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Marta de Jesus Gonçalves da Costa A Imagem dos Chineses nos Meios de Comunicação Social Portugueses: Análise de Discurso, Estereótipos e Preconceitos Dissertação de Mestrado Mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês: Tradução, Formação e Comunicação Empresarial Trabalho efetuado sob a coorientação das Doutora Sun Lam Doutora Bruna Patrícia Cardoso Peixoto Outubro de 2019
ii Direitos de Autor e Condições de Utilização de Trabalho por Terceiros Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
iii Agradecimentos A realização desta dissertação teve os seus bons e maus momentos e por isso gostaria de agradecer a todas as pessoas que fizeram deste percurso o mais agradável possível. Em primeiro lugar, quero agradecer à Professora Doutora Bruna Peixoto, por toda a paciência, orientação cuidadosa e, sobretudo, motivação nos momentos em que o objetivo final parecia inalcançável. Quero agradecer também à Professora Doutora Sun Lam. Sem a sua dedicação pelo Departamento de Estudos Asiáticos, todo o meu percurso académico, desde a licenciatura ao mestrado, seria impossível. Agradeço também à minha família, em especial à minha mãe, Clarinda, por todo o apoio, amor incondicional e liberdade com que me proporcionou ao longo destes anos e por toda a atenção nas inúmeras vezes em que fiz questão de lhe ler os novos avanços da dissertação. Agradeço ao meu amigo Nuno Videira, por todas as horas que partilhamos juntos, tenham sido elas penosas ou de alegria, foram muito importantes para mim. Agradeço, ainda, à Bárbara Marques, à Eva Mendes, ao Ruben Elias, à Tiffany Dantas e a todos os meus outros amigos que de alguma maneira contribuíram para a completação deste percurso, pelas palavras amigáveis e ouvidos atentos. O meu mais sincero obrigado.
iv Declaração de Integridade Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
v A imagem dos Chineses nos Meios de Comunicação Social Portugueses: Análise do Discurso, Estereótipos e Preconceitos Resumo Os estereótipos e preconceitos, generalizações criadas por culturas acerca, sobretudo, de outras culturas, possibilitam a diferenciação e separação entre estas, levando por vezes a problemas de aceitação e adaptação. Os meios de comunicação fazem parte da vida quotidiana de qualquer membro da sociedade, sendo, atualmente, indispensáveis para a transmissão de conhecimento dentro e entre comunidades. A transmissão de informação, por vezes, recorre ao uso de estereótipos e preconceitos para influenciar o público para uma determinada opinião, ou, simplesmente, facilitar a compreensão de um evento, através do que já é conhecido por este. Neste contexto, o objetivo desta dissertação é dar a conhecer de que modo os estereótipos e preconceitos chineses presentes na sociedade portuguesa são passados ao público através dos meios de comunicação portugueses. Neste estudo são inicialmente apresentados os conceitos e teorias relacionadas com os meios de comunicação, a análise de discurso e dos estereótipos e preconceitos, fornecendo, assim, uma base teórica para a análise de textos retirados de jornais e revistas portugueses, com o objetivo de encontrar estereótipos e preconceitos sobre os chineses. Embora estes não estejam visivelmente explícitos nas notícias aqui analisadas, propõe-se que a linguagem usada pelos autores de artigos de opinião e crónicas, influenciada pelos estereótipos chineses, pode projetar “ideias feitas” nos leitores. PALAVRAS-CHAVE Análise de discurso; comunicação intercultural; estereótipos; meios de comunicação; preconceitos
vi The Chinese Image in the Portuguese Media: Discourse Analysis, Stereotypes, and Prejudices Abstract Stereotypes and prejudices, generalizations created by cultures about, above all, other cultures, allow the differentiation and separation between them, sometimes leading to problems of acceptance and adaptation. The media is part of daily life of any member of a society and is now indispensable for the transmission of knowledge within and between communities. Information transmission sometimes relies on the use of stereotypes and prejudices to influence the public to a certain opinion, or simply to help the understanding of an event through what is already known by it. In this context, this dissertation intends to show how the Chinese stereotypes and prejudices are present in Portuguese society and how they are passed on to the public through the Portuguese media. In the first part of this study, the concepts and theories related to the media, discourse analysis, stereotypes and prejudices are presented, thus providing a theoretical basis for the analysis of selected texts retrieved from Portuguese newspapers and magazines. Although no stereotypes and prejudices are found in the discourse analysis on some news, it is supposed that through the use of language authors of opinion articles and chronicles, who are influenced by Chinese stereotypes, may project their opinions in their readers, as we can find throughout the discourse analysis. KEYWORDS Cross-cultural communication; discourse analysis; media; prejudice; stereotype
vii 中国人在葡萄牙媒体中的形象:话语分析,刻板印象及偏见 摘要 一般来说,刻板印象及偏见产生于文化之间的差异。由于这样的差异存在,文化 间的相互接受与适应的过程难免会出现一些问题。当今社会,媒体作为在社群内部和 社群之间信息传播的媒介,是任何一个社会成员日常生活中不可缺少的一部分。有时, 信息的传播还会依赖于利用刻板印象和偏见, 从而影响公众, 形成某种观点,或者仅帮 助人们通过已知的信息来理解一个事件。基于此背景,本篇论文的目的是了解与中国 人相关的刻板印象和偏见是如何通过葡萄牙的媒体传递给当地公众的。 论文首先介绍了与媒体、话语分析、刻板印象和偏见相关的概念和理论,从而为 下一步分析从葡萄牙报纸和杂志中摘取的文本提供了理论基础。尽管在分析新闻报道 的语言中没有发现特定的刻板印象和偏见,但我们假设并试图通过言语分析证实,受 中国刻板印象影响或抱有偏见的新闻评论家或专栏作家可能通过其所使用的语言风格 对读者产生一定影响。 关键词 媒体行业;刻板印象;偏见; 篇章分析;文化
viii Índice Introdução .......................................................................................................................................... 1 1. Capítulo I - Os Meios de Comunicação Social em Contexto de Comunicação Intercultural ...... 4 1.1 O Papel dos Meios de Comunicação Social .......................................................................... 5 1.2 Os Meios de Comunicação Social na Transmissão de Culturas .......................................... 15 1.3 A Cultura e Sociedade Chinesas nos Meios de Comunicação Social Portugueses ............... 24 2. Capítulo II - Análise de Discurso, Estereótipos, Preconceitos e Cultura .................................... 36 2.1 Análise de Discurso ........................................................................................................... 37 2.2 Estereótipos e preconceitos ............................................................................................... 43 2.3 Estereótipos e Preconceitos em Relação aos Chineses presentes na Sociedade Portuguesa 57 3. Capítulo III –Análise de Textos ................................................................................................... 64 3.1 Metodologia ...................................................................................................................... 64 3.2 Análise dos textos selecionados ......................................................................................... 66 Conclusão ........................................................................................................................................ 84 Referências Bibliográficas ................................................................................................................. 86 Bibliografia Online dos Textos Analisados .......................................................................................... 89 Bibliografia Online Geral ................................................................................................................... 90 Anexo I – Amnistia Internacional denuncia tortura policial em Hong Kong e exige investigação ........... 92 Anexo II – Amnistia Internacional alerta para “padrão alarmante” de violência em Hong Kong ........... 94 Anexo III – Tiananmen, 30 anos depois, chama-se Hong Kong .......................................................... 96 Anexo IV – A China é firme em defender a prosperidade e estabilidade de Hong Kong ....................... 98 Anexo V - Eu sei lá se são os chineses... ......................................................................................... 102 Anexo VI – As mulheres, os salários iguais e o fim do mundo em cuecas ........................................ 104 Anexo VII – A viagem à China ......................................................................................................... 107 Anexo VIII – Não há fatos italianos baratos ...................................................................................... 109 Anexo IX – Electricidade comprada no chinês ................................................................................. 110 Anexo X – Namoradas, amigos e puns. Enfim… o essencial da vida ................................................ 111 Anexo XI – Ritz, Dolce & Gabbana e a China loucamente rica .......................................................... 113 Anexo XII – Vistos ‘gold’ .................................................................................................................. 116
ix Índice de Figura Figura 1: Impressão de tipos movéis de Bi Sheng ............................................................................... 7 Figura 2: Plataforma giratória de Wang Chen ...................................................................................... 7 Figura 3: A Grande Roda da Cultura na Sociedade ............................................................................ 16 Figura 4: Jornal de Notícias, a 02/09/2019 ..................................................................................... 27 Figura 5: Notícia ao Minuto, a 04/09/2019 ...................................................................................... 28 Figura 6: Diário de Notícias, há um ano atrás .................................................................................... 29 Figura 7: Diário de Notícias, há um ano atrás (cont.) ......................................................................... 30 Figura 8: Jornal de Notícias, há um ano atrás ................................................................................... 31 Figura 9: Diário de Notícias, organização por relevância .................................................................... 32 Figura 10: Jornal de Notícias, organização por relevância .................................................................. 33 Figura 11: Jornal de Notícias, organização por relevância (cont.) ....................................................... 33 Figura 12: Âmbitos e relações entre as diferentes escolas da AD ....................................................... 39 Figura 13: Modelo de linguagem tendenciosa.................................................................................... 51 Figura 14: Jornal Expresso, "Amnistia Internacional alerta para ‘padrão alarmante’ de violência em Hong Kong” .............................................................................................................................................. 69
7 aos tipógrafos criar impressões de forma mais rápida e eficiente (Childress, 2008, pp. 48-49). Na Europa, a impressão surgiu no século XV, quando Johannes Gutenberg, inventor alemão, usou pela primeira vez a prensa e o sistema mecânico de tipos móveis, à semelhança dos chineses, mas feitos de metal. Comparando com o mesmo tipo de impressão na China, esta era mais rápida e fácil de conseguir, uma vez que o alfabeto não tem tantos carateres por onde escolher como a escrita chinesa. A impressão abriu novas portas ao conhecimento. Os primeiros meios de comunicação em massa começaram a surgir, com a impressão de jornais, livros e revistas. Estes vieram influenciar a formação da opinião pública. Para Charles Horton Cooley (1910, p. 80), a imprensa mostrou-se eficaz de acordo com os seguintes fatores: Expressividade, por incluir uma ampla variedade de ideias e sentimentos. Permanência de registo, ou a superação do passar do tempo. Rapidez, ou a superação do espaço. Difusão, ou acesso a todas as classes da sociedade. 3 McQuail (2010) entende o desenvolvimento e o sucesso da imprensa devido a caraterísticas específicas, tanto como meio de comunicação como instituição. As caraterísticas como meio de comunicação são, entre outras, a sua “regularidade e frequência,” a sua “atualidade de conteúdo e referências” e a possibilidade de ser lida individualmente ou em grupo. Por outro lado, as particularidades 3 “Expressiveness, or the range of ideas and feelings it is competent to carry. Permanence of record, or the overcoming of time. Swiftness, or the overcoming of space. Diffusion, or access to all classes of men.” (TdA) Figura 1: Impressão de tipos movéis de Bi Sheng Figura 2: Plataforma giratória de Wang Chen
8 de sucesso, como instituição, são o facto de a sua audiência ser “urbana e secular,” a sua escrita, apesar de autocensurada é relativamente livre, tem uma base comercial, etc. Com a descoberta da eletricidade, as tecnologias de comunicação continuaram a progredir, levando à invenção do telégrafo no século XIX, por Samuel Morse. O telégrafo, por si só, não representa um instrumento de comunicação em massa, mas foi o primeiro passo para o surgimento dos meios de comunicação eletrónicos, bem como a entrada na Era da Comunicação de Massa (DeFleur & BallRockeach, 1993, pp. 40-41). Esta Era ficou marcada pelo surgimento do cinema, nos finais do século XIX, da rádio e da televisão, no século XX. O cinema tornou-se popular por, pela primeira vez, permitir às pessoas disfrutar do seu tempo livre de “forma acessível e respeitável” (McQuail, 2010). A rádio e a televisão advêm de tecnologias existentes na época, como o telégrafo (referido acima), a fotografia e a gravação de som (McQuail, 2010). Estes instrumentos de transmissão de informação não foram criados com o objetivo de satisfazer a necessidade da sociedade de um novo serviço ou novos conteúdos. De acordo com Williams (1997, p. 17), (…) a rádio e a televisão foram sistemas concebidos, principalmente, para transmissão e recessão como processos abstratos, com pouca ou nenhuma definição de conteúdo precedente. (…) Deste modo, não só o fornecimento de serviços de difusão precedeu a procura, os meios de comunicação precederam, também, o seu conteúdo. 4 A televisão, sendo considerada o meio de comunicação com o maior raio de alcance de audiências, é compreendida como a principal fonte de notícias e informações da atualidade, agindo como “uma janela para o mundo em tempo real,” mesmo que os programas não sejam passados em direto, e transmitindo um sentimento de “intimidade e envolvimento pessoal” entre a audiência e os apresentadores ou atores (McQuail, 2010). Atualmente, a sociedade encontra-se na Era dos computadores. A invenção dos computadores, em junção com a chegada da Internet, permitiu a integração de todos os meios de comunicação referidos 4 “(…) radio and television were systems primarily devised for transmission and reception as abstract processes, with little or no definition of preceding content. (…) It is not only that the supply of broadcasting facilities preceded the demand; it is that the means of communication preceded their content.” (TdA)
9 anteriormente numa única rede de comunicação. McQuail (2010) refere que o computador deve o seu poder como instrumento de comunicação (…) ao processo de digitalização que permite a qualquer tipo de informação, apresentada em qualquer tipo de formato, de ser transmitida com a mesma eficiência, bem como misturada. Em princípio, não há a necessidade de vários meios de comunicação diferentes(…), uma vez que podem ser incluídos na mesma rede de comunicação computadorizada e centro de receção (em casa, por exemplo). 5 A Internet possibilitou a transição de uma comunicação em massa unidirecional para uma comunicação mais interativa. Pelas palavras de Shoemaker e Reese (2014, p. 40), “atualmente a arquitetura da comunicação consiste em muitos emissores e muitos recetores.” Hoje em dia, é possível ter acesso às mais recentes notícias através de jornais online , assistir a filmes sem uma ida ao cinema ou, ainda, assistir a programas de televisão pela Internet. O contacto imediato entre pessoas de diferentes países que o desenvolvimento da Internet proporcionou às sociedades veio facilitar a transmissão de conhecimentos, crenças e valores, mostrando-se um aspeto importante para a evolução da opinião pública, tanto positiva como negativamente, ou seja, é possível presenciar no contacto entre comunidades tanto uma aceitação das suas diferenças como uma negação e discriminação destas. Por seu lado, Jenkins, Ford e Green (2013, p. 1) defendem, também, a existência de uma nova fase na comunicação, referindo uma mudança do processo de distribuição para um processo de circulação, em que “uma mistura de forças de cima para baixo e de baixo para cima determinam o modo como o material 6 é partilhado dentro das culturas e entre estas de maneiras muito mais participativas (e confusas).” 7 Conforme Jenkins, Ford e Green (2013, p. 2), o público deixou de ser apenas recetor de uma mensagem pré-concebida para participar na “criação, partilha, reenquadramento e combinação” dos conteúdos dos média, de forma mais alargada, alcançando comunidades para além das que lhes são mais próximas. 5 “(…) the process of digitalization that allows information of all kinds in all formats to be carried with the same efficiency and also intermingled. In principle, there is no longer any need for the various different media (…), since all could be subsumed in the same computerized communication network and reception centre (in the home, for instance).” (TdA) 6 Neste caso, “material” refere-se ao conteúdo transmitido pelos meios de comunicação, sejam notícias, recomendação cinematográficas, etc. 7 “(…) a mix of top-down and bottom-up forces determine how material is shared across and among cultures in far more participatory (and messier) ways.” (TdA)
10 A mudança para este novo processo de circulação de informação é possível devido ao surgimento de instrumentos de comunicação online que facilitam a partilha imediata de conteúdos (Jenkins, Ford & Green, 2013). Para definir esta nova fase da comunicação, em que novas plataformas de comunicação são possíveis em consequência da constante necessidade de comunicação entre pessoas, Jenkins, Ford e Green (2013, pp. 3-4) desenvolveram o termo spreadability 8 , termo que refere a capacidade, técnica e cultural, das audiências de partilharem conteúdo conforme o seu agrado, bem como (…) os recursos técnicos que facilitam a circulação de certos conteúdos em relação a outros, as estruturas económicas que apoiam ou restringem esta circulação, os atributos de texto dos média que pode atrair uma comunidade para o partilharem, e as redes sociais que ligam as pessoas através da troca de bytes significativos. 9 Porém, a visível dependência dos membros das sociedades em relação aos meios de comunicação levou ao estudo das suas influências, que dividiram os estudiosos do tema em ofensores e defensores do uso destes. Os ofensores destes meios afirmam que estes são responsáveis por “rebaixar as preferências culturais do público,” “agravar as taxas de delinquência,” “contribuir para a deterioração moral em geral,” “entorpecer as massas para chegarem à superficialidade política” e, ainda, “suprimir a criatividade” (DeFleur & Ball-Rockeach, 1993, pp. 42-43). Em contrapartida, os defensores entendem que os média servem a sociedade através da exposição do “pecado e corrupção,” ao agirem “como guardiães da preciosa liberdade de expressão,” ao levarem “um mínimo de cultura a milhões,” através da oferta de “divertimento diário inócuo para as massas,” ao informarem a sociedade “acerca dos acontecimentos do mundo” e ao melhorarem o padrão de vida das pessoas através da sua influência nos produtos que estas consomem (DeFleur & Ball-Rockeach, 1993, p. 43). A existência de diferentes opiniões permite o desenvolvimento de variadas teorias que tentam compreender as funções dos meios de comunicação para a constituição e manutenção de uma sociedade. A teoria de agenda-setting , conhecida em português como teoria do agendamento, formulada por Maxwell McCombs e Donald L. Shaw, na década de setenta, afirma que os assuntos cobertos pelos 8 Não tendo tradução literal, pode compreender-se como capacidade de se propagar. 9 “(…) the technical resources that make it easier to circulate some kinds of content than others, the economic structures that support or restrict circulation, the attributes of a media text that might appeal to a community’s motivation for sharing material, and the social networks that link people through the exchange of meaningful bytes.” (TdA)
11 meios de comunicação tornam-se os assuntos aos quais o público dedica mais atenção, influenciando, assim “a saliência de tópicos na agenda pública” (McCombs & Reynolds, 2009, p. 1). McCombs e Reynolds (2009, p.1) entendem que esta seleção e exposição de assuntos por parte dos meios de comunicação são o primeiro passo para a formação da opinião pública. McCombs e Shaw (1972) tentaram provar que os média desempenham um papel importante na construção da imagem da realidade nas sociedades através do estudo da opinião do público durante uma campanha eleitoral na Carolina do Norte, E.U.A., baseada nos temas cobertos pelos meios de comunicação social nesse estado. No final deste estudo, os temas considerados importantes pelos participantes correspondiam aos assuntos cobertos pelos meios de comunicação, permitindo, assim, a McCombs e Shaw (1972) concluírem ser evidente a influência dos média no agenda-setting . Relacionada com a teoria de agenda-setting , a teoria de framing , ou enquadramento, apresenta a ideia de que os meios de comunicação em massa destacam certos acontecimentos, colocando-os em determinados contextos de modo a despertar interpretações específicas. Deste modo, os meios de difusão de informação exercem uma “influência seletiva” no modo como as pessoas interpretam a realidade (Entman, 1993). As frames , ou molduras, são “noções abstratas que servem para organizar ou estruturar” (Communication Theories, 2004, p. 22) a realidade. Estas molduras são sobretudo de origem cultural, ou seja, o significado que uma pessoa atribui a uma palavra é baseado em aspetos culturais da comunidade em que essa pessoa cresceu. A palavra “vermelho” pode ser vista como um exemplo deste caso. Para uma pessoa de nacionalidade chinesa, a cor vermelha tem, sobretudo, conotação positiva, representando, bom auspício e felicidade, fortuna e poder, juventude, saúde e beleza (Qiang, 2011), sendo por isso usada, por exemplo, em objetos de decoração festivos. Por outro lado, para uma pessoa de nacionalidade portuguesa, a cor vermelha remete para guerra, perigo, violência, sexo, pecado, revolução, estímulo, entre outras (Heller, 2013). Assim, o uso desta palavra invoca uma moldura específica, dependendo da cultura em que o meio de comunicação está inserido, influenciando o contexto em que é exposta a situação. As frames influenciam a perceção que a audiência faz das notícias, portanto, tendo em conta a relação entre as teorias de agenda-setting e framing , é possível dizer que agenda-setting “diz o que temos de pensar,” enquanto que framing diz “como temos de pensar” (Communication Theories, 2004, p. 22). Em paralelo a estas teorias surgiu a teoria de cultivação de crenças, em inglês cultivation theory , desenvolvida por George Gerbner. Esta teoria compreende que a televisão molda a realidade da
