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Engajamento multimodal em stickers do WhatsApp: análise verbo-visual para compreensão do contexto

Faria, Eduardo; Alves, Andreza; Andrade, José Gabriel

Abstract

O presente estudo busca refletir sobre a representação do corpo na construção dialógica nas aplicações de mensagens, com ênfase no WhatsApp, como também nos dispositivos tecnológicos, considerando a conversão dos corpos em mensagens multimodais. Para tanto, recorremos ao que denominamos aqui como “corpos-stickers”, como objeto de análise e reflexão -que nada mais são do que as figurinhas presentes na aplicação em estudo -e que, na contemporaneidade, participam na construção dos diálogos, nos aparelhos tecnológicos e no ciberespaço. Dividindo o mesmo espaço ocupado há anos pelos emojis, emoticonse smiles, os stickers correspondem às novas evoluções na construção dos diálogos que fazem uso das representações dos corpos e das expressões humanas. Sendo assim, os corpos, enquanto imagens, dizem tanto quanto as palavras, revelando informações codificáveis de formas objetivas e subjetivas através de diferentes modos semióticos encontrados na multimodalidade. Neste caminho seguimos com o aporte bibliográfico dos estudos da semiótica social de Kress e Van Leeuwen (1996; 1998; 2001) para realização da análise verbo-visual dos corpos-stickersem diálogos dentro da aplicação do WhatsApp.

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Journal of Digital Media & Interaction ISSN 2184-3120 Vol. 5, No. 13, (2022), pp. 72-86 DOI: 10.34624/jdmi.v5i13.28855 © 2022 Eduardo Faria, Andreza Alves, José Gabriel Andrade This is an open access article under the CC BY-NC-ND license. Engajamento multimodal em stickers do WhatsApp: análise verbovisual para compreensão do contexto (Multimodal engagement in WhatsApp stickers: verbal-visual analysis to understand the context) Eduardo Faria University of Uminho, Braga, Portugal [email protected] 0000-0001-7977-1403 Andreza Alves University of Uminho, Braga, Portugal [email protected]om 0000-0002-3555-2644 José Gabriel Andrade University of Uminho, Braga, Portugal [email protected] 0000-0002-9778-5865 Received: 19 May 2022 Accepted: 20 December 2022 Abstract The present study seeks to reflect on the representation of the body in the dialogic construction in messaging applications, with emphasis on WhatsApp, as well as on technological devices, considering the conversion of bodies into multimodal messages. For that, we make use of what we call here as “stickers-bodies”, as an object of analysis and reflection - which are nothing more than the figures present in the application under study - and that in contemporary times participate in the construction of dialogues in technological and in cyberspace. Sharing the same space occupied for years by emojis, emoticons and smiles, stickers correspond to new developments in the construction of dialogues that make use of representations of bodies and human expressions. Thus, bodies, as images, say as much as words, revealing codifiable information in objective and subjective ways through different semiotic modes found in multimodality. In this way, we continue with the bibliographic contribution of the studies of social semiotics by Kress and Van Leeuwen (1996; 1998; 2001) to carry out the verbal-visual analysis of the bodies-stickers in dialogues within the WhatsApp application. Keywords: Multimodality; Whatsapp; stickers; Multimodal language; Multimodal body Resumo: O presente estudo busca refletir sobre a representação do corpo na construção dialógica nas aplicações de mensagens, com ênfase no WhatsApp, como também nos dispositivos tecnológicos, considerando a conversão dos corpos em mensagens multimodais. Para tanto, recorremos ao que denominamos aqui como “corpos-stickers”, como objeto de análise e reflexão - que nada mais são do que as figurinhas presentes na aplicação em estudo - e que, na contemporaneidade, participam na construção dos diálogos, nos aparelhos tecnológicos e no ciberespaço. Dividindo o mesmo espaço ocupado há anos pelos emojis, emoticons e smiles, os stickers correspondem às novas evoluções na construção dos diálogos que fazem uso