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A COVID-19 e as implicações no Ensino Superior

Oliveira, Ana Isabel Mendes

Abstract

A COVID-19, nos últimos dois anos, alterou o modo como vivemos e nos comportamos em sociedade. A forma como se leciona e aprende foi completamente alterar e foi necessária uma adaptação por todos os envolvidos no meio académico. Para além disso, as implicações causadas por esta doença não se aplicam apenas à área da saúde, mas também a outras vertentes como as sociais e económicas. Por este e por outros motivos, é necessário compreender as suas implicações e as suas características. A metodologia utilizada nesta dissertação de mestrado é de carácter qualitativa e a técnica de recolha de informação usada é a realização de entrevistas semiestruturadas. Com um total de sete entrevistas realizadas, a sua análise permitir-me-á estudar o fenómeno com o objetivo de perceber até que ponto a pandemia de Sars-Cov-2 fez alterar as desigualdades sociais no acesso à educação dos alunos da Universidade do Minho. Com este projeto de investigação conseguirei analisar um fenómeno recente e pouco estudo, possibilitando o auxílio no estudo das suas implicações no ensino superior.

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Fevereiro 2023 A Covid-19 e as implicações no Ensino Superior Ana Oliveira UMinho | 2023 Ana Isabel Mendes Oliveira A Covid-19 e as implicações no Ensino Superior 2 Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Ana Isabel Mendes Oliveira A Covid-19 e as implicações no Ensino Superior Dissertação de Mestrado Mestrado em Sociologia com especialização em Políticas Sociais Trabalho efetuado sob a orientação do Professor Doutor Luís Manuel Jesus Cunha Fevereiro 2023 Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual CC BY-NC-SA https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/ Agradecimentos Antes de prosseguir com a Dissertação de Mestrado, não poderei deixar de agradecer a algumas pessoas e instituições que colaboraram para que a dissertação que apresento seja possível. Primeiramente quero agradecer aos meus Pais por todo o apoio e carinho demonstrado ao longo do meu percurso académico e por me proporcionarem frequentar o ensino superior, que se tornou um dos períodos mais desafiantes da minha vida. Vocês são a minha inspiração! Obrigada por me deixarem sempre sonhar! Ao meu Orientador, o Professor Luís pela paciência, pela simpatia, pela dedicação, pela preocupação que demonstrou e pela ajuda que me prestou para que a elaboração deste trabalho fosse possível. Ao Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho e a todos os docentes da licenciatura e mestrado em e Sociologia, por todo o conhecimento transmitido durante estes 5 anos. Aos entrevistados, que despenderam do seu tempo para me ajudar a concluir este projeto. A todos o meu sincero obrigada! DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. A covid-19 e as implicações no ensino superior Resumo A Covid-19, nos últimos dois anos, alterou o modo como vivemos e nos comportamos em sociedade. A forma como se leciona e aprende foi completamente alterar e foi necessária uma adaptação por todos os envolvidos no meio académico. Para além disso, as implicações causadas por esta doença não se aplicam apenas à área da saúde, mas também a outras vertentes como as sociais e económicas. Por este e por outros motivos, é necessário compreender as suas implicações e as suas características. A metodologia utilizada nesta dissertação de mestrado é de carácter qualitativa e a técnica de recolha de informação usada é a realização de entrevistas semiestruturadas. Com um total de sete entrevistas realizadas, a sua análise permitir-me-á estudar o fenómeno com o objetivo de perceber até que ponto a pandemia de Sars-Cov-2 fez alterar as desigualdades sociais no acesso à educação dos alunos da Universidade do Minho. Com este projeto de investigação conseguirei analisar um fenómeno recente e pouco estudo, possibilitando o auxílio no estudo das suas implicações no ensino superior. Palavras-chave Covid-19; Universidade do Minho; Ensino Superior; Desigualdades Sociais; Acesso à educação Covid-19 and the implications on Higher Education Abstract Covid-19, in the last two years, has changed the way we live and behave in society. The way in which teaching and learning was completely changed and an adaptation was necessary by all those involved in the academic environment. In addition, the impacts caused by this disease do not apply only to the health area, but also to other aspects such as social and economic. For this and other reasons, it is necessary to understand its implications and characteristics. The methodology used in this master's dissertation is of a qualitative nature and the information collection technique used is semi-structured interviews. With a total of seven interviews carried out, their analysis will allow me to study the phenomenon in order to understand to what extent the Sars-Cov-2 pandemic has changed social inequalities in access to education for students at the University of Minho. With this research project I was able to draw some conclusions that can help the study of this phenomenon. Keywords Covid-19; University of Minho; higher education; social diferences; access to education Índice Agradecimentos ...................................................................................................................... 5 A covid-19 e as implicações no ensino superior..................................................................... 7 Resumo ................................................................................................................................... 7 Palavras-chave ........................................................................................................................ 7 Covid-19 and the implications on Higher Education .............................................................. 8 Abstract .................................................................................................................................. 8 Keywords ................................................................................................................................ 8 Índice de tabelas ................................................................................................................... 11 I. Introdução ...................................................................................................................... 12 II. Enquadramento teórico ............................................................................................. 14 1. Desigualdades Sociais ............................................................................................ 14 1.1. Conceito de desigualdade social ................................................................................ 14 1.2. A educação e as desigualdades sociais ....................................................................... 18 2. Educação ................................................................................................................ 20 2.1. O ensino superior ....................................................................................................... 23 3. A pandemia de SARS-COV-2 .................................................................................. 24 4. A escolha da Universidade do Minho .................................................................... 32 III. Objetivos do estudo ................................................................................................... 33 IV. Metodologia ............................................................................................................... 34 1. Metodologias Qualitativas ..................................................................................... 34 1.1. Entrevistas Semiestruturadas ..................................................................................... 35 V. Caracterização dos entrevistados............................................................................... 37 VI. Técnica de análise de conteúdo ................................................................................. 39 1. Análise das entrevistas .......................................................................................... 39 1.1. A aprendizagem e o nível de ensino durante o período pandémico ......................... 40 16 oportunidades” e outros indivíduos que apesar de terem aptidões e desempenhos de pouco destaque conseguirão aceder a esses “bens, recursos e oportunidades” com muito mais facilidade. (Machado, 2015, p. 298) Num dado momento do artigo o autor diferencia os tipos de desigualdade social, referindose ao conceito no plural, ou seja, desigualdades sociais, “uma vez que elas assumem múltiplas formas e têm mecanismos geradores diferenciados. Para exprimir esta pluralidade os sociólogos falam de multidimensionalidade das desigualdades sociais. As desigualdades sociais podem ser de classe, étnico-raciais ou de género. Estas três estão entre as principais dimensões das desigualdades sociais. Numa abordagem mais sistemática e completa podemos seguir a classificação estabelecida pelo sociólogo sueco Goran Therborn e falar de três grandes tipos de desigualdades sociais: desigualdades vitais, desigualdades existenciais e desigualdades de recursos.” (Machado, 2015, p. 301) O autor explica as desigualdades vitais como sendo desigualdades “perante a vida e a morte, decorrentes de diferentes graus de exposição a riscos fatais” (Machado, 2015, p. 301). Estas desigualdades podem ser medidas através da Esperança Média de Vida, que reflete, por exemplo, o acesso a recursos ou os níveis de mortalidade infantil. (Machado, 2015, p. 301) As diferenças existenciais referem-se ao “reconhecimento de cada ser humano enquanto pessoa, da possibilidade de cada um progredir livremente projetos de vida, do acesso a direitos, do direito ao respeito dos outros.” (Machado, 2015, p. 301) Por sua vez as desigualdades de recurso Influenciam “diretamente a formação das desigualdades vitais e das desigualdades existenciais” (Machado, 2015, p. 302). Os recursos a que o autor se refere são “o rendimento, a escolaridade, as qualificações profissionais, a autoridade nas organizações, o capital social, o poder.” (Machado, 2015, p. 302) Para o autor o rendimento não pode ser o único recurso a ter em conta, nas sociedades de hoje em dia, os recursos acima mencionados assumem um papel tão relevante como o rendimento. Quando assistimos a desigualdades sociais “sistemáticas e persistentes” estas tendem a formar “categorias sociais duradouras, que podem ser categorias de classe, de género, étnico raciais, status de idade ou outras.” (Machado, 2015, p. 302). Para o autor o facto de se pertencer a categorias sociais “condiciona o destino individual dos seus membros.” (Machado, 2015, p. 303) As categorias perpetuam-se quanto mais enraizadas estiverem as desigualdades, condicionando o futuro dos indivíduos está “socialmente condicionado, no sentido da 17 conservação de vantagens ou da conservação de desvantagens.” (Machado, 2015, p. 303) O autor aborda ainda o facto dessa formação duradoura de categorias sociais introduzir “rigidez na sociedade” (Machado, 2015, p. 303) impedindo em último caso a mobilidade social. Uma outra perspetiva para entender o conceito de desigualdades sociais é o princípio de justiça defendido por John Rawls. O autor define dois princípios de justiça, a primeira forma de justiça o autor entende como sendo o de cada pessoa “ter um direito igual ao mais abrangente sistema de liberdades básicas iguais que seja compatível com um sistema semelhante de liberdade para as outras.” (Rawls, 2000, p. 64) O segundo entendimento de justiça social é o de que “as desigualdades sociais e económicas devem ser ordenadas de tal modo que sejam ao mesmo tempo (a) consideradas como vantajosas para todos dentro dos limites do razoável, e (b) vinculadas a posições e cargos acessíveis a todos.” (Rawls, 2000, p. 64) É importante realçar que os dois princípios definidos pelo autor se aplicam à “estrutura básica da sociedade, governam a atribuição de direitos e deveres e regulam as vantagens económicas e sociais” (Rawls, 2000, p. 64). Atendendo aquilo que o autor defende nos dois princípios acima apresentados é necessário que a “estrutura social seja entendida como tendo duas partes mais o menos distintas” (Rawls, 2000, p. 64), onde o “primeiro princípio se aplicando a uma delas e o segundo princípio à outra.” (Rawls, 2000, p. 64) Desta forma é possível distinguir-se os “aspetos do sistema social que definem e asseguram liberdades básicas iguais” (Rawls, 2000, pp. 64-65), dos “aspetos que especificam e estabelecem as desigualdades económicas e sociais.” (Rawls, 2000, p. 65) O segundo princípio abordado pelo autor é o mais relevante para este trabalho e é sobre esse que me irei debruçar. Para o autor o segundo princípio incide sobre a “distribuição de renda e de riqueza e ao escopo das organizações que fazem uso de diferenças de autoridade e de responsabilidade.” (Rawls, 2000, p. 65) O autor considera que a distribuição da riqueza e do rendimento não tem necessariamente de ser igual, mas tem que ser vantajosa para todos os lados e as possibilidades de poder tem que ser acessíveis a todos. (Rawls, 2000, p. 65) Mas quando tal distribuição não ocorre de forma justa, o autor aborda o conceito de injustiça, onde afirma que este “se constitui de desigualdades que não beneficiam a todos.” (Rawls, 2000, p. 66) Assim sendo, podemos entender uma injustiça como uma desigualdade. 18 Analisando a ideia do autor, é possível perceber que sem justiça social, o combate às desigualdades sociais é extremamente complicado. Para este trabalho o conceito de desigualdades sociais que considero mais relevante e que irei aplicar é o desenvolvido por Fernando Luís Machado no seu trabalho “Desigualdades sociais no mundo atual: teoria e ilustrações empíricas”. 1.2. A educação e as desigualdades sociais Fernando Luís Machado vai um pouco mais longe e aborda esta temática das desigualdades no que à educação diz respeito. Recorrendo a Pierre Bourdieu, o autor refere que os estudantes oriundos de famílias com mais recursos económicos e culturais “estão mais bem equipados para enfrentarem a instituição escolar e os seus procedimentos de avaliação e certificação”. (Machado, 2015, p. 299) Relativamente ao capital cultural, o autor refere o nível escolar dos pais, os bens culturais que podem aceder em casa ou mesmo aqueles que acedem fora de casa, para o autor tornam-se em “capital escolar”, que vai auxiliar os “trajetos escolares longos e bem-sucedidos”. (Machado, 2015, p. 299). Quanto aos jovens originários de “minorias étnico-raciais desfavorecidas têm menos probabilidade de conseguir desempenhos escolares de alto nível, dadas as carências económicas e culturais que os limitam, carências que só doses altas de talento e esforço individual podem permitir suportar.” (Machado, 2015, p. 299) Outra das questões abordadas pelo autor, é a questão do género e o impacto que isso pode ter no desenvolvimento escolar, uma vez que nos países mais ricos e desenvolvidos, no que ao desempenho académico diz respeito, as raparigas levam vantagem face aos rapazes, não se verificando o mesmo em outras partes do globo, onde as raparigas por “efeitos socioculturais” não se destacam a nível académico e muitas vezes verifica-se o impedimento das mesmas frequentarem uma escola. (Machado, 2015, p. 299) Atendendo ao conceito de desigualdades sociais, importa perceber as causas dessas desigualdades e da igualdade de oportunidades. Para o autor, no mundo em que vivemos os sistemas de ensino são um importante disseminador para a mobilidade social. Esta questão é possível perceber analisando o caso português, onde, com a democratização do ensino, a possibilidade de mobilidade social aumentou largamente, permitindo a pessoas provenientes de famílias menos endinheiradas escolarizarem-se e atingir empregos melhores e com um 19 rendimento superior. (Machado, 2015, p. 307) Um exemplo dado pelo autor, para o facto de a escola promover a igualdade de oportunidades e a mobilidade social é o facto de muitos jovens completarem o grau de ensino superior tendo os pais desses alunos o quarto ou sexto ano de escolaridade ou sendo mesmo iletrados. Mas a escola também é um meio de propagação das desigualdades sociais, uma vez que a escola “se coloca em linha de continuidade com os estudantes das famílias com maior capital cultural, que estão a parte dos códigos e linguagens escolares porque os herdaram das suas famílias, e em linha de rutura com os estudantes de meios populares, destituídos de capital cultural, para quem esses códigos e linguagens não estão previamente adquiridos nem fluem com naturalidade.” (Machado, 2015, p. 308) Para além da escola, a economia e o mercado de trabalho são causadores das desigualdades sociais e ao mesmo tempo proporcionam igualdade de oportunidades. Basta perceber que quando há crescimento económico todos ganham, mesmo que os ganhos desse crescimento não sejam iguais para todos os indivíduos, todos receberão mais. O autor enumera algumas consequências positivas do crescimento económico entre elas “a redução do desemprego, o aumento do número de novos empregos criados, a possibilidade de crescimento dos salários e, por esse intermédio, a existência de maior rendimento disponível para as classes assalariadas em geral.” (Machado, 2015, p. 308). Por sua vez, quando há uma estagnação, ou decrescimento da economia as consequências são “o desemprego, as reduções salariais e a degradação da qualidade do emprego, realidades que penalizam aqueles que dependem dos seus salários para viver, e eles constituem a enorme maioria da população ativa nas economias de mercado consolidadas.” (Machado, 2015, p. 308). Mas para o autor o desemprego “é um fator direto [de] desigualdade social.” (Machado, 2015, p. 312) As pessoas desempregadas veem os seus rendimentos reduzidos e por consequência as suas condições de vida afetadas, e como efeito os seus filhos podem ser obrigados a desistir dos estudos por questões económicas. (Machado, 2015, p. 312) Os valores culturais dominantes em cada sociedade tanto podem beneficiar a igualdade de oportunidades como agir a favor das desigualdades sociais. Para o autor “essa interferência existe sempre que os valores culturais predominantes numa sociedade ou em grupos sociais específicos favoreçam práticas de igualdade de tratamento e de justiça social” (Machado, 20 2015, p. 15) Ou em contra partida “deem azo a processos de inferiorização e exclusão de determinados conjuntos de pessoas.” (Machado, 2015, p. 312). Quanto à temática das desigualdades sociais, associada às desigualdades de trajetórias escolares e condições sociais, Teresa Seabra refere que as diferenças sociais associadas às desigualdades de trajetórias escolares são “as condições sociais dos progenitores do aluno, origem étnico nacional do próprio e/o dos seus ascendentes, o território de residência (rural, urbano, centro da cidade, subúrbio) e, mais recentemente, a condição de género.” (Seabra, 2009, p. 81) A autora refere que, de uma forma geral, e tendo em linha de conta o conjunto de variáveis acima apresentado, é possível afirmar que os alunos cujas famílias tem um nível de escolarização inferior, com profissões socialmente taxadas como menores, alunos negros, que residam no meio rural, no interior, ou em regiões degradadas e ainda alunos do sexo masculino são mais penalizados a nível escolar e na sua trajetória. (Seabra, 2009, pp. 81-82) Para a autora é possível assumir que houve “uma democratização do sistema educativo no sentido de maior acesso aos diferentes níveis de ensino por parte dos mais desfavorecidos, ou seja, as distâncias sociais reduziram se no acesso, mas produziram se novas diferenciações internas, mais subtis, que produziram mesmo um aumento das clivagens sociais no acesso a certos ramos e fileiras do sistema de ensino. Mas, como veremos, quando se aprofundam estas conclusões globais, podem detetar-se dinâmicas diferenciadas de acordo com segmentos de alunos em estudo ou com um nível de ensino considerado.” (Seabra, 2009, p. 85) Em suma, é possível concluir que “se é verdade que a escola tem um papel limitado no esbatimento das desigualdades sociais, podendo mesmo exercer uma influência negativa, ela, simultaneamente, permanece no centro da integração.” (Seabra, 2009, p. 100) A escola não tem a capacidade de mudar a sociedade, mas isso não invalida que “não constitua o contexto social com maiores probabilidades de concretizar alguma mobilidade social.” (Seabra, 2009, p. 100). 2. Educação Importa também discutir o que é a educação e educação à distância, uma vez que com a Covid-19 a suspensão das atividades letivas presenciais obrigou a uma educação à distância, longe dos perigos da disseminação da doença. 21 Émile Durkheim entende que “para que haja educação, é necessário termos em presença uma geração de adultos e uma geração de jovens, e uma ação exercida pelos primeiros sobre os segundos.” (Durkheim, [1922(2011)], p. 49). Mais à frente no seu texto Durkheim entende que “a educação é a ação exercida pelas gerações adultas sobre aquelas que ainda não estão maduras para a vida social. Tem por objeto suscitar e desenvolver na criança um certo número de estados físicos, intelectuais e morais que lhe exigem a sociedade política no seu conjunto e o meio especial no qual está particularmente destinada.” (Durkheim, [1922(2011)], p. 52). Atendendo a esta definição apresentada por Émile Durkheim importa perceber a evolução da educação até aos dias de hoje. No livro Sociologia, de Anthony Giddens, é-nos contado um pouco da evolução da prática educativa. Apesar de hoje considerarmos o acesso à educação algo natural, nem sempre isso aconteceu. Giddens conta-nos que “durante vários séculos, a educação formal só estava ao dispor dos poucos que tivessem tempo e dinheiro para a mesma.” (Giddens, 2008, p. 495). Para a grande maioria as pessoas “ler não era necessário nem sequer útil na vida quotidiana.” (Giddens, 2008, p. 495). Aprender incidia sobre tudo nas práticas utilizadas para o trabalho e nos hábitos sociais. Giddens neste capítulo do seu livro, explica-nos que as mudanças foram muito significativas. Nos dias de hoje, nos países industrializados é raro encontrar alguém que não saiba ler e escrever, afirmando o autor que atualmente “as nossas vidas são influenciadas, em todas as idades a partir da infância, pela informação que colhemos nos livros, jornais, revistas e na televisão.” (Giddens, 2008, p. 495) Refere que todos passamos “por um processo de educação formal pondo a palavra impressa e a comunicação eletrónica, combinadas com o ensino formal fornecidos pelas escolas e universidades, tornam-se fundamentais para o nosso modo de vida.” (Giddens, 2008, p. 495) O sistema educativo desenvolveu-se muito por causa do processo de industrialização e da expansão das cidades. O rápido crescimento da indústria fez aumentar a procura de trabalhadores especializados, tendo como consequência o aumento de mão-de-obra educada. (Giddens, 2008, p. 495). A partir deste momento começou-se a assistir a uma “progressiva universalização dos sistemas educativos, [a] aquisição de conhecimentos passou 22 a assentar cada vez mais no estudo abstrato e não na transmissão prática de aptidões específicas.” (Giddens, 2008, p. 496). Quanto ao conceito de educação, Anthony Giddens entende-o como sendo a “transmissão de conhecimento entre gerações através da instrução direta. Embora existem processos educativos em todas as sociedades, a educação de massa só no período moderno adquiriu a forma de escolarização quer dizer, a de instrução em ambientes educativos especializados nos quais os indivíduos passam vários anos das suas vidas.” (Giddens, 2008, p. 690). Relativamente à educação superior, esta caracteriza-se por uma “educação de nível mais elevado, que tem lugar em universidades ou instituições similares.” (Giddens, 2008, p. 690). Mas a nova realidade obrigou a um ensino não presencial, ou seja, à distância, sendo por isso necessário definir esta prática. Caracteriza-se pela aprendizagem que “não mais estivesse atrelada à presença física dos alunos nas chamadas escolas (…). Foram criados então sistemas de ensino à distância, utilizando-se veículos de comunicação diversos, a exemplo do correio, do rádio e mais recentemente da televisão.” (Nova & Alves, 2003, p. 6) e mais recentemente ainda a utilização da internet passou a ser o principal meio de transmissão de conhecimento. É importante referir a noção de “emergency remote teaching” (Farnell, Matijeviÿ, & Schmidt, 2021, p. 7), que numa tradução livre se refere ao ensino remoto de emergência e que difere do ensino online, uma vez que este ensino remoto de emergência envolve a mudança das aulas presenciais para o formato online, sem que para isso se altera o programa ou a metodologia. (Farnell, Matijeviÿ, & Schmidt, 2021, p. 7). Em Portugal o sistema de ensino e as políticas educativas, só a partir do 25 de abril de 1974 é que foram “objeto de um processo de democratização sem precedentes na história do país, têm vindo, pelo menos desde meados da década de 1980 e, desde então, com crescente protagonismo, a incorporar discursos e medidas de signo modernizador e racionalizador.” (Lima, 2018, p. 329). A educação “não é apenas mais um direito, é um direito básico e que potencia outros direitos. Daí que a democratização da educação seja um fator estruturante para a construção de uma sociedade mais igualitária. Como disse Mandela, a educação é a arma mais poderosa que podemos usar para mudar o mundo.” (Mendonça & Ribeiro, 2018, p. 369) A clareza com que Mandela entende a educação e o “alcance estratégico” da mesma “fazem com que a 23 exigência de uma educação para todos esteja no centro das preocupações dos profissionais da educação e das suas estruturas representativas, constituindo uma importante bandeira da luta sindical.” (Mendonça & Ribeiro, 2018, p. 369). 