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Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Pedro Botelho Almeida Contributo para o estudo do megalitismo no noroeste de Portugal. Estudo Monográfico da Mamoa de Leira das Mamas, Braga janeiro de 2024 Contributo para o conhecimento do megalitismo no noroeste de Portugal. Estudo Monográfico da Mamoa de Leira das Mamas, Braga Pedro Botelho Almeida UMinho | 2024
Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Pedro Botelho Almeida Contributo para o estudo do megalitismo no noroeste de Portugal. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas, Braga Dissertação de Mestrado Mestrado em Arqueologia Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Ana Maria dos Santos Bettencourt janeiro de 2024
Direitos de autor e condições de utilização do trabalho por terceiros Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
iii Agradecimentos Agradeço, em primeiro lugar, a valiosa orientação proporcionada pela minha orientadora, a Professora Doutora Ana Maria dos Santos Bettencourt. Sem a sua incansável ajuda, este trabalho não teria sido possível. Demonstrando disponibilidade diária e preocupação em auxiliar, seja fornecendo informações bibliográficas ou facilitando os meios para o estudo deste monumento, expresso o meu profundo agradecimento por todo o suporte oferecido ao longo desta extensa etapa académica. Expresso, também, a minha gratidão aos colegas arqueólogos, alunos de doutoramento, Nuno Oliveira e Luciano Vilas Boas. Agradeço ao Nuno pela colaboração na realização da cartografia, com o apoio do Ricardo Oliveira, ao qual também estou grato. Ao Luciano, os meus agradecimentos pela contribuição na discussão de dados e sugestão de bibliografia relacionada com o megalitismo. Não posso deixar de agradecer ao Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga pela disponibilização de documentos, fotografias, plantas e desenhos das escavações. No estudo dos materiais arqueológicos, reconheço a importância da colaboração de toda a equipa do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa. Em especial, à sua diretora, Dr.ª Alexandra Cerveira Lima, pela concessão das melhores condições e meios que facilitaram o estudo do material. Agradeço à Clara Lobo pela constante ajuda e disponibilidade, à Maria Felismina Vilas Boas pela digitalização dos desenhos e fornecimento de materiais sobre o monumento e ao Manuel Santos pelas fotografias. Estendo os meus agradecimentos à Isabel Marques pela disponibilização do relatório de escavação e pelo relato oral dos trabalhos arqueológicos, e, por fim, ao João Alves pelo relato oral dos acontecimentos ocorridos na Mamoa, os quais testemunhou de perto. Um agradecimento especial é dirigido a Amélia Marques, cuja contribuição na realização de muitos dos desenhos arqueológicos foi essencial. Além da sua ajuda, nesta parte fundamental do trabalho, agradeço-lhe a paciência, o auxílio, a companhia e os conselhos partilhados. O meu sincero obrigado por nunca desistir do meu trabalho e por acreditar na sua conclusão. Ao Doutor Luís Gonçalves, do Departamento de Ciências da Terra da Universidade do Minho, agradeço a classificação litológica dos artefactos e depósitos líticos. Ao Doutor Pedro Horta, expresso o meu agradecimento pela ajuda na classificação de alguns utensílios líticos. Aos amigos Carolina Almeida, Mariana Lima, Lília Costa, José Lopes e Fábio Carvalho, agradeço pelo constante apoio. Um agradecimento especial ao Fábio Carvalho pela colaboração
iv no tratamento geográfico de alguns mapas deste trabalho. Manifesto, também, a minha gratidão ao meu grande amigo Gonçalo Freitas, colega de mestrado e companheiro em todo este percurso académico. Agradeço, por fim, a toda a minha família, especialmente aos meus pais, pelo esforço e trabalho que tornaram possível a conclusão dos meus estudos académicos, por nunca desistirem de mim e por acreditarem e confiarem no meu sonho de ser arqueólogo. Para a minha companheira, Jéssica Custódio, um dos grandes pilares deste trabalho, num ano desafiador, nunca desistindo e sempre me incentivando a alcançar os meus objetivos, um eterno obrigado.
v Declaração de Integridade Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
vi Resumo Este trabalho tem como objetivo contribuir para o conhecimento do megalitismo no noroeste de Portugal, através do estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas. Este é um monumento megalítico provido de montículo, localizado na freguesia de Lamas, em Braga. Encontra-se implantado numa zona de baixa altitude muito próxima de um importante curso de água, tendo sido descoberto em 1993 durante as obras de uma urbanização. Após este facto foi alvo de duas intervenções arqueológicas e de uma campanha de restauro. Na realização do nosso trabalho, recorremos aos dados das escavações efetuadas em 1993 e à segunda em 1997, assim como ao resultado apresentado em 2000 através do restauro do monumento, que foi efetuado no fim do ano de 1999. O conjunto de dados e o deposito do espólio, no Museu D. Diogo de Sousa, em Braga, permitiu estudar o monumento como um todo. Trata-se de um grande monumento, com cerca de 34 m de diâmetro e altura provável de cerca de 2 m. Tinha, provavelmente, uma câmara poligonal fechada, com um piso composto por blocos e calhaus consolidados com sedimentos arenosos e esteios pintados. O seu montículo era em terra. O espólio, cerâmico e lítico, era abundante. Posteriormente, o monumento foi integrado no contexto regional e do Noroeste. Tal inter-relação permitiu chegar a conclusões cronológicas, nomeadamente a sua inserção na primeira metade do IV milénio a.C. Para além disso conseguimos detetar reutilizações do monumento ou revisitações no Calcolítico (com reservas), na Idade do Bronze, na época Romana e Medieval. Por fim é importante referir que o estudo monográfico deste monumento é o primeiro para monumento neolíticos funerários no conselho de Braga e o segundo, na bacia do Ave, o que mostra a elevada importância deste trabalho para o conhecimento do megalitismo regional. Palavras-Chave: Noroeste de Portugal, Megalitismo funerário, Neolítico, Bacia do Ave.
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xiv LISTA DE FIGURAS Figura 1: Estrato da Carta Militar de Portugal, folha 70 na escala 1:25 000. (Braga, Lisboa: Instituto Geográfico do Exército, abril de 1997).......................................................................... 25 Figura 2: Extrato da Carta Geológico de Portugal, nº 5-D, na escala 1: 50 000, com a localização do monumento megalítico e dos anfibolitos. (2ªedição – Instituto Geológico e Mineiro, 2000) ......................................................................................................................................... 27 Figura 3: Topografia do concelho de Braga com localização do monumento (elaborado por Fabio Carvalho, 2023) ............................................................................................................... 28 Figura 4: Visibilidade até 10 km a partir da Mamoa de Leira das Mamas (Elaborado por Nuno Oliveira, 2024) ........................................................................................................................... 29 Figura 5: Visibilidade da envolvente a partir da Mamoa de Leira das Mamas, nordeste (Monte da Falperra) (Fotografia fornecida pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor João Alves) ................ 29 Figura 6: Mapa de sítios arqueológicos do Neolítico no concelho de Braga e do Vale do Rio Neiva (Elaborado por Fábio Carvalho e Pedro Almeida, 2023). .................................................. 30 Figura 7: Fotografia de 1993 da raiz da árvore que estava inserida no centro do montículo (Fotografia fornecida pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor João Alves). ................................... 33 Figura 8: Fotografia de 1993 onde observamos os esteios da câmara do monumento deslocados (Fotografia fornecida pelo Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga, autor desconhecido)................................................................................................................... 34 Figura 9: Notícia sobre a descoberta do monumento no Diário de Notícias, de 28 de fevereiro de 1993 (Imagem retirada de Silva, 1997). ............................................................................... 35 Figura 10: Planta da zona do monumento com área intervencionada em 1993 de acordo com a quadricula apresentada em 1997 (Departamento de Planeamento e ordenamento-DPA da Câmara Municipal de Braga, adaptada). .................................................................................... 36 Figura 11: Fotografia de 1993 onde verificamos a abertura, no sentido sul-norte, efetuada pela máquina e que corresponde à dita sanja norte-sul intervencionada por Orlando Sousa (Fotografia fornecida pelo Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga, autor desconhecido, adaptada). .......................................................................................................... 37 Figura 12: Distribuição do espólio por matéria-prima genérica, da primeira fase de escavação. .................................................................................................................................................. 38
xv Figura 13: Gráfico da distribuição do tipo de pasta do espólio cerâmico neolítico, da primeira fase de escavação. ..................................................................................................................... 40 Figura 14: Distribuição do estado da superfície da cerâmica pré-histórica .......................... 40 Figura 15: Gráfico da distribuição da coloração do espólio cerâmico proveniente da primeira fase de escavação ...................................................................................................................... 41 Figura 16: Exemplo de recipientes de bordo reentrante com decoração incisa (Peça 1 - 1996_0077; Peça 2 - 1996_0078; Peça 3 – 1996_0081) (Desenhos e tratamento gráfico de Amélia Marques) ........................................................................................................................ 42 Figura 17: Exemplos de recipientes de bordos abertos com decoração impressa e incisa (Peça 1 – 1996_0080; Peça 2 – 1996_0079) (Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques). .. 43 Figura 18: Exemplo de recipientes de bordo vertical (2017_0104) (Desenho e tratamento gráfico de Pedro Almeida). ......................................................................................................... 43 Figura 19: Fragmentos com decoração proveniente da primeira fase de escavação. Da esquerda para a direita e de cima para baixo: pança com incisões oblíquas (2018_0024); bordo com sulcos incisos sob (2017_0103) o bordo e motivos em forma de crescentes (1996_0079) (Fotografias de Manuel Santos; desenho de Aléssia Barbosa e tratamento gráfico de Pedro Almeida)..................................................................................................................................... 45 Figura 20: Fragmento da Idade do Bronze proveniente da primeira fase de escavação (2017_0103) (Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida)................ 46 Figura 21: Fragmento de forma aberta da Idade do Bronze? (2017_0105) (Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida) ...................................................................... 46 Figura 22: Distribuição do espólio lítico da primeira intervenção por tipo de fabrico. .......... 47 Figura 23: Gráfico da distribuição das bases das pontas de seta da primeira intervenção. . 49 Figura 24: Pontas de seta de base pedunculada provenientes da primeira fase de escavação. Parte1 (Fotografias de Manuel Santas; Desenhos de Pedro Almeida e tratamento gráfico de Amélia Marques) ................................................................................................................................... 51 Figura 25: Pontas de seta de base pedunculada provenientes da primeira fase de escavação. Parte2 (Fotografias de Manuel Santas; Desenhos de Pedro Almeida e tratamento gráfico de Amélia Marques) ................................................................................................................................... 52 Figura 26: Pontas de seta de base triangular provenientes da primeira fase de escavação (Fotografias de Manuel Santos; Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques) .................. 55
