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Perceção de violência no trabalho no contexto de emergência pré-hospitalar

Barros, Filipa Cristiana Lopes

Abstract

O presente estudo teve como principais objetivos caraterizar a exposição dos tripulantes de ambulância a acontecimentos agressivos ou violentos no trabalho (provenientes de fontes externas à organização), bem como o seu impacto na saúde psicológica geral, e ainda, o efeito da perceção de suporte do contexto organizacional ao nível desta dimensão da saúde. Os dados foram recolhidos através de um inquérito online e em papel. A amostra era constituída por 307 tripulantes de ambulância, 59.9% dos quais mulheres. Os resultados indicaram que a violência psicológica, em comparação com a violência física e vicariante, foi a mais frequente. A violência, fisica e psicológica, estava negativamente correlacionada com a saúde psicológica, ao passo que o suporte do contexto organizacional estava correlacionado positivamente com esta mesma dimensão.

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Universidade do Minho Escola de Psicologia Filipa Cristiana Lopes Barros Perceção de Violência no Trabalho no Contexto de Emergência Pré-Hospitalar junho de 2019 UMinho | 2019 Filipa Barros Perceção de Violência no Trabalho no Contexto de Emergência Pré-Hospitalar Filipa Cristiana Lopes Barros Perceção de Violência no Trabalho no Contexto de Emergência Pré-Hospitalar Dissertação de Mestrado Mestrado Integrado em Psicologia Trabalho realizado sob a orientação da Professora Doutora Isabel Maria Soares da Silva Universidade do Minho Escola de Psicologia junho de 2019 ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ __________________________________________ Filipa Barros Assinado de forma digital por Filipa Barros Dados: 2019.06.04 15:55:28 +01'00' iii Agradecimentos Em primeiro lugar, quero agradecer aos meus pais e restante família por me terem apoiado ao longo deste percurso e terem acreditado em mim. Um agradecimento especial aos meus avós maternos, por cuidarem de mim, pelo orgulho que sempre demonstraram e por todo o apoio que me deram ao longo da minha formação. Ao João, agradeço por me teres apoiado nos momentos mais difíceis, pela compreensão, pelo carinho e por estares sempre pronto para ouvir os meus desabafos e os meus problemas. Obrigada por fazeres parte da minha vida e pelo teu amor. À Vanessa, pelos 20 anos de amizade e pela ajuda com o “inglês”. A todos os meus amigos, que me têm vindo a acompanhar ao longo destes anos. Quero também agradecer à Professora Doutora Isabel Silva, pela sua disponibilidade, pela dedicação e por todo o apoio que me deu ao longo desta etapa. . A todos os colegas voluntários, assalariados, formadores, coordenadores e presidentes da organização onde foram recolhidos os dados do estudo. Agradeço a disponibilidade, o espírito de companheirismo e o interesse demonstrado pela minha investigação. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. __________________________________________ Filipa Barros Assinado de forma digital por Filipa Barros Dados: 2019.06.04 15:56:02 +01'00' v Perceção de Violência no Trabalho no Contexto de Emergência Pré-Hospitalar Resumo O presente estudo teve como principais objetivos caraterizar a exposição dos tripulantes de ambulância a acontecimentos agressivos ou violentos no trabalho (provenientes de fontes externas à organização), bem como o seu impacto na saúde psicológica geral, e ainda, o efeito da perceção de suporte do contexto organizacional ao nível desta dimensão da saúde. Os dados foram recolhidos através de um inquérito online e em papel. A amostra era constituída por 307 tripulantes de ambulância, 59.9% dos quais mulheres. Os resultados indicaram que a violência psicológica, em comparação com a violência física e vicariante, foi a mais frequente. A violência, fisica e psicológica, estava negativamente correlacionada com a saúde psicológica, ao passo que o suporte do contexto organizacional estava correlacionado positivamente com esta mesma dimensão. Palavras-chave : tripulantes de ambulância, saúde psicológica geral, suporte da chefia, suporte dos colegas de trabalho, violência no trabalho. vi Violence Perception in the