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Davide Miguel de Jesus Fernandes Gravato Redes e Rimas: NetnoRetratos do Rap em Portugal e no Brasil Maio de 2025 UMinho | 2025 Davide Gravato Redes e Rimas: NetnoRetratos do Rap em Portugal e no Brasil Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais
Instituto de Ciências Sociais Davide Miguel de Jesus Fernandes Gravato Redes e Rimas: NetnoRetratos do Rap em Portugal e no Brasil Tese de Doutoramento Estudos Culturais Trabalho efetuado sob a orientação de Professora Doutora Rosa Cabecinhas Professor Doutor Fabio Malini Maio de 2025
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial CC BY-NC https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/
iii Agradecimentos Quero deixar um agradecimento especial àqueles que me incentivaram a iniciar esta pesquisa, particularmente, Sergio Denicoli e a Professora Rosa Cabecinhas, também minha orientadora. Devo reconhecer ainda o apoio dos docentes, colegas e colaboradores do ICS e ELACH, pela partilha e contributos nesta caminhada que, sem eles, teria sido bem mais solitária. Queria ainda agradecer a Fabio Malini, meu coorientador, e colegas do Laboratório de Internet e Ciência de Dados (LABIC) pelas reflexões e discussões ao longo deste trabalho. Agradeço à equipa do projeto Migra Media Acts pelo companheirismo, ao Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho e ao Centro de Ciências Humanas e Naturais da Universidade Federal do Espírito Santo pelo acolhimento. Não posso esquecer de agradecer à Fundação para a Ciência e Tecnologia por me ter permitido desenvolver esta pesquisa com o suporte de uma Bolsa de Doutoramento. Valorizo ainda a força que me foi dada pela família, tanto a portuguesa quanto brasileira, e a paciência de amigos, colegas e até estranhos em me ouvir falar deste projeto. “São derrotas e vitórias, fracassos e glórias juntos numa única história que todo o dia escrevemos sem papel, sem caneta, mas todo passo que damos mudamos o planeta” Cigas – À procura, 2007 Financiamento Este trabalho foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) com a referência SFRH/BD/145837/2019. Este foi realizado no âmbito do projeto MigraMediaActs – Migrações, Média e Ativismos em Língua Portuguesa: Descolonizar Paisagens Mediáticas e Imaginar Futuros Alternativos (PTDC/COM-CSS/3121/2021).
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Universidade do Minho, 28 de Janeiro de 2025. Davide Gravato
v Redes e Rimas: NetnoRetratos do Rap em Portugal e no Brasil RESUMO: Esta tese propõe um quadro teórico-metodológico denominado NetnoRetratos, o qual integra abordagens qualitativas e quantitativas para a análise de objetos culturais no ambiente digital. A pesquisa aplica esse método ao focar nos movimentos culturais Rap nos contextos de Portugal e Brasil. As dinâmicas destes movimentos nas redes são analisadas a partir da identificação de perspetivistas, combinando netnografia e avaliação de dados estruturados, com uma constante atenção aos fenómenos que interferem nos processos de análise de dados digitais. A prática de recorrer a dados de internet para analisar fenómenos que ocorrem nos ambientes online pode revelar a existência de padrões na sociabilidade dos utilizadores, discursos recorrentes sobre determinados tópicos, fluxos de informação, entre muitos outros aspetos sobre o objeto estudado. Utilizar métodos digitais pode, no entanto, acrescentar desafios a uma pesquisa, sejam eles de natureza técnica, teórica, ética, etc. É importante considerar os contextos dos objetos e respeitar as perspetivas encontradas, seguir um método que se adapte à transformação das redes, porém, tendo em atenção à parcialidade das estruturas que as envolvem. A partir da exploração do Rap na esfera pública online, nos contextos de Portugal e Brasil, esta dissertação demonstra como o quadro teórico-metodológico desenvolvido - o NetnoRetrato - pode ser utilizado para mapear redes simbólicas e narrativas, bem como identificar dinâmicas sociais e culturais na internet. Este exercício procura expandir as possibilidades de leitura e interpretação de fenómenos culturais online e oferecer um modelo que permita pesquisadores e profissionais compreender objetos a partir das suas múltiplas manifestações em rede. PALAVRAS-CHAVE: Métodos digitais; NetnoRetrato; Perspetivismo nas redes; Rap brasileiro; Rap português;
vi Networks and Rhymes: NetnoPortraits of Portuguese and Brazilian Rap ABSTRACT: This thesis proposes a theoretical-methodological framework named NetnoPortraits, which integrates qualitative and quantitative approaches for the analysis of cultural objects in digital environments. The research applies this method by focusing on Rap cultural movements in the contexts of Portugal and Brazil. The dynamics of these movements in online networks are analyzed by identifying perspectives, combining netnography and structured data evaluation, with consistent attention to the phenomena that may interfere with the processes of digital data analysis. The practice of using internet data to analyze phenomena occurring in online environments can uncover patterns in user sociability, recurring discourses on specific topics, information flows, and many other aspects of the studied object. However, employing digital methods introduces challenges, whether technical, theoretical, ethical, or otherwise. It is essential to consider the contexts of the objects studied, respect the perspectives encountered, and adopt methods that adapt to the everevolving nature of online networks, while remaining mindful of the partiality and biases inherent in their structures. Through the exploration of Rap in the online public sphere, within the contexts of Portugal and Brazil, this dissertation demonstrates how the developed theoretical-methodological framework — NetnoPortraits — can be used to map symbolic and narrative networks, as well as identify social and cultural dynamics on the internet. This effort seeks to broaden the possibilities for reading and interpreting online cultural phenomena and to provide a model that enables researchers and professionals to understand objects through their multiple manifestations in digital environments. KEYWORDS: Brazilian rap; Digital methods; NetnoPortrait; Online perspetivism; Portuguese rap;
vii Índice Introdução ................................................................................................................................ 1 1. Cultura no plural................................................................................................................... 7 1.1. Estudos Culturais: contextos e panos de fundo no CCCS .............................................. 11 1.2. Estudos Culturais: área disciplinar transnacional .......................................................... 18 1.3. Entre a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade .................................................. 24 1.4. Entre a cultura e a transculturalidade .......................................................................... 37 1.4.1. Cultura como produção de significado .................................................................. 40 1.4.2. Cultura como identidade e diferença .................................................................... 43 1.4.3. Cultura como poder e dominação ......................................................................... 45 1.4.4. Subcultura como terminologia convoluta............................................................... 47 1.4.5. Cultura como construção social da realidade ........................................................ 50 1.4.6. Cultura como sistema de comunicação ................................................................ 52 1.5. Glossário de conceitos ................................................................................................. 55 2. NetnoRetrato: Redes e mónadas em perspetiva .................................................................. 57 2.1. A sociedade na internet e a internet social ................................................................... 57 2.1.1. Tecnologia como cultura ...................................................................................... 57 2.1.2. Os principais estágios da internet ......................................................................... 59 2.1.3. A Comunicação Agenciada por Computação na sociedade em rede, da vigilância e algorítmica ..................................................................................................................... 60 2.2. NetnoRetratos ............................................................................................................. 68 2.2.1. NetnoRetrato – Ponto de situação contextual na internet ....................................... 68 2.2.2. NetnoRetrato - Análise perspetivista de redes sociais ............................................ 73 3. NetnoRetratos: um meta-métodos ....................................................................................... 94 3.1. Netnografia: estar no digital ......................................................................................... 94
3 permita analisar dinâmicas socioculturais no ambiente digital, considerando as complexidades técnicas, teóricas e éticas inerentes aos contextos a elas adjacentes? Esta tese propõe enfrentar esses desafios por meio de uma abordagem transdisciplinar, que integra conhecimentos académicos e práticas profissionais. O nosso objetivo central é construir um modelo que vá além da dicotomia entre teoria e prática e que permita analisar objetos digitais de forma contextualizada e situada, considerando tanto as infraestruturas tecnológicas quanto os significados culturais que emergem das interações online. Assim, tentaremos criar uma integração de abordagens que aja segundo um “desenho convergente” (Morgan, 2017), de modo que progressos e desdobramentos da análise a potenciem nos passos seguintes. A proposta apresentada nesta tese – o NetnoRetrato – surge como uma resposta a essa necessidade. Neste trabalho tentamos fazer aproximações entre o conhecimento académico de práticas de mercado, portanto, procuramos evidenciar as potencialidades de análise de dados digitais ao diversificar os exemplos de práticas e dinâmicas nela envolvidas. Uma segunda e importante questão desta pesquisa recai na atual configuração online das comunidades Rap em Portugal e no Brasil. Isto é, quais dinâmicas e narrativas são comuns na esfera pública online, e como estas foram evoluindo desde o surgimento da cultura Hip-Hop? Pretendemos assim identificar as diferentes fases e contextos do movimento cultural em Portugal e no Brasil. No capítulo um introduzimos os Estudos Culturais como ponto de partida. Entendemos que a análise das dinâmicas digitais contemporâneas exige um olhar que ultrapasse os limites das disciplinas tradicionais. Desta forma, este estudo posiciona os Estudos Culturais enquanto pano de fundo valioso para sustentar uma abordagem transdisciplinar. Esta área de conhecimento, ao romper com a separação entre academia e sociedade, permite que a metodologia por nós proposta transite entre o conhecimento formal e a prática aplicada, facilitando um diálogo entre as realidades do “social”, mercado e ciência. A transdisciplinaridade torna-se, portanto, uma peça essencial para pensar e fazer pesquisa sobre a cultura digital, integrando perspetivas diversas e múltiplas formas de produção de sentido. Neste contexto, o capítulo também estabelece a importância de adotar uma postura que nunca ignora a aprendizagem constante por meio da prática. Como veremos adiante, esse posicionamento é relevante para navegar pelos contextos dinâmicos e imprevisíveis que marcam as interações sociais e culturais no ambiente online. Além disso, defendemos o conceito de transculturalidade (Welsch, 1999) como chave para compreender a complexidade dos processos culturais contemporâneos. Por fim, o capítulo apresenta uma
4 abordagem multifacetada da cultura e prepara o caminho para a proposta metodológica que será apresentada nos capítulos seguintes. No capítulo dois iniciamos por contextualizar dinâmicas e o processo evolutivo da internet, para em seguida definirmos o NetnoRetrato. O foco deste capítulo passa por explicar as três principais bases teóricas, e a vantagem da simbiose entre elas. A primeira trata de se estender sobre o perspetivismo “ameríndio” de Viveiros de Castro (2004), e como este nos aproxima de uma mundividência antropológica simétrica, a qual será importante para depois analisar e identificar perspetivas de forma mais transparente, isto é, sem que os pesquisadores e profissionais interfiram nos seus significados no momento de os apresentar. Fazemos uma ponte para a segunda teoria, a ANT de Latour (2012), para estabelecer quem pode ser sujeito numa rede, e a importância desta para a análise das mónadas digitais, a qual completa o nosso quadro teórico. Estas, atualizadas tanto a partir dos contributos de Leibniz quanto da visão do “social” de Gabriel Tarde (1890/2004), são unidades autónomas de informação e interação no ciberespaço, onde cada uma contém dados, funções e um certo grau de "perceção" ou representação do mundo digital, interagindo com outras sem perder sua individualidade. O capítulo três, correspondente à segunda parte da descrição e explicação do NetnoRetrato, apoia-se nas componentes mais práticas da nossa ferramenta metodológica. Introduzimos a abordagem netnográfica e a análise de Big Data, como formas complementares de coleta de dados na internet. Damos ainda atenção a questões éticas relacionadas com estes modelos de produção de conhecimento. Não só descrevemos os desafios éticos que os pesquisadores e profissionais enfrentam ao coletar e analisar dados, como debatemos que precauções e procedimentos podem ser tomados para tentar mitigá-los. Posteriormente, relacionamos a teoria dos grafos como ponto fulcral para a apresentação de perspetivas e mónadas digitais, assim como os conceitos base a ela associados. É neste capítulo que mencionamos a “intraobjetividade”, uma forma de conjugar posicionamentos e abordagens (auto)críticos para auxiliar os pesquisadores e profissionais, não só na análise de dados coletados, mas na perceção da interferência das plataformas na esfera pública, nas repercussões do que chamamos de “parcialidade do código” e na produção de conhecimento situado (Haraway, 1988), terminamos o capítulo com outras considerações relevantes sobre o NetnoRetrato. Os dois últimos capítulos mostram formas de aplicar as abordagens do NetnoRetrato. No quatro, mostramos a importância da contextualização do objeto, uma vez que analisámos os panos
5 de fundo da cultura Hip-Hop para entender a transformação dos movimentos Rap que mais tarde chegariam a Portugal e ao Brasil. A necessidade desta contextualização alargada passa pela relevância de situar os fenómenos digitais dentro de narrativas mais amplas. Assim, começamos a analisar a cultura Hip-Hop desde a partir dos anos 1930, em vez a situarmos tradicionalmente no contexto dos movimentos de direitos civis nos Estados Unidos da América nos anos 1960. Outro dos motivos para tal escolha centrou-se na análise do Hip-Hop enquanto transcultural. De seguida fazemos um paralelo entre a evolução do Hip-Hop e a desenvolvimento tecnológico nas comunidades e sociedade. Partimos assim para a exposição global deste fenómeno sociocultural e a chegada e adaptação do mesmo aos contextos português e brasileiro. Depois de os caracterizarmos, estabelecemos quais foram as suas diferentes fases e tratamos da transição dos movimentos Rap da rua para a internet. Terminamos o capítulo contextualizando estes movimentos nos dias atuais. No capítulo cinco, começamos por considerar aspetos relevantes dos movimentos Rap nos dois países, para iniciarmos as demais análises previstas num NetnoRetrato. Este capítulo serve, sobretudo, para exemplificar as possíveis implementações teóricas e práticas da nossa metodologia, e aprofundar o ponto de situação atual dos movimentos Rap quanto à discussão pública nas redes sociais. Utilizamos abordagens como netnografia e análise de Big Data enquanto descrevemos dinâmicas próprias de cada plataforma. Ao longo desta exposição vamos revelando padrões de interações, narrativas e discursos sobre o debate público de temas generalistas associados aos movimentos culturais. Por fim, mostramos como a análise perspetivista, isto é, a integração do quadro teórico descrito no capítulo dois, auxilia os pesquisadores e profissionais a ver o “todo presente nas partes”. Precisamos, antes de partirmos para o capítulo um, olhar para dentro e situar esta tese e aqueles envolvidos. Com este exercício, os leitores ficarão informados à priori dos panos de fundo e contextos associados a esta tese de doutoramento em Estudos Culturais. O projeto de investigação foi financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), possui um vínculo com o Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), o qual está inserido no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade do Minho. Adicionalmente, a pesquisa faz parte do Projeto MigraMediaActs, pioneiro no estudo do ativismo decolonial na esfera pública em língua portuguesa (Cabecinhas, 2024), sediado no mesmo centro e universidade, e coordenado por Rosa Cabecinhas, que orientou este projeto. Como proposto pelo nosso projeto de investigação, durante um ano, esta pesquisa cumpriu um estágio de mobilidade no Centro de Ciências Humanas e
6 Naturais, sob o programa doutoral em Linguística na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), com a supervisão de Fabio Malini, co-orientador deste projeto e criador do Laboratório de estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic), laboratório esse que forneceu dados para a nossa pesquisa. Outra entidade que nos ajudou na coleta e análise de dados foi a AP Exata, empresa luso-brasileira especializada em estratégias de comunicação orientada por dados. Por fim, cabe salientar que, tendo iniciado em 2019, a nossa investigação foi afetada pelas repercussões globais da Covid19. Por último, enquanto autor deste trabalho, ressalto que a escolha deste tema parte da junção das minhas experiências académicas, profissionais e artísticas. Comecei a fazer Rap português em 2005, aos 15 anos, momento de transição do movimento cultural para a internet. Até hoje participei em diversas coletâneas e projetos, tanto em Portugal quanto no Brasil. O interesse na cultura Hip-Hop alargou-se no contexto universitário, uma vez que foi tema de vários dos meus artigos e da dissertação de mestrado (Gravato, 2017). Possuo experiência profissional em gestão de projetos, marketing e análise de dados de internet. Em suma, esta tese é fruto de todas essas experiências, ou seja, uma mistura de conhecimento tácito com a fusão de um interesse pessoal e artístico, que posteriormente migrou para um percurso académico. Penso ainda ser relevante informar os leitores de que, apesar de ser português, faço uso recorrente de estruturas frásicas mais usuais no Brasil, como a utilização do gerúndio, devido à minha longa e constante vivência nesse país.
7 1. Cultura no plural “Il y a de quoi se faire du souci Quant au devenir de l'homme sur la planète, À commencer par ce pays dans lequel je vis, Où l'on cultive la différence, laissant l'unité dans l'oubli.” Saian Supa Crew - La Preuve Par 3, 1999 Iniciar uma jornada pelos Estudos Culturais é mergulhar num labirinto de significados, práticas e interações que tentam definir, ou pelo menos traduzir, a experiência humana. "Cultura no Plural", o capítulo inicial desta tese, não se limita a contextualizar aspetos desse labirinto; aspira compreender como os seus percursos se entrecruzam e ultrapassam as suas fronteiras aparentes. A transcendência da cultura, encarada não como uma entidade única e imutável, mas como um mosaico de expressões dinâmicas em constante diálogo, conduz a narrativa deste capítulo. Aqui, desdobra-se a cultura em múltiplas dimensões, desvendando a capacidade de interconexão e transformação que define a transculturalidade. Este capítulo assume, pois, a forma de um convite à reflexão sobre a complexidade cultural na era da (pós-)globalização, salientando o valor inerente na compreensão das suas diversas formas e na apreciação da sua constante organicidade e evolução enquanto conceito. A abordagem que adotamos procura iluminar a textura multifacetada das culturas em interação, sugerindo um modo de observar que reconhece e celebra a diversidade como elemento fulcral para a compreensão do ser humano. Um enquadramento teórico e metodológico pode ser realizado de variadas formas, porém, serve um propósito que é tanto funcional quanto argumentativo. Podemos assumir que um enquadramento teórico-metodológico é funcional pelo seu papel enquanto ferramenta estrutural para uma pesquisa. Na sua ausência, pesquisadores não estariam a produzir ciência com critério e método, mas textos opinativos ou similar. Mas a funcionalidade se desdobra também a favor dos leitores, visto facilitar a compreensão do trabalho quanto aos contextos levados em conta, conceitos, teorias, etc. Um enquadramento teórico e metodológico também se revela argumentativo pois, diante da imensidão de conhecimentos gerados ao longo da humanidade, os pesquisadores precisam escolher caminhos teóricos e metodológicos adequados, mas também que convençam os demais sobre os seus trabalhos e resultados.
8 Assim, escrever um estado-da-arte serve para contextualizar a pesquisa e estabelecer um ponto de referência para o estudo de determinado objeto, evitando ainda que sejam feitos esforços redundantes sobre este. Adicionalmente, a revisão bibliográfica ajuda a situar o conhecimento do pesquisador quanto à área de investigação, teorias, terminologia, etc., assim como informa os leitores quanto às suas influências (Randolph, 2019, p. 2). Além do enquadramento teórico servir para alicerçar uma pesquisa, oferecendo-lhe direção e credibilidade, também auxilia na tarefa de identificar lacunas em estudos anteriores. Já o enquadramento metodológico, apesar de também reforçar a validade dos resultados obtidos, facilita a reprodutibilidade da pesquisa ao detalhar os métodos e tarefas da mesma. Detalhar tarefas metodológicas assegura que o processo de pesquisa foi transparente, tornando-o ainda compreensível para outros pesquisadores. Nesta pesquisa dividimos e, ao mesmo tempo, unimos estes enquadramentos entre os três primeiros capítulos. Separar o enquadramento teórico do enquadramento metodológico pode se adequar por estabelecer um fluxo lógico de escrita e leitura, no entanto, existem algumas razões para discuti-los em conjunto. As três que nortearam a nossa decisão são: a integração de disciplinas; a especificidade da nossa proposta metodológica; e a defesa de que a prática pode emanar teoria. Como veremos no decorrer deste capítulo, esta pesquisa possui um pano de fundo e tópicos inter e transdisciplinares. Mas o que é uma disciplina? Serão os Estudos Culturais realmente uma, ou um conjunto de várias? Eles apresentam-se como uma área de investigação diversa nas suas teorias e abordagens, englobando-as a partir de várias disciplinas. Além disso, utilizamos métodos associados à Ciência de Dados, o que alarga o espectro disciplinar desta pesquisa. Com a contextualização e análise de muitos aspetos do Hip-Hop na internet, se tornará clara a nossa necessidade de o tratar sob um ponto de vista inter e transdisciplinar. No nosso caso, a abordagem intere transdisciplinar nos levou à utilização de métodos mistos, que por colocar questões de pesquisa teóricas dentro de um design metodológico (Creswell, 2015, p. 14), nos obriga a discutir a teoria e metodologia em simultâneo. Assim, decidimos abordar determinados conceitos e contextos teórico-metodológicos em momentos distintos dos nossos enquadramentos, com o fim de estes acompanharem os universos disciplinares que vamos introduzindo. A segunda razão centra-se na especificidade da nossa proposta metodológica. Decidimos separar um enquadramento para esta proposta, nos capítulos dois e três, por se tratar de um
9 elemento central da investigação e, desta forma, demandar uma elevada organização de ideias e teoria específicas sobre a nossa ferramenta metodológica. Precisamos considerar esses aspetos nesse momento para justificar caraterísticas e nuances inerentes à ferramenta. Personalizar a estrutura da tese de acordo com a sua necessidade parece-nos razoável partindo do princípio que (…) não existe um esquema padrão que todas as teses ou dissertações devam seguir, mas que os títulos dos capítulos que sugerem apresentam uma ordem geralmente típica para um texto final, mesmo que a natureza e o conteúdo do estudo possam variar consoante o tipo de trabalho. (Paltridge, 2002, p. 130) Por fim, a última razão desta estrutura para os nossos enquadramentos parte da nossa perceção, no caso desta investigação, entre a relação de teoria com a prática. Isto é, por vezes, a prática pode emanar teoria e, nesse momento, dividi-las seria irrazoável. Embora não tenhamos conhecimento de algum autor que tenha literalmente dito “a prática já é teoria”, a discussão epistemológica entre a interligação das duas não é recente. Atenção, não estamos aqui a valorizar a prática sobre a teoria, nem a fazer uma direta comparação ou aplicação dos seguintes argumentos ao nosso caso, mas apenas defender que é possível que a prática já incorpore formas de teorização. Podemos recuar a Marx e Hegel com a frase “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.” (2007, p. 94), apontando para uma prática (vida material e atividade prática) em relação com a teoria (consciência, ideologia). Marx utiliza esta ideia para desenvolver o materialismo histórico, um enquadramento teórico para analisar as sociedades humanas e as suas transformações ao longo do tempo, onde as condições materiais de uma sociedade determinam a estrutura e desenvolvimento da mesma. No caso presente, a minha experiência profissional na área de análise de dados de internet claramente influenciou a metodologia que utilizamos nesta investigação. Práticas profissionais nem sempre conseguem ser aplicadas a quadros teóricos existentes ou, por vezes, as estruturas e os enquadramentos teóricos simplesmente não se adequam total ou parcialmente a essas práticas. Formas complexas de interligação entre prática e teoria também já foram analisadas no passado, por exemplo, por Bourdieu. Para explicar a sua ideia de habitus, um conjunto de disposições incorporado estruturalmente no espaço social, Bourdieu (1989) transmite a noção de que a prática é informada pela teoria, mas também que a prática contribui para a teoria quando a primeira revela novos conhecimentos sobre as estruturas sociais. Enquanto a teoria é a forma de compreender o mundo social, a prática é a forma de nele agir, sendo que as dimensões estão
10 interligadas, retroalimentando-se. Ao criticar a tradição dominante da Sociologia, Bourdieu defende a indissociabilidade da teoria e metodologia, sugerindo ainda que a sua divisão é artificial e baseada em pressupostos positivistas. A divisão «teoria» / «metodologia» constitui em oposição epistemológica uma oposição constitutiva da divisão social do trabalho científico num dado momento (como a oposição entre professores e investigadores de gabinetes de estudos). Penso que se deve recusar completamente esta divisão em duas instâncias separadas, pois estou convencido de que não se pode reencontrar o concreto combinando duas abstrações. (Bourdieu, 1989, p. 24) Estas ideias sobre a interação teoria-prática são comuns também na área da educação. A conscientização, parte central da pedagogia de Paulo Freire, recai num processo dialógico envolvendo estudante e educador horizontalmente, onde questionar a realidade é o ato libertador para o sujeito oprimido que o levará à mudança (1992). Teoria e prática são vistas como integradas neste processo, até porque o autor acreditava numa prática educativa reflexiva: “Não é no silêncio que os homens (sic) se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão.” (1987, p. 50). Seguindo este fluxo de ideias, acreditamos que esta investigação possui uma faceta aliada à aprendizagem experimental de que Donald Schön vê como uma forma de integrar a teoria e prática significativamente. Schön, introduzindo o conceito de “praticante reflexivo”, argumenta que a reflexão na ação é essencial para a prática profissional eficaz, pois permite que os profissionais aprendam a partir das suas experiências, adaptando as suas ações de acordo (Schön, 1991). A nossa ferramenta metodológica surgiu nesta lógica, isto é, a partir de uma sequência de ações e reflexões, numa junção de conhecimentos tácitos e assimilação de teorias. Qualquer profissional competente pode reconhecer fenómenos (…) para os quais não pode dar uma descrição razoavelmente exacta ou completa. Na sua prática quotidiana, o profissional faz inúmeros juízos de qualidade para os quais não pode indicar critérios adequados, e demonstra competências para as quais não pode indicar as regras e os procedimentos. Mesmo quando faz uso consciente de teorias e técnicas baseadas na investigação, está dependente de reconhecimentos tácitos, juízos e desempenhos hábeis. (Schön, 1991, pp. 49-50) Em suma, a decisão de tratar dos enquadramentos teóricos e metodológicos entre três capítulos parte de:
11 • O espectro disciplinar alargado ser mais claramente explicado conforme mencionado. • A ferramenta metodológica que propomos merecer ser tratada em separado devido à sua inovação e centralidade na investigação. • Partirmos do princípio de que a ferramenta metodológica proposta nasce da junção de conhecimento tácito com procedimentos reflexivos e experimentais, que se desenvolve através da interligação entre teoria e prática. Desta forma, este capítulo um baliza um enquadramento mais alargado da investigação, contextualizando-a nos Estudos Culturais e no espectro da disciplinaridade, mas também definindo conceitos base de cultura, identidade e outros relevantes a esta tese. Já nos capítulos dois e três, além de completarmos um enquadramento metodológico geral, introduzimos a nossa proposta de ferramenta metodológica e tratamos de outros conceitos teóricos e metodológicos aliados a esta. Primeiramente iremos delinear o nosso enquadramento teórico quanto aos aspetos tangentes aos Estudos Culturais, enquanto pano de fundo deste estudo. Para além de uma simples contextualização de um determinado estado da arte, este ponto focará em justificar também a adequação da área de conhecimento à análise do nosso objeto. Nesse sentido, em sequência, problematizaremos ainda o conceito de (sub)cultura, contemplando as diferentes cargas que este emana. Se na discussão dos Estudos Culturais iremos abordar questões relativas à inter e transdisciplinaridade, visitaremos a Ciência Cultural para expor a transculturalidade como elemento-chave de nosso enquadramento teórico-metodológico. 1.1. Estudos Culturais: contextos e panos de fundo no CCCS Embora citar o termo “Estudos Culturais” numa conversa possa remeter para diferentes conceções e contextos, a sua história está comummente associada à formação do Center of Contemporary Cultural Studies (CCCS) na Universidade de Birmingham. Com a intenção de não focar na afamada versão britânica, faremos em seguida uma breve contextualização dos Estudos Culturais enquanto área de investigação integrando as diferentes correntes de pensamento que, de certa forma, transnacionalmente a compõem. Ainda assim, é pertinente realizar uma apresentação circunstancial dos Estudos Culturais a partir da formação do CCCS, uma vez que a abertura do centro em 1964 acaba, de algum modo, por institucionalizar a área disciplinar.