12 audiência. No seu estudo, a hipótese que consistiu no ponto de partida para George Gerbner (1969, p. 138) é a seguinte: (…) mudanças na produção em massa e a rápida distribuição de mensagens através de barreiras anteriores do tempo, espaço e grupo social geram variações sistemáticas no conteúdo da mensagem pública, cujo significado reside no cultivo da consciência coletiva acerca de elementos da realidade. 10 Em termos simplificados, o papel dos meios de comunicação é o de transmitir informações da realidade aos membros de uma sociedade, bem como entre sociedades. Todavia, segundo Pamela Shoemaker e Stephen Reese (2014, p. 39), a realidade visionada pelas pessoas através dos meios de comunicação é uma realidade influenciada por um conjunto de fatores, não sendo, portanto, a verdadeira realidade, mas uma “realidade mediada.” Shoemaker e Reese (2014, p. 39) entendem que a realidade é mediada pelos produtores de programas informativos e de entretenimento, “através do simples processo de fazerem o seu trabalho, mas também devido à sua relação com a cultura, o poder e a ideologia.” 11 Shoemaker e Reese (2014, pp. 40-56) expõem uma série de elementos que consideram propiciar a mediação da realidade para o que é transmitido pelos meios de comunicação. Estes elementos vão desde o ambiente das organizações de meios de comunicação (i.e., a maior ou menor liberdade de expressão a que as empresas de comunicação são permitidas), à política, à geografia, ao crime e violência, à etnia, género e identificação social das pessoas e ao tipo de notícias (más vs boas), sendo as mais importantes para compreender a presença de estereótipos e preconceitos nos meios de comunicação social são a geografia e a etnia. A interferência que o fator geografia produz na mensagem transferida pelos média é presenciada na medida em que os meios de comunicação, sobretudo a imprensa, a televisão e a rádio, de uma determinada zona, estão associados à comunidade dessa zona, fazendo corresponder a essa comunidade a informação que é compreendida como mais importante por ela. Por conseguinte, Shoemaker e Reese (2014, p. 44), descrevem a influência da geografia nos seguintes termos: 10 “(…) changes in the mass production and rapid distribution of messages across previous barriers of time, space, and social grouping bring about systematic variations in public message content whose full significance rests in the cultivation of collective consciousness about elements of existence.” (TdA) 11 “(…) through the mere process of doing their work, but also because of their relationships with culture, power, and ideology.” (TdA)
13 (…) quando jornalistas cobrem eventos noutros países - especialmente aqueles que são culturalmente distantes -, têm, frequentemente, apenas informações "escassas" sobre o contexto desses eventos. Portanto, as suas reportagens são geralmente sobre o drama dos eventos mais atuais e tendem a enquadrar as suas histórias de maneira dualista - nós versus eles, o bem versus o mal. A essas reportagens falta uma narrativa que possa apoiar os factos mais atuais com uma compreensão da história e da cultura. Em vez disso, os repórteres usam a sua própria cultura como referência, tornando tudo relativo a esta através do uso de analogias para dar cor às suas histórias. 12 A população de um grande número de países é constituída por uma variedade de comunidades, sendo que muitas destas comunidades têm uma representação insuficiente ou são representadas de forma negativa por parte dos meios de comunicação social. Esta representação deficiente leva à generalização do conhecimento que há destas comunidades, propiciando, assim, o sentimento de distância entre diferentes grupos sociais. Esta generalização e estereotipagem envolve, não só, as diferentes etnias, como também as diferenças de género, idade e identificação sexual. Uma vez que para o estudo dos estereótipos e preconceitos presentes nos meios de comunicação em relação aos chineses o fator da etnia é o mais relevante, este é visto em particular nos parágrafos que se seguem. Nos programas de informação, os jornalistas, que inconscientemente já têm os seus estereótipos formados, devido às suas experiências culturais, transmitem esses estereótipo à audiência através do uso de determinadas palavras e imagens (Shoemaker & Reese, 2014, p. 47). Os produtores dos conteúdos dos meios de comunicação tendem a estereotipar baseando-se na divisão das comunidades em termos de “nós” versus “eles.” Esta separação induz ou facilita a audiência a criar estereótipos ou a mantê-los. Para provar esta hipótese, Dixon (2006, p.141; Shoemaker & Reese, 2014, p. 48) investigou o preconceito dos espectadores de televisão em relação à cor de pele, chegando à conclusão de que as pessoas que assistem televisão durante mais tempo, baseiam-se na cor de pele para tirarem as suas conclusões: estes espectadores atribuíam maior culpa aos criminosos de pele escura. 12 “When journalists cover events in other countries—especially those that are culturally distant—they often have only “thin” information about the context of those events. Therefore their reports are generally about the drama of the most current events and tend to frame their stories dualistically—us versus them, good versus evil. Such reporting lacks a narrative that could support the most current facts with an understanding of history and culture. Instead, reporters use their own culture as a referent, thus making everything else relative to it by using analogies to give their stories color.” (TdA)
14 Shoemaker e Reese (2014, p. 48) afirmam que, através do seu estudo, “Dixon destaca que estereótipos fomentam a criação de imagens posteriores, de modo que indicações raciais afetam o julgamento, especialmente em situações ambíguas.” 13 A realidade mediada, transmitida pelos meios de comunicação é, muitas vezes, apresentada através de uma situação ambígua, seja esta a má exposição de uma notícia ou a pobre caraterização de uma personagem de um programa de entretenimento, sendo que a audiência tem apenas acesso a parte do todo, levando esta a generalizar a informação e, consequentemente, a estabelecer estereótipos e preconceitos. Na presente realidade das sociedades, em que, tanto pessoas individuais, como instituições e organizações apresentam uma dependência dos meios de comunicação, sejam aqueles que apenas transmitem informação de forma unidirecional, sejam aqueles que permitem ao público ter um papel ativo na transferência da mensagem, estes representam cada vez mais um papel indispensável para a manutenção do equilíbrio, tanto dentro das sociedades como nas relações entre estas. Os média não desempenham apenas as função de entreter o público e de o manter informado acerca dos acontecimentos do mundo, mas também de educar, dando a conhecer outras realidades, alargando horizontes e proporcionando experiências. Isto posto, uma vez que os meios de comunicação apresentam um papel tão significativo para as comunidades, os coordenadores dos conteúdos apresentados nestes têm a responsabilidade de fornecer às audiências informações credíveis e de pontos de vista alargados. Com base nas teorias realçadas anteriormente, os produtores de conteúdo têm acesso a meios de manipulação da realidade, podendo, deste modo, influenciar a maneira como o público interpreta a mensagem transmitida. O acesso a informação por intermédio dos meios de comunicação permite aos membros das sociedades trocarem conhecimento e discutirem os assuntos mais falados, possibilitando o processo de comunicação entre pessoas, culminado numa maior partilha de culturas. Este processo afigura-se num ciclo de transações de experiências, valores e opiniões, que se pode irradiar, levando ao desenvolvimento positivo da opinião pública, em que as pessoas se aceitam e trabalham em conjunto para o equilíbrio da sociedade, ou a um desenvolvimento mais negativo desta, em que os membros das comunidades lutam entre si para estabelecerem uma cultura superior, fazendo uso de generalizações e linguagem tendenciosa para criarem separações. 13 “Dixon points out that stereotypes prime people’s creation of later images, such that racial cues affect judgments, especially in ambiguous situations.” (TdA)
15 1.2 Os Meios de Comunicação Social na Transmissão de Culturas Para compreender em que aspetos os meios de comunicação social penetraram na vida quotidiana das sociedades é necessário partir do entendimento do conceito de sociedade, bem como da sua relação com o conceito de comunicação. Segundo os sociólogos Albion Small e George Vincent (1894), a sociedade é um sistema de órgãos, sendo que cada órgão representa um grupo social, podendo este ser uma família ou um país, no qual cada célula representa um indivíduo. Small e Vincent (1894, p. 213) entendem que, numa sociedade, (…) as pessoas estão combinadas em relações de interdependência entre si, e de dependência como um grupo de desempenhar certas tarefas dentro da sociedade. Uma vez que cada indivíduo é parte de muitos agregados e órgãos, esses vários grupos têm muitos pontos em comum, ou, por outras palavas, não estão definitivamente separados, mas entrelaçados de diversas maneiras. 14 Se os indivíduos são as células que integram os órgãos, que são as instituições sociais, agrupando-se num vasto sistema que é a sociedade, o processo de comunicação entre estes é, como Small e Vincent (1894, p. 215) vêm, o “sistema nervoso social”, que media a transmissão de informação entre os vários componentes da sociedade. Neste sistema nervoso que é a comunicação, cada indivíduo, não só transmite informação, como também pode ser o recetor final desta. Isto posto, cada indivíduo pode ser entendido como “um centro a partir do qual irradiam um maior ou menor número de canais psicofísicos” 15 (Small & Vincent, 1894, p. 217). Por outro lado, Karl Rosengren (1994, p. 2), apresenta a ideia de que a sociedade é constituída por três sistemas intimamente ligados: “um sistema cultural de ideias, um sistema social de ações, e um sistema material de artefactos” (ênfase presente no original). Para Rosengren (1994, p. 3), qualquer subgrupo da sociedade, ou instituição social, é baseado num dos dois pares de orientação de valores (orientação de valores cognitivos/normativos, ou orientação 14 “persons are combined in relations of interdependence among themselves, and dependence as a group, upon society, to perform certain social tasks. Since every individual is a part of many aggregates and organs, these various groups have many points in common, or, in other words, are not definitely separate, but interwoven in a multiplicity of ways.” (TdA) 15 Os canais psicofísicos correspondem aos canais comunicacionais, isto é, Small entende que, qualquer comunicação em sociedade é feita através de um agente físico, podendo este ser um instrumento de comunicação, e um agente psicológico.
16 de valores expressivos/instrumentais). Estes pares de valores, associados aos sistemas de ideias, ações e artefactos, compõem a base do funcionamento de uma sociedade, originando, consequentemente, a “grande roda da cultura na sociedade” (Rosengren, 1994, pp. 3-4) ( cf. Figura 3). Com esta representação da sociedade, Rosengren tem como objetivo mostrar como a cultura está interligada aos subsistemas que constituem a sociedade, sendo estes a religião, a política, a economia, a tecnologia, a ciência, a educação, a literatura e a arte. Cada círculo corresponde a um dos três sistemas base (ideias, ações e artefactos). A cultura, representada no centro, não é apenas uma parte importante da formação da sociedade, mas também permite a relação e interdependência entre as instituições sociais e os valores que orientam os membros da sociedade. Estas relações são estabelecidas através de uma rede complexa de comunicações. A comunicação entre as instituições possibilita uma crescente diferenciação destas. No entanto, estas permanecem interdependentes. De acordo com Rosengren (1994, p. 4), (…) em todas as sociedades, estas relações são efetuadas por meio de comunicação interpessoal e cara-a-cara; nas sociedades modernas, são frequentemente estabelecidas também por meio Figura 3: A Grande Roda da Cultura na Sociedade
23 Por um lado, a linguagem faz parte da cultura. Num sentido restrito, cultura é o fator subjetivo desenvolvido pela humanidade a partir de práticas sociais e atividades de consciencialização ao longo do tempo. Por outro lado, a linguagem é o meio de transmissão da cultura. A linguagem é o instrumento que permite o pensamento e a comunicação entre os seres humanos, desempenhado um papel fundamental na criação e evolução da cultura. (…) o desenvolvimento e enriquecimento da linguagem é a premissa para o desenvolvimento da cultura (…). 25 Deste modo, e recorrendo de novo à afirmação de Alfred G. Smith (1966, apud Samovar & Porter, 2002b, p. 7), “comunicação e cultura são inseparáveis,” a língua permite que esta ligação seja ainda mais forte, uma vez que esta, não só é uma representação da cultura de uma comunidade, como também é o meio que torna a comunicação entre pessoas possível. A língua de uma comunidade, em conjunto com as suas regras gramaticais e de sintaxe, o modo direto ou indireto, mais formal ou menos formal, como as pessoas se expressam, a postura e comportamento destas, representam os valores e os ideias da cultura de cada comunidade. Assim, os processos de comunicação não só fazem parte da cultura de cada sociedade, sendo possíveis através da língua e da linguagem, como também a cultura representa uma particularidade da comunicação, uma vez que o modo como as pessoas comunicam dentro da sua comunidade é influenciada por fatores culturais que estão presentes nas suas vidas desde a infância, ao ponto de as pessoas não se aperceberem da sua existência até entrarem em contacto com outras comunidades. Com o aumento do contacto das sociedades e da criação de relações entre elas, a necessidade de meios que facilitassem, tanto a comunicação entre pessoas de comunidades diferentes, como a transmissão de conhecimento e informação sobre outras sociedades, também aumentou. Os meios de comunicação em massa vieram auxiliar nesta atividade de permitir a pessoas de comunidades distintas conhecerem-se, seja em termos religiosos, políticos ou culturais, seja a nível nacional ou pessoal. Através de filmes, documentários, notícias, artigos, entre outros, foi possível às sociedades acumularem celeremente conhecimento internacional, à distância de um instrumento mediador de informação, como é o caso do jornal, da rádio, da televisão ou do computador. Contudo, apesar das vantagens que os meios de comunicação social propiciam à sociedade, também estes métodos podem revelar-se perturbadores para a estabilidade desta. 25 “一方面,语言是文化的一部分。根据文化的狭义定义,文化是人类从社会实践和意识活动中长期氤氲化育出来的主观因素。而 语言则是人类对客观事物的认识和感受的反映,属于人类文化的一部分。另一方面,语言是文化的载体。语言是人类思维和交流 的工具,语言在人类文化的起源与进化过程中起着关键性的作用,(…)语言的发达和丰富是整个文化发展的前提 (…)”(TdA)
24 Mesmo que as diferentes sociedades estejam cada vez mais dispostas e recetíveis a aceitaremse mutuamente, a existência de estereótipos e preconceitos em relação aos outros continua a ser um fator notável. Os meios de comunicação são um dos responsáveis pela manutenção destas crenças predispostas em relação a membros de outros grupos sociais. O tipo de informação, o contexto em que a transmitem, a linguagem que é utilizada e a imagem geral que é passada de outras comunidades são fatores que, mesmo que inconscientemente, contribuem para a manutenção de estereótipos, uma vez que a ideia transmitida pelos média pode ser o primeiro contacto que alguém tem com outro grupo social, ou o modo como a mensagem é interpretada, ou mesmo discutida entre membros duma sociedade, leva à formação e conservação de uma opinião pública que pode ser tendenciosa. 1.3 A Cultura e Sociedade Chinesas nos Meios de Comunicação Social Portugueses A comunicação entre os portugueses e o povo chinês tem cerca de quinhentos anos de história, tendo esta começado com a chegada dos navegadores portugueses ao Oriente para o comércio de especiarias, sedas e porcelanas. Na época, o primeiro contacto entre portugueses e chineses não foi notícia na rádio ou televisão, nem foi partilhada por milhares de pessoas em redes sociais, como o Facebook. Em modos mais simples, e por motivos óbvios, nem uma chamada telefónica ou o envio de uma mensagem por telégrafo era possível fazer. A comunicação acerca dos povos de onde eram oriundos os produtos exóticos que chegavam a Portugal era feita através de anotações, cartas e compilações redigidas por navegadores que seguiam nas naus. Esta comunicação era mais demorada, uma vez que este conhecimento só era adquirido pelos portugueses em Portugal quando os livros colecionados chegavam a território português. As primeiras informações que chegaram a Portugal acerca da sociedade chinesa foram transmitidas pela carta escrita por Cristovão Vieira, membro da comitiva do embaixador Tomé Pires, cuja embaixada foi a primeira a procurar estabelecer relações diretamente com o imperador da China, tendo sido aprisionada em Cantão, em 1517, devido a “uma certa prepotência e falta de tacto dos portugueses ao abordarem a civilização chinesa”(Loureiro, 1990), em junção com uma outra carta, escrita por Vasco Calvo, um mercador português. O conteúdo destas cartas, entre outro assuntos, referenciava pormenores sobre a China, como a sua geografia, bem como o funcionamento da sua sociedade, em termos de organização económica, potencialidades comerciais, recursos bélicos, sistema judicial, a vida quotidiana dos chineses, etc.(Loureiro, 1990).
25 Com o desenvolvimento dos meios de comunicação, assim como o surgimento da imprensa, cada vez mais livros, dos temas mais variados, começaram a ser publicados. Em Portugal surgiram obras literárias que tomavam a China como pano de fundo, ou simplesmente faziam alusão a esta através de personagens com nacionalidade chinesa. A Peregrinação , de Fernão Mendes Pinto 26 , é tida por muitos autores como uma obra de ficção, pondo em causa a autenticidade das experiências relatadas pelo autor terem sido, de facto, vividas por este. No entanto, é uma obra que, no século XVII, marcou a diferença “com o novo mundo luso-asiático”, ao mostrar “uma aventura narrada na primeira pessoa, tal como uma confissão de viajante que se vê submetido a inúmeras experiências.” (Matias, 2007, p. 127). Outras obras literárias portuguesas que deram a conhecer, de uma maneira mais ou menos fidedigna, a China e a sua realidade são O Mandarim , de Eça de Queiroz, O Confronto do Olhar , de Luís de Albuquerque e outros, Ministros da Noite , de Ana Barradas, Amor e Dedinhos de Pé , de Henrique Senna Fernandes, entre outros (Matias, 2007, pp. 127-129). Com a chegada dos meios de comunicação em massa é cada vez mais fácil aceder a informação sobre a China, nos mais variados tipos de meios de comunicação. Hoje em dia é possível assistir a séries e filmes produzidos na China, séries e filmes nacionais ou internacionais com personagens de nacionalidade chinesa; assistir às notícias mais recentes nos telejornais, ou lê-las, tanto em jornais físicos, como online ; passar informação, seja numa conversa na pausa do trabalho, seja com uma partilha nas redes sociais. O relatório The Reuters Institute Digital News Report , publicado anualmente pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, avalia os hábitos de consumo de notícias em 38 países. Segundo o relatório referente ao ano de 2019 (Pinto-Martinho, Paisana, & Cardoso, 2019), a televisão é o meio mais utilizado para a obtenção de notícias pelas audiências portuguesas, sendo que as notícias online não se encontram muito atrás. Com o crescente uso da Internet para a consulta de notícias, o jornal português, Diário de Notícias , abandonou a impressão de edições diárias, apostando na edição online , com intuito de “consolidar a marca como uma fonte diária de notícias num ambiente digital renovado.” 27 26 Fernão Mendes Pinto foi um explorador português da Época dos Descobrimentos, no século XVI. A Peregrinação é o resultado das suas expedições pelo oriente, onde fez uma descrição detalhada do que viu ao longo das viagens, tendo sido escrita após o seu regresso a Portugal. 27 “(…) consolidate the brand as a daily source of news in a renewed digital environment.” (TdA), consultado em http://www.digitalnewsreport.org/survey/2019/portugal-2019/, consultado a 04/09/2019, às 8h43
26 Em virtude de os jornais online serem cada vez mais um meio de leitura de notícias, pode partirse da consulta destes, de modo geral, para compreender de que maneira as audiências portuguesas são informadas em relação ao que acontece na China. Não obstante, antes de prosseguir para essa análise, é apropriado compreender o que define um acontecimento como notícia. Segundo Mauro Wolf (2006, p. 195), noticiabilidade é “o conjunto de elementos através dos quais o órgão informativo controla e gere a quantidade e tipo de acontecimentos, entre os quais há que selecionar as notícias (…).” Jorge Pedro Sousa (1999) acrescenta ainda que “a noticiabilidade, é uma qualidade que, (…), encontra explicação na conjunção de vários fatores conformativos principais: a acção pessoal, a acção social, a acção ideológica e a acção cultural.” Shoemaker (1991, apud Sousa, 1999) entende que os critérios de noticiabilidade incluem, entre outros, fatores como a oportunidade, a proximidade, o impacto, o interesse, o conflito ou a controvérsia, a negatividade, a frequência, o sensacionalismo e a novidade. Por seu lado, Teun A. van Dijk (1990, apud Sousa, 1999) afirma que os valores da notícia estão assentes em termos económicos (lucro, vendas, etc.), bem como a produção de notícias “no seio de uma atmosfera competitiva.” Van Dijk (1990, apud Sousa, 1999) definiu, ainda, os seguintes critérios de noticiabilidade: novidade, atualidade, pressuposição (o autor refere que os acontecimentos só são entendíveis por intermédio de informações anteriores), consonância com nomas, valores e atitudes compartilhadas, relevância, proximidade (não só geográfica, mas também social e psicoafectiva) e desvio e negatividade (assistir a notícias negativas promove no indivíduo sentimentos de alívio e tensão, ao comprovar que tais acontecimentos negativos acontecem aos outros e não a si, funcionado como “um sistema emocional de autodefesa”). Ainda em termos de justificar o que faz de um acontecimento notícia, Fraser Bond (1962, apud Sousa, 1999), defende que “o que o público quer carrega o significado económico de ser aquilo que ele compra. (…) Ao repórter inteligente não escapam nunca as tendências do mercado.” Jorge Pedro Sousa (1999) afirma, a este respeito, que (…) para o êxito comercial importaria privilegiar histórias relacionadas com os interesses próprios da audiência e também as que envolvessem dinheiro, sexo, crime, culto de herói e da fama, conflitos (guerras, greves, homem contra a natureza, pessoa contra a sociedade, conflitos entre grupos políticos e económicos, etc.), descobertas e invenções.