Pre-Hospital Emergency Workplace Abstract The main goal of this research was to characterize the exposure of ambulance workers to aggressive or violent incidents at work (from sources external to the organization), as well as its impact on the level of general psychological health and the impact of the perception of support of the organizational context in this health scope. The data were collected through an online and paper-based survey. The sample consisted of 307 ambulance workers, 59.9% of whom are women. The results indicated that psychological violence, compared with physical and vicarious violence, was the most frequent. Violence, physical and psychological, was negatively correlated with psychological health, while support of organizational context was positively correlated with it. Keywords : ambulance workers, general psychological health, supervisor support, co-workers support, workplace violence. vii Índice Introdução .......................................................................................................................................... 8 Violência em contexto de socorro pré-hospitalar .............................................................................. 9 Consequências da violência no local de trabalho ........................................................................... 10 O papel do suporte social do contexto organizacional .................................................................... 11 Objetivos ...................................................................................................................................... 12 Metodologia ...................................................................................................................................... 13 Participantes ................................................................................................................................ 13 Instrumentos ................................................................................................................................ 15 Procedimento ............................................................................................................................... 17 Resultados ....................................................................................................................................... 18 Propriedades psicométricas da Escala de Agressão e Violência no Trabalho................................... 18 Caraterização da exposição dos Tripulantes de Ambulância à violência .......................................... 21 Discussão......................................................................................................................................... 26 Referências ...................................................................................................................................... 30 Índice de Tabelas Tabela 1 - Caraterização Sociodemográfica da Amostra ..................................................................... 13 Tabela 2 - Situação Profissional ........................................................................................................ 15 Tabela 3 - Resultados da Análise Fatorial Exploratória da Escala de Agressão e Violência no Trabalho 19 Tabela 4 - Estatística Descritiva, Matriz de Correlações entre as Dimensões da Escala de Violência e Alpha de Cronbach em Dimensão (apresentados na diagonal) ........................................................... 20 Tabela 5 - Frequências de Acontecimentos Violentos ou Agressivos ................................................... 22 Tabela 6 - Médias e Desvios-Padrão do Sexo e Formação sobre Violência ao Nível dos Tipos de Violência …………………………………………………………………………………………………………………………. 24 Tabela 7 - Matriz de Correlações de Pearson entre as Dimensões da Escala de Violência, a Perturbação da Saúde Psicológica Geral e o Suporte Social dos Colegas e da Chefia ............................................. 25 Tabela 8 - Sumário da Análise de Regressão Linear Múltipla para as Variáveis Preditoras da Perturbação de Saúde Psicológica Geral ........................................................................................... 