Revista Latinoamericana de Etnomatemática E-ISSN: 2011-5474 [email protected] Red Latinoamericana de Etnomatemática Colombia Dias, Domingos; Costa, Cecília; Palhares, Pedro Sobre as casas tradicionais de pau-a-pique do grupo étnico Nyaneka-nkhumbi do Sudoeste de Angola Revista Latinoamericana de Etnomatemática, vol. 8, núm. 1, febrero-mayo, 2015, pp. 1028 Red Latinoamericana de Etnomatemática San Juan de Pasto, Colombia Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=274038612002 Como citar este artigo Número completo Mais artigos Home da revista no Redalyc Sistema de Informação Científica Rede de Revistas Científicas da América Latina, Caribe , Espanha e Portugal Projeto acadêmico sem fins lucrativos desenvolvido no âmbito da iniciativa Acesso Aberto
Dias, D., Costa, C., & Palhares, P. (2015). Sobre as casas tradicionais de pau-a-pique do grupo étnico Nyaneka-nkhumbi do Sudoeste de Angola. Revista Latinoamericana de Etnomatemática, 8(1), 10-28. 10 Artículo recibido el 29 de marzo de 2014; Aceptado para publicación el 30 de diciembre de 2014 Sobre as casas tradicionais de pau-a-pique do grupo étnico Nyaneka-nkhumbi do Sudoeste de Angola Traditional Houses of the Ethnic Group Nyaneka-nkhumbi of Southwestern Angola Domingos Dias 1 Cecília Costa 2 Pedro Palhares 3 Resumo Este artigo tem como objetivo recuperar, valorizar e explorar as práticas culturais do grupo étnico Nyanekankhumbi do Sudoeste de Angola na visão etnomatemática evidenciadas no processo de construção de casas de pau-a-pique, tendo em conta a multiculturalidade social escolar que se verifica quase um pouco por todo lado, e em particular, Portugal com um número considerável e crescente de emigrantes africanos e de outras partes do mundo. Cada vez mais se torna pertinente preservar a memória cultural destes povos. O artigo apresenta uma introdução inerente aos estudos etnomatemáticos realizados em África por vários autores; uma metodologia baseada à conversa informal com elementos do grupo, à observação participante e a entrevistas, apoiada pelo registo fotográfico e notas de campo; os resultados da pesquisa foram desenvolvidas na Huíla (Angola) onde foram registados vários conhecimentos matemáticos impregnados com a construção de casas tradicionais dos Nyaneka-nkhumbi que podem ser aproveitados na criação de tarefas no contexto de formação, assunto em curso no projeto de doutoramento do primeiro autor. Palavras-chave: Etnomatemática; Práticas matemáticas dos Nyaneka-nkhumbi; Espaço e Forma, Arquitetura vernacular. Abstract This paper aims to recover, develop, explore and expand the cultural practices of the ethnic group Nyanekankhumbi from southwestern Angola from an ethnomathematical perspective evidenced in the construction of houses of cob wall, keeping in mind the social multiculturalism of schools that exists, in part, almost everywhere, and in particular, in Portugal with a considerable and growing number of immigrants from Africa and other parts of the world. It becomes increasingly relevant to preserve the cultural memory of these people. This paper presents an introduction to the ethnomathematics studies in Africa by various authors usnig a methodology based on informal conversation with group members, participant observation, and interviews, supported by photographic records and written field notes. The results of the research developed in Huíla (Angola) registered much important mathematical knowledge about building the traditional houses of the Nyaneka-nkhumbi that can be understood in the creation of tasks in a context of formation, a topic of interest in the first author‟s doctoral project. Key words: Ethnomatematics, Mathematical practices of Nyaneka-nkhumbi, Space and form, Vernacular architecture. 1 Aluno de doutoramento do Instituto de Educação da Universidade do Minho, membro colaborador do CIECCentro de Investigação Estudos da Criança. Braga, Portugal. Email:
[email protected] 2 Doutora em Matemática e Agregada em Didática de Ciências e Tecnologia – especialidade em Didática de Ciências Matemáticas, pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro–UTAD, Portugal, Professora Auxiliar do Departamento de Matemática da UTAD e membro integrado do CIDTFF-Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (Lab-DCT da UTAD). Vila Real, Portugal. Email:
[email protected] 3 Doutor em Estudos da Criança – Matemática Elementar. Universidade do Minho, Portugal. Email:
