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A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa

Soares, Juliana da Silva

Abstract

O presente relatório foi realizado no âmbito do estágio curricular do Mestrado em Ciências da Comunicação – Área de Especialização Informação e Jornalismo, que teve início a 3 de outubro de 2022 e terminou a 6 de janeiro de 2023, na redação da Agência Lusa, no Porto. Além de apresentar a identidade acolhedora e de descrever as atividades realizadas, este documento tem o objetivo de analisar a produção de informação nas agências de notícias, nomeadamente na Agência Lusa, e baseia-se numa pesquisa bibliográfica, onde se procurou, através das definições e opiniões de diversos autores, fazer uma interpretação do jornalismo de agência. Na primeira parte está explicitada a revisão de literatura, onde se pretende demonstrar o modo de informar no jornalismo de agência. De uma forma geral, pretende-se descrever como é feito este tipo de jornalismo no nosso país, a linguagem e as fontes utilizadas. A Agência Lusa é uma das principais fontes de informação dos diversos órgãos de comunicação. Desta forma, ao longo do relatório de estágio pretende-se, em primeiro lugar, caracterizar a Agência Lusa enquanto instituição, abordar alguns aspetos do seu funcionamento, transmitir quais são as suas principais diretrizes, os seus produtos e serviços e também a sua estratégia. Através da experiência de três meses de estágio nesta empresa, serão identificadas as várias tarefas desempenhadas enquanto estagiária, as aprendizagens, as dificuldades, as saídas para o terreno, entre outros aspetos. O Livro de Estilo da Agência Lusa é um documento que será destacado neste relatório, assim como o rigor e a rapidez informativa, e também o papel que a Lusa pode ter no combate às fake news. Posto isto, considera-se importante abordar a evolução das agências de notícias em Portugal, perceber quais foram as principais agências que se destacaram no nosso país e abordar cada uma delas. Ao mesmo tempo, entende-se que será essencial compreender se as agências são consideradas, de facto, fontes de informação para os diversos órgãos de comunicação. O foco principal deste relatório de estágio recai sobre uma questão importante a ter em conta: Como é que a Lusa tem acesso às informações para as transmitir a outros órgãos? Ou seja, no relatório de estágio pretende-se abordar como é que a Lusa tem acesso às informações, perceber o que faz a Lusa para ser, muitas vezes, a primeira a noticiar. De forma resumida, os órgãos de comunicação usam a Agência Lusa como fonte de informação e o que quero compreender melhor é como é que a informação chega à Lusa e como são as rotinas de produção que transformam a agência numa espécie de “mercado abastecedor de notícias”. Para responder às questões do relatório de estágio, procurou-se recorrer a instrumentos de recolha de informação de natureza qualitativa, através da realização de entrevistas, de modo a esclarecer estes aspetos. Ao mesmo tempo, procurou-se utilizar documentos (livros, revistas, teses de licenciatura, mestrado e doutoramento, etc.) que permitem refletir sobre a problemática de partida. No final, após a realização das entrevistas e de um retrato breve do estado da arte, são anotadas as considerações finais.

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Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Juliana da Silva Soares A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa janeiro de 2024 UMinho | 2024 Juliana da Silva Soares A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa Juliana da Silva Soares A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa Relatório de Estágio Mestrado em Ciências da Comunicação Área de especialização em Informação e Jornalismo Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Madalena Oliveira Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais janeiro de 2024 A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa i DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do Repositório UM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ ii Agradecimentos O Mestrado em Ciências da Comunicação – Área de Especialização Informação e Jornalismo, na Universidade do Minho, deu-me a oportunidade de ter acesso a uma das melhores experiências da minha vida: a realização do estágio curricular na Agência Lusa, que me enriqueceu tanto a nível profissional como pessoal. Tudo isto não seria possível se as pessoas que mais amo não estivessem comigo. Deste modo, não poderia chegar ao fim desta etapa sem deixar alguns agradecimentos. Em primeiro lugar, quero dedicar este relatório de estágio à minha avó Deolinda que, infelizmente, já não está comigo, mas que, tenho a certeza, onde quer que esteja, está a torcer por mim e a vibrar com as minhas conquistas. Quero agradecer aos meus pais por me acompanharem desde o primeiro dia, por apoiarem, do primeiro ao último segundo, todas as minhas escolhas/decisões. Com eles tudo se torna mais fácil. Obrigada por tudo. Amo-vos incondicionalmente. Aos meus irmãos, Hélder e Cristiana, com quem sei que posso sempre contar. Obrigada por toda a paciência que têm comigo, por terem sempre as palavras certas e por me fazerem acreditar que quando queremos muito uma coisa, conseguimos sempre alcançá-la. Ainda bem que vos tenho comigo. Amo-vos. À minha cunhada Bia, por também estar sempre presente, por todos os conselhos, palavras amigas e por fazer questão de me acompanhar nesta caminhada. Gosto muito de ti. Aos meus sobrinhos, Inês, Sara e Gabriel, que tornam os meus dias melhores e são o que de melhor tenho na vida. Nem consigo dizer por palavras o quanto vos amo. Ao meu avô Armando, pelos sorrisos e abraços cheios de orgulho que sempre me dá e que me enchem o coração. A toda a minha família, que está sempre quando é preciso e quando não é. Aos meus amigos, eles sabem quem são, por todo o apoio e companheirismo e por vibrarem com as minhas conquistas como se fossem as deles. Adoro-vos do fundo do meu coração. À Professora Doutora Madalena Oliveira, a minha orientadora. Um enorme obrigada por ser uma excelente profissional. Agradeço pelo acompanhamento, pelos conselhos dados, por toda a disponibilidade prestada, pela atenção, pela preocupação e pela paciência ao longo deste ano complexo. À Agência Lusa, principalmente à equipa da redação do Porto, por me ter colocado à vontade, por toda a simpatia, por todos os conselhos, ensinamentos, ajuda e apoio. Aos jornalistas entrevistados para a parte empírica deste relatório, pela disponibilidade, amabilidade, sinceridade e simpatia com que responderam às minhas questões. A Lusa foi, sem dúvida, uma ótima escola para aprender jornalismo e tenho a certeza de que, no futuro, tudo o que aprendi, me vai acompanhar sempre. Obrigada por tudo. Por fim, a todos, mesmo aqueles que não foram mencionados e fizeram questão de estar do meu lado. Obrigada do fundo do meu coração. A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducentes à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. iv Título A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa Resumo O presente relatório foi realizado no âmbito do estágio curricular do Mestrado em Ciências da Comunicação – Área de Especialização Informação e Jornalismo, que teve início a 3 de outubro de 2022 e terminou a 6 de janeiro de 2023, na redação da Agência Lusa, no Porto. Além de apresentar a identidade acolhedora e de descrever as atividades realizadas, este documento tem o objetivo de analisar a produção de informação nas agências de notícias, nomeadamente na Agência Lusa, e baseia-se numa pesquisa bibliográfica, onde se procurou, através das definições e opiniões de diversos autores, fazer uma interpretação do jornalismo de agência. Na primeira parte está explicitada a revisão de literatura, onde se pretende demonstrar o modo de informar no jornalismo de agência. De uma forma geral, pretende-se descrever como é feito este tipo de jornalismo no nosso país, a linguagem e as fontes utilizadas. A Agência Lusa é uma das principais fontes de informação dos diversos órgãos de comunicação. Desta forma, ao longo do relatório de estágio pretende-se, em primeiro lugar, caracterizar a Agência Lusa enquanto instituição, abordar alguns aspetos do seu funcionamento, transmitir quais são as suas principais diretrizes, os seus produtos e serviços e também a sua estratégia. Através da experiência de três meses de estágio nesta empresa, serão identificadas as várias tarefas desempenhadas enquanto estagiária, as aprendizagens, as dificuldades, as saídas para o terreno, entre outros aspetos. O Livro de Estilo da Agência Lusa é um documento que será destacado neste relatório, assim como o rigor e a rapidez informativa, e também o papel que a Lusa pode ter no combate às fake news . Posto isto, considera-se importante abordar a evolução das agências de notícias em Portugal, perceber quais foram as principais agências que se destacaram no nosso país e abordar cada uma delas. Ao mesmo tempo, entende-se que será essencial compreender se as agências são consideradas, de facto, fontes de informação para os diversos órgãos de comunicação. O foco principal deste relatório de estágio recai sobre uma questão importante a ter em conta: Como é que a Lusa tem acesso às informações para as transmitir a outros órgãos? Ou seja, no relatório de estágio pretende-se abordar como é que a Lusa tem acesso às informações, perceber o que faz a Lusa para ser, muitas vezes, a primeira a noticiar. De forma resumida, os órgãos de comunicação usam a Agência Lusa como fonte de informação e o que quero compreender melhor é como é que a informação chega à Lusa e como são as rotinas de produção que transformam a agência numa espécie de “mercado abastecedor de notícias”. Para responder às questões do relatório de estágio, procurou-se recorrer a instrumentos de recolha de informação de natureza qualitativa, através da realização de entrevistas, de modo a esclarecer estes aspetos. Ao mesmo tempo, procurou-se utilizar documentos (livros, revistas, teses de licenciatura, mestrado e doutoramento, etc.) que permitem refletir sobre a problemática de partida. No final, após a realização das entrevistas e de um retrato breve do estado da arte, são anotadas as considerações finais. Palavras-chave: agência de notícias; Lusa; jornalismo; produção; informação A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa v Title Information production in news agencies: the case of Lusa Abstract This report was carried out as part of the curricular internship for the Master's Degree in Communication Sciences - Information and Journalism Specialisation Area, which began on 3 October 2022 and ended on 6 January 2023, in the newsroom of Agência Lusa, in Porto. In addition to presenting the host identity and describing the activities carried out, this article aims to analyse the production of information in news agencies, namely Agência Lusa, and is based on bibliographical research, which sought to interpret agency journalism through the definitions and opinions of various authors. The first part is a review of the literature, which aims to demonstrate how agency journalism informs. In general, the aim is to describe how this type of journalism is carried out in our country, the language and sources used. Agência Lusa is one of the main sources of information for the various media organisations. In this way, throughout the internship report, the aim is firstly to approach Agência Lusa as an institution, to discuss some aspects of it, to convey its main guidelines, its products and services and also its strategy. Through the three-month internship experience at this company, the various tasks carried out as an intern, the lessons learnt, the difficulties, the field trips, among other things, will be identified. Agência Lusa's Stylebook is a document that will be highlighted in this report, as well as the rigour and speed of information, and also the role that Lusa can play in combating fake news. That said, it is important to look at the evolution of news agencies in Portugal, to understand which were the main agencies that stood out in our country and to address each of them. At the same time, it will be essential to understand whether the agencies are in fact considered sources of information for the various media organisations. The main focus of this internship report is on an important question: How does Lusa gain access to information in order to pass it on to other organisations? In other words, the internship report aims to address how Lusa has access to information, to understand what Lusa does to often be the first to report. In a nutshell, the media use Agência Lusa as a source of information and what I want to understand better is how the information reaches Lusa and the production routines that turn the agency into a kind of "news supply market". In order to answer the research questions in the internship report, we used a qualitative methodology by conducting interviews to clarify these aspects. At the same time, we tried to use documents (books, magazines, bachelor's, master's and doctoral theses, etc.) to describe the methodological options. At the end, after conducting the interviews and finalising the state of the art (where the opinions of various authors are compared), the final considerations will be written down. Keywords: news agency; Lusa; journalism; production; information vi Sumário Introdução .............................................................................................................................................. 1 Como é produzida a informação na Agência Lusa? .................................................................................. 1 Capítulo 1 ............................................................................................................................................... 4 Estágio na Lusa, a maior agência de notícias de língua portuguesa no mundo ......................................... 4 1.1. A Agência Lusa ............................................................................................................................ 4 1.1.1. Missão, objetivos, políticas e valores da Lusa ........................................................................ 8 1.1.2. Produtos, serviços e estratégia da Lusa ..............................................................................10 1.2. A experiência de estágio… Porquê a Lusa? .................................................................................14 1.2.1. O rigor da Agência Lusa......................................................................................................14 1.2.2. Tarefas desenvolvidas ao longo dos três meses na Lusa .....................................................19 1.2.3. Saídas para o terreno .........................................................................................................26 1.2.4. As questões que surgiram ao longo do estágio na Lusa .......................................................30 1.2.5. Três meses de estágio que passaram a voar .......................................................................32 Capítulo 2 .............................................................................................................................................34 Reflexões sobre o jornalismo de agência ................................................................................................34 2.1. O conceito de agência de notícias .............................................................................................35 2.2. O surgimento das agências de notícias pelo mundo ...................................................................37 2.3. A chegada das agências noticiosas a Portugal ............................................................................41 2.3.1. ANI – Agência de Notícias e Informação..............................................................................42 2.3.2. ANOP – Agência Noticiosa Portuguesa ................................................................................43 2.3.3. NP – Notícias de Portugal ...................................................................................................44 2.4. O surgimento da Agência Lusa ...................................................................................................46 2.5. Qual o papel e o poder da Lusa em Portugal? ............................................................................50 2.6. Serão as agências de notícias uma fonte de informação? ...........................................................52 Capítulo 3 .............................................................................................................................................59 A produção de informação na Lusa: Como funciona? .............................................................................59 3.1. Objetivos ...................................................................................................................................59 3.2. Metodologia ...............................................................................................................................59 3.3. As entrevistas como instrumento de recolha de dados................................................................61 Capítulo 4 .............................................................................................................................................65 Apresentação e discussão dos resultados/Análise dos dados .................................................................65 4.1. Distinção entre a Agência Lusa e os diversos órgãos de comunicação ........................................65 4.2. Importância das agências de notícias em geral, e da Lusa em particular, para o jornalismo ........68 4.3. O que faz uma agência de notícias? ...........................................................................................70 A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa vii 4.4. A Lusa é uma fonte de informação para os órgãos de comunicação e quem são as fontes de informação da Lusa? .........................................................................................................................72 4.5. A produção de notícias na Agência Lusa ....................................................................................76 4.6 Resumo ......................................................................................................................................77 Considerações finais do estágio na Lusa ...............................................................................................81 Referências Bibliográficas......................................................................................................................86 Anexos ..................................................................................................................................................90 Anexo 1 – Primeira peça escrita por mim e publicada na linha da Agência Lusa ................................90 Anexo 2 – Primeira notícia breve escrita por mim no estágio e publicada ...........................................91 Anexo 3 – Outra notícia escrita por mim após descoberta quando estava a fazer a ronda ..................92 Anexo 4 – Primeira peça sugerida por mim e publicada na linha da Lusa ..........................................93 Anexo 5 – Outra notícia publicada que também foi sugerida por mim sobre a saúde mental ..............95 Anexo 6 – Primeira reportagem sugerida por mim e publicada na linha da Lusa ................................96 Anexo 7 – Peça escrita por mim após ter ido à reunião de Câmara de Matosinhos sozinha ................97 Anexo 8 – Peça escrita juntamente com a jornalista Sofia Cortez e outra estagiária sobre uma homenagem feita às mulheres assassinadas em 2022 ......................................................................98 Anexo 9 – Notícias que escrevi e que os outros órgãos de comunicação utilizaram ............................99 Anexo 10 – Guião de entrevistas feitas a jornalistas da Agência Lusa .............................................. 