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ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual CC BY-NC-SA https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/
iii AGRADECIMENTOS O fim deste percurso representa não só a conclusão de uma etapa académica, mas também um período de enorme crescimento pessoal e de superação. Ao recordar todos os obstáculos e conquistas, é com a mais profunda gratidão que dedico estas palavras a todos aqueles que, de alguma forma, contribuíram para que este momento fosse possível. Em primeiro lugar, gostaria de agradecer às minhas orientadoras, Professora Eliana Guimarães Marcelino e Professora Doutora Natália Pimenta Monteiro, pela orientação, pela disponibilidade e pela confiança que depositaram em mim ao longo de todo o processo. A vossa orientação foi essencial para a realização deste trabalho e para o meu crescimento académico. Aos meus pais e aos meus irmãos, agradeço do fundo do coração por serem a minha base, o meu refúgio e a minha maior fonte de força. O vosso amor, apoio incondicional e incentivo constante foram essenciais para ultrapassar os momentos mais exigentes. Ao meu namorado, agradeço pela paciência, compreensão e pelo carinho que me acompanharam nos momentos mais difíceis, sempre com palavras de motivação e gestos de apoio. À minha família e aos meus amigos, que estiveram sempre presentes com palavras de incentivo e demonstrações de confiança, deixo um agradecimento especial. Quero agradecer também às empresas que gentilmente colaborararam, disponibilizando o seu tempo para responder ao questionário. A vossa participação foi imprescindível para a concretização deste estudo e para a credibilidade dos resultados. Finalmente, quero deixar um agradecimento muito especial à minha afilhada Matilde, que, com a sua doçura e alegria contagiantes, foi uma verdadeira inspiração ao longo desta etapa. Obrigada pelos abraços, pelos sorrisos e por todos os momentos de felicidade. É um orgulho enorme ser a tua “minha” e acompanhar de perto o teu crescimento tão especial. Muito obrigada a todos!
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
v Avaliação e Gestão de Risco das Pequenas e Médias Empresas RESUMO A crescente complexidade dos mercados e a vulnerabilidade a riscos, tornam a gestão de risco um tema fundamental para a sustentabilidade das pequenas e médias empresas. Apesar da literatura apontar para a importância da formalização das práticas de gestão de risco, existem ainda muitas deficiências no conhecimento sobre os fatores que influenciam a sua implementação em contextos empresariais de menor dimensão. Este estudo tem como objetivo analisar quais as características organizacionais e comportamentais que influenciam a adoção e o grau de implementação de práticas formais de gestão de risco pelas pequenas e médias empresas portuguesas distinguidas como “Pequenas e Médias Empresas Excelência 2023”. A metodologia utilizada baseou-se numa abordagem quantitativa, através da aplicação de um questionário. Além disso, foram utilizados modelos econométricos de regressão logística (para a variável binária de adoção de práticas) e regressão linear múltipla (para o número de práticas adotadas), complementados com testes estatísticos bivariados e análises de diagnóstico dos modelos. Os principais resultados indicam que a perceção da importância da gestão de risco e a exposição a crises recentes estão significativamente associadas à adoção e ao maior número de práticas formais. O volume de negócios apresenta sinais positivos, com associações marginalmente significativas em algumas categorias. Em contrapartida, a dimensão e antiguidade da empresa, o tempo no cargo e a escolaridade do gestor, bem como as dificuldades financeiras, não revelaram efeitos estatisticamente significativos. Este estudo mostra que a gestão de risco nas pequenas e médias empresas é fortemente condicionada por fatores relacionados à complexidade da operação e à sensibilidade dos gestores para os riscos estratégicos. Assim, reforça-se a necessidade de iniciativas que promovam a formação e a consciencialização dos gestores sobre a importância da gestão de risco, contribuindo para uma maior resiliência organizacional. Palavras-chave: Gestão de risco; pequenas e médias empresas; adoção de práticas; fatores influenciadores.
vi Risk Assessment and Management of Small and Medium-Sized Enterprises ABSTRACT The increasing complexity of markets and the vulnerability to risks make risk management a crucial topic for the sustainability of small and médium sized enterprises. Although the literature highlights the importance of formalizing risk management practices, there are still significant gaps in the understanding of the factors that influence their implementation in smaller business contexts. This study aims to analyze which organizational and behavioral characteristics influence the adoption and degree of implementation of formal risk management practices by portuguese small and médium sized enterprises recognized as “Small and Medium sized enterprises Excellence 2023.” The methodology was based on a quantitative approach through the application of a questionnaire. In addition, econometric models — logistic regression (for the binary variable of adoption of practices) and multiple linear regression (for the number of practices adopted) — were used, complemented by bivariate statistical tests and model diagnostic analyses. The main findings indicate that the perceived importance of risk management and exposure to recent crises are significantly associated with the adoption and greater number of formal practices. Turnover shows positive signs, with marginally significant associations in some categories. In contrast, company size and age, manager’s tenure and education level, as well as financial difficulties, did not show statistically significant effects. This study demonstrates that risk management in small and medium-sized enterprises is strongly conditioned by factors related to operational complexity and managers' awareness of strategic risks. Thus, it reinforces the need for initiatives that promote the training and awareness of managers about the importance of risk management, contributing to greater organizational resilience. Keywords: Risk management; small and médium sized enterprises; adoption of practices; influencing factos.
vii Índice DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS ................ ii AGRADECIMENTOS .................................................................................................... iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE .................................................................................... iv RESUMO ................................................................................................................... v ABSTRACT................................................................................................................ vi LISTA DE SIGLAS ....................................................................................................... ix ÍNDICE DE FIGURAS ................................................................................................... ix ÍNDICE DE GRÁFICOS ................................................................................................. ix ÍNDICE DE EQUAÇES ................................................................................................ ix ÍNDICE DE TABELAS .................................................................................................... x Capítulo 1 - Introdução ............................................................................................... 12 Capítulo 2 – Revisão de Literatura ................................................................................. 17 2.1. Definição de Risco .......................................................................................................... 17 2.2. Tipos de Riscos enfrentados pelas PMEs ........................................................................ 19 2.3. A Gestão de Risco ........................................................................................................... 23 2.3.1. Importância da Gestão de Risco nas PME ................................................... 25 2.3.2. A Influência do Comportamento dos Gestores nas PME ................................. 26 2.3.3. Práticas de Gestão de Risco nas PME ........................................................ 27 2.3.4. Fatores quantitativos que influenciaram a introdução de gestão de risco ............ 32 2.3.5. Principais Desafios na Implementação de Práticas de Gestão de Risco .............. 33 2.3.6. Recomendações para Melhorar as Práticas de Gestão de Risco nas PME ........... 35 2.4. Hipóteses de Investigação .............................................................................................. 36 Capítulo 3 – Metodologia da Investigação ........................................................................ 38 3.1. Estratégia de Investigação .............................................................................................. 38
14 objetivo desta investigação é analisar os métodos e práticas de avaliação e gestão de risco nas PME, de maneira a identificar os desafios enfrentados e as estratégias adotadas para reduzir esses riscos. Para alcançar isso, serão abordadas questões de pesquisa em específico, com os seguintes objetivos de investigação para cada uma delas: ▪ Quais são os principais tipos de riscos enfrentados pelas PME? Identificar e categorizar os diferentes tipos de riscos que afetam as PME, tendo em conta fatores como o tamanho da empresa e as características internas. Esta questão procura compreender as ameaças específicas que as PME enfrentam no seu ambiente de operação. ▪ Quais são os métodos e ferramentas utilizados pelas PME para identificar, analisar e avaliar os seus riscos, e qual é a eficácia dessas práticas face às necessidades específicas dessas empresas? Investigar as abordagens, técnicas e tecnologias utilizadas pelas PME na gestão de risco, avaliando tanto os métodos quantitativos quanto qualitativos, e a sua adequação às necessidades específicas dessas empresas. ▪ Quais são os principais desafios enfrentados pelas PME na implementação de práticas de gestão de risco e que estratégias têm sido adotadas para superar esses desafios? Identificar os desafios específicos que as PME enfrentam ao implementar práticas de gestão de risco, analisando as estratégias adotadas para superar esses desafios e avaliar a eficácia dessas abordagens. ▪ Qual é a relação entre as características das PME e a adoção de práticas formais de gestão de risco? Analisar como fatores como a dimensão da empresa, tempo de existência, volume de negócios, experiência dos gestores, entre outros, influenciam a adoção de práticas formais de gestão de risco e o grau de implementação dessas práticas. As PME enfrentam frequentemente desafios únicos em termos de recursos limitados, alta concorrência e vulnerabilidade com múltiplos riscos. A falta de acesso a crédito, a dependência de um pequeno número de clientes e fornecedores, e a dificuldade em atrair e reter profissionais qualificados amplificam ainda mais esses riscos (Mendes, 2025; Silva, 2025; Sunbase, 2025). Assim, consegue-se notar que uma gestão de riscos limitada pode afetar diretamente a capacidade de uma PME de inovar e expandir. Se uma empresa não possui políticas eficazes para lidar
15 com os riscos, os gestores, geralmente, adotam uma postura mais conservadora nas suas decisões estratégicas, o que pode restringir o seu potencial de crescimento (Brustbauer, 2014). Para enfrentar esses desafios, as PME têm de adotar estratégias eficazes de gestão. Brustbauer (2014) sugere que o desenvolvimento de uma cultura de risco dentro da organização é um passo essencial. Isso implica a formação dos gestores e funcionários para identificar e reduzir riscos proactivamente. O autor anterior destaca ainda que implementar processos estruturados de identificação, avaliação e monitorização são passos essenciais para que as PME possam melhorar a sua competitividade e adaptar-se a um ambiente de negócios em constante mudança. Nesse sentido, compreender e gerir eficazmente os riscos é fundamental para garantir a resiliência, a sustentabilidade e o sucesso das organizações. Além disso, a crescente complexidade do ambiente empresarial, juntamente com a incerteza económica e os impactos de eventos imprevisíveis, como crises globais e pandemias, demonstram a importância crescente da avaliação e gestão de risco para as PME. Assim, a motivação para este estudo reside na necessidade de compreender melhor as práticas e estratégias para enfrentar estes desafios e promover o sucesso sustentável das PME. A escolha deste tipo de pesquisa está diretamente relacionada a estudos anteriores, como o de Oliveira (2019), que analisou a implementação de práticas de gestão de risco numa PME portuguesa, e o trabalho de Vaz (2011), que investigou a relação entre práticas de gestão de risco e o desempenho das PME em Portugal. A análise realizada por Tavares et al. (2016), que investigou a perceção e a sensibilidade ao risco das PME de excelência, também serviu como base para a estruturação deste estudo. Este trabalho está organizado em diferentes secções para simplificar a compreensão e abordar todas as questões. Portanto, esta dissertação está estruturada da seguinte forma: ▪ Capítulo 2 - Revisão da Literatura: Aborda os conceitos fundamentais sobre a gestão de risco, principais riscos enfrentados pelas PME e estratégias utilizadas para atenuá-los. ▪ Capítulo 3 - Metodologia: Explica a estrutura da pesquisa, os métodos de recolha e interpretação dos dados. ▪ Capítulo 4 - Análise e Discussão dos Resultados: Apresenta os resultados obtidos, a sua análise e as consequências para as PME.
16 ▪ Capítulo 5 - Conclusões: Resume os resultados principais, as contribuições do estudo, as limitações e sugestões para pesquisas futuras. O estudo finaliza-se com as referências bibliográficas e os devidos anexos. A presente investigação adota uma abordagem quantitativa para identificar os fatores que influenciam a adoção e o grau de implementação de práticas formais de gestão de risco nas PME portuguesas. Através de um questionário aplicado aos gestores das PME Excelência 2023, analisaramse duas variáveis dependentes: (1) adoção (binária) e (2) número de práticas adotadas. As variáveis independentes abrangem características organizacionais, do gestor e da gestão de risco. Utilizaram-se modelos de regressão logística e linear, conforme o tipo de variável, com análises descritivas e inferenciais realizadas no RStudio . Esta metodologia permite testar as hipóteses e compreender empiricamente os principais determinantes da gestão de risco nas PME.