[email protected]
Revista Latinoamericana de Etnomatemática Vol. 8, No. 1, febrero-mayo 2015 11 INTRODUÇÃO Ao longo dos tempos vários povos do mundo viram-se privados (congelados) de conhecerem e desenvolverem a sua cultura por causa da imposição da classe dominante, (Dias, 2011, p. 55) que contribuíram grandemente para o subdesenvolvimento da cultura de povos dominados a ponto de excluir os seus saberes e saberes fazer nos currículos escolares (Zaslavisky, 1999). Com efeito, nota-se um pouco por todo lado níveis baixos de aproveitamento em Matemática. Entre vários motivos do insucesso escolar assinala-se a estranheza dos alunos, de algo que vem de „fora‟ da sua cultura, Gerdes (2011a, p. 7). Este mesmo autor afirma que “elementos culturais africanos diversos podem ser utilizados como „ponto de partida‟ para inventar, criar e fazer Matemática interessante dentro e fora do contexto escolar.” É neste pensamento que pretendemos apresentar alguns focos de estudos etnomatemáticos em África, centrados na etnomatemática sobre casas tradicionais dos Nyaneka-nkhumbi, para o contexto de formação escolar. Na secção de resultados, adiante, apresentamos alguns conhecimentos matemáticos „congelados‟ nas casas tradicionais dos Nyaneka-nkhumbi, que têm a ver com as técnicas projetivas aplicadas na construção de casas tradicionais em causa até aos conhecimentos matemáticos quiçá, inéditos, onde estão presentes conceitos matemáticos como circunferências, círculos, cones, ângulos, etc., que podem enriquecer as investigações no contexto educacional e não só, no contexto de outras áreas do saber científico. O texto está estruturado de quatro secções principais: alguns antecedentes e elementos concetuais envolvidos na investigação, aspetos metodológicos usados durante a pesquisa, os resultados colhidos na investigação, finalmente as conclusões e perspetivas do estudo. ANTECEDENTES E ELEMENTOS CONCETUAIS Nesta secção, começamos por destacar os conceitos principais utilizados nesta pesquisa, vamos analisar os estudos etnomatemáticos em África relacionados a este tema e abordar alguns aspectos do grupo étnico Nyaneka-nkhumbi.
Dias, D., Costa, C., & Palhares, P. (2015). Sobre as casas tradicionais de pau-a-pique do grupo étnico Nyaneka-nkhumbi do Sudoeste de Angola. Revista Latinoamericana de Etnomatemática, 8(1), 10-28. 12 Conceitos principais Na linha de Gerdes (1991), que por sua vez segue a proposta de DꞌAmbrósio (2001) Etnomatemática é decifrada em três palavras: ETNO é hoje aceito algo muito amplo, referente ao contexto cultural, e portanto inclui considerações como linguagem, jargão, códigos de comportamento, mitos e símbolos. MATEMA é uma raiz difícil, que vai na direcção de explicar, de conhecer, de entender. E TICA vem sem dúvida de techiné, que é mesma raiz de arte e de técnica. Conhecimentos matemáticos entendidos como os saberes produzidos por grupos socioculturais como parte das atividades de medir, contar, classificar, desenhar, calcular, comparar, enumerar, quantificar, inferir etc (Bishop, 1999; D'Ambrósio, 2001). Prática cultural é um saber fazer de grupos socioculturais inseridos num contexto. Casas de pau-a-pique são casas tradicionais construídas geralmente de paus, colmo, capim, cordas de cascas de árvores. ESTUDOS ETNOMATEMÁTICOS EM ÁFRICA Vários são os percursores e pesquisadores que têm tratado do estudo da etnomatemática em vários contextos de África, para além de outros estudos, realizados em vários pontos do mundo por diversos autores (veja-se por exemplo Bishop (1999), D'Ambrósio (2001) ou Palhares (2012) para uma reflexão sobre estudos em Portugal). Sobre os estudos em África, Gerdes (1991, 1993, 1997, 2007a, 2007b, 2008 e 2011) evidencia muitos artefactos africanos e desvenda a matemática que jaz neles, a etnomatemática. Por exemplo, em Moçambique, Gerdes envereda pelo estudo da cestaria, sistemas de numeração, jogos e tantas outras práticas matemáticas notáveis, quer em construções de artefactos, quer até em trabalhos de lavoura. Em Angola, Gerdes fez um estudo sobre a geometria praticada pelos Quiocos ao descreverem os desenhos na areia (sona) com conhecimentos matemáticos bem evidentes. Fez também referência a alguns jogos praticados por outros grupos étnicos angolanos, nomeadamente os Ovimbundu na prática de jogos de tipo mancala os quais envolvem raciocínio e cálculos matemáticos.