100 Anexo 11 – Termos de Consentimento Informado assinados pelos seis jornalistas da Agência Lusa 101 A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 7 Atualmente, os órgãos que compõem a Lusa são os seguintes, de acordo com o Relatório de Contas (2022): - Direção de Informação, que assegura a produção de conteúdos noticiosos; - Direção Comercial e Marketing, que promove a venda de produtos e a sua imagem; - Direção de Áreas de Suporte, com a responsabilidade das áreas da Contabilidade e Tesouraria, dos Sistemas de Informação, das Compras e Recursos Humanos; - Gabinete de apoio ao Conselho de Administração, que inclui o apoio administrativo a todos os órgãos sociais da empresa. Assim, o organograma da Lusa é o seguinte: Como o Estado é o maior acionista da Lusa, esta tem de prestar serviço noticioso e informativo de interesse público ao país. Desta forma, foi assinado um contrato entre a Agência Lusa e o Estado, intitulado “Contrato de Prestação de Serviço Noticioso e Informativo de Interesse Público”, que vigora durante o período de seis anos. Este contrato teve início no dia 1 de janeiro de 2022 e o seu término será a 31 de dezembro de 2027. Ao longo do contrato, nomeadamente na cláusula terceira, lê-se que a Lusa desenvolve as suas atividades tendo em atenção: a) a “recolha, tratamento e divulgação da informação noticiosa sobre a atualidade nacional e internacional, nos formatos de texto, fotografia, áudio e vídeo”; b) a “cobertura informativa nacional e dos acontecimentos internacionais, designadamente da União Europeia, como fator de transmissão de conhecimento da realidade”; c) a “cobertura informativa acurada dos países de língua oficial portuguesa e das comunidades portuguesas no estrangeiro”; d) a “distribuição de informação sobre a atualidade portuguesa (…) assumindo-se como meio fundamental de divulgação, à escala global, de acontecimentos nacionais e de projeção dos interesses do Estado Figura 1. Organograma da Lusa Fonte: Relatório e Contas da Lusa 2022 8 no exterior”; e) a “procura constante de atualização e modernização tecnológica”; f) a “preservação, manutenção e disponibilização do acervo histórico do seu Centro de Documentação de texto e de imagem, enquanto fator essencial para o resguardo da memória coletiva”; g) a “disponibilização de apoio, nomeadamente no domínio tecnológico e no campo da formação profissional, às empresas portuguesas do setor da comunicação social, bem como as outras empresas ou agências noticiosas” (Contrato de Prestação de Serviço Noticioso e Informativo de Interesse Público 2022/2027, p. 4). Na cláusula quinta do contrato celebrado entre a agência e o Estado está escrito que a Lusa tem de estar presente no território nacional, assegurar a cobertura das comunidades falantes de língua portuguesa, bem como a cobertura dos locais de importância geostratégica, com produtos e serviços diversificados que correspondam às expectativas dos clientes utilizadores do serviço noticioso e informativo de interesse público (Contrato de Prestação de Serviço Noticioso e Informativo de Interesse Público 2022/2027, p. 5). Ao mesmo tempo, a agência Lusa “deve assegurar a existência de uma estrutura funcional que dê garantias de prestação do serviço noticioso e informativo de interesse público que lhe está atribuído”. 1.1.1. Missão, objetivos, políticas e valores da Lusa De acordo com o ‘site’ da agência Lusa, na secção “Estratégia”, a Lusa é a “única agência de notícias portuguesa no âmbito nacional”, cujo objetivo é “a recolha e tratamento de material noticioso ou de interesse informativo”, bem como “a produção e distribuição de notícias a um alargado leque de utentes e a prestação ao Estado Português de um serviço de interesse público relativo às informações dos cidadãos”. Além disso, esta empresa tem como objetivo principal afirmar a importância nacional e internacional da Lusa, ajustando qualitativamente os seus serviços e a sua presença no território nacional e no espaço lusófono, no âmbito da circulação democrática e plural da informação noticiosa e no da defesa dos interesses estratégicos externos do Estado Português (www.lusa.pt) No que diz respeito às políticas da agência, além do interesse público, os princípios por que se rege a Lusa e que orientam a sua atividade são “a clareza, o rigor, a isenção, a pluralidade da informação, a rapidez, a qualidade e o trabalho em equipa”. A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 9 Segundo Daychoum (2007), “a missão, visão e os valores são as bases para se estabelecer uma direção e uma orientação para uma organização, mas para se tornarem realidade têm que se traduzir em objetivos e orientações estratégicas” (Daychoum, 2007, p. 35). Quanto aos valores da empresa, estes são muito importantes e todos os profissionais devem tê-los em atenção. O autor Daychoum (2007) aponta os valores como “compromissos e princípios éticos nos quais a organização baseia a sua conduta” (Daychoum, 2007, p. 35). Desta forma, além do interesse público, os princípios que orientam a produção noticiosa da Lusa são: a clareza – facilmente inteligível; o rigor – equilíbrio, separação entre factos e opiniões, identificação das fontes; isenção – autonomia, distanciamento e independência perante os factos e opiniões divulgados; a pluralidade – neutralidade perante as forças políticas, neutralidade e equilíbrio dos conteúdos emitidos, representação das forças e correntes políticas, ideológicas, culturais, sociais e religiosas existentes na sociedade; a fiabilidade – garantia de confiança; e a tempestividade da informação – produção e divulgação da informação quase em simultâneo com o tempo próprio da sua ocorrência (www.lusa.pt). A agência Lusa também apresenta um Código de Ética, pelo qual se deve reger. Este “constitui uma importante base para fortalecer a cultura da empresa e representa uma referência fundamental no âmbito do respetivo desempenho, na prática profissional dos seus trabalhadores e colaboradores e no relacionamento com todos os stakeholders” (www.lusa.pt). O Código de Ética/Conduta deve ser do conhecimento de todos os que integram a empresa e, neste documento, “os colaboradores da Lusa devem pautar o seu comportamento com independência perante todos os poderes, nomeadamente, político, económico, financeiro e religioso, e subordinar a sua atividade profissional aos legítimos interesses da empresa” (Código de Ética da Lusa, s.d., alínea j, Independência). Os jornalistas desta empresa, além do Código de Ética/Conduta, também devem respeitar o Código Deontológico do Jornalista, que foi aprovado a 4 de maio de 1993 em Assembleia-Geral do Sindicato dos Jornalistas. De acordo com Gradim (2000), o Código Deontológico dos Jornalistas é um documento “conciso e bastante completo”, que todos os jornalistas devem ter em atenção diariamente quando executam o seu trabalho e “estipula nos dez pontos que o compõem, de forma muito clara, os princípios deontológicos a atender pelos jornalistas e candidatos a jornalistas” (Gradim, 2000, p. 116). 10 1.1.2. Produtos, serviços e estratégia da Lusa De acordo com o que está escrito no Livro de Estilo da Lusa, “uma parte muito significativa da informação produzida e consumida no – e sobre – o espaço de língua portuguesa tem como origem a agência Lusa” (Livro de Estilo da Lusa, secção Introdução). A agência Lusa apresenta variados produtos e serviços aos seus clientes, desde texto, fotografia, vídeo, áudio, arquivo e agenda (www.lusa.pt). Segundo o documento do Relatório e Contas da Agência Lusa de 2022, “a produção editorial da Lusa, em 2022, “registou uma diminuição relativamente ao ano anterior totalizando 267.029 conteúdos noticiosos”, o que se traduz “numa média diária de 732 conteúdos jornalísticos” (Relatório e Contas da Lusa, 2022, p. 22). Em 2022, a agência produziu “um total de 9.474 conteúdos produzidos (fotográficos, texto, em inglês e de agenda)”. De forma específica, a Lusa produziu 49.365 conteúdos fotográficos, 10.026 de áudio, 2.079 conteúdos mistos, 199.573 de texto e 5.986 de vídeo (Relatório e Contas da Lusa, 2022, p. 22). Com uma “média de 500 notícias escritas por dia, por mais de 200 jornalistas”, a Lusa “é uma garantia de diversidade informativa traduzida nos mais variados géneros jornalísticos” (www.lusa.pt). Em 2022, o texto foi o conteúdo mais produzido, tendo a Agência Lusa distribuído 547 notícias neste formato, diariamente (Relatório e Contas da Lusa de 2022, p. 22). Desta forma, esta agência de notícias tem a capacidade de “cobrir a atualidade em todas as frentes, com um jornalismo isento, rigoroso, que consolida a agência como o principal fornecedor de notícias para os média portugueses” e “como uma referência para a informação em todos os países de língua portuguesa” (www.lusa.pt). Ainda, no ano de 2022, foram produzidos, por dia, cerca de 135 conteúdos em formato fotográfico, tendo sido, logo depois dos conteúdos de texto o mais concebido (Relatório e Contas da Lusa, 2022, p. 22). Assim sendo, a Lusa “é o maior fornecedor em Portugal de imagens da atualidade” e como uma das agências fundadoras da EPA – European Pressphoto Agency, a Lusa é distribuidora exclusiva para Portugal das fotos das restantes agências europeias integrantes, a somar à vasta equipa de repórteres fotográficos. O serviço de fotografia cobre diversas temáticas e retrata o que de mais importante acontece em Portugal e no mundo (www.lusa.pt). No que diz respeito à prestação do Serviço Público, em 2022, a agência Lusa “ultrapassou os mínimos exigidos no Contrato de Prestação de Serviço Noticioso e Informativo de Interesse Público celebrado com o Estado, para a produção de conteúdos em formato texto, fotografia e A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 11 vídeo” e, relativamente aos conteúdos em formato áudio, “não foi possível cumprir os mínimos contratuais”, uma vez que, apesar da produção de áudio “ter ultrapassado o nível mínimo em janeiro, setembro e novembro de 2022, tal não se verificou nos restantes meses”. Este incumprimento pode ser justificado pelo impasse de quase dois meses na posse do novo Governo, que teve como consequência uma quebra noticiosa geral da atividade do país e a produção de notícias sobre a guerra na Ucrânia, que dominou noticiosamente os primeiros meses do ano, não se ter traduzido no correspondente aumento na produção de conteúdos de áudio (Relatório e Contas da Lusa de 2022, p. 23). De acordo com o Relatório e Contas da Lusa de 2022, os textos que abordam temas de Política, nacional e internacional (25%), Economia, Negócios e Finanças (16%), Sociedade (11%), Desporto (9%) e Guerras e Conflitos (7%) são os que mais se destacam e, em conjunto, representam 68% dos textos noticiosos e, pode também dizer-se que, com estas percentagens, “mantém-se a estabilidade do fio noticioso” (Relatório e Contas da Lusa 2022, p. 24). Figura 2. Total de produção da Lusa por temas em 2022 Fonte: Relatório e Contas da Lusa de 2022 Relativamente à distribuição dos conteúdos, em 2022, a Lusa cobriu 201 países, distribuídos pelos cinco continentes, sendo que dos conteúdos produzidos, 64% são relativos a Portugal e 36% a outros países (Relatório e Contas da Lusa de 2022, p. 24). Segundo o que está estabelecido no Relatório e Contas da Lusa de 2022, 12 na análise da produção noticiosa sobre outros países, que não Portugal, é fácil perceber o esforço da Agência para seguir o dia a dia dos países, territórios e comunidades de língua portuguesa, além, claro está, do acompanhamento obrigatório dos principais parceiros políticos e económicos de Portugal e dos principais protagonistas da política internacional (Relatório e Contas da Lusa, 2022, p. 25). Figura 3. Produção de conteúdos da Lusa em Portugal e noutros países Fonte: Relatório e Contas da Lusa de 2022 Quanto aos eventos de agenda no ano 2022, foram registados 64.677, o que representa uma média diária de 177 eventos e, quando comparados ao ano de 2021, podemos observar que houve uma descida (Relatório e Contas, 2022, p. 25). A agenda da Agência Lusa, segundo o que está escrito no ‘site’, é “um documento de referência vital para todas as redações e para várias entidades que necessitam de antecipar o que de mais importante se passa no país e no mundo”. Desta forma, nas mais diversas áreas, “com periodicidade diária, semanal ou mensal”, a agenda também “pode ser direcionada para uma área específica de interesse ou região” (www.lusa.pt). Além da agenda, a Lusa também tem um arquivo, que pode ser consultado pelos seus clientes, uma vez que toda a informação produzida, seja, fotografias, texto, vídeo e áudio, “é Figura 4. Eventos da Agenda Fonte: Relatório e Contas da Lusa de 2022 A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 13 guardada e classificada”. De acordo com o ‘site’ da agência, os arquivos “têm um acervo de mais de 10 milhões de notícias e imagens” e, todos os clientes, “podem encontrar na Lusa as referências de que necessitam, quando tratam acontecimentos passados ou quando pretendem conhecer a história de factos e personagens” (www.lusa.pt). O ano 2022 ficou marcado, ao nível editorial, de acordo com o Relatório e Contas da Lusa de 2022, por vários aspetos, nomeadamente: (…) cobertura do conflito na Ucrânia, à maioria absoluta do Partido Socialista (PS), ao aparecimento de novos líderes no Partido Social Democrata (PSD) e no Partido Comunista Português (PCP), às eleições em Angola, aos falecimentos de José Eduardo dos Santos e da rainha Isabel II, passando pelos casos de pedofilia na Igreja, ao orçamento do Estado para 2023, aos principais acontecimentos desportivos, como o Mundial de Futebol no Qatar, ao agudizar da pobreza e às preocupantes alterações climáticas (Relatório e Contas da Lusa, 2022, p. 2). No que diz respeito à formação, a agência Lusa, decidiu também investir na ‘Escola Lusa’, que realiza cursos de jornalismo para trabalhadores e estagiários, na primeira fase. Ao nível da produção de conteúdos, a Lusa “cumpriu com o contratualmente definido, apesar do decréscimo face a 2021”, devido à realização de eventos nesse ano de maior impacto, tais como os Jogos Olímpicos e Paralímpicos, o Campeonato da Europa de Futebol, as Eleições Autárquicas, etc. (Relatório e Contas da Lusa, 2022, p. 3). Também na área digital, houve algumas mudanças, sendo que foi elaborada uma “redefinição no ‘site’ principal, tornando-o mais atrativo, organizado e estruturado entre as diversas editorias”. Ao nível das redes sociais, “verificou-se, em todas elas, um notório incremento”, bem como no “nível de interações havidas” (Relatório e Contas da Lusa, 2022, p. 3). Do ponto de vista económico e financeiro, a Lusa obteve “um resultado líquido positivo de 110 mil euros, superior ao orçamentado, suportado por um EBITDA de cerca de 836 mil euros” (Relatório e Contas, 2022, p. 5). O Plano de Atividades e Orçamento (PAO) definiu um conjunto de objetivos principais, que a Lusa deve ter em conta, ou seja, foi definida a estratégia e o posicionamento da Agência Lusa. Segundo o Relatório e Contas da Lusa de 2022, a estratégia da Lusa tem de ser orientada por oito pontos, entre eles: 1) “a gestão orçamental tem de continuar a ser uma prática fundamental”, 2) “o reconhecimento da Lusa como uma das melhores empresas a trabalhar em Portugal”, 3) “a promoção de um amplo debate sobre todas as formas de discriminação”, 4) “a 14 continuação do aumento da notoriedade da Lusa através da promoção de debates e conferências”, 5) “o combate à desinformação nas suas mais variadas formas”, 6) “a manutenção da aposta na modernização tecnológica da agência e na sua transformação digital, através de projetos ligados Inteligência Artificial”, 7) “a redefinição da produção noticiosa em formatos mais ricos e multifacetados, bem como ao nível da sua distribuição aos clientes” (Relatório e Contas da Lusa, 2022, p. 11). 1.2. A experiência de estágio… Porquê a Lusa? Entre outubro de 2022 e janeiro de 2023, integrei a redação da Agência Lusa do Porto. Esta foi, sem dúvida, uma oportunidade que me fez “mergulhar” no mundo do jornalismo. Durante três meses, pude observar de bem perto como é que a Lusa fornece as notícias precisas e relevantes aos leitores e clientes, e também quão importante é cobrir os eventos e escrever as notícias de forma rápida e informada. Além disso, consegui ter a noção da imparcialidade e da ética no jornalismo todos os dias em que estive na redação e quando saí para o terreno. Todos os profissionais com quem tive a oportunidade de trabalhar, todos os dias, me ensinavam algo novo e, por isso, esta experiência proporcionou-me uma base sólida para o meu futuro no jornalismo e também foi muito importante ao nível pessoal. 