27 Jorge Pedro Sousa (1999), apresenta, ainda, outros critérios defendidos por outros autores, como é o caso do fator atualidade, por Nelson Traquina, a audiência, a acessibilidade e a adaptação, critérios sugeridos por Golding, assim como a factibilidade, sugerido por Altheide. Recentemente, a maioria das notícias tratadas pelos meios de comunicação portugueses acerca da China são de caráter sociopolítico, sendo que são referentes às manifestações pró-democracia e contra a lei de extradição em Hong Kong. Fazendo uma pesquisa por alguns dos jornais online mais utilizados pelo público português, pode encontrar-se as mais recentes informações em relação a este assunto, como é o caso do Jornal de Notícias , dia 2 de setembro, como se observa na Figura 4, onde se destacam as notícias relevantes a vermelho: 28 28 https://www.jn.pt/, consultado a 02/09/2019, às 8h30 Figura 4: Jornal de Notícias, a 02/09/2019
28 Ou, ainda, o caso de Notícias ao Minuto , dia 4 de setembro ( cf. Figura 5), onde este assunto é notícia na página principal do site: 29 Apesar de as notícias mais recentes se focarem, sobretudo, neste tema em específico, tendo em conta as implicações que os acontecimentos de Hong Kong representam não só para a China, mas também para as relações internacionais desta região administrativa, com uma pesquisa continuada pelos diferentes sites dos jornais online é possível encontrar informação que vai para além dos assuntos políticos. Contudo, a política e as relações internacionais da China, sãos temas com maior cobertura. Assim, é possível encontrar uma variedade de temas, desde o desporto, ao turismo ou assuntos sociais, tanto com teor positivo, como negativo. A título de exemplo, observem-se as notícias que se encontram no site do Diário de Notícias 30 onde é possível observar a diferença entre o número de notícias que podem ser consideradas positivas, como “China prepara-se para eliminar restrição ao número de filhos,” “Testaram qigong em estudantes de Gaia. E conquistaram os chineses,” “A transformação de uma maquilhadora num quadro do século XVII,” “África chega à China para oferecer futuro e receber financiamento”, assim consideradas por se relacionarem com feitos otimistas, como o levantamento de 29 https://www.noticiasaominuto.com/, consultado a 04/09/2019, às 9h56 30 https://www.dn.pt/tag/china.html, consultado a 02/09/2019, às 10h54 Figura 5: Notícia ao Minuto, a 04/09/2019
29 uma restrição, permitindo às famílias terem mais do que um filho, o ensino da tradição chinesa em escolas portuguesas, neste caso o ensino de qigong 31 , ou ainda o desenvolvimento económico de países africanos devido ao investimento chinês, das negativas, como é o caso de “Chinês condenado à morte depois de ter assassinado e congelado a mulher,” “China regista verão mais quente desde 1961,” “Um quinto da população chinesa com mais de 60 nos em 2017,” “China prepara lei para controlar informação religiosa na internet,” “’Uber chinês’ vai incluir um botão para chamar a polícia,” “China acusada de prender muçulmanos em campos de reeducação política,” “China acusada de pressionar universidade espanhola a anular evento sobre Taiwan”, associadas a temas como o homicídio, aquecimento global, envelhecimento da população e controlo da opinião pública ( cf. Figura 6 e Figura 7): 31 Do chinês 气功 ( qì gōng ), é um tipo de arte marcial, cujo o exercício tem a finalidade de estimular e promover a circulação da energia qi (energia vital) no corpo. Figura 6: Diário de Notícias, há um ano atrás
30 É, ainda, possível encontrar diferenças no modo de apresentação das notícias através do tamanha da letra, diferença vista, por exemplo, entre a notícia “Testaram qigong em estudantes de Gaia. E conquistaram os chineses” e a imediatamente ao lado “Chinês condenado à morte depois de ter assassinado e congelado a mulher” (cf. Figura 6), assim como através da linguagem usada nos títulos destas, sendo exemplo deste caso a notícia “China prepara-se para eliminar restrição ao número de filhos,” onde o uso do vocábulo “eliminar” pode remeter para algo negativo, usado deste modo para atrair a atenção do público, não sendo encontrado o uso deste vocábulo no corpo do texto da notícia, onde, no entanto, se pode encontrar o uso de vocábulos com cunho positivo, como “permitir” 32 ( cf. Figura 6). Como referido anteriormente, os acontecimentos ganham valor de notícia de acordo com determinados sentimentos que conseguem despertar no público. O modo de captar a atenção dos leitores é recorrendo a eventos, bem como a linguagem, que provoquem surpresa e/ou o sentimento de 32 https://www.dn.pt/mundo/interior/china-prepara-se-para-eliminar-restricao-ao-numero-de-filhos-9771025.html, consultado a 26/09/2019, às 15h33 Figura 7: Diário de Notícias, há um ano atrás (cont.)
31 distância que faça o indivíduo sentir-se melhor e mais seguro em comparação ao outro. Deste modo, a maioria das notícias publicadas são de natureza negativa, independentemente do tema, como é possível visualizar, passando em revista os mesmo sites de notícias, através da pesquisa da palavra-chave “china.” Tome-se o caso do Jornal de Notícias 33 como exemplo, onde, num conjunto de doze notícias é possível identificar cerca de 8 notícias negativas, ou que são o resultado de um acidente ou desastre ( cf. Figura 8): 33 https://www.jn.pt/tag/china.html, consultado a 02/09/2019, às 10h49 Figura 8: Jornal de Notícias, há um ano atrás
32 Fazendo, ainda, uma pesquisa nos mesmos sites pela palavra-chave “china,” juntamente com organização das notícias por ordem de relevância, independente da data, faz-se o seguinte apanhado de notícias no Diário de Noticias 34 ( cf. Figura 9) e no Jornal de Notícias 35 ( cf. Figura 10 e Figura 11): 34 https://www.dn.pt/pesquisa.html?q=china, consultado a 04/09/2019, às 16h53 35 https://www.jn.pt/pesquisa.html?q=china, consultado a 04/09/2019, às 17h00 Figura 9: Diário de Notícias, organização por relevância
39 De forma a estabelecer os âmbitos e as relações das diferentes escolas da AD, Yang e Sun (2010, p. 134), criaram o seguinte diagrama ( cf. Figura 12): O diagrama mostra como os diferentes estudos da AD estão ligados entre si, sendo que se sobrepõem, não havendo uma separação distinta entre cada um. De acordo com os autores (Yang & Sun, 2010, p. 134), ao implementar a análise do discurso, os estudos linguísticos dão maior destaque ao uso da linguagem. Enquanto isso, eles deliberam sobre a associação entre linguagem e sociedade, (…). Os estudos literários, por outro lado, enfatizam elementos materiais e psicológicos complexos para além da linguagem em si. Comparado com estes dois, AC e ACD estenderam as suas pesquisas da linguagem para questões sociais, que cobrem um conhecimento mais abrangente do que os estudos linguísticos e literários. Tudo isto, no entanto, não pode ser mencionado no mesmo contexto que a filosofia, que considera o mundo como o seu objeto de pesquisa. 45 45 “On implementing discourse analysis, linguistic studies give utmost prominence to language use. Meanwhile, they deliberate on the association between language and society (…). Literary studies, on the other hand, emphasize intricate material and psychological elements other than language itself. Compared with these two, CA and CDA have extended their research from language to social issues, which cover a more comprehensive ken than linguistic and literary studies. All these, however, cannot be mentioned in the same breath with philosophy which regards the total world as its research object.” (TdA) Figura 12: Âmbitos e relações entre as diferentes escolas da AD A: Linguagem B: Estudos Linguísticos C: Estudos Literários D: Estudos Interdisciplinares (AC e ACD) E: Estudos Filosóficos (Escola de Foucault) F: Sociedade
40 Angermuller, Maingueneau e Wodak (2014, p. 6) entendem que, visto que a AD pode ser estudada a partir de diferentes pontos de vista, esta necessita de tratar, pelo menos, três componentes: a linguagem, a prática e o contexto. A linguagem designa o material semiótico, que consiste, não só em textos escritos ou orais, mas também em material audiovisual, necessário para “construir conhecimento acerca do contexto geral”; a prática “refere-se a modos específicos de apropriação e processamento da linguagem e estende-se a tudo o que pode acontecer entre os participantes de uma interação”; o contexto alude à situação ou conhecimento disponível aos participantes no discurso, sendo que esse conhecimento pode ser dependente ou transcendente à situação, individual ou partilhado por uma coletividade (Angermuller et al., 2014, p. 7). Segundo Angermuller, Maingueneau e Wodak (2014, p.2), o discurso é usado de duas maneiras distintas: (…) (a) numa perspetiva pragmática, predominante entre os analistas de discurso linguístico e microssociológico, que considera o discurso como um processo ou prática de contextualização de textos, linguagem em uso, produção situada de atos de fala ou prática de falar por turnos em contexto de conversa (…); (b) numa perspetiva socio-histórica, preferida por teóricos de discurso macrossociológico, interessados em poder, para quem “discurso” refere-se a um conjunto de práticas verbais e não verbais de grandes comunidades sociais (…). 46 De acordo com Rita Caregnato e Regina Mutti (2006, pp. 683-684), a AD faz um interpretação qualitativa do texto, trabalhando com, bem como procurando, o seu significado, ao invés do seu conteúdo. As autoras (2006, p. 684) defendem que esta análise promove “uma leitura do texto enfocando a posição discursiva do sujeito, legitimada socialmente pela união do social, da história e da ideologia, produzindo sentidos.” Em paralelo com esta explicação, Angermuller, Maingueneau e Wodak (2014, p. 3) afirmam que o significado não é fornecido diretamente no texto, não podendo ser “reconstruído em atos espontâneos de entendimento,” sendo que os analistas procuram entender de que modo “a ordem social é construída 46 “(a) in a pragmatic understanding, predominant among linguistic and micro-sociological discourse analysts, which considers discourse as a process or practice of contextualising texts, language in use, the situated production of speech acts or a turn-taking practice (…); (b) in a socio-historical understanding, preferred by more macrosociological discourse theorists interested in power, for whom ‘discourse’ refers to an ensemble of verbal and non-verbal practices of large social communities (…).” (TdA)
41 na prática discursiva,” estando interessados “nas práticas, regras ou mecanismos que expliquem como é que o significado é negociado entre os membros de uma comunidade discursiva.” Seguindo, ainda, a exposição de Angermuller e seus colegas (2014, p. 3), dado que as práticas discursivas são um produto da interação entre pessoas e comunidades, estas (…) podem operar com vários tipos de meios de comunicação – oral, escrito ou multimodal – permitindo que um número maior ou menor de participantes comunique em situações cara a cara ou por meio de textos escritos (como o jornal e a televisão), sobre maior ou menor distâncias. 47 Em contraste, James Paul Gee (1999), entende que uma abordagem possível ao estudo da AD é através da análise da linguagem. Este (1999, p. 11) defende que cada indivíduo constrói a realidade à sua volta através da linguagem, uma vez que é pelo uso desta, juntamente com “ações, interações, sistemas de símbolos não linguísticos, objetos, instrumentos, tecnologias, formas de pensar, avaliar, sentir e acreditar distintas,” que são criadas as situações e os contextos. Gee (1999, p.82) entende que a realidade é exprimida através do uso da linguagem, mas a linguagem, usada de um determinada maneira, cria uma nova realidade, i. e., uma nova situação e um novo cotexto em que é feita a comunicação. Assim, numa tentativa de explicar a relação entre a linguagem e a realidade, apresentou dois conceitos: significados situados 48 ( situated meanings ) e modelos culturais ( cultural meanings ). Estes dois conceitos estão relacionados com o modo como “as palavras têm significados múltiplos e em constante mudança criados para e adaptados a contextos específicos de uso. Ao mesmo tempo, o significado das palavras está integralmente ligado a grupos sociais e culturais, de maneiras que transcendem as mentes individuais” 49 (Gee, 1999, p.40). Gee (1999, p. 54) expõe ainda que “o contexto de um enunciado (oral ou escrito) é tudo na situação material, mental, pessoal, interacional, social, institucional, cultural e histórica em que o enunciado foi feito,” 50 bem como “as palavras trazem consigo, como potenciais significados situados , 47 “(…) can operate with various types of media – oral, written or multimodal – allowing large or small numbers of participants to communicate in face-toface situations or mediated through written texts (such as newspapers and television) over shorter or longer distances.” (TdA) 48 Neste contexto, “situados” remete para significados baseados em práticas e experiências reais (Gee, 1999,p.40). 49 “(…) words have multiple and ever changing meanings created for and adapted to specific contexts of use. At the same time, the meanings of words are integrally linked to social and cultural groups in ways that transcend individual minds.” (TdA) 50 “The context of an utterance (oral or written) is everything in the material, mental, personal, interactional, social, institutional, cultural, and historical situation in which the utterance was made (…).” (TdA)
42 todos os significados situados que captaram na história e em outros contextos e discursos,” 51 para concluir que os produtores e recetores de informação podem fazer uso de alguns destes “potencias significados situados,” ativando-os completa ou parcialmente, para influenciar outras pessoas, situações ou práticas sociais. Deste modo, é possível criar uma ligação entre estes dois termos, significados situados e modelos culturais, com a formação e manutenção de estereótipos e preconceitos, compreendendo que os estereótipos e preconceitos carregam, também, “potenciais significados situados.” Perante tudo o exposto, é evidente que o contexto em que é feito o discurso é um fator importante para a sua análise e compreensão. Se o discurso de cada indivíduo, em situação de interação social, estiver fundamentado em “posições específicas”, sendo que “veem e interpretam o mundo a partir dessa posição estratégica escolhida em termos de imagens, símbolos, metáforas, valores, histórias e aspetos socioculturais” (Adjei, 2013, p. 2), então (…) o discurso e o posicionamento dos indivíduos nas interações sociais refletem, em grande parte, os repertórios interpretativos disponíveis ou práticas discursivas incorporadas no contexto em que estão inseridos, e podem ser entendidos pela agregação dos seus sistemas de crenças, valores e experiências socioculturais ao longo de um período de tempo. 52 Assim, o contexto sociocultural é compreendido como fator influenciável da linguagem usada na formação do discurso. A linguagem, como visto acima, é importante para a expressão da realidade. A expressão da realidade de cada um é afetada pelo contexto cultural e histórico em que está presente. Segundo Adjei (2013, p. 5), “o discurso social é (…) situado sequencialmente; o primeiro ambiente em que ocorre conversação ou interação social molda primeiro o que é dito,” 53 ou seja, a realidade de cada indivíduo resulta de anteriores construções da realidade através da linguagem. 51 “Words bring with them as potential situated meanings all the situated meanings they have picked up in history and in other settings and Discourses.” (TdA) 52 “(…) people’s discourse and positioning in social interactions reflect, to a large extent, the available interpretative repertoires or discursive practices embedded in their given context, and can be understood by aggregating their belief systems, values and socio-cultural experiences over a period of time.” (TdA) 53 “Social discourse is therefore sequentially situated; the primary environment within which talk or social interaction occurs comes first and shapes what is said.” (TdA)
43 Com isto, entende-se que o discurso é formado pela linguagem disponível, associada ao contexto em que o discurso é formulado, havendo a possibilidade de essa linguagem ser falaciosa, podendo assim levar à formação de ideias tendenciosas acerca de outras realidades, como será visto no ponto seguinte deste capítulo. Isto posto, é possível encontrar variantes da Análise de Discurso, não fosse a existência de um número alargado de teóricos que tenta compreender o processo por trás desta área de estudo, pegando nela a partir de diferentes pontos de vista, estudando as suas caraterísticas. Todavia, independentemente das variações da AD, o uso da linguagem é um fator importante, sendo que esta não é apenas um instrumento para a comunicação, mas representa também a interação social, bem como a sua relação com o contexto em que o discurso está integrado. A análise de discurso procura compreender as várias dimensões deste, como a sintaxe, o léxico, a retórica, as estratégias, os significados, entre outros; compreender o género de discurso, seja político, educacional, científico, etc.; reconhecer a sua relação com o contexto e a sua interação com os demais, assim como a sua influência na sociedade. 2.2 Estereótipos e preconceitos McGarty, Yzerbyt e Spears (2002, p. 1) afirmam que sem indivíduos não poderia haver sociedade, mas a não ser que os indivíduos também se considerem como parte de grupos, ou seja, compartilhem características, circunstâncias, valores e crenças com outras pessoas, então a sociedade não teria estrutura nem ordem. Estas perceções de grupos são chamadas de estereótipos. 54 Inicialmente, o conceito de estereótipo surgiu em 1798, na França, inventado por Firmin Didot para definir uma placa de impressão para criar duplicados tipográficos. Esta placa era usada para a impressão em vez do documento original. Mais tarde, em 1850, a palavra “estereótipo” foi primeiramente usada para designar uma imagem imutável. Apenas a partir de 1912 é que “estereótipo” começou a construir a definição que tem hoje, quando o jornalista americano Walter Lippmann (1998) o usou em contexto de ideias socias, no seu livro Public Opinion , para referir “as imagens dentro na nossa cabeça” de diferentes grupos sociais. 54 “Without individuals there could be no society, but unless individuals also perceive themselves to belong to groups, that is, to share characteristics, circumstances, values and beliefs with other people, then society would be without structure or order. These perceptions of groups are called stereotypes.” (TdA)
44 Na definição de English e English (1958, apud Stroebe & Insko, 1989), estereótipo é “uma perceção ou conceção relativamente rígida e simplista de um aspeto da realidade, especialmente de pessoas ou grupos sociais.” 55 Tajfel (1969, apud Stroebe & Insko, 1989, p. 5), na sua teoria da Identidade Social, relaciona os estereótipos a categorias que oferecem coerência ao ambiente social de cada um. Este processo de categorização é alcançado pela identificação de diferenças ou semelhanças entre membros do mesmo e de diferentes grupos (McGarty, Yzerbyt, & Spears, 2002, p.3). Para Tajfel (1969, apud Stroebe & Insko, 1989, p. 5), “as características tendenciosas e exageradas dos estereótipos” eram resultado da limitação humana para processar informação. Por seu lado, Wolfgang Stroebe e Chester A. Insko (1989) vêm os “estereótipos como um conjunto de crenças sobre os atributos pessoais de um grupo de pessoas.” McGarty, Yzerbyt e Spears (2002) expõem três princípios para a compreensão do que é um estereótipo e o modo como este funciona no contexto social. Esses três princípios são: os estereótipos são auxiliares na explanação da realidade, os estereótipos são instrumentos que permitem a poupança de tempo e, por fim, os estereótipos são crenças de grupo compartilhadas. O primeiro princípio pretende mostrar que os estereótipos são criados pelas pessoas para que estas consigam compreender a realidade. A criação de estereótipos é o modo que a sociedade encontra para lidar com o excesso de informação, através da filtragem dos estímulos, em que os aspetos percecionados como diferentes são mais facilmente “reconhecidos, lembrados e respondidos” (McGarty et al., 2002, p.3). O segundo princípio relaciona-se ao primeiro, pelo facto de que, esta conceção de estereótipos, possibilita ao indivíduo poupar esforços na compreensão da realidade. Considerar indivíduos como membros de um grupo, permite “ignorar toda a informação diversa e detalhada que é associada ao indivíduo” (McGarty et al., 2002, p. 4). Ainda relacionado com o primeiro princípio, a necessidade de processar informação excessiva leva à criação de atalhos mentais por parte do indivíduo, que facilitem a compreensão do que o rodeia (McGarty et al., 2002, p. 4). O terceiro princípio, os estereótipos são crenças de grupo compartilhadas, entende que os estereótipos são formados em acordo com as normas aceitáveis por cada grupo, permitindo, assim, compreender o comportamento de um grupo social em relação a outro (McGarty et al., 2002, p. 5). 55 "a relatively rigid and oversimplified or biased perception or conception of an aspect of reality, especially of persons or social groups” (TdA)
45 De acordo com estas definições, estereótipos podem ser compreendidos como noções e informações generalizadas em relação a um grupo social. Estas ideias têm algum fundamento de realidade e os grupos estereotipam-se a si próprios, como por exemplo, o caso de o povo português afirmar que é normal um português chegar sempre atrasado para algo, ou ainda, o caso de os chineses do sul da China considerarem os chineses do norte ruidosos, fortes e robustos, enquanto que os chineses do norte consideram os chineses do sul da China gentis, delicados e contidos. Estes estereótipos étnicos ou nacionais ultrapassam o indivíduo, e mesmo que tal estereótipo não lhe seja aplicável, será sempre descrito por esse estereótipo uma vez que faz parte do grupo social a que ele é empregue. Para se poder compreender como é que o estereótipo funciona em contexto social é necessário ter conhecimento de como este é formado. A psicologia social tenta explicar o processo cognitivo que permite o desenvolvimento dos estereótipos na vida humana. Chapman (1967) apresenta o termo “correlação ilusória” para descrever a tendência humana de idealizar correlações entre duas variáveis, sejam estas eventos, pessoas ou objetos, entre as quais existe informação invulgar. No entanto, Chapman (1967, p. 151), defende que estas correlações, na realidade, não têm qualquer relação, ou que a relação entre as variáveis é menor do que a suposta pelos observantes, ou, ainda, que a relação entre as variáveis é a contrária à que foi relatada. Este fenómeno pode traduzir a formação e a posterior manutenção dos estereótipos. A informação incomum chama a atenção dos observantes, levando-os a sobrestimar a frequência com que as correlações ocorrem, sendo que, no caso dos estereótipos, leva os observantes a esperar que certas características pessoais encaixem, formando um grupo. Hamilton e Gifford (1976, apud McGarty et al., 2002, p. 9), apresentam a “correlação ilusória baseada em particularidades,” relacionada com a formação de novos estereótipos, acrescentando, ainda, uma particularidade à definição de correlação ilusória de Chapman: “correlação ilusória baseada em expectativas.” Esta correlação ocorre quando a conexão foi criada e o estereótipo surge da expectativa da pessoa de presenciar os fatores que diferenciam os grupos sociais. Por seu lado, Qian Fenglian e Tang Degen (2004, p. 111) definem cinco caraterísticas básicas que permitem a formação e manutenção do estereótipo. Estas são a simplificação excessiva, a generalização, a capacidade de influenciar, a intransigência e a variabilidade. A simplificação excessiva e a generalização estão relacionadas, uma vez que os estereótipos são formados devido à condição cognitiva dos indivíduos de lidar com o excesso de informação com que se deparam na sua vida quotidiana, como visto acima com McGarty, Yzerbyt e Spears.
