The Chinese 52 244 踏青插柳 tà q ī ng ch ā li ǔ passear pelo campo take an outing in the countryside and wear a willow twig on the head 53 246 端午节 du ā nw ǔ jié Festa de Duanwu The Dragon Boat Festival 54 246 宁愿荒废一年 田,不愿输掉 一年船 Preferir abandonar por um ano o solo fé rtil do que perder a competiç ã o de barcos do dragã o We would waste one year’s farming rather than lose one year’s dragon boat race
99 nìngyuà n hu ā ngfè i y ī nián tiá n, bù yuàn sh ū dià o y ī nián chuá n 55 248 月饼 yuè b ǐ ng bolo da lua moom cake 56 256 旗袍 qípá o qipao cheong-sam 57 260 鲁菜 l ǔ cà i escola gastronó mica da província de Shandong Shandong cuisine 58 281 白话文 bá ihuàwé n escrita moderna Vernacular Chinese
100 Anexo Ⅱ. Propostas de Revisã o A organizaç ã o segue a ordem das pá ginas Nº Pá g. LP (CN) LC (PT) - Traduç ã o da monografia LC (PT) - Traduç ã o por nó s proposta 1 2 天人合一 ti ā nrén héy ī fusã o entre o Homem e o Cé u convivê ncia harmoniosa entre o Homem e a Natureza 2 22 岁寒三友 suìhá n s ā ny ǒ u trê s amigos em tempos de frio Pinheiro, Bambu e Flor da Ameixeira – Trê s perseverantes amigos nos picos do frio 3 37 一日不见, 如隔三秋 y ī rì bù jià n, rú gé s ā nqi ū Um dia sem ver é como trê s outonos um dia ausente é como trê s outonos 4 52 离愁别恨 líchó u bié hè n dor da separaç ã o má goa da ausê ncia e arrependimento da separaç ã o 5 106 脸谱 li ǎ np ǔ má scaras da Ó pera de Beijing má scaras da Ó pera de Pequim 6 166 诗情画意 sh ī qíng huàyì pitoresco com sentimento poé tico e charme pitoresco 7 188 唐三彩 tá ngs ā nc ǎ i cerâ mica tricolor da dinastia Tang cerâ mica de esmalte tricolor da dinastia Tang 8 234 百吉 b ǎ ijí Cem Nó s Cem Nó s – um desenho auspicioso chinê s 9 240 饺子 ji ǎ ozi jiaozi (ravió lis) jiaozi (ravió lis chineses) 10 240 年糕 niá ng ā o niangao (pastel feito com arroz glutinoso) niangao (bolo ou massa feito com arroz glutinoso) 11 240 腊月 làyuè dezembro no calendá rio chinê s 12ª lua do calendá rio lunissolar chinê s
101 12 244 踏青插柳 tà q ī ng ch ā li ǔ passear pelo campo passear pelo campo com um ramo de salgueiro na cabeça 13 246 端午节 du ā nw ǔ jié Festa de Duanwu Festa do Barco do Dragã o