Identificaçoes em imagens: As brasas que ainda ardem e fazem sentido na docência
Full text
(DES)TERRITORIALIZAÇÃO DA VIDA EM PERCURSOS INVESTIGATIVOS (AUTO) BIOGRÁFICOS
Nossa missão é a difusão do conhecimento gerado no âmbito acadêmico por meio da organização e da publicação de livros científicos de fácil acesso, de baixo custo financeiro e de alta qualidade! Nossa inspiração é acreditar que a ampla divulgação do conhecimento científico pode mudar para melhor o mundo em que vivemos! Equipe RFB Editora Todo o conteúdo apresentado neste livro é de responsabilidade do(s) autor(es). Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons Atribuição-SemDerivações 4.0 Internacional. Conselho Editorial Prof. Dr. Ednilson Sergio Ramalho de Souza - UFOPA (Editor-Chefe) Prof. Dr. Laecio Nobre de Macedo-UFMA Prof. Dr. Aldrin Vianna de Santana-UNIFAP Profª. Drª. Raquel Silvano Almeida-Unespar Prof. Dr. Carlos Erick Brito de Sousa-UFMA Profª. Drª. Ilka Kassandra Pereira Belfort-Faculdade Laboro Profª. Dr. Renata Cristina Lopes Andrade-FURG Prof. Dr. Elias Rocha Gonçalves-IFF Prof. Dr. Clézio dos Santos-UFRRJ Prof. Dr. Rodrigo Luiz Fabri-UFJF Prof. Dr. Manoel dos Santos Costa-IEMA Prof.ª Drª. Isabella Macário Ferro Cavalcanti-UFPE Prof. Dr. Rodolfo Maduro Almeida-UFOPA Prof. Dr. Deivid Alex dos Santos-UEL Prof.ª Drª. Maria de Fatima Vilhena da Silva-UFPA Prof.ª Drª. Dayse Marinho Martins-IEMA Prof. Dr. Daniel Tarciso Martins Pereira-UFAM Prof.ª Drª. Elane da Silva Barbosa-UERN Prof. Dr. Piter Anderson Severino de Jesus-Université Aix Marseille
Nilton Paulo Ponciano Felipe da Costa Negrão Caroline Barroncas de Oliveira Monica Silva Aikawa Mônica de Oliveira Costa Rodrigo Matos de Souza (Organizadores) Belém-PA RFB Editora 2023 1ª Edição (DES)TERRITORIALIZAÇÃO DA VIDA EM PERCURSOS INVESTIGATIVOS (AUTO) BIOGRÁFICOS
© 2023 Edição brasileira by RFB Editora © 2023 Texto by Autor Todos os direitos reservados Editor-Chefe Prof. Dr. Ednilson Souza Diagramação Worges Editoração Revisão de texto e capa Organizadores Bibliotecária Janaina Karina Alves Trigo Ramos Produtor editorial Nazareno Da Luz RFB Editora CNPJ: 39.242.488/0001-07 www.rfbeditora.com [email protected] 91 98885-7730 Av. Governador José Malcher, nº 153, Sala 12, Nazaré, Belém-PA, CEP 66035065 Catalogação na publicação Elaborada por Bibliotecária Janaina Ramos – CRB-8/9166 D476 (Des)territorialização da vida em percursos investigativos (auto)biográficos / Organizadores Nilton Paulo Ponciano, Felipe da Costa Negrão, Caroline Barroncas de Oliveira, et al. – Belém: RFB, 2023. Outros organizadores: Monica Silva Aikawa, Mônica de Oliveira Costa, Rodrigo Matos de Souza. 450 p., fotos.; 16 X 23 cm Livro em pdf ISBN: 978-65-5889-567-1 DOI: 10.46898/rfb.05bf40ce-2685-4cc0-b334-4648d7887ec3 1. Autobiografia - Aspectos sociais. I. Ponciano, Nilton Paulo (Organizador). II. Negrão, Felipe da Costa (Organizador). III. Oliveira, Caroline Barroncas de (Organizadora). IV. Título. CDD 929.2 Índice para catálogo sistemático I. Autobiografia - Aspectos sociais
SUMÁRIO PREFÁCIO ................................................................................................... 9 PARTE I ESCRITA DE SI, HISTÓRIAS DE VIDA E MEMÓRIA .................. 11 CAPÍTULO 1 MEMÓRIAS FORMATIVAS DE UM PROFESSOR DE MATEMÁTICA: LEMBRANÇAS E RECORDAÇÕES A PARTIR DE SEUS CADERNOS ESCOLARES .................................................................... 13 CAPÍTULO 2 MULHER, PROFESSORA E PESQUISADORA, SIM PARENTE! PERCURSOS (AUTO)FORMATIVOS EM TEMPOS DE PANDEMIA ............................................................................................................. 