46 As caraterísticas da capacidade de influenciar e da intransigência encontram-se na comunicação visto que os estereótipos são formados do mesmo modo que os conceitos e caraterizações de objetos e situações, podendo os estereótipos serem usados para este último processo. A variabilidade é apontada como caraterística, uma vez que os estereótipos podem sofrer alterações com base na mudanças das condições e perceções sociais. Esta caraterística pode ser compreendida, por exemplo, através do estereótipo sobre os chineses serem comerciantes de produtos baratos e de má qualidade, como se verá no Capítulo 2.3, que, atualmente, e com o passar dos anos, tem vindo a deixar de ser considerada, uma vez que, não só cada vez mais empresas portuguesas são compradas por empresários chineses, mas também porque, por exemplo, a China tem vindo a mudar as suas estratégias de produção, “ (…)dependendo menos de indústrias que consomem muitos recursos e que são poluentes (…) e de mão-de-obra intensiva e produção de baixa qualidade” 56 (Song, Fang, & Johnston, 2017, p. 1). Os estereótipos podem ser transmitidos consciente ou inconscientemente através da socialização com familiares, nas escolas ou através dos meios de comunicação social. Estes são usados como um método de defesa da posição social e um modo de os indivíduos se adaptarem ao mundo (Lippmann, 1998), tendo como base a ideia que os estereótipos estipulam as posições dos diferentes grupos na pirâmide social. Todavia, não é de esquecer que tais estereótipos são apenas ideias, podendo sempre ser modificados através da experiência e que as pessoas podem ter uma visão desinteressada em relação à posição social de cada um. Qualquer estímulo exterior ao indivíduo pode ativar o uso de estereótipos. A tendência é a de o ser humano julgar antes de conhecer ou experienciar, fazer uso do que a cultura já definiu para avaliar algo ou alguém antes de receber informação do outro lado. O ser humano, mais rapidamente recorre à perceção da realidade que o estereótipo representa do que recorre à razão para fazer a sua análise. Por isso, o modo como algo ou alguém é exposto à sociedade irá sempre estimular diversos estereótipos por quem presencia tal exposição (Lippmann, 1998, pp. 99 - 100). O caráter do estereótipo e a credulidade com que é empregue define o modo como uma pessoa irá agir na presença de uma experiência que desacredite o estereótipo. Se o estereótipo estiver bem enraizado na mentalidade do indivíduo, este irá apenas focar-se no que sustenta aquilo em que acredita, irá considerar a experiência apenas como uma exceção e rejeita-a. Por outro lado, se o indivíduo for 56 “(…) relying less on industries that are resourceand pollution-intensive, (…), and on labour-intensive and low-quality manufacturing.” (TdA)
47 tolerante e aberto a novas realidades, irá aceitar a experiência e rapidamente muda os seus estereótipos (Lippmann, 1998). Pela definição de dicionário, estereótipo e preconceito têm o mesmo significado, isto é, “ideia ou conceito formado antecipadamente e sem fundamento sério ou imparcial.” 57 Não obstante, pode-se entender que estereótipos são as ideias sobre um grupo social e que os preconceitos são estas ideias postas em prática, ou ainda, a postura que um indivíduo tem em relação aos membros de outro grupo, sendo esta maioritariamente negativa ( Harding et al., 1954, 1969, apud Stroebe & Insko, 1989, p. 8). De acordo com Harding e seus colegas (1954, 1969, apud Stroebe & Insko, 1989, p. 8), esta postura de avaliação de outro indivíduo, o preconceito, pode ser dividido em três categorias, sendo estas a componente cognitiva, representada pelo estereótipo que se tem em relação ao outro, a componente afetiva, como por exemplo, a aversão ao outro, provocada pelo estereótipo e, por fim, a componente comportamental que, no caso de a componente afetiva ser aversão, será o comportamento discriminatório. Contudo, o preconceito em relação a um grupo social não implica que todos os estereótipos em relação a esse mesmo grupo sejam negativos. É ainda importante reter que é possível detetar uma separação entre o preconceito, postura, e a discriminação, comportamento, ou seja, a existência de um não implica a existência do outro. Nem sempre um indivíduo preconceituoso demostra um comportamento discriminatório, um indivíduo pode ter uma opinião preconceituosa em relação a um grupo social, porém não negar um direito humano a esse grupo, ou um indivíduo que numa dada situação discrimina tem como base um preconceito para a sua ação, como por exemplo, negar um direito a alguém com o intuito de o proteger de um grupo social e não com o objetivo de o ostracizar (Graumann & Wintermantel, 1989, p. 186). Por seu lado, Allport (1979, p. 7, apud J. Baldwin, 2017, p. 8) compreende preconceito como “uma atitude de evasão ou hostilidade para com um membro que pertence a outro grupo, simplesmente porque ele pertence a esse grupo, e, por isso, presume-se que tenha as qualidades questionáveis, atribuídas ao grupo.” 58 Ainda tentando definir preconceito, Wolfgang Stroebe e Chester A. Insko (1989), vêm este como uma atitude que favorece e valoriza um grupo social em detrimento de outro, atitude esta baseada em estereótipos que levam e são influenciados por comportamentos, como a comunicação. 57 “estereotipo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/estereotipo [consultado em 20-032019]. 58 “an avertive [i.e., avoiding] or hostile attitude toward a person who belongs to a group, simply because he [or she] belongs to that group, and is therefore presumed to have the objectionable qualities ascribed to the group” (TdA)
48 Combinando estas descrições a uma outra definição de dicionário, “opinião desfavorável que não é baseada em dados objetivos = INTOLERÂNCIA,” 59 é possível encontrar uma estreita relação entre os conceitos de preconceito e de tolerância. Alguns estudiosos entendem a tolerância como a aplicação de princípios e regras morais, de empatia e de sentimentos de conexão entre seres humanos de grupos sociais diferentes, ou seja, é tida como a aceitação e respeito pela diferença (Baldwin, 2017). No entanto, por vezes, este comportamento de aceitação e respeito é apenas levado a cabo com o objetivo de satisfazer a sociedade, isto é, o indivíduo que transmite este comportamento não o faz por, realmente, aceitar o outro, mas por querer manter uma imagem positiva perante os restantes membros da comunidade. Neste caso a ideia inicial de preconceito continua presente, o indivíduo apenas toma a decisão de não a expor ao público. Assim sendo, é preciso que a tolerância passe a apreciação, isto é, reconhecimento da outra cultura como diferente, sem fazer juízos de valor, sem criar estereótipos ou levantar preconceitos. Por vezes, esta apreciação pode levar à integração comportamental de elementos de outra cultura (Baldwin, 2017, p. 7). Os pais são os primeiros e principais elementos que influenciam o desenvolvimento da personalidade de uma criança, portanto, se os pais forem intolerantes para com outros grupos culturais, o mais natural é que os seus filhos tenham as mesmas atitudes e comportamentos para com esses grupos. Entende-se, então, que o preconceito pode ser considerado um problema de desenvolvimento de personalidade (Allport, 1979, apud Baldwin, 2017, p. 8). Nesta relação de influência cria-se um ciclo, uma vez que, não só os contactos interpessoais dos pais, mas também o conteúdo dos meios de comunicação, podem interferir na formação da opinião dos pais. A opinião destes é transmitida para os filhos através da educação parental. Contudo a opinião das crianças pode ser também influenciada pelo contacto destas com outras pessoas fora do seio familiar, como é o caso dos professores, ou amigos, bem como pode ser influenciada pelo uso dos meios de comunicação social. Conforme o modo de pensar destes é influenciado, também as suas opiniões interferem na opinião dos outros. Porém, os preconceitos, tal como os estereótipos, podem ser modificados pela experiência. Assim, na base da transmissão de estereótipos e preconceitos encontram-se dois fatores fundamentais, podendo estes estar interligados entre si. Estes fatores são a comunicação interpessoal e o uso dos meios de comunicação. 59 "preconceito", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/preconceito [consultado em 20-032019].
55 O segundo tipo de discriminação relacionado com a linguagem está depende do modo como o indivíduo se expressa. Neste caso, o indivíduo pode também recorrer a um ato discriminatório inconsciente. O modo como se expressa revela, simplesmente, que a sua personalidade sofreu influências de um ambiente discriminatório, como o contexto social em que a pessoa cresceu, o tipo de educação que recebeu, ou o conteúdo a que teve acesso pelos meios de comunicação (Graumann & Wintermantel, 1989, p. 197). Juntamente com a comunicação interpessoal, vista até aqui, sabe-se que, também os meios de comunicação desempenham um papel importante no desenvolvimento de perceções relacionadas com a raça ou a etnia, bem como o desenvolvimento de comportamentos específicos resultantes de relações intergrupais (Mastro, 2009, p. 325). Dana Mastro (2009, p.333) faz uso da teoria de priming 63 para expor o modo como os meios de comunicação influenciam a criação de estereótipos. De acordo com Mastro (2009, p.333), “ priming , neste contexto, refere o processo pelo qual a informação que foi recentemente ativada pelo consumo dos média é usada para orientar os juízos em relação aos membros de um grupo externo específico.” 64 Mastro (2009, p. 333) apresenta um série de estudos que defendem esta teoria, sendo que as conclusões determinam que os acontecimentos cobertos pelos meios de comunicação promovem respostas estereotipadas em relação a um determinado grupo, inclusive a outras particularidades deste, não apenas em relação à caraterística que foi submetida ao priming . Não é de esquecer que estas respostas podem ser positivas, se a exposição feita for também positiva, dado que, como Mastro (2009, p. 334) clarifica, “a ativação de exemplos positivos gera respostas mais solidárias face à discriminação como problema social, bem como atitudes mais favoráveis em relação a membros de grupos externos como um todo.” 65 Dana Mastro (2009, pp. 334-336) torna, ainda, patente que o conteúdo a que o público recorre, bem como o tempo de exposição a este, contribui para a formação de estereótipos, com base na teoria da cultivação de crenças. A exposição a estereótipos através dos meios de comunicação promove comparações sociais, resultando no favoritismo do próprio grupo e exclusão de grupos externos. 63 Segundo esta teoria, priming , em português compreendido como “preparação,” é o processo usado pelos meios de comunicação em que estes fornecem ao público contexto prévio em relação a algo, que será usado por este para interpretar a informação que será subsequentemente apresentada (Communication Theories, 2004, p. 31). 64 “Priming in this context refers to the process through which information that has been recently activated by media consumption is used to guide judgments regarding target outgroup members.” (TdA) 65 “activating positive media exemplars generates more sympathetic responses towards discrimination as a social problem and more favorable attitudes about outgroup members as a whole.” (TdA)
56 Paralelamente, a assimilação de imagens ambíguas e imparciais resultam não só numa menor oportunidade de privilegiar o próprio grupo, mas também da criação de opiniões mais favoráveis em relação a membros de outros grupos sociais. No entanto, o conteúdo dos meios de comunicação não é o único fator a ter em conta na compreensão dos efeitos que os meios de comunicação têm na exposição a estereótipos (Mastro, 2009, p. 329). O tempo de consumo, como será visto no capítulo seguinte, bem como as caraterísticas da audiência, desempenham o seu papel nesta exposição. Mastro (2009, pp. 331-332) apresenta três atributos que mostram contribuir tanto para a estereotipagem, como para o sentimento de se estar a ser estereotipado e/ou discriminado, sugerindo, ainda, que seja provável que tais caraterísticas não apenas influenciem os efeitos da exposição aos média, mas também influenciem a interpretação das próprias mensagens dos meios de comunicação. Em particular, a identificação racial dos próprios espectadores, a aderência aos estereótipos (e.g., atitudes raciais) e o contato inter-racial no mundo real servem como moderadores dos efeitos dos meios de comunicação com base na raça. 66 A relação entre a identificação racial dos espectadores e consumo do conteúdo dos meios de comunicação mostra que, aqueles que têm maior identificação racial, isto é, se identificam melhor com as caraterísticas do grupo em que estão inseridos, ao serem expostos a caraterizações estereotipadas de grupos exteriores, têm mais probabilidade de criar julgamentos tendenciosos em relação aos membros de outros grupos (Mastro, 2009, pp. 331-332). Por outro lado, quanto maior o contacto real entre diferentes comunidades, menor será a influência das mensagens estereotipadas presentes nos meios de comunicação sobre a opinião pública. Mastro (2009, p. 332) afirma que, “ de uma perspetiva mais pró-social, pode dizer-se que experiências de contacto positivas no mundo real minimizam o efeito da exposição a estereótipos raciais/étnicos desfavoráveis presentes nos média.” 67 66 “Such features are not only likely to influence effects of media exposure but also the interpretation of media messages themselves. In particular, viewers’ own racial (ingroup) identification, adherence to stereotypes (e.g., racial attitudes), and real-world interracial contact each serve as moderators of race-based media effects.” (TdA) 67 “From a more prosocial perspective, it could be said that positive contact experiences in the real-world minimize the effect of exposure to unfavorable racial/ethnic stereotypes in the media.” (TdA)
57 De modo geral, o conteúdo encontrado acerca da China nos média portugueses é referente a política, economia, ou ainda acontecimentos trágicos, como é o caso de desastres naturais. Conteúdo com conotação mais positiva, como a divulgação da cultura chinesa que, ainda hoje, é desconhecida por muitos, é ainda escasso, ou, quando menos, pouco difundido. Com base nas informações a que as audiências portuguesas têm acesso, estas mais facilmente criam uma opinião estereotipada da sociedade chinesa, mostrando, por vezes, um menor interesse em conhecer melhor a sua realidade, em comparação com outros países e culturas. Não só a língua, mas também a linguagem usada, são cruciais para a realização de uma comunicação sem percalços entre pessoas e comunidades. O modo como estas são utilizadas representa uma condição importante na formação e transmissão de estereótipos e preconceitos. Assim, sendo que os meios de comunicação são um instrumento de transmissão de informação e conhecimento acerca do mundo, bem como da realidade de cada sociedade, em conjunto com outras instituições sociais e os núcleos familiares, a maneira como estes fazem uso da língua e da linguagem pode promover a permanência de estereótipos dentro das sociedades. A influência dos meios de comunicação pode ser encontrada na abstração linguística, como visto acima. Pode-se ainda concluir que o desconhecimento por parte das comunidades ou mesmo uma má transmissão de conhecimento, baseada em estereótipos, pode criar conflitos entre as culturas, dificultando o ajustamento dos povos à existência dos outros. 2.3 Estereótipos e Preconceitos em Relação aos Chineses presentes na Sociedade Portuguesa É sabido que, apesar de generalizações acerca de um grupo, os estereótipos são baseados em traços reais de uma comunidade. Deste modo, os estereótipos que formam umas das outras serão semelhantes em qualquer parte do mundo. No entanto, cada comunidade cria os seus estereótipos referentes aos outros a partir de experiências próprias, referentes ao modo como entram em contacto com os outros, sendo que estas são diferentes e particulares a cada comunidade. No capítulo anterior referiu-se o primeiro contacto entre chineses e portugueses ( cf. página 4). Após as cartas de Cristovão Vieira e Vasco Calvo, as novas tentativas de informar Portugal acerca da sociedade chinesa ficaram gravadas, entre outros, em relatos literários como a Suma Oriental , de Tomé Pires, o Livro das Coisas do Oriente , de Duarte Barbosa, ou ainda, o Tratado das Cousas da China , de Frei Gaspar da Cruz.