25 Running Head : VIOLÊNCIA NO CONTEXTO DE EMERGÊNCIA PRÉ-HOSPITALAR 8 A violência no local de trabalho afeta milhões de pessoas em todo o mundo, podendo-se tornar uma ameaça ao bom funcionamento das organizações (International Labour Organization/International Council of Nurses/World Health Organization/Public Services International [ILO/ICN/WHO/PSI], 2002). Para além das consequências ao nível organizacional (ILO/ICN/WHO/PSI, 2002; LeBlanc & Kelloway, 2002), também são reconhecidas consequências ao nível do bem-estar e saúde geral das vítimas (Chappell & Di Martino, 2006; ILO/ICN/WHO/PSI, 2002; Mayhew & Chappell, 2007; Marques & Silva, 2017). Embora este fenómeno seja transversal aos vários tipos de profissões, existem setores de trabalho onde o risco de exposição a acontecimentos violentos ou agressivos é mais elevado, como é o caso do setor da saúde (Gates, Ross, & McQueen, 2006; Health and Safety Executive [HSE], 2019). Apesar de ainda não existir uma definição consensual do conceito de violência no local de trabalho (Chappell & Di Martino, 2006), de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (em inglês, ILO) esta violência pode ser descrita como um conjunto de “qualquer ação, incidente ou comportamento que se afaste da conduta razoável e na qual uma pessoa é agredida, ameaçada, prejudicada, ferida no decurso, ou como resultado direto, do seu trabalho” (ILO, 2003, p. 4). Estes atos podem ocorrer não só no local de trabalho, como também em circunstâncias relacionadas com a sua atividade laboral, podendo mesmo ocorrendo na casa das próprias vítimas (European Agency for Safety and Health at Work [EU-OSHA], 2010). Para além da definição acima referida, podemos categorizar a violência quanto à sua origem: origem interna (quando esta ocorre entre trabalhadores, incluindo supervisores e chefias) ou origem externa (quando ocorre entre trabalhadores – incluindo supervisores e chefias – e qualquer outra pessoa externa à organização) (ILO, 2003). Resultados do inquérito “2017/18 CSEW” (Crime Survey for England and Wales) revelaram que na maioria dos casos a violência ocorrida no local de trabalho era proveniente de ofensores desconhecidos da vítima (em cerca de 54% dos casos) e em 28% dos casos provinha de clientes/membros do público com quem as vítimas trabalhavam (HSE, 2019). A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (EU – OSHA, 2010) indica ainda que a violência pode ser categorizada em três tipos: (1) Tipo I – refere-se aquela que é perpetrada por criminosos sem qualquer ligação ao local de trabalho dos indivíduos; (2) Tipo II – referente à violência dirigida a profissionais, proveniente de sujeitos exteriores à organização (e.g., clientes, pacientes); (3) Tipo III – violência dirigida a colegas de trabalho, gerentes ou supervisores por um outro colaborador da organização ou por um ex-colaborador. O presente estudo tem como foco a violência de Tipo II, tendo a investigação demonstrado que se trata do tipo de violência mais frequente no setor da saúde (e.g., Health and Safety Execitive [HSE], VIOLÊNCIA NO CONTEXTO DE EMERGÊNCIA PRÉ-HOSPITALAR 15 Tabela 2 Situação Profissional Variável n % Formação Específica TAT (Tripulante de Ambulância de Transporte) 191 60.9 TAS (Tripulante de Ambulância de Socorro) 109 35.5 TEPH (Técnico de Emergência Pré-Hospitalar) 3 1.0 Sem informação/Outra 8 2.6 Regime de Colaboração Voluntário(a) 217 70.7 Voluntário(a) e Funcionário(a) 75 23.5 Funcionário(a) 19 5.9 Instrumentos Questionário Sociodemográfico e Profissional. O questionário sociodemográfico constituiu a primeira parte de um conjunto de instrumentos. Este continha questões de natureza sociodemográficas (sexo, idade, estado civil, habilitações literárias, condição perante o trabalho) e questões relacionadas à atividade de Tripulante de Ambulância (formação específica e adicional, regime de colaboração, antiguidade e delegação), tendo em vista a caraterização da amostra. Escala de Agressão e Violência no Trabalho. A segunda parte do questionário continha a versão portuguesa (Marques & Silva, 2017) da Escala de Agressão e Violência no Trabalho ( Agression and Violence at Work Scale ) de Rogers e Kelloway (1997). Esta escala é constituída por 16 itens e foi utilizada com o intuito de