27 CAPÍTULO 3 RELATOS SOBRE A TRAJETÓRIA DOCENTE DE PROFESSORES EM PÓS-GRADUAÇÃO: CARTAS QUE CONTAM EXPERIÊNCIAS E APRENDIZAGENS ................................................................... 45 CAPÍTULO 4 “O RIO QUE CORRE EM MIM É UM RIO DE MEMÓRIAS”: TRAJETÓRIA DE ESCOLARIZAÇÃO DE UMA MULHER AMAZÔNIDA ............................................................................................................... 61 CAPÍTULO 5 TRAJETÓRIAS DE PESQUISA EM CARTAS (AUTO)BIOGRÁFICAS ............................................................................................................. 75 CAPÍTULO 6 ESTÁGIO SUPERVISIONADO EM NARRATIVAS (AUTO)BIOGRÁFICAS: UMA REFLEXÃO SOBRE OS DESAFIOS DA PROFISSÃO DOCENTE ................................................................................. 89 CAPÍTULO 7 ESCRITAS DE SI: MEMÓRIAS, EXPERIÊNCIAS E VIVÊNCIAS COM A ALFABETIZAÇÃO ................................................................. 103 CAPÍTULO 8 (DES)FOLHAGEM DAS IDEIAS DE CAMPO: UM BORDADO POSSÍVEL COM ENSINO DE CIÊNCIAS ....................................... 117
CAPÍTULO 9 O PROFESSORAR EM PANDEMIA: PROCESSOS DE ENSINO- -APRENDIZAGEM EXPERIENCIAL ................................................ 133 CAPÍTULO 10 MEMORIAIS DE ALFABETIZAÇÃO: EXERCÍCIOS DE POSSIBILIDADES FORMATIVAS NO CURSO DE PEDAGOGIA .......... 147 CAPÍTULO 11 SELMA: ESCREVIVÊNCIAS DE UMA MULHER INDÍGENA .. 161 CAPÍTULO 12 FIOS E MEMÓRIAS: HISTÓRIAS DE VIDA DE PROFESSORES NO TOCANTINS À LUZ DOS ESTUDOS (AUTO)BIOGRÁFICOS .........................................................................................................175 CAPÍTULO 13 NARRATIVAS DA FORMAÇÃO DOCENTE: MEMÓRIAS DA INFÂNCIA E DA DOCÊNCIA NO SEMINÁRIO INTEGRADO .... 187 PARTE II NARRATIVAS, ARTE E IMAGENS .................................................. 202 CAPÍTULO 14 “7 ENCRUZILHADAS”: A NARRATIVA E ESTÉTICA EXULÍSTICA NO PROCESSO DE CRIAÇÃO (AUTO)BIOGRÁFICO EM ARTES ...................................................................................................... 203 CAPÍTULO 15 LINHAS DE FUGA PRODUZIDAS NA FORMAÇÃO DE UM PROFESSOR DE QUÍMICA ........................................................................ 217 CAPÍTULO 16 NARRATIV(ARTE): PESQUISA (AUTO)BIOGRÁFICA QUE NARRA COM ARTE ...................................................................................... 227 CAPÍTULO 17 POR ENTRE UM JARDIM DO CUIDADO DE SI ......................... 241 CAPÍTULO 18 IDENTIFICAÇÕES EM IMAGENS: AS BRASAS QUE AINDA ARDEM E FAZEM SENTIDO NA DOCÊNCIA ................................... 255
PARTE III NARRATIVAS, ESCOLA, CURRÍCULO .......................................... 272 CAPÍTULO 19 NARRATIVAS DE UM ALUNO COM TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO SOBRE A ESCOLA REGULAR .................... 273 CAPÍTULO 20 NAVEGANDO POR CURRÍCULO, EDUCAÇÃO E TRANSDISCIPLINARIDADE ATÉ A FORMAÇÃO “DOS SONHOS” ............. 291 CAPÍTULO 21 ENSINO DE CIÊNCIAS NOS ANOS INICIAIS: FORMAÇÃO, TENSÕES E DEVIRES .......................................................................... 313 CAPÍTULO 22 PERCURSOS FORMATIVOS DE PROFESSORES DO PROEJA: PROCESSOS DE APRENDER A DOCÊNCIA ................................ 327 CAPÍTULO 23 NARRATIVAS PEDAGÓGICAS E POSSIBILIDADES CURRICULARES NA EJA I .................................................................................... 343 CAPÍTULO 24 EDUCAÇÃO INCLUSIVA PARA IMIGRANTES E REFUGIADOS EM UMA ESCOLA MUNICIPAL DE MANAUS ............................ 359 CAPÍTULO 25 O ENSINO DE CIÊNCIAS EM SAÚDE E AMBIENTE COM INSTRUMENTOS PERCUSSIVOS DA AMAZÔNIA E RECICLADOS POR UM PROFESSOR-ARTISTADOR ............................................ 373 CAPÍTULO 26 DO ATO DE REPETIÇÃO AO MOMENTO DE CRIAÇÃO: REGISTRO DE UMA DOCÊNCIA ALFABETIZADORA E O CUIDADO DE SI FOUCAULTIANO ...................................................................... 389