xvi Figura 27: Pontas de seta de base triangular provenientes da primeira fase de escavação (Fotografias de Manuel Santos; Desenho e tratamento gráfico de Ana Palma) ........................... 56 Figura 28: Pontas de seta de base convexa provenientes da primeira fase de escavação. Parte 1 (Fotografias de Manuel Santos; Desenho de Pedro Almeida e tratamento gráfico de Amélia Marques). .................................................................................................................................. 58 Figura 29: Pontas de seta de base convexa provenientes da primeira fase de escavação. Parte 2 (Desenho de Pedro Almeida e tratamento gráfico de Amélia Marques). .................................. 59 Figura 30: Ponta de seta de base reta proveniente da primeira fase de escavação (Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques; Fotografia de Manuel Santos). ...................................... 60 Figura 31: Ponta de seta de Base indeterminada proveniente da primeira fase de escavação (Fotografia de Manuel Santos) ................................................................................................... 60 Figura 32: Distribuição da matéria-prima usada no fabrico das pontas de seta da primeira intervenção ................................................................................................................................ 61 Figura 33: Tipos de sílex nas pontas de seta da primeira fase. (Peça 9, rosado opaco; Peça 11, cinza opaco; Peça 20, castanho semitranslúcido; Peça 32, rosado semitranslúcido) (Fotografias de Manuel Santos). ................................................................................................. 61 Figura 34: Ponta de seta em quartzo proveniente da primeira fase (Fotografia de Manuel Santos) ...................................................................................................................................... 62 Figura 35: Relação da matéria-prima com o estado das pontas de seta da primeira intervenção .................................................................................................................................................. 63 Figura 36: Gráfico da distribuição das formas das pontas de seta da primeira intervenção 63 Figura 37: Distribuição das secções das pontas de seta da primeira intervenção. .............. 64 Figura 38: Distribuição do tipo de bordo das pontas de seta da primeira intervenção ........ 65 Figura 39. Representação gráfica das lâminas provenientes da primeira fase de escavação parte 1 (Desenho e tratamento gráfico de Amelia Marques). ..................................................... 69 Figura 40: Representação gráfica das lâminas provenientes da primeira fase de escavação (peça 5 desenho de Pedro Almeida e tratamento gráfico de Amélia Marques e peça 6 desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques) ..................................................................................... 70 Figura 41: Representação gráfica dos raspadores/raspadeiras provenientes da primeira fase de escavação (Desenho de Pedro Almeida e tratamento gráfio de Amelia Marques).................. 71
xvii Figura 42: Possível fragmento de punhal em sílex avermelhado semitranslúcido proveniente da primeira fase de escavação (Fotografia de Manuel Santos; Desenho de Pedro Almeida e tratamento gráfico de Amelia Marques). .................................................................................... 72 Figura 43: Lascas provenientes da primeira fase (Fotografias de Manuel Santos; Desenhos de Pedro Almeida e tratamento gráfico de Amélia Marques) ........................................................... 74 Figura 44: Esquirola proveniente da primeira fase (Fotográfica de Manuel Santos) ............ 75 Figura 45: Enxó 1 e 2 proveniente da primeira fase de escavação (Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques) ....................................................................................................... 76 Figura 46: Enxó 3 proveniente da primeira fase de escavação (Desenho e tratamento gráfico de Alésia Barbosa) ..................................................................................................................... 77 Figura 47: Machado de pedra polida em anfibolito 1 proveniente da primeira fase de escavação (Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques) ................................................. 78 Figura 48: Machado de pedra polida em anfibolito 2 proveniente da primeira fase de escavação (Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques) ................................................. 79 Figura 49: Machado de pedra polida em silimanite, proveniente da primeira fase de escavação (Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida). ..................................... 79 Figura 50: Polidor de aplito (Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques; Fotografia de Manuel Santos) .......................................................................................................................... 81 Figura 51: Placa gravada em granito de grão fino (Fotografia de Manuel Santos; Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida). .......................................................... 81 Figura 52: Percutor em quartzo leitoso (Fotografia de Manuel Santos) ............................... 82 Figura 53: Seixo anguloso de quartzo semitranslúcido (Fotografia de Manuel Santos) ........ 83 Figura 54: Seixo anguloso e seixo rolado de praia (?) (Desenho e tratamento gráfico de Pedro Almeida e Fotografia de Manuel Santos) .................................................................................... 83 Figura 55: Seixos de granito de grão fino, grosseiramente antropomorfos (ídolos?) (Fotografia de Manuel Santos e desenho de Amélia Marques com tratamento gráfico de Pedro Almeida) ... 84 Figura 56: Planta da zona do monumento com área intervencionada em 1997 de acordo com a quadricula apresentada em 1997 e o registo fotográfico (Departamento de Planeamento e ordenamento-DPA da câmara municipal de Braga, adaptada) ................................................... 85 Figura 57: Sondagem na escavação da segunda fase Sanja este-oeste. (Fotografia fornecida pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor João Alves). .................................................................... 86
xviii Figura 58: Quadrícula com quadrados de 2 m de lado (Silva, 1997). De salientar que não estão representados todos os quadrados escavados.................................................................. 87 Figura 59: Vista de cima dos esteios e da pedra retangular, onde podemos verificar o afeiçoamento do topo do esteio da esquerda bem como "o invulgar ressalto elíptico" (Silva 1997). .................................................................................................................................................. 90 Figura 60: Esteios "in situ", localizados nos quadrados A10 e N10. (Fotografia da segunda fase de escavação fornecida pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor desconhecido). .................. 91 Figura 61: Desenho da planta do topo dos esteios nos quadrados A10 e N10, onde é visível o contraforte, in situ, p por detrás do esteio 1 (Desenho de Teresa Fonseca, em Silva, 1997, vetorizado por Pedro Almeida). .................................................................................................. 92 Figura 62: Solo diaclasado, na zona central do monumento onde foram encontrados três pequenos calhaus aplanados que Silva afirma que poderão pertencer a uma preparação do solo, afirma ainda ser esta a área deposicional funerária (Silva, 1997: 9) .......................................... 93 Figura 63: Desenho da base dos esteios nos quadrados A10 e N10 (Desenho de Teresa Fonseca em Silva, 1997, vetorizado por Pedro Almeida). .......................................................... 93 Figura 64: Perfil oeste do montículo onde é visível a sua constituição e a ausência de couraça lítica (Fotografia da segunda fase de escavação fornecida pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor João Alves). ................................................................................................................................ 94 Figura 65: Corte estratigráfica oeste dos quadrados A10 e N10 (Desenho de Teresa Fonseca, em Silva, 1997, vetorizado por Pedro Almeida) ......................................................................... 95 Figura 66: Zona periférica do monumento durante o início da 2ªfase de escavação nos quadrados O7 e N7 (Fotografia fornecida pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor João Alves, adaptada)................................................................................................................................... 96 Figura 67: Zona periférica a este do monumento durante a 2ªfase de escavação. É possível observar os vestígios de um anel lítico nos quadrados O7, O6, N7 e N6 e do “hiato” entre os dois (Fotografia fornecida pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor João Alves, vista de norte). ............ 97 Figura 68: Planta inicial (?) da Área 2, quadrados N6, N7 e O6, O, (elaborado por Teresa Fonseca e vetorizado por Pedro Almeida). ................................................................................. 98 Figura 69: Espólio total da segunda intervenção. ................................................................ 99 Figura 70: Distribuição das pastas no espólio pré-histórico cerâmico da segunda fase de escavação ................................................................................................................................ 100
xix Figura 71: Negativos de palha (2017_0078) num fragmento pré-histórico (Fotografia de Manuel Santos) ........................................................................................................................ 101 Figura 72:Distribuição do estado da superfície da cerâmica pré-histórica. ........................ 102 Figura 73:Distribuição dos acabamentos do espólio cerâmico neolítico da segunda fase de escavação ................................................................................................................................ 102 Figura 74: Recipientes de bordo aberto. (Peça 1, 2017_0077; Peça 2 2017_0078) (Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida) .................................................... 103 Figura 75: Recipiente de bordo reentrante (2017_0075) (Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida) ...................................................................................... 104 Figura 76: Recipientes de bordos verticais com motivos impressos, formando crescentes (Peça 1 2017_0082), e incisos (Peça 2 2017_0073) (Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida). ....................................................................................................... 104 Figura 77: Recipientes de bordo esvasado, potinho (?) (2017_0080) e taça carenada (2017_0071) (Recipiente 1 - desenho e tratamento gráfico de Pedro Almeida; Recipiente 2 - desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida)...................................... 105 Figura 78: Fragmento de uma taça com carena alta (2017_0071), decorado com incisões (Fotografia de Manuel Santos) ................................................................................................. 106 Figura 79: Fragmentos com decorações impressas: puncionamentos arrastado (2017_0074) e digitações (2017_0079). (peça 1 desenho e tratamento gráfico de Pedro Almeida e fotografia de Manuel Santos; peça 2 desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida) . 107 Figura 80: Fragmento decorado através de espatulado, com manchas vermelhas (2017_0070) (Fotografia de Manuel Santos e desenho de Amélia Marques, tratamento gráfico de Pedro Almeida) ........................................................................................................................ 108 Figura 81: Recipientes de bordo em aba horizontal (2023_0538) (Desenho e tratamento gráfico de Pedro Almeida) n há foto???? ................................................................................... 109 Figura 82: Fragmentos medievais recolhidos no monumento (Peça 1, 2023_0535; Peça 2 2023_0534) (Desenho e tratamento gráfico de Pedro Almeida) .............................................. 110 Figura 83: Espólio lítico da segunda intervenção por tipo de fabrico ................................. 111 Figura 84: Gráfico da distribuição das bases de pontas de seta da segunda intervenção . 112 Figura 85: Representação gráfica das pontas de seta de bases triangulares e pedunculadas, provenientes da segunda fase de escavação (35, 38, e 39. Desenho de Pedro Almeida tratamento