17 Capítulo 2 – Revisão de Literatura 2.1. Definição de Risco O risco é um conceito multifacetado (Janney & Dess, 2006) e apresenta uma variedade de significados associados ao mesmo, o que leva a um consenso limitado. Essa variedade pode ser atribuída às diferentes formas de medir e compreender fenómenos que, apesar de distintos, são todos rotulados como risco. Quando se fala em risco, a maioria das pessoas tende a associá-lo a algo negativo. No entanto, com a evolução tecnológica, industrial e económica, a perceção de risco mudou. Hoje, o risco é visto como tendo tanto resultados negativos como positivos (Ecker-Lala (2010), conforme citado por Tavares et al., 2016). Assim, o risco pode oferecer alguns benefícios para além dos efeitos negativos já estabelecidos. Na língua portuguesa (Infopédia, 2024), o conceito de risco pode ser definido como uma situação de perigo ou probabilidade de um evento adverso ocorrer. Existem riscos a que as organizações estão expostas que podem ser agrupados em vários tipos, abrangendo riscos pessoais, sociais e mesmo riscos ambientais (Barata, Soares e Teixeira, 2001, conforme citado em Vale, 2011). Cabedo e Tirado (2004) mencionam que o ambiente empresarial está repleto de incertezas e fatores internos e externos que criam desafios constantes, tornando-se imprescindível ter em conta o risco nas organizações. Os mesmos definem risco como a possibilidade de perdas causadas por esses fatores. Assim, a análise dos riscos não é apenas sobre a incerteza, mas também sobre as consequências dessa incerteza, uma vez que é sobre essa interação que se constitui a situação de risco. Segundo Hull (1992, conforme citado em Vale, 2011), "O risco traduz a incerteza e o seu impacto. A incerteza, por si só, não conduz ao risco, é a incerteza aliada ao impacto das consequências que leva a situações de risco.” Independentemente da situação em análise, os processos de identificação e avaliação de riscos são fundamentais para o sucesso a longo prazo, especialmente durante a fase de planeamento. Consequentemente, é necessário um plano de gestão de risco. O risco (R) é um fator que representa o produto das possibilidades (P) de um evento ocorrer e as suas respetivas consequências (C): 𝑹 = 𝑷 𝒙 𝑪
18 Esta relação pode também ser observada através da seguinte matriz, representada na figura 1: Figura 1 - Matriz de Risco: Probabilidade x Consequência Fonte: Elaboração Própria A frequência de ocorrência de um evento (F) também é utilizada muitas vezes para substituir a probabilidade (Hull ,1992), conforme citado em Vale, 2011). Apesar da fórmula de Hull (1992) proporcionar uma base teórica sólida para compreender o risco, a realidade prática dificulta a implementação dessa abordagem de maneira eficiente. Essa relação teórica entre probabilidade e consequência é essencial para a gestão estratégica, contudo, no contexto das PME, esta precisa de ser adaptada às suas limitações e particularidades. Portanto, a forma como as PME compreendem e lidam com o risco requer um equilibro entre a teoria e as suas limitações práticas. Assim, apesar de existirem várias teorias sobre o risco, muitas delas não se aplicam diretamente às realidades que as empresas enfrentam (Hagigi & Sivakumar, 2009; Janney & Dess, 2006). As PME, particularmente, enfrentam uma variedade de riscos financeiros, operacionais, de mercado, de reputação e legais, o que impacta diretamente a sua viabilidade e desempenho (Aduko, 2011; Afolabi, 2018). Essa variedade de riscos reforça a ideia de este possuir um caráter multifacetado como mencionado por Janney e Dess (2006), o que evidencia que os fenómenos classificados como "risco" podem ter diferentes significados, dependendo do contexto e da abordagem utilizada para a sua análise.
19 Os desafios que as PME enfrentam são agravados pela falta de orientação prática sobre como lidar com os riscos. Além disso, a escassez de recursos financeiros e operacionais, combinados com a falta de competências específicas para gerir esses riscos, tornam a situação ainda mais difícil (Santoro et al., 2021). Este cenário reflete a definição de risco como a interação entre a incerteza e as consequências (Barata, Soares e Teixeira, 2001, conforme citado em Vale, 2011). Sem uma identificação clara e eficaz dos riscos, essas empresas frequentemente enfrentam dificuldades significativas que comprometem a sua sustentabilidade, o que leva a altas taxas de falência, especialmente nos primeiros cinco anos de operação (Kinyua et al., 2015). Posto isto, mesmo que a eliminação total do risco não seja alcançável, é da responsabilidade própria das organizações procurarem sempre maneiras de maximizar a segurança. No entanto, as suas decisões em torno de investimentos para reduzir riscos devem ser feitas de forma eficiente e sustentável, com critérios bem estabelecidos sobre o que é considerado risco suficiente. Em última análise, grande parte disso depende da interpretação pessoal que os próprios empreendedores fazem dos riscos. 2.2. Tipos de Riscos enfrentados pelas PMEs Tendo em conta a complexidade e as diferentes operações realizadas pelas PME, é evidente que estas enfrentam uma variedade de riscos, tanto internos como externos. No entanto, como Jiménez et al. (2024) referiram, é importante notar que não existem categorias universalmente aceites, uma vez que os riscos enfrentados por cada organização podem variar significativamente. Assim, entre os riscos mais comuns estão os financeiros, como flutuações nas taxas de câmbio, problemas de crédito e liquidez (Aulia, 2023; Uzay, 2017). Além disso, os riscos de mercado, operacionais, legais e de capital humano também são preocupações significativas (Aulia, 2023). Num contexto mais global, fatores como crises económicas, instabilidade geopolítica e ameaças tecnológicas, como ataques cibernéticos, aumentam os desafios (Asgary et al., 2020). Posto isto, serão apresentados de seguida alguns dos principais riscos enfrentados pelas PME. O risco de mercado, por exemplo, envolve as oscilações nas condições do mercado, como mudanças na procura, entrada de novos concorrentes, e alterações nas regulamentações (Ameer, 2009; Othman & Ameer, 2009). Este tipo de risco também incorpora perdas associadas a variações desfavoráveis das taxas de juros, taxas de câmbio e preços das commodities e das ações, o que afeta a estabilidade financeira das PME. De acordo com Jiménez et al. (2024), as PME como estão dependentes da sua limitada capacidade de recursos, enfrentam dificuldades para responder rapidamente às mudanças no mercado, o que representa um grande desafio para a sua competitividade e sustentabilidade a longo
20 prazo. Othman & Ameer (2009) afirmam que essa volatilidade do mercado é especialmente importante para as PME que dependem de matérias-primas com preços instáveis ou que atuam em mercados financeiros frágeis, uma vez que as flutuações podem reduzir as margens de lucro. O risco financeiro, por sua vez, é uma das principais preocupações das PME, uma vez que limita diretamente a sua capacidade de operação e crescimento. De acordo com Jorion (2000) (conforme citado por (Tavares et al., 2016), o risco financeiro envolve a possibilidade de perdas nos mercados financeiros. Esse conceito inclui tanto o risco de crédito como o de liquidez. O risco de crédito refere-se à possibilidade de incumprimento por parte dos clientes ou de outras contrapartes, enquanto o risco de liquidez envolve a dificuldade que a empresa pode ter em cumprir as suas obrigações financeiras por não ter fundos suficientes. Posto isso, não ter acesso ao crédito impede muitas PME de realizar investimentos em inovação e expansão, o que agrava a sua situação financeira. Segundo Jiménez et al. (2024), a dificuldade de acesso ao crédito, obriga as PME a gerir os riscos de forma conservadora para limitar perdas e melhorar a competitividade. Dependentes de capital externo, estas empresas frequentemente enfrentam dificuldades para obter financiamento em condições favoráveis, aumentando a sua exposição ao risco financeiro. Os riscos operacionais afetam a performance e até mesmo a sobrevivência das PME (Aulia, 2023). Estes envolvem perdas financeiras, impactos negativos nas suas operações e danos à imagem da organização. Segundo (Zonnatto & Beuren, 2010), esses riscos são causados por falhas ou deficiências nas operações, processos, pessoas, sistemas ou até por eventos externos, como desastres naturais. Exemplos incluem erros humanos, falhas tecnológicas, fraudes e incidentes inesperados que afetam o funcionamento da empresa. O risco de capital humano nas PME envolve desafios relacionados à dependência de poucos colaboradores essenciais, que muitas vezes possuem habilidades ou conhecimentos difíceis de substituir. Quando esses funcionários deixam a empresa, podem ocorrer interrupções significativas nas operações, reduzindo a produtividade e prejudicando a capacidade de resposta da organização (Chadee et al., 2011). Além disso, o conceito desse risco também engloba incertezas associadas ao investimento em competências, conhecimentos e valores que aumentam a produtividade individual. Esses riscos podem
21 afetar não só o desempenho das empresas, mas também a estabilidade económica e os ganhos financeiros de pessoas e organizações (Benzoni & Chyruk, 2015). O risco legal é outro aspeto importante para as PME, especialmente em setores altamente regulamentados, onde o cumprimento das normas específicas é essencial para a operação sustentável da empresa. O não cumprimento dessas regras pode levar a multas, sanções e até a processos judiciais, conforme destacado por Zonnatto & Beuren (2010). Este tipo de risco inclui a possibilidade de alterações frequentes na legislação e nos regulamentos aplicáveis, o que obriga as PME a acompanhar e integrar rapidamente para evitar penalidades e proteger a sua reputação no mercado. O risco estratégico refere-se às ameaças resultantes de decisões que afetam diretamente o desempenho e a competitividade da empresa. Nas PME, esse risco é particularmente significativo devido à escassez de recursos para analisar o mercado, desenvolver produtos e outras áreas importantes que permitem uma adaptação mais ágil ao ambiente competitivo. Como destacam Zonnatto & Beuren (2010), a forma como a empresa é administrada, especialmente em termos de pesquisa, criação de produtos, gestão de custos e definição de preços, desempenha um papel essencial na sustentabilidade e no crescimento da organização. Decisões estratégicas inadequadas, como a falta de inovação, podem impactar negativamente a competitividade da empresa, o que leva à estagnação ou, em casos mais graves, ao fecho. Segundo Child & McGrath (2001), a ausência de uma orientação estratégica clara pode fazer com que a empresa perca oportunidades valiosas e sofra uma perda de relevância no mercado. Além disso, um posicionamento fraco frente aos concorrentes e a dependência excessiva de poucos produtos ou mercados pode deixar as PME mais vulneráveis a mudanças económicas e de procura (Hill et al., 2013). O risco tecnológico nas PMEs envolve não apenas ameaças cibernéticas, mas também desafios ligados à gestão da inovação e à manutenção de sistemas tecnológicos. Segundo Huang (2024), projetos de inovação tecnológica trazem incertezas no mercado e exigem decisões cuidadosas de investimento. A cibersegurança é outro foco importante, dado o forte impacto que os crimes cibernéticos podem ter, como ransomware e phishing , especialmente para empresas com recursos limitados (Ostapets & ParasiiVerhunenko, 2024). Esses ataques não levam apenas a custos financeiros diretos, como multas de regulamentação e perdas de dados, mas também afetam gravemente a confiança dos clientes, o que pode comprometer a posição da empresa no mercado a longo prazo.
22 O risco de reputação é uma preocupação significativa para as PME, dado que a sua imagem pública é um dos ativos mais valiosos na construção de confiança com os clientes, parceiros comerciais e outros stakeholders . A reputação de uma empresa pode ser afetada por vários fatores, muitas vezes resultantes de informações divulgadas, consciente ou inconscientemente (Zonnatto & Beuren, 2010). Exemplos incluem ações judiciais contra a empresa, conduta imprópria dos colaboradores, falhas operacionais e o não cumprimento de leis e regulamentos. No entanto, além desses riscos internos, iniciativas como a responsabilidade social corporativa também influenciam a reputação. Apesar dessa puder melhorar a imagem pública, uma implementação inadequada ou superficial pode atrair críticas e prejudicar a perceção da empresa no mercado (Graafland, 2018). A construção de uma boa reputação exige tempo e esforço contínuos, mas pode ser rapidamente destruída por problemas de qualidade, má gestão de crises ou insatisfação do cliente. Fombrun & Shanley (1990) argumentam que a reputação é especialmente importante para as PME em mercados locais, onde a opinião dos clientes tem um impacto direto na continuidade das operações. O risco ambiental está a tornar-se num fator cada vez mais relevante para as PME, especialmente à medida que as preocupações com sustentabilidade e impacto ambiental ganham destaque. Este tipo de risco abrange desde os impactos causados pela poluição e pelas emissões de carbono até aos efeitos das mudanças climáticas e da escassez dos recursos naturais. As PME enfrentam grandes desafios para cumprir as regulamentações ambientais, que muitas vezes exigem investimentos em tecnologia limpa e adaptações nos processos produtivos. Esses custos operacionais são mais difíceis de serem geridos por empresas de menor dimensão, que possuem menos recursos financeiros e estruturais para implementar soluções de redução, o que pode comprometer a sua competitividade (Ecker-Lala (2010), conforme citado por Tavares et al., 2016). A pressão para adotar práticas mais sustentáveis também está relacionada à crescente procura dos consumidores e investidores por empresas com responsabilidade ambiental. Segundo o estudo de Sangle (2009), o compromisso com a sustentabilidade é cada vez mais valorizado pelo mercado, e a falta de uma estratégia ambiental pode prejudicar a reputação da empresa e reduzir a sua atratividade para clientes e parceiros de negócios. Neste sentido, a adoção de práticas ambientalmente responsáveis pode ser vista como uma vantagem competitiva, fortalecendo a imagem da empresa e aumentando a sua capacidade de sobrevivência num mercado cada vez mais consciencializado para a sustentabilidade (Sangle, 2009).