PARTE IV PESQUISA (AUTO)BIOGRÁFICA: QUESTÕES EPISTEMOLÓGICAS ........................................................................................................... 404 CAPÍTULO 27 CONTRIBUTOS À REFLEXÃO DA PESQUISA (AUTO)BIOGRÁFICA: PARA ALÉM DA PENSAMENTO NOMOTÉCNICO ....... 405 CAPÍTULO 28 “SE VOCÊ NÃO SABE PARA ONDE IR, QUALQUER CAMINHO SERVE”: ITINERÁRIOS DE PESQUISADORES NARRATIVOS INICIANTES ........................................................................................... 419 CAPÍTULO 29 BATALHA, MULHERES E PROSTITUIÇÃO: CONTRIBUIÇÕES DA PESQUISA (AUTO)BIOGRÁFICA ............................................. 429 ÍNDICE REMISSIVO ............................................................................ 441 SOBRE OS AUTORES .......................................................................... 444
(DES)TERRITORIALIZAÇÃO DA VIDA EM PERCURSOS INVESTIGATIVOS (AUTO)BIOGRÁFICOS 261 acostumados”. Para permitir “transver” as experiências, para permitir uma reflexão profunda e que faça sentido aos propósitos da pesquisa. As imagens dos documentos registram, alimentam a memória e representam a identificação em cada momento e local vivido, por isso o autor traz alguns deles à conversa da tese, para reforçar a interpretação do vivido, para além de ver e rever, transver e ressignificar aquilo que faz sentido contar. O autor escolhe refletir sobre as imagens das identidades por acreditar que elas tocam o real, que faz sentido transvê-las em outro tempo e lugar, considerando a potência da imaginação para dar conta do real, como ensinou Baudelaire (1868). São imagens que representam relações que ele viveu em determinados lugares ainda lembrados e imaginados. Esses documentos cumprem esse papel, de nos prender aos lugares por determinado tempo, e de nos fazer voltar a eles, quando fotografados e inseridos na tese, influenciando nossas relações pessoais, sociais e institucionais. Para González-Monteagudo (2020, p. 14), as fotografias são decisivas nas autobiografias. Como observa Gumbrecht (1998), elas carregam uma “inscrição das circunstâncias situacionais contingentes” (p. 18), conforme são produzidas. Diante de tantos autores clássicos que discutiram a importância das imagens em diversas áreas e épocas, talvez fosse conveniente fazer uma “arqueologia do saber” para refletir sobre quem nasceu primeiro, a imagem ou a palavra, como assinala Didi-Huberman (2012). Mas, na tese, o autor limita-se a utilizar as imagens como lembranças significativas de tempos que habitam sua mente e fazem sentido para compreender processos de identificação do professor e pesquisador que ele é hoje. Para contar sua história, o autor invoca as imagens dos documentos que o identificaram ao longo da vida, escolhendo as
Nilton Paulo Ponciano e outros 262 vivências que ainda vivem nele, as “cinzas que não esfriaram”. Muitos desses documentos o ajudaram a imaginar identidades fixas que foram se desfazendo e se reconstruindo ao mesclarem-se com outros documentos e outras histórias. O autor reflete sobre o prazer e a satisfação de “receber um cartão ou uma carteirinha nova, toda lindamente colorida e plastificada e de preferência, com foto 3X4” (PERES, 2022, p.63). Ele assume a paixão pelos documentos de identificação, comenta que tem mais de oitenta guardados, uma enorme “sopa de identidades”, como aparece na Imagem 1 da Tese. Figura 1 - Sopa de identidades. As identificações fluidas Fonte: Elaborada pelo autor. A “sopa de identidades” representa o que acontece com as identificações durante nossas trajetórias. Várias são inseridas no “caldeirão” de nossas vidas, umas, como as carnes da sopa, mantêmse mais estáveis, outras, como as massas, ficam mais flexíveis, outras, fragmentam-se, como fazem alguns legumes; outras, já entram fragmentadas e às vezes nem são vistas, mas ajudam a dar o sabor, como os temperos. No entanto, todos os ingredientes contribuem com o sabor da sopa, como todas as identificações dão sentido à vida. Podemos imaginar esse caldeirão de identidades como a escola, com as tentativas de identidades de todos, docentes, alunos, técnicos e comunidades: uma “saborosa” e fluida mistura.
(DES)TERRITORIALIZAÇÃO DA VIDA EM PERCURSOS INVESTIGATIVOS (AUTO)BIOGRÁFICOS 263 Foram escolhidos entre as “cinzas” os documentos que ainda “ardem”. “Mas, para sabê-lo, para senti-lo, é preciso atreverse, é preciso acercar o rosto à cinza. E soprar suavemente para que a brasa, sob as cinzas, volte a emitir seu calor, seu resplendor, seu perigo” (DIDI-HUBERMAN, 2012, p. 216). É o que o autor faz na tese. Uma hermenêutica relacional entre o texto fotográfico e a vida que segue pulsando, perfazendo uma “linha de vida”, que funciona como um mapa do itinerário pessoal, organizado em torno da família, escola, comunidade local e outros quadros socioculturais mais amplos (GONZÁLEZ-MONTEAGUDO, 2020, p. 12). As imagens ajudam a compor a “unidade narrativa” das vivências, como ensinam Clandinin e Connelly (2015). Dentre as imagens dos documentos pessoais de identificação, escolhidas do acervo do autor para serem inseridas na tese, estão a certidão de nascimento, pela qual ele informa que e como está no mundo; um boletim do ensino primário, pelo qual ele informa sobre o que e como está aprendendo; uma identidade estudantil do ensino médio - o primeiro documento com foto, documento de muito orgulho e simbolismo que até hoje embala sentimentos; registro de arma de fogo, que aparece junto com a carteira da biblioteca, para identificar momentos contraditórios, tensos e paradoxais da vida do autor, que viveu 27 anos de sua vida entre armas e livros, no Exército e nas escolas; cartão do banco e do cartão do plano de saúde, demonstrando as necessidades de viver e sobreviver, para pensar na relação com o capitalismo; identidade militar de recruta e de tenente, marcando um largo tempo vivido no quartel, mas entre muitas escolas; cartões de inscrição em vestibulares, lembrando os dilemas dos sonhos de profissões e a realidade imposta; crachá e identificação de professor do IFAM, significando a maior conquista e realização do sonho; passaporte com visto para a Espanha e documento de
Nilton Paulo Ponciano e outros 264 identificação estrangeiro, representando a vivência no doutorado sanduíche em outro lugar, não antes imaginado. Além das imagens dos documentos, é inserida, ainda, uma montagem de fotos de um sítio arqueológico da antiguidade em Itálica, na Espanha, do prédio histórico da Universidade de Sevilha e do campus Coari, para pensar em diferenças, contextos e encantamentos no espaço tridimensional entre “dois mundos”. Por fim, ele insere fotos de reuniões de trabalho do Grupo de Estudos e Pesquisa em Formação Docente (GEPForDoc), de uma roda de conversa com os participantes da pesquisa e do grupo de discussão de um projeto da União Europeia coordenado pelo coorientador, em Sevilha. Essas ações o colocaram nas fronteiras entre as narrativas dominantes que lhe pertenciam anteriormente e a pesquisa narrativa e autobiográfica, permitindo refletir sobre vivência entre trabalhos, pesquisas e afetividades, entre