1.2.1. O rigor da Agência Lusa A Agência Lusa é conhecida pelo seu compromisso com o rigor jornalístico e a imparcialidade na cobertura de notícias. Estes são os princípios fundamentais, pelos quais todos os trabalhadores e colaboradores se devem reger e foram também os primeiros ensinamentos a serem transmitidos aos estagiários nos primeiros dias e ao longo de todo o estágio curricular. Pelo facto de ter este compromisso em fazer jornalismo de qualidade e procurar sempre a verdade dos factos, a Lusa decide apostar numa formação inicial de três dias, na sede da empresa, em Lisboa, para que os estagiários percebam realmente como funciona o trabalho de agência e todos os passos a ter em conta quando escrevemos notícias que serão consideradas por outros órgãos. A formação de três dias realizou-se entre os dias três e seis de outubro de 2022 e foi intitulada de “Jornalismo de Agência Inicial”. O principal objetivo desta iniciativa é proporcionar aos estagiários um “estágio formativo, que lhes dê boas noções do ambiente real em que se exerce a profissão de jornalista” (Jornalismo de Agência Inicial, p. 1). De forma resumida, estes três dias de formação visam “dotar os formandos universitários de competências editoriais e organizativas para a produção de notícias”, sendo que no final do estágio, os estagiários “deverão ser capazes A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 15 de fazer uma notícia com as regras básicas do jornalismo de agência, perceber o funcionamento de uma redação e o fluxo de informação que leva à produção de notícias” (Jornalismo de Agência Inicial, p. 1). Foram 18 horas de formação, com sessões variadas, nos períodos da manhã e da tarde, normalmente entre as 10h00 e as 17h30, onde estiveram presentes nove estagiárias. No primeiro dia, as estagiárias foram recebidas pelo Chefe de Redação Paulo Nogueira, pela Diretora Comercial, Mónia Garcia, pela Diretora de Informação, Luísa Meireles, e pelo coordenador de estágios, João Pedro Fonseca, que deram a conhecer o edifício da redação da Lusa em Lisboa, assim como o seu funcionamento, e também fizeram uma breve apresentação da Agência Lusa. Feita esta introdução, seguiu-se uma formação com o formador Paulo Nogueira, que abordou a escrita de agência, as suas características e especificidades e o Livro de Estilo, um documento que todos os trabalhadores da Lusa devem seguir e ter sempre em conta. A Lusa tem de “assegurar uma informação rápida, factual, isenta e rigorosa” (Livro de Estilo da Lusa, 2019, secção Introdução) e, por isso, é que se torna importante manter presente o Livro de Estilo enquanto produzimos notícias. Além do Livro de Estilo, os estagiários e os jornalistas da Lusa, devem também ter em atenção o seu Prontuário, um documento (arquivo) que se encontra organizado de forma alfabética e que serve de orientação sempre que surjam dúvidas sobre certas palavras ou termos. A acrescentar ao Livro de Estilo e ao Prontuário, há também o Código de Ética da Agência Lusa, onde estão estabelecidos os princípios/normas éticos e as diretrizes jornalísticas que a empresa deve seguir. Além disso, existe também o Código Deontológico dos Jornalistas, aprovado inicialmente em 4 de maio de 1993 em Assembleia-Geral do Sindicato dos Jornalistas e que também nunca deve ser esquecido pelos profissionais do jornalismo. Ainda no primeiro dia de formação, o jornalista Paulo Nogueira ensinou-nos a construir os leads e os títulos das notícias, através da formação “Construção de leads , títulos: regras e exemplos práticos”, para que ficássemos a conhecer as principais regras a ter em conta. O lead corresponde ao primeiro parágrafo de uma notícia, chama, desde logo, a atenção do leitor e, por definição, “deve conter as informações mais relevantes: quem, o quê, quando, onde; e, na medida do possível, como e porquê” (Livro de Estilo, 2019, secção A escrita das notícias). Na Agência Lusa, os leads não devem ultrapassar as 35 palavras e a fonte da notícia deve estar, desde logo, presente neste primeiro parágrafo. O verbo utilizado no lead ’ é “determinante” e o jornalista deve sempre escolher “verbos fortes e expressivos”, que passem a mensagem ao leitor (Livro de Estilo, 16 2019, secção A escrita das notícias). Quanto aos títulos, estes devem ser “uma síntese precisa, com poucas palavras da informação mais relevante do texto” e, no caso das notícias, o título “deve ser extraído do lead ’”. Na Lusa, o título deve “obedecer a regras de economia de linguagem” e não “deve exceder os 80 carateres” (Livro de Estilo, 2019, secção A escrita das notícias). De salientar também que “ontem” e “amanhã” são duas palavras que a agência não utiliza na escrita das notícias. Neste primeiro dia de formação, recebemos dois jornalistas convidados, Natal Vaz e António Caeiro, que nos colocaram a par da “História e histórias da Lusa” e contaram também as experiências que tiveram enquanto jornalistas na agência. O dia terminou com o formador Paulo Nogueira, que nos apresentou o Lunaweb, o sistema informático da Lusa, e explicou como tudo funciona e onde podemos encontrar todos os conteúdos produzidos pela Agência Lusa. No segundo dia, a formação foi dada pela jornalista da secção de Lusofonia, Filipa Parreira, que abordou, inicialmente, a temática “Fontes: ouvir todos os envolvidos, o contraditório, as regras de identificação, a utilização de fontes anónimas”. O tema das fontes é, de facto, muito importante, uma vez que as notícias de agência “têm sempre uma fonte” e, por regra, a fonte “deve ser identificada”. Ou seja, os jornalistas quando escrevem notícias, nunca se podem esquecer de mencionar as suas fontes. Como foi lecionado na Licenciatura e no Mestrado, as fontes têm um papel fundamental no trabalho jornalístico e existem vários tipos de fontes. Na Lusa, a recolha de informação é feita com base em fontes e também podem ser essas mesmas fontes que nos podem fazer chegar a outras fontes. De acordo com o Livro de Estilo da Agência Lusa, as notícias têm sempre fonte. Por regra, a fonte deve ser identificada. A fonte não identificada é uma fórmula que pode ser utilizada quando as fontes pedem o anonimato por razões justificadas (por exemplo, receio de represálias), mas confiável. As fontes não identificadas têm de ser caracterizadas (fontes ligadas ao processo, fontes de uma instituição, fontes presentes numa reunião, etc.) (…) No caso de dispor de uma informação credível dada por uma fonte não identificada, a agência, ao noticiá-la, não utiliza expressões como “soube a Lusa” ou “a Lusa apurou” (Livro de Estilo, 2019, secção Recolha e Seleção da Informação). De seguida, foi tratado o “Papel da agência no contexto nacional e da Lusofonia: As redes interna e externa” com o editor de Lusofonia. Helena Fidalgo, uma das correspondentes no concelho de Bragança também foi uma das convidadas da sessão, que falou aos estagiários sobre “O correspondente. A antena da Lusa na região”. Da parte da tarde, o coordenador dos estágios A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 23 exercidas, pela profissão, pelo partido a que pertencem, pela nacionalidade e, quando for razão disso, pela idade” e “entre as diversas possibilidades deverá ser escolhido o dado que se afigure mais pertinente para melhor identificar a fonte ou o protagonista na notícia” (Livro de Estilo da Lusa, secção Identificação de fontes). No dia 12 de dezembro de 2022, um dia de teletrabalho, quando estava a realizar uma ronda, “encontrei” mais uma notícia digna de registo: um homem que morreu na sequência de um acidente entre um reboque de automóveis e um trator agrícola, na freguesia de Estela, na Póvoa de Varzim (Anexo 3). Como não estava na redação e, desta forma, estava “sozinha”, o que decidi fazer em primeiro lugar foi ligar a uma das editoras e passar-lhe toda a informação que já tinha recolhido através dos contactos da ronda. A editora Liliana Leandro disse para avançar e para escrever a notícia por mim própria e para depois enviar pelo Lunaweb e ela logo me diria algo. Escrevi, então, a notícia, enviei e foi logo publicada. Neste dia, senti que tinha muita responsabilidade sobre mim, uma vez que tive de confirmar toda a informação e escrevi a notícia sem ter a ajuda de ninguém. Através desta experiência, percebi que todas as notícias que a Lusa publica têm de ser sempre confirmadas. Por exemplo, na primeira ronda que fiz quando cheguei à redação do Porto e quando “encontrei” um afogamento, enquanto não tive a certeza de todas as informações necessárias, a notícia não podia ser publicada. Isto para dizer que a Lusa pode, muitas vezes, não ser a primeira a noticiar, mas, apesar de algumas vezes dar a notícia depois de outros órgãos de comunicação, as informações são sempre confirmadas e credíveis. No decurso do primeiro mês de estágio, os estagiários produzem várias notícias breves, com base em comunicados e notas de imprensa enviados para os editores e são eles que, depois, distribuem as tarefas pelos jornalistas. No primeiro mês (outubro 2022), nós, estagiários, também temos a oportunidade de acompanhar os jornalistas nas suas saídas para o terreno e fazer tudo como se fôssemos nós a escrever a notícia, desde tomar notas, gravar as entrevistas e as intervenções, etc. Ou seja, depois de irmos para o terreno, podemos ajudar o jornalista a escrever a sua notícia e depois também podemos fazer a nossa própria notícia, de forma a treinarmos a escrita e o vocabulário utilizado na Lusa. E importa mencionar que, todas as notícias que escrevi ao longo do estágio, foram todas corrigidas por jornalistas e editores, para também perceber onde tinha de melhorar e quais os erros mais frequentes que estava a cometer. De uma forma geral, o primeiro mês é caracterizado por ser um mês de aprendizagem e de os estagiários se integrarem na redação. Nos meses posteriores, já comecei a ter oportunidade de dar as minhas ideias para 24 notícias e reportagens e a poder estabelecer contactos de forma autónoma, sendo que tudo o que ia fazendo tinha de ir comunicando ao jornalista que estava responsável por me ajudar. Como pude constatar ao longo do estágio, na Agência Lusa e também nos restantes meios de comunicação, atualmente, a maioria das notícias é escrita e publicada na redação, ou seja, quero com isto dizer que o jornalista não precisa de sair da redação para ter acesso às informações e a pandemia covid-19 ainda veio reforçar mais essa ideia. Desta forma, podemos falar em jornalismo sentado que, de acordo com Tulha (2012), tem vindo a ganhar mais relevância que o jornalismo de terreno e o normal agora é os jornalistas passarem a maior parte do tempo na redação (muitas vezes reescrevendo as informações fornecidas pelas agências de informação) e apenas uma pequena parte do tempo na rua, exatamente ao contrário do que acontecia anteriormente. Na origem da mudança – que reduz os jornalistas ao papel quase exclusivo de selecionar e hierarquizar a informação –, está a diminuição do número de trabalhadores, mas não só: a redução dos orçamentos e o aumento do leque de fontes de informação também tiveram, neste ponto, um contributo significativo (Tulha, 2012, p. 9). Segundo o que é dito por Tulha (2012), podemos concluir que a Lusa também pratica o jornalismo sentado, uma vez que a maior parte dos contactos estabelecidos com as fontes é realizada por telefone, para evitar deslocações desnecessárias e também a pensar nos custos que isso mesmo acarreta, ou seja, pelo telefone o contacto é mais fácil e a empresa acaba por poupar nas deslocações. Por outro lado, os contactos feitos através do telefone para recolher informações relevantes para escrevermos a notícia podem implicar alguns aspetos negativos. Na opinião de Oyama (2008), a entrevista por telefone, por não permitir o ‘olho no olho’, diminui a capacidade de persuasão e perceção do repórter: fica mais complicado, por exemplo, convencer a fonte a dar uma informação que ela hesita em fornecer ou perceber se ela se mostra particularmente vulnerável durante um determinado tema. Não vejo um único aspeto positivo no uso do telefone, além do facto evidente de ele conseguir alcançar gente de outra forma inalcançável (Oyama, 2008, secção Antes, subsecção Por telefone, por email). Como refere Oyama (2008), quando não conseguimos contactar por telefone, tentamos também por email. No meu estágio na Lusa, isso aconteceu e a grande maioria dos contactos que efetuei para escrever as minhas peças foi estabelecida através do telefone ou do email. A primeira peça sugerida por mim para fazer na agência foi sobre a inflação, de modo a perceber se esta podia justificar o maior abandono de animais, neste caso, na cidade do Porto. Para isso, contactei, A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 25 via telefone e email, algumas associações portuenses de animais. Nas restantes notícias propostas por mim, os contactos que fiz também foram sempre através do email e do telefone. Ao longo do estágio, também podíamos consultar várias páginas na internet, pois através delas, muitas vezes, surgiam notícias. No entanto, os profissionais com quem trabalhei na Lusa apontaram que o que aparece na internet pode ser um princípio, mas as informações devem ser sempre confirmadas por fontes. As notícias da Lusa têm sempre de ter fontes e, por isso, o contacto direto com as fontes deve ser privilegiado em detrimento das páginas da internet que passam a informação noticiosa. Isto, porque, como já referi acima, as fontes fazem com que as peças sejam credíveis e se não tivermos fontes, a notícia deixa de ser credível para o público. A notícia pode até surgir de alguma página da internet a que o jornalista teve acesso, contudo devemos estabelecer contactos com fontes para confirmar a informação. Tal como está escrito no Livro de Estilo da Lusa (2019, secção internet), “a utilização da informação proveniente da internet deve ser feita com cuidados adicionais, dada a impossibilidade de controlo total dos conteúdos recolhidos neste universo, que engloba ‘sites’, plataformas de mensagens, redes sociais digitais e correio eletrónico”. Ao longo dos três meses de estágio, também tive as minhas próprias ideias para notícias e reportagens e acabei por apresenta-las aos editores e algumas das propostas foram aceites. Um dos temas que decidi tratar, em primeiro lugar, foi o da inflação e, desta forma, tentar perceber se o facto de os preços aumentarem pode justificar o abandono de animais, neste caso, na cidade do Porto, que era a minha área de atuação. Posto isto, abordei os editores sobre este assunto e os mesmos acharam um aspeto interessante e disseram, desde logo, para começar a estabelecer contactos com algumas associações de animais do Porto (Anexo 4). Outra das notícias propostas por mim foi sobre a temática da saúde mental. Inicialmente, a ideia era tentar perceber se a saúde mental dos jovens foi afetada apenas durante a pandemia covid-19 ou se no pós-pandemia, a mesma continua a ser afetada. Depois de apresentar esta proposta, a editora Joana Pulido disse para começar a estabelecer contactos e a fazer questões nesse sentido. No final de todas as entrevistas que realizei com vários especialistas na área da saúde mental do Porto, tentei perceber por onde começar a notícia e, posto isto, comecei a escrever. Mais tarde, com a ajuda da jornalista Sofia Cortez, decidimos que a notícia tinha de ter um foco e, de acordo com todas as informações recolhidas, achámos por bem destacar um aspeto importante na notícia. Chegámos à conclusão, através de questões feitas a um especialista de saúde mental no Hospital de São João, no Porto, que o ponto da partida deveria ser que as 26 consultas de psicologia, nesta unidade hospitalar, aumentaram e, desta forma, estabelecemos o título da notícia: “Hospital de São João no Porto recebe 500 pedidos de consulta de psicologia por mês” (Anexo 5). Importa referir que antes de propor notícias/reportagens aos editores da redação do Porto da Agência Lusa, procurei fazer uma pesquisa e observar tudo o que a Lusa já tinha escrito e o que a mesma procura transmitir sempre aos seus clientes e, além disso, perceber se as mesmas se enquadravam numa agência de notícias como a Lusa. Também quero frisar que todos os contactos que estabeleci para conseguir escrever as notícias que propus, foram todos realizados por mim, alguns foram sugeridos pela jornalista Sofia Cortez, mas fui eu que enviei emails e que entrei em contacto via telefone e, posto isto, recolhi todas as informações necessárias e analiseias ao pormenor antes de começar a elaborar a notícia. As notícias que escrevi também foram sempre revistas e corrigidas por um jornalista antes de enviar para a editora. De forma resumida, na Agência Lusa, os estagiários escrevem muitas notícias breves com base em comunicados e notas de imprensa, tratam das rondas e de perceber se há algum acontecimento digno de registo, estão atentos a páginas da internet como a Proteção Civil, o Ministério Público – Procuradoria Geral Distrital do Porto e também ao Dário da República, também para ver se são colocadas informações importantes e que se possam transformar em notícia. Depois, os estagiários também têm a oportunidade de acompanhar os jornalistas da redação nas suas saídas para o terreno. A Agência Lusa foi, sem dúvida, uma boa escolha para realizar o estágio curricular e uma ótima escola. A licenciatura em Ciências da Comunicação, o mestrado com especialização em Informação e Jornalismo, os estágios que tive oportunidade de realizar anteriormente já me tinham ajudado a perceber como funciona o jornalismo, mas a Lusa deu-me ainda mais noções do trabalho do jornalista e do quão atento o mesmo deve estar às situações, de forma a ser sempre o primeiro a noticiá-las de forma rigorosa. Ao longo do estágio, o que mais ouvi dos profissionais e também dos professores da Universidade do Minho é que se aprendermos a escrita de agência, depois já vamos mais preparados para trabalhos posteriores. Na Lusa ganha-se a capacidade de escrever de forma, clara, concisa e rigorosa e, no jornalismo, estes princípios são fundamentais a todos os tipos de meio e linguagem. 