2.1. O ensino superior Para o desenvolvimento desta investigação é importante perceber como se organiza o ensino superior em Portugal, quais os seus benefícios e de que forma evoluiu. Em Portugal, o sistema de ensino superior é um “sistema binário” (FENPROF, 2012, p. 19), onde estão presentes universidades e institutos politécnicos de origem pública e privada. Os diplomados no ensino superior têm vindo a registar um aumento muito significativo. Segundo dados do Pordata, os diplomados no ensino superior por mil habitantes eram 1,9%, em 1991; 10 anos depois, em 2001, esse número era de 5,9%; em 2011, em plena crise económica acabavam o curso 7,5%, número mais baixo do que em 2008, onde se registou 8%, valor que só volta a ser registado em 2018, passando em 2019 para os 8,1%. (PORDATA, 2021). Quanto aos benefícios do ensino superior, num relatório publicado pelo Pordata, é referido que mais do que os ensinamentos adquiridos ao longo do período em que frequentamos o ensino superior, “acima de tudo desenvolvemos as nossas capacidades de raciocínio, de pensamento crítico e de comunicação com os demais.” (Figueiredo, Portela, Silva, Almeida, & Lourenço, 2017, p. 11) Esse conhecimento e desenvolvimento pessoal “dão-nos acesso a um acervo de bens científicos e culturais até então indisponíveis.” (Figueiredo, Portela, Silva, Almeida, & Lourenço, 2017, p. 11). Um estudo desenvolvido pela OCD, indica que as pessoas detentoras de grau superior se sentem mais satisfeitas com a vida: “praticamente [em] todos os países da OCDE, a proporção de pessoas que se dizem satisfeitas com a sua vida é significativamente mais elevada entre os que têm o ensino superior do que entre os que concluíram o ensino secundário.” (Figueiredo, Portela, Silva, Almeida, & Lourenço, 2017, p. 11). Em Portugal, essa diferença é ainda mais acentuada, uma vez que “chega aos 26 pontos percentuais. Em 2015 em Portugal, quase 90% dos indivíduos com ensino superior estavam satisfeitos com a sua vida, contra pouco mais de 60% daqueles que apenas concluíram o ensino secundário.” (Figueiredo, Portela, Silva, Almeida, & Lourenço, 2017, p. 11). 24 Para os autores, “os benefícios do ensino superior são multidimensionais, são de consumo e de investimento, são individuais e coletivos.” (Figueiredo, Portela, Silva, Almeida, & Lourenço, 2017, p. 15). Os autores defendem que o ensino superior “é o nível máximo a que se pode almejar no sistema educativo.” (Figueiredo, Portela, Silva, Almeida, & Lourenço, 2017, p. 20). Quando usamos o termo licenciado estamos a referir-nos a um “substantivo que remete para aquele que tem licença para ensinar ou exercer uma profissão, profissão essa tradicionalmente chamada de liberal, de alguém livre, intelectual e socialmente.” (Figueiredo, Portela, Silva, Almeida, & Lourenço, 2017, p. 20). 3. A pandemia de SARS-COV-2 O ensino, marcadamente presencial, foi muito afetado pela pandemia de SARS-COV-2, obrigando todos os níveis de ensino a serem desenvolvidos a partir de casa, sem contacto com os docentes e colegas, afetando a aprendizagem e a socialização dos indivíduos. Para além do ensino, as desigualdades sociais acima apresentadas sofreram um agravamento acentuado neste último ano, importa por isso perceber o que é a COVID-19. Num documento desenvolvido pela Direção Geral de Saúde (DGS), onde o principal destinatário eram as escolas, é referido que a COVID-19 “é uma doença causada pela infeção pelo novo Coronavírus (SARS-CoV-2). A doença manifesta-se predominantemente por sintomas respiratórios, nomeadamente, febre, tosse e dificuldade respiratória, podendo também existir outros sintomas, entre os quais, odinofagia (dor de garganta), dores musculares generalizadas, perda transitória do paladar ou do olfato, diarreia, dor no peito e dor de cabeça, entre outros. A pessoa infetada pode não apresentar sinais ou sintomas (assintomática).” (DGS, 2020, p. 1). Neste documento era ainda explicado às escolas quais os principais meios de contágio, o primeiro por contacto direto, onde se descrevia como a “disseminação de gotículas respiratórias, produzidas quando uma pessoa infetada tosse, espirra ou fala, que podem ser inaladas ou pousar na boca, nariz ou olhos de pessoas que estão próximas.” (DGS, 2020, p. 1), e o outro meio de contágio seria por contacto indireto que se caracteriza pelo “contacto das mãos com uma superfície ou objeto contaminado com SARS-CoV-2 e, em seguida, com a boca, nariz ou olhos.” (DGS, 2020, p. 1). O documento desenvolvido pela DGS com as orientações para as escolas apresentava algumas das medidas necessárias para a não propagação do vírus entre elas o “distanciamento 25 entre pessoas”, a “higiene pessoal”, a “utilização de equipamentos de proteção individual”, a “higiene ambiental” e a “automonitorização de sintomas”. (DGS, 2020, p. 2). Apesar destas orientações, a 16 de março, o Governo tomou a decisão de suspender as atividades letivas presenciais, e encerrar todas as instituições de ensino, desde a creches às universidades. O modo de ensino passou a ser totalmente online, com as aulas a serem transmitidas através do programa Estudo em Casa, emitido no canal público, mais concretamente na RTP Memória, com o objeto de mitigar as consequências da suspensão (Peralta, Carvalho, & Esteves, 2021, p. 109). Os alunos do 11º e 12º anos regressaram às aulas presenciais a “18 de maio, apenas nas disciplinas com exame nacional de acesso ao ensino superior.” (Peralta, Carvalho, & Esteves, 2021, p. 109). As crianças que frequentavam as creches e os pré-escolares regressaram a 1 de junho, mas a “atividade letiva plena só regressaria entre 14 e 17 de setembro, no ano letivo seguinte e com novas regras de isolamento profilático por turma.” (Peralta, Carvalho, & Esteves, 2021, p. 109). Quando se reabriu as escolas a justificação que foi dada para essa abertura assentou em “motivos sociais e económicos” uma vez que o “fecho dos estabelecimentos deixou com acesso reduzido a recursos educativos os alunos mais vulneráveis, acentuando as desigualdades existentes. Por outro lado, a nível económico, os pais que tiveram que ficar em casa para acompanhar filhos menores viram o seu rendimento reduzido.” (Peralta, Carvalho, & Esteves, 2021, p. 109). Depois da retoma, entre os dias 14 e 17 de setembro, houve a necessidade de voltar a confinar de novo, a partir de dia 13 de janeiro de 2021 (Mendes, Dantas, & Neves, 2021), embora o primeiro-ministro António Costa e o seu governo tenham considerado, num primeiro momento, não haver necessidade de encerrar as escolas, apesar de vários epidemiologistas considerarem que esse encerramento era necessário para controlar a pandemia. A 21 de janeiro de 2021, António Costa, após um conselho de ministro, refere que “apesar de todo o esforço extraordinário que as escolas fizeram para se preparar para que pudessem funcionar normalmente em atividade presencial, face a esta nova estipe e à velocidade de transmissão que ela comporta, manda o princípio da precaução que procedamos à interrupção de todas as atividades letivas durante os próximos 15 dias.” (República Portuguesa, 2021), sendo essa paragem compensada no Carnaval e na Páscoa. No dia 8 de fevereiro o Governo português anunciou que, a partir desse dia, as atividades letivas seriam retomas em regime 32 4. A escolha da Universidade do Minho Antes de prosseguir para os objetivos da investigação é importante explicar o porquê da escolha da Universidade do Minho (UM). No dia 7 de março foi decretada a suspensão das “atividades no campus de Gualtar da Universidade do Minho. Assim, desde 9 de março, aulas, conferências, eventos, atividades desportivas, serviços de bibliotecas e de unidades alimentares de natureza presencial deixaram de funcionar, primeiro no campus de Gualtar e, dias depois, em todos os espaços da Universidade.” (Martins & Rodrigues, 2020, p. 8). Esta decisão surgiu como consequência dos primeiros casos de Covid-19 registados no nosso país (2 de março de 2020) estarem situados na “freguesia de Idães, no concelho de Felgueiras” (Martins & Rodrigues, 2020, p. 8), onde estavam inseridos alguns membros da comunidade académica da Universidade do Minho. Posterior à decisão da Universidade do Minho, a nível nacional foram tomadas decisões que previam a suspensão da “vida universitária” a 12 de março de 2020. (Martins & Rodrigues, 2020, p. 8). É a partir das desigualdades acima apresentadas, nomeadamente as digitais que é importante desenvolver um estudo sobre as implicações da pandemia SARS-COV-2 na educação, muito particularmente no ensino superior, sendo a Universidade do Minho um importante meio para o estudo, uma vez que foi a primeira instituição de ensino superior a fechar as portas. 33 III. Objetivos do estudo Para o desenvolvimento desta investigação é necessário delimitar os objetivos teórico e metodológicos que nortearão o seu desenvolvimento. O objetivo geral desta investigação é o de percecionar se com a pandemia de SARS-COV2 houve um agravamento das desigualdades sociais no ensino superior. Partindo do desenvolvimento do enquadramento teórico, anteriormente apresentado, parece prevalecer a ideia de que esse agravamento foi real, mas existe a necessidade de percecionar as causas e as consequências desse agravamento, muito particularmente na Universidade do Minho. Quanto aos objetivos específicos desta investigação o primeiro deles é o de: Perceber se os cursos com vertentes mais práticas tiveram o seu processo de aprendizagem mais afetado pela Pandemia de SARS-COV-2 do que os cursos de cariz mais teórico. O segundo objetivo mais específico é de: Analisar se as medidas desenvolvidas pela Universidade do Minho no combate às desigualdades de acesso às aulas responderam às necessidades dos alunos. O terceiro objetivo é o de: Analisar se a pandemia SARS-COV-2 afetou a aprendizagem dos alunos da Universidade do Minho. O quarto objetivo específico é o de: Saber se os alunos que frequentavam a Universidade do Minho pensaram em abandonar os estudos por causa da pandemia da COVID-19. O quinto e último objetivo específico é o de: Perceber se para os alunos da Universidade do Minho, a adaptação aos meios de ensino à distância e a aprendizagem se revelou mais difícil no primeiro ou no segundo confinamento. 34 IV. Metodologia Quando desenvolvemos um projeto de investigação na área das ciências sociais devemos procurar “...compreender melhor os significados de um acontecimento ou de uma conduta, a fazer inteligentemente o ponto da situação, a captar com maior perspicácia as lógicas de funcionamento de uma organização, a refletir acertadamente sobre as implicações de uma decisão política, ou ainda a compreender com mais nitidez como determinadas pessoas apreendem um problema e a tornar visíveis alguns dos fundamentos das suas representações” (Quivy & Campenhoudt, 1998, p. 19). Quando escolhemos a metodologia que melhor se adequa ao nosso estudo devemos ter em atenção os objetivos, pelo que, atendendo a isso, considero que a metodologia mais adequada para este projeto é a de caráter qualitativo, uma vez que procurarei compreender de uma forma mais fina (que escapa aos índices estatísticos) o contexto social, económico e cultural de alunos do Ensino Superior da Universidade do Minho, no que se refere ao acesso ao ensino durante a pandemia Sars-Cov-2, e as implicações que esta causou partindo do estudo de casos concretos. 1. Metodologias Qualitativas Este projeto de investigação irá ter por base a utilização de uma metodologia de caráter qualitativo, uma vez que permite tratar de particularidades históricas e etnográficas de determinados casos, permite ainda que ocorram elemento anómalos (“serendipity”), ou seja, dados que não estamos à espera de encontrar/recolher, mas que são frequentes quando se estudam novos fenómenos sociais. Para lá deste aspeto, a escolha deste tipo de metodologia justifica-se, sobretudo pelo facto de permitir captar as perspetivas e os significados atribuídos por diferentes atores sociais à realidade social sobre a qual incide a minha pesquisa. Trata-se de uma metodologia que tipicamente recorre a diversas técnicas de recolha de informação, como por exemplo, as entrevistas sejam elas as não estruturadas, semiestruturadas ou estruturadas, apoiando-se fortemente na observação, nomeadamente a observação direta, frequentemente conciliada com o uso de outros recursos, documentais e audiovisuais, por exemplo. Atendendo aos objetivos propostos para esta dissertação de mestrado será essencial desenvolver a análise qualitativa, com base em entrevistas, por forma a perceber o que 35 pensam os atores sociais sobre as implicações da pandemia Sars-Cov-2 no acesso às atividades formativas na Universidade do Minho. 1.1. Entrevistas Semiestruturadas Uma das técnicas mais comuns para recolher informação são as entrevistas, que os autores Raymond Quivy e LucVac Campenhoudt sinalizam da seguinte forma, “os métodos de entrevistas distinguem-se pela aplicação dos processos fundamentais de comunicação e de interação humana. Corretamente valorizados, estes processos permitem ao investigador retirar das entrevistas informações e elementos de reflexão muito ricos e matizados.” (Quivy & Campenhoudt, 1998, pp. 191-192) Uma outra caracterização da entrevista que me parece adequada é a que foi desenvolvida por Lorraine Savoie-Zajc, que considera que esta técnica “consiste numa interação verbal entre pessoas que se envolvem voluntariamente em igualdade de relação, a fim de partilharem um saber experienciado e isto, para melhor compreender um fenómeno de interesse para as pessoas implicadas.” (Savoie-Zajc, 2003, p. 281) Outra definição de entrevista é a apresentada por Rodolghe Ghiglione e Benjamin Matalon que entende como uma “conversa com um objetivo” (Ghiglione & Matalon, 1993, p. 70) e um “encontro interpessoal que se desenrola num contexto e numa situação social determinados, implicando a presença de um profissional e de um leigo” (Ghiglione & Matalon, 1993, pp. 7071) Esta importante técnica de recolha de informação tem diferentes tipos, isto é, pode ser distinguida em 3 modelos sendo eles, a entrevista não-diretiva, a entrevista semi-diretiva e a entrevista diretiva ou estandardizada (Ghiglione & Matalon, 1993, p. 91). Para esta investigação o tipo de entrevista que considero mais adequado é a entrevista semi-diretiva que também pode ser denominada por semiestruturada. Sendo o modelo de entrevista que irei utilizar semiestruturada, é importante defini-lo e caracterizá-lo. A autora Lorraine Savoie – Zajc entende que este tipo de entrevista “consiste numa interação verbal animada de forma flexível pelo investigador.” (Savoie-Zajc, 2003, p. 282) Seguindo o registo de uma conversa, abordando os “os termos gerais sobre os quais deseja ouvir o respondente, permitindo assim extrair uma compreensão rica do fenómeno em estudo.” (Savoie-Zajc, 2003, p. 282) 36 Luís Pardal e Eugénia Correia vão um pouco mais longe na caracterização deste modelo de entrevista e entendem-no como não sendo nem “inteiramente livre” e nem “inteiramente aberta”, na medida em que não é “orientada por um leque inflexível de perguntas estabelecidas a priori.” (Pardal & Correia, 1995, p. 65) Os autores referem ainda, que é natural o entrevistador ter preparado previamente um guião, com perguntas abertas não respeitando necessariamente uma ordem, mas à medida que for oportuno, “deseja-se que o discurso do entrevistado vá fluindo livremente – exprimindo-se com abertura, informa sobre as suas perceções e interpretações que faz de um acontecimento; sobre as suas experiências e memórias; sobre o sentido que dá às suas práticas; revela as suas representações e referências normativas; fornece indícios sobre o seu sistema de valores, emotividade e atitudes; reconstitui processos de ação ou mudança e denuncia os elementos em jogo e suas relações, ajudando à compreensão dos fenómenos.” (Pardal & Correia, 1995, pp. 65-66) A realização das entrevistas semiestruturadas, nesta investigação, vai recair sobre a escolha de sete alunos que frequentam o 3ºano do 1º ciclo e do 2ºciclo de ensino de diferentes cursos lecionados na Universidade do Minho. É importante explicar o porquê da escolha de alunos que frequentam o 3ºano no próximo ano letivo. Esta escolha deve-se ao facto de esses alunos estarem a iniciar o percurso académico quando ocorreu o primeiro confinamento em março de 2020, e estarem no 2ºano letivo no confinamento decretado no início de 2021. Para além dos alunos que frequentam o 3ºano da licenciatura considerei relevante entrevistar alunos que frequentem o mestrado, uma vez que estão há mais anos no ensino superior e a experiência é maior e poderão dar uma perspetiva diferente, em comparação com alunos que estão a frequentar a universidade há menos tempo. Numa fase inicial do projeto, procurei entrevistar 10 alunos, mas a adesão revelou-se complicada. Tentei de várias formas o contacto, mas este revelou-se muito difícil. Recorri aos diretores de curso, às secretarias das escolas, aos grupos de curso organizados pelos alunos, mas apenas consegui o contacto e a disponibilidade de sete alunos. Desses sete alunos, quatro frequentam cursos de mestrado e três frequentam diferentes licenciaturas. 37 V. Caracterização dos entrevistados O primeiro entrevistado, denominei-o de entrevistado A, a sua entrevistada encontra-se no anexo 3. É um aluno do mestrado em Sociologia com especialização em Organizações e Trabalho: Questões da Atualidade, e à data da entrevista encontrava-se no segundo ano do mestrado. A entrevista realizou-se no dia 10 de fevereiro, pelas 10 da manhã, por opção do entrevistado através do Zoom. A segunda entrevistada nomeia-a de entrevistada B, a sua entrevistada encontra-se transcrita no anexo 4. A entrevistada B, é aluna da licenciatura em Sociologia e à data da entrevista encontrava-se no terceiro ano. A entrevista realizou-se dia 12 de fevereiro, pelas 10 da manhã, e por escolha do entrevistado através do Zoom. A entrevistada que se segue será denominada de entrevistada C, a sua entrevista encontrase transcrita no anexo 5. A entrevistada é aluna da licenciatura em Química e à data da entrevista encontrava-se no terceiro ano. A Entrevista realizou-se no dia 24 de fevereiro de 2022, pelas 10 da manhã, e por escolha da entrevistada realizou-se através de chamada de vídeo na app WhatsApp. A quarta entrevista que realizei, foi realizada de forma presencial, num café na cidade de Vila Nova de Famalicão, a uma aluna do mestrado em Educação Básica, no dia 11 de março, pelas 17 horas. A entrevistada durante a análise de conteúdo terá a denominação de entrevistada D, à data da entrevista a entrevistada encontrava-se no segundo ano do mestrado. A transcrição da entrevista encontra-se no anexo número 6. O quinto entrevistado à data da entrevista frequentava o primeiro ano do mestrado em Relações Internacionais. Este entrevistado terá a denominação entrevistado E, por uma incompatibilidade horários e apesar do entrevistado ter revelado disponível para realizar a entrevista presencialmente, tal não pode acontecer, a entrevista acabou por acontecer no dia 21 de março pelas 18:30, através da plataforma Zoom. A entrevista encontra-se transcrita no anexo número 7. A sexta entrevista realizada foi feita a uma aluna do mestrado em Psicologia Clínica, à data da entrevista encontrava-se no 1ºano desse mestrado. A entrevista foi realizada através do Zoom, no dia 22 de março pelas 18:30. A transcrição da entrevista pode ser lida no anexo número 7 e a entrevistada será denominada de entrevistada F. 38 A última entrevistada começou com um atraso superior a 30 minutos, estava agendada para as 18:30 do dia 23 de março, mas a entrevistada só compareceu ao link que lhe havia enviado às 19:10. A entrevista realizou através do Zoom e encontra-se transcrita no anexo número 9. A entrevista foi realizada a uma aluna da licenciatura em Psicologia. A entrevistada, em questão, à data da entrevista encontrava-se no 3ºano da licenciatura. A entrevistada será denominada de entrevista G. Importa realçar que, talvez como consequência da pandemia, os alunos que se mostraram disponíveis para realizar a entrevista de forma presencial, foram apenas 2. Os outros entrevistados, justificavam a sua preferência por questões de deslocação, de receio de contaminação e de comodidade, evitando assim uma deslocação que consideraram desnecessária, uma vez que a entrevista poderia ser realizada de forma online. 39 VI. Técnica de análise de conteúdo Para este estudo é fundamental a análise integral das sete entrevistas realizadas. Esta análise integral, poderá ser denominada de análise de conteúdo e tem como principal objetivo permitir retirar conclusões que me possam permitir responder à pergunta de partida. Antes de avançar para a análise das entrevistas, é fundamental entender a que me refiro quando menciono o termo análise de conteúdo. Para isso, é essencial compreender o papel elementar que a análise de conteúdo tem em qualquer investigação empírica, com especial relevância quando realizamos estudos no âmbito das ciências sociais. Laurence Bardin define análise de conteúdo como “um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos da descrição do conteúdo das mensagens, indicadores que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/receção (variáveis inferidas) destas mensagens.” (Bardin, 2007, p. 37) Através da análise de conteúdo, é me permitido construir categorias que ajudam a dividir um texto mostrando os significados atribuídos. O autor Jorge Vala aborda esta temática e considera que a matéria em estudo na análise de conteúdo é concebida “como resultado de uma rede complexa de condições de produção, cabendo ao analista construir um modelo capaz de permitir inferências sobre uma ou várias dessas condições de produção.” (Vala, 1986, p. 104) Prossegue dizendo que, esta análise é uma “desmontagem de um discurso e da produção de um novo discurso através de um processo de localização atribuição de traços de significação resultado de uma relação dinâmica entre as condições de produção do discurso a analisar e as condições de produção de análise” (Vala, 1986, p. 104) 1. Análise das entrevistas Com o objetivo de entender a perceção dos estudantes universitários da Universidade do Minho sobre o ensino e o período pandémico associando às desigualdades sociais, foram realizadas sete entrevistas a alunos que frequentam o 1º e o 2ºciclos de ensino da universidade. Esses alunos frequentam diferentes cursos, com vertentes mais práticas e mais teóricas, permitindo-me ter uma visão mais aprofundada do fenómeno, visto que desta forma, o fenómeno é analisado de diferentes perspetivas. Realizei sete entrevistas, quatro delas a alunos de mestrado e as restantes três a alunos do 3ºano de diferentes licenciaturas. 