12 Utilizamos aqui a formação do CCCS como um ponto de referência, não um ponto de partida originário. Como é notado por During (2005), a inicial ausência de uma sólida base metodológica dos Estudos Culturais (EC), assim como a sua dispersão geográfica e disciplinar, trazem uma certa ambiguidade para a sua história. Por outras palavras, os EC não possuem um passado linear ao ponto de podermos utilizar a criação do CCCS como um mapa temporal, de onde conseguimos identificar acontecimentos históricos específicos, os quais teriam dado aso à formação de um núcleo de autores facilmente nomeável. Como o autor refere (2005, p.35), se pensarmos globalmente não deveria Fernando Ortiz, o teórico cubano da “transculturação" e da diáspora africana, ser um antepassado dos estudos culturais ao lado de Raymond Williams (ver Orbitz 1998)? Ou, se formos por aí, porque não Octavio Paz, José Enrique Rodó, Alfonso Reyes e muitos outros - tanto mais que muitos destes comentadores culturais latino-americanos (que, de um modo geral, não eram académicos profissionais) ajudaram a formar a personalidade intelectual de teóricos como Nestór García Canclini (um Argentino, educado em Paris, agora a trabalhar no México) que participa na academia global de estudos culturais. É a partir desta premissa que During (2005) propõe tripartir o pano de fundo dos EC entre: as fontes , os precursores e os praticantes . As fontes seriam aqueles autores que influenciaram os EC, seja através da contribuição de conceitos ou teorias posteriormente utilizados, sem que os seus trabalhos e linhas de pesquisa recaíssem sobre a área de conhecimento (Roland Barthes, Michel Foucault, Gilles Deleuze, etc.). O conceito de fontes acaba por ser algo abrangente uma vez que nos permite evocar diferentes nomes dependendo de aquilo que considerarmos a proposta dos Estudos Culturais. Lembrando, claro, que essa proposta se transforma ao longo dos anos, diversificando assim as possíveis interpretações sobre o que seria uma fonte da área disciplinar. Já numa configuração menos institucional ou académica estão os precursores , que ainda assim produziram trabalhos numa linha próxima aos teóricos contemporâneos. O autor (2005) dá o exemplo de como os comentários sócio-jornalísticos de George Orwell sobre a invisibilidade da classe trabalhadora britânica, e a “cultura comercial popular” para ela produzida, iriam mais tarde encontrar lugar na academia dos EC enquanto “populismo cultural”. Por fim, praticantes seriam aqueles que estão envolvidos no desenvolvimento de conceitos ou métodos nos Estudos Culturais pós a sua institucionalização. Nos praticantes estão ainda incluídos aqueles que, após se ter tornado uma área disciplinar, difundiram os EC ou desempenharam algum tipo de mentoria a
19 fontes , percursores e praticantes relevantes, um pouco por todo o globo, os quais ampliam o diálogo para além das fronteiras geográficas e intelectuais tradicionalmente estabelecidas. Para uma compreensão mais holística da área disciplinar, considerar estas perspetivas torna-se essencial uma vez que nos ajuda a entender as dinâmicas culturais globais, conjunturas específicas de determinados locais ou regiões, assim como aquelas que transcendem as singularidades nacionais e regionais. Além disso, é importante entender que nós consideramos a existência de sobreposições e intercâmbios significativos entre as diferentes “escolas” dos Estudos Culturais, considerando a natureza transnacional da área disciplinar, ou seja, não estamos a implicar uma necessária separação quando mencionamos o que as une ou diferencia. No caso dos Estados Unidos, por exemplo, poderíamos citar os trabalhos de James Carey, Lawrence Grossberg ou George Lipsitz para traçar uma certa continuidade dos EC britânicos, porém, é com Michael Denning que vemos um esforço em estabelecer uma série de ascendentes americanos para a área disciplinar (During, 2005, pp. 23-24). Denning situa os Estudos Culturais nos Estados Unidos a partir do contexto do Popular Front, uma aliança estratégica de grupos progressistas anos 1930, a qual incorporou elementos simbólicos patriotas para combater as correntes fascistas, além de ser culturalmente engajada. O autor (1997, p. 4) carateriza o Popular Front enquanto movimento influenciado pelo socialismo, feminismo e sindicalismo dos anos 1910, assim como os movimentos New Left, da libertação negra e do feminismo dos anos 1960 e 70. Embora Denning nunca tenha abertamente defendido uma parentalidade americana dos Estudos Culturais, ocorre aqui uma circunstancial versão do que viria a ser a área disciplinar nos Estados Unidos. Assim, levar em conta o contexto e o trabalho intelectual produzido a partir das ideias com raízes no Popular Front cria, de certa maneira, moldes específicos e caraterizantes para os EC nos Estados Unidos, principalmente assentes nas transformações socioculturais e económicas do póssegunda guerra do país. Por outras palavras, o movimento social a que chamei Popular Front, deu origem ao acordo a que chamámos pós-frodismo, pós-modernismo, a revolução passiva do American Century. (…) Os nossos próprios "estudos culturais" surgiram dessa transição do modernismo para o pósmodernismo, do fordismo para o pós-fordismo. (Denning, 1997, p. 462) Existem outros aspetos “americanizantes” para uma versão estadunidense dos Estudos Culturais, porém, podem aparentar uma forçada tentativa de nacionalizar um campo de estudo que não
20 preza por isso. Será, na nossa opinião, mais vantajoso assumir esses aspetos como particularidades do que elementos estruturais da área disciplinar. During (2005) dá o exemplo de considerar fontes como W.E.B. Du Bois e a herança dos intelectuais Black Power dos anos 1960 como uma forma específica de análise crítica da experiência negra nos Estados Unidos. Os seus contributos exploraram a interseção de raça, classe e gênero, contestando questões como o racismo e a desigualdade social, chamando a atenção para a necessidade de uma análise cultural e política em detalhe. Então, pode-se argumentar que a incidência em determinados tópicos crie, de facto, propriedades caraterísticas dos Estudos Culturais (norte) americanos. Seguindo Rey Chow, During (2005) destaca quatro dessas temáticas: Crítica pós-colonial da representação de culturas não ocidentais no ocidente; Preocupação com os subalternos; Discurso das minorias; e Hibridismo. Estas temáticas irão aparecer mais adiante na nossa pesquisa, sendo que tratam de pontos significativos para o entendimento do movimento Hip-Hop. Podemos também considerar a “InterAsia”, aqui uma macrorregião em vez de um país, com importantes trabalhos nos Estudos Culturais. Em termos territoriais, InterAsia pode compreender a “Ásia Ocidental através da Eurásia até à Ásia Central, Ásia Meridional, Sudeste Asiático e Ásia Oriental”, onde países e regiões, além do habitual imaginário do continente asiático, são contemplados transnacional e regionalmente de forma dinâmica, através dos contextos das suas “conceções, convergências e comparações” (SSRC, 2024). O termo também parte da perceção de alguns autores em considerar que “não existe unidade na entidade imaginária chamada ‘Ásia’”, autores esses que tem procuram promover pesquisas escritas em idiomas asiáticos, traduzindo-as para inglês, numa tentativa de “conectar comunidades asiáticas”, mas também de “conectar Ásia à comunidade global” (Chen & Huat, 2014, pp. 1-5). Pensar em Estudos Culturais InterAsiáticos parece-nos a) reconhecer necessidade de analisar a pluralidade dos contextos em asiáticos de forma transnacional/regional, indo inclusive além das habituais limitações geográficas; e b) identificar na área disciplinar de EC a adequação para uma análise de tal complexas caraterísticas. Vários dos tópicos abordados passam por pesquisas em tradicionais questões dos EC, como a globalização, pós-colonialismo, cultura popular, etc… servindo-se também do contexto regional e local para discutir esses conceitos e teorias, assim como a subjetividade das identidades (inter)asiáticas. Estas, muitas vezes discutidas sobre a ótica de “desconstruir o imaginário cultural colonial do espaço nacional e repensar a relação entre os estudos culturais e o Estado (transnacional)” (Chen, 2005, p. 26).
21 Especialmente devido à relação, proximidade e contexto socio-histórico Ásia/Oceânia, certos autores comummente citados nos EC australianos, por exemplo, também costumam ser citados na lista de autores dos EC interasiáticos. John Frow e Meaghan Morris (1993) argumentam que a inovação dos EC na Austrália recai pelo interesse nas “implicações de formas particulares de ação simbólica”, em vez de o tentar “provar de o fazer perante antigas teorias da cultura”. Por outras palavras, não se deu um forte ou longo debate na Austrália acerca de tópicos estruturantes dos Estudos Culturais noutros locais, como humanismo versus formalismo, novo historicismo, etnografia, etc. Segundo eles, (…) os estudos culturais australianos não foram apenas uma resposta aos movimentos políticos e sociais das últimas três décadas (isto pode ser dito dos estudos culturais como um projecto em geral), mas também derivou muitos dos seus temas, das suas prioridades de investigação, das suas polémicas e, de certa forma, as suas ênfases teóricas e privilegiados métodos de trabalho, e de um envolvimento com esses movimentos – e os “quadros históricos” (…) em que eles operam. (Frow & Morris, 1993, p. 15) Poderíamos destacar muitos outros, como os trabalhos de Ien Ang e a sua pesquisa sobre migração e dinâmicas ligadas à multiculturalidade australiana, ou como, devido às diferentes culturas asiáticas e às interações entre a Ásia e o resto do mundo, existe ainda interesse acrescido em conceitos como o hibridismo (Homi K. Bhabha) e a transculturalidade, porém, tais discussões regionais precisariam de mais tempo e espaço neste capítulo do que aquele que aqui dispomos. O mesmo vale para outras conjunturas específicas, como o caso de Hong Kong, as quais podem evocar os Estudos Culturais enquanto disciplina importante no entendimento do momento sóciohistórico, porém, configuram-se mais num “estudo local” (During, 2005, p. 27) do que uma “escola” dos EC. Noutro continente e macrorregião, os Estudos Culturais Africanos frequentemente analisam as diferentes experiências sociais e culturais na África, assim como as afro-diaspóricas. As identidades negras e resistência cultural são igualmente importantes temáticas, sendo que aqui também acontece um ponto de encontro para certos autores frequentemente citados noutros lugares fora dos EC africanos, como é o caso de Paul Gilroy. De um modo geral, os EC africanos aparecem “num contexto das narrativas da africanização, nas quais há uma necessidade de reorientação intelectual e de perspectiva histórica dos EC em termos da trajetória da cultura africana” (Jacks et al., 2022, p. 165).
22 Existe, no entanto, uma noção de que os contextos africanos não podem se servir de um enquadramento teórico e metodológico dos EC assente nas lógicas europeias/ocidentais, correndo ainda o risco de corroborar com uma ideia da globalização da área disciplinar a partir dos polos anglófonos, pressupondo um ponto histórico original (ver Tomaselli & Mboti, 2013 sobre During, 2005). É necessário ter em conta que as realidades africanas requerem uns EC que dialoguem com as contradições no continente, e que não se limitem à “textualidade” (Tomaselli & Mboti, 2013). Dinâmicas que ligam os EC africanos a temáticas como colonização e descolonização, ao frequentemente explorar o legado da colonização europeia na África e os processos de descolonização, assim como a luta pela independência que se seguiram. Com isto, questões sobre pertencimento e identidade étnica, nacional, cultural, …, desempenham um papel importante nos Estudos Culturais africanos, especialmente à luz da diversidade étnica e cultural do continente, diversidades essas também tópicos recorrentes. Estes temas podem ser analisados a partir das perspetivas de vários autores, como Njabulo Ndebele e a sua análise crítica da sociedade sulafricana pós-apartheid, Grace Musila sobre as interseções entre literatura, gênero e política na África, como Achille Mbembe examina as questões de necropolítica e biopoder em contextos africanos enquanto formas contemporâneas de dominação, entre muitos outros autores. A direção em descolonizar a mente e ressignificar identidades parece-nos transversal a esta escola dos EC. Era quase como se, ao escolher escrever em Gikuyu, eu estivesse a fazer algo de anormal. Mas Gikuyu é a minha língua materna! O próprio facto de o que o senso comum dita na prática literária de outras culturas estar a ser questionado num escritor africano é uma medida de até que ponto o imperialismo distorceu a visão das realidades africanas. (wa Thiong’o, 1988, pp. 27-28) Não podemos esquecer da macrorregião que diz respeito aos Estudos Culturais LatinoAmericanos, os quais vão propor repensar os contextos históricos e culturais do continente. Essa motivação coloca os EC Latino-Americanos não como coadjuvantes ou ramificações dos EC britânicos ou norte-americanos, mas como uma área disciplinar com um próprio corpo de práticas direcionadas às trajetórias e problemáticas da região, o que pode resultar em desalinhamentos ou conflitos com as escolas ocidentais já mencionadas (Sarto et al., 2004). Autores como Jesus Martín-Barbero, Nestor Garcia Canclini e Guillermo Orozco Gomez são habitualmente mencionados nas discussões sobre a relação entre os indivíduos e os meios de comunicação, assim como por outros contribuidores importantes para a área disciplinar. Martín-Barbero, por exemplo, defendeu que uma mensagem dos média pode ser interpretada e ativamente transformada de formas
23 diferentes pelos ouvintes, processo que dá lugar às “mediações socioculturais”, entre os espaços de produção e receção, um quadro metodológico para analisar essas dinâmicas de emissãoreceção de mensagem, o qual adiciona mais complexidade à lógica de como a indústria cultural influencia as massas (Martín-Barbero, 2002). Por outras palavras, é também uma forma de relativizar o poder dos meios de comunicação sobre as opiniões e ações dos recetores. As temáticas nos EC Latino-Americanos não estão circunscritas à comunicação, sendo comummente discutidos conceitos de identidade, resistência cultural e cultura popular na América Latina, sem esquecer as linhas de pesquisa que analisam as culturas indígenas. Já mencionamos Canclini, por exemplo, conhecido pelo conceito de hegemonia cultural ou a sua abordagem do hibridismo cultural na América Latina. Em obras como "Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade" (1989), ele examina como as culturas na região são influenciadas por uma mistura de elementos culturais indígenas, europeus e africanos, o que resulta em configurações únicas e complexas. Como os EC Latino-Americanos tendem a priorizar a produção simbólica e as experiências e realidades sociais da região enquanto “textos culturais”, eles “produzem os próprios objetos de estudo durante o processo de investigação” (Sarto et al., 2004, pp. 3-4), o que sugere a não definição de EC através dos métodos ou tópicos utilizados. Seja pelos autores já mencionados, pela teoria da transculturação de Fernando Ortiz, pela tradicional crítica ensaística latinoamericana, ou por outra particularidade proveniente da região, parece-nos clara a diversidade de caraterísticas próprias das fontes, percursores e praticantes dos EC Latino-Americanos. Alguns autores sugerem que essas particularidades e postura dos EC na região viabilizam uma proposta de refundação da área disciplinar na área, nos seus países, e a partir dessa diversidade teórica e temática (Carvalho, 2010). Segundo During (2005), outros fios condutores dos Estudos Culturais não possuem vínculos geográficos, mas estão relacionados a questões associadas ao anti-elitismo e ao ordinário. Ele dá o exemplo de como o “populismo cultural” não apenas coloca a cultura popular como o oposto à alta cultura, mas também como a dominante. Voltando à ideia dos precursores e fontes dos Estudos Culturais, é-nos impossível mencionar todos os nomes, não apenas pela quantidade, mas também porque a lista iria variar de acordo com os diferentes Estudos Culturais a que nos referirmos. Após esta pequena introdução dos EC enquanto área disciplinar, pensámos que se tornou clara a recorrência de certas temáticas e a existência de vários contextos que adaptaram os EC às circunstâncias onde geograficamente foram aplicadas. No que diz respeito a esta
24 pesquisa enquanto um trabalho nos Estudos Culturais, iremos operar consoante a necessidade do objeto. 1.3. Entre a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade No ponto anterior falamos sobre a institucionalização dos Estudos Culturais enquanto área disciplinar, o que nos levou a ressaltar aspetos quanto à sua multiplicidade disciplinar. Aqui iremos explorar essa questão, assim como situar a nossa pesquisa no espectro disciplinar. Nós, os seres humanos, categorizamos fenómenos desde tempos imemoriais, o que resulta na organização dos mesmos a partir de determinados vocabulários, conceitos, ..., em terminologias que diferenciam ou relacionam conhecimentos. Desta forma, conseguimos mais facilmente nos referir e analisar esses fenómenos, ou seja, o ato de sistematizar os conhecimentos nos permite melhor comunicar sobre eles. A iniciativa de dividir o conhecimento por áreas de instrução está ligada ao panorama histórico da especialização académica. Formar uma disciplina requer impor fronteiras entre essas áreas, o que significa fragmentar o conhecimento e estabelecer padrões de competência. Este processo levou séculos, sendo que não é possível mencionar a “pessoa inventora” do conceito de disciplina. No entanto, existem autores que direta ou indiretamente contribuíram significativamente para tal. Um dos casos mais notórios será possivelmente René Descartes. Ainda no século XVII, Descartes vai influenciar o desenvolvimento da teoria do conhecimento com “Discurso do Método” em 1637, a partir de uma abordagem analítica com foco no que iria se tornar o racionalismo moderno, livro esse que descreve a prática humana de distinguir e sistematizar fenómenos. Na secção do “quarto discurso” deste livro, Descartes sugere um método que divide um problema em partes menores, utilizando um conjunto de regras para buscar a “verdade”, partindo do princípio de que “existem diferentes tipos de experiência que são relevantes para diferentes tipos de conhecimento, e que é mais provável que sejamos bem-sucedidos na nossa procura de conhecimento se adaptarmos o nosso método ao tipo de conhecimento procurado.” (Clarck, 2005, p. 162). O alemão Wilhelm Dilthey defendeu, mais tarde, a separação das ciências naturais (Naturwissenschaften) das ciências do espírito (Geisteswissenschaften), pois acreditava que as ciências humanas podiam “compreender” a “entidade individual” enquanto as outras tentam encontrar “o geral, o tipo” (Palmer, 1969, p. 105). A lista de nomes a mencionar é demasiado grande para ser aqui exposta. Podíamos falar da defesa da criação de determinadas disciplinas,
25 como fez Émile Durkheim ao propor uma abordagem científica para analisar a sociedade (Sociologia), ou como Thomas Kuhn argumenta que a ciência avança em função de certos paradigmas, que após um período de consenso serão substituídos. No entanto, cabe-nos aqui compreender que o conceito de uma disciplina pode ser variável, pois a tentativa de sistematizar o conhecimento através de um conjunto de padrões e regras é passível de ser refutado por elementos produzidos por seres humanos que trazem novos parâmetros para a discussão: transformações sociais, novas tecnologias, surgimento de novos paradigmas, entre outros. No que toca aos Estudos Culturais enquanto área disciplinar, a discussão não se simplifica. Já vimos como os EC bebem de várias fontes e que, dependendo da região geográfica ou década, existe uma variação nas disciplinas que exercem influência sob as teorias e metodologias adotadas pelos seus praticantes. Consequentemente, surgem dois debates relevantes quanto a este tópico: a problemática da contradisciplinaridade; e se os Estudos Culturais podem ser considerados um conjunto de disciplinas ao invés de uma unidade disciplinar. Estes debates são comuns e se relacionam. A problemática da contradisciplinaridade (Giroux et al., 1984) abrange também a discussão quanto à legitimação dos Estudos Culturais na qualidade de disciplina. Conceitualmente, dizer que os Estudos Culturais são contradisciplinares é afirmar que estes rejeitam fronteiras e hierarquias disciplinares academicamente estabelecidas. Incorporar conhecimentos de diferentes áreas por si só não é suficiente para tornar EC contradisciplinar, pois isso acontece devido ao seu posicionamento crítico face aos pressupostos e estruturas subjacentes às disciplinas estabelecidas. Um dos argumentos centra-se, como já tivemos oportunidade de mencionar, no pressuposto de que compreender a complexidade da cultura requer transcender fronteiras disciplinares tradicionais. Mas esta postura e fluidez disciplinar trouxeram tensões. Mencionado a abertura do CCCS, Stuart Hall refere que No dia da inauguração, recebemos cartas de membros do departamento de Inglês a dizer que não nos podiam dar as boas-vindas; sabiam que estávamos lá, mas esperavam que não os incomodássemos enquanto continuavam com o trabalho que tinham para fazer. Recebemos outra carta, um pouco mais incisiva, dos sociólogos, que dizia, de facto, "Lemos As Utilizações da Cultura e esperamos que não pensem que estão a fazer sociologia, porque não é isso que estão a fazer de todo.” (Hall, 1990, p.13)
26 O conceito de contradisciplinaridade dos EC também envolve a discussão destes enquanto área disciplinar. Mencionando Stuart Hall novamente, no seu ensaio “Estudos culturais: Dois paradigmas” (1980), situa os EC como um campo de relações abrangendo várias disciplinas e abordagens. Similarmente, Simon During (2005) dá a entender que os EC podem ser considerados um conjunto de práticas interdisciplinares, mas também se podem considerar uma disciplina. Nós defendemos que tal discussão não é propriamente importante para a nossa pesquisa, sendo que a nossa principal preocupação neste tópico passa por destacar e assumir o hibridismo e fluidez natural deste campo de estudos. Por isso, classificamos este trabalho um estudo interdisciplinar. O termo interdisciplinaridade pode facilmente remeter para mais do que uma definição. Aliados à discussão sobre o que realmente significa abordar um objeto de forma interdisciplinar, estão os debates sobre as suas diretrizes e problemáticas. Tratemos estes assuntos por essa mesma ordem: conceito(s), abordagens e diretrizes/problemáticas. Um relatório sobre o levantamento de literatura acerca da interdisciplinaridade (ID) e transdisciplinaridade (TD), e também sobre os fatores de sucesso de sua implementação, apurou que a definição de Julie Thompson Klein é a mais utilizada no esforço de tentar definir o termo, sendo que ela contextualiza que: A interdisciplinaridade tem sido definida de várias formas ao longo do século: como uma metodologia, um conceito, um processo, um modo de pensar, uma filosofia e uma ideologia reflexiva. A interdisciplinaridade é uma forma de resolver problemas e de responder a questões que não podem ser abordadas de forma satisfatória utilizando métodos ou abordagens isoladas. Quer o contexto seja uma instrumentalidade de curto alcance ou uma concetualização de longo alcance da epistemologia, o conceito representa uma tentativa importante de definir e estabelecer um terreno comum. (Klein, 1990, p. 196 em B. V. Baptista et al., 2020, pp. 32-33) Podemos então considerar a interdisciplinaridade um processo colaborativo que prima pela interação disciplinar que envolve a explicação conjunta de fenómenos. Seja o seu resultado a resolução de problemas, a criação de produtos ou de novas ramificações de discussão, o importante é que os processos remetam para o envolvimento de diferentes disciplinas, práticas e praticantes, desde as suas terminologias aos conhecimentos e abordagens. A necessidade da utilização da ID parte também da complexidade dos objetos de estudo. Como Jane Gilbert (2016, p.192) argumenta, “tudo agora é complexo, ou seja, profundamente emaranhado, interconectado,
27 imprevisível e aberto”, onde os problemas não possuem mais uma resposta certa, o que leva a “realidade” a ser “incompreendida pelas disciplinas tradicionais”, as quais se sustentam na “redução do sistema a uma seleção de unidades discretas, deixando inevitavelmente de fora aspetos fundamentais”. A interdisciplinaridade possui diferentes facetas dependendo do debate a que nos referimos, normalmente tripartido em (B. V. Baptista et al., 2021): Discurso filosófico – Este contexto costuma envolver questões quanto à epistemologia e ontologia. Os autores sucedem assim à exploração da construção do conhecimento interdisciplinar. Se do ponto de vista epistemológico se analisam os processos que levam a esse conhecimento interdisciplinar, ontologicamente se examina como as disciplinas suportam uma visão mais completa da realidade. Autores como Edgar Morin chegam a tratar a ID num cenário holístico, destacando a interconetividade das disciplinas como o sistema integrado que permite a compreensão dos fenómenos complexos, a qual não é possível através da individualização disciplinar: Porém, estes progressos estão dispersos, desunidos, devido justamente à especialização que muitas vezes fragmenta os contextos, as globalidades e as complexidades. Por isso, enormes obstáculos somam-se para impedir o exercício do conhecimento pertinente no próprio seio de nossos sistemas de ensino. Estes sistemas provocam a disjunção entre as humanidades e as ciências, assim como a separação das ciências em disciplinas hiperespecializadas, fechadas em si mesmas. (Morin, 2000, p. 40) Discurso de resolução de problemas – Novamente, existe uma defesa da abordagem interdisciplinar como resposta a desafios multifacetados, embora este discurso recorra a uma abordagem mais prática. A promoção de uma colaboração das diferentes áreas de conhecimento se estende para além dos muros académicos, sendo que a troca de ideias, dados ou resultados convertem para um entendimento mais abrangente das problemáticas analisadas. Discurso crítico – Nele se analisam “o princípio da unidade, a resolução instrumental de problemas, a disciplinaridade e a interdisciplinaridade.” (B. V. Baptista et al., 2020, p. 35). É discutida a relação entre as últimas duas, e como a análise crítica pode contribuir para a reestruturação das disciplinas e a necessidade de repensar a estrutura predominante do conhecimento. O desenvolvimento da sobreposição disciplinar em detrimento da departamentalização do conhecimento implica a) mudanças nas estruturas académicas onde o
28 hibridismo e heterogeneidade se tornam caraterísticas do próprio conhecimento e, b) uma relação entre a disciplinaridade e interdisciplinaridade no sentido de olhar além das suas óbvias tensões e dicotomia, buscando assim uma complementaridade (Klein, 1996, pp. 3-4). Definir o conceito ID não aparenta ser tão urgente e imperativo por aqueles que a ela recorrem, uma vez que envolve demasiadas práticas e princípios para ser facilmente definido (B. V. Baptista et al., 2021). Assim, mais do que tentar avaliar a sua definição, e tendo em conta a nossa pesquisa, parece-nos relevante olhar também para possíveis abordagens interdisciplinares. Além das experiências e conhecimentos dos autores, as abordagens variam de acordo a área de conhecimento a que as pesquisas pertencem, isto é, pesquisadores da área de Direito e Filosofia muito provavelmente irão fazer diferentes questionamentos sobre um determinado fenómeno ou objeto. Tais variações se estendem para áreas consideradas interdisciplinares, como a Psicologia Social ou Estudos Culturais. Na realidade, a necessidade de abordar um tópico de forma interdisciplinar também pode partir das especificidades do mesmo. E como não nos parece coerente analisar o Rap de forma isolada da cultura Hip-Hop, dos contextos socioeconómicos dos movimentos culturais, entre outras questões, usar uma abordagem interdisciplinar neste contexto não é realmente uma escolha nossa. As abordagens interdisciplinares têm ganho mais espaço em sistemas de ensino por envolverem um sentido de integração, uma forma holística de aprendizagem, por levarem em conta as necessidades de um leque mais alargado de alunos e por terem produzido resultados positivos quanto à retenção dos alunos (Klein, 1999, pp. 19-23). Ainda sobre abordagens interdisciplinares no ensino, Klein (1999) lista uma série de pontos importantes quanto às estratégias de integração de curriculum, às estratégias de desenvolvimento das faculdades (escolas/centros), às pedagogias e quanto aos resultados ideais de programas interdisciplinares. Gostaríamos de aqui destacar alguns dos pontos-chave citados por Klein, momento que aproveitamos também para enquadrar ainda mais a nossa pesquisa. Segundo a autora, uma das estratégias de integração de curriculum passa por oferecer aos alunos, não apenas modelos, mas também processos de integração de conhecimento interdisciplinar. Este é um dos objetivos desta pesquisa, isto é, disponibilizar um conjunto de ferramentas teóricas e metodológicas que, através da sua integração e cooperação sequencial, levem outros a analisar objetos de estudo complexos e multifacetados presentes na internet. Se a abordagem interdisciplinar beneficia do conhecimento aprofundado e específico dos envolvidos, defendemos também que o nosso modelo possa ser relevante para o desenvolvimento de faculdades/centros se utilizado para “encorajar grupos
35 A segunda similaridade que queremos apontar recai no foco em questões complexas . E é devido aos desafios do “mundo real” que a pesquisa transdisciplinar acaba por ser aplicada a questões multifacetadas, como análises de objetos ambientais, sociais ou na saúde. Os cenários concretos aliados a estes temas são o foco dos projetos transdisciplinares por estes fazerem “avançar a ciência e as humanidades ao desenvolverem uma compreensão de relações complexas, ao descobrirem novas formas de colocar questões” (Pohl & H. Hadorn, 2007, p. 13). Seguindo este raciocínio, os dois conceitos encontram uma terceira similaridade ao proporem uma abordagem mais holística . Se por um lado a análise dos complexos desafios do “mundo real” beneficiam da colaboração disciplinar então, por outro, também tiram partido ao ir além das fronteiras das próprias disciplinas envolvidas. (Jantsch, 1972) Para levar estas pesquisas a cabo é necessário ter, o que consideramos a quarta similaridade entre os conceitos, flexibilidade metodológica . Ter flexibilidade nos métodos a utilizar numa pesquisa transdisciplinar mostra-se imperativo pelo pretexto da mesma se ter de adequar a um objeto complexo. Flexibilidade deve ser considerada até mesmo “para permitir múltiplas vias de integração e colaboração.” (Klein, 2008, p. 117). Tais práticas levam à quinta similaridade entre os conceitos, a integração do conhecimento . Inserindo-se aqui no já mencionado discurso filosófico, as abordagens transdisciplinares também procuram integrar conhecimentos, metodologias e perspetivas independentemente das disciplinas, o que acaba por solidificar a ideia da busca por uma compreensão mais completa dos objetos. De uma forma geral, a grande questão epistemológica da transdisciplinaridade é a procura pela unidade (Klein, 2017). Embora as similaridades citadas acima aproximem os dois conceitos, é nesses mesmos tópicos que as diferenças acontecem. Podemos dizer que a ID e TD possuem, de grosso modo, a mesma intenção com mundividências distintas. A natureza da colaboração na TD expande a rede académica, trazendo também a participação de redes profissionais e da sociedade civil em geral. Isto não quer dizer que a ID não recorra ao conhecimento fora dos muros académicos, tal acontece mesmo nas disciplinas tradicionais. A diferença consiste na forma inclusiva como a transdisciplinaridade investe em processos que integram
36 uma variedade de disciplinas e atores de organismos públicos, da sociedade civil e do setor privado, a fim de identificar e analisar problemas com o objetivo de desenvolver conhecimentos e práticas que promovam o que é entendido como o bem comum (Pohl & H. Hadorn, 2007, p. 16) Assim, a participação ansiada engloba intervenientes externos para moldar o processo de investigação. A motivação para a concentração em problemas do mundo da vida é o desejo de tomar em consideração a responsabilidade da ciência perante a sociedade e de enfrentar os desafios científicos de lidar com questões empíricas e orientadas para a prática em organismos públicos, no setor privado e na sociedade civil. (Pohl & H. Hadorn, 2007, p. 26) Embora não tenha sido o primeiro a fazê-lo, Nicolescu propõe (2010, p. 19) a ideia é ir além das disciplinas e o próprio estatuto de disciplina. Embora não subscrevamos à ideia de que uma “ideologia do cientismo” esteja a ameaçar a nossa espécie, concordamos com o autor de que é necessário levar em conta conhecimento fora do escopo científico, e de que colocar o entendimento do “sujeito” é tão válido quanto o entendimento do académico. Não se trata de um julgamento de valor, até porque no campo da subjetividade não é a objetividade que impera, ou vice-versa, mas sim de uma abordagem de inclusão de uma perspetiva orgânica e externa ao método científico. Esta abordagem transfere-se para o design das pesquisas transdisciplinares. Uma pesquisa que queira ser considerada transdisciplinar precisa levar em conta não só os diferentes paradigmas disciplinares, como também perspetivas do “mundo da vida”. Dependendo da pergunta de partida será necessário focar em um conjunto de pontos e objetivos, sempre considerando desafios relacionados às diferentes formas de conhecimento a ser gerado (Pohl & H. Hadorn, 2007): • Conhecimento de Sistemas (Systems Knowledge) – O importante aqui é saber lidar com as “incertezas”, propondo a transferência de conhecimentos abstratos para um caso concreto, independentemente da sua proveniência (modelo, teoria, laboratório, etc.). Aqui situam-se as perguntas sobre a génese e o possível desenvolvimento posterior de um problema, mas também sobre as interpretações do problema no “mundo da vida”. • Metas de Conhecimento (Target Knowledge) – Refere-se à multiplicidade de objetivos sociais e a pesquisa, os problemas práticos sociais e a relação entre a ciência e os atores no “mundo
37 da vida” no contexto da colaboração transdisciplinar. A ideia é promover conhecimento e práticas que beneficiem o bem comum. Assim, são relevantes as questões de identificação e fundamentação da necessidade de mudança, metas almejadas e práticas recomendadas. • Conhecimento de Transformação (Transformation Knowledge) – O desafio passa por tornar o “estabelecido” mais “flexível”, uma vez que as oportunidades de mudança dependem das existentes infraestruturas, regulações, relações de poder, preferências culturais ou tecnologias. As questões referem-se então aos meios técnicos, sociais, jurídicos, culturais e outros que visam transformar as práticas existentes e introduzir as práticas desejadas. Pohl e Hardon (2007) argumentam que as formas de conhecimento não estão isoladas, e que uma perguntas de pesquisa numa determinada forma de produção de conhecimento apenas pode ser respondida relacionando as outras duas. Assim, e por muito que olhemos para a proposta assumindo “relações entre sistemas e com vista a opções específicas de transformação das práticas existentes” (p. 38) – Conhecimento Alvo – percebemos que diferentes estágios desta pesquisa exijam a consideração de problemas a partir de outros prismas. Além disso, uma pesquisa transdisciplinar terá fases de colaboração distintas, sendo que haverá momentos em que uma tarefa será apenas disciplinar ou interdisciplinar. 1.4. Entre a cultura e a transculturalidade Tendo em conta a pluralidade de disciplinas, tarefas e abordagens envolvidas nesta pesquisa, “escolher” um conceito para cultura tornou-se um dos mais difíceis desafios epistemológicos. Além disso, precisamos desambiguar o termo do uso que lhe é dado pelas comunidades Hip-Hop. Como veremos no capítulo quatro, estas recorrentemente mencionam “a cultura” para se referir ao Hip-Hop ou identificar tudo aquilo que o envolve. Uma vez entre a inter e transdisciplinaridade, existe uma predisposição para assumir um conceito de cultura abrangente. Algo que dê espaço para as disciplinas envolvidas se encaixarem, mas que não seja demasiado vago ao ponto de incluir contradições entre elas. Assim, e considerando ainda a complexidade do Hip-Hop, optamos por utilizar o conceito de transculturalidade. A proposta deste conceito foi feita por Wolfgang Welsch (1999) por achar que os conceitos de cultura não mais se adequam aos dias de hoje. Welsch inicia por situar o conceito de cultura. Embora vários autores tenham desenvolvido e expandido o conceito, colocando em foco diferentes
38 questões como veremos adiante, a noção de cultura do século XVIII mencionada pelo autor ainda é relevante. Falamos aqui da definição de Johann Gottfried Herder, apresentada por Welsch, a qual assenta em três pilares: homogeneização social, consolidação étnica e delimitação intercultural (1999, p. 1). O primeiro denota uma unidade nos comportamentos e costumes de determinada população. O segundo tem um caráter fundacional e quase essencialista do ponto de vista étnico. Por fim, o terceiro, sublinha um pertencimento de uma cultura a um determinado grupo de pessoas, separando-a de outros grupos e culturas. Estas caraterísticas parecem ser mais pertinentes para definir o modelo de estado-nação a partir das comunidades imaginadas de Benedict Anderson, do que traduzir um conceito de cultura representativo da atualidade. Primeiro, para desmistificar a homogeneização social, Welsch ressalta a existência de vários padrões de vida e da multiplicidade de culturas que constituem as sociedades atuais (1999, p.2). Por outras palavras, seria redutor tentar englobar diversos aspetos socioculturais num pacote para caraterizar uma suposta cultura portuguesa, brasileira ou qualquer outra, seja pela lente nacional, étnica, entre outras. No caso de Portugal, por exemplo, muitos de nós evocam os antepassados lusitanos em conversas informais como se de um povo originário e unitário se tratasse. Não só eles são descendentes de populações Protoceltas e Celtas, como se torna óbvio que portugueses descendem de variados outros grupos étnicos que pelo território passaram, desde os romanos aos suevos ou mouros. Especialmente com os movimentos migratórios do século XX e XXI, torna-se impossível afirmar que “uma cultura portuguesa” está circunscrita a um grupo étnico. Além disto, e devido à enfâse na delimitação externa, “este tipo de apelo à identidade cultural acaba por ser também uma ameaça de separatismo” (Welsch, 1999, p. 2). Ainda segundo Welsch (1999, p. 3), a interculturalidade apenas procura uma forma das culturas se entenderem e se reconhecerem. Este conceito não é adequado para contemplarmos as dinâmicas culturais atuais pois ainda assume culturas enquanto “esferas” ou “ilhas”. A “comunicação entre estas culturas” (p. 3) não é facilitada no modelo de cultura enquanto esfera ou ilha, o que também não reflete aspetos como a influência de fenómenos irrefutáveis como, por exemplo, da globalização. Na opinião de Welsch, a multiculturalidade não oferece muito mais do que a interculturalidade. Embora a busca de “oportunidades para a tolerância e a compreensão, bem como para evitar ou gerir conflitos” (p. 3) sejam bem-intencionadas, progredindo para uma “comunidade estatal” com múltiplas culturas, a permanência da visão de cultura enquanto algo homogéneo permite ocorrências como a “guetização” em vez de quebrar as barreiras que as separam. Algo que é alcançável com o conceito de transculturalidade.