23 É fundamental que as PME estejam cientes dos diversos tipos de riscos que enfrentam. Esses riscos podem ter impactos significativos na sua sustentabilidade e desempenho a longo prazo. Para prevenir essas ameaças, as empresas devem adotar abordagens estratégicas de gestão de risco, que envolvam não apenas a identificação e avaliação contínua dos riscos, mas também a implementação de medidas corretivas eficazes (Aulia, 2023). Assim, uma gestão proativa dos riscos pode ajudar as PME a responderem de forma mais ágil às mudanças no mercado, aumentando a sua capacidade de adaptação e promovendo a continuidade das operações. Dessa forma, ao integrar a gestão de risco nas suas estratégias empresariais, as PME não só estão a proteger os seus ativos e operações, mas também estão a garantir um crescimento sustentável no mercado global competitivo. 2.3. A Gestão de Risco Segundo Head (2009) (conforme citado por (Tavares et al., 2016)), a gestão de risco é o processo que envolve o planeamento, organização, direção e o controlo dos recursos para alcançar os objetivos desejados, considerando a possibilidade de eventos inesperados, sejam eles positivos ou negativos. Este processo foi concebido para identificar potenciais eventos que possam afetar a entidade e gerir os riscos até um nível aceitável, proporcionando uma garantia razoável de que os objetivos da organização serão atingidos. A gestão de risco em Portugal ganhou maior visibilidade a partir da década de 1990, quando estudos e práticas na área começaram a ser mais amplamente divulgados. Atualmente, é reconhecida como uma ferramenta essencial para lidar com perigos e incertezas em diversos setores da sociedade (Almeida, 2014). De acordo com o mesmo autor, o conceito de vulnerabilidade mostra estar intimamente relacionado ao risco. Em cenários marcados por incertezas, onde a estimativa através de probabilidades pode ser desafiadora, a análise de vulnerabilidades apresenta-se como uma alternativa eficaz. Isto permite avaliar fragilidades específicas e adotar medidas direcionadas para preveni-las, complementando ou substituindo abordagens quantitativas tradicionais em situações de maior complexidade ou falta de dados fiáveis (Almeida, 2014). Além disso, Almeida (2014) acrescenta que, o conceito de incerteza está intrinsecamente ligado à gestão de risco. Como o nosso conhecimento sobre o futuro é sempre incompleto, lidar com incertezas nos resultados e nas bases para decisões torna-se inevitável. Assim, é essencial adotar abordagens
30 A opinião especializada é uma ferramenta que recolhe informações qualitativas de especialistas através de entrevistas ou seminários, o que ajuda a posicionar cada risco na matriz de probabilidade e impacto. A avaliação de probabilidade e impacto investiga a probabilidade de ocorrência e o efeito de cada risco identificado sobre os objetivos do projeto, classificando os riscos em termos de impacto negativo (ameaças) ou positivo (oportunidades). A matriz de probabilidade e impacto, por sua vez, é usada para priorizar riscos, criando uma tabela que ajuda a classificar os riscos como de prioridade baixa, moderada ou alta (Project Management Institute, 2008). Tabela 3 - Matriz de Probabilidade e Impacto Fonte: Elaboração Própria com base no PMBOK, 2008 Uma recente progressão no uso de métodos qualitativos é a combinação com métodos quantitativos, originando análises híbridas que potencializam a eficiência e a precisão. O clustering qualitativo, por exemplo, organiza dados com base em padrões ou categorias não numéricas, como perceções de risco em áreas financeiras, operacionais ou legais. Quando combinado ao Pillar K-Means , uma variante do K-Means que utiliza pontos de referência centrais para melhorar a estabilidade dos agrupamentos, podemos categorizar dados complexos e facilitar a tomada de decisão estratégica (Wahyudin & Santoso, 2016). Essas estratégias são particularmente úteis para as PME, que frequentemente enfrentam ambientes dinâmicos e dispõem de um número limitado de dados estruturados. A combinação de ambas a abordagem permite identificar padrões ocultos e representar cenários de risco com maior clareza, alinhando as práticas de gestão às especificidades de diferentes setores. Essa integração simboliza um SEVERIDADE DO RISCO Baixo Moderado Alto Probabilidade Ameaças Oportunidades 0,90 0,05 0,09 0,18 0,36 0,72 0,72 0,36 0,18 0,09 0,05 0,70 0,04 0,07 0,14 0,28 0,56 0,56 0,28 0,14 0,07 0,04 0,50 0,03 0,05 0,10 0,20 0,40 0,40 0,20 0,10 0,05 0,03 0,30 0,02 0,03 0,06 0,12 0,24 0,24 0,12 0,06 0,03 0,02 0,10 0,01 0,01 0,02 0,04 0,08 0,08 0,04 0,02 0,01 0,01 0,05 0,10 0,20 0,40 0,80 0,80 0,40 0,20 0,10 0,05 Impacto
31 progresso importante na forma como as PME podem lidar com os desafios de um ambiente de riscos em constante evolução (Wahyudin & Santoso, 2016). Posto isto, nota-se que os métodos qualitativos oferecem flexibilidade e facilidade de aplicação, tornando-os ideais para as PMEs que frequentemente operam em ambientes dinâmicos e incertos. Contudo, essas abordagens apresentam desafios, tais como a subjetividade e a dependência da competência dos participantes. Ainda assim, em cenários onde dados quantitativos são escassos, métodos qualitativos como brainstorming e análise SWOT proporcionam uma base prática e estratégica (Aulia, 2023; Sparrow, 2000) Em setores como tecnologia e manufatura, a análise qualitativa permitiu que as PME identificassem insuficiências de mercado e desenvolvessem produtos inovadores. Sparrow (2000) menciona o sucesso de empresas de tecnologia que implementaram métodos qualitativos para alinhar as suas práticas de gestão de risco às especificidades do setor. Em contraste, empresas que negligenciaram essas ferramentas enfrentaram perdas substanciais devido a uma avaliação inadequada dos riscos. 2.3.3.2. Análise Quantitativa Os métodos quantitativos, como a análise estatística e a simulação de Monte Carlo, são menos frequentemente adotados devido à sua complexidade e ao seu custo mais elevado, uma vez que esses métodos exigem uma combinação de competência técnica e infraestrutura tecnológica avançada. A recolha e análise de Big Data também são essenciais para garantir a precisão dos modelos, o que implica o uso de ferramentas e softwares específicos, que podem ser dispendiosos. A construção, calibração e validação de modelos quantitativos também exigem um investimento considerável de tempo e recursos. Esses fatores tornam os métodos quantitativos mais complexos e caros, o que dificulta a adoção por PME, que, normalmente, possuem recursos limitados (Paula et al., 2019). No entanto, estes métodos oferecem uma análise mais rigorosa e baseada em dados dos riscos enfrentados pela empresa. Estes são procedimentos que atribuem um valor numérico à probabilidade de uma perda total, considerando riscos previamente conhecidos e na disponibilidade de dados quantificáveis (Ervin, 2021). Por exemplo, através da simulação de Monte Carlo, as PME podem simular vários cenários de risco possíveis e calcular a probabilidade de cada um deles ocorrer, permitindo uma melhor compreensão dos riscos e das potenciais consequências financeiras (Ervin, 2021).
32 Para além dos métodos já referidos, outras abordagens quantitativas, como a estimativa de distribuições de probabilidade e modelos estatísticos, têm sido amplamente utilizados para representar e avaliar riscos. Esses métodos fornecem previsões que permitem a adoção de medidas corretivas adequadas, o que resulta em melhorias nos aspetos mais frágeis da gestão de risco (Paula et al., 2019). A gestão de risco através de métodos quantitativos envolve processos que vão desde a identificação e análise até à escolha da melhor estratégia para reduzir a probabilidade de ocorrência ou magnitude do impacto dos riscos. A correta quantificação dos elementos de risco é essencial para a eficiência dessa gestão (Paula et al., 2019). De acordo com o referido no PMBOK, a análise quantitativa utiliza as informações das fases iniciais do planeamento e identificação dos riscos, avaliando-os numericamente. Essa análise é, em geral, aplicada nos riscos priorizados pela análise qualitativa, produzindo dados que apoiam decisões informadas e estratégias sólidas (Project Management Institute, 2008). Hu & Wu (2016) destacam que a gestão estruturada dos riscos oferece estratégias práticas, baseadas no conhecimento profissional e na situação existente nas empresas. Contudo, a análise quantitativa apresenta desafios, como a necessidade de dados precisos. Purnus & Bodea (2014) observam que muitos gestores reconhecem a utilidade desses métodos, mas apontam barreiras como a complexidade, a falta de entendimento e a dificuldade de comunicação dos resultados a superiores. Por esses motivos, este tipo de análise não é tão indicado para as PME. Apesar dos métodos qualitativos serem mais acessíveis e de fácil implementação, os métodos quantitativos oferecem uma análise mais detalhada e precisa. Assim, as PME devem considerar cuidadosamente a combinação de métodos e ferramentas que melhor se adaptam às suas necessidades e recursos específicos para garantir uma gestão eficaz dos riscos (Ervin, 2021). 2.3.4. Fatores quantitativos que influenciaram a introdução de gestão de risco A introdução da gestão de risco nas organizações foi influenciada por diferentes fatores quantitativos que exigiram a adoção de práticas formais de gestão de risco. Estes fatores, que variam em importância e impacto de acordo com os diferentes setores de atividade e tamanho das empresas, desempenharam um papel fundamental na perceção e reconhecimento de que a gestão de risco é uma parte indispensável da gestão empresarial. Em primeiro lugar, de acordo com Lima et al. (2021), a crescente complexidade do ambiente empresarial e financeiro desempenhou um papel fundamental na introdução da gestão de riscos. Com
33 a expansão global dos mercados, os progressos tecnológicos e as mudanças regulamentares, as empresas enfrentam riscos cada vez mais interligados e interdependentes. A necessidade de gerir estes riscos de forma eficaz e integrada levou à adoção de práticas mais sistemáticas e abrangentes de gestão de risco (Lima et al., 2021). Além disso, a crescente ênfase na transparência e na prestação de contas nas empresas também foi um estímulo que impulsionou a introdução da gestão de risco. Investidores, autoridades reguladoras e outras partes interessadas exigem cada vez mais informações sobre os riscos que as organizações enfrentam e a forma como os gerem. A gestão de risco fornece uma estrutura para identificar, avaliar e comunicar esses riscos de forma transparente e eficiente (Lima et al., 2021). Outro fator quantitativo que os mesmos autores mencionam no seu artigo é o crescente reconhecimento dos custos associados aos riscos empresariais. As perdas financeiras resultantes de eventos adversos, como crises financeiras, desastres naturais ou falhas operacionais, realçaram a importância de identificar e reduzir os riscos de forma proativa. A gestão de risco ajuda as organizações a quantificar e avaliar estes potenciais custos, otimizando a distribuição de recursos e reduzindo o impacto financeiro dos riscos (Lima et al., 2021). No entanto, Lima et al. (2021) reconhecem que os fatores quantitativos que afetaram a introdução da gestão de risco podem variar consoante os diferentes setores de atividade e dimensões das empresas. Por exemplo, empresas em setores altamente regulados, como serviços financeiros ou de saúde, podem enfrentar pressões regulamentares mais intensas para implementar práticas mais rigorosas de gestão de risco. Da mesma forma, as empresas de pequena dimensão podem enfrentar desafios únicos relacionados à disponibilidade de recursos e à capacidade para implementar práticas formais de gestão de risco. Posto isto, vale a pena ressaltar que os fatores quantitativos desempenharam um papel importante na introdução da gestão de risco nas organizações, impulsionando a necessidade de adotar práticas formais de gestão de risco para responder aos desafios cada vez mais complexos e interconectados do ambiente empresarial moderno. 2.3.5. Principais Desafios na Implementação de Práticas de Gestão de Risco A implementação da gestão de risco pelas PME pode enfrentar diversos desafios que exigem estratégias de resposta eficazes para garantir o sucesso do processo.
34 Armenakis & Harris (2002) referem que, internamente, um dos principais desafios é a resistência à mudança. A introdução de novas práticas de gestão de risco enfrenta, frequentemente, resistência por parte dos colaboradores, que podem não compreender os benefícios destas novas práticas ou sentir-se desconfortáveis com a alteração das suas rotinas de trabalho. Esta resistência pode atrasar ou complicar a implementação porque mudanças significativas requerem sempre tempo para adaptação e aceitação (Armenakis & Harris, 2002). Outro desafio interno é a falta de recursos financeiros e humanos. Muitas PME operam com margens financeiras apertadas, o que limita a sua capacidade de investir em novas tecnologias ou contratar pessoal especialista na gestão de risco. A escassez de recursos humanos qualificados é particularmente problemática, uma vez que a gestão eficaz dos riscos requer competências técnicas específicas que podem não existir internamente (Coad & Rao, 2008). Além disso, de acordo com (Helfat & Lieberman, 2002), a falta de conhecimento especializado, é outro obstáculo interno. Sem profissionais qualificados e experientes, as práticas de gestão de risco são difíceis de implementar e manter. A falta de formações adequadas em gestão de risco nas PME resulta numa abordagem superficial e ineficaz. Externamente, as regulamentações do governo representam um desafio constante. Em setores altamente regulados, as alterações regulamentares frequentes podem ser um obstáculo para as PME. Manterem-se atualizadas com essas mudanças e garantir a conformidade regulatória pode ser um desafio (Helfat & Lieberman, 2002). Finalmente, as pressões competitivas e as exigências dos stakeholders também constituem um desafio. Clientes, investidores e outros exigem que as empresas tenham práticas sólidas de gestão de risco. Responder a estas expectativas pode ser difícil para as PME. A pressão para demonstrar uma gestão de risco eficaz pode criar um ambiente de alta tensão e complexidade operacional (Rugman & Verbeke, 2004). Além destes, a complexidade dos riscos enfrentados pelas PME também é um desafio. As PME operam em ambientes dinâmicos onde os riscos podem mudar rapidamente. Identificar e prever riscos emergentes, requer uma abordagem flexível e adaptativa, algo que muitas PME podem achar difícil de manter. Estas barreiras complicam a adoção e a eficácia das práticas de gestão de risco e exigem uma atenção contínua e uma abordagem estratégica para enfrentá-las.