das representações dos corpos e das expressões humanas. Sendo assim, os corpos, enquanto imagens, dizem tanto quanto as palavras, revelando informações codificáveis de formas objetivas e subjetivas através de diferentes modos semióticos encontrados na multimodalidade. Neste caminho seguimos com o aporte bibliográfico dos estudos da semiótica social de Kress e Van Leeuwen (1996; 1998; 2001) para realização da análise verbo-visual dos corpos-stickers em diálogos dentro da aplicação do WhatsApp. Palavras-chave: Multimodalidade; WhatsApp; Stickers; Linguagem multimodal; Corpo multimodal 1. Introdução A imagetização das palavras ganha novos contornos e significações em contextos digitais e, com isso, alteram essencialmente as formas semióticas empregadas na construção dos discursos nos ecrãs. A partir dessa realidade, este estudo pretende refletir sobre as práticas discursivas encontradas Journal of Digital Media & Interaction Vol. 5, No. 13, (2022) 73 nas aplicações de mensagens, mais especificamente no WhatsApp, que usam os stickers na manutenção dialógica entre os utilizadores. Considerando esta perspetiva, ponderamos sobre a ascensão do corpo-sticker refletido nos ecrãs como uma nova forma de linguagem e construtor de sentidos. Os corpos-stickers que, modificados digitalmente, materializam-se em corpos multimodais que alteram e ressignificam os discursos encontrados nas aplicações de mensagens, nos suportes tecnológicos e nas plataformas digitais, sendo necessárias novas perspetivas para a sua leitura, que atravessam à literalidade e à subjetividade. Como observa Guten Kress (1988), os discursos constituídos a partir da integração de diferentes modos semióticos com uso tecnológico são, na sua essência, multimodais. Sendo assim, uma imagem pode ser combinada com o texto escrito, com som, filtros e com outros elementos que compõem o universo de possibilidade em edição, para citar alguns: alteração das cores, repetição de imagens, alteração de espaços, mudanças de simetria, textura, transparência, balanço, contraste, enquadramento, direção, regras, movimento, profundidade, tipografia, entre outros. Para Renata da Fonte e Adriana Caiado (2014, p. 02), “o bate-papo no WhatsApp é multimodal, uma vez que a aplicação possibilita a integração de diferentes modos semióticos: som, imagem, vídeo e texto verbal refletido na tela.” Já os stickers do WhatsApp apresentam novas formas de leitura dos corpos nos ecrãs, pois estes também podem integrar diferentes modos semióticos. Para Ivani Santana (2006, p. 46), “o corpo passa a ser compreendido como um sistema aberto que troca informação com o ambiente que habita. De forma mútua, os dois sistemas, corpo e meio, contaminam-se.” No século XXI, os corpos tecnológicos representam uma extensão do corpo biológico nos suportes digitais e nas aplicações de mensagens. Contudo, ao fazerem parte destes ambientes digitais, ganham novos contornos explícitos e subjetivos, provocados por diferentes formas de edição, alterando desta forma a sua leitura semântica original, para qual é necessária uma interpretação semiótica em contexto multimodal. Sendo assim, o leitor precisará de novas competências de leitura para relacionar o verbal e o visual de modo a conseguir compreender a mensagem. Inseridos numa era marcada pela linguagem multimodal, a reflexão acerca da multimodalidade presente nos meios tecnológicos permite-nos pensar sobre as (re)significações atribuídas às imagens ao longo das décadas, como também ao texto verbal e não-verbal, e aos outros diferentes modos semióticos encontrados em dispositivos como Smartphones, Tabletes, relógios Smartwatch, entre outros, além das aplicações de mensagens como o WhatsApp. No contexto da multimodalidade, torna-se relevante pensar no conceito de literacia digital e mediática, já que os indivíduos que recorrem aos recursos tecnológicos devem, como salienta Antônio Carlos Xavier (2009), assumir mudanças nos modos de ler e escrever os códigos e sinais verbais e não-verbais, como imagens e desenhos. Isto verifica-se porque esta forma de escrita em suporte digital requer conhecimentos que não dependem da literacia em formato analógico, como sempre fora nos livros e nos