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CSA: um programa de agroecologia em Portugal e seus códigos culturais

Sotilo, Caroline; Luderer, Cynthia

Abstract

This paper addresses an alternative agricultural movement in Portugal, the CSA (Community Sustaining Agriculture), driven by the Montado do Freixo do Meio (MFM), a large agricultural and service structure, located in the Alentejo. This paper addresses an alternative agricultural movement in Portugal, the CSA (Community Sustaining Agriculture), driven by the Montado do Freixo do Meio (MFM), a large agricultural and service structure, located in the Alentejo. In order to examine the cultural codes promoted in this program, this study relied on the Semiotics of Culture to analyse the cultural repertoire of this entity. A field study and the analyses of the narratives expressed in a leaflet, which publicizes this CSA, were part of the methodological exercise. It was found that the cultural text of this community is endorsed by speeches that strengthen it in the condition of support for a social tribe, moved by the consonance of some principles, especially that of Agroecology. The analysis confirms that the folder assumes an alternative language that provokes the consumer to think about their food consumption model, in relation to those dictated by the conventional market, which is seen by the group as the Other.

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36 CSA: um programa de agroecologia em Portugal e seus códigos culturais* CSA: An Agroecology Program in Portugal and its Cultural Codes ARC: un programa de agroecología en Portugal y sus códigos culturales Caroline Sotilo e Cynthia Luderer1 Resumo Abordamos um movimento agrícola alternativo em Portugal, a CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura), movido pelo Montado do Freixo do Meio (MFM), uma ampla estrutura agrícola e de serviços, localizada no Alentejo. Com o objetivo de examinar os códigos culturais promovidos nesse programa, este estudo se apoiou na Semiótica da Cultura para analisar o repertório cultural dessa entidade. Um estudo de campo e as análises das narrativas expressas em um desdobrável, que divulga essa CSA, fez parte do exercício metodológico. Conferiu-se que o texto cultural dessa comunidade é endossado por discursos que a fortalece na condição de um apoio para uma tribo social, movida pela consonância de alguns princípios, destacando-se o da agroecologia. Na análise se confere que o folder assume uma linguagem alternativa que provoca o consumidor a pensar sobre seu modelo de consumo alimentar, em relação aos ditados no mercado convencional, que é visto pelo grupo como o Outro. Palavras-chave: ciências ambientais, semiótica, comunicação, ecologia, cultura. Abstract This paper addresses an alternative agricultural movement in Portugal, the CSA (Community Sustaining Agriculture), driven by the Montado do Freixo do Meio (MFM), a large agricultural and service structure, located in the Alentejo.This paper addresses an alternative agricultural movement in Portugal, the CSA (Community Sustaining Agriculture), driven by the Montado do Freixo do Meio (MFM), a large agricultural and service structure, located in the Alentejo. In order to examine the cultural codes promoted in this program, this study relied on the Semiotics of Culture to analyse the cultural repertoire of this entity. A field study and the analyses of the narratives expressed in a leaflet, which publicizes this CSA, were part of the methodological exercise. It was found that the cultural text of this community is endorsed by speeches that strengthen it in the condition of a support for a social tribe, moved by the consonance of some principles, especially that of Agroecology. The analysis confirms that the folder assumes an alternative language that provokes the consumer to think about their food consumption model, in relation to those dictated by the conventional market, which is seen by the group as the Other. Keywords: environmental sciences, semiotics, communication, ecology, culture. 