40 Nas entrevistas que realizei, os entrevistados foram incentivados a declarar as suas opiniões sobre diferentes assuntos, muito particularmente, sobre a adaptação ao período pandémico, sobre a aprendizagem nesse mesmo período, sobre as medidas tomadas pela Universidade do Minho, sobre a qualidade do ensino superior durantes os 2 confinamentos, sobre como foram adquiridos os conhecimentos mais práticos durante os últimos 2 anos letivos, sobre a possibilidade de abandonar os estudos, sobre a temática das desigualdades sociais e as suas perceções com reflexo no ensino superior, sobre as implicações sociais e económicos no acesso à educação durante a Covid-19, sobre a saúde mental dos alunos universitários durante esse mesmo período e por fim as alterações na socialização durante os confinamentos. Com esta análise, procuro compreender as diferentes perceções em relação ao fenómeno em estudo, mas também retirar conclusões sobre aquilo que pode ser feito caso um novo confinamento surja. 1.1. A aprendizagem e o nível de ensino durante o período pandémico Relativamente à aprendizagem e ao nível de ensino durante o período pandémico, os entrevistados, de uma forma geral, entendem que o ensino perdeu alguma qualidade, referindo o acesso aos meios tecnológicos como o principal responsável. O entrevistado A (2ºano de mestrado em sociologia), revela não ter qualquer dúvida, afirmando que a aprendizagem e o nível de ensino saíram prejudicados, usando como exemplo o acesso diferenciado que cada estudante têm ao uso da Internet, referindo ainda que o ensino presencial é mais enriquecedor com ensino à distância. “Eu penso que sim. Aliás , eu penso que nessa questão não tenho qualquer dúvida, porque eu acho mesmo que, o ensino presencial e o ensino à distância em si já é bastante diferenciador, por exemplo, há pessoas que têm melhor acesso à internet, neste caso que outros isso já pode condicionar os resultados e depois também acho que mesmo que apesar de, lá está ser, ahhh, mais fácil apesar de imagina quem está em isolamento quer não esteja têm acesso às aulas na mesma eu penso que o ensino presencial é muito mais enriquecedor que o ensino à distância (pausa) por isso logo a partir daí eu acho que já, sim, jáa aumentou as desigualdades entre os alunos.” (Anexo nº3) A entrevistada B (3ºano da licenciatura em sociologia), acha que a aprendizagem e o nível de ensino foram prejudicados pelas restrições pandémicas, tem como ponto de referência o primeiro semestre do primeiro ano ter sido sem restrições. Refere o facto de ninguém estar 41 preparado para ter aulas online, da informação não ser passada da mesma forma, referindo ainda a dificuldade de estar atento nas aulas online. “É assim, acho que sim, porque tendo em conta que nós tivemos a experiência do primeiro semestre do primeiro ano ter sido normal. É claro que, é assim eu acho que, nós entramos numa numa altura em que ninguém estava preparado para ter aulas online da mesma forma que os professores não estavam preparados para dar aulas online, o programa estava tudo planeado para ser de uma forma normal automaticamente essa alteração fez como que, eu acho que, de certa forma informação não passe tão bem, eu falo por mim. Até porque estando online é muito mais difícil de estar atento, não captamos a informação da mesma forma, e eu no meu entender acho sem dúvida que aprende-se pior online do que presencialmente.” (Anexo nº4) A entrevistada C (3ºano da licenciatura em química), quando eu coloquei a mesma questão respondeu-me perentoriamente que sim. Senti por isso necessidade de lhe perguntar em que níveis é que o ensino e a aprendizagem tinham sido prejudicados, tendo a entrevistada respondido que a barreira de transmissão de informação havia sido prejudicada. “Por exemplo, acho que dificultou assim uma barreira de transmissão de informação, porque nada assegura o bom funcionamento dos sistemas de ensino remoto a qualquer momento, principalmente o que é providenciado pela universidade, então meu deus e mesmo assim houve, acho que nós aprendemos melhor quando temos aquela barreira, por exemplo, eu nas aulas era a única com a câmara ligada e parece que não tanto os alunos como os professores isso impacta muito a experiência das aulas online e sim houve uma diferença exponencial as notas até até se verificam nas notas que houve uma enorme discrepância.” (Anexo nº5) Quando interroguei a entrevistada C, se essa discrepância de notas havia aumentado ou diminuído as notas, ela respondeu-me prontamente que tinha diminuído as notas. Interroguei-a ainda sobre se só a aprendizagem em aula, havia sido prejudicada ou facto de o acesso a uma biblioteca ter sido condicionado e se não dificultou o acesso à informação, ao que entrevistada me responde que não porque estamos na melhor época de aceder à informação via online. “Diminuiu as notas.” (Anexo nº5) “Acho que não, porque na Internet com os conheci outros 2 é muito difícil de não aceder a informações, foi só mesmo no sentido das aulas em si. Agora o acesso à informação não, porque estávamos acho que melhor época do que esta para se ter a informação online não há melhor.” (Anexo nº5) 48 A questão da qualidade do ensino superior, devido aos constrangimentos da pandemia não teve uma resposta unânime. Alguns entrevistados consideraram que houve uma perda de qualidade, outro considera que o ensino superior não perdeu qualidade e outro entrevistado assume não saber se a qualidade foi afetada. Algumas causas apontadas para a perda de qualidade são o facto dos professores e os alunos estarem mais sobrecarregados; a dificuldade na transmissão da informação e posterior lembrança da matéria lecionada; o facto de as atividades mais práticas terem sido muito afetadas; o acesso ao professor se ter tornado mais complexo e difícil. Contudo, alguns destes entrevistados consideram que no regresso à normalidade, ou seja, às aulas presenciais, essa qualidade foi restabelecida. Achas que nos últimos 2 anos o ensino superior perdeu qualidade devido aos constrangimentos da pandemia? Sim Não Na interação com o professor Nos confinamentos Não sabe Entrevistado A Entrevistada B Entrevistada C Entrevistada D Entrevistado E Entrevistada F Entrevistada G Tabela 1 – Opinião sobre a qualidade do ensino superior devido aos constrangimentos da pandemia 1.3. As medidas tomadas pela Universidade do Minho Os entrevistados foram questionados sobre, se no seu ponto de vista, as medidas tomadas pela Universidade do Minho, no que ao combate às desigualdades de acesso às aulas online diz respeito, foi o mais adequado. Obtive respostas bastante diversas, com entrevistados a revelarem desconhecimento das medidas, outros a considerar que as medidas tomadas pela universidade foram boas, uma entrevistada que considerou que as medidas não tinham funcionado e um entrevistado que não foi questionado porque não frequentava a Universidade do Minho quando estas medidas foram tomadas. 49 Quando questionado sobre as medidas tomadas pela Universidade do Minho, o Entrevistado A, revelou não ter conhecimentos das medidas, senti por isso a necessidade de dar dois exemplos como o fornecimento de computadores a quem não tinha e o aumento da capacidade da internet a quem não tinha uma internet boa. O entrevistado considerou que essas duas medidas por si só já seriam boas, mas revela que em outros aspetos a universidade não consegui chegar, ou não era sua responsabilidade. “É assim, eu acho que, por acaso não tinha noção das medidas, não não tenho acompanhado, mas eu acho que é uma das boas medidas, por isso também não posso dizer ao certo quais é que se está aquém ou se forma suficientes, mas eu penso que essas duas medidas já por si seriam boas, não é? Só que acho que também há outras coisas, também que talvez a universidade não tenha chegado, talvez se cabe a outros fatores para além da universidade, talvez o próprio governo ou assim, não sei, também é uma questão só estou apenas a levantar a hipótese, não é?!” (Anexo nº3) A entrevistada B, apesar de revelar não ter muito conhecimento das medidas, considera que as medidas tomadas pela universidade foram adequadas. “É assim, eu não estou muito dentro do assunto, mas realmente eu acho que me lembro da altura de ter visto um anúncio, ou alguma coisa a falar de realmente fornecerem Internet aos alunos que não têm, que não tinham capacidade para isso. Nesse caso, sim acho que acho que foi o mais adequado, porque obviamente que sabemos que nem toda a gente tem acesso ao mesmo tipo de material, a computador melhor, a computadores piores, a Internet melhores, internets piores, por isso sim, acho que se foram, bons, boas medidas por parte da universidade.” (Anexo nº4) A entrevistada C, quando questionada sobre as medidas tomadas pela Universidade do Minho respondeu prontamente que não, e ao concretizar disse que a plataforma que havia sido desenvolvida para pedir o computador tinha um prazo muito curto para efetuar esse pedido. “Não. Posso desenvolver?” (Anexo nº5) “Principalmente porque (assume uma função dentro da turma) eu tinha algumas colegas que não tinham acesso à Internet nem ao computador, por exemplo. Ahh… e aquela plataforma que eles tiveram para emprestar computadores, aquele tinha um prazo muito estrito de candidaturas então não, eles não, pouco ajudaram, na minha opinião.” (Anexo nº5) Senti necessidade de questionar a entrevistada sobre o modo como as colegas conseguiram aceder a computadores e a internet, tendo respondido, que se arranjaram de outra forma e que uma delas veio para a residência. Então questionei se o apoio da 50 universidade não ajudou, se foram outros meios que elas procuraram para solucionar o problema, a entrevistada respondeu que sim. “Foram prejudicadas, mas elas tentaram fora ou por outras vias arranjar computador, por exemplo, uma delas veio para a residência em vez de estar na cidade dela, quando podia estar perfeitamente em casa.” (Anexo nº5) “Sim. Exatamente.” (Anexo nº5) A entrevistada D, considera que as medidas tomadas pela Universidade foram boas, no sentido de fornecer matérias aos alunos. “É assim, eu acho que sim, no sentido em que dar materiais a todos para nós termos menos contato com uns com os outros sim (…)” (Anexo nº6) Contudo, na mesma resposta a entrevista aborda o regresso à Universidade, e diz que as janelas e portas abertas no inverno não foram benéficas. “mas, por exemplo, quando havia aulas ainda presenciais e uma das medidas era, por exemplo, a janela e as portas estarem abertas em pleno inverno, por exemplo, acho que essa foi uma das medidas que não, tudo bem que nós compreendemos porque tem que estar a arejar e tudo mais, mas tipo imagina queriam tentar resolver mas não mas davam condições, por exemplo, querem retirar uma coisa mas tinham que dar outra, ou seja, abrir as janelas mas tinhas que ter condições para não estares ali ao frio.” (Anexo nº6) Questionei a entrevistada se considerava que as pessoas com mais dificuldades haviam saído mais prejudicas, a entrevistadora respondeu de forma afirmativa. “Sim. Acho que sim, porque mesmo que emprestem computadores e esses meios tecnológicos nem toda a gente tem Internet, mesmo que tenhas um computador e não tenhas uma boa Internet, ou não tenhas mesmo Internet, têm que se deslocar à biblioteca ou a casa de alguém é uma adaptação, um esforço ainda maior por isso sem dúvida que sim, saíram mais prejudicadas.” (Anexo nº6) O entrevistado E, não foi questionado sobre as medidas tomadas pela Universidade do Minho porque o ano letivo de 2021/2022 foi o seu primeiro ano na Universidade. A entrevistada F, quando questionada sobre as medidas tomadas pela Universidade do Minho, considera que a Universidade fez o melhor que conseguia numa situação que era nova para toda a gente. 51 “É assim, é como eu disse anteriormente, isto foi tudo novo para toda a gente, então eu acho que a universidade, na minha opinião, deu o seu melhor para tentar combater isso. Agora também não deve ser fácil conseguir arranjar não sei quantos computadores, não sei quantas Internet para as pessoas, porque eu soube que houve pessoas que não tinham Internet em casa, em que foi necessário fornecer Internet, então eu acho que eles deram o seu melhor e que isso ajudou muito no combate à desigualdade, mesmo os professores mantinham-se assim disponíveis para ajudar quem não conseguir ir a um computador ou assim que sem dúvida.” (Anexo nº8) Como a entrevistada aborda a questão dos docentes, decidi perguntar-lhe se os professores tinham sido colaborativos nesse aspeto, ao que a entrevistada me respondeu que sim. “Sim, sim. Mesmo quando falhava a net e tudo os professores não ficavam assim parece que chateados, eles compreendiam que era uma situação complicada.” (Anexo nº8) A entrevistada G, quando questionada pediu para lhe dizer algumas medidas, quando disse duas medidas a entrevistada disse não fazer ideia. “Pois. Não faço ideia, se calhar podia, se calhar não podia, se calhar havia pessoas que mesmo assim não conseguiam, mas alguns provavelmente podiam ter uma sala para mesmo para as pessoas que estavam eu sei que era um bocado complexo fazer isto mas sei lá, talvez ter uma sala com, e as pessoas estavam todas lá de máscara, desinfetavam as mãos e testavam-se para estar lá, porque dar computadores e dar Internet é sempre muito fácil, mas depende do contexto em que a pessoa está, por acaso estávamos a falar disto numa aula durante esta semana, ahh…(pausa), porque, sei lá não é assim tão linear isso.” (Anexo nº9) Relativamente às medidas desenvolvidas pela Universidade do Minho, foi notório um desconhecimento das medidas, havendo a necessidade de dar alguns exemplos para que pudessem falar sobre o assunto. A entrevistada que assumiu que as medidas não tinham sido adequadas, revelou conhecimento das medidas, abordando a questão do tempo reduzido para se inscrever nas plataformas desenvolvidas pela universidade. Os outros entrevistados, afirmam que a universidade fez o que lhe era possível, atendendo ao fator de novidade e ao elevado número de alunos que frequentam a Universidade do Minho. 52 As medidas tomas pela Universidade do Minho no que ao combate às desigualdades de acesso às aulas via online diz respeito, foi o mais adequado? Sim, foram boas medidas Não, as medidas não funcionaram Não tem conhecimento das medidas Não foi questionado, porque não frequentava a UM Entrevistado A Entrevistada B Entrevistada C Entrevistada D Entrevistado E Entrevistada F Entrevistada G Tabela 2 – Opinião sobre as medidas tomadas pela Universidade do Minho 1.4. Adaptação aos meios métodos de ensino à distância Quando interrogo os entrevistados sobre a adaptação aos meios e métodos de ensino à distância, a grande maioria diz-me que foi difícil adaptar-se, com apenas dois entrevistados a afirmar terem conseguido uma boa adaptação. Questionados se essa adaptação foi mais complicada no primeiro ou no segundo confinamento, sete deles respondem que no primeiro confinamento, apenas um defendendo que foi mais complicado no segundo confinamento. O entrevistado A, que à data do 1º confinamento, estava no último ano da licenciatura em Sociologia, encontrava-se a realizar um relatório e tenta enquadrar como foi esse momento. “Ahh. É assim, o que me recordo. Eu penso que foi no terceiro ano da licenciatura, nós estávamos a fazer, neste caso, (…) Nós estávamos a fazer relatório, eu estava pelo menos a fazer relatório. Isto surgiu de repente, passamos todos para o digital. Entretanto as bibliotecas ficaram fechadas, nós não tínhamos o sistema, por exemplo, do VPN para ligar à Universidade para fazer as tais pesquisas. Ahh… E depois, por exemplo, eu lembro de alguns colegas meus, por exemplo, de estar a fazer estágio, os estágios serem todos cancelados e de facto passarem todos para relatório já com bastante atraso, por isso eu acho que, lá está a universidade respondeu dentro do possível, não é?! Que era uma situação totalmente nova, mas eu penso que custou a toda a gente, sem dúvida nenhuma.” (Anexo nº3) 53 Quando questionei o entrevistado sobre se essa adaptação tinha sido mais complicada no 1º ou no 2º confinamento, o entrevistado responde-me que no primeiro era tudo novidade, mas que o segundo foi mais intenso, ele fala do período que antecedeu o 2ºconfinamento, onde se registava um elevado número de mortos e infetados. “Ahh. É assim, eu penso que no primeiro, lá está foi a questão da novidade, as pessoas não sabiam como reagir digamos assim. O segundo as pessoas já tinham uma noção, mas acho que foi mais intenso, foi mais restritivo, digo eu. Á partida, pelo menos foi o que eu senti, tanto se calhar pelo número de mortos, disto dos infetados eu acho que também mexeu, acho que com toda a gente, não é?! Uma pessoa às vezes ia para a universidade e sentia, por exemplo, antes desse caso do confinamento e senti que andamos aqui e nem sabemos se isto é seguro, não é?! Com tando número de infetados e tantos mortos e havia sempre aquela perceção de que não era seguro ir à universidade e as razões. A falar por mim até preferia em certa parte, neste caso está o ensino à distância totalmente do estar a deslocar-me à universidade para ter aulas.” (Anexo nº3) Questionei-o se o que o deixava mais receoso era a segurança, ele justificou que sim porque vivia com a avó. “Por exemplo, eu vivo com a minha avó, por exemplo, eu tenho 83 anos é mais sensível, por exemplo, a parte boa que havia se calhar a transmitir ou neste caso de apanhar e estar em casa era muito grande, não é?! E sentia sempre aquela, não sei, aquela responsabilidade aquele peso.” (Anexo nº3) A entrevistada B, considera que a adaptação do meios e métodos de ensino à distância foi difícil. “Difícil. É difícil, porque é assim, por muito que nós estamos numa geração muito ligada à tecnologia, por muito que estejamos habituados a isto é é sempre complicado estar 2 horas a olhar para um computador e estar 100% atento àquilo que nos estão a dizer, que sem, sei lá, porque ainda por cima estamos estamos em casa, estamos no nosso meio, facilmente qualquer coisa nos distrai, e sim nesse sentido foi difícil.” (Anexo nº4) Perguntei-lhe se o facto de estar online, e conseguir aceder em simultâneo a diversas redes sociais, por exemplo, se havia dificultado a concentração e se no final teve impacto na aprendizagem, ao que a entrevistada me respondeu que sim. “Sim, sem dúvida, porque assim, até a tentação maior e temos os meios para o fazer, portanto torna tudo mais fácil, não é?!” (Anexo nº4) Questionei-a se essa dificuldade havia sido maior no 1ºou 2º confinamento, respondeu-me que no primeiro essa adaptação tinha sido mais complicada pelo fator novidade. 54 “Eu diria no primeiro, porque assim no segundo já tínhamos passado um semestre inteiro a ter aulas assim, portanto já sabíamos que íamos enquanto que da primeira vez foi foi um choque e ninguém sabia como é que ia funcionar. Mesmo relativamente às avaliações e tudo, as pessoas não sabiam se iam ter avaliações presenciais ou não, por isso sim acho que foi no primeiro.” (Anexo nº4) Interroguei-a se considerava que a adaptação, do primeiro para o segundo confinamento, não havia sido só mais fácil para os alunos, mas também para os docentes, ao que entrevistada me respondeu que sim. “Sem dúvida. Porque assim, já tinha uma experiência, já sabiam se calhar já tinha outras técnicas de tentar captar os alunos, de fazer as aulas, se calhar de forma mais dinâmica. Tendo em conta que, estávamos todos com acesso aos computadores, por exemplo, não sei passar um vídeo ou algo que captasse mais, que fosse mais alusivo e por isso sim, acho que o segundo foi mais fácil.” (Anexo nº4) A entrevistada C, diz ter-se adaptado bem aos métodos e meios de ensino à distância. “Eu eu adaptei-me bem, mas acho que tive assim, acho que todos no fundo saímos um pouco prejudicados que é muito difícil estar atento estas horas todas e porque eu tentei ao máximo também fazer com que os professores não se sentissem sozinhos eu ligava sempre acaba era a única e honestamente não não me importava nada” (…) (Anexo nº5) Questionei a entrevistada sobre a adaptação aos métodos de avaliação via online, ao que entrevistada me responde que teve diversos métodos de avaliação, e nunca havia tido notas tão baixas na universidade, refere o curto período para realizar as avaliações, considera que os professores não se adaptaram muito bem aos métodos de avaliação online, acabando os alunos por sair prejudicados. “Então, tive bastantes métodos de avaliação e acho que nunca tive notas tão baixas na universidade. Foi bastante mau (…) eles prejudicaram no sentido de um teste que normalmente era para 2 blocos de 1 hora, por exemplo, em 60 minutos, como é que é suposto nós fazermos um teste enorme em 60 minutos?! Então nesse sentido fomos prejudicados, sim. Porque eles também, eles não se adaptaram muito bem ao regime de avaliação online acho eu, não é só os alunos, mas também houve uma falta de compreensão da parte deles. Não houve adaptação da parte deles literalmente.” (Anexo nº5) Quando interrogo a entrevistada, sobre se a adaptação teria sido mais complicada no primeiro ou no segundo semestre a entrevistada responde prontamente que no primeiro, e eu volto a interrogar se foi por causa da novidade e ela responde-me que sim, e aborda o facto dos professores no primeiro confinamento terem tido mais dificuldade em adaptar-se. “No primeiro. No primeiro.” (Anexo nº5) 55 A entrevistada D, revela que foi um bocadinho difícil adaptar-se aos métodos e meios de ensino à distância, muito porque tem dificuldade em concentrar-se. “É assim, foi um bocadinho difícil. Porque eu a nível de concentração tenho muitas dificuldades e foi como eu referi há um bocado, tu em casa tens mais distrações e para mim é mais fácil tu teres o contato com o professor estares ali numa sala de aula do que em casa só, porque nós tínhamos a aula e depois tínhamos mais estudo sozinho, não é?! Não tens tanto acompanhamento, e eu para mim nesse sentido foi mais difícil acompanhar porque tu sentes-te mais desamparada por assim dizer.” (Anexo nº6) Quando lhe pergunto se a adaptação foi mais difícil no primeiro ou no segundo semestre, ela responde prontamente que no primeiro. “No primeiro. No primeiro, porque foi tudo novidade e então claro pronto a pessoa sente um bocadinho perdida, no segundo já estás mais ambientado.” (Anexo nº6) Interroguei-a então, sobre se considerava que essa adaptação tinha sido mais fácil no segundo confinamento porque já estava adaptada, ou achava que os professores também já estavam mais preparados para adequar a maneira de lecionar ao ensino online no segundo confinamento, ao que entrevistada me responde que que sim, porque os alunos já tinham dado o seu feedback, e os professores puderam melhorar os aspetos menos positivos da segunda vez. “Sim. Sim. Sim, porque nós também já tínhamos dado a nossa perspetiva do que é que correu bem e o que é que correu mal e eles também puderam melhorar isso para a segunda vez.” (Anexo nº6) O entrevistado E, considera que a adaptação aos meios e métodos de ensino online ocorreu bem, dá como justificação o facto de anteriormente ter participado em projetos e reuniões de grupo online e não ser uma novidade tão grande. “Ahh… Ocorreram bem, (…) opá… também era, as minhas condições em casa eram boas e os meus pais também, os meus pais são professores então pronto para tentar contextualizar, eu estava em casa a fazer a mesma coisa só pelo lado oposto, ahh…, portanto estávamos todos já entrar nessa rotina de ter aulas online, acho que que me adaptei bem basicamente. Penso que eu e a maioria dos meus colegas tinham o privilégio, que é o que foi, o privilégio de ter uma boa ligação à Internet e um computador que funcionasse bem, (…) Mas do meu lado acho que que houve uma boa adaptação, ao início ainda havia alguma dúvida sobre as plataformas, por exemplo, havia professores que preferiam Skype, havia professores preferiam outras coisas assim mais estranhas, sei lá, outras plataformas estranhas que eu 56 nunca ouvi falar, depois o Zoom começou a ser a plataforma oficial, não apenas da UP (Universidade do Porto), mas imagina acho que todas as universidades, portanto é uma plataforma que funciona bem, na minha opinião, e permitiu ahh…, uma boa adaptação. Eu também já tenho alguma, por causa da participação em projetos, em grupos já fazíamos reuniões online, portanto não foi assim um choque tão grande entrar para os meios online totalmente, (…).” (Anexo nº7) A entrevistada F, considera que a adaptação foi um bocadinho complicada no início, mas que depois as pessoas foram começando a adaptar-se. “Um bocadinho complicado ao início, porque passámos ter uma aula toda assim interativa não é, estar a ver as outras pessoas torna mesmo nós conseguimos estar um pouco mais atentos passar para ter em casa e temos todo o tipo de distrações possíveis, pessoas á nossa volta, pessoas que entravam pela sala a dentro, tivemos foi complicado, depois as pessoas foram começando a aprender não é mesmo com os professores é engraçado ver às vezes vemos animaizinhos deles a passar isso era engraçado, mas foi complicado no início.” (Anexo nº8) Quando a questionei sobre se sentiu