xx gráfico de Amélia Marques; 37. Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques; Fotografia de Manuel Santos) ........................................................................................................................ 114 Figura 86: Representação gráfica da lamina proveniente da segunda fase de escavação (Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques)................................................................. 115 Figura 87: Representação gráfica dos trapézios provenientes da segunda fase de escavação. (Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques)................................................................. 116 Figura 88: Representação gráfica do machado em pedra polida proveniente da segunda fase de escavação (Desenho e tratamento gráfico de Amelia Marques). ......................................... 117 Figura 89: Representação gráfica da goiva proveniente da segunda fase de escavação (Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques) ................................................................. 118 Figura 90: Representação gráfica do moinho proveniente da segunda fase de escavação (Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida). ................................... 119 Figura 91: Fragmentos de ocre proveniente dos trabalhos da segunda fase (2017_0085) (Fotografia de Pedro Almeida) .................................................................................................. 120 Figura 92: Um dos esteios decorados, detetado durante os trabalhos de restauro (Fotográfica de Manuel Santos). .................................................................................................................. 122 Figura 93: Desenho hipotético da colocação dos esteios que possibilitou a reconstituição do monumento, hipótese inicial. (Desenho de Filipe Antunes, vectorização de Pedro Almeida). ... 123 Figura 94: Planta final da reconstituição da câmara o que possibilitou a reconstituição efetiva do monumento - hipótese final (Desenho de Filipe Antunes, vectorização de Pedro Almeida). . 123 Figura 95: Colocação dos esteios durante a reconstituição do monumento, em 1999 (Foto fornecida pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor João Alves). ................................................... 124 Figura 96: Resultado da reconstituição do monumento, em 2000 (Foto fornecida pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor João Alves). ...................................................................................... 124 Figura 97: Aspeto atual do local (https://www.jf-lamas-braga.pt/patrimonio/mamoa-delamas/) .................................................................................................................................... 125 Figura 98: Planta atual da localização da Mamoa de Leira das Mamas (Fornecida pelo Gabinete de Arqueologia da Câmara de Braga). ....................................................................... 126 Figura 99: Corte oeste da vala sul do montículo, notando-se as três camadas, e o contraforte, na parte detrás do esteio in situ (Foto fornecida pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor João Alves). ................................................................................................................................................ 127
xxi Figura 100: Corte estratigráfica oeste, da vala sul do montículo, abarcando os quadrados G10, F10, E10, D10, C10 e B10 (Desenho de Filipe Antunes, vetorizado por Pedro Almeida). ........ 127 Figura 101: Corte estratigráfica norte, da vala oeste, aberta em 1997 (Desenho de Filipe Antunes, vetorizado por Pedro Almeida)................................................................................... 128 Figura 102: Gráfico da distribuição do espólio proveniente dos trabalhos de restauro. ..... 129 Figura 103: Distribuição do tipo de pasta das cerâmicas neolíticas. ................................. 130 Figura 104: Textura da cerâmica pré-histórica. ................................................................. 131 Figura 105: Distribuição do estado da superfície da cerâmica pré-histórica. ..................... 131 Figura 106: Recipientes de bordo reentrante (Peça 1, 2023_054; Peça 2, 2017_0102; Peça 3, 2017_0083) (Desenho e tratamento gráfico de Pedro Almeida) .......................................... 132 Figura 107: Recipientes de bordo aberto (2017_0107) (Desenho e tratamento gráfico de Pedro Almeida) ........................................................................................................................ 133 Figura 108: Recipientes de bordo vertical, sendo o último decorado com incisões (Peça 1, 2017_108; Peça 2, 2023_0542; Peça 3, 2017_0084) (Desenho e tratamento gráfico de Pedro Almeida)................................................................................................................................... 133 Figura 109: Fragmento de bordo reentrante e vertical com decoração incisa (Fotografia de Manuel Santos) ........................................................................................................................ 134 Figura 110: Fragmento cerâmico ligeiramente cônico (2023_ 0537(Desenho de tratamento gráfico de Pedro Almeida). ....................................................................................................... 135 Figura 111: Bodo de aba horizontal associado à Idade do Bronze, forma 13 (2022_0073) (Bettencourt, 1999) (Fotografia de Pedro Almeida) .................................................................. 135 Figura 112: Bases de base plana associadas à Idade do bronze (2017_0285 G.) (Fotografia de Pedro Almeida) ................................................................................................................... 136 Figura 113: Fragmento com marcas de oleiro da época romana (Fotografia de Pedro Almeida) ................................................................................................................................................ 136 Figura 114. Fragmento de ruela romana (2023_0539) (Desenho e tratamento gráfico de Pedro Almeida). ....................................................................................................................... 137 Figura 115: Representação gráfica da lasca 8, em quartzo ametista com retoque num dos bordos proveniente dos trabalhos de restauro (Fotografia de Manuel Santos) .......................... 138 Figura 116: Fragmentos de calhaus graníticos (Fotografias de Manuel Santos). ............... 139 Figura 117: Seixos angulosos quartzo (Fotografias de Manuel Santos). ............................ 140 Figura 118: Seixos rolados de quartzo (Fotografias de Manuel Santos). ........................... 140
xxii Figura 119: Fragmentos de ocre provenientes dos trabalhos de restauro (Fotografia de Pedro Almeida)................................................................................................................................... 140 Figura 120: Montículo visto pelo lado oeste (Fotografia fornecida pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor João Alves). ......................................................................................................... 144 Figura 121: Território de visualização a partir da Mamoa de Leira das Mamas, numa área de 10 km, face à localização de outras mamoas que se conhecem na área mais próxima (Elaborado por Nuno Oliveira e editado por Pedro Almeida, 2024). ........................................................... 144 Figura 122: No topo: corte estratigráfica norte, da vala oeste, aberta em 1997; Em baixo: corte estratigráfica oeste, da vala sul do montículo, abarcando os quadrados G10, F10, E10, D10, C10 e B10 (Desenho de Filipe Antunes, vetorizado por Pedro Almeida). ................................. 145 Figura 123: Sedimentos do montículo expostos pela abertura da maquinaria. Vê-se, nitidamente, a camada 2 e 3 do corte oeste da vala sul (Fotografia fornecida pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor João Alves). .................................................................................................... 146 Figura 124: Sanja oeste aberta na segunda intervenção, em 1997 (Fotografia fornecida pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor João Alves, adaptada). ......................................................... 147 Figura 125: Fotografias das áreas escavadas em 1997. Topo: área 1. Base: área 2 (Fotografias fornecidas pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor desconhecido, adaptadas) ........ 148 Figura 126: Vista de lado, da reconstrução do monumento, tendo os esteios 4 e 5 sido colocados como fazendo parte de um corredor (Fotografias fornecidas pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor desconhecido, adaptadas). .................................................................................. 149 Figura 127: Planta final da reconstituição da câmara o que possibilitou a reconstituição efetiva do monumento - hipótese final (Desenho de Filipe Antunes, vectorização de Pedro Almeida). . 149 Figura 128: Levantamento dos esteios do monumento (Desenho de Filipe Antunes, vectorização de Pedro Almeida) ............................................................................................... 151 Figura 129: Planta da área da câmara com o esteio/laje 4, in situ, e esteio/laje 5, nas proximidades, mas tombada. (Desenho de Teresa Fonseca, em Silva, 1997, vetorizado por Pedro Almeida .................................................................................................................................... 152 Figura 130: Corte estratigráfica oeste dos quadrados A10 e N10, visível parte do possível piso. (Desenho de Teresa Fonseca, em Silva, 1997, vetorizado por Pedro Almeida) ........................ 153 Figura 131: Desenho dos esteios decorados. (Desenho de Filipe Antunes, vectorização de Pedro Almeida) ........................................................................................................................ 154
xxiii Figura 132: Esteio 8, decorado, tal como se encontra em exposição, na Junta de Freguesia de Lamas (à esquerda) e seu desenho (à direita) (segundo Bettencourt, 2013b: 153). ........... 154 Figura 133: Esteio decorado número 10. (Decalque de Filipe Antunes). Não conseguimos orientar a parte desenhada na desenho total do esteio. ........................................................... 155 Figura 134: Esteio número 12, decorado, a ser limpo por Isabel Marques, no Museu D. Diogo de Sousa. Em primeiro plano vê-se o esteio 8 (Fotografia de Manuel Santos). ......................... 156 Figura 135: Desenho do esteio 12 e croqui dos motivos gravados (Efetuado por Filipe Antunes). ................................................................................................................................. 156 Figura 136: Vista afastada da zona periférica este do monumento durante a 2ªfase de escavação. É possível observar os vestígios de dois anéis líticos e do hiato pétreo nos quadrados O7, O6, N7 e N6 (Silva 1997; Fotografia de João Alves). ......................................................... 158 Figura 137: Territórios teóricos de exploração até 2h pedestres a partir da Mamoa de Leira das Mamas, sobre a Carta Geológica de Portugal, nº 05-D, na escala 1:50 000, matéria-prima de construção (Elaborado por Ricardo Oliveira e Nuno Oliveira) .................................................... 160 Figura 138: Distribuição total do espólio proveniente da Mamoa de Leira das Mamas ..... 161 Figura 139: Tipo de pasta de todo o espólio cerâmico proveniente da Mamoa de Leira das Mamas ..................................................................................................................................... 163 Figura 140: Textura da pasta dos fragmentos cerâmicos provenientes da Mamoa de Leira das Mamas ..................................................................................................................................... 163 Figura 141: Coloração dos fragmentos cerâmicos provenientes da Mamoa de Leira das Mamas ..................................................................................................................................... 164 Figura 142: Acabamento dos fragmentos cerâmicos provenientes da Mamoa de Leira das Mamas ..................................................................................................................................... 164 Figura 143: Relação do tipo de bordo com o tipo de lábio dos fragmentos de bordo provenientes da Mamoa de Leira das Mamas .......................................................................... 165 Figura 144: Representação gráfica dos recipientes da forma 1 (Recipiente12023.0540; Recipiente 21996_0077) (1Desenho e tratamento gráfico de Pedro Almeida; 2-Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques.) .................................................................................. 168 Figura 145: Representação gráfica dos recipientes da forma 2 (Recipiente 11996_0081; Recipiente 21996_0078; Recipiente 32017_0075; Recipiente 42017_0083; Recipiente 52017_0102) (Peças 1, 2 e 3Desenhos de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida; Peças 4 e 5Desenho e tratamento gráfico de Pedro Almeida). ............................................... 170
xxx Tabela 63: Raspadores/raspadeira 216 Tabela 64: Punhal 217 Tabela 65: Líticos polidos 218 Tabela 66: Machados 218 Tabela 67: Enxós 221 Tabela 68: Goiva 223 Tabela 69: Moinho 225 Tabela 70: Outros depósitos líticos 226 Tabela 71: Outras deposições: utensílios 226 Tabela 72: Outras deposições líticas 229 Tabela 73: Distribuição da matéria-prima por tipo de artefacto lítico 234 Tabela 74: Tipos de sílex 236 Tabela 75: Formas das pontas de seta da Mamoa de Leira das Mamas, de acordo com a tipologia de Forenbaher (1999) 242-243