58 Nestes livros é possível encontrar diferentes discrições do povo chinês, desde os seus hábitos quotidianos, aos modos de vestir, desde as suas atitudes, ao seu aspeto físico. Em Livro em que dá relação do que viu e ouviu no Oriente , Duarte Barbosa (1946, pp. 217-219) apresenta os chineses como (…) grandes mercadores, são homens brancos e bem dispostos. (…) ele e elas têm os olhos pequenos, nas barbas três ou quatro cabelos não mais, e, quanto mais pequenos têm os olhos, tanto os hão por mais gentis homens. (…) não tocam com a mão o que comem, chegam muito o prato à boca, e, com umas tenazes de prata ou pau metem o comer na boca mui a miude, porque comem muito depressa, (…). São homens de muita verdade, porém não são bons cavaleiros, mas grandes mercadores, (…). Por seu lado, Frei Gaspar da Cruz (1996, pp. 83-84), em Tratado em que, se contam muito por extenso as cousas da China , apresenta as seguintes descrições do povo chinês: Ainda que os chinas commumente sejam feios tendo olhos pequenos, e rostos e narizes esmagados, e sejam desbarbados, com uns cabelinhos nas maçãs da barba (…). (…) são homens os chinas mui corteses (…) a este movimento de mãos ajuntam palavras de cortesia, (…). (…) comem muito limpamente sem tocar com a mão no comer, (…). Há alguns chinas que criam unhas muito compridas, de meio palmo até palmo, as quais trazem muito limpas (…). Pelas descrições encontradas nos relatos feitos durante a ocupação inicial de Macau por parte dos navegadores portugueses, durante os séculos XVI e XVII, os portugueses tinham, em geral, uma boa imagem do povo chinês. Em contrapartida, nas obras publicadas durante os séculos XIX e XX, a imagem passada do povo chinês é mais negativa, como é o caso das narrações feitas por Eça de Queiroz em O Mandarim , que apresenta a China como “um país imenso, cheio de perigos e rasteiras” e os chineses como pessoas que “não se compadecem dos estranhos, são avarentos e falsos, roubando e matando para obter algum dinheiro” (Matias, 2007, p. 93).
59 Estas descrições, juntamente com tantas outras feitas acerca da China e do povo chinês, sejam essas relatos de experiências pessoais, ou apenas obras literárias, sendo o caso da novela O Mandarim , influenciaram, tanto positiva, como negativamente, o modo como a sociedade portuguesa vê a sociedade chinesa. Estas obras apresentam um ponto de partida para a formação de estereótipos por parte dos portugueses, em relação aos chineses. Na sociedade atual, não só os livros são fonte de estereótipos, mas também as telenovelas, como o caso da telenovela Poderosas , referida anteriormente ( cf. página 35). Abaixo são apresentadas algumas das falas usadas na telenovela: 1. “Epá, eu não percebo chinês! Queres falar chinês vais para a China.” 68 2. “Bom e balato .” 69 3. “Ontem entrou aqui um tipo… nunca mais saiu. Cá para mim fizeram chop suey com ele.” 70 4. “As canecas? Mas o meu santo sogro sabe que isto, em princípio, é feito na china.” 71 5. “(…) mas não é tudo igual?” (dito quando o “chinês” corrige a sua nacionalidade, dizendo ser coreano) 72 6. “ Quatlo eulos e tlinta e tlês cêntimos” (…) “Quatro e tal. Pronto.” 73 Através da personagem do “chinês,” representada pelo ator Alexander Tuji Nam, os produtores da telenovela Poderosas procuravam fornecer aos espectadores algumas cenas cómicas. Embora a maioria das deixas não fossem ditas por esta personagem, eram, contudo, referentes a ela, mostrando que os gracejos feitos eram com base na sua nacionalidade. O recurso a estereótipos e preconceitos para efeitos de comédia é prática comum em todo o mundo, seja em filmes, telenovelas, ou espetáculos de comédia stand-up . Estudos publicados na década de 1990 (Hobden & Olson, 1994; Maio, Olson, & Bush, 1997; Olson, Maio, & Hobden, 1999) observam 68 https://sic.pt/Programas/poderosas/episodios/2015-06-24-Poderosas---27-Episodio---23-de-junho--terca---feira--1#2015-06-24-Juliao-impede-os-clientesde-entrarem-na-loja-do-chines- , consultado a 17/09/2019, às 15h35 69 ibid. 70 ibid. 71 https://sic.pt/Programas/poderosas/videos/2015-10-21-Juliao-aparece-na-loja-dos-chineses-como-pedido-de-desculpa, consultado a 17/09/2019, às 15h40 72 https://sic.pt/Programas/poderosas/episodios/2015-11-06-Poderosas---125-Episodio---5-de-novembro--quinta-feira-#2015-11-06-David-e-Bruna-recebemASAE-na-loja-chinesa-e-Rosa-quase-apanhada, consultado a 17/09/2019, às 15h51 73 ibid.
60 que o uso de estereótipos na comédia no que diz respeito ao humor depreciativo, apresenta apenas efeitos no contador da piada, afirmando que o constante uso de estereótipos faz com que, eventualmente, o contador comece a acreditar no conteúdo das suas anedotas. No entanto, com base na teoria de cultivação de crenças ( cf. Capítulo 1.1), uma exposição prolongada pode, efetivamente, afetar a opinião público. Se o uso excessivo de estereótipos pode influenciar a opinião do indivíduo que os usa, transmitindo uma “imagem distorcida” de um grupo social, bem como passar uma falsa sensação de aprendizagem sobre o outro (Kan, 2004), os recetores da anedota correm também o risco de ser influenciados, uma vez que a exposição aos estereótipos promove a formação e manutenção dos mesmos. Entre da população portuguesa, apesar de uma maior consciencialização das pessoas, existe, ainda, uma opção generalizada de referir que qualquer pessoa asiática é, automaticamente, de nacionalidade chinesa. Este estereótipo é encontrado, por mais do que uma vez, na novela (exemplo 5). Um outro estereótipo muito comum é a ideia de que os chineses não conseguem dizer a letra “r,” trocando-a pela letra “l” (exemplos 2 e 6). Neste caso, os produtores acrescentam ao gracejo a outra personagem não entender o que lhe é dito e responder com “Quatro e tal. Pronto” (exemplo 6). Existe também a ideia de que os chineses não sabem falar português, associado à perceção de que são um grupo fechado que só se relacionam entre eles. O exemplo 1, “Epá, eu não percebo chinês! Queres falar chinês vais para a China”, representa a opinião generalizada de que se os chineses querem estar em Portugal, tal como noutros países, deviam aprender a língua e adaptar-se aos costumes, não devendo falar a língua deles. É ainda possível relacionar este exemplo ao preconceito pela existência de sotaque chinês, como o caso do trocar de letras, visto acima, sendo que as pessoas não fazem um esforço por compreender o outro, acabando a achar que este fala em chinês, uma vez que é aparente na cena de onde este exemplo foi retirado, que a personagem está a falar português. Estes exemplos mostram, também, as opiniões portuguesas em relação à comida chinesa, sendo que muitas pessoas consideram que esta pode conter carne humana, ou mesmo animais domésticos, como cão ou gato (exemplo 3), bem como as opiniões relacionadas com a qualidade dos produtos confecionados na China (exemplo 4). A existência desta personagem e as cenas em que esta se encontrava presente, mesmo que apenas para efeitos de comédia e, ao que tudo indica, sem intenções ofensivas, é um exemplo de como os meios de comunicação são um meio que auxilia na manutenção de estereótipos.
61 Ana Matias (2007) levou a cabo um conjunto de entrevistas, conduzidas na área metropolitana de Lisboa, para averiguar que tipo de imagens a sociedade portuguesa sustenta em relação aos imigrantes chineses. Das entrevistas, Matias (2007, pp. 107-116), obteve um leque variado de opiniões, em que os entrevistados partilham o que podem ser considerados aspetos positivos e aspetos negativos da presença de imigrantes chineses em território português. Estas opiniões representam os estereótipos e preconceitos que o povo português, em particular da área metropolitana de Lisboa, desenvolveu em relação às pessoas de nacionalidade chinesa. Alguns pontos de vista positivos que Matias referiu estão relacionados com a cultura chinesa, que é descrita como “sábia,” “misteriosa,” “interessante,” “única,” entre outros adjetivos de conotação positiva (2007, p. 109). Matias refere, também, que os entrevistados “admiram os chineses pelos seus valores ancestrais, pelo respeito aos mais velhos e pelas suas tradições seculares,” apreciando, ainda, “o seu modelo de trabalho e capacidade de sobrevivência, bem como a sua organização e empenho (…)” (2007, p. 109). Os portugueses consideram que os chineses não só são respeitosos e honrosos, mostram, também, valor à educação dos filhos, uma vez que “vão agradecer aos professores o trabalho desempenhado ao longo do ano” (2007, p. 111). No entanto, partindo da análise destas entrevistas por parte de Ana Matias, entende-se que os portugueses apresentam, sobretudo, opiniões menos positivas em relação aos imigrantes chineses. De acordo com Matias, os portugueses acreditam que os chineses vêm para Portugal para vender os seus produtos, de “má-qualidade”, a preços mais baixos do que os preços praticados no comércio local, acabando por “dar cabo do pequeno comércio” (2007, p. 108). Outros aspetos apontados em relação à diáspora chinesa em Portugal são os seguintes: os chineses são “pessoas muito fechadas,” relacionando-se apenas entre si, passando uma imagem de “arrogantes, imbuídas de sentimentos de sobrevalorização para com a sociedade chinesa” (2007, pp. 110-111). Uma ideia muito presente na mentalidade da sociedade portuguesa é a de que os chineses servem carne humana nos seus restaurantes, baseando-se esta ideia no desconhecimento por parte dos portugueses da existência de óbitos chineses em território português (2007, p. 113). Em conformidade com o que é dito em Polígrafo/SIC 74 , os portugueses acreditam, ainda, que os mortos chineses, ou são 74 Rubrica do Jornal da Noite, do canal privado nacional, SIC. Edição de 01/07/2019.
62 enterrados secretamente, ou são “ocultados, para que os documentos possam ser usados por imigrantes ilegais.” 75 No entanto, estas noções estão erradas, sendo que há registos de óbitos chineses em Portugal. O número diminuto destes registos, contudo, deve-se ao facto cultural de os chineses preferirem regressar ao seu país de origem quando idosos ou doentes. No geral, os entrevistados por Matias julgam os imigrantes chineses como muito unidos dentro da sua comunidade, indiferentes em relação à língua e costumes portugueses, com interesse meramente comercial, apesar de amáveis e respeitosos (2007, p. 114). Não obstante, é de referir, que o povo português denota, também, um certa indiferença em relação ao povo chinês, bem como um conhecimento reduzido sobre este (Matias, 2007). Assim, pode concluir-se que os portugueses são, do mesmo modo, responsáveis pela relação exclusivamente comercial, dado que também não mostram interesse em conhecer melhor a comunidade chinesa presente em Portugal. Através desta análise denota-se que é possível encontrar os estereótipos que a sociedade portuguesa retém em relação aos chineses nos meios de comunicação. Estes surgiram com base em centenas de anos de contactos, de generalizações comportamentais bem como, por vezes, da falta de iniciativa de conhecer, compreender e experienciar a cultura e realidade chinesas. A ideia portuguesa de que os produtos chineses são de má qualidade não impede os portugueses de ir a lojas chinesas fazer compras, nem a sua opinião acerca dos ingredientes usados na confeção da comida chinesa os impede de ir a um restaurante chinês fazer uma refeição. A existência destes estereótipos não implica que toda a sociedade portuguesa pense assim, ou mesmo que as mentalidades não estejam a mudar. No entanto, a constante utilização destes estereótipos, sem a consciencialização do público do que é um juízo errado, leva à manutenção destes em sociedade, não permitindo um desenvolvimento profícuo da interação entre as comunidades portuguesas e chinesas. Assim, e com base na explicação de Zhang Li (2013, p. 119), é possível encontrar a relação entre os meios de comunicação com os estereótipos e preconceitos, através da comunicação intercultural: A comunicação dos média deve reforçar a consciencialização das diferenças culturais, respeitar as outras culturas, aprofundar a compreensão mútua e enfatizar a integração cultural e a 75 https://sicnoticias.pt/programas/poligrafo/2019-07-01-Ha-registo-de-mortes-de-chineses-em-Portugal-, consultado em 18/07/2019, às 16h41
63 interação social, de modo que nos textos de comunicação intercultural dos média seja possível eliminar ou reduzir equívocos provocados por diferenças culturais. (…) os vários níveis de símbolos linguísticos dos textos dos meios de comunicação, incluindo a apresentação do tema, a enunciação, o estilo de linguagem, etc. são organizados e produzidos para se adaptarem a hábitos de compreensão do público em diferentes contextos culturais, bem como para se adaptarem a diferentes tradições culturais, de forma a alcançar uma comunicação intercultural positiva e eficaz. 76 O próximo capítulo procura expor esta relação, através da análise de discurso de notícias, artigos de opinião e crónicas. Os autores dos textos apresentados adaptam as suas palavras para que estas sejam mais facilmente interpretadas pelos leitores, recorrendo, para isso, a estereótipos e preconceitos sobre os chineses, culminando na influência da comunicação intercultural entre portugueses e chineses. 76 “传播主体要增强文化差异意识,尊重他者文化,加深彼此了解,强调文化融合和主体间性,这样在媒介文本的跨文化传播中就 有可能消除或者减少文化差异带来的误解和曲解。(…) 对媒介文本的各层级语言符号包括主题设计,话语表述,语言风格等的组 织和生产做到适应不同文化语境下的受众理解习惯,以适应受传者的不同文化背景从而实现积极有效的跨文化传播。” (TdA)
64 3. CAPÍTULO III –ANÁLISE DE TEXTOS A realidade atual baseia-se na constante aproximação e interdependência de comunidades e culturas. O início destas relações pode ter levado à formação de opiniões tendenciosas em relação aos outros, numa tentativa de cada comunidade manter e proteger a sua integridade e herança cultural. Contudo, cada vez mais as sociedades se adaptam, chegando mesmo a reproduzir padrões sociais umas das outras. Esta fase de aceitação e conhecimento mútuo permitiu o desenvolvimento da opinião pública, deixando esta de ser tão rapidamente influenciada e alterada pela informação a que tem acesso constantemente. Não obstante, os meios de comunicação continuam a representar os principais instrumentos de transmissão de informação entre sociedades. O método que é usado por estes para informar a população influenciará o modo como esta irá avaliar os outros. Este método pode ser tão impercetível como o tipo de léxico usado para fazer a comunicação. Para compreender de que modo os meios de comunicação podem levar a cabo a influência da opinião do público, através do uso de linguagem tendenciosa, esta dissertação tem como objetivo fazer a análise de discurso de textos presentes nos meios de comunicação portugueses, textos esses que podem ser acedidos por qualquer membro da sociedade. 3.1 Metodologia Para proceder à análise de discurso e procura de estereótipos e preconceitos sobre chineses, fez-se o levantamento de notícias atuais, artigos de opinião e crónicas, encontrados em sites de jornais online , pelo que importa clarificar alguns destes termos. Um artigo de opinião é um texto jornalístico escrito por alguém com o intuito de expressar os seus sentimentos e pensamentos acerca de um assunto de interesse público. Uma notícia é um texto informativo que relata um acontecimento nacional ou internacional de interesse público, de caráter político, económico, cultural, etc., e uma crónica é um tipo de texto informativo, produzido para os meios de comunicação, tratando de temas atuais, diferenciandose da notícia por não ser imparcial, sendo que o cronista pode expressão a sua opinião e criticismo. Os textos selecionados para realizar a análise de discurso consistem em: duas notícias que se debruçam sobre o mesmo tema, as manifestações de Hong Kong, mas que são provenientes de duas fontes de informação distintas, RTP Notícias e Expresso , dois artigos de opinião, também estes relacionados com eventos de Hong Kong, e oito crónicas, sobre os mais variados temas, não estando todas relacionadas diretamente com a China, mas nas quais é possível encontrar frases e expressões a
71 Esta pergunta é seguida pela exposição do que se encontra nas notícias acerca do caso, sendo que, tal como na notícia da RTP Notícias vista acima, se presencia o uso de vocabulário negativo relacionado com a polícia, como “violência” e “meios hostis,” em contraste com o vocabulário com conotação positiva, relacionado com os manifestantes, como “liberdade.” Por fim, a autora retoma o tema de Tiananmen, explicando que, não querendo repetir o sucedido de há trinta anos atrás, a China age de forma “cautelosa,” sem querer cometer “excessos.” No último parágrafo, Patrícia Reis refere que, sendo que os manifestantes chegaram a um milhão e meio na manifestação de domingo, dia dezoito de agosto, se se repetisse os acontecimentos de quatro de junho de mil novecentos e oitenta e nove, as consequências seriam piores. Após esta afirmação, são relembradas as relações económicas entre Portugal e a China, bem como “um país a China que tem presos políticos, campos de concentração e tal. A economia pode tudo.” com a intenção de expor, de forma indireta, que a autora não tem uma opinião positiva em relação à China e as suas ações, sendo que desaprova a relação entre esta e Portugal. O seguinte artigo de opinião, publicado no Diário de Notícias , da autoria do Embaixador da República Popular da China em Portugal, Cai Run, intitula-se A China é firme em defender a prosperidade e estabilidade de Hong Kong 84 ( cf. Anexo IV). Neste artigo, o Embaixador, ao contrário da anterior autora, Patrícia Reis, faz uma apreciação positiva da intervenção por parte da China nas manifestações em Hong Kong. Assim como o Embaixador da China em Portugal, os apoiantes das atitudes levadas a cabo pelo Governo Chinês, compreendem que as decisões deste têm como principal objetivo o desenvolvimento económico e a estabilidade sustentável de Hong Kong, tal como se pode constatar pelo título do artigo. Cai Run, começa por explicar o que, na sua opinião, incitou o começo das manifestações, ou seja, que estas foram iniciadas por radicais de Hong Kong que, aproveitando a oposição à revisão do Decreto dos Infratores Fugitivos e da Assistência Mútua Jurídica em Matéria Penal, definida nos meios de comunicação como lei da extradição, pretendem “desordenar Hong Kong e destruir o princípio de Um País Dois Sistemas.” Acrescenta, ainda, que esses radicais tencionam “espalhar boatos, criar pânico desviar a atenção da opinião pública, incitar caos de forma intencional e disturbar a ordem social.” Segundo o Embaixador, os atos de violência evidenciados nos média são provocados pelos manifestantes radicais, não pelas forças policiais, como se pode ler o seguinte excerto “Alguns media e grupos alegam que as chamadas manifestações pacíficas foram reprimidas violentamente pela polícia. 84 Run, C. (2019). A China é firme em defender a prosperidade e estabilidade de Hong Kong. Diário de Notícias . Consultado em setembro 21, 2019, em https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/convidados/interior/a-china-e-firme-em-defender-a-prosperidade-e-estabilidade-de-hong-kong-11231105.html
72 Trata-se do comportamento típico do padrão duplo, porque a verdade é exatamente oposta do que os mesmo declaram.” O Embaixador da China em Portugal, repreende os meios de comunicação social ocidentais, afirmando que estes desrespeitam a verdade, “fazem reportagens com ouvido seletivo, difama e caluniam” as ações do Governo e polícia de Hong Kong. Ao contrário dos textos analisados anteriormente, neste artigo, adjetivos de cunho negativo, como “extremistas” e “violentos,” são usados mais do que uma vez, estando sempre associadas aos manifestantes. Como visto acima, também o Embaixador Cai Run refere o retorno de Hong Kong à China, bem como os seus direitos e regalias no princípio Um País Dois Sistemas. Acrescenta, ainda, as mais valias para o seu desenvolvimento desde que tornou a estar sobre o governo chinês. Mais uma vez, em contraste com os textos anteriores, Cai Run carateriza o poder da China através de expressões positivas como é visto no penúltimo parágrafo: “confiança,” “capacidade,” “apoia inabalavelmente,” entre outros. O artigo termina com uma declaração feita diretamente aos leitores portugueses, apelando ao discernimento e consciencialização destes. Como referido anteriormente, as últimas frases dos textos pretendem criar proximidade entre o leitor e os acontecimentos, atraindo-os a criar uma opinião com base no que acabaram de ler. Através da análise feita, tanto às notícias como aos artigos, juntamente com a aplicação dos conceitos vistos em capítulos precedentes, é possível tirar algumas conclusões sobre o modo como estes tipos de textos influenciam a opinião pública no que respeita a outras sociedades. A transmissão constante de informação em relação ao estado político e económico de Hong Kong, bem como a criação de um ponto de vista favorável em relação aos manifestantes em contraste com a impressão negativa em relação à polícia de Hong Kong e, ainda, em relação ao Governo Chinês, respeitado as caraterísticas da teoria de agenda-setting ( cf. Capítulo 1.1), em que as notícias a que os meios de comunicação dão mais visibilidade são aquelas a que o público dá mais importância, influencia grandemente a opinião que a sociedade portuguesa desenvolve acerca destes. Esta teoria assenta em duas premissas (Communication Theories, 2004, p. 104). A primeira premissa declara que os meios de comunicação filtram e moldam a realidade ao invés de simplesmente a refletirem e a segunda afirma que a concentração dos meios de comunicação em determinados acontecimentos e assuntos leva o público a considerá-los mais importantes do que outros acontecimentos e assuntos menos abordados.