maior dificuldade no primeiro ou no segundo confinamento, a entrevistada respondeu-me que no primeiro porque não estavam à espera. “No primeiro nós não estávamos à espera no segundo nós já estávamos habituados.” (Anexo nº8) Interroguei-a sobre como é que foi o processo de avaliação e a respetiva adaptação a esse processo, ao que entrevistada me responde que um verdadeiro terror. “Terror, foi um verdadeiro terror. Porque assim, na escola já e já temos o stress é normal em casa temos um stress acrescido de poder falhar na net poder entrar alguém pela sala dentro, depois houve toda uma situação daquilo que eles porem a Blackboard para nós não copiarmos, alguns computadores não estavam a aceitar, outros estavam a bloquear depois sabermos que tínhamos uma câmara ligada virada para nós e o menor desvio de olhar aquilo podia alertar o professor lá foi foi incrível, incrivelmente mal, isso foi muito mau e assim foi mais fácil porque não termos que estar ali não, estamos com aquela pressão, estar ali numa sala e não sei quê, mas ao mesmo tempo tornou-se mais difícil por causa de todo o resto.” (Anexo nº8) A entrevistada F, respondeu-me que a adaptação foi mais complexa no primeiro confinamento. “Foi no primeiro, eu no segundo já estava habituada.” (Anexo nº9) Perguntei-lhe se considerava que os professores também já estavam mais habituados no segundo confinamento, ao que entrevistada me responde que sim. 57 “Sim. Eu julgo que tive alguns professores que tinham tido formação, entretanto, e foi um ponto positivo.” (Anexo nº9) Questionei-a ainda sobre se considerava que a forma como usavam as aulas e avaliavam os alunos no segundo confinamento era um bocadinho mais justa, ao que a entrevistada me respondeu que comparando com o primeiro confinamento sim, mas mesmo assim não era justa. “Mais justa do que tinha sido no primeiro confinamento, mas mesmo assim claramente não era justa.” (Anexo nº9) Relativamente à adaptação aos meios e métodos de ensino à distância, os entrevistados não foram unânimes nas suas respostas. Os entrevistados que revelam que essa adaptação foi difícil, apontam algumas causas como, por exemplo, a novidade da situação, a questão de estar atento durante 100% do tempo, porque se está em frente ao computador durante muito tempo, e a falta de acompanhamento é outros dos aspetos apontados. Essa adaptação, para a maioria dos entrevistados foi mais complicada no primeiro confinamento pelo fator novidade. Contudo, um dos entrevistados refere que essa adaptação foi mais complicada no segundo confinamento pelo medo, devido ao elevado número de casos que se registaram no início desse mesmo confinamento. Como foi a adaptação aos meios/métodos à distância? Difícil Adaptou-se bem Entrevistado A Entrevistada B Entrevistada C Entrevistada D Entrevistado E Entrevistada F Entrevistada G Tabela 3 - Como os entrevistados se adaptaram aos meios e métodos de ensino à distância 64 “Não.” (Anexo nº5) Perguntei-lhe então, se considerava que a situação pandémica teria levado mais alunos a abandonar os estudos, ao que responde que achava que não. Dando o exemplo das pessoas que moravam longe, uma vez que o facto de não perderem tempo nos transportes terá facilitado. “Acho que não. Acho que não porque até, acho que tivemos até a situação um pouco facilitada, por exemplo, há pessoas que moram longe e tiraram proveito, acho que têm mais tempo para estudar e para estarem em casa isso tudo, não perder a tempo em transporte então acho que não, acho não.” (Anexo nº5) A entrevistada D, diz-me que nunca pensou em desistir, mas que quando uma pessoa se sente mais desmotivada isso acaba por passar pela cabeça. “É assim, desistir, desistir nunca pensei, mas claro que uma pessoa fica mais desmotivada isso passa pela cabeça, apesar de que depois podíamos nunca o fazer, desistir totalmente, mas passa pela cabeça, sem dúvida.” (Anexo nº6) Questionei-a, se a pandemia terá levado mais alunos a pensar em desistir da universidade, a entrevistada responde-me que sim, porque não é fácil andar na universidade, e que numa altura de confinamento as pessoas sentiam-se mais tristes. “Sim, porque a andar na universidade tem muito que se lhe diga e é mais difícil do que muitos pensam, e por vezes nós não temos muito com quem desabafar e sentimo-nos muito sozinhos e e já é difícil com tanta coisa para estudar, tanta coisa para fazer e muitos também trabalham enquanto estudam e já é complicado, então numa altura de confinamento que as pessoas estavam mais tristes, mais abaladas, sim penso que sim.” (Anexo nº6) O entrevistado E, quando questionado sobre pensar em abandonar os estudos, respondeme prontamente que não. “Não. Resposta curta não, não pensei.” (Anexo nº7) Quando o interroguei, sobre considerar que a situação pandémica terá levado mais alunos a pensar em desistir da universidade, ele responde-me que no seu curso, pelo menos no seu ano, não se recordava ninguém que tivesse desistido. “Eu pessoalmente, o meu curso, no meu ano tinha umas 60 ou 70 pessoas, assim de repente não me lembro de ninguém que tenha abandonado os estudos, nem estou a pensar nas questões financeiras, 65 obviamente que isso é outra questão, por questões de não gostar de ter aulas online não me lembro de ninguém, obviamente que as pessoas queixavam e diziam que é a minha vida neste momento a ter aulas online todo o dia, mas opá é aquilo que se diz nós também, por acaso eu estava no segundo ano não estavam no terceiro, mas acho que já havia um ano e meio de investimento é aguentar, é prosseguir e todo mundo conseguiu fazê-lo (…) acho que era uma obrigação que tínhamos que dar o nosso melhor podia não ser com os melhores resultados sempre mas tínhamos um bocado essa obrigação do ponto de vista de fazer o nosso melhor apesar da situação.” (Anexo nº7) A entrevistada F, diz-me que nunca pensou em abandonar os estudos. “Não, nunca me passou pela cabeça, às vezes brincava com a situação, mas não a sério.” (Anexo nº8) Por sua vez, quando a questionei se considerava que a situação pandémica teria levado mais alunos a pensar em desistir da universidade ela responde-me que acreditava que sim. “Eu acredito que sim, porque o confinamento fez com que as pessoas ficassem muito ansiosas, algumas deprimidas e então juntar à sensação de ansiedade por causa de um confinamento juntar a ansiedade está num curso que mudou completamente, eu acredito que muitas pessoas podem ter nem saído da universidade, mas podem ter pensavam, pelo menos pensado acredito que sim.” (Anexo nº8) A entrevistada G, quando questionada sobre ter pensado em abandonar os estudos, responde-me que não sabe se foi durante a pandemia, mas que no seu primeiro ano isso aconteceu. “Ahh (pausa)… Durante a pandemia não sei, mas no meu primeiro ano sim, agora se já estamos na pandemia não, é uma boa questão. Era eu a pensar “fogo não sei o que é que eu estou aqui a fazer”, mas claro que não ia, mas foi “não sei estou aqui a fazer às vezes”.” (Anexo nº9) Perguntei-lhe então se considerava que a pandemia teria levado mais alunos a pensar em desistir da universidade, ela respondeu-me que achava que sim. Perguntei-lhe se olhando à sua volta, esse pensamento tinha passado pela cabeça dos que a rodeiam, ela respondeu-me que esse pensamento lhes tinha passado claramente pela cabeça. Questionei então se esses pensamentos surgiram por causa do curso, pela situação pandémica, pelas aulas serem online ou por não conviverem com os colegas, ao que ela me respondeu que era um bocado de tudo. “Eu acho que sim.” (Anexo nº9) “Passou. Passou. Claramente sim.” (Anexo nº9) 66 “Acho que é um bocado de tudo, sim, era por o curso ser demasiado teórico, estarmos online e não haver convívio, não haver vida social, não haver, acho que foi um bocado da junção de todos os fatores.” (Anexo nº9) O pensamento de abandonar os estudos não ocorreu em todos os alunos. Dois alunos assumem que isso lhes passou pela cabeça, mas um deles revela que não foi por causa da pandemia e outros quatro entrevistados revelam que não pensaram em abandonar os estudos. Pensou em abandonar os estudos durante a pandemia? Sim, passou pela cabeça Sim, mas não por causa da pandemia Não Não, mas passou pela cabeça Não sabe se esse pensamento ocorreu durante a pandemia Entrevistado A Entrevistada B Entrevistada C Entrevistada D Entrevistado E Entrevistada F Entrevistada G Tabela 5 - Opinião sobre o pensamento de abandonar os estudos 1.7. As perceções das desigualdades sociais com reflexo no ensino superior A questão das desigualdades sociais e as suas perceções sobre o seu possível agravamento durante a pandemia, não é unânime entre os entrevistados. Ainda assim, a maioria considera que houve um agravamento das desigualdades sociais com reflexo no ensino superior e referem vários aspetos que podem ter sido afetados, como é o caso do acesso ao ensino superior, a perda de rendimento que a pandemia originou e a questão de diferentes equipamentos, alguns deles com pior qualidade. Há ainda uma entrevistada que diz não saber até que ponto as medidas tomadas pela Universidade do Minho solucionaram o problema, mas refere que deveria ter havido um ajuste no valor das propinas. A última entrevistada diz 67 que no seu entender não houve um agravamento das desigualdades sociais, mas refere que as pessoas que a rodeiam são de classes mais elevadas, comprometendo por isso uma real perceção. O entrevistado A, quando questionado se considera que a pandemia terá levado a um agravamento das desigualdades sociais com reflexo na frequência no ensino superior responde de forma afirmativa e dá o exemplo dos alunos do 12ºano que pretendem entrar na Universidade. “Sim, eu penso que sim. Por exemplo, a própria tem acompanhado, por exemplo, acho que foi este ano, o ano passado, que foi a questão dos exames nacionais do ensino, por exemplo, o acesso ao ensino superior no 12º ano em que lhes foram facultados por exemplo quem, o aluno é que decidia que tipo exame queria fazer entre português ou matemática ou português e história eu penso que esse aspeto eles foram facilitados, mas também foram prejudicados por que as médias subiram bastante, não é?! E neste caso só entrou para as universidade que queriam quem tinha já uma média em si bastante elevada, logo aí já foi um fator, ou seja, foi uma medida para mim promover digamos assim a maior inserção no ensino superior, ou seja, para combater as desigualdades que a pandemia suscitou no entanto, eu penso que, ela aumentou ainda mais foi a desigualdade(…)” (Anexo nº3) À mesma questão, a entrevistada B, respondeu-me que não sabia se as medidas tomadas pela universidade tinham capacidade de abranger todos os alunos, mas que provavelmente tinha havido alunos, que tinham sentido mais dificuldades em assistir a aulas online do que outros alunos. “É assim, eu não sei, até que ponto as medidas que a universidade pôs em prática seriam capazes de abranger todos os estudantes da universidade e sabemos que não é fácil abranger todos, somos imensos, por isso provavelmente sim, provavelmente houve alunos que por terem um computador mais mau, ou por terem uma Internet mais má sentiram realmente mais dificuldade em aulas online do que os outros.” (Anexo nº4) Perguntei o que pensavas sobre a questão do acesso, e se a questão económica se agravara, por exemplo, com mais pessoas com dificuldades em pagar propinas. A entrevistada diz-me que as pessoas se sentiram um bocado injustiçadas, por estar a pagar o mesmo valor estando a ter aulas online e não presenciais. “Eu acho que acima de tudo, as pessoas sentiram de certa forma um bocado injustiçadas, o porquê?! Porque nós não estávamos na universidade, não estávamos a ter acesso às mesmas coisas e o facto de as propinas terem terem se mantido com o mesmo valor, eu acho que isso fez muita muita fez as 68 pessoas reagirem porque sem dúvida que nós não estamos a ter a mesma qualidade de ensino estamos a ter acesso às mesmas instalações e estávamos a pagar mesmo, ou seja, não era propriamente justo. Agora se a pandemia causou problemas ou piorou a possibilidade das pessoas em pagar as propinas eu não sei propriamente depende, por exemplo, eram trabalhadores-estudantes e ficaram sem trabalho e já não tinham meios, pronto, para pagar ou não, se não é mais no sentido de estarmos a pagar uma coisa que nós não estamos a usufruir.” (Anexo nº4) Questionei-a então, se considerava que devia ter havido uma redução no valor das propinas, ao que entrevistada me responde que sim, deveria ter existido um acerto. “Sim. Eu acho que sem dúvida que devia ter sido feito um acerto.” (Anexo nº5) Quando questionei a entrevistada C, se considerava que tinha havido um agravamento das desigualdades sociais com reflexo na frequência do ensino superior, ela pediu-me para desenvolver o conceito de desigualdade social. Depois de o ter feito, de uma forma bastante simplista ela respondeu-me que diria que sim, que tinha havido um agravamento. “Ok. Então acho que sim. Diria que sim. Diria que sim, ok.” (Anexo nº5) Perguntei-lhe então, em que aspetos é que ela considerava que as desigualdades se haviam verificado mais, ela respondeu-me que mais as sociais não tanto as económicas. “Não tanto as económicas, mais as sociais.” (Anexo nº5) A entrevistada D, quando questionava sobre o possível agravamento das desigualdades sociais respondeu imediatamente que sim, porque no ensino superior, nem toda a gente consegue aceder à bolsa, e com a pandemia houve pessoas que ficaram sem trabalho ou que passaram a receber menos. “Sim, porque no ensino superior nem toda a gente consegue ter essa sorte, mesmo que, nem toda a gente consegue ter acesso à bolsa, por exemplo, nem ter o acesso ao ensino superior, quer seja com a bolsa, quer não. E com a pandemia, há muitas pessoas que ficam sem trabalho, ou estou em casa e recebem menos, portanto isso não é prioridade para toda a gente e mesmo que seja, vai ter que ser posta um bocadinho de lado face às outras dificuldades, como manter uma casa, manter tudo no fundo, e isso fica um bocado de parte, portanto sim, aumentou as dificuldades para quem já as tinha.” (Anexo nº6) 69 Interroguei-a, sobre a possibilidade das pessoas que pretendiam ingressar no ensino superior poderem ter desistido por causa da pandemia e das consequências que dela advieram, ao que a entrevistada me respondeu que sim, de certeza que sim. “Sim, de certeza que sim, porque todos os meses pagámos propinas e depois também para nos deslocarmos para a universidade também pagámos transporte, fora os materiais que necessitemos, é muita despesa, e mesmo para quem já lá está se depois as dificuldades aumentam em termos financeiros, acredito que sim, porque são despesas a mais que se calhar se tu tiveres que ponderar entre comer e estudar, obviamente que vais optar por comer, por isso sim.” (Anexo nº6) O entrevistado E, quando questionei sobre as desigualdades sociais a resposta incidiu sobretudo sobre as desigualdades de acesso a equipamentos que permitam ter boas condições para assistir a uma aula, considerando que é injusto, é desigual que as pessoas não tenham as mesmas oportunidades. “Ahh… eu acho, pronto é a questão dos equipamentos e das condições de casa, havia muitas pessoas que realmente não tinham equipamentos bons, computador não funcionava bem, não tinham uma boa ligação à Internet, não tinham um bom ambiente em casa. (…) É injusto, é desigual e são oportunidades desiguais.” (Anexo nº7) Quando questionei a entrevistada F, sobre se teria havido um agravamento das desigualdades sociais, com reflexo na frequência do ensino superior, respondeu-me que não sabia, pelo que lhe perguntei se conseguia perceber o conceito de desigualdade social, respondeu-me que sim. Procurei então reformular a questão, perguntando-lhe se achava que com a pandemia, a desigualdade social entre alunos aumentara, ao que respondeu que sim, abordando a questão do lay off. “Sim, provavelmente, porque muitas pessoas, muita gente foi para lay off não é, então isso de certeza que prejudicou muita gente, houve trabalhos que continuaram, mas pelo menos as pessoas à minha volta muitas vieram para lay off e claro que se tornou complicado, principalmente para quem não tem bolsas deixa de ser uma ajuda que continua constante não é, mesmo para quem tem bolsa não é, porque esta às vezes é necessária uma parte extra, mas sim de certeza, infelizmente não é.” (Anexo nº8) Relativamente à entrevistada G, quando a questionei sobre se considerava ter havido um agravamento das desigualdades sociais, com reflexos no ensino superior, respondeu-me que não, justificando essa perceção pelo meio social em que se move. “(…) eu julgo que não. Pelo que eu vejo, mas também é assim a minha realidade é um pouco pequena, não é?! É apenas o que eu vejo aqui na universidade, mas (pausa) eu tenho uma realidade um pouco 70 mais fechada (…) de estatutos mais baixos na sociedade, talvez por eu ter andado num colégio privado e a maior parte dos meus amigos e das pessoas que conheço andarem também nesse colégio. Mas mesmo as pessoas que eu conheço cada um que andava no ensino público e que têm mais dificuldades, por mesmo assim ainda conheço algumas pessoas com dificuldades, a maior parte acabou o secundário e começou a trabalhar (percebeu-se pela expressão facial que fez que se tinha enganado) e começou a estudar, por isso.” (Anexo nº9) A questão das perceções das desigualdades sociais com reflexo no ensino superior não teve uma resposta unânime. Alguns dos entrevistados consideram que houve um agravamento das desigualdades sociais no ensino superior, uma entrevistada assume que não houve um agravamento das desigualdades, e por fim uma entrevistada admite não saber se as desigualdades sociais se agravaram. Recorrendo a um estudo desenvolvido sobre a temática das desigualdades sociais intitulado de “The impact of covid-19 on higher education: a review of emerging evidence”, é possível admitir que a médio prazo as preocupações recaíram sobre as desigualdades no acesso e na participação no ensino superior. Atendendo ao estudo, as projeções indicam que a pandemia irá aumentar as desigualdades educacionais pré-existentes, muito por causa do ensino à distância. Algumas das causas apresentadas são a falta de acesso aos recursos, a falta de um local adequado para estudar, a falta de apoio dos pais poderá ter como consequência, uma possível falta de aprendizagem, e originando em última instância um desinteresse pela educação que poderá causar a redução do número de pessoas mais desfavorecidas e subrepresentadas a frequentar o ensino superior. (Farnell, Matijeviÿ, & Schmidt, 2021, p. 10). É ainda possível afirmar, segundo as Nações Unidas, que num contexto global a pandemia está a agravar as desigualdades pré-existentes, tendo como consequência uma redução das oportunidades para os mais vulneráveis. (Farnell, Matijeviÿ, & Schmidt, 2021, p. 42) 71 Considera que, numa perspetiva geral, houve um agravamento das desigualdades sociais com reflexo na frequência do ensino superior? Sim Não Não sei Entrevistado A Entrevistada B Entrevistada C Entrevistada D Entrevistado E Entrevistada F Entrevistada G Tabela 6 - Opinião dos entrevistados sobre o agravamento das desigualdades sociais com reflexos na frequência do ensino superior 1.8. As implicações sociais e económicas no acesso à educação durante o Covid-19 Quando abordamos a questão das implicações sociais e económicas que a pandemia terá originado no acesso à educação dos alunos do ensino superior da Universidade do Minho as respostas não são unânimes, havendo entrevistados que procuraram analisar na perspetiva dos alunos que querem ingressar no ensino superior, ou seja, os alunos do 12º ano que realizaram os exames nacionais; e outros entrevistados, que analisam na perspetiva dos alunos que já frequentam o ensino superior e que com a pandemia viram a sua vida académica sofrer alterações, muitas delas sociais e económicas. O entrevistado A, quando questionado sobre quais as implicações sociais e económicos, que a pandemia de Sars-Cov-2 originou no acesso à educação dos alunos do ensino superior da Universidade do Minho, aborda, como já tinha feito anteriormente, a questão da transição do 12ºano para a universidade, falando na diferença entre escolas públicas e escolas privadas. “(…) da questão dos exames nacionais, à partida já condicionou logo a entrada no ensino superior, e depois também eu penso que a… esta pandemia também veio agravar, por exemplo, a questão das escolas privadas, não é?! Quem tinha à partida as médias mais inflacionadas é quem entra para o ensino superior, ou seja, obrigatoriamente são quem tem as notas mais altas, por exemplo, estou a falar, por exemplo, da Universidade do Minho, essas escolas, o que é que acontece, mando neste caso esses alunos, que têm boas médias para irem à Universidade do Minho enquanto que as restantes escolas secundárias, por exemplo, como tem médias mais baixas veem-se logo condicionadas com esta 72 concorrência, digamos assim, e essa disparidade de notas. Só isso, por exemplo, já condicionou a entrada para a Universidade, não é?!(…) ” (Anexo nº3) Senti, por isso, necessidade de lhe perguntar se no caso do ensino superior, considerava que tinha havido um condicionamento na qualidade dos trabalhos apresentados aos docentes, nomeadamente, tendo em conta o encerramento das bibliotecas e consequente agravamento das condições de trabalho. Respondeu que sim, que pensava que todos tínhamos sido prejudicados. “Sim, eu penso que saímos todos prejudicados. Eu lembro-me, por exemplo, de uma situação que foi na cadeira de, ou seja, no Seminário, digamos assim, no 3ºano da licenciatura, em que eu tinha, neste caso, de procurar a metodologia para o meu trabalho, para o meu relatório e a minha professora exigiame um livro em particular (…) e eu como não tinha acesso ao livro também não tinha no repositório, não é?! E eu, entretanto lembro-me da minha professora até se disponibilizar, isto foi uma boa prática, digamos assim, disponibilizar-se a vir até à minha casa para me entregar o livro. (…) Quem diz esse diz talvez outros que às vezes se nós chegássemos lá, a biblioteca tinha, mas online não tem, ou seja, tenho aqui que arranjar outra forma para fazer o meu trabalho, porque, lá está eu, já sai desde logo prejudicado ali um pouco por causa disso.” (Anexo nº3) A entrevistada B, quando questionada sobre as implicações sociais económicos no acesso à educação dos alunos do ensino superior, aborda a questão dos alunos do 12º ano, referiu um aspeto que lhe pareceu positivo a possibilidade de os alunos poderem selecionar os exames que pretendiam fazer. “É assim, nesse caso teremos de falar mais nas alterações podem ter sido feitas na, por exemplo, no 12º ano que faria com que as pessoas fossem aceder mais tarde, não é?! Eu acho honestamente, e como uma pessoa que foi fazer um exame nacional em tempo de covid para fazer melhoria, eu acho que sem dúvida, que nesse caso a pandemia ajudou. Porque primeiro porque os alunos não tinham de fazer exames a todas as disciplinas, ou seja, era muito mais fácil ficarem só naquilo e segundo porque mesmo os métodos de avaliação dos exames tornou-se completamente diferentes as notas foram muito melhores temos provas mesmo disso, ou seja, eu acho que em termos de acesso, facilitou o acesso.” (Anexo nº4) Coloquei a entrevistada perante um cenário possível, o de um professor que recomenda a leitura de um livro, argumentando que uma pessoa com capacidades económicas consegue facilmente comprá-lo, enquanto que, para um aluno que tenha mais carências económicas essa compra pode se tornar mais complicada. Perante esse cenário, perguntei-lhe se 73 considerava que o encerramento das bibliotecas não acentuou esta desigualdade de acesso à informação, tendo a entrevistada respondido que achava que sim. “Eu acho que sim, porque é assim, o curso de sociologia, sendo um curso extremamente teórico tem que ter uma base muito grande de informação e sem dúvida que toda a gente sabe que ter informação e papel no meio a mesma coisa que ter informação de um livro em papel nas minhas mãos ler ali do que ler mais por isso sim nesse sentido sem dúvida.” (Anexo nº4) A entrevistada C, quando questionada sobre as implicações sociais e económicos, não percebeu de imediato a pergunta, então reformulei-a, o que a levou a abordar o uso das plataformas, considerando que as ferramentas que a universidade proporcionou aos alunos dificultaram bastante a transmissão de informação. “Então, acho que já sei quem responde a esta pergunta. A plataforma, as plataformas da universidade não estão preparadas, não estão desenvolvidas para terem um grande os alunos a aceder, por exemplo, ao mesmo tempo à Blackboard, por exemplo. Então nesse sentido isso dificultou, agora em outros parâmetros não sei muito bem falar, mas mas diria que as ferramentas que a Universidade proporciona dificultaram bastante a transição porque não são as melhores, sendo honesta.” (Anexo nº5) Perguntei-lhe, se ela considerava que as aulas não conseguiam ser dada de forma contínua sem haver uma quebra, ao que me respondeu que sim, a não ser que os professores recorressem ao Zoom. Perguntei-lhe se o Zoom também não tinha quebras, respondeu-me que não, não tantas como a Blackboard. “Exato a não ser que os professores recorrem a ferramentas, por exemplo o Zoom, mas que não é providenciado pela universidade, então.” (Anexo nº5) “Não. Não, têm tanto como a Blackboard, numa aula com 140 pessoas, é desafiante.” (Anexo nº5) Perguntei-lhe, o que pensava sobre os alunos do 12º ano poderem escolher qual é que o era o exame nacional que iriam realizar, procurando saber se entendia que essa mudança facilitaria o acesso à universidade, tendo obtido a sua concordância. Interroguei-a, sobre se considerava que as pessoas mais favorecidas economicamente teriam tido vantagem nessa escolha, em comparação com as pessoas mais desfavorecidas, respondeu-me de forma afirmativa, dando um exemplo de poder ter só explicações para uma determinada matéria e assim maximizar o rendimento. 