1 Caroline Sotilo: Escola Superior de Propaganda e Marketing, São Paulo, Brasil, ORCID 0000-0003-4998-0663, [email protected]; Cynthia Luderer: Universidade do Minho, Braga, Portugal, ORCID 0000-0001-5149-669X, [email protected] Vol. 9, nº 26, 36-54, mayo 2022 | ISSN 0719-4994 Artículo de investigación https://doi.org/10.35588/rivar.v9i26.5516 R I V A R 37 RIVAR | INSTITUTO DE ESTUDIOS AVANZADOS | UNIVERSIDAD DE SANTIAGO DE CHILE CSA: um programa de agroecologia em Portugal e seus códigos culturais Caroline Sotilo e Cynthia Luderer Resumen Abordamos un movimiento agrícola alternativo en Portugal, el ARC (Agricultura de Responsabilidad Compartida), impulsado por el Montado do Freixo do Meio (MFM), una gran estructura agrícola y de servicios ubicada en el Alentejo. Con el objetivo de examinar los códigos culturales promovidos en dicho programa, el presente estudio se basó en la Semiótica de la Cultura para analizar el repertorio cultural de esta entidad. Un estudio de campo y análisis de las narrativas expresadas en un tríptico, que difunde este ARC, fue parte del ejercicio metodológico. Constatamos que el texto cultural de esta comunidad está respaldado por discursos que la fortalecen en tanto apoyan a una tribu social, movida por la consonancia de ciertos principios, destacándose el de la agroecología. El análisis confirma que el tríptico asume un lenguaje alternativo que invita al consumidor a pensar en su modelo de consumo de alimentos en relación a aquellos dictados por el mercado convencional, que es visto por el grupo como el Otro. Palavras clave: ciencias ambientales, semiótica, comunicación, ecología, cultura. Recibido: 11/12/2021 · AceptAdo: 01/04/2022 · publicAdo: 30/05/2022 Introdução Os 17 Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 (UN, 2015) expressam o complexo vínculo que é mantido entre a alimentação, a saúde e o meio ambiente e se estende a outras questões, agregadas à sustentabilidade do planeta e da própria condição de sobrevida humana. Essa trama se exprime por meio de diferentes suportes comunicacionais, desde guias alimentares vinculados a programas de saúde pública (FAO, 2021) ou propostas científicas, que defendem modelos de dietas alimentares sustentáveis (Willett et al., 2019). Há diversos suportes comunicacionais que podem ser analisados com vista a compreender o complexo papel que ocupa a alimentação no contexto social, assim como ratificar a máxima grifada por Montanari (2008) da “comida como cultura”. Este estudo se apoia nessas premissas e para discorrê-las; assim, este trabalho tem o propósito de examinar os códigos culturais relacionados ao movimento agrícola CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura). Ativo em diversos continentes, esse modelo de produção e distribuição alimentar alternativo tem a agroecologia como um de seus pilares e, com o apoio das ciências da comunicação, buscou-se responder aqui: Como os códigos culturais usados por uma CSA portuguesa expressam os princípios desse movimento? A CSA é originária dos Estados Unidos (Community Supported Agriculture), mas seu paradigma de produção remete aos anos de 1960, no Japão, onde é nomeado como Teikei; e na França ele se apresenta sob a sigla AMAP (Associations Pour le Maintien d’une Agriculture Paysanne) (Kondoh, 2015). Em Portugal há sete programas designados como AMAP 1 (Associação pela Manutenção da Agricultura de Proximidade) e uma CSA, todos consonantes pelos mesmos princípios. Há outras associações que seguem propósitos semelhantes nesse país, mas levam outras designações e princípios (Firmino, 2018). 1 Denominada como “Montanhas Mágicas”, a oitava AMAP se organizou no segundo semestre de 2021, e está situada na região norte, em Castelo de Paiva. 38 RIVAR | INSTITUTO DE ESTUDIOS AVANZADOS | UNIVERSIDAD DE SANTIAGO DE CHILE CSA: um programa de agroecologia em Portugal e seus códigos culturais Caroline Sotilo e Cynthia Luderer Os fundamentos desse movimento são apresentados em diferentes veículos comunicacionais em Portugal, mas encontrou-se em um desdobrável características relevantes para perseguir as respostas almejadas para este estudo exploratório (Figura 1). Esse suporte impresso foi colhido no ambiente da sede da CSA portuguesa, quando ocorreu o Encontro da Bolota, em 14 de novembro de 2021 (Figura 2). Figura 1. Reprodução da capa do folheto desdobrável CSA Freixo do Meio Figure 1. Reproduction of the fold-out leaflet cover CSA Freixo do Meio Fonte: acervo dos autores. Source: authors’ collection. Figura 2. Divulgação Encontro da Bolota Figure 2. Encontro da Bolota disclosure Fonte/source: https://www.radiocampanario.com/ultimas/regional/herdadedo-freixo-do-meio-vai-ser-palco-do-encontro-do-outono-e-da-bolota 39 RIVAR | INSTITUTO DE ESTUDIOS AVANZADOS | UNIVERSIDAD DE SANTIAGO DE CHILE CSA: um programa de agroecologia em Portugal e seus