39 Num macro contexto, Welsch coloca a transculturalidade enquanto consequência da “diferenciação interna e complexidade das culturas modernas” (1999, p. 4). Ou seja, culturas e modos de vida são resultado de uma relação constante entre si, e não ambientes isolados ou pontos que convivem num espaço geográfico restrito. Por estarem interconectadas, as culturas atuais não se restringem a fronteiras nacionais. Elas migram com os indivíduos criando assim um imaginário mais abrangente sobre os estilos de vida possíveis, os quais podem ser transversais a áreas de interesse, conhecimento, etc. Nesta tese falamos de Hip-Hop português e brasileiro, sendo estes termos quase uma contradição ontológica visto que o Hip-Hop se originou nos Estados Unidos, fruto ele também de influências várias. Ou seja, se Hip-Hop fosse algo exclusivamente norte-americano, como poderia este estudo ter lugar? Como veremos adiante, o Hip-Hop é transcultural. Ainda sobre o macro contexto da transculturalidade, “as culturas atuais caracterizam-se, em geral, pela hibridação” (Welsch, 1999, p. 5). Por exemplo, este fenómeno pode ser analisado a partir de elementos simbólicos nacionais que possuem influência de outras comunidades. Pensese no recurso de melismas 1 no Fado, traço caraterístico da música árabe, ou a forte presença de polirritmia 2 no Samba, amplamente comum em música com origem africana. Podemos ainda recorrer a exemplos do dia-a-dia e assistir à hibridação cultural quando um português vê uma novela brasileira, a inglesa almoça comida indiana, ou francês que cresceu sendo influenciado pelo anime Dragon Ball Z, etc., podem facilmente ser consideradas experiências comuns no imaginário de inteiras comunidades nacionais. E a partir destas experiências nascem outros rebentos híbridos. Esta ideia de cultura híbrida tem lugar também no micro contexto. Ou seja, indivíduos podem absorver influências culturais não partilhadas por um grande grupo de pessoas. Isto sucede porque, para muitos de nós, as múltiplas ligações culturais são decisivas para a nossa formação cultural. Somos híbridos culturais. Os escritores de hoje, por exemplo, sublinham que não são moldados por uma única pátria, mas por diferentes países de referência, pela literatura russa, alemã, sul e norte-americana ou japonesa. A sua formação cultural é transcultural (pense1 Extensão de uma única sílaba em várias notas. 2 Sobreposição ou combinação simultânea de dois ou mais ritmos diferentes.
40 se, por exemplo, em Naipaul ou Rushdie) - a das gerações seguintes sê-lo-á ainda mais. (Welsch, 1999, p. 5) Transculturalidade não advoga uniformização cultural ou identitária, e vai além dos conceitos de globalização e particularização, cobrindo ambos os seus aspetos naturalmente (Welsch, 1999, p. 11). Isto acontece porque o conceito assume que as culturas num mundo globalizado não são entidades fechadas ou estáticas. A hibridização cultural reconhece a fluidez das identidades culturais, fazendo sentido das novas caraterísticas trazidas e levadas pelas pessoas para os diferentes contextos. A diferença é reconhecida através do diálogo e negociação, dando lugar a um novo modo de diversidade De facto, a diversidade, tal como tradicionalmente se apresenta sob a forma de culturas únicas, está a desaparecer cada vez mais. Em vez disso, porém, toma forma um novo tipo de diversidade: a diversidade de diferentes culturas e formas de vida, cada uma delas resultante de permeações transculturais. (Welsch, 1999, p. 9) Pode até parecer uma descrição circular para caraterizar a transculturalidade, mas a partir do momento que aceitamos a existência de elos entre culturas, como parte de si mesmas, a diferença torna-se menos uma “disputa entre conteúdos opostos ou tradições antagónicas de valor cultural”, e mais em “uma disposição de saberes ou uma distribuição de práticas que existem umas ao lado das outras” (Bhabha, 1994, pp. 162-164). Nesta pesquisa, temos tendência em concordar com autores que tratam o conceito de cultura de uma forma que nos permite aplicá-lo às dinâmicas da transculturalidade. Estes são cinco atributos conceituais relevantes de “cultura” para a nossa tese: Cultura como produção de significado (Stuart Hall); Cultura como identidade e diferença (Edward Said); Cultura como poder e dominação (Michel Foucault); Cultura como construção social da realidade (Peter L. Berger e Thomas Luckmann); e Cultura como sistema de comunicação (Marshal McLuhan). Esta ordem apenas apresenta uma lógica sequencial e não uma ordem de importância. Não pretendemos tampouco afirmar que os conceitos são exclusivos ou fundados pelos autores mencionados. Assim, iremos agora perfilar esta equação de conceito de cultura e como a situamos no contexto da transculturalidade. 1.4.1. Cultura como produção de significado De certo modo, já mencionamos Stuart Hall e a sua teoria da codificação e descodificação, onde
41 ele argumenta que as mensagens culturais são interpretadas de maneira diferente pelos recetores, dependendo de seu contexto cultural. Esta ideia conecta-se, entretanto, à forma como o autor corelaciona cultura e produção de significado. Tal se mostra importante enquanto um alicerce conceitual, pois parece-nos que é através da conferência de significado às coisas, e a sua emissãoreceção, que elas angariam sentido e se transformam. Em Cultura e Representação (2016), Hall nos chama a atenção para a centralidade da cultura na vida dos humanos, pela sua interação com a identidade individual e coletiva, mas também pelas representações sociais criadas pelo sentido que damos às coisas que nos rodeiam. Uma conceção de cultura assim não se equipara àquela que busca englobar o que “de melhor” foi produzido pela sociedade, “a alta cultura de uma época” (Hall, 2016, p. 19). Não fazer distinção entre “alta” e “baixa” cultura é importante para nós, não só pelo pano de fundo dos Estudos Culturais, mas, também, porque não queremos associar o termo “subcultura” ao Hip-Hop. Questão comum e tratada mais adiante. Voltando à cultura enquanto produção de significado, Hall (p. 21) explica primeiro que “nós damos significados a objetos, pessoas e eventos por meio de paradigmas de interpretação que levamos a eles. Em parte, damos sentido às coisas pelo modo como as utilizamos ou as integramos em nossas práticas cotidianas.”. O significado é então atribuído num momento, individual ou compartilhado, na experiência de vincular caraterísticas e atributos ao que nos rodeia. Visto que esta experiência é subjetiva, as caraterísticas e atributos que cada um de nós confere às coisas podem variar. Não apenas devido à subjetividade de cada um. A variação acontece também entre os espectros da psique e da ontologia, isto é, os “objetos, pessoas e eventos” podem ser interpretados consoante o seu valor relativo para o sujeito, ou consoante aspetos intrínsecos a eles mesmos, igualmente conferidos pelo sujeito. Deste modo, e como sugerido por Hall, o significado é realçado também na forma como usamos e agimos estes elementos “em nossas práticas cotidianas”. Uma música pode evocar nostalgia para uns e, para outros, ser sonoplastia de elevador, mas nada impede que ela seja dedicada a alguém e marque o início de uma relação. nós concedemos sentido às coisas pela maneira como as representamos — as palavras que usamos para nos referir a elas, as histórias que narramos a seu respeito, as imagens que delas criamos, as imagens que associamos a elas, as maneiras como as classificamos e conceituamos, enfim, os valores que nelas embutimos. (Hall, 2016, p. 21)
42 A citação acima não se limita a completar o pensamento do autor como nos parece relevante pelo ponto referente à comunicação do significado. Essas “palavras que usamos” que Hall menciona pertencem a um mecanismo importante para a propagação do significado de qualquer artefacto cultural. É na linguagem que inserimos múltiplos formatos de “signos e símbolos” num “sistema representacional” que, ultimamente, transmite os “pensamentos, ideias e sentimentos (…) representados numa cultura” (Hall, 2016, p. 18). Por esta lógica, cultura torna-se num conceito mais abrangente do que produções artísticas e científicas de um conjunto de indivíduos, mas, acima de tudo, o próprio meio que viabiliza a comunicação e convivência desses indivíduos. Além disso, quaisquer objetos, acontecimentos ou ações humanas providas de significado se tornam artefactos culturais. Os significados nunca são fixos, pois os artefactos culturais habitam um “mapa conceitual” que cada um de nós carrega (Hall, 2016, p. 36). Somos capazes de comunicar os significados destes artefactos porque “compartilhamos praticamente os mesmos mapas conceituais” (p. 36). Dois grupos de indivíduos podem não acreditar no mesmo deus, ou terem hábitos alimentícios similares, mas partilham sempre algo no seu leque de conceitos. Quanto mais próximos são esses mapas conceituais, mais fácil se torna dizer que se “pertence à mesma cultura”. Os mapas conceituais, e os significados que atribuímos aos objetos culturais, podem coincidir em vários contextos, tanto geográficos (local, regional, nacional, etc.) quanto ideológicos, históricos, etc. Porém, a nossa posição perante a representação que atribuímos ao artefacto pode alterarse. Podemos mudar de opinião sobre a tal música que ouvimos no elevador, e que agora é uma dedicatória. No espaço social, o significado que atribuímos às coisas está sempre sujeito à interferência de terceiros. No entanto, a nossa posição também tem potencial de ser contraditória ou múltipla. Hall menciona o quadro Las meninas de Velásquez, acompanhando comentários de Michel Foucault, onde somos convidados a entender o quão variada pode ser a posição do sujeito na representação. Olhando para o quadro surge a pergunta, afinal, quem é o sujeito na pintura Las meninas ? Dependendo do “mapa conceitual” de cada um, podemos dizer a infanta ou nós mesmos, que somos colocados no lugar do rei e rainha como se de um reflexo se tratasse. Poderíamos nos alongar sobre estas questões, mas pensamos que o importante é reter cultura como um meio em que os humanos operam no espaço social, produzindo, compartindo e discutindo significados dos artefactos por eles produzidos (materiais ou imateriais). Significado esse alocado mentalmente em mapas conceituais partilhados, os quais detêm representações que
43 utilizamos para nos organizar, nos comunicar a partir da linguagem e pautar nossas ações e comportamentos. Cultura enquanto produção de significado, seguindo o pensamento de Stuart Hall, não entra em atrito com o conceito de transculturalidade que anteriormente propusemos. Pelo contrário, pois podemos argumentar que é na partilha de significados que elos culturais são forjados, criando uma malha de relações interdependentes. Veremos, no capítulo sobre o Hip-Hop, que o brasileiro Gabriel o Pensador é um dos responsáveis pelo movimento Rap português ter trocado o inglês pelo seu primeiro idioma. Ignorando a ironia, podemos considerar esta transformação como uma ressignificação de uma prática cultural, onde fazer Rap em português passou a equacionar no mapa conceitual dos seus praticantes em Portugal. Esta nova produção de significado foi compartilhada, mas também transcultural, que em nenhum momento sugere singularidade: Este foco em “significados compartilhados” pode, algumas vezes, fazer a cultura soar demasiado unitária e cognitiva. Porem, em toda cultura há sempre uma grande diversidade de significados a respeito de qualquer tema e mais de uma maneira de representá-lo ou interpretá-lo. (Hall, 2016, p. 20) 1.4.2. Cultura como identidade e diferença Dar significado a uma prática, evento, objeto, …, pode levar à construção de uma identidade cultural. A ideia de identidade cultural está normalmente ligada a um conjunto de atributos, valores, simbologias, tradições ou modos de vida de um grupo social específico, distinguindo-se de outros. Ela seria formada por vários elementos que se podem configurar como um idioma, uma religião, gastronomia, narrativas, produções artísticas, entre muitos outros aspetos, que regularmente são transmitidos entre gerações e influenciam a maneira como o grupo se enxerga, mas também como ele se relaciona com o mundo. No entanto, Stuart Hall dá enfâse a uma identidade cultural sempre em movimento, constantemente conectada e reformada através das diferenças que a influenciam. O autor sugere assim que o conceito seja sempre vinculado a fenómenos que perturbam “o carácter relativamente estabelecido”, comum a muitas culturas, como é o caso da globalização, modernidade e migrações pós-coloniais (Silva et al., 2014). Tal propõe identidade como algo que emerge da diversidade, do “jogo de modalidades específicas de poder e são, assim, mais o produto da
44 marcação da diferença e da exclusão do que o signo de uma unidade idêntica, naturalmente constituída, de uma “identidade” em seu significado tradicional (Silva et al., 2014, pp. 109-110; destaque nosso). Se, para a sua construção, as identidades dialogam com a diferença, então existe um ato de distinguir o “Outro”, a “relação com aquilo que não é” (p. 110). Note-se que estes atos não são necessariamente conscientes, nem necessariamente providos de uma carga negativa. São, no entanto, formados culturalmente através da interação e discursos internos ou externos ao grupo social de que fazemos parte. Um desses grupos pode ser uma nação, e uma cultura nacional é também um discurso, o qual “organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos” (Hall, 2006, p. 50). Denotar a diferença entre dois ou mais grupos, assimilar ou abandonar novas caraterísticas a eles, são fenómenos possíveis apenas por existir uma relação entre cultura e identidade. Se a relação entre o “nós” e “eles” é baseada na diferença, está aberta a porta para a criação e perpetuação de estereótipos e preconceitos (positivos ou negativos). Edward Said foi notável a mostrar esta dinâmica quando cunhou o termo “orientalismo”. O “orientalismo” traduz-se no modo como o ocidente constrói o oriente enquanto “o outro”. Trata-se de um ato generalizador de incluir culturas e identidades diferentes do modo ocidental. Said (2003, p. 13) contextualiza ainda o orientalismo como “terríveis conflitos reducionistas que agrupam as pessoas sob rubricas falsamente unificadoras como ‘América’, ‘Ocidente’ ou ‘Islã’, inventando identidades coletivas para multidões de indivíduos que na realidade são muito diferentes uns dos outros”. Portanto, o “orientalismo” pode ser considerado um sistema de representação assente na diferença e identidade. Ou seja, o “outro” que é aquilo que “nós” não somos. Neste caso, Said apela para a desconstrução desta etiqueta, normalmente acompanhada de adjetivação herdada desde a Renascença (2003, p. 94), alinhada a um desprezo por outras culturas não-ocidentais. Um dos argumentos para tal desconstrução coincide com a proposta da transculturalidade já por nós mencionada. Mesmo que a diferença entre culturas seja inegável, Said pretende com o seu livro substituir as discussões antagónicas por uma crítica humanística que mostre que “cada campo individual está ligado a todos os outros, e que nada do que acontece em nosso mundo se dá isoladamente e isento de influências externas.” (2003, p. 11). Como já vimos, é na transculturalidade que a diferença é realmente contemplada e, juntamente com a possibilidade de múltiplas identidades culturais, não se mostra impeditiva para um sistema social que promova
51 quotidianas possuam diferentes graus de proximidade temporal e espacial, elas acontecem no “aqui” e “agora” (Berger & Luckmann, 1991, p.36). Trata-se de uma experiência partilhada com outros, a qual ocorre numa situação “face a face”, isto é, prototípico de interação social com esquemas tipificadores pelos quais os outros são percebidos e "tratados”. À semelhança de autores como Stuart Hall, Berger e Luckmann também destacam a linguagem como sistema que rege as interações sociais (pp. 51-52). Esta “realidade” social percebida é assim discutida em duas partes pelos autores: objetiva e subjetiva. Temos dificuldade em aceitar a sociedade como realidade objetiva, onde o mundo institucional é percebido enquanto “factos históricos e objetivos, confrontam-se com o indivíduo como factos inegáveis.” (Berger & Luckmann, 1991, p. 78), mas entendemos que existam narrativas aliadas a macroestruturas que “existem como realidade externa” onde “o indivíduo não pode compreendê-las por introspeção” (p. 78), e que tal possa ser visto como realidade objetiva. Por outras palavras, a realidade objetiva é aquela que inclui, além do mundo natural, o que foi criado pelo humano para ter tal significado. No entanto, a sua objetividade pode paradoxalmente ser ressignificada ou contestada. O conhecimento, socialmente objetivado, “’programa’ os canais através dos quais a exteriorização produz um mundo objetivo. Objetiva este mundo através da linguagem e do aparelho cognitivo baseado na linguagem” (p. 84). É tal objetividade que separa a nossa realidade de uma mitologia, sendo a ciência um passo para a remoção de questões como “o sagrado” no nosso dia a dia. Seja esta construção social eficaz, ou sequer real, não está aqui em questão. Importa-nos é reconhecer que a humanidade tenta, seja através das leis da natureza ou de conceções assentes na ciência ou instituições, tornar certas “realidades” objetivas. Mas a sociedade existe tanto enquanto uma realidade objetiva quanto subjetiva. Indivíduos inserem-se no meio social a partir de uma “apreensão ou interpretação imediata de um acontecimento objetivo como exprimindo um significado” (Berger & Luckmann, 1991, p. 149), iniciando-se assim a subjetivação de eventos ou de ações de terceiros, também subjetivas, que os organiza internamente. Assim são criadas opiniões, gostos e predisposições pessoais para variados assuntos e acontecimentos. Todos nós possuímos preferências. Abrindo aqui um parêntesis, a título de exemplo pessoal, não gosto de chá de camomila pois o seu cheiro me lembra a primeira vez que o chá me foi apresentado. Nesse dia tinha nove anos e estava enjoado. A ação, supostamente, objetiva da pessoa que me ofereceu o chá foi interpretada subjetivamente por mim, ao ponto de ocupar agora uma posição que define a minha opinião quanto ao objeto. Curiosa e paradoxalmente, não tenho problema com nenhum outro tipo de chá, o que apenas
52 sugere que a minha interiorização subjetiva da camomila está, ainda, inflexivelmente aliada a um pontual acontecimento com mais de duas décadas (uma realidade). Fim do parêntesis. Simples preferências pessoais não serão tão complexas ou relevantes quanto as conceções socioculturais estabelecidas nas sociedades, muitas vezes palco de discussões, tensões, etc. É assim necessária a existência de uma regulação da realidade para assegurar “uma sociedade viável” e o desenvolvimento de “procedimentos de manutenção da realidade para salvaguardar uma certa simetria entre a realidade objetiva e subjetiva” (pp. 166-167). Achamos ainda relevante assinalar a existência de conceções subjetivas da realidade que são, em alguns contextos, projetadas socialmente enquanto construções objetivas. Por exemplo, sendo Portugal maioritariamente católico, se um português incluir a palavra “deus” numa frase, a chance de ser interpretado como se referindo a Olorum é diminuta. Argumentar tal coisa surge de uma construção subjetiva da realidade social portuguesa, mas tal só prova que interpretações não só são subjetivas como relacionadas a circunstâncias e contextos. Além disso, para o emissor, a existência de “deus” pode ou não ser contestável. Caso não o seja, ele está a projetar uma realidade subjetiva como objetiva, uma vez que o pressuposto da existência de um “deus” não se mostra aberto à discussão. Por outro lado, e sempre dependente da iniciativa dos envolvidos, tal interação social tem potencial para gerar discussão sobre a realidade subjetiva comunicada como objetiva. O oposto desta dinâmica também acontece. Isto é, uma construção objetiva da realidade ser subjetivamente questionada. O que é o terraplanismo se não uma realidade subjetivamente construída que nega séculos de descobertas científicas na física, química, história, etc.? As sociedades precisam assegurar a “manutenção da realidade” não apenas internamente. Atualmente vivemos num mundo cada vez mais interconectado e sujeito a fenómenos migratórios e da globalização em geral. Perceber as culturas como sistemas de comunicação nos ajudará a entender como as realidades são discutidas. 1.4.6. Cultura como sistema de comunicação Partir do princípio de cultura enquanto sistema de comunicação não se resume simplesmente em reconhecer que a “linguagem” e a “comunicação” se qualifiquem como sistemas ou artefactos culturais. Por isso, a nossa intenção em usar esta conceitualização sustenta-se em que cada meio de comunicação influencia como o conteúdo por ele emitido é interpretado. Além disso, a
53 transmissão de conteúdo tem sido expandida nas últimas décadas, sendo que cultura pode ser entendida por um vasto sistema de comunicação, e não apenas por aquilo que é disseminado. Desdobremos o tema em suas partes constituintes. Primeiramente torna-se relevante olhar para os meios de comunicação como extensão dos sentidos humanos, logo, deles mesmos. Marshall McLuhan argumenta que pode-se dizer que o surto de uma nova tecnologia, que estende ou prolonga um ou mais de nossos sentidos em sua ação exterior no mundo social, provoca, pelo seu próprio efeito, um novo relacionamento entre todos os nossos sentidos na cultura particular assim afetada. (McLuhan, 1972, p. 60) Por outras palavras, os meios de comunicação são uma forma de ampliar nossos sentidos, permitindo-nos experimentar o mundo de novas maneiras. Por exemplo, a imprensa escrita é uma extensão do sentido da visão, o que nos permite partilhar informações com pessoas que estão distantes. Ou, noutro exemplo, a televisão se equaciona como uma extensão também do sentido da audição, permitindo-nos ver e ouvir o mundo ao nosso redor de forma simultânea. Estes sistemas de comunicação, como no caso da cultura, nunca são neutros. O meio de comunicação possui a capacidade de moldar o pensamento humano pois influencia a forma como percebemos a mensagem. Daí a famosa frase de McLuhan, “o meio é a mensagem” (2013, p. 10). Cada meio tem as suas próprias consequências sociais e pessoais que são independentes do conteúdo que transmitem. Por exemplo, com a televisão foi possível inserir publicidade audiovisual, criando até um sistema de valorização económico mediante número de espectadores (horário nobre), tornando-a um meio que habitualmente apela ao consumismo de produtos e serviços de uma forma mais incisiva que, por exemplo, um jornal ou revista. Noutro domínio, atualmente, concordamos que terceiros coletem os nossos dados e comportamentos na internet, sendo que é comum sermos confrontados com uma publicidade de algo que recentemente pesquisamos num motor de busca. As consequências evoluem com os meios. Os meios também “lutam” por espaço no quotidiano dos indivíduos. O impacto da ascensão de determinados meios pode explicar a redução de popularidade de outros, ou fatores como a nostalgia podem justificar o regresso de meios como os discos de vinis (Ribeiro, 2016). Entender cultura como um vasto sistema de comunicação é, então, reconhecer a existência de práticas humanas nestes meios, mas também como eles afetam as relações sociais e a organização da sociedade. Cada meio possui dinâmicas culturais próprias, e permitem
54 diferentes formas de interação entre indivíduos. Daí os termos coloquiais, mas também académicos, de “cultura televisiva”, “cultura da internet”, por aí adiante. Este entrosamento não se mostra local. McLuhan (1972) argumenta como os meios de comunicação têm encolhido o mundo ao ponto em que todas as pessoas se tornam parte de uma única comunidade interconectada imaginada ou, por suas palavras, uma "aldeia global". Isto significa que eventos, informações e culturas se têm espalhado e são partilhados rapidamente por todo o mundo, eliminando assim distâncias e criando uma consciência global compartilhada. A compressão do espaço-tempo (Harvey, 1989), em suma, a redução dos limites espaciais e temporais pelos meios de comunicação e transporte, se mostra como um argumento conciliador de cultura enquanto sistema de comunicação com a ideia de transculturalidade. Se estamos numa “aldeia global”, a televisão, a internet e outros meios de comunicação se mostram como ferramentas que permitem essa troca cultural contínua e a formação de identidades culturais que são mais fluidas e menos atadas a localizações geográficas específicas. Assim, as culturas também “viajam” e se transferem entre territórios num contexto transcultural. A hipermobilidade também amplia estas alterações à própria memória cultural (Matos, 2012), sendo que os estudos dos processos culturais atuais podem ser analisados à luz da necessidade de utilizar novos enquadramentos teóricos e metodológicos, assentes nos eixos da memória e mobilidade, que acompanhem essas mesmas alterações: Ao concentrarmo-nos na dimensão transcultural da mobilidade dentro dos estudos de memória, reconhecemos que o movimento no tempo e no espaço bem como a multiplicidade de mundividências e sua representação em diversas artes e media moldam a memória cultural, ao mesmo tempo que são moldados pela mesma. (Matos & Paisana, 2023, pp. 8-9) Cultura se apresenta como um conceito plural, no entanto, pensamos que as dimensões que apresentamos neste capítulo são suficientes para iniciarmos uma discussão que leve em conta a sua complexidade, mas também para que se adeque às temáticas que abordaremos daqui em diante. Abaixo ilustramos o alinhamento de conceitos contemplados.