pessoas, para além das posições de identidade. Entre todos esses documentos - que representam dilemas, tensões e paradoxos, devido ao espaço e à natureza deste artigo, escolhemos para apresentar aqui duas imagens que parecem bastante significativas para o autor: a Identidade Estudantil e a Identidade de Professor. A imagem da carteira de estudante do ensino médio é carregada de muita simbologia. A própria institucionalidade do documento é parte importante da história do Brasil, remete ao papel da União Nacional dos Estudantes (UNE) na luta pela democracia e pelos direitos dos brasileiros no contexto da ditadura militar. Enquanto escrevia a tese, o governo do então presidente Bolsonaro agia para retirar da UNE a atribuição de emitir este documento, no claro intuito de desmobilizar o movimento estudantil. O ano, 1985, momento da emissão deste documento, remete ao ano da redemocratização do Brasil. Na época, não falavam sobre isso
(DES)TERRITORIALIZAÇÃO DA VIDA EM PERCURSOS INVESTIGATIVOS (AUTO)BIOGRÁFICOS 265 na escola. O curso propedêutico, que consta no documento, lembra o único curso do ensino médio com formação geral, por isso o mais concorrido, como uma alternativa aos cursos tecnicistas e sem qualquer qualidade, ofertados sob a égide da lei 5.692/71. O documento servia para o transporte, para meia entrada na única sala de cinema da cidade, mas fundamentalmente para ostentar, a primeira identidade com foto, e da escola Presidente Roosevelt, a melhor escola pública da cidade. Mas cabe, ainda, refletir o porquê do “Presidente Roosevelt” para o nome da escola. O documento permite reviver várias experiências, componentes do DPD do autor. Figura 2 - Identidade estudantil Fonte: Elaborada pelo autor. Hoje, como professor da Rede Federal, vendo os empoderados alunos do IFAM, com professores formados nas áreas que atuam e em constante qualificação, o autor percebe que o futuro não repete o passado, que tudo valeu a pena, mas que a luta continua. Por toda a história que aparece na tese, das brincadeiras com os irmãos atuando como professor nos dias de chuva quando morava na roça, passando pelos 27 anos no Exército, chegar a ser professor e pesquisador do IFAM foi uma conquista resultante de persistência e resiliência. Contudo, a história contada demonstra que essa conquista não seria
Nilton Paulo Ponciano e outros 266 possível sem políticas públicas educacionais substantivas, como a ampliação das pós-graduações públicas que lhe garantiu o acesso, e a criação da Rede Federal no governo do Presidente Lula em 2008, hoje perfazendo 661 unidades, em todas as regiões do país. Desse modo, o fato de estar no IF, mereceu ser registrado e celebrado com crachá e cartão de apresentação. Figura 3 - Crachá de professor e cartão de apresentação Fonte: Elaborada pelo autor. O tempo e as relações levaram o Claudio a este lugar. Ali, a identificação foi reforçada com o Crachá de Identificação, com o cordão verde e vermelho escrito IFAM IFAM, IFAM... Igualmente, com um cartão na marca e na cor para se identificar como Coordenador de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação do campus. Por toda sua trajetória, o autor esteve nesse lugar da Educação, porém compartilhando o tempo, os locais e as relações, vivendo em boa parte duas culturas bastante diferentes, no Exército e nas Escolas. Agora, no Instituto, era o tempo de dedicar-se apenas a uma atividade, a educação. Ele imaginava que as tensões e os paradoxos diminuiriam. Ledo engano, descobriu cedo que a profissão de professor exige o desafio de ser muitos, exigindo várias formas de conhecimentos e competências (TARDIF; LESSARD, 2007, p. 20).