códigos culturais Caroline Sotilo e Cynthia Luderer Com o apoio de Beth e Pross (1987), pode-se inferir que esse corpus se apresenta como parte da categoria secundária nas mídias, pois o enunciador transmite sua mensagem por um suporte material, sem o apoio de meios eletrônicos, como acontece na categoria terciária, a qual o enunciador e o enunciatário necessitam de aparelhos para conferir uma mensagem. A princípio, a categoria secundária pode ser ativada sem a primária, a do contato elementar entre corpos humanos, no entanto enfatiza-se que ela foi acionada na captação desse folheto, pois houve uma interação no processo da seleção desse material. Isso ocorreu no exercício em campo, quando houve o intercâmbio com os agentes locais, que fez parte do processo metodológico deste trabalho. A linha teórica e metodológica da Semiótica da Cultura deu o aporte para este estudo, uma lente que permite conferir as nuances culturais que enredam um texto-um conceito aqui aplicado, conforme o semioticista Lotman, como “um complexo dispositivo, que guarda variados códigos, capaz de transformar as mensagens recebidas e gerar novas mensagens” (Lotman, 1996: 56). A temporalidade também é importante para perceber e compreender um texto cultural, o seu encadeamento, a ordenação e a hierarquização dos signos, que escapam de cumprir uma ordem linear (Baitelo, 1997). Com esse recurso, vinculado ao campo da linguagem, foi possível aferir sobre os conceitos vinculados à CSA elencada neste trabalho, assim como perceber os seus ecos discursivos, por meio da interação e associações dos códigos comunicacionais, elencados em um de seus suportes de comunicação, o folder aqui analisado, que interage como parte de um grande texto cultural. Os princípios de uma CSA Uma carta de princípios, assinada em 15 de dezembro de 2018 e divulgada na página web da AMAP portuguesa, indica os compromissos que devem seguir uma AMAP ou uma CSA no espaço luso. Por explicitar os três fundamentos orientadores mantidos por esses grupos, esse documento merece atenção. A agroecologia é o primeiro princípio e essa prática é defendida como um sistema “que considera a produção alimentar humana, como parte integrante de um ecossistema incluindo os seres humanos como contribuidores para o equilíbrio do mesmo” (AMAP/ CSA, 2018), criando a possibilidade de unificar a agronomia e a ecologia para promover um ecossistema perdurável. O sistema convencional é tratado como nocivo, ao manter o uso de biocidas e fertilizantes de síntese química, gerando problemas para a saúde humana e para a biodiversidade. Os dois perfis de agricultura ditados são explicitados por um discurso antagônico e esse enredo se ampara em justificativas vinculadas a um órgão público relevante, as Nações Unidas, uma fonte que sensibiliza o leitor para se sentir confiante. Com esse apoio se alega que, por meio da agroecologia, é possível alimentar o mundo em 2050 com 9 bilhões de habitantes. A narrativa endossa a qualidade da agroecologia e a explicita como fundamental como um meio “para conseguir o direito a alimentação saudável para todos, a segurança alimentar e a soberania alimentar e o respeito aos ecossistemas naturais” (AMAP/CSA, 2018). 40 RIVAR | INSTITUTO DE ESTUDIOS AVANZADOS | UNIVERSIDAD DE SANTIAGO DE CHILE CSA: um programa de agroecologia em Portugal e seus códigos culturais Caroline Sotilo e Cynthia Luderer O segundo princípio, introduzido em 2015 a nível global entre as AMAP, trata a relação de escala humana. Se reitera que os produtos químicos aplicados na agricultura sejam nocivos por terem contribuído para ampliar as explorações agrícolas e reduzir drasticamente o uso de mão de obra dos trabalhadores rurais, relacionando o consequente êxito desses agentes do campo. A agroecologia insere-se no enredo como meio para reativar a estrutura da escala humana e da agricultura familiar, sendo enveredada como meio a favor da biodiversidade e do ecossistema. Também é reverenciada por incentivar a construção de um elo entre os consumidores e produtores, contrapondo às grandes escalas produtivas e especulações vigentes nos mercados mundiais voltados aos produtos agrícolas. Reza-se na narrativa que, por meio da escala humana, se defende uma economia solidária e de convivialidade, com maior atividade produtiva. O argumento encerra com a seguinte ênfase: “as AMAP/CSA terão de ser obviamente constituídas sem intervenção de agentes intermediários”, promovendo uma relação de