xxxi
1 Introdução A dissertação que se segue tem como objetivo, contribuir para o estudo e conhecimento do megalitismo do Noroeste de Portugal, através do estudo monográfico da Mamoa da Leira das Mamas, recorrendo aos dados documentais e ao espólio provenientes de antigas escavações aí ocorridas e dos dados e espólio dos trabalhos de restauro. O trabalho está dividido em quatro partes que se dividem em capítulos e subcapítulos. Na primeira parte, com o título “Conhecimentos gerais sobre o megalitismo”, fizemos uma pequena introdução sobre a evolução do estudo do megalitismo no Noroeste de Portugal e sobre as características do fenómeno megalítico, no Noroeste de Portugal, destacando os trabalhos de síntese de Jorge (1982) e Cruz (2001), resultantes de teses de doutoramento sobre o assunto. A segunda parte foi dividida em dois capítulos, sendo o primeiro destinado aos “Objetivos” e o segundo à “Metodologia”. No primeiro apresentámos os objetivos que pretendíamos alcançar com este trabalho. No segundo, a metodologia adotada para que esses objetivos fossem alcançados. A parte três correspondeu ao estudo monográfico, com o título “Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas”. Esta parte foi dividida em cinco capítulos. No capítulo um apresentámos a localização administrativa e o contexto físico e ambiental do sítio arqueológico. No capítulo dois falámos sobre o contexto arqueológico da freguesia de Lamas e de todo o concelho de Braga, centrando-nos em vestígios pré-históricos. No capítulo três descrevemos o historial das investigações realizadas no monumento. No capítulo quatro pormenorizámos todos os trabalhos de investigação, começando com a primeira fase de escavação, em 1993, prosseguindo com a segunda fase, em 1997, e terminando com a reconstituição do monumento, em 2000. Aqui, descrevemos os dados existentes em termos arquitetónicos e do espólio. Por fim, no capítulo cinco, sintetizámos os resultados de todas as intervenções ocorridas no monumento relativamente à arquitetura, à arte rupestre e a todo o espólio exumado. Neste capítulo fizemos uma síntese sobre a matéria-prima usada na construção do monumento assim como no fabrico de utensílios Na parte IV, com o título “Discussão dos dados e interpretações”, apresentámos as conclusões do trabalho e equacionámos algumas hipóteses, nomeadamente uma proposta cronológica. Inserimos, também, o caso de estudo no contexto do megalítico do Noroeste de Portugal.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte I. Conhecimentos gerais sobre o megalitismo 2
Mamoa de Leira das Mamas – Parte I. Conhecimentos gerais sobre o megalitismo 3 Parte I. Conhecimentos gerais sobre o megalitismo
Mamoa de Leira das Mamas – Parte I. Conhecimentos gerais sobre o megalitismo 4
Mamoa de Leira das Mamas – Parte I. Conhecimentos gerais sobre o megalitismo 5 1. O Megalitismo do noroeste de Portugal 1.1. Introdução Megalitismo é o termo que remete para um tipo específico de arquitetura monumental, em pedra, a primeira que marca profundamente o território. Surge no Neolítico, por volta do V/IV milénio a.C., podendo persistir em algumas regiões até o III milénio a.C., ou até ser reutilizado em épocas posteriores (Paulsson, 2019). É um fenómeno atlântico pois estende-se desde o sul da Suécia até ao sul da Península Ibérica, sempre junto à fachada atlântica. Para além disso, os monumentos megalíticos são eivados de componentes simbólicas, religiosas e funerárias, marcando profundamente o território em que se inserem e sacralizando esses locais ao criarem memórias coletivas (Jorge, 1982: 149). São construídos para serem vistos, em lugares estrategicamente escolhidos. No Noroeste de Portugal, a maior parte destes monumentos estão presentes nas zonas do litoral e de maior altitude (Silva, 2003: 271), em lugares com boa visibilidade para meio que os circunda, ou erguidos em zonas de passagem, como é o caso da Mamoa da Chã da Mourisca, em Ponte de Lima (Vilas Boas e Oliveira, 2018; Vilas Boas et al , no prelo). Jorge (1987: 18) afirma, ainda, que estes monumentos são implantados, por norma, em zonas planas, evitando as vertentes e perto de cursos de água. No entanto têm sido encontrados monumentos megalíticos em vales e na plataforma litoral, como é o caso da Mamoa da Ereira, em Afife ou o dólmen da Barrosa, em Caminha (Bettencourt, 2013: 17; Bettencourt e Vilas Boas, 2021: 4). Dando ainda o exemplo do núcleo megalítico da Motas, em Troporiz, Monção (Bettencourt e Vilas Boas, 2021: 8), os quais foram intervencionados, mas pouco publicado. Quanto à relação com o substrato geológico, no noroeste de Portugal, a maioria dos monumentos megalíticos instala-se em manchas graníticas. No entanto, também são conhecidos alguns monumentos implantados em manchas de xisto (Jorge, 1987:18). No caso do megalitismo do Alto Paiva, estudado por Cruz (2001: 309), é de notar que, alguns deses monumentos são construídos em zonas de anterior ocupação, apesar de ser conhecida a dificuldade de identificação dos habitats associados à construção destes monumentos. O autor também afirma que “a construção de sepulcros com características monumentais poderá, na verdade, ocorrer em contextos socioeconómicos diversos, de acordo com as potencialidades dos territórios” (Cruz, 2001: 311).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte I. Conhecimentos gerais sobre o megalitismo 6 Estes monumentos podem surgir isolados ou agrupados. Neste último caso, criam um núcleo monumental denomino por “necrópole”, como é o caso da Serra da Aboboreira (Jorge, 1982), provavelmente a necrópole de monumentos megalíticos mais bem estudada no noroeste de Portugal (Cleto, 1993; Cruz, 1992; Cruz e Sanches 1985; Jorge, 1980, 1982, 1984, 1985, 1991; Jorge e Bettencourt, 1988; Mendes, 2017; etc.) Podemos ainda referir as necrópoles do planalto de Castro Laboreiro, em Melgaço (Batista, 1997; Jorge, Batista, Silva e Jorge, 1997; Rodrigues 2013), do Mezio, nos Arcos de Valdevez (Soares, 2000, 2005), do Monte do Borrelho, em Vila Verde (Bettencourt, 1998) e do planalto de Vila Chã, em Esposende (Silva, 1990, 1991; Bettencourt, 2013c), bem como outras necrópoles que se encontram atualmente em estudo como a de Britelo e Mosteirô, em Ponte de Barca (Vilas Boas et al. , no prelo). No caso dos monumentos isolados, para além do exemplo da Mamoa de Leira das Mamas, conseguimos ainda nomear alguns exemplos, entre muitos outros, como a Mamoa da Chã da Mourisca (Vilas Boas e Oliveira 2018; Vilas Boas et al. , no prelo) ou a Antela da Cruz Vermelha (Vilas Boas et al. , no prelo), ambas em Ponte de Lima, atualmente também em estudo. Quanto aos aspetos construtivos, cada caso é diferente, podendo ter características distintas que variam desde o tamanho, tipologia das câmaras e dos montículos, mas também dos depósitos. É com esta ideia que Vítor Oliveira Jorge, na sua tese de doutoramento, levanta uma questão crucial. Será que realmente existiu um megalitismo? Ou este termo foi criado para facilitar a investigação entre os arqueólogos que, por consequência, acabou por unir várias realidades diferentes (Jorge, 1982: 21). O megalitismo, à semelhança de todo o Neolítico, deve ser visto como um fenómeno multifacetado em que, certas características, variam de região para região, apesar de possuir aspetos em comum. “O polimorfismo megalítico existe, pois, a todos os níveis, desde a tipologia dos túmulos até à das sociedades que neles fossilizaram uma parte do seu conhecimento” (Jorge, 1989a: 369). Este mesmo autor é responsável por uma parte importante do desenvolvimento do conhecimento do megalitismo no noroeste de Portugal, mostrando-nos a importância de um estudo exaustivo à escala regional, como foi o seu trabalho na Serra da Aboboreira, o primeiro estudo exaustivo de uma necrópole megalítica. Foi também o primeiro a realizar datações por C14 no Norte de Portugal, assunto que iremos tratar ainda na alínea “1.2.” deste capítulo. Quanto aos elementos comuns, estes envolvem a presença de uma câmara funerária, construída com esteios de médio e grande porte, rodeada e coberta por um montículo.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte I. Conhecimentos gerais sobre o megalitismo 7 As câmaras podem ser abertas ou fechadas, simples ou de corredor, sendo que este poderá ser diferenciado em planta e alçado ou indiferenciado em planta, mas diferenciado em alçado. Existem também situações em que a câmara contém, ainda, um átrio ou um vestíbulo (Bettencourt, 2013a). Quando estas câmaras são providas de um montículo, este pode ser construído por sedimentos e pedra (o mais comum), sendo que, em alguns casos, encontramos montículos apenas constituídos por sedimentos, quando estes se apresenta compactos o suficiente. Os monumentos megalíticos são essencialmente associados à vertente funerária e religiosa, mas pouco sabemos sobre estas sociedades e a sua religião, pois estes monumentos encontram-se muito danificados e por isso, muito do conhecimento que poderíamos inferir encontra-se perdido. É por isso que o estudo do sistema religioso é feito de forma indireta, através dos artefactos exumados, da arquitetura, da arte megalítica e dos vestígios osteológicos. No caso do Noroeste de Portugal, estes últimos não existem ou são muito raros devido à elevada acidez dos solos, que os deteriora rapidamente. O que nos parece ser bem evidente é a crença da vida para além da morte. Este aspeto é defendido por vários autores (Cruz, 2001; Bettencourt, 2009, 2013; Cruz, et al. , 2014; Bettencourt et al. , 2021) com base no espólio, na orientação das câmaras e, também, no facto de existirem oferendas sem vestígios de uso que são colocadas no monumento de maneira a acompanharem o defunto (Bettencourt e Vilas Boas, 2021: 12) O espólio associado costuma ser diferente de acordo com contextos localizados mais a litoral e em zonas de baixa altitude, perto de cursos importantes de água, face aos de contextos mais interiores do território e em zonas serranas de altas altitudes. No primeiro caso as oferendas costumam ser mais numerosas e diversificadas, enquanto no segundo as oferendas são muito limitadas, como defende Silva (2003) e Bettencourt (2013a). Normalmente este consta de vasos cerâmicos, artefactos líticos, associados à caça e à agricultura, como pontas de seta, machados e micrólitos; ferramentas e artefactos relacionados ao fabrico de utensílios líticos, como percutores, núcleos e lascas diversas, polidores; ferramentas associadas ao fabrico de materiais em madeira, como as goivas, entre outros. Também estão presentes cristais de rocha e bolas graníticas e ornamentos, como contas de colar (Bettencourt (2013a). Por outro lado, no caso da cerâmica, coloca-se a hipótese que poderia estar ligada a rituais de comensalidade durante a cerimónia de colocação do cadáver no monumento, ou
Mamoa de Leira das Mamas – Parte I. Conhecimentos gerais sobre o megalitismo 8 corresponderem a restos de posteriores visitas ao monumento (Bettencourt e Vilas Boas, 2021: 13). Cruz (2001: 306) considera que a utilização contínua destes monumentos ocorre até finais do IV milénio/inícios dos III milénio a.C. O ponto final destes monumentos funerários dá-se com o seu encerramento, podendo este surgir, pouco depois da sua construção ou não, mas sempre após ter cumprido a sua função. Seria um momento tão importante como a sua construção, igualmente acompanhado por rituais simbólicos, geralmente associados com o uso do fogo. No caso da sua implantação o fogo também era usado para limpar a vegetação, podendo ter, ainda, a função simbólica de purificação do terreno. O curto período de utilização destes monumentos que se estima entre o primeiro terço do IV milénio a.C. e os finais do IV, inícios do III milénio a.C., para a serra de Montemuro ou Alto Paiva, sugere a possibilidade de existir a necessidade de construção recorrente de novos túmulos, como um ato de reafirmação da comunidade para com o território (Cruz, 2001: 181). Apesar disso, estes monumentos são revisitados em períodos posteriores, como no Calcolítico e na Idade do Bronze. Muitas vezes estas visitas são detetadas através de novos enterramentos e deposições de oferendas, como recipientes cerâmicos e artefactos metálicos, característicos dessas épocas. Esse fenómeno poderá ser uma forma de apropriação cultural e simbólica de monumentos antigos, demonstrando que este tipo de arquitetura continua a ter uma grande importância (Bettencourt, 2009, 2013a; Bettencourt e Vilas Boas, 2021). Com tudo isto, podemos concluir que “… os mortos não são um elemento exterior à sociedade…” (Jorge, 1989a: 370), pois parecem continuar a desempenhar um importante papel nas sociedades do Neolítico e de períodos posteriores, podendo mesmo estes monumentos serem polos políticos para além de religiosos (Jorge, 1989a). É por isso que o fenómeno megalítico não pode ser resumido a um fenómeno unicamente funerário, pois existe a possibilidade destes monumentos terem sido utilizados como marcadores de território e como ferramentas de legitimação da posse e uso de um determinado local por parte das sociedades. Como marcadores de território, por serem monumentos que marcam profundamente a paisagem podendo, assim, ter um significado fronteiriço. Por outro lado, como meio de legitimação de uma sociedade, uma vez que o território abriga os seus antepassados enterrados. Tal pressupõe um culto aos antepassados e à sua importância para com as sociedades, ao longo do tempo (Cruz, 2001: 313). Poderão assim, ser sepulturas monumentais usadas pelas sociedades como meio de legitimação do território, através do culto dos seus