55 Em suma, a sequência dos conceitos de cultura acima proposta reflete uma progressão (não exclusiva) de conceitos que nos leva, do âmago da produção de significado e poder cultural até a esfera mais ampla da comunicação transcultural, proporcionando uma compreensão abrangente da transculturalidade em suas várias dimensões interconectadas. A escolha do losango na representação não é aleatória, visto que qualquer conceito pode ser centralizado e ainda continuar em contato com os restantes. 1.5. Glossário de conceitos Interdisciplinaridade - processo colaborativo que prima pela interação disciplinar e que envolve a explicação conjunta de fenómenos ou objetos complexos. Figura 1: Conceitos de cultura na transculturalidade
56 Transdisciplinaridade – processo colaborativo que além de transcender paradigmas disciplinares, possui abordagens de inclusão de uma perspetiva orgânica e externa ao método científico. Transculturalidade – interseção e superação da oposição entre culturas, destacando o elo entre elas como partes de si mesmas. Alternativa para o conceito de cultura enquanto corpo imutável e isolado. Cultura – práticas, produções e mundividências humanas que produzem significado, identidade e diferença em dinâmicas políticas, económicas e sociais de poder e dominação entre grupos de indivíduos, contribuindo para a sua construção subjetiva e objetiva da realidade, as quais são difundidas através de sistemas de comunicação.
57 2. NetnoRetrato: Redes e mónadas em perspetiva “Verso mínimo, lírico de um universo onírico Cada maloqueiro tem um saber empírico Rap é forte, pode crêr, oui, monsieur Perrenoud, Piaget, Sabotá, enchanté!” Criolo – Esquiva da esgrima, 2014 Este capítulo possui dois propósitos. Primeiro, continuar o enquadramento iniciado no capítulo anterior, adicionando novos contextos, variantes disciplinares e conceituais da pesquisa. Em segundo, iniciar uma proposta de uma ferramenta metodológica para análise de objetos culturais complexos na internet, assente nos enquadramentos realizados. O capítulo anterior localizou esta pesquisa no pano de fundo dos Estudos Culturais. Lá também discutimos os conceitos de cultura e transculturalidade. Estes passos foram importantes por servirem de base na análise de certas dinâmicas ligadas ao Hip-Hop, sobre as quais falaremos mais tarde. No entanto, iremos utilizar dados de internet no nosso estudo, e tal nos leva a enquadrar outras tecnologias, teorias e métodos. Assim, faremos uma breve introdução sobre os desenvolvimentos da internet, seguido da nossa proposta de ferramenta metodológica. 2.1. A sociedade na internet e a internet social Muitos de nós ainda nos referimos a plataformas digitais e à internet coloquialmente como “novas tecnologias”, mas tal caraterização é algo obsoleta. A influência da internet na vida social é inegável há décadas para ainda ser considerada “nova”. O termo parece pertencer a uma era entre a popularização da internet e meios de comunicação interativos como o CD-ROM e o início dos sites de redes sociais. Atualmente não nos encontramos no mesmo estágio. Isto leva-nos a fazer um pequeno parêntesis sobre tecnologia e uma breve contextualização das diferentes fases da internet. 2.1.1. Tecnologia como cultura Não estamos aqui a introduzir mais uma faceta conceitual de cultura, mas apenas a situar a tecnologia como um sistema cultural. Em 2017 definimos tecnologia como “todo e qualquer objeto/instrumento concebido para algum fim, através de procedimentos e recursos técnicos”,
58 independentemente de onde se situa no espectro temporal, e “não exclusiva da espécie humana” (Gravato, 2017, p. 13). Mesmo se tratando de uma breve passagem em uma dissertação de mestrado em comunicação, esta definição mostra-se incompleta. A questão temporal e a não-exclusividade humana ainda nos parecem pontos acertados. Tecnologias podem ser datadas ou atemporais, mesmo que passem por inovações ou recontextualizações, mas não deixam de ser tecnologia. Por outras palavras, “tecnologia” não sinonimiza “recente” ou “novo”. Já sobre o segundo ponto, uma tecnologia pode ser desenvolvida por outros seres vivos além dos humanos. Por exemplo, uma pesquisa iniciada em 2004 vem revelando que macacos-prego não só recorriam a rochas para “abrir sementes e nozes, cavar o solo, processar frutas”, mas também ajustaram estas ferramentas de acordo com as suas necessidades, onde “só recorriam a pequenas pedras como ferramentas auxiliares na hora de se alimentar” mas “passaram a preferir rochas maiores — ideais, por exemplo, para abrir castanhas de casca dura” (Vilicic & Brito, 2019). Faltou, à definição anterior, adicionar uma componente cultural à tecnologia. Hoje ela é indissociável de questões éticas, socioeconómicas e políticas (Watson, 2016, p. 29). Do escândalo que envolveu a Cambridge Analytica e Facebook, ao sinal de GPS, aos sistemas estatais de saúde pública, ou a uma “simples” utilização da roda nos automóveis, tecnologias estão presentes em inúmeras práticas culturais e sociais humanas. Mesmo quando falamos sobre determinados assuntos nas nossas profissões, escolas ou quotidiano, evocamos elementos da tecnologia inerentes a essas ações ou comportamentos. Esse conjunto de elementos são pressupostos e associados aos nossos modos de vida, fazendo assim parte da nossa cultura. Isto é, humanos assumem que até as práticas mais triviais do quotidiano são realizadas através de artefactos ou processos inseparáveis de tecnologia. Precisamos assim olhar “para além das ferramentas e dos artefactos em si” e assumir que “a tecnologia engloba também os sistemas sociotécnicos que desenvolvem e criam essas tecnologias, bem como aqueles que as utilizam.” (p. 17). Por isso, reformulando a anterior definição, vemos tecnologia como o conjunto de sistemas, artefactos e configurações criado por seres humanos, e outras espécies, para atingir objetivos específicos em qualquer sector de suas vidas, incorporando-se assim no tecido das interações socioculturais e podendo refletir valores éticos e morais. No caso da internet, as tecnologias associadas foram transformando as suas lógicas de desenvolvimento, mas também a expandindo para além de uma ferramenta.
59 2.1.2. Os principais estágios da internet A internet, tanto enquanto tecnologia quanto um palco digital de sociabilidade humana, está em constante transformação. A seguinte e breve descrição dos principais estágios da internet não procura explicar uma cronologia histórica, mas sim identificar as principais mudanças de paradigmas a ela associadas. Na verdade, a divisão das diferentes iterações da internet é uma convenção algo informal entre profissionais e académicos, principalmente as mais recentes. A Web 3 1.0, também conhecida como web estática, é caraterizada por conteúdo disponível apenas para leitura. Nesta primeira geração, aproximadamente entre o final dos anos 1980 e 2004, o conteúdo era criado por um número limitado de produtores e consumido por muitos utilizadores, em websites com páginas HTML estáticas, com pouca interatividade e navegação linear. Salvo pequenas exceções, a comunicação era unidirecional. A Web 2.0, além de oferecer a possibilidade de leitura, centrou os seus utilizadores ao lhes proporcionar formas de criação de conteúdo. Esta segunda geração estabelece-se sensivelmente entre 2004 e 2010, sendo o seu termo popularizado por Dale Dougherty e Tim O'Reilly. Existem muitos nomes para cada iteração da web. A 2.0 foi, entre outras nomenclaturas, apelidada de “Web do conhecimento, Web centrada nas pessoas, Web participativa e Web de leitura e escrita” (Aghaei et al., 2012, p. 3). Preferimos chamá-la de Web social dada a centralidade das relações entre indivíduos e os seus conteúdos. Lembre-se que a comunicação unidirecional da Web 1.0 não desaparece, aliás, ainda nos dias de hoje a podemos identificar por meio de websites institucionais, entre outros. No entanto, é nesta altura que surgem plataformas como blogues, wikis e sites de redes sociais. Estes não só permitem que o conteúdo gerado pelo utilizador seja central, como permite que eles se relacionem à distância e em tempo real. A mudança de paradigma também habilita a formação de comunidades online. A interação entre perfis fica sempre dependente dos próprios utilizadores, porém, existem formas de publicamente ilustrar essas comunidades. A título de exemplo, na “época de ouro” do Myspace, um site que une a ideia de rede social a uma plataforma de música, utilizadores podiam exibir os seus contatos favoritos numa grelha em seus perfis. No Youtube, utilizadores podem criar conteúdo audiovisual 3 Abreviação para World Wide Web, um sistema de informação onde documentos e outros recursos da web são identificados por URLs (Uniform Resource Locators). Se a internet é a estrutura, a web é um serviço sobre essa estrutura.
60 e receber subscritos, o que leva à formação de uma comunidade interessada naquele canal. No Facebook existem páginas e grupos temáticos. A lista é extensa. A Web 3.0 é considerada a Web semântica. Se na anterior o utilizador estava centralizado, a lógica desta iteração passa por tornar o sistema Web mais inteligente, dando ainda primazia à interligação de dados em alternativa a simples documentos. O termo foi sugerido em 2006 por um jornalista do New York Times, John Markoff (Aghaei et al., 2012), mas podemos considerar o seu início aproximadamente em 2010. Embora não seja unânime, julga-se que ainda nos encontramos na Web 3.0, a qual ainda se transforma, mas já com elementos da 4.0 e em transição. De grosso modo, entendemos a sua presença quando nos deparamos com anúncios personalizados, integração de inteligência artificial (IA) e aprendizado de máquina, tecnologias como blockchain 4 , internet das coisas (IoT), etc. O principal objetivo da Web semântica é impulsionar a evolução da Web atual permitindo aos utilizadores encontrar, partilhar e combinar informação mais facilmente. A Web semântica, tal como foi originalmente concebida, é um sistema que permite às máquinas compreender e responder a pedidos humanos complexos com base no seu significado. Essa compreensão exige que as fontes de informação relevantes sejam estruturadas semanticamente (Khanzode & Sarode, 2016, p. 5). A próxima Web, a 4.0, já se faz notar, mas ainda é um conceito em desenvolvimento e não é amplamente reconhecida ou definida. Por vezes discutida como a "web simbiótica", sugerindo uma integração mais profunda entre a IA e os seres humanos, onde a internet será onipresente e capaz de conectar-se com os dispositivos IoT em uma escala muito mais ampla, possivelmente envolvendo e executando em maior escala conceitos como o de realidade aumentada e realidade virtual. Espera-se que a Web 4.0 se torne mais um “sistema operativo” (Khanzode & Sarode, 2016) do que uma ferramenta ou ambiente digitais. Ocasionalmente surgem ainda discussões conceituais das Web 5.0 e 6.0, mas tais não nos parecem relevantes abordar. 2.1.3. A Comunicação Agenciada por Computação na sociedade em rede, da vigilância e algorítmica Um importante passo para entender a relação entre as tecnologias associadas ao mundo online e 4 Uma tecnologia de registo distribuído que garante segurança, transparência e imutabilidade ao armazenar dados em blocos interligados e criptograficamente seguros.
67 Embora na sociedade dos algoritmos, estes últimos, precisem de manutenção humana, nem que tal se resuma em manter a disponibilidade da eletricidade, vivemos numa era de elevada estruturação de dados onde enormes quantidades de inputs podem ser processadas e organizadas. A Inteligência Artificial (IA) é um campo da ciência da computação dedicado a criar sistemas capazes de realizar tarefas que, até então, requeriam inteligência humana. Estas tarefas incluem raciocínio, aprendizagem, perceção visual, compreensão e geração de linguagem natural ou tomada de decisões. A implementação de algoritmos com faculdades IA pode ser muito valioso, mas a sua trajetória na história recente também levanta a questão de “quem irá se beneficiar” deles? (Burrell & Fourcade, 2021, p. 230) Burrell e Fourcade falam de “sociedade algorítmica” operando na “sociedade dos algoritmos”, isto é, os interesses e estruturas de uma elite no controlo da tecnologia explorando o espaço online, agora algoritmificado . Para além do futurismo e do hype, a IA atual é, na verdade, bastante mundana. É concebida pela elite da codificação, sustentada pelo cybertariato, alimentada por dados pessoais extraídos por (principalmente) grandes empresas digitais, frequentemente otimizada para maximizar o lucro, e apoiada por um conjunto contingente de instituições legais que autorizam (no momento em que escrevo) fluxos contínuos de dados para servidores empresariais e estatais. Tal como as inovações de controlo anteriores, a IA vigia, classifica, analisa, reúne e automatiza. Burrell & Fourcade, 2021, p. 231 Pode parecer que estamos a estigmatizar as tecnologias envolvidas, quando na verdade apenas estamos a destacar a existência de forças de poder no “consumismo da vigilância” de Zuboff na atualidade. Isto para podermos afirmar novamente – não existe neutralidade na rede. A ideia é salientar, como em Lógica da Informação de Luciano Floridi (2019), que os algoritmos estão a moldar a forma como nos comunicamos, a forma como tomamos decisões e a forma como nos relacionamos com o mundo. Desde a privacidade, passando pela justiça e transparência, a humanidade está perante uma série de desafios éticos que emergiram com o advento dos algoritmos nesta sociedade em rede, principalmente aqueles aliados à comercialização de dados. Depois desta contextualização de sociedade em rede, vigiada e algorítmica, partimos para a introdução da nossa ferramenta metodológica para analisar objetos culturais complexos na internet.
68 2.2. NetnoRetratos Definição 1. Ponto de situação sobre um contexto (trans)cultural digital. 2. Elaborado a partir de uma lógica de análise perspetivista que une a netnografia à avaliação de dados estruturados de internet. 3. Levando em conta uma autocrítica perante os fenómenos da plataformização, da parcialidade do código e da produção de conhecimento situado. A definição composta acima resume o resultado de utilizar a ferramenta metodológica que propomos, isto é, a produção de um NetnoRetrato. Esperamos, ao longo deste e do próximo capítulo, elucidar sobre o enquadramento teórico e metodológico de uma ferramenta que permite, através da transdisciplinaridade, analisar qualquer objeto (trans)cultural complexo na internet. Por objeto complexo queremos aludir a um conglomerado multifacetado de componentes ou entidades, que se entrelaçam de maneira intrincada, formando uma estrutura ou sistema cuja compreensão integral demanda uma investigação meticulosa e um entendimento profundo dos inúmeros subsistemas e variáveis interdependentes que o constituem. Assim, um NetnoRetrato sempre revelará mais de uma dimensão do objeto analisado. A ideia de transculturalidade já foi mencionada anteriormente, sendo que quando mencionamos “objeto cultural” estamos também a fazer referência à confluência e ultrapassagem das divergências interculturais. Assim, um NetnoRetrato sempre assumirá a existência de uma produção humana transcultural na internet. Iremos agora abordar todo o contexto e enquadramento do NetnoRetrato pela ordem de sua definição acima. 2.2.1. NetnoRetrato – Ponto de situação contextual na internet Falar de um NetnoRetrato enquanto um ponto de situação sobre um contexto na internet, mostrase a forma mais simples e rápida de transmitir o cerne do que ele representa. Embora possamos simplificá-lo ao sinonimizar com o termo “diagnóstico”, a nossa decisão em o considerar um ponto de situação é dual. O primeiro motivo aproxima-se da epistemologia, o segundo da lógica comunicacional na internet. Isto, porque partirmos do princípio de que um NetnoRetrato é datado enquanto produção científica e enquanto contexto digital que tenta capturar. Cientificamente, um NetnoRetrato não escapa à temporalidade do que produziu. Ele é um ponto de situação científico pois aglomera um leque de conceitos, teorias e métodos que pode ser
69 identificado temporalmente. As ciências são contextuais, e não acumulativas, sendo que a sua maior parte se desenvolve “pela contínua competição entre diversas concepções de natureza distintas”, onde conclusões e resultados vão depondo anteriores (Kuhn, 1998, p. 23). Além disso, o ato de desconsiderar teorias obsoletas não as torna acientíficas, caso contrário seria possível produzir mitos através dos mesmos “métodos e mantidos pelas mesmas razões que hoje conduzem ao conhecimento científico” (p. 21). Portanto, ciências se tornam um reflexo do contexto social e histórico em quem são produzidas, estabelecendo um marco temporal do conhecimento, ou, um ponto de situação. Mesmo que a produção de conhecimento leve a uma predição, tal terá de ser sempre traçada no passado face ao que prevê, e nunca poderá ser separada do seu contexto. Já no que diz respeito à lógica comunicacional da internet, um NetnoRetrato se mostra uma representação – aqui no sentido de retrato – contextual da interação humana digital e a sua produção de conteúdo. Autores como Raquel Recuero têm adaptado as ideias de Erving Goffman sobre a interação humana para traçar paralelos com as lógicas da conversação online. Goffman (1967) explica como as pessoas mantêm a "face" - um conceito que ele usa para descrever a imagem que um indivíduo apresenta de si mesmo em interações sociais. O autor analisa como as pessoas utilizam diversas estratégias para evitar constrangimentos, salvar a própria face ou a dos outros, e manter a ordem social durante interações quotidianas. O autor argumenta que esses rituais de interação são fundamentais para a ordem social, servindo para estabelecer e manter as normas sociais. Na sua estrutura, a interação social seria assim regida por uma série de atos performativos, onde as pessoas estão constantemente a negociar as suas identidades e relações com os outros. Nesta linha de raciocínio, Recuero (2014) ressalta que os utilizadores se deparam com uma situação de interação quando pretendem intervir no espaço online. Isto é, o utilizador precisa ler o contexto da interação social para entender o que está em causa na conversação: Um dos elementos fundamentais para compreender aquilo que é dito nas conversações no ciberespaço é o contexto. Todo ator envolvido em uma conversação precisa ser capaz de negociar, construir e recuperar o contexto, que vai formar o pano de fundo sobre o qual as conversações acontecem. Sem esse contexto, é impossível compreender toda a dimensão da conversação no ciberespaço. (Recuero, 2014, p. 95) Os contextos variam entre micro e macro. Microcontexto acontece quando a interação social online segue uma lógica e assuntos propostos por um ou mais utilizadores inicialmente. O macrocontexto faz referência a tópicos e conversas mais amplas e requer uma “sensibilidade que necessita ser
70 desenvolvida pelos interagentes, seja através da experiência, seja através da construção de backgrounds coletivos e culturalmente compartilhados pelos atores” (Recuero, 2014, p. 101). Como diferentes conversações são possíveis em simultâneo numa só plataforma online, os microcontextos e macrocontextos podem existir sincronicamente. Imagine-se um chat durante um evento ao vivo, onde utilizadores podem interagir entre si sem que seja necessária a inclusão de todos os presentes, ou até mesmo a consideração do tópico central do evento: Nesta pequena simulação temos o utilizador a laranja a estabelecer um contexto de interação. Quando deparado com a situação de interação, o utilizador a preto responde diretamente e mantem-se no contexto estabelecido (microcontexto). O utilizador a azul sai do tópico da transmissão ao vivo e do contexto estabelecido e inicia um novo microcontexto. Mesmo após a interação do utilizador a verde, o utilizador a vermelho decide resgatar o contexto anterior, voltando a mencionar o concerto e o macrocontexto da transmissão ao vivo. O NetnoRetrato é a tentativa de recortar um determinado contexto sobre um assunto, criando um ponto de situação das interações e contribuições dos utilizadores. Com o intuito de simplificar a exemplificação, se o chat acima representasse a totalidade da conversação sobre o evento, o NetnoRetrato poderia incluir apenas o (macro)contexto temático da transmissão ao vivo, os (micro)contextos paralelos, ou a junção de todos os contextos na sala de conversação. O ponto Figura 2: Simulação de um chat durante um evento musical transmitido ao vivo.
71 de situação que o NetnoRetrato irá estabelecer depende das intenções do investigador, do que ele pretende diagnosticar, ou do objetivo da análise. Por fim, precisamos de definir a estrutura básica de qualquer “contexto digital”. Por outras palavras, o que pode ser captado por um NetnoRetrato. Primeiramente, claro, o objeto precisa existir no espaço online. Em segundo, o conteúdo desse objeto pode ser composto por contribuições tanto de humanos quanto de máquinas. E isto leva-nos a falar de perfis e metadados. Perfis são importantes para a locomoção dos indivíduos no espaço digital. O senso comum nos diz que eles são a “face” e o mecanismo que lhes permite a participação na rede. Ou que eles podem se aglomerar e formar comunidades. No entanto, eles podem também representar comunidades, um casal, um animal, um objeto, robôs, etc. Portanto, não necessariamente um indivíduo . A lista é longa tornando a forma e função de um perfil algo múltiplo. Contudo, perfis são resultado de tecnologias associadas à Web 2.0, especialmente do surgimento de sites de redes sociais, os quais possibilitam a criação de contas virtuais em suas plataformas. E por que estes estabelecem relações entre si, pelas quais se locomovem e existem, “quanto mais se quiser identificar um ator, mais se tem de acionar a sua rede de atores.” (Latour et al., 2012, p. 592). O argumento aqui parte da teoria ator-rede de Bruno Latour por conceitualmente nivelar os integrantes de uma rede desde uma teoria social que segue uma lógica de associações. Isto é, assumindo um perfil como algo mais amplo que a representação de um indivíduo, mas sim algo indissociável da sua rede, onde transitando "do ator para a rede e vice-versa, não estamos a mudar de nível, mas simplesmente a parar momentaneamente num ponto, o ator, antes de passarmos aos atributos que os definem” (2012, p. 593). O perfil (ator-rede) mostra-se, então, também composto pela estrutura que o sustenta. Isto acontece porque os objetos também participam do curso da ação (Latour, 2012). Assim, podemos considerar os rastros digitais de um perfil, os quais podem ser isolados através da leitura de metadados, como parte integrante de sua rede, e de si mesmo. Metadados são, em suma, dados sobre dados. Trata-se de um termo usado para descrever dados que fornecem informações sobre outros, como uma "etiqueta" ou "descrição" que explica as caraterísticas, o conteúdo, a qualidade, a condição ou outros atributos de um conjunto de dados. Por exemplo, em uma fotografia, os metadados podem incluir informações sobre a câmara utilizada, a data e hora, a localização, entre outros detalhes técnicos. Um perfil não pode existir ou atuar sem eles. Consequentemente, qualquer ponto de situação de um contexto digital (NetnoRetrato) estará repleto de metadados.
72 Independentemente das entidades que representem, assumimos que todos os perfis estão conectados a humanos, mesmo aqueles que automaticamente operam através de algoritmos (robôs). No entanto, estes últimos possuem particularidades que os distinguem entre si. Como os humanos, eles podem agir nos sites de redes sociais, enquanto espaço de ganho e perda de capital social. O capital social varia segundo a apropriação de certos valores variáveis como visibilidade, reputação, popularidade e autoridade (Recuero, 2009). Estes relacionam-se em alguma medida e constituem, como repara Recuero, parte integrante das dinâmicas de construção de comunidades online. Aproveitamos este parêntese para diferenciar os tipos de perfis não orgânicos, isto é, qualquer que tenha “sido criado para representar uma (outra) pessoa, grupo de pessoas, organização, marca, instituição, etc.” (Gravato & Denicoli, 2021, pp. 58-59), usando aqui orgânico no sentido “para uso próprio” e “para representar o indivíduo que o criou”: • Perfis robôs – Comummente apelidados de “bots”, tratam-se de perfis operados por máquinas, participando na internet de forma automatizada. • Perfis falsos – Também conhecidos por “perfis fakes”, se locomovem no espaço online omitindo parcial ou totalmente a sua identidade, ou assumindo outra. • Perfis adeptos (p. 59) – Não necessariamente robôs ou falsos, podem assumir uma identidade real no mundo offline, porém, utilizam os seus perfis para fins específicos. Estes perfis focam suas ações da difusão de determinadas agendas ou tópicos. Por exemplo, um cabo eleitoral, um grupo de fãs de um artista, etc. • Perfis de interferência (p. 59) – Como os adeptos, podem assumir identidades do “mundo real”, no entanto, estão “aliados exclusivamente à tarefa de interferir na opinião pública”. Enquanto o que denuncia os perfis robôs e falsos não orgânicos é a forma como se apresentam, nos perfis adeptos e de interferência são as agendas e o modo de uso dos mesmos para captação de capital social. O uso não orgânico de um perfil não patenteia se a intenção é automaticamente negativa ou positiva por parte do indivíduo que o criou. Perfis não orgânicos também podem ser compostos por mais do que uma das categorias acima citadas, na verdade, podem conter todas elas. Imagine-se um perfil operado por um algoritmo (robô) com uma imagem de perfil de Jair Bolsonaro (falso), configurado para partilhar notícias favoráveis ao Partido Liberal no Brasil (adepto), mas também disseminar qualquer conteúdo desvantajoso para a imagem do Partido dos Trabalhadores (interferência).
73 Uma vez que um NetnoRetrato assume qualquer perfil a partir da teoria ator-rede, os perfis não orgânicos não são descartados da análise. Perfis robôs, por exemplo, podem ser relevantes para mostrar estratégias de disseminação de informação. Bots são particularmente ativos no início da propagação de um conteúdo, antes que ele se torne viral, por vezes mirando em utilizadores influentes (Shao et al., 2018). Os bots amplificam o alcance do conteúdo de baixa credibilidade a um ponto que se torna estatisticamente indistinguível do de artigos de verificação de fatos, demonstrando sua eficácia na manipulação das redes sociais (2018, p. 5). Agora num lado mais positivo da tecnologia, bots podem atuar de forma benéfica para os humanos. Por exemplo, o projeto Code of Hope é um “sistema espanhol de prevenção de suicídios” que identifica “padrões de sentimentos depressivos em tweets” para posteriormente “acionar setores responsáveis da saúde pública” (Capoano & Essenfelder, 2023). Assim, os bots, enquanto atores não-humanos, têm um impacto significativo na ampliação das mensagens e na rapidez com que elas alcançam as pessoas, tornando-se atores centrais nessas redes. 2.2.2. NetnoRetrato - Análise perspetivista de redes sociais No que diz respeito ao enquadramento e abordagem teórica e metodológica, o perspetivismo se destaca como um dos dois aspetos mais significativos do NetnoRetrato. A escolha do termo “retrato” não só deriva de ele criar o ponto de situação, um recorte, um diagnóstico, mas também por representar um ponto de vista, uma vez que todo o retrato de algo possui um. Neste ponto iremos situar o perspetivismo de Eduardo Viveiros de Castro e integrar a sua premissa com algumas das ideias já mencionadas, como a teoria ator-rede de Latour, entre outras que beneficiam da simbiose. 2.2.2.1. Perspetivismo Abiayalense O perspetivismo ameríndio de Eduardo Viveiros de Castro surgiu como resposta a um complexo conjunto de questões académicas, culturais e políticas, buscando desafiar as noções ocidentais predominantes e proporcionar uma compreensão mais profunda e respeitosa das cosmovisões indígenas. Apesar de Viveiros de Castro utilizar o termo composto “perspetivismo ameríndio”, iremos utilizar “perspetivismo Abiayalense” por melhor representar essas mesmas cosmovisões indígenas. Abiayala 7 refere-se à totalidade do continente americano, sendo o nome dado pelos 7 Abya Yala ou Abyayala.