proximidade e de partilha. Por fim, o 3º Princípio trata a alimentação como bem-comum, enfatizando que “a alimentação é um acto cultural, um bem comum, e não uma mercadoria” (AMAP/CSA, 2018). Nesse ponto se constrói uma narrativa que salienta a alimentação saudável como um direito para todos, pois trata-se de algo relacionado à própria vida. O leitor é convocado a ocupar um papel de co-responsabilidade, um significante salientado ao se referir à produção, à distribuição e ao consumo alimentar, assim como à necessidade de evitar o desperdício. Após esses argumentos, a carta explicita o reconhecimento de que o modelo proposto é radicalmente diferente do cotidiano, no entanto, que esse ponto de vista é justificado diante o que se vislumbra no movimento AMAP/CSA: “assegurar o direito à alimentação saudável para todos e a soberania alimentar” a nível global. Esses princípios, que se apresentam como um índice dos conceitos da agroecologia, indicam um pertinente diálogo com a Agenda 2030 (UN, 2015), mais precisamente, com o segundo objetivo dessa carta: “Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável” (UN, 2015). Além de ser destacado como o primeiro princípio da carta, a agroecologia se sobressai nos outros dois, pois é alinhado na dinâmica da carta por seus valores positivos diante o Outro, ou seja, o antagônico, o diferente, o que é nomeado como sistema convencional, e utiliza os químicos, sendo vinculado a um mercado produtivo que impõe aos alimentos uma condição como mercadoria. O documento está apoiado no confronto desses dois valores, opostos, criando-se um jogo de persuasão, amparado no discurso do binômio, de contraste, que indica o que é bom — a agroecologia e a produção familiar — e o que é mau — o sistema convencional mantido por um mercado. Essa ênfase binária induz a uma redução da complexidade que vibra em torno da agricultura, um texto cultural que guarda variados códigos. No entanto, diferente desse embate com perspectiva dual, a agroecologia reserva características abraçadas pela complexidade que são reconhecidas pelos agentes das AMAP/CSA. Os argumentos relacionados a esse modelo de produção agrícola expressam esse teor pela FAO (2018), um suporte bibliográfico dos agentes que lideram o movimento AMAP/CSA em Portugal. Nesse documento a agroecologia é exibida como um modelo para transformar o sistema agrícola nos países, defendendo-a como sustentável e como uma ferramenta para 41 RIVAR | INSTITUTO DE ESTUDIOS AVANZADOS | UNIVERSIDAD DE SANTIAGO DE CHILE CSA: um programa de agroecologia em Portugal e seus códigos culturais Caroline Sotilo e Cynthia Luderer atender os ODS demandados pela Agenda 2030 (UN, 2015). Os significantes elencados nos dez elementos ali expressos elucidam a complexidade vigente: diversidade; co-criação e compartilhamento de conhecimentos; sinergias; eficiência; reciclar; resiliência; ser humano e valores sociais; cultura e tradições alimentares; governança; economia circular e solidária. Em relação à agroecologia, os conceitos e as perspectivas vistas na Carta de Princípios desse movimento mostram-se em consonância com o exposto por Altieri, quem trata a agroecologia com uma abordagem que “integra os princípios agronômicos, ecológicos e socioeconômicos” (Altieri, 2004: 23). O autor ainda destaca que, para além da “saúde ecológica”, o objetivo da agroecologia é a preservação da diversidade cultural que nutre as agriculturas locais (o estudo da etnociência). Por sua vez, Caoporal e Costabeber (2000) enfatizam o papel holístico dessa ciência e endossam o que diz a carta sobre a figura do Outro, pois, discorrem que diferente da visão estratégica e sistêmica da agroecologia, o modelo convencional apresenta-se como forças produtivas que estancam e expoliam a natureza e a sociedade. Para esses autores, a agroecologia se aproxima dos conhecimentos culturais e ecológicos e, portanto, se afasta desse Outro, que apoia o modelo agroquímico. CSA portuguesa: uma gestão coletiva Os oito grupos portugueses vinculados ao movimento AMAP/CSA em Portugal são guiados por essa mesma Carta de Princípios, portanto, se orientam por manter a agroecologia como uma bandeira, a produção de alimentos em uma escala humana e com vistas a eliminar os intermediários, além de valorizar os alimentos como um bem-comum, desenvolvendo um exercício que distancie os alimentos de uma condição de mercadoria. Além da carta, outro ponto que os une é o apoio de uma estrutura criada em 2018, a