avaliar a frequência de acontecimentos agressivos ou violentos (ocorridos durante o último ano) provenientes de fontes externas, como: clientes/doentes ou familiares/amigos dos doentes. Estes acontecimentos eram referentes aos períodos em que os indivíduos se encontravam a desempenhar funções enquanto Tripulantes de Ambulância. Os itens são avaliados numa escala de likert de quatro pontos: 0 (Nunca), 1 (Uma vez), 2 (Duas ou três vezes) e 4 (Quatro ou mais vezes). Quando maior a pontuação em cada item, maior a frequência de exposição a acontecimentos agressivos ou violentos. Esta escala é constituída, na sua versão original, por três subescalas principais: (1) a violência física no trabalho (e.g., “Já alguém lhe cuspiu ou mordeu enquanto estava a trabalhar?”) constituída por 8 itens; (2) a violência psicológica no VIOLÊNCIA NO CONTEXTO DE EMERGÊNCIA PRÉ-HOSPITALAR 16 trabalho avaliada por 3 itens (e.g., “Alguma vez foi injuriado enquanto estava a trabalhar?”); e (3) a violência vicariante no trabalho obtida através de 5 itens (e.g., “Já ouviu falar de algum caso em que os seus colegas de trabalho/diretores tenham sido ameaçados de violência física no trabalho?”). De acordo com a versão portuguesa (Marques & Silva, 2017), utilizada com profissionais de enfermagem, a dimensão da violência física subdivide em: “violência física face a bens” e em “violência física face a si próprio”. Assim sendo, estes autores identificaram quatro fatores: 1) violência física dirigida ao profissional; 2) violência física dirigida a bens; 3) violência psicológica e 4) violência vicariante. Nesta versão, foram obtidos Alphas de Cronbach compreendidos entre .68 (na subescala “violência física dirigida a bens”) e .81 (na subescala “violência física dirigida ao profissional”). Ainda nesta secção, constava um item adicional que visava avaliar a perceção das vítimas acerca da intencionalidade dos atos agressivos ou violentos por parte do/a (s) agressor/a (es). O item foi construído no âmbito do presente estudo, com base no estudo de Mayhew e Chappell (2003). Os participantes só respondiam a esta questão se tivessem sido expostos a algum tipo de violência mencionada na escala de Agressão e Violência no Trabalho (nos últimos 12 meses). As respostas eram dadas numa escala de 4 pontos: 0 – “Nunca”, 1 – “Algumas vezes”, 2 – “A maior parte das vezes” e 3 – “Sempre”. Deste modo, pontuação mais alta, corresponde a maior perceção de intencionalidade dos acontecimentos agressivos ou violentos. Perceção de Suporte Social do Contexto Organizacional. A terceira parte do protocolo, incluía duas medidas da perceção do suporte social do contexto organizacional: perceção de suporte social dos colegas (e.g., “Os seus colegas estão sempre disponíveis a ouvir os meus problemas”) e perceção de suporte social da chefia (e.g., “O/a seu/sua chefe está sempre disponível a ouvir os meus problemas”). Cada escala era constituída por quatro itens, cotados numa escala de likert de 5 pontos, desde “Discordo totalmente” (1) até “Concordo totalmente” (5). Nas duas escalas, quanto maior o valor cotado, maior a perceção de suporte. As presentes escalas foram adaptadas para português por Silva (2008) a partir da versão modificada por Lee (2004), do instrumento desenvolvido por Caplan, Cobb, French, Van Harrison e Pinneau (1975). As duas escalas apresentaram boa consistência interna, apresentando em ambos os casos um Alpha de Cronbach de .92. Questionário de Saúde Geral. A última e quarta parte do questionário, era composta pela versão reduzida do Questionário de Saúde Geral (General Health Questionnaire – GHQ), originalmente constituída por 60 itens (desenvolvida por Goldberg, 1978). A versão reduzida contém 12 itens e encontra-se adaptada para a população portuguesa por McIntyre, McIntyre e Redondo (1999) – funcionando como uma medida simples da saúde VIOLÊNCIA NO CONTEXTO DE EMERGÊNCIA PRÉ-HOSPITALAR 17 mental dos indivíduos. As respostas aos itens do questionário encontram-se compreendidas numa escala de quatro pontos que oscilam, por exemplo, entre “Menos que habitualmente” até “Muito mais que habitualmente”. Cada item pode ser cotado com 0 (zero), até um máximo de 3 (três) pontos. Quanto maior o valor apresentado