80 bastante tristes até e pronto se calhar a maioria, agora assim casos gritantes de precisar de apoio médico não me estou assim a lembrar de ninguém, mas oh pá de certeza que em tantas pessoas, nas cadeiras que eu tive de certeza que houve.” (Anexo nº7) A entrevistada F, quando questionada sobre a saúde mental dos alunos universitários durante os confinamentos referiu que a saúde mental de muita gente foi por “água abaixo”, refere que houve colegas que tiveram pela primeira vez crise de ansiedade e episódios depressivos. “Eu já me já me estou a rir porque, aí meu Deus, isso tão mau, foi sem dúvida, a saúde mental de muita gente foi por água abaixo, muita gente muita gente. Muita gente mesmo, tenho colegas que tiveram pela primeira vez crise de ansiedade, episódios depressivos, e depois estar sempre com os mesmos, e depois não é só as perturbações em cima, as próprias relações interpessoais que vão prejudicar a saúde mental, começam a ficar muito afetadas por causa da vivência em casa, o estar sempre uns com os outros, estar sempre a lidar as mesmas pessoas, sem um bocadinho de descanso sem poderem ir desanuviar, a saúde mental piorou imenso, imenso mesmo.” (Anexo nº8) Tendo a entrevistada falando que houve colegas que tiveram dificuldades e um agravamento da saúde mental, perguntei-lhe se me conseguia dar um exemplo concreto e até que ponto isso tinha impactado a vida social e os estudos, revela que essa colega chegou a ir a um psiquiatra, entre o primeiro e o segundo confinamento. “Posso. Eu não estou a falar de mim, estou a falar de uma colega não é, e ela é minha colega de curso, e ela, eu sei que ela chegou a ir ao psiquiatra, mas isto já entro o primeiro confinamento e o segundo, não estávamos no segundo confinamento. Ela chegou a ir ao psiquiatra e tudo porque ela já à só chorava para estudar, ela não conseguia estudar, ela só chorava, só chorava, só chorava e depois, por um lado, os estudos dela melhoraram, as notas melhoraram, mas a saúde piorou, a saúde mental, ou seja, eu acho que tem, principalmente em termos escolares as pessoas também têm alguma ansiedade por causa de todo o stress que a vida escolar acarreta e então isso pode repercutir em melhores notas, mas contrariamente pior à saúde mental. E depois, há pessoas que conseguem contrabalançar, e ainda há pessoas que a saúde mental também as notas também porque a própria saúde não deixa as pessoas estudarem.” (Anexo nº8) Perguntei-lhe então, se no caso dessa sua colega o facto de ela estar em casa e não ter contato com outros colegas fez com que ela não conseguisse dosear o tempo entre estudar e parar. “Sim, sim, definitivamente, porque nós, por exemplo, estudávamos juntos, quando uma pessoa começa só a estudar sozinha, a estar sozinha, está sempre em casa porque no caso dela não gosto de ver séries 81 ela não gosta, ela gosta de música, mas não gosta de filmes e séries, então ela focalizou tudo para os estudos, não havia saídas, porque não se podia sair não é não? Não vê séries, não nada, o que é que uma pessoa vai fazer, estuda, estuda, estuda, o cérebro não aguenta, não é?” (Anexo nº8) Atendendo ao facto, de a entrevistada frequentar mestrado em psicologia achei pertinente perguntar-lhe como é que ela entendia a forma como a sociedade passou a tratar a saúde mental depois da pandemia. Se considerava que tinha havido alguma alteração, ou seja, se as pessoas começaram a pensar mais em saúde mental, entendendo-a não como um capricho, mas como uma doença real como qualquer outra. Respondeu-me que se dá mais atenção à saúde mental depois da pandemia, mas não que, ainda assim não tanto quanto se deveria dar. “É assim, por acaso esta pergunta é muito interessante, eu já tive um debate com uma colega acerca disto, é assim sem dúvida que isto tem vindo a mudar e desde a pandemia mudou mais um pouco, claro porque as pessoas começaram eles até agora achavam saúde mental era um capricho, não é?!, um tabu, mas depois de as próprias pessoas passaram por uma experiência que alterou a saúde mental delas, então apesar de ser um tabu elas experienciaram, elas viram que importa e que há coisas que nós não podemos por muito que pensamos “eu vou ficar bem”, a nossa saúde mental não é assim que funciona, só que mesmo assim eu considero que a saúde mental só é importante quando são casos assim vistosos e não estou a criticar, não crítico quem faz os casos vistosos que não se fazem, eu critico quem só dá atenção quando há um caso assim e isso ainda acontece muito e então, ou seja, a conclusão é dá-se mais atenção à saúde mental mas não é tanta como a que deveria dar.” (Anexo nº8) Perguntei-lhe então, se considerava que as perturbações de ansiedade, os ataques de pânico não são tão valorizados como acontece com a depressão, por exemplo. responde-me que sim, que sem dúvida, essas perturbações não são tão tidas em conta. “Sem dúvida, essas são, eu acho que, essas tentam varrer-se um bocadinho para debaixo do tapete, e a pessoa está a exagerar é só manter a calma e etc etc, eu vejo muito isso acontecer, e depois a depressão que é quando aí, nem só na depressão, é que as pessoas são acham que é importante quando há um suicídio, porque quando a depressão as pessoas só dizem “pá ele está triste eu não sei porquê, ele não tem razão para estar triste, ele tem comida na mesa”, então acho que só é mesmo quando já quando há risco de suicídio ou até mesmo suicídio.” (Anexo nº8) A entrevistada G, foi questionada se a saúde mental dos alunos universitários foi afetada pelos confinamentos e pela falta de convivência com os colegas e respondeu-me que foi afetada e não foi tida em conta, porque ninguém se lembrou dessa parte. “Foi afetada e não foi tida em conta, claramente. Ninguém se lembrou dessa parte.” (Anexo nº9) 82 Perguntei-lhe então se considerava que a saúde mental era desvalorizada mesmo depois da pandemia, respondeu-me que tinha a certeza que era. “Acho. Não acho, aliás tenho a certeza que é. Completamente eu sei porque eu tenho conversas, e tenho tido muitos amigos que ultimamente me dizem que, não sei se é por andar em psicologia, e falando comigo e desabafo sobre essa parte desde a pandemia tem tido, muitos ataques de pânico, ansiedade e eu digo-lhes claramente andas com ansiedade, procura um profissional e a maior parte do que me responde é “eu não quero ir ao psicólogo”, “eu não sou maluco”, “eu não preciso de ir ao psicólogo”.” (Anexo nº9) Interroguei a se existia um tabu sobre a saúde mental, respondeu-me que sim. De seguida perguntei-lhe, se existia um preconceito quando se falava de saúde mental, respondendo que existia um preconceito muito grande. “Existe. Está mais desconstruído, fala-se mais continua lá ainda não foi completamente, a maior parte da população ainda não aceitou que pode ajudar.” (Anexo nº9) “Muito. Um preconceito muito grande quando se fala de saúde mental. Existe uma situação que é, a universidade devia ser a primeira promover a sua mental e faz exatamente o contrário. Nós vemos e eu por mim falo que a minha escola é uma escola que devia promover a saúde mental antes de qualquer outra escola porque é a escola psicologia, nós temos, eu cheguei a ter 7 testes em 5 dias 6 testes em 5 dias todos seguidos isto não é bom para a saúde mental de ninguém, eles têm noção disso, já falamos sobre isso, estou farta de bater na mesma tecla eu e os meus colegas todos e ninguém faz nada, a universidade sabe que isso acontece e deixa acontecer. Toda a gente sabe que a pandemia foi difícil para todos, mas a universidade devia ter dado apoio e não deu e não está a dar.” (Anexo nº9) Todos os entrevistados consideram que a saúde mental dos alunos universitários durante a pandemia foi afetada. Algumas das razões apontadas são: a falta de contato com as pessoas, uma vez que tudo era tratado digitalmente; o próprio isolamento; estarem muito concentrados no meio académico e não conseguirem desenvolver a parte social; o agravamento das questões económicas; e a falta de convivência com pessoas fora do agregado familiar. 83 Sente que a saúde mental dos alunos universitários foi afeta pelos confinamentos e falta de convivência com os colegas de curso? Sim Não Entrevistado A Entrevistada B Entrevistada C Entrevistada D Entrevistado E Entrevistada F Entrevistada G Tabela 7 - Opinião dos entrevistados sobre a saúde mental dos estudantes universitários durante os confinamentos 1.10. As alterações na socialização durante os confinamentos Durante a realização das entrevistas percebi que os entrevistados consideravam que a socialização com os seus colegas havia sofrido alterações durante os confinamentos, quer porque as suas conversas passaram a ser online, quer pelo facto de estarem isolados e não puderem sair de casa. O entrevistado A, quando questionado sobre as alterações da socialização durante os confinamentos, responde que sofreu alterações e dá o exemplo das limitações de circulação. “Sim. Lá está, a própria questão, por exemplo, da das limitações de circulação foi desde logo aí um fator, não é?! Porque eu até, por exemplo, à partida quando eu, por exemplo, iria deslocar-me ia ter com eles já não podia a partir desses dias e depois também estão, por exemplo, os horários, por exemplo, às vezes nós podemos até comer fora à uma da tarde já não dava, não é?! Porque já estavam fechados, já não dava para fazer isso e depois também foi um, eu penso foi o próprio fator também medo, ou seja, nós também mesmo entre amigos, ou seja, o facto de circular tão rapidamente nós ficamos um pouco apreensivos bastante as pessoas.” (Anexo nº3) Perguntei-lhe como é que conversavam durante os confinamentos, respondeu-me que através das redes sociais. “É assim, era sobretudo através, por exemplo, Facebook, WhatsApp, Instagram, as redes sociais digamos assim.” (Anexo nº3) 84 Interroguei o então, se no regresso à normalidade a socialização com os colegas havia sofrido alterações, respondeu-me que não. Perguntei-lhe então, se o uso de máscara e distanciamento não afetaram essa interação, respondeu-me que sim. “Eu penso que não, é que conseguimos manter a mesma natureza, digamos assim, as mesmas interações.” (Anexo nº3) “Á isso sim. Sim, isso de facto alterou mesmo quando estamos, por exemplo, eu lembro-me que fizemos uma troca de presentes no Natal e estávamos todos de máscara, literalmente. Uma coisa que eu reparei, no entanto, assim como é que a vida mudou tão rapidamente nós estamos todos, nós estamos de máscara e não tiramos uma única vez, a questão foi essa.” (Anexo nº3) Quanto à entrevistada B, respondeu-me que as práticas de socialização sofreram imensas alterações. “Sim, imensas mesmo. Eu no primeiro semestre tinha um grupo, nós estamos juntos, sempre todos os dias, a toda a hora. Saíamos juntos à noite e sem dúvida que com o confinamento houve ali um afastamento, nós não falávamos tanto, não estávamos juntos com tanta frequência, estávamos juntos quando podíamos, o que era muito difícil principalmente no início, e sim acho que houve um degradamento das das relações com as pessoas.” (Anexo nº4) Perguntei-lhe então como é que conversavam, respondeu-me que por WhatsApp. “WhatsApp, fazíamos videochamadas vez em quando, mas principalmente por mensagens e claro que não é a mesma coisa que o contato cara-a-cara.” (Anexo nº4) Questionei-a sobre se quando regressou à universidade sentiu que a socialização tinha sofrido alterações, respondeu-me que sim, uma vez que o normal agora não era o normal de antes. Perguntei se a necessidade das máscaras, em certos espaços, influenciava na forma como conversava com os colegas, disse-me que não, não era propriamente a máscara, mas sim todo o ambiente que vivemos. “Sim, acho que por muito normal que a normalidade seja agora, não é o normal que era antes, sem dúvida.” (Anexo nº4) “Não, não acho que seja propriamente o uso da máscara, eu acho que é todo um ambiente em que vivemos, porque não é propriamente usar a máscara que faz com que ele não vá falar da mesma forma com alguém, é mais a questão de muitas vezes, mesmo medo, porque as pessoas têm medo de sair à rua, têm medo de ir por um café à noite, porquê? Porque facilmente apanhámos o covid e e não é a 85 mesma coisa, não estamos tão descontraídos, e por muito que não queiram aquilo vai estar sempre na nossa cabeça.” (Anexo nº4) A entrevistada C, revela que a socialização com os colegas sofreu alterações, muito por causa da incompatibilidade de horários, uma vez que era trabalhadora-estudante. “Sim. Continuamos a conversar na mesma, mas era assim diferente, por exemplo, eu eu sou trabalhador-estudante e o meu grupo de amigos também é mais meritoriamente trabalhadorestudantes e aquela incompatibilidade de horários, por exemplo, a minha uma das minhas grandes amigas ela aproveitou o isolamento para trabalhar mais horas, ou seja, não tínhamos assim tantas oportunidades porque quando somos obrigadas a estar na mesma sala de aulas e a socializar uma com outra então sim, diria que sim. Respondi acho que respondi, não sei.” (Anexo nº5) Quando lhe perguntei se no regresso à normalidade a socialização com os colegas tinham sofrido alterações, respondeu-me que não, houve um afastamento, mas deveu-se ao facto de estarem em ramos diferentes do curso. Perguntei-lhe então se o facto de usar máscara e manter o distanciamento não faz com que se proporcione o afastamento, respondeu-me que a máscara não, mas o distanciamento entre mesas nas aulas sim. “Eu sinto que o ensino à distância incutiu muito mean seet de cada um por si e isso nota-se bastante nas aulas agora, há muito pouco, por exemplo, a minha turma pouco conversa, pouco a pouco coopera com os outros e se diria que a situação assim de interação entre uns com os outros, mas na minha turma piorou como a pandemia já era antes, agora é pior ainda.” (Anexo nº5) “Não piorou, mas por exemplo, não tem nada a ver com a pandemia, nós estamos em ramos diferentes do curso e, por exemplo, uma das das colegas também reprovou e ficou para trás então houve assim um pequeno desfasamento de comunicação, mas não, acho que não tem nada a ver com uma pandemia só mesmo coisas da universidade.” (Anexo nº5) “Máscara não, mas talvez o quanto tínhamos aquele espaço entre os outros nas aulas talvez, mas mesmo assim quando preciso haver conversa havia.” (Anexo nº5) O entrevistada D, quando questionada se a socialização sofreu alterações durante os confinamentos respondeu-me que sim, como tinham deixado de ter aulas houve um corte total, passou tudo a ser feito online, afirmou que essas conversas online eram feitas por Zoom. “Sim. Nós deixámos de ter aulas, portanto deixámos de estar juntos, mesmo os trabalhos nós fazíamos online, por isso foi um corte completamente.” (Anexo nº6) “Era via Zoom.” (Anexo nº6) 86 Perguntei-lhe então se no regresso à normalidade, a socialização tinha sofrido alterações, respondeu-me que sim, pelo receio de ser infetado. “Sim, porque em primeiro é uma adaptação, não é?! As pessoas estão com medo, com receio, nem sabem se devem ou se ainda se tem de resguardar, e porque também se os políticos não nos passam essa segurança nós vamos ter ainda mais medo, e não sabemos o que fazer. Por isso, não estamos em confinamento, mas colocamo-nos na mesma em confinamento porque temos receio. E depois desse período de adaptação, durante a pandemia as coisas vão melhorando, e vais tendo contato com as pessoas, mas mesmo estando de máscara até estando com o teu núcleo mais próximo tu tens receio de tirar a máscara, há muitas pessoas que não têm sintomas, podemos estar contaminados sem saber, portanto, acho que é dominado pelo medo. pelo receio.” (Anexo nº6) O entrevistado E, quando questionado sobre a socialização durante os confinamentos, e se havia sido afetada respondeu-me que sim. “Ahh…. sim, eu pronto, não me considero antissocial, mas às vezes passo bem sozinho e faço bem as minhas coisas e não preciso de estar sempre a conviver, obviamente que sentia bastante falta de jantar fora, de sair, tomar café, de estar com os meus amigos. No início até haviam aqueles desafios e jogos que as pessoas passavam noites a jogar aquelas coisas e durante os primeiros dias, durante as primeiras semanas parecia quase como um substituto, mas a verdade é que, eu penso eu ficava triste pensar é isto esperar que uma pessoa pudesse ser a rua outra vez e estar com as pessoas presencialmente do que estar só em chamada a jogar, acho que não a mesma coisa definitivamente.” (Anexo nº7) Perguntei-lhe se no regresso à normalidade essa socialização havia sofrido alterações, respondeu-me que sim, que se havia tornado menos social com a pandemia, que tinha havido uma mudança de hábitos e rotinas. “Ahh… sim, eu acho que me tornei, eu disse há bocado que não era antissocial, mas acho que me tornei menos social com a pandemia, era bastante mais antes da pandemia. Houve mudanças de hábitos e de rotinas, não sei dizer se para melhor ou para pior, nalguns casos definitivamente para melhor, para a minha saúde pelo menos e noutros para pior. Acho que é uma parte essencial da vida universitária, mas mesmo depois da pandemia condicionou bastante, uma pessoa não estava descansada, estava sempre com medo da pandemia, com medo de morrer basicamente, medo de morrer medo de ir parar ao hospital que às vezes uma pessoa nem se sentia confortável. E depois a questão dos horários, vamos jantar fora para depois ter que sair do restaurante às 10:30 ou às 11:00, não podemos impor um bar não podemos, não podemos fazer nada é ir para casa, não tem assim tanta, não tinha, as coisas perderam um bocado a piada.” (Anexo nº7) A entrevistada F, quando perguntada sobre as alterações que a socialização tinha sofrido durante os confinamentos, respondeu-me que com os colegas havia mudado muito, mas que 87 se percebeu que não é necessário estar sempre presente e também se pode conviver de forma online. “Com os meus colegas mudou muito, nós tentávamos fazer secções por Zoom e tudo sem ser sessões sobre não é fazer videochamadas, conversar, etc, mas mudou, mudou bastante, e agora nós fazemos um bocadinho gozo disse, não é, por um lado também é bom, porque também vimos que não é preciso estar sempre presencial e também podemos conviver assim de forma mais online.” (Anexo nº8) Questionei-a, então, se quando regressou à universidade sentiu que socializavam de forma diferente, ao que me respondeu que achava que não. “Eu pessoalmente acho que não, porque eu com as minhas colegas não, não tenho esse tipo, nós também somos poucos, somos 20 alunos não somos assim tantos para dialogar, mas eu pessoalmente no meu grupo de amigas não senti isso.” (Anexo nº8) Por fim a entrevistada G, quando aborda a temática da socialização durante os confinamentos refere que sofreu algumas alterações, mas conseguiram arranjar algumas soluções mais práticas, e na questão das aulas referiu que o facto de nem toda a gente ligar a câmara a afetou. “Olha, sofreu algumas alterações, no entanto eu acho que nós conseguimos arranjar assim uma solução mais prática, íamos falando sempre muito por Messenger, mas claro que eu tinha, tinha alguns grupos de amigos que íamos fazendo videochamadas e jogando, os jogos todos que apareceram nos confinamentos que toda a gente jogava em grupo, ia fazendo isso, no entanto, sinto aquela socialização do sair de uma aula e falar com a turma toda ou ir falar com este, ir falar com aquele, ou estar numa aula e mesmo na aula partilhar ideias e assim, isso não acontecia e mesmo nas aulas nem toda a gente falava e há, e outra coisa que acontecia era, mas por exemplo, estamos aqui as 2 com câmara ligada, mas tinha aulas em que estávamos 30 pessoas e havia 3 câmaras ligadas, a da professora, a minha e de outros colega meu. Não se via caras, não víamos caras, não víamos ninguém, víamos 2 pessoas numa aula inteira. Isso afetou-me muito, eu acho que afetou-me a mim, não sei se afetou os meus colegas, provavelmente os que não ligavam a câmara não lhes afetou, mas a mim causava-me pronto, não sei, assim uma comichãozinha.” (Anexo nº9) No que diz respeito ao regresso à normalidade, a entrevistada considera que à medida que o tempo foi passando esse processo foi ocorrendo também. “Eu acho que no regresso da normalidade, no início estávamos todos assim um bocado ainda, o que é que se passa e ainda estávamos, o regresso ainda foi, ainda fui muito precoce, foi, ainda estávamos no meio de uma pandemia, ainda era muito difícil socializar e tudo, pá ia junto e assim, socializava mais, mas acho que depois acabou por ser muito soft até.” (Anexo nº9) 88 A socialização com os colegas sofreu alterações durante os confinamentos? Sim Não Entrevistado A Entrevistada B Entrevistada C Entrevistada D Entrevistado E Entrevistada F Entrevistada G Tabela 8 - Opinião dos entrevistados sobre as alterações na socialização durante os confinamentos 89 2. Considerações finais da análise das entrevistas Atendendo aos objetivos estabelecidos para este estudo, a análise das entrevistas permiteme procurar dar-lhes resposta, ou pelo menos puder supor uma resposta mais geral sobre as temáticas abordadas durante este estudo. Quanto ao primeiro objetivo definido, o de perceber se os cursos com vertentes mais práticas tiveram o seu processo de aprendizagem mais afetado pela Pandemia de Sars-Cov-2 comparativamente aos cursos de cariz mais teórico, através da entrevista que realizei a uma aluna da licenciatura de Química, pude perceber que a vertente prática do seu curso havia sido bastante afetada. Ela relatou que não recolhia os dados em laboratório, eles já eram facultados pelos docentes e ela tinha de os analisar, referindo ainda que os alunos do 2ºano, ou seja, aqueles que iniciaram o curso durante o período pandémico estavam com muitas dificuldades em laboratório. Quando entrevistei uma aluna do mestrado em Educação Básica, ela relatou que as unidades curriculares mais práticas e didáticas sofreram bastantes alterações, uma vez que não consegui realizar e aprender atividades que considera fundamentais para o desenvolvimento da sua profissão futura. Os restantes alunos entrevistados, de cursos mais teóricos, revelam situações pontuais em determinadas unidades curriculares, mas nada tão claro como estas duas entrevistadas. Relativamente ao segundo objetivo, o de analisar se as medidas desenvolvidas pela Universidade do Minho no combate às desigualdades de acesso à aprendizagem online responderam às necessidades dos alunos, foi percetível um claro desconhecimento generalizado das medidas tomadas pela universidade. Ainda assim, três entrevistadas consideram que a universidade fez o que estava ao seu alcance atendendo ao elevado número de alunos que tem que apoiar, em contraponto há uma entrevistada que disse de forma clara que as medidas não funcionaram, dando o exemplo, da plataforma criada para pedir computadores, dizendo que o prazo estabelecido era muito curto. Numa forma geral, é possível entender que os alunos não revelam muito conhecimento sobre as medidas adotadas pela universidade, ficando por perceber se a causa resulta de falhas de comunicação ou do desinteresse dos alunos. Passando para o objetivo número três, o de analisar se a pandemia SARS-COV-2 afetou a aprendizagem dos alunos da Universidade do Minho, após a análise das entrevistas e da leitura de variadíssima literatura sobre o assunto é possível concluir que a aprendizagem dos 96 Ghiglione, R., & Matalon, B. (1993). O inquérito - Teoria e Prática. (C. L. Pires, Trad.) Paris: Armand Colin. Giddens, A. (2008). Sociologia (6 ed.). (A. Figeuiredo, A. P. Baltazar, C. L. Silva, P. Matos, & V. Gil, Trads.) Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Gomes, S., Duarte , V., Ribeiro, F. B., Cunha, L., Brandão, A. M., & Jorge, A. (2018). Desigualdades Sociais e Políticas Públicas - Homenagem a Manuel Carlos Silva. Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, Lda. Gusso, H. L., Archer, A. B., Luiz, F. B., Sahão, F. T., Luca, G. G., Henklain, M. H., . . . Gonçalves, V. M. (27 de julho de 2020). Ensino Superior em Tempos de Pandemia: Diretrizes à Gestão Universitária. Debates & Polémicas, 41, pp. 1-27. 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Esteves, Trads.) São Paulo: Martins Fontes. República Portuguesa. (21 de janeiro de 2021). Escolas com atividades letivas suspensas nos próximos 15 dias. XXII Governo. Obtido de 98 https://www.portugal.gov.pt/pt/gc22/comunicacao/noticia?i=escolas-comatividades-letivas-suspensas-nos-proximos-15-dias Savoie-Zajc, L. (2003). A entrevista semidirigida. Em B. Gauthier, Investigação Social: Da Problemática à Colheita de Dados (N. Salgueiro, & M. Gameiro, Trads., 3ºedição ed., pp. 279-301). Loures: Lusociência - Edições Técnicas e Científicas, Lda.:. Seabra, T. (janeiro de 2009). Desigualdades escolares e desigualdades sociais. Repositório ISCTE-IUL(59), pp. 75-106. Obtido em 2021 de outubro de 6, de https://repositorio.iscte-iul.pt/handle/10071/1614 Vala, J. (1986). A análise de conteúdo. Em A. Silva, & J. Pinto, Metodologia das Ciências Sociais (pp. 101-128). Porto: Edições Afrontamento. 99 Anexos Anexo 1 - Termo de consentimento informado Declaração de Consentimento Informado O meu nome é Ana Isabel Mendes Oliveira, com o número de aluna 43432, sou aluna do 2ºano do Mestrado em Sociologia com especialização em Políticas Sociais e estou a realizar uma investigação intitulada “A covid-19 e o impacto no Ensino Superior” orientada pelo Doutor Luís Manuel Jesus Cunha. Esta investigação será realizada na Universidade do Minho, mais concretamente nos polos de Gualtar e Azurém, Braga e Guimarães respetivamente. Decorrerá entre os meses de fevereiro e maio. O objetivo principal desta investigação é o de determinar se com a pandemia de SARS-COV2 houve um agravamento das desigualdades sociais no ensino superior. Para além deste objetivo principal existem ainda objetivos específicos, nomeadamente o de perceber se os cursos com vertentes mais práticas tiveram o seu processo de aprendizagem mais afetado pela Pandemia de SARS-COV-2 do que os cursos de cariz mais teórico, segue-se o objetivo de analisar se as medidas desenvolvidas pela Universidade do Minho no combate às desigualdades de acesso às aulas responderam às necessidades dos alunos, importa também determinar se a pandemia SARS-COV-2 afetou a aprendizagem dos alunos da Universidade do Minho, outro dos objetivos é o de saber se os alunos com maiores dificuldades económicas que frequentavam a Universidade do Minho pensaram em abandonar os estudos por causa da pandemia da COVID-19 e o último objetivo é o de perceber se para os alunos da Universidade do Minho, a adaptação aos meios de ensino à distância e a aprendizagem se revelou mais difícil no primeiro ou no segundo confinamento. Nesta investigação realizarei entrevistas a alunos de diferentes cursos da Universidade do Minho, para analisar as suas experiências neste período. Neste sentido gostaria de saber se está disponível para realizar uma entrevista individual. Essa entrevista será gravada como um gravador de voz. Não há respostas certas ou erradas, só procuro saber a sua opinião sincera. Quando não quiser responder a uma questão é só dizê- 100 lo e a sua vontade será respeitada, tal como se for do seu interesse desistir de continuar a responder. Nos dados que recolho a identidade dos participantes será sempre assegurada, mantendo o anonimato do entrevistado. A autorização da divulgação da informação recolhida durante o estudo é fundamental, nomeadamente o consentimento da gravação das entrevistas e do grupo de foco, para que assim se possa recolher o máximo de informação possível. Agradeço desde já a disponibilidade demonstrada e estou disponível para prestar qualquer esclarecimento adicional Ana Isabel Mendes Oliveira Aluna de Mestrado em Sociologia E-mail: [email protected] Declaro ter lido e compreendido este documento, bem como as informações verbais que me foram facultadas. Fui informado que a qualquer momento posso desistir/recusar a participação neste estudo. Compreendi a utilidade do estudo e aceito participar neste estudo, permitindo a utilização dos dados recolhidos para os fins científicos acima referidos, tendo como garantia o anonimato e confidencialidade acima garantida. _____, de _____________________ de 2022 _________________________________________________________________________ (Nome completo do entrevistado) _________________________________________________________________________ (Curso que está inscrito o entrevistado) _________________________________________________________________________ (Assinatura do entrevistado) 101 Anexo 2 - Guia da entrevista 1.Ao longo dos últimos dois anos letivos considera que a aprendizagem e o nível de ensino foram prejudicados pelas restrições pandémicas? Se sim, quais os pontos que considera serem os mais afetados? Se não, o que o leva a ter essa opinião? 2. Acha que nos últimos 2 anos o ensino superior perdeu qualidade devido aos constrangimentos da pandemia? 3. No seu ponto de vista, as medidas tomadas pela Universidade do Minho no que ao combate às desigualdades de acesso às aulas via online diz respeito, foi o mais adequado? 4. Como foi a sua adaptação aos meios/métodos de ensino à distância? Essa adaptação foi mais complicada no 1º ou no 2º confinamento? 5. Como desenvolveu/apreendeu os ensinamentos mais práticos do seu curso durante os últimos dois anos letivos, muito particularmente durante os dois confinamentos? 6. Pensou em abandonar os estudos durante a pandemia? 7. Considera que a situação de pandemia terá levado mais alunos a pensar em desistir da Universidade? O que o leva a pensar assim? 8. Considera que, numa perspetiva geral, houve um agravamento das desigualdades sociais com reflexo na frequência do ensino superior? 9. Na sua perspetiva, quais os impactos sociais e económicos que a pandemia de SARSCOV-2 originou no acesso à educação dos alunos do ensino superior da Universidade do Minho? 10. Sente que a saúde mental dos alunos universitários foi afetada pelos confinamentos e a falta de convivência com os colegas de curso? 11. Tem conhecimento de algum caso em que a saúde mental de algum aluno universitário foi afetada pelos sucessivos confinamentos? 12. A socialização com os seus colegas sofreu alterações durante os confinamentos? Como conversavam? 102 E no regresso à normalidade sofreu alterações? Se sim, porque isso aconteceu? 103 Anexo 3 - Entrevistado A - Entrevista a aluno de mestrado em Sociologia Entrevistador: Bom dia. Entrevistado: Bom dia. Entrevistador: Ao ler o consentimento informado que te enviei surgiu alguma dúvida? Entrevistado: Ahhh… Não. Percebi tudo. Não tenho dúvida nenhuma. Entrevistador: Podemos então iniciar a entrevista? Entrevistado: Claro que sim. Entrevistador: Então como a temática é o Covid vamos começar logo por essa pergunta. Entrevistado: Ok. Entrevistador: Ao longo dos últimos 2 anos letivos consideras que a aprendizagem e o nível de ensino foram prejudicados pelas restrições pandémicas? Entrevistado: Eu penso que sim. Aliás , eu penso que nessa questão não tenho qualquer dúvida, porque eu acho mesmo que, o ensino presencial e o ensino à distância em si já é bastante diferenciador, por exemplo, há pessoas que têm melhor acesso à internet, neste caso que outros isso já pode condicionar os resultados e depois também acho que mesmo que apesar de, lá está ser, ahhh, mais fácil apesar de imagina quem está em isolamento quer não esteja têm acesso às aulas na mesma eu penso que o ensino presencial é muito mais enriquecedor que o ensino à distância (pausa) por isso logo a partir daí eu acho que já, sim, jáa aumentou as desigualdades entre os alunos. Entrevistador: E achas que nos últimos 2 anos, por causa da pandemia o ensino superior perdeu qualidade devido aos constrangimentos da pandemia? Entrevistado: Ahhh…. Perdeu qualidade de vida certo? Entrevistador: Não. Perdeu qualidade. Entrevistado: Qualidade. (pausa). É assim eu penso, lá está. A questão para mim do ensino eu penso que perdeu, (pausa), lá está. Eu acho que mesmo que os próprios professores estão um bocado mais subcarregados, os alunos, só o formato digital também acabam por estar mais subcarregados. Eu falo por mim, eu não gosto muito de estar no computador (pausa) 104 para mim ter aulas online, lá está, às vezes eu tinha a tendência de, por exemplo, meter a aula e fazer outras coisas, ou seja, enquanto se eu estivesse na aula eu estava focado no que estava na aula porque também não tem assim tantas distrações apesar de ter o telemóvel eu sempre estaria talvez com mais atenção ao que o professor estava a dizer do que propriamente se for num contexto de, por exemplo, digital, por exemplo, eu posso ter a página aberta no Zoom e posso estar a fazer outra coisa totalmente diferente ao lado e que me pode prejudicar por exemplo a mim, mas isso lá está tem haver acho com a própria pessoa digamos assim, mas penso que também, de forma geral, eu acho que qualidade sim, eu acho que diminui. Entrevistador. Certo. E no teu ponto de vista as medidas tomadas pela Universidade do Minho, no que ao combate às desigualdades de acesso às aulas via online diz respeito foi adequado? (Percebi pela expressão facial não tinha entendido, senti necessidade de dar exemplos) Por exemplo, não sei se reparaste, mas a Universidade do Minho cedeu computadores a pessoas que não tinham aumentou a banda larga a algumas pessoas. Achas que essas medidas foram adequadas ou ficaram aquém daquilo que a Universidade podia ter feito? (pausa) Entrevistado: É assim, eu acho que, por acaso não tinha noção das medidas, não não tenho acompanhado, mas eu acho que é uma das boas medidas, por isso também não posso dizer ao certo quais é que se está aquém ou se forma suficientes, mas eu penso que essas duas medidas já por si seriam boas, não é? Só que acho que também há outras coisas, também que talvez a universidade não tenha chegado, talvez se cabe a outros fatores para além da universidade, talvez o próprio governo ou assim, não sei, também é uma questão só estou apenas a levantar a hipótese, não é?! Entrevistador: Ok. E como é que foi a adaptação aos meios/métodos de ensino à distância? (pausa) Entrevistado: Ahh. É assim, o que me recordo. Eu penso que foi no terceiro ano da licenciatura, nós estávamos a fazer, neste caso, eu sou de Sociologia a Ana também, não é?! Nós estávamos a fazer relatório, eu estava pelo menos a fazer relatório. Isto surgiu de repente, passamos todos para o digital. Entretanto as bibliotecas ficaram fechadas, nós não tínhamos o sistema, por exemplo, do VPN para ligar à Universidade para fazer as tais pesquisas. Ahh… 105 E depois, por exemplo, eu lembro de alguns colegas meus, por exemplo, de estar a fazer estágio, os estágios serem todos cancelados e de facto passarem todos para relatório já com bastante atraso, por isso eu acho que, lá está a universidade respondeu dentro do possível, não é?! Que era uma situação totalmente nova, mas eu penso que custou a toda a gente, sem dúvida nenhuma. Entrevistador: E achas que essa adaptação foi mais complicada no 1º ou no 2º confinamento? (pausa) Entrevistado: Ahh. É assim, eu penso que no primeiro, lá está foi a questão da novidade, as pessoas não sabiam como reagir digamos assim. O segundo as pessoas já tinham uma noção, mas acho que foi mais intenso, foi mais restritivo, digo eu. Á partida, pelo menos foi o que eu senti, tanto se calhar pelo número de mortos, disto dos infetados eu acho que também mexeu, acho que com toda a gente, não é?! Uma pessoa às vezes ia para a universidade e sentia, por exemplo, antes desse caso do confinamento e senti que andamos aqui e nem sabemos se isto é seguro, não é?! Com tando número de infetados e tantos mortos e havia sempre aquela perceção de que não era seguro ir à universidade e as razões. A falar por mim até preferia em certa parte, neste caso está o ensino à distância totalmente do estar a deslocar-me à universidade para ter aulas. Entrevistador: Em questão de segurança? Entrevistado: Por exemplo, eu vivo com a minha avó, por exemplo, eu tenho 83 anos é mais sensível, por exemplo, a parte boa que havia se calhar a transmitir ou neste caso de apanhar e estar em casa era muito grande, não é?! E sentia sempre aquela, não sei, aquela responsabilidade aquele peso. Entrevistador: E como é que desenvolveu e a aprendeu os ensinamentos mais prático durante os últimos 2 anos letivos mais particularmente durante os 2 confinamentos? Entrevistado: É assim, o que me recordo o nosso curso é um pouco mais teórico, não é?! As antes da parte prática que nós temos, por exemplo, estou a recordar agora métodos, acho que é métodos?! Não. Não é métodos, práticas de investigação da professora Ana Brandão. Exatamente. Por exemplo, essa componente eu acho que era bem mais prática, no sentido de 112 Anexo 4 - Entrevistado B - Entrevista a aluna do 3ºano da licenciatura em Sociologia Entrevistador: Bom dia. Entrevistado: Olá, bom dia. Entrevistador: O meu nome é Ana, eu sou licenciada em sociologia e neste momento estou a frequentar o mestrado em sociologia, a acabar a tese. O meu tema é a Covid-19 e a educação e os impactos que a pandemia teve nas desigualdades sociais. Ao leres o consentimento informado surgiu alguma dúvida? Entrevistado: Não. Não tenho nenhuma dúvida. Entrevistador: Podemos começar? Entrevistado: Sim, sim. Entrevistador: Então vamos a isso. De realçar que se não perceberes alguma coisa é só dizeres que eu explico, pergunto de outra forma. Está tudo bem. Entrevisto: Ok. Entrevistador: Ao longo dos últimos 2 anos letivos considera que a aprendizagem e o nível de ensino foram prejudicados pelas restrições pandémicas? Entrevistado: É assim, acho que sim, porque tendo em conta que nós tivemos a experiência do primeiro semestre do primeiro ano ter sido normal. É claro que, é assim eu acho que, nós entramos numa numa altura em que ninguém estava preparado para ter aulas online da mesma forma que os professores não estavam preparados para dar aulas online, o programa estava tudo planeado para ser de uma forma normal automaticamente essa alteração fez como que, eu acho que, de certa forma informação não passe tão bem, eu falo por mim. Até porque estando online é muito mais difícil de estar atento, não captamos a informação da mesma forma, e eu no meu entender acho sem dúvida que aprende-se pior online do que presencialmente. Entrevistador: Mas tu achas que foi só a questão da aprendizagem que saiu prejudicada, ou seja, tu conseguiste aprender menos do que se estivesses em aula ou isso, por exemplo, também terá como consequência as notas ou houve uma adaptação em termos de avaliação, ou essa avaliação permaneceu mais ou menos igual ao tempo de não pandemia? 113 Entrevistado: É assim, em termos de notas não senti propriamente muita diferença, mas senti sem dúvida que não fiquei a saber tanto como se tivesse sido as aulas normais, não fiquei a perceber tão bem. Entrevistador: Achas que nos últimos 2 anos o ensino superior perdeu qualidade devido aos constrangimentos da pandemia? Entrevistado: No sentido, naquilo que eu disse anteriormente sim. Porque eu acho que, eu não sei se seria justo comparar pessoas que fizeram a licenciatura no tempo normal e pessoas fizeram licenciatura hoje, agora, mas sim, eu acho que a matéria não ficou tão bem consolidada, os conhecimentos não são os mesmos. O que eu digo, eu vejo por mim, eu se me perguntarem coisas de cadeiras que eu tive online, muitas das cadeiras, eu não me lembro absolutamente nada, portanto é complicado. Entrevistador: E no meu ponto de vista, as medidas tomadas pela Universidade do Minho no que ao combate às desigualdades de acesso às aulas via online diz respeito foi o mais adequado? Entrevistado: É assim, eu não estou muito dentro do assunto, mas realmente eu acho que me lembro da altura de ter visto um anúncio, ou alguma coisa a falar de realmente fornecerem Internet aos alunos que não têm, que não tinham capacidade para isso. Nesse caso, sim acho que acho que foi o mais adequado, porque obviamente que sabemos que nem toda a gente tem acesso ao mesmo tipo de material, a computador melhor, a computadores piores, a Internet melhores, internets piores, por isso sim, acho que se foram, bons, boas medidas por parte da universidade. Entrevistador: Como é que foi a tua adaptação aos meios e métodos de ensino à distância? Entrevistado: Difícil. É difícil, porque é assim, por muito que nós estamos numa geração muito ligada à tecnologia, por muito que estejamos habituados a isto é é sempre complicado estar 2 horas a olhar para um computador e estar 100% atento àquilo que nos estão a dizer, que sem, sei lá, porque ainda por cima estamos estamos em casa, estamos no nosso meio, facilmente qualquer coisa nos distrai, e sim nesse sentido foi difícil. Entrevistador: O facto de, por exemplo, obviamente estar ligado à Internet onde basicamente carregas tens acesso ao WhatsApp, tens acesso ao Instagram, podes fazer 1001 114 coisas através da Internet, é mais difícil estares concentrada quando estás online, do que quando estás presencial. Consideras que isso conta no final na aprendizagem? Entrevistado: Sim, sem dúvida, porque assim, até a tentação maior e temos os meios para o fazer, portanto torna tudo mais fácil, não é?! Entrevistador: E sentiste que essa adaptação do presencial para o online foi mais difícil durante o primeiro confinamento ou no segundo confinamento? Entrevistado: Eu diria no primeiro, porque assim no segundo já tínhamos passado um semestre inteiro a ter aulas assim, portanto já sabíamos que íamos enquanto que da primeira vez foi foi um choque e ninguém sabia como é que ia funcionar. Mesmo relativamente às avaliações e tudo, as pessoas não sabiam se iam ter avaliações presenciais ou não, por isso sim acho que foi no primeiro. Entrevistador: Mas tu sentes que essa adaptação do primeiro para o segundo não foi só mais fácil para os alunos, mas para os docentes também? Entrevistado: Sem dúvida. Porque assim, já tinha uma experiência, já sabiam se calhar já tinha outras técnicas de tentar captar os alunos, de fazer as aulas, se calhar de forma mais dinâmica. Tendo em conta que, estávamos todos com acesso aos computadores, por exemplo, não sei passar um vídeo ou algo que captasse mais, que fosse mais alusivo e por isso sim, acho que o segundo foi mais fácil. Entrevistador: Como é que desenvolveste ou aprendeste os ensinamentos mais práticos do curso durante os últimos 2 anos letivos, mais particularmente durante os 2 confinamentos como somos as duas de sociologia, se calhar a cadeira de estatística que é a mais prática, como é que, como é que foi? Eu não tenho noção, porque eu tive essas cadeiras de forma presencial, mas pensá-las em ter online, como é que foi? Entrevistado: É assim, o meu primeiro ano também já vai a algum tempo, já não me lembro muito bem. Mas sim, é assim no caso sociologia temos que pensar em estatística, porque o resto é tudo teórico, obviamente eu tive estatística 1 presencial estatísticas 2 online, por acaso tive melhor nota a estatística 2, pois que foi online, mas é assim, em termos não das aulas teóricas, mas sim das aulas práticas, são as aulas laboratoriais e um computador, claro que é mais fácil presencial. O porquê? Porque estávamos nos computadores da universidade a 115 qualquer momento temos o professor que passa atrás e que nos pode ajudar, a explicar como é que as coisas se fazem, como é que as coisas não se fazem. Enquanto que, quando estamos em casa, no nosso computador, nós até podemos pôr a dúvida, mas não é a mesma coisa que o professor estar lá, a ver exatamente o que é que nós estamos a fazer e explicamos de uma forma muito mais percetível. Entrevistador: Pensas-te que abandonar os estudos durante a pandemia? Entrevistado: Eu diria que sim, mas não propriamente por causa da pandemia. Entrevistador: Ok. Por outras razões que não as pandémicas? Entrevistado: Sim. Sim. Apesar de que é assim, claro que por causa da pandemia, sem dúvida há uma desmotivação enorme porque se nós já estávamos muito motivados, o facto de ter aulas online e de sair, não termos as nossas rotinas, sem dúvida que desmotivou completamente. Eu, eu vejo por mim, eu não tinha qualquer vontade de ir às aulas, porque eu ir às aulas online e eu simplesmente não aprendia nada, então era estar ali ter um computador à minha frente e ter uma pessoa a falar como voz de fundo, mas não propriamente a ter um interesse. Entrevistador: Consideras que a situação da pandemia terá levado mais alunos, para além de tu teres pensado, terá a levado mais alunos a pensar em desistir da universidade? Entrevistado: Sim, sem dúvida. Aqui exatamente, naquilo que eu disse anteriormente, que é assim, aulas online desmotivam completamente os alunos e, por exemplo, se um aluno já não gostasse muito do curso, e se calhar até já estava a pensar em desistir, mas não sei, por exemplo, até podemos falar, imagina um aluno que até anda na praxe e a praxe presencial é aquilo que o motiva a continuar na universidade, a estar com os amigos, não sei quê não sei que mais, tendo passado tudo online a vida daquele estudante passou simplesmente a estar em frente a um computador e a não ter aquele base de motivação que tinha anteriormente, ou seja, automaticamente os motivos para querer desistir aumentam imenso. Entrevistador: Pegando nesse assunto da praxe, tu achas que a praxe é um fator de integração? Quando tu já não tens essa convivência, acreditas que é um fator decisivo para tu pensares de facto em deixar a universidade porque tu já não tens esse convívio, já não tens essa interação se calhar as aulas não te motivam então não tendo praxe pensas em desistir? 116 Entrevistado: Sim, sem dúvida eu eu falo por mim e pela minha experiência. Eu entrei neste curso e não era o que eu queria, automaticamente eu já entrei super desmotivada, o conteúdo das aulas não ajudou propriamente muito e eu andava na praxe e sem dúvida que aquele ambiente e as pessoas foram o que me, foi aquilo que me fez ficar e aquilo que me fez não desistir e claro que sem aquela base de apoio seria muito mais difícil. Entrevistador: Mudando agora de assunto, consideras que numa perspetiva geral houve um agravamento das desigualdades sociais com reflexo na frequência do ensino superior? Entrevistado: É assim, eu não sei, até que ponto as medidas que a universidade pôs em prática seriam capazes de abranger todos os estudantes da universidade e sabemos que não é fácil abranger todos, somos imensos, por isso provavelmente sim, provavelmente houve alunos que por terem um computador mais mau, ou por terem uma Internet mais má sentiram realmente mais dificuldade em aulas online do que os outros. Entrevistador: Na questão do acesso e na questão económica, por exemplo, achas que houve um agravamento, achas que houve pessoas que sentiram que havia dificuldade em pagar as propinas que havia dificuldade e não tiveram se calhar uma base para? Entrevistado: Eu acho que acima de tudo, as pessoas sentiram de certa forma um bocado injustiçadas, o porquê?! Porque nós não estávamos na universidade, não estávamos a ter acesso às mesmas coisas e o facto de as propinas terem terem se mantido com o mesmo valor, eu acho que isso fez muita muita fez as pessoas reagirem porque sem dúvida que nós não estamos a ter a mesma qualidade de ensino estamos a ter acesso às mesmas instalações e estávamos a pagar mesmo, ou seja, não era propriamente justo. Agora se a pandemia causou problemas ou piorou a possibilidade das pessoas em pagar as propinas eu não sei propriamente depende, por exemplo, eram trabalhadores-estudantes e ficaram sem trabalho e já não tinham meios, pronto, para pagar ou não, se não é mais no sentido de estarmos a pagar uma coisa que nós não estamos a usufruir. Entrevistador: Mas consideras que deveria ter havido uma redução do valor das propinas porque a qualidade de ensino piorou e tu não tinhas acesso às instalações que terias tivesses lá presencialmente? Entrevistado: Sim. Eu acho que sem dúvida que devia ter sido feito um acerto. 