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Desenvolvimento de cidades sustentáveis: a influência das práticas empresariais no equilíbrio trabalho-família e as suas implicações para a criação de ecossistemas sustentáveis

Parente, Marta Ferreira

Abstract

Este estudo explora a ligação entre as práticas empresariais e o equilíbrio entre a vida profissional e familiar, investigando as suas ramificações para a evolução das cidades sustentáveis. O objetivo é investigar a interação entre as estratégias organizacionais e a vida pessoal dos colaboradores, para compreender como as práticas empresariais exercem uma influência direta na harmonia entre estes dois domínios. É analisada a influência deste equilíbrio em contextos urbanos, afetando o bem-estar individual e promovendo ecossistemas sustentáveis, ligando os pontos com os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU. Adotou-se uma abordagem qualitativa de estudos de caso, envolvendo entrevistas semi-estruturadas a colaboradores de organizações com fins lucrativos. Estas entrevistas captam diferentes perspetivas, experiências vividas e desafios enfrentados pelos indivíduos no que respeita ao equilíbrio entre as esferas profissional e familiar, enquanto discernem como as práticas empresariais moldam significativamente esse equilíbrio. Também foi explorada a influência dessas práticas empresariais na promoção de ecossistemas urbanos sustentáveis. Os resultados evidenciam as dinâmicas que influenciam as práticas empresariais no equilíbrio entre vida profissional e familiar. Revelam como diferentes políticas e culturas organizacionais podem afetar tanto o desempenho profissional dos trabalhadores como o seu bem-estar pessoal e familiar. Estas dinâmicas incluem fatores como os horários de trabalho flexíveis, a possibilidade de trabalho remoto, as políticas de licença parental e os programas de apoio ao bem-estar, que, em conjunto, contribuem para criar um ambiente que pode facilitar ou dificultar a conciliação das responsabilidades profissionais com as necessidades familiares. A abordagem utilizada fornece contributos teóricos e práticos para a compreensão das complexas relações entre as práticas organizacionais, o equilíbrio trabalho-família e o desenvolvimento sustentável das áreas urbanas. A partir deste estudo, é apresentado um resumo do impacto direto que o equilíbrio trabalho-família, tal como percebido pelas empresas, tem no desenvolvimento sustentável de uma cidade. O objetivo é contribuir para o incentivo, a informação e a orientação de estratégias futuras, tanto em contextos empresariais como no planeamento urbano. Esta contribuição facilita o cultivo de ambientes mais propícios à harmonização do trabalho, da vida familiar e do crescimento urbano sustentável.

Full text

Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Marta Ferreira Parente Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. maio de 2024 Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. Marta Ferreira Parente UMinho | 2024 Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Marta Ferreira Parente Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. Dissertação de Mestrado Mestrado em Gestão e Negócios Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Olga Filipa Andrade Brites Pereira E sob a co-orientação do Professor Doutor António Joaquim Araújo Azevedo maio, 2024 Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 4 - m a i o d e 2 0 2 4 Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 5 - DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 6 - Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 7 - DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducentes à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. A aluna, _______________________________ [Marta Ferreira Parente] Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 8 - Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 9 - AGRADECIMENTOS Quando olho para trás e vejo o caminho que percorri, não posso deixar de expressar a minha admiração a todas as pessoas que estiveram ao meu lado. Em primeiro lugar, gostaria de agradecer à minha orientadora, Olga Pereira, cuja sabedoria e aconselhamento foram fundamentais para o meu crescimento académico e pessoal. O seu apoio e os seus conselhos foram como guias nos momentos de incerteza, orientando-me para os meus objetivos. À minha mãe e à minha avó, Gabriela e Lucinda, as verdadeiras referências na minha vida, expresso a minha mais profunda admiração. O vosso amor incondicional e o apoio constante moldaram a pessoa que sou hoje. Estiveram sempre presentes, oferecendo apoio, conforto e sabedoria nos momentos mais difíceis. O meu padrasto, Rui, também merece a minha sincera apreciação. A presença e o carinho dele trouxeram uma nova perspetiva à minha vida, mostrando que os laços familiares vão além do sangue, baseados na dedicação e no amor mútuo. Às minhas amigas, Mariana, Beatriz e Helena, pilares do meu percurso, agradeço cada gargalhada, cada conselho e cada momento partilhado. Tornaram os dias mais leves e os desafios mais ultrapassáveis. Aos meus chefes, Rita Lopo e Luís Ferreira, por me motivarem e, acima de tudo, por me proporcionarem o melhor ambiente de trabalho e apoio às minhas necessidades académicas. E, por último, um enorme agradecimento ao meu namorado, Pedro Monjardino. A sua paciência, o seu apoio inabalável e o seu amor constante têm sido a força motivadora de todas as minhas conquistas. A sua presença trouxe cor e significado à minha vida, ensinando-me o que é o companheirismo, o amor e a resiliência. Estou imensamente agradecida por o ter ao meu lado a cada passo do caminho. Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 16 - ÍNDICE DE TABELAS Tabela 1. Vantagens e Desvantagens da Metodologia Qualitativa (Elaboração Própria) ................................ - 43 - Tabela 2. Guião de Entrevista - Parte 1 (Elaboração Própria) ...................................................................... - 47 - Tabela 3. Guião de Entrevista - Parte 2 (Elaboração Própria) ...................................................................... - 48 - Tabela 4. Características Demográficas e Profissionais dos Participantes das Entrevistas (Elaboração Própria) ... - 53 - Tabela 5. Características Empresa A (Elaboração Própria) .......................................................................... - 53 - Tabela 6. Características Empresa B (Elaboração Própria) .......................................................................... - 54 - Tabela 7. Características Empresa C (Elaboração Própria) .......................................................................... - 54 - Tabela 8. Estrutura de Categorização das Entrevistas (Elaboração Própria) ................................................. - 56 - Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 17 - LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E ACRÓNIMOS DS – Desenvolvimento Sustentável ONU – Organização das Nações Unidas ODM – Objetivos de Desenvolvimento do Milénio ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável CNUAD – Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente e o Desenvolvimento AIDS - Síndrome da Imunodeficiência Adquirida DPDI - Departamento Para o Desenvolvimento Internacional NU – Nações Unidas PME – Pequenas e Médias Empresas OIT – Organização Internacional do Trabalho Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 18 - Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 19 - CAPÍTULO 1. INTRODUÇÃO Embora o conceito de sustentabilidade seja multifacetado, a sua aplicação prática e influência nas dinâmicas quotidianas estão no centro das discussões sobre o futuro das cidades (Priebe et al., 2021). Esta dissertação tem como objetivo explorar e analisar em profundidade a forma como as práticas empresariais sustentáveis moldam o equilíbrio entre trabalho e família e, por extensão, contribuem para a construção de ecossistemas urbanos sustentáveis. Ao abordar essa questão, é imperativo entender não somente os princípios teóricos por trás das práticas empresariais sustentáveis, mas também as implicações concretas que essas práticas têm nas comunidades locais. A procura por cidades sustentáveis transcende o prisma meramente ambiental, incorporando aspetos sociais e económicos, e as práticas empresariais sustentáveis são um elementochave nesse panorama abrangente (Biggeri et al., 2019). Nas sociedades atuais, a procura de um equilíbrio adequado entre os compromissos pessoais e as obrigações profissionais tem-se tornado cada vez mais relevante (Pasamar, 2015). É um verdadeiro desafio conciliar as exigências crescentes da atividade profissional com a necessidade de alinhar os horários e as responsabilidades profissionais com as atividades pessoais e familiares. De acordo com Fisher et al. (2009), a investigação deste conflito centra-se na exploração do conflito trabalho-família, nas suas causas e resultados, nas variações de género na perceção deste conflito, na avaliação da eficácia das estratégias organizacionais para mitigar estes conflitos e nos benefícios derivados de uma gestão eficaz dos papéis familiares e profissionais. Alguns destes tópicos sociológicos foram o passo que o conceito de Desenvolvimento Sustentável precisava para expandir o foco da perspetiva ambiental e abrangesse o prisma económico e, acima de tudo, o social (Bagetti Zeifert et al., 2020). A atualização dos objetivos da Organização das Nações Unidas (ONU) ampliou as expectativas sociais, visando garantir o acesso digno e centrado no ser humano, não apenas às ações específicas estabelecidas, mas às oportunidades inerentes a todo o contexto social que as configura. Transformase num instrumento de promoção social inclusivo e equitativo, promovendo a justiça e a dignidade das comunidades que abrange. Num duplo interesse em interligar os temas, após uma leitura diversificada sobre o tema, emergiram algumas questões em torno do conceito do equilíbrio trabalho-família e a sua implicação na dinâmica quotidiana sustentável: “Teria o equilíbrio trabalho-família qualquer tipo de relação com o desenvolvimento sustentável de uma cidade?”, “As empresas teriam algum poder para melhorar este equilíbrio e o desenvolvimento sustentável das cidades?”, “Como se alcança por completo a satisfação individual de um trabalhador?”, “O desenvolvimento sustentável de uma cidade depende de quê?”. Baseando nestas questões que motivaram a investigação deste Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 20 - tema, foi necessário desenhar os objetivos que permitissem responder á questão “O equilíbrio trabalho-família influência o desenvolvimento sustentável de uma cidade”. Devido á limitação de estudos a interligarem ambas as ideias, foi necessário detalhar os objetivos da investigação de modo a orientar todo o projeto de investigação para atingir o propósito da investigação. Assim os objetivos são: 1. Identificar e compreender o conceito de práticas empresariais sustentáveis. 2. Identificar e compreender o conceito de equilíbrio trabalho-família no contexto empresarial. 3. Identificar e mapear as práticas empresariais promotoras do equilíbrio trabalho-família. 4. Identificar e compreender o conceito de desenvolvimento de cidades sustentáveis. 5. Avaliar a influência das práticas empresariais no equilíbrio trabalho-família. 6. Avaliar os potenciais efeitos do equilíbrio trabalho-família no desenvolvimento de cidades sustentáveis. Para a concretização dos objetivos definidos, foi desenvolvida uma abordagem metodológica a partir de três estudos de caso. Esta escolha reflete uma metodologia de investigação qualitativa, em que as entrevistas são adotadas como a principal técnica de recolha de dados. A realização de entrevistas semi-estruturadas permitiu uma exploração em detalhe das experiências, perceções e opiniões dos participantes, proporcionando uma compreensão contextualizada do fenómeno em estudo. A flexibilidade inerente a este formato de entrevista permitiu ajustes dinâmicos de acordo com as necessidades da investigação, possibilitando a obtenção de dados detalhados e relevantes. Os dados resultantes destas entrevistas foram analisados através de uma abordagem qualitativa, recorrendo a técnicas como a análise de conteúdo para identificar padrões, temas emergentes e nuances significativas presentes nas respostas dos participantes. A estrutura desta investigação encontra-se organizada em oito capítulos. O Capítulo I, “Introdução” introduz a dissertação, destacando a motivação e relevância do tema do equilíbrio trabalho-família no contexto de desenvolvimento sustentável. A questão de investigação e os objetivos do estudo são delineados para fornecer uma base clara para a investigação. Além disso, é apresentada a visão geral da estrutura da dissertação bem como o percurso que será seguido. Já o segundo capítulo, “Revisão de Literatura”, que serve de base para a obtenção dos primeiros quatro objetivos da investigação, explora a evolução do conceito de desenvolvimento sustentável desde o Relatório Brundtland até a atual Agenda 2030. São abordados eventos-chave, como a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992, e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) relacionados. A análise inclui uma discussão sobre o impacto das práticas empresariais sustentáveis no equilíbrio trabalho-família e suas implicações no desenvolvimento de cidades sustentáveis. Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 21 - O terceiro capítulo, “Modelo Analítico e Metodologias”, descreve pormenorizadamente o modelo analítico adotado e as metodologias aplicadas na investigação. A escolha de entrevistas semi-estruturadas como técnica principal é explicada, salientando a sua flexibilidade para explorar em profundidade as experiências dos participantes. Esta secção descreve também as abordagens analíticas utilizadas para interpretar os dados recolhidos. O quarto e quinto capítulo, “Apresentação de Resultados” e “Discussão de Resultados”, respetivamente, formam uma interligação crucial na narrativa desta dissertação. No quarto capítulo, a investigação faz a apresentação detalhada dos resultados obtidos através das entrevistas semi-estruturadas. Este capítulo serve de suporte para o quinto, onde a discussão avança de forma articulada. A relação entre os resultados e a revisão da literatura realça as ligações essenciais e promove uma análise mais profunda das implicações do equilíbrio trabalho-família para o desenvolvimento sustentável. O sexto capítulo, “Conclusões, Limitações e Investigação Futura”, encerra a dissertação apresentando conclusões fundamentadas nos resultados obtidos. Alem disso, são reconhecidas as limitações do trabalho e sugeridas direções para futuras pesquisas, destacando áreas que podem ampliar e aprimorar a compreensão do tema. Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 22 - CAPÍTULO 2. REVISÃO DE LITERATURA 2.1. Origem do Conceito de Desenvolvimento Sustentável O desenvolvimento sustentável (DS) é um conceito que se tem tornado reconhecido e proeminente na teoria académica (Mensah, 2019a). No entanto, apesar da importância atual, o desenvolvimento histórico e a evolução deste conceito acaba muitas vezes despercebido e subvalorizado. De uma perspetiva estrutural, o conceito pode ser desconstruído numa frase que inclui duas palavras distintas, "desenvolvimento" e "sustentável". Tal como as interpretações e definições multifacetadas que surgiram para cada uma destas palavras constituintes, "desenvolvimento" e "sustentável", o conceito de desenvolvimento sustentável tem sido igualmente escrutinado e examinado de vários pontos de vista, dando origem a uma infinidade de definições (Mensah, 2019b). Em primeiro lugar, o conceito de “desenvolvimento” é caracterizado como um processo contínuo em que as capacidades humanas avançam através da criação de novos enquadramentos, lidando eficazmente com desafios, adaptando-se a alterações persistentes e perseguindo novos objetivos de forma ativa e inovadora (Du Pisani, 2006). Já em conformidade com Reyes (2001), o “desenvolvimento” é essencialmente o bem-estar social de uma nação, alcançado através do aproveitamento responsável dos recursos e sistemas naturais para satisfazer as necessidades da sua população. Para Todaro e Smith (2005) o “desenvolvimento” é delineado como uma evolução multifacetada que engloba mudanças substanciais nas estruturas sociais, mentalidades e instituições, implicando também o crescimento económico, a redução das desigualdades e a erradicação da pobreza extrema. Já o termo "sustentável" carece de uma definição universalmente aceite pelos investigadores, o que leva a interpretações variadas (Mebratu, 1998; Montiel, 2008; Morrow & Mowatt, 2015; Rossi et al., 2000; Schwartz & Carroll, 2008). Salas-Zapata et al. (2017) lançam luz sobre esta ambiguidade, destacando três perspetivas predominantes na definição de sustentabilidade. Esta exploração revela que entre os investigadores que definem o conceito, estes entendem a definição de três formas: a primeira remete a uma perspetiva teleológica que assume a sustentabilidade como uma visão; a segunda é uma visão ontológica que assume a sustentabilidade como um comportamento de sistemas específicos; e a terceira, uma abordagem que implica a incorporação de critérios ambientais nas atividades humanas. Consequentemente, a junção destes dois significados, gerou o conceito multifacetado de DS que tem as suas origens no século XX e, desde então, tornou-se um foco central dos debates políticos internacionais e da investigação académica (Dernbach, 1998). Na sua essência, o desenvolvimento sustentável procura equilibrar Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 23 - considerações económicas, sociais e ambientais para satisfazer as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades (Bawa & Seidler, 2009). Embora esta definição aborde principalmente a sustentabilidade ambiental, continua a ser aplicável nos dias de hoje e pode ser alargada para incorporar a exigência de um progresso sustentável tanto na sociedade como na economia como é possível observar na Figura 1 a evolução do conceito de DS. Por conseguinte, o desenvolvimento sustentável reconhece que o progresso envolve aspetos interligados e interdependentes nos domínios económico, social e ambiental (Kosciejew, 2020). 2.1.1. Publicação do Relatório Brundtland em 1987 O momento crucial na popularização do desenvolvimento sustentável ocorreu com a publicação do Relatório Brundtland de 1987, intitulado "O Nosso Futuro Comum" (Goodland & Daly, 1996). O relatório, presidido por Gro Harlem Brundtland, antiga primeira-ministra da Noruega, forneceu uma definição clara e amplamente aceite de desenvolvimento sustentável. Sublinhou a interligação entre a proteção ambiental, a equidade social e o progresso económico, e apelou a uma mudança de pensamento e de elaboração de políticas para garantir um futuro mais sustentável (Kosciejew, 2020; Mensah, 2019b). Adicionalmente, Kosciejew (2020) reforça que é imperativo abordar a expansão Período de Moldagem (1972 - 1987) ⚫ 1987 – “O Nosso Futuro Comum” A definição de DS foi sistematicamente exposta pela primeira vez. ⚫ 1992 – Conferência do Rio Pela primeira vez, o DS passou de conceito a ação global e foram apresentados três pilares do DS - económico, social e ambiental. ⚫ 2000 - Conferência do Milénio das Nações Unidas Foram adotados os ODM e foi estabelecido o quadro da cooperação nacional para o desenvolvimento. ⚫ 2015 – Conferência das NU para o Desenvolvimento Os ODS foram adotados e a visão tradicional do desenvolvimento, que consistia na procura unilateral do crescimento económico, foi fundamentalmente alterada. Período de Desenvolvimento (Após 1987) Figura 1. Evolução do Conceito de Desenvolvimento Sustentável (Elaboração Própria) Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 24 - económica, a equidade social e a proteção ambiental não como preocupações isoladas, mas como elementos interligados e que se reforçam mutuamente, exigindo uma abordagem abrangente e coesa. 2.1.2. A Conferência das NU Sobre o Ambiente e o Desenvolvimento de 1992 Os autores Jain e Islam (2015) referem que o relatório de Brundtland deu origem à Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente e o Desenvolvimento (CNUAD), conhecida, também, como “ Rio Earth Summit ”, em 1992. Assim, os princípios estabelecidos pelo Relatório Brundtland, fizeram com que a comunidade internacional desse um passo significativo na prossecução do desenvolvimento sustentável com a adoção da Agenda 21 (McEvoy & Worster, 1994). A Agenda 21 representa um momento crucial na história do desenvolvimento sustentável. Trata-se de um plano de ação não vinculativo para o século XXI, que elabora um plano abrangente para enfrentar os desafios complexos e interligados da degradação ambiental, da desigualdade social e do crescimento económico à escala global (Allen & Clouth, 2012). No entanto, ao longo dos anos, tornou-se evidente que o progresso na abordagem dos desafios ambientais e de desenvolvimento era incompleto. Os oito generalizados objetivos – redução da pobreza; ensino básico universal; igualdade entre os géneros e autonomia das mulheres; redução da mortalidade infantil; melhoria da saúde materna; combate à SIDA (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), malária e outras doenças; sustentabilidade ambiental e parceria mundial para o desenvolvimento – persistiram e novos desafios foram surgindo com o passar do tempo (ONU, 2015). 2.1.3. Conferência do Milénio das Nações Unidas Foi em setembro de 2000, que os líderes de 189 países membros da Organização das Nações Unidas (ONU) assinaram a Declaração dos Oito Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) (Nations, 2017), o mais importante compromisso internacional a favor do desenvolvimento e da eliminação da pobreza e da fome no mundo (Denny, 2017). Estes oito objetivos destinavam-se a ser cumpridos durante um período de quinze anos, o que constituía um prazo razoável para passar da teoria à prática. De acordo com o Departamento para o Desenvolvimento Internacional (DPDI), estas medidas, integradas numa iniciativa global, foram introduzidas para estimular a transição da comunidade internacional do mero discurso sobre a Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 25 - realização de mudanças no mundo em desenvolvimento para um esforço concertado para iniciar ações tangíveis a este respeito (Olabode et al., 2014). Embora estes objetivos tenham feito progressos significativos em algumas áreas, não abordaram de forma abrangente a natureza complexa e inter-relacionada dos desafios da sustentabilidade (Fuso Nerini et al., 2018; International Council for Science, 2017; Nilsson et al., 2016; Pradhan et al., 2017; Schöne et al., 2022). Especificamente, os progressos registados em relação aos ODM 4 (reduzir a mortalidade infantil), ODM 5 (melhorar a saúde materna) e ODM 6 (combater o VIH/SIDA, malária e outras doenças) foram relativamente lentos (Starbird et al., 2016). Assim, esta pretendida duração para que todos os países atingissem efetivamente os objetivos estabelecidos, não foi suficiente. Consequentemente, a comunidade internacional adotou a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável como forma de dar resposta às limitações dos ODM (Garlet et al., 2022). Esta agenda transformadora não só implicou uma revisão do sistema existente, como também procurou alargar as ações destinadas a melhorar a qualidade de vida da população. É importante salientar que os resultados obtidos com os ODM ajudaram a eliminar os principais obstáculos e a reforçar fatores importantes para o êxito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e da Agenda 2030 nos anos seguintes, a fim de alcançar os mesmos por completo (Allen et al., 2021). 2.2. Agenda 2030: Um Quadro Global Para o Desenvolvimento Sustentável Cerca de três décadas após o relatório de Brundtland, grupos sociais e governamentais dedicaram tempo e esforços consideráveis para dar forma à Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, uma estratégia abrangente e inclusiva destinada a melhorar o progresso económico, social e sustentável global para todos. A Agenda 2030, é, assim, uma iniciativa global de referência adotada pelos 193 Estados membros das Nações Unidas em setembro de 2015 (United Nations, 2015). A mudança substancial dos planos prioritários anteriores para a criação da Agenda 2030, passando dos ODM para os ODS, foi além de um mero exercício de mudança de nome. Envolveu a satisfação ativa das necessidades da sociedade para garantir o cumprimento integral dos direitos humanos, reconhecendo simultaneamente o imperativo de preservar o planeta nos domínios económico, político, social e ambiental (Bagetti Zeifert et al., 2020). Este documento internacional amplia as expectativas sociais, visando garantir o acesso digno e centrado no ser humano, não apenas às ações específicas estabelecidas, mas às oportunidades Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 32 - Do ponto de vista económico, Elizabeth Currid (2006) argumenta que as cidades funcionam como centros de inovação que impulsionam o desenvolvimento económico global. O ODS 11, por sua vez, promove, como um dos principais objetivos, o crescimento económico sustentável nas cidades. Isto envolve a promoção de atividades económicas que criem empregos e oportunidades de rendimento para os residentes urbanos, minimizando os impactos ambientais negativos. Esta criação de emprego contribui para a redução da pobreza e para a inclusão social, melhorando, em última análise, o bemestar económico dos habitantes das cidades (Aliyu, 2019). A criação de emprego, por sua vez, é apoiada pela promoção do desenvolvimento económico local que inclui o auxílio a pequenas e médias empresas (PME), ao empreendedorismo e a iniciativas que fortaleçam a economia local e reduzam a dependência de recursos externos (Holzer et al., 2021). Na frente social, o ODS 11 esforça-se por melhorar a integração de conceitos como justiça social, diversidade, inclusão, envolvimento