(DES)TERRITORIALIZAÇÃO DA VIDA EM PERCURSOS INVESTIGATIVOS (AUTO)BIOGRÁFICOS 267 A condição de professor do IFAM em Coari o colocou entre essa posição de satisfação e de reflexão sobre o que está fazendo, sobre sua formação entendida como DPD. A partir do ingresso no ano de 2015, viveu intenso processo de inserção no mundo da pesquisa, como é relatado em artigo publicado na Revista Brasileira de Pesquisa (Auto) biográfica (PERES, MONTEIRO e GONZÁLEZ-MONTEAGUDO, 2021). As identificações contínuas e plurais como docente e pesquisador que vivenciou no início da carreira o motivaram a estudar, no doutorado, sua própria Instituição, levando-o à produção da tese que ora discutimos, na qual busca ressignificar e ampliar as experiências pelas narrativas refletidas. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS – AS BRASAS QUE AINDA ARDEM A discussão proposta neste trabalho chama a atenção para a importância do uso de imagens pessoais em teses narrativas e (auto) biográficas, quando se percebe que a leitura da história pessoal acompanhada das imagens dos documentos pessoais que marcaram tempos, lugares e relações na vida do autor tornam a leitura mais prazerosa e mais reflexiva. O autor está inserido na história da tese e o leitor interessado no tema por vezes acaba também fazendo parte do enredo e fazendo as relações com sua história enquanto lê. As imagens têm o potencial para ampliar a imaginação e a reflexão sobre as experiências vividas, contribuindo para revivê-las, significá-las e ressignificá-las à medida que o enredo se desenvolve, agregando aprendizagens para quem lê, para quem participa da pesquisa e para quem escreve. A experiência refletida é, por si só, formativa e a tese orientada pela biografia do autor, apoiada pelas imagens e associada às narrativas dos participantes, traz algo inédito
Nilton Paulo Ponciano e outros 268 que é bastante significativo, pois promove relações fundamentais entre os entes envolvidos. Igualmente, as histórias dos participantes da tese se cruzam com as expostas nos documentos de identificação do pesquisador, estabelecendo uma dialética relacional que se manifesta nos tempos, lugares e situações vividas, permitindo pensar o DPD e recontar as histórias a partir de visões múltiplas, mas que trazem o entendimento dos contextos. Essas reflexões são possíveis espaços de aprendizagens sobre o Instituto Federal e as identificações de seus docentes, levando à reflexão sobre a proposição de caminhos promissores para o campo da educação profissional em contextos complexos. 5 AGRADECIMENTOS É sempre um dever de justiça agradecer ao IFAM pelas possibilidades proporcionadas para a realização de pesquisas no campo da Educação, possibilidades de qualificação e de aprendizagens significativas. Também à CAPES, pela possibilidade do doutorado sanduíche no exterior, interrompido prematuramente pela pandemia da Covid 19, mas marcado por vivências e identificações que seguem frutificando no DPD do professor e do pesquisador. REFERÊNCIAS BAUDELAIRE, C. O Governo da Imaginação. Trad. Lívia Cristina Gomes. Rev. Luciana Campos. OEuvres complètes. v. 2. Curiosités esthétiques. Paris: Michel Levy Frères, 1868, p. 269-276. Disponível em: https://chaodafeira.com/wp-content/uploads/2019/10/cad94-baudelaire-1.pdf. Acesso em: 21 out 2021. DIDI-HUBERMAN, G. Quando as imagens tocam o real. PÓS: Revista do Programa de Pós-graduação em Artes da EBA/UFMG, [S. l.],