117 Entrevistador: Na tua perspetiva quais os impactos sociais e económicos que a pandemia SARS-CoV-2 originou no acesso à educação dos alunos do ensino superior da Universidade do Minho? Entrevistado: É assim, nesse caso teremos de falar mais nas alterações podem ter sido feitas na, por exemplo, no 12º ano que faria com que as pessoas fossem aceder mais tarde, não é?! Eu acho honestamente, e como uma pessoa que foi fazer um exame nacional em tempo de covid para fazer melhoria, eu acho que sem dúvida, que nesse caso a pandemia ajudou. Porque primeiro porque os alunos não tinham de fazer exames a todas as disciplinas, ou seja, era muito mais fácil ficarem só naquilo e segundo porque mesmo os métodos de avaliação dos exames tornou-se completamente diferentes as notas foram muito melhores temos provas mesmo disso, ou seja, eu acho que em termos de acesso, facilitou o acesso. Entrevistador: Por exemplo, vamos dar um exemplo, tu tens capacidades económicas consegues, sem grandes problemas, comprar um livro que um professor recomendou, um aluno que tenha mais carências económicas se calhar essa compra do livro tornasse mais complicada, ou seja, as bibliotecas estando fechadas ele terá mais dificuldade em aceder à informação que o professor lhe pede é um ponto? Entrevistado: Eu acho que sim, porque é assim, o curso de sociologia, sendo um curso extremamente teórico tem que ter uma base muito grande de informação e sem dúvida que toda a gente sabe que ter informação e papel no meio a mesma coisa que ter informação de um livro em papel nas minhas mãos ler ali do que ler mais por isso sim nesse sentido sem dúvida. Entrevistador: Tu sentes que a saúde mental dos alunos universitários foi afetada pelos confinamentos e a falta de convivência com os colegas? Entrevistado: Sim. Muito mesmo, acho que acho que nos tornamos, acho que aí foi o facto de estarmos isolados e de de não termos aquela possibilidade talvez de espairecer, porque assim toda a gente sabe que a universidade não é fácil psicologicamente, é difícil e precisamos de ter aqueles momentos em que nos podemos abstrair de tudo, e que faz parte da universidade, e a verdade é que com a pandemia, e com o facto de termos de estar em quarentena, e tornou-se impossível, o que faz com que os alunos ficaram muito mais centrados somente no meio académico, não tinham qualquer outra distração. Em termos de 118 stress acredito que tenha sido muito maior e depois é a base de não ter aquilo com um convívio diário faz falta a todos nós. Entrevistador: Tua achas que a universidade, por muito que tenha como objetivo tirar uma licenciatura, ter um diploma e conseguir adquirir conhecimento, à toda uma experiência à volta da universidade fora aulas fora campus. Achas que essa experiência, essa falta dessa convivência, que tu se calhar só tiveste no primeiro semestre, fez agravar a saúde mental dos alunos universitários? Entrevistado: Sim, sem dúvida, porque é assim, a universidade é toda uma experiência e é assim, não é só ir às aulas, não é só estudar, é todo o ambiente académico toda toda aquela experiência, toda aquele, não sei é diferente. Claramente que não é como quando se anda no secundário, completamente diferente, chegamos ali e temos um mundo novo. Claramente que não poder espairecer, não poder ter uma noite em que em que, sei lá, vamos ver amigos, vamos vamos tomar um café é completamente diferente, é uma pessoa não conseguir espairecer as ideias não conseguir pensar noutra coisa e isso é fundamental para o rendimento de um de um estudante. Entrevistador: Tens conhecimento de algum caso concreto em que a saúde mental do aluno tenha sido afetada pelos sucessivos confinamentos? Entrevistado: É assim, eu acho que é difícil dizer com certeza porque sejamos honestos as pessoas ainda não falam muito sobre a saúde mental e se estão mal não vão dizer, aí estou mal porque isto porque aquilo, mas é assim falando com amigos e tudo sim, falamos muitas vezes que nos sentimos mais desmotivados mais mais deprimidos nesse sentido sim. Entrevistador: Agora vamos passar para a parte da socialização. A socialização com os teus colegas sofreu alterações durante os confinamentos? Entrevistado: Sim, imensas mesmo. Eu no primeiro semestre tinha um grupo, nós estamos juntos, sempre todos os dias, a toda a hora. Saíamos juntos à noite e sem dúvida que com o confinamento houve ali um afastamento, nós não falávamos tanto, não estávamos juntos com tanta frequência, estávamos juntos quando podíamos, o que era muito difícil principalmente no início, e sim acho que houve um degradamento das das relações com as pessoas. Entrevistador: E como é vocês conversavam durante os confinamentos, por exemplo? 119 Entrevistado: WhatsApp, fazíamos videochamadas vez em quando, mas principalmente por mensagens e claro que não é a mesma coisa que o contato cara. Entrevistador: E tendo a experiência do primeiro semestre de convivermos com os teus colegas numa época normal pré-covid quando regressaste a uma dita normalidade essa convivência, essa socialização sofreu alterações? Entrevistado: Sim, acho que por muito normal que a normalidade seja agora, não é o normal que era antes, sem dúvida. Entrevistador: A necessidade das máscaras em certos espaços têm influência na forma como tu conversas com os teus colegas, sentes isso? Entrevistado: Não, não acho que seja propriamente o uso da máscara, eu acho que é todo um ambiente em que vivemos, porque não é propriamente usar a máscara que faz com que ele não vá falar da mesma forma com alguém, é mais a questão de muitas vezes, mesmo medo, porque as pessoas têm medo de sair à rua, têm medo de ir por um café à noite, porquê? Porque facilmente apanhámos o covid e e não é a mesma coisa, não estamos tão descontraídos, e por muito que não queiram aquilo vai estar sempre na nossa cabeça. Entrevistador: Agradeço-te imenso a colaboração. A entrevista terminou. Não sei se tens alguma dúvida? Entrevistado: Não, não tenho dúvida nenhuma. Entrevistador: Muito obrigada pela colaboração. 120 Anexo 5 - Entrevistado C - Entrevista a aluna do 3ºano da licenciatura em Química Entrevistador: Bom dia. Entrevistado: Bom dia. Entrevistador: Não sei se tiveste oportunidade de ler o consentimento informado, e se percebeste que eu irei gravar a entrevista. Entrevistado: Claro, claro. Entrevistador: Tens alguma dúvida sobre aquilo que leste no consentimento, ou está tudo esclarecido. Entrevistado: Não. Está tudo claro. Entrevistador: Se tiveres alguma dúvida em qualquer questão que eu faça podes pedir para eu reformular a questão se não quiseres responder ou se quiseres deixar a entrevista pode deixar e se surgir alguma dúvida a meio é só perguntar. Está bom? Entrevistado: Ok Entrevistador: Ao longo dos últimos 2 anos consideras que a aprendizagem e o nível de ensino foram prejudicados pelas restrições pandémicas? Entrevistado: Sim. (pausa) Entrevistador: Em que níveis? Entrevistado: Por exemplo, acho que dificultou assim uma barreira de transmissão de informação, porque nada assegura o bom funcionamento dos sistemas de ensino remoto a qualquer momento, principalmente o que é providenciado pela universidade, então meu deus e mesmo assim houve, acho que nós aprendemos melhor quando temos aquela barreira, por exemplo, eu nas aulas era a única com a câmara ligada e parece que não tanto os alunos como os professores isso impacta muito a experiência das aulas online e sim houve uma diferença exponencial as notas até até se verificam nas notas que houve uma enorme discrepância. Entrevistador: Mas essa discrepância aumentou as notas ou diminuiu as notas? Entrevistado: Diminuiu as notas. 121 Entrevistador: Mas tu achas que, por exemplo, foi só a aprendizagem em aula ou o facto de, por exemplo, tu não conseguir aceder a uma biblioteca, de forma presencial, onde vais buscar informação não afetou a aprendizagem, não houve uma dificuldade de acesso a essa informação? Entrevistado: Acho que não, porque na Internet com os conheci outros 2 é muito difícil de não aceder a informações, foi só mesmo no sentido das aulas em si. Agora o acesso à informação não, porque estávamos acho que melhor época do que esta para se ter a informação online não há melhor. Entrevistador: E tu achas que nos últimos 2 anos o ensino superior perdeu qualidade devido aos constrangimentos da pandemia? Entrevistado: Sim. (pausa) Entrevistador: Em que aspetos é que achas que ele perdeu qualidade em interação com o docente? A qualidade na transmissão dessa informação? Em que aspeto é que tu achas que o ensino perdeu qualidade? Entrevistado: Os que acabaste de dizer foram afetados, sem dúvida. E por exemplo, eu tenho um curso que até tenho cadeiras práticas e como é que é suposto nós fazemos cadeiras práticas à distância?! Então acho que afetou bastante, principalmente cursos com componentes práticas. Entrevistador: Então avançamos um bocadinho e respondes-me já como é que é aprendeste os ensinamentos mais práticos do que do teu curso durante os últimos 2 anos letivos? Entrevistado: Posso explicar mesmo como é que aconteceu? Entrevistador: Podes Entrevistado: Por exemplo, os professores mandavam dados obtidos por alunos nos anos anteriores e nós temos que fazer o tratamento resultados. Entrevistador: Vocês não não não chegavam a recolher aqueles dados? Os dados já vos eram dados? 128 Entrevistado: Sim. Exatamente. Entrevistador: E no regresso à normalidade como é que foi socializar com os seus colegas? Sofreu alterações pré pandémicas? Entrevistado: Eu sinto que o ensino à distância incutiu muito mean seet de cada um por si e isso nota-se bastante nas aulas agora, há muito pouco, por exemplo, a minha turma pouco conversa, pouco a pouco coopera com os outros e se diria que a situação assim de interação entre uns com os outros, mas na minha turma piorou como a pandemia já era antes, agora é pior ainda. Entrevistador: E com o teu grupo de amigos da faculdade? Entrevistado: Não piorou, mas por exemplo, não tem nada a ver com a pandemia, nós estamos em ramos diferentes do curso e, por exemplo, uma das das colegas também reprovou e ficou para trás então houve assim um pequeno desfasamento de comunicação, mas não, acho que não tem nada a ver com uma pandemia só mesmo coisas da universidade. Entrevistador: O facto de usares máscara de ter que manter o distanciamento em certas circunstâncias não faz com que propicia esse afastamento? Entrevistado: Máscara não, mas talvez o quanto tínhamos aquele espaço entre os outros nas aulas talvez, mas mesmo assim quando preciso haver conversa havia. Entrevistador: Foram outras situações que não a pandemia que originou essas diferenças? Entrevistado: Sim, diria que sim. Entrevistador: Mas aquela ideia de cada um por si vem da pandemia? Entrevistado: Sim. Sim. Entrevistador: Acabamos queria muito agradecer a tua disponibilidade. A entrevista terminou. Não sei se tens alguma dúvida? Entrevistado: Não, não tenho dúvida nenhuma. Entrevistador: Muito obrigada pela rapidez a responder e pela disponibilidade. 129 Anexo 6 - Entrevistada D - Entrevista a aluna do mestrado em Educação Básica Entrevistador: Ao longo dos últimos 2 anos letivos consideras que a aprendizagem e o nível de ensino foram prejudicados pelas restrições pandémicas? Entrevistado: Sim, porque ninguém estava preparado para isto, não é?! E muitos menos nós, que era os professores tinham que se adaptar, mas principalmente nós é que somos avaliados, portanto acho que nos prejudicou muito, por exemplo, eu noto que eu tinha mais distrações, por exemplo, estar em casa, estás no teu ambiente e tens mais distrações enquanto que quando estás numa aula só tens ali os materiais e estais mais focado e pronto para mim, no meu caso acho que foi isso que prejudicou mais porque tens mais distrações. Entrevistador: Tu acabaste a licenciatura numa altura pré pandémica. Tu achas que o ensino perdeu qualidade devido à pandemia? Entrevistado: É assim eu acho pelo menos no meu caso, as professoras tiveram muito bem e conseguiram adaptar-se e só que lá está estás mais distante e, por exemplo, enquanto que se tu tiveres nas aulas presenciais podes ir ter com a professora e fá-las assim estás dependente de uma resposta por e-mail e nem sempre é tão fácil. Mesmo para as professoras com muitos alunos e responder a tudo não é tão fácil como se for, por exemplo, presencialmente. Portanto apesar de que a nível de ensino, matéria e tudo mais, eles conseguiram adaptar-se bem e fazer-nos chegar tudo e mesmo materiais para o nosso estudarmos, mas em termos, por exemplo, a relação aluno professor acho que se prejudicou um bocadinho. Entrevistador: A universidade tomou algumas medidas para tentar combater as desigualdades de acesso a educação originadas pelo covid, uma delas foi, por exemplo, facultar computadores a alunos que não tivessem, entre outras medidas que foram tomadas. Tu achas que as medidas tomadas pela universidade foram as adequadas? Entrevistado: É assim, eu acho que sim, no sentido em que dar materiais a todos para nós termos menos contato com uns com os outros sim, mas, por exemplo, quando havia aulas ainda presenciais e uma das medidas era, por exemplo, a janela e as portas estarem abertas em pleno inverno, por exemplo, acho que essa foi uma das medidas que não, tudo bem que nós compreendemos porque tem que estar a arejar e tudo mais, mas tipo imagina queriam tentar resolver mas não mas davam condições, por exemplo, querem retirar uma coisa mas 130 tinham que dar outra, ou seja, abrir as janelas mas tinhas que ter condições para não estares ali ao frio. Essa medida que tu referiste de dar materiais a todos para ter menos contato, tudo bem e mesmo aquela medida de entras por um lado e sais por outro para não ter contato uns com os outros, sim, mas uma que eu reparei mesmo que não estava não muito correta era mesmo essa, toda a gente se queixou do mesmo. Entrevistador: Mas tu achas que as pessoas que têm mais dificuldade de rendimento, onde estar no ensino superior é um esforço muito grande, achas que essas pessoas saíram mais prejudicadas do que a do que aqueles alunos com mais capacidades económicas? Entrevistado: Sim. Acho que sim, porque mesmo que emprestem computadores e esses meios tecnológicos nem toda a gente tem Internet, mesmo que tenhas um computador e não tenhas uma boa Internet, ou não tenhas mesmo Internet, têm que se deslocar à biblioteca ou a casa de alguém é uma adaptação, um esforço ainda maior por isso sem dúvida que sim, saíram mais prejudicadas. Entrevistador: E como é que foi a tua adaptação aos meios/métodos de ensino à distância? Entrevistado: É assim, foi um bocadinho difícil. Porque eu a nível de concentração tenho muitas dificuldades e foi como eu referi há um bocado, tu em casa tens mais distrações e para mim é mais fácil tu teres o contato com o professor estares ali numa sala de aula do que em casa só, porque nós tínhamos a aula e depois tínhamos mais estudo sozinho, não é?! Não tens tanto acompanhamento, e eu para mim nesse sentido foi mais difícil acompanhar porque tu sentes-te mais desamparada por assim dizer. Entrevistador: Tu ainda apanhaste o primeiro confinamento ou só apanhaste o segundo no mestrado? Entrevistado: Apanhei o primeiro. Entrevistador: Houve para ti uma maior dificuldade de adaptação no primeiro ou no segundo confinamento? Entrevistado: No primeiro. No primeiro, porque foi tudo novidade e então claro pronto a pessoa sente um bocadinho perdida, no segundo já estás mais ambientado. 131 Entrevistador: Achas que o segundo confinamento foi mais fácil porque já estavas adaptada ou achas que os professores já estavam mais preparados para adequar a maneira de lecionar ao ensino online? Entrevistado: Sim. Sim. Sim, porque nós também já tínhamos dado a nossa perspetiva do que é que correu bem e o que é que correu mal e eles também puderam melhorar isso para a segunda vez. Entrevistador: E como é que tu aprendeste os ensinamentos mais práticos do teu curso durante os últimos 2 anos letivos e muito particularmente durante os 2 confinamentos? Tu és estudante do mestrado de educação básica calculo que haja uma parte mais prática, por mais não seja, pelos estágios que vocês realizam e deve haver cadeiras um pouco mais práticas, isso talvez seja um pouco mais difícil de se fazer durante os confinamentos. Como é que essas questões foram tratadas durante os confinamentos? Entrevistado: É assim, por acaso em relação aos estágios eu sempre tive sorte porque mesmo com o covid, claro que tens mais restrições, mas os estágios não estiveram ligados ao confinamento, portanto eu tive os estágios na mesma, mas, por exemplo, aquelas cadeiras mais práticas como as didáticas, por exemplo educação visual, educação física resumiu-se tudo a trabalhos, ou seja, podia ser muito mais vantajoso e aprenderíamos mais e assim não foi possível, porque os professores também não podiam fazer milagres e resumia-se tudo a trabalhos escritos e pronto, isso não se aprende muito porque vais tirar da Internet e resumir. Não aprende tanto como se estivesses na universidade mesma fazer os exercícios, e aprender. Porque no fundo no meu curso eu vou aprender a ser professora, ou vou aprender a ser educadora e com isto nós estávamos em casa só a fazer trabalhos percebes?! Não treinavas muito. Entrevistador: Achas que um dia essa parte mais prática pode ser afetada e tu terás que aprender novamente, ou tentar por ti própria aprender, ou pelo facto dos estágios não terem sido afetados, essa falta que sentiste durante as aulas acabou por ser compensada com um estágio e conseguiste aprender aquilo que se calhar não foi possível pôr em prática durante as aulas conseguiste aplicá-lo no estágio? Entrevistado: É assim apesar de termos os estágios na mesma, vamos sentir na mesma dificuldade de certeza daqui para a frente, porque os estágios são coisas diferentes, por 132 exemplo, eu no estágio não exerci nada relativamente, por exemplo, a educação física, ou seja, por exemplo, aí eu vou sentir de certeza dificuldades, porque nós simplesmente fizemos um trabalho escrito e quando for se calhar exercer nessa parte vou sentir mais dificuldade, e mesmo na educação visual nós não tivemos contato com materiais, com obras de arte, nada, foi só um trabalho e mesmo tendo os estágios, nós no estágio fazemos atividades inventadas por nós portanto, claro que é sempre uma aprendizagem, mas fica na mesma. Entrevistador: E tu pensaste em abandonar os estudos durante a pandemia? Entrevistado: É assim, desistir, desistir nunca pensei, mas claro que uma pessoa fica mais desmotivada isso passa pela cabeça, apesar de que depois podíamos nunca o fazer, desistir totalmente, mas passa pela cabeça, sem dúvida. Entrevistador: Achas que a pandemia fez com que mais alunos pensassem em desistir da universidade? Entrevistado: Sim, porque a andar na universidade tem muito que se lhe diga e é mais difícil do que muitos pensam, e por vezes nós não temos muito com quem desabafar e sentimo-nos muito sozinhos e e já é difícil com tanta coisa para estudar, tanta coisa para fazer e muitos também trabalham enquanto estudam e já é complicado, então numa altura de confinamento que as pessoas estavam mais tristes, mais abaladas, sim penso que sim. Entrevistador: Numa perspetiva geral tu achas que houve um agravamento das desigualdades sociais com reflexo na frequência do ensino superior? Entrevistado: Desculpa, podes repetir. (Senhor da mesa do lado falou mais alto durante a pergunta) Entrevistador: Posso claro. Considera que numa perspetiva geral houve um agravamento das desigualdades sociais com reflexo na frequência do ensino superior? Entrevistado: Sim, porque no ensino superior nem toda a gente consegue ter essa sorte, mesmo que, nem toda a gente consegue ter acesso à bolsa, por exemplo, nem ter o acesso ao ensino superior, quer seja com a bolsa, quer não. E com a pandemia, há muitas pessoas que ficam sem trabalho, ou estou em casa e recebem menos, portanto isso não é prioridade para toda a gente e mesmo que seja, vai ter que ser posta um bocadinho de lado face às outras 133 dificuldades, como manter uma casa, manter tudo no fundo, e isso fica um bocado de parte, portanto sim, aumentou as dificuldades para quem já as tinha. Entrevistador: Nesses casos que referiste a pessoa já estavam na universidade e tu achas que as pessoas que pretendiam ingressar no ensino superior podem ter desistido por causa da pandemia e as consequências que com ela advém? Entrevistado: Sim, de certeza que sim, porque todos os meses pagámos propinas e depois também para nos deslocarmos para a universidade também pagámos transporte, fora os materiais que necessitemos, é muita despesa, e mesmo para quem já lá está se depois as dificuldades aumentam em termos financeiros, acredito que sim, porque são despesas a mais que se calhar se tu tiveres que ponderar entre comer e estudar, obviamente que vais optar por comer, por isso sim. Entrevistador: Na tua perspetiva quais os impactos sociais e económicos que a pandemia de SARS-CoV-2 originou no acesso à educação dos alunos do ensino superior da Universidade do Minho? Entrevistado: Em que aspetos? Entrevistador: Quais os impactos sociais económicos que a pandemia originou no acesso à educação dos alunos do ensino superior? Impactos sociais e económicos. Entrevistado: É assim, por exemplo, como já foi referido anteriormente, por exemplo. impactos sociais eu acho que (pausa) mesmo as pessoas que a nível da sociedade, não convives com ninguém por medo, mesmo que não estejas em quarentena tu tens medo, então fazes só o essencial, vais às compras, vais, vais à escola ou vais ao trabalho, o que for preciso e voltas para casa. Não tens aquele contato, que acho que também vai aumentar mais o stress, mais as depressões, por que uma pessoa está sempre fechada em casa e não tenho contato com ninguém, e a nível económico como já foi referendo, uma pessoa já tem tanta despesa ao nível da vida do quotidiano, que mais a universidade que é muita despesa, e se não tiverem apoios da bolsa mas mesmo que tenham bolsa for pouco, porque não há um valor fixo pode ser mais ou menos dependendo do rendimento das pessoas, e nem sempre é justo, e portanto sim, acho que é muita dificuldade mesmo a nível económico e prejudica a entrada no ensino superior, ou mesmo para quem lá esteja dificulta muito o manter lá. 134 Entrevistador: Sentes que a saúde mental dos alunos universitários foi afetada pelos confinamentos e pela falta de convivência com os colegas? Entrevistado: Sim. Sim, muito, porque mesmo para quem, acho que para toda a gente, mas para quem é de conviver com as pessoas e precisa disso, estudar já exige muito de nós, muita concentração, muito esforço, muita dedicação e tu não poderes saiu um bocadinho disso e estar com as pessoas, e conviver, e relaxar um bocadinho, isso afeta muito as pessoas, e mesmo aqueles fatores todos que já referi do de passarem mais dificuldades, não poderem estar com as pessoas, de estarem sempre fechadas em casa, sim, e mesmo que já tinha problemas antes, de repente está fechada em casa, ainda agrava mais, por isso sem dúvida que sim. Entrevistador: Tu tens conhecimento de algum caso em que a saúde mental de um aluno universitário foi afetada pelos sucessivos confinamentos? Entrevistado: Não. Não tenho conhecimento de nenhum caso. Entrevistador: A socialização com os teus colegas sofreu alterações durante os confinamentos? Entrevistado: Sim. Nós deixámos de ter aulas, portanto deixámos de estar juntos, mesmo os trabalhos nós fazíamos online, por isso foi um corte completamente. Entrevistador: Como é que vocês conversavam? Entrevistado: Era via Zoom. Entrevistador: E no regresso a normalidade sentes que a socialização pré-pandemia e durante a pandemia sofreu alterações? Entrevistado: Sim, porque em primeiro é uma adaptação, não é?! As pessoas estão com medo, com receio, nem sabem se devem ou se ainda se tem de resguardar, e porque também se os políticos não nos passam essa segurança nós vamos ter ainda mais medo, e não sabemos o que fazer. Por isso, não estamos em confinamento, mas colocamo-nos na mesma em confinamento porque temos receio. E depois desse período de adaptação, durante a pandemia as coisas vão melhorando, e vais tendo contato com as pessoas, mas mesmo estando de máscara até estando com o teu núcleo mais próximo tu tens receio de tirar a 135 máscara, há muitas pessoas que não têm sintomas, podemos estar contaminados sem saber, portanto, acho que é dominado pelo medo. pelo receio. Entrevistador: Acabámos a entrevista não sei se tens alguma dúvida se tens alguma questão a colocar? Entrevistado: Não, tudo esclarecido. Não tenho nenhuma questão. Entrevistador: Queria muito agradecer pelo facto de ter aceitado colaborar e fazê-lo de forma presencial, que tem sido muito difícil acontecer e as pessoas aceitarem estar presencialmente para realizar a