35 2.3.6. Recomendações para Melhorar as Práticas de Gestão de Risco nas PME Para fortalecer a sua gestão de risco, as PME podem adotar várias recomendações com o objetivo de melhorar a sua capacidade de identificar, avaliar e reduzir os riscos que enfrentam. A integração da gestão de risco no processo de tomada de decisão, com estratégias bem definidas, pode melhorar significativamente a resiliência e a competitividade das PME. A gestão de risco deve ser incorporada no processo de tomada de decisão, permitindo que os empreendedores considerem os riscos de forma mais consciente e estruturada (Crovini et al., 2021). Criar uma cultura organizacional que valorize a gestão de risco é fundamental para o sucesso a longo prazo. Este objetivo pode ser alcançado através da promoção da educação sobre a importância da gestão de risco em todos os níveis da organização. A realização de workshops, formações e palestras pode ajudar os colaboradores a compreender como a contribuição dos mesmos pode impactar na gestão eficaz dos riscos. Os proprietários e os gestores de PME devem investir em formações regulares e programas de conscientização que abordem os princípios de identificação, avaliação, redução e monitorização de riscos operacionais. Ao aumentar o conhecimento e a compreensão dos colaboradores sobre os princípios da gestão de risco, a empresa está a reforçar a sua capacidade de identificar e responder a eventos adversos (Ahmad & Teo, 2024; Apaloo & Bright, 2022; Manas et al., 2024). O uso de ferramentas e tecnologias apropriadas, como softwares específicos de gestão de risco, pode facilitar bastante o processo, ajudando a identificar, avaliar e monitorar continuamente os riscos. Estes oferecem uma plataforma centralizada que armazena informações sobre os riscos, o que permite uma análise mais eficiente e uma resposta mais rápida a eventos adversos. Além disso, frameworks simplificados de ERM podem ser adaptados às limitações de recursos e competências das PME, aumentando a confiança dos stakeholders e melhorando os processos de atenuação de riscos (Ahmad & Teo, 2024; Manas et al., 2024). A realização de auditorias internas regulares é essencial para avaliar a eficácia das práticas de gestão de risco existentes e identificar áreas de melhoria. Além disso, as PME também podem utilizar análises de cenários e testes de stress para antecipar e preparar a empresa para possíveis eventos adversos. Isso permite que a empresa esteja mais preparada para lidar com situações de crise e minimizar potenciais impactos negativos (Turgay & Aydin, 2023). Por último, manter uma comunicação clara e transparente dos riscos identificados e das medidas adotadas é outro aspeto importante. Assim, as empresas devem estabelecer relatórios regulares de
36 gestão de risco, mantendo todos informados sobre os desenvolvimentos relacionados aos riscos. Isso ajuda a construir confiança e a aumentar a transparência dentro da organização (Turgay & Aydin, 2023). Ao implementar estas recomendações, as PME ajudam a proteger a empresa de possíveis perdas, o que contribui também para um crescimento sustentável e o sucesso a longo prazo. 2.4. Hipóteses de Investigação A revisão da literatura revelou que diferentes fatores influenciam a adoção de práticas formais de gestão de risco pelas PME, destacando-se as características da empresa, a experiência do gestor, a exposição a crises e a perceção à importância da gestão de risco. A partir disso, foram formuladas hipóteses de investigação, com o objetivo de analisar as relações entre essas variáveis e a adoção de práticas formais de gestão de risco. Neste contexto, a formulação de hipóteses permite estruturar a investigação de forma sistemática, orientando a análise empírica e possibilitando a verificação dos pressupostos teóricos com base em dados concretos. Assim, foram formuladas as seguintes hipóteses de investigação: H1: As características da empresa influenciam a adoção e o grau de implementação de práticas formais de gestão de risco. • H1_A: Empresas de maior dimensão (pequena e média) têm maior probabilidade de adotar e de implementar um maior número de práticas formais de gestão de risco, em comparação com as microempresas. • H1_B: Empresas mais antigas têm maior probabilidade de adotar e de implementar um maior número de práticas formais de gestão de risco, em comparação com empresas mais jovens. • H1_C: Empresas com maior volume de negócios tendem a adotar mais práticas formais de gestão de risco. H2: A experiência do gestor influencia a adoção e a intensidade da utilização de práticas formais de gestão de risco. • H2_A: Empresas cujos gestores têm mais anos de experiência profissional apresentam maior probabilidade de adotar e implementar mais práticas formais de gestão de risco.
37 • H2_B: Empresas cujos gestores possuem maior nível de escolaridade apresentam maior probabilidade de adotar e implementar mais práticas formais de gestão de risco. H3: A exposição a crises e eventos de risco influencia a adoção e a extensão das práticas de gestão de risco. • H3_A: Empresas que já enfrentaram dificuldades financeiras devido a riscos não previstos têm maior probabilidade de adotar e implementar mais práticas de gestão de risco. • H3_B: Empresas afetadas diretamente por crises recentes tendem a reforçar a adoção e o número de práticas de gestão de risco utilizadas. H4: O impacto da gestão de risco na tomada de decisão estratégica está relacionado à adoção de práticas formais de gestão de risco. • H4_A: Empresas que afirmam que a gestão de risco tem um impacto significativo na tomada de decisão estratégica têm maior probabilidade de adotar práticas formais de gestão de risco. Estas hipóteses serão testadas através da aplicação de dois modelos econométricos — um modelo de regressão logística e um modelo de regressão linear — com o objetivo de avaliar a existência de relações estatisticamente significativas entre as variáveis explicativas e os diferentes níveis de adoção de práticas formais de gestão de risco.
38 Capítulo 3 – Metodologia da Investigação 3.1. Estratégia de Investigação Este capítulo descreve a metodologia adotada na investigação, especificando as estratégias de recolha e análise de dados, além de justificar os modelos econométricos aplicados. O principal objetivo é entender os fatores que impactam a implementação de práticas formais de gestão de risco nas PME. Considerando que a pesquisa se concentra na análise das características da organização e do gestor, além do seu impacto na implementação de práticas de gestão de risco, optou-se por uma metodologia quantitativa. Este tipo de pesquisa permite a quantificação das relações entre variáveis e testar hipóteses previamente desenvolvidas, possibilitando uma análise explicativa dos elementos que influenciam a gestão de risco nas PME. Para atingir esse objetivo, recorreu-se à utilização de dois modelos econométricos distintos: • Modelo de regressão logística, adequado à natureza binária da primeira variável dependente (adota ou não práticas formais de gestão de risco); • Modelo de regressão linear múltipla, aplicado à segunda variável dependente, de natureza quantitativa discreta (número de práticas formais de gestão de risco adotadas). Este tipo de metodologia permite não só identificar padrões e relações significativas entre as variáveis estudadas, como também comparar o grau de profundidade da adoção da gestão de risco. A inclusão de duas variáveis dependentes fortalece a solidez dos resultados e permite diferentes perspetivas de análise. 3.2. O Contexto da Investigação Empírica O propósito deste estudo é entender as práticas de gestão de risco adotadas pelas PME, através da análise dos fatores que influenciam essa decisão. A investigação concentra-se em como as características da organização e do gestor influenciam tanto a probabilidade de adoção (modelo de regressão logística), como o número de práticas adotadas (modelo linear). A recolha dos dados foi realizada através de um questionário enviado a uma amostra de PME Excelência, abrangendo diferentes setores e dimensões empresariais. Esta abordagem empírica proporciona uma perspetiva mais alargada do fenómeno, permitindo analisar não apenas a decisão de adotar práticas formais, mas também o grau dessa adoção.
39 A investigação assume um caráter prático, uma vez que fornece informações relevantes aos gestores e a outras partes interessadas sobre os fatores que estimulam ou dificultam a adoção de práticas de gestão de risco nas PME. Além disso, o estudo insere-se num cenário em que a conscientização sobre a gestão de riscos é cada vez mais importante para a sustentabilidade e crescimento das empresas. 3.3. Etapas do Processo de Pesquisa Gil (2002) salienta a importância de um projeto de investigação bem estruturado, descrevendo claramente as etapas do estudo para assegurar a coerência metodológica e a obtenção de resultados de confiança. Sendo assim, optou-se por seguir, nesta investigação, um conjunto de fases essenciais, que incluem a identificação do problema, a formulação das hipóteses, o delineamento da pesquisa e a análise estatística dos dados. Seguir estas etapas permite que a pesquisa seja conduzida de forma sistemática, contribuindo para a fiabilidade dos resultados e para uma compreensão aprofundada do fenómeno estudado. 3.3.1. Definição do Problema A definição clara do problema é um passo essencial para assegurar o sucesso de qualquer estudo. Neste estudo, o foco está na identificação dos fatores que influenciam: a adoção de práticas formais de gestão de risco (decisão binária); e o número de práticas formais efetivamente implementadas (escala quantitativa). Posto isto, o problema desta pesquisa pode ser formulado da seguinte forma: “Quais os fatores que influenciam a adoção e o grau de implementação de práticas formais de gestão de risco pelas PME?” Especificamente, pretende-se analisar como variáveis como a dimensão da empresa, o volume de negócios, a antiguidade, a experiência e a escolaridade do gestor, bem como a exposição a crises recentes e a perceção sobre a gestão de risco, influenciam a adoção de práticas formais de gestão de risco. Através de modelos econométricos — regressão logística e regressão linear — procura-se fornecer evidências empíricas que contribuam para a compreensão das dinâmicas associadas à gestão de risco neste tipo de organizações.
46 A recolha de dados ocorreu ao longo de fevereiro de 2025, tendo sido distribuídos cerca de 3.400 questionários aos gestores das PME Excelência 2023. O processo foi realizado por via eletrónica, assegurando uma abrangência maior e uma taxa de resposta adequada para a realização da análise estatística. Após a recolha, os dados foram submetidos a um procedimento de tratamento, que inclui: a eliminação de valores incomuns e observações com falhas em variáveis importantes; a transformação de variáveis categóricas em variáveis dummy para integração no modelo econométrico e a modificação de algumas variáveis para melhorar a interpretação dos coeficientes. 3.3.5. Métodos de Análise de Dados Após a fase de recolha e limpeza dos dados, procede-se à sua organização e análise, com o objetivo de obter conclusões importantes para a investigação. A análise começa com uma metodologia descritiva, utilizando estatísticas de frequência. Seguidamente, foram utilizados métodos de análise inferencial para avaliar as relações entre as variáveis independentes e as duas variáveis dependentes distintas: (i) a adoção de práticas formais de gestão de risco e (ii) o número de práticas de gestão de risco efetivamente implementadas. Para a primeira variável dependente, recorreu-se à regressão logística, uma ferramenta econométrica adequada à natureza dicotómica da variável dependente. Este modelo permitiu estimar a probabilidade de uma PME implementar práticas formais de gestão de risco, com base nas suas características e do seu gestor. A interpretação dos coeficientes do modelo de regressão logística permitiu identificar o impacto marginal das variáveis explicativas na probabilidade de adoção. Além disso, a significância estatística dos coeficientes foi avaliada com base no respetivo valor-p ( p-value ), permitindo identificar quais as variáveis que apresentavam evidência empírica suficiente para suportar as hipóteses formuladas. Para a segunda variável dependente, foi utilizada a regressão linear múltipla, com o objetivo de explicar as variações no número de práticas formais de gestão de risco adotadas pelas empresas. Este modelo permitiu identificar quais os fatores que estão associados a um maior ou menor grau de estruturação da gestão de risco nas PME, contribuindo assim para uma compreensão mais aprofundada do tema. Antes de ser aplicada, verificou-se os pressupostos da regressão linear, nomeadamente a normalidade dos resíduos, a ausência de multicolinearidade entre variáveis explicativas (através do teste VIF), e a homocedasticidade.