1.2.3. Saídas para o terreno A minha primeira saída para o terreno aconteceu no dia 24 de outubro de 2022, onde fui com a jornalista Sofia Cortez assistir à reunião de Câmara do Porto. Quando cheguei à entrada da A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 27 Câmara do Porto, encontrei-me com a jornalista, que me disse, desde logo, para fazer tudo como se ela não estivesse presente na reunião, de forma a começar a desenrascar-me autonomamente. Posto isto, estive atenta a toda a reunião, gravei, tomei notas, apontei os acontecimentos que achei mais importantes para noticiar e, no final, abordei a Sofia Cortez e juntas discutimos quais os temas mais relevantes que foram tratados na reunião e que mereciam destaque na Agência Lusa. Como era uma segunda-feira (dia de teletrabalho na Lusa), após a reunião fui para casa, transcrevi os áudios e escrevi cinco notícias que considerei importantes sobre a reunião, que posteriormente enviei para a jornalista Sofia Cortez, para que pudesse corrigir e apontar os aspetos onde devia melhorar. Escrever notícias como forma de exercício era algo que os estagiários também faziam muito na Agência Lusa. Basicamente, todas as notícias que elaborei ao longo deste estágio foram sempre revistas e corrigidas por um jornalista, de forma a que nós, estagiários, conseguíssemos perceber os erros que fazíamos para não os voltar a cometer futuramente. Na minha opinião, este exercício de correção das notícias é muito importante, porque, muitas vezes, quando escrevo não reparo ou não tenho noção de alguns erros ou de expressões que usava que não eram utilizadas na agência. E, a partir do momento em que os jornalistas corrigiam as minhas notícias, consegui perceber que devia começar a evitar certos pormenores que me caracterizavam na escrita, como por exemplo o “onde”. Tinha muito o hábito de utilizar a bengala “onde”, mas, após os jornalistas referirem que em agência a devemos evitar, comecei a ter mais atenção. É importante realçar que os jornalistas da Lusa faziam questão de apontar os nossos erros, mas também destacavam o que fazíamos bem. Ao longo do estágio, fui notando que as notícias que escrevia já eram publicadas com poucas correções, o que significava que estava a entrar no “ritmo” da agência. O dia 25 de outubro de 2022 foi o dia em que saí para o terreno pela segunda vez e foi dos eventos que mais gostei de cobrir enquanto estagiária da Agência Lusa. Fui a Vila Nova de Gaia com a jornalista Cecília Malheiro à apresentação da 15.ª edição do Meo Marés Vivas. Neste evento, foram anunciados os primeiros artistas que iam compor o cartaz do festival e que estiveram presentes na sessão: os Da Weasel. Considerei esta saída para o terreno importante, porque me fez perceber que nós, jornalistas, conseguimos ter oportunidades que as outras pessoas não têm, estamos sempre em cima do acontecimento, muitas vezes é complicado, mas são estes aspetos que fazem perceber que esta profissão vale a pena. Depois de assistir à sessão, fui para a redação escrever sobre tudo o que foi apresentado sobre o Meo Marés Vivas e, posteriormente, enviei para a jornalista Cecília Malheiro, para a mesma corrigir. 28 Nestes três meses de estágio, foram várias as vezes que saí para o terreno com os jornalistas da redação do Porto e tive a oportunidade de fazer um bocadinho de algumas secções, desde Cultura, Justiça, Sociedade, Saúde e Política. Cada saída era sempre uma aprendizagem. A minha primeira saída para o terreno sozinha aconteceu no dia 7 de dezembro de 2022 e foi para fazer uma reportagem de Natal, proposta por mim. A ideia era percorrer alguns locais da cidade do Porto e perceber se as pessoas iam abdicar dos presentes e se iam reduzir algo nas festividades natalícias e também perceber se os proprietários de algumas mercearias estavam a notar que a inflação estava a ter impacto nos seus estabelecimentos (“REPORTAGEM: Fregueses fazem compras nas mercearias do Porto, mas de forma mais contida neste Natal”) (Anexo 6). Confesso que, quando os editores me disseram que podia ir para a rua entrevistar as pessoas e os donos das mercearias, fiquei muito nervosa, pois, afinal de contas, era a minha primeira saída para o terreno sozinha, sem estar acompanhada por nenhum jornalista. Basicamente, comecei por abordar as pessoas nas ruas do Porto com algumas questões sobre a época natalícia, se iam manter tudo igual ou se iam mudar alguma coisa, gravei tudo através do meu gravador e fui tomando notas também. Foi um desafio que, na minha opinião, passei com distinção. No início estava um pouco envergonhada, mas depois de abordar as primeiras pessoas tudo se tornou mais fácil. Passei a manhã do dia 7 de dezembro a recolher informações e depois regressei à redação, onde comecei por ouvir todas as gravações e só depois de ter tudo alinhavado é que elaborei a reportagem, que foi depois corrigida pela jornalista Joana Carneiro. A segunda vez que saí para o terreno sozinha foi no dia 28 de dezembro de 2022. Supostamente, ia acompanhar a jornalista Suraia Ferreira à reunião de Câmara de Matosinhos, mas a mesma teve um imprevisto e pediu-me se podia ir eu, para depois lhe transmitir todas as informações. Quando descobri que ia sozinha, o meu coração começou, mais uma vez, a bater mais forte, porque era mais uma responsabilidade e um desafio que tinha de cumprir da melhor forma. Estive atenta a todos os assuntos abordados durante a reunião, gravei tudo e tomei notas. Uma das maiores dificuldades que tive foi, sem dúvida, perceber aquilo que podia ser ou não notícia, mas depois de transmitir as informações da reunião à jornalista Suraia Ferreira, a mesma ajudou-me a perceber o que podia ser destacado e, desta forma, escrevi duas peças que, posteriormente, foram corrigidas pela mesma e foram também publicadas com as nossas assinaturas (Anexo 7). Através do estágio na Lusa, foram vários os dias em que fui para a rua para cobrir eventos e desenvolver notícias com os jornalistas da redação do Porto e consegui estar em contacto com A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 29 vários assuntos e secções, tal como já referi acima. As notícias que mais gostava de fazer eram as relacionadas com as secções de Cultura e Sociedade, sendo que também fiquei a gostar muito da secção de Justiça. Nunca tinha ido a um tribunal perceber como tudo funciona nos julgamentos e como são atribuídos os nomes às coisas, e a Lusa deu-me a oportunidade de conhecer esse mundo e de ficar a gostar dele. O julgamento que mais me marcou foi o caso de um casal e um filho acusados de escravizarem 14 pessoas em Espanha. Consegui ter acesso a todas as informações sobre este caso e assisti à leitura da sentença no dia 14 de dezembro de 2022. Já as reuniões de Câmara foi o que não gostei assim tanto de presenciar. Claro que é sempre bom estar presente e ficar a saber um pouco sobre os assuntos, mas como eram tratados vários temas ao mesmo tempo, ficava difícil assimilar tudo e ter a perceção do que podia ser ou não ser notícia. No entanto, todas as saídas para o terreno, enquanto estagiária da Agência Lusa, foram muito importantes para o meu percurso de aprendizagem e posso dizer que, hoje em dia, tenho várias histórias para contar e que já presenciei vários momentos/eventos, onde também estiveram outros meios de comunicação. Não consigo explicar a adrenalina que se vive quando todos os órgãos de comunicação querem presenciar os momentos e estão no local a saber todas as informações em primeira mão. Foram vários os momentos em que todas as televisões (SIC, TVI, Porto Canal, CMTV, RTP) estiveram nas mesmas saídas que nós, Lusa. E, nesses momentos, percebi a responsabilidade que a nossa profissão carrega. O facto de estarmos no local, questionar tudo e todos e saber que, depois, vamos transformar isso numa notícia, é mesmo um desafio. Enquanto estagiária na Agência Lusa, senti que o facto de não estar ligada a apenas uma secção e poder ter conhecimento sobre os vários assuntos, fez-me, desta forma, perceber quais os temas que mais gostava de ir cobrir e os que menos gostava ou não me sentia tão confortável. Havia assuntos, nomeadamente sobre política e transportes, em que, muitas vezes, tinha que recorrer à linha da Lusa para saber de que se tratava e o que já tinha sido escrito sobre os mesmos ou então recorria à internet para pesquisar também. No dia 14 de dezembro de 2022 também tive a oportunidade de acompanhar o jornalista Jorge Fonseca numa reportagem multimédia relacionada com o aumento dos preços e a crise energética, onde fomos seguir o trabalho das associações que distribuem alimentação pelas pessoas carenciadas e sem abrigo. A ideia foi perceber todo o trabalho que é feito numa reportagem, qual o papel do jornalista, do fotógrafo e do operador de imagem e depois também ter em atenção a forma como se escreve o texto para uma reportagem, que é diferente, e como são montadas as peças para as televisões. Tal como está escrito no Livro de Estilo da Lusa (2019, 30 secção reportagem), “a reportagem preserva as características de rigor e de síntese da notícia, mas deve incluir elementos informativos adicionais, que acrescentem ‘cor’ e auxiliem à perceção próxima dos acontecimentos relatados” e, além disso, “a reportagem pode e, muitas vezes, deve dividir-se em mais do que um texto, não devendo o seu texto principal ir além do valor indicativo de 5 mil caracteres”. No dia 30 de novembro de 2022 também realizei mais uma saída para o terreno em que gostei muito de marcar presença. Acompanhei a jornalista Sofia Cortez, juntamente com outra colega estagiária, na homenagem que foi feita às mulheres assassinadas, naquele ano, em Portugal, vítimas de violência doméstica e de género. Esta peça também foi das mais interessantes de fazer, pois uma vez que estávamos três a cobrir o assunto, dividimos as tarefas. Cada uma tomou as suas notas e gravou as entrevistas e, no final, quando chegámos à redação, cada uma escreveu uma parte da peça e depois juntámo-nos e em conjunto verificámos se todas as informações batiam certo e concluímos a notícia, enviando-a para a editora Joana Pulido que, posteriormente, a publicou (Anexo 8). Ainda, neste dia, tive a oportunidade de gravar umas vozes off sobre esta temática, para a Lusa TV e foi algo que nunca tinha feito e que gostei muito de fazer. As saídas para o terreno foram muito enriquecedoras, tanto a nível profissional como pessoal, e foram também a parte mais desafiante dos três meses de estágio na agência Lusa. Ter ficado na redação do Porto foi uma ótima escolha, uma vez que o espaço é mais pequeno e o facto de todos os jornalistas não estarem fidelizados a uma só secção permitiu-me ter contacto com várias áreas e não com apenas uma. E também foi muito entusiasmante perceber como os jornalistas da Lusa tentam sempre dar a notícia em primeira mão, primeiro que os restantes órgãos de comunicação, e toda a rotina que os mesmos têm. 1.2.4. As questões que surgiram ao longo do estágio na Lusa Antes do estágio curricular na Agência Lusa, na Licenciatura tive a oportunidade de realizar um estágio num jornal nacional, onde, diariamente, as notícias da Lusa eram tidas em conta e eram, maioritariamente, utilizadas por esse mesmo jornal. Ou seja, já tinha a perceção, antes de ir estagiar para a Lusa, de que esta é uma das maiores produtoras de notícias do nosso país, que fornece informações aos restantes órgãos de comunicação. Na minha primeira semana de estágio na redação do Porto da Agência Lusa comecei a ter contacto com as peças que eram produzidas pelos profissionais e também tive a oportunidade de produzir as minhas próprias notícias e, deste modo, reparei mais nitidamente que os meios de comunicação, como rádios, televisões e jornais, utilizavam as peças escritas pela Lusa e percebi A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 31 também que, grande parte das notícias feitas pela agência, é reproduzida integralmente pelos outros órgãos, muitas vezes, sem identificar a Agência Lusa. No decurso do estágio, ainda questionei os editores sobre este assunto, o porquê de outros meios utilizarem as notícias da Lusa e não identificarem ou até muitas vezes colocar os nomes dos profissionais desses meios e não como foi algo feito pela Lusa. Os editores respondiam que era mesmo assim, que, basicamente, a Lusa produz peças para os seus clientes e estes têm de pagar pelo seu trabalho, por isso, a Lusa limita-se a escrever e depois os outros órgãos limitam-se a fazer o que pretendem com as informações da Lusa. Quando pesquisava na internet as notícias que tive a oportunidade de escrever ao longo dos três meses de estágio, estas apareciam publicadas em vários outros meios de comunicação (Anexo 9). No meu ponto de vista, as televisões, as rádios e os jornais até podiam copiar a notícia da Lusa na íntegra, mas o que me deixava perplexa era o facto de saber que tinham sido os jornalistas da agência a escrever as peças e estas saírem noutros meios como se fossem esses próprios meios a escrevê-las. Para mim, isto estar a acontecer não era correto e também me comecei a questionar sobre o assunto. Por outro lado, quando iniciei o estágio na Agência Lusa, outra das curiosidades que tinha era perceber como é que a Lusa fazia para conseguir ser a primeira a obter informações e a transmiti-las aos restantes órgãos de comunicação. Desta forma, o foco principal do meu relatório de estágio recai sobre algumas questões importantes a ter em conta: Como é que a Lusa tem acesso às informações para transmitir a outros órgãos? O que distingue a Lusa dos outros órgãos? Quais são as suas funções? Ou seja, pretendo abordar como é que a Lusa tem acesso a todas as informações e perceber o que faz a Lusa para ser a primeira a noticiar. Ao longo do estágio, tive noção de algumas ferramentas que os jornalistas utilizavam para chegar às notícias, mas, ao mesmo tempo, considero que os três meses foram insuficientes para perceber todo o trabalho que é feito pelos jornalistas nesta agência. Assim, de forma resumida, os órgãos de comunicação usam a Agência Lusa como fonte de informação e, através deste relatório de estágio, quero compreender melhor como é que a informação chega à Lusa e como são as rotinas de produção que transformam a agência numa espécie de “mercado abastecedor de notícias”. O período de estágio na Lusa serviu para observar, numa dimensão reduzida, a importância da agência no jornalismo português, sobretudo em assuntos relacionados com o norte 32 do País, isto porque estagiei na redação do Porto. Ou seja, desde o início, foi notório e percetível que a maior parte dos órgãos de comunicação era sustentada por esta agência de notícias. Estas foram as questões que fui levantando ao longo do estágio e a que, ao longo dos três meses, tentei prestar atenção para depois refletir neste relatório de estágio. Desta forma, este trabalho tem como objetivo perceber e transmitir a importância que a Lusa tem no jornalismo em Portugal. Ao longo dos próximos capítulos, pretendo perceber de que forma é que a Agência Lusa é relevante para os diversos órgãos de comunicação e também compreender quem são as principais fontes de informação desta agência, para que esta consiga ser a primeira a noticiar os vários assuntos que surgem no país e no mundo. Posto isto, esta investigação pretende responder a questões de investigação, como: - Os órgãos de comunicação usam a Lusa como fonte de informação e quem é a fonte de informação da Lusa? - A informação chega à Agência Lusa antes de chegar aos restantes órgãos de comunicação? - Como se faz o agendamento da informação tratada pela Lusa? - Como perspetivar a teoria do agenda-setting no contexto de uma agência de notícias? - De que forma permite a estrutura da agência (a sua rede de correspondentes, por exemplo) contribuir para um serviço prestável para os outros órgãos de informação? 1.2.5. Três meses de estágio que passaram a voar Na Agência Lusa tive a oportunidade de colocar em prática o conhecimento de cinco anos (Licenciatura e Mestrado) de formação em Ciências da Comunicação. Ao mesmo tempo, estes três meses de estágio fizeram-me perceber e confirmar que o jornalismo é a profissão que, no futuro, gostaria de vir a desempenhar. Ao longo de cerca de 13 semanas, tive a possibilidade de trabalhar na redação do Porto com uma equipa de profissionais dedicados, que me permitiram sugerir ideias de notícias/reportagens e também me deram a oportunidade de ir para o terreno e explorar como é feito o trabalho do jornalista quando está fora da redação. Durante este tempo em que estagiei na Lusa, além dos aspetos positivos também houve alguns aspetos negativos (ou críticas) a apontar. Como esta empresa tem sempre de estar em “cima do acontecimento”, muitas vezes, a “pressa” e o rigor em escrever as notícias faziam com que os estagiários ficassem um pouco esquecidos e havia muitos momentos em que não tinha tarefas para fazer, o que me deixava um pouco desanimada. A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 39 Havas tinha aberto uma empresa dedicada à tradução de correspondência estrangeira e, três anos depois, começou a perceber que os jornais estavam a enfrentar limitações financeiras para manter correspondentes nas diversas localidades (Aguiar, 2009). Assim, esta perceção levou à criação da agência de notícias, que representou e continua a representar um marco importante na história do jornalismo, ao centralizar a recolha e a distribuição de informações para diversos veículos de imprensa. A primeira agência de notícias do mundo foi então a Agência Havas que, depois, veio dar origem à Agence France-Presse (AFP). Com 1500 jornalistas e um total de 2260 empregados que trabalhavam em 200 escritórios de todo o mundo, esta agência produzia cerca de 5000 histórias e 2500 imagens por dia em seis línguas (Griessner, 2012, p. 18). No ano de 1849, Bernhard Wolff, ex-funcionário de Havas, criou uma agência de notícias na Alemanha e, desta forma, tornou-se um precursor da Deutsche Press Agentur (DPA) (Aguiar, 2009). Também em 1852, Paul Julius Reuter, um outro ex-funcionário de Havas, fundou uma agência de notícias em Londres, Inglaterra, que veio a ser conhecida como a agência Reuters. Com o decorrer do tempo, a Reuters consolidou a sua reputação e tornou-se numa das agências informativas mais respeitadas a nível global. A agência Reuters, de acordo com Mooney e Simpson, 2003, citados em Artero e Moraes (2008) seguiu o modelo da agência Havas e, mais tarde, Londres vem a tornar-se na capital financeira mundial (Mooney & Simpson, 2003, citados em Artero & Moraes, 2008, p. 57). Segundo Camargo e Aguiar (2016), foram várias as agências de notícias que marcaram o século XIX com o seu aparecimento, principalmente na Europa Ocidental e nos Estados Unidos da América, “os primeiros centros globais do capitalismo” (Camargo &Aguiar, 2016, p. 33). É também em 1846 que surge a Associated Press, “uma das maiores e mais antigas agências de notícias de todo o mundo e que funciona como uma agência sem fins lucrativos” (Griessner, 2012, p. 16). De acordo com Aguiar (2015), as primeiras agências de notícias eram todas companhias de capital privado – ainda que contassem com subsídios estatais e acessos privilegiados à máquina pública –, visando o lucro e, no entanto, no seu processo de expansão transnacional, lidavam com interesses, regras e limitações estabelecidos por cada Estado. (Aguiar, 2015, p. 24) Também Sousa (2008), na mesma linha de Aguiar (2015), explica que, no início, as agências noticiosas 40 começaram a produzir notícias de