74 Guna, nação indígena da região Guna Yala, formalmente conhecida por San Blas, no Panamá (Keme, 2018). Segundo os Guna, Abiayala significa “terra salva” e é nome dado à quarta fase da “terra-mãe”, sendo que cada etapa também possui um nome específico (Gwalagunyala, Dagargunyala, Yaladinguayala) (Wagua, 2011). Está aqui em causa não reforçar a atribuição de um nome dado por europeus (América), e simplesmente utilizar aquele dado pelos nativos do continente em questão. É novamente assumir que as palavras possuem peso e suportam a determinação de identidades, e que utilizar Abiayala sugere descolonizar também o pensamento, além da rejeição da “cristalização de um projeto exógeno, dos de fora”, de como uma “América Latina” coloca os que habitam na região de “subalternos do Norte, como um subgrupo subordinado aos verdadeiros americanos, os que dispensam adjetivações” (Lisboa, 2014). O termo “perspetivismo ameríndio” será mencionado, por razões óbvias, ao apresentarmos citações diretas de Eduardo Viveiros de Castro, no entanto, e mesmo que Abiayala ou outros termos ainda não sejam conhecidos ou utilizados por muitos de nós no ocidente, é uma questão de trabalhar para que as asas desses projetos alcancem gradualmente uma multiplicidade de espaços, a fim de ativar e dignificar a nossa memória ancestral. Que este seja o primeiro passo para a criação de um movimento global indígena e nãoindígena frente ao neoliberalismo predatório. Que estes, entre outros, sejam os princípios plurais que guiem os nossos caminhos para o nosso fortalecimento coletivo. (Keme, 2018) Retomando a Viveiros de Castro, o autor reparou como dicotomias tradicionais, como natureza/cultura e sujeito/objeto, não são adequadas para explicar as cosmologias amazónicas e que tal aplicação as iria distorcer (2004; 2013). Assim, ao contrário do chamado multiculturalismo ocidental, que presume uma natureza universal compartilhada por culturas diversas, Viveiros de Castro irá se apoiar no perspetivismo abiayalense para propor o conceito de "multinaturalismo". Isto significa a partilha da mesma cultura ou "espírito", sendo a natureza diversa e variável. A separação entre humanos e animais, segundo o perspetivismo abiayalense, não recai na distinção entre natureza/cultura, porque para si “a condição original comum aos seres humanos e aos animais não é a animalidade, mas sim a humanidade” (2004, p. 465). Isto acontece, pois, segundo Viveiros de Castro (2004; 2013) os abiayalenses não olham para os humanos como tendo perdido a sua animalidade, um processo cultural, eles interpretam que foram os animais que perderam as qualidades humanas, se tornando ex-humanos , em oposição aos humanos serem ex-animais . Desta forma, os amazónicos acreditam que várias espécies animais e outros
75 tipos de seres retêm componentes espirituais de “gente”, as quais são visíveis para xamãs que enxergam além da aparência destes seres: Se concebermos os seres humanos como, de alguma forma, constituídos por uma roupagem cultural que esconde e controla uma natureza essencialmente animal, os amazónicos fazem o inverso: os animais têm um aspeto interior humano, sociocultural, que é "disfarçado" por uma forma corporal ostensivamente bestial. (Viveiros de Castro, 2004, p. 465) Ao conferir estas qualidades humanas a seres não-humanos, ou ex-humanos segundo as visões abiayalenses, são estabelecidas novas formas de relações sociais, uma vez que as plantas cultivadas “podem ser concebidas como parentes de sangue das mulheres que as tratam”, os animais de caça “podem ser abordados pelos caçadores como afins”, ou os espíritos destes podem se relacionar com xamãs enquanto “associados ou inimigos” (2004, p. 466). Estas lógicas não se assemelham à forma ocidental como percebemos o mundo, pois a transmissão de sujeito dada aos agentes não-humanos pelos abaiyalenses torna-os detentores de uma mundividência equiparável à humana. Nesta lógica, um animal pode se colocar ao centro, assumindo o seu habitat como a sua cultura, ou vendo a sua comida como comida humana (as onças veem o sangue como cerveja de mandioca, os abutres veem as larvas da carne podre como peixe grelhado); veem os seus atributos corporais (pelo, penas, garras, bicos) como decorações corporais ou instrumentos culturais; veem o seu sistema social como organizado da mesma forma que as instituições humanas (com chefes, xamãs, cerimónias, metades exogâmicas, etc.). (Viveiros de Castro, 2004, p. 466) Viveiros de Castro aponta que esta dinâmica de centralizar um animal também o coloca na posição de sujeito. Esta surge como uma das bases ontológicas do multinaturalismo, isto é, a existência de um ponto de vista é o que define a posição de um sujeito. Ou, por outras palavras, é a capacidade de ter uma perspetiva única que constitui um ser como um sujeito. O autor evoca Sausurre e Kant (2004) com a frase “é o ponto de vista que cria o objeto” para dar a entender que como percebemos e interpretamos o mundo ao nosso redor define o que consideramos ser a realidade. Lembre-se como similarmente, no capítulo anterior, tratamos o conceito de cultura enquanto realidade subjetiva. Porém, segundo o perspetivismo abiayalense, o sujeito não é a
76 posição fixa de onde a perspetiva é criada, o ponto de vista é que cria o sujeito. O que for “ativado ou ‘agenciado’ pelo ponto de vista será um sujeito” (Viveiros de Castro, 2004, p. 467). O autor (2004; 2013) chama a atenção para não se confundir perspetivismo com relativismo. Enquanto o relativismo opera como se não existisse uma representação “correta” ou “verdadeira” do mundo, dentro da lógica perspetivista, enquanto diferentes espécies podem ter perspetivas distintas, a perspetiva de cada espécie é consistente e coesa internamente. Em vez de uma multiplicidade de representações do mesmo mundo, todos os seres percebem o mundo da mesma maneira, mas o mundo que cada um vê é diferente. Respetivamente, as perspetivas não são meras representações mentais, mas estão enraizadas nas diferenças corporais e capacidades de cada espécie. Isso significa que a perceção de cada espécie é influenciada por suas caraterísticas físicas e disposições, o que leva a diferentes "realidades" experimentadas. O perspetivismo abiayalense propõe uma unidade representacional ou fenomenológica aplicada de forma indiferente a uma diversidade objetiva radical. Isso implica um "multinaturalismo", onde uma perspetiva não é uma representação, mas uma maneira de estar no mundo, ligada ao corpo. Portanto, a diferença crucial entre o perspetivismo abiayalense e o “relativismo ocidental” está na maneira como a relação entre sujeito e mundo é concebida. No perspetivismo, as diferentes perspetivas são enraizadas nas caraterísticas físicas e experiências de diferentes espécies, enquanto no relativismo cultural, as perspetivas são vistas como construções mentais subjetivas. 2.2.2.2. Aproximando o perspetivismo da Teoria ator-rede Conectar ideias do perspetivismo abiayalense a um método de análise de redes sociais pode parecer artificial, mas esperamos que tal ligação não pareça forçada depois deste ponto. Retomemos à Teoria Ator-Rede de Bruno Latour 8 . Ela foi desenvolvida sob a dialética da antropologia simétrica. Nesta abordagem, humanos, objetos não-humanos (como tecnologias e artefactos), e até conceitos e ideias são considerados como atores (ou agentes) em redes de relações sociais. A ideia é que todas essas entidades têm capacidade de influenciar e serem influenciadas dentro dessas redes. Existem, pelo menos, três pontos importantes para caraterizar estas dinâmicas, sendo a) os não-humanos enquanto atores, b) a simetria, c) relações enquanto redes complexas. 8 Também comummente atribuída a Michel Callon e John Law.
83 Quarta incerteza – questão de facto VS. questão de interesse Outra incerteza que Latour visita recai na esfera da epistemologia, sem deixar de se conectar com as anteriores. Aqui queremos apenas relacionar a “incerteza” com a ANT, e não necessariamente aprofundar toda a discussão que propõe. Em suma, o autor (2012) questiona a separação do que ele chama de “questões de facto” das “questões de interesse”. As primeiras referem-se a afirmações sobre o mundo que são consideradas objetivas, verificáveis e independentes das opiniões ou interesses humanos. São os domínios clássicos da ciência, onde se busca estabelecer verdades universais e incontestáveis sobre a realidade natural. Já as segundas, por outro lado, envolvem valores, significados, e preocupações humanas. Estas são frequentemente vistas como subjetivas, relacionadas às ciências sociais, arte, política, etc. Elas tratam de como os humanos interpretam, valorizam e se relacionam com o mundo. Latour (2012, pp. 129-177) argumenta que essa distinção rígida entre questões de facto e questões de interesse é problemática e artificial. O autor sugere que os factos científicos não são completamente separados dos interesses humanos, valores e preocupações. Por exemplo, a forma como a sociedade aborda as questões de mudança climática não é apenas uma questão de dados científicos ("factos"), mas também está profundamente interligada com interesses políticos, económicos e culturais ("interesses"). Por consequência, questões climáticas enquanto “construção social” estão ligadas a “uma variedade de atores sociais, como políticos, cientistas, corporações e organizações ambientais” (Carvalho & Pereira, 2008, p. 127). Pense-se nas agendas políticas de um partido etiquetado de “verde”, por exemplo, ou como “chefes de estado têm de tomar decisões sobre fenómenos naturais” ou ainda “quando os cientistas criticam os seus pares na imprensa por não terem seguido protocolos adequados” (Latour, 2012, p. 175). Em vez de ver esses dois tipos de questões como separados e opostos, deveríamos reconhecer que eles estão frequentemente entrelaçados. As questões de facto estão sempre imbuídas de interesses humanos, e as questões de interesse muitas vezes contêm elementos factuais que precisam ser considerados. Quinta incerteza – escrever relatos de risco Nesta quinta incerteza é-nos trazido um ponto importante, não só pela sua relação com esta pesquisa, mas com a ponte que queremos traçar para a aproximação de Latour a Gabriel Tarde e a conexão com o perspetivismo. Vejamos o que Latour quer dizer com a necessidade de “escrever relatos de risco” numa análise ANT:
84 Em palavras mais simples: um bom relato ANT é uma narrativa, uma descrição ou uma proposição na qual todos os atores fazem alguma coisa e não ficam apenas observando. Em vez de simplesmente transportar efeitos sem transformá-los, cada um dos pontos no texto pode se tornar uma encruzilhada, um evento ou a origem de uma nova translação. Tão logo sejam tratados, não como intermediários, mas como mediadores, os atores tornam visível ao leitor o movimento do social. Assim, graças a inúmeras invenções textuais, o social pode se tornar de novo uma entidade circulante não mais composta dos velhos elementos que antes eram vistos como parte da sociedade. O texto, em nossa definição de ciência social, versa portanto sobre quantos atores o escritor consegue encarar como mediadores e sobre até que ponto logra realizar o social. (Latour, 2012, p. 189) De certa forma, um relato de risco é uma sequência da equação das incertezas anteriores ou, se quisermos, o seu resultado. Ao caraterizar uma análise ANT de “narrativa”, o autor já começa a aludir à junção das questões de facto e de interesse, onde os eventos que acontecem em rede não se desassociam da interpretação dos atores e de quem produz a análise. O texto torna-se assim uma “encruzilhada” pois cada intercessão e interconexão do “social” nos dados analisados se mostram um ponto de partida para entender o ator-rede. Como analisar um atorrede se traduz em analisar não apenas um sujeito, mas também a sua rede, o social pode se tornar “uma entidade” e falar por si, onde o analista “simplesmente repete a descrição do mundo social tal qual é” (p. 90). Esta é a razão pela qual um NetnoRetrato apenas é eficaz quando diagnostica o contexto e a estrutura que envolve os indivíduos, sendo que uma exposição da rede inerentemente providenciará uma narrativa. De grosso modo, o pesquisador que implemente uma análise ANT é também uma formiga pois segue rastros, no nosso caso, digitais. A forma como este produz ciência passa por, ao descrever os atores, deixar o “social” se explicar. Consequentemente, estas discussões e entendimento do “social” (das associações) estão ligadas ao debate sobre “sociologia”, do século XIX, entre Gabriel Tarde e Émile Durkheim. 2.2.2.3. Um resgate tardiano e as mónadas digitais Latour, na verdade, nunca escondeu que a visão da teoria social alternativa de Gabriel Tarde baseia a sua, afinal, ele mesmo diz que Tarde “pode ser considerado um precursor da ANT” (2012, p.35). Durkheim e Tarde embateram intelectualmente ao longo de várias publicações sobre o que se tornariam correntes opostas no desenvolvimento da sociologia. Nestas trocas, Tarde vai opor-se à
85 ideia durkhaniana de que a divisão do trabalho é o organizador social, para o atribuir ao processo “imitativo” da sociabilidade. Tarde olha para a sociedade como um “grupo de seres aptos a se imitaram uns aos outros” (Tarde, 1903, p. 68), e que a “semelhança social” é resultado desse processo imitativo (p. 37), aspetos que levam autores a assumir que, Segundo Tarde, a moralização dos indivíduos tem sua fonte na sociabilidade, processo psicológico que se dá por meio do contágio imitativo – mas também pela simpatia inata dos indivíduos – e tem como corolário o fortalecimento de crenças e costumes semelhantes nos grupos sociais tradicionais e nas nações modernas. (Consolim, 2010, p. 46) Outro ponto de discórdia entre os dois relaciona-se com o que pode ou não ser explicado sociologicamente. De um lado, Tarde assume que a ciência, que para si consiste em considerar as “repetições”, “oposições” e “adaptações” (Tarde, 2004, p. 416), não vai conseguir explicar tudo (Consolim, 2012, p. 48), no outro, Durkheim acredita que, se o indivíduo é resultado direto da sociedade, então ele pode ser explicado. Existe aqui toda uma discussão paralela sobre o quão é necessário, enquanto investigadores, sermos objetivos e nos distanciarmos do objeto. Assim como já demos a entender anteriormente, e como trataremos muito em breve nesta exposição dos NetnoRetratos, não acreditamos na ideia de neutralidade. Afinal, quando o que está em causa é a análise do ser humano, nós mesmos, como seria possível tecer complexas reflexões livres da parcialidade? Como pensar com total distanciamento sobre algo que está em nós? No caso de Latour, o simples facto de este preferir focar na rede de associações e não no sujeito individualizado, já demonstra um alinhamento distante à lógica do “social” de Durkheim. Para o último, os “fenómenos sociológicos têm por substrato a sociedade” (Consolim, 2012, p. 52), logo, são externas ao indivíduo. Para Tarde, o facto social não é extrínseco à consciência dos indivíduos, se reproduz pela “imitação” e existe na troca entre eles. É entre si que se deve “convocar o fato social elementar, incluindo as associações ou as combinações múltiplas que constituem os fenômenos supostamente simples”, questão que, em relação aos indivíduos, se sustenta a partir da interação e não dentro deles (Tarde, 2004, p. 424). Assim, uma “coisa social” qualquer se transmite não do grupo ao indivíduo, mas de um indivíduo ao outro, ou seja, os fatos sociais são interiores e não exteriores e se difundem através das consciências individuais; (…) não existe uma sociedade sui generis acima dos indivíduos; essa é uma expressão abstrata da realidade e uma verdadeira “ontologia
86 escolástica”; (…) a imitação se dá por meio de um processo “simpático” entre os indivíduos e não por imposição. (Consolim, 2010, pp. 55-56) A síntese do social acima resumida parece, de certa forma, o que Latour tenta destacar na sociologia das associações, sendo que, embora não concorde com “todas as idiossincrasias”, o autor defende que se a sociologia se tivesse aproximado mais do que Tarde defendia, hoje poderíamos explicar como a sociedade se mantém (Latour, 2012, p. 34). Ganhamos uma elucidação adicional sobre estas questões de Gabriel Tarde ao percebermos que, para ele, os fenómenos sociais podem ser entendidos através da análise de padrões. Segundo o autor, “as leis que governam a repetição imitativa e que são para a Sociologia as leis do hábito” podem ser avistadas noutras ciências como nas leis da hereditariedade na biologia, “tanto quanto as leis da gravitação estão para a astronomia, e as leis da ondulação para a física” (Tarde, 2004, p. 434). Com o intuito de definir a sociologia como uma ciência distinta, construída sobre a observação e análise de padrões e comportamentos humanos, Tarde (2004) compara o desenvolvimento da Sociologia com o de outras ciências, como a Astronomia e a Biologia, enfatizando a importância de reconhecer semelhanças e diferenças elementares na sociedade. Ele argumenta que a Sociologia deve ser baseada em factos sociais elementares, destacando a imitação como um componente fundamental das relações sociais. Por outras palavas, é na imitação e troca social elementar entre dois indivíduos que a análise sociológica deve iniciar, pois é a partir dela que todos os outros factos sociais se desdobram. Isto porque Não se diz uma palavra que não seja uma reprodução inconsciente, porém, usada através de uma abordagem consciente e querida, de articulações verbais que remontam ao mais distante passado, com um acento próprio ao ambiente atual em que se vive. Não se realiza um rito religioso qualquer, um sinal de cruz, uma ação de beijar um ícone, uma oração, que não reproduza gestos e fórmulas tradicionais, como direi, formadas pela imitação dos ancestrais. Não se executa um comando militar ou civil qualquer, não se faz nenhuma ação de qualquer ofício que não os foi ensinado e que não se tenha cópia sobre um modelo vivo. Não dá uma pincelada, se si for pintor, não se escreve um verso, se si for poeta, que não seja conforme aos hábitos ou a prosódia de uma escola, e a originalidade mesma de um sujeito é feita de banalidades acumuladas, e que aspira tornar-se banal por sua vez. (Tarde, 2004, p. 428) Colocar a “imitação” nestes termos nos leva a pensar na forma como Tarde (2004) destaca a existência de um padrão onde as diferenças se repetem, inclusive na natureza. Imagine-se a olhar
87 para um bosque. À distância irá reparar que existem dezenas ou centenas de árvores, ou seja, a repetição de árvores. Ao se aproximar poderá observar que nem todas as árvores pertencem à mesma espécie, ou seja, existe uma diferença entre elas. Se continuarmos a examinar o que avistamos iremos perceber que o processo de repetição da diferença nos acompanha. Quando reparamos que no bosque encontramos mais do que uma espécie de árvore, estados a identificar agrupamentos (repetição), por exemplo, de pinheiros, mas também a diferenciá-los das outras espécies. Este exercício pode ser aprofundado até ao detalhe de as espécies de árvores serem constituídas por átomos, uma vez que “assim como as semelhanças de massa se solucionaram em semelhanças de detalhe, as diferenças de massa, grosseiras e bem visíveis, se transformaram em diferenças de detalhes infinitamente sutis” (2004, p. 420). Constantes aproximações revelam novos detalhes que substituem os anteriores, agora tidos como mais vagos caso tentemos ser precisos. Melhor dizendo, no exemplo acima, a composição do bosque poderá ser explicada através da análise profunda de um conjunto de fatores, tais como tipo de solo, interação com outras plantas e organismos, etc., e não por deduções triviais iniciais, as quais não necessariamente perdem sentido ou veracidade. Tarde (2004) quer assim dizer que, na Biologia, a repetição é vista como um elemento fundamental da herança genética, onde caraterísticas são passadas de geração em geração. O autor estabelece conexões entre tais pontos e a repetição na Sociologia, descrevendo a imitação como a forma social da repetição. A relação dessa ideia com a sua teoria da imitação é que, na vida social, as pessoas se imitam constantemente, exceto em casos raros de inovação. Porém, mesmo as inovações são frequentemente combinações de exemplos anteriores e só se tornam parte da vida social quando são imitadas (e assimiladas?) por outros. Como vimos na última citação, o autor explica que até mesmo a linguagem que usamos é uma reprodução inconsciente de articulações verbais do passado, adaptadas ao contexto atual. Esta abordagem ressalta a imitação como um processo fundamental na formação e evolução dos fenómenos sociais, conectando a Sociologia com conceitos de repetição encontrados em outras ciências. De certo modo, este é, também, um ponto de concordância entre Gabriel Tarde e Bruno Latour. Porque onde o primeiro via a sociedade como uma teia de imitações e invenções, o segundo vê uma rede de atores. De uma forma geral, eles compartilham a visão de que as conexões são fundamentais para a estrutura social. Se por um lado Durkheim focou em fenómenos sociais macro, assumindo a sociedade como algo além do que a soma dos seus indivíduos, Tarde mostrou, pelo que acabamos de descrever, acreditar que o processo de imitação e influência de um indivíduo sobre o outro o
88 inclinava para focar em aspetos micro sociais. Onde Durkheim situava a sociedade enquanto um conjunto de instituições e normas externas aos indivíduos, Tarde (2007) colocava a ideia de mónada como força motriz das mudanças sociais. Escrito em 1714, a "Monadologia" de Leibniz é uma obra que busca estabelecer um sistema filosófico pluralista, onde não existe um começo absoluto ou um fundamento único de todo o conhecimento. Neste trabalho, Leibniz (2016) articula suas teses anteriores em um quadro unificado, onde metafísica, ciência e moral estão interligadas. As mónadas, segundo este sistema, são descritas como o alfabeto do universo, onde a máxima variedade é equilibrada pelo exercício de unificação, essencial para a ação das verdadeiras mónadas ou unidades reais. As mónadas, segundo Leibniz, são substâncias simples que funcionam como autómatos incorpóreos. Elas agem de forma autónoma e são fontes de suas ações internas. As mónadas são entidades fechadas, nas quais nem a substância nem o acidente podem entrar externamente. Toda atividade de uma mónada ocorre no plano da imanência, incluindo seu dinamismo de autoconstituição, pelo qual cada mónada se individualiza e se distingue de todas as outras, pois “tal como o corpo orgânico, a mónada ou substância simples é um autómato, mas um 'autómato incorpóreo', isto é, um ser que age autonomamente e é 'fonte das suas ações internas' (Monadologia, § 18, infra, p. 44)” (Leibniz, 2016, p. 16). Este processo é contínuo e natural, derivando de um princípio interno representativo. Apesar de cada mónada ser única, suas qualidades estão sujeitas a mudanças contínuas, e “naturais”, que refletem as transformações do mundo ao seu redor: Com efeito, “cada mónada é diferente de cada outra” (§ 9), em virtude de qualidades intrínsecas que lhe são próprias. (§ 18, infra, p. 44). As qualidades de uma mónada estão sujeitas a “mudança contínua”, acompanhando as transformações que a cada momento se operam no mundo envolvente. (Leibniz, 2016, p. 16) Tarde irá retomar e atualizar este conceito para fundamentar “as forças constitutivas das coisas”, descentrando os humanos, e para situar as mónadas como portadoras de “forças ‘psíquicas’ (desejo, crença, perceção, memória)” (Lazzarato, 2006, p. 29). Enquanto Leibniz via as mónadas como fechadas e unidades básicas da realidade, cada uma refletindo o universo inteiro sem interação direta com outras mónadas, Tarde as via como unidades sociais fundamentais, abertas, capazes de imitação, inovação e interação. Esta neomonadologia, como refere Lazzarato (2006), nos conduz a visualizar um universo extraordinário, repleto de entidades distintas e uma ampla gama de realidades alternativas (mundos possíveis). Esta abertura, e
89 adaptação, do conceito de mónada leva ao exemplo que habitualmente costumo narrar para aqueles não familiarizados com ele. Imagine-se que se encontra numa praia de frente para o oceano. Nesta situação, e partindo do princípio que possui audição, conseguirá suficiente informação sensorial para produzir uma descrição do que escuta. Seria ainda válido afirmar que, de facto, ouviu o oceano. No entanto, se percorrer a areia até um outro ponto da praia poderá, sob o mesmo procedimento, repetir o exercício, mas produzir uma descrição distinta da anterior. Talvez outros sons afetaram a sua perceção ou, devido à geologia do local, o novo ponto onde se encontra possui uma maior incidência de ondas, alterando assim o conjunto de sons. As possibilidades são incontáveis, porém, persiste a validez de assumir que, de facto, ouviu o oceano. Por outras palavras, duas realidades (mundos possíveis) e perspetivas foram experienciadas sobre o mesmo objeto. Ou seja, duas mónadas diferentes, reais, autónomas, mas em relação com o todo, ainda que sujeitas à transformação “natural”. Este ponto não só continua a suportar a inclinação de Tarde se focar no micro social, como se contrapõe à ideia de analisar o todo. Bruno Latour vai assim definir mónada não enquanto “uma parte de um todo, mas um ponto de vista sobre todas as outras entidades tomadas separadamente e não como uma totalidade” (Latour et al., 2012, p. 598). Além da parcialidade dos pontos de vista dos investigadores, mostra-se relevante estarmos atentos à multiplicidade de fatores que podem influenciar os fenómenos sociais, tornando prático e necessário para os pesquisadores selecionar certas “circunstâncias” que parecem ser as mais significativas ou relevantes para o caso específico em estudo, em vez de tentar analisar todas as causas possíveis. Cada uma dessas circunstâncias, cada ponto de vista, cada mónada. Portanto, e como para Tarde, assumimos que o “todo social” se produz pela conexão entre a singularidade das mónadas, independentemente do indivíduo ou objeto (Lazzarato, 2006). Então, em sequência, quando aplicado ao ambiente digital das redes, essa totalidade do social pode ser traduzida pela relação entre as mónadas digitais, isto é, A experiência de navegação através de perfis disponíveis em plataformas digitais é tal que, quando se passa de uma entidade - a substância - para a sua rede - os atributos - não se vai do particular para o geral, mas do particular para mais particulares. (…) Aumente a lista de itens, suavize a navegação, visualize corretamente o "interior" de cada mónada, e poderá não precisar da estrutura átomo-interação ou da repartição atorsistema. Passará de mónada em mónada sem nunca deixar o terreno sólido dos particulares e, no entanto, nunca encontrará indivíduos atomísticos, exceto no primeiro
90 clique, quando começa a perguntar por um item e obtém apenas um ponto vazio. (Latour et al., 2012, p. 599) A citação em destaque mostra como a navegação em plataformas digitais reflete a teoria de mónadas de Tarde. Em vez de passar do específico para o geral (do indivíduo para a sociedade), a navegação digital leva de uma entidade específica para mais entidades específicas. Cada perfil ou ponto de dados é conectado a outros, formando uma rede complexa de informações particulares. Isso desafia a visão tradicional de análise social baseada em átomos ou atores individuais e sistemas agregados. O próprio título do artigo de Latour e associados, "The whole is always smaller than its parts", sugere que, neste contexto, o conjunto (a sociedade como um todo) é percebido através de suas partes menores e mais numerosas (as mónadas), cada uma complexa e interconectada, refletindo a visão de Tarde de que a sociedade é composta por uma rede de relações, e não por entidades isoladas. Nós alargamos ainda a releitura de mónadas no ambiente digital à própria locomoção digital, significando aqui qualquer ação na internet. Seja pela busca de informação ou entretenimento, pela comunicação com outros indivíduos ou uma simples consulta de e-mail, o humano sempre se move em direção ao específico sem abandonar os sistemas que suportam essa locomoção digital. Enquanto damos um passo para o particular, nos situamos num outro ponto da(s) rede(s) envolvente(s). Procurar uma informação específica no Google (direção ao particular) nos devolverá resultados pertencentes a uma gigante rede composta por meios de comunicação, sites independentes, meios alternativos, etc. Apesar de podermos “escolher” que hiperligação consultar, o conteúdo exibido estará inserido em determinadas lógicas e associações ideológicas, financeiras, comunicacionais, formatos, entre outros (situando-nos num ponto dessas redes). Pesquisar por entretenimento se mostra similar. Assistir a uma série, ou navegar num blogue ou rede social em busca de algo de nosso interesse (direção ao particular) nos colocará em determinados círculos e contextos culturais, redes de produções e monopólios do entretenimento (um ponto dessas redes). Consumir e produzir conteúdo online, seja informação ou entretenimento, possuem dinâmicas distintas de locomoção digital, porém, não nos exterioriza da rede de associações, das mónadas digitais, nem dos sistemas implementados. Conversação online ou ações como aceder a um e-mail podem aparentar estar mais isoladas. No entanto, estas ações também são mediadas e agenciadas por processos de computação (CAC), gerando rastros e metadados, logo são impossíveis de isolar dos sistemas que os sustentam – plataformas que
91 fornecem o serviço; servidores; empresa contratada para o acesso à internet; rede de eletricidade; etc. Além de Latour, e as colaborações de seus colegas, a ideia de aplicar este neomonadologismo às redes digitais tem sido explorada por vários autores. O método perspetivista de análise de redes de Fabio Malini (2016), referência para a nossa proposta de ferramenta metodológica, empresta a interpretação Latouriana mas adiciona o perspetivismo de Viveiros de Castro. Leonardo Pastor advoga a adequação das perspetivas de Tarde para o desenvolvimento de uma sociologia digital, invocando ainda a antropologia simétrica ao considerar que o “social está para além das relações humanas; está também nas máquinas, no trabalho das abelhas, nas formigas” (Pastor, 2019). Podemos encontrar a apropriação de mónadas digitais na análise de abordagens metodológicas em sites específicos de redes sociais (Olesen, 2017); Carlos Pernisa Júnior explorou a evolução do conceito de mónadas abertas, relacionando-o com o jornalismo web, comunicação e artes sob a influência da tecnologia (Júnior, 2013); Ou podemos até encontrar discussões sobre a natureza epistemológica dos dados digitais, propondo entender os dados como mónadas, através do argumento que os dados não são meramente factos brutos a serem coletados, mas sim constelações instáveis de componentes no processo de localização de dados (Madsen, 2017). Paralelamente, assumimos que mónadas digitais se estabelecem quando se identifica a produção das seguintes situações: uma perspetiva que possa ser descrita; um registo informático situável numa rede ou sistema envolvente. Examinemos cada aspeto. Uma perspetiva que possa ser descrita . Identificar uma “perspetiva” refere-se aqui a reconhecer um ponto de vista segundo as propostas de Latour e Viveiros de Castro. Isto significa que o ponto de vista assume o protagonismo simétrico dos não-humanos sob as lógicas do multinaturalismo. Por outras palavras, uma interação social online ou simples produção de conteúdo na internet que gerem narrativas estarão associadas a uma perspetiva, logo, poderão ser consideradas mónadas digitais. Com “que possa ser descrita” queremos dizer que a “perspetiva”, o “social” e o “objeto cultural” sejam traduzíveis pela linguagem humana. Se uma mónada está em relação com “o todo”, então é necessário o mínimo de objetividade em si para descrevê-la, ou seja, a locomoção digital precisa ser rastreável. Por “objetividade” aqui não estamos a caraterizar uma mónada por uma constituição interna estritamente objetiva, afinal ela está exposta à imitação e inovação (Tarde, 1895), porém precisamos ser capazes de identificar
92 as suas qualidades próprias, mesmo que essas qualidades sejam moldadas e influenciadas continuamente pelas relações e interações com outras mónadas. Dito de outra maneira, precisamos conseguir encontrar o rastro ou a relação com o “todo”. Eis uma lista, não extensiva, de exemplos comuns de mónadas digitais a partir da identificação de perspetivas: • Perfis de redes sociais: Cada perfil é uma mónada, com sua própria perspetiva e rede de conexões. • Comentários em conteúdos online: Cada comentário reflete uma perspetiva e está conectado a outros comentários e tópicos. • Contas de utilizador em plataformas de streaming: São mónadas com preferências e históricos de visualização únicos. • Avaliações de produtos em lojas online: Cada avaliação é uma perspetiva e parte de uma rede de avaliações. • Artigos em enciclopédias colaborativas: Cada artigo é uma mónada composta de contribuições múltiplas e interligadas. • Sistemas de recomendação automatizados: A sua perspetiva é definida pelo algoritmo que determina o que recomendar com base em padrões de dados. • Bots de redes sociais: A perspetiva aqui é o conjunto de regras ou algoritmos que guiam suas ações e interações. • Sensores IoT: Eles possuem uma perspetiva focada na recolha e interpretação específicas de dados, como ambientais ou de comportamento. • Softwares de análise de dados: A perspetiva é moldada pelo objetivo da análise de dados, como identificar tendências ou anomalias. Um registo informático situável numa rede ou sistema envolvente . Sempre que executamos ações num dispositivo estamos a criar um registo de atividade (um log). Esse registo informático de atividade revela a forma como escolhemos nos locomover digitalmente, produzindo dados que contêm perspetivas do utilizador e comportamentos dos algoritmos e sistemas envolventes. Tendo em conta que a agência (CAC) e produção de uma perspetiva também são criadas por essas redes de algoritmos, sistemas e serviços associados ao meio online, um log da atividade, seja qual for o seu formato, será o suficiente para que possamos transformar a locomoção digital em mónadas digitais apresentáveis. Eis uma lista, não extensiva, de registos (logs) de atividade comuns que nos permitiriam analisar mónadas digitais:
99 Nível 2 (N2) – Dados Integrados • Referente a todo e qualquer dado comprado ou adquirido, independentemente de ser coletado de forma pública ou privada. Pode-se tratar de bancos de dados comercialmente adquiridos, concedidos por terceiros/parcerias ou licenciados. Seja qual a forma de transação, dados integrados nunca são recolhidos ou processados pelos investigadores ou profissionais que os utilizam. • A proveniência original dos dados integrados (N2) também pode corresponder a qualquer tipo de dados netnográficos descritos por Kozinets (de investigação; interativos; imersivos), no entanto, os investigadores e profissionais apenas possuem total controlo de recolha e produção sobre os “imersivos”. Por exemplo, se um investigador ou profissional tiver acesso a um conjunto de dados municipais, provenientes de um órgão público, é ainda possível realizar tarefas como cruzamento de dados desse banco, gerando novos “dados” que não tinham sido previamente coletados. • Dados integrados são, por vezes, a única fonte de informação dos investigadores ou profissionais. Seja por estes não possuírem tempo ou conhecimento para os coletar, ou por não haver registo de outros dados sobre determinado tópico, dados integrados podem ser adquiridos e utilizados em vários contextos. Dependendo da qualidade dos dados, uma análise eficaz pode ou não ser exequível. O ponto forte destes datasets encontra-se na complementaridade de outras tarefas netnográficas ou análises de dados. Outro ponto forte destes datasets , quando adquiridos a empresas especializadas, é que são muitas vezes mais detalhados e precisos, úteis para análises específicas e tomadas de decisão direcionadas. • Dados integrados nunca irão representar o todo, mas poderão representar o “todo” existente sobre determinado objeto. Em todo o caso, frequentemente simbolizam mónadas digitais sobre as quais pode ser recomendada a consultada em parcialidade e complementaridade por não terem sido recolhidas por meios próprios. Na eventualidade de existirem informações pessoais, ou rastros que claramente levariam terceiros aos autores do conteúdo existente no dataset , cabe aos investigadores e profissionais que os adquiriram anonimizar os dados.