Mamoa de Leira das Mamas – Parte I. Conhecimentos gerais sobre o megalitismo 15 vinculadas com atividades pastoris e com um modo de vida mais itinerante, o que poderia explicar a maior raridade de objetos. 1.3. Arte megalítica Uma questão muito importante no estudo do megalitismo é o da arte megalítica. Jorge (1982: 811) afirma que apesar do verdadeiro significado destes motivos nunca vir a ser descodificado, é importante ter presente que teria um sentido diferente do que aquele que se atribui às manifestações artísticas atuais. É de reter que o túmulo neolítico era visto como um todo, ou seja, a arquitetura e a arte tinham um elevado valor simbólico que apenas funcionava em conjunto. Em semelhança a todo o Neolítico, a arte megalítica deve ser estudada como um todo, mas deve ser interpretada por região. A arte megalítica envolve pintura e gravura, sempre representada por um elevado simbolismo (Jorge, 1982: 812). A pintura era feita através do vermelho ocre, do branco e do negro. Os motivos que caracterizam este tipo de arte são elementos naturalistas esquemáticos e abstratos. Os motivos mais comuns são os ondulados de tipo serpentiforme, mas existem, também, soliformes, antropomorfos, círculos, etc. (Silva, 2003: 273). Recentemente foi elaborado um estudo de síntese sobre a arte megalítica do Noroeste (Carrera, 2011) dedicada aos motivos, sua distribuição nos monumentos, faseamentos técnicos, etc. No entanto, os estudos sobre a composição química das tintas ainda é emergente tendo sido apenas efetuado para três monumentos do Noroeste: Mamoa 5 do Leandro, Maia; Mamoa de Leira de Mamas, em Braga e Mamoa da Ereira, em Viana do Castelo (Oliveira et al. ,2017; Oliveira et al ., 2019). É de ter em atenção ainda que, os vestígios que chegam até nós, no noroeste de Portugal, são muito incipientes, principalmente os das pinturas, havendo ainda casos em que os esteios dos monumentos que continham motivos foram deslocados ou retirados do seu contexto. Na maioria dos casos, as pinturas estão ilegíveis, estando apenas preservadas algumas manchas de tinta. O estudo das tintas, só por si, é complicado e caro, pois exige técnicas complementares entre a química orgânica e a geologia. É notório a existência, por vezes, relativamente perto dos monumentos megalíticos de motivos gravados em rochas ao ar livre do que, normalmente, se designa por arte esquemática ibérica (Bettencourt, 2009: 78). Esta arte tem vindo a apresentar problemas de cronologia, mas, nos últimos anos, tem-se vindo a admitir que tais motivos gravados, ou pelo menos, parte deles,
Mamoa de Leira das Mamas – Parte I. Conhecimentos gerais sobre o megalitismo 16 poderão ser contemporâneos dos monumentos megalíticos. É de salientar o santuário rupestre do Gião I, em Arcos de Valdevez, localizado perto do núcleo megalítico da Chã do Mezio, constituído por mais de cem afloramentos gravados, sendo por isso, o maior local de arte esquemática no noroeste de Portugal (Bettencourt, 2009: 78). Também se tem conseguido articular a arte atlântica de ar livre com monumentos megalíticos, nomeadamente no Monte de São Gonçalo, em Barcelos (Bettencourt et al ., 2016) e no Monte Faro, em Valença (Alves e Reis, 2017). Há também trabalhos interessantes sobre a semelhança entre motivos megalíticos do Noroeste com os da arte atlântica (Alves, 2003, entre outros). Atendendo a todas as problemáticas e à falta de estudos monográficos para o megalitismo do litoral, este trabalho é de todo pertinente.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte II. Objetivos e metodologia 17 Parte II. Objetivos e metodologia
Mamoa de Leira das Mamas – Parte II. Objetivos e metodologia 18
Mamoa de Leira das Mamas – Parte II. Objetivos e metodologia 19 1. Objetivos O grande objetivo geral desta dissertação é contribuir para o desenvolvimento do conhecimento do megalitismo funerário no noroeste de Portugal, através do estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas, em Braga. Para alcançar este objetivo estudámos as características arquitetónicas, a arte megalítica, os materiais arqueológicos e a matéria-prima usada no fabrico tanto dos materiais como na construção do monumento. Como já foram realizado duas intervenções que recorreram à escavação arqueológica, todo o nosso estudo foi baseado nos resultados desses trabalhos e nas publicações daí resultantes que são escassas e deficitárias (Silva, 1997). Estudámos, ainda, o modo como foi realizada a campanha de restauro do monumento, com o objetivo de o tornar visitável, pois encontrámos dados referentes a este processo, em arquivo, no Museu D. Diogo de Sousa, em Braga. Toda a matéria-prima usada nos materiais líticos e na construção do monumento, foi comparada com os recursos locais, regionais e suprarregionais. Ao classificar a matéria-prima lítica pretendemos identificar possíveis relações de intercambio, mas também perceber se os utensílios continham vestígios de utilização. Pretendiase, também, identificar algumas práticas funerárias a partir da posição do espólio exumado. Por fim, tendo como base o espólio, tentámos atribuir uma cronologia ao monumento. Com a realização de todo este trabalho, comparámos o espólio com a tipologia do monumento e tentamos identificar se este foi reutilizado ou revisitado, em épocas posteriores. A posterior inserção deste do monumento num contexto regional, mais precisamente no fenómeno megalítico funerário do Noroeste de Portugal, é o último objetivo do nosso trabalho. 2. Metodologia A nossa estágio foi dividida em quatro partes, todas elas essenciais para um estudo exaustivo arqueológico de um monumento megalítico. Passamos, então, neste capítulo, por apresentar essas partes do nosso trabalho e em que consistem. Resumindo, iremos apresentar a metodologia a usar para alcançar os objetivos anteriormente referidos. 2.1. Trabalho inicial de gabinete
Mamoa de Leira das Mamas – Parte II. Objetivos e metodologia 20 Neste início de trabalho, foi feito uma primeira pesquisa, recolha e análise bibliográfica e fotográfica sobre o tema do megalitismo funerário e, também, sobre a Mamoa de Leira das Mamas. Foi nesta parte que analisámos as principais referências bibliográficas sobre o megalitismo do Noroeste de Portugal, como é o caso das teses de doutoramento de Vítor Oliveira Jorge (1982) e de Domingos de Jesus Cruz (2001). Fizemos, também, a leitura de alguns dos principais trabalhos sobre a descrição de utensílios líticos lascados, como o manual com o título “Lithics: Macroscopic Approaches to Analysis” de William Andrefsky Jr. (2005), assim como de um artigo de Inizan, Roche e Tixier (1999). Já no caso dos utensílios polidos usámos, como referência, o trabalho de Le Rouxe, publicado em 1999 e de Cardoso (1999-2000) No caso das cerâmicas, como não existe uma tabela formal para as peças do Neolítico do Noroeste, iremos seguir o exemplo da tese de doutoramento de Cruz (2001), classificando as cerâmicas de acordo com o fabrico, pasta, cozedura, bordo, lábio, pança, base e decoração. No caso da cerâmica da Idade do Bronze iremos usar a tabela de formas de Bettencourt (1999) como referência, já para os recipientes romanos iremos usar o “Guia das cerâmicas de produção local de Bracara Augusta” de Delgado, Morais e Ribeiro (2009). Nestes estudos, também usámos algumas características expressas por Meireles, (1984), Carvalho (2008) e Loureiro (2017). Após a leitura de todas estas obras, definimos os critérios que serviram para classificar os materiais arqueológicos e criámos uma base de dados, em Access. A acrescentar a estas leituras, também recolhemos e analisámos a Carta Militar de Portugal, nº70, na escala 1: 25000 e a Carta Geológica de Portugal, nº5-D, na escala 1: 50000, assim como a respetiva notícia explicativa (Ferreira et al ., 2000). Esta cartografia ajudou a posicionar o sítio arqueológico em termos topográficos, hidrográficos e a identificar o substrato geológico e os recursos litológicos da região. A documentação para o estudo da Mamoa de Lamas correspondeu a um relatório de escavação (Silva, 1997), a inéditos de desenhos de campo desses trabalhos, em depósito no Museu D. Diogo de Sousa. Tivemos, também, acesso a fotografias da altura da violação do monumento por uma máquina e das escavações, depositadas nesta instituição, bem como a todo o processo de restauro. Por fim, foi nesta etapa que escrevemos as partes iniciais do nosso trabalho (Parte I e II). 2.2. Trabalho de campo
Mamoa de Leira das Mamas – Parte II. Objetivos e metodologia 21 O “Trabalho de campo” corresponde à segunda etapa da dissertação. Neste, apenas fizemos algumas visitas ao monumento, tal como se encontra hoje, e ao local em que se insere. Isto para observar a reconstituição do mesmo e a sua envolvente natural e urbana, de maneira a contextualizá-lo em termos físicos e ambientais. Aproveitámos a deslocação à freguesia de Lamas para observar o esteio decorado que está depositado na junta de freguesia e observar as características não só dos motivos decorativos, como o tipo de granito usado. 2.3. Trabalho de laboratório Já na terceira parte este trabalho, a mais extensa, analisámos macroscopicamente e microscopicamente os materiais líticos e cerâmicas e classificámo-los em termos tipológicos e tecnológicos, de acordo com os critérios definidos na primeira parte. Esses critérios variam de acordo com a tipologia dos materiais e é por essa razão que decidimos criar, para os líticos quatro tipos de base de dados, uma para pontas de seta, outra para utensílios sobre lascas, outra para artefactos líticos polidos e a última para outros depósitos líticos, onde entram lascas, dejetos de talhe, cristais, entre outros elementos valorizados pelas comunidades que usaram este monumento. Foi nesta parte que fotografámos e elaborámos alguns desenhos arqueológicos dos materiais. Apesar de parte dos materiais já se encontrarem desenhados por antigos funcionários do Museu D. Diogo de Sousa, existiam muitos erros de interpretação, principalmente em relação às pontas de seta, pelo que tivemos de as desenhar praticamente todas de novo. Para tal tivemos de tirar um curso de desenho arqueológico no Museu D. Diogo de Sousa, de 65 horas, orientado por Amélia Marques e que correspondeu a parte importante deste estágio, na medida em que me proporcionou uma mais-valia para o estudo, interpretação e visualização arqueológicas. Ainda dentro dos desenhos, adaptamos uma vertente tecnológica através de programas como o Ilustrator e o Photoshop, que serviram no tratamento gráfico dos desenhos arqueológicos. À exceção dos líticos lascados, em que esse tratamento é feito à mão. Com os desenhos feitos, procedemos ao preenchimento da base de dados, classificando os objetos de acordo com a matéria-prima, tipo de fabrico, retoque, etc. No caso do retoque este será classificado de acordo com a sua posição, localização, amplitude, inclinação, morfologia e distribuição, tendo-se utilizado, para tal, os critérios definidos por Inizan, Roche e Tixier (1999).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte II. Objetivos e metodologia 22 Foi necessário ainda a ajuda do Doutor Luís Gonçalves, do departamento de ciências da terra da Universidade do Minho, para classificar os artefactos líticos e algumas pastas cerâmicas relativamente ao tipo de matéria-prima, com observações macroscópicas e microscópicas através de uma luca binocular (Nikon SMZ-1B). Como não foi possível realizar laminas delgadas alguns materiais são classificados com um “?”, dando uma possibilidade que poderá ser confirmada em futuras investigações. A partir das características de todas as peças realizámos alguns estudos estatísticos (comparação da matéria-prima, do tipo de fabrico, da tipologia, relação dos materiais completos, fragmentados e partidos, etc.) e, com observações microscópicas tentámos identificar vestígios de utilização. Foi nesta parte que analisámos o relatório de escavação da segunda fase de Silva (1997), assim como o registo gráfico e fotográfico do mesmo, para perceber se faltavam peças e para as tentar localizar na quadrícula, ou seja, no seu contexto de achado. 2.4. Trabalho avançado de gabinete Na última parte do trabalho e seguindo as metodologias de Vítor Oliveira Jorge (1982) e de Domingos Cruz (2001) realizámos um estudo arquitetónico da Mamoa de Leira das Mamas. Iniciámos esse estudo com a análise dos relatórios de escavação e da reconstituição do monumento para podermos classificá-lo. Algo que apresentou algumas dificuldades pois, para além de o monumento ter sido muito destruído aquando da sua descoberta, o relatório da primeira fase de escavação desapareceu e o da segunda fase não especifica corretamente os quadrados e camadas que foram escavados. Com estas limitações, tivemos de nos apoiar na informação gráfica, fotográfica e oral de quem participou ou observou parte dos trabalhos. Outro aspeto importante foi a integração dos dados da arte megalítica, já publicados, no contexto do monumento. Posteriormente, interrelacionámos todos os dados obtidos para elaborar o estudo monográfico deste sítio e a sua integração no contexto do megalitismo do Noroeste de Portugal.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 23 Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 24