índole económica, para venda à imprensa, à banca e aos grandes industriais. Todavia, a necessidade que a imprensa e mesmo os governos, as empresas e os bancos denotavam de notícias era tal que as agências rapidamente alargaram o negócio à produção generalista de informações, controlando, em especial, o fluxo de notícias entre as colónias e as metrópoles. O facto de terem sido as primeiras a chegar ao mercado, o rigor da informação que produziam e a dependência que os governos e a imprensa tinham delas levou-as a uma situação mercadológica privilegiada, quase aniquilando a concorrência interna de outras empresas que procuravam estabelecer-se no mesmo ramo de negócio. (Sousa, 2008, p. 130) A partir do século XIX, as agências começaram a surgir e aproveitaram, de acordo com Quintanilha et al. (2020), “a combinação entre inovação tecnológica e prática jornalística” e, desta forma, “o telégrafo permitiu transmitir informação pelo mundo de forma acelerada e os jornais perceberam que era mais vantajoso colaborar através de uma agência de notícias, do que enviar um trabalhador para cada ponto de reportagem no globo” (Quintanilha et al. 2020, p. 8). Monteiro (2016) esclarece que as agências de notícias “funcionam, muitas vezes, como intermediárias entre os acontecimentos e os meios de comunicação social” e, além disso, “possuem vários correspondentes em território nacional e internacional, o que representa um custo que nem todos os órgãos de comunicação social conseguem suportar, conseguindo, desta forma, fazer uma melhor recolha das informações, transmitindo-as, posteriormente, aos órgãos de comunicação assinantes” (Monteiro, 2016, p. 25). O que foi “ainda mais imprescindível” para o “fenómeno” das agências de notícias foi, de acordo com Aguiar (2015), “a criação e instalação das redes telegráficas, tanto por cabos terrestres quanto por cabos submarinos, que se deu em ritmo relativamente galopante” (Aguiar, 2015, p.21). Desta forma, pode resumir-se, segundo Miranda (2019), que, a partir do século XIX, por todo o mundo, surgiram agências de notícias, “que depressa ganharam destaque no campo da informação” e as suas vantagens “foram rapidamente percebidas pelos outros meios de comunicação, tendo o trabalho das agências transformado o trabalho das redações” (Miranda, 2019, p. 36). Tal como destaca Bielsa (2008), “as agências produzem não apenas informação bruta, mas também notícias acabadas, que estão prontas para serem transmitidas/impressas”, levando a “uma prevalência de algumas organizações (ocidentais)”, o que implica uma “certa homogeneização das notícias” (Bielsa, 2008, p. 3). No que diz respeito à globalização, as agências assumiram, segundo Boyd-Barrett e Rantanen (1998), “uma importância crescente no apoio das atividades de globalização de outros A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 41 intervenientes nos mercados mundiais” e foram “as primeiras organizações no mundo a atuar globalmente na produção e distribuição da perceção e do conhecimento, através da mercantilização de notícias” (Boyd-Barrett e Rantanen, 1998, p. 5). Bielsa (2008) refere que as agências de notícias não só difundiram o modelo da mídia ocidental e os valores noticiosos de imparcialidade, objetividade e neutralidade por todo o mundo, mas também moldaram o conteúdo noticioso, seja indiretamente através da imposição do que é considerado interessante, de quais áreas são priorizadas, desde que ângulo os eventos são retratados (seus vastos poderes de definição de agenda); ou diretamente através do fornecimento de produtos jornalísticos aos seus assinantes. (Bielsa, 2008, p. 3) Posto isto, importa, de seguida, conhecer como é que as agências noticiosas chegaram a Portugal. 2.3. A chegada das agências noticiosas a Portugal O primeiro contacto de Portugal com as agências de notícias aconteceu no ano de 1866, quando começaram a chegar os primeiros despachos da Agência Havas (Silva, 2002, p.6). Também foi a 10 de março de 1866 que o Diário de Notícias , fundado por Eduardo Coelho no ano anterior, iniciou a publicação de “participações telegráphicas” desta agência, ou seja, foi através do Diário de Notícias que esta primeira agência informativa mundial fez chegar a Portugal o primeiro despacho informativo (Silva, 2002, p. 6). A ideia da criação de uma agência noticiosa em Portugal surgiu em 1938, no entanto, os primeiros passos para a criação da primeira agência informativa portuguesa foram dados passados seis anos, no ano de 1944, com a fundação da Agência Lusitânia, por Luís Caldeira Lupi, jornalista e correspondente da Associated Press e da Reuters em Portugal. De acordo com Silva (2002), Luís Caldeira Lupi mostrou-se “descontente com as notícias sobre Portugal que eram publicadas nos jornais das Colónias, aos quais chegavam através de agências estrangeiras” e começou a projetar a criação de uma agência de notícias portuguesa (Silva, 2002, p. 8). A 30 de dezembro de 1944, Luís Lupi consegue finalmente que a Lusitânia inicie o seu serviço noticioso, mesmo “com todas as reticências do poder político relativamente a um projeto desta natureza” (Silva, 2002, p. 8). Silva (2002) refere que existem autores que defendem ser muito “discutível” o reconhecimento da Lusitânia como agência de notícias. Embora tenha tido um papel fundamental no que diz respeito à história das agências em Portugal, esta “não tinha um estatuto jurídico 42 definido e que funcionava como secção da Sociedade de Propaganda de Portugal” (Silva, 2002, p. 8). Os autores Silva (2002) e Fonseca e Carvalho (2017), nos documentos onde abordam a agência Lusitânia, referem que, no início e durante os 30 anos que se seguiram, esta passou por algumas dificuldades. “(…) as dificuldades financeiras ganharam vulto e passaram a constituir um eterno pesadelo tanto para o criador da empresa como para os seus colaboradores” (Fonseca & Carvalho, 2017, p. 74). Silva (2002) também salienta que a Lusitânia, para cumprir os objetivos a que se propunha, “caminhou sobre um contraditório e instável equilíbrio: o de, em simultâneo, ter que informar e fazer propaganda” (Silva, 2002, p. 10). Desde a era da Lusitânia até à criação da Agência Lusa, o percurso foi extenso e repleto de desafios. Após o estabelecimento de diversas agências de notícias nacionais, a Lusa começou a operar em 1987 e tem vindo a desempenhar um papel fundamental no jornalismo português até aos dias atuais. Compreender a trajetória percorrida, o funcionamento das várias agências de notícias em Portugal ao longo do tempo e a relevância atual da agência para outros meios de comunicação, é crucial. De seguida, de forma concisa e resumida, é o momento de contar um pouco a história das agências de notícias portuguesas. 2.3.1. ANI – Agência de Notícias e Informação No ano de 1947, o redator-chefe do Diário de Notícias , Dutra Faria, juntamente com Barradas de Oliveira e Marques Gastão, fundou a Agência de Notícias e Informação (ANI), sendo esta considerada por vários autores a primeira agência de notícias portuguesa (Silva, 2002, p. 12). Segundo Silva (2002), a ANI era, “juridicamente, uma sociedade de responsabilidade limitada”, pois, tal como aconteceu com a agência Lusitânia, também foi criada com o apoio do governo. Fonseca (1995) refere que tudo aponta para que, “sem o conhecimento do fundador da Lusitânia, e menos de dois meses após a fundação desta, já estivessem a ser lançadas as bases da criação da segunda agência noticiosa, a ANI” (Fonseca, 1995, citado em Silva, 2002, p. 13). Mais tarde, em 1963, “o panorama da informação de agência em Portugal tinha, entretanto, sofrido alterações significativas”, uma vez que, inicialmente, a Lusitânia viu-se “obrigada a enfrentar uma situação de concorrência direta, para a qual não estava preparada” e, desta forma, “não conseguiu manter a sua posição de liderança no campo da informação e foi perdendo continuamente poder e prestígio a favor da ANI, que, nesta altura, já ocupava uma posição claramente dominante” (Silva, 2002, p. 14). A ANI, de acordo com Silva (2002), “era A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 43 dirigida por dois jornalistas profissionais, tinha um quadro de cerca de 12 jornalistas e produzia cerca de 1 milhão de palavras/mês. Paralelamente, o seu serviço noticioso internacional beneficiava da cooperação que encetara com um núcleo de agências católicas” (Silva, 2002, p. 14). Na década de 70, começaram a aumentar as vozes que reclamavam a existência de apenas uma agência de notícias em Portugal e surgiu a possibilidade de fundir a Lusitânia e a ANI. No entanto, a Revolução do 25 de abril de 1974 veio “alterar definitivamente a realidade política e social do país e impedir a concretização do projeto nestes moldes” (Silva, 2002, p. 15). Assim, para definir o futuro das duas agências no período de pós-revolução, Fonseca (1995) esclarece que foi promovida uma reunião, onde Raul Rego, ministro da Comunicação Social, tentou retomar “a ideia de criação de uma cooperativa que reunisse os interesses de produtores e utilizadores de notícias” (Fonseca, 1995, citado em Silva, 2002, p. 16). Contudo, a iniciativa não teve um “bom acolhimento”. O Governo ainda tentou retomar o projeto de concretização da cooperativa mais duas vezes, mas não conseguiu que a ideia tivesse “um desfecho favorável à sua pretensão” (Silva, 2002, p. 16). “Esgotadas as possibilidades de as entidades envolvidas no processo chegarem a um acordo, o destino das duas agências noticiosas parecia resumir-se ao de uma ‘morte anunciada’, que efetivamente viria a concretizar-se passado pouco tempo” (Silva, 2002, p. 16). Posto isto, a agência Lusitânia foi extinta a 18 de novembro de 1974 e a ANI também não teve um destino diferente, tendo sido adquirida pelo Estado a 8 de novembro de 1974 e permanecido ativa até setembro de 1975. A Agência de Notícias e Informação foi dissolvida e o “seu passivo e ativo, os seus direitos e obrigações são transferidos para uma nova agência noticiosa constituída pelo Governo pouco antes, a Agência Noticiosa Portuguesa (ANOP) (Silva, 2002, p. 16). “Nesta altura, a ANI possuía um quadro constituído por 49 trabalhadores, dos quais 22 eram jornalistas e tradutores, 10 operadores de telex e 17 funcionários administrativos e o seu património era basicamente constituído por telexes e máquinas de escrever” (Silva, 2002, p. 16). 2.3.2. ANOP – Agência Noticiosa Portuguesa A Agência Noticiosa Portuguesa (ANOP) foi uma “empresa pública de serviço público”, que surgiu a 1 de julho de 1975. A solução encontrada pelo Governo do pós-25 de Abril para resolver a questão das agências noticiosas tinha assim passado por um corte total com o 44 passado, e culminara com a criação de uma nova agência – uma empresa pública – a Agência Noticiosa Portuguesa (ANOP) (Silva, 2002, p. 17). Tal como aponta Silva (2002), o Governo atribuiu à ANOP “a responsabilidade de se constituir num poderoso instrumento, tornando-se um reputado e digno de confiança centro internacional de comunicações” (Silva, 2002, p. 18). Para os meios de comunicação da época, a ANOP “representava a sua principal fonte de informações” (Silva, 2002, p. 20). Em 1980, tendo em conta as dificuldades económicas que Portugal estava a atravessar, a ANOP começou a “evidenciar sinais de alguma debilidade financeira” (Silva, 2002, p. 21). Apenas passados sete anos depois da criação da ANOP, em 1982, o Governo decidiu “apoiar a constituição de uma nova agência noticiosa de base cooperativista e extinguir a agência pública ANOP” (Silva, 2002, p. 22). Ao tomar esta resolução, o Governo inicia um processo que ainda hoje não tem contornos bem definidos, no que se refere às suas motivações como às movimentações de interesses que estiveram por detrás da decisão e que, ao contrário da sua pretensão – a de rapidamente extinguir a ANOP e recomeçar do zero, com a criação de uma agência de informação de iniciativa privada -, permanecerá insolúvel por alguns anos. (Silva, 2002, p. 22) Vinte e uma empresas de comunicação social e de telecomunicações (nove empresas públicas e 12 empresas privadas), a poucos dias depois “do estalar da polémica nos jornais sobre a possível extinção da agência noticiosa estatal”, assinaram um contrato “de intenções para a criação da Cooperativa Porpress, destinada à fundação de uma nova agência privada” (Silva, 2002, p. 23). 2.3.3. NP – Notícias de Portugal A criação da cooperativa Porpress serviu para “a difusão de um serviço noticioso para utilização dos respetivos cooperadores e outras entidades, designadamente as que atuarem no campo da Comunicação Social” (Silva, 2002, p. 25). Contra a vontade do Governo, que pretendia que a principal medida expressa nesta Resolução – a de iniciar o processo de extinção da agência noticiosa pública – fosse colocada em prática rapidamente, por forma a estar concluída antes que a nova agência de informação privada iniciasse funções, o Presidente da República, Ramalho Eanes, não promulga o Decreto Governamental de extinção. (Silva, 2002, p. 27) A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 45 Tal como enuncia o autor, “o presente e o futuro da ANOP estavam em suspenso” (Silva, 2002, p. 27). No mês de outubro de 1982, enquanto os trabalhadores da ANOP aguardavam uma tomada de decisão por parte do Presidente da República, relativamente ao veto do Decreto Governamental para extinguir a ANOP, a Notícias de Portugal (NP) preparava-se “para iniciar o seu serviço informativo, apoiada financeiramente por dinheiros públicos através da celebração de um protocolo (com a duração de oito anos, renováveis)”, que previa “a prestação de serviços noticiosos ao Estado” (Silva, 2002, p. 29). Assim, Contra as expectativas do Governo, pelo menos por ora, originara-se uma incontornável situação de coexistência forçada de duas agências noticiosas. Se o objetivo primeiro do Governo tinha sido extinguir a ANOP por motivos de necessidade de contenção da despesa pública, o resultado alcançado tinha sido bem diferente; ainda que de modos distintos, neste momento o Estado financiava, não uma, mas duas agências. (Silva, 2002, p. 29) Nos primeiros dias de novembro, o Presidente da República vetou o decreto governamental da extinção da agência, por causa do “esvaziamento de jornalistas” e pela “falta de fontes informativas” (Silva, 2002, p. 30). Dois anos após a publicação do diploma que determinava a coexistência de facto das duas agências noticiosas existentes, reconhecendo que a solução encontrada na altura não havia, na prática, correspondido minimamente às pretensões que estiveram na sua génese e que, pelo contrário, se tinha tornado numa solução extremamente dispendiosa, o Governo do Prof. Cavaco Silva retoma as conversações com as direções da ANOP e da NP com o objetivo de que estas cheguem a um acordo que viabilize a existência de uma única agência noticiosa nacional. (Silva, 2002, p. 36) No entanto, de acordo com Silva, 2002), a opinião das direções das duas agências divergia e foram equacionados vários futuros (Silva, 2002, p. 36). Desta forma, “os termos de reestruturação, fusão e absorção” foram os “mais utilizados por responsáveis e trabalhadores da ANOP e da NP”, que encerraram “três possíveis e distintas soluções para uma polémica que tarda em ser resolvida” (Silva, 2002, p. 36). É então no final de julho de 1986 que o governo e as agências chegam a um acordo e, no dia 1 de agosto, os responsáveis da ANOP e da NP assinaram um protocolo, que implicou “a extinção da ANOP e alteração da personalidade jurídica da NP” (Silva, 2002, p. 36). 46 A partir desta última será criada uma – e única – agência que revestirá a estrutura de cooperativa de utilidade pública, de responsabilidade limitada, agrupando o Estado e os utentes dos serviços informativos (através da entidade – ex-agência – Notícias de Portugal), cada qual com 50 por cento do capital social. (Silva, 2002, p. 37) Segundo o autor Silva (2002), esta “última agência” tinha que ser autónoma a nível financeiro e económico, assegurar “por uma estrutura de capital próprio e de receitas, de modo a salvaguardar a independência perante o governo, a administração e os demais poderes públicos” (Silva, 2002, p. 37). Assim, nasceu a Agência Lusa de Informação, que foi fundada pela Resolução de Conselho de Ministros no dia 28 de novembro de 1986. Os principais objetivos da mesma eram “a recolha de material noticioso com interesse informativo, o seu respetivo tratamento e a difusão mediante pagamento” (Marques, 2022, p. 25). Silva (2002) salienta que, a Lusa, para poder concretizar um serviço público de interesse nacional, teve de levar em consideração outros aspetos também importantes: A agência deverá assegurar a cobertura nacional e regional do País, em particular das regiões autónomas, bem como os acontecimentos relacionados com a Comunidade Económica Europeia, com os países de língua oficial portuguesa e outros espaços de relevante interesse para Portugal, nomeadamente os de forte concentração de comunidades portuguesas. (Silva, 2002, p. 38) A Agência Lusa, “às zero horas de 1 de janeiro de 1987” iniciou, então, o serviço noticioso com “cerca de 240 trabalhadores” (Marques, 2022, p. 25). No ponto seguinte, será abordado, de forma mais concreta, como surgiu esta agência de notícias. 