impressos. Para Lopes (2011), o conceito de literacia é amplo e transversal, uma vez que não se trata apenas do domínio e reprodução do conhecimento em si, mas do domínio crítico e reflexivo acerca do conhecimento recebido. De acordo com Rosa (2016, p. 26), a literacia é tradicionalmente utilizada para “designar novas habilidades desenvolvidas pelo sujeito exposto às novas mídias, informações e tecnologias.” De maneira enfática, Livingstone (2004, p. 02) considera que o nível mais alto Eduardo Faria, Andreza Alves, José Gabriel Andrade 74 de literacia mediática consiste na “capacidade de acessar, analisar, avaliar e criar mensagens numa variedade de contextos” e alerta que somente a partir do domínio destas habilidades, torna-se possível a plena participação democrática dos sujeitos nos debates sociais. A partir destas considerações sobre o corpo convertido em imagem multimodal, e com o uso da semiótica social proposto por Kress e Van Leeuwen (1996; 1998; 2001), propomos refletir sobre o uso dos corpos-stickers nas interações dialógicas do WhatsApp, como sendo uma forma de comunicação contemporânea que demanda o domínio de novos aprendizados para leitura e interpretação dos sentidos através da multimodalidade. Em síntese, esta análise verbo-visual realizada nos corpos-stickers procurou descrever o sentido de (re)significação e codificação que os corpos simbólicos multimodais podem assumir enquanto discurso - seja objetivo, subjetivo ou controverso aos outros módulos de linguagens aplicados à imagem dos corpos. Entretanto, a análise descrita neste estudo tem caráter experimental, uma vez que faz parte da pesquisa de mestrado que aborda a importância da literacia mediática em leituras multimodais. Assim, esta pesquisa converte-se num exercício reflexivo menos sistematizado, mas que pretende ser aprofundado em pesquisas posteriores. 2. Métodos e técnicas Esta investigação trata-se de uma pesquisa exploratória de cunho qualitativo que ambiciona promover discussões sobre a temática dos stickers na construção multimodal dos diálogos no WhatsApp. Segundo Selltiz (1967, p. 63), a adoção do método exploratório é compatível com a utilização de técnicas mistas, como o levantamento bibliográfico e o estudo de caso, para a compreensão do objeto de pesquisa. Sendo assim, para percorrer os caminhos desta reflexão, recorre à análise verbal e visual dos diálogos disponíveis em grupos de universitários dentro da aplicação WhatsApp, considerando, principalmente, os estudos multimodais com as ponderações sobre multimodalidade dentro do WhatsApp propostas por Fonte e Caiado (2014) – que nos inspirou nesta pesquisa. Segundo Ventura (2007), o estudo de caso pode ser pertinente para observar os corpos-stickers enquanto fenómeno que pode ser estudado em profundidade, especialmente, como aponta Yan (2001), em situações em que o fenómeno e o contexto não estão claramente definidos e seguem em constante evolução (Yan, 2001, p. 32). Para tal, foi selecionado um grupo do WhatsApp com estudantes de mestrado entre 20 e 35 anos, que utilizam com frequência a aplicação e recorrem aos stickers na construção dos discursos. O grupo foi selecionado espontaneamente a partir de uma conversa prévia com alguns integrantes do mesmo, que estudam na Universidade do Minho, em Braga, Portugal. As capturas dos diálogos na aplicação foram cedidas com o consentimento de todos os membros do grupo analisado. Nesta tentativa de relacionar a construção multimodal dos corpos nos stickers, fazemos uso bibliográfico das conceções sobre o corpo como sintoma de uma cultura marcada pela exploração dos corpos, proposto por Santaella (2004), corpos tecnológicos como sistema de informação postulado por Santana (2006), com as ponderações sobre o uso da tecnologia na invenção e manutenção do corpo na atualidade referida por Rezende (2004), cruzando-os com as pesquisas sobre multimodalidade e a gramática social propostas por Kress e Van Leeuwen (1996; 1998; 2001). Journal of Digital Media & Interaction Vol. 5, No. 13, (2022) 75 3. Transição do corpo biológico aos corpos-stickers O uso da imagem, bem como a representação do corpo, sempre esteve presente no processo de comunicação humana muito antes da