Rede Regenerar (Rede Portuguesa de Agroecologia Solidária), que mantém a missão de divulgar e promover os princípios das AMAP/CSA, além de estimular o crescimento da economia solidária. Produtores, co-produtores — termo criado e usado no movimento para tratar os consumidores que se afiliam e assumem os riscos e os benefícios das colheitas com os agricultores —, e ainda voluntários, formam o coletivo de agentes da Regenerar, e se incumbem das rotinas e ações para ajudar a gerir e promover o movimento no país. Ainda que a Regenerar os una e ofereça esse apoio, cada grupo segue a sua própria dinâmica em sua gestão, pois cada um mantém a sua própria rotina no tocante aos acordos traçados entre os produtores e seus co-produtores. Com isso, os custos, as variedades e quantidades de produtos, ou os períodos e locais para a distribuição de cabazes, rezam de acordo com os contratos que vigoram entre essas duas partes. No entanto, se confere muitos pontos em comum entre os grupos em relação a essa dinâmica. A antecipação das taxas pagas pelos co-produtores ao agricultor apresenta-se como um ponto comum nas AMAP/CSA, mas cada grupo mantém o seu valor, assim como seus prazos, que podem ser de um trimestre ou mais para o adiantamento. Há mais-valias nesse processo: por parte do agricultor, ele garante o investimento para a sua produção e evita o desperdício, pois produzirá de acordo com os co-produtores que aderem ao 42 RIVAR | INSTITUTO DE ESTUDIOS AVANZADOS | UNIVERSIDAD DE SANTIAGO DE CHILE CSA: um programa de agroecologia em Portugal e seus códigos culturais Caroline Sotilo e Cynthia Luderer programa. Por parte dos co-produtores, eles se asseguram de ter a distribuição direta de produtos frescos e sazonais, livres de agrotóxicos, por um preço mais justo, podendo escolher uma rotina de recolha semanal ou quinzenal. Quanto ao processo das entregas, o agricultor mantém uma rotina menos atribulada, podendo se dedicar mais ao campo. Se desloca pontualmente para fazer as entregas, seguindo menos vezes na semana em direção a um ponto estratégico, como universidades ou outros sítios parceiros, ficando ali por um par de horas para efetivar o processo de recolha dos cabazes pelos co-produtores. Esses momentos tornam-se oportunos para aproximar os produtores e co-produtores ao redor dos alimentos, sendo uma oportunidade para as pessoas interagirem. Há nessa prática uma dinâmica comunicacional amparada nos corpos, nos gestos e nas vozes, que pulsam a favor de uma relação sem necessidade de aparatos comunicacionais, distinguindo-se do exercício de compras virtuais ou mesmo das praticadas pelos supermercados. Como lembra Barbero, nesses estabelecimentos é mantido um exercício de anonimato e homogeneização, onde se pode entrar e sair sem falar com ninguém, dado que, em relação aos alimentos, “no supermercado só há a informação transmitida pela embalagem ou pela publicidade” (Barbero 2002: 292). Com isso, ao conferir as categorias comunicacionais defendidas por Beth e Pross (1987), pode-se inferir que o exercício do consumo nos supermercados será apoiado na categoria secundária e, no caso de o meio virtual ser acionado, pela categoria terciária, no entanto, a busca dos cabazes in loco cria a oportunidade para os agentes efetivarem seus elos comunicacionais pelos meios primários. Apoiados em Barbero (2002), também se pode inferir que esse repertório da recolha dos alimentos estimula o pertencimento desses agentes como parte de uma tribo urbana, pois há nesse exercício a união de atores que se movem em torno de repertórios estéticos e estilos de vida próprios, diferenciando-se dos demais. Com isso, saem da preponderância homogênea destacada no contexto urbano. A quantidade de co-produtores em cada AMAP/CSA, assim como de seus produtores associados — os que oferecem produtos transformados, frutas, ovos, pães, azeite, entre outros — e os pontos de recolha dos cabazes é bem diferente. Os dados da CSA levam a perceber o seu diferencial perante as sete AMAPs, pois mantém uma estrutura com nove pontos de distribuição de cabazes, atendendo um cento e meio de co-produtores — praticamente, esse número equivale à metade dos co-produtores de todo o movimento no país. A estrutura de base da CSA portuguesa é a Herdade do Freixo do Meio (HFM), mantida em uma área territorial com centenas de hectares,2 incluindo edificações que contribuem para manter uma logística de produção e distribuição bem planejada. Além do movimento CSA, há diversos projetos inseridos nessa estrutura, que contribuem para a HFM ser alvo dos meios de comunicação e ganhar repercussão. No mais, sua localização é bem posicionada estrategicamente, pois está há pouco mais de um cento de quilómetros da capital, Lisboa, o maior centro populacional do país, para onde segue grande parte de sua produção. 