(DES)TERRITORIALIZAÇÃO DA VIDA EM PERCURSOS INVESTIGATIVOS (AUTO)BIOGRÁFICOS 269 p. 206-219, 2012. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index. php/revistapos/article/view/15454. Acesso em: 2 ago. 2021. FERNÁNDEZ-CRUZ, M. Formación y Desarrollo de Profesionales de la Educación: Un Enfoque Profundo. USA: Deep University Press, 2015. FERRAROTTI, F. Sobre a autonomia do método biográfico. In: NÓVOA, António; FINGER, Matthias. O método (auto)biográfico e a formação. Natal: EDUFRN; São Paulo: Paulus, 2010. p. 21-57. GONZÁLEZ-MONTEAGUDO, J. El Trabajo Biográfico-Narrativo en Investigación y en Formación en el Siglo XXI (2000-2016): Itinerarios, Experiencias y Redes. In: ABRAHÃO, M. H. M. B. A nova aventura (auto)biográfica. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2018. Tomo III. GONZÁLEZ-MONTEAGUDO, J. Técnicas biográficas para a Educação de Jovens e Adultos. Para uma formação experiencial e crítica. Rev. Bras. de Educ. de Jov. e Adultos, v. 7, 2020. GUMBRECHT, H. U. Cascatas de Modernidade. In: Modernização dos Sentidos. São Paulo: Editora 34, 1998. HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva; Guaciara Lopes Louro. 11. ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2019. LOUREIRO, T; SILVA, E. P. Institutos Federais: vontade de universidade ou à vontade da universidade? Linhas Críticas, 28, e40626, https://doi.org/10.26512/lc28202240626, 2022. MARCELO GARCIA, C. Desenvolvimento Profissional Docente: passado e futuro. Sísifo — Revista de Ciências da Educação, Sevilha, n. 08, p. 7-22, jan./abr. 2009.
Nilton Paulo Ponciano e outros 270 MONTEIRO, F. M. A.; SILVA, M. G. Universidade e trabalho docente: repensar para ressignificar. Poiésis, Catalão, v. 02, n. 02, p. 121-136, 2004. MORAES, G. H. Identidade de Escola Técnica vs. Vontade de Universidade — A formação da Identidade dos Institutos Federais. 2016. Tese (Doutorado). Universidade de Brasília, Brasília, 2016. PERES, C. A. Tecendo a Docência nas Diferenças Culturais: Processos de Identificação Docente no Instituto Federal campus Coari - Amazonas. 318 f. Tese (doutorado) - Universidade Federal de Mato Grosso, Instituto de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, Cuiabá, 2022. PERES, C. A.; MONTEIRO, F. M. DE A.; GONZÁLEZ-MONTEAGUDO, J. Processos de identificação na docência: ressignificando experiências no campo da pesquisa. Revista Brasileira de Pesquisa (Auto) biográfica, v. 6, n. 19, p. 973-991, 24 dez. 2021. SILVA, T. T. Documentos de Identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. SOUZA, E. C. (Auto) biografia, histórias de vida e práticas de formação. In: NASCIMENTO, A. D.; HETKOWSKI, T. M. (Org.). Memória e formação de professores. Salvador: Edufba, 2007. p. 59-74. Disponível em: http://books.scielo.org/id/f5jk5/pdf/ nascimento-9788523209186-04.pdf. Acesso em: 17 nov. 2020. TARDIF, M.; LESSARD, C. O. O Trabalho docente: Elementos para uma teoria da docência como profissão de interações humanas. Petrópolis: Vozes, 2007.