invenção das palavras. Através de uma linha cronológica e antropológica que nos possa conduzir a esta associação, podemos relembrar da arte rupestre na préhistória. Desenhada nas paredes das cavernas, a arte rupestre representa a primeira forma de comunicação humana, exprimindo de maneira primitiva a tentativa do homem em reproduzir a linguagem verbal através da linguagem não-verbal. Além disso, apresenta-nos a necessidade primária do homem pré-histórico em reproduzir o corpo como uma forma de linguagem que nos informa e nos aproxima da ação e da emoção - do corpo real e orgânico em movimento. Passadas centenas de milhares de anos, após a invenção da palavra e da escrita, o corpo enquanto representação através da imagem sempre foi motivo de obsessão e fascínio, como afirma Santaella: “o corpo está em todos os lugares. Comentado, transfigurado, pesquisado, dissecado na filosofia, no pensamento feminista, nos estudos culturais, nas ciências naturais e sociais, nas artes e literatura. Nas mídias [nos média], as suas aparições são levadas ao paroxismo” (Santaella, 2004, p. 02). Com a passagem da sociedade industrial para a sociedade da informação, onde as tecnologias imperam em todas as instâncias e dinâmicas da vida em sociedade, o corpo foi ganhando novos significados à medida que as tecnologias, sobretudo de comunicação e informação, passam a determinar novas realidades a forma humana. Sensível a este fenómeno insólito, McLuhan (1995) passa a observar que os meios de comunicação, através das tecnologias, tornaram-se extensão do Homem. Em continuidade, o autor argumenta que “pela tecnologia, prolongamos todos os nossos sentidos e todas as partes do nosso corpo, sentimos a ânsia da necessidade de um consenso externo entre a tecnologia e a experiência que eleva a nossa vida comunal ao nível do consenso mundial” (McLuhan, 1995, p. 128). Baseado nos estudos psicanalíticos de Sigmund Freud e Jacques Lacan, Santaella (2004), no seu estudo “O corpo como sintoma da Cultura”, pondera sobre a obsessão característica do século XXI, em que o corpo transcende a capacidade de ser/estar presente, como sempre foi, nas artes, na filosofia, nas mais variadas áreas da ciência e estudos científicos. Isto deve-se principalmente à integração do corpo no contexto digital e tecnológico, onde este circula livre e distante do peso orgânico e real em que o corpo foi condicionado desde à génese do Homem. Mais adiante, Santaella (2008) avalia que a problematização em torno do corpo, desde as vanguardas artísticas até os vislumbres tecnológicos mais contemporâneos, abriram espaços para os questionamentos em torno do corpo, como não sendo apenas um objeto de representação, mas um construtor de sentidos a serem interpretados. De acordo com Santaella (2008, p. 54), “a intensificação crescente da presença problemática do corpo em todos os campos da arte veio sedimentando o terreno para a emergência das artes do corpo biocibernético, que incorpora o corpo virtual ou corpo digital, isto é, o corpo que imerge e transita pelas arquiteturas líquidas do universo digital. Portanto, a intensificação do problema do corpo em todos os campos da arte foi uma antecipação do papel que o corpo desempenharia nas artes biocibernéticas. Valendo-se dos argumentos de Santaella (2008), os corpos-stickers integram o universo do corpo biocibernético, já que recorrem à tecnologia para virtualizarem-se, digitalizarem-se, sendo passíveis de serem editados, manipulados graficamente, reconfigurando-se em novos corpos que demandam distintas formas de leitura, pois produzem outros significados. Para Erick Felinto e Andrade (2005), Eduardo Faria, Andreza Alves, José Gabriel Andrade 76 atualmente vivemos um modelo de cultura que se distancia da visão do corpo num sentido espiritual, para um modelo que privilegia o corpo, colocando-o como objeto central, com todas as especificações nas suas relações, passando pelas relações sociais, de poder e reconfigurando-se através do uso dos dispositivos tecnológicos. Mas o significado atribuído ao corpo pode também ser alterado conforme o contexto social e cultural ao longo da história. Pensando nisso, Rezende (2004) avalia esta transição de significação e