e bem-estar geral das comunidades e dos indivíduos, alinhando-os com o princípio da sustentabilidade (Janssen & Basta, 2022). A concretização destes objetivos sociais é essencial para criar cidades que não sejam apenas sustentáveis, mas também locais onde as pessoas possam prosperar e ter uma vida plena. Ao considerar esse contexto, a promoção do crescimento económico sustentável, como mencionado anteriormente, gera empregos e garante estabilidade económica. Isso pode resultar em melhores condições de trabalho para os indivíduos, oferecendo horários de trabalho mais flexíveis, salários justos e benefícios adicionais. Além disso, o fortalecimento das pequenas e médias empresas e o estímulo ao empreendedorismo indicam mais oportunidades de emprego locais, reduzindo a necessidade de grandes deslocações. Isso não só contribui para a sustentabilidade ambiental, mas também reduz a tensão entre a vida profissional e pessoal (Rai et al., 2019b). Do ponto de vista social, uma cidade mais inclusiva e justa pode levar a políticas laborais mais equitativas, incluindo licenças familiares mais generosas e ambientes de trabalho mais favoráveis à vida pessoal dos trabalhadores. Além disso, o envolvimento comunitário e o bem-estar geral de uma cidade tendem a proporcionar um maior apoio à vida pessoal das pessoas. Isso manifesta-se numa maior disponibilidade de creches, escolas de elevada qualidade, parques e instalações de lazer, que não só melhoram a vida dos moradores, mas também destacam a importância desses aspetos para outras cidades que procuram alcançar a sustentabilidade (Chigbu & Nekhwevha, 2023). Assim, para compreender a relevância do ODS 11 no contexto da investigação, é importante reconhecer que este objetivo centra-se na construção de cidades inclusivas, seguras, resilientes e Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 33 - sustentáveis (UN-Habitat, 2010). Uma vez que as práticas empresariais sustentáveis promovem ambientes de trabalho que favorecem tanto o bem-estar dos trabalhadores como a sustentabilidade económica e ambiental, essas mesmas práticas empresariais acabam a reforçar a resiliência económica e social das cidades, alinhando-se com os objetivos de crescimento económico sustentável e inclusão social propostos pelo ODS 11 (Janssen & Basta, 2022). Por conseguinte, a integração de práticas empresariais sustentáveis acaba a ser um fator importante não só para o desenvolvimento económico das cidades, mas também para a criação de ecossistemas urbanos que apoiem a saúde, a equidade e a prosperidade dos seus habitantes (UN-Habitat, 2010). Em suma, as cidades que procuram alcançar a sustentabilidade precisam de se concentrar na melhoria da qualidade de vida dos seus habitantes. Embora o trabalho seja uma parte integrante da vida de um indivíduo, a forma como as cidades apoiam as empresas na criação de condições favoráveis para os seus trabalhadores pode ser um fator determinante para alcançar a sustentabilidade urbana. A promoção de um equilíbrio saudável entre a vida profissional e a vida privada poderá ser uma forma promissora de construir cidades mais sustentáveis e inclusivas (Fig. 3). Cidades Empresas Pessoas Apoiam Ajudam Contribuem Figura 3. Interação Entre os Diferentes Conceitos do ODS 11 (Elaboração Própria) Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 34 - 2.3. A Influência das Práticas Empresariais Sustentáveis no Equilíbrio Trabalho-Família Nas sociedades contemporâneas, a procura de um equilíbrio harmonioso entre os compromissos profissionais e a vida pessoal tornou-se cada vez mais crucial (Pasamar, 2015). Equilibrar as exigências crescentes dos empreendimentos profissionais com a necessidade de harmonizar os horários de trabalho e as responsabilidades com as atividades pessoais e familiares constitui um desafio. De acordo com Fisher et al. (2009), as investigações concentram-se principalmente na exploração do conflito trabalho-família, nas suas causas e resultados, nas variações de género na perceção desse conflito, na avaliação da eficácia das estratégias organizacionais para atenuar esses conflitos e nos benefícios decorrentes da gestão eficaz dos papéis familiares e profissionais (e.g., Greenhaus & Powell, 2006; Voydanoff, 2005). Deste modo, as questões relacionadas com a vida profissional e familiar têm sido exploradas principalmente através de pontos de vista sociológicos, da psicologia do trabalho e das empresas, como demonstrado por autores como Nordenmark (2004), que se centra na sociologia, Sonnentag e Kruel (2014), que dão ênfase à psicologia do trabalho, e Kossek e Lambert (2004), que a examinam do ponto de vista empresarial. No que respeita à origem do termo “Equilíbrio Trabalho-Família”, é importante referir que o mesmo foi rotulado como tal em 1986 (Babin Dhas & Karthikeyan, 2015), para atender aos empregados que não são pais, mas que pretendem equilibrar atividades não relacionadas com o trabalho, como educação, viagens ou passatempos (Pasamar, 2015). Isto aconteceu, pois durante as décadas de 1980 e 1990, algumas empresas passaram a introduzir programas de incentivo a esta temática, mas preferentemente destinados a ajudar mães a entrar no mercado de trabalho. Este incentivo, mesmo que mais especializado, expandiu, mais tarde, as ações deste programa e passou a reconhecer os vários compromissos para além dos familiares (Babin Dhas & Karthikeyan, 2015). Os mesmos autores observam que este desejo de flexibilidade e de controlo sobre o trabalho e a vida pessoal não se limita a uma área específica. Os trabalhadores procuram universalmente a autonomia na gestão do seu trabalho e da sua vida pessoal, esforçando-se por encontrar um equilíbrio harmonioso entre estes dois aspetos. Consequentemente, é crucial estabelecer uma definição exata deste conceito. No entanto, na literatura, não existe uma definição definitiva e universalmente aceite, o que resulta numa multiplicidade de interpretações diferentes. Neste sentido, Grzywacs e Carlson (2007) definem o conceito de equilíbrio trabalho-família como o cumprimento das responsabilidades previstas, acordadas e mutuamente partilhadas entre um indivíduo e os seus companheiros nos domínios do trabalho e da família. Já Kirchmeyer (2000) argumenta que este equilíbrio está direcionado para alcançar experiências gratificantes em várias vertentes da vida, exigindo uma distribuição eficaz dos recursos pessoais, como a energia, o tempo e o empenho, entre esses domínios. Por último, os autores Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 35 - Kalliath e Brough (2008) sugerem que o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal se refere à forma como um indivíduo perceciona a compatibilidade entre os seus esforços profissionais e a sua vida pessoal, promovendo o crescimento pessoal em consonância com as suas atuais prioridades de vida, considerando que o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal pode variar ao longo do tempo, em função de acontecimentos específicos que ocorrem na vida do individuo. Por conseguinte, quando se analisa o equilíbrio entre a vida profissional e a vida familiar, a constante imutável é a presença decisiva do empregador na equação. Isto implica que a dinâmica do trabalho e as exigências do emprego exercem uma influência constante e significativa na vida do indivíduo em relação à esfera familiar. Desta forma, reconhece-se que o papel do empregador é uma variável-chave que molda a interação entre as responsabilidades profissionais e pessoais, estabelecendo uma base constante na equação do equilíbrio trabalho-família. Em recentes investigações, tem-se verificado uma atenção crescente à importância do bem-estar dos trabalhadores e do equilíbrio entre a vida profissional e a vida privada no contexto organizacional (Atif Sheikh et al., 2018). Essas mesmas investigações realçam que o bem-estar dos trabalhadores se destaca como um elemento crítico que não só molda a eficácia sustentada das organizações, como também representa um contributo fundamental para a produtividade dos trabalhadores. No entanto, a falsa expectativa de que o bemestar do colaborador está associado apenas a sucesso profissional, a aumento dos honorários e elevada lealdade leva a que a eficácia a longo prazo das organizações seja colocada em causa (Robertson & Cooper, 2010). Contudo, essas mesmas pesquisas, evidenciam que um fator crucial para uma experiência completa de bem-estar é a perceção do equilíbrio trabalho-família por parte dos trabalhadores (Boxall & Macky, 2014), uma vez que este tem um impacto direto na sua produtividade. Por conseguinte, alguns estudos apontam que fatores como a flexibilidade e horário de trabalho, a intensidade do trabalho, a distribuição do tempo passado no trabalho, cultura organizacional, políticas, licenças e desenvolvimento profissional i)nfluenciam significativamente este equilíbrio. (1) Cultura organizacional - As normas relativas ao número de horas que os trabalhadores devem trabalhar e as normas relativas à utilização do tempo dos trabalhadores são aspetos importantes da cultura organizacional que podem afetar o comportamento dos trabalhadores (Thompson et al., 1999). (2) Flexibilidade e horário de trabalho - Os horários de trabalho flexíveis permitem que os trabalhadores adaptem o seu horário de trabalho às suas necessidades individuais, levando potencialmente a uma maior satisfação (Holly & Mohnen, 2012). Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 36 - (3) Trabalho remoto - É reconhecido que o escritório em casa é um fator significativo no desejo de reduzir o horário de trabalho. Os trabalhadores que trabalham a partir de casa diariamente ou várias vezes por semana desejam reduzir significativamente mais o seu horário de trabalho. Os horários de trabalho flexíveis também diminuem a satisfação em comparação com os horários de trabalho estritamente fixos (Holly & Mohnen, 2012). (4) Políticas de apoio e licença parental - O local de trabalho desempenha um papel crucial na influência do envolvimento dos pais com os seus filhos, juntamente com fatores como as políticas institucionais, tais como disposições de bem-estar, antecedentes pessoais e dinâmica familiar, rendimento, educação e estatuto social (Gregory & Milner, 2011). (5) Benefícios e recursos de bem-estar - Relativamente aos efeitos do equilíbrio trabalho-família, algumas investigações existentes mostram que as pessoas que percecionam o equilíbrio entre os seus papéis no trabalho e na vida tendem a estar mais satisfeitas com as suas vidas e a ter uma melhor saúde física e mental (Thompson et al., 1999). (6) Desenvolvimento profissional - Os grupos de trabalhadores que historicamente enfrentaram obstáculos na progressão das suas carreiras, como as mulheres ou os indivíduos com responsabilidades familiares, parecem atingir um patamar na sua progressão profissional numa determinada fase (Buddhapriya, 2009). Algumas empresas reconhecem estas situações descritas e oferecem aos seus trabalhadores uma série de iniciativas conhecidas como práticas “ family-friendly ” (amigas da família) (Yadav & Sharma, 2023). Estas práticas facilitam a integração das responsabilidades familiares e profissionais e, consequentemente, enriquecem as identidades de papéis múltiplos de um indivíduo (Glass & Finley, 2002; Sirgy et al., 2008). Embora, teoricamente, as empresas implementem práticas favoráveis à família para melhorar o equilíbrio entre a vida profissional e a vida privada dos trabalhadores, as motivações subjacentes à oferta destas práticas podem ser menos motivadas pelo altruísmo. McMillan et al. (2011) argumenta que algumas empresas encaram estas práticas como uma "necessidade inevitável" na condução dos negócios, decorrente das pressões exercidas pelos trabalhadores e pela sociedade. Contrariamente, algumas empresas aspiram a ser vistas como entidades inovadoras e implementam estas práticas para atrair e manter uma força de trabalho empenhada (Rau & Hyland, 2002; Williams et al., 2013), o que pode resultar num melhor desempenho organizacional no atual ambiente de trabalho imprevisível (Beauregard & Henry, 2009). Com a crescente conscientização sobre a necessidade de equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, é fundamental entender que as soluções não são únicas para todos. Cada organização deve considerar a sua cultura, estrutura e as necessidades dos trabalhadores ao criar políticas que promovam esse equilíbrio. As Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 37 - práticas " family-friendly " representam um passo importante, mas a verdadeira transformação ocorre quando há um compromisso contínuo com o bem-estar dos trabalhadores (Yadav & Sharma, 2023). Os pontos discutidos neste capítulo mostram que alcançar o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal é um desafio multifacetado, que exige esforços tanto dos empregadores quanto dos trabalhadores. A literatura indica que as empresas que adotam uma abordagem proativa, ouvindo os seus funcionários e adaptando-se às suas necessidades, provavelmente verão benefícios que vão além do aumento da produtividade. Esses benefícios podem incluir maior satisfação no trabalho, retenção de talentos e uma cultura organizacional mais positiva. 