Revista Latinoamericana de Etnomatemática Vol. 8, No. 1, febrero-mayo 2015 13 Recentemente temos dado pequenos contributos para os estudos etnomatemáticos em Angola, nomeadamente sobre as práticas e cultura do grupo étnico Nyaneka-nkhumbi, a saber (Dias, 2011), (Dias & Costa, 2011) e (Dias, Costa & Palhares, 2013), no âmbito de um estudo mais profundo em desenvolvimento. É interessante, de facto, continuar com o processo de recolha de mais conhecimentos matemáticos não agregados nos conhecimentos matemáticos formais globais, a título do grupo étnico Nyaneka-nkhumbi, grupo étnico que escolhemos para uma pesquisa de artefactos e (etno)saberes na visão da educação matemática. O GRUPO ÉTNICO NYANEKA-NKHUMBI Dos estudos realizados em África, Estermann (1960, 1970) descreve a etnografia dos grupos étnicos de Angola, com maior destaque para os do sul e não faz reflexão de índole etnomatemática sobre os mesmos. Apoiamo-nos nesses estudos e na vivência do primeiro autor, para responder às questões: Quem é este grupo étnico Nyaneka-nkhumbi? Onde está localizado? Quais são as suas atividades de dia-a-dia? Estermann, em 1960, descreveu o grupo étnico Nyaneka-nkhumbi de forma que ainda corresponde à realidade: “O grupo étnico que apelidamos de nhaneka-humbi constitui um grande agregado populacional no sudoeste de Angola. Possui uma unidade étnica (tomando esta expressão com a devida relatividade) bastante bem definida e a sua coesão linguística é facilmente observável para quem se dedica a estudos desta natureza.” (p. 13). O grupo étnico Nyaneka-nkhumbi 4 é constituído por 10 variantes linguísticas e está maioritariamente localizado na África austral no sudoeste de Angola nas atuais províncias do Kunene e da Huíla, como se mostra na figura 1. 4 A alteração da escrita do termo Nhaneca-Humbe para Nyaneka-nkhumbi tem a ver com o fonema próprio e natural do grupo, mas reconhecemos que pode haver dificuldades de leitura na nasalação de certas sílabas como „nkhum‟ para quem não conhece as regras de leitura da língua.