73 De acordo com a primeira premissa, nos meios de comunicação em geral, é possível presenciar a moldagem da realidade ao percecionar que novas histórias não são apresentadas por ordem cronológica ou de acordo com o número de pessoas afetadas, mas sim na ordem que o produtor de conteúdo determina ser a mais sensacional, ou a mais apelativa. Aqui, em particular, visualiza-se esta filtragem e moldagem da realidade na “tomada de partidos” por parte dos autores dos artigos de opinião, uma vez que, por um lado, a autora Patrícia Reis defende os manifestantes, e por outro, o Embaixador da China em Portugal, defende o Governo Chinês e as suas decisões. A segunda premissa, apresentada em exemplos abordados no Capítulo 1.3, reflete-se neste caso no recente foco que os meios de comunicação portugueses deram aos acontecimentos de Hong Kong, passando para segundo plano outros temas, transmitindo ao público um sentimento de maior importância relacionado com as manifestações. A influência dos meios de comunicação é também visível no modo como as notícias são fraseadas, isto é, em que tipo de frames ( cf. Capítulo 1.1) estas são colocadas. Nas notícias analisadas, por exemplo, os jornalistas fizeram uso de molduras em torno da violência, como se pode ver nos títulos, pelo uso de expressões como “tortura policial,” “violência,” ou ainda, “Tiananmen,(…), chama-se Hong Kong,” que prepara a mente do leitor para um artigo sobre violência ao recordar os acontecimentos de há trinta anos atrás. Sendo Portugal um país sob um governo democrático, a relação criada entre os manifestantes e os termos “pró-democracia” (nas notícias) e “liberdade” (no artigo de opinião Tiananmen, 30 anos depois, chama-se Hong Kong ), revelam frames que enquadram a opinião pública para uma determinada avaliação da situação. Ainda referente ao modo como as notícias influenciam o público, relembre-se a teoria de cultivação de crenças ( cf. Capítulo 1.1). Os teóricos desta definem dois grupos de audiência, “espetadores pesados” ( heavy viewers ) e “espetadores leves” ( light viewers ), sendo que os “espetadores pesados” representam a audiência que assiste televisão durante muito tempo e os “espetadores leves” o contrário. Os teóricos acreditam que os “espetadores pesados” estão mais suscetíveis a serem influenciados pela informação transmitida pela televisão (Communication Theories, 2004, p. 109). No entanto, admitem que as consequências da influência da televisão são pequenas e graduais, mas que, com o passar do tempo, são cada vez mais percetíveis (Communication Theories, 2004, p. 108; Slater & Elliott, 1982). Deste modo, a influência exercida no público português pode não ser direta e imediata, no entanto o constante acesso ao mesmo conteúdo (bem como uma possível comunicação entre indivíduos, com base no que é transmitido nas notícias) culmina numa alteração dos modos de pensar. Atualmente,
74 o público português estar, sobretudo, em contacto com notícias acerca das manifestações em Hong Kong, sendo estas expostas, maioritariamente, através de linguagem negativa, cria no espectador ou leitor sentimentos negativos. O desenvolvimento de artigos de opinião, sejam em defesa dos manifestantes ( Tiananmen, 30 anos depois, chama-se Hong Kong ), sejam a repreendê-los ( A China é firme em defender a prosperidade e estabilidade de Hong Kong ), é manipulado pelos valores dos autores em junção com a nova informação adquirida. Se as notícias são o primeiro ponto para a informação atualizada sobre a realidade, notícias tendenciosas podem levar à posterior produção de opiniões influenciada, opiniões essas afetadas pela criação de uma agenda e o uso de frames e de aspetos culturais por parte dos meios de comunicação, para levar a cabo a transmissão da mensagem. Para além das notícias sobre Hong Kong, outras notícias relacionadas com a China são referentes a “Guerra Comercial,” sobretudo entre esta e os E.U.A., bem como à compra de empresas portuguesas, ou parte destas, por empresas chinesas. Estas notícias geram no público português a impressão de uma China poderosa e rica, o que, note-se, contrasta com a ideia de os chineses serem comerciantes de artigos baratos e de fraca qualidade, sendo este mesmo o estereótipo mais facilmente encontrado nos meios de comunicação portugueses (como se verá através da análise das crónicas apresentadas a seguir). Esta mudança de perspetiva invoca constantemente estereótipos e preconceitos chineses, assim como leva à criação de novos. Como acontece com os artigos de opinião, também as crónicas são escritas com base em notícias anteriormente publicadas. As páginas que se seguem cobrem oito crónicas encontradas nos sites das revistas Sábado e Visão , relativas aos mais variados temas, mas nas quais é possível encontrar o uso de linguagem tendenciosa que remete para estereótipos e preconceitos em relação aos chineses. Através da escrita e, sobretudo, da leitura destas crónicas, formam-se e solidificam-se estereótipos na mente dos leitores, neste caso portugueses, com um forte alcance através das redes sociais. Na primeira crónica a ser analisada, intitulada Eu sei lá se são os chineses… 85 ( cf. Anexo V), retirada do site da revista Sábado, a autora, A Porteira, expõe, ao longo do texto, a sua opinião acerca dos chineses, em particular, daqueles que abrem em Portugal lojas dos chineses, bem como o que estes 85 A Porteira (2016). Eu sei lá se são os chineses.... Sábado . Consultado em setembro 28, 2019, em https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/aporteira/detalhe/eu-sei-la-se-sao-os-chineses
75 vendem, entre outros pormenores. Sendo que a autora é, ou representa a personagem de uma porteira, sobre a qual se pode adivinhar que, fazendo uso de um estereótipo sobre portugueses, é uma pessoa de classe baixa, com uma escolaridade básica, compreende-se que a linguagem usada na escrita do texto é informal, repleta de expressões de português popular, como é exemplo “para tirar a maior,” “aqui de fronte,” “pró que a gente havíamos de estar todos guardados,” “E o que é que a gente temos a ver com isso,” assim como expressões derivadas da religião e cultura portuguesas, como o caso de “Bemfeita, Deus me perdoe.” Deste modo, é esperado que A Porteira, recorra a estereótipos e preconceitos na sua descrição sobre outras sociedades, neste caso a chinesa, como é possível presenciar à medida que se faz a leitura do texto. Começando pelo título, “Eu sei lá se são os chineses…,” remete para a ideia de que, havendo uma mudança no “normal” funcionamento da realidade, o motivo dessa mudança pode ser devido à intervenção dos chineses, seja porque cada vez mais pessoas de nacionalidade chinesa integram a sociedade portuguesa, seja por associação à atualidade, em que o investimento chinês em Portugal é cada vez maior, sendo que várias empresas portuguesas continuam a ser compradas por investidores chineses. Entrando no corpo de texto, no primeiro parágrafo, encontra-se a seguinte expressão “isto de eles serem comerciantes está-lhes na massa do sangue.” Fazendo a conexão deste excerto ao que foi apresentado anteriormente, de acordo com o que foi apurado nas entrevistas levadas a cabo por Ana Matias, na zona metropolitana de Lisboa, uma das ideias presentes na sociedade portuguesa é que os chineses vêm para Portugal apenas para fazer negócio ( cf. Página 61). A Porteira continua a ideia acrescentando que “aqui de fronte há três lojas, uma frutaria e duas assim daquelas que vendem de tudo” e “eles são sempre os primeiros a chegar e os últimos a ir embora,” remetendo ao estereótipo de que os chineses trabalham muito ( cf. Página 61), ou ainda, “tem um chinês a rondar-lhe a porta para lhe ficar com o trespasse,” sendo que o uso do verbo “rondar” deixa transparecer o estereótipo do que os chineses vêm para Portugal para se apoderar do comércio, acabando por “dar cabo do pequeno comércio” (Matias, 2007, p. 108) ( cf. Página 61). A autora, para além de referir que os chineses vêm para Portugal para abrir lojas, refere ainda outro estabelecimento de negócio, chamando-lhe “restaurãs japoneses.” O uso desta expressão transmite o estereótipo, muito presente na sociedade portuguesa, de que os asiáticos “são todos iguais,” sendo que é indiferente dizer que o restaurante é chinês ou japonês, visto que, se as pessoas são “todas iguais” os restaurantes também o são. Este estereótipo pode também
76 ser encontrado numa outra crónica pela mesma autora 86 , onde lê “Ensinar a fazer um suche, um sáchime, coisas de fora, lá dos chineses, para não chatear sempre o bife com arroz.” Neste excerto a Porteira identifica comida japonesa, que é o caso do sushi e do sashimi , como comida chinesa, transmitindo, mais uma vez, indiferença pelas culturas asiáticas, assim como passando o estereótipo de que “os asiáticos são todos iguais.” Um outro estereótipo também referido no capítulo anterior, também presente neste texto, é referente à qualidade e durabilidade, assim como ao preço, dos produtos comprados nas lojas dos chineses, ou seja, ao estereótipo de que os produtos comprados nas lojas dos chineses, apesar de baratos, são de má qualidade, acabando por durarem pouco tempo ( cf. Página 61). Este estereótipo é visível nas seguintes afirmações: “pode ser que fique tudo mais barato! Mesmo que dure menos, sempre se poupa,” “desde que a luz é deles, é verdade que é assim um bocadinho mais fraca, mas nota-se logo na factura,” “Isso num chinês nem chega a metade” e ainda, “tenho de ir ao chinês comprar outra esfregona. Já é a terceira este mês.” Estes excertos, mesmo que para efeito de comédia, tal como todo o conteúdo do texto, aludem para estereótipos em relação aos chineses, promovendo a manutenção destes na mentalidade portuguesa. É de mencionar que a afirmação de “A culpa não é dos chineses, é desta chuva,” imediatamente a seguir a “(…) tenho de ir ao chinês comprar outra esfregona. Já é a terceira este mês,” passa a ideia de que a chuva é apenas uma desculpa, para não querer dar a entender que a qualidade das esfregonas compradas nas lojas dos chineses é fraca, provocando, no entanto, o efeito contrário, contribuindo ainda mais para a preservação do estereótipo. É, ainda, possível encontrar estereótipos em relação à qualidade dos produtos vendidos pelos chineses em outro texto da autora, intitulado As mulheres, os salários iguais e o fim do mundo em cuecas 87 ( cf. Anexo VI). Neste texto, a Porteira expressa-se em relação à igualdade de salário entre homens e mulheres, sendo que, ao longo do texto, a autora expressa o seu desacordo contra o aumento do salário das mulheres (o que, entenda-se naturalmente, pretende passar a ideia, através da ironia, de que as mulheres têm direito a salários iguais aos dos homens). Entres as explicações da autora descobrese uma referência à China, como se vê no seguinte excerto: “Eu tenho pra mim que a gente sozinhas transformámos a China na segunda maior economia mundial, de tanto cangalho que a gente trazemos para casa lá das lojas deles.” Mais uma vez, a autora alude à “má qualidade” dos produtos com o uso 86 A Porteira (2019). A mulher do Senhor Juiz. Sábado . Consultado em outubro 19, 2019, em https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/aporteira/detalhe/a-mulher-do-senhor-juiz 87 A Porteira (2019). As mulheres, os salários iguais e o fim do mundo em cuecas. Sábado . Consultado em setembro 28, 2019, em https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/a-porteira/detalhe/as-mulheres-os-salarios-iguais-e-o-fim-do-mundo-em-cuecas
77 do termo depreciativo “cangalho,” termo usado para referir algo que não presta ou que é velho, reforçando assim o estereótipo da falta de qualidade dos produtos chineses. A seguinte crónica, escrita por António Lobo Antunes, intitulada A viagem à China 88 ( cf. Anexo VII), pode ser encontrada no site da revista Visão , de onde foi retirada. Através deste texto, Lobo Antunes conta a história de um rapaz de cinco ou seis anos, chamado Tomázinho, que fugia muitas vezes de casa. O rapaz, quando confrontado pelo pai que queria saber o porquê das fugas, explicou-lhe que queria ir à China. Após ter contado esta história, o autor admite que também ele gostaria, aos cinco anos de idade, de ter visitado a China. No seu desabafo, explica que sente que toda a gente esconde a China dele, fazendo a seguinte declaração: “Nem em casa existe, como existe em todas as outras, um prato de sopa com chineses risonhos impressos, búfalos num arrozal, raparigas de olhos oblíquos, pontezinhas delicadas sobre riachos com juncos? Porque não tenho, no bengaleiro, chapéus cónicos de palha?” Esta descrição, mesmo que seja apenas a descrição de um prato, consegue passar uma ideia estereotipada da China, de um país ligado à agricultura, através da referência aos arrozais, e das suas pessoas, que são muitas vezes caraterizadas como tendo “olhos oblíquos.” Deve-se, ainda, clarificar que o “chapéu cónico de palha” é um adereço mais comummente usado no Vietname, sendo, inclusive, um símbolo nacional. Apesar de este chapéu poder ser encontrado em outros países asiáticos, esta associação à China, mais uma vez, transparece o estereótipo de os asiáticos serem todos iguais. Mais abaixo no texto, Lobo Antunes faz alusão a um tema, também já falado anteriormente, referente à morte de pessoas chinesas, assunto que suscita várias dúvidas aos portugueses. O autor afirma “além disso os chineses não morrem, não sei de uma só criatura no mundo que confesse haver assistido ao enterro de um chinês e portanto são eternos,” podendo, desta forma, despertar na mente do leitor estereótipos relacionados com o que acontece com os mortos, como a ideia que estes são usados para a confeção de comida nos restaurantes chineses ( cf. Página 61). Uma outra crónica onde é possível apontar estereótipos e preconceitos em relação aos chineses é a crónica intitulada Não há fatos italianos baratos 89 ( cf. Anexo VIII), escrita por Dulce Garcia, publicada na revista Sábado . 88 Lobo Antunes, A. (2018). A viagem à China. Visão . Consultado em setembro 27, 2019, em http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_antonioloboantunes/2018-10-31-A-viagem-aChina?fbclid=IwAR0tTFN5coLwYB3F8aa7NvlUMouAvl2wf40Wzq4meI8fjbrhLZ53wYCwvHE 89 Garcia, D. (2015) Não há fatos italianos baratos. Sábado . Consultado em setembro 28, 2019, em https://www.sabado.pt/opiniao/cronistas/dulcegarcia/detalhe/nao-ha-fatos-italianos-baratos
78 Nesta pequena crónica, escrita num formato que dá a entender que a autora está a ter uma conversa com alguém, ou que simplesmente está a relatar uma conversa que ouviu, ou que considera poder ser uma conversa normal entre duas pessoas, a autora expressa o modo como julga que os chineses se mantêm ricos em comparação com algumas figuras públicas portuguesas, sendo possível descortinar uma série de estereótipos chineses presentes na sociedade portuguesa. No quarto parágrafo (ou fala), lê-se “Sempre a trabalhar, sempre sisudos, não pagam um copo a ninguém,” para descrever uma pessoa chinesa, expondo, mais uma vez, o estereótipo de que os chineses trabalham muito. A resposta a esta afirmação é “Por isso são ricos,” insinuando que, o motivo de estes serem ricos é porque trabalham muito, indiferentes a relacionarem-se com os portugueses ( cf. Página 61). Esta ideia é continuada pela afirmação de que os chineses “continuam a viver discretamente, sempre em família.” Apesar de esta ser uma impressão positiva em relação aos chineses, encontra-se, algumas linhas depois, o estereótipo de que os chineses que moram em Portugal vivem em grande número numa casa pequena , através da expressão “encaixas cinco famílias de chineses num T3, na boa,” sendo esse mais um dos motivos da sua riqueza. É ainda referido que os chineses poupam no vestuário, uma vez que “a roupa dos chineses (…) é baratíssima,” enquanto que José Sócrates, uma das figuras com quem o povo chinês é comparado na crónica, “usava fatos italianos e comia em restaurantes franceses.” A crónica de Ricardo Araújo Pereira, encontrada na revista Visão, Eletricidade comprada no chinês 90 ( cf. Anexo IX), rodeia o tema da companhia elétrica EDP e o preço que a população portuguesa paga pela eletricidade. O título, “Eletricidade comprada no chinês,” inicialmente, alude ao facto de parte da companhia ter sido comprada por empresários chineses. No corpo de texto, a autor compara o modo como a dona Arminda, florista, lida com a perda do furgão devido à passagem do furacão Leslie e o modo como a EDP lida com os danos causados pelo mesmo furacão, concluindo que, enquanto a dona Arminda não sabe lidar com a situação, a EDP consegue sempre tirar lucro, mesmo das desgraças, visto que é a população que acarreta com os custos. Após esta comparação, é referido, por fim, a compra de parte da EDP pelos chineses. Ricardo Araújo Pereira faz a seguinte declaração: “É preciso ter azar. As coisas que compramos aos chineses costumam ser baratas. A eletricidade logo tinha de ir parar às mãos dos únicos chineses careiros. A EDP é uma espécie de loja dos 300 da eletricidade. Só que é dos 300 90 Araújo Pereira, R. (2018). Electricidade comprada no chinês. Visão . Consultado em setembro 26, 2019, em http://visao.sapo.pt/opiniao/ricardo-araujopereira/2018-10-25-Electricidade-comprada-no-chines
79 milhões.” De novo, registam-se o estereótipo de que os chineses são “comerciantes”, bem como o estereótipo de que os produtos vendidos pelos chineses são baratos. A crónica Namoradas, amigos e puns. Enfim… o essencial da vida 91 ( cf. Anexo X), escrita por João Pedro Santos, retirada do site da Revista Sábado , escrito em formato de diálogo, apresenta uma conversa entre dois primos sobre o que estes consideram ser vantagem e desvantagem de um namoro. Enquanto um dos primos descreve o que acha ser uma consequência de namorar faz a afirmação que se segue: “mas assim que começa a namorar (…) parece que (…) foi raptado por um gang de chineses para lhe extraírem um rim.” Esta asserção remete para um estereótipo que ainda hoje se encontra presente na sociedade portuguesa, o estereótipo de que os chineses raptam pessoas para lhes retirarem os órgãos para venda. Uma outra crónica que apresenta o estereótipo de comerciantes baratos e de produtos de má qualidade é a crónica de Catarina Nunes, Ritz, Dolce & Gabbana e a China loucamente rica 92 ( cf. Anexo XI), publicada em Vida Extra Expresso . Nesta crónica, a jornalista fala da visita do presidente da China a Portugal, em dezembro de 2018, em particular da sua estadia no hotel Ritz e das controvérsias relacionadas com marcas de luxo na China. No excerto, “nós por cá, mais habituados a vê-los atrás de balcões de lojas com produtos de baixa qualidade ‘made in China’ não lhes demos importância e começámos por estranhar as excursões de chineses na avenida da Liberdade”, a autora faz uso do estereótipo dos chineses como comerciantes de produtos de má qualidade, visível em “atrás de balcões de lojas com produtos de baixa qualidade”, para mostrar que a ideia generalizada vai contra a atual realidade que se presencia nas capitais europeias, isto é, a visita dos turistas chineses em busca de produtos de luxo que, por outro lado, são vendidos na China a “preços exorbitantes.” João Pinto Costa, na sua crónica Vistos ‘gold’ 93 ( cf. Anexo XII), retirada do site da revista Sábado , trata do caso de atribuição de vistos gold a empresários chineses. Daqui retira-se o excerto seguinte: “Ainda assim, e verdade seja dita, para os arguidos e membros desta teia, os chineses não são todos iguais. Eles distinguem na perfeição os chineses que têm 500 mil euros ou mais na conta dos outros.” Apesar de o ator afirmar que “os chineses não são todos iguais,” a expressão ativa na memória dos leitores o estereótipo de que “os chineses são todos iguais,” permitindo, assim, a manutenção deste. É ainda possível fazer uma segunda interpretação que, no entanto, leva, de igual modo, ao mesmo 91 Santos, J.P. (2016). Namoradas, amigos e puns. Enfim… o essencial da vida. Sábado . Consultado em setembro 28, 2019, em https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/joao-pedro-santos/detalhe/namoradas-amigos-e-puns-enfim-o-essencial-da-vida 92 Nunes, C. (2018) Ritz, Dolce & Gabbana e a China loucamente rica. Vida Extra Expresso . Consultado em setembro 26, 2019, em https://vidaextra.expresso.pt/cronicas/2018-12-08-Ritz-Dolce--Gabbana-e-a-China-loucamente-rica 93 Pinto Costa, J. (2014). Vistos 'gold'. Sábado. Consultado em setembro 28, 2019, em https://www.sabado.pt/opiniao/cronistas/joao-pintocosta/detalhe/Vistos--gold-
80 estereótipo: através desta afirmação é possível deduzir que o autor entende que, excluindo aqueles que “têm 500 mil euros,” os chineses são indistinguíveis (para fazer uso do verbo usado pelo autor). Cinco das crónicas até aqui analisadas, Eu sei lá se são os chineses... , As mulheres, os salários iguais e o fim do mundo em cuecas , A viagem à China , Ritz, Dolce & Gabbana e a China loucamente rica e Vistos ‘gold’ , foram partilhadas com chineses e portugueses, do Curso de Mestrado em Estudos Interculturais Português/Chinês: Tradução, Formação e Comunicação Empresarial, em contexto de sondagem informal, para o levantamento de opiniões e sentimentos provocados pelos estereótipos presentes nos textos. Como visto no decorrer da análise das crónicas, o estereótipo usado mais frequentemente é o estereótipo dos chineses como comerciantes de produtos baratos e de baixa qualidade. Pela leitura e estudo das reflexões escritas pelos inquiridos chineses, nota-se que estes se sentem indignados e aborrecidos por este estereótipo, havendo no entanto alguns que defendem que este estereótipo tem fundamento na realidade. Com intuito de apresentar a sua indignação e aborrecimento, alguns inquiridos recorrem à cultura chinesa, através de expressões da língua chinesa que, em tradução livre para português significam “produtos baratos não são bons e bons produtos não são baratos” (便宜没好货,好货不 便宜, piányí méi h ǎ o huò, h ǎ o huò bù piányí ) e “quanto mais alto o preço, melhor a qualidade” (一分 钱,一分货, yī fēn qián, yī fēn huò ). Outros afirmam “eu não sei porque é que ela a autora continua a fazer compras na loja chinesa”, “se quer um bom produto, porque não compra gastando mais dinheiro”, ou ainda, “mas é evidente que as coisas baratas não vão ter boa qualidade.” 94 Alguns inquiridos mostram ainda compreensão pela existência deste estereótipo, afirmando que os chineses que emigram para outros países têm a intenção de abrir negócios, sejam lojas ou restaurantes, no entanto, julgam que é uma ideia demasiado generalizada, tendo, inclusivamente, um inquirido mencionado que os comerciantes de outros países têm as mesmas intenções que os chineses. É referido ainda em algumas reflexões o estereótipo de que os chineses trabalham muitas horas. Os inquiridos compreendem que tal se dá porque estes têm como objetivo “ganhar mais para viver melhor.” Um inquirido compreende que os portugueses devem aprender com os chineses e vice-versa, afirmando “os portugueses devem trabalhar mais (…). Aos mesmo tempo, os chineses devem (…) aprender a aproveitar a vida.” Um outro inquirido explica, ainda, a existência deste estereótipo, expondo que a maioria dos chineses que imigram para Portugal são residentes de uma região da China onde é feito 94 As citações retidas das reflexões do inquiridos chineses estão adaptadas para melhor compreensão.