entrevista. Agradeço-te imenso por isso. 136 Anexo 7 - Entrevistado E - Entrevista a aluno do mestrado em Relações Internacionais Entrevistador: Boa tarde. Entrevistado: Boa tarde. Entrevistador: Tiveste alguma dúvida sobre o termo de consentimento? Entrevistado: Não. Pareceu-me tudo ok. Entrevistador: Ok. Qualquer dúvida que tenhas, qualquer resposta que não queiras responder é só dizeres. Entrevistado: Ok Entrevistador: Como já tínhamos falado, como tu não fizeste a licenciatura na Universidade do Minho eu retirei uma pergunta que abordava as medidas tomadas pela Universidade do Minho no que ao combate às desigualdades de acesso às aulas diz respeito. Quando quiseres podemos começar. Entrevistado: Ok. Por mim podemos começar. Entrevistador: Ao longo dos últimos 2 anos considera que a aprendizagem e o nível de ensino foram prejudicados pelas restrições pandémicas? (pausa) Entrevistado: Ahh… acho que em termos mais simples sim, ahh, mas, não acho, no meu caso específico, ahh, foi durante a licenciatura que tenham sido prejudicadas ao ponto que (pausa) a qualidade fosse terrível, ou seja, comparado ao que seria, ao que eu sei que seria a qualidade normal das aulas. Ahh… Mas, pronto, eu também tive a sorte de (pausa) enquanto estive nos confinamentos não tive problemas de internet onde estava, eu voltei para casa e não tinha problemas de internet, tinha os equipamentos, tinha tudo o que precisava era um curso teórico também, para contextualizar era na área de relações internacionais também, portanto não havia, por exemplo, ( palavra incompreensível de perceber no áudio minuto 2:32), não havia equipamentos que para além do computador que basicamente eu precisasse e não tinha. Ahh portanto acho que nesse aspeto mais técnico, não houve grandes problemas que se tornassem completamente impossíveis de assistir como impossíveis de seguir as aulas. Em termos sociais, acho que, nem estou a falar obviamente sociais fora das aulas, em termos 137 sociais das aulas ahh em si sim, já foi afetado, ahh, a participação era bastante mais difícil, houve casos que aí obviamente sim, especialmente quando eram muitas pessoas nas aulas, especialmente quando eram cadeiras de 80 pessoas, pronto era basicamente chegar lá e estar a ouvir. Quando eram cadeiras de 10 pessoas que tive algumas, ahh, já permitia uma maior participação e uma maior troca de ideias que deu para manter, ahh, mas de forma geral sim houve um impacto negativo, mas acho que tendo em conta as situações, foi uma situação bem gerida, pelo menos na Universidade do Porto, na minha faculdade. Ahh… pronto ao nível mundial as empresas e tudo mais também tiveram de se adaptar a esta situação, mas pronto é a minha resposta. Entrevistador: Sendo um curso teórico tu sentiste dificuldade em aceder a informação extra-aula? Por exemplo, ir a uma biblioteca tornou-se impossível, por elas estavam fechadas, apesar de disponibilizarem alguns meios para poderes aceder à informação, tu achas que o acesso à informação através do online limitou o conhecimento que poderias vir a adquiri se estivesses na universidade de forma presencial e acedesses à informação também de forma presencial? Fiz-me entender? Entrevistado: Sim. Ahh… No meu caso particular, isto aqui é um bocado triste, mas eu passei talvez no total dos meus três anos da licenciatura umas 3 horas na biblioteca, portanto, as pessoas no meu curso, pelo menos eu, fiz o meu curso e fi-lo bem, passei as cadeiras e tive bons resultados e não precisei de ir para a biblioteca. Ahh… Portanto acho que nesse sentido, nesse aspeto não impactou tanto, mas sei de colegas meus, especialmente ao nível do mestrado, que já estavam no nível do mestrado, realmente estavam a fazer as dissertações e estavam a fazer outro tipo de projetos e aliás eu estava na Faculdade de Letras na Universidade do Porto, portanto tive colegas de Sociologia e colegas de História e Filosofia e tudo mais e estou a lembrar-me, por exemplo, da História que tem um acesso a um artigo físico, uma necessidade maior disso, sim houve alguma penalização, especialmente quando era ilegal andar na rua, não é. Ahh… Era especialmente difícil a deslocação à Faculdade. Agora no meu caso pessoal acho que também por uma questão de a minha licenciatura era basicamente à base de testes, não tínhamos grandes trabalhos de investigação, por acaso, tivemos acho que todos os trabalhos de pesquisa a sério exatamente durante o primeiro confinamento. Ahh… Portanto foi interessante, mas deu para aceder a recursos digitais e a 144 ainda as coisas, apesar de haver aulas presenciais na maioria dos sítios as coisas estavam fechadas e não havia grande vida social, mesmo na universidade havia todo o tipo de cuidados, não se podia estar a fazer nada descansado especialmente para eles acho que deve ter sido bastante triste. Das pessoas que que eu conhecia, eu tive um bocado de pena, honestamente, as pessoas a ter a primeira semana de aulas da universidade por Zoom. Ahh… ao longo dos confinamentos, mesmo para quem já estava, em termos pessoais se calhar, vou pegar por aí para não estar a divagar muito. No primeiro confinamento não foi assim tanto, não sei também tiveste aquela mentalidade de ok, agora vamos ter 2 semanas de pausa, de férias aqui no início de março e vai ser bastante bom ter essas 2 semanas que essas 2 semanas tornaram-se em 3 meses. Ahh… nesse confinamento, em particular, também veio numa altura já de algum bom tempo, eu sei que isto é um bocado estranho, mas tem efeito, o bom tempo, o sol e calor e, portanto, acho que não foi tão difícil. Agora o seguinte, em janeiro-fevereiro, esse custou-me bastante e já está muito mal da cabeça, em casa e foi bastante bom quando, acho que foi ali em meados de abril, quando as coisas começaram a abrir e deu para tomar café e tudo mais. Ahh… mas definitivamente que a saúde mental foi bastante afetada e as pessoas perderam rotinas que eram importantes para elas, estavam sempre em casa e para que até rotinas, era só um contínuo de coisas para fazer e de estar a existir, era um bocado a vida durante esses confinamentos. Entrevistador: E tu tens conhecimento de algum caso, de um aluno, em que a saúde mental foi afetada pelos sucessivos confinamentos? Entrevistado: É assim, ao ponto de levar essa pessoa a ter um esgotamento ou precisar de ajuda psicológica ou psiquiátrica, agora assim de repente não me lembro, mas também a verdade é que, pelo menos nos meus amigos mais próximos isso não aconteceu. Ahh… havia pessoas que nitidamente estavam bastante tristes até e pronto se calhar a maioria, agora assim casos gritantes de precisar de apoio médico não me estou assim a lembrar de ninguém, mas oh pá de certeza que em tantas pessoas, nas cadeiras que eu tive de certeza que houve. Entrevistador: A socialização com os teus colegas sofreu alterações durante os confinamentos? Entrevistado: Ahh…. sim, eu pronto, não me considero antissocial, mas às vezes passo bem sozinho e faço bem as minhas coisas e não preciso de estar sempre a conviver, obviamente 145 que sentia bastante falta de jantar fora, de sair, tomar café, de estar com os meus amigos. No início até haviam aqueles desafios e jogos que as pessoas passavam noites a jogar aquelas coisas e durante os primeiros dias, durante as primeiras semanas parecia quase como um substituto, mas a verdade é que, eu penso eu ficava triste pensar é isto esperar que uma pessoa pudesse ser a rua outra vez e estar com as pessoas presencialmente do que estar só em chamada a jogar, acho que não a mesma coisa definitivamente. Entrevistador: No regresso à normalidade essa socialização sofreu alterações prépandémicas, ou seja, quando houve o regresso à normalidade depois dos confinamentos sentiste que eles foram alterados? E se isso aconteceu achas que foi pelo receio, porque a pandemia ainda era um assunto, ou pouco os confinamentos fizeram com que vocês já não conseguissem socializar uns com os outros porque a interação tinha passado toda a ser online? Entrevistado: Ahh… sim, eu acho que me tornei, eu disse há bocado que não era antissocial, mas acho que me tornei menos social com a pandemia, era bastante mais antes da pandemia. Houve mudanças de hábitos e de rotinas, não sei dizer se para melhor ou para pior, nalguns casos definitivamente para melhor, para a minha saúde pelo menos e noutros para pior. Acho que é uma parte essencial da vida universitária, mas mesmo depois da pandemia condicionou bastante, uma pessoa não estava descansada, estava sempre com medo da pandemia, com medo de morrer basicamente, medo de morrer medo de ir parar ao hospital que às vezes uma pessoa nem se sentia confortável. E depois a questão dos horários, vamos jantar fora para depois ter que sair do restaurante às 10:30 ou às 11:00, não podemos impor um bar não podemos, não podemos fazer nada é ir para casa, não tem assim tanta, não tinha, as coisas perderam um bocado a piada. felizmente agora isso já mudou e agora estamos com outro problema obviamente a nível Internacional, tão mau eventualmente pior, sinto que não o nível que pelo menos que a nós portugueses nos possa afetar tanto, mas se calhar vai ser um estudo interessante ver quais é que são os efeitos psicológicos, na saúde mental num cenário como aquele que estamos a viver, com o que se está a passar na Europa de leste, mas sim a socialização pós pandemia, mesmo depois dos confinamentos continua muito afetada para mim, especialmente sinto isso. 146 Entrevistador: Acabou a entrevista. Agradeço-te imenso a colaboração, a rapidez a responderes ao pedido e a total disponibilidade. Agradeço-te imenso. Não sei se, entretanto, ficou alguma dúvida, alguma questão? Entrevistado: Não, eu agradeço-te, pelo estudo e sinto-me bem em colaborar para isto, porque honestamente sendo que os pedidos do questionário, chegam montes deles todos os dias e sei que nunca vou responder, acho que assim é preferível e boa sorte para o teu projeto e com mestrado para o ano também sou eu. Entrevistador: Muito obrigada 147 Anexo 8 - Entrevistada F - Entrevista com aluna do mestrado em Psicologia Clínica Entrevistador: Olá, o meu nome é Ana, eu estou neste momento a terminar o mestrado e preciso de fazer uma série de entrevistas sobre o impacto que a covid-19 teve na educação e se isso fez aumentar as desigualdades sociais que já existiam pré pandemia. Leste o termo de consentimento? Tiveste alguma dúvida? Entrevistado: Sim. Não, não. Entrevistador: Está tudo esclarecido? Entrevistado: Sim. Entrevistador: Deixa-me só esclarecer uma dúvida, estou estudaste na Universidade do Minho durante os 2 confinamentos? Entrevistado: Sim. Entrevistador: Ok. Podemos começar? Entrevistado: Sim. Entrevistador: Ao longo dos últimos 2 anos letivos consideras que a aprendizagem e o nível de ensino foram prejudicados pelas restrições pandémicas? Entrevistado: Sim. Entrevistador: Podes desenvolver tudo o que quiseres. Entrevistado: É assim, claro que foi um momento de aprendizagem para os professores por causa de estarem a lidar com uma tecnologia que não estavam à espera, mas claro que não era a mesma coisa não é o mesmo que ter um professor à nossa frente com o quadro e a explicar tudo o que se está a passar é mesmo até por causa disso, foi mais as dificuldades tecnológicas que os professores tinham do que o ensino em si, porque de resto, mas é basicamente isso. Entrevistador: E tu achas que por causa dessas complicações digamos assim, tu achas que nos últimos 2 anos o ensino superior perdeu qualidade devido ao constrangimento da pandemia? 148 Entrevistado: Não. Acho que não, é assim o problema vai haver sempre há sempre os problemas quer seja presencial quer seja online ser online tinha vantagens que o presencial não tem, portanto acho que não piora nem sequer significativamente, na minha opinião. Entrevistador: Que vantagens é que achas que online traz que não traz o presencial? Entrevistado: É assim, era ótimo eu sentia-me com mais energia porque nas partes iniciais das aulas não é, depois ao longo do dia vais sempre perdendo energia estás em casa e vai diminuindo, mas inicialmente eu senti-me com mais energia nas aulas, porque enquanto eu tenho que me deslocar de (localidade da entrevistada) para Braga todos os dias ali eu saía da cama vinha para escritório não é estava aqui, estava presente e não tinha toda uma deslocação que já que por si só já é cansativo então isso é uma vantagem bastante grande e depois ter as aulas gravadas e tudo era fantástico poder ver ouvir poder aprender mais ativamente. Entrevistador: Vocês tinham a possibilidade de gravar as aulas? Entrevistado: Sim, sim, sim os professores davam essa possibilidade. Entrevistador: É que há outros cursos que não existiria essa possibilidade e tu achas que se não existisse a possibilidade de as aulas serem gravadas tu conseguirias da mesma forma adquirir aquele conhecimento que se calhar depois ias rever a aula e percebias melhor aquilo que o professor tinha dito na altura? Entrevistado: É assim, isso ajudou não é, mas as presenciais também não são gravadas agora nem eram quando eram presenciais então uma pessoa já tinha que estar um bocadinho preparada para acompanhar o professor. Claro que há uma diferença, um bocadinho uma diferença por causa de haver a gravação, mas não ao ponto de passar, por exemplo, um 14 para um 20, ou seja, não é uma diferença era mais uma diferença sabermos que podiam estar um bocadinho mais desligados que depois podíamos ler, mas não, não muito. Entrevistador: As notas não sofreram de oscilação muito grande, ou seja, tu não tiveste piores notas nem melhoraste muito as tuas notas durante o confinamento? Entrevistado: Não, não. Foi quase, é assim, não porque eu tive o confinamento foi no meu segundo e terceiro ano não é, mais o menos, portanto o primeiro ano as notas claro que foram 149 um bocadinho mais baixos porque é o ano de adaptação etc, mas não foi assim um descalabro de diferença. Entrevistador: No teu ponto de vista as medidas tomadas pela Universidade do Minho no combate às desigualdades de acesso às aulas via online diz respeito foi a foi o adequado mais adequado? Entrevistado: É assim, é como eu disse anteriormente, isto foi tudo novo para toda a gente, então eu acho que a universidade, na minha opinião, deu o seu melhor para tentar combater isso. Agora também não deve ser fácil conseguir arranjar não sei quantos computadores, não sei quantas Internet para as pessoas, porque eu soube que houve pessoas que não tinham Internet em casa, em que foi necessário fornecer Internet, então eu acho que eles deram o seu melhor e que isso ajudou muito no combate à desigualdade, mesmo os professores mantinham-se assim disponíveis para ajudar quem não conseguir ir a um computador ou assim que sem dúvida. Entrevistador: Tu sentiste que até os professores foram colaborativos nesse aspeto? Entrevistado: Sim, sim. Mesmo quando falhava a net e tudo os professores não ficavam assim parece que chateados, eles compreendiam que era uma situação complicada. Entrevistador: Como é que foi a tua adaptação aos meios/métodos de ensino à distância? Entrevistado: Um bocadinho complicado ao início, porque passámos ter uma aula toda assim interativa não é, estar a ver as outras pessoas torna mesmo nós conseguimos estar um pouco mais atentos passar para ter em casa e temos todo o tipo de distrações possíveis, pessoas á nossa volta, pessoas que entravam pela sala a dentro, tivemos foi complicado, depois as pessoas foram começando a aprender não é mesmo com os professores é engraçado ver às vezes vemos animaizinhos deles a passar isso era engraçado, mas foi complicado no início. Entrevistador: Tu sentiste que essa dificuldade foi maior no primeiro ou no segundo confinamento? Entrevistado: O primeiro confinamento foi em março não foi? Entrevistador: Foi. 150 Entrevistado: No primeiro nós não estávamos à espera no segundo nós já estávamos habituados. Entrevistador: E como é que foi o processo de avaliação para ti, a adaptação ao processo de avaliação? Entrevistado: Terror, foi um verdadeiro terror. Porque assim, na escola já e já temos o stress é normal em casa temos um stress acrescido de poder falhar na net poder entrar alguém pela sala dentro, depois houve toda uma situação daquilo que eles porem a Blackboard para nós não copiarmos, alguns computadores não estavam a aceitar, outros estavam a bloquear depois sabermos que tínhamos uma câmara ligada virada para nós e o menor desvio de olhar aquilo podia alertar o professor lá foi foi incrível, incrivelmente mal, isso foi muito mau e assim foi mais fácil porque não termos que estar ali não, estamos com aquela pressão, estar ali numa sala e não sei quê, mas ao mesmo tempo tornou-se mais difícil por causa de todo o resto. Entrevistador: E como é que desenvolveste e aprendeste os ensinamentos mais práticos do teu curso durante os últimos 2 anos letivos, muito claramente durante os 2 confinamentos? Entrevistado: É assim, o meu curso não tem componentes muito práticas, é muito mais teórico, a parte mais prática era realmente estar muito atento às aulas porque era mesmo necessário estar atento às aulas online e tentar fazer, ter sempre uma aprendizagem ativa e está atenta nas aulas para tentar aprender o máximo possível, depois tentar fazer porque senão era muito complicado acompanhar. Entrevistador: Vocês realizam estágio? Entrevistado: Não, na licenciatura não, nós só realizamos agora no mestrado. Entrevistador: Tentando fazer futurologia, que é um bocadinho difícil, como é que tu achas que teria sido se estivesses na altura do estágio? Entrevistado: Estágio online? Entrevistador: Não sei, estágio online ou mesmo a suspensão do estágio, como é que tu achas que conseguirias aprender aquilo que estágio te dar? Por exemplo, vou dar-te o meu exemplo, eu estava em estágio, o meu estágio foi suspenso e eu deixei de ter a componente prática para passar a ter uma componente teórica que era um projeto. Como é que em 151 psicologia sendo aquele único estágio do vosso percurso académico, como é que tu achas que seria a suspensão desse estágio, como é que tu irias apreender a parte prática sem o estágio? Entrevistado: É assim, eu não imagino não estou a imaginar, porque nós temos um pré estágio, depois temos o estágio que nos prepara depois para o estágio da ordem, ou seja, como é que nós iríamos funcionar sem essa aprendizagem, porque eu vejo-me a mim, eu neste momento se me puserem um cliente à minha frente com a perturbação mais leve possível eu não sei como que tratava, não tenho nenhum tipo de preparação então, por muito que o estágio fosse passagem de prático para teórico, essa componente da lidar com uma pessoa à nossa frente não ia ser possível, ou seja, ia complicar muito a vida, a carreira futura principalmente no estágio da ordem dos psicólogos isso seria muito complicado mesmo. Entrevistador: Pensaste em abandonar os estudos durante a pandemia? Entrevistado: Não, nunca me passou pela cabeça, às vezes brincava com a situação, mas não a sério. Entrevistador: Tu consideras que a situação pandémica terá levado mais alunos a pensar em desistir da universidade? Entrevistado: Eu acredito que sim, porque o confinamento fez com que as pessoas ficassem muito ansiosas, algumas deprimidas e então juntar à sensação de ansiedade por causa de um confinamento juntar a ansiedade está num curso que mudou completamente, eu acredito que muitas pessoas podem ter nem saído da universidade, mas podem ter pensavam, pelo menos pensado acredito que sim. Entrevistador: E tu consideras, numa perspetiva geral, que houve um agravamento das desigualdades sociais com reflexo na frequência do ensino superior? Entrevistado: É assim não sei, não sei. Entrevistador: Consegues perceber o conceito desigualdade social se não conseguires explico-te. Entrevistado: Sim. Entrevistador: Ok. Então se consegues perceber o conceito de desigualdade social e ou reformule a pergunta de uma forma que tu vais conseguir entender o que eu estou a 152 perguntar. Tu achas que com a pandemia as desigualdades sociais fizeram com que os alunos que frequentem a universidade essas desigualdades entre alunos aumentasse com a pandemia? Entrevistado: Sim, provavelmente, porque muitas pessoas, muita gente foi para lay off não é, então isso de certeza que prejudicou muita gente, houve trabalhos que continuaram, mas pelo menos as pessoas à minha volta muitas vieram para lay off e claro que se tornou complicado, principalmente para quem não tem bolsas deixa de ser uma ajuda que continua constante não é, mesmo para quem tem bolsa não é, porque esta às vezes é necessária uma parte extra, mas sim de certeza, infelizmente não é. Entrevistador: E na tua perspetiva quais os impactos sociais e económicos que a pandemia originou no acesso à educação dos alunos do ensino superior? Entrevistado: Eu acho que a pandemia, falando de quem ia agora ingressar no ensino superior, houve toda uma situação por causa dos exames nacionais não é então isso afetou bastante em termos económicos, provavelmente também deve ter agravado, porque bastava as pessoas terem poupanças anteriores e a tiveram de usar, seja para o que for, por causa de imprevistos então acabou também por prejudicar e ainda acaba por prejudicar agora um pouco não é, porque ainda estamos a sofrer todos o balanço disto. Entrevistador: Focando nos exames nacionais, que tu referiste de acesso à universidade, tu achas que o facto de tu puderes escolher os exames que pretendes fazer para aceder à universidade facilita o acesso? Entrevistado: Sim, eu acho sim, isso foi uma medida que eles tentaram fazer na melhor situação, foi a melhor situação que eles arranjaram eu acho que isso realmente porque lhes tira, acho que lhes tirou o peso de ter de realizar os testes e realizar apenas aqueles que consideravam necessários para ingressar na universidade, depois também tenho o ponto negativo que é só fizeste estes não podes optar se necessário por outros cursos que precisem de outros, ou seja, uma menor panóplia de cursos para escolher, mas também tens mais foco para estudar para aquilo que queres. Entrevistador: Tu achas que as pessoas que têm menos rendimentos conseguiram aceder da mesma forma a material extra-aula, por exemplo livros, ou seja, achas que os alunos que tem mais dificuldades económicas tiveram mais dificuldade, ou tu achas que isso se manteve 153 da mesma forma e eles conseguiram aceder à informação por outros meios, por exemplo, online? Entrevistado: Eu acredito que eles, é assim há livros que claro não há online por muito que se tente arranjar e isso já por si próprio já é muito mau então e depois não ter o acesso a biblioteca piorou de certeza porque as pessoas não poderiam sequer requisitar para imprimir, isso não se deve fazer, mas pronto tinham esse acesso. Eu não sei se isso também pode estar incluído na pergunta, mas eu vejo pelo menos aqui em (localidade da entrevistada) há computadores fixos que as pessoas podem usar e cortar também isso pra pessoas que não têm computadores em casa também deve ter ajudado a piorar, não é? Porque as pessoas podiam não ter um computador em casa, mas sabendo que preciso ir à biblioteca e tratar de qualquer coisa poderiam ir lá aos computadores e estar à vontade tiveram do nada ficaram sem isso, não é? Então eu acredito que isso tenha piorado bastante. Entrevistador: Então acabas por considerar que esses alunos que têm essas dificuldades de comprar livros e aceder a essa informação acabaram por sair prejudicados com a pandemia no seu ensino? Entrevistado: Sim, pode não ser até um ponto muito elevado, mas sem dúvida por muito mínimo que seja houve pessoas prejudicadas principalmente com baixos rendimentos. Entrevistador: Sentes que a saúde mental dos alunos universitários foi afetada pelos confinamentos e a falta de convivência com os colegas de curso? Entrevistado: Eu já me já me estou a rir porque, aí meu Deus, isso tão mau, foi sem dúvida, a saúde mental de muita gente foi por água abaixo, muita gente muita gente. Muita gente mesmo, tenho colegas que tiveram pela primeira vez crise de ansiedade, episódios depressivos, e depois estar sempre com os mesmos, e depois não é só as perturbações em cima, as próprias relações interpessoais que vão prejudicar a saúde mental, começam a ficar muito afetadas por causa da vivência em casa, o estar sempre uns com os outros, estar sempre a lidar as mesmas pessoas, sem um bocadinho de descanso sem poderem ir desanuviar, a saúde mental piorou imenso, imenso mesmo. Entrevistador: A pergunta que te vou colocar, por norma não a coloco, mas atendendo à tua área de estudos acho que é oportuna. Como é que tu achas que a sociedade passou a tratar a saúde mental depois da pandemia? Achas que houve uma alteração com a pandemia,