Dias, D., Costa, C., & Palhares, P. (2015). Sobre as casas tradicionais de pau-a-pique do grupo étnico Nyaneka-nkhumbi do Sudoeste de Angola. Revista Latinoamericana de Etnomatemática, 8(1), 10-28. 14 Figura 5 1. Mapa étnico de Angola em 1970 (Área dos Nyaneka-Nkhumbi marcada a azul claro) É importante frisar que à medida que se desenrolavam os conflitos armados em Angola desde a década de 60 do século passado até 2002, alguns elementos do grupo foram-se deslocando para áreas mais ou menos seguras, quer no território angolano, quer no estrangeiro onde se instalaram até hoje. Os outros continuaram a fixar-se nas suas áreas de origem, mas não puderam escapar à invasão das civilizações das culturas dominantes, consequentemente foram perdendo alguns dos seus ritos tradicionais, hábitos e costumes da sua cultura (Dias, 2011). Apesar destas movimentações, existem nos dias de hoje, muitos focos notáveis da tradição Nyaneka-nkhumbi, em locais como na Humpata, Chibia, Gambos, Quipungo e Lubango, ali, é predominante a prática de ritos tradicionais relacionados com a vida familiar, laboral, social e religiosa. Por exemplo, a festa de iniciação para os jovens é uma das evidências da conservação do tradicionalismo (Dias, 2011). Os povos Nyaneka-nkhumbi dedicam-se principalmente à agricultura e à criação de gado (ovi-pako plural de otyipako que significa gado). O boi é a riqueza número um. Muito estimada, caracteriza a cultura dos Nyaneka-nkhumbi; por meio do boi conseguem desenvolver a agricultura de subsistência. O trabalho no seio dos Nyaneka-nkhumbi está dividido por sexo e idade. A divisão social do trabalho por idade e sexo dos Nyanekankhumbi, é de longo tempo desde a fase evolutiva do homem primitivo até aos dias de hoje 5 Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Nhaneca-Humbe
Revista Latinoamericana de Etnomatemática Vol. 8, No. 1, febrero-mayo 2015 15 nota-se em todas as culturas com maior ou menor impacto. Isto, tem a ver, não somente com o primitivismo mas com a própria natureza fisionómica do homem enquanto pessoa, Morris (1998, p. 29). Os Nyaneka-nkhumbi praticam outras atividades secundárias, nomeadamente a pesca tradicional, a de ferreiro, a de artesão e a de cabeleireira. Também continuam a manter o tipo de casas, idênticas às representadas na figura 2, e que constituem o tema central deste artigo. Figura 2. Casas ainda usadas por povos Nyaneka-nkhumbi Sabe-se que cada povo sabe matematizar, os Nyaneka-nkhumbi são de entre vários os que apresentam saberes e saberes fazer matemáticos que nos motivaram interesse investigar. São várias as práticas geométricas visíveis no processo de construção das casas tradicionais de pau-a-pique como referiremos adiante. Por agora, a observação da imagem da figura 2, permite-nos identificar cilindros e cones nas formas das casas. PRÁTICAS CULTURAIS SOBRE CASAS TRADICIONAIS DOS NYANEKANKHUMBI O grupo étnico Nyaneka-nkhumbi faz parte dos povos de todo o mundo, que pratica e teoriza as suas atividades planificadas no âmbito das convivências movidas pelas suas necessidades de dia-a-dia. Tal como qualquer ser humano, para se defender dos fenómenos naturais, protege-se construindo casas como as de pau-a-pique, tal como Zaslavisky (1999), referiu que povos de outras culturas fazem casas com configurações geométricas quase semelhantes, com um tipo de material de construção diferente e de uma configuração de casas também diferente. Pode-se concordar que existe semelhanças em termos de formas geométricas no sentido geral.
Dias, D., Costa, C., & Palhares, P. (2015). Sobre as casas tradicionais de pau-a-pique do grupo étnico Nyaneka-nkhumbi do Sudoeste de Angola. Revista Latinoamericana de Etnomatemática, 8(1), 10-28. 16 A prática cultural Nyaneka-nkhumbi no corte de paus e construção de casas tradicionais pressupõe conhecimentos matemáticos gerais. Ideias como variação de ângulos nos eixos axiais, noções de congruência, de retas paralelas, conceitos de figuras, sólidos e lugar geométricos para além de outros conhecimentos matemáticos que podem ser explorados em prol da ciência e em particular, para a matemática convencional. O saber, o fazer e o saber-fazer que predominam nas atividades diárias dos Nyanekankhumbi, fazem com que geometrem como se fossem arquitetos ou engenheiros civis contemporâneos diplomados. É extremamente importante, ao investigador perceber as técnicas, habilidades e fases de construção que envolvem quer as casas tradicionais dos Nyaneka-nkhumbi que pretendemos destacar neste estudo, quer outros trabalhos tradicionais suscetíveis de investigação etnomatemática. Foi Paulus Gerdes desde logo em 1985 que concebeu um método para „descongelar‟ o pensamento geométrico usado para a produção de artefactos, sendo que o investigador aprende, em primeiro lugar, as técnicas de fabricação sobreviventes (por exemplo, as técnicas de entrelaçamento) de produtos de trabalhos tradicionais como esteiras, cestos, e em cada fase do processo de fabricação ele pergunta-se que aspetos de natureza geométrica desempenham um papel para se chegar à fase seguinte, permitindo assim a descoberta de pensamento geométrico escondido (ou congelado) (Gerdes, 2014). Portanto, o „congelamento‟ dos saberes e saberes fazeres dos Nyaneka-nkhumbi reside no facto de, desde o simples pensar do construtor Nyaneka-nkhumbi até às técnicas engendradas na construção de casas que não se apresentam em forma escrita, foram quase 5 séculos abafados por colonizadores (Zaslasvisky, 1999). Considerando que as práticas matemáticas dos Nyaneka-nkhumbi, não só, de outros povos subalternados, em particular dos africanos não diziam nada e nem podiam ser ensinados formalmente na escola. Neste artigo, pretendemos identificar e explorar ideias matemáticas que estão „congelados‟ no processo de construção de pão-a-pique dos Nyaneka-nkhumbi, de modo que no futuro se possa criar tarefas no contexto de formação. Visto que um dos fatores que dificultam a compreensão da matemática é por não se ter em conta os conhecimentos culturais trazidos pelos alunos fora da escola e impregnados na cultura dos alunos.