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91 06-Poderosas---125-Episodio---5-de-novembro--quinta-feira-#2015-11-06-David-e-Bruna-recebemASAE-na-loja-chinesa-e-Rosa-quase-apanhada Julião impede os clientes de entrarem na loja do chinês (2015). Vídeo. Portugal: SIC, Consultado em Setembro 17, 2019, em https://sic.pt/Programas/poderosas/episodios/2015-06-24-Poderosas-- -27-Episodio---23-de-junho--terca---feira--1#2015-06-24-Juliao-impede-os-clientes-de-entrarem-naloja-do-chinesJulião aparece na loja dos chineses com pedido de desculpa (2015). Vídeo. Portugal: SIC, Consultado em Setembro 17, 2019, em https://sic.pt/Programas/poderosas/videos/2015-10-21-Juliaoaparece-na-loja-dos-chineses-como-pedido-de-desculpa Vídeo de Youtube BON CP - China Video. (2015, março 10). The development of printing in China . Vídeo. Consultado em Agosto 20, 2019, em https://www.youtube.com/watch?v=WHevDzS5TiY Outras https://baijiahao.baidu.com/s?id=1615987833810075326&wfr=spider&for=pc, consultado a 20/08/2019, às 10h19 https://meucerebro.com/psicologia-das-cores/, consultado a 16/08/2019, às 16h02 http://www.communicationstudies.com/communication-theories/agenda-setting-theory, consultado a 16/08/2019, às 9h41 http://www.communicationstudies.com/communication-theories/framing-theory, consultado a 16/08/2019, às 15h22 https://zhidao.baidu.com/question/149122139.html, consultado a 16/08/2019, às 15h56
92 ANEXO I – AMNISTIA INTERNACIONAL DENUNCIA TORTURA POLICIAL EM HONG KONG E EXIGE INVESTIGAÇÃO A Amnistia Internacional (AI) denunciou hoje o abuso cometido pelas forças policiais contra os manifestantes que participam nos protestos pró-democracia em Hong Kong, e exigiu uma investigação independente. Para este relatório, a organização não-governamental (ONG) de defesa dos direitos humanos realizou entrevistas com 21 detidos, que pediram para não serem identificados, com medo de possíveis represálias, além de advogados e profissionais de saúde. "Quase todos os entrevistados descreveram ter sido espancados com cassetetes durante a detenção, mesmo que não representassem uma ameaça", sendo que "85% dos entrevistados foram hospitalizados como resultado da agressão e três passaram pelo menos cinco dias no hospital", afirmou a AI. No relatório agora publicado, a ONG citou o caso de um homem que disse ter sido alvo de tortura depois de recusar responder a uma pergunta da polícia durante o interrogatório. "Senti que as minhas pernas foram atingidas por um objeto muito duro. Depois um agente pôs os seus joelhos no meu peito. Senti a dor nos ossos e não conseguia respirar. Tentei gritar, mas não conseguia", disse o entrevistado. O documento referiu também o caso de uma jovem que foi detida num protesto em Sheung Wan, em julho, e que diz ter sido espancada nas costas enquanto fugia de uma carga policial. "O uso da força foi claramente excessivo, uma violação da lei internacional de direitos humanos", afirmou o diretor da AI para o leste da Ásia, Nicholas Bequelin, citado no relatório. A ação da polícia de Hong Kong para controlar os manifestantes na rua "tem sido transmitida em direto para o mundo ver", mas "muito menos visível tem sido a abundância de abusos da polícia contra manifestantes detidos", afirmou Bequelin. A AI "pede uma investigação independente e imparcial que resulte em acusações, justiça e reparação, uma vez que existe pouca confiança nos mecanismos internos existentes". Um inquérito independente à repressão policial é uma das cinco exigências dos manifestantes, que até agora só conseguiram uma: a retirada oficial, anunciada a 4 de setembro, de uma controversa proposta de alterações à lei de extradição.
93 Os protestos em Hong Kong começaram em junho passado, antes do Conselho Legislativo (parlamento) iniciar o debate da controversa proposta, que permitiria a extradição de suspeitos de crimes para jurisdições sem acordos prévios, como é o caso da China continental. A suspensão inicial da proposta não acalmou os protestos antigovernamentais, que se intensificaram nos últimos três meses, com confrontos entre polícia e manifestantes cada vez mais violentos, na pior crise política desde a transferência de soberania da antiga colónia britânica para a China. Os manifestantes continuam a exigir que o Governo responda também a outras três reivindicações: a libertação dos manifestantes detidos, que as ações dos protestos não sejam identificadas como motins, e, a demissão da chefe de Governo e consequente eleição de um sucessor por sufrágio universal. A transferência de Hong Kong para a República Popular da China, em 1997, decorreu sob o princípio "um país, dois sistemas". Tal como acontece com Macau, para aquela região administrativa especial da China foi acordado um período de 50 anos com elevado grau de autonomia, a nível executivo, legislativo e judiciário, com o Governo central chinês a ser responsável pelas relações externas e defesa. Lusa (2019). Amnistia Internacional denuncia tortura policial em Hong Kong e exige investigação. RTP Notícias . Consultado em setembro 21, 2019, em https://www.rtp.pt/noticias/mundo/amnistiainternacional-denuncia-tortura-policial-em-hong-kong-e-exige-investigacao_n1173646
94 ANEXO II – AMNISTIA INTERNACIONAL ALERTA PARA “PADRÃO ALARMANTE” DE VIOLÊNCIA EM HONG KONG “As provas deixam pouco espaço para dúvidas: numa aparente sede de retaliação, as forças de segurança adotaram um padrão perturbador de táticas imprudentes e ilegais contra as pessoas durante os protestos”, incluindo “prisões arbitrárias e violência retaliatória”, diz o diretor da Amnistia para o leste asiático. Há até casos de “maus tratos ao nível da tortura” A Amnistia Internacional denunciou esta quinta-feira a existência de “prisões arbitrárias, espancamentos brutais e tortura nas detenções policiais” durante as manifestações antigovernamentais dos últimos três meses em Hong Kong. A organização não-governamental (ONG) alerta ainda para o que apelida de “padrão alarmante” de violência. “Os agentes da polícia exercem violência antes e durante as prisões, repetidas vezes”, o que é contrário à legislação internacional dos direitos humanos, relata o diretor da Amnistia para o leste asiático, Nicholas Bequelin. As conclusões basearam-se em entrevistas a 48 pessoas, incluindo advogados e 21 manifestantes presos. Em 18 dos 21 casos analisados, os manifestantes revelaram que foram internados no hospital após a prisão ou detenção, com lesões que iam desde ferimentos na cabeça a braços fraturados. Em casos excecionais, alguns manifestantes detidos relataram ter sido espancados por agentes da polícia, tendo sofrido “maus tratos ao nível da tortura”. DEPUTADA PEDE INQUÉRITO INTERNACIONAL À ONU “As provas deixam pouco espaço para dúvidas: numa aparente sede de retaliação, as forças de segurança de Hong Kong adotaram um padrão perturbador de táticas imprudentes e ilegais contra as pessoas durante os protestos”, incluindo “prisões arbitrárias e violência retaliatória”, acrescenta o responsável. No início da semana, uma deputada do Parlamento de Hong Kong pediu às Nações Unidas a realização de um inquérito internacional para averiguar a repressão policial dos manifestantes pró-democracia. Ao usar da palavra durante a reunião do Conselho dos Direitos Humanos da ONU, Tanya Chan, membro do Conselho Legislativo, afirmou que a antiga colónia britânica “está a viver uma crise”. Chan, fundadora do Partido Cívico, foi condenada este ano a oito meses de prisão com pena suspensa pelo papel desempenhado na campanha de desobediência civil “Occupy Central” de 2013 e no “Movimento dos Guarda-Chuvas”, que paralisou Hong Kong no ano seguinte.
95 CONTESTAÇÃO JÁ DURA HÁ MAIS DE 100 DIAS No início do mês, a chefe do Executivo, Carrie Lam, retirou formalmente as emendas à polémica lei de extradição que esteve na base da contestação social dos últimos três meses. Mas os manifestantes exigem que o Governo responda a quatro outras reivindicações: que as ações de protesto deixem de ser identificadas como motins, a libertação dos manifestantes detidos, um inquérito independente à violência policial e a demissão de Lam e consequente eleição por sufrágio universal para o seu cargo e para o Conselho Legislativo. Esta segunda-feira, Hong Kong assinalou 100 dias da mais grave crise política depois de ter sido integrada na China em 1997. Tal como acontece com Macau, foi acordado com Hong Kong um período de 50 anos com elevado grau de autonomia, a nível executivo, legislativo e judiciário, ficando o Governo central chinês responsável pelas relações externas e pela defesa. Gomes, H. (2019). Amnistia Internacional alerta para “padrão alarmante” de violência em Hong Kong. Expresso . Consultado em setembro 21, 2019, em https://expresso.pt/internacional/2019-09-20Amnistia-Internacional-alerta-para-padrao-alarmante-de-violencia-em-Hong-Kong#
96 ANEXO III – TIANANMEN, 30 ANOS DEPOIS, CHAMA-SE HONG KONG Mais de um milhão e meio de manifestantes vieram mostrar, no passado domingo, que não estão disponíveis para se render às regras e leis da China e a China rapidamente invocou violência e desacatos, infiltrações de agentes provocadores. Tudo isto se passa em Hong Kong, mas é notícia que faça as primeiras páginas ou aberturas de momentos de informação na televisão. É tão longe, não é? Li algures que se toda a população da China pulasse ao mesmo tempo o eixo da Terra alterava-se. Têm, portanto, poder, tanto ao nível da metáfora ou na realidade mais pragmática. Sabemos pouco, ou mesmo nada, sobre a Ásia e dá-nos igual, se formos sinceros, que a China seja comunista ou que o Butão tenha um índice médio de felicidade. A luta do Tibete não nos comove por aí além, nem sabemos a razão da luta, não exactamente, mesmo que o actor Richard Gere nos procure motivar para a solidariedade. São outras culturas, está tudo demasiado longe. Vivemos na presunção da liberdade, somos o Ocidente, temos valores, cultura e uma tradição. A China é incontornável, é uma nação líder, quer se queira ou não, não a podemos ignorar. Economicamente, tecnologicamente, está no pódio. E o facto de viver um regime comunista, ditatorial para todos os efeitos, é apenas combatido com o silêncio que é uma das suas especialidades. O silêncio tem um contraponto aborrecido que é a autoridade e o exercício da violência. Mais de um milhão e meio de manifestantes vieram mostrar, no passado domingo, que não estão disponíveis para se render às regras e leis da China e a China rapidamente invocou violência e desacatos, infiltrações de agentes provocadores. Tudo isto se passa em Hong Kong, mas é notícia que faça as primeiras páginas ou aberturas de momentos de informação na televisão. É tão longe, não é? Desde Junho que os protestos decorrem, muitas vezes com violência. Existem pessoas presas. A polícia usou meios hostis para dispersar protestos. Os manifestantes querem democracia e liberdade, querem manter o que a soberania britânica lhes garantiu: muitas coisas boas da Ásia com outras tantas do Ocidente, herança da colónia inglesa. Não querem estar sujeitos ao escrutínio do governo central chinês com a possibilidade única de ser julgado no continente, (é) uma das razões de pretexto, e invocam essa palavra extraordinária, capaz de unir tantos: Liberdade. A China coloca o seu poderio militar na fronteira, cautelosa, sem querer excessos, talvez a pensar nos trezentos mil cidadãos britânicos da ex-colónia, talvez a pensar na grande chatice da aldeia global e na captação de imagens e respectiva transmissão imediata para o mundo inteiro. Não se podem dar ao luxo de repetir o massacre da Praça Tiananmen, que ocorreu há trinta anos, em 1989, quando estudantes decidiram ocupar a praça em protesto. Tudo começou em Abril, em Maio de 1989 o governo chinês
103 Bom, de maneiras que se a gente quer concorrer com eles, temos de abrir a pestana. Não há direito de uma pessoa entrar pois numa Pollux, pois num Brás & Brás — acabaram-nos com o Grandella e com os Armazéns do Chiado, que saudades! Aquilo deve de ter sido fogo posto — e pedirem-nos aos cinco e aos seis contos na moeda antiga por uma panela de pressão. Isso num chinês nem chega a metade. Também dizem muito por aí que eles lá na terra deles não têm condições nenhumas, que ganham pouco, que trabalham muitas horas seguidas. E o que é que a gente temos a ver com isso, digam-me lá? Alguém nos pediu dinheiro emprestado para pagar os ordenados a essa gente? Então, metam-se lá nas vossas vidas, se fazem favor. Outra coisa muito boa que os chineses trouxeram para cá, foram os restaurãs japoneses. Agora ao domingo, em vez do frango assado, que já deitava por os olhos, pego em mim e mais em quem estiver cá em casa e vamos aqui a duas ruas abaixo, àqueles restaurãs que a gente paga um X e come até arrebentar. Dantes, não havia nada disto. Então, a pessoa às vezes pedia para trazer o resto do cozido para casa numa tamparuere e já ficavam a olhar prá gente de lado... E isso dos vistos, pelos vistos, é só inveja. Trabalhem como eles, juntem, não gastem tudo em automóveis e em telefones, e férias no estrangeiro, que o que não falta aqui à gente são praias. É preciso ter uma paciência de chinês para aturar esta gente... Que venham muitos, para ver se isto leva uma volta. E não é que vêm mesmo, ainda ontem li que compraram mais um bocado de um banco. Não foi assim todo, diz que foi só foi um bocado. Eles sabem bem o que fazem! São muito espertos: compram os bancos aos bocados, levam para a China, montam-nos lá e depois trazem outra vez e vendem-nos inteiros. E agora tenho de me ir embora, que ainda tenho de ir ao chinês comprar outra esfregona. Já é a terceira este mês. A culpa não é do chineses, é desta chuva. Como me patanham muito a entrada, não dou descanso à esfregona e gasta-se mais. Com licença. A Porteira (2016). Eu sei lá se são os chineses.... Sábado . Consultado em setembro 28, 2019, em https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/a-porteira/detalhe/eu-sei-la-se-sao-os-chineses
104 ANEXO VI – AS MULHERES, OS SALÁRIOS IGUAIS E O FIM DO MUNDO EM CUECAS "Se as mulheres ganham menos que os homens, por algum motivo é. E eu digo-vos já qual é o motivo, que eu não sou de mandar dizer por ninguém: a verdade é que nós, as mulheres, somos muito estragadas". Fui agora mesmo apanhada de rolos na cabeça – sim, que hoje é dia de lavar o cabelo e dar umas tesouradas nas pontas, para não espigar – com a notícia de que as mulheres vão ganhar tanto como os homens, desde que façam um trabalho igual. Isto é uma ideia sem pés nem cabeça e não há-de faltar muito tempo para verem como eu tenho razão. Se as mulheres ganham menos que os homens, por algum motivo é. E eu digo-vos já qual é o motivo, que eu não sou de mandar dizer por ninguém: a verdade é que nós, as mulheres, somos muito estragadas. A gente, Deus me perdoe, só gastamos dinheiro em porcarias. Por isso, darem mais dinheiro à gente é mesmo estar a pedir para o torrarmos ainda mais. Qualquer dia, comemos dinheiro torrado ao pequeno-almoço, com um bocadinho de manteiga, como fazemos com os restos do bolo-rei. Basta a gente andarmos na rua para vermos a quantidade de lixo com que a gente se vestimos: a gente não somos como os homens, que é uma calça, uma camisa, um casaco e ala Cardoso. A gente é cueca, a gente é meia, a gente é cinta, a gente é combinação, a gente é sutiã, a gente é camisola interior, a gente é saia, a gente é camiseiro, a gente é casaco de malha, a gente é casaco três-quartos. E como se ainda fosse pouco, a gente ainda é sapato, a gente ainda é mala e a gente ainda somos de atirar uma xarpe para cima disto tudo. E o vestir ainda não é o pior. O pior é o resto! Por um acaso, alguma vez algum homem comprou, numa aquelas lojas da televisão que passam às quatro da manhã, uma esfergona que também é vassoura e que também é piaçaba e que, em abrindo ainda é chapéu-de-chuva e que em Dezembo, com mais uma extensão, ainda é árvore de Natal? Algum homem alguma vez deu pra cima de dez contos na moeda antiga por um boião de creme de baba de caracol? Ou de raspas de escama de sardinha? Algum homem tem um cobertor com mangas para ver televisão? Algum homem vê televisão? Algum homem gastava metade do ordenado em tamparuéres? De todos os tamanhos? E de todas as cores? E em forma de limão, para guardar as metades? Algum homem tem sete camisas de dormir? E mais três robes? Algum homem tem uma caixa com setenta e cinco matizes de sombras para os olhos? E um gel de duche para as pernas, outro para os braços, outro pró tronco, dois para a cara e sete para o cabelo? Os homens usam escovas eléctricas? E três variedades de