2.4. Estudo do Equilíbrio Trabalho-Família no Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis De acordo com Rao (2017), uma agenda efetiva para o desenvolvimento humano sustentável, como a proposta pelas Nações Unidas, requer a inclusão do equilíbrio entre trabalho e vida como uma preocupação abrangente, com impacto direto nos direitos humanos. Esse desafio transcende a dignidade no trabalho (ODS 8), abrangendo igualdade de género, desenvolvimento comunitário e uma visão futura em que os cuidados e a educação infantil não recaiam exclusivamente sobre os pais. Assim, o equilíbrio entre trabalho e vida não é apenas uma questão de coordenar tempo e espaço, mas uma influência crucial na reestruturação social em prol da justiça e humanidade (Haar et al., 2018), destacando-se como elemento central da sustentabilidade social. À luz de estudos sobre desenvolvimento urbano, incluindo as contribuições de Florida (2003), Wheeler e Beatley (2022), Polese e Freire (2003) e Polese e Stren (2001), argumenta-se que as cidades desempenham um papel decisivo ao facilitar ou dificultar práticas sustentáveis entre vida profissional e familiar, em consonância com os imperativos sustentáveis. Adicionalmente, Norton e Marcus (2016) ressaltam a conexão entre planeamento familiar e os ODS defendendo os seus benefícios para mulheres, famílias e comunidades, entrelaçando-se com direitos humanos, igualdade de género e capacitação. Esse vínculo impacta a saúde materna, neonatal, infantil e adolescente, influenciando também o desenvolvimento económico e o futuro ambiental e político. Portanto, o desafio de alcançar um equilíbrio entre trabalho e vida vai para além do bem-estar individual no trabalho, abraçando considerações mais amplas como igualdade de género, desenvolvimento comunitário e uma visão futura compartilhada da responsabilidade parental. Ao invés de ser meramente uma coordenação de obrigações, o equilíbrio entre trabalho e vida é um fator crítico que molda as sociedades em direção à justiça e humanidade. Essa perspetiva converge com a sustentabilidade social, destacando a importância de abordar esse equilíbrio como um tema essencial na organização da sociedade (Haar et al., 2018). Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 38 - Adicionalmente, Littig (2008) sugere que alcançar um equilíbrio entre o trabalho e a vida é crucial para o desenvolvimento sustentável, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida global dos indivíduos. Isto implica que o equilíbrio entre a vida profissional e a vida privada influência significativamente o bem-estar das pessoas, a sua dedicação ao trabalho, a eficiência e o desempenho global, que são essenciais para a sustentabilidade e o sucesso das organizações. O que indica que o equilibro trabalho-família não é apenas uma tendência passageira, mas sim uma força motriz do desenvolvimento humano sustentável em qualquer organização. Fazendo eco desta afirmação, Rao (2017) argumenta que o desenvolvimento humano sustentável só é possível quando existe um nível razoável de equilíbrio entre a vida profissional e a vida privada. Além disso, Littig (2008) sublinha a importância de integrar as políticas de equilibro trabalho-família num quadro político sustentável abrangente. Concordando com a noção de que alcançar um equilíbrio entre trabalho e vida é vital para o desenvolvimento sustentável, um equilíbrio robusto entre trabalho e vida pessoal é visto como um modo de vida em que os comportamentos e escolhas de um indivíduo contribuem para o avanço sustentável da saúde, prosperidade, crescimento profissional, relações familiares e sociais, e satisfação geral e prazer da vida de um individuo (Rao, 2017). É evidente que o equilíbrio entre a vida profissional e a vida privada não acontece naturalmente, mas exige esforços intencionais em várias dimensões (Rao, 2017). Considerando a literatura existente, certos temas foram destacados para compreender como a gestão do equilíbrio entre trabalho e família por parte das empresas e dos indivíduos pode impactar o desenvolvimento sustentável de uma cidade. Dentro desses temas, apresentados a seguir, procurou-se examinar qualquer conexão ou influência que possa existir entre o equilíbrio trabalho-família e o desenvolvimento sustentável. (1) Transporte sustentável – Uma fonte importante de possíveis conflitos no que se refere ao equilíbrio entre vida profissional e pessoal está centrada nas deslocações diárias de um indivíduo. Tarefas relacionadas ao trabalho, como o deslocamento para o emprego, e tarefas domésticas, como levar os filhos à escola, influenciam as escolhas de transporte e a gestão financeira da vida de um indivíduo. Essas atividades criam uma considerável sobreposição entre obrigações profissionais e vida pessoal, resultando em conflitos e stresse no equilíbrio trabalho-família de uma pessoa. Adicionalmente, a promoção de transportes sustentáveis não só interfere no setor social e económico, mas impacta o fator ambiental de forma bastante direta (Wheatley, 2012). Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 39 - (2) Desenvolvimento económico e empregabilidade – O crescimento económico e as mudanças estruturais têm um impacto direto na empregabilidade e nas oportunidades de emprego. O crescimento económico impulsiona a expansão da produção de bens e serviços, o que frequentemente resulta num aumento das oportunidades de emprego. Além disso, o crescimento do capital humano, que representa o desenvolvimento das competências e dos conhecimentos dos trabalhadores, é promovido pelo crescimento económico. Por conseguinte, ao analisar questões de desenvolvimento económico, é essencial considerar a forma como este influencia a empregabilidade das pessoas e as oportunidades de emprego que por consequência está diretamente ligado á vida pessoal das mesmas e ao crescimento e desenvolvimento de uma cidade (Pelsa & Balina, 2022). As empresas desempenham um papel crucial neste processo, uma vez que têm a capacidade de influenciar positivamente o desenvolvimento económico e, consequentemente, a empregabilidade, através das suas práticas comerciais e da gestão dos recursos humanos (como apresentado na figura 3 do capítulo 2.2.2 em referência ao ODS11). (3) Acesso à educação e desenvolvimento profissional – A educação para o desenvolvimento sustentável engloba uma abordagem educativa que procura harmonizar o bem-estar humano e económico com as tradições culturais, promovendo simultaneamente o respeito pelos recursos naturais do planeta Terra. Esta abordagem envolve vários aspetos da aprendizagem concebidos para impulsionar a transição para a sustentabilidade. Estes aspetos incluem: educação virada para o futuro, cidadania, uma cultura de paz, igualdade de género e respeito pelos direitos humanos, saúde, população, proteção e gestão dos recursos naturais e consumo sustentável (Wals & Kieft, 2010). (4) Envolvimento comunitário e social – A prática atual de integração social na maioria das cidades sustentáveis é a participação pública. Para tornar a sustentabilidade urbana uma realidade, a participação pública é necessária para melhorar a qualidade, a legitimidade e a capacidade das avaliações ambientais e das decisões sobre o planeamento urbano e os processos de elaboração de políticas (Khair et al., 2020). (5) Acesso a recursos de bem-estar na cidade – É essencial garantir que o crescimento económico é inclusivo e chega a todos os sectores da sociedade. O planeamento urbano sustentável deve dar prioridade à criação de emprego, estimulando o empreendedorismo e reduzindo as disparidades socioeconómicas. Além disso, é crucial garantir o acesso a serviços essenciais, como saúde, educação e instalações culturais, a fim de melhorar o bem-estar social (Sopiana & Harahap, 2023). Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 40 - (6) Flexibilidade e horário de trabalho - Incentivar o bem-estar dos trabalhadores à distância é crucial para o crescimento sustentável das organizações, embora isso possa entrar em conflito com a falta de interação social e a sobrecarga de trabalho típicas do teletrabalho. Estudos mostram que os teletrabalhadores sentem falta das interações informais que promovem a aprendizagem espontânea no local de trabalho. Estas atividades introvertidas não promovem um bem-estar e uma participação social ativa o que atrasa o processo desenvolvimento sustentável (Mosquera et al., 2022). De acordo com a literatura, a integração do princípio de desenvolvimento sustentável na gestão do capital humano nas empresas sublinha o imperativo de não só prosseguir os objetivos económicos da empresa, mas também de atender e harmonizar as necessidades dos seus trabalhadores, sendo que isso terá impactos sociais mais amplos. Isto implica diversas medidas que interligam o desenvolvimento sustentável e os esforços das empresas. Assim, temas como empregabilidade, transporte sustentável, participação comunitária e social, e promoção de educação são tópicos que podem influenciar o desenvolvimento sustentável e podem ser promovidos, incentivados e aplicados pelas empresas. Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 41 - CAPÍTULO 3. METODOLOGIA DE INVESTIGAÇÃO Neste capítulo é apresentada a metodologia de investigação, com base numa seleção criteriosa e justificada dos métodos adotados neste estudo. A importância crítica deste capítulo reside na sua capacidade de não só orientar os procedimentos do estudo, mas também de fornecer uma base sólida para a replicabilidade do trabalho, permitindo que futuras investigações ampliem e validem os resultados apresentados. A investigação segue uma abordagem qualitativa, com base em múltiplos estudos de caso. Como método de recolha de dados foi utilizada a entrevista, sendo que para o tratamento de dados recolhidos, foi utilizada a análise de conteúdo. De seguida, será explorado os motivos que subjazeram a estas opções metodológicas, serão apresentados os instrumentos contruídos para a recolha de dados e os participantes no estudo. 3.1. Escolha da Metodologia: Abordagem Qualitativa Neste ponto, têm-se por objetivo analisar os pressupostos, vantagens e limitações da perspetiva metodológica utilizada. Com base nessa análise, e com referência aos objetivos específicos da presente investigação, apresenta-se então a opção metodológica escolhida. A investigação qualitativa constitui um campo de estudo distinto que vai para além das disciplinas, das áreas de estudo e das temáticas (Denzin & Lincoln, 2005). Desde o início do último século, este campo tem sofrido diversas transformações em termos epistemológicos e metodológicos. O termo "qualitativo" enfatiza as características das entidades, bem como os processos e significados a elas associados. A investigação qualitativa privilegia a qualidade socialmente construída da realidade, numa perspetiva construtivista, enfatizando a relação intrínseca entre o investigador e o objeto de estudo, bem como os constrangimentos situacionais que moldam a investigação (Denzin & Lincoln, 2005). Janesick (2000) descreve as características essenciais da investigação qualitativa, salientando a necessidade de o investigador servir de instrumento de investigação e criar uma narrativa que englobe as diversas histórias dos participantes. Por outro lado, Serapioni (2000) sublinha as características distintas dos métodos qualitativos, que incluem a análise do comportamento humano na perspetiva do ator, a realização de observações naturalistas (não monitorizadas), a adoção da subjetividade (uma perspetiva interna), a orientação para a descoberta e o processo, a natureza exploratória e descritiva e a falta de generalização. Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 48 - Objetivo Autores Tópico Questões Avaliar as implicações do equilíbrio trabalho-família no desenvolvimento sustentável de uma cidade. (Wheatley, 2012) Transporte Sustentável - A empresa incentiva, de alguma forma, o uso de transportes públicos? - Acredita que o equilíbrio trabalho-família pode ser afetado pelo transporte disponível na cidade? (Pelsa & Balina, 2022) Desenvolvimento Económico e Empregabilidade - A empresa promove oportunidades de emprego locais? (Wals & Kieft, 2010) Acesso a Educação e Desenvolvimento Profissional - Do ponto de vista da empresa, como vê a influencia do acesso a oportunidades educacionais e de desenvolvimento profissional no equilíbrio trabalho-família? Considera importante? (Khair et al., 2020) Envolvimento Comunitário e Social - De que forma a empresa está envolvida em atividades comunitárias e sociais? (Sopiana & Harahap, 2023) Acesso a Recursos de Bem-Estar na Cidade - A empresa tem conhecimento sobre a disponibilidade de recursos de bem-estar na cidade? Se sim, divulgam? (Mosquera et al., 2022) Trabalho Remoto - Tem conhecimento da forma como o trabalho remoto possa ter impedido a atividade social dos colaboradores? - Acredita que as novas práticas de trabalho estão relacionadas com a promoção do desenvolvimento sustentável das cidades? Tabela 3. Guião de Entrevista - Parte 2 (Elaboração Própria) Na realização de cada entrevista, os entrevistados foram informados da investigação e assentiram em que a entrevista fosse gravada. Para a proteção de cada entrevistado, o nome dos mesmos foi substituído por códigos identificativos (Empresa A, B e C) e foi omitida toda a informação que pudesse pôr em causa o anonimato. De acordo com as recomendações de orientação, a transcrição inclui elementos de identificação da entrevista, nomeadamente a data e localização de realização, e o nome do entrevistado (posteriormente substituído por um dos códigos referidos anteriormente. Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 49 - 3.3.2. Análise Documental Tendo em conta as críticas acima referidas aos métodos de auto-relato, como as entrevistas, recomenda-se que estes sejam combinados com métodos não intrusivos. Estes métodos permitem a obtenção de dados sem recolher diretamente informações dos participantes (Morgan, 2022). Um exemplo é a análise documental, particularmente a documentação que as empresas disponibilizam nos seus websites . A análise documental implica o uso da análise de conteúdo para a sua exploração. No presente estudo, interessava conhecer a realidade das práticas empresariais no que diz respeito ao equilíbrio entre trabalho e família e suas implicações para a criação de ecossistemas sustentáveis, utilizando a informação disponível em estudos previamente feitos. Embora essas questões fossem abordadas através de entrevistas, os métodos de auto-relato refletem "aquilo que os sujeitos dizem fazer" e não necessariamente "aquilo que os sujeitos realmente fazem" (Morgan, 2022). Para contornar essa limitação, a observação direta foi realizada através da recolha e análise de notícias, entrevistas aos CEOs das empresas e relatórios de sustentabilidade disponibilizados. Para concluir, a análise documental complementa essencialmente os métodos de auto-relato, superando suas limitações. No contexto deste estudo, a combinação de análise de conteúdo de documentos empresariais, notícias, entrevistas com CEOs e relatórios de sustentabilidade permitiu uma visão mais precisa e abrangente das práticas empresariais, reduzindo a discrepância entre o reportado e o praticado. 3.4. Técnicas de Análise de Dados A análise de dados envolve a transformação de dados puros em conhecimentos significativos apoiados por provas (Rubin & Rubin, 2012). Inclui atividades como a organização, integração e comparação de dados de entrevistas para descobrir significados e implicações. Este processo tem como objetivo identificar padrões, temas e criar uma narrativa coesa a partir da informação recolhida (Rubin & Rubin, 2012). No presente estudo, faz-se uso da análise de conteúdo para analisar os dados qualitativos, obtidos pela aplicação de entrevistas aos diferentes inquiridos. A análise de conteúdo, é vista como a metodologia mais comum dentro das ciências sociais e centra-se numa variedade de tipos de comunicação (Lima et al., 2006). Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 50 - Na ótica de Sousa & Santos (2020), a análise de conteúdo é entendida como um conjunto variado de instrumentos metodológicos aplicados aos discursos, caracterizados pela inferência e pelo raciocínio dedutivo. Esta abordagem exige que o analista se esforce por descobrir e explorar o que não é explicitamente mencionado, através de uma interpretação que equilibre a objetividade e a subjetividade. A análise de conteúdo pode desempenhar duas funções: uma heurística, orientada para a descoberta, e outra que confirma ou refuta hipóteses anteriores. Por conseguinte, mais do que uma simples técnica, a análise de conteúdo representa um conjunto de ferramentas, uma variedade de técnicas para examinar as comunicações. Denzin & Lincoln (2000) comparam a investigação qualitativa a uma "bricolagem", em que a metodologia deve adaptar-se às especificidades da situação. A escolha do método é pragmática, estratégica e auto-reflexiva. A análise é um processo contínuo e cíclico que começa a partir da conclusão da entrevista inicial. Após cada entrevista, existe a oportunidade de ajustar as perguntas ou de desenvolver inquéritos de acompanhamento para garantir descrições consistentes de temas relevantes para a investigação, oferecendo perspetivas para aperfeiçoar o próprio desenho da investigação (Brooks et al., 1996). O método de análise de dados proposto por Brooks et al. (1996), no contexto do modelo de entrevista recetiva, pode ser considerado uma abordagem viável para a análise de conteúdo. A entrevista recetiva é uma técnica de recolha de dados qualitativos em que o entrevistador adota uma postura aberta e acolhedora, encorajando o entrevistado a expressar as suas experiências, sentimentos e perceções de forma livre e espontânea. Este método de recolha de dados é particularmente útil porque permite obter informações detalhadas e pessoais, proporcionando uma compreensão aprofundada das experiências e perspetivas dos participantes (Brooks et al., 1996). Este processo desenrola-se em duas fases distintas. Inicialmente, são preparadas as transcrições das entrevistas e são identificados e desenvolvidos conceitos, temas e acontecimentos para orientar a análise. De seguida, as entrevistas são codificadas para facilitar a categorização do que os diferentes participantes expressaram sobre cada conceito, tema ou ocorrência. Na segunda fase, os objetivos da investigação são abordados através da comparação de conceitos e temas entre as entrevistas, envolvendo uma análise teórica. Ao praticar a escuta ativa, utilizar perguntas abertas, mostrar empatia e compreensão e criar um ambiente seguro, o entrevistador consegue obter dados ricos e significativos, que são fundamentais para a análise teórica e detalhada subsequente (Brooks et al., 1996). Após a recolha dos dados, a análise desenrola-se em várias etapas que, por vezes, se entrelaçam. A primeira etapa consiste em reconhecer as categorias de análise, incluindo conceitos (termos que representam Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 51 - ideias cruciais para os objetivos da investigação), temas (afirmações resumidas e explicações que podem realçar relações entre conceitos) e ocorrências. Após uma identificação inicial, são examinadas as diferentes entrevistas para clarificar o significado de conceitos específicos e para sintetizar diferentes relatos de um acontecimento, a fim de organizar a compreensão global da narrativa. À medida que os conceitos, temas e fenómenos são clarificados e sintetizados, podem ser elaborados, resultando na criação de novas categorias. Após este processo de clarificação e elaboração de categorias, as entrevistas são codificadas. A codificação consiste na atribuição de etiquetas para marcar a presença de um conceito no texto; a forma como estes códigos se relacionam entre si permite criar um sistema de codificação (Brooks et al., 1996). Tendo por base o sistema de codificação, ocorre a seleção das categorias que se baseia na consideração dos objetivos da investigação, dos conceitos e temas destacados na literatura e das notas resultantes de uma análise minuciosa das entrevistas. A mesma informação pode ser associada a vários códigos se contiver mais do que um significado. O texto é segmentado em unidades de dados: conjuntos de informações que serão analisadas em conjunto, com dimensões variáveis - desde uma única frase até uma simples definição, ou mesmo vários parágrafos para narrativas que formam um todo coerente (Brooks et al., 1996). Após a codificação sistemática das entrevistas, o objetivo é interpretar os dados: este processo começa por clarificar e sintetizar os conceitos e temas identificados, organizando a informação em torno de categorias ou grupos de entrevistados. Uma vez agrupados os elementos, procura-se identificar padrões e conexões entre os temas, construindo uma narrativa descritiva dos acontecimentos que tenha em conta as diferentes perspetivas analisadas. Finalmente, exploram-se as implicações dos resultados e definem-se as circunstâncias em que essas conclusões podem ser aplicadas (Brooks et al., 1996). Dentro deste contexto, a noção de fidelidade refere-se à descrição pormenorizada dos procedimentos utilizados na recolha de dados, enquanto a validade está intrinsecamente associada à perceção subjetiva de autenticidade por parte dos informadores. A procura de confiabilidade exige a exploração de múltiplas fontes de informação. A transferibilidade dos dados para outros cenários pressupõe a preservação dos significados específicos entre os dois. De acordo com Clements (Clements, 1995), a garantia do rigor metodológico no paradigma qualitativo é conseguida através da reflexividade pessoal e funcional. A primeira implica a explicitação dos valores do investigador, que inevitavelmente influenciam o processo de investigação, enquanto a segunda preconiza a aplicação de várias técnicas para enriquecer a compreensão do fenómeno em estudo (Silva & Fossá, 2015). Assim, neste estudo, recorreu-se à análise de conteúdo para examinar os dados qualitativos obtidos através de entrevistas semi-estruturadas. Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 52 - 3.5. Questões de Natureza Ética Em qualquer investigação no domínio das ciências sociais e humanas, é crucial prestar uma atenção cuidadosa às questões éticas, uma vez que está intrinsecamente ligada ao comportamento humano e pode potencialmente causar dificuldades, danos, perturbações, enganos ou, de alguma forma, afetar negativamente a vida das pessoas envolvidas (Tuckman, 2000). Para mitigar esses possíveis impactos negativos, é essencial observar certos direitos, incluindo: 1) o direito à privacidade ou à não participação; 2) o direito ao anonimato; 3) o direito à confidencialidade, garantindo que os dados não sejam acessíveis a terceiros; e, por fim, 4) o direito à confiança na responsabilidade do investigador, que deve agir de forma a garantir que os participantes não sejam prejudicados. Todos estes direitos foram tidos em consideração numa Declaração de Consentimento Informado, presente no Anexo I do Capítulo 8. Anexos, em que todos os participantes desta investigação assinaram de livre-arbítrio. Assim, em consonância com os princípios éticos e o zelo pelo bem-estar e proteção dos participantes, todas as pessoas envolvidas no estudo terão sua identidade preservada, sendo codificadas e omitidas quaisquer informações que pudessem possibilitar sua identificação. O direito dos participantes à privacidade será integralmente respeitado, evitando-se questões pessoais irrelevantes e respeitando a opção de não participação. Os dados serão exclusivamente utilizados para propósitos científicos, e os registos brutos serão devidamente descartados após a conclusão da defesa da dissertação. 3.6. Descrição Das Amostras As amostras são os conjuntos de sujeitos ou acontecimentos sobre os quais a investigação será efetuada, ou os conjuntos de acontecimentos ou comportamentos documentados. A seleção da amostra desempenha um papel fundamental na qualidade dos resultados, sendo crucial que seja o mais representativa possível da população em questão. A validade das conclusões que podem ser tiradas depende consideravelmente da qualidade das amostras a partir das quais os dados foram recolhidos. A validade de uma amostra está relacionada com a sua dimensão, enquanto a sua representatividade diz respeito à sua qualidade. Assim, foi utilizado uma amostra intencional, ou seja, foi utilizada um tipo de amostragem não-probabilística onde os participantes foram selecionados com base em critérios específicos e deliberados (Silva & Fossá, 2015). No caso desta investigação, foram escolhidas empresas com proximidade geográfica e dentro do ranking de “Melhores Empresas Para Trabalhar em Portugal”. Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 53 - 3.6.1. Perfil Das Empresas Dentro das dez empresas contactadas, foram realizadas três entrevistas como está presente na tabela 3. Apresenta-se, de seguida, as principais características demográficas e profissionais de cada participante da entrevista. Empresa A B C Tipo de Entrevista Semi-estruturada Semi-estruturada Semi-estruturada Data da Entrevista 29/02/2024 06/03/2024 04/04/2024 Duração ≅ 30 min ≅ 120 min ≅ 30 min Género Masculino Feminino Feminino Grau Académico Licenciatura Licenciatura Licenciatura Cargo Diretor Recursos Humanos Diretora Executiva Diretora de Recursos Humanos Nº Anos no Cargo 5 anos 7 anos 10 anos Tabela 4. Características Demográficas e Profissionais dos Participantes das Entrevistas (Elaboração Própria) 3.6.1.1. Empresa A A Empresa A, fundada na década de 40 como uma empresa dedicada à engenharia e construção, evoluiu ao longo dos anos para se tornar um grupo de empresas que operam em diversos sectores, tais como Engenharia e Construção, Água e Ambiente, Energias Renováveis, Telecomunicações e Empreendimentos. Este grupo diversificado está empenhado em realizar projetos empresariais sustentáveis, enquanto procura contribuir de forma significativa para a comunidade em várias frentes. A visão da Empresa A é entrar para a história como os empresários "renascentistas" do século XXI, construindo com destreza e criatividade. Empresa A Sede Braga, Portugal Ano de Fundação 1940 Setor de Atividade 42990 - Construção de Outras Obras de Engenharia Civil Nº de Funcionários ≅ 3000 Tabela 5. Características Empresa A (Elaboração Própria) Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 54 - 3.6.1.2. Empresa B A Empresa B, está presente no mercado desde 1957, tendo iniciado a sua atividade focada em instalações elétricas de apoio à construção civil. Atualmente, com um contante espírito de crescimento e inovação, o grupo é constituído por 8 empresas espalhadas pelo mundo, todas elas tendo como objetivo principal o bem-estar das suas pessoas. Tendo esse objetivo como imprescindível, é, também, a empresa pioneira em projetos ligados ao bem-estar e felicidade dos colaboradores. Empresa B Sede Braga, Portugal Ano de Fundação 1957 Setor de Atividade 46900 - Comércio Por Grosso Não Especializado Nº de Funcionários ≅ 200 Tabela 6. Características Empresa B (Elaboração Própria) 3.6.1.3. Empresa C A Empresa C, que opera no sector da Engenharia e Construção há mais de 65 anos, alargou a sua atuação nos últimos anos aos sectores da Engenharia, Construção, Especialidades, Indústria, Promoção e Gestão de Ativos. Reconhecida como a Melhor Empresa de Construção em Portugal, a sua experiência e rigor no mercado nacional e internacional são amplamente reconhecidos. Iniciando o seu processo de internacionalização em 1994, com a entrada na Alemanha, a empresa expandiu-se para 17 mercados como parte essencial da sua estratégia de crescimento orgânico, baseada em alianças e parcerias locais. Empresa C Sede Braga, Portugal Ano de Fundação 1958 Setor de Atividade 41200 – Construção de Edifícios Nº de Funcionários ≅ 4800 (1653 em Portugal) Tabela 7. Características Empresa C (Elaboração Própria) Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 55 - CAPÍTULO 4. APRESENTAÇÃO DE RESULTADOS Este capítulo apresenta os resultados com base nos estudos de caso desenvolvidos. Será feita a análise a partir do esquema de análise desenvolvido para o conteúdo das entrevistas realizadas. A partir de cada tema abordado, serão apresentados os principais resultados, seguidas de uma análise mais detalhada, na qual serão referenciados excertos do conteúdo das entrevistas que exemplificam as perspetivas diversas e, por vezes, convergentes dos entrevistados sobre esses temas. 4.1. Resultados das Entrevistas Enquanto os dados recolhidos ao longo da revisão de literatura (Capítulo 2) permitiram responder aos primeiros quatro objetivos de investigação, os dados obtidos a partir das entrevistas destinam-se a contribuir para a realização dos dois últimos objetivos definidos na presente investigação: 1. Avaliar a influência das práticas empresariais no equilíbrio trabalho-família. 2. Avaliar os potenciais efeitos do equilíbrio trabalho-família no desenvolvimento de cidades sustentáveis. Tal como referido no capítulo anterior (ver 3.3.1. Entrevista), foram realizadas três entrevistas entre fevereiro e abril de 2024. Os participantes foram selecionados com base no reconhecimento das empresas em práticas empresariais sustentáveis, tendo sido distinguidos em diferentes anos como "Melhores Empresas para Trabalhar em Portugal". Estas entrevistas foram concebidas como uma ferramenta essencial para explorar e compreender as estratégias empresariais orientadas para a sustentabilidade e a sua influência no equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, bem como as influências destes equilíbrios no contexto do desenvolvimento de cidades sustentáveis. Com base no guião de entrevista (presente no Anexo IV) e atendendo aos objetivos da investigação, foi possível delinear uma tabela de análise (tabela 7) para as entrevistas realizadas a dois diretores de recursos humanos e a uma diretora executiva, a partir da qual será estruturada a apresentação dos dados, ilustrada por excertos elucidativas das posições assumidas pelas pessoas entrevistadas em relação a cada uma das categorias e subcategorias consideradas. Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 56 - Categorias Subcategorias Indicadores Avaliar a influência das práticas empresariais no equilíbrio trabalhofamília. Cultura organizacional - Perceção do conceito “cultura organizacional” no contexto do equilíbrio trabalho-família. Flexibilidade e horário de trabalho - Apresentação dos benefícios prestados pela empresa; Trabalho remoto - Descrição dos apoios disponibilizados pela empresa; Políticas de apoio e licença parental - Perceção dos apoios legais prestados a pais dentro das empresas; - Apresentação dos benefícios adicionais oferecidos a colaboradores com filhos dependentes; Benefícios e recursos de bemestar - Referência dos benefícios fornecidos pelas empresas; - Descrição do método de perceção de necessidades dos colaboradores; Desenvolvimento profissional - Explicação dos métodos de desenvolvimento profissional aplicados na empresa; Otimização do equilíbrio trabalho-família - Descrição das ideias de otimização do equilíbrio trabalhofamília na empresa; Avaliar as implicações do equilíbrio trabalhofamília no desenvolvimento sustentável de uma cidade. Transporte sustentável - Perceção dos esforços da empresa para uma promoção de deslocamento sustentável; Desenvolvimento económico e empregabilidade - Referência ao nível de empregabilidade local da empresa; Acesso a educação e desenvolvimento profissional - Descrição da influência do acesso a educação e desenvolvimento profissional no equilíbrio trabalho-família; Envolvimento comunitário e social - Descrição das iniciativas comunitárias e sociais da empresa; Acesso a recursos de bem-estar na cidade - Perceção da empresa aos recursos de bem-estar que a cidade, onde atuam, disponibiliza e promove; Trabalho remoto - Perceção da influência do trabalho remoto na atividade social dos colaboradores; Equilíbrio trabalho-família e o desenvolvimento sustentável - Perceção da opinião das empresas sobre esta influência; Tabela 8. Estrutura de Categorização das Entrevistas (Elaboração Própria) De seguida, apresenta-se, de forma estruturada, os dados obtidos através das entrevistas, para cada uma das subcategorias em análise. Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 57 - 4.1.1. Avaliar a Influencia das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família ▪ Cultura Organizacional ▪ Perceção do conceito “cultura organizacional” no contexto do equilíbrio trabalho-família. Dos três casos analisados, os respondentes propõem diferentes abordagens sobre a forma como as empresas valorizam os seus trabalhadores e procuram criar um ambiente de trabalho equilibrado que tenha em conta o bem-estar pessoal e familiar. A Empresa A centra-se em benefícios que podem ser usufruídos tanto pelos empregados como pelas suas famílias. Isto sugere uma abordagem que vê o empregado no seu contexto familiar e procura oferecer benefícios que também beneficiam a família, indicando um compromisso com a qualidade de vida dentro e fora do local de trabalho. A Empresa B atribui importância ao conceito de “boas pessoas” e considera que estas pessoas trazem consigo um equilíbrio interno. Não existe uma separação rígida entre a vida pessoal e a vida profissional. Ao entrar na empresa, o trabalhador é visto como uma pessoa completa, o que sugere uma cultura de trabalho que valoriza a autenticidade e o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Já a Empresa C reconhece as necessidades pessoais dos seus empregados e entende que isso é fundamental para o seu desempenho no trabalho. A empresa parece estar disposta a adaptar-se às circunstâncias pessoais dos empregados, reconhecendo que o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional é crucial para um elevado desempenho no trabalho. “Valoriza de diversas formas. Muitos dos nossos benefícios os colaboradores podem usufruir juntamente com os seus familiares.” (Emp. A) “Dentro da nossa missão, uma das nossas primeiras causas e valores é encontrar, como te disse, boas pessoas e quando encontramos boas pessoas, são pessoas que têm esse equilíbrio à partida e nós nunca excluímos a ideia de que quando alguém entra na porta de entrada deixa a pessoa que é lá fora e quando entra é um todo.” (Emp. B) “Acredito que sim, temos em consideração as necessidades dos nossos colaboradores e aquilo que pode ser fundamental na sua vida pessoal para que possa estar a 100% na sua hora laboral.” (Emp. C) Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 64 - umas com as outras e não estamos a ser capazes de criar sinergias, fusões e aquisições que permitam às pessoas criar empresas maiores que está provado cientificamente que essas grandes empresas são as que criam maiores salários e maiores salários emocionais e fazem com que as pessoas consigam acompanhar um bem-estar e qualidade de vida tendo, consequentemente, um impacto positivo para as cidades (…) Acho que cabe não só ao governo, como aos municípios, incutir estas fusões e aquisições para que micro pequenas passem a médias e as médias passem a grandes. Assim, talvez consigamos ter, cada vez mais, empresas que consigam pagar salários mais dignos, mais justos e para que as pessoas consigam acompanhar o custo de vida atual.” (Emp. B) “Sendo que o nosso negócio exige a deslocação a nível nacional e internacional dos funcionários, estamos à procura de soluções para melhorar a vida pessoal e laboral dos funcionários. Estamos a estudar a hipótese de melhorar essas deslocações com a família a visitar os trabalhadores deslocados. É uma preocupação que nos trazem regularmente e é algo que estamos a tentar ser flexíveis.” (Emp. C) 4.1.2. Avaliar os Potenciais Efeitos do Equilíbrio Trabalho-Família no Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis ▪ Transporte sustentável ▪ Perceção dos esforços da empresa para uma promoção de deslocamento sustentável; Os três pontos de vista apresentam questões idênticas com argumentos baseados na simplicidade da rotina familiar dos empregados e a redução do impacto ambiental. As Empresas A e C investiram (separadamente) numa linha de transporte público em parceria com a TUB (Transportes Urbanos de Braga) que passa junto ao campus da empresa. Isso indica uma preocupação em facilitar o deslocamento dos funcionários, oferecendo uma alternativa ao uso de veículos particulares e, consequentemente, contribuindo para a redução do trânsito e das emissões de carbono. Já a Empresa B incentiva esta dinâmica de uma outra forma, através da partilha de carros entre os funcionários que vivem perto ou no mesmo caminho. Essa abordagem sugere uma forma prática de reduzir custos e emissões, além de promover uma cultura de colaboração e sustentabilidade entre os funcionários. Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 65 - “Temos uma linha que criamos juntamente com a TUB (Transportes Urbanos de Braga) à uns três ou quatro anos atrás que passa mesmo junto ao campus.” (Emp. A) “Incentivamos constantemente a que todos os funcionários que vivem perto ou no caminho uns dos outros, tentem partilhar carro e despesas o que se torna benéfico.” (Emp. B) “Para facilitar a vida pessoal dos nossos colaboradores e evitar tantas emissões de veículos próprios criamos uma parceria com a TUB (Transportes Urbanos de Braga) para que os nossos colaboradores consigam sair á porta do trabalho.” (Emp. C) ▪ Desenvolvimento económico e empregabilidade ▪ Referência ao nível de empregabilidade local da empresa; As três perspetivas destacam como as empresas se relacionam com as suas comunidades locais e internacionais, e qual é o impacto de sua presença em termos de emprego e desenvolvimento económico. A Empresa A destaca a presença significativa que tem em Braga, mas também refere a sua dispersão por outras regiões nacionais e internacionais. Com mais de 3.000 trabalhadores, a empresa refere o impacto notável na empregabilidade na região norte de Portugal. Isso indica que a empresa é um importante criador de empregos locais e contribui para o crescimento económico da região. Já a Empresa B refere a promoção de oportunidades locais, destacando a prioridade que é dada a filhos e conhecidos dos seus colaboradores ao integrar novos funcionários na empresa. Isso sugere uma abordagem que valoriza a comunidade local e promove a contratação de pessoas com conexões já estabelecidas, contribuindo para uma cultura de trabalho mais próxima e um senso de comunidade. Por último, a Empresa C fornece uma resposta sucinta. No entanto, a sua resposta indicou que a empresa possui operações tanto locais quanto internacionais. Isso sugere uma abordagem de negócios mais ampla, com uma presença diversificada. A empresa, provavelmente, contrata tanto a nível local quanto internacional, promovendo uma mistura de talentos e perspetivas. “Nós temos um maior número de funcionários