47 Além disso, foram realizados testes estatísticos complementares, como o teste do qui-quadrado para analisar interações entre variáveis categóricas e a análise dos resíduos padronizados para identificar padrões ou desvios estatisticamente significativos. As medidas de ajuste dos modelos, como o pseudo𝑅2 para o modelo de regressão logística e o 𝑅2 ajustado para o modelo linear, também foram analisadas. Todas as análises estatísticas foram realizadas com recurso ao software RStudio , cuja flexibilidade permite não só a construção de modelos econométricos consistentes, como também a apresentação clara e objetiva dos resultados obtidos. No próximo capítulo, os dados recolhidos serão apresentados e analisados, discutindo os resultados com base na literatura existente e nas hipóteses formuladas. 3.4. Limitações da Metodologia Apesar da metodologia aplicada possuir solidez e ter sido organizada para garantir a validade e a fiabilidade dos resultados, algumas limitações devem ser consideradas na interpretação das conclusões deste estudo. Uma das principais limitações está relacionada à representatividade da amostra. Apesar das PME Excelência 2023 serem um conjunto de empresas reconhecidas pelo seu desempenho e práticas exemplares, os resultados obtidos podem não ser totalmente generalizáveis para a totalidade das PME portuguesas, uma vez que estas empresas possuem características específicas que as diferenciam do universo mais amplo das PME, nomeadamente em relação à estrutura das organizações, acesso a financiamento e experiência na gestão. Outra limitação diz respeito ao possível viés de resposta. Tendo em conta que as informações foram obtidas através de um questionário destinado aos administradores/gestores das empresas, é possível que as respostas tenham sido influenciadas por uma tendência de desejabilidade social, o que leva a uma sobrevalorização da implementação de práticas formais de gestão de risco. As práticas dos gestores podem ter sido descritas de maneira mais positiva do que a realidade, seja por acreditarem que essa é a resposta esperada, ou por acreditarem que a sua empresa já adota boas práticas, mesmo que estas ainda não estejam formalmente implementadas. Esta limitação pode afetar a precisão dos resultados, exigindo uma análise crítica dos dados obtidos. Além disso, a investigação não inclui algumas variáveis subjetivas que poderiam influenciar significativamente na implementação de práticas de gestão de riscos. Fatores como a cultura da empresa e a predisposição dos gestores para a inovação e mudança não foram diretamente avaliados, apesar de terem um impacto significativo nas decisões estratégicas das empresas. A incorporação desses
48 elementos exigiria abordagens metodológicas complementares, tais como estudos qualitativos ou entrevistas detalhadas, o que poderia enriquecer a compreensão do fenómeno em análise. Apesar dessas limitações, a metodologia quantitativa adotada, aliada à aplicação de dois modelos econométricos complementares — regressão logística para a variável binária (adoção de práticas formais) e regressão linear para a variável quantitativa (número de práticas adotadas) — permitiu realizar uma análise rigorosa e objetiva do fenómeno da gestão de risco nas PME.
49 Capítulo 4 – Análise e Discussão dos Resultados da Investigação 4.1. Introdução A presente secção tem como objetivo apresentar e discutir os resultados obtidos na investigação, a partir da análise dos dados recolhidos. Esta dissertação segue uma abordagem quantitativa para investigar os determinantes da adoção e da intensidade das práticas de gestão de risco em PME portuguesas. A escolha desse método é inspirada em pesquisas anteriores, como o trabalho de Oliveira (2019) que analisou a implementação dessas práticas numa PME portuguesa, e o estudo de Vaz (2011), que investigou o impacto das práticas de gestão de risco no desempenho das PME. Esses estudos forneceram uma base teórica sólida sobre a importância da gestão de risco nas PME e as suas implicações para o desempenho organizacional. Apesar do estudo de Oliveira (2019) ter-se concentrado noutro tipo de metodologias, esta pesquisa utilizou um modelo de regressão logística e um modelo linear para analisar como as características da empresa, experiência do gestor, exposição a crises e a perceção sobre a gestão de risco influenciam a adoção e a intensidade dessas práticas. A escolha dessas variáveis foi parcialmente influenciada no trabalho de Tavares et al. (2016), que identificou fatores críticos na gestão de risco nas PME de excelência. Inicialmente, será feita a caracterização da amostra, incluindo a distribuição das empresas por setor de atividade, tamanho e experiência dos gestores. Depois, a análise estatística será realizada, utilizando métodos de estatística descritiva, como médias e frequências absolutas e relativas. Posteriormente, serão realizadas análises de relações entre variáveis, incluindo testes de correlação e testes de comparação de médias (teste t e ANOVA). Essas análises irão possibilitar a avaliação das relações entre variáveis. Por fim, os resultados obtidos serão discutidos com base na literatura existente sobre a gestão de risco nas PME, analisando o quanto as evidências empíricas corroboram ou contradizem as suposições teóricas e as investigações anteriores na área. 4.2. Caracterização da amostra A amostra final contém um total de 268 respostas válidas, sem omissões em nenhuma das respostas obrigatórias, com exceção das respostas omissas nas perguntas abertas, que eram de resposta
50 facultativa. Este número representa uma taxa de resposta apropriada para a realização da análise estatística, tendo em conta que a participação das PME em inquéritos tende a ser reduzida. A população-alvo deste estudo corresponde ao total das empresas distinguidas como PME Excelência 2023, num universo estimado de cerca de 4.000 empresas. O inquérito foi enviado a 3.400 destas empresas, representando aproximadamente 85% da população-alvo, tendo-se obtido 268 respostas válidas. Sendo assim, foi considerado um nível de confiança de 95% e uma margem de erro estimada de 6%. O tamanho ideal da amostra foi determinado através de um cálculo realizado no site SurveyMonkey 4 . A Tabela 7 apresenta um resumo dessa comparação: Tabela 7 - Representatividade da Amostra em Relação à População Parâmetro Valor Estimado Valor Obtido Comparação População-alvo 4.136 - PME Excelência 2023 Empresas Contactadas - 3479 85% da população-alvo Nível de Confiança 95% 95% Mantido Margem de Erro Estimada 6% ~6% Muito próxima Amostra Necessária 251 268 Superior à estimada Fonte: Elaboração Própria Este cálculo foi realizado com base na seguinte fórmula: Equação 3 - Tamanho da Amostra 𝑇𝑎𝑚𝑎𝑛ℎ𝑜 𝑑𝑎 𝑎𝑚𝑜𝑠𝑡𝑟𝑎 = 𝑧2𝑥 𝑝(1 − 𝑝) 𝑒2 1 + (𝑧2𝑥 𝑝(1 − 𝑝) 𝑒2𝑁) Fonte: Elaboração própria, com base no SurveyMonkey, 2024 Onde: 𝑛 = tamanho da amostra; 𝑁 = tamanho da população; 𝑧 = score z para 95% de confiança; 𝑝 = proporção esperada da característica na população (0,5 para máxima variabilidade); 𝑒 = margem de erro desejada (0,06). A utilização de 𝑝 = 0,5 representa a situação mais conservadora, uma vez que é a que gera a maior variabilidade e, portanto, o maior tamanho necessário de amostra. 4 Site: https://pt.surveymonkey.com/mp/sample-size-calculator/
51 A representatividade estatística da amostra está, assim, assegurada, o que permite generalizar com precaução os resultados para o universo das PME Excelência 2023. Com base nesta amostra, segue-se a caracterização das variáveis analisadas no estudo. Em relação à distribuição das empresas por setor de atividade, observa-se na tabela 8 um predomínio do setor industrial (31,4%), seguido pelos serviços (27,6%), comércio (24,6%) e construção (15,3%). Tabela 8 - Distribuição das Empresas por Setor de Atividade Setor de Atividade Frequência Absoluta % Indústria 84 31,4% Serviços 74 27,6% Comércio 66 24,6% Construção 41 15,3% Outro 3 1,1% Fonte: Elaboração Própria Na tabela 9, nota-se que as pequenas empresas representam a maioria das empresas em questão (76,5%), seguidas pelas médias empresas (19,0%) e microempresas (4,5%). Tabela 9 - Distribuição das empresas por tamanho Tamanho da Empresa Frequência Absoluta % Microempresa 12 4,5% Pequena empresa 205 76,5% Média empresa 51 19,0% Fonte: Elaboração Própria A análise do volume de negócios das empresas, representada na tabela 10, indica que a maior parte delas enquadra-se em categorias de faturação mais elevadas. Aproximadamente 44,8% das empresas reportam um volume de negócios entre 2M€ e 10M€, enquanto 41,0% atingem entre 500.000€ e 2M€. Apenas 4,5% das empresas faturam menos de 500.000€, o que sugere uma subrepresentação de microempresas na amostra. Por outro lado, 9,7% das empresas apresentam um volume de negócios superior a 10M€. Tabela 10 - Distribuição das empresas segundo o volume de negócios anual Volume de Negócios Anual Frequência Absoluta % Menos de 500.000€ 12 4,5% Entre 500.000€ e 2M€ 110 41,0% Entre 2M€ e 10M€ 120 44,8% Acima de 10M€ 26 9,7% Fonte: Elaboração Própria
52 Quanto à capacidade de exportação, observa-se na tabela 11 que um número significativo das empresas não exporta regularmente, com 65,3% a indicar que não exportam. Apenas 34,7% das empresas afirmam exportar com frequência, o que pode afetar a sua exposição a riscos internacionais e à necessidade de práticas específicas de gestão de risco. Tabela 11 - Percentagem das empresas que exportam Exporta Frequência Absoluta % Sim 93 34,7% Não 175 65,3% Fonte: Elaboração Própria A antiguidade das empresas na amostra indica que a maior parte tem mais de 10 anos de atividade (92,1%), o que sugere uma estrutura de negócios sólida. Além disso, no máximo 7,5% das empresas tem entre 3 e 10 anos de atividade, sendo que apenas uma empresa desta amostra tem menos de 3 anos de existência, como se pode verificar na tabela 12. Tabela 12 - Tempo de atividade das empresas Tempo de Atividade Frequência % Menos de 3 anos 1 0,4% Entre 3 e 10 anos 20 7,5% Mais de 10 anos 247 92,1% Fonte: Elaboração Própria No que diz respeito ao cargo do responsável pela gestão, como se verifica na tabela 13, a maior parte das empresas é dirigida por Gerentes (56,3%), seguidos por Administradores/Diretores-Gerais (34,7%). Uma percentagem menor (9,0%) aponta outro tipo de função do responsável pela gestão da empresa, como por exemplo, o responsável financeiro ou comercial. Tabela 13 - Cargo do Responsável pela gestão das empresas Cargo do Responsável Frequência Absoluta % Gerente 151 56,3% Administrador/Diretor-Geral 93 34,7% Outro 24 9,0% Fonte: Elaboração Própria A experiência do responsável pela gestão variou consideravelmente, sendo categorizada em diferentes níveis de tempo no cargo e escolaridade. A análise do tempo no cargo reforça a perceção de estabilidade da gestão das PME. Como se pode notar na tabela 14, cerca de 74,6% dos gestores ocupam a posição há mais de uma década,
53 enquanto 19,8% têm entre 3 e 10 anos de experiência no cargo. Apenas 5,6% dos gestores começaram a sua função há menos de 3 anos, o que pode influenciar na adoção de novas práticas de gestão de risco. Tabela 14 - Tempo como responsável pela gestão das empresas Tempo no Cargo Frequência absoluta % Menos de 3 anos 15 5,6% Entre 3 e 10 anos 53 19,8% Mais de 10 anos 200 74,6% Fonte: Elaboração Própria Em termos de escolaridade, representado na tabela 15, a maior parte possui pelo menos o ensino secundário (32,1%), com uma percentagem significativa de licenciados ou detentores de graus superiores (53,4%). Tabela 15 - Nível de Escolaridade dos Gestores Escolaridade Frequência absoluta % Ensino Básico 39 14,5% Ensino Secundário 86 32,1% Licenciatura ou Superior 143 53,4% Fonte: Elaboração Própria Esta caracterização da amostra permite contextualizar os resultados da investigação, oferecendo uma visão aprofundada do perfil das empresas e dos seus responsáveis pela gestão, elementos essenciais para compreender a adoção e a importância das práticas de gestão de risco no contexto das PME. 4.3. Análise dos Resultados A análise dos dados será efetuada em várias etapas. Inicialmente, será realizada uma análise descritiva, utilizando estatísticas univariadas, como médias e frequências absolutas e relativas, de forma a identificar padrões gerais nos dados. De seguida, será feita uma análise bivariada para explorar relações entre variáveis e identificar diferenças significativas entre grupos, recorrendo a testes estatísticos adequados, como o teste t de Student e a ANOVA, dependendo da natureza das variáveis em estudo. Por fim, proceder-se-á a uma análise multivariada, procurando estabelecer correlações entre diferentes variáveis, de forma a compreender melhor os fatores que influenciam os níveis de adoção e intensidade da gestão de risco nas PME.