Revista Latinoamericana de Etnomatemática Vol. 8, No. 1, febrero-mayo 2015 17 Para atingirmos o objetivo deste estudo, tínhamos que perceber o processo de construção de casas de pau-a-pique dos Nyaneka-nkhumbi, o qual, abordamos na secção a seguir. METODOLOGIA O trabalho de investigação científico requer uma estratégia a adotar para se atingir o objetivo que se pretende, Coutinho (2014). Para esta investigação optamos o trabalho de campo que vamos aflorar a seguir. Ao longo da recolha de dados, apoiamo-nos na observação participante junto dos Nyanekankhumbi enquanto construíam casas tradicionais, ao mesmo tempo que fomos anotando os dados observados em notas de campo. Fomos tirando fotografias às casas conforme ilustram as figuras nas páginas seguintes. Na busca de dados pragmáticos, conversámos informalmente com os autóctones, guiandonos por meio de um roteiro de perguntas previamente planificadas de modo a atingir o objetivo preconizado. A língua utilizada na conversação informal foi oluhanda de Quipungo 6 . A fidedignidade dos nossos dados consiste e reforça-se ainda mais pelo facto de, o investigador, que efetuou o trabalho de campo (primeiro autor deste artigo), ter convivido longo tempo na sua infância e adolescência no seio dos Nyaneka-nkhumbi. RESULTADOS Como se processa a construção empírica das casas? As casas são projetadas e assentes em lugares considerados apropriados pelos mais velhos, tendo em conta as condições climatéricas e do relevo aceitáveis e a adequação do terreno (zona ampla plana) com uma amplitude de diâmetro que varia entre 30 a 200 metros. Em seguida, desmata-se e desbrava-se a área, projeta-se a estrutura da aldeia (eumbo), assim como por exemplo a posição das casas do chefe de família, das mulheres, a casa dos celeiros, dos filhos e filhas, o lugar do portão do cerco (quintal) e das portinhas especiais 6 Língua falada pelo primeiro autor e referida por Melo (2005) e Dias (2011a, 2011b)
Dias, D., Costa, C., & Palhares, P. (2015). Sobre as casas tradicionais de pau-a-pique do grupo étnico Nyaneka-nkhumbi do Sudoeste de Angola. Revista Latinoamericana de Etnomatemática, 8(1), 10-28. 24 Trata-se de uma partição do círculo, em partes diferentes, e tendo em conta aspetos ligados à área necessária para as funções a que esses espaços se destinam. Implica a noção de área do círculo, mas também a sua relação com o volume de partes do cilindro. As divisões internas referidas são feitas de esteiras ou peles de animais e, recentemente, de lençóis ou formatos parecidos com lençóis apoiados em suportes de paus bifurcados. A proporção ocupada pelos celeiros, geralmente, é a maior, dependendo do número de celeiros que o proprietário possui. Em caso de alargar a economia e haver necessidade, a casa de celeiros pode estar separada ficando a parte do dormitório junto com os celeiros (ver figura 9). Figura19 9. Eumbo de um Nyaneka-nkhumbi A separação de casas por categorias por vezes tem a ver com a prevenção de incêndios ou segurança de mantimentos. O aspeto exterior e interior das casas tradicionais dos Nyaneka-nkhumbi constitui uma cobiça para muitos observadores. Dado que, tais casas têm proporcionado um ambiente interno propício para os moradores deste tipo de casas, visto que, nas variações das temperaturas ambientais anuais tendem a manter uma temperatura agradável no interior da casa. Razão porque hoje, no sul de África, muitos hoteleiros têm preferido casas semelhantes. 19 Fotografia original tirada em QuéChikomba – Huíla (Angola), a 26.08.2011, pelo primeiro autor.