ressignificação dos corpos através dos séculos por meio da ótica pautada na sociedade capitalista em três eixos: industrial, consumista e informacional. Enquanto o primeiro centraliza o corpo na era da Revolução Industrial, considerando-o como uma máquina forte e necessária para a produção de capital, o segundo converte-se em produto de contemplação, passível de investimento estético, alterações médicas, objeto de marketing pessoal e passaporte para o sucesso. Por último, na sociedade da informação – onde contemplamos os corpos-stickers - os corpos necessitam de conexões, tornam-se imagens que reproduzem sensações e são passíveis de serem lidas e codificadas, “atravessam fronteiras geográficas, culturais, profissionais, hierárquicas, capazes de estabelecer contactos pessoais com atores dos mais diferentes” (Rezende, 2004, p. 09). Desta forma, na contemporaneidade o corpo tecnológico exprime, na sua maioria das vezes, comportamentos multimodais. São raras as vezes em que a imagem de um corpo refletido no ecrã não foi passado por um processo de edição, com aplicação de filtros, frases e efeitos que extrapolam a sua relação com a realidade. Para Dionísio (2005, pp. 160-161), a multimodalidade se verifica a partir da utilização de pelo menos dois modos de representação que agem de forma consoante ou dissonante. “Palavras e gestos, palavras e intonações, palavras e imagens, palavras e tipografias, palavras e sorrisos, palavras e animações, etc.” Kress e Van Leeuwen, por sua vez, (2001, p. 03) exprimem que “os recursos multimodais estão disponíveis em uma cultura acostumada a construir significado em cada um dos diferentes sinais, em todos os níveis e de qualquer forma. Onde a linguística tradicional tinha um idioma definido como um sistema que funciona através de dupla articulação, onde uma mensagem era uma articulação entre significante e significado, vemos os textos multimodais como construtores de sentidos em múltiplas articulações”. Sendo assim, numa sociedade cada vez mais digital, que prioriza cada vez mais o que é representado por imagens, a elaboração dos seus significados nos contextos sociais em que estas se inserem, além das novas interpretações que as imagens alcançam nas paisagens semióticas, denotam a necessidade de se pensá-las considerando a sua multimodalidade que representa novas ordens semióticas de significação e de leitura. Os stickers (ou adesivos, em tradução livre) ou mesmo “figurinhas” são recursos comunicacionais que integram a aplicação WhatsApp. Desde outubro de 2018, quando anunciou a novidade no seu blogue, a plataforma de mensagens passou a disponibilizar esta nova forma de comunicação entre os usuários. De maneira simplista, este novo método de comunicação nada mais é do que a evolução dos emoticons i , emojis ii e smiles iii que, desde que surgiram, passaram a fazer parte dos códigos de comunicação nas plataformas digitais. Os stickers são, portanto, desenhos ou imagens que representam expressões digitais próximas das expressões humanas, como também podem ser os próprios humanos imbuídos de emoções representados em imagens multi-modos. Journal of Digital Media & Interaction Vol. 5, No. 13, (2022) 77 Podem ser construídos a partir da captura de imagens fotográficas e ser manipulados e criados em aplicações para Smartphones, como também podem ser fabricados a partir das imagens disponibilizadas na internet ou em aplicações destinadas à criação de figurinhas. É importante ressaltar que, bem antes do WhatsApp, quando a pontuação gráfica dois pontos [ : ] se juntou com o parêntese [ ) ], por exemplo, chegamos semioticamente mais próximos da representação da expressão de felicidade [ :) ]. Portanto, estas possibilidades revelam a incansável busca do Homem em tornar a comunicação digital e tecnológica mais humanizada, sensorial e próxima do real. Sendo assim, o que a aplicação do WhatsApp fez foi democratizar e facilitar a produção e distribuição dos stickers em escala mundial. O relatório da Global Messaging Apps 2019, que analisa o setor de aplicações de mensagens no mundo, produzido pela consultoria americana eMarketer, aponta que o WhatsApp é uma das aplicações mais usadas no mundo para enviar mensagens. Apenas