54 4.3.1. Análise descritiva A análise das frequências absolutas e relativas possibilita a compreensão da distribuição das respostas às perguntas relacionadas com as práticas de gestão de risco nas PME. Abaixo apresentamse os principais resultados obtidos. Como se pode verificar no gráfico 2, 75 empresas (28,0%) indicaram que já enfrentaram eventos que prejudicaram as suas operações, enquanto a maioria (193 empresas, 72,0%) não relatou tal situação. Esta taxa relativamente alta de respostas negativas pode indicar uma perceção limitada de risco ou uma boa capacidade de resiliência operacional por parte das empresas. Gráfico 1 - Impacto de Eventos Negativos nas Operações nos Últimos 5 Anos Fonte: Elaboração Própria Das 75 respostas válidas das empresas que relataram ter lidado com eventos que afetaram negativamente as suas operações, representadas no gráfico 2, os principais tipos de risco identificados foram os financeiros e operacionais. O risco financeiro, que inclui situações como incumprimento por parte de clientes ou dificuldades de financiamento, foi mencionado por 40 empresas, o que corresponde a 53,3% do total. Os riscos operacionais, como falhas em processos internos ou dificuldades logísticas, foram referidos por 39 empresas (52,0%), o que evidencia que ambos os tipos são frequentes entre os obstáculos a serem superados. Outros riscos foram mencionados com menor frequência: apenas 7 empresas (9,3%) relataram ter lidado com riscos reputacionais, associados a problemas com clientes, fornecedores ou à imagem da empresa no mercado. Por outro lado, apenas 6 empresas (8,0%) mencionaram riscos tecnológicos, como ataques cibernéticos ou falhas em sistemas. Esses dados indicam que, mesmo diante de preocupações Não 72% Sim 28%
55 com riscos mais intangíveis ou ligados à tecnologia, as PME ainda se preocupam mais com aspetos financeiros e operacionais, o que demonstra a sua maior vulnerabilidade nesses campos. Gráfico 2 - Distribuição dos Tipos de Risco Enfrentados pelas PME Fonte: Elaboração Própria Como se pode verificar na Tabela 16, apenas 23 empresas (8,6%) afirmaram ter um gestor dedicado para a gestão de riscos. Outras 60 empresas (22,4%) indicaram que essa função é desempenhada em conjunto com outras responsabilidades, enquanto a esmagadora maioria, 185 empresas (69,0%), declarou que não há um responsável específico por essa área. Este resultado evidencia a informalidade com que muitas PME lidam com a gestão de riscos, o que pode prejudicar a sua capacidade de resposta a eventos inesperados. Tabela 16 - Existência de um Responsável pela Gestão de Risco nas Empresas Resposta Frequência % Sim, há um gestor específico para isso 23 8,60% Sim, mas faz parte das funções de outra pessoa 60 22,40% Não há uma pessoa específica para isso 185 69,0% Fonte: Elaboração Própria A tabela 17 mostra que o tamanho e volume de negócios da empresa estão fortemente correlacionados com a adoção de práticas de gestão de risco. Empresas maiores e com maior volume de negócios (acima de 10M) apresentam uma média mais alta de práticas de gestão de risco (1.923), enquanto empresas menores, como microempresas, adotam menos práticas (0.417). 7 6 39 40 REPU TA C IONAL (PROB LEMAS C OM CL IENTES , F ORNEC EDORES OU IMA GEM NO M ERC A DO) TEC NOLÓGIC O (C IBERAT AQUES, FA LHA S EM S ISTEMA S ) OPERA C IONA L (FA LHA S NOS PROC ES SOS INTERNOS , PROBL EM AS LOGÍS TIC OS FINA NC EIRO (INC UM PR IM ENTO POR PA RTE DOS CLIENTE S, DIF IC ULDADES DE FINA NC IA M ENTO)
62 57 (21,3%) indicaram tê-lo feito poucas vezes. A grande maioria – 202 empresas (75,4%) – declarou nunca ter precisado de financiamento externo por esse motivo. Este resultado pode sugerir que muitas PME possuem capacidade interna para gerir situações de risco ou, em alternativa, que enfrentam obstáculos no acesso ao crédito em circunstâncias críticas. Gráfico 10 - Necessidade de Financiamento Externo em Situações de Risco Inesperado Fonte: Elaboração Própria As principais barreiras identificadas para a adoção de práticas de gestão de risco foram a falta de tempo ou recursos internos, mencionada por 104 empresas (38,8%), seguida pela convicção de que tal não é necessário, referida por 63 empresas (23,5%). Outras restrições mencionadas incluem o custo elevado das ferramentas de gestão (52 empresas, 19,4%) e a falta de conhecimento sobre o tema (49 empresas, 18,3%), como representado na tabela 19. Esses fatores indicam a necessidade de políticas de sensibilização e formação, bem como de apoio técnico e financeiro direcionado para as PME. Tabela 19 - Fatores que Limitam a Adoção da Gestão de Riscos nas PME Resposta Frequência % Falta de conhecimento sobre o tema 49 18,3% Falta de tempo ou recursos internos 104 38,8% Custo elevado das ferramentas de gestão de risco 52 19,4% Acreditamos que não é necessário 63 23,5% Fonte: Elaboração Própria Finalmente, em relação ao eventual interesse em receber apoio institucional para a gestão de riscos, representado pelo gráfico 11, 82 empresas (30,6%) expressaram interesse direto, 153 (57,1%) responderam “talvez”, e apenas 33 empresas (12,3%) indicaram não ter interesse nesse tipo de apoio. 3% 21% 76% Sim, frequentemente Sim, mas poucas vezes Não
63 Isto sugere que as PME estão dispostas a acolher iniciativas públicas ou setoriais que promovam a implementação de práticas de gestão de risco, principalmente se estas forem acompanhadas de orientações práticas, formação e instrumentos de apoio ajustados às realidades das empresas. Gráfico 11 - Interesse das PME em Apoio Institucional para Gestão de Riscos Fonte: Elaboração Própria 4.3.2. Análise Bivariada A análise bivariada constitui uma etapa intermédia entre a descrição simples dos dados e a interpretação estatística multivariada, o que permite identificar relações significativas entre as variáveis independentes e as variáveis dependentes. De acordo com Hair et al. (2013), esta abordagem oferece evidências preliminares de associação, sendo fundamental para orientar a formulação e o teste de hipóteses. No presente estudo, foram aplicados testes paramétricos — nomeadamente o teste t de Student e a análise de variância (ANOVA) — e, complementarmente, o teste do qui-quadrado para variáveis categóricas. 4.3.2.1. Testes t de Student e ANOVA Conforme as recomendações de Pestana & Gageiro (2014), os testes t e ANOVA foram aplicados apenas após a verificação dos pressupostos de normalidade (através do teste de Shapiro-Wilk) e homogeneidade das variâncias (através do teste de Levene). O nível de significância adotado foi de 5% (α = 0,05), critério amplamente utilizado na investigação empírica (Field, 2013). a) Exportação e Número de Práticas 30% 57% 13% Sim Talvez Não
64 O objetivo foi analisar se empresas exportadoras adotam, em média, mais práticas formais de gestão de risco do que empresas não exportadoras. Como a variável independente (“ Exporta ”) possui duas categorias, foi aplicado o teste t de Student . Antes disso, foram testados os pressupostos estatísticos: a normalidade dos grupos não foi confirmada em ambos os casos (p < 0.001), enquanto a homogeneidade das variâncias foi verificada (p = 0.510), como se pode verificar na tabela 20. Apesar da violação da normalidade, o teste t de Welch foi mantido, uma vez que este teste é considerado fiável mesmo quando os pressupostos de normalidade não são cumpridos, especialmente em amostras n > 30 (Field, 2013; Pestana & Gageiro, 2014). Tabela 20 - Testes estatísticos: Exporta vs. N.º de Práticas Teste Estatístico Grupo(s) Estatística P-value Conclusão Shapiro-Wilk (normalidade) Exporta = "Sim" W = 0.869 < 0.001 Distribuição não normal Exporta = "Não" W = 0.760 < 0.001 Distribuição não normal Levene (homogeneidade) Ambos os grupos F = 0.436 0.510 Homogeneidade de variâncias assumida Teste t de Welch "Sim" vs. "Não" t = - 3.623 < 0.001 Diferença estatisticamente significativa nas médias Médias observadas - - - Sim = 1.32; Não = 0.80 Fonte: Elaboração Própria Assim, o teste t revelou uma diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos. Empresas que exportam adotam em média 1.32 práticas, enquanto as não exportadoras adotam apenas 0.80. Este resultado pode ser explicado pela maior exposição a riscos operacionais, cambiais, políticos e logísticos nos mercados internacionais, o que exige uma maior estruturação nos processos de prevenção e redução dos riscos (Hillson, 2002). b) Escolaridade do Gestor e Número de Práticas Para avaliar se o nível de escolaridade do gestor influencia o número de práticas adotadas, foi aplicada a ANOVA, dado que a variável possui três categorias. Antes da aplicação do teste, foram verificados os pressupostos estatísticos necessários. Como se pode ver na tabela 21, a normalidade das distribuições dentro de cada grupo não foi confirmada (p < 0.001 em todos os casos), indicando assim a ausência de distribuição normal nos três níveis de escolaridade. Quanto à homogeneidade das variâncias, o teste de Levene apresentou um valor marginalmente acima do nível de significância (p = 0.065), o que pode ser considerado aceitável em estudos com amostras relativamente equilibradas e com n superior a 30 por grupo, conforme sugerido por Pestana & Gageiro (2014).
65 Tabela 21 - Testes estatísticos: Escolaridade do Gestor vs. N.º de Práticas Teste Estatístico Grupo(s) Estatística P-value Conclusão Shapiro-Wilk (normalidade) Ensino básico ou menos W = 0.756 < 0.001 Distribuição não normal Ensino secundário W = 0.765 < 0.001 Distribuição não normal Licenciatura ou superior W = 0.845 < 0.001 Distribuição não normal Levene (homogeneidade) Entre os 3 grupos F = 2.77 0.065 Marginalmente violado, mas aceitável dada a tolerância da ANOVA ANOVA (diferença de médias) Escolaridade_Gestor (3 categorias) F (2,265) = 6.39 0.002 Diferenças estatisticamente significativas entre os grupos Médias (interpretação descritiva) - - A média do número de práticas aumenta com o nível de escolaridade Fonte: Elaboração Própria Os resultados indicam que gestores com um maior nível de escolaridade tendem a adotar um número superior de práticas de gestão de risco, sugerindo que a formação académica pode estar associada a uma maior sensibilização para a importância da prevenção de riscos e à familiaridade com métodos de gestão estruturada. 4.3.2.2. Teste do Qui-Quadrado Além da comparação de médias, foi também utilizado o teste do qui-quadrado, com o objetivo de identificar associações significativas entre a adoção de práticas formais de gestão de risco (variável dependente binária) e duas variáveis qualitativas independentes: setor de atividade e barreiras à adoção da gestão de risco. Os resultados estão presentes na tabela 22. Este teste é adequado para analisar frequências em tabelas de contingência e verificar se a distribuição observada difere significativamente daquela que seria esperada sob a hipótese de independência. Um valor-p inferior a 0,05 foi considerado indicativo de associação estatisticamente significativa entre as variáveis. Tabela 22 - Resultados Testes do Qui-Quadrado Variáveis em Análise Estatística 𝒙𝟐 gl P-value Associação Significativa? Adoção de Gestão de Risco × Setor de Atividade 21.51 4 <0.001 Sim (p < 0.01) Adoção de Gestão de Risco × Barreiras Percebidas 16.454 3 0.001 Sim (p < 0.01) Fonte: Elaboração Própria
66 O primeiro teste analisou a relação entre o setor de atividade e a adoção de práticas formais de gestão de risco. O resultado foi estatisticamente significativo (𝒙𝟐 = 21.51; p < 0.001), o que indica que o setor em que a empresa atua tem uma influência na adoção dessas práticas no presente estudo. Este resultado está alinhado com o estudo de Hillson (2002), que sugere que as empresas em setores mais expostos a riscos operacionais e regulatórios, como o setor industrial e financeiro, tendem a adotar práticas mais estruturadas de gestão de risco. O segundo teste relacionou a variável barreiras percebidas à adoção da gestão de risco com a efetiva implementação de práticas. O teste foi também altamente significativo (𝒙𝟐 = 16.454; p = 0.001), evidenciando que a perceção de obstáculos (como o custo, a falta de conhecimento ou a complexidade) está associada à não adoção de práticas formais de gestão de risco. Em conjunto, os testes bivariados proporcionam uma base empírica sólida para compreender padrões preliminares nos dados, antes da aplicação de modelos econométricos mais complexos. Embora não controlem variáveis simultâneas, estes testes oferecem uma leitura direta e acessível das relações entre variáveis, complementando e reforçando os resultados obtidos na análise multivariada (Field, 2013; Hair et al., 2013) 4.3.3. Análise Multivariada A análise multivariada é um método estatístico fundamental em investigações que envolvem múltiplas variáveis independentes, permitindo compreender como estas se relacionam simultaneamente com uma ou mais variáveis dependentes (Hair et al., 2013; Pestana & Gageiro, 2014). No presente estudo, esta abordagem foi essencial para avaliar os fatores que influenciam a gestão de risco nas PME. Foram utilizados dois modelos econométricos distintos: um modelo de regressão logística, adequado para a variável dependente binária que representa a adoção ou não de práticas formais de gestão de risco, e um modelo de regressão linear, aplicado à variável número de práticas adotadas, de natureza quantitativa discreta. A utilização combinada desses modelos permitiu uma análise mais sólida e abrangente, capturando tanto a decisão de adotar quanto a intensidade da adoção de práticas de gestão de risco. 4.3.3.1. Avaliação dos Modelos Econométricos A avaliação dos modelos foi realizada com base em três aspetos centrais: a significância dos coeficientes, os níveis de significância estatística valores-p e a interpretação dos coeficientes em termos
67 de sinal e magnitude. Esta análise permitiu compreender a contribuição de cada variável explicativa na explicação do fenómeno estudado. No modelo de regressão logística, os coeficientes foram avaliados com recurso ao teste de Wald, que verifica se cada coeficiente estimado difere significativamente de zero (Field, 2013). No modelo linear, foi utilizado o teste t de Student , comum na análise de regressão linear, que testa a hipótese nula de que o coeficiente é igual a zero. A significância dos coeficientes indica, portanto, a relevância estatística da variável explicativa para a variável dependente. O valor-p é utilizado para avaliar a evidência contra a hipótese nula. No presente estudo, adotouse um nível de significância de 5% (α = 0.05), conforme é frequente nos estudos das ciências sociais e de gestão (Hair et al., 2013; Pestana & Gageiro, 2014). A interpretação dos valores-p foi feita conforme representado na tabela 23: Tabela 23 - Níveis de Significância Estatística segundo o Valor-p Intervalo do P-value Interpretação p < 0.05 Significância estatística confirmada 0.05 ≤ p < 0.10 Significância marginal (potencial relevância) p ≥ 0.10 Sem significância estatística (não se rejeita 𝐻0) Fonte: Elaboração Própria A interpretação dos coeficientes deve ser realizada considerando o modelo utilizado. No modelo de regressão logística, os coeficientes representam o logaritmo das odds de ocorrência do evento (neste caso, a adoção de práticas formais). Um coeficiente positivo implica que o aumento da variável explicativa está associado a uma maior probabilidade de adoção. Por outro lado, um coeficiente negativo indica uma menor probabilidade. Já no modelo linear, os coeficientes traduzem o efeito marginal de cada variável sobre o número esperado de práticas adotadas. Por exemplo, o coeficiente positivo e significativo associado à variável Perceção_Gestão_do_Risco indica que as empresas que consideram que a gestão de risco tem impacto na tomada de decisão estratégica têm uma maior probabilidade de adotar práticas formais (modelo de regressão logística) e tendem também a implementar um número mais elevado de práticas de gestão de risco (modelo linear). Em contraste, a variável Anos_Cargo_Gestor não apresenta significância estatística nos modelos estimados, o que indica que, nesta amostra, o tempo de exercício da função de gestão não contribui significativamente para explicar a adoção ou o número de práticas de gestão de risco.