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 31 possível efetuar a sua deteção no terreno, apesar da sua existência ser referida em trabalhos antigos 1 . Os dois eventuais povoados neolíticos são o de Vale de Chão, sob o monumento de tradição megalítica nº 1 de Vale de Chão, onde foram encontradas estruturas e materiais datados por radiocarbono inserido no 5 º milénio a.C. (Vilas Boas, 2014; 2021) e o do Monte Pedroso, em Adaúfe (CNS 25182) que Fontes et al. (2019) atribuiu ao Calcolítico. No entanto, uma observação dos materiais cerâmicos por Ana M. S. Bettencourt, com decorações impressas, permitiu considerar este sítio do Neolítico ou de um Calcolítico Inicial 2 . Associados a estes materiais cerâmicos foram encontrados artefactos líticos lascados, em sílex e quartzo, e artefactos líticos polidos, em granito, nomeadamente fragmentos de moinhos. Excluindo a Mamoa de Leira das Mamas e os eventuais povoados, os restantes monumentos megalíticos nunca foram escavados, apesar de estarem inventariados, o que torna o megalitismo e o Neolítico do concelho de Braga pouco conhecido. Perto do caso de estudo, os únicos vestígios arqueológicos datados deste período, são dois monumentos megalíticos providos de mamoa, referidos na Carta Geológica de Braga, nº 05D, na escala 1:50 000, a cerca de 5 km para sudoeste de Lamas, na União de freguesias de Leitões, Oleiros e Figueiredo, já no concelho de Guimarães. De acordo com alguns relatos locais, antes da descoberta do monumento em estudo, a população mais antiga da freguesia afirmava que havia outras áreas com um relevo curioso que se assemelhavam a montículos, dando ao local o nome de “Montes das Mamas”, o que remete para a existência de outros vestígios megalíticos nas imediações. O próprio topónimo deste monumento “Mamoa da Leira das Mamas”, indicia a existência de uma leira com vários montículos. Também, por tradição oral, se diz que na Leiras das Mamas, existiu um castro (Silva 1997: 3). Algo pouco credível devido as características do local, mas também porque nenhum vestígio foi encontrado nas escavações que aponte para tal. É de referir que na freguesia de Lamas, perto do monumento, existe um povoado fortificado, de acordo com a base de dados do portal do arqueólogo. Trata-se povoado do Assento que teria tido ocupação da Idade do Ferro e Romana, mas que, de acordo com a sua descrição, se encontra bastante destruído 3 . 1 Sobre este assunto ver Fontes (1993) e Bettencourt (1999). 2 Agradecemos esta informação à Doutora Ana M. S. Bettencourt. 3 https://arqueologia.patrimoniocultural.pt/index.php?sid=sitios&subsid=51016
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 32 Os restantes vestígios, localizados no vale do rio Neiva, foram detetados ou sintetizados no trabalho de Ferreira (2012). Estes dados irão ser importantes pois serão usados para explicar a presença de algumas peças cerâmicas, posteriores ao Neolítico, que foram recolhidas no monumento, entre outra bibliografia. Há a registar as ocupações calcolíticas no povoado dos Covelinhos (Bettencourt et al., 2007) e no topo do Monte da Falperra, ambos em Esporões (Bettencourt, 1999: 253; 2000a: 141-177). Para a Idade do Bronze, podemos apurar, desde já, referir dois povoados, sendo um deles o do Monte da Falperra, localizado a este do monumento, na freguesia de Esporões (Bettencourt 1999: 253; 2000a: 141-177 e o do Castro das Lages, em Figueiredo, a este do monumento (Dinis, 1993: 63; Fontes, 1993: 53; Ferreira, 2012:99) Da Idade do Ferro, além do povoado do Assento, em Lamas, a referir o do Monte da Falperra, em Esporões e o Monte Redondo, localizada na freguesia de Guisande a sudoeste do monumento, com ocupações da Idade do Ferro (?) e da romanização (Dinis, 1993: 68-70; Fontes, 1993: 56; Ferreira, 2012: 103). Da época romana, além de ocupações em povoados romanizados (Falperra, Monte Redondo e Assento) referimos um habitat romano (Casal da Vila) (Ferreira, 2012: 99) na freguesia de Figueiredo (Fontes, 1993: 52; Ferreira, 2012: 100); uma necrópole romana (Fontes, 1993: 46; Ferreira, 2012: 97) e uma ara dedicada a Júpiter, reaproveitada na construção de uma igreja na freguesia de Esporões (Ferreira, 2012: 97) e um povoado datado da época romana e medieval (Carcavelos), em Penso, freguesia de S. Vicente (Fontes, 1993: 68; Ferreira, 2012: 111). Da Idade Média há a registar a basílica paleocristã no topo do Monte da Falperra e uma necrópole, com antecedentes romanos, em Esporões e uma necrópole, em Guisande (Fontes, 1993: 56; Ferreira, 2012: 102). Todos estes dados são indicativos de que esta área foi continuamente frequentada ao longo de milénios, talvez como uma importante zona de produção agrícola, por ser um vale com um importante curso de água ou um bom corredor de passagem. 3. Historial A Mamoa de Leira das Mamas foi descoberta nos inícios do ano de 1993, por acaso, no contexto de uma obra de desaterro para a construção de uma urbanização. O monumento foi
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 33 parcialmente arrasado por uma máquina escavadora que procedia à terraplanagem daquela área. Estava completamente coberto pelas terras do montículo e, segundo a opinião de muitos observadores do sucedido, estaria intacto, assunto que discutiremos mais adiante. Devido à ação da máquina foram destruídos os setores norte, sul e este, que correspondem à área da câmara e do corredor, tendo apenas dois esteios permanecido “in situ” (Bettencourt, 2013b: 149). Durante as obras, segundo o relato de Isabel Marques 4 , no montículo estava implantada uma árvore de grande porte (eucalipto) 5 , tendo as suas raízes crescido e invadido parte do monumento. Quando retiraram essa árvore, que estaria localizada no centro do montículo, no decorrer das obras de 1993, as suas raízes puxaram os esteios e a tampa do dólmen 6 , destruindoo, assim, quase completamente. Uma fotografia da altura (Fig. 7) mostra a raiz dessa mesma árvore que, pelo sucedido, se teria desenvolvido na área da câmara ou do corredor, o que nos faz supor que esta já estaria, em parte violada. Já na figura 8 podemos ver alguns dos esteios do monumento que foram arrancados em conjunto com o raizeiro. Figura 7: Fotografia de 1993 da raiz da árvore que estava inserida no centro do montículo (Fotografia fornecida pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor João Alves). 4 Participante na escavação da 2ª fase, em 1997, e atualmente funcionária no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa. 5 Segundo Ascenso Jr. (1993, p. 38). 6 Segundo Ascenso Jr. (1993, p.38).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 34 Figura 8: Fotografia de 1993 onde observamos os esteios da câmara do monumento deslocados (Fotografia fornecida pelo Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga, autor desconhecido) João Alves 7 , no contexto do seu cargo na junta de freguesia, já suspeitava que naquele local existiria um monumento megalítico, mesmo antes das obras. Isto, devido ao facto de ter detetado, em documentos antigos, o topónimo de “Leira das Mamas” e “Bouça das Mamas” para o local. Como era uma pessoa sensibilizada para assuntos arqueológicos, consultou um técnico de arqueologia sobre o assunto que o informou que tais topónimos sugeriam que no local existiria algum tipo de vestígio arqueológico. Com isto, João Alves pede ao empreiteiro da obra que se encontrasse algum tipo de esteio ou vestígio arqueológico que o informasse e foi o que aconteceu. Deste modo, João Alves mandou parar a obra. Após a descoberta do monumento, o presidente da Junta de Freguesia de Lamas, o Sr. Francisco Mesquita Machado, em conjunto com a diretora do Museu D. Diogo de Sousa, alertou as entidades competentes solicitando que efetuassem trabalhos de recuperação do monumento. Foi nessa mesma altura que saiu uma notícia, no jornal Diário de Notícias, de 28 de fevereiro de 1993, assinada por Rodolfo Ascenso Jr., a dar conta do sucedido (Fig. 9). 7 Secretário da Junta de Freguesia de Lamas, em 1993, e atualmente funcionário no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 35 Figura 9: Notícia sobre a descoberta do monumento no Diário de Notícias, de 28 de fevereiro de 1993 (Imagem retirada de Silva, 1997). Após a visita ao local de um técnico da tutela, o então Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR), na pessoa de Orlando Sousa, os trabalhos da máquina foram suspensos e uma equipa de arqueólogos atuou sobre as terras revolvidas pela máquina, logo em 1993. Tratouse de uma intervenção de emergência do IPPAR, sob a orientação do referido arqueólogo, tendose, infelizmente, perdido o relatório destes trabalhos. Em 1997, é realizada uma segunda intervenção arqueológica no monumento (um escavação, apoiada pela Câmara Municipal de Braga, pelo Instituto de Arqueologia da Universidade Portucalense e pelo Grupo de Investigação Arqueológica do Norte -GIAN), dirigida por Eduardo Jorge Lopes da Silva, docente da Universidade Portucalense que, na altura, desenvolvia um projeto de doutoramento sobre o Megalitismo do Noroeste português. Destes trabalhos resultou um relatório policopiado, a que tivemos acesso (Silva, 1997). Além deste relatório, Eduardo Jorge Lopes da Silva, publica, em 2003, um artigo, a propósito de novos dados sobre o megalitismo do Norte de Portugal, referindo aí, a existência de arte megalítica pintada neste monumento e descrevendo o tipo de cor presente nas pinturas (Silva, 2003). Num trabalho de síntese sobre a Pré-história do Minho, Bettencourt (2009) faz uma pequena referência ao monumento. Mais tarde, publica um pequeno capítulo, bilingue, sobre a Mamoa de Leira das Mamas (Bettencourt, 2013) onde refere as condições da sua descoberta, apresenta propostas para a tipologia da sua câmara, dá a conhecer, de forma genérica, parte do seu espólio e faz uma
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 36 proposta de cronologia. O último trabalho publicado sobre este local refere-se a um estudo sobre os pigmentos e ligantes da tinta branca usada nas pinturas do esteio pintado, em depósito na Junta de Freguesia de Lamas (Oliveira et al. , 2017). Os autores chegam à conclusão de que foram usados óleos de plantas e resinas de origem pinácea, associada a caulinite, para obtenção da tinta branca (Oliveira et al., 2017: p. 10). 4. Intervenções arqueológicas no monumento 4.1. Primeira intervenção Ocorridos em 1993, aquando da descoberta do monumento, estes primeiros trabalhos são realizados pelo Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR), sob a responsabilidade de Orlando Sousa. Na planta da figura 10 verificamos a zona de ação. Figura 10: Planta da zona do monumento com área intervencionada em 1993 de acordo com a quadricula apresentada em 1997 (Departamento de Planeamento e ordenamento-DPA da Câmara Municipal de Braga, adaptada).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 37 4.1.1. Metodologia Estes primeiros trabalhos arqueológicos atuaram sobre a terra revolvida pela máquina e não diretamente sobre o monumento, segundo o que Bettencourt (2013b: 149) conseguiu apurar junto do responsável, dada a inexistência de relatório. Mesma assim, pudemos aferir que a ação da máquina e desta primeira intervenção deixaram exposta uma “zona vazia”, de norte a sul (Fig.11), com dois metros de lado que se prolongou até ao solo de base, a que Silva (1997: 3) dá o nome de “sanja”. Esta zona aberta pode ser ainda observada na planta da figura 10, orientada de norte a sul. Assim, esta intervenção focou-se, principalmente, na recolha dos materiais presentes nos sedimentos, revolvidos, da área da câmara. Sabemos que, para tal, os sedimentos revolvidos e da intervenção foram todos crivados. Infelizmente, tal como o relatório, grande parte da informação gráfica e fotográfica destes trabalhos, não chegaram até nós. Figura 11: Fotografia de 1993 onde verificamos a abertura, no sentido sul-norte, efetuada pela máquina e que corresponde à dita sanja norte-sul intervencionada por Orlando Sousa (Fotografia fornecida pelo Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga, autor desconhecido, adaptada). 4.1.2. Características construtivas Da ação da máquina apenas se preservaram dois esteios “ in situ ” na área da câmara, nomeadamente os localizados mais a oeste.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 38 4.1.3. Espólio Apesar da situação anteriormente descrita, nem toda a informação foi perdida pois o espólio proveniente desta intervenção encontra-se depositado no Museu de arqueologia D. Diogo de Sousa onde o pudemos estudar. Mesmo assim, é importante relembrar que o contexto preciso do mesmo, também se perdeu, sabendo-se apenas que foi recolhido da área revolvida pela máquina. Foi possível recolher um considerável número de artefactos líticos e cerâmicos, os quais iremos caracterizar em termos tecnológicos e tipológicos. Como não foi possível integrar este espólio em camadas e quadrados, este foi dividido por matéria-prima genérica, tendo-se estabelecido dois grupos. O primeiro correspondente aos contentores e fragmentos cerâmicos e o segundo, aos utensílios líticos. No gráfico da figura doze verificamos que 29% do espólio é lítico (59 exemplares) e 71% corresponde a fragmentos cerâmicos (148 exemplares) (Fig.12). Figura 12: Distribuição do espólio por matéria-prima genérica, da primeira fase de escavação. 4.1.3.1. Cerâmica O espólio cerâmico, num total de 148 fragmentos, apresenta-se muito fragmentado. É, principalmente, datado do Neolítico, com algumas exceções de épocas posteriores. Na tabela 1 podemos verificar a quantidade de peças recolhidas nesta intervenção verificando que 130 fragmentos são neolíticos e Idade do Bronze, seguindo de dois fragmentos que geram dúvidas, três romanos, três medievais e 10 contemporâneos. 29% 71% Espolio lítico Espolio cerâmico