100 Nível 3 (N3) – Dados Privados • Referente a toda e a qualquer informação coletada ou exposta em espaços privados. Espaço privado na internet é estabelecido pelos próprios contextos legais, informacionais e tecnológicos, isto é, conteúdo presente em acesso reservado a um ou mais utilizadores, empresas, organizações, etc. Conteúdo conotado por “privado” não está necessariamente inacessível. Perfis, páginas, grupos, canais ou servidores privados em plataformas, sites ou redes sociais devem ser contemplados em análises netnográficas, desde que os detentores desses espaços privados o consintam. Neste caso, envolva ou não este processo recursos financeiros, os investigadores e profissionais devem seguir o passo-apasso descrito por Kozinets (2020) anteriormente mencionado. • Dados privados (N3) também podem corresponder a qualquer tipo de dados netnográficos descritos por Kozinets (de investigação; interativos; imersivos). Por exemplo, os investigadores e profissionais podem pedir acesso a um servidor de Discord privado para estudar atividade do mesmo, interagindo eventualmente com os membros da comunidade. • Para os investigadores e profissionais, não existe um valor intrínseco agregado em um dado ser caraterizado por “privado” além de, claro, a sua exclusividade. Note-se que, por privado queremos apenas dizer não-público, e não necessariamente comercialmente adquirido. Apesar de, ultimamente, servirem propósitos muito semelhantes aos dados públicos (N1), dados privados podem revelar o nível de aceitação de narrativas identificadas em espaços públicos ou serem necessários no caso de o objeto em causa só poder ser analisado a partir destes. Na ocasião de se tratarem de dados privados comercialmente adquiridos, é possível proceder a análises ainda mais eficazes em certos contextos por muitas vezes, de forma não ética, incluírem informações sensíveis e confidenciais, estarem especialmente estruturados ou já contemplarem pósprocessamentos valiosos dos mesmos. • Dados privados nunca irão representar o todo, mas poderão representar o “todo” existente sobre determinado objeto. Como os dados integrados, estes tipos de datasets exigem uma atenção alargada dos investigadores e profissionais quanto às questões éticas.
101 Nível 4 (N4) – Metadados • Referente a toda e qualquer informação intrínseca aos dados coletados (N1; N2; N3), incluindo aqueles gerados a partir e através dos próprios datasets (o que Kozinets chama de dados imersivos). Podem contemplar informações técnicas (formatos, tamanho do ficheiro, GPS, etc.), se configurar por categorizações e observações dos próprios investigadores e profissionais (etiquetas, descrições, entre outros), possuir utilidades administrativas (proveniência, preservação, direitos autorais, históricos de acesso, …) entre muitos outros. • As principais utilidades dos metadados para a netnografia são: o Facilitação da descoberta e acesso: Metadados descritivos, como título, autor, palavras-chave ou resumo, permitem que pesquisadores e profissionais encontrem rapidamente recursos relevantes em grandes bases de dados. Sem essas informações, a localização de dados pertinentes seria extremamente demorada e ineficiente. o Contextualização e interpretação: Metadados fornecem o contexto necessário para entender os dados. Por exemplo, metadados de proveniência e metodológicos explicam como os dados foram coletados, processados e interpretados, o que é crucial para avaliar a validade e a sua relevância para uma pesquisa específica. o Integração de dados: Na eventual necessidade, metadados estruturais facilitam a integração de dados de diferentes fontes. Em pesquisas que requerem a combinação de datasets variados, os metadados ajudam a mapear e harmonizar esses dados, garantindo assim uma “comunicação” para que eles sejam compatíveis e comparáveis. o Padrões de uso, gerenciamento e preservação de longo prazo: Metadados administrativos, como os de preservação, são vitais para garantir que estes permaneçam acessíveis e utilizáveis ao longo do tempo. Tendo em conta a contínua atualização de sistemas, metadados são essenciais para orientar estratégias de preservação digital e ajudar que os dados não se tornem obsoletos. Estes também permitem analisar como recursos são acedidos ou utilizados,
102 fornecendo insights valiosos para ajustar estratégias de coleção de dados e alocação de recursos. o Cumprimento de normas e leis: Também já brevemente mencionado, metadados de direitos autorais e de conformidade permitem que o uso de dados esteja em acordo com as leis e regulamentos aplicáveis. o Metadados representam dados sobre dados, logo, partes do “todo” existente sobre determinado objeto. Independentemente da natureza dos dados, a privacidade dos utilizadores deve ser sempre garantida pelo netnografo. Acima coloquei o contexto público e privado por termos simples, sendo que certos casos precisem de ser avaliados pelos investigadores e profissionais, uma vez que a sua separação nem sempre é clara, e tendo em conta que certas comunidades ou utilizadores podem possuir diferentes perceções do que é público ou privado (Herfurth & Bott, 2024). Mais adiante iremos produzir, à semelhança de Kozinets (2010; 2020), um passo-a-passo para a produção de um NetnoRetrato, ao integrar as suas contribuições com dinâmicas provenientes da minha experiência profissional no nosso enquadramento teórico e metodológico. 3.2. Big Data: um referencial aumentado Big Data refere-se a conjuntos de dados extremamente grandes e complexos que são difíceis de processar pelo uso de métodos tradicionais de processamento de dados. Captar e estruturar grandes quantidades de dados na internet não se configura como uma tarefa razoável para um humano, ou mesmo para um grupo. Assim, são utilizadas aplicações e sistemas algorítmicos para desempenhar a coleta, organização e arquivo de dados. Note-se que Big Data não precisa ser estritamente referente a dados da internet. Embora seja comum citar exemplos de fontes online, como redes sociais, transações de comércio eletrónico ou interações digitais, a definição de Big Data é muito mais ampla e abrange qualquer grande conjunto de dados, independentemente de sua origem. Poderíamos encontrar exemplos deste tipo de Big Data a partir da leitura de sensores, registos de transações comerciais de uma rede de hipermercados, bancos de dados governamentais, em pesquisas e estudos científicos, entre muitos outros. Além da capacidade de processamento das máquinas, outra vantagem de organizar o Big Data reside na possibilidade de estabelecer padrões e relacionamentos entre partes do conteúdo, afinal, “Big Data está fundamentalmente interconectada” (Boyd & Crawford, 2011, p. 2). Assim, e não esquecendo da lógica Latouriana da ANT, informações valiosas sobre “um indivíduo, sobre indivíduos em relação
103 a outros, sobre grupos de pessoas, ou simplesmente sobre a estrutura da própria informação” (2011, p. 2) podem ser encontradas nessas conexões de dados. Os estudos sociais tendem a fazer uso dos chamados "dados sociais", os quais costumam provir de redes sociais online. A análise de Big Data é habitualmente caraterizada pelos seus “Vs”. Ao longo do tempo o número de Vs escolhidos tende a variar (entre três e dez). Eis o que consideramos mais relevante ressaltar sobre cada um: 1. Volume: Refere-se à já mencionada grande quantidade de dados gerados, incluindo dados de redes sociais, transações online, sensores, registos de transações, etc. 2. Velocidade: Refere-se à rapidez com que os dados são gerados, processados e analisados. Pode tratar-se de um ponto crucial em casos que requeiram análise de dados em tempo real ou em contextos em que se precise de um output num curto espaço de tempo. 3. Variedade: Refere-se à diversidade dos tipos de dados, que podem ser estruturados, não estruturados ou semi-estruturados. Tipos de dados comuns estão em formato de texto, imagens, vídeos, registos de banco de dados, etc. 4. Veracidade: Refere-se à qualidade e à precisão do que é gerado. No entanto, dados não confiáveis, ou erros no seu processamento, podem levar a análises imprecisas. 5. Valor: Refere-se à utilidade do que é gerado e à capacidade de serem traduzidos ou transformados em valiosas descobertas. O termo “valor” costuma ter uma conotação algo comercial, sendo que no contexto académico seria, talvez, mais apropriado nos referirmos à “utilidade” ou “aplicabilidade” dos dados. 6. Variabilidade: Refere-se à consistência e o formato dos dados podem variar muito, o que afeta como eles são analisados e gerenciados. Enquanto a "Variedade" se concentra na diversidade de tipos de dados, a "Variabilidade" lida com a natureza dinâmica e a inconsistência dos dados ao longo do tempo. Se um site de rede social alterar o seu código, por exemplo, isso pode influenciar os processos responsáveis pela coleta e organização dos dados. 7. Visibilidade: Refere-se à capacidade de se ter uma visão clara e compreensível dos dados dentro de um projeto. Esta visão permite que projetos, empresariais ou académicos, entendam melhor os dados que possuem, como estes são interconectados e como eles podem ser efetivamente utilizados para tomar decisões informadas. A ideia de visibilidade não recai apenas sobre ter acesso aos dados, mas também sobre compreender o contexto, as relações e o impacto dos mesmos.
104 8. Validade: Refere-se à relevância e exatidão, isto é, o quanto os dados são apropriados para o contexto em que são usados. 9. Volatilidade: Refere-se ao tempo útil de utilizado dos dados, ou seja, a perceção de quando eles se tornam obsoletos. Isso é especialmente importante em setores que mudam rapidamente, um cenário habitualmente mais comercial. Do ponto de vista académico, e tendo em conta que os rastros digitais produzem uma espécie de memória virtual, esta caraterística não se faz notar tanto quanto no uso empresarial. 10. Vulnerabilidade: Refere-se à segurança e privacidade dos dados. Com a crescente preocupação sobre as questões éticas e a quantidade de dados sensíveis que podem ser coletados, assim como os meios utilizados, este V centra-se na ideia de proteção contra violações e uso indevido dos dados. Abaixo exemplificamos um processo básico de refinamento de informação (Gogołek, 2017) a partir dos dados coletatos, os quais podem incluir fontes offline: Uma das formas mais comuns de coleta de dados de Big Data é aquela realizada através da comunicação de um algoritmo com as APIs. Muito resumidamente, uma API é uma aplicação que possibilita a interação entre outras aplicações, juntamente com os seus algoritmos, e os bancos de dados de sites e plataformas. No caso de sites de redes sociais, por exemplo, o que comentamos ou “gostamos”, quanto tempo levamos para ler um texto ou assistir um vídeo, podem revelar informações essenciais para a compreensão de determinados fenómenos online. Embora diferentes objetivos ou dados de pesquisa exijam abordagens metodológicas distintas, as APIs das redes sociais são valiosas por sua “sociomaterialidade”, isto é, “as APIs são entendidas como Figura 4: Processo básico de RI. Fonte: (Gogołek, 2019)
105 arranjos históricos contingentes de componentes sociais e materiais que se fundem para produzir novas realidades" (Bucher, 2013, p. 4). Não exclusivamente, as APIs abrangem uma fisicalidade em termos da paisagem corpórea da infraestrutura e da tecnologia, passando pelas lógicas económicas em ação (ou seja, modelos empresariais, propriedade, licenciamento das API), funções e serviços (ou seja, acesso aos dados), práticas dos utilizadores (ou seja, formas de trabalho, jogo e colaboração), formações discursivas (ou seja, declarações, conhecimentos, ideias), regras e normas (ou seja, princípios de conceção, condições de serviço, normas técnicas), bem como imaginários e desejos sociais. (Bucher, 2013, p. 5) Ao que Bucher descreve podemos adicionar as representações culturais e políticas que circundam e influenciam o seu uso e desenvolvimento. Assim, as APIs não são apenas ferramentas técnicas; elas são também artefactos culturais que refletem e moldam as normas sociais, políticas e económicas da sociedade. Por exemplo, a maneira como uma API de rede social é projetada pode influenciar os padrões de interação entre os utilizadores e como as informações são partilhadas e consumidas. Além disso, APIs desempenham um papel crucial na governança dos dados, pois são elas que(m) definem os limites do que pode ser acedido, e de que maneiras. Tal ponto levanta questões importantes sobre privacidade, segurança e propriedade dos dados. Quem tem o direito de aceder a certos tipos de dados? Deveria haver exceções legalmente determinadas para pesquisadores? Quais são as implicações éticas da coleta e uso desses dados? Estas continuam a ser questões fundamentais na era do Big Data. Em conclusão, as APIs representam uma ponte essencial entre diferentes sistemas e atores, desempenhando um papel vital na forma como a informação é gerada, compartilhada e utilizada na nossa sociedade digital. Elas são tanto agentes não-humanos quanto uma manifestação da tecnologia, ou quanto um reflexo dos valores, políticas e estruturas sociais que as cercam, o que pode fornecer insights não apenas sobre a tecnologia em si, mas também sobre a sociedade em que estamos inseridos. Em um de seus trabalhos, Boyd e Crawford (2011) discutiram criticamente o impacto do Big Data na pesquisa e na sociedade, ao submeter o método a um conjunto de reflexões ligadas à formação de conhecimento e relações de poder na era digital. As autoras fazem “seis provocações” sobre Big Data. Colocamos as nossas precauções e procedimentos em sequência: Provocação 1 - Automatização da pesquisa altera a definição de conhecimento: Boyd e Crawford (2011) sugerem que a automatização das pesquisas com Big Data enfatiza padrões e correlações
106 em larga escala, muitas vezes à custa da compreensão contextual e profunda. Tal alteraria a natureza da pesquisa científica, desviando o foco da busca por causas e compreensão profunda para a identificação de padrões em grandes conjuntos de dados. Esse movimento pode levar a uma nova definição de conhecimento, onde a quantidade e a velocidade da informação são mais valorizadas do que a profundidade e a qualidade da análise. Procedimento - Nunca procurar o “todo”; nunca excluir o humano do processo: Como já vimos, criar um NetnoRetrato requer identificar os atores-rede e identificar mónadas digitais, e nunca o “todo”. Assim, o uso de Big Data assume uma participação colaborativa, ao usarmos a capacidade de analisar grandes conjuntos de dados, e não uma participação protagonista, onde se considera o ponto de partida da pesquisa. Ao conjugar a análise com métodos netnográficos, o fator humano está inserido em toda a equação. Envolver, de certo modo, o ponto de vista dos pesquisadores e profissionais nos algoritmos também altera o foco da grande quantidade de dados para o contexto do projeto. Isto é conseguido através de etapas entre o computador e o humano, onde, por exemplo, o segundo pode programar o processo de coleta de dados de forma complexa ao levar em conta várias exceções de termos e os seus contextos, fazer revisões periódicas de amostras de dados para “ensinar” a máquina, entre outros procedimentos possíveis. Cada projeto e tecnologia possibilitará um determinado número de procedimentos. Provocação 2 - Reivindicações de objetividade e precisão são enganosas: Este ponto (2011, pp. 4–6) critica a noção de que o Big Data é inerentemente objetivo e preciso. As autoras argumentam que os dados são sempre coletados, interpretados e utilizados por indivíduos ou instituições com seus próprios vieses e agendas. Isso significa que, apesar do volume massivo de dados, ainda existe uma necessidade crítica de interpretação cuidadosa e consideração dos vieses inerentes. Portanto, a objetividade pura é mais uma aspiração do que uma realidade no contexto do Big Data. Procedimento – Nunca declarar objetividade pura; sempre priorizar perspetivas; sempre priorizar transparência: É importante relembrar que, no caso dos NetnotRetratos, e como advogamos no uso de análise de Big Data e em outras etapas da produção científica, não existe neutralidade ou objetividade pura. Quando partimos da premissa de que todo o conhecimento é situado, devemos ser honestos quanto à nossa posição enquanto pesquisadores ou profissionais. Delinear os nossos panos de fundo, inclinações teóricas e metodológicas, experiência prévia são alguns dos cuidados a implementar. Por outro lado, priorizar a identificação e análise de perspetivas nas dinâmicas das mónadas digitais/ANT/Perspetivismo assume que o investigador ou profissional nunca ansiou
107 evidenciar a “objetividade” de que as autoras falam. Estas provocações fazem especial sentido no contexto empresarial, onde produtos precisam de ser vendidos como “infalíveis”, mas também são pertinentes nos campos científicos, onde pesquisadores precisam convencer seus pares de que seu método é alimentado por dados “factualmente incontestáveis”. Pesquisadores e profissionais devem estar abertos à contestação, a construir conhecimento em conjunto e parceria, e a considerar elementos como o Big Data enquanto ferramentas para análise e não resultados por si só. Provocação 3 - Dados maiores nem sempre são melhores dados: Boyd e Crawford (2011, pp. 68) alertam contra a suposição de que maiores quantidades de dados automaticamente resultam em melhores insights ou conclusões mais precisas. Elas argumentam que conjuntos de dados grandes podem esconder nuances importantes e falhar em capturar a complexidade dos fenómenos sociais. Além disso, a ênfase em dados quantitativos pode levar à desvalorização de dados qualitativos, que são cruciais para a compreensão completa de muitos problemas. Procedimento – Sempre avaliar a “Validade” dos dados; utilizar outros métodos de análise complementares sempre que possível: Avaliar o contexto em que os dados podem ser aplicados é uma preocupação contemplada em um dos Vs caraterizadores do Big Data – Validade. Pesquisadores e profissionais não devem, assim, ignorar etapas de avaliação a adequação dos dados aos projetos a que se propõe. Existe ainda uma vertente conhecida como Small Data, recorte de dados que pode provir do próprio Big Data, que surge como contraponto ao excesso de extração de dados e advoga o uso de datasets menores de qualidade (Faraway & Augustin, 2018). Defendemos ainda a utilização de métodos alternativos ou complementares de análise de dados, sendo que um NetnoRetrato sempre procura essa simbiose. Provocação 4 - Nem todos os dados são equivalentes: Este ponto (2011, pp. 8-10) destaca que diferentes tipos de dados têm diferentes níveis de relevância e utilidade. As autoras enfatizam a importância de entender as caraterísticas específicas de cada conjunto de dados, incluindo seu contexto, forma de coleta e limitações potenciais. Isso significa que os pesquisadores e analistas devem ser cautelosos ao comparar ou combinar diferentes tipos de dados, pois isso pode levar a interpretações enganosas ou incompletas. Procedimento – Sempre avaliar a “Validade” dos dados: Assim como no ponto anterior, se os pesquisadores e profissionais avaliarem os dados que possuem, saberão de suas limitações e aplicabilidades contextuais. Não se devem equiparar qualquer tipo de dados, por vezes, até pelos
108 contextos das próprias fontes. Isto é, como se equivalem comportamentos dos utilizadores no Twitter (X) e no Facebook se, no primeiro, os utilizadores tendem a publicar conteúdo mais frequente e breve, muitas vezes focado em tópicos atuais e discussões públicas? E, no segundo, o conteúdo pode ser mais pessoal e menos frequente, com foco em atualizações de vida e interações com um círculo mais próximo de amigos e familiares? Uma robusta fase de categorização de dados, por exemplo, ajudaria a desambiguar tipos de publicações para que, durante a análise, fossem equivalentes, ou pelo menos, complementares, e não levassem a interpretações erróneas sobre o comportamento online dos utilizadores. Provocação 5 - Só porque é acessível não torna ético: Boyd e Crawford (2011, pp. 10-12) discutem as complexidades éticas do uso de Big Data, particularmente em relação à privacidade e ao consentimento. Elas argumentam que, só porque os dados estão disponíveis publicamente ou podem ser facilmente acedidos, isso não os torna eticamente neutros para uso em pesquisas. Questões de privacidade, consentimento e potencial dano aos indivíduos representados nos dados devem ser consideradas cuidadosamente. Procedimento – Sempre que razoável e possível obter consentimento sobre os dados; sempre considerar formas de despiste de rastros digitais; nunca coletar o desnecessário: Obter consentimento para utilização dos dados, além de tal estar em conformidade legal, é uma das formas mais éticas de obtenção dos mesmos. Coletar de fontes públicas pode configurar-se numa forma mais conservadora e justa de obtenção de dados, porém, os investigadores e profissionais devem considerar os eixos sobre os quais o conteúdo assenta, querendo isto dizer que certos dados podem conter informações sensíveis ou não devam ser explorados mesmo sendo públicos. Embora anonimizar os atores seja um passo importante, é também relevante lembrar que, em determinados casos, seja preferível parafrasear conteúdo. Especialmente se em causa estiver a análise de temas delicados ou a exposição de posicionamentos pessoais comprometedores. Parafrasear conteúdo, desta ou qualquer natureza, é uma das formas de despistar a possível identificação e localização dos atores envolvidos. Além disso, é importante coletar apenas o necessário para a análise e implementar medidas de segurança sobre os dados. Provocação 6 - Acesso limitado ao Big Data cria novos hiatos digitais: Este ponto (2011, pp. 1213) aborda como o acesso restrito ao Big Data pode perpetuar desigualdades existentes. As autoras observam que, frequentemente, somente instituições poderosas ou indivíduos com recursos significativos têm acesso a grandes conjuntos de dados e às ferramentas necessárias
115 3.4. NetnoRetrato – Intraobjetivo da coleta ao resultado Sim, intraobjetivo trata-se de um termo contraintuitivo. Como pode partir a objetividade do subjetivo? Um NetnoRetrato não é apenas um neologismo para uma personalização de um pacote teórico e metodológico para analisar conteúdo online, mas sim uma avaliação ampla do particular e da perspetiva. Desde a natureza do conteúdo online que analisamos à produção de um NetnoRetrato, caminhamos por várias etapas onde a parcialidade e condicionamento, seja dos dados ou da produção de conhecimento, nunca nos abandonam. Dizer que procuramos objetividade no subjetivo seria paradoxal, o que também se aplica se afirmarmos que analisamos o parcial ou as perspetivas de forma holística. Assim, para realizar uma avaliação que leve em conta os fenómenos que condicionam a produção e análise do conteúdo online, é necessário dialogar entre o objetivo e subjetivo ao longo do processo, diálogo esse que parte sempre da perspetiva do investigador ou profissional. Portanto, dizer que um NetnoRetrato é intraobjetivo significa que o investigador ou profissional olha criticamente para o método utilizado enquanto não esquece dos contextos condicionados e parciais da produção e análise dos dados online nos diferentes estágios do processo (leitura, coleta e análise). Desta forma, não nos colocamos em busca de uma suposta objetividade pura, nem abraçamos a subjetividade. A seguir mostramos como um NetnoRetrato pode ser intraobjetivo ao levar em conta três pilares centrais, ao que chamamos de “condições”, referentes aos condicionamentos e parcialidades adjacentes à sua elaboração. O primeiro centra-se na ideia de que o conteúdo produzido online está sujeito à plataformização, fenómeno que precisa ser considerado tanto na fase de leitura netnográfica quanto na coleta automatizada de dados. O segundo pilar refere-se à parcialidade dos códigos algorítmicos, tanto nos ambientes online em que os utilizadores transitam, quanto nas ferramentas digitais utilizadas para capturar e analisar os dados. Por fim, o terceiro pilar dedica-se à busca pela honestidade da produção científica ao assumir que todo o conhecimento é situado. Estes pilares serão explicados a seguir, porém, eis alguns exemplos de tensões objetivas e subjetivas que a análise intraobjetiva em um NetnoRetrato levaria em conta: • Influência na criação de conteúdo pelo utilizador: Um influenciador de viagens frequentemente publica fotos e histórias no Instagram. Ele percebe que as suas publicações recebem mais engajamento quando inclui certos tipos de hashtags ou posta durante horários específicos do dia. Isto leva-o a ajustar o seu conteúdo e o
116 horário dos seus posts para se alinhar com esses padrões, influenciando a maneira como ele expressa as suas experiências de viagem. • Viés na coleta de dados: Uma pesquisadora usa um software de análise de médias sociais para estudar opiniões sobre mudanças climáticas. Ela seleciona palavraschave específicas para coletar dados, mas não percebe que a ferramenta prioriza automaticamente publicações com mais interações. Isso resulta em um conjunto de dados que se inclina mais para posts populares e possivelmente polarizados, ao invés de um espectro mais amplo de opiniões. • Subjetividade na análise de dados: Um analista de dados trabalha em um projeto para entender padrões de compras online. Ao analisar os dados, ele se concentra em certas categorias de produtos que acredita serem mais relevantes para o comportamento do consumidor, com base em suas experiências e conhecimento prévio. Esta escolha influencia a interpretação dos resultados, potencialmente negligenciando padrões significativos em outras categorias de produtos. Procurar a intraobjetividade num NetnoRetrato é, então, uma antítese do que conferimos anteriormente (Boyd & Crawford, 2011), ou seja, perseguir a habitual reivindicação da objetividade das análises de dados digitais. A prioridade torna-se o ter em atenção a complexidade das nuances envolvidas nestas tarefas. Realizar uma análise intraobjetiva é aspirar à objetividade na medida em que enfatizamos e reconhecemos a sua inatingibilidade fundamental devido às influências subjacentes. A criação do termo parte da inexistência de um que descreva esta interseção, mas também enquanto incentivo para abordar a análise de dados digitais mais criticamente. Além disso, ele alinha com o quadro teórico geral do NetnoRetrato, isto é, tanto com o nosso enquadramento teórico anterior (perspetivismo, ator-rede e mónadas), por focar no particular, quanto com as nossas preocupações dos pontos que aqui se seguem (plataformização, parcialidade do código e conhecimento situado). Ainda sobre a necessidade do termo surgem dois pontos a clarificar. Primeiro, “intraobjetivo” pode ser criticado por possuir ambiguidade em misturar conceitos de objetivo e subjetivo de forma problemática, porém, tal é intencional por refletir a realidade multiforme da análise de dados online, onde a objetividade pura é inalcançável e a simples subjetividade não produziria ciência. Adicionalmente, da mesma forma que defendemos que o termo CMC já não representa a complexidade da comunicação e interação pela internet,
117 esta terminologia herda uma complexidade inerente à análise que empregamos. O que nos leva ao segundo ponto. Porque não enquadrar as caraterísticas desta análise no espectro de outros conceitos? Intersubjetividade, fenomenologia ou construtivismo, por exemplo? Estas são algumas das abordagens com as quais vejo similaridades superficiais com a intraobjetividade utilizada no NetnoRetrato, porém, nenhuma é sinónima devido ao que é a aplicação de uma análise intraobjetiva. Enquanto a intersubjetividade lida com a sobreposição de experiências subjetivas entre múltiplos indivíduos para formar um entendimento comum, intraobjetividade foca na tensão entre a aspiração à objetividade e as influências subjetivas inerentes dentro de um único processo de análise de dados. Enquanto a fenomenologia se concentra na experiência subjetiva do indivíduo como ponto de partida para entender a realidade, a intraobjetividade aborda a análise de dados digitais onde a subjetividade e a objetividade são entrelaçadas de uma forma que vai além da experiência individual pura, o que enfatiza a natureza complexa e condicionada da informação e conhecimento derivados desses dados. Já quanto ao construtivismo, este foca-se mais em como o conhecimento é construído social e culturalmente, enquanto a intraobjetividade é específico para a análise de dados digitais, incluindo o design de plataformas, algoritmos, e a própria natureza da interação digital, o que captura a singularidade do ambiente digital e a relação complexa entre dados, interpretação e realidade. De um modo geral, intraobjetividade não é sequer uma abordagem alternativa às citadas, mas sim uma solução consciencializadora para os pesquisadores e profissionais que procurem realizar uma análise de dados que comporta as presentes tensões entre objetividade e subjetividade. Eis como situaríamos, hipoteticamente, este tipo de análise em relação a outras abordagens, quanto ao seu posicionamento no espectro objetividade/subjetividade e maior ou menor reflexão crítica perante si própria:
118 3.4.1. Condição 1: plataformização As plataformas digitais possuem várias premissas, o que acaba por influenciar o tipo de utilizador que nelas navegam. Se tudo o que o utilizador pretende é publicar vídeos sobre a indústria musical, por exemplo, porque optar pelo YouTube e não por um simples site ou blogue dedicado ao tema? As razões podem ser múltiplas e os leitores já devem ter pensado em algumas no decorrer desta frase. Ao mesmo tempo que os leitores ou o utilizador fazem uma revisão sobre as vantagens e desvantagens de suas escolhas, as plataformas digitais criam culturas em torno de si mesmas, as quais estipulam público-alvo da plataforma, monetização envolvida, tipo de conteúdo com mais probabilidade de ser impulsionado, entre muitos outros fatores que impactam a experiência dos utilizadores e a perceção da própria plataforma na internet. Plataformas nunca são “construções neutrais nem sem valor” (Van Dijck et al., 2018, p. 3). Van Dijck et al. (2018) defendem o uso do termo “sociedade de plataforma” para denotar a relação entre plataformas e estruturas sociais, visto que as primeiras por si só não “causam uma revolução” (p. 2). Isto sugere que certas mundividências e práticas implementadas pelas plataformas apenas emulam o que já acontece no mundo offline. Segundos os autores, serviços e atividades fornecidas pela sociedade de plataforma escondem mecanismos em si presentes que Figura 7: Intraobjetividade situada no espectro.