2.4. O surgimento da Agência Lusa Às zero horas de 1 de janeiro de 1987, a novel agência Lusa iniciava o seu serviço noticioso com a distribuição de um comunicado a todos os clientes: "Na sequência do processo de formação da Agência Lusa – Agência Lusa de Informação, CIPRL – as agências ANOP e NP cessaram, a partir das 24 horas de ontem, a difusão do seu serviço noticioso. A partir de hoje, cabe à Lusa a responsabilidade de elaborar e de distribuir um serviço noticioso nacional e internacional à rede geral de utentes da ANOP e da NP. No entanto, na realidade sucedia que, apesar de o serviço noticioso ser apresentado como originário da Lusa, esta ainda permanecia uma entidade abstrata. Ainda sem instalações, na prática, o serviço noticioso da Lusa era realizado a partir das instalações da ANOP e da NP que, apesar de extintas, continuavam com as A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 47 suas redações a funcionar em paralelo e com uma agenda comum. (Silva, 2002, p. 39) Tal como refere Marques (2022), o arranque da Lusa “não foi pacífico” e, aquando do seu aparecimento, como foi referido anteriormente, esta agência de notícias possuía “cerca de 240 trabalhadores, dos quais 170 jornalistas vinham de agências antecessoras” e, assim, isso “implicava por parte dos jornalistas, habituados a concorrer entre si, uma adaptação e uma procura por uma identidade comum” (Marques, 2022, p. 26). Silva (2002) contou que, nos primeiros tempos, “o casamento não é fácil” e, muitas vezes, “o trabalho informativo produzido pela Lusa é alvo de críticas por parte dos seus utentes, que se queixam de sobreposição de notícias, de despachos informativos contraditórios, de a agência ter herdado os erros e os vícios das suas antecessoras…” (Silva, 2002, p. 40). O autor afirma ainda que este “começo mal-aventurado” da Agência Lusa se manteve ao longo do ano de 1987. No início do ano 1988, a agência teve “consequências práticas ao nível da sua estrutura interna de chefias” e, nesta altura, “a direção em funções sai e uma nova equipa assume o encargo de reestruturar toda a redação da agência”, ou seja, a Lusa começa a integrar uma fase melhor (Silva, 2002, p. 40). A nova agência, “mais estabilizada”, começou a demonstrar “sinais de crescimento e de alguma expansão internacional” e é a 18 de janeiro de 1989 que inaugura a sua própria sede em Benfica, Lisboa (2002, p. 40). Numa fase inicial, a Agência Lusa detinha várias delegações, entre elas no Porto, Coimbra, Faro, Guarda, Évora, Ponta Delgada e Funchal e também possuía correspondentes em todas as capitais de distrito do país. Em África, a representação da agência era “assegurada por delegações em Maputo, Luanda, Bissau, Cidade da Praia e uma correspondente em São Tomé e Príncipe” (Silva, 2002, p. 40). Também na África do Norte, a Lusa estava representada “através de uma delegação na capital marroquina, Rabat, e na Ásia por um ‘Desk Ásia-Pacífico’ centralizado em Macau, que editava o serviço noticioso em inglês, chinês e português” (Silva, 2002, p. 40). Relativamente à Europa, a agência tinha uma delegação em Bruxelas e “correspondentes permanentes nas principais capitais” (Silva, 2002, p. 40). Assim, no total, a Lusa dispunha de uma rede de correspondentes nacionais e internacionais que comportava mais de centena e meia de jornalistas que, para além das cidades referidas, se distribuíam ainda por cidades como Washington, Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires, Joanesburgo, Sidney e Telavive. A estes, somavam-se ainda os cerca de cem jornalistas que, diariamente, produziam uma média de oitenta mil palavras a partir da sede da agência (Silva, 2002, p. 40). 48 No que diz respeito ao serviço informativo que era prestado pela Lusa, o mesmo funcionava “24 horas por dia” e “distribuía-se por cinco setores: nacional, internacional, economia, comunidades e regiões e desporto”, sendo que este serviço era “difundido para a quase totalidade dos órgãos de comunicação social nacionais” (Silva, 2002, p. 41). Ainda, como complemento, a agência tinha também um “centro de documentação e um serviço fotográfico nacional e internacional através da agência Reuter e da European Press Agencies” (Silva, 2002, 41). Em 1988, segundo Silva (2002), “mercê do seu estatuto de ‘única agência noticiosa de âmbito nacional’ e da ainda débil capacidade financeira dos órgãos de comunicação portugueses”, a Lusa, através das “cerca de quatrocentas notícias que difundia diariamente”, era responsável “por cerca de metade do noticiário nacional e de perto de cem das notícias internacionais utilizadas na comunicação social portuguesa” (Silva, 2002, p. 41). Internacionalmente, o serviço noticioso da Lusa constituía a “principal base de informação sobre Portugal, os países africanos de língua oficial portuguesa e as comunidades portuguesas no estrangeiro” (Silva, 2002, p. 41). Nos anos seguintes, a Agência Lusa registou um significativo crescimento, visível, principalmente, na melhoria da qualidade e aumento da diversidade dos serviços prestados, na ampliação da sua rede de correspondentes e delegações no estrangeiro e num acréscimo do número de clientes diretos e indiretos. (Silva, 2002, p. 41) Posto isto, de acordo com Marques (2022), a Lusa, após um ano, “abandonava a rede de distribuição telegráfica como meio de transmissão e receção de notícias e a era do satélite ganhava lugar na agência” e, assim, “este avanço permitia uma maior rapidez na difusão do serviço noticioso, uma seleção de notícias conforme o interesse do cliente e uma maior credibilidade na informação”. Desta forma, “estabeleciam-se também novos serviços através do telefone e videotexto especificados para o público” (Marques, 2022, p. 27). É no ano de 1995 que a Agência Lusa realiza a “primeira experiência no ciberespaço” e, em cooperação com a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, durante um mês, a Lusa disponibilizou na internet as notícias produzidas na sua redação (Silva, 2002, p. 42). Num artigo publicado no jornal Semanário por Baptista (1995), citado por Silva (2002), a principal atração deste serviço é um noticiário sobre a campanha eleitoral, elaborado pela Lusa e atualizado várias vezes por dia (…) O serviço tem a vantagem de informar os emigrantes internautas, já que pode ser acedido de A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 55 A autora Jorge (2013) concorda com Monteiro (2016) quando refere que as agências “conquistaram esta posição de intermediárias graças ao facto de terem, regra geral, uma ampla rede de correspondentes” (Jorge, 2013, p. 35). Tal como nos enuncia Monteiro (2016), “as notícias acontecem a cada segundo, ou porque alguém nasce, ou porque alguém morre, ou porque alguém ganha um prémio, ou porque alguém foi preso, e o papel dos jornalistas é dar essas informações ao público”. No entanto, “o problema está no facto de os jornalistas não estarem sempre presentes para assistir a todos esses acontecimentos e é aqui que entram as fontes, são elas que fornecem as informações de que os jornalistas precisam para contarem histórias” (Monteiro, 2016, p. 34). No Código de Ética da Lusa lê-se que esta “tem como objetivo a recolha e tratamento de material noticioso de interesse informativo, a produção e distribuição de notícias a um alargado leque de utentes (média nacionais e internacionais, empresas e instituições de caráter público e privado)” e, ao mesmo tempo, tem de prestar um serviço de interesse público ao Estado português relativo à informação dos cidadãos (Código de Ética da Lusa). Como enuncia Marques (2020), a agência “alia à sua missão os valores e éticas inerentes ao jornalismo, ainda que o estatuto atribuído pelo contrato que celebra com o Estado tenha aqui um valor determinante na identidade desta instituição”, ou seja, a Lusa “é e tem que ser um exemplo a todos os níveis daquilo que é o jornalismo” (Marques, 2020, p. 17). Segundo Fangueiro (2019), a Lusa “tem de prestar serviço noticioso e informativo ao país, visto que o Estado Português é acionista e detentor do capital maioritário da agência noticiosa”, ou seja, em termos económicos “existem consequências”, uma vez que, “enquanto os meios de comunicação social, como jornais, televisões e rádios, garantem retorno económico, as agências apresentam dificuldades em atingir esse retorno, porque o seu trabalho, na maioria das vezes, está ocultado” (Fangueiro, 2019, p. 42). As vantagens dos vários órgãos de comunicação subscreverem o serviço de uma agência de notícias, de acordo com Marques (2020), são as seguintes: Entre as inúmeras vantagens de subscrever o serviço de uma agência noticiosa está a rede de recursos humanos, e não só, que estas têm espalhadas por todo o mundo, algo que, no caso da Agência Lusa, fica assegurado pelo serviço público. A decisão é fácil para qualquer diretor de jornal quando as contas são apresentadas: o custo de subscrever uma agência noticiosa não tem comparação com o de enviar um correspondente para todos os pontos do globo em que a agência está estabelecida. Mas aqui surge a desvantagem de que o jornal, caso decida reportar um acontecimento no estrangeiro, não tem 56 opção se não adotar o ângulo da agência, sem poder concordar ou discordar e limitando-se a reciclar essa informação na valência quase exclusivamente unidirecional da relação entre a agência e o órgão. (Marques, 2020, p. 18) Além de possuir uma vasta rede de correspondentes, a Agência Lusa não se limita a fornecer as informações necessárias para elaborar notícias, as notícias são mesmo elaboradas e muitos órgãos de comunicação, que não podem mandar jornalistas para todos os serviços, ficam à espera das informações da Lusa para noticiarem os acontecimentos. Ou seja, segundo Batista (2021), as agências noticiosas, sendo decisoras primárias daquilo que será veiculado, devem estar munidas de ferramentas técnicas, mas também de competências valorativas sobre aquilo que é notícia”, isto é, devem “verificar, ser rigorosas na sua informação, objetivas e, neste caso, a Lusa tem feito muito bem esse trabalho, colocando a sua tónica na pergunta ‘tens a certeza?’ antes da publicação da notícia. (Batista, 2021, p. 76) Basicamente, ainda de acordo com Batista (2021), podemos afirmar que a Agência Lusa tem contribuído para elevar os padrões de literacia mediática junto da sociedade, disponibilizando o seu material informativo, numa altura em que o jornalismo divide protagonismo com as redes sociais, um meio onde o escrutínio não é imposto e onde todos são facilmente manipulados. (Batista, 2021, p. 76) Segundo Boumans (2016), as agências de notícias “têm uma posição única”, uma vez que são capazes de controlar os eventos que podem vir a ser notícia pelo mundo e, desta forma, produzem notícias “de uma ampla variedade de fontes” (Boumans, 2016, p. 90). Hoje em dia, de acordo com Monteiro (2016), é comum os meios de comunicação recorrerem às agências de notícias como fontes para divulgarem informações, “sem, na maior parte das vezes, qualquer tipo de tratamento por parte do jornalista que a publica no seu órgão de comunicação social”, ou seja, a sensação que fica, neste caso, relativamente à presença da Lusa noutros meios “é a de que não existe produção própria, pesquisa própria, porque as declarações não foram ouvidas nem assistidas pelo jornalista que difunde a notícia de agência” (Monteiro, 2016, p. 31). Segundo esta lógica, Borges (2008) acrescenta que “na busca pela instantaneidade, a qualidade pode não ser a prioridade e as notícias passam a ser divulgadas, cada vez mais, com maior nível de superficialidade” (Borges, 2008, p. 55). Isto para dizer que “as redações vivem completamente dependentes da Lusa” e isso “não lhes permite que procurem novos temas, A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 57 aprofundem assuntos, dar voz a outras vozes, confrontar ideias” e, desta forma, origina “uma homogeneização de notícias” entre todos os órgãos de comunicação social (Sousa, 2015, p. 72). Por outro lado, e atualmente, a Agência Lusa, tem a missão de informar de forma rápida e rigorosa, mas, muitas vezes, acaba por ser ultrapassada pelos diversos órgãos de comunicação que existem, especialmente em situações de ocorrências, como acidentes ou crimes (Santos, 2018, p. 53). A diferença, de acordo com Santos (2018), “é que, não são raras as vezes, que os órgãos que a ultrapassam veiculam informação que carece de verificação e de uma fonte identificada, enquanto a Lusa tem por princípio esperar pela confirmação de uma fonte oficial” (Santos, 2018, p. 53). Além disso, o facto de a Lusa também possuir uma vasta agenda e prestar serviço público permite que a agência esteja presente em locais onde mais ninguém vai (Santos, 2018, p. 53). Tal como está escrito no site da Lusa, a agenda da Lusa é um documento de referência vital para todas as redações e para várias entidades que necessitam de antecipar o que de mais importante se passa no país e no mundo. Nas mais diversas áreas, com periodicidade diária, semanal ou mensal, a agenda também pode ser direcionada para uma área específica de interesse ou região (site da Lusa). A Agência Lusa tem uma agenda variada diariamente e, de acordo com o Livro de Estilo da Lusa (2019), “a informação de agenda é normalmente reunida em blocos que conjugam áreas (Cultura ou Política, por exemplo) e se ordenam por um princípio cronológico”. Isto é, a informação de agenda das agências de notícias deve mencionar a data e a hora do acontecimento a que se refere, bem como a sua localização precisa, os principais atores e as suas funções, e a finalidade do acontecimento. No entanto, “aquilo que uma agência inclui nas suas agendas não constitui um compromisso de cobertura” (Livro de Estilo Lusa, 2019). Desta forma, podemos afirmar que as agências de notícias, nomeadamente a Lusa, também se regem pela teoria do agenda-setting, que foi uma teoria desenvolvida por Maxwell McCombs e Donald Shaw. Esta perspetiva aponta, segundo Silva (2018), “que os consumidores tendem a considerar como mais importantes os assuntos veiculados com mais frequência na cobertura jornalística”. Ou seja, as agências de notícias também selecionam as notícias mais relevantes, porque nem tudo numa agência é considerado notícia e, desta forma, os editores constroem a realidade informativa (Silva, 2018). 58 Basicamente, as agências de notícias utilizam o agendamento, de maneira a constituir um efeito social que compreende a seleção, disposição e incidência de notícias sobre os temas que o público vai falar e discutir (Silva, 2018). Como já compreendemos, através dos testemunhos dos vários autores, a Agência Lusa é uma empresa que, basicamente, existe para fornecer notícias a outros órgãos, ou seja, isso significa que para a Lusa comunicar as informações aos diversos meios de comunicação, a mesma precisa de estar a par de todas as notícias em primeiro lugar. E como é que isso acontece? Alguns autores já foram dando algumas respostas a esta questão, mas ainda existem muitos pormenores que necessitamos de conhecer, de forma a saber como é que a agência tem, muitas vezes, acesso às informações em primeira mão. Tal como os restantes meios de comunicação, a Lusa, em todas as notícias que escreve tem sempre uma fonte e, por regra, essa fonte deve ser sempre identificada (Livro de Estilo Lusa, 2019) e é também através das suas fontes que a Lusa consegue ser das primeiras a noticiar. De seguida, com um conjunto de entrevistase também com a reflexão de tudo o que foi observado ao longo dos três meses de estágio na Agência Lusa, vamos procurar responder aos objetivos/questões que definimos acima e, desta forma, ficar a perceber o que distingue, de facto, a Agência Lusa dos restantes órgãos de comunicação e também quais são as suas funções. A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 59 Capítulo 3 A produção de informação na Lusa: Como funciona? o início, abordámos as reflexões e considerações sobre o período de estágio na Agência Lusa, estabelecemos a problemática central deste relatório e conduzimos uma revisão breve de literatura, de forma a conseguir formular uma fundamentação teórica sobre o assunto a tratar. Optámos por explorar as perguntas formuladas no final do primeiro capítulo através da minha reflexão crítica sobre os três meses de estágio e também através de uma abordagem qualitativa. 3.1. Objetivos Para uma melhor compreensão do impacto da produção de informação nas agências de notícias, mais concretamente na Agência Lusa, apontaram-se alguns objetivos que devem ser tidos em consideração neste relatório de estágio: - Refletir sobre o papel das agências de informação; - Debater a organização das agências de informação; - Problematizar a teoria do agenda-setting no contexto das agências de informação; - Discutir a relação entre os jornalistas de agência e as fontes de informação; - Perspetivar a relação entre as agências, e especificamente a agência Lusa, e os outros órgãos de comunicação. 3.2. Metodologia De acordo com Neta e Aragão (2017), “entende-se metodologia como o estudo do método para se buscar determinado conhecimento” (Neta & Aragão, 2017, p. 28). Na realização do relatório de estágio, o primeiro passo consistiu em definir toda a pesquisa e escolher uma metodologia capaz de o beneficiar e que, ao mesmo tempo, conseguisse ter em atenção toda a investigação (Neta & Aragão, 2017, p.28). N 60 Na opinião dos autores Quivy e Campenhoudt (1998), “uma investigação é, por definição, algo que se procura” (Quivy & Campenhoudt, 1998, p. 31). Para eles, a forma mais eficaz de começar um projeto de investigação é através de uma pergunta de partida, sendo que Quivy e Campenhoudt referem que uma pergunta de partida “é a forma através da qual o investigador tenta exprimir o mais exatamente possível o que procura saber, elucidar, compreender melhor” (Quivy & Campenhoudt, 1998, p. 32). A pergunta de partida vai servir de “fio condutor da investigação” e, por isso, deve ser “clara, precisa, realista e ter uma intenção de compreensão dos fenómenos estudados” (Quivy & Campenhoudt, 1998, p. 44). Quanto às perguntas de partida deste relatório de estágio, as mesmas já foram mencionadas acima. Tal como já foi referido anteriormente, este relatório de estágio pretende responder a algumas questões de investigação (perguntas de partida), que são estas: Os órgãos de comunicação usam a Lusa como fonte de informação e quem é a fonte de informação da Lusa?; A informação chega à Agência Lusa antes de chegar aos restantes órgãos de comunicação?; Como se faz o agendamento da informação tratada pela Lusa?; Como perspetivar a teoria do agendasetting no contexto de uma agência de notícias?; De que forma permite a estrutura da agência (a sua rede de correspondentes, por exemplo) contribuir para um serviço prestável para os outros órgãos de informação? Para conseguir obter as respostas às perguntas de partida, será elaborado um modelo de análise, de forma a compreender como é que a informação chega à Agência Lusa e como são as rotinas de produção que transformam a agência numa espécie de “mercado de notícias”. Este modelo de análise vai ser construído através de uma abordagem qualitativa (entrevistas), mas também através da observação feita ao longo do estágio na redação do Porto da Agência Lusa. O modelo de análise, segundo Quivy e Campenhoudt (2008), “é o prolongamento natural da problemática, articulando de forma operacional os marcos e as pistas que serão finalmente retidos para orientar o trabalho de observação e de análise” (Quivy e Campenhoudt, 2008, p. 150). Uma vez que, ainda de acordo com os mesmos autores, “cada investigação é uma experiência única, que utiliza caminhos próprios” (Quivy e Campenhoudt, 2008, p. 120), para esta investigação tentamos definir o caminho mais adequado e que consiga fazer-nos chegar às respostas que pretendemos. Em termos metodológicos, o estudo deste relatório de estágio é guiado por uma abordagem qualitativa que, de acordo com Godoy (1995), consiste “em verificar como determinado fenómeno se manifesta nas atividades, procedimentos e interações diárias” e A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 61 “compreender os fenómenos que estão a estudar a partir da perspetiva dos participantes” (Godoy, 1995, p. 63). Coutinho (2015) refere que “a ausência de hipóteses formalmente explicitadas é uma das características mais marcantes da investigação não quantitativa” (Coutinho, 2015, p. 49). Posto isto, pode dizer-se que, para esta investigação, não serão definidas hipóteses e o modelo de análise será construído pela realização de entrevistas e da sua análise e, ao mesmo tempo, através da observação feita durante os três meses de estágio. A observação, segundo Boni e Quaresma (2005), “obriga o investigador a ter um contacto mais direto com a realidade” (Boni & Quaresma, 2005, p. 71). Ou seja, posso dizer que, através da observação no estágio, que me apercebi que os editores e até mesmo os jornalistas que lá trabalhavam sabiam, muitas vezes, das notícias em primeira mão e que os restantes órgãos de comunicação usavam grande parte das informações que a Lusa fornecia. Desta forma, posso dizer que o modelo de análise que está presente no relatório de estágio conta com elementos de origem indutiva (observação) e de origem dedutiva (leituras de vários documentos). Quivy e Campenhoudt (2008) elucidam que os métodos hipotético-indutivo e hipotético-dedutivo “articulam-se, mais do que se opõem”, pois, “qualquer modelo comporta inevitavelmente elementos de estruturação dedutiva, mas também indutiva” (Quivy e Campenhoudt, 2008, 144). Assim, como já foi referido acima, vamos optar por uma metodologia qualitativa, pois pretendemos realizar entrevistas, considerando que esta é a melhor forma de recolher os dados, de modo a conseguir dar respostas às questões de partida. 