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 39 Tabela 1: Espólio cerâmico Período Número de Peças Pré-história Recente (Neolítico e Idade do Bronze) 130 Romano 3 Medieval 3 Contemporâneo 10 Total 146 Começando com o espólio da Pré-história Recente, na tabela 2 podemos verificamos que este se distribui do seguinte modo: 13 bordos; 112 panças e cinco possíveis bases convexas. Tabela 2: Tipologia dos fragmentos neolíticos Tipologia Número de Peças Bordo 13 (sete decorados) Pança 112 (12 decoradas) Possíveis bases convexas 5 Total 130 Toda a cerâmica da Pré-história Recente é de fabrico manual, parecendo alguns fragmentos efetuados através da modelagem. As pastas variam entre as arenosas (18% - 23 exemplares) e arenosas-micáceas, o que representa 82% (107 exemplares) dos fragmentos (Fig.13). As micas, quando adicionadas, são sempre moscovite. O tipo de areias adicionadas são quartzos leitosos e hialino e feldspato. O quartzo leitoso está presente em todos os fragmentos, ao contrário do quartzo hialino que é um tipo de desengordurante raro. Em 15 fragmentos foi possível verificar negativos de palha nas paredes, o que indicia que algumas peças poderiam ter sido colocadas a secar junto com este tipo de matéria orgânica ou, ainda, que tiveram matéria orgânica na constituição das suas pastas.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 40 Figura 13: Gráfico da distribuição do tipo de pasta do espólio cerâmico neolítico, da primeira fase de escavação. O calibre dos desengordurantes, variam entre o médio e o grande, o que, por consequência, torna, na sua maioria, as pastas grosseiras, salvo algumas exceções de pastas de textura média ou muito grosseira (gráfico da figura 14). Verificamos, assim, que 72% (94 exemplares) têm uma textura grosseira, 16% (20 exemplares) uma textura muito grosseira e, em menor número, 12% (16 exemplares) uma textura média. Figura 14: Distribuição do estado da superfície da cerâmica pré-histórica A cozedura foi em ambiente redutor, sendo a cor dos fragmentos, maioritariamente, de tons castanhos (65% - 84 exemplares). Por vezes, encontramos fragmentos com tons alaranjados (20% - 26 exemplares) e acinzentados (15% - 20 exemplares) (Fig.15). Cinco têm manchas negras na superfície externa, talvez provenientes da cozedura da peça. Os fragmentos alaranjados poderão resultar do facto de terem ficado sob recipientes maiores, parcialmente ou na totalidade, 18% 82% Arenosa Arenosa micácea 16% 72% 12% Muito grosseira Grosseira Média
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 47 Os três fragmentos de cerâmica medieval apresentam um fabrico a torno, cozedura redutora, pasta arenosa-micácea (com muita moscovite incorporada na pasta), textura média e acabamento alisado. Por fim, os 10 fragmentos contemporâneos são caracterizados por sete pequenos vestígios de recipientes vários e três fragmentos de telha. 4.1.3.2. Utensílios líticos O espólio lítico mostra-se bastante numeroso, com qualidade e até variado. Estão presentes, também, os dois grandes tipos de fabrico pois o espólio é constituído tanto por utensílios líticos polidos como por utensílios líticos lascados. No gráfico seguinte podemos observar este espólio por tipo de fabrico. Este mostra que 89% (50 exemplares) do espólio lítico é lascado e apenas 11% (6 exemplares) é polido, num total de 55 utensílios (Fig.22) Dentre destes tipos de fabrico existem, ainda, utensílios de diferentes tipologias. Tanto no espólio lascado como no polido, a tipologia dos materiais mostrou-se diversificada. Na tabela 6 podemos verificar o tipo de utensílios lascados, assim como a sua quantidade. Por outro lado, na tabela 7, apresentamos a tipologia dos utensílios polidos desta intervenção. Tabela 6: Líticos lascados provenientes da primeira fase Tipologias Número de Peças Pontas de seta 34 Lâminas 6 89% 11% Líticos lascados Líticos polidos Figura 22: Distribuição do espólio lítico da primeira intervenção por tipo de fabrico.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 48 Lascas 6 Raspador/Raspadeira 2 Esquírola 1 Punhal 1 TOTAL 50 Tabela 7: Líticos polidos provenientes da primeira fase Tipologia Número de Peças Enxós 3 Machados 3 TOTAL 6 4.1.3.2.1. Utensílios líticos lascados Entre os utensílios lascados, em maior número, temos presente as pontas de seta com 34 exemplares, as lâminas com seis, raspadeiras/raspadores com duas peças, seis lasca, um punhal e apenas uma esquirola. Nas tabelas seguintes, articulando com uma descrição em texto e alguns gráficos estatísticos, iremos descrever detalhadamente todo o espólio lascado em termos tipológicos e tecnológicos. As pontas de seta podem ser de bases triangulares (13 exemplares - 38%), seguindo das base pedunculada (11 exemplares - 32%) e as convexas (7 exemplares - 21%). Terminando com duas peças de base reta (6%). Numa das pontas de seta não foi possível identificar o tipo de base por estar danificada e por isso, é-lhe atribuído a designação de “indeterminada” (3%) (Fig. 23 e Tabs. 8, 9, 10 e 11).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 49 Figura 23: Gráfico da distribuição das bases das pontas de seta da primeira intervenção. Tabela 8: Pontas de seta pedunculadas provenientes da primeira fase Núm. Mat. Prima Medidas Máx. Peso Base Delineação Secção 1 (1996_0040) Corneana Lar: 2,8 cm Com: 7,1 cm Esp: 0,6 cm 7,2 gr Pedunculada Côncavo Triangular 2 (1996_0039) Corneana Lar: 3,5 cm Com: 6,3 cm Esp: 0,8 cm 9,5 gr Pedunculada Côncavo Oval 3 (2007_0320) Corneana Lar: 3,8 cm Com: 5 cm Esp: 0,8 cm 8,8 gr Pedunculada Parcialmente côncavo Oval 4 (1996_0042) Corneana Lar: 3,1 cm Com: 5,2 cm Esp: 0,6 cm 6,6gr Pedunculada Serrilhado Oval 5 (1996_0048) Corneana Lar: 3 cm Com: 4,6 cm Esp: 0,6cm 5,4gr Pedunculada Convexo Oval 6 (1996_0045) Corneana Lar: 3 cm Com: 5,5 cm Esp: 0,4cm 4 gr Pedunculada Bordo esquerdo retilíneo e direito serrilhado Trapezoidal 7 (1996_0024) Quartzito de grão fino cinza Lar: 2,4 cm Com: 3,9 cm Esp: 0,5 cm 3,5gr Pedunculada Irregular Trapezoidal 8 (1996_0012) Sílex rosado semitranslúcido Lar: 2,5 cm Com: 7,6 cm Esp: 0,3 cm 5,6gr Pedunculada Retilíneo Oval 9 (1996_0011) Sílex rosado opaco Lar: 2,4 cm Com: 7,4 cm Esp: 0,4cm 5,9gr Pedunculada Retilíneo Oval 10 (1996_0014) Sílex? castanho semitranslúcido Lar: 2,2 cm Com: 6,7 cm Esp: 0,5cm 4,4gr Pedunculada Retilíneo Trapezoidal 11 (1996_0018) Sílex cinza opaco Lar: 2 cm Com: 5,7 cm Esp: 0,4 cm 3 gr Pedunculada Retilíneo Triangular 32% 38% 21% 6% 3% Pedunculada Triangular Convexa Reta Indetermidano
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 50 1Ponta de seta losângica, em corneana, corpo alongado, bordos côncavos, secção triangular e base pedunculada. O retoque é bifacial, total, recobridor e com uma inclinação dos bordos rasante. Peça completa. (Fig.24) 2Ponta de seta losângica, em corneana, corpo mediano, bordos côncavos, secção oval e base pedunculada. O retoque é bifacial, total, recobridor e com uma inclinação dos bordos rasante. Peça completa. (Fig.24) 3Ponta de seta triangular, em corneana, corpo mediano, bordos parcialmente côncavos, secção oval e base pedunculada. O retoque é bifacial, total, recobridor e com uma inclinação dos bordos rasante. Peça completa. (Fig.24) 4Ponta de seta triangular, em corneana, corpo mediano, bordos serrilhados, secção oval e base pedunculada. O retoque é bifacial, total, recobridor e com uma inclinação dos bordos rasante. Peça completa com uma pequena fratura na ponta. (Fig.24) 5Ponta de seta triangular, em corneana, corpo mediano, bordos convexos, secção oval e base pedunculada. O retoque é bifacial, total, recobridor e com uma inclinação dos bordos rasante. Peça completa. (Fig.24) 6Ponta de seta triangular, em corneana, corpo mediano, bordo esquerdo retilíneo e direito serrilhado, secção trapezoidal e base pedunculada. O retoque é bifacial, total, recobridor e com uma inclinação dos bordos rasante. Peça completa com pequena fratura na ponta e presença de córtex em ambas as faces. (Fig.24) 7Ponta de seta triangular, em quartzito de grão fino, de cor cinza, corpo curto, bordos irregulares, secção trapezoidal e base pedunculada. O retoque é bifacial, total, recobridor na face superior e curto na face inferior, com uma inclinação dos bordos abrupta. Peça completa. (Fig.25) 8Ponta de seta triangular, em sílex rosado semitranslúcido, corpo alongado, bordos retilíneos, secção oval e base pedunculada. O retoque é bifacial, total, recobridor e com uma inclinação dos bordos rasante. Peça partida, falta-lhe a ponta, e apresenta fraturas no bordo direito na zona distal. (Fig.25) 9Ponta de seta triangular, em sílex rosado opaco, corpo alongado, bordos retilíneos, secção oval e base pedunculada. O retoque é bifacial, total, recobridor e com uma inclinação dos bordos rasante. Peça completa com uma fratura no bordo direito na zona distal. (Fig.25)
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 51 10Ponta de seta triangular, em sílex? castanho e semitranslúcido, corpo alongado, bordos retilíneos, secção trapezoidal e base pedunculada. O retoque é bifacial, total, recobridor e com uma inclinação dos bordos rasante. Peça completa. (Fig.25) 11Ponta de seta triangular, em sílex cinza opaco, corpo mediano, bordos retilíneos, secção triangular e base pedunculada. O retoque é bifacial, total, recobridor e com uma inclinação dos bordos rasante. Peça completa com a ponta colada. (Fig.25) Figura 24: Pontas de seta de base pedunculada provenientes da primeira fase de escavação. Parte1 (Fotografias de Manuel Santas; Desenhos de Pedro Almeida e tratamento gráfico de Amélia Marques)
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 52 Figura 25: Pontas de seta de base pedunculada provenientes da primeira fase de escavação. Parte2 (Fotografias de Manuel Santas; Desenhos de Pedro Almeida e tratamento gráfico de Amélia Marques) Tabela 9: Pontas de seta de base triangular provenientes da primeira fase Núm. Mat. Prima Medidas Máx. Peso Base Delineação Secção 12 (1996_0015) Quartzito de grão fino cinza Lar: 2,8 cm Com: 6,5 cm Esp: 0,6 cm 6,8 gr Triangular Serrilhado Oval
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 53 13 (1996_0013) Quartzito de grão fino cinza Lar:2,8 cm Com: 6,8 cm Esp: 0,6 cm 6,6 gr Triangular Parcialmente serrilhado Oval 14 (1996_0017) Sílex? castanho semitranslúcido Lar: 2,5 m Com: 6,1 cm Esp: 0,5 cm 5 gr Triangular Serrilhado Oval 15 (1996_0029) Quartzo leitoso semitranslúcido Lar: 1,5 cm Com: 2,5 cm Esp: 0,5 cm 1,5 gr Triangular Bordo esquerdo Irregular e direito retilíneo Trapezoidal 16 (1996_0050) Corneana Lar: 2,4 cm Com: 4 cm Esp: 0,3 cm 2,6 gr Triangular Côncavo Oval 17 (1996_0043) Corneana Lar: 3,4 cm Com: 5,7 cm Esp: 0,7 cm 9,5 gr Triangular Retilíneo Triangular 18 (1996_0051) Corneana Lar: 3,5 cm Com: 4,7 cm Esp: 0,4 cm 5 gr Triangular Parcialmente serrilhados Trapezoidal 19 (1996_0019) Sílex? castanho semitranslúcido Lar: 2,2 cm Com: 5,4 cm Esp: 0,5 cm 4,2 gr Triangular Parcialmente serrilhados Trapezoidal 20 (1996_0027) Sílex castanho semitranslúcido Lar: 1,7 cm Com: 4,4 cm Esp: 0,3 cm 1,8 gr Triangular Convexo Oval 21 (1996_0046) Corneana Lar: 3,2 cm Com: 5 cm Esp: 0,3 cm 4,1gr Triangular Parcialmente serrilhados Oval 22 (1996_0022) Quartzito de grão fino cinza Lar: 2 cm Com: 4,4 cm Esp: 0,3 cm 2,6 gr Triangular Convexo Trapezoidal 23 (1996_0044) Corneana Lar: 2,6 cm Com: 5,4 cm Esp: 0,4 cm 6 gr Triangular Serrilhado Trapezoidal 24 (1996_0023) Quartzito de grão fino cinza Lar: 2,5 cm Com: 4,3 cm Esp: 0,5 cm 4,6gr Triangular Côncavo Trapezoidal 12Ponta de seta losângica, em quartzito de grão fino cinza, corpo mediano, bordos serrilhados, secção oval e base triangular. O retoque é bifacial, total, recobridor e com uma inclinação dos bordos rasante. Peça completa. (Fig.26) 13Ponta de seta triangular, em quartzito de grão fino cinza, corpo mediano, bordos parcialmente serrilhados, secção oval e base triangular. O retoque é bifacial, total, recobridor e com uma inclinação dos bordos rasante. Peça completa. (Fig.26) 14Ponta de seta triangular, em sílex? castanho semitranslúcido, corpo mediano, bordos serrilhados, secção oval e base triangular. O retoque é bifacial, total, longo e com uma inclinação dos bordos rasante. Peça completa. (Fig.26) 15Ponta de seta losângica, em quartzo leitoso semitranslúcido, corpo curto, bordo esquerdo irregular e direito retilíneo, secção trapezoidal e base triangular. O retoque é bifacial, total na face superior e descontinuo na face inferior, longo e com uma inclinação dos bordos obliqua. Peça completa com pequenas fraturas no bordo esquerdo. (Fig.26)