Revista Latinoamericana de Etnomatemática Vol. 8, No. 1, febrero-mayo 2015 25 Fitando os nossos olhos nas casas tradicionais de pau-a-pique dos Nyaneka-nkhumbi, fascina-nos indagar a sabedoria e conhecimentos imbuídos e utilizados no sistema de construção, desde a simples imaginação, projeto até tomar o formato geométrico evidente. Merece uma admiração e um reconhecimento da existência notória de conhecimentos matemáticos, para além, de outros conhecimentos entrelaçados no processo da edificação das casas em referência. É nessa intenção a partir destes conhecimentos matemáticos por elaborar tarefas matemáticas que possam ser usadas em contexto de formação, dando à cultura dos Nyaneka-nkhumbi o relevo que ela merece, na esteira de muitos outros autores, como por exemplo Zaslavisky (1989) Quais são os conhecimentos matemáticos dos Nyaneka-nkhumbi envolvidos na construção de casas? A construção de casas de qualquer povo exige uma projeção que pode ser escrita ou não. Neste caso dos Nyaneka-nkhumbi, apesar de, a projeção não estar escrita, nota-se vários conhecimentos matemáticos como conceitos geométricos, medidas, figuras geométricas, e várias transformações geométricas. Tal como se pode observar nos relatos e figuras inseridas nas secções anteriores, ao longo do processo de construção de casas de pau-a-pique, pode-se reconhecer conhecimentos matemáticos, como o círculo, a circunferência, o lugar geométrico entre outros que estão relacionados com a escavação do cabouco; nota-se a medição evidente na grandeza da casa, na profundidade do cabouco e na medição de paus com a vara; verifica-se também a existência de ângulos e variação angular no processo que começa desde o corte de paus, colocação de paus de parede no cabouco e os do teto que quer uns quer outros são acertados em termos de comprimento. Finalmente, são visíveis as formas cónicas e cilíndricas e por vezes retangulares nas casas dos Nyaneka-nkhumbi. Estes e outros conhecimentos matemáticos que se podem „descongelar‟ no processo de construção de casas de pau-a-pique dos Nyaneka-nkhumbi, podem ser aplicados no ensino da matemática e não só, no contexto de formação criando tarefas, assunto que está em curso para com o primeiro autor no projeto de doutoramento.
Dias, D., Costa, C., & Palhares, P. (2015). Sobre as casas tradicionais de pau-a-pique do grupo étnico Nyaneka-nkhumbi do Sudoeste de Angola. Revista Latinoamericana de Etnomatemática, 8(1), 10-28. 26 CONSIDERAÇÕES FINAIS A etnomatemática evidente na construção de casas tradicionais dos Nyaneka-nkhumbi está carregada de muitos conhecimentos matemáticos profícuos para atividades educativas matemáticas dentro e fora da sala de aula. Os conhecimentos matemáticos referidos na secção anterior e explorados a partir das práticas culturais dos Nyaneka-nkhumbi, podem ser frutíferos para o contexto de formação e não só, quer ao nível local onde os Nyaneka-nkhumbi vão se sentir familiarizados com conhecimentos matemáticos quer ao nível global lá onde os Nyaneka-nkhumbi estiverem inseridos nas sociedades multiculturais facto que acontece por exemplo em Portugal, Moreira in Palhares (2008). As práticas matemáticas dos Nyaneka-nkhumbi, quando ensinadas, sobretudo no contexto local ainda que não só aí, podem incentivar o gosto pela aprendizagem da matemática e retenção de conceitos básicos sem ambiguidade. Os conhecimentos matemáticos, em particular os geométricos aplicados na edificação das casas de pau-a-pique, motivam-nos para esmiuçarmos cada vez mais a relação que pode coabitar entre a matemática praticada pelo grupo étnico Nyaneka-nkhumbi, neste aspeto, e a matemática „formal‟ ou convencional, ensinada e vigente nas instituições ou estabelecimentos de ensino contemporâneos. A nossa expectativa é que este artigo venha ser um contributo no cômputo dos conhecimentos gerais da matemática, quer ao nível local, quer ao nível global e uma forma de divulgar a cultura e saberes-fazer do povo Nyaneka-nkhumbi. REFERÊNCIAS Bishop, A. (1999). Enculturación Matemática. La Educación Matemática desde una perspectiva cultural. Barcelona: Editorial Paidós. D'Ambrósio, U. (2001). Etnomatemática – elo entre as tradições e a modernidade. Belo Horizonte: Autêntica. Dias, D. (2011). Ensaio Etnomatemático sobre o Grupo Étnico Nyaneka-nkhumbi do Sudoeste de Angola (Trabalho de investigação de mestrado não publicado). Universidade do Porto, Porto, Portugal. Dias, D., & Costa, C. (2011). Ethnomathematics essay on ornaments of south-western Angola Nyaneka-nkhumbi women. Proceedings of the Internacional Conference on
Revista Latinoamericana de Etnomatemática Vol. 8, No. 1, febrero-mayo 2015 27 New Horizons in Education – INTE2011, Instituto Politécnico da Guarda, Guarda, Portugal, 8 a 10. Dias, D., Costa, C., & Palhares, P. (2013). Ethnomathematics of the southwestern Angola Nyaneka-nkhumbi ethnic group and its application to mathematics education. Comunicação apresentada na Internacional Conference of Commission for the Study and Improvement of Mathematics Teaching - CIEAEM, Turim, Itália. Coutinho, C. P. (2014). Metodologia de investigação em Ciências Sociais e Humanas: Teoria e Práticas. 2ª Edição. Coimbra: Almedina, S.A. Estermann, C. (1960). Etnografia do sudoeste de Angola. Vol. 2, 2.ª Ed. Lisboa: Tipografia Minerva. Estermann, C. (1970). Penteados adornos e trabalhos das mulheres muílas. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar. Gerdes, P. (1991). Etnomatemática: Cultura, Matemática, Educação. Maputo: Instituto Superior Pedagógico Gerdes, P. (1993). Geometria Sona, reflexões sobre uma tradição de desenhos em povos, cultura, matemática, educação. Maputo: Instituto Superior Pedagógico Gerdes, P. (1997). Vivendo a Matemática: Desenhos da África. São Paulo: Editora Scipione, Ltda. Gerdes, P. (2007a). Etnomatemática – Reflexões sobre matemática e diversidade cultural. Ribeirão: Edições Húmus. Gerdes, P. (2007b). OTTHAVA. Fazer cestos e geometria na cultura Makhuva do Nordeste de Moçambique. Nampula: Universidade Lúrio. Gerdes, P. (2008). Jogo de Bissemis: mais de cem puzzles. Maputo: Editora Girafa. Gerdes, P. (2011). Mulheres, Cultura e Geometria na África Austral: Sugestões para Pesquisa. Maputo: Lulu. Gerdes, P. (2011a). Pitágoras africano: Um estudo em cultura e educação matemática. Maputo: Lulu Gerdes, P. (2014). Ethnogeometry: awakening of geometrical thought in early culture. Raleigh, NC: Lulu. Melo, R. (2005). "Nyaneka-Nkhumbi": uma carapuça que não serve aos Handa, nem aos Nyaneka, nem aos Nkhumbi. Cadernos de Estudos Africanos (pp. 157–177). Lisboa, 7/8, 2004/2005, Morris, D. (1998). Os Sexos Humanos. Uma História Natural do Homem e da Mulher. Lisboa: Terramar. Palhares, P. (Coord). (2008). Etnomatemática – Um olhar sobre a diversidade cultural e a Aprendizagem da Matemática. Ribeirão: Edições Húmus.
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