105 pedra pomes prós calos? E bandas de cera prás pernas? Os homens descoloram os pêlos do nariz, e das orelhas, e do bigode? Eu tenho pra mim que a gente sozinhas transformámos a China na segunda maior economia mundial, de tanto cangalho que a gente trazemos para casa lá das lojas deles. Eu contra mim falo, que às vezes vou lá comprar umas molas prá roupa, ou uma colher de pau, ou um alguidar para pôr o bacalhau de molho, salvo seja, e venho de lá carregada com uma estátua de Nossa Senhora de Fátima em tamanho real e um escadote pequenino para tirar a maior da chaminé, que virado ao contrário é uma caixa de costura. O dinheiro faz falta ao país, e em passando por as nossas mãos, é tudo mais para queimar. Já os homens, volta tudo pró Estado, no IVA dos cigarros, da cerveja e da Spór TV. Mas a gente sermos estragadas é só o primeiro problema, porque há mais. Em aumentando o salário às mulheres, a gente damos cabo da produtividade do país. Por exemplos, em acertando os salários para serem iguais aos dos homens, sempre sobra mais algum para comprar lã. E deixamos a gente de fazer camisolas e passamos a fazer tapetes de Arraiolos, que é um chupador de lã. E depois entramos numa repartição qualquer e a boa da mulher, em vez de demorar dez minutos a pousar as agulhas para nos vir atender, é mais meia hora para acabar a franja. Parece que não pensam nessas coisas. E aquela meia horinha de almoço que a gente aproveitamos para dar um salto a um centro comercial e vermos as montras, passam a ser duas horas perdidas nas filas para pagar mais um sutiã daqueles que puxam o peito para cima, ou uma tinta acobreada para o cabelo, ou um trem de cozinha com acabamentos a ouro de vinte e quatro quilates. Daqueles que ainda oferecem quatro frigideiras em vitrocerâmica temperada, daquela que não agarra nada. Para depois em casa, corrermos o marido e os filhos a arroz com atum. Mal empregado dinheiro. E por falar em filhos, se as mulheres deixarem de receber menos vinte porcento que os homens para fazerem o mesmíssimo trabalho, qualquer dia já compensa uma mulher ir trabalhar, em vez de ficar em casa. E as mulheres, em trabalhando, começam a meter lá umas ideias na cabeça e depois vêm os divórcios, e depois os filhos drogados, e depois os filhos homossexuais e por aí fora. Ou às vezes pior, os filhos drogados e homossexuais. É isto que ainda há-de acabar com a civilização da gente, escrevam o que eu digo. Outra coisa que isto pode trazer de muito mau é que, com salários exactamente iguais aos dos homens para trabalhos exactamente iguais, as mulheres começam a ter a mania e vão de comprar o seu carrinho,
106 em vez que irem, como pertence, sentadas ao lado do marido. Ora, como as mulheres a conduzir é o desastre que se sabe, a gente se não morremos de uma coisa, morremos da outra. Mas como eu não gosto de ser negativa, acabo com uma luz ao fundo do túnel: dei uma guglada (que é assim que se diz procurar na internet) e estive a ler uns estudos sobre outros países que já caíram nesta esparrela. Parece que estas legislações, apesar das intenções, não chegam para acabar mesmo com o fosso salarial, como eles dizem, entre os homens e as mulheres. Isto, entre outras coisas, porque as mulheres continuam a ser discriminadas lá nos empregos delas, a ter menos hipóteses de serem promovidas e a serem vistas como muito agressivas quando tentam conseguir um aumento de salário, o que as desmotiva a falarem com os chefes sobre estes assuntos. Por isso, nem tudo está perdido. Dizem eles que, mais importante que a legislação, é mudar as mentalidades. Mas para isso, cá estamos nós. Para não deixar mudar, vá. E prontos, gostei muito deste bocadinho, e agora vou voltar pra de roda do ferro. Felizmente que o meu passa tudo num instante, que tem sete caldeiras, nove saídas de vapor, e um bico prá frente, um bico pra trás, um bico prá esquerda e um bico prá direita. Comprei na TV Shop, noventa contos na moeda antiga, e ainda me mandaram uma bíblia ilustrada. É que eu, Deus me perdoe, mas como sou mulher, não tenho nada na cabeça. Com licença. A Porteira (2019). As mulheres, os salários iguais e o fim do mundo em cuecas. Sábado . Consultado em setembro 28, 2019, em https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/a-porteira/detalhe/asmulheres-os-salarios-iguais-e-o-fim-do-mundo-em-cuecas
107 ANEXO VII – A VIAGEM À CHINA Meu Deus o que eu teria gostado de, aos cinco anos, viajar à China com o meu pai. Ou sozinho. O problema é que não conheço muito bem o caminho, não estou certo se para a China se vira antes ou depois do Marquês de Pombal, se é necessário passar pelo Areeiro, se há uma seta nos Olivais com a palavra China por baixo O actor João Villaret, de quem gostava muito porque dizia poemas lindos e eu adoro ouvir versos, começo logo a levitar, feliz, de olhos fechados, todo eu só um sorriso maior que a minha boca, o actor João Villaret, que já agora bem podia repetir, só para mim, a Toada de Portalegre, de José Régio, contou uma vez (ou duas, já não me lembro) uma história acerca de um filho do escritor D. João da Câmara, chamado Tomázinho, que só trazia problemas aos pais. Tinha cinco ou seis anos e passava o tempo a fugir de casa. (Isto, julgo eu, no princípio do século vinte.) Uma ocasião foi até à Amadora, outra ocasião até Vila Franca, às vezes demorava mais de um dia a ser encontrado e D. João da Câmara e o resto da família preocupadíssimos. Até que o Tomázinho exagerou: descobriram-no perto de Vendas Novas ou isso, após um tempão de angústias e aflições, e D. João da Câmara, que devia ser uma pessoa muito compreensiva e muito complacente, decidiu tomar uma atitude firme: Chamou o filho para uma conversa séria e disselhe, mais ou menos, Tomázinho, nós gostamos todos tanto de ti e tu estás sempre a ires-te embora, não calculas as preocupações que nos dás, não tens o direito de nos fazer sofrer assim, todos te tratamos bem cá em casa, queremos que sejas feliz conosco, o que se passa contigo? Seguiu-se um silêncio interminável até o Tomázinho se explicar – Pai, é que eu quero tanto ir à China. E então, contava João Villaret, D. João da Câmara ficou que tempos em silêncio a olhar o menino à sua frente, que o olhava também. Deve ter sido uma das pausas mais compridas que já houve no mundo, até que D. João da Câmara se levantou da cadeira, colocou a mão no ombro do filho e disse-lhe – Olha, da próxima vez que te apetecer ir à China diz-me, que eu talvez vá contigo. Esta história, que eu ouvi há muitos anos, nunca mais me deixou. Meu Deus o que eu teria gostado de, aos cinco anos, viajar à China com o meu pai. Ou sozinho. O problema é que não conheço muito bem o caminho, não estou certo se para a China se vira antes ou depois do Marquês de Pombal, se é necessário passar pelo Areeiro, se há uma seta nos Olivais com a palavra China por baixo, se algum ramal do metro nos conduz até lá. Não conheço nenhum mapa que nos ajude, esses aparelhos com uma voz que explica tudo calam-se acerca do assunto, parece que o mundo inteiro anda a esconder a China de mim. Parece
108 não, é verdade: o mundo inteiro anda a esconder a China de mim. Qual o motivo de me quererem impedir de a visitar, qual o motivo de me proibirem? Nem em casa existe, como existe em todas as outras, um prato de sopa com chineses risonhos impressos, búfalos num arrozal, raparigas de olhos oblíquos, pontezinhas delicadas sobre riachos com juncos? Porque não tenho, no bengaleiro, chapéus cónicos de palha? Quando era miúdo havia sempre chineses a venderem gravatas em Lisboa, sorrindo para toda a gente, sorrindo inclusive, às vezes, para mim. Que é deles? Além disso os chineses não morrem, não sei de uma só criatura no mundo que confesse haver assistido ao enterro de um chinês e portanto são eternos. Onde estão eles que nem debaixo da cama ou no cesto da roupa para lavar encontro um? O Tomázinho tê-los-á descoberto em Vila Franca ou em Vendas Novas e guardado o segredo para ele só? Conheço alguns chineses de nome, Confúcio, Mao Tse Tung, mas nunca me cruzei com eles. Tive uma colega chinesa na Faculdade, chamava-se Raquel, mas desapareceu de súbito no fim do curso e não tornei a vê-la. Até nos dávamos bem porque ela, de vez em quando, me sorria de longe. O que te aconteceu Raquel, tens algum contacto com os búfalos nos arrozais? Com o sol da meia noite? Com a Grande Muralha? Mas sobretudo indica-me o que posso fazer para ir à China, porque tem de existir um atalho, uma solução, um caminho. Que pena João Villaret haver desaparecido: se ainda por aí estivesse, e como sabia tão bem a história do Tomázinho, ensinava-me tudo acerca da China e até pode ser que me acompanhasse recitando ao meu lado a Toada de Portalegre. Era da maneira que matava dois coelhos de uma cajadada e com sorte, já agora, o Tomázinho acompanhar-me-ia a Pequim. Lobo Antunes, A. (2018). A viagem à China. Visão . Consultado em setembro 27, 2019, em http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_antonioloboantunes/2018-10-31-A-viagem-aChina?fbclid=IwAR0tTFN5coLwYB3F8aa7NvlUMouAvl2wf40Wzq4meI8fjbrhLZ53wYCwvHE
109 ANEXO VIII – NÃO HÁ FATOS ITALIANOS BARATOS É incrível como os chineses compraram metade de Portugal e continuam a viver discretamente, sempre em família – Há uma coisa que eu admiro no chinês. – Qual chinês? – O chinês em geral, o povo. – Eu acho-os bué estranhos. Sempre a trabalhar, sempre sisudos, não pagam um copo a ninguém. – Por isso são ricos. Achas que se o Belmiro de Azevedo andasse a pagar imperiais aos amigos de Marco de Canaveses tinha chegado a dono do Continente? – Pois... – É incrível como os chineses compraram metade de Portugal e continuam a viver discretamente, sempre em família. – O Dono Disto Tudo também repartia o dinheiro com a família. – Não compares. Bastava olhar para ele para perceber que gastava fortunas em fatos. Já a roupa dos chineses, como sabes, é baratíssima! – Realmente. – Mais: ao contrário dos portugueses, que só pensam em vivendas, encaixas cinco famílias de chineses num T3, na boa. Já viste o dinheiro que se poupa em rendas? – Foi o que tramou o engenheiro. – Qual engenheiro? – O Sócrates! Foi por causa de querer poupar dinheiro na renda, aceitando a casa do amigo, em Paris, que se meteu em sarilhos. Devia ter continuado a viver com a mãe. – Não, o problema do Sócrates é que só usava fatos italianos e comia em restaurantes franceses. Ninguém enriquece assim. – Achas? Garcia, D. (2015) Não há fatos italianos baratos. Sábado . Consultado em setembro 28, 2019, em https://www.sabado.pt/opiniao/cronistas/dulce-garcia/detalhe/nao-ha-fatos-italianos-baratos
110 ANEXO IX – ELECTRICIDADE COMPRADA NO CHINÊS A EDP é uma espécie de loja dos 300 da electricidade. Só que é dos 300 milhões Vamos imaginar que a dona Arminda vende flores. É uma ocupação bem digna e respeitável, quer para a dona Arminda, quer para outra dona qualquer. Vem o furacão Leslie e destrói o furgão da dona Arminda. No dia seguinte, os clientes perguntam: “A como são as rosas, dona Arminda?” Diz ela: “Cem euros cada uma, para eu comprar outro furgão.” O mais provável é que as pessoas se riam da dona Arminda. Em princípio vão comprar as rosas à banca do lado, cujo proprietário não ficou sem o furgão, ou tinha o furgão no seguro. É possível que o caso dê notícia (“Rosas valem mais que caviar? Esta feirante acha que sim”) e sirva de tema aos comentadores dos jornais. Mais uma prova da falta de iniciativa do povo português, da sua incapacidade de fazer face a um mercado competitivo, isto é tudo uma cambada que só quer andar pendurada no Estado à caça do subsidiozinho, e tal. Agora vamos imaginar que a dona EDP vende electricidade. Ou melhor, não precisamos de imaginar. De acordo com os jornais, a classificação do Leslie como “evento excepcional” fará com que a EDP não tenha de compensar os consumidores pela quebra do serviço. Além disso, a lei prevê que sejam os consumidores a pagar à EDP os prejuízos provocados pelo furacão. A não ser que seja o Governo a pagar, o que vai dar mais ao menos ao mesmo. Neste caso, os consumidores não riem da dona EDP. Primeiro, porque têm mais vontade de chorar. Segundo, porque não é muito evidente que possam ir comprar electricidade à banca do lado. A diferença entre os donos da EDP e a dona Arminda é que os primeiros usam gravata, pelo que se vê logo que são grandes empresários. Não se penduram no Estado, fazem negócios em que o lucro é sempre deles e o prejuízo é sempre nosso – o que é muito, muito diferente. Não são como esses calões incapazes de competir no mercado, como a dona Arminda. Incrivelmente, o consumidor ainda não tem de ir trabalhar de graça nas obras das barragens. Talvez isso possa ser contemplado num próximo contrato ainda mais competitivo. É preciso ter azar. As coisas que compramos aos chineses costumam ser baratas. A electricidade logo tinha de ir parar às mãos dos únicos chineses careiros. A EDP é uma espécie de loja dos 300 da electricidade. Só que é dos 300 milhões. Araújo Pereira, R. (2018). Electricidade comprada no chinês. Visão . Consultado em setembro 26, 2019, em http://visao.sapo.pt/opiniao/ricardo-araujo-pereira/2018-10-25-Electricidade-comprada-nochines
111 ANEXO X – NAMORADAS, AMIGOS E PUNS. ENFIM… O ESSENCIAL DA VIDA "Assim que [um gajo] começa a namorar… desaparece do sistema solar, parece que emigrou para um templo budista nas montanhas do Tibete ou foi raptado por um gang de chineses para lhe extraírem um rim, ninguém lhe põe a vista em cima" - Estou sim, Beto? Estás bom? Olha lá estou a ligar-te pelo seguinte, há aqui uma questão que me está a fazer um bocado de espécie. - Então diz lá… - Já reparaste que uma pessoa quando começa a namorar, deixa de ter amigos. - Oh primo, tu não estás melhor da punhada da cabeça pois não? - Pensa lá bem nisto, quando um gajo é solteiro, bebe umas minis com a malta, vê jogos da bola com a malta, fala de miúdas com a malta, bebe mais "minis" com a malta, vê mais uns jogos da bola com a malta, fala de mais umas miúdas com a malta, enfim o quotidiano normal de um tipo que se preocupa com as andanças dos dias, mas assim que começa a namorar… desaparece do sistema solar, parece que emigrou para um templo budista nas montanhas do Tibete ou foi raptado por um gang de chineses para lhe extraírem um rim, ninguém lhe põe a vista em cima. - João, eu vou-te explicar uma coisa que tu já sabes, então um gajo assim que se apanha a namorar tem de pôr o conta quilómetros da marreta a funcionar. Nessas alturas a ferramenta está sempre pronta para a batalha, é de manhã, antes do almoço, depois do almoço, às vezes até durante o almoço, à tarde, à noite, até de madrugada quando abres os olhos nos intervalos do sono dás por ti enrolado na tua mais que tudo a fazer suar as pedras da calçada, e isto dá uma trabalheira desgraçada primo, uma pessoa não tem tempo para mais nada, a vida passa a ser o respirar fundo até à próxima trancada que tu sabes que vai ser já dali a pouco. Uma pessoa tem lá tempo para os amigos… um gajo sente-se daqueles actores pornográficos que estão sempre de pistola apontada ao alvo… e depois queremos experimentar coisas novas, fazer valer a nossa imaginação porque a sacana vida não dura para sempre… na cama, na casa de banho, nas escadas, na bancada da cozinha, de encontro ao frigorífico com morangos e um pacote de leite como naquela cena do filme com a Kim Basinger e o outro que agora está com a cara feita num bolo, sabes? Aquilo foram nove semanas e meia de tiro ao boneco, atenção! Não é pêra doce!… e depois ainda há o mundo para explorar… dentro do carro, em cima do carro, até debaixo do carro a coisa se faz, no tractor, na fazenda, à ida para a praia, na praia, à volta da praia, ao pôr do sol, ao nascer da lua, …eh pá é um trinta e um do caraças… anda-se sempre como uma bisnaga da Halibut no bolso
112 para tratar as mazelas da guerra… por isso, os amigos que esperem que um gajo primeiro tem de ser feliz. - Mas o namoro também tem um lado negativo… (interrompendo) - Ah pois tem, ah pois tem! Tu já reparaste que quando se começa a namorar ninguém manda um pum? Nem pum nem cocó… nada… quer o homem, quer a mulher andam ali os dois parece que lhes cozeram o cu… é só amor, jantares e idas ao cinema. Mas um gajo tem de obrar, ora que gaita! Tu entras na casa de banho e a tua amada está do outro lado da porta, ela sabe que tu vais sentar-te no trono porque alguma vez teria de ser, mas tu não queres que ela saiba, tu queres que ela pense em ti como uma máquina de sexo infernal e não uma empilhadora de estrume de calças arreadas, portanto o que é que tu fazes? Arranjas truques…ligas todas as torneiras da casa de banho para abafar o som enquanto te pões a cantar uma musiqueta do Tony Carreira para ela pensar que tu és um tipo romântico mesmo quando uma saraivada de bujardas vão sendo disparadas pela retaguarda do corpo. E por fim tens de lidar com o cheiro que fica na casa de banho… aquele fedor de bicho morto que acabou de sair de dentro dos teus entupimentos, fosga-se, já estive em fábricas de ração com melhor cheiro do que aquele que se instalou naquela casa de banho dos infernos, parece que cagaste um defunto ou o diabo… solução? Sprays a monte… ele é desodorizante Axe, ele é ambientador com cheiro a pinheiros, ele é mata moscas Raid Casa e Plantas, tudo à molhada para disfarçar o insuportável cheiro a merda que tu sabes que vai demorar a desaparecer. E a tua miúda mesmo ali ao lado… resultado? Abres a porta, e imediatamente o cheiro de quem foi cagar ao pinhal inundado de desodorizante rasca ocupa metade da casa. E ela sabe o que tu andaste a fazer, ela sabe... mas escolhe ignorar, e esse ignorar caro primo, também é amor. Santos, J.P. (2016). Namoradas, amigos e puns. Enfim… o essencial da vida. Sábado . Consultado em setembro 28, 2019, em https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/joao-pedrosantos/detalhe/namoradas-amigos-e-puns-enfim-o-essencial-da-vida