no Brasil mais de 120 milhões de pessoas enviam mensagens pela aplicação mensalmente. No mesmo ano em que o WhatsApp inaugurou a função dos stickers, ele criou também um guia disponível no Google Play Store ou na Apple Store para ensinar quem quisesse criar e disponibilizar os próprios pacotes de figurinhas. A procura pelo corpo virtual como forma de comunicação próxima da realidade também pode ser entendida através da reflexão de Felinto e Andrade (2005) de que “o corpo é o suporte fundamental para as formas de comunicação prese iniciais, que requerem linguagens tais como a fala e os gestos. O corpo, nesse sentido, é a [o] primeira [o] mídia [média]” (Felinto & Andrade, 2005:15). A partir desta visão mais orgânica do corpo como primeiro meio de comunicação e produtor de informação no contacto físico, podemos contemplar a necessidade cada vez mais presente de o transportar, também, para o espaço digital. Apesar das semelhanças com os seus antecessores emoticons, emojis e smiles, os stickers permitem transformar em figurinhas personagens e pessoas diversas (televisão, banda desenhada, música, cinema, atores e atrizes de séries, entre outros), ou até mesmo pessoas próximas como familiares e amigos. Uma vez criadas no meio digital, estas figurinhas editadas com amigos e familiares podem ser compartilhadas com centenas de milhares de pessoas que utilizam o WhatsApp. Há uma década, quando ainda não se falava em stickers e pouco se conhecia sobre o WhatsApp, na sua pesquisa sobre o Discurso da Afetividade nos emoticons, Brito (2008) recorre à Lévy (1998:15) ao afirmar que nós “vivemos numa civilização da imagem.” Portanto, na ocasião, o pesquisador associava o advento dos emoticons como uma tentativa de aproximação da expressão humana denotada de afetividade em contexto digital. “Os emoticons são signos de imagem digital utilizados com freqüência em Chats, principalmente pelos adolescentes, para expressar seus sentimentos. Além disso, são vistos pelos usuários da Internet como uma alternativa de interação comunicativa descomplicada, informal, lúdica; conseqüentemente, mais atrativa”(Brito, 2008, p. 02). Desta maneira, na contemporaneidade, podemos acrescentar que os corpos-stickers assumem a responsabilidade própria e simbólica dos corpos orgânicos de representar imageticamente as suas Eduardo Faria, Andreza Alves, José Gabriel Andrade 78 emoções nos ecrãs dos smartphones, computadores, entre outros dispositivos tecnológicos. Para Germano (2019), as figurinhas (stickers) ajudam a transpor o ambiente gélido e apático que é o ecrã de um telemóvel, que antes era apenas preenchido com texto, tornando este espaço mais descontraído. 4. Stickers: composições objetivas e subjetivas Introduzidos na Sociedade da Informação, na qual o uso das tecnologias dita o dia a dia das pessoas, seja pelo uso dos dispositivos tecnológicos como Smartphones, Tabletes, computadores, ou mesmo conectados à internet via Wi-fi pela TV a cabo, as imagens são convertidas em comunicação. Sendo assim, os corpos-stickers, enquanto imagens, dizem tanto quanto as palavras, revelando informações codificáveis de formas objetivas e subjetivas através de diferentes módulos de linguagem. Como reforçam Lima; Alves e Paiva (2017), recorrendo a Almeida (2000), é notável cada vez mais o entendimento de que as imagens não são utilizadas apenas como apoio aos textos verbais, mas estão tão impregnadas de significados quanto o próprio texto escrito. “Nota-se que a cada dia mais, é preciso o entendimento de que as imagens não se constitúemm apenas enquanto suportes para textos verbais, mas que são tão carregadas de sentido quanto o texto escrito” (Lima et al., 2017, p. 120, apud Almeida, 2000). Por isso, é necessário pensar nas formas de leituras das imagens, nas quais os corpos também são contemplados, recorrendo-se a um modelo de leitura visual mais crítico. Santaella (2008) recorre às ponderações de Palumbo (2008), e observa que o corpo orgânico, desdobrado nas extensões virtuais, imerge num mundo total de experiências, “um mundo no qual podemos adquirir experiências mediadas de dentro e de fora do nosso corpo, de todas as partes do mundo e do universo, o infinitamente pequeno e o infinitamente grande, os tempos e espaços infinitamente imensos das estrelas e os infinitamente mínimos dos átomos” (Santaella, 2008, p. 152, apud Palumbo, 2000, p. 75). Baldanza (2006) refere que as novas tecnologias de comunicação transformam a experiência do corpo. Para ela, “este ambiente, onde a comunicação é realizada por meio de aparatos técnicos, o corpo real dá lugar a outros tipos de representação de emoções, uma vez que na comunicação mediada não há contacto físico e interação entre corpos reais” (Baldanza, 2006, p. 08). Ou seja, onde o corpo orgânico se limita por sua natureza a ficar em frente aos ecrãs dos Smartphones, Tabletes, computadores, entre outros aparatos provenientes das tecnologias, é o corpo tecnológico que liberta o corpo real para navegar nas redes e equipamentos técnicos. Entretanto, na Era da reprodutibilidade técnica antecipada por Benjamin (1985), a reprodução da imagem característica do sistema capitalista distancia-a do seu sentido original enquanto única. Sendo assim, a reprodução de uma imagem pode colocar a cópia num contexto nunca imaginado pelo original. Sob esta ótica, os corpos tecnológicos, enquanto informação, através da reprodução pautada pela multimodalidade que figura no ambiente tecnológico e digital, modificam-se, transfiguram-se ou metamorfoseiam-se a outros significados que requerem novas formas de leituras. Segundo Costa; Nunes e Vanin (2012, p. 04), as relações humanas refletidas na linguagem - e pautadas pela tecnicidade inerente às sociedades tecnológicas em rede -, sofreram alterações ao longo dos anos, intensificadas pela multimodalidade. Desta forma, promoveram mudanças sociais e técnicas que alteram não apenas Journal of Digital Media & Interaction Vol. 5, No. 13, (2022) 79 o próprio indivíduo, como também o sistema cognitivo através da leitura de um mundo com múltiplos modos de ser lido. Os stickers, enquanto corpo tecnológico multimodal, apresenta uma nova oportunidade de repensar a atuação dos corpos-informação. Em alguns casos, a linguagem corporal ou a representação da emoção exposta na imagem age de forma dissonante com outros modos semióticos como a escrita ou colagem digital - como veremos mais adiante na análise. Assim, é necessária uma leitura ora objetiva, ora subjetiva dos elementos multimodais consolidados na composição da imagem, priorizando as conceções teóricas sobre a leitura multimodal. O corpo-informação são os corpos livres nas redes e expostos nos dispositivos tecnológicos responsáveis por potencializar as suas subjetividades por meio da integração de diferentes tipos de linguagens multi-modos, seja através da incorporação do som, do texto escrito, das colagens, bricolages e sobreposições de imagens, como também através das aplicações de filtros que alteram a estética e o design de uma imagem. Como observam Kress e Van Leeuwen (2006), referido nos estudos de Fonte e Caiado, “a maneira como esses modos são combinados pode reforçar a mesma ideia, desempenhar papéis complementares ou hierárquicos, nos quais um determinado modo semiótico predomina em relação ao outro” (Fonte & Caiado, 2014: 477). Sobre o uso massivo dos recursos multimodais na contemporaneidade, Dionísio (2005) pondera “com o advento de novas tecnologias, com muita facilidade se criam novas imagens, novos layouts, bem como se divulgam tais criações para uma ampla audiência. Todos os recursos utilizados na construção dos géneros textuais exercem uma função retórica na construção de sentido dos textos. Cada vez mais se observa a combinação de material visual com a escrita; vivemos, sem dúvida, numa sociedade cada vez mais visual. Representação e imagens não são meramente formas de expressão para divulgação de informações, ou representações naturais, mas são, acima de tudo, textos especialmente construídos que revelam as nossas relações com a sociedade e com o que a sociedade representa” (Dionísio, 2006, pp. 159-160). 