119 vão além da tarefa de facilitar ou providenciar algo para os seus utilizadores. Supostamente aceitamos os termos e condições aliados a um determinado ecossistema na sociedade da plataforma, mas a falta de transparência e controlo sobre os nossos dados, assim como questões éticas e morais inerentes, precisam de ser melhor discutidas. A forma como as plataformas monetizam e rentabilizam financeiramente os seus serviços e produtos está, em grande parte, atrás de uma cortina algorítmica. Mesmo quando plataformas digitais são escrutinadas publicamente, como aconteceu no escândalo envolvendo o Facebook e a Cambridge Analytica em 2010, a primeira conseguiu esgueirar-se de várias situações em que nos elucidaria quanto ao funcionamento dos seus algoritmos. Os segredos tecnológicos bem guardados permitem, à partida, a irreprodutibilidade de determinados serviços, mecanismos ou funções dentro das plataformas digitais, mas também o acúmulo de capital e a criação de monopólios digitais. Se, por exemplo, o Google Scholar 13 e o motor de busca da Google estão conectados (Van Dijck et al., 2018, p. 17), investigadores que abdicarem de publicar os seus trabalhos no primeiro reduziram as suas chances de serem encontrados no maior motor de busca na internet. Seja por desdobramentos dentro dos ambientes já estabelecidos pelas plataformas (e.g. Google criar o Google Scholar), pela colaboração com outras (e.g. Easyjet com o Booking.com ou Europcar), ou até pela aquisição (e.g. Amazon compra Twitch), corporações de significativo porte tendem a controlar as várias esferas da sociedade da plataforma, do entretenimento à informação, do comércio à educação, etc. 13 O Google Scholar é um mecanismo de busca gratuito que indexa literatura acadêmica e científica de diversas disciplinas e fontes online.
120 A imagem acima mostra um cenário onde, em 2018, diferentes setores eram dominados por cinco grandes empresas: Alphabet Inc (Google), Facebook (hoje conhecida também por Meta), Apple, Microsoft e Amazon. As chamadas Big Five possuem ainda agência em outros setores, como na comunicação, entretenimento e lazer, o que inclui sites de redes sociais. Estes ecossistemas digitais dos Big Five, os quais também possuem componentes físicos (ou softwares aliados a hardware), tornaram-se em produtos e serviços base nas suas respetivas indústrias. Esta tese foi redigida num computador com o sistema operativo Windows (Microsoft), onde utilizei o Gmail (Google) e o Whatsapp (Meta) para comunicar eletronicamente com os meus orientadores, embora tenha utilizado um Kindle (Amazon) para ler o e-book sobre a sociedade de plataforma. Independentemente da titularidade de posse de cada plataforma, a maioria de nós participa, em algum grau, dos ecossistemas digitais destas e doutras empresas, os quais se alteram constantemente. Van Dijck et al. (2018) denominaram estas dinâmicas de plataformização. Por exemplo, o TikTok da chinesa ByteDance transformou-se num fenómeno global e, em janeiro de 2023, possuía mais de 1 bilhão de utilizadores mensais ativos (Figliola, Figura 8: Plataformas setoriais pertencentes ao Big Five. Fonte: van der Vlist (2018).
121 2023), tornando-se um espaço de produção e consumo de informação e entretenimento com um formato de vídeo tipicamente mais curto e assente na participação de tendências. Ao analisar uma mudança paradigmática importante como a plataformização da sociedade, é inevitável reconhecer a pluralidade de valores, as suas lógicas de justificação, bem como as diversas conceções de bem comum associadas a essas lógicas. Para tal análise, é necessário compreender as infraestruturas de plataforma, os modelos económicos e os discursos como performativos. (Van Dijck et al., 2018, p. 24) Além disso, a datificação, isto é, a transformação de nossas ações e hábitos em dados, providenciam às plataformas o “potencial para desenvolver técnicas de predição e análise em tempo real” (p. 33). As implicações da plataformização até aqui mencionadas denotam um processo em que as plataformas online se tornam infraestruturas dominantes na sociedade e economia, influenciando como as pessoas interagem, fazem negócios e se envolvem socialmente. Estas dinâmicas relacionam-se com a análise intraobjetiva do NetnoRetrato por ela reconhecer que as plataformas não são apenas ferramentas neutras, mas sim estruturas poderosas que moldam interações sociais e económicas. Seria impossível delinear um detalhado passo-a-passo metodológico nestes quesitos que relacionam a intraobjetividade do NetnoRetrato e a plataformização, pois cada espaço digital oferece os seus desafios específicos, os quais se alteram constantemente como parte intrínseca da própria plataformização. Consideramos, no entanto, necessário fazer uma reflexão em seis setores resultantes da plataformização, tópicos estes interconectados, os quais devem estar presentes na análise intraobjetiva do NetnoRetrato. Neste primeiro caso sobre o domínio das infraestruturas sociais e económicas, propomos dois simples exercícios. Primeiramente, é preciso mapear a infraestrutura através de uma identificação de quais plataformas são dominantes no contexto do estudo pretendido, e como sua infraestrutura afeta os dados disponíveis. Em sequência, deve-se analisar o acesso ao conteúdo , pois assim é possível entender como o domínio das plataformas sobre a distribuição de conteúdo pode influenciar quais dados são acessíveis para análise. Estes dois passos permitem que os investigadores ou profissionais avaliem criticamente como as infraestruturas das plataformas influenciam os dados coletados, considerando aspetos como acesso, visibilidade e distribuição de conteúdo. A segunda consequência da plataformização a levar em conta centra-se na sua intermediação da comunicação do conteúdo. A diversificação do conteúdo também se torna uma
122 questão neste ponto. Chen et al. (2023) alertam para o papel das redes sociais, especificamente o YouTube, na diversificação da comunicação científica e em que medida elas promovem uma variedade de perspetivas e vozes. Apesar da esperança de que as redes sociais democratizassem a produção de conhecimento, o seu estudo revela um padrão de "inclusão segregada". Este termo descreve um cenário onde, apesar da presença de diversos produtores de conteúdo em termos de idade, género, idioma, etc., ou tipo de conteúdo (diversidade de perfil), um pequeno grupo de "super conectores" predominantemente ligados a canais dos média tradicionais domina a conversa (diversidade de rede). Este padrão, aplicado aqui ao Youtube, espelha as desigualdades sociais e desafia a noção de que as plataformas digitais democratizam inerentemente a produção de conhecimento. Já Tarleton Gillespie (2010), no seu artigo “As políticas das plataformas” aprofunda-se na complexidade das plataformas digitais ao destacar como estas negociam o seu papel como facilitadoras de conteúdo, enquanto simultaneamente gerenciam questões de governança, moderação de conteúdo e relações comerciais. O autor examina as tensões entre a apresentação das plataformas enquanto espaços abertos e democráticos para a expressão e a realidade de suas práticas operacionais, que incluem escolhas editoriais e políticas de moderação que moldam o discurso público. Gillespie acaba por criticar a postura destas plataformas quanto à reivindicação de neutralidade, enquanto exercem um controle significativo sobre o que é visto e partilhado, levantando questões importantes sobre transparência, responsabilidade e o papel dessas empresas no ecossistema da informação digital. De certa forma, se os investigadores ou profissionais reconhecerem a nossa sugestão de emprego do termo CAC, em vez de CMC, estes já estarão levando em conta a influência da plataformização na intermediação da comunicação de conteúdo. Adicionalmente, devem-se seguir dois raciocínios na análise intraobjetiva do NetnoRetrato. Em primeiro está a tarefa de identificar as políticas e algoritmos , isto é, pesquisar e documentar as políticas específicas das plataformas e os algoritmos que podem influenciar a comunicação e o conteúdo. Desde a análise dos dados coletados por quem está a realizar a pesquisa, ao recurso de consulta bibliográfica, será possível visualizar, pelo menos, alguns padrões de como as plataformas em causa tendem a intermediar a comunicação de seu conteúdo. O segundo passo recai em avaliar o impacto nos dados , ou seja, considerar como essas políticas e algoritmos previamente identificadas podem distorcer ou filtrar os dados coletados. Consideramos que a terceira esfera de discussão sobre as consequências da plataformização se estendem sobre a personalização dos algoritmos. Bucher (2012) destaca a importância dos algoritmos na personalização do conteúdo que os utilizadores recebem pelas
123 plataformas como o Facebook, afetando a visibilidade e a natureza da interação social. A autora sugere que “existe uma discrepância entre o que os utilizadores pensam que devem ver e o que o Facebook pensa que os utilizadores devem ver” (2012, p. 1169), ao se referir ao conteúdo exibido no News Feed 14 . A personalização deste conteúdo, que pode ser patrocinado, pode também afetar os comportamentos dos utilizadores online pela “ameaça” destes se tornarem invisíveis: No Facebook não há tanto uma "ameaça de visibilidade" como uma "ameaça de invisibilidade" que parece reger as ações dos seus sujeitos. O problema, ao que parece, não é a possibilidade de ser constantemente observado, mas a possibilidade de desaparecer constantemente, de não ser considerado suficientemente importante. Para aparecer, para se tornar visível, é preciso seguir uma certa lógica de plataforma incorporada na arquitetura do Facebook. (Bucher, 2012, p. 1171) Se por um lado os algoritmos personalizam o que vemos, e por outro influenciam o que publicamos, é criado aqui um ciclo estrutural retroalimentado. Realizar uma análise intraobjetiva a partir de NetnoRetratos colabora assim para uma investigação que além de ter “em conta as mudanças nas práticas editoriais dos media, cada vez mais delegadas aos algoritmos”, também se preocupa com as “mudanças nos pressupostos culturais sobre a natureza das redes sociais que estão a ser incorporadas nas arquiteturas algorítmicas” (p. 1178). A nossa recomendação incide em a) desconstruir algoritmos ao tentar entender a lógica por trás dos algoritmos de personalização e como eles moldam a experiência do utilizador, seja através da netnografia, análise de dados ou até pesquisas já realizadas, e b) testar diferentes perspetivas ao usar múltiplas contas ou perfis para explorar como a personalização pode variar e afetar a coleta de dados. Atualmente já é inclusive possível simular que nos encontramos noutras localizações geográficas com o uso de VPNs 15 . Desta forma podemos investigar as implicações dos algoritmos na coleta e análise de dados, especialmente em como eles podem criar bolhas de informação ou distorcer a representatividade dos dados. 14 Mural onde utilizadores recebem as atualizações e conteúdo, tanto por parte da sua rede de amigos quanto outros conteúdos promovidos e sugeridos pelo algoritmo. O nome deste mural de atualizações foi alterado para apenas “Feed” em 2022 (Clark, 2022). 15 Uma VPN (Virtual Private Network) é uma tecnologia que cria uma conexão, à partida segura e criptografada, sobre uma rede menos segura, como a internet, permitindo privacidade e acesso seguro a recursos de rede remotos. A tecnologia permite mascarar a localização real do utilizador, sendo comum o seu uso para contornar restrições geográficas em conteúdos online, aceder a serviços bloqueados em certos países ou simplesmente para aumentar a privacidade ao ocultar o endereço IP.
124 A nossa quarta preocupação sobre os efeitos da plataformização reflete-se na economia de dados e monetização. Srnicek (2017) discutiu, em Platform Capitalism , como as plataformas digitais se baseiam em uma economia de dados, ao coletar e monetizar informações de utilizadores. Mais do que falarmos das estruturas económicas de uma forma macro, como mencionado na primeira consequência da plataformização que listamos, Srnicek (2017) define o capitalismo de plataforma como um modelo económico que depende da criação de plataformas digitais, as quais facilitam as interações e transações entre utilizadores, empresas e recursos. Isto implica que, além das questões envolvidas com a privacidade dos utilizadores, existem dinâmicas próprias de mercado que também afetam outras áreas como, por exemplo, a pesquisa académica. O Twiter (agora X) foi, em tempos, uma das plataformas utilizadas para estudar as reações dos utilizadores sobre vários assuntos e eventos, dada a sua natureza e cultura de publicações curtas. Elon Musk encerrou no primeiro trimestre de 2023 o acesso gratuito à API, impactando inúmeras pesquisas, como a nossa, e colocou o seu acesso pago direcionado para empresas, ignorando a academia, atrás de valores impraticáveis para a maioria dos pesquisadores (Calma, 2023). O encerramento iminente é um golpe pessoal para o cocriador do Botometer, Kai-Cheng Yang, um investigador que estuda a desinformação e os bots nas redes sociais e que obteve recentemente o seu doutoramento em informática na Universidade de Indiana, em Bloomington. "Todo o meu doutoramento, toda a minha carreira, baseia-se praticamente em dados do Twitter neste momento. É provável que não esteja mais disponível no futuro", diz Yang ao The Verge. (Calma, 2023) A análise intraobjetiva relaciona-se com estas consequências da plataformização ao reconhecer questões éticas em causa e o impacto económico das plataformas na disponibilidade e tipo de dados. Precisamos assim de analisar as fontes de dados no que diz respeito à examinação das motivações económicas por trás dos dados disponibilizados pelas plataformas. Esta análise pode levar os pesquisadores ou profissionais a considerar outros meios de extração de dados e, claro, servir de lembrete de que não devemos assumir que o acesso aos dados não acarretará custos ou será sempre possível. Qualquer dado obtido a partir de uma plataforma deverá ainda passar por uma consideração sobre o viés de monetização . Por outras palavras, precisamos refletir sobre como a necessidade de monetização pode influenciar quais dados são coletados e disponibilizados. A quinta implicação derivativa da plataformização que destacamos concerne o impacto na formação de opinião pública. Van Dijck e Poell (2013) abordam como as plataformas influenciam
131 o contexto em questão. Por exemplo, o uso de um modelo que não considera a não linearidade entre variáveis pode levar a interpretações erróneas de suas relações. De facto, o modelo de análise escolhido pelos pesquisadores e profissionais já é, por si só, uma possível fonte de parcialidade. Além disso, decisões tomadas durante a limpeza e o pré-processamento de dados também podem afetar os resultados da análise. Por exemplo, a remoção de "outliers" sem uma justificativa plausível pode excluir informações importantes, especialmente se esses dados atípicos representarem minorias ou exceções críticas. No caso de algoritmos de aprendizagem de máquina treinados com dados enviesados, pode-se perpetuar ou até amplificar os enviesamentos já contidos no banco de dados original. Um caso notório foi o do sistema de reconhecimento facial da IBM, que foi criticado por sua precisão desigual entre diferentes géneros e etnias, refletindo os vieses presentes nos dados de treinamento. Por fim, e como pode acontecer nos algoritmos, a forma como os dados são interpretados pode refletir as expectativas ou preconceitos dos analistas, o que é particularmente problemático em análises subjetivas. Uma das hipóteses para ajudar a ultrapassar esta situação é recorrer aos dados sintéticos justos 22 (van Breugel et al., 2021), ou seja, dados gerados artificialmente que são projetados para serem livres de vieses injustos ou discriminatórios presentes nos dados originais. Eles são criados ao usar algoritmos e técnicas específicas que visam replicar as caraterísticas estatísticas dos dados iniciais, ao mesmo tempo em que ajustam ou removem disparidades que poderiam levar a conclusões tendenciosas ou a tratamentos desiguais de diferentes grupos. A ideia é que, ao usá-los em treinamento de modelos de aprendizagem de máquina, pode-se promover a equidade e a inclusão, garantindo que os sistemas automatizados funcionem de maneira justa para todos, independentemente da etnia, género, idade ou qualquer outra caraterística potencialmente discriminatória. De um modo geral, a parcialidade do código algorítmico é possível devido à parcialidade humana. Realizar uma análise intraobjetiva refere-se assim também à tentativa de minimizar a introdução de parcialidade nas etapas que acima descrevemos, como uma prática complementar à consideração dos impactos dos efeitos da plataformização sobre os dados obtidos. Dizemos “tentativa” devido à dificuldade aliada a tarefas mais desafiantes como auditar um código algorítmico e a impossibilidade de sermos cem por cento isentos. Como vimos, embora existam processos que podem ser úteis para a “desparcialização”, é importante considerar se esse ato não é, por si só, uma forma de ser parcial. Por vezes, conjuntos de dados devem ser abandonados 22 Fair synthetic data
132 ou analisados com a expectativa de que irão produzir resultados muito limitados ou quase-inúteis. A ideia de “desparcialização” também seria mais efetiva se, além de uma autocrítica por parte dos analistas, se tornasse uma preocupação dos próprios programadores: Outra forma de mitigar os preconceitos recai nos formadores e criadores da IA. Ao tornálos conscientes dos seus próprios preconceitos, temos mais hipóteses de os manter fora dos algoritmos. É importante notar que o preconceito humano existe e é difícil de mitigar devido ao facto de ser uma caraterística evolutiva, mas estamos cada vez mais conscientes dos preconceitos a que o nosso próprio cérebro é suscetível. Para concluir, os algoritmos podem fazer parte da atenuação dos preconceitos institucionais - se nos mantivermos educados, conscientes, inteligentes e seletivos. (Kwan, 2018) Por outro lado, um NetnoRetrato prima por trabalhar mónadas digitais ao identificar perspetivas, o que por si só se configura na análise do parcial. Essencialmente, o NetnoRetrato já assume a presença da subjetividade nas narrativas que irá identificar, a ideia de que o banco de dados recolhido é situacional e marcado pelo tempo e espaço, e que as perspetivas vão mostrar as motivações dos agentes, e não uma verdade absoluta. A sua intraobjetividade atua enquanto uma preocupação e autocrítica constante sobre o método proposto, na busca de soluções caso-acaso para as parcialidades do código existentes em cada diagnóstico, etapas e processos. Embora positivos sobre implementar práticas numa conjugação da análise de Big Data à análise netnográfica, estamos longe de depositar uma confiança cega nos dados ao abdicar de um modelo científico (Anderson, 2008), assumindo uma posição “tecno-optimista a partir de uma perspetiva mais política-pessimista, ilustrando assim o seu valor para interrogar a utilização de grandes volumes de dados” (Vydra & Klievink, 2019, p. 2) A análise intraobjetiva completa-se quando os pesquisadores e profissionais estão cientes da sua posição perante o objeto e o que produzem, o que nos leva a falar na sua última condição – o conhecimento situado. 3.4.3. Condição 3: conhecimento é situado Em suma, o conhecimento situado, desenvolvido por Donna Haraway (1988), parte da ideia de que todo conhecimento é específico ao seu contexto, moldado assim por particularidades culturais, políticas, sociais e geográficas. O argumento se opõe à noção de uma visão universal ou neutra, propõe em vez disso que todas as perspetivas são parciais e situadas. Isto significa que a forma como conhecemos o mundo depende de nossa posição dentro dele, o que inclui aspetos como a identidades de género, classe social, etnia, ou outros fatores. O conhecimento situado tem a sua
133 base nos estudos feministas ao discutir a relação de produção de conhecimento e a histórica marginalização de perspetivas não dominantes, discurso que através de um argumento de “objetividade” se retroalimentava de autoridade. Nisto, a autora não se posiciona acima moralmente, tornando claro também que “a objetividade feminista significa muito simplesmente conhecimentos situados” (Haraway, 1988, p. 581). A critica aplica-se à visão objetivista da ciência, que pressupõe a possibilidade em obter um conhecimento desinteressado e universal. Este último ignora como as posições sociais e políticas dos cientistas influenciam a produção do conhecimento, o que levou a autora a defender uma abordagem que reconheça e incorpore essas influências, aceitando a parcialidade e a especificidade do conhecimento: Não procuramos os saberes regidos pelo falogocentrismo (nostalgia da presença da única Palavra verdadeira) e pela visão desencarnada. Procuramos os que são regidos pela visão parcial e pela voz limitada - não a parcialidade por si só, mas antes por causa das conexões e aberturas inesperadas que os saberes situados tornam possíveis. Os saberes situados são sobre comunidades, não sobre indivíduos isolados. A única forma de encontrar uma visão mais alargada é estar algures no particular. (Haraway, 1988, p. 590) Consideramos esta ação extremamente razoável por revelar honestidade científica. A intraobjetividade que propomos se carateriza também por este modo de estar/ser científico, isto é, além de precisarmos de ter em atenção as tensões e parcialidades do código existentes no meio sociodigital, os pesquisadores e profissionais devem ser honestos quanto à sua posição e pontos de partida. A premissa que permite um conhecimento situado ser um conhecimento válido, apesar das dinâmicas subjetividades/objetividades, é a mesma que legitima a intraobjetividade, por equacionar um real no mundo exterior (objetividade) desde uma visão e posição que partem do interior (intra-). Por isso, o primeiro passo na elaboração de um NetnoRetrato será então reconhecer “quem” o executa. Pois, tal como o conhecimento situado, um NetnoRetrato não opera nas lógicas mais tradicionais de como a ciência é geralmente praticada, como pensamos sobre autoridade, conhecimento e poder. Ele questiona a neutralidade da ciência e sugere que a objetividade “verdadeira” só pode ser alcançada ao reconhecer e integrar múltiplas perspetivas situadas, não por uma “questão de desinteresse, mas de estruturação mútua e geralmente desigual, de assumir riscos” (1988, p. 595).
134 Adicionalmente, no contexto do NetnoRetrato, existem aqui algumas pontes entre teorias. De um lado, e como vimos na última citação em destaque, há uma relação entre estar no “particular” e conseguir uma “visão alargada” na produção de conhecimento situado. Do outro, lembrando Tarde e Latour, “estudar o social é descobrir o particular” (Latour, 2012, p. 200). Ao mesmo tempo que o emissor é relevante e fundamental, essa visão precisa ainda de ser descentralizada do humano pois “aceitar a agência dos objetos estudados é a única maneira de evitar erros grosseiros e falsos conhecimentos” (Haraway, 1988, pp. 592-593) nas ciências sociais, motivo pelo qual um pesquisador ou profissional não pode ser isento mas sim imerso no contexto a ser estudado num NetnoRetrato, ao ponto de atuar como um “xama” no sociodigital, só assim “capaz de ver os não-humanos como eles se veem a si próprios” (Viveiros de Castro, 2004, p. 468). Uma posição contrária a ideia do "olhar de Deus", uma metáfora para o conhecimento científico que pretende ser completamente objetivo e desvinculado de qualquer perspetiva particular. Assim, um argumento que coloca este tipo de olhar como uma impossibilidade e assume que todo conhecimento é, de facto, uma visão a partir de algum lugar específico e interior, e não uma visão “que inscreve miticamente todos os corpos marcados, que faz com que a categoria dos não marcados reivindique o poder de ver e não ser visto, de representar enquanto escapa à representação” (Haraway, 1988, p. 581). Por fim, é importante ter em conta que a produção de conhecimento deve ser vista como uma construção colaborativa, envolver a interação entre diferentes perspetivas situadas e não apenas daquele que submerge. Haraway sugere (p. 592) uma espécie de visão polifônica, isto é, a valorização da multiplicidade de vozes e perspetivas ao reconhecer que a compreensão mais completa e rica do mundo vem da soma dessas visões parciais, em vez de tratar o objeto de estudo “como escravo do mestre que fecha a dialética na sua agência única e na sua autoria do conhecimento ‘objetivo’”. 3.5. Perfil do NetnoRetrato – considerações e implementação Este ponto, que adota um formato similar a um perfil, encerra a nossa inicial preposição do NetnoRetrato e o nosso principal enquadramento teórico-prático. Ao relacionar os três primeiros capítulos, iremos começar por algumas considerações sobre a ferramenta metodológica, lembrando que não olhamos para esta como algo fechado ou completo. Seguiremos com o tópico das implementações possíveis de um NetnoRetrato e os seus fluxos práticos, delineando uma estrutura básica.
135 Considerações A importância dos “contextos” Como já pode ter sido reparado pelos leitores, o NetnoRetrato e a intraobjetividade possuem uma fixação por considerar sempre os contextos envolvidos em suas etapas. Esta é uma preocupação com a abrangência, equidade e pluralidade. Eis os principais contextos que levamos em conta: • Contexto disciplinar – As ideias de um NetnoRetrato ou análise intraobjetiva foram concebidos com a inter e transdisciplinaridade em mente. Embora a sua criação esteja direcionada para a análise de objetos culturais complexos na internet, acreditamos que pesquisadores e profissionais conseguirão aplicar os seus princípios às disciplinas e áreas distintas do nosso enquadramento disciplinar. No nosso caso, interessa-nos analisar objetos através de uma lente teórico-prática que mescle diferentes escolas dos Estudos Culturais e o outras disciplinas, para garantir robustez à análise, mas também equilíbrio de influências. • Contexto cultural – Um NetnoRetrato procura intercalar diferentes conceitos de cultura (ver o ponto dois) para captar várias facetas da sua representação. Além disso, entender os contextos culturais dos objetos a serem estudados é levar em conta como a cultura modera os valores e comportamentos dos indivíduos (Roccas & Sagiv, 2010), aspeto importante a ser identificado no início de um NetnoRetrato por informar os pesquisadores e profissionais das lógicas de codificação e descodificação comunicacionais e socioculturais presentes. • Contexto da interação – O NetnoRetrato busca entender em que contexto as narrativas online são criadas e mantidas. Seja pela identificação dos atores-rede (Latour, 2012) ou pela análise da apropriação das limitações e possibilidades oferecidas pelas ferramentas utilizadas (Recuero, 2014), ou ainda pelo reconhecimento das consequências da plataformização (Van Dijck et al., 2018), criar um NetnoRetrato é mapear as perspetivas, dinâmicas e tensões dos contextos de interação envolvidos no objeto a analisar. • Contexto da produção de conhecimento – Elaborar um NetnoRetrato requer não ignorar quem o elabora, as suas influências e os sistemas que atuam enquanto base para a produção de conhecimento.
136 Prático, teórico e vivo Um NetnoRetrato se alimenta do vínculo entre prática e teoria. Enquanto resultado mostra uma perspetiva situada no espaço-tempo, porém, enquanto ferramenta mostra-se um meta-método vivo e adaptável. Ele não está circunscrito ao mundo académico ou profissional, sendo que se fortalece a partir de ambos. Trata-se de um posicionamento de praticantes reflexivos, isto é, “agentes da conversa reflexiva da sociedade com a sua situação, agentes que se envolvem em investigação cooperativa num quadro de contenção institucionalizada.” (Schön, 1991, p. 353). Se os contextos das diferentes faces do objeto estão reconhecidos, assim como Hall e colegas iam progredindo nos Estudos Culturais conforme iam ensinando, não vemos porque não progredir conforme vamos fazendo. O efeito autocrítico da intraobjetividade e abordagem interdisciplinar mantém o NetnoRetrato em controlo, sem limitá-lo, e encorajando que os investigadores e profissionais possuam a “capacidade de participar num diálogo significativo que suspenda o seu ponto de vista” (Guimarães et al., 2019, p. 4). Personalização de análise em eixo conceitual Para uma análise poder ser chamada de NetnoRetrato é necessário seguir o enquadramento conceitual neste capítulo descrito. Em resumo, isto inclui • Assumir que vivemos numa sociedade em rede (Castells, 2002), onde a comunicação é agenciada por computação (CAC) devido à nunca-neutra proatividade dos algoritmos em suas relações e mediações com os indivíduos, e que nós nos tornamos parte das dinâmicas comerciais enquanto “recursos naturais humanos” no capitalismo da vigilância (Zuboff, 2019). • Assumir um NetnoRetrato enquanto diagnóstico ou um ponto de situação contextual acerca de um objeto digital complexo. Apesar do objeto “precisar estar na internet”, um NetnoRetrato também avalia a repercussão dos média tradicionais na rede, assim como promove a complementaridade de análise de dados offline por reconhecer as interceções destes com o mundo online, e por só assim ser possível analisar os contextos eficazmente. O que um NetnoRetrato produz pode ser exibido em formatos diversos, como uma tese, dissertação, artigo, relatório, entre outros, assim como ele pode colaborar com estes formatos de forma complementar.