na soma dos pontos obtidos nas respostas, maior é o grau da perturbação. Cada participante pode obter um total de 0 a 36 pontos, sendo considerados valores clínicos, aqueles que se encontrem acima de 20 pontos (Goldberg & Williams, 1988). Na versão adaptada para a população portuguesa por McIntyre, McIntyre e Redondo (1999) foram identificados dois fatores, o “Fator Depressão” e o “Fator Ansiedade”. No entanto, como refere Araújo (2009), há indicações de não consistência nos resultados no que respeita à estrutura fatorial desta escala. O autor citado, no próprio estudo, que realizou sob a orientação de McIntyre e McIntyre (Araújo, 2009), optou por utilizar a referida escala como indicador de morbilidade psicológica numa estrutura unidimensional, tendo sido obtido um Alpha de Cronbach de .75. Face ao conjunto de considerações anteriores, optou-se também por uma estrutura unifatorial na utilização deste instrumento. Procedimento Numa fase inicial foi realizado um pré-teste com cinco tripulantes de ambulância, de modo a auferir possíveis esforços ou dificuldades de compreensão do protocolo de investigação. Para este efeito, foram selecionados participantes com diferentes graus de escolaridade (dois com formação superior, um com o 12.º ano e dois com o 9.º ano de escolaridade) e provenientes de três regiões de atuação distintas. Após ter sido realizado o pré-teste, e não terem sido detetas dificuldades no preenchimento do questionário, prosseguiu-se para a divulgação do mesmo. Tendo como objetivo maximizar o tamanho da amostra, optamos por uma recolha de dados mista, isto é, online e em papel. Foram distribuídos quatro questionários em papel e respetivo consentimento informado, numa instituição de acesso privilegiado ao investigador, devido a dificuldades dos participantes em manusear ferramentas digitais. Foi obtida uma taxa de resposta de 100%. Também foi disponibilizado um link da versão online do questionário através das redes sociais, nomeadamente, num grupo de facebook ® exclusivo para tripulantes de ambulância no ativo. O questionário esteve disponível online durante cerca de um mês. Antes de avançarem para o preenchimento do questionário, os participantes foram informados acerca dos objetivos do estudo, do caráter voluntário da sua participação e foi assegurada a confidencialidade e anonimato das respostas. No caso do preenchimento em formato digital, os participantes apenas conseguiam avançar para o preenchimento do questionário VIOLÊNCIA NO CONTEXTO DE EMERGÊNCIA PRÉ-HOSPITALAR 18 após aceitação dos termos e condições referidas no consentimento informado, podendo, os mesmos, desistir a qualquer momento sem qualquer penalização. Procedimentos de análise de dados Num total de 311 respostas, foram obtidas 4 respostas em formato de papel. Por questões de homogeneidade no método de recolha de dados decidiu-se retirar da amostra estes participantes. Foram realizadas as análises com e sem os quatro participantes e não foram detetadas diferenças nos resultados. A análise dos dados foi realizada através do Statistical Package for the Social Sciences (IBM®SPSS®, versão 25.0). Para além da análise descritiva dos dados, foram realizadas análises de correlações e testes de diferenças entre grupos. Nos casos em que os pressupostos para o uso de testes paramétricos não estavam cumpridos, optou-se por realizar ambas as análises, paramétricas e nãoparamétricas. Quando não eram detetadas diferenças nas conclusões obtidas em ambos os testes, eram relatados os resultados obtidos através dos testes paramétricos, tal como recomenda Fife-Schaw (2006). Assim sendo, foram realizadas correlações de Pearson e testes t de Student para amostras independentes, considerando um nível de significância <.05. Ao nível não paramétrico, foram realizadas correlações de Spearman e o teste de Kruskal - Wallis . Também foram examinadas as propriedades psicométricas da Escala de Agressão e Violência no Trabalho ao nível da análise da validade e fidelidade das respetivas subescalas. Foram ainda realizadas análises de regressão linear múltipla. Nesta análise foram tidos em consideração os pressupostos da homocedasticidade, autocorrelação, normalidade dos resíduos, ausência de multicolinearidade