3.3. As entrevistas como instrumento de recolha de dados Ribeiro (2008) refere que a entrevista é a técnica mais pertinente quando o pesquisador quer obter informações a respeito do seu objeto, que permitam conhecer sobre atitudes, sentimentos e valores subjacentes ao comportamento, o que significa que se pode ir além das descrições das ações, incorporando novas fontes para a interpretação dos resultados pelos próprios entrevistadores (Ribeiro, 2008, p.141). Nesta investigação, optamos por uma metodologia qualitativa, que “visa a compreensão dos fenómenos” (Miranda, 2019, p. 71) e, desta forma, o instrumento escolhido para recolher os dados desta pesquisa foi a entrevista. Posto isto, decidimos realizar entrevistas semiestruturadas, “que combinam perguntas abertas e fechadas” e, ao mesmo tempo, possibilitam “delimitar o 62 volume das informações” e “obter um direcionamento maior para o tema, intervindo a fim de que os objetivos sejam alcançados” (Boni & Quaresma, 2005, p. 75). O objetivo das entrevistas, de acordo com Coutinho (2015), “é sempre o de explicar o ponto de vista dos participantes, como pensam, interpretam ou explicam o seu comportamento no contexto natural em estudo” (Coutinho, 2015, p. 291). Este instrumento de recolha de dados, de acordo com Quivy e Campenhoudt (2008), possibilita ao “investigador retirar das entrevistas informações e elementos de reflexão muito ricos e matizados”, onde é feita uma “verdadeira troca” e o entrevistado “exprime as suas perceções de um acontecimento ou de uma situação, as suas interpretações ou as suas experiências (Quivy e Campenhoudt, 2008, p. 192). E, desta forma, o investigador consegue recolher os dados necessários para a sua pesquisa. Segundo Miranda (2019), a entrevista semiestruturada é “uma das técnicas mais frequentes nas investigações qualitativas, que têm em vista o conhecimento de um fenómeno” (Miranda, 2019, p. 72). Para esta investigação, foi preparado, previamente, um guião com as questões (Anexo 10) que se pretendiam colocar aos entrevistados, com cerca de oito perguntas, que foram colocadas a seis jornalistas da Agência Lusa. No entanto, importa referir que, apesar de existir um guião organizado, as entrevistas contaram com alguma liberdade no decorrer da conversa entre o entrevistador e o entrevistado e, ao mesmo tempo, também se esclareceram aspetos importantes sobre a agência de notícias que não estavam, ainda, bem clarificados. Como já foi referido, as entrevistas foram realizadas a seis jornalistas da Agência Lusa, com diferentes funções, mas todos com uma longa experiência/percurso no jornalismo de agência. De acordo com Minayo (2017), “uma entrevista com alguém de um grupo é, ao mesmo tempo, um depoimento pessoal e coletivo” (Minayo, 2017, p. 4) e, desta forma, “(…) as informações prestadas por pessoas implicadas num tema de pesquisa podem representar o conjunto (…) (Minayo, 2017, p. 4). Para a obtenção dos dados, optou-se por realizar entrevistas semiestruturadas (contiveram perguntas abertas e fechadas), uma vez que, para compreender da melhor forma os fenómenos a estudar, considerou-se o método mais eficaz e que traria melhores resultados para a análise. Os entrevistados também foram escolhidos de forma intencional, sendo que o primeiro contacto estabelecido para a realização das entrevistas foi com o jornalista João Pedro Fonseca, o coordenador do estágio na Agência Lusa, que, posteriormente, indicou os jornalistas “mais adequados” para abordar a temática do relatório de estágio. No fundo, os membros da amostra foram escolhidos por mim (investigador), ou seja, temos assim uma amostragem intencional, A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 63 como já foi referido anteriormente. De acordo com Carmo e Ferreira (2008), este tipo de amostragem “é o melhor exemplo de técnica de amostragem utilizada quando existem grandes limitações em tempo e nos recursos disponíveis” e, desta forma, “torna impossível efetuar uma amostragem de tipo probabilístico” (Carmo & Ferreira, 2008, p. 216). Posto isto, a seleção dos entrevistados recaiu sobre seis jornalistas da Agência Lusa: o jornalista José Luís Sousa, que está na Lusa desde 1998 e, atualmente, é correspondente na Figueira da Foz; o jornalista Paulo Alves Nogueira, que está na Lusa desde 1992, é jornalista sénior e, neste momento, está na secção do Internacional; a jornalista Paula Lima, que faz parte da empresa desde 1999 e, atualmente, é correspondente em Vila Real; o jornalista João Luís Gomes, que se encontra na agência desde 1992 e é responsável pela área da Religião; a jornalista Marta Duarte, que faz parte da empresa desde 2003 e, atualmente, é editora adjunta na secção País; e o jornalista João Pedro Fonseca, que começou na Lusa em 2007 como editor da secção País e, hoje em dia, é responsável pelos estágios e pela formação interna da empresa. Devido ao percurso profissional na Agência Lusa e ao facto de possuírem uma ampla experiência no que diz respeito ao jornalismo de agência, foram, então, escolhidos estes seis jornalistas. As entrevistas foram feitas pelas plataformas online Zoom e Teams, onde o áudio de cada entrevistado foi gravado e, de seguida, transcrito. Optou-se por realizar as entrevistas online, uma vez que presencialmente tornava-se complicado para ambas as partes, devido à distância e, por outro lado, para não se perder também a interatividade entre o entrevistador e o entrevistado e, ao mesmo tempo, para conseguir ter a perceção da forma como são dadas as explicações, sendo que os aspetos corporais e a voz/tom utilizado também são importantes ter em consideração. Os entrevistados envolvidos foram contactados por email, entre os dias dois e 10 de janeiro de 2024, sendo pedida a gravação do áudio aos entrevistados, para, posteriormente, transcrever e tratar as respostas dadas. No que diz respeito à privacidade/confidencialidade dos participantes, estes assinaram um Termo de Consentimento Informado (Anexo 11), com finalidade académica, onde os mesmos autorizaram a sua identificação pelo nome próprio ao longo do relatório de estágio. Todos os registos sonoros foram apenas guardados por mim e todas as gravações encontram-se arquivadas no meu computador pessoal. Como já foi mencionado, foram feitas cerca de oito questões aos participantes, onde, num primeiro momento, cada um abordou a sua experiência no jornalismo de agência e depois analisou-se a perceção dos jornalistas relativamente à distinção entre o jornalismo que é feito 64 numa agência de notícias, mais concretamente na Agência Lusa, e o jornalismo que é feito pelos restantes órgãos de comunicação. De seguida, foram feitas outras questões, de modo a perceber melhor como tudo funciona no jornalismo de agência e, no final, foi colocada a questão direcionada às fontes de informação da Lusa, onde cada jornalista enunciou a resposta com base na sua experiência profissional. No início da conversa com cada entrevistado, foi feita uma breve contextualização sobre a temática em estudo e também houve tempo para esclarecer eventuais dúvidas. Quanto ao tratamento e análise dos dados recolhidos, as entrevistas foram, de seguida, transcritas na íntegra, tendo-se realizado alguns “reparos” no texto, de forma a evitar repetições ou erros gramaticais. As transcrições foram, quase sempre, feitas após as entrevistas, de forma a garantir que não era esquecido nenhum aspeto não-verbal, como por exemplo, hesitações, silêncios ou pausas, que poderiam vir a ser úteis na análise dos dados. Também, no decorrer das entrevistas, tomei notas de aspetos importantes que os participantes iam mencionando, de maneira a registar determinadas afirmações importantes. Duarte (2004) refere que a análise de entrevistas é uma “tarefa complicada e exige muito cuidado com a interpretação, a construção de categorias e, principalmente, com uma tendência bastante comum entre pesquisadores de debruçar-se sobre o material empírico procurando ‘extrair’ dali elementos que confirmem suas hipóteses (…)” e, por isso “precisamos estar muito atentos à interferência de nossa subjetividade, ter consciência dela e assumi-la como parte do processo de investigação” (Duarte, 2004, p. 216). Posteriormente, realizou-se a análise de todas as respostas dadas pelos participantes, onde também se combinou a reflexão/observação pessoal dos três meses de estágio na Agência Lusa e que, deste modo, permitiram retirar algumas conclusões. A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 71 Além de tentar estar em todo o lado, a Lusa também tenta tratar todos de forma igual. Segundo Paula Lima, a Lusa “tem a obrigação de estar presente e de, neste caso, tentar colocar Vila Real no mapa”, ou seja, “mostrar que Vila Real também é importante, que lá existem projetos interessantes e há várias coisas que merecer ser noticiadas e ter visibilidade a nível nacional”. Um projeto de uma câmara muito dificilmente o encontramos numa notícia da televisão por exemplo, mas a Lusa dá destaque a essa notícia e faz questão de a partilhar com os seus clientes, porque não são só as Câmaras de Lisboa e do Porto que merecem destaque, as outras câmaras também têm de ter o mesmo espaço e na Lusa tentamos tratar todos de forma igual (Paula Lima, 2024). João Luís Gomes também aponta a Lusa como o “órgão depositário do que de mais importante se passa no país e também nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, para transmitir aos clientes”. E a verdade é que muitas das notícias que a Lusa faz acabam por ser “novidade” para os restantes meios de comunicação, pois tal como explicou João Luís, “às vezes, um jornalista da Lusa, numa terra distante, escreve uma breve e essa breve pode dar origem a reportagens de outros órgãos”. Ou seja, além de a Lusa transmitir as notícias também faz com que os seus clientes possam ter ideias e quer “esmiuçar” determinado acontecimento noticiado pela agência. Nós (Lusa) temos a obrigação de relatar o que se passa em todo o país, dar conta daquilo que são as riquezas do país e o que são os problemas do país, mas também o que são as suas tradições, manter aquilo que é a própria língua. E sabemos que se não for um órgão como a Lusa a fazer este trabalho, ele acaba por não ser feito pelos outros meios. (João Luís, 2024) Quem concorda com João Luís Gomes é o jornalista João Pedro Fonseca, que refere que “o privado só vai aos sítios quando há alguma tragédia”, ou seja, a Lusa não vê apenas o lado mau do país, mas informa também sobre o que acontece de positivo. Outros aspetos fundamentais da Lusa são, segundo José Luís Sousa, “informar com informações fidedignas, que não sejam passíveis de ser contrariadas” e também “dar voz àqueles que não a têm”, pois muitas vezes, a Lusa “não consegue chegar a todos, mas tenta chegar ao máximo de pessoas/instituições que de outra maneira não teriam acesso ao panorama mediático”. E se a Agência Lusa, neste caso, não existisse? O jornalista João Pedro Fonseca respondeu a esta questão de forma sucinta: 72 E se não existissem agências? Que consequências teria para a liberdade de informação? As agências fazem serviço público. É muito mais do que o critério editorial. Se não houvesse Lusa, por exemplo, não havia jornalistas nos países de língua portuguesa. Os privados só vão a Moçambique quando há muitas mortes com o furacão ou cabeças cortadas por grupos islamitas. Só haveria notícias de Bragança quando se assassina um jovem africano à porta de uma discoteca… Nenhum privado vai gastar dinheiro em equipas de jornalistas para fazer serviço público, porque o privado rege-se pelo lucro, pelo critério editorial: Há uma grande notícia, o privado vai lá, se não há, as agências que façam. (João Pedro Fonseca, 2024). Desta forma, temos que assumir que a Agência Lusa, através de tudo o que mencionado pelos jornalistas entrevistados e também pela minha experiência enquanto estagiária na redação do Porto, tem um papel de extrema importância para os órgãos de comunicação, pois sem ela muitos assuntos caíam no esquecimento e só se dava apenas valor às notícias sensacionalistas. Ou seja, a Lusa existe para mostrar como deve ser feito o jornalismo. 4.4. A Lusa é uma fonte de informação para os órgãos de comunicação e quem são as fontes de informação da Lusa? “Temos que chegar primeiro e bem. A Lusa é a primeira com informações corretas e que interessam às pessoas” (José Luís Sousa, 2024). Quando iniciei o estágio na Agência Lusa, o primeiro “ensinamento” que me foi dado é que as notícias de agência têm de ter sempre fontes credíveis. Desde logo, a editora que me recebeu no primeiro dia indicou-nos os ‘sites’ a que os jornalistas da Lusa têm de estar muitos atentos. E são eles, o da Proteção Civil, para perceber se há alguma ocorrência digna de registo, o do Ministério Público – Procuradoria Geral Distrital e do Diário da República, uma vez que podiam ser colocados documentos importantes e, desses documentos surgir uma ou mais notícias. Além de ter em conta estas páginas online, uma das tarefas que também desempenhei desde o primeiro dia foi a realização das rondas, onde contactava os bombeiros e polícia do Porto e arredores. Ou seja, consegui, desde logo perceber como é que a Lusa chegava, muitas vezes à informação. Contudo, no decorrer do estágio havia várias notícias que surgiam, mas que eu ficava sem perceber como é que os jornalistas da redação tinham acesso ou conseguiam chegar até elas e também me comecei a questionar-me sobre isso. E, posto isto, achei por bem colocar esta questão aos jornalistas entrevistados: A Lusa é uma fonte de informação para os outros órgãos, mas quem são as fontes da Lusa? Quem informa a Lusa? Como é que a Lusa consegue saber muitas informações primeiro que os restantes órgãos? Segundo José Luís Sousa, a resposta mais fácil é A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 73 “muito trabalho” e também tem “muito a ver como o trabalho está organizado e com a relação que se estabelece com as fontes”. Isto é, as pessoas têm de “confiar” na informação da Lusa e, por isso, esta relação com as fontes “trabalha-se ao longo do tempo”, ou seja, falamos aqui da fidelização das fontes, que tem de ser feita diariamente. Estamos organizados em áreas e todos os jornalistas têm de cultivar as suas fontes. Ou seja, quando há um acontecimento importante, as fontes têm de saber que há um jornalista pronto para a ouvir e que pode estar interessado na informação (Paulo Alves Nogueira, 2024). Além das fontes pessoais, que o jornalista deve cultivar, a Lusa também tem outros tipos de fontes, como as fontes diretas, as fontes indiretas, as fontes oficiais, fontes institucionais, entre outras. Isto para dizer que na Lusa “não há nenhuma notícia que não tenha fonte e está presente, desde logo, no lead” e estas dever ser “sempre identificadas”. Importa também referir que os jornalistas com quem conversei também mencionaram que os seus clientes, ou seja, os outros órgãos de comunicação também acabam por ser uma fonte para a Lusa, pois consideram que “é importante estar a par do que se passa nos jornais e nas rádios, para tentar descobrir coisas que podem vir a acontecer ou pistas para fazer determinados trabalhos”. Uma das coisas que a editora Joana Pulido disse no início do estágio foi para estar atenta às páginas online dos outros órgãos e, caso houvesse algo que considerasse importante ou se observasse uma notícia que a Lusa ainda não tinha dado, para comunicar. Basicamente, na Lusa “tudo pode ser fonte, depois tem é de ser feita uma grande escolha”. Com as respostas dadas pelos jornalistas, conseguiu-se perceber que, hoje em dia, a Lusa já não é a primeira a dar a notícia, e a jornalista Marta Duarte refere que é devido à “proliferação de bens de comunicação e de redações por certos órgãos que têm uma grande presença”. Também a internet, a velocidade da era digital a que todos estamos sujeitos hoje em dia “faz com que qualquer pessoa (jornalista cidadão) possa fazer uma publicação numa rede social e isso dar origem a uma notícia e o jornalista vai observar e investigar”. A Lusa nem sempre consegue dar a notícia primeiro, mas o nosso lema é dar melhor. Se não dermos primeiro pelo menos damos ou tentamos dar melhor e damos de uma forma mais profunda, pois não vamos estar a fazer sair uma notícia para sermos os primeiros se não tivermos bem confirmado que aquela notícia é verdadeira. Preferimos confirmá-la e só depois dar. (Marta Duarte, 2024) 74 Uma grande vantagem da Lusa, segundo os jornalistas entrevistados, é que as fontes também sabem que se derem a notícia à agência, através dela estão a transmitir a todos os órgãos de comunicação. A jornalista Marta Duarte considera que as fontes, muitas vezes, “não conhecem o poder total da Lusa”, porque a agência acaba por “estar muito nos bastidores”, ou seja, há pessoas que preferem aparecer na televisão por exemplo, mas se a fonte quiser que a notícia esteja em todo o lado, pode fazê-lo através da Lusa, porque a agência transmite a informação a todos os outros órgãos. A Lusa é um grossista. Trabalha para todas as redações. Se nos colocarmos no lugar de um assessor de imprensa de um ministério por exemplo ou de um tribunal, ou se uma advogada, uma gestora ou uma investigadora acabou de fazer um estudo e tivermos uma história e quer que a história saia nos jornais, nas rádios e nas televisões. Se essa história for enviada para a Lusa, todas as redações podem pegar nessa história. Nem todas vão pegar, mas se for boa, praticamente todas vão querer usar. Por isso é que muita informação chega à Lusa mais facilmente que a outra redação. (João Pedro Fonseca, 2024) Depois há outro aspeto a ter em consideração nesta questão, pois como a Lusa não é pressionada pelas audiências como os outros meios de comunicação o são, também é um dos fatores por que chega mais informação à Lusa. Isto porque os responsáveis que enviam os comunicados para a Lusa, segundo João Pedro Fonseca, “sabem que a Lusa vai elaborar a notícia de maneira mais rigorosa” e os outros órgãos, como são pressionados pelas audiências, “vão tentar puxar para algo que possa ter mais cliques”. Por outro lado, a jornalista Paula Lima apresentou outra visão da Agência Lusa e referiu que, em Vila Real e nos meios mais pequenos, ainda há “muita gente que não conhece a Lusa” e, muitas vezes, até lhe perguntam se se trata de uma agência de viagens. Ou seja, segundo Paula Lima, “se há algo que as pessoas, nestes meios, querem partilhar, não é para a Lusa que ligam, contactam antes os outros órgãos, porque já os conhecem e convivem diariamente”. Neste caso, a Lusa é “mais usada” em termos institucionais (câmaras/políticos), que já conhecem a agência e sabem que a mesma “tem a capacidade de colocar uma declaração deles por exemplo, em todo o país imediatamente”. Posto isto, a jornalista apontou que a Lusa devia “trabalhar mais na visibilidade”, pois ainda há muitas pessoas que não sabem o que é a Agência Lusa. No que diz ainda respeito às fontes de informação da Agência Lusa, posso confirmar, através dos três meses em que estive presente na redação do Porto, que os jornalistas que lá trabalham têm muito cuidado com as informações que divulgam, essencialmente têm muito cuidado em ter fontes fidedignas nas suas notícias e quando não têm, preferem não escrever e A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 75 aguardar até ter uma fonte credível. Muitas vezes, quando era registado um acidente por exemplo e havia mortes ou feridos graves, o que fazia era confirmar com os bombeiros e com a polícia o que tinha acontecido ao certo, confirmar todas as informações com cuidado e só depois lançar a notícia para os clientes. E o que reparei algumas vezes é que, por exemplo o Correio da Manhã , transmitia a notícia em primeira mão, mas esta não continha fontes, era apenas lançada e, muitas vezes, colocavam “em atualização”. No entanto, quando a Lusa, depois de ter todas as informações confirmadas com as suas fontes, publica a notícia, não só o Correio da Manhã , mas também outros meios voltam a atualizar a notícia e acabam por citar a Lusa. Ou seja, sinto que os clientes confiam na Lusa, no seu trabalho e no seu rigor, e se a Lusa deu é porque é mesmo verdade. O que também acontece muito com os restantes órgãos de comunicação quando lançam uma notícia e quando não têm fontes é mencionar um outro órgão que já deu a notícia. Ao longo do estágio também tive a oportunidade de observar isso mesmo. Por exemplo, surge a notícia de que morreu o Presidente da República, o que muitos órgãos fazem é “Segundo o jornal X, morreu o Presidente da República…”, enquanto que a Lusa se tiver de dar essa notícia não vai citar os outros órgãos, mas sim uma fonte de confiança, como por exemplo: “Morreu o Presidente da República, informou a Casa Civil da Presidência da República…”. Sem fontes é mais complicado que haja notícias e menos fiável, pois as notícias podem suscitar dúvidas e, nós (Lusa), quando alguém diz algo, mas não quer dar a cara, conseguimos arranjar maneira de atribuir essa fonte, não podemos fazer uma notícia apenas daquilo que ouvimos dizer ou de informações que não estão verificadas. (Marta Duarte, 2024) Um outro aspeto que faz também com que a Lusa seja confiável na transmissão das informações e que pude verificar quando estava a estagiar é o facto de muitas vezes, os órgãos de comunicação participarem nos mesmos serviços em que a Lusa está presente e, a maior parte das vezes ficam à espera que a Lusa publique a sua notícia sobre o mesmo evento onde também estiveram. E quando tive a oportunidade de sair em serviços, ouvi algumas vezes os jornalistas dos outros meios de comunicação a perguntar ao jornalista da Lusa quando é que a notícia ia sair. Ou seja, os jornais, as rádios, as televisões nem tanto, porque nos dias que correm vivem muito dos diretos e aí a Lusa já não consegue competir, mas os restantes órgãos, esperam pela notícia da Lusa em vez de fazerem a sua própria notícia. Claro que a Lusa também erra, por vezes, acontece ter de corrigir as notícias e no decorrer do estágio assisti a jornalistas terem de reescrever a notícia e voltarem a colocar na linha. Só que, enquanto nos outros órgãos, eles conseguem fazer 76 isso com facilidade, na Agência Lusa torna-se mais complicado, uma vez que passada a informação, os clientes já fizeram uso dela e, muitas vezes, acabam por não fazer a correção que a Lusa enviou. 4.5. A produção de notícias na Agência Lusa A produção de notícias na Agência Lusa encontra-se sujeita a algumas regras, que já vieram a ser mencionadas e que eu também tive a oportunidade de perceber e de as colocar em prática ao longo dos três meses na redação do Porto. Um jornalista de agência, na verdade, tem de ter os mesmos cuidados na produção das informações que os restantes órgãos de comunicação, sendo que a Lusa, como escreve para jornalistas, tem de ser mais exigente consigo e tentar dar sempre as notícias corretas. A Lusa tem um Livro de Estilo e tem de cumprir as regras que lá estão estabelecidas. Temos também de ser os mais rigorosos possíveis, porque o nosso trabalho tem uma responsabilidade imensa. Colocamos uma notícia em linha e não a conseguimos retificar, temos de escrever outra, ou seja, o que escrevemos de errado fica sempre lá. (Paula Lima, 2024) Quando se fala em cautelas/cuidados que um jornalista de agência tem de ter quando produz as suas peças, todos os jornalistas entrevistados apontaram os seguintes aspetos: “’checar’ informação, fazer o contraditório, ter cuidado com as fontes, com a forma como escrevemos e como usamos as palavras e os verbos”, ou seja, acima de tudo está o rigor da agência que vem a ser referido ao longo do relatório. Os jornalistas de agência apresentam alguns condicionamentos quando comparados aos diversos órgãos de comunicação e um deles é, como temos vindo a referir, o Livro de Estilo, que os impede de serem criativos na sua escrita e de nunca poderem sair do registo de agência. Em termos de criatividade somos condicionados, porque temos de cumprir regras. Talvez os nossos títulos não sejam tão apelativos e os nossos ‘leads’ também são sempre da mesma forma, mas apesar de tudo, não considero que isso nos condicione. Os outros meios podem dar mais asas à sua criatividade do que nós (Lusa), mas a nossa forma de escrever ajuda-nos a sermos muito mais diretos e concisos naquilo que queremos partilhar e faz com que todos percebam as informações que estamos a transmitir. (Paula Lima, 2024) Outro dos condicionamentos do jornalismo de agência é, sem dúvida, a agenda. A agenda, segundo os entrevistados “tem um grande peso na Lusa” e acaba por “tirar tempo” aos jornalistas A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 77 para fazer outros tipos de trabalhos e de “contar histórias próprias. Mas a Lusa tem de reger-se muito pela agenda, por causa do serviço público que presta e, por isso, tem de cumprir as obrigações que isso implica. A agenda da Lusa é um monstro, porque cai lá tudo e a seleção que é feita, muitas vezes, obriga a uma grande ginástica para se conseguir cumprir aquilo que é considerado fundamental. A agenda chega a ter 300/400 itens por dia, portanto para escolhermos 40/50, é feita uma grande seleção. (João Luís Gomes, 2024) No estágio, todos os dias recebia a agenda que estava estipulada para cada dia da semana e posso confirmar que eram inúmeros os acontecimentos que os jornalistas tinham de cobrir, se bem que no Porto a agenda era bem mais reduzida do que em Lisboa. E também conseguia reparar, e até pelos comentários que muitos jornalistas faziam quando me deslocava em serviços com eles, era da vontade que sentiam em dar outras notícias, em contar as suas próprias histórias e que porque a agenda acaba por limita-los muito, acabam, muitas vezes por não conseguir. Também ao longo do estágio senti que queria ter as minhas próprias ideias para reportagens e notícias, mas o facto de também querer acompanhar os jornalistas para os serviços me limitou nesse aspeto, porque havia serviços de agenda todos os dias. Relativamente aos critérios de noticiabilidade por que se rege a Lusa, os jornalistas referiram que estes vão ao encontro dos critérios que os outros órgãos também têm de ter presentes. O principal critério é a atualidade e a Lusa “tenta estar sempre em cima dos temas que fazem a atualidade”. Tudo o que é de interesse público e que os jornalistas também sentem que vai interessar às pessoas são outros critérios importantes. No fundo, como referiu o jornalista João Luís Gomes, “o pensamento e os critérios de noticiabilidade da Lusa são os mesmos que os outros órgãos de comunicação, os estilos é que são diferentes”. 4.6 Resumo A análise às seis entrevistas realizadas a jornalistas da Agência Lusa permitiu dar resposta às perguntas de partida estipuladas, inicialmente, neste relatório. Quanto à primeira pergunta de partida - Os órgãos de comunicação usam a Lusa como fonte de informação e quem é a fonte de informação da Lusa? – esta foi respondida de forma clara por todos os entrevistados. Basicamente, os diversos órgãos de comunicação utilizam a Lusa diariamente nas suas redações e isso deve-se ao facto de a agência ser um meio de confiança e que assume uma total credibilidade, uma vez que todas as informações/fontes são confirmadas 78 ao pormenor. No que diz respeito às fontes de informação da Agência Lusa, destacam-se as fontes oficiais (bombeiros, polícia, etc.), as fontes pessoais de cada jornalista, através dos contactos que vão construindo ao longo da carreira, fontes institucionais (gabinetes de imprensa, etc.) e depois os próprios clientes (os outros órgãos de comunicação) também acabam por ser uma fonte da Lusa, uma vez que através deles também se descobrem notícias e, ao mesmo tempo, conseguem extrair ideias para possíveis trabalhos. No fundo, tal como foi dito, na Lusa tudo pode ser uma fonte de informação, tem é de ser feita uma grande escolha. E o facto de a agência ser, muitas vezes, a primeira a noticiar, se bem que agora não acontece tanto, deve-se a esta fidelização das fontes pessoais de cada jornalista, ou seja, cada jornalista deve “cultivar” as suas fontes e, posteriormente, isso trará um grande retorno e faz com que a Lusa publique notícias que os outros não conseguem dar. Ainda, neste aspeto, importa referir que a Lusa escreve para os seus clientes, que são todos os órgãos de comunicação que subscrevem o serviço da agência, e, desta forma, quando há algo que todos os órgãos têm de ter conhecimento, muitas vezes, os responsáveis pelo envio dos comunicados, enviam primeiramente à Lusa, porque sabem que através da Lusa, os restantes meios também vão ser informados e divulgar a notícia. De forma resumida, a Lusa assume um papel de grande importância no seio das redações dos diversos órgãos por ser uma fonte credível e por ter fontes credíveis nas informações que divulgam. Na segunda pergunta de partida – A informação chega à Agência Lusa antes de chegar aos restantes órgãos de comunicação?, os jornalistas responderam que, hoje em dia, a informação chega a todos de igual forma. O que acontece é que, tal como foi referido acima, quando há uma informação que deve ser partilhada por todos os órgãos de comunicação, essa informação, muitas vezes, chega primeiro à Lusa e, posteriormente, aos outros órgãos, porque quem envia o comunicado/documento sabe que a partir do momento em que a Lusa lança a notícia, os outros também a vão publicar. E outro aspeto que os jornalistas entrevistados também destacaram sobre este assunto, é que a Lusa não é pressionada pelas audiências, como os outros meios o são e o facto de muitos dos comunicados serem enviados para a agência pode explicar-se também por este aspeto: a Lusa não é pressionadas pelas audiências e, por isso, vai escrever a notícia de maneira mais rigorosa e também porque tem regras (Livro de Estilo) para respeitar, enquanto que os outros órgãos de comunicação vão tentar levar o assunto para algo que possa ter mais cliques, de forma a “chamar” o público a ver a notícia. A terceira pergunta de partida - Como se faz o agendamento da informação tratada pela Lusa? – incide em tentar perceber como é que os jornalistas da Lusa conseguem fazer, A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 79 diariamente, o seu trabalho. E importa esclarecer que a Agência Lusa possui uma agenda, que é enviada para todos os jornalistas a cada dia e onde os mesmos têm acesso aos serviços que estão estipulados cobrir todos os dias. Ou seja, a agência como faz serviço público, tem de cumprir e fazer os serviços que estão incluídos na agenda e os clientes pagam-lhe para isso mesmo, pois querem ter a certeza de que a Lusa está presente em todos os acontecimentos para depois transmitir a informação aos restantes meios. Os jornalistas entrevistados afirmaram que a agenda é algo que deve ser tido em conta por todos os profissionais da Lusa e, por isso, como há sempre muitos serviços de agenda, os jornalistas ficam com o tempo limitado para procurar, contar e escrever as suas próprias histórias. Outras das questões de partida a que me predispus dar resposta foi a seguinte: - Como perspetivar a teoria do agenda-setting no contexto de uma agência de notícias?. Os jornalistas com quem conversei por videoconferência destacaram os principais critérios de noticiabilidade por que se rege a Lusa e são os seguintes: atualidade, relevância/interesse para o público, importância ao nível nacional e importância também para os seus clientes. No fundo, os critérios de noticiabilidade da Lusa são os mesmos que os outros órgãos também seguem. No entanto, a única diferença neste aspeto é que a agência tem de fazer serviço público. E o que é que isso implica? A Agência Lusa não pode estar direcionada apenas para as Câmaras de Lisboa e do Porto. por exemplo; a Lusa tem a obrigação de relatar tudo o que se passa em todo o país e não pode “olhar” só para o lado mau, tem de ter em atenção também o lado positivo. Se olharmos para os outros órgãos de comunicação conseguimos observar que a maioria das notícias publicadas incide muito naquilo que o público quer consumir, que, normalmente, são as tais notícias sensacionalistas. Na Lusa são dadas todas as notícias, sejam positivas ou negativas. A teoria do agenda-setting consiste no poder que os meios de comunicação têm de influenciar o que as pessoas pensam ao destacar determinados temas. Ou seja, a Lusa informa com verdade e também tem em conta os temas que estão na atualidade e, por isso, tentam destaca-los, o que faz com que, tal como os outros órgãos, moldem a agenda pública e, de certa forma, influenciem as pessoas sobre os assuntos que, neste momento, são relevantes e dignos de atenção. Na última pergunta de partida - De que forma permite a estrutura da agência (a sua rede de correspondentes, por exemplo) contribuir para um serviço prestável para os outros órgãos de informação? – todos os entrevistados seguiram a mesma linha de pensamento. Basicamente, a Agência Lusa apresenta uma cobertura nacional e internacional que poucos órgãos possuem. A nível do território português, a Lusa tem correspondentes em todos os distritos, para conseguir 80 estar a par do que acontece de norte a sul do país, e também marca presença nos países lusófonos e em algumas capitais internacionais, ou seja, a rede de correspondentes da Lusa é uma das suas mais valias para conseguir conhecer as informações e, posteriormente, transmiti-las aos seus clientes. Além disso, como vem a ser referido, a Lusa faz serviço público e, nos dias que correm, a relevância da Lusa acaba por ser cada vez maior. Os jornais e as rádios (as televisões nem tanto) cada vez apresentam mais dificuldades financeiras e o facto de haver uma agência que possui uma rede muito extensa de correspondentes pelo mundo e que lhes fornece as informações de que precisam, isso acaba por ser uma mais valia para esses órgãos, pois assim não têm custos acrescidos a enviar pessoal para esses locais por exemplo. De forma resumida, a Agência Lusa tem uma importância extrema a nível nacional e internacional e também se destaca como um fator de coesão, uma vez que ajuda, muitas vezes, involuntariamente, a resolver os problemas e dá conta daquilo que são os problemas e as dificuldades que o país atravessa, mas também não esquece o lado positivo. No fundo, podemos afirmar que a Agência Lusa não é sensacionalista e todas as informações que transmite são credíveis e apresentam fontes fidedignas. A produção de informação nas agências de notícias: o caso da Lusa 87 d&pg=PP1&dq=news+agencies%20+boyd+barret+and+&ots=54bDdYuyNu&sig=rxnTDw1no8aDcdLvcR FXkPzvVM&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false Camargo, I. & Aguiar, P. (2016). Jornalismo de Agências na Era da Mobilidade: estratégias e experiências em busca de inserção. Revista Latino-americana de Jornalismo, 3 (2) . https://doi.org/10.21204/2359375X/ancora.v3n2p31-49 Carmo, H. & Ferreira, M. (2008). Metodologia da Investigação – Guia para Autoaprendizagem. Lisboa: Universidade Aberta , 1-89. https://www.academia.edu/17585183/Metodologia_da_Investiga%C3%A7%C3%A3o Coutinho, C. (2015). Metodologia de investigação em Ciências Sociais e Humanas: teoria e prática . Almedina. Daychoum, M. (2007). 40 Ferramentas e Técnicas de Gerenciamento . Brasport. https://books.google.pt/books?id=jQ_JOBtvgBAC&printsec=frontcover&hl=ptBR&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false Duarte, R. (2004). Entrevistas em pesquisas qualitativas. 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