137 • Priorizar a identificação de narrativas através de perspetivas e não de sujeitos, pois “se é verdade que ‘o ponto de vista cria o objeto’, não é menos verdade que o ponto de vista cria o sujeito, pois a função de sujeito define-se precisamente pela faculdade de ocupar um ponto de vista.” (Viveiros de Castro, 2013, p. 291). É preciso entender que perspetivismo “não é um relativismo, mas um relacionismo” (p. 382) que conjuga diferentes visões em um mundo, inclusive de elementos não-humanos, e não várias visões de um mundo. O sujeito pertence ao ponto de vista, não o contrário. O mundo real das diferentes espécies depende de seus pontos de vista, porque o “mundo” é composto das diferentes espécies, é o espaço abstrato de divergência entre elas enquanto pontos de vista: não há pontos de vista sobre as coisas – as coisas e os seres é que são os pontos de vista (Deleuze, 1969, p. 203). A questão aqui, portanto, não é saber “como os macacos veem o mundo” (Cheney & Seyfarth, 1990), mas que o mundo se exprime através dos macacos, de que mundo eles são o ponto de vista. (Viveiros de Castro, 2013, pp. 384-385) Assim, analisar os objetos digitais complexos passa por entender e levar em conta as perspetivas dos agentes envolvidos, humanos ou não, deslocando o foco dos sujeitos para as significações que de si partem. • Assumir que para analisar como um “social” se mantém, e as correlações de perspetivas do sujeito, é necessário olhar para a sua rede. Servir-se da teoria ator-rede de Latour (1994, 2012) é fundamental para simetricamente levar em conta as associações e participações dos objetos, sistemas e sujeitos envolvidos numa rede. • Perceber que é na identificação de mónadas digitais, a partir da ótica da sociologia de Tarde (2004), que se mostra possível observar simetricamente as perspetivas dos humanos, não-humanos e as suas redes, especialmente quando potencializadas por uma apresentação que inclua técnicas aliadas à teoria dos grafos. São estes grafos de nós que mostram dinâmicas difíceis de visualizar mentalmente, como disposição de perspetivas através da identificação de comunidades, a existência de laços fracos e fortes (Granovetter, 1973), entre outros. • Entender as vantagens entre combinar as abordagens da netnografia e análise de Big Data em complementaridade. Enquanto o primeiro revela contextos do que é “estar no digital” e aproxima os investigadores e profissionais do seu objeto, o segundo expande o referencial e a quantidade de cruzamentos de dados possíveis.
138 • Perceber que fazer um NetnoRetrato requer uma análise intraobjetiva, a qual leva em conta a CAC, as tensões provocadas pela plataformização (Van Dijck et al., 2018), a existência de momentos de inserção de parcialidade nos seus processos de realização (parcialidade do código) e a produção de um conhecimento situado (Haraway, 1988). Embora neste cenário seja possível adicionar enquadramentos teóricos e práticos compatíveis, um NetnoRetrato em seu potencial atingido possui uma análise multimodal. A análise multimodal considera vários modos de comunicação além do texto escrito, o que pode incluir elementos como imagens, gestos, linguagem corporal, som, etc., o que expande o contexto em como a informação foi transmitida ou recebida. Resumidamente, a proposta central assume que a significação não é criada apenas pelas palavras, mas também por outros recursos semióticos disponíveis em diferentes moldes, e que, por sua vez, esses moldes interagem entre si de maneiras complexas para criar significados. Este tipo de análise parece-nos ainda relevante por fornecer um método que se adapte ao conteúdo analisado num NetnoRetrato. Propomos que seja examinada a possibilidade de implementação de uma análise multimodal pois pode-se levar em conta pontos como a classificação das materialidades semióticas baseada na noção de ecrãs, que permite uma análise mais organizada da heterogeneidade de textos multimodais (Farhat & Gonçalves-Segundo, 2022). Implementações Em seguida mostramos uma estrutura básica do fluxo de tarefas e considerações na elaboração de um NetnoRetrato. Esta não será, certamente, a única forma de implementar a nossa ferramenta, porém, representa o potencial que um NetnoRetrato pode atingir em situações perto do ideal. Por ideal queremos dizer “elaborado por uma equipa transdisciplinar”, sem severas limitações de tempo, e com acesso aberto ou controlo sobre os algoritmos utilizados na captação de dados. Pesquisas ou projetos criados noutros moldes também podem ser considerados NetnoRetratos desde que se tenham estabelecido formas satisfatórias de contornar os desafios encontrados e se tenha aplicado o plano de análise conceitual que até aqui foi proposto.
139 A elaboração de um NetnoRetrato possui 3 fases: Escolha dos contextos; Análise de dados; Análise perspetivista dos resultados. No fluxograma acima podemos ainda perceber quando, ao longo da sua elaboração, precisamos ter em conta os princípios da análise intraobjetiva, isto é, as questões aliadas à plataformização (laranja), CAC, parcialidade do código (rosa) e conhecimento situado Figura 9: Estrutura básica do fluxo de tarefas de um NetnoRetrato
140 (verde), como visto neste capítulo. Colocamos ainda marcadores para as instâncias onde uma análise multimodal pode potencializar um NetnoRetrato (roxo). Fase 1 – Escolha (d)os contextos A primeira fase na elaboração de um NetnoRetrato recai na escolha do objeto e os seus contextos. 1. Escolher objeto digital. 2. Identificar os contextos históricos, políticos, culturais e socioeconómicos acerca do objeto. 3. Recortar o contexto disciplinar e abordagens a utilizar no estudo. Antecipar hipóteses, não como condicionantes, mas como auxiliares de predição de desafios. Neste passo é importante reconhecer os posicionamentos e as capacidades dos pesquisadores e profissionais envolvidos, tempo e recursos para cada tarefa, entre outras dimensões aliadas à produção de conhecimento. Fase 2 – Análise de dados A segunda fase configura-se pela colaboração de métodos de análise de dados netnográficos, análise de Big Data (online e offline) e a complementaridade de algoritmos de aprendizagem de máquina (IA). 4. A análise de netnografia inicia com um vasto mapeamento de fontes de dados. Os pesquisadores e profissionais podem já ter delineado, na escolha do objeto digital, os espaços de onde serão coletadas as informações (e.g. Reddit, YouTube, um site específico, etc.). Essa escolha pode ser, em alternativa, realizada neste passo através do mapeamento do objeto na internet geral. Diferentes perguntas aos dados irão relevar diferentes pontos de recolha. Alguns dos mapeamentos de fontes relevantes podem-se traduzir em encontrar núcleos de discussão; núcleos de fãs, haters ou competidores; discursos institucionais; discursos mediáticos; discursos específicos ou alternativos sobre o tópico; discursos de tópicos associados ou paralelos. Estes mapeamentos terão dinâmicas próprias segundo cada plataforma. Esta fase revelará a possibilidade da análise multimodal, estabelecerá um ponto de partida de “onde procurar” os dados e determinará o início de um padrão de dados. 5. Neste passo os investigadores ou profissionais iniciam a sua imersão nos espaços e plataformas mapeados. O recorte de abordagens e a disponibilidade dos dados ditarão “o que coletar”.
243 Rockpedia, não hesitava em “revelar os seus posicionamentos políticos”, o mais acertado teria sido apenas descrito a sua posição contrária ao Partido Social Liberam seguido de uma citação ou um exemplo: É ainda importante deixar espaço para incertezas ou contradições. Não encontramos uma instância específica nos nossos dados, mas imagine-se, num exemplo hipotético, que um MC alterna entre críticas sociais e letras hedonistas. Apresentar essa ambiguidade pode não só ser relevante como também poderá diversificar o conjunto de perspetivas encontradas. Será ainda importante estar atentos a possíveis anti-grupos (Latour, 2012), pois estes, mesmo que pouco significantes no conjunto geral dos dados, normalmente revelam narrativas contrárias ao grupo ou narrativa dominantes. Estas contranarrativas não precisam partir de “haters”. Veja-se, por exemplo, as reações entre uma batalha de Prado e Salvador no evento da FMS 93 : 93 Vídeo na integra em https://www.youtube.com/watch?v=3KL__7SZg_E última vez visitado em 22/10/2024. Figura 51: Exemplo sobre inclinação política e social de um ator na rede. Figura 20: Exemplo sobre inclinação política e social de um ator na rede. Figura 52: Reações à batalha entre Prado e Salvador Fonte: Urban Roosters Brasil.
244 A maioria dos comentários ressalta a grande qualidade dos dois MCs envolvidos, porém, note-se como uma das respostas a um desses comentários não parece valorizar a mesma postura dos MCs de batalhas. No entanto, a análise perspetivista não impede os pesquisadores e profissionais de avaliar conteúdo. Enquanto os utilizadores estabelecem narrativas, eles fazem-no através de padrões de interações (identificados nas mónadas), dados esses que podem ser transformados em constatações e análises. Voltemos à primeira lista deste subponto. Logo no primeiro referimos que, em grupos de discussão, os MCs preferem utilizar o espaço digital enquanto vitrine acima de qualquer outro tipo de interação. Se através do perspetivismo iriamos destacar o conteúdo em si, no contexto da análise perspetivista como um todo podemos analisar o contexto e o padrão da ação. Ao analisarmos as mónadas, analisamos comportamentos porque identificamos associações e relações. A convergência das ações dos utilizadores em publicar as suas músicas e não interagir com outras, o que acontece independentemente do contexto ser português ou brasileiro, pode revelar tanto ou mais do que o seu discurso numa música. Mas os discursos e músicas também podem ser transformados em mapas de nós para demonstrar a corelação textual e discursiva e, desta forma, as diferentes perspetivas. Os dados levantados neste estudo dos contextos dos movimentos Rap em Portugal e no Brasil foram suficientes para encontrar vários padrões de relações e associações. Especialmente pela falta de dados de discussão no espaço público digital desses movimentos culturais. Lorenz-Spreen et al. (2023) organizaram várias teorias que avaliam os diversos aspetos da polarização e fragmentação em médias digitais, além de terem proposto formas para mitigar esses fenómenos. Neste trabalho são mencionadas dinâmicas como homofilia, modularidade e bolhas de filtro nas redes sociais. Os autores partem do princípio que, como as redes sociais e algoritmos personalizam conteúdos, estas também reforçam visões semelhantes e isolam os grupos de visões contrárias. O oposto da força dos laços fracos de Granovetter (1973), os quais permitem a introdução de novas informações a partir da influência de atores externos a um cluster, mas próximos de um ou mais integrantes do mesmo. Por sua vez, estes fenómenos são associados ao "reforço de polarização", onde as pessoas se agrupam em espaços ideológicos ou socioculturais homogéneos, dificultando a exposição a ideias opostas. A homofilia revela exatamente isso, ou seja, “a tendência de indivíduos se associarem com outros que sejam semelhantes a eles” (Lorenz-Spreen et al., 2023, p. 3131). A modularidade, por exemplo, é uma
245 otimização que “avalia o número de intracomunidades em relação às conexões intercomunitárias para um determinado conjunto de grupos de nós em uma rede” (2023, p. 3134). A identificação de comunidades que fizemos no grafo de nós, neste subponto, é possível devido a um algoritmo no Gephi que, com base na modularidade, agrupa nós conforme as associações entre eles. Existem outras abordagens para analisar aspetos relacionados com fragmentação, polarização ou agrupamento de redes. Seguindo estes raciocínios e os padrões de relações dos nossos dados, torna-se claro que os movimentos Rap português e brasileiro se apresentam numa espécie de “câmaras de eco”, ou seja, “grupos formados em torno de uma narrativa partilhada” (p. 3124). A ausência de debates nos espaços online públicos nos convida a focar nas narrativas das publicações, o que incluiria o conteúdo de centenas de músicas, batalhas de rimas e histórias de bastidores sobre os MCs, tarefa irreal para este capítulo e recursos disponíveis. Essa falta de debate também se mostra enquanto principal indicativo de um movimento cultural alicerçado em interações que acontecem nas páginas pessoais ou profissionais dos artistas. Autores como Cass Sunstein já há muito destacaram (2009) que a perda da diversificação de fóruns públicos agrava a polarização, pois permite que os indivíduos escolham apenas conteúdos que reforçam as suas crenças preexistentes. Mesmo quando os utilizadores se encontram em páginas, perfis ou grupos generalistas, como acontece sobre a prática de batalhas de rima, são comuns as simples menções de versos específicos, enaltecimento de certas rimas ou performance dos MCs, onde cada um escolhe um “vencedor”. Isto é um atributo específico dos públicos de batalhas de rima, não querendo aqui de forma alguma reduzir as batalhas em si. O que nós queremos salientar é apenas o padrão de interação dos utilizadores. Quando juntamos a ausência de debate com a fragmentação de público em canais de comunicação dos artistas, estamos a convidar os algoritmos das plataformas para nos manter em “bolhas de filtro”, ou, epistémicas: uma bolha epistémica é uma rede epistémica que possui cobertura inadequada através de um processo de exclusão por omissão. Esta omissão não precisa de ser maliciosa ou mesmo intencional, mas os membros dessa comunidade não irão receber todas as provas relevantes, nem serão expostos a um conjunto equilibrado de argumentos. (Nguyen, 2020, p. 146) Adicionalmente, a discussão pública parece existir num distanciamento de valores base da cultura Hip-Hop. Isto pode ser notado em várias instâncias. Primeiro, identificamos esse
246 discurso em comentários. Em segundo, constatamos que existem forças separatistas entre Trap e Rap, não apenas enquanto sonoridades distintas, mas como géneros que não estariam relacionados. Em terceiro, vários tópicos de conversa de publicações populares recaem em questões adjacentes a histórias de bastidores, performance em batalhas de rima, sucesso financeiro ou da carreira dos MCs. O foco está nos artistas e não nos movimentos. A diminuição da presença e influência de MCs que priorizam géneros como Rap consciente, ou até o prático desaparecimento de entidades como Universal Zulu Nation, também demonstram esse afastamento. Por fim, os dados revelam que as lógicas da internet e mercado parecem contribuir para a padronização dos projetos musicais. Como vimos quanto às ideias centrais das leis da imitação de Tarde (1903), podemos considerar que a maior parte dos comportamentos humanos não é original, mas imitada de outros indivíduos, sejam eles pares próximos ou figuras distantes de prestígio. Essa imitação é o que propaga práticas, modas e ideias. Isto não quer dizer que não há espaço para originalidade, apenas que esta está dependente da relação com o que foi previamente feito. Tarde dá a entender que nem toda imitação é perfeita, e que ao longo do tempo surgem pequenas inovações que são imitadas novamente, criando um ciclo constante de mudança social. Desta forma, a imitação ocorre, seja por “proximidade” (as ideias espalham-se mais rápido entre pessoas próximas) ou através de uma hierarquia social (tendemos a imitar figuras com maior prestígio ou influência). No fim, quando duas ideias ou práticas diferentes competem, apenas uma se estabelece como dominante. Isso reflete o papel do conflito e da seleção cultural. Estas lógicas podem ser transportas para a experiência online e para os movimentos culturais. Publicar uma imagem com uma frase inspiradora de uma música no Instagram, mais uma lista de rimas favoritas no YouTube, etc., são interações sociais que podem ser vistas como um exemplo moderno de como a imitação continua a moldar comportamentos e discursos públicos. No Twitter (X), por exemplo, a criação de tópicos efémeros e isolados pode ser explicada pela dinâmica descentralizada da imitação: ideias são lançadas rapidamente e reproduzidas apenas enquanto mantêm relevância imediata, sem formar necessariamente uma continuidade de discurso profundo. Vários artistas e influenciadores também tentam replicar estilos musicais, temáticas e estratégias de promoção que obtiveram sucesso anteriormente, impulsionando a padronização do género. Isso é visível na repetição de certos padrões rítmicos, utilização de autotune, estéticas visuais e narrativas (como os temas de superação ou ostentação). Plataformas como Instagram e TikTok funcionam como vitrines onde essas práticas se consolidam e moldam
247 as expectativas do mercado e dos consumidores, o que reforça modelos predominantes e reduz a diversidade criativa. Os movimentos Rap na esfera pública da internet encontra-se sempre em negociação. Mesmo com a popularidade destas temáticas e práticas, não é incomum encontrar aspetos temáticos de valorização do espaço de pertença, a luta feminista, a família, a consciencialização social, o anti-racismo, entre muitos outros tópicos centrais da cultura Hip-Hop, mesmo que eles estejam mais embebidos no conteúdo das músicas do que no discurso público. Isto pode acontecer mesmo em contexto de batalhas de rima. Por outras palavras, não queremos afirmar que não existem intervenções e agentes de um movimento Rap português ou brasileiro sustentado nas bases da cultura, ou que as novas gerações não estão atentas a estas temáticas, apenas que essa discussão pública no espaço online é reduzida.
248 Discussão e considerações finais O presente trabalho buscou desenvolver e justificar uma estrutura metodológica que intitulamos de NetnoRetrato, uma abordagem holística para facilitar a análise de objetos culturais complexos em espaços digitais. Resumidamente, a função principal deste trabalho foi definir uma metodologia de análise contextualizada e situada de objetos culturais digitais, explorando as interações e associações sociais, assim como infraestruturas invisíveis, como algoritmos e plataformas. Esta metodologia baseia-se em abordagens e teorias centrais que incluem a observação empírica reflexiva e autocrítica (intraobjetividade), a contextualização alargada do objeto, a combinação entre netnografia e análise de dados estruturados, além de uma análise perspetivista que envolve a identificação de mónadas digitais, análise baseada na Teoria Ator-Rede (ANT) e identificação de perspetivas. A análise perspetivista de um NetnoRetrato, por sua vez, valoriza a combinação entre a identificação de mónadas digitais e uma abordagem que articula a Teoria Ator-Rede com o perspetivismo abyayalense. Nesse contexto, o objetivo é compreender, em cada mónada de um objeto, fenómeno ou nó social, os processos de (trans)formação de significados, narrativas e associações, com base nas perspetivas e redes dos atores envolvidos, sejam eles humanos ou não humanos. O conceito de intraobjetividade atua como um módulo autocrítico e propõe substituir a ideia de "comunicação mediada por computador" pela noção de "comunicação agenciada por computação". Este conceito reconhece o papel ativo desempenhado por algoritmos e plataformas, fundamentando-se na compreensão das consequências da plataformização, da parcialidade do código e da produção de conhecimento situado. As aplicações práticas dessa metodologia abrangem áreas como os movimentos socioculturais, estudos de comunidades digitais, marketing e publicidade, comunicação estratégica e análise de reputação, análise de discurso e narrativas, bem como estudos comparativos em ambientes online. A introdução dos Estudos Culturais neste contexto não se limitou a estabelecer um campo teórico de apoio, mas atuar como uma estratégia metodológica que sustenta a necessidade de uma abordagem transdisciplinar. Os Estudos Culturais operam num terreno que não apenas reconhece a hibridização entre diferentes saberes, mas também desafia a fragmentação disciplinar, permitindo uma construção metodológica mais porosa e responsiva – uma necessidade para que a nossa proposta pudesse ser levada a cabo. Assim, a metodologia que propomos nesta tese não procura restringir-se a um modelo fixo de análise, mas configura-se
249 enquanto um espaço de trânsito entre perspetivas académicas e práticas mais comuns ao mercado, ampliando a possibilidade de produção e aplicação de conhecimento (um meta-método). A figura do “praticante reflexivo”, tal como apresentada por Schön (1991), destaca-se como um princípio fundamental para a postura do pesquisador ou profissional durante a implementação desta metodologia. Mais do que um exercício técnico, esta prática implica um ciclo contínuo de problematização e adaptação. Nesse sentido, o fazer não é meramente instrumental, mas tornase também um momento de crítica e reelaboração conceitual. Através desta lógica aproximamonos da própria natureza transdisciplinar desta tese - é na interface entre reflexão e prática que se consolidam novos modos de conhecimento, alinhando-se à necessidade de modelos metodológicos abertos e interativos. Além disso, a incorporação do conceito de transculturalidade (Welsch, 1999) não surge apenas como uma defesa de uma atualização conceitual, mas como um imperativo epistemológico. As culturas, cada vez mais interligadas e híbridas, não podem ser compreendidas por meio de categorias e mundividências estáticas ou fronteiras fixas. A transculturalidade emerge, portanto, como uma lente necessária para apreender os processos culturais na sua fluidez, reconhecendo que práticas e significados são constantemente negociados e ressignificados. Esta abordagem não se limita a alinhar-se à proposta de associações metodológicas neste trabalho presentes, mas exige uma postura de abertura e flexibilidade analítica. É com base nesta postura que é possível encontrar elos entre os movimentos Rap, seja de Portugal com o Brasil, ou de qualquer um dos dois com o que sucedeu nos Estados Unidos da América. Por fim, a nossa segmentação do conceito de cultura baseada em cinco facetas – produção de significado (Hall, 2016), identidade e diferença (Said, 2003), poder e dominação (Foucault, 1999), construção social da realidade (Berger e Luckmann, 1991) e sistema de comunicação (McLuhan, 1972) – é aqui mais do que uma organização analítica. Estas perspetivas, que revelam diferentes dimensões de um fenómeno, permitem trazer para o centro da discussão aspetos específicos de algo que é intrinsecamente plural, numa lógica de apoio à visão da transculturalidade. Esta pluralidade conceitual reforça a necessidade de uma abordagem metodológica capaz de atravessar e articular múltiplas dimensões da realidade cultural, evidenciando que a análise proposta nesta tese deve ser tão dinâmica e complexa quanto os próprios processos culturais que busca investigar. Esta metodologia parte principalmente de uma simbiose entre a Teoria Ator-Rede (Latour, 2012), as mónadas digitais inspiradas nas ideias de Gabriel Tarde (2007), o perspetivismo
250 “ameríndio” de Eduardo Viveiros de Castro (2004) e a intraobjetividade numa combinação metodológica entre a análise de netnografia e de Big Data. A Teoria Ator-Rede (ANT) propõe que a realidade é constituída por uma rede de associações entre atores humanos e não-humanos, rompendo com a separação tradicional entre sujeito e objeto. Na ANT, esses atores só ganham consistência e identidade na medida em que se vinculam a outros elementos da rede. Este modelo é essencial para o NetnoRetrato porque permite interpretar o ambiente digital, não como um espaço de interações predeterminadas e restritas aos limites do objeto analisado, mas como uma expansão do campo de relações emergentes, onde algoritmos, plataformas e dados se configuram como agentes ativos. A adaptação da ANT para o digital, pela via das mónadas digitais, inspiradas nas ideias de Gabriel Tarde (2007), desloca o foco da totalidade da rede para as unidades dinâmicas que a constituem. As mónadas (abertas), ao contrário de pontos fixos de análise, são entidades compostas por relações que se atualizam continuamente. No contexto digital, isso implica que cada dado, utilizador ou algoritmo é entendido como uma parte cujas interações são sempre situadas e temporárias. A análise baseada em mónadas digitais enfatiza a multiplicidade e a fragmentação: não há uma totalidade a ser capturada, mas sim um campo rizomático de relações efémeras e transformações. Assim, o NetnoRetrato não procura uma "fotografia" estática, mas uma imagem situada e em movimento, construída a partir de camadas interconectadas. A introdução do perspetivismo “ameríndio” (Viveiros de Castro, 2004) reforça essa lógica ao propor que cada ser percebe e interpreta o mundo de acordo com sua posição e suas relações específicas. No NetnoRetrato, essa noção traduz-se na ideia de que cada ator, humano ou não, carrega uma perspetiva própria (não relativista), tornando a análise de fenómenos digitais necessariamente multiperspetivada. Assim como na cosmologia abiayalense, em que seres diferentes podem habitar mundos sobrepostos mas atribuir significados distintos aos mesmos elementos, no NetnoRetrato, o desafio é reconhecer que diferentes agentes – utilizadores, plataformas, algoritmos e infraestruturas – interpretam e constroem a realidade digital a partir das suas próprias perspetivas. A articulação entre ANT, mónadas digitais e perspetivismo permite superar uma visão objetivista centrada dos dados e das interações online centradas no sujeito. Em vez de identificar padrões universais ou essências fixas, a metodologia concentra-se em capturar a multiplicidade de pontos de vista que emergem da interação entre os agentes. Em vez de focar exclusivamente em nós e vínculos, o NetnoRetrato potencia a identificação das unidades mínimas de subjetividade e agência presentes nos fluxos digitais — desde uma
251 publicação individual até micro-interações que reverberam em contextos mais amplos. Cada mónada digital é uma entidade que carrega uma série de intenções, emoções, decisões e performances situadas. Partes de um todo. A análise dessas mónadas é essencial para compreender como os objetos culturais emergem e ganham visibilidade na esfera digital, pois a subjetividade de cada participante está interligada a processos maiores, como a viralização, a formação de comunidades e a amplificação algorítmica. Desta forma podemos mostrar como narrativas e o “social” se mantêm no ambiente digital e como diferentes forças negoceiam os contextos (Recuero, 2014), uma vez que passamos a focar em associações e relações, e não na observação dos dados enquanto “factos” objetivos. Aliar a netnografia e a análise de Big Data num desenho convergente (Morgan, 2017) permite que grandes volumes de dados sejam interpretados a partir de contextos específicos e pontos de situação, preservando a profundidade qualitativa e contextual. Essa convergência não implica simplesmente combinar métodos distintos, mas propõe uma metodologia capaz de lidar com a complexidade dos fenómenos digitais sem diluir o valor da particularidade e da experiência situada. No NetnoRetrato, cada dado ou conjunto de dados não se resumem a fragmentos a serem analisados estatisticamente, pois este parte de um campo relacional que precisa ser compreendido em seus múltiplos níveis. A netnografia oferece a possibilidade de captar as dinâmicas sociais e culturais no interior de comunidades digitais, valorizando as práticas, narrativas e interações que emergem nesses espaços. No entanto, essa abordagem tradicionalmente qualitativa pode esbarrar nas limitações impostas pela escala dos dados disponíveis em plataformas digitais. É aí que a incorporação de Big Data permite expandir a análise, ao integrar padrões e tendências quantitativas. Entretanto, o NetnoRetrato resiste à lógica reducionista que trata dados massivos como representações objetivas da realidade, enfatizando a necessidade de contextualizar e interpretar esses padrões à luz das interações humanas e nãohumanas específicas. O conceito de intraobjetividade desempenha um papel crucial ao preparar pesquisadores e profissionais para enfrentar os desafios das pesquisas online, pela forma como combina diferentes pontos teóricos e práticos para lidar com o que provem da internet, mas também por estabelecer um modo de pensar enquanto se empenham para produzir conhecimento ético. Em vez de entender a tecnologia apenas como uma mediação entre sujeitos humanos, a intraobjetividade revela como a fronteira entre humanos e não-humanos se dissolve na coprodução de interações e significados, uma postura que mantem em alerta aqueles que seguirem a
252 metodologia. Isso implica que algoritmos, plataformas e infraestruturas digitais não atuam meramente como canais neutros, mas como pontos com agência própria, o que molda os resultados e direciona os sentidos produzidos nessas interações. No contexto dos estudos digitais, a tradicional noção de Comunicação Mediada por Computador (CMC) coloca a tecnologia como um meio pelo qual as comunicações humanas são filtradas e veiculadas. No entanto, a emergência dos fenómenos de plataformização (Van Dijck et al., 2018) mostra que essa perspetiva é insuficiente. Algoritmos e infraestruturas digitais desempenham papeis muito mais ativos, determinando, por exemplo, quais informações circulam e quais permanecem ocultas, quais interações são incentivadas e quais são limitadas. Assim, o NetnoRetrato propõe a noção de Comunicação Agenciada por Computação (CAC). A ideia passa por reconhecer esse caráter ativo das infraestruturas na difusão de informação e produção de significados. Ao introduzir o CAC, a metodologia não apenas reformula a compreensão da comunicação digital, mas também destaca as implicações epistemológicas e éticas dessas infraestruturas. Adicionalmente, argumentamos que a intraobjetividade se preocupa com o “código” ser parcial, e pode se tornar um vetor de viés estrutural que afeta toda a pesquisa ou tarefas. Reconhecemos assim de que, tanto as infraestruturas digitais quanto os métodos de coleta usados pelos próprios pesquisadores e profissionais, nunca são neutros. Ambos são condicionados por contextos e interesses específicos, o que exige uma postura autorreflexiva contínua no processo investigativo. Essa postura alinha-se ainda à ideia de conhecimento situado (Haraway, 1988), que reconhece que toda produção de conhecimento é condicionada pela posição de quem o produz. No NetnoRetrato, o conhecimento não é apresentado como uma verdade objetiva e universal, mas como uma construção contingente e situada, moldada pelas condições materiais e sociais do ambiente digital. A busca de uma objetividade sem esquecer o que está já adquirido (intra). Esta abordagem crítica não só amplia a compreensão da complexidade dos dados, mas também chama a atenção para as questões éticas que permeiam a pesquisa em plataformas digitais, como a privacidade, a transparência algorítmica e a exploração de dados. A adoção dos pilares da intraobjetividade deve ser aplicada ao máximo possível de passos no plano metodológico das tarefas pretendidas. Adotar essa perspetiva crítica tem implicações importantes para a prática investigativa: ao reconhecer que os pesquisadores são participantes ativos na produção de conhecimento, estes devem se colocar em uma postura autocrítica, capaz de interrogar suas próprias suposições, métodos e escolhas interpretativas. Isso se traduz na necessidade de tomar decisões metodológicas informadas, considerando o impacto ético de cada etapa do processo –
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