2 “A herdade tem 600ha, totalmente em produção biológica, que estão divididos em montado clássico (450ha), conservação (50ha) e área de experiências no campo do montado (100ha)” (Freire, 2020). 43 RIVAR | INSTITUTO DE ESTUDIOS AVANZADOS | UNIVERSIDAD DE SANTIAGO DE CHILE CSA: um programa de agroecologia em Portugal e seus códigos culturais Caroline Sotilo e Cynthia Luderer Alfredo Sendim é o herdeiro dessas terras agrícolas, uma dentre tantas das extensas áreas rurais privadas inseridas na planície alentejana, e que empregam muitas das mãos da população mais pobre. As herdades do Alentejo foram marcadas pelo peculiar momento da Reforma Agrária em Portugal, que ocorreu em 1974, após a Revolução dos Cravos, o acontecimento histórico que pôs fim ao regime da ditadura salazarista no país. Com a Reforma Agrária, cerca de um milhão de hectares foram ocupados e expropriados, criando-se cerca de quinhentas cooperativas de produção agrícola na região do Alentejo, movidas por trabalhadores e sindicalistas (Soeiro, 2013; Barreto, 1983). No entanto, com o processo de democratização no país, as propriedades voltaram às mãos de seus herdeiros e, no caso da HFM, isso ocorreu em 1990. No exercício desenvolvido em campo para este estudo, coube perceber a extensão das herdades e a intervenção agrícola nessa região. Inclusive, as dimensões dessas propriedades apresentam, aproximadamente, oito vezes o tamanho da média do país (Monte Ace, 2007). Também se confere na região a presença do seleto grupo de latifundiários, que, como dito por Cutileiro, é “nitidamente diferenciado, no plano da riqueza, do resto da população” (Cutileiro, 1972: 273), e mantêm propriedades que chegam a ter milhares de hectares. Em relação à paisagem, ainda é formada pelos imensos campos de montado, com sobreiros, azinheiras e olivais e pelas alvejantes casas pintadas de cal, inseridas nos pequenos aglomerados rurais. Também se percebe o comércio, a restauração e a hotelaria, os ramos que têm movido vagas de empregos na região e fortalecem a transformação agroalimentar, assim como as atividades artesãs (Monte Ace, 2007). Inclusive, o conjunto dessas atividades se destacam dentre as propostas da HFM. Na mão inversa desses latifúndios, a HFM leva o propósito de seguir um modelo vinculado ao ecossistema e de uma terra que se voltasse para o bem-comum, gerando postos de trabalho. Inclusive, agregam-se ali diversos programas em torno da ecologia, abandonando o modelo tradicional agrícola industrial e se convertendo em um centro agrícola biológico. Nesse enredo inseriu-se a permacultura como um referencial ético e técnico, assim como a adoção do programa CSA, em 2015, que contribui com 40% da renda da estrutura empresarial criada na HFM, o Montado do Freixo do Meio (MFM), que é movido pela Cooperativa dos Usuários da Herdade do Freixo do Meio (CUHFM), constituída em 2018 e presidida por Sendim. Metodologia A imersão em campo3 que fez parte deste trabalho foi um exercício que permitiu conferir a extensão econômica, social e cultural da HFM e do papel que ocupa em torno do movimento AMAP/CSA em Portugal. No entanto, além dos dez dias de estada nesse ambiente, no início de novembro de 2021, é pertinente mencionar as outras interações que houveram com os agentes vinculados ao movimento em Portugal, por meio de reuniões virtuais, desde outubro de 2020. O acompanhamento de encontros e a participação como voluntária em uma das AMAP também foram pertinentes para perceber o modelo desse programa e vislumbrá-lo como um texto da cultura. 3 Apenas uma das autoras desenvolveu o exercício em campo. 44 RIVAR | INSTITUTO DE ESTUDIOS AVANZADOS | UNIVERSIDAD DE SANTIAGO DE CHILE CSA: um programa de agroecologia em Portugal e seus códigos culturais Caroline Sotilo e Cynthia Luderer A ida ao Alentejo e à HFM possibilitou conferir a paisagem cultural do montado. Mais que ver as oliveiras, observar os produtores que traziam suas colheitas para a produção do azeite no lagar da HFM; conferir o estado que vivem os típicos porcos pretos da região que são ali criados, e o membro da equipe a alimentá-los diariamente; verificar como a cortiça, retirada dos sobreiros da paisagem, contribui para a estética dos ambientes destinados aos turistas; assistir antigas trabalhadoras a calcar as casas e ensinar suas habilidades a uma menina refugiada, ali acolhida durante o processo de legalização; ver o ciclo de agentes que chegam e partem, parceiros e co-produtores, que buscam diferentes serviços ou produtos na loja, onde são destacados uma grande variedade de itens elaborados com bolotas. Além dos imersos na paisagem campesina, os diversos atores organizam e transformam os alimentos que seguem para os co-produtores CSA, ou para outros fins. Eles se inserem nos escritórios, nas cozinhas, na loja, na cantina, no galpão que organiza os vegetais, nas estruturas voltadas para a transformação das carnes, no lagar, junto ao forno de barro onde se assa os pães, entre outros. Ainda há o centro de interpretação, uma pequena escola, assim como três estilos de hospedagens, que acolhem pessoas que chegam ali de diferentes partes do mundo, com diferentes propósitos além do turismo. O dinamismo que vibra nas terras da HFM — enfatizadas por seu herdeiro, Alfredo Sendim, como bem-comum — é um palco cultural, no qual se vê as ações dos atores humanos e não humanos. As observações em campo, com as possíveis interações junto aos diferentes agentes que ocupavam seus variados espaços e papeis, e levavam consigo distintos objetos, por vezes evoluíam em sutis intervenções. Essa estratégia metodológica está em comunhão com uma prática defendida por McLaren (1998), na qual o investigador se apropria do papel de um flâneur. Nesse contexto também há de ser levado em conta o acaso, e que levou ao encontro do desdobrável, o objeto recolhido dessa semiosfera, ou seja, retirado dessa cena cultural para ser analisado. Conforme o estudioso da Semiótica da Cultura Iuri Lotman (1996), pelo conceito de semiosfera entende-se um continuum semiótico, no qual se insere diversos códigos culturais de distintos níveis, com diferentes graus de organização. Cada semiosfera possui traços distintos e processos comunicativos com produção de novas informações. Pode-se então inferir que o desdobrável seja um código cultural que se expressa por meio de outros códigos culturais, e na condição de um signo da cultura está presente, na semiosfera da HFM, um ambiente com diversas formações semióticas imersas e em diálogo constante com o espaço e o tempo. Nessa semiosfera, que habitam os signos, há uma interação entre eles, que acontece por meio da semiose, um processo comunicativo entre os signos, interferindo nas novas interações que venham a ocorrer em torno desse objeto. No passo em que o desdobrável, na sua condição sígnica, circula nessa ou em outras semiosferas, haverá o processo da semiose, contribuindo para atualizar seus códigos culturais. Os signos materializados nesse plano gráfico elencado e as observações captadas por meio da passagem pela semiosfera da HFM, ao serem compreendidos sob o manto da complexidade que vibra na cultura (Morin e Pakman, 1994), contribuíram para a compreensão dos repertórios textuais que exprimem o projeto CSA português. Nesse aspecto, o apoio da Semiótica da Cultura é importante, pois é relevante entender o corpus na sua condição de texto da cultura e, mais que isso, entender que o programa CSA divulgado nesse suporte comunicacional está imbuído em um sistema de códigos que abrange o continuum que move a esfera cultural. 51 RIVAR | INSTITUTO DE ESTUDIOS AVANZADOS | UNIVERSIDAD DE SANTIAGO DE CHILE CSA: um programa de agroecologia em Portugal e seus códigos culturais Caroline Sotilo e Cynthia Luderer Figura 5. O folheto aberto pelo lado oposto Figure 5. O folheto aberto pelo lado oposto Fonte: acervo dos autores. Source: authors’ collection. Para não gerar dúvidas ao leitor, segue ainda um texto de apoio no tocante à cena, enfatizando o que já foi narrado na mensagem fotográfica e na legenda, diz: “o que defendemos é uma escolha informada num sistema alimentar de participação colectiva”, e a isso agrega críticas, condenando as compras isoladas e por impulso, sem consciência das consequências (Figura 5). Ainda cabe no parágrafo uma máxima, que as ações involucradas com esse perfil, comprometem “a criação de um sistema alimentar mais verdadeiro e responsável”. Vê-se nesse tom de crítica o discurso de confiança, de que o modelo alimentar mais verdadeiro está na CSA, e não no Outro. Mais: se apoia em uma retórica que convocam aqueles que tem a devida sensibilidade para se unir ao movimento e, desse modo, se inserir nessa tribo. 52 RIVAR | INSTITUTO DE ESTUDIOS AVANZADOS | UNIVERSIDAD DE SANTIAGO DE CHILE CSA: um programa de agroecologia em Portugal e seus códigos culturais Caroline Sotilo e Cynthia Luderer Na sequência dessa fotografia (Figura 5) e devidos apontamentos sobre o exercício da compra consciente, são apresentadas as seguintes perguntas, que destacam pelo uso dos pontos de interrogação no início da frase como se usa na língua espanhola: “¿Sabe de onde vem a sua comida? ¿Quem se responsabiliza? ¿Que consequências tem? ¿E se decidirmos em conjunto?”. O excesso de sinais gráficos acentua o clamor, as questões para convocar e provocar o público a questionar sobre a sua conduta e forma de consumir os alimentos. Na sequência, em tom de conclusão, o enunciador diminui o enaltecido tom de sensibilização direcionado ao leitor, baixa a sua exaltação, retomando os argumentos iniciais, e de modo pedagógico trata sobre os valores e as vantagens do Programa Partilhar as Colheitas. Menos exaltado, reforça os diversos aspectos sobre o programa: “alimento como bem comum”, “o compromisso”, “os preços fixos”, “a solidariedade”, “livres de OGM’s e de radiações”, “sem agrotóxicos”, “alimentos naturais e seguros” e a “história coletiva”. Por fim, dirige-se mais uma vez ao público, convocando-o a participar, “Seja co-produtor e faça parte desta construção!”, mas a mensagem segue pouco destacada, quase em nota de rodapé (Figura 5), e se perdendo por estar na continuidade dos itens expostos anteriores. Em tempo, ainda cabe abordar sobre a contra-capa do folheto, onde se vê a metade da fotografia de um verde campo sob o céu azul anil, com os dizeres “A agroecologia cultiva biodiversidade” (Figura 5). Para um público leigo, essa imagem pode ser vista como um campo a mais, mas para aqueles que já foram afeiçoados pela semiosfera do MFM (re)conhecerá nesse texto “a paisagem de futuro”, mais especificamente, a agrofloresta que Sendim tem tentado semear. Considerações finais Ao examinar a CSA portuguesa por meio da pesquisa em campo e da análise de um folder, foi possível conferir que os três princípios desse movimento fazem parte da semiosfera da HFM. No folder, além de eles serem explícitos verbalmente por tópicos, que tratam a Agroecologia, a Relação Pessoal e a Partilha do Risco, também podem ser identificados pelos códigos culturais. A agroecologia está em consonância com o conjunto de cores no desdobrável, indicando, por suas significações, uma sintonia com os elementos culturais vinculados à natureza. Nesse ínterim destaca-se as imagens da bolota, um elemento textual relevante que enfatiza, por sua representação simbólica, o repertório ecológico presente nessa semiosfera. As imagens fotográficas, com diferentes atores e em ocasiões distintas, exprimem a relação de proximidade, indicando uma comunicação interpessoal e o vínculo com a natureza e o alimento. Por fim a partilha do risco pode ser percebida pela repetição do significante co-produtor, enfatizando esse termo criado para expressar o comprometimento e o compromisso entre esses pares. E ainda, o círculo que remete a uma mandala, elaborado com palavras-chave, unidas por signos que representam a natureza, endossam, no seu interior, na sua gema, as palavras, em verde, “alimento como bem-comum”. A tribo movida por esses princípios, envolvida com essa semiosfera, absorve o universo cultural que ela promete. Assim como a alimentação foi e é apreendida culturalmente, pode-se inferir que a proposta da CSA, e a sua intenção por uma transição para o 53 RIVAR | INSTITUTO DE ESTUDIOS AVANZADOS | UNIVERSIDAD DE SANTIAGO DE CHILE CSA: um programa de agroecologia em Portugal e seus códigos culturais Caroline Sotilo e Cynthia Luderer campo ecológico, possa ser validada pelo filtro da cultura. Por essa lente se escapa de determinismos para entender a pluralidade das semiosferas, que são compostas por um grande texto da cultura, movente e sensível à linguagem. Nesse sentido, cada época apresenta uma nova promessa, e a cultura permite perceber se estão vinculados a novos Outros, ou a novos utópicos. *Este trabalho é apoiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto UIDB/00736/2020. Bibliografia Altieri, M. (2004). Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável. Porto Alegre, UFRGS. AMAP/CSA (2018). “Carta de Princípios”. 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