5. Caminhos para a análise verbo-visual dos corpos-stickers Como mencionado na introdução, esta reflexão que contempla a análise verbo-visual dos corposstickers no WhatsApp tem como base os preceitos da multimodalidade no contexto da Semiótica Social cunhado por Kress e Van Leeuwen (1996; 1998; 2001). Nestas indicações postuladas pelos estudiosos, para compreender a língua ou uma linguagem em diferentes contextos comunicativos, é preciso considerar como estas interagem com os outros modos semióticos com que se relacionam. Sabendo que a língua faz parte de uma construção social e que a linguagem visual exerce uma função importante no texto e na sociedade, os autores criaram, na década de 80, esta linha de estudos com base na semiótica social, na qual a leitura das linguagens em diferentes contextos é norteada pela multimodalidade. Tendo em vista estas diretrizes, Kress e Van Leeuwen (1996; 2006) elaboraram o quadro teóricometodológico conhecido como The Gramar of Visual Design, partindo do entendimento de que existe correspondência entre as estruturas linguísticas e as estruturas visuais, uma vez que estas expressam experiências particulares e constituem formas de interações sociais. Sendo assim, segundo Kress a Eduardo Faria, Andreza Alves, José Gabriel Andrade 80 Van Leeuwen (1996; 2006) existem três metafunções que eles chamam de significados: representacional, interativa e composicional. Estes significados operam dos seguintes modos: a) representacional – diz respeito à relação entre os participantes e indica o que está a ser apresentado no contexto comunicativo; b) interativa – avalia a relação entre a imagem e o observador participante; c) composicional – indica a relação entre os elementos da imagem, a estrutura e a construção textual e os seus respetivos significados. Muito antes das conceções dos autores, Roland Barthes (1997), que serviu de inspiração para Kress a Van Leeuwen, elaborou alguns trabalhos significativos sobre as relações entre a imagem e o texto e as formas como estes se inter-relacionam. Como base nos conceitos propostos pelo autor, temos três conjeturas significativas que nos permitem fazer uma leitura multimodal através da relação verbal e visual. A primeira forma é a ancoragem, em que o texto apoia a imagem para fazer com que o contexto imagético faça sentido. Podemos citar neste caso as legendas de uma fotografia ou gráficos, no qual têm a função de direcionar a leitura da imagem. Em segundo lugar, temos, de acordo com Barthes (1977), a relação de ilustração, em que a imagem é quem apoia o texto. Neste caso podemos citar como exemplos os cartazes, no qual a imagem é quem esclarece o texto e amplia a informação verbal. E, por último, temos a relação de relay, em que o texto e a imagem atuam de forma complementar, porque ambos são insuficientes, sendo mais difícil compreender o contexto sem a integração destas linguagens. Temos como exemplos as charges e as tiras humorísticas, em que tanto a imagem como o texto dependem um do outro para que o contexto tenha significado. Para Luís Fernando Gomes (s.d.), uma análise multimodal gira em torno de duas perspetivas. A primeira perspetiva parte da “descentralização da linguagem como favorecedora da construção de sentido”, já a segunda conceção parte de “um novo olhar sobre os cada vez mais ténues limites entre os papéis da linguagem, da imagem, do suporte, do leiaute [layout], do desenho, do documento”, entre outros (Gomes, s.d, p. 02). Lima, Alves e Paiva (2017) observam que a gramática visual concebida Kress e Van Leeuwen (1996; 2006) procura estruturar uma síntese visual para imagem em que os leitores/participantes são considerados através da relação com o espaço para produção de sentido, “tanto interferindo nas possibilidades de interpretação, quanto garantindo a sua função comunicativa” (Lima et al. 2017, p. 116). Ou seja, além dos elementos semióticos contidos na construção dos corpos-stickers em grupos de WhatsApp, é preciso considerar a composição do grupo (quem são os membros?) e o espaço geográfico e cultural (de onde são os membros?) em que os grupos se estabelecem, para que a leitura dos corpos faça sentido ou produza algum significado. Posto isto, os fragmentos das mensagens analisados a seguir correspondem a um grupo de mensagens no WhatsApp de estudantes de Mestrado da Universidade do Minho, em Braga, Portugal, com membros entre 23 e 35 anos, todos prevenientes do Brasil. Acrescenta-se ainda a forte relação cultural