e outliers e observações influentes (Field, 2009). Resultados Propriedades psicométricas da escala de Agressão e Violência no Trabalho A validade da escala de Agressão e Violência no Trabalho foi estudada através da análise exploratória dos componentes principais com rotação varimax , tendo sido considerado o critério de normalidade de Kaiser ( eigenvalue ≥ 1). A consistência interna da escala (fidelidade) foi analisada através do cálculo do coeficiente Alpha de Cronbach . A medida de KMO ( Kaiser-Meyer-Olkin measure of sample adequancy ) verificou um valor de .92, o que indica uma adequação muito boa da amostragem, por ser um valor acima de .90 (Field, 2009). Em relação ao teste de esfericidade de Bartlett X2 (120) = 2073.41, p < .001, indicou que a correlação entre os itens era suficientemente elevada, pelo que foi possível avançar com as análises. VIOLÊNCIA NO CONTEXTO DE EMERGÊNCIA PRÉ-HOSPITALAR 19 Tabela 3 Resultados da Análise Fatorial Exploratória da Escala de Agressão e Violência no Trabalho Itens H2* Fator 1 Fator 2 Fator 3 1.Alguma vez foi esbofeteado, pontapeado, amarrado ou empurrado enquanto estava a trabalhar? .555 .267 .110 .687 2.Já alguém lhe cuspiu ou mordeu enquanto estava a trabalhar? .531 .135 .297 .651 3.Já lhe atiraram algum objeto enquanto estava a trabalhar? .596 .144 .415 .635 4.Já foi ameaçado(a) com alguma dos exemplos de violência física acima referidos enquanto estava a trabalhar? .655 .319 .473 .574 5.Já foi ameaçado(a) com uma arma enquanto estava a trabalhar? .433 .010 .026 .658 6.Os seus bens pessoais ou de trabalho já foram danificados por alguém no seu trabalho? .486 .044 .684 .127 7.Já alguém o/a ameaçou de danificar os seus bens pessoais ou de trabalho enquanto estava a trabalhar? .555 .183 .703 .168 8.Já alguém lhe fechou a porta na cara enquanto estava a trabalhar? .522 .208 .654 .224 9.Já lhe gritaram ou berraram enquanto estava a trabalhar? .652 .386 .665 .247 10.Alguma vez foi injuriado(a) enquanto estava a trabalhar? .635 .372 .652 .269 11.Já se sentiu observado(a) fixamente enquanto estava a trabalhar? .414 .448 .462 .004 12.Alguma vez viu algum colega/chefia experienciar acontecimentos violentos no trabalho? .527 .584 .372 .217 13.Alguma vez ouviu falar se os seus colegas/ chefia experienciaram algum ato violento durante o trabalho? .712 .827 .155 .065 14.Já viu algum colega/chefia serem ameaçados de violência física no trabalho? .635 .616 .302 .405 15.Já ouviu falar de algum caso em que colegas/chefia tenham sido ameaçados de violência física no trabalho? .736 .830 .106 .187 16.Algum dos seus amigos/familiares sofreram ou foram ameaçados de violência física enquanto estavam no trabalho? .478 .652 .196 .118 VIOLÊNCIA NO CONTEXTO DE EMERGÊNCIA PRÉ-HOSPITALAR 20 Percentagem da Variância Explicada por Fator 20.62 20.44 15.95 Nota. N = 307. *h2 – comunalidades. Feita a análise, verificou-se a extração de 3 componentes (que serão designados de fatores ao longo do texto) que explicavam 57.01% da variância total. Na Tabela 3 são apresentados os pesos de saturação dos 16 itens da escala pelos 3 fatores obtidos, assim como as comunalidades associadas. Foram usados como critérios para de retenção dos itens num determinado fator a natureza estatística (peso igual ou superior a .50 no fator e contributo do item no cálculo da fiabilidade das subescalas) e considerações de natureza teórica. Como é possível observar na Tabela 3, o primeiro fator denominado de Violência vicariante , explica 20.62% da variância total e nele saturam os itens 12, 13, 14, 15 e 16. O segundo fator, denominado de Violência psicológica , explica 20.44% da variância total e engloba os itens 6, 7, 8, 9, 10 e 11. Por último, o terceiro fator, agrupa os itens 1, 2, 3, 4 e 5 e explica 15.95% da variância total. Este fator foi designado de Violência física . Os itens 6, 7 e 8, que tanto na escala original (Rogers e Kelloway, 1997), como na versão adaptada por Marques e Silva (2017) eram considerados violência física, nesta análise saturam no fator Violência psicológica . Tabela 4 Estatística Descritiva, Matriz de Correlações entre as Dimensões da Escala de Violência e Alpha de Cronbach em cada Dimensão (apresentados na diagonal) Dimensão Média Desvio Padrão 1 2 3 Violência Vicariante 0.95 0.78 (.84) Violência Psicológica 0.97 0.68 .65** (.81) Violência Física 0.44 0.54 .55** .65** (.77) Nota. ** p < .01. Posteriormente, foi analisada a consistência interna, através o coeficiente Alpha de Cronbach para cada uma das subescalas. Como se pode observar na Tabela 4, o coeficiente oscilou entre .77 para a Violência física e .84 para a Violência vicariante . Todas as subescalas apresentam um valor do Alpha de Cronbach superior a .70, e por isso, segundo Field (2009), são considerados bons níveis de fiabilidade. Na Tabela 4 também são apresentados os valores das correlações entre as diferentes subescalas, sendo que todas elas se encontram positivamente relacionadas entre si. Os valores oscilam VIOLÊNCIA NO CONTEXTO DE EMERGÊNCIA PRÉ-HOSPITALAR 21 entre .55 (correlação entre Violência física e Violência vicariante ) e .65 (nas restantes correlações). Ainda nesta tabela são apresentados os valores médios relativos à perceção de exposição à violência. A violência psicológica é aquela que se destaca com um valor médio mais elevado ( M = 0.97, DP = 0.68) e a violência fisica é o tipo de violência relatado com menor frequência ( M = 0.44, DP = 0.54). Caraterização da exposição dos Tripulantes de Ambulância à violência Nesta seção são apresentados os resultados relativos à caraterização da violência no trabalho, incluindo análises da relação entre esta e variáveis individuais. Na Tabela 5 é possível observar a apresentação detalhada dos resultados (por item) relativos à frequência de exposição dos tripulantes a acontecimentos agressivos ou violentos, durante o último ano. Estes resultados estão organizados por ordem decrescente da ausência de comportamentos agressivos. O comportamento referido com menor frequência pelos tripulantes de ambulância é ser “ ameaçado(a) com arma enquanto estava a trabalhar ”. Especificamente, 89.3% dos tripulantes refere nunca ter experienciado um acontecimento destes durante o exercício da sua atividade, no último ano, ao passo que 0.7% afirma ter sido vítima deste comportamento quatro ou mais vezes neste mesmo intervalo de tempo. Por outro lado, sentir-se “ observado(a) fixamente enquanto estava a trabalhar ” é o acontecimento mais frequentemente relatado por estes profissionais. Cerca de 37.5% dos tripulantes afirma ter sido exposto a este acontecimento quatro vezes ou mais, no último ano. Por oposição, apenas 16.6 % refere nunca ter sido exposto, neste período de tempo. VIOLÊNCIA NO CONTEXTO DE EMERGÊNCIA PRÉ-HOSPITALAR 22 Tabela 5 Frequências de Acontecimentos Violentos ou Agressivos No último ano… 0 vezes 1 vez 2 a 3 vezes 4 ou mais vezes n % n % n % n % 5.Já foi ameaçado(a) com uma arma enquanto estava a trabalhar? (VF) 274 89.3 28 9.1 3 1.0 2 0.7 6.Os seus bens pessoais ou de trabalho já foram danificados por alguém no seu trabalho? (VP) 245 79.8 43 14.0 17 5.5 2 0.7 2.Já alguém lhe cuspiu ou mordeu enquanto estava a trabalhar? (VF) 232 75.6 41 13.4 28 9.1 6 2.0 3.Já lhe atiraram algum objeto enquanto estava a trabalhar? (VF) 232 75.6 43 14.0 25 8.1 7 2.3 7.Já alguém o/a ameaçou de danificar os seus bens pessoais ou de trabalho enquanto estava a trabalhar? (VP) 230 74.9 41 13.4 30 9.8 6 2.0 1.Alguma vez foi esbofeteado. pontapeado. amarrado ou empurrado enquanto estava a trabalhar? (VF) 220 71.7 47 15.3 32 10.4 8 2.6 16.Algum dos seus amigos/familiares sofreram ou foram ameaçados de violência física enquanto estavam no trabalho? (VV) 200 65.1 52 16.9 39 12.7 16 5.2 8.Já alguém lhe fechou a porta na cara enquanto estava a trabalhar? (VP) 175 57.0 76 24.8 38 12.4 18 5.9 14.Já viu algum colega/chefia serem ameaçados de violência física no trabalho? (VV) 169 55.0 64 20.8 55 17.9 19 6.2 12.Alguma vez viu algum colega/chefia experienciar acontecimentos violentos no trabalho? (VV) 152 49.5 67 21.8 61 19.9 27 8.8 VIOLÊNCIA NO CONTEXTO DE EMERGÊNCIA PRÉ-HOSPITALAR 23 4.Já foi ameaçado(a) com alguma dos exemplos de violência física acima referidos enquanto estava a trabalhar? (VF) 150 48.9 72 23.5 65 21.2 20 6.5 10.Alguma vez foi injuriado(a) enquanto estava a trabalhar? (VP) 130 42.3 65 21.2 62 20.2 50 16.3 15.Já ouviu falar de algum caso em que colegas/chefia tenham sido ameaçados de violência física no trabalho? (VV) 106 34.5 87 28.3 75 24.4 39 12.7 13.Alguma vez ouviu falar se os seus colegas/ chefia experienciaram algum ato violento durante o trabalho? (VV) 96 31.3 62 20.2 89 29.0 60 19.5 9.Já lhe gritaram ou berraram enquanto estava a trabalhar? (VP) 71 23.1 81 26.4 82 26.7 73 23.8 11.Já se sentiu observado(a) fixamente enquanto estava a trabalhar? (VP) 51 16.6 58 18.9 83 27.0 115 37.5 Nota. VF = Violência Física. VP = Violência Psicológica. VV = Violência Vicariante. Foram realizadas análises adicionais ao nível das diferenças estatísticas entre variaríeis individuais e a exposição à violência (ver tabela 7). Os resultados indicam que os homens relatam uma exposição significativamente superior à violência psicológica ( t (247.430) = -2.09, p < .05), em comparação com as mulheres. Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas ao nível da exposição a violência fisica ( t (237.942) = -1.61, p = .109) e vicariante ( t (253.171) = -1.30, p =.198), em função do sexo. Os dados mostram que os participantes que realizaram alguma formação ou workshop sobre violência ou estratégias de gestão de violência estiveram significativamente mais expostos a violência física ( t (220.731) = -2.59, p = .01) e psicológica ( t (208.419) = -2.48, p = .01), do que aqueles que nunca obtiveram este tipo de formação. Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas ao nível da violência vicariante ( t (209.788) = -.53, p = .060). VIOLÊNCIA NO CONTEXTO DE EMERGÊNCIA PRÉ-HOSPITALAR 24 Tabela 6 Médias e Desvios-Padrão do Sexo e Formação sobre Violência ao Nível dos Tipos de Violência Sexo Formação sobre violência Masculino ( n = 123) Média ( DP) Feminino ( n = 184) Média ( DP) Sim ( n = 106) Média ( DP) Não ( n = 201) Média ( DP) 1. Violência Vicariante 1.02 (0.81) 0.90 (0.77) 0.98 (0.80) 0.93 (0.78) 2. Violência Psicológica 1.07 (0.71) 0.90 (0.66) 1.10 (0.69) 0.90 (0.67) 3. Violência Física 0.50 (0.58) 0.39 (0.51) 0.54 (0.52) 0.34 (0.54) Foi ainda realizado o teste de Kruskal-Wallis (χ2) para analisar as diferenças em termos de exposição à violência, em função da idade dos participantes (ver categorias na Tabela 1). Dada a existência de um só sujeito na categoria “Entre os 61 – 70 anos”, optou-se por adicioná-lo ao grupo anterior (“Entre os 51 – 60 anos”) e considerar a categoria “51 – 70 anos” na análise das diferenças. Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas ao nível da violência física (χ2 (3) = 6.10, p = .192), da violência vicariante (χ2 (3) = 2.95, p = .565), nem ao nível da violência psicológica (χ2 (3) = 6.68, p = .154). A Tabela 7 apresenta os coeficientes de correlação de Pearson entre as dimensões da escala de violência no trabalho, a perturbação da saúde psicológica geral e a perceção de suporte social proveniente de colegas de trabalho/atividade e da chefia. Como é possível observar na referida tabela, foram observadas correlações estatisticamente significativas e positivas entre a perturbação da saúde psicológica geral e a violência psicológica ( r = .16, p < .01) e física ( r = .14, p < .05). Já a violência vicariante correlaciona-se marginalmente e de forma positiva ( r = .10, p < .10) com esta variável. Verificase, ainda, correlações estatisticamente significativas e negativas entre a perturbação da saúde psicológica geral e o suporte social dos colegas ( r = -.26, p < .001) e da chefia ( r = -.24, p < .001). A relação entre a intencionalidade da violência e a perturbação da saúde psicológica geral, foi analisada através do coeficiente de correlação de Spearman , visto que os dados relativos à intencionalidade estão numa escala ordinal. Posto isto, verificaram-se correlações positivamente significativas entres estas variáveis ( r s = .21, p < .001). VIOLÊNCIA NO CONTEXTO DE EMERGÊNCIA PRÉ-HOSPITALAR 31 European Agency for Safety and Health at Work (2010). Workplace violence and harassment: a European picture. Luxemburgo: Publications Office of the European Union. https://doi.org/10.2802/12198 Field, A. (2009). Discovering Statistics Using SPSS (3.ª Ed.). London: SAGE. Fife-Schaw, C. (2006). Levels of Measurement. In G. M. Breakwell, S. Hammond, C. Fife-Schaw, & J. A. 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