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 54 16Ponta de seta losângica, em corneana, corpo curto, bordos côncavos, secção oval e base triangular. O retoque é bifacial, total, recobridor e com uma inclinação dos bordos rasante. Peça completa. (Fig.26) 17Ponta de seta losângica, em corneana, corpo mediano, bordos retilíneos, secção triangular e base triangular. O retoque é bifacial, total, recobridor e com uma inclinação dos bordos obliqua. Peça completa com presença de córtex na face superior no corpo da peça. (Fig.26) 18Ponta de seta losângica, em corneana, corpo mediano, bordos parcialmente serrilhado, secção trapezoidal e base triangular. O retoque é bifacial, total, invasor e com uma inclinação dos bordos obliqua. Peça completa apesar de se apresentar colada mesmo a meio do corpo, fratura que se nota no bordo esquerdo por parte dele estar em falta. (Fig.27) 19Ponta de seta losângica, em sílex? castanho semitranslúcido, corpo mediano, bordos parcialmente serrilhados, secção trapezoidal e base triangular. O retoque é bifacial, total, recobridor e com uma inclinação dos bordos rasante. Peça completa com uma pequena fratura na base e presença de córtex na face superior na base da peça. (Fig.27) 20Ponta de seta losângica, em sílex castanho semitranslúcido, sobre lasca, corpo mediano, de bordos convexos, seção oval e base triangular. O retoque é bifacial, total e invasor, na face superior, e parcial e longo, na face inferior, com uma inclinação dos bordos rasante. Peça inteira sem vestígios de utilização. (Fig.27) 21Ponta de seta losângica, em corneana, corpo mediano, bordos parcialmente serrilhados, secção oval e base triangular. O retoque é bifacial, total, recobridor e com uma inclinação dos bordos rasante. Peça completa. (Fig.27) 22Ponta de seta losângica, em quartzito de grão fino cinza, corpo mediano, bordos convexos, secção trapezoidal e base triangular. O retoque é bifacial, total, invasor na face superior e longo na face inferior, com uma inclinação dos bordos rasante. A peça está completa apesar de a base se encontrar colada. (Fig.27) 23Ponta de seta triangular, em corneana, corpo mediano, bordos serrilhados, secção trapezoidal e base triangular. O retoque é bifacial, total, recobridor na face superior e longo na face inferior com uma inclinação dos bordos obliqua. Peça completa com a ponta partida. (Fig. 27)
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 55 24Ponta de seta losângica, em quartzito de grão fino cinza, corpo mediano, bordos côncavos, secção trapezoidal e base triangular. O retoque é bifacial, total, invasor e com uma inclinação dos bordos obliqua. Peça completa com uma pequena fratura na ponta. (Fig.27) Figura 26: Pontas de seta de base triangular provenientes da primeira fase de escavação (Fotografias de Manuel Santos; Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques)
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 56 Figura 27: Pontas de seta de base triangular provenientes da primeira fase de escavação (Fotografias de Manuel Santos; Desenho e tratamento gráfico de Ana Palma)
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 63 De notar, ainda, que a ponta de seta número “20” foi confecionada sobre uma lasca. As restantes foram efetuadas, possivelmente, sobre um núcleo, como um seixo, por exemplo, sendo este talhando até chegar à forma desejada. As peças variam ainda entre as formas triangulares (22 exemplares – 65%) e losângicas (12 exemplares - 35%), como podemos observar no gráfico da figura 36. Figura 36: Gráfico da distribuição das formas das pontas de seta da primeira intervenção 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Sílex Corneana Quartzito de grão fino Quartzo Inteira Fragmento Danificado 65% 35% Triangular Losângica Figura 35: Relação da matéria-prima com o estado das pontas de seta da primeira intervenção
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 64 No caso das secções estas variam entre ovais, trapezoidais e triangulares, como podemos verificar no gráfico da figura 37, sendo as secções trapezoidais e as ovais (com 14 peças cada - 41%), as maioritárias. As triangulares, com seis peças, correspondem a 18% do conjunto. Como exemplo, temos a ponta de seta “3” com uma secção oval (Fig.24), a peça “15” com uma secção trapezoidal (Fig.27) e a ponta de seta “11”, com uma secção triangular (Fig.25). Figura 37: Distribuição das secções das pontas de seta da primeira intervenção. Na sua maioria, as pontas de seta são detalhadamente retocadas, havendo um grande número de peças serrilhados (16 peças – 47%) (Fig.38). Todas elas são bifacialmente retocadas, mas nem todas têm os bordos totalmente retocados. Estamos a falar dos casos das peças “15” e “20” (Fig. 27), em que na face inferior o retoque é descontínuo. No caso da sua extensão a maioria do retoque é recobridor, novamente com algumas exceções em que pode ser invasor, longo ou curto. No caso dos retoques invasores temos as peças “20” (Fig. 28) em que este se mostra invasor, na face superior, e curto na face inferior; a peça “25” com retoque invasor na face superior e longo na face inferior e as pontas de seta “18”, “24”, “31” e “34” com retoque invasor em ambas as faces. A peça “29” (Fig. 29) tem retoque recobridor, na face superior, e invasor na face inferior e a ponta de seta “33” tem retoque invasor na face inferior. As pontas de seta “14” e “15” (Fig.27) têm retoque longo, em ambas as faces; a ponta de seta “31” tem retoque longo na face inferior e recobridor na face superior. A peça “7” tem retoque curto na face inferior. 41% 41% 18% Oval Trapezoidal Triangular
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 65 No caso da inclinação dos bordos, esta varia entre a rasante e oblíqua, com apenas uma exceção. A ponta de seta número “7” que apresenta uma inclinação abrupta. Figura 38: Distribuição do tipo de bordo das pontas de seta da primeira intervenção Em termos de medidas, a largura das pontas varia entre 1,5 cm e 3,8 cm, o comprimento entre 2,5 cm e 8,5 cm, a espessura entre 0,3 cm e 0,8 cm, enquanto o peso varia entre 1,5 gr e 10,1 gr. É possível notar diferenças de tamanho de acordo com a tipologia da base, mostrando-se, no geral, que o fabrico não era arbitrário, como indica a tabela 12. As pontas de seta com maior cumprimento, largura e espessura são as de tipologia de base “pedunculada”. O cumprimento é menor que 5 cm em apenas dois casos de 11 peças, sendo que em cinco casos excede os 6 cm (três deles ultrapassam os 7 cm) e quatro peças estão na casa dos 5 cm. As pontas de seta de base triangular são, em geral, menores do que as anteriores, pois nenhuma ultrapassa os 7 cm de cumprimento: em 13 peças cinco não ultrapassam os 5 cm; uma, em quartzo, tem um cumprimento muito reduzido de 2,5 cm; três peças ultrapassam os 6 cm e outras quatro estão na casa dos 5 cm. No geral são as pontas de seta de base convexa que se mostram mais pequenas, seis com cumprimentos na casa dos 4 cm, com apenas três exceção em 7 pontas de seta (uma na casa dos 5 cm, uma com menos de 4 cm e outra, curiosamente, é a maior do nosso conjunto com 8,5 cm). De referir que há uma, em corneana, que não conseguimos achar o cumprimento pois tem a ponta partida. 47% 15% 6% 15% 17% Serrilhado Convexo Irregular Concavo Retilínio
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 66 Por outro lado, nas pontas de seta de base reta, numa o cumprimento é de 4 cm e noutra 5,1 cm, o que num caso é mais pequena do que as das bases convexas e noutro mais ou menos do mesmo tamanho, mostrando serem peças de médio a pequeno tamanho. Tabela 12: Comprimento das pontas de seta da primeira fase Bases > 4 cm 4 - 4,99 cm 5 – 5,99 cm 6 – 6,99 cm 7 – 7,99 cm < 8 cm Pedunculada (11) 1 1 4 2 3 0 Triangular (10) 1 5 4 3 - - Convexa (10) 1 4 1 - - 1 Reta (2) - 1 1 - - - Indeterminada (1) - - - 1 - - A largura e a espessura acompanham por norma cumprimento da peça. Já o peso vária de acordo com a matéria-prima e não tanto pelo tamanho da peça. De acordo com a tabela 13, verificamos, que a corneana, é a matéria-prima mais pesada. Em 15 peças, quatro ultrapassam os 8 gr, duas estão na cada dos 7 gr, outras duas na casa dos 6 gr, 3 na casa dos 5 gr e apenas quatro têm menos de 5 gr. O sílex, em 11 peças, a maioria encontrase na casa dos 5 gr, sendo que apenas uma peça ultrapassa os 6 gr e 5 menos de 5 gr. O quartzito, tem uma maior variação, quatro peças têm menos de 5 gr, duas estão na casa dos 6 gr e uma ultrapasso os 8 gr, sendo a ponta de seta mais pesada com 10,1 gr. Já a única peça em quartzo, é a mais leve do conjunto, com apenas 1,5 gr. Tabela 13: Peso das pontas de seta da primeira fase Bases > 4 gr 4 - 4,99 gr 5 – 5,99 gr 6 – 6,99 gr 7 – 7,99 gr < 8 gr Corneana (15) 2 2 3 2 2 4 Sílex (11) 3 2 5 1 - - Quartzito (7) 2 2 - 2 - 1 Quartzo (1) 1 - - - - - No caso das lâminas, em número de seis, as peças “5” e “6” encontram-se fragmentadas, sendo que a “5” ainda preserva toda a zona distal e parte da zona mediana. Já a ”6” corresponde, apenas, a parte significativa da zona mediana. As restantes estão completas.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 67 Em termos tipológicos temos pouca variedade, pois apenas estão presentes talões lisos. Nas peças “5” e “6” não foi possível a sua classificação pois estes não se conservam (Fig. 40). A delineação dos bordos é praticamente irregular, com exceção das lâminas “1” (Fig. 39) e “5” (Fig. 40) que apresentam uma delineação convexa e denticulada, respetivamente. No caso das secções apenas existem as triangular (dois exemplares) e as trapezoides (em quatro exemplares). Os perfis são côncavos, à exceção da lâmina “3” (Fig. 39) em que este é quase reto, e do fragmento de lâmina com o número “5” (Fig. 40) que, sendo muito pequeno, não possibilita achar o perfil. Em relação ao córtex, todas as e peças são lâminas não corticais. No caso do retoque este não é muito marcante, sendo curto (quando existe) e nunca total em relação ao bordo. Contando com as peças inteiras, a largura dos utensílios varia entre 2,2 cm e 2,5 cm, o comprimento entre 12,5 cm e 14,3 cm, a espessura entre 0,4 cm e 0,7 cm e o peso entre 14,2 e 29,6 gr. Em termos de matéria-prima são todas em sílex, de várias tonalidades: esbranquiçado, cinza, castanho e castanho-avermelhado, variando este entre o opaco (3 exemplares) e o semitranslúcido (3 exemplares). Tabela 14: Lâminas provenientes da primeira fase Nº Mat. prima Medidas max. Peso Talão Delineação Secção Perfil Córtex 1 (1996_0096) Sílex cinza opaco Lar: 2,2 cm Com: 12,5 cm Esp: 0,4 cm 17 gr Liso Convexo Trapezoidal Côncavo Não cortical 2 (1996_0010) Sílex castanho avermelhado semitranslúci do Lar: 2,5 cm Com: 13,4 cm Esp: 0,7 cm 25,4 gr Liso Irregular Triangular Côncavo Não cortical 3 (1996_0007) Sílex esbranquiçad o opaco Lar: 2,3 cm Com: 11,3 cm Esp: 0,5 cm 14,2 gr Liso Irregular Triangular Reto Não cortical 4 (1996_0008) Sílex castanho opaco Lar: 2,3 cm Com: 14,3 cm Esp: 0,6 cm 29,6 gr Liso Irregular Trapezoidal Côncavo Não cortical 5 (1996_0030) Sílex castanho semitranslúci do Lar: 3,3 cm Com: 3,4 cm Esp: 0,4 cm 5.2 gr Não preserv a Denticulado Trapezoidal Não percetível Não cortical 6 (1996_0006) Sílex cinza semitranslúci do Lar: 2,1 cm Com: 7,1 cm Esp: 1,0 cm 9.5 gr Não preserv a Irregular Trapezoidal Côncavo Não cortical
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 68 1Lâmina em sílex cinza, opaco, com talão liso, delineação convexa, secção trapezoidal e perfil côncavo. O retoque é alternante, descontínuo, principalmente localizado na zona distal, mas também mediana. É curto com uma inclinação dos bordos rasante. Peça inteira sem vestígios de utilização (Fig.39). 2Lâmina em sílex castanho-avermelhado, semitranslúcido, com talão liso, delineação irregular, secção triangular e perfil côncavo. O retoque é alternante, parcial, localizado na zona proximal, curto, com uma inclinação dos bordos rasante. Peça inteira sem vestígios de utilização (Fig.39). 3Lâmina em sílex esbranquiçado, opaco, com talão liso, delineação irregular, secção triangular e perfil quase reto. O retoque é insignificante, mas apresenta-se inverso, descontínuo, localizado na zona distal e proximal, curto, com uma inclinação dos bordos rasante. Peça inteira sem vestígios de utilização (Fig.39). 4Lