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A acessibilidade na habitação: a privação auditiva e visual

Cabral, Ana Rita Magalhães

Abstract

A arquitetura está diretamente relacionada com o ser humano, sendo através do seu corpo que o espaço é experienciado e vivido, fazendo com que se estabeleça uma relação com o mundo que o rodeia. No entanto, a própria experiência do espaço é subjetiva, dependendo, entre outros fatores, do modo como é percecionado através dos sentidos Portanto, como é que o espaço é experienciado? Qual é o papel dos sentidos na perceção do espaço? Como é que um défice sensorial pode condicionar essa perceção? E como é que a ausência de um sentido pode ser superada? A presente dissertação tem como objetivo a sensibilização para a importância do sistema sensorial na perceção do espaço arquitetónico, ao mesmo tempo que pretende explorar a ausência de sentidos, nomeadamente, a audição e a visão. Deste modo, começa-se com uma abordagem geral dos sentidos e a sua ausência, aproximando-se, gradualmente, à relação individual e pessoal do espaço doméstico através de um questionário a pessoas com défices auditivos e visuais. A análise das condicionantes e dificuldades no uso do espaço doméstico em conjunto com o estudo de casos exemplares permite, ainda, identificar soluções arquitetónicas que podem vir a ser incorporadas na habitação com o intuito de a tornar mais acessível e inclusiva a nível sensorial. Assim, ambiciona-se alcançar uma arquitetura doméstica acessível e inclusiva, que estimule a experiência sensorial e espacial do seu habitante, e ao mesmo tempo, refletir a acessibilidade como uma mais valia e não como uma limitação da arquitetura.

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Universidade do Minho Escola de Arquitetura, Arte e Design Ana Rita Magalhães Cabral A Acessibilidade na Habitação: A Privação Auditiva e Visual janeiro 2022 UMinho | 2022 Ana Rita Magalhães Cabral: A Acessibilidade na Habitação A privação Auditiva e Visual Ana Rita Magalhães Cabral A Acessibilidade na Habitação: A Privação Auditiva e Visual. janeiro 2022 Dissertação de Mestrado Ciclo de Estudos Integrados Conducentes ao Grau de Mestre em Arquitectura Área de Cultura Arquitetónica Trabalho efetuado sob a orientação de Professora Doutora Ana Luísa Rodrigues DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. III V AGRADECIMENTOS Um especial agradecimento à Professora Ana Luísa, que me inspirou e incentivou ao longo de todo o curso com as suas ambições e a sua energia contagiante, especialmente nesta última etapa. A todas as associações, em particular às pessoas que aceitaram participar neste estudo, cujas informações foram essenciais para o desenvolvimento desta dissertação. À EAAD, e a todos os professores, colegas e amigos de curso que me acompanharam no meu percurso académico. Aos meus pais, que me motivaram e incentivaram a dar o meu melhor, acreditando sempre nas minhas capacidades, que acompanharam o meu crescimento pessoal ao longo desta viagem académica e que me ofereceram sempre um abrigo seguro e um ombro amigo quando necessitava. À minha irmã, por toda a atenção e preocupação que dispôs, não só nesta última etapa, mas sim ao longo de toda a minha vida. Pela proximidade que desenvolvemos, pelas correções, ainda que inicialmente não fossem bem aceites, e pela paciência que tem comigo. À Luísa, à Mena e ao António, por me acompanharem diariamente e por todo o carinho e apoio que me deram ao longo deste percurso. Ao João, pelo carinho, preocupação, motivação e apoio constante que demonstra e pela paciência e boa disposição que tem para lidar com os meus caprichos diariamente. Ao Rúben, por me ajudar a melhorar e pela partilha da sua opinião como de costume. Ao Henrique, ao Pedro e à Francisca pela amizade que desenvolvemos ao longo do curso, e que levo para o resto da vida, pela paciência e boa energia que tiveram com os meus devaneios, e pela ajuda e disponibilidade que dispuseram quando necessário. Ao Rummy, que me anima sempre e que me fez companhia ao longo desta dissertação. VI DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. RESUMO VII ACESSIBILIDADE | AUSÊNCIA | INCLUSÃO | PERCEÇÃO | SENTIDOS A arquitetura está diretamente relacionada com o ser humano, sendo através do seu corpo que o espaço é experienciado e vivido, fazendo com que se estabeleça uma relação com o mundo que o rodeia. No entanto, a própria experiência do espaço é subjetiva, dependendo, entre outros fatores, do modo como é percecionado através dos sentidos Portanto, como é que o espaço é experienciado? Qual é o papel dos sentidos na perceção do espaço? Como é que um défice sensorial pode condicionar essa perceção? E como é que a ausência de um sentido pode ser superada? A presente dissertação tem como objetivo a sensibilização para a importância do sistema sensorial na perceção do espaço arquitetónico, ao mesmo tempo que pretende explorar a ausência de sentidos, nomeadamente, a audição e a visão. Deste modo, começa-se com uma abordagem geral dos sentidos e a sua ausência, aproximando-se, gradualmente, à relação individual e pessoal do espaço doméstico através de um questionário a pessoas com défices auditivos e visuais. A análise das condicionantes e dificuldades no uso do espaço doméstico em conjunto com o estudo de casos exemplares permite, ainda, identificar soluções arquitetónicas que podem vir a ser incorporadas na habitação com o intuito de a tornar mais acessível e inclusiva a nível sensorial. Assim, ambiciona-se alcançar uma arquitetura doméstica acessível e inclusiva, que estimule a experiência sensorial e espacial do seu habitante, e ao mesmo tempo, refletir a acessibilidade como uma mais valia e não como uma limitação da arquitetura. 14 para que lhes sejam acessíveis, o mesmo não se verifica relativamente aos défices sensoriais. Deste modo, surge o interesse em explorar os sentidos e a sua ausência, para compreender a influência que estes possuem na perceção do espaço e como é que a privação de um ou mais sentidos é superada. Manifesta-se também um interesse em analisar a acessibilidade para défices sensoriais, nomeadamente auditivos e visuais, no âmbito da habitação, de forma a identificar soluções arquitetónicas que possibilitem uma experiência mais completa, inclusiva e acessível. “We do not have to adapt ourselves to the environment. It is the environment which has to be adapted to us.” 7 A relação entre os sentidos e o espaço arquitetónico já foi estudada e relatada por vários autores e investigadores. Livros como ““The eyes of the skin: Senses and architecture”, de Juhani Pallasmaa, “The hidden Dimension”, de Edward Hall, “Experiencing Architecture”, de Stenn Eiler Rasmussen, e “Questions of percepetion”, de Steven Holl, Juhani Pallasmaa e Alberto Pérez-Gômez, debatem a mesma temática da arquitetura sensorial, abordando a forma como o ser humano interage com o espaço e o perceciona através dos sentidos e do próprio corpo. Para além de livros, existem algumas dissertações de mestrado que se focam no mesmo tema, analisando casos de estudo: “Arquitetura com sentido(s): Os sentidos como modo de viver a arquitetura”, por Hugo Gamboias; e “A arquitetura como um estímulo sensorial. Villa Muller, a interpretação da essência de um espaço” por Cátia Pereira. No que diz respeito à ausência de sentidos e à acessibilidade sensorial, encontram-se alguns estudos e artigos que permitem perceber a influência que a falta de um sentido tem na perceção e experiência 7 HADJIPHILIPPOU, Panagiotis - The contribution of the five human senses towards the perception of space. p.3 15 do espaço e, também, como é que a arquitetura pode ser projetada de forma acessível, como por exemplo: “The senses: Design beyond vision”, de Andrea Lipps e Ellen Lupton; “How designing with all our senses creates a more inclusive world?”, de Ben Willis; e, por último, “The fast guide to accessibility design”, de Baires Raffaelli. Para além disso, existem referências que exploram individualmente cada défice sensorial, auditivos e visuais, analisando a forma como se movimentam pelo espaço construído e, ao mesmo tempo, procurando soluções arquitetónicas que tornem a utilização do mesmo mais acessível e descomplicada: a dissertação “Re(ver) o habitar: a casa de uma pessoa invisual”, de Margarida D’Alte; “Designing for all the senses: Accessible spaces for visually impaired citizens”, de Marta Dischinger; o trabalho de Camila Arias, “A arquitetura como instrumento do projeto inclusivo: percepção do surdocego”; a dissertação “Blind House”: Exploração dos sentidos enquanto perceção espacial na habitação”, de Daniel Gonçalves; o artigo “A neurologist’s notebook the mind’s eye. What the blind see” e o livro “Seeing voices: A journey into the world of the deaf.”, de Oliver Sacks. Os livros “On Sight & Insight: a journey into the world of blindness”, de John Hull e “The feel of silence”, de Bonnie Tucker, retratam a experiência real dos autores, que possuem défices visual e auditivo respetivamente, e permitem demonstrar o processo de adaptação da perceção do espaço e dos seus modos de vida. Contudo, a presente dissertação diferencia-se das referências citadas anteriormente, uma vez que pretende analisar a influência dos sentidos e da sua ausência na perceção do espaço e conjugar informações acerca de dois défices sensoriais, nomeadamente auditivos e visuais, tentando identificar soluções arquitetónicas a incorporar na habitação. Ambiciona, ao mesmo tempo, verificar a possibilidade de 16 uma arquitetura doméstica acessível a ambos, sem comprometer a experiência do ser humano, tentando alcançar uma arquitetura sem barreiras, universal, inclusiva e acessível. A dissertação desenvolve-se ao longo de cinco capítulos, sendo que: os dois primeiros focam-se em analisar o sistema sensorial do homem e ausência de sentidos; o terceiro e o quarto concentram-se nos défices sensoriais e na arquitetura acessível; e o último conjuga as informações de todos os capítulos para ponderar a existência de uma arquitetura acessível e inclusiva. O primeiro capítulo, 1. Experiência Sensorial: Arquitetura Sensorial, procura analisar o papel dos sentidos: Como é que se perceciona o espaço através dos sentidos? Que tipo de informações fornecem? Como é que influenciam a perceção do espaço físico? Ao mesmo tempo que se tenta dissolver a ideia da Visão ser o sentido principal para a perceção do espaço. No que diz respeito ao segundo capítulo, 2. Défices sensoriais: Ausência de Sentidos, abordam-se os défices sensoriais, sendo o grupo de estudo restringido apenas para os défices auditivos e visuais, por terem uma presença mais significativa8 e por aparentarem ser os mais limitativos na perceção arquitetónica. Começando por aprofundar as especificidades do grupo de estudo, conseguem-se identificar as dificuldades que cada um dos défices sensoriais implica para a perceção do espaço arquitetónico, bem como o modo de compensar a ausência de um ou mais sentidos. Posteriormente, identificamse as dificuldades de cada défice sensorial na perceção do espaço arquitetónico e, ao mesmo tempo, como é que cada pessoa supera a ausência do sentido. O terceiro capítulo, 3. O indivíduo: Especificidades, apresenta os resultados de um questionário, realizado em conjunto com várias 8 De acordo com o censo de 2001 da PORDATA, apesar de existirem outros défices sensoriais, apenas são relatados défices auditivos e visuais e apresentam um número considerável. 17 associações portuguesas e os seus membros com o objetivo de obter informações mais pessoais sobre a forma como as pessoas com os défices sensoriais em questão percecionam o espaço. Como é que uma pessoa com défice auditivo/visual perceciona o espaço arquitetónico? Será a arquitetura acessível e inclusiva para pessoas com estes défices sensoriais? Quais são os obstáculos que enfrenta ao utilizar a habitação? Este questionário permite ainda sintetizar as dificuldades, estratégias de auxílio e a perspetiva que o participante possui ao utilizar a sua habitação, ao mesmo tempo que tenta estabelecer uma proximidade com o indivíduo. Por outro lado, no quarto capítulo, 4. A Arquitetura: Casos Exemplares, analisam-se projetos de arquitetura desenhados especificamente para pessoas com défices auditivos ou défices visuais, de forma a identificar e verificar soluções arquitetónicas já comprovadas, que possam ser aplicadas na habitação para resolver as dificuldades do grupo de estudo. Por fim, o quinto capítulo, 5. Ilações Finais: Análise Interpretativa, valida e sintetiza os resultados do terceiro e quarto capítulos, verificando as soluções arquitetónicas que tornam a arquitetura acessível, e tentando responder à questão principal: É possível criar uma arquitetura doméstica acessível a ambos os défices sensoriais, sem comprometer a experiência do ser humano? Ao longo da dissertação, são apresentados esquemas desenhados pelo autor, que permitem demonstrar graficamente o que é descrito e analisado. Como tal, é desenhado um perfil para cada défice sensorial que é utilizado ao longo do trabalho. A presente dissertação pretende explorar a relação entre a arquitetura e o indivíduo, demonstrando a importância do sistema sensorial e a Esquema 1. Perfil de défice auditivo. Esquema 2. Perfil de défice visual. Alçado Planta Perfil Alçado Planta Perfil 18 forma como os cincos sentidos influenciam a perceção do espaço. Para além disso, analisa-se a ausência dos sentidos, tentando compreender como é que as pessoas com défices sensoriais percecionam o espaço, como superam a ausência de um dos sentidos e quais as dificuldades que enfrentam ao utilizarem o espaço, de forma a identificar soluções arquitetónicas que facilitem a sua perceção e uso. Procura despertar uma vontade de repensar a arquitetura a nível sensorial, de forma a que esta seja estimulante para o indivíduo que a habita e ao mesmo tempo acessível e inclusiva. 20 1. 2. 21 1. EXPERIÊNCIA SENSORIAL: ARQUITETURA SENSORIAL “Every touching experience of architecture is multi-sensory: qualities of space, matter and scale are measured equally by the eye, ear, nose, skin, skeleton and muscle.” 1 Este capítulo tem como objetivo analisar a forma como o ser humano experiencia o espaço e o mundo envolvente, refletindo acerca da importância do seu sistema sensorial para a perceção e interpretação de um espaço. Ao mesmo tempo, pretende-se contrariar o predomínio da visão demonstrando como se pode obter uma experiência mais completa através da estimulação de todos os cinco sentidos. Assim, explora-se cada um dos sentidos de forma a compreender qual o seu papel e a sua importância na experiência sensorial de um espaço. 3. 4. 5. 22 Figura 6. Alegoria dos cinco sentidos 23 “We judge the scale of a building in relation to our own limbs and torsos. As we pass through a doorway, space hugs us tight and then lets us go.” 2 O ser humano experiencia o mundo e o espaço através do corpo.3 Este está em constante interação com a envolvente sendo através deste que se captam as informações do meio envolvente. É através da experiência que conseguimos entender e percecionar o que nos rodeia. O sistema sensorial do homem, composto pelos principais sentidos – audição, olfato, paladar, tato e visão – que, através dos recetores sensoriais, conseguem obter informações sobre o meio envolvente, desempenha um papel fundamental na perceção do mundo onde habita, e faz com que se estabeleça uma relação íntima com o mesmo. Os recetores sensoriais são responsáveis por captar os dados e informações do meio envolvente, e podem ser distinguidos em dois tipos: os recetores à distância, que obtêm informações mais distantes com um afastamento ainda considerável; e os recetores imediatos, que recebem a informação através do contacto direto e implicam uma maior proximidade. 4 Considera-se como recetores à distância os olhos, o nariz e os ouvidos, correspondendo respetivamente aos sentidos da visão, do olfato e da audição, e como recetores imediatos a pele e a língua, constituindo os sentidos do tato e do paladar. O paladar pode ser considerado uma extensão do tato,5 uma vez que o recetor entra em contacto direto com o objeto e, também, porque consegue captar, para além do sabor, informações idênticas ao tato, como por exemplo a textura do objeto e a sua temperatura. Ao obter as informações, os recetores transmitem-nas através de 1 PALLASMAA, Juhani – The eyes of the skin: Architecture and the senses, pág. 45 2 LIPPS, Andrea; LUPTON, Ellen – The senses: Design beyond vision, pág.17 3 Rasmussen refere que o ser humano desde pequeno que experiencia o mundo através do corpo, experimentando e tocando o que o rodeia. “O bebé nasce incapacitado e começa por provar coisas, toca-as, manusea-as, gatinha sobre elas, a fim de descobrir de que natureza são, se são favoráveis ou hostis. Mas aprende rapidamente a usar todo o tipo de artimanhas e assim evitar as experiências mais desagradáveis.” Rasmussen, Steen Eiler – Viver a Arquitetura, pág. 15 4 Existem vários tipos de recetores sensoriais que podem ser classificados considerando o tipo de célula que possuem, a posição onde se encontram ou a sua função, de acordo com o livro “Anatomy and Physiology”. No entanto, neste caso, opta-se por considerar os recetores sensoriais conforme a forma como a informação é recebida, imediata ou à distância, tal como Edward T. Hall os caracteriza, no livro “The Hidden Dimension”, referindo dois tipos de recetores sensoriais. Ver: HALL, Edward – The Hidden Dimension. 5 Ver: LIPPS, Andrea; LUPTON, Ellen – The senses: Design beyond vision 30 Figura 13. A melodia 31 AUDIÇÃO “A maioria das pessoas diria provavelmente que, como a arquitetura não produz sons, não pode ser ouvida. Mas ela também não irradia luz e, no entanto, podemos vê-la.” 22 A audição permite descodificar, entender e distinguir os vários sons presentes no meio envolvente do ser humano através das vibrações. Tem como recetor sensorial os ouvidos que servem como um canal que encaminha as ondas sonoras até ao cérebro, onde vão ser identificados os diferentes sons. 23 A audição é um dos sentidos mais presentes, sendo que por vezes o ser humano tem tendência a ignorar a informação que recebe a partir dos ouvidos.24 Ao habituar-se ao ruído e aos barulhos de fundo, ignora, muitas vezes inconscientemente, a informação que os ouvidos transmitem. Por outro lado, se não existir qualquer ruído sente que falta algo, ou seja, o ruído não permite que a informação sonora seja compreendida, mas, ao mesmo tempo, se não existir, cria uma sensação de estranheza pelo silêncio que se instala. Com este hábito de ignorar os sons secundários, o homem desconsidera a audição como um elemento importante para a compreensão do espaço, dando o privilégio à visão. No entanto, o som dentro de um espaço arquitetónico consegue transmitir informações sobre a sua escala, a sua forma, a sua materialidade entre outras características.25 Mesmo que não lhe seja dada a devida importância, ou que o ser humano não se aperceba da informação que recebe, a audição é um dos elementos que permite decifrar o espaço sem o observar fisicamente. 26 22 RASMUSSEN, Steen Eiler – Viver a Arquitetura, pág. 186 23 Ver: OpenStax College, Anatomy & Physiology. 24 “Raramente nos apercebemos do quanto podemos ouvi-la (arquitetura).” RASMUSSEN, Steen Eiler – Viver a Arquitetura. pág.15 25 No livro “Viver a Arquitetura”, Steen Eiler Rasmussen apresenta o exemplo de um túnel para demonstrar a eficácia da audição para transmitir informações acerca da forma e profundidade do mesmo. Ver: RASMUSSEN, Steen Eiler – Viver a Arquitetura 26 “the sound measures space and makes its scale comprehensible.” PALLASMAA, Juhani – The eyes of the skin: Architecture and the senses, pág. 55 32 “Recintos de formatos e materiais diferentes reverberam de modo diverso.” 27 Como já foi referido anteriormente, a audição apresenta um recetor à distância que permite captar os sons sem contacto imediato e a uma distância considerável. No entanto, por exemplo, ao contrário da visão que permite absorver informações imediatas a uma distância elevada, a audição torna-se mais eficaz quanto mais pequena e menos extensa for a área onde o ser humano se encontra. Num espaço fechado, o ser humano consegue receber e sentir as vibrações do som de uma forma mais imediata e correta do que num espaço amplo sem qualquer limite. Num espaço delimitado, as ondas sonoras são refletidas pelos elementos físicos do próprio espaço - como as paredes ou o mobiliário – fornecendo informações sobre a sua forma, escala, dimensão, materialidade, entre outras características.28 Por exemplo, o eco é um elemento presente em edifícios de escala maior, que nos permite compreender a dimensão do espaço e a sua materialidade. O som numa catedral antiga de pedra cria um eco que nos transmite a sua verticalidade e escala, e também a sua materialidade.29 Enquanto que o mesmo som num espaço pequeno forrado a madeira e tecidos, não vai possuir o eco que uma catedral apresenta, uma vez que a sua materialidade absorve o som em vez de o refletir, eliminando a reverberação. Apesar da informação ser maioritariamente recebida através dos ouvidos, todo o corpo do ser humano é um recetor de reverberação do som. Absorve e sente a reverberação, e, assim, consegue obter informações do espaço onde se encontra e, ao mesmo tempo, faz com que o homem se aperceba da sua presença física. Para além disso, o som pode ajudar a criar espaços mais apelativos e 27 RASMUSSEN, Steen Eiler – Viver a Arquitetura. pág.15 28 O livro “The senses: Design beyond vision”, apresenta a forma como a materialidade do espaço influencia a experiência sonora, sendo que materiais mais rígidos tornam o som mais indefinido enquanto que materiais mais suaves absorvem o som e tornam-no mais claro e limpo. Ver: LIPPS, Andrea; LUPTON, Ellen – The senses: Design beyond vision. 29 “The live reflection of eco and re-echo within a stone cathedral increases our awareness of the vastness, geometry and material of its space.” HOLL, Steven; PALLASMAA, Juhani; PÉREZ-GÔMEZ, Alberto – Questions of perception: Phenomenology of architecture. pág. 87 33 Figura 14 e 15. Paley Park, Robert Zion - 1967, Nova Iorque. Parque projetado com elementos sonoros que eliminam a poluição sonora comum na cidade. com uma atmosfera mais agradável. Ao analisar o projeto Paley Park, desenhado por Robert Zion, consegue-se entender a influência que o som possui para camuflar ruídos secundários. Este espaço localizase no centro da cidade de Nova Iorque, rodeado por três grandes edifícios e encontra-se perto da rua. O espaço, seria dominado pela poluição sonora presente na cidade tendo em conta a sua localização. No entanto, apresenta uma grande parede de água, com seis metros de altura, que elimina os barulhos de fundo característicos do ambiente citadino. Ao recorrer a elementos sonoros, o parque torna-se um recanto agradável no centro da cidade, afastado dos ruídos, da confusão e de todo o movimento presente no seu quotidiano. A memória também possui uma relação próxima com a audição. Esta consegue preencher a ideia do som que algo vai causar. Ao ver um vídeo sem som, é possível imaginar o som que é provocado pelo toque de dois objetos ou pelos fenómenos naturais, como por exemplo a chuva, ou até da própria voz de uma pessoa a falar, mesmo que o timbre não seja o mesmo. Conclui-se então que a audição possui a capacidade de informar sobre vários elementos do espaço, principalmente acerca da sua escala, materialidade e dimensões. Mesmo que por vezes se descarte a informação que se recebe, a audição tem um papel fundamental para a perceção e compreensão do meio envolvente. Não só permite a compreensão do próprio espaço, como também faz com que se sinta a presença física do corpo no espaço que se encontra. 34 Figura 16. A essência 35 OLFATO “A particular smell makes us unknowingly re-enter a space completely forgotten by the retinal memory;” 30 O olfato é um dos sentidos mais primário e mais discriminatório, podendo identificar mais de mil aromas diferentes.31 Tal como a audição e a visão, este sentido possui um recetor à distância – o nariz – que capta os cheiros presentes no espaço onde o homem se encontra, e transmite-os através de estímulos olfativos ao cérebro, identificando assim o aroma cheirado. Existem diversos tipos de cheiros e com diferentes intensidades. Para isso, o olfato necessita de se adaptar aos vários cheiros e às várias intensidades que estes apresentam de forma a conseguir ignorá-los para receber novas informações olfativas. Ou seja, depois de um cheiro ser interpretado e identificado este continua presente no espaço, sendo sempre captado pelo recetor olfativo. Porém, após algum tempo, o mesmo cheiro já não manifesta a mesma intensidade, dado que o nariz já se adaptou e habituou ao cheiro, acabando por desvanecer e tornando-se menos significativo. Outra característica do olfato é que este é ilimitado e diversificado, e por vezes indefinido. Isto é, nem sempre é possível identificar o próprio cheiro nem nomeá-lo. E, por vezes, o ser humano associa-o ao espaço onde o deteta, como por exemplo o “cheiro a hospital” que é reconhecido pelas pessoas, mas que não possui um nome específico.32 O olfato é o sentido que mais está relacionado com a memória. Acaba por ser a memória mais vívida que se consegue reter de um espaço, 30 PALLASMAA, Juhani – The eyes of the skin: Architecture and the senses, pág. 58 31 LIPPS, Andrea; LUPTON, Ellen – The senses: Design beyond vision, pág.67 32 No trabalho de Panagiotis, “ The contribution of the five humam senses towards the perception of space”, este refere que não é possível nomear todos os cheiros detetados pelo ser humano, sendo que muitas vezes são associadas qualidades do próprio espaço onde são detetados. Ver: HADJIPHILIPPOU, Panagiotis - The contribution of the five human senses towards the perception of space. 36 Figura 17 e 18. “Sensing Spaces, Kengo Kuma. Instalação artística que enfatiza o papel do cheiro no espaço, remetendo para a memória do autor. permitindo realizar uma viagem no tempo para onde o aroma foi cheirado pela primeira vez.33 No entanto, é muito difícil relembrar o cheiro de algo, de um objeto, de um elemento natural, e descrevê-lo mesmo que já exista uma experiência anterior com ele. 34 A princípio, o olfato apresenta-se como um sentido indiferente para a perceção do espaço, porém este fica para sempre guardado na memória inconscientemente. O ser humano pode não se aperceber das informações que retira do espaço através deste sentido, contudo estas ficam presentes no seu íntimo e conseguem relembrá-lo de espaços que já habitou e vivenciou. No entanto, a ausência do cheiro no espaço torna-o vago e comum, sem traços únicos e distintos que o caracterizam. Sem o olfato, não existe a relação íntima, inconsciente e característica deste sentido com a memória do ser humano, sendo apenas mais um espaço sem essência. 35 Para realçar a relação entre o olfato e a memória, o arquiteto Kengo Kuma para a exposição “Sensing Spaces” projeta uma instalação que remete para a experiência corporal enfatizando a importância do olfato no espaço arquitetónico. Esta é um símbolo dos aromas que relembram a casa onde o arquiteto cresceu, com cheiros característicos das casas japonesas – como por exemplo o hinoki, um tipo de cedro japonês, e o tatami, um tapete de palha tradicional utilizado nos pavimentos de piso. O próprio arquiteto afirma que “o conceito era minimizar os materiais, mas maximizar os sentidos” . Assim, a instalação destaca o sentido do olfato, desconstruindo a ideia pré-concebida que se possui do aspeto dos materiais e obrigando os espectadores a experienciar a instalação artística através do olfato. Para além da vertente da memória, o olfato também pode ser utilizado para a orientação e localização do ser humano num espaço. O cheiro tem a qualidade de conseguir orientar o ser humano, mesmo que este 33 “The most persistent memory of any space is often its smell.(…) A particular smell makes us unknowingly re-enter a space completely forgotten by the retinal memory;” PALLASMAA, Juhani – The eyes of the skin: Architecture and the senses, pág. 58 34 “It’s easy to recall the shape and color of a lemon, but almost impossible to conjure up its absent scent.” LIPPS, Andrea; LUPTON, Ellen – The senses: Design beyond vision, pág.53 35 Ver: HALL, Edward – The Hidden Dimension. 37 não se aperceba desse facto. Uma verdadeira experiência olfativa é caminhar por uma cidade e sentir todos os aromas a serem recebidos, processados e interpretados pelo cérebro. Neste caso, o homem é constantemente abordado por diferentes aromas: das lojas, dos jardins, das padarias e pastelarias, das pessoas, entre outros. E, de certa forma, consegue localizar-se na cidade através da ajuda do olfato. 36 36 “In the typical French town, one may savor the smell of coffee, spices, vegetables, freshly plucked fowl, clean laundry, and the characteristic odor of outdoor cafes. Olfactions of this type can provide a sense of life; the shifts and the transitions not only help to locate one in space but add zest to daily living.” HALL, Edward – The Hidden Dimension. pág. 50 38 Figura 19. O Gosto 39 PALADAR “The brain fuses together scent, taste, texture and other qualities. Flavor is a unified sensory object -a Gestalt – that unfurls in time and space.” 37 O paladar permite obter informações gustativas de certos objetos onde possa existir contacto direto com o recetor sensorial – a língua. A língua é o recetor que transmite os estímulos gustativos e que permite descodificar os sabores.38 No entanto, consegue apenas distinguir cinco sabores, sendo eles: o salgado, o doce, o azedo, o amargo e o umami – que se traduz como sabor delicioso e está normalmente associado ao salgado. 39 A mente do ser humano não consegue associar todos os objetos comestíveis a apenas estes cinco palatos identificáveis. Isto porque, associando o paladar com o olfato é possível reconhecer mais estímulos gustativos e diversifica-los em vários sabores. No processo gustativo, o nariz recebe informações sobre o aroma presente no objeto a ser ingerido e, juntamente com as informações captadas pela língua, o sabor que se deteta torna-se em algo mais do que apenas salgado, doce, azedo ou amargo. 40 O auxílio do olfato na experiência gustativa pode-se verificar ao observar o trabalho de um enólogo: a primeira coisa que este faz antes de provar o vinho é cheirá-lo. De seguida, antes de o ingerir, este deixa por algum tempo o produto na boca para ativar todas as papilas gustativas presentes na língua e, assim, retirar o máximo de informação e estimular os diferentes sabores presentes no vinho com a ajuda do olfato. 37 LIPPS, Andrea; LUPTON, Ellen – The senses: Design beyond vision, pág.70 38 Ver: OpenStax College, Anatomy & Physiology. 39 “taste buds are tuned to differentiate just five channels: sweet, slaty, sour, bitter and umami.” LIPPS, Andrea; LUPTON, Ellen – The senses: Design beyond vision, pág.66 40 “The brain stem sends along taste signals to higher level areas of the brain, where they merge with aroma and other sensations to build a full perception of flavor.” LIPPS, Andrea; LUPTON, Ellen – The senses: Design beyond vision, pág.68 46 uma reflexão acerca da importância da materialidade no espaço, que o torna mais completo e distinto dos restantes. O toque permite tornar a experiência de um espaço mais rica. A utilização de diferentes materialidades vai enriquecer o espaço e estimular o interesse e o prazer do tato, de tocar nas superfícies e sentir as diferentes texturas e temperaturas que possuem. 50 O tato estabelece um contacto profundo com o espaço a vários níveis, que nem sempre são considerados pelo ser humano. Apesar não ter consciência da informação que recebe através deste sentido, o tato desempenha um papel fundamental para a experiência sensorial do espaço, podendo, até, influenciar e determinar a experiência em si. 50 “When the materiality of the details forming an architectural space become evident, the haptic realm is opened up. Sensory experience is intensified, psychological dimensions are engaged.” HOLL, Steven; PALLASMAA, Juhani; PÉREZ-GÔMEZ, Alberto – Questions of perception: Phenomenology of architecture. pág. 91 48 Figura 25. O Ver 49 VISÃO “through vision we touch the sun and the stars” 51 A visão é considerada o sentido predominante e que permite obter o máximo de informação sobre o que rodeia o ser humano e de uma forma mais imediata. Esta possui os olhos como recetores sensoriais, que recebem a informação à distância através das cores e da luz e sombra presentes no espaço.52 Estas informações transformam-se em imagens visuais interpretadas pelo cérebro, permitindo entender o espaço. Sendo o sentido mais imediato e utilizado pelo ser humano, a visão ajuda a obter informações gerais sobre o meio envolvente, como a localização dos objetos e pessoas, o movimento e as suas características. Para além disso, o sentido da visão é aperfeiçoado com a prática e com a rotina, através de um processo de repetição. Por um lado, a visão permite obter uma quantidade elevada de informações de uma forma quase imediata, mas, por outro lado, quando utilizada com os outros sentidos, permite uma experiência sensorial mais abrangente e completa. 53 A visão, com o auxílio da memória, possibilita a identificação do cheiro, toque, som, ou até sabor de certos objetos e elementos, dado que já existiu um contacto com o mesmo antes. Dessa forma, a visão estimula também sensações relacionadas com os outros sentidos.54 A cor também desempenha um papel fundamental para a perceção do espaço e a sua interpretação. Apesar de inicialmente não serem consideradas, as cores têm um efeito no íntimo e no psicológico do ser humano, podendo afetar a sua perceção e as suas experiências.55 51 Citação de Merleau-Ponty retirada do livro “The eyes of the skin: Architecture and the senses”, de Juhanni Pallasmaa, pág.45 52 Ver: OpenStax College, Anatomy & Physiology. 53 “Our eyes stroke distant surfaces, contours and edges, and the unconscious tactile sensation determines the agreeableness or unpleasantness of the experience.” PALLASMAA, Juhani – The eyes of the skin: Architecture and the senses, pág. 46 54 “The sense of sight may incorporate, and even reinforce, other sense modalities; the unconscious tactile ingredient in vision is particularly important and strongly present in historical architecture, but badly neglected in the architecture of our time.” PALLASMAA, Juhani – The eyes of the skin: Architecture and the senses, pág. 29 55 Em “A psicologia das cores: Como atuam as cores sobre os sentimentos e a razão”, de Eva Heller, é realizado um estudo de forma a perceber as emoções e sensações que são provocadas nas pessoas relativamente a treze cores. Conclui-se, então, que as cores e sentimentos estão associados e enraizados na cultura, na língua e no pensamento de cada pessoa. Ver: HELLER, Eva – A psicologia das cores: Como atuam as cores sobre os sentimentos e a razão. 50 Figura 26, 27 e 28. Casa Barragan. Obra do arquiteto Lui Barragan, que possui uma linguagem muito visual. Este utiliza a cor para caracterizar cada espaço, conferindo-lhes ambientes diferentes. Uma simples cor pode transmitir e estimular diferentes emoções e sensações, e com a visão é possível captar estas informações que acabam por enriquecer e definir a experiência do homem no espaço arquitetónico. Por exemplo a cor branca está associada à pureza, à inocência e à paz nos países ocidentais, sendo muitas vezes utilizada em vestidos de casamento. No entanto, nos países orientais, a mesma cor é associada ao oposto apresentando-se como símbolo de luto, morte, e muitas vezes utilizada em funerais.56 Assim, entende-se a relação que as cores podem ter com a cultura a que se pertence e os vários significados que podem deter. Ao analisar a obra “Casa Barragán”, do arquiteto Luis Barragán, é possível verificar uma arquitetura que apela à visão principalmente. Esta obra apresenta a linguagem única e própria do arquiteto, que se vincula às suas experiências, à sua cultura e à sua personalidade, partilhando-as para o resto do mundo. Caracteriza-se principalmente pela utilização de planos de cor, pontuais, que conferem a cada espaço caraterísticas próprias e uma essência única. Para além da cor, as entradas de luz transmitem a passagem do tempo e estabelecem uma relação visual entre o interior e o exterior do espaço. Aqui, a visão desempenha o papel principal, permitindo entender os planos de cor que caracterizam cada espaço e as alterações da luz ao longo do dia. Sem a visão, as obras de Barragán não possuíam a mesma força e especificidade que apresentam. Atualmente, a visão permite obter imagens visuais de espaços que o ser humano não experiencia nem habita. Desta forma, permanece a ideia de a visão é o sentido predominante e essencial para a interpretação e perceção do espaço, e de que a arquitetura é uma arte visual. No 56 O livro “A psicologia das cores: Como atuam as cores sobre os sentimentos e a razão”, de Eva Heller, refere os vários significados da cor branca, tendo sido escolhidos o simbolismo do luto e da pureza devido a serem polos opostos. Ver: HELLER, Eva – A psicologia das cores: Como atuam as cores sobre os sentimentos e a razão. 51 entanto, a arquitetura tem que ser experienciada e vivida pelo homem, sendo a partir desta que o homem existe no espaço e tem noção da sua presença no mundo, e para a experienciar necessita de todos os cinco sentidos, não apenas da visão. 52 29. 30. 53 2. DÉFICES SENSORIAIS: AUSÊNCIA DE SENTIDOS 31. 32. 33. Após explorar o sistema sensorial e a forma como influencia a perceção do espaço, investiga-se a perceção do espaço arquitetónico com a ausência de sentidos. Assim, identificam-se os défices sensoriais a analisar, auditivos e visuais, e analisa-se a forma como percecionam o espaço e quais as suas dificuldades. 54 Figura 34. A ausência 55 Atualmente, os conceitos de acessibilidade1 e de inclusão2 são cada vez mais pertinentes e devem ser integrados na sociedade, de forma a que todos os indivíduos usufruam da mesma experiência do espaço que habitam e dos objetos que utilizam. Na área da arquitetura, a acessibilidade implica condições e elementos que facilitem o acesso ao espaço e a sua compreensão. Desta forma, é necessário que a arquitetura seja acessível não só ao ser humano comum, mas também a pessoas com necessidades específicas. A acessibilidade não se deve cingir às pessoas com défices físicos, sensoriais ou intelectuais, deve ser pensada para que qualquer pessoa possua uma experiência positiva dentro do espaço construído. Independentemente de uma pessoa não apresentar qualquer tipo de défice3, é preciso notar que, ao longo do tempo, o corpo vai envelhecendo e perdendo a sua precisão e as suas capacidades. Como tal, a arquitetura deve procurar ser projetada de forma intemporal e universal, tentando que o espaço seja acessível independentemente da idade ou capacidade física ou emocional, sem excluir ou menosprezar ninguém4. E, para isso, é necessário considerar as dificuldades, aptidões e estratégias que as pessoas com necessidades específicas possuem e utilizam na sua rotina, e, também, entender como é que percecionam o espaço construído para, posteriormente, ser possível tornar os espaços arquitetónicos inclusivos e acessíveis. A perceção do espaço construído de uma pessoa com necessidades específicas difere da pessoa comum, uma vez que não apresentam um sistema sensorial pleno. Com a ausência de um dos sentidos, a perceção do espaço baseia-se na informação recolhida pelos restantes recetores sensoriais, que se adaptam e se desenvolvem de forma a complementar a ausência de outro. O sistema sensorial totalmente desenvolvido permite que o ser humano 1 De acordo com o Dicionário da Língua portuguesa, A-ces-si-bi-li-da-de: facilidade no acesso, facilidade na obtenção; conjunto das condições de acesso a serviços, equipamentos ou edifícios destinados a pessoas com mobilidade reduzida ou com necessidades especiais. 2 De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa, In-clu-são: ato ou efeito de abranger, compreender ou integrar; 3 Neste trabalho, opta-se por usar a palavra défice para caracterizar pessoas com necessidades específicas, devido à conotação negativa, e por vezes ofensiva, que a palavra deficiência apresenta. 4 O Design Universal baseia-se em 7 princípios para projetar e organizar um ambiente de forma a que possa ser acedido, compreendido e usado o máximo possível por todas as pessoas, independentemente de sua idade, tamanho, habilidade ou deficiência. Ver: https://www.inr.pt/design-universal 62 Figura 36. A linguagem 63 Défice Auditivo “Tell me, in words that have meaning to me, what you hear. But first, I’ll tell you about the feel of silence.” 13 Na maioria dos casos, o défice auditivo surge ao longo da vida de uma pessoa, apresentando-se como um défice auditivo adquirido, uma vez que com o passar do tempo a audição tende a diminuir a sua precisão e nitidez. No entanto, é possível que o défice esteja presente logo de nascença, denominando-se então como um défice auditivo congénito. Existem diversas causas que podem afetar o sistema auditivo, como por exemplo: as consequências secundárias de uma doença ou de um medicamento, a predisposição genética ou até o ruído externo em demasia.14 É também importante verificar se o défice auditivo é bilateral ou unilateral, afetando ambos os ouvidos ou só um, respetivamente. Algumas perdas de audição conseguem ser corrigidas através do uso de implantes ou de aparelhos auditivos. No entanto, mesmo com dispositivos auxiliares, nem sempre é possível ouvir da mesma forma que uma pessoa sem perdas auditivas. Os défices auditivos podem ser divididos em três tipos, tendo em conta a parte que é afetada no sistema auditivo15: condutivo, onde as partes externa e média da orelha, responsáveis por direcionar o som à zona interna, são danificadas; neurossensorial, no qual a componente interna e o nervo auditivo são afetados; e, por último, misto, que se caracteriza por alterações condutivas e neurossensoriais. Os défices auditivos são categorizados conforme o grau de perda auditiva: leve, moderada, severa e profunda. Para definir estas 13 TUCKER, Bonnie - The feel of silence, pág. XVII 14 Ver: World Health Organization – Deafness and hearing loss. Disponível em: https://www.who.int/news-room/ fact-sheets/detail/deafness-and-hearingloss 15 Ver: Cochlear – Tipos e níveis de perdas auditivas. Disponível em: https://escutaragoraesempre.com/ blog2/tipos-e-niveis-de-perdas-auditivas/ 64 Tipo de perda auditiva Capacidade auditiva Audição normal Todos os sons Leve A partir de 25 dB Moderada A partir de 40 dB Severa A partir de 60 dB Profunda A partir de 80 dB Tabela 1. Categorias do grau de perda auditiva Esquema 3. Associação de decibéis a sons 0 dB 10 dB 20 dB 30 dB 40 dB 50 dB 60 dB 70 dB 80 dB 90 dB 100 dB 110 dB 120 dB 130 dB 140 dB Agradável Moderado Alto Muito Alto Extremamente alto Limite do suportável Respirar Sussurro Chuva Secador Sirene Fogo de artíficio Conversa 65 categorias, é utilizado um teste em decibéis (dB), que avalia a partir de que frequência sonora se consegue captar os sons16. Considera-se perda de audição quando não consegue ouvir sons abaixo dos vinte cinco decibéis. Pode-se resumir as consequências de cada perda auditiva da seguinte forma: a leve caracteriza-se pela dificuldade de compreensão do discurso verbal em ambientes com bastante ruído; a moderada apresenta uma incapacidade de compreender o discurso verbal sem aparelhos auditivos; a severa implica o uso de implantes ou aparelhos auditivos para captar os sons; e, por fim, a profunda que obriga a recorrer à leitura de lábios, língua gestual17 ou implantes para a compreensão e comunicação. O esquema 3 apresenta uma correspondência entre decibéis e um som característico dessa frequência sonora, de forma a distinguir melhor o nível de perda auditiva de cada categoria e a sua magnitude. Ao analisar, por exemplo, uma pessoa com perda auditiva severa, percebe-se que só consegue captar sons acima dos sessenta decibéis, ou seja, não consegue ouvir o som da chuva ou o discurso verbal de outra pessoa. Esta pessoa, possivelmente, apenas com o auxílio de aparelhos auditivos ou implantes é que conseguiria ouvir o discurso e ter uma conversa com outra pessoa. Nem todas as perdas auditivas são identificadas como surdez. Desde a perda auditiva de grau leve até à de grau severo, reconhece-se que a pessoa apresenta um défice auditivo que pode ser corrigido ou melhorado através de dispositivos auxiliares, o que permite manter, maioritariamente, um discurso falado. Um défice auditivo só é considerado surdez a partir do grau de perda auditiva profunda, ou seja, uma pessoa que não consegue captar os sons abaixo dos oitenta decibéis. Esta categoria apresenta pouca ou quase nenhuma capacidade auditiva, sendo necessário a língua gestual para comunicar. 16 A tabela 1 apresenta as várias categorias de perda auditiva. Neste caso, o valor de decibéis identifica a frequência sonora que a pessoa ouve, abaixo desse valor não consegue captar sons. Ver: OLUSANYA, Bolajoko; DAVIS, Adrian; HOFFMAN, Howard – Hearing loss grades and the International classification of functioning, disability and health. 17 Diz-se Língua Gestual e não Linguagem, uma vez que a Língua caracteriza um sistema de signos, com gramática e estrutura própria, enquanto que linguagem entende-se como um sistema de símbolos ou de objetos que funcionam como signos. 66 VISÃO TATO OLFATO Esquema 4. Uso dos Sentidos. Representação da utilização de três sentidos do sistema sensorial, sendo que apresentam uma dependência maior da Visão. O Tato considera-se um ato secundário e o Olfato é apenas usado em poucas situações. 67 “I use my eyes when you use your ears. What you hear I lip-read.” 18 As pessoas com défice auditivo estão dependentes, principalmente, do sentido da visão, sendo que o olfato e o tato ajudam a complementar informações sobre o espaço construído e podem ser utilizados como elementos de orientação ou de identificação do local.19 A comunicação de pessoas com défices auditivos sustenta-se no sentido da visão, focando-se na cara da pessoa para fazer leitura de lábios ou nas mãos para a linguagem gestual. Necessitam de contacto visual desobstruído para comunicarem e para se movimentarem pelo espaço. O problema surge quando exercem as duas ações em simultâneo. Com a impossibilidade de repartir o sentido da visão para as duas ações, a pessoa com défice auditivo ao concentrar-se na comunicação visual não vai prestar tanta atenção ao espaço e aos elementos que surgem enquanto se movimenta, criando possíveis perigos. Por outro lado, se se focar na perceção do espaço e de possíveis riscos, não consegue estabelecer uma comunicação com a outra pessoa. Uma pessoa com défice auditivo não se pode apoiar na audição para lhe proporcionar informações do espaço enquanto estabelece contacto visual para comunicar com a outra pessoa. Deste modo, situações como o aparecimento repentino de uma pessoa ou objeto, desníveis, escadas, mobiliário, colunas, tornam-se perigosos para o próprio. Assim, as dificuldades das pessoas com défices auditivos não se prendem a questões de orientação, mas estão, maioritariamente, relacionados com a amplitude visual que necessitam. Ao investigar os obstáculos e dificuldades de pessoas com défices auditivos, surge um estudo realizado pelo arquiteto Hansel Bauman em conjunto com a Gallaudet University, que se denomina de Deafspace. 18 TUCKER, Bonnie - The feel of silence, pág.17 19 “Deaf people inhabit a rich sensory world where vision and touch are a primary means of spatial awareness and orientation.” Disponível em: https:// www.gallaudet.edu/campus-design-andplanning/deafspace/ 68 DEAFSPACE Espaço e proximidade Alcance Sensorial Mobilidade e proximidade Luz e Cor Acústica Esquema 5. Princípios de Deafspace. 69 DEAFSPACE Hansel Bauman + Gallaudet University Estados Unidos, 2005. Este estudo procura estabelecer princípios e ideias para projetos arquitetónicos, de forma a tornar o espaço mais acessível para pessoas com défices auditivos e, consequentemente, fazer com que as suas experiências com o ambiente construído sejam mais agradáveis (esquema 5). Ao estudar as pessoas com este tipo de défice, foi possível constatar que o espaço arquitetónico cria alguns obstáculos que dificultam a comunicação visual e que, por vezes, implicam alguns problemas de segurança para quem o usa, nomeadamente: pavimentos irregulares, degraus, retroiluminação, cores de paredes semelhantes a tons de pele, entre outros. Ao longo do tempo, a comunidade com défices auditivos arranjou soluções para enfrentar alguns desafios que encontravam no espaço construído para que este se adequasse aos seus modos de vida. Por exemplo, quando um grupo de pessoas com défices auditivos se reúne, é costume reorganizarem o mobiliário do espaço para que seja possível que todos os participantes tenham uma visão desimpedida para os restantes, sem barreiras visuais que interrompam a comunicação visual. Outra solução utilizada é a colocação de novas aberturas nas paredes nas suas habitações, para manter a conexão visual com os restantes espaços e com as pessoas que utilizam a casa. São este tipo de estratégias que constituem o Deafspace, que identifica cinco princípios para a construção de um espaço acessível e adequado a pessoas com défices auditivos, sendo eles: espaço e proximidade; alcance sensorial; mobilidade e proximidade; luz e cor; e acústica. O primeiro elemento, espaço e proximidade, refere-se ao espaço necessário para que duas pessoas com défices auditivos comuniquem 70 Esquema 6. Diferença entre espaços de reunião para uma comunicação visual sem barreiras Esquema 8. Relação com o exterior Esquema 7. Colocação de vidro para criar conexão visual 71 de uma forma clara, onde possam observar a expressão facial e o espaço de sinalização da outra pessoa. Este espaço entre pessoas para a comunicação visual costuma ser maior do que o intervalo entre duas pessoas que comunicam verbalmente. Logo, com o aumento do número de pessoas a comunicar, maior terá que ser o espaço entre indivíduos, para que seja possível uma comunicação visual desobstruída entre todos. Esta primeira ideia base implica uma mudança nas dimensões dos espaços e do próprio mobiliário. Por vezes, prefere-se utilizar formas curvilíneas uma vez que permitem uma conexão visual maior do que formas retas que por vezes criam ângulos mortos (esquema 6). Este princípio também deve ser aplicado nas relações entre pisos e entre interior e exterior, tentando sempre criar linhas de visão desobstruídas para incitar a comunicação visual e uma melhor perceção geral do espaço. O alcance sensorial remete para a perceção de todo o espaço e o que acontece nele, sendo que está relacionado com os sentidos do sistema sensorial. As pessoas com défices auditivos captam maioritariamente as informações através da visão. No entanto, também tiram proveito das vibrações e do tato para obterem o alcance sensorial para percecionar o espaço completamente. Para aumentar o alcance sensorial das pessoas com défices auditivos no espaço podem-se adotar várias estratégias: pistas visuais e legibilidade como por exemplo colocar as entradas e saídas do edifício visíveis; transparência, abertura e conexão visual, optando por colocar aberturas entre os espaços para manter uma relação visual entre eles (esquema 7); criar filtros de transparência através do vidro para estabelecer relações com o exterior (esquema 8); reflexão, como por exemplo utilizar superfícies refletoras para locais com pouca visibilidade de forma a evitar colisões e alertar para as pessoas que estão a utilizar o espaço; vibração e alcance tátil, podendo escolher pisos que sejam percetíveis a alguma vibração 78 AUDIÇÃO TATO OLFATO Esquema 13. Uso dos Sentidos. Representação da utilização dos sentidos, sendo que a Audição e o Tato são essenciais para perceção do espaço construído. O Olfato, em algumas situações, pode ajudar a localizar e auxiliar a orientação da pessoa. 79 “I was able to explore in a more creative way the gifts of hearing and touch.” 25 A ausência da visão, total ou parcial, faz com que as pessoas necessitem do auxílio da audição e do tato, principalmente, para percecionarem o espaço construído e para se orientarem e movimentarem26. O olfato também pode desempenhar um papel importante para identificar um espaço ou para guiar a pessoa27, porém funciona mais pontualmente, enquanto que os outros dois sentidos são considerados mais relevantes por serem utilizados mais frequente e continuamente. O espaço arquitetónico é dominado, maioritariamente, por elementos visuais que todas as pessoas comuns conseguem identificar e percecionar. Desta forma, as pessoas com défices visuais precisam de utilizar os restantes sentidos, para se movimentarem e perceberem o espaço onde se encontram. Para além disso, existem elementos de auxílio, como a bengala ou o cão-guia, que ajudam a detetar elementos de perigo e tornam as experiências inclusivas. Tal como nos défices auditivos, a perceção do espaço varia conforme a gravidade dos défices visuais. Uma pessoa com baixa-visão pode conseguir ter perceção de elementos do espaço construído e da disposição geral, tais como a localização de objetos, a distinção do plano da parede e do plano do pavimento, a posição das janelas e aberturas, não conseguindo captar pormenores e detalhes. Por outro lado, quando a perda de visão é grave ou total, a perceção do espaço apenas é conseguida através dos restantes sentidos e, possivelmente, através da luz, não tendo capacidade de focar, distinguir ou compreender o espaço onde se encontra através da visão. Para além do grau de perda de visão, a origem do défice visual também influencia a forma como a pessoa experiencia e interpreta o espaço. 25 HULL, John – On Sight & Insight: a journey into the world of blindness, pág.XII 26 “Na ausência da visão, o processo subjacente às referências cognitivas é possível pela cooperação de outros sistemas intrínsecos (memória, tato, audição, sensação de esforço, propriocepção háptica, entre outros).” Ver: CASTRO, Eliane; PAULA, Adriana; TAVARES, Carolina; MORAES, Renato - Orientação Espacial em Adultos com Deficiência Visual: Efeitos de um Treinamento de Navegação. Psicologia: Relexão e Critíca. Vol.17 (2004), p. 199-210. 27 “Smell references (like bakeries, pharmacies, etc.) seem to occupy a minor place, acting only as ‘local landmarks’ and confirming identity of places and positions.” Ver: DISCHINGER, Marta – Designing for all the senses: Acessible spaces for visually impaired citizens. 80 Esquema 14. Reverberação do som no espaço 81 Uma pessoa com défice visual congénito perceciona o espaço de forma diferente de uma pessoa com défice visual adquirido28. A pessoa com uma perda de visão adquirida já obteve uma relação visual com o espaço físico, o que não se verifica nas pessoas com perda de visão congénita. Logo, o espaço mental que é percecionado e interpretado é um espaço imaginado, fantasiado, próprio da pessoa. Os maiores obstáculos que as pessoas com défices visuais se deparam são essencialmente elementos inesperados e pontuais no espaço, como por exemplo desníveis, elementos verticais como colunas, mobiliários, entre outros. No entanto, ao contrário do que é expectável, os espaços amplos e o conceito de open-space apresentam-se como uma dificuldade, uma vez que a pessoa não consegue ter elementos de referência do espaço, sendo difícil de se localizar, e não consegue prever o que acontece à sua volta. A audição desempenha um papel fundamental para auxiliar uma pessoa com défice visual a percecionar e a orientar-se no espaço, permitindo perceber a escala e a dimensão do espaço através da reverberação dos vários sons (esquema 14). Por exemplo, conseguem perceber onde se situa a abertura numa parede, uma vez que o som vai reverberar em toda a parede maciça menos na área da abertura. O mesmo se pode verificar com barreiras e obstáculos do espaço, como por exemplo o mobiliário. O som vai atingir todas as superfícies duras e maciças, e vai-se prolongar em todo o espaço aberto, permitindo criar um mapa mental com a localização da mobília, das aberturas, de elementos verticais, entre outros. 29 Enquanto que a audição permite, à distância, ter noção dos elementos maciços do espaço, o tato ajuda a estabelecer o contacto com o espaço físico, tornando-o mais claro e percetível. Através da textura e da temperatura, é possível distinguir a diferença entre as zonas. O 28 “The fact of being congenitally blind, or of loosing sight very early in life, implies in an absence of visual perception experiences. This might means a different process of construction of spatial concepts.” Ver: DISCHINGER, Marta – Designing for all the senses: Acessible spaces for visually impaired citizens. 29 “Auditory perception provides more distal access to environmental information than touch and is omnidirectional, which affords benefits as an ‘alerting’ sense (…)” Ver: GIUDICE, Nicholas – Navigating without Vision: Principles of Blind Spatial Cognition. In MONTELLO, David - Handbook of Behavioral & Cognitive Geography. 82 Esquema 16. Uso da cor para distinguir planos. Esquema 15. Variação de texturas no pavimento 83 tato também pode ser aplicado como um elemento condutor, que guia as pessoas pelo espaço e transmite informações acerca da zona onde se encontram28, como por exemplo: um vazio contínuo ou um relevo na parede que permite que a pessoa se movimente e se guie por este elemento; o piso tátil ou uma textura diferente no pavimento que conduz a pessoa (esquema 15); maquetes ou plantas com relevo que permitem que a pessoa tenha um primeiro contacto com a disposição do espaço; entre outros. A memória acaba por ser um fator determinante na perceção do espaço para pessoas com défices visuais, porque é através dela que se conseguem movimentar pelo espaço com autonomia e em segurança. A pessoa com défice visual estabelece o contacto com o espaço através dos sentidos – tato, audição – e a memória preserva todas as informações retiradas desta relação, elaborando um mapa mental da organização e disposição do espaço. No entanto, é um processo que se desenvolve através da repetição da experiência do mesmo espaço, sendo difícil obter um mapa mental do espaço após uma única relação com o espaço. Ao repetir o mesmo movimento, tocar nos mesmos objetos, ouvir e sentir a reverberação dos vários sons, a pessoa vai conseguir identificar e memorizar certos elementos do espaço, como, por exemplo, a localização de portas ou de mobiliário.29 Aliado com a memória, está o tempo que é usado como referência para o mapa mental do espaço, permitindo intuitivamente e inconscientemente reparar que passado determinado intervalo de tempo se vai encontrar um determinado objeto ou elemento arquitetónico.30 Assim, é possível reunir várias propostas e ideias aplicáveis ao espaço arquitetónico para o tornar acessível a pessoas com défices visuais: o uso de cor e da luz (esquema 16) que permitem diferenciar planos SENTIDOS MEMÓRIA TEMPO Esquema 17. Elementos de perceção Através dos sentidos, da memória e da passagem do tempo, as pessoas com défices visuais conseguem orientar-se no espaço arquitetónico. 28 “the importance of permanent, continuous, linear elements (walls and pathway borders) as conductors of movement.” Ver: DISCHINGER, Marta – Designing for all the senses: Acessible spaces for visually impaired citizens. 29 “They memorise not only the sequence of intersections, landmarks and events along the route, but also ‘know’ and control the memory of their rhythm and duration in time while moving along learnt directions.” Ver: DISCHINGER, Marta – Designing for all the senses: Acessible spaces for visually impaired citizens. 30 “The notion of time related to our own movements and memory of sequential events is very important in estimating distances when visual information is not available.” Ver: DISCHINGER, Marta – Designing for all the senses: Acessible spaces for visually impaired citizens. 84 Figura 38. Mapas com relevo Figura 39. Piso TátilEsquema 18. Ranhura na parede como elemento condutor 85 e tornam o espaço mais percetível – especialmente para pessoas com baixa-visão; a variação de texturas, proporcionando um alerta para a pessoa quando esta se encontra no limite de algum elemento ou noutro espaço; a criação de uma boa acústica espacial, uma vez que as pessoas com défices visuais dependem da audição para percecionarem o espaço; a utilização de elementos guias e condutores que orientem a pessoa pelo espaço, tais como o relevo nas paredes, o piso tátil no pavimento ou textura no pavimento ou na parede (esquema 18); a delimitação das várias zonas do projeto, evitando os espaços amplos sem elementos de referência; a escolha de sinais sonoros que avisem a pessoa de certas situações; o desenvolvimento de padrões e de um ambiente previsível, sem elementos inesperados que criam situações de perigo; e, por fim, a seleção de mobiliário acessível, fixo e sem saliências que possam provocar colisões com o corpo da pessoa. 86 40. 87 3. O INDIVÍDUO: ESPECIFICIDADES “Nada sobre nós, sem nós” 1 Através de um questionário, realizado a pessoas com défices sensoriais auditivos e visuais, pretende-se obter resultados pessoais com o objetivo de aprofundar quais as dificuldades e estratégias que utilizam ao movimentarem-se pela sua habitação, um espaço que experienciam frequentemente. 1 Afirmação referida pelo Instituto Nacional para a Reabilitação. Manifesta a ideia de não se estabelecer conceitos, convicções ou opiniões sobre as pessoas sem obter o seu ponto de vista primeiro. 94 INDIVÍDUO Nº3 IDADE: 56 ESTRATÉGIAS | AUXÍLIOS OBSTÁCULOS | NECESSIDADES Luz na entrada - “lâmpada a piscar quando tocam à campainha” Campainha - não percebe a presença de alguém à porta, quando se encontra noutras divisões. INDIVÍDUO Nº4 ESTRATÉGIAS | AUXÍLIOS OBSTÁCULOS | NECESSIDADES IDADE: 41 Campainha - “Se tocarem à campainha não ouço.” Visão - “Eu consigo percorrer a casa sozinho através da ajuda da visão.” 95 INDIVÍDUO Nº5 IDADE: 56 ESTRATÉGIAS | AUXÍLIOS OBSTÁCULOS | NECESSIDADES Visão - sentido predominante na perceção do espaço. Campainha - “Não consigo ouvir a tv, campainha.” INDIVÍDUO Nº6 ESTRATÉGIAS | AUXÍLIOS OBSTÁCULOS | NECESSIDADES IDADE: 51 Campainha - “Não ouvir quando algum objeto cai, campainha.” Visão - sentido predominante na perceção do espaço. 96 INDIVÍDUO Nº7 IDADE: 25 ESTRATÉGIAS | AUXÍLIOS OBSTÁCULOS | NECESSIDADES Visão - sentido predominante na perceção do espaço. Campainha - “Tocar à campainha.” INDIVÍDUO Nº8 ESTRATÉGIAS | AUXÍLIOS OBSTÁCULOS | NECESSIDADES IDADE: 67 Campainha - “Não ouvir a campainha.” Visão - sentido predominante na perceção do espaço. 97 INDIVÍDUO Nº10 IDADE: 44 ESTRATÉGIAS | AUXÍLIOS OBSTÁCULOS | NECESSIDADES Tato e Memória - “Utilizo sempre o tato para me auxiliar e saber onde estão as coisas.“ ; “A memória, sei onde estão as coisas e a localização das portas.” Alterações - “mudam as coisas de sítio, o que dificulta e acaba por se tornar um obstáculo.” INDIVÍDUO Nº9 IDADE: 37 ESTRATÉGIAS | AUXÍLIOS OBSTÁCULOS | NECESSIDADES Organização - “ter as coisas como eu quero e espaço.” Campainha - “não ter luz da campainha no sotão e garagem” 98 INDIVÍDUO Nº11 ESTRATÉGIAS | AUXÍLIOS OBSTÁCULOS | NECESSIDADES IDADE: 40 INDIVÍDUO Nº12 IDADE: 71 ESTRATÉGIAS | AUXÍLIOS OBSTÁCULOS | NECESSIDADES Tato e Memória - “sei onde estão as coisas e a sua disposição. (...) e o uso do tato para reconhecer alguns objetos.” Tato e Memória - “Tenho a memória visual da casa (...) E o tato ajuda me a não bater nas coisas.” Mobiliário e Portas - “Portas entre-abertas, deixadas por esquecimento (...) . Evito ter móveis muito baixos, porque podem levar a que tropece e me aleije.” Portas e Alterações - “os puxadores das portas, uma vez que estava sempre a dar encontrões neles (...) às vezes as pessoas que vivem comigo trocam as coisas de lugar.” 99 INDIVÍDUO Nº13 ESTRATÉGIAS | AUXÍLIOS OBSTÁCULOS | NECESSIDADES IDADE: 33 Eletrodomésticos - “não consigo visualizar os números, ou as informações escritas no painel, acabo por ter que memorizar as posições dos botões.” Corrimão e Contrastes - “a existência de contrastes é uma boa forma de proporcionar orientação” ; “Para descer escadas oriento-me pelo corrimão.” INDIVÍDUO Nº14 IDADE: 30 ESTRATÉGIAS | AUXÍLIOS OBSTÁCULOS | NECESSIDADES TATO - as mãos na parede permitem orientar a pessoa. Limite dos degraus - “tenho que arrastar os pés para encontrar o início dos degraus.” 100 INDIVÍDUO Nº15 ESTRATÉGIAS | AUXÍLIOS OBSTÁCULOS | NECESSIDADES IDADE: 53 INDIVÍDUO Nº16 IDADE: 55 O participante afirma que não apresenta nenhuma dificuldade ao movimentar-se na habitação. ESTRATÉGIAS | AUXÍLIOS OBSTÁCULOS | NECESSIDADES Tato e Memória - “Utilizo as mãos para me localizar na casa, em conjunto com a memória que grava a organização e disposição da casa.” Alterações - “A minha memória grava o percurso e memoriza o sítio das coisas, e, por vezes, viver com outras pessoas faz com que alguns elementos alterem de local.” Memória - espaço que habita permanentemente e totalmente apreendido. 101 INDIVÍDUO Nº17 ESTRATÉGIAS | AUXÍLIOS OBSTÁCULOS | NECESSIDADES IDADE: 74 INDIVÍDUO Nº18 IDADE: 76 ESTRATÉGIAS | AUXÍLIOS OBSTÁCULOS | NECESSIDADES Tato - “posso pôr a mão num móvel ou na parede, para me certificar onde me encontro.” Memória - “tenho gravado na memória a organização do espaço e o local de cada coisa que preciso.” O participante afirma que não apresenta nenhuma dificuldade ao movimentar-se na habitação. O participante afirma que não apresenta nenhuma dificuldade ao movimentar-se na habitação. 102 INDIVÍDUO Nº19 ESTRATÉGIAS | AUXÍLIOS OBSTÁCULOS | NECESSIDADES IDADE: 51 Mobiliário e Pormenores de arquitetura - “Mobiliário demasiado baixo e com esquinas (...) remates muito baixos, esquinas e cantos que permitem colisões.” Memória - “Estou habituado ao espaço da casa, por isso percorro-a de forma intuitiva.” 110 SÍNTESE DE RESULTADOS OBTIDOS DÉFICES AUDITIVOS DÉFICES VISUAIS ESTRATÉGIAS DE AUXÍLIO ESTRATÉGIAS DE AUXÍLIO • A visão surge como elemento principal para auxiliar a perceção do espaço arquitetónico. • A memória é considerada o auxílio indispensável para a perceção do espaço e também para a orientação dos participantes; • O tato é também um dos sentidos auxiliares, que permite localizar a pessoa no espaço; • Os contraste são também referidos como um auxílio na distinção de planos. 111 DIFICULDADES DIFICULDADES • A campainha é referida várias vezes pelos participantes, visto que possui um sistema sonoro. • As alterações no espaço e na disposição do mobiliário apresentam-se como uma dificuldade recorrente; • Alguns participantes referem que não sentem dificuldades ao percorrem e utilizarem a sua habitação; • O mobiliário surge como algo que pode provocar quedas e colisões, conforme o seu desgin. 112 41. Figura 41. “Saída Negra”. 113 4. A ARQUITETURA: CASOS EXEMPLARES A análise de obras de arquitetura pensadas para pessoas com défices sensoriais, nomeadamente auditivos e visuais, permite não só explorar as dificuldades que estes possuem ao utilizar o espaço, mas também verificar possíveis soluções para as superar. 115 Dada a reduzida amostra de questionários preenchidos, torna-se insensato generalizar soluções e retirar conclusões a partir desses resultados. Assim, opta-se por analisar casos exemplares de obras arquitetónicas construídas para pessoas com os mesmos défices sensoriais do grupo de estudo. Esta análise permite extrair e reunir ideias chave sobre como tornar o espaço mais acessível e a sua perceção e utilização mais clara. Selecionam-se, então, seis obras de arquitetura que expressam sensibilidade e preocupação em tornar o espaço mais acessível para pessoas com défices sensoriais. Analisam-se, maioritariamente, obras de caráter público, uma vez que dentro desta especificidade apenas se encontrou um exemplo no âmbito da arquitetura doméstica. Quatro destas obras respondem às necessidades e dificuldades de pessoas com défices visuais e duas são dedicadas a pessoas com défices auditivos. O número de exemplos de obras que abordam a necessidade dos défices auditivos é reduzido, demonstrando a pertinência deste estudo e a falta de sensibilização e consciencialização acerca deste tema. 116 Esquema 31. Programa espacial da habitação Planta da habitação Zona de estar Cozinha Arrumos W.C. Garagem Quartos Entrada Figuras 42, 43 e 44. Casa Mac. Itália, 2018. Fotografias da entrada principal da habitação, da zona de estar e da cozinha. Destaque para a diferença de texturas que são utilizadas para distinguir o percurso externo e o interno. 42. 43. 44. 0 1 2 117 A casa MAC é uma habitação pensada especificamente para uma senhora com défice visual. Como tal, o objetivo dos arquitetos era tornar esta nova habitação mais simples para que a cliente a pudesse utilizar de uma forma intuitiva. De modo a fazer uma transição simples e clara, os arquitetos trabalharam diretamente com a cliente para entender a forma como esta habitava a sua antiga casa, percebendo os seus hábitos e as suas rotinas diárias. Isto permitiu-lhes transpor as várias atividades da cliente para a nova habitação sem criar complicações de adaptação. Uma das primeiras dificuldades seria transmitir a informação à cliente, uma vez que a arquitetura se apoia, principalmente, em desenhos visuais bidimensionais e tridimensionais. Para resolver esta questão, os arquitetos adaptaram-se às necessidades específicas da cliente, criando maquetes do espaço para que a cliente conseguisse perceber a habitação e as alterações que surgiam ao longo do processo criativo da obra. Com o estudo da rotina diária da cliente, os arquitetos optaram por criar um espaço especifíco correspondente a cada uma das suas atividades. Um corredor central estrutura toda a organização espacial (esquema 31) e elimina o efeito labiríntico e caótico dos espaços amplos, que se tornam uma dificuldade para quem não os consegue observar. Assim, o corredor linear permite que a cliente se oriente de uma forma mais simples e eficiente por toda a casa, tendo consciência que este elemento a conduz para os vários espaços da habitação. Para além disso, as entradas das divisões onde a cliente permanece mais tempo, o quarto e a cozinha, situam-se nas extremidades deste corredor estrutural, encontrando no caminho interseções com espaços CASA MAC Figura 45. Maquetes Processo de informar a cliente acerca do projeto, através de maquetes para permitir a compreensão dos espaços. So & So Studio Vicenza, Itália. 2018 118 Parar Continuar Mudança de Direção Várias Direções Ligação Funcional Combinação Funcional Figuras 46 e 47. Fotografias do pavimento da habitação Pormenor da utilização da pedra texturizada e da sua temperatura mais fria para se distinguir do pavimento quente de madeira, auxiliando a orientação dentro do espaço interior. Esquema 34. Sinalização do pavimento 46. 47. Esquema 32. Estudo de percursos do cliente Esquema 33. Padrão do pavimento. 119 secundários, como por exemplo o quarto de hóspedes ou a casa de banho. A adaptação da arquitetura nos casos de pessoas com défices visuais começar por reforçar o estímulo e a perceção através do tato, diminuindo a necessidade de orientações visuais ao longo do espaço. Para isso, os arquitetos aplicam materiais diferentes e com texturas variadas, nomeadamente a pedra e a porcelana, para guiar o utilizador pelo espaço. Através do uso de materiais distintos e da diferença de texturas e temperatura, os arquitetos criam uma linguagem de sinalização aplicada no padrão do pavimento. Colocam uma pedra texturizada sempre que existe a interseção com um outro espaço de forma a acentuar o programa e, ao mesmo tempo, direcionar e avisar a cliente que se encontra perto de um novo espaço. Os esquemas 32 e 33 mostram a forma como a textura é aplicada no chão, apresentando várias formas de acordo com a localização dos espaços adjacentes e as interseções que aparecem ao longo do percurso interno. Assim, conforme a diferenciação da textura e a sua temperatura, conseguem criar um sistema de sinais para que a utilizadora perceba o programa da habitação e se consiga orientar melhor no espaço (figura 46 e 47 e esquema 34). Por último, para fortalecer a organização espacial da habitação, e para tornar o espaço mais claro, eliminam as soleiras da porta que poderiam ser consideradas elementos contraditórios na perceção do espaço, uma vez que é a partir do pavimento que a cliente se orienta. Deste modo, os arquitetos estabelecem uma continuidade espacial por toda a habitação destacando apenas os elementos texturais do pavimento que a guiam pelo espaço, permitindo-lhe apreender todas as características espaciais da sua nova habitação. 126 Esquema 44. Circulação vertical e horizontal 10ºpiso Figuras 51, 52 e 53. Lighthouse. Estados Unidos, 2016. Fotografias do edifício. Destaque da distinção da zona de circulação e das áreas públicas através do pavimento. Circulação Horizontal Circulação Vertical 53. 52. 51. 0510 20 127 A organização Lighthouse, que tem como objetivo treinar e ajudar as pessoas com défices visuais, expande a sua sede para este edificio para conseguir criar um novo espaço de forma a auxiliar mais pessoas com o mesmo tipo de necessidades. O projeto localiza-se num arranha-céus, ocupando três pisos, onde os arquitetos tentam criar um ambiente positivo, confortável e funcional para os utilizadores com défices visuais. O programa funcional é bastante especifico da organização, tendo como objetivo ajudar as pessoas com défices visuais a adaptarem-se à rotina do dia-a-dia, treinando com o uso de objetos de auxílio e outro tipo de tecnologias. Assim, no primeiro piso (9ºandar) o programa é maioritariamente de serviços, onde se encontram escritórios, salas de reuniões e de conferências. O segundo piso (10ºandar) apresenta funções variadas, como os espaços de ensino, com várias salas e uma cozinha de treino, os laboratórios de tecnologia e clínicas de optometria. Por último, o terceiro piso (11ºandar) compreende espaços dedicados aos utilizadores que habitam, por um curto tempo, na organização, possuindo dormitórios, uma cozinha comunitária, um ginásio e uma lavandaria. A circulação dentro do espaço (esquema 44) torna-se uma questão relevante, visto que seria necessário que os utilizadores da organização conseguissem movimentar-se sem qualquer risco de queda ou choque. Como solução, os arquitetos decidiram utilizar uma escada monumental que une os vários pisos e que é rematada, no teto, por uma grande claraboia que ilumina todo o espaço. A iluminação é um elemento importante para a orientação e movimentação de pessoas com défices visuais, uma vez que a maioria consegue ter a perceção LIGHTHOUSE FOR THE BLIND AND VISUALLY IMPARED Mark Cavagnero Associates Architects California, Estados Unidos. 2016 128 Felcro Acústico Madeira Carpete Betão polido Esquema 45. Materialidade do pavimento Figura 54. Escadas Figura 55. Sala de treino Sala de treino com uma parede de destaque com cor, que permite tornar o espaço mais claro e mais percetível para pessoas com baixa-visão. Esquema 47. Utilização da cor para distinguir planos. Esquema 46. Diferença de materialidade do pavimento 129 da luz e da sombra e, para além disso, a luz permite ter a sensação de passagem de tempo. A escada transforma-se no coração do espaço, unindo todas as atividades e utilizadores do espaço (figura 54). É o elemento de projeto que foi mais testado e ponderado. A largura foi pensada de forma a ser possível acomodar duas pessoas mais um cão-guia, visto que nem todas as pessoas utilizam uma cana como auxílio. Cada cobertor é detalhado com uma faixa de metal texturado, de forma a criar um contraste com a madeira e, também, para alertar e ajudar a sentir o limite do degrau. O corrimão também se considera como um elemento de auxílio, sendo desenhado e testado de forma a ser o mais confortável possível e de forma a estabelecer um contacto físico com o percurso e com o espaço. A nível de materialidade (esquema 45), opta-se por materiais que fornecem uma acústica agradável, onde os sons não são eliminados, mas, pelo contrário, animam o espaço. Cada material é utilizado para definir um espaço especifico e é selecionado conforme a função do mesmo. Utilizam a madeira nas escadas, destacando este elemento e tornando-o acolhedor, enquanto que no espaço de circulação horizontal é utilizado betão polido. A circulação, nomeadamente em zonas de espaço amplo, é delimitada por faixas de metal que fazem a transição entre o espaço de circulação e as zonas sociais, e permitem guiar pessoas com défices visuais que utilizam a cana como auxílio (esquema 46). Os espaços públicos utilizam carpete, que contrasta com o percurso de circulação com um pavimento mais duro e frio. Nas salas de treino, os arquitetos forram as paredes em painéis de feltro acústico com cores vivas que permitem ser detetadas por pessoas com baixa visão e que suscitam a curiosidade do toque (figura 55 e esquema 47). 130 Figuras 56 e 57. Hazelwood School. Glasgow, 2007. Fotografias do edifício. Relevância da forma orgânica da obra que complementa a vegetação pré-existente. Esquema 49. Organização programática Parede-guia/Arrumos Salas Salas de arte/música Ensino Sénior Ensino de habilidades Entrada Administração Cafetaria Ginásio e Piscina W.C. Esquema 48. Estrutura do projeto Lazer ComerServiços Ensino 56. 57. 0 3 5 10 131 A Hazelwood School é uma escola primária para pessoas com dois ou mais défices sensoriais, nomeadamente visuais, auditivos, cognitivos e de mobilidade. O arquiteto tinha como objetivo criar um espaço funcional que respondesse às necessidades das crianças mas que, ao mesmo tempo, lhes fornecesse alguma independência. O edifício desenvolve-se num piso único de forma a evitar os obstáculos e dificuldades que os elementos de circulação vertical desencadeiam para pessoas com défices sensoriais. Apresenta também uma forma orgânica, criando curvas subtis que contornam as árvores préexistentes do local. Assim, a sua forma curvilínea e serpenteada cria um percurso linear e intuitivo que facilita a deslocação no espaço interior e elimina a sensação de um longo corredor apenas funcional. O corredor torna-se o elemento estrutural do edifício, dando acesso a todos os espaços da escola (esquema 48). Deste elemento, surgem espaços adicionais, que reproduzem o mesmo movimento curvo e são agrupados conforme a sua função (esquema 49): na zona da entrada encontra-se uma zona administrativa e de serviços, com os escritórios, o ginásio, a piscina e a cafetaria; de seguida, existe uma área de ensino, com as salas de aulas, de artes e de música, que se prolonga por grande parte do percurso; por fim, no remate do corredor localiza-se a zona de ensino sénior. Existe ainda um volume externo que se dedica ao ensino de habilidades para a vida quotidiana, que pode servir também para estadias temporárias. Esta adição de volumes ancorados ao corredor e agrupados conforme as suas funções, faz com que se estabeleçam pequenos espaços externos que permitem um ensino ao ar livre num ambiente íntimo. Uma vez que o corredor estrutura e organiza todo o edifício, foi HAZELWOOD SCHOOL Alan Dulop Architects Glasgow, Escócia. 2007 132 Esquema 50. Alçado interno. Parede-guia. Figuras 58, 59 e 60. Destaque da Parede-guia e da utilização do corredor. 58. 60. 59. 133 necessário criar elementos que auxiliassem os utilizadores a orientarem-se e a circularem de forma natural pelo espaço. Para isso, o arquiteto cria uma parede interna, que serve como arrumos dos materiais, revestida a cortiça e que, através de uma faixa texturada, fornece pistas táteis para as crianças se orientarem de uma forma mais clara e facilitada (esquema 50, figuras 58, 59 e 60). Para além desta parede-guia, no lado oposto coloca rente ao piso um elemento texturado que funciona como um piso tátil, que guia as pessoas com défices visuais que utilizam a cana como auxílio. As salas de aulas são projetadas de forma a não possuírem barreiras e obstáculos, sendo colocados espaços de arrumação na zona tardoz e na transição entre salas. O espaço de transição entre as salas pode servir também como espaço silencioso e escuro para acalmar as crianças com necessidades especiais. Ao longo de todo o edifício, o arquiteto aplica contrastes de cores e elementos de iluminação adaptáveis que maximizam a visão residual dos utilizadores. 134 Figuras 61 e 62. Living and Learning Residence Hall. Gallaudet, 2012. Fotografias do edifício. Destaque do piso térreo que possui uma relação maior com o exterior, sendo um piso de caráter social. Esquema 51. Organização do programa do edifício Cafetaria Arrumos Sala multifunções Escritórios W.C Sala colaborativa Entrada Sala de Seminário Zona de estar/Auditório 61. 62. 01 3 5 Esquema 52. Linhas de visão e continuidade visual. 135 Living and Learning Residence Hall foi pensado e construído para a educação de pessoas surdas e com défices auditivos, tentando capturar a essência do seu modo de vida a nível linguístico, cultural e cognitivo. Desta forma, os arquitetos trabalharam diretamente com os representantes da escola, que já tinham efetuado um estudo intensivo sobre pessoas com défices auditivos estabelecendo alguns princípios de projeto para que a arquitetura seja mais acessível denominando-se como Deafspace. Atendendo à necessidade de contacto visual contínuo, esta obra tenta criar um espaço livre de barreiras onde a comunicação seja clara, fluída e segura, sendo cada elemento do projeto ponderado e pensado, desde a entrada do edifício até ao dormitório. O edifício desenvolve-se em cinco pisos, sendo o piso térreo um espaço dedicado à aprendizagem e de caráter social, possuindo uma zona de estar que também pode ser utilizada como auditório, um café, uma sala multifunções e uma sala para seminários, e uma área de salas colaborativas, enquanto que os restantes pisos estão direcionados apenas para dormitórios (esquema 51). Para esta obra, os arquitetos focam-se principalmente no sentido da visão, uma vez que as pessoas com défices auditivos possuem uma maior dependência deste sentido, tanto para conseguirem comunicar como para conseguirem compreender o que os rodeia (esquema 52). O vidro, tal como na zona da entrada, é aplicado em toda a obra de modo a que seja possível criar linhas de visão entre o exterior e o interior. LIVING AND LEARNING RESIDENCE HALL LTL Architects + Quinn Evans Architects Gallaudet University, Estados Unidos. 2012 142 • As escadas são pensadas para possuírem uma largura que pode ser utilizada por duas pessoas mais o seu cão-guia e é colocada uma faixa de metal a rematar cada cobertor para alertar para o limite do degrau; • As várias zonas são distinguidas através da diferença de materialidade, para que possam ser identificáveis; • Preocupação em tornar o espaço acusticamente agradável e tornar o som o mais puro possível, através da escolha de materiais que absorvem as vibrações sonoras. 3. LIGHTHOUSE SÍNTESE DE CASOS EXEMPLARES PARA DÉFICES VISUAIS 1. CASA MAC • Criação do projeto numa relação próxima com a cliente; • Processo de comunicação de informação através de desenhos com relevo e maquetes; • Cada atividade possui o seu espaço, de acordo com a rotina da cliente; • Corredor linear que une as diferentes divisões; • Utilização de texturas e materiais diferentes para guiar e orientar a utilizadora, através de um padrão no pavimento interno, com uma linguagem prórpia; • Continuidade espacial. 143 • Desenvolve-se num único piso e apresenta uma forma orgânica e fluída; • O corredor estrutura e une todos os espaços; • Colocação de uma parede-guia, que serve também como arrumação, com uma faixa texturada que permite guiar e orientar as pessoas por todo o espaço; • Os espaços são amplos, com o mínimo de barreiras físicas possíveis, tentando colocar a arrumação nos limites; • Utilização de cor vivas e contrastantes para permite uma perceção melhor a pessoas que possuem baixa-visão. 4. HAZELWOOD SCHOOL 2. CENTRO PARA CEGOS E DEFICIENTES VISUAIS • Presença de vários edifícios que apresentam funções diferentes e que refletem uma identidade própria; • Define-se uma paleta de materiais aplicada a todos os edíficios que é adaptada de acordo com a função; • Identidade e identificação de cada volume através da sua escala, proporção, luminosidade e a proporção de aplicação da materialidade; • Pistas táteis colocadas em cada edifício para fácil identificação; • Utilização de pistas sonoras e olfativas como elementos que permitem guiar e localizar as pessoas. 144 SÍNTESE DE CASOS EXEMPLARES PARA DÉFICES AUDITIVOS 5. LIVING AND LEARNING RESIDENCE HALL • Obra que aplica os princípios do Deafspace; • Criação de um espaço livre de barreiras visuais; • Continuidade visual e linhas de visão desobstruídas entre os vários espaços e com o exterior; • Utilização de portas automáticas, evitando que as pessoas interrompam a comunicação visual; • Elementos de circulação vertical e horizontal com largura suficiente para serem usados por duas pessoas a comunicarem visualmente, lado a lado; • Colocação do vidro de forma a criar linhas de visão no interior para evitar choques; • Posicionamento dos eletrodomésticos nas cozinhas numa ilha central, de forma a que as pessoas continuem a ter perceção geral do espaço; • Utilização de cores vivas que contrastam com os tons de pele para clarificar a comunicação visual e a perceção do espaço; • Equilibrio de luz natural e luz artificial; • Aplicação de sistema de sinalização luminoso para captar a atenção dos utilizadores quando necessário; • Preocupação na escolha dos materiais interiores para o tornar acusticamente agradável, através da diminuição da reverberação. 145 • Espaços amplos que convidam os alunos para uma reunião sem barreiras visuais entre eles; • Utilização de cores vivas e contrastantes com os tons de pele, clarificando a comunicação visual e a perceção do espaço; • Substituição de cantos retos por cantos curvos para aumentar a continuidade visual com os vários espaços; • Colocação de paineis de vidro nos espaços de forma a ser possível verificar e observar o que se desenvolve no seu interior. 6. THE FRANK BARNES SCHOOL 146 70. 71. 147 5. ILAÇÕES FINAIS: ANÁLISE INTERPRETATIVA Por fim, comparam-se os resultados obtidos nas duas análises realizadas, ao individuo e à arquitetura, de forma a identificar soluções para que a habitação se torne mais acessível e verificar a possibilidade de uma arquitetura acessível a ambos os défices sensoriais. 72. 73. 149 Esta dissertação permitiu enfatizar a importância do sistema sensorial na relação entre o indivíduo e o espaço arquitetónico. Para além disso, este estudo convida a uma reflexão da arquitetura como espaço vivido e experienciado pelo ser humano, independentemente das suas vivências e especificidades, promovendo a inclusão e a acessibilidade como conceitos essenciais para a prática projetual. Primeiro, a análise dos sentidos individualmente esclarece a informação fornecida por cada um deles ao ser humano para a perceção do espaço. Ao mesmo tempo, demonstra como é que a arquitetura pode enriquecer a experiência espacial do homem através do uso dos sentidos, tentando incorporar, por exemplo, texturas e materiais distintos ou pistas olfativas. A escala e o dimensionamento dos espaços estão ligados à reverberação do som, pelo que a variação destes impulsiona a criação de uma maior diversidade de sensações. Ao expor a relação de cada sentido com o espaço construído, conseguese provar que a visão não é o único sentido utilizado e necessário, mas que os restantes sentidos auxiliam e complementam a sua perceção, ainda que muitas vezes inconscientemente. Explora-se a ausência de sentidos e a sua implicação na perceção do espaço, focando principalmente nos défices auditivos e visuais. Neste caso, compreende-se que o ser humano ao privar-se de um sentido possui dificuldades e enfrenta obstáculos que o homem comum não possui. Ao investigar os défices sensoriais - e entendendo as variantes possíveis em cada um deles - constata-se que a perceção do espaço difere e sofre uma adaptação para superar a perda de um sentido. Desta forma, a ausência, em grande parte, é substituída pelo desenvolvimento e amplificação de outros sentidos. Assim sendo, os défices auditivos elevam o sentido da visão, dependendo maioritariamente deste para a perceção do espaço, enquanto que os défices visuais potencializam os sentidos do tato e da audição. 150 A realização do questionário possibilitou um contacto e aproximação ao tema a um nível mais pessoal. Salvaguardando que os dados recolhidos não são representativos da população que visam representar, o que pode tornar as conclusões deste estudo tendenciosas, arrisca-se em afirmar que o questionário permitiu compreender melhor a perspetiva da ausência de um sentido. Assim, conseguem-se identificar algumas estratégias de auxílio e dificuldades que os participantes possuem ao percorrer o espaço que habitam. Através da análise de casos exemplares foram identificadas soluções e estratégias arquitetónicas, já utilizadas e testadas por diferentes arquitetos e em contextos diversos, que permitem resolver algumas das necessidades das pessoas com os défices sensoriais em estudo. São reunidos elementos-chave que tornam a arquitetura mais acessível para que possam ser transferidos para a arquitetura doméstica. No questionário, as pessoas com défices auditivos indicam a campainha como a sua principal dificuldade na habitação e a visão como o principal elemento de auxílio. O Living and Learning Residence Hall e a Frank Barnes School, apresentam várias soluções para as dificuldades que as pessoas com défices auditivos possuem. Como exemplo, o obstáculo da campainha é superado através de um sistema informativo luminoso, que consegue captar a atenção dos utilizadores. Para além disso, utilizam a visão como elemento estrutural do projeto, incorporando várias estratégias que maximizam este sentido, e, também, para resolver várias dificuldades no espaço, tais como: o uso de painéis de vidro para manter a continuidade visual entre os espaços; o recurso a cores vivas que criam contrastes e facilitam a comunicação visual; o desenho de espaços amplos e livres de barreiras visuais, entre outros. 151 Assim, ao incorporar estes elementos - continuidade visual, contrastes e linhas de visão desobstruídas - apesar de apenas a campainha ser mencionada no questionário, o espaço da casa torna-se mais acessível e claro para as pessoas com défices auditivos, elevando o sentido da visão como elemento de auxílio. No caso das pessoas com défices visuais, as respostas são mais abrangentes e variadas, sendo apresentados como elementos de auxílios o tato e a memória, e como principal dificuldade as alterações de objetos ou mobiliário no espaço. O tato é também identificado como um elemento que ajuda a orientação e a distinção dos espaços através da diferenciação de texturas, como por exemplo: a criação de um padrão no pavimento que guia o utilizador, como se pode verificar na Casa MAC; ou a aplicação de materiais diferentes para cada zona, tornando-as identificáveis, como no caso do Lighthouse. Apesar da memória não ser referenciada diretamente na fase projetual, a organização do espaço é pensada de forma a ser mais intuitiva e facilmente memorizada, optando sempre por um percurso mais linear. O projeto da Casa MAC apresenta-se como uma exceção nos casos exemplares analisados, uma vez que houve uma relação próxima com a cliente, informando-a acerca da estrutura da habitação através de maquetes e desenhos com relevo, permitindo que esta fosse assimilando e apreendendo o espaço e os percursos interiores. No Centro para Cegos e Deficientes Visuais também são utilizados estímulos sonoros e olfativos, que ajudam a localizar e a guiar o utilizador, e são aplicadas cores vivas, tal como acontece na Hazelwood School, de forma a estabelecer contrastes entre os planos do espaço interior para estes serem mais percetíveis, especialmente para pessoas com baixa-visão.