em Braga, mas digamos que nós estamos dispersos tanto a nível nacional como internacional (…) obviamente temos um impacto na região norte (Portugal) e somos mais de 3000 trabalhadores, portanto já temos algum peso para a empregabilidade da cidade.” (Emp. A) Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 66 - “Enquanto empresa, promovemos oportunidades locais. Além demais, damos prevalência a filhos/conhecidos dos nossos colaboradores para serem integrados na empresa.” (Emp. B) “Locais e internacionais.” (Emp. C) ▪ Acesso a educação e desenvolvimento profissional ▪ Descrição da influência do acesso a educação e desenvolvimento profissional no equilíbrio trabalho-família; As perspetivas sobre este tema ressaltam a importância do acesso à educação e ao desenvolvimento profissional para o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. A Empresa A destaca a importância de apoiar os colaboradores profissionalmente, acreditando que isso terá um impacto positivo também na vida pessoal dos mesmos. Isso sugere uma visão que vê o desenvolvimento profissional como uma ponte para melhorar o equilíbrio trabalho-família, reconhecendo que a satisfação no trabalho pode se refletir em uma vida pessoal mais equilibrada. Já a Empresa B enfatiza que o acesso à educação é fundamental e que as empresas devem proporcionar oportunidades para que os funcionários possam começar ou continuar os seus estudos. A ideia de que essa oportunidade cria maior satisfação pessoal sugere que o desenvolvimento profissional é uma fonte de realização, impactando diretamente o bem-estar dos funcionários. A Empresa C concorda que a progressão e o desejo de aprender mais beneficiam o indivíduo, trazendo satisfação pessoal que, por sua vez, pode ter efeitos positivos no trabalho e na vida pessoal. A empresa acredita que quando um funcionário procura aprender mais e consegue, o mesmo sente-se mais satisfeito, o que contribui para um equilíbrio melhor entre trabalho e vida pessoal. “Acho importantíssimo. (…) se beneficiarmos o colaborador, do ponto de vista profissional, não tenho a menor duvida que o impacto será também na vida pessoal.” (Emp. A) “É fundamental que haja um acesso a educação e que cada vez mais empresas pensem desta forma para possibilitar a todos a oportunidade de começar. Esta oportunidade, este começo, faz com que haja uma maior satisfação pessoal.” (Emp. B) Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 67 - “Tudo o que for progressão irá beneficiar o individuo. Se este tiver disposto ou quer aprender mais acho que deve ser algo que beneficiará o próprio e claro que uma maior satisfação individual irá trazer “benefícios”, se for a palavra certa, tanto para o seu trabalho como para a sua vida pessoal.” (Emp. C) ▪ Envolvimento comunitário e social ▪ Descrição das iniciativas comunitárias e sociais da empresa; As perspetivas apresentadas revelam o envolvimento das três empresas em atividades de responsabilidade social, demonstrando os seus compromissos com a comunidade e a inclusão social. A Empresa A encontra-se envolvida em várias atividades sociais, como o banco alimentar, projetos para pessoas com dificuldades cognitivas e motoras, e um programa para acolher jovens refugiados para estágios após o horário escolar. A empresa adota uma abordagem inclusiva, promovendo oportunidades para grupos marginalizados e proporcionando experiências positivas que podem levar a emprego na empresa. Isso sugere uma forte responsabilidade social e um compromisso em criar impacto positivo na sociedade. Já a Empresa B participa em diversas atividades de responsabilidade social, incluindo o banco alimentar, a Cruz Vermelha, reciclagem, recolha de roupas usadas pelos colaboradores e uma parceria com a APPACDM (Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental). Essa abordagem diversificada demonstra um envolvimento ativo em várias áreas de responsabilidade social, indicando um compromisso abrangente com a comunidade e a sustentabilidade. Por fim, a Empresa C está envolvida em atividades com a Cruz Vermelha e outras instituições do mesmo género. Embora a resposta seja menos detalhada, sugere um envolvimento em programas de responsabilidade social, provavelmente com foco em assistência humanitária e apoio a grupos vulneráveis. “Sim, temos como atividade o banco alimentar (…) um projeto, que terminou á pouco tempo, em que admitíamos pessoas com dificuldades cognitivas e motoras para estagiar nas nossas instalações. No final, alguns dos participantes, acabaram a ser nossos colaboradores e, portanto, considero que o projeto foi um sucesso (…) temos um programa com a Cruz Vermelha em que acolhemos jovens refugiados depois do horário escolar para que possam ter uma experiência, em primeira mão, com o mercado de trabalho.” (Emp. A) Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 68 - “Estamos envolvidos de diversas formas. Com o banco alimentar, cruz vermelha, reciclagem, recolha de roupas que os colaboradores já não usam, uma parceria com a APPACDM, entre outros.” (Emp. B) “Sim, temos com a cruz vermelha e outras instituições do mesmo género.” (Emp. C) ▪ Acesso a recursos de bem-estar na cidade ▪ Perceção da empresa aos recursos de bem-estar que a cidade, onde atuam, disponibiliza e promove; As três perspetivas refletem o grau em que as empresas estão conscientes e envolvidas com os recursos de bem-estar que a cidade, onde operam, proporciona e promove. A Empresa A assume que não tem conhecimento ou dados suficientes para responder à questão sobre os recursos de bem-estar disponibilizados pela cidade. Isto sugere que a empresa pode não estar particularmente envolvida ou informada sobre as iniciativas da Câmara Municipal e de outras instituições da cidade relacionadas com o bem-estar. Pode também indicar que a empresa não tem uma relação próxima ou uma comunicação ativa com as autoridades locais sobre estas questões. Contrariamente, a empresa B refere que recebe atualizações da Câmara Municipal com alguma regularidade e divulga-as quando necessário. Isto sugere uma comunicação mais ativa entre a empresa e as autoridades municipais, indicando que a empresa está, em certa medida, envolvida com os recursos de bem-estar promovidos pela cidade. A divulgação desta informação dentro da empresa mostra que a empresa B faz um esforço para partilhar informação relevante com os seus trabalhadores. Adicionalmente, consideram importante: “Tudo aquilo que uma cidade possa dar a um individuo, vai sempre ter um impacto na vida das pessoas e o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional das mesmas.” Já a Empresa C tem conhecimento sobre a cidade ter programas de bem-estar, mas não sabe pormenores para partilhar. No entanto, a empresa tenta divulgar as informações de que tem conhecimento no local de trabalho aos funcionários interessados. Isto indica um nível de sensibilização para as iniciativas da cidade, mas talvez sem um envolvimento profundo ou pormenorizado. “Não consigo responder a essa pergunta. Como é uma questão muito relacionada com a Câmara Municipal da cidade, acaba por ser algo que não tenho dados ou conhecimento para poder falar sobre o assunto.” (Emp. A) Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 69 - “Recebemos com alguma regularidade, através da câmara municipal, algumas atualizações sobre diversos assuntos. Quando há algum que seja necessário divulgar, assim o fazemos.” (Emp. B) “Sei que a cidade tem alguns programas relativos ao bem-estar, mas agora, neste momento, não sei descrever. Os que sabemos tentamos divulgar dentro do nosso meio laboral para os que tenham interesse.” (Emp. C) ▪ Trabalho remoto ▪ Perceção da influência do trabalho remoto na atividade social dos colaboradores; Estas perspetivas sugerem que as empresas têm diferentes níveis de conhecimento e perceção em relação ao impacto do trabalho remoto na atividade social dos colaboradores. A Empresa A não tem informações suficientes para responder à questão sobre o efeito do trabalho remoto na atividade social dos colaboradores. Isso indica que a empresa não tem realizado pesquisas ou investigações para entender como o trabalho remoto pode impactar a interação social entre os funcionários. A falta de dados sugere que o efeito do trabalho remoto nessa dimensão não é uma preocupação central para a empresa. Tal como a Empresa A, a Empresa B não tem conhecimento de algum colaborador ficar mais introvertido devido ao trabalho remoto. A maioria dos colaboradores desta empresa aparentemente preferem trabalhar no escritório, o que pode indicar que o trabalho remoto não é tão comum ou que existe um incentivo para os colaboradores irem ao escritório, onde podem interagir socialmente. Por fim, a Empresa C também não tem relatos do impacto do trabalho remoto na atividade social dos colaboradores. Assim como a Empresa A, não parece ter realizado investigações ou recebido feedback significativo sobre possíveis mudanças no comportamento social dos funcionários devido ao trabalho remoto. “Não tenho base para lhe poder responder. Teria de ser uma questão direcionada aos colaboradores e não é algo que tenhamos feito.” (Emp. A) “Penso que não tenho conhecimento de nenhum colaborador ficar mais introvertido com o trabalho remoto. Grande parte deles vêm todos para o escritório.” (Emp. B) Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 70 - “Não tenho conhecimento de alguma vez ter acontecido isso com um colaborador.” (Emp. C) ▪ Equilíbrio trabalho-família e o desenvolvimento sustentável ▪ Perceção da opinião das empresas sobre esta influência; Estas três perspetivas destacam a importância do equilíbrio entre trabalho e família, bem como a relação entre empresas, cidades e o bem-estar das pessoas. A Empresa A reconhece que o equilíbrio trabalho-família é fundamental para a saúde dos negócios, a competitividade das regiões e a sustentabilidade em geral. Quando as empresas criam um ambiente favorável ao bem-estar dos colaboradores, isso afeta positivamente a economia local, retém talentos e contribui para a sustentabilidade social, económica e ambiental. O desenvolvimento sustentável de uma cidade depende de políticas que promovam esse equilíbrio, e as empresas têm um papel central nesse processo. “Claro que sim. Obvio que sim. O equilíbrio tem de existir. (…) Eu acho que as empresas têm um papel fundamental até porque tudo se reflete no ambiente e no espaço em que a gente habita e coabita com outros. Então, criar um meio, um ambiente que seja favorável aos negócios traz competitividade para as regiões então eu acho que nós (empresas) devemos incentivar, ter políticas, ser exemplo para os outros e criar um ambiente que seja favorável para todos e que retenha talentos, porque caso contrário a economia não irá funcionar pela falta de gente. E sendo os negócios, as empresas, feitas de gente, todos sofremos se a nossa mão-de-obra não estiver bem. Assim, as empresas são afetadas, as economias das cidades ficam, também, afetadas e todos os setores da sustentabilidade (social, económico e ambiental) são prejudicados. Se o bem-estar das pessoas influencia a sustentabilidade e o equilíbrio trabalho-família faz parte desse bem-estar, logicamente o desenvolvimento sustentável de uma cidade depende também do equilíbrio trabalho-família que as empresas podem minimizar e o apoio da cidade também.” (Emp. A) Já a Empresa B reflete sobre o facto de o crescimento e o desenvolvimento de uma cidade estarem intrinsecamente ligados ao equilíbrio trabalho-família e aos incentivos de governos e municípios. A falta de incentivo pode levar ao declínio dos negócios e afetar a continuidade do desenvolvimento económico. O comentário sugere um ecossistema interdependente, onde empresas e cidades devem trabalhar juntas para apoiar as pessoas e fomentar a sustentabilidade. Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 71 - “Eu acho que está intrinsecamente ligado. A cidade que não vir isso, é uma cidade que não vai crescer, não se vai desenvolver. (…) Muitos negócios acabam em Portugal á custa da falta de incentivo dos governos e municípios. (…) Portanto, isto significa que, se calhar, daqui a uns tempos não vamos ter certos negócios (…) Tudo isto porque as câmaras municipais que trabalham para escolas profissionais não fomentam essa continuidade e isso é um problema de responsabilidade social que afeta, logicamente, o desenvolvimento da cidade. (…) Depende das cidades ajudar as empresas. Depende de as empresas ajudar as pessoas. Depende de as empresas ajudar as cidades. E depende de as cidades ajudar as pessoas. É todo um ecossistema.” (Emp. B) Por fim, a Empresa C enfatiza que o equilíbrio trabalho-família afeta diretamente a qualidade de vida das pessoas, incentivando-as a se envolverem em atividades ao ar livre e em iniciativas que promovem a diversidade e a interação social. O equilíbrio entre tempo e dinheiro também influência a qualidade de vida tanto online quanto offline . Esse equilíbrio gera um impacto positivo na saúde mental e física dos funcionários, o que, por sua vez, beneficia a comunidade como um todo. “Acredito que, direta ou indiretamente, deve existir um impacto. Quando as pessoas têm mais tempo livre ou maior controlo sobre as horas de trabalho e de família, tendem a se envolver mais em atividades ao ar livre, frequentar espaços públicos e participar de iniciativas que promovem qualidade de vida junto das suas famílias. Esse equilíbrio contribui para maior diversidade nas comunidades, com as pessoas passando mais tempo com atividades recreativas e sociais, como ir a restaurantes e explorar cidades. Além disso, o equilíbrio entre tempo e dinheiro influencia a qualidade de vida online e offline. Com mais tempo livre, as pessoas tendem a ser mais ativas, promovendo sua saúde mental e física. Isso traduz-se em mais iniciativas locais, corridas e atividades promovidas por associações e organizações sociais. No final, acredito que esse equilíbrio tem um impacto positivo, trazendo mais sanidade mental e física às pessoas, além de fomentar interações sociais e uma maior participação nas comunidades.” (Emp. C) Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 72 - CAPÍTULO 5. DISCUSSÃO DE RESULTADOS Durante a discussão dos resultados, procura-se responder aos objetivos definidos na introdução desta dissertação, recorrendo à ligação entre os resultados obtidos e os conceitos teóricos examinados (Lima et al., 2006). Face ao tema que inicialmente se propôs estudar – a influência das práticas empresariais sustentáveis no equilíbrio trabalho-família e as suas implicações para a criação de ecossistemas sustentáveis – foram contactadas diversas empresas dentro do ranking de “Melhores Empresas Para Trabalhar em Portugal” pois o foco principal era perceber de que forma as maiores empresas ou as com um maior reconhecimento dos métodos de trabalho aplicados respondia e visualizava o tema em estudo. Desta forma, através de uma abordagem de estudo de cado, foram realizadas as entrevistas semi-estruturadas sobre a influência das práticas empresariais no equilíbrio trabalho-família e as implicações deste equilíbrio no desenvolvimento sustentável de uma cidade. Numa primeira análise, através de uma avaliação da influência das práticas empresariais no equilíbrio trabalho-família, são abordadas diferentes perspetivas. No que diz respeito à cultura organizacional, cada empresa adota abordagens diferentes para promover um ambiente de trabalho equilibrado, tendo também em conta o bem-estar pessoal e familiar dos trabalhadores. A empresa A dá ênfase a benefícios que abrangem não só os empregados, mas também as suas famílias, enquanto a empresa B valoriza a integridade pessoal dos empregados e a empresa C reconhece e adapta-se às necessidades pessoais dos seus empregados. Tal como Thompson et al. (1999), e Holly e Mohnen (2012) argumentam são estes aspetos que são considerados importantes na cultura organizacional de uma empresa que não só afeta o comportamento e vida dos trabalhadores como também influencia o sucesso empresarial. Relativamente à flexibilidade e aos horários de trabalho, as empresas oferecem, também, abordagens distintas. A empresa A dá prioridade à flexibilidade para que os trabalhadores possam gerir eficazmente as suas responsabilidades profissionais e pessoais. A empresa B adota uma política de “máxima responsabilidade, máxima liberdade”, dando aos empregados autonomia dentro de um certo nível de estrutura. Entretanto, a empresa C mantém horários fixos devido à natureza das suas atividades e à sua dispersão geográfica. Como Molly e Mohnen (2012) argumentam, uma maior sensação de controlo e gestão do horário de trabalho leva, potencialmente, a uma maior satisfação com o local de trabalho e mesmo pessoal. No que diz respeito ao trabalho remoto, as empresas variam na sua abordagem. A empresa A apoia amplamente o teletrabalho, disponibilizando os recursos necessários para o efeito, enquanto a empresa B e a empresa C têm abordagens mais restritas, oferecendo apoio, mas para determinadas circunstâncias ou limitando Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 73 - o teletrabalho a determinados dias. De acordo com o estudo de Holly e Mohnen (2012), os horários de trabalho flexíveis também diminuem a satisfação em comparação com os horários de trabalho estritamente fixos o que sugere que, comparando as três empresas, nenhuma age propriamente mal. Todas optam por gerir de formas distintas o negócio consoante o tipo de atividade o que, por sua vez, sugere alguma compreensão às necessidades de colaboradores. No que respeita às políticas de apoio e licença parental, as empresas demonstram diferentes níveis de compromisso com o bem-estar dos trabalhadores e das suas famílias. A Empresa A e a Empresa B oferecem uma variedade de benefícios e apoios, indo para além do que é legalmente exigido, enquanto a Empresa C dá prioridade ao cumprimento das políticas legais, embora também ofereça apoio adicional em determinados casos. O equilíbrio trabalho-família ainda é visto apenas como um aspeto ligado á satisfação pessoal de um individuo e a existência dos mínimos recursos, dependendo de diversos fatores sociodemográficos, pode ser o necessário e ser bastante satisfatório para o indivíduo como é argumentado por Gregory e Milner (2011). No entanto, a perspetiva das empresas entrevistadas, indica que as necessidades dos funcionários vão para além do legalmente exigido o que não só fornece satisfação ao individuo, mas contribui para evolução do mínimo que fazem numa sociedade por uma mãe e pai. Por fim, as empresas investem em benefícios e recursos de bem-estar, programas de desenvolvimento profissional e estratégias para otimizar o equilíbrio entre trabalho e família, cada uma com abordagens e visões específicas sobre como melhorar a qualidade de vida dos seus colaboradores. Estes benefícios e recursos têm uma evolução histórica que advém de diversos obstáculos enfrentados para atingir aquilo que deveria ser o mínimo que uma empresa fornece aos seus trabalhadores (Buddhapriya, 2009). É evidente que alguns recursos e benefícios são acima da média, mas o foco e os valores são direcionados para o mínimo que deve ser exigido, ou seja, o bem-estar de um funcionário não como um mero trabalhador, mas como um ser humano que merece a sua valorização e reconhecimento de necessidades para um bem-estar individual. Numa segunda análise, a partir da avaliação das implicações do equilíbrio trabalho-família no desenvolvimento sustentável de uma cidade foi proposto perceber a posição de cada empresa e perceber num todo o pensamento das empresas para um futuro próspero. As empresas reconhecem a importância do equilíbrio entre trabalho e vida pessoal não apenas para o bem-estar dos funcionários, mas também para o desenvolvimento sustentável das comunidades onde operam, refletindo os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 8 e 11. Isso é evidente nas abordagens adotadas para promover transporte sustentável, desenvolvimento económico local, acesso à educação e desenvolvimento profissional, envolvimento comunitário e social, e conscientização sobre recursos de bem-estar na cidade. Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 80 - 6.1. Limitações e Estudos Futuros Este é um estudo de cariz exploratório e, apesar dos esforços, o número limitado de entrevistas realizadas com apenas três das melhores empresas para trabalhar em Portugal restringiu a diversidade de perspetivas e práticas capturadas. Além disso, a amostra não probabilística e de conveniência, baseada na reputação das empresas, pode ter introduzido um viés de seleção, limitando a generalização dos resultados para além dessas organizações. A falta de diversidade setorial também é uma consideração importante, pois as empresas selecionadas podem não ser representativas de todos os setores da economia portuguesa. Ademais, a dependência exclusiva de autorrelatos nas entrevistas pode ter exposto a pesquisa à subjetividade na análise e ao risco de não considerar completamente todos os fatores externos que influenciam as práticas empresariais e o equilíbrio trabalho-família. Essas limitações destacam a necessidade de abordagens metodológicas mais abrangentes e críticas para futuras pesquisas nesta área, a fim de fornecer uma compreensão mais holística e precisa das dinâmicas entre as práticas empresariais, o bem-estar dos funcionários e o desenvolvimento sustentável das cidades. Tendo em conta as limitações desta investigação, recomenda-se uma abordagem mais abrangente que tenha em consideração uma variedade de setores industriais, tamanhos de empresas e regiões geográficas em Portugal. Isso poderia ajudar a obter uma visão mais completa e representativa das práticas empresariais relacionadas ao equilíbrio trabalho-família e ao desenvolvimento sustentável das cidades. Além disso, seria benéfico utilizar métodos de pesquisa mista que combinem a dimensão qualitativa com análises quantitativas, como pesquisas de funcionários e análise de dados organizacionais (por exemplo, questionários). Isso permitiria uma compreensão mais profunda das perceções e experiências dos funcionários, bem como uma avaliação mais objetiva das políticas e práticas das empresas. Também seria útil investigar o impacto específico de diferentes iniciativas de equilíbrio trabalho-família nas métricas de sustentabilidade das cidades, como transporte, empregabilidade local, desenvolvimento económico e bem-estar comunitário. Essas recomendações podem contribuir para uma pesquisa mais abrangente e informada sobre este tema relevante. Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 81 - Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 82 - CAPÍTULO 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Adelman, S. (2018). The Sustainable Development Goals, anthropocentrism and neoliberalism. In Sustainable Development Goals: Law, Theory and Implementation . https://doi.org/10.4337/9781786438768.00008 Albuquerque, C. 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Family-friendly policies, supervisor support and job satisfaction: mediating effect of workfamily conflict. Vilakshan - XIMB Journal of Management , 20 (1). https://doi.org/10.1108/xjm-02-2021-0050 Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 96 - 8.4. Anexo IV – Guião de Entrevista Objetivo Autores Temas Questões Avaliar a influência das práticas empresariais sobre o equilíbrio trabalho-família. (Thompson et al., 1999) Cultura organizacional - Na sua opinião, a cultura organizacional da empresa valoriza o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal? (Holly & Mohnen, 2012) Flexibilidade e horário de trabalho - De que forma as políticas de flexibilidade de horário de trabalho afetam o equilíbrio trabalhoFamília? (Holly & Mohnen, 2012) Trabalho remoto - Se aplicável, a empresa fornece recursos e suporte adequados para facilitar o trabalho remoto dos colaboradores? (Gregory & Milner, 2011) Políticas de licença e apoio à parentalidade - Quais são e de que forma avalia as políticas de licença e apoio à parentalidade oferecidas pela empresa? (Thompson et al., 1999) Benefícios e recursos de bemestar - Há alguma prática que a empresa adote para minimizar o stress relacionado com o trabalho? - De uma forma global, a empresa promove iniciativas especificas para melhorar o bem-estar dos funcionários? (Buddhapriya, 2009) Desenvolvimento profissional - A empresa promove oportunidades de desenvolvimento profissional? - Como é que a empresa avalia que o desenvolvimento profissional influência o equilíbrio trabalho-família? - Existem áreas especificas que acredita que podem ser melhoradas para otimizar o equilíbrio? Desenvolvimento de Cidades Sustentáveis: A Influência das Práticas Empresariais no Equilíbrio Trabalho-Família e as Suas Implicações Para a Criação de Ecossistemas Sustentáveis. - 97 - Objetivo Autores Temas Questões Avaliar as implicações do equilíbrio trabalhofamília no desenvolvimento sustentável de uma cidade. (Wheatley, 2012) Transporte sustentável - A empresa incentiva, de alguma forma, o uso de transportes públicos? - Acredita que o equilíbrio trabalho-família pode ser afetado pelo transporte disponível na cidade? (Pelsa & Balina, 2022) Desenvolvimento económico e empregabilidade - A empresa promove oportunidades de emprego locais? (Wals & Kieft, 2010) Acesso a educação e desenvolvimento profissional - Do ponto de vista da empresa, como vê a influencia do acesso a oportunidades educacionais e de desenvolvimento profissional no equilíbrio trabalho-família? Considera importante? (Khair et al., 2020) Envolvimento comunitário e social - De que forma a empresa está envolvida em atividades comunitárias e sociais? (Sopiana & Harahap, 2023) Acesso a recursos de bem-estar na cidade - A empresa tem conhecimento sobre a disponibilidade de recursos de bem-estar na cidade? Se sim, divulgam? (Mosquera et al., 2022) Trabalho remoto - Tem conhecimento da forma como o trabalho remoto possa ter impedido a atividade social dos colaboradores? - Acredita que as novas práticas de trabalho estão relacionadas com a promoção do desenvolvimento sustentável das cidades?