68 4.3.3.2. Qualidade dos Modelos A avaliação da qualidade dos modelos econométricos utilizados foi realizada com base em três componentes fundamentais: a verificação da multicolinearidade, a análise da qualidade do ajuste dos modelos (pseudo-𝑅2 e 𝑅2) e a análise dos resíduos (no modelo linear). Estes procedimentos são essenciais para validar a fiabilidade estatística das estimativas obtidas e garantir que os pressupostos da análise são adequadamente respeitados. A verificação da multicolinearidade entre as variáveis independentes foi realizada através do cálculo dos Fatores de Inflação da Variância ( Variance Inflation Factor – VIF). Valores elevados de VIF indicam que uma variável está fortemente correlacionada com outras variáveis explicativas do modelo, o que pode prejudicar a estabilidade das estimativas. De acordo com Hair et al. (2013), um valor de VIF inferior a 5 é geralmente considerado aceitável, sendo que valores abaixo de 2 indicam uma colinearidade residual ou insignificante. No presente estudo, todos os valores de VIF calculados para ambos os modelos situaram-se abaixo deste limiar, como se pode verificar na tabela 24. Tabela 24 - Quadro Resumo da Multicolinearidade (VIF) Variável VIF Logit VIF Linear Tamanho da Empresa 1.86 2.33 Volume de Negócios 2.03 2.43 Anos de atividade 1.62 1.57 Anos no cargo 1.76 1.52 Escolaridade 1.32 1.22 Dificuldades enfrentadas 1.17 1.14 Adoção de medidas na crise 1.16 1.26 Impacto da gestão de risco 1.40 1.41 Exporta 1.010 1.10 Fonte: Elaboração Própria No modelo de regressão logística, os VIF variaram entre 1.17 e 2.03, enquanto no modelo linear oscilaram entre 1.10 e 2.43, com o valor máximo de 2.43 na variável "Volume de Negócios". Todos os valores de VIF estão abaixo do limite geralmente aceite, indicando a ausência de multicolinearidade grave entre os preditores. Portanto, conclui-se que não existe um problema significativo de multicolinearidade nos modelos aplicados, o que aumenta a confiança nas estimativas dos coeficientes obtidos. Quanto à qualidade de ajuste dos modelos, foram utilizados dois indicadores diferentes. A qualidade do modelo logístico foi avaliada através do Pseudo R2 de McFadden, cujo valor obtido foi de
69 0,305. Este valor, segundo McFadden (1974), é considerado aceitável em modelos logísticos, o que reflete uma capacidade explicativa adequada do modelo sobre a probabilidade de adoção de práticas formais de gestão de risco. Para o modelo linear, o R2 ajustado foi de 0,248. Este valor indica que aproximadamente 23,9% da variação observada no número de práticas de gestão de risco implementadas pelas empresas é explicada pelo conjunto de variáveis independentes incluídas no modelo. É um valor modesto, mas aceitável, especialmente tendo em conta que se trata de dados autodeclarativos recolhidos através de um questionário, um método comum em estudos sobre o comportamento das organizações (Pestana & Gageiro, 2014). Este resultado demonstra que o modelo possui alguma capacidade explicativa, apesar de se reconhecer que outros fatores não observados possam igualmente influenciar o fenómeno em análise. A análise dos resíduos do modelo linear teve como objetivo verificar a adequação dos pressupostos subjacentes à regressão, nomeadamente a normalidade dos resíduos, a homocedasticidade e a ausência de padrões sistemáticos. O gráfico Q-Q (quantil-quantil) dos resíduos, representado na figura 3, fornece uma observação da aderência dos resíduos à distribuição normal. No gráfico, nota-se que a maioria dos pontos segue aproximadamente a linha de referência, o que indica uma distribuição razoavelmente normal. Contudo, nota-se alguma dispersão nas extremidades, o que sugere a presença de valores ligeiramente extremos. Figura 3 - Gráfico Q-Q dos Resíduos do Modelo Linear Fonte: RStudio Este padrão é coerente com o resultado do teste de Shapiro-Wilk (W = 0.982, p = 0.002), que indica uma pequena violação da normalidade dos resíduos. No entanto, conforme destacado por Field
70 (2013) e Pestana & Gageiro (2014), em amostras de dimensão moderada a grande, pequenas violações da normalidade não comprometem a validade da regressão linear, desde que não se verifiquem outras violações relevantes dos pressupostos. No que diz respeito à homocedasticidade, o teste de Breusch-Pagan (BP = 27.65, p = 0.05) apresentou um resultado no limiar da significância estatística. Embora não permita afirmar de forma conclusiva a existência de heterocedasticidade, também não afasta completamente essa possibilidade. Assim, recomenda-se alguma cautela na interpretação dos testes de significância do modelo, ainda que, de forma geral, a variabilidade dos resíduos possa ser considerada aproximadamente constante. Assim, optou-se por manter o modelo original, o qual se revela estatisticamente fiável, não obstante a ligeira violação da normalidade dos resíduos. Tal violação é tolerável dado o tamanho da amostra. Adicionalmente, como a hipótese de homocedasticidade não foi rejeitada de forma clara, reforça-se a fiabilidade das estimativas e dos testes inferenciais aplicados no modelo. Posto isto, as análises realizadas permitem concluir que ambos os modelos são estatisticamente válidos, ajustam-se adequadamente aos dados e não apresentam sinais de violações graves dos pressupostos fundamentais. Estes resultados asseguram a fiabilidade das inferências estatísticas e conferem suporte à interpretação dos efeitos das variáveis explicativas sobre a gestão de risco nas PME. 4.4. Teste das Hipóteses Esta secção apresenta a confirmação ou rejeição das hipóteses de investigação formuladas no capítulo 2, com base nos resultados obtidos a partir dos modelos econométricos. Para cada hipótese, analisam-se os coeficientes estimados, os respetivos valores-p e a direção do efeito observado, de maneira a fundamentar a sua confirmação, rejeição ou confirmação parcial. Antes da análise individual de cada hipótese, apresenta-se o quadro-resumo na tabela 25 com os principais resultados estatísticos dos dois modelos estimados – o modelo de regressão logística, aplicado à variável binária de adoção de práticas formais de gestão de risco, e o modelo de regressão linear múltipla, aplicado à variável contínua correspondente ao número de práticas adotadas. Este quadro permite uma visão integrada dos efeitos de cada variável explicativa em ambos os modelos.
71 Tabela 25 - Quadro-Resumo dos Resultados dos Modelos de Regressão Logística e Linear por Variável Explicativa Variável Categoria Coef. Logit P-value Logit Coef. Linear P-value Linear (Intercepto) - 12.535 0.993 0.252 0.596 Dimensão_Empresa Pequena -1.240 0.278 0.130 0.422 Média 0.266 0.863 0.088 0.627 Volume_Negocios 500m€ – 2M€ 1.120 0.280 -0.134 0.408 2M€ –10M€ 1.895 0.104 0.104 0.531 > 10M€ 1.538 0.391 0.333 0.092 Antiguidade 3 – 10 anos -15.504 0.992 -0.390 0.449 > 10 anos -14.239 0.992 -0.281 0.580 Anos_Cargo_Gestor 3 – 10 anos 0.668 0.528 -0.037 0.795 > 10 anos 0.740 0.434 -0.097 0.466 Escolaridade_Gestor Secundário 0.304 0.666 0.071 0.440 Superior 0.281 0.677 0.131 0.128 Dificuldades_Financeiras - -0.075 0.896 -0.012 0.855 Gestão_de_Risco_pós_Crises - 1.185 0.051 0.156 0.015 Perceção_Gestão_do_Risco Baixa 1.733 0.001 0.278 0.006 Média 2.750 <0.001 0.310 0.001 Elevada 3.840 0.001 0.521 <0.001 Exporta - 0.675 0.201 0.165 0.008 Fonte: Elaboração Própria A partir deste enquadramento geral, procede-se à análise detalhada de cada hipótese de investigação. Hipótese H1: As características da empresa influenciam a adoção e o grau de implementação de práticas formais de gestão de risco. Esta hipótese analisa se as características estruturais da empresa – como tamanho, antiguidade e volume de negócios – têm influência na adoção de práticas formais de gestão de risco (variável binária) e na quantidade de práticas adotadas (variável quantitativa discreta). H1_A: Empresas maiores tendem a adotar mais práticas formais de gestão de risco. A análise dos coeficientes obtidos nos modelos logístico e linear, representados na tabela 26, indicam que, apesar de existir uma variação positiva nos coeficientes associados às categorias “Pequena” e “Média” empresas, esses efeitos não são estatisticamente significativos. No modelo logístico, os valores dos coeficientes foram de -1.240 (p = 0.278) para empresas pequenas e 0.266 (p = 0.863) para empresas médias. Já no modelo linear, os coeficientes foram de 0.130 (p = 0.422) e 0.088 (p = 0.627), respetivamente.
78 formal de práticas de gestão de risco à medida que a perceção do seu impacto estratégico se intensifica. Considerando como categoria de referência as empresas que indicaram "nenhum impacto" da gestão de risco nas decisões estratégicas, os coeficientes logit são significativamente positivos para todos os níveis superiores: 1.733 ( p = 0.001) para perceção baixa, 2.750 ( p < 0.001) para perceção média e 3.840 ( p = 0.001) para perceção elevada. Tabela 33 - Resultados H4 Variável Categoria Modelo Coeficiente P-value Significância Percecao_Gestao_do_Risco Baixa Logit +1.733 0.001 Significativa Linear +0.278 0.006 Significativa Média Logit +2.750 <0.001 Significativa Linear +0.310 0.001 Significativa Elevada Logit +3.840 0.001 Significativa Linear +0.521 <0.001 Significativa Fonte: Elaboração Própria De forma consistente, no modelo linear, que estima o número de práticas adotadas, os coeficientes também aumentam de forma progressiva com o nível de perceção: 0.278 ( p = 0.006) para perceção baixa, 0.310 ( p = 0.001) para perceção média e 0.521 ( p < 0.001) para perceção elevada. Estes resultados indicam que quanto maior a importância atribuída à gestão de risco no processo decisório, maior é o número de práticas estruturadas efetivamente implementadas. Assim, a hipótese H4 é claramente confirmada por ambos os modelos. Os resultados demonstram que considerar a gestão de risco como um elemento estratégico tem um impacto significativo tanto na sua adoção formal como na diversidade de práticas utilizadas. Estes resultados estão em linha com a literatura internacional, que argumenta que a incorporação da gestão de risco na estratégia organizacional é essencial para a eficácia, resiliência e sustentabilidade das empresas (COSO, 2017; Santos, 2021). Posto isto, podemos verificar, na tabela 34, de forma resumida, os resultados das hipóteses testadas.
79 Tabela 34 - Resultados dos Testes às Hipóteses de Investigação Hipótese Conclusão H1 As características da empresa influenciam a adoção e o grau de implementação de práticas formais de gestão de risco. Hipótese não sustentada pelos dados H2 A experiência do gestor influencia a adoção e a intensidade da utilização de práticas formais de gestão de risco. Hipótese não sustentada pelos dados H3 A exposição a crises e eventos de risco influencia a adoção e a extensão das práticas de gestão de risco. Parcialmente sustentada pelos dados H4 O impacto da gestão de risco na tomada de decisão estratégica está relacionado com a adoção de práticas formais de gestão de risco. Confirmada Fonte: Elaboração Própria
80 4.5. Discussão dos Resultados Esta análise empírica possibilitou testar as hipóteses formuladas a partir da literatura e avaliar, com base nos dados recolhidos através do questionário às PME Excelência, os principais fatores que influenciam a adoção de práticas formais de gestão de risco e o número de práticas implementadas. Para isso, foram utilizados dois modelos econométricos complementares: o modelo de regressão logística e o modelo de regressão linear. Em primeiro lugar, no que diz respeito às características estruturais das empresas (H1) – como a dimensão, a antiguidade e o volume de negócios – os resultados foram, em grande parte, não significativos. Apesar da literatura apontar que empresas maiores e mais estabelecidas tendem a formalizar práticas de gestão (COSO, 2017; Hillson, 2002), os dados desta amostra indicam que tais características não são determinantes por si só para explicar a adoção nem o número de práticas utilizadas. Isto poderá refletir uma realidade em que a gestão de risco nas PME não é ainda sistematicamente integrada na estrutura organizacional, independentemente do seu tamanho ou tempo de existência. Contrariamente às expectativas teóricas, a experiência e a qualificação do gestor (H2) não apresentaram efeitos estatisticamente significativos. Estes resultados sugerem que a formação académica pode ter algum impacto na sensibilidade à gestão de risco, mas esse efeito pode ser moderado por outros fatores não observados, como a cultura organizacional ou a pressão externa do mercado. A experiência prática, medida em anos no cargo, não se revelou relevante, o que pode refletir uma limitação na operacionalização da variável ou indicar que a antiguidade nem sempre se traduz em modernização das práticas de gestão. Relativamente à exposição a eventos de risco (H3), como crises recentes ou dificuldades financeiras, os resultados sugerem que as crises tiveram um efeito catalisador na adoção de mecanismos formais de gestão, ainda que limitado. No entanto, esta associação não se confirmou no caso das dificuldades financeiras. A ausência de tal efeito nestas situações poderá estar relacionada com uma resposta mais reativa e informal por parte das PME, que, apesar das dificuldades, tendem a não institucionalizar processos estruturados. No caso da hipótese H4, as empresas que declararam integrar a gestão do risco no processo de decisão apresentaram um número ligeiramente superior de práticas adotadas. Observa-se uma relação positiva e estatisticamente significativa entre o grau de impacto atribuído à gestão de risco e a intensidade
81 da sua aplicação prática, tanto no modelo logístico como no linear. Assim, quanto maior a perceção do valor estratégico da gestão de risco, maior é a probabilidade de institucionalização e diversidade de práticas implementadas. De forma geral, os resultados sugerem que, no contexto das PME de elevado desempenho em Portugal, a gestão de risco ainda parece ser praticada de forma pouco sistematizada, e não necessariamente associada a características estruturais, perfil do gestor ou historial de crises. Tal realidade pode refletir a predominância de abordagens informais e intuitivas, típicas do setor das PME (Bromiley et al., 2015), ou indicar limitações do próprio instrumento de recolha de dados. No entanto, como qualquer análise, esta investigação apresenta algumas limitações que devem ser reconhecidas para que futuras pesquisas possam avançar ainda mais neste tema. A amostra utilizada nesta análise é composta por PME Excelência 2023, o que garante uma base qualificada de empresas, mas também pode limitar a variação dos dados e restringir a capacidade de generalizar os resultados. Devido a esta amostra mais homogénea, a aplicação dos resultados a um conjunto mais amplo de PME, que inclui as que não foram distinguidas especificamente, deve ser feita com prudência. Portanto, futuras investigações podem ter em conta a inclusão de PME que não foram distinguidas para aumentar a diversidade da amostra e testar se os padrões encontrados se mantêm noutros contextos. Além disso, a avaliação da eficácia observada das práticas de gestão de risco adotadas, é outro ponto que não foi abordado nesta pesquisa, mas que seria relevante para futuras investigações. A falta de dados sobre esse aspeto limita a compreensão do verdadeiro impacto dessas práticas na realidade das empresas. Investigar como as PME avaliam a eficácia das suas práticas de gestão de risco poderia complementar a compreensão sobre o ciclo de desenvolvimento da gestão de risco e fornecer perceções úteis para a melhoria contínua das abordagens adotadas. Apesar das limitações, este estudo oferece contributos relevantes ao evidenciar que a gestão de risco nas PME não depende exclusivamente de fatores clássicos como dimensão, antiguidade ou escolaridade. A ausência de efeitos significativos reforça a necessidade de aprofundar o papel de variáveis qualitativas – como a cultura de risco, o setor de atividade, o apoio institucional ou o grau de inovação – que poderão revelar-se mais elucidativas em estudos futuros.
82 Capítulo 5 – Conclusão O presente estudo teve como principal propósito analisar os fatores que influenciam a adoção de práticas formais de gestão de risco nas PME portuguesas, utilizando uma metodologia quantitativa baseada em dados recolhidos em colaboração com as PME Excelência 2023. A investigação procurou compreender, de forma sistemática, como as características das organizações, a experiência dos seus gestores, a exposição a crises e a perceção sobre a gestão de risco na tomada de decisão estratégica contribuem para a implementação de práticas formais de gestão de risco. A análise dos resultados obtidos permitiu testar as hipóteses de investigação propostas. No que diz respeito à hipótese 1, esta não foi sustentada pelos dados. O volume de negócios, o tamanho da empresa e o tempo de existência da organização não apresentaram efeitos estatisticamente significativos na adoção ou no número de práticas de gestão de risco adotadas. Embora tenha sido observada uma tendência marginal em algumas categorias do volume de negócios, os resultados indicam que as características organizacionais, como o tamanho ou a antiguidade, não desempenham um papel determinante na adoção de práticas formais de gestão de risco. A hipótese H2 não foi sustentada pelos resultados empíricos. A análise estatística demonstrou que nenhuma das variáveis independentes — anos de experiência no cargo (H2_A) e nível de escolaridade (H2_B) — apresentou uma associação estatisticamente significativa com a adoção formal ou o número de práticas de gestão de risco implementadas pelas PME. Apesar dos coeficientes estimados revelarem, em alguns casos, uma tendência positiva, os valores-p elevados impedem qualquer inferência sólida. Assim, conclui-se que a experiência e a formação académica dos gestores, isoladamente, não constituem fatores determinantes para a formalização da gestão de risco nestas empresas Já a hipótese 3 mostrou resultados distintos entre as sub-hipóteses. A sub-hipótese H3_A, sobre dificuldades financeiras, não foi sustentada pelos dados, uma vez que tanto no modelo logístico quanto no linear, não houve uma associação significativa com a adoção de práticas de gestão de risco. Já a subhipótese H3_B, sobre a implementação de práticas perante crises recentes, revelou uma associação significativa no modelo linear (coef. = 0.156, p = 0.015) e uma tendência marginal no modelo logístico (coef. = 1.19, p = 0.051). Esses resultados indicam que empresas que passaram por crises recentes tem mais tendência para reforçar a gestão de risco, enquanto as dificuldades financeiras isoladas não influenciam significativamente a adoção de práticas de gestão de risco. Assim, a Hipótese 3 é parcialmente confirmada.
83 No que se refere à perceção do impacto da gestão de risco nas decisões estratégicas (Hipótese 4), os resultados evidenciaram uma relação clara e estatisticamente significativa entre esse fator e a adoção de práticas formais. Verificou-se que à medida que as empresas atribuem maior relevância estratégica à gestão de risco, aumenta não só a probabilidade de institucionalização dessas práticas, como também a sua diversidade. Esta associação consistente, verificada em ambos os modelos (logístico e linear), confirma de forma sólida a hipótese H4 e reforça a ideia de que a integração da gestão de risco no processo de decisão é um motor importante para a sua formalização nas PME. Através da aplicação do modelo de regressão logística e da regressão linear, e da análise dos pressupostos econométricos, conseguimos garantir a solidez dos resultados, apesar de apresentar algumas limitações metodológicas, como a presença de uma pequena violação da normalidade e uma leve evidência de heterocedasticidade nos resíduos do modelo linear. No entanto, tendo em conta o tamanho da amostra (n > 30), estas pequenas violações não comprometem de forma significativa a validade dos resultados, especialmente considerando que a homocedasticidade não se mostrou um problema crítico para a fiabilidade das conclusões. Este estudo contribui para a literatura existente ao reforçar a importância da gestão de risco como um recurso estratégico para o crescimento e a sustentabilidade das PME. Do ponto de vista prático, proporciona perceções úteis para os gestores, permitindo-lhes compreender a necessidade de incorporar práticas formais de gestão de risco como um elemento diferenciador e potencializador da resiliência organizacional. Reconhecem-se, contudo, algumas limitações inerentes a esta investigação, como a escolha de uma amostra focada nas PME Excelência. Isso pode restringir a aplicação dos resultados para o conjunto das PME portuguesas. Para as futuras investigações neste âmbito, poderão expandir o estudo a diferentes segmentos empresariais ou incluir outras variáveis, como a perceção da eficácia das práticas de gestão de risco. Concluindo, esta dissertação mostra que a gestão de risco não deve ser vista apenas como um mecanismo de defesa, mas também como um instrumento importante para fortalecer a capacidade de adaptação e competitividade das PME, num contexto empresarial marcado pela incerteza e pela crescente complexidade.
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94 b. Não 10. Se sim, quais foram os principais tipos de risco enfrentados? (pode selecionar mais de um) a. Financeiro (incumprimento por parte dos clientes, dificuldades de financiamento) b. Operacional (falhas nos processos internos, problemas logísticos) c. Tecnológico (ciberataques, falhas em sistemas) d. Reputacional (problemas com clientes, fornecedores ou imagem no mercado) 11. A empresa tem alguém responsável pela gestão de riscos? a. Sim, há um gestor específico para isso b. Sim, mas faz parte das funções de outra pessoa c. Não há uma pessoa específica para isso 12. A sua empresa adota alguma das seguintes práticas para gerir riscos? (pode selecionar mais de uma opção) a. Identificação e análise regular de riscos b. Planos de contingência para eventos inesperados c. Seguro para cobrir riscos financeiros ou operacionais d. Auditorias internas para monitorizar riscos e. Nenhuma prática formal de gestão de risco 13. A sua empresa quantifica o risco de alguma forma? (Selecione todas as opções aplicáveis) a. Sim, utiliza indicadores quantitativos (ex.: probabilidades, perdas financeiras estimadas, VAR, b. Sim, utiliza indicadores qualitativos (ex.: matriz de risco, classificações de impacto, etc.) c. Não, a empresa não quantifica formalmente os riscos d. Não sabe / Não se aplica 14. Com que frequência a sua empresa analisa e revê a gestão de risco? (Selecione a opção mais próxima da realidade da sua empresa) a. Mensalmente b. Trimestralmente c. Semestralmente d. Anualmente e. De forma pontual (apenas quando surge um problema ou crise) f. Não existe um processo formal de gestão de risco 15. Com que frequência a sua empresa avalia os riscos do negócio? a. Regularmente (pelo menos uma vez por ano) b. Ocasionalmente (quando surge um problema) c. Raramente ou nunca 16. A empresa já enfrentou dificuldades financeiras devido a riscos não previstos? a. Sim b. Não 17. Qual o impacto da gestão de risco na tomada de decisão estratégica da empresa? a. Alto impacto — influencia a maioria das decisões b. Médio impacto — considerado em algumas decisões c. Baixo impacto — raramente influencia decisões d. Nenhum impacto 18. A empresa possui um fundo de emergência para lidar com crises? a. Sim b. Não 19. A crise recente (ex.: pandemia, inflação, instabilidade económica) levou a empresa a reforçar a gestão de risco?
95 a. Sim, passámos a ter práticas mais estruturadas b. Sim, mas apenas medidas pontuais c. Não houve mudanças significativas d. Não foi necessário 20. A empresa já teve de recorrer a financiamento externo devido a um risco inesperado? a. Sim, frequentemente b. Sim, mas poucas vezes c. Não 21. Na sua opinião, qual a principal barreira para a adoção de práticas de gestão de risco na sua empresa? a. Falta de conhecimento sobre o tema b. Falta de tempo ou recursos internos c. Custo elevado das ferramentas de gestão de risco d. Acreditamos que não é necessário 22. Caso houvesse apoio institucional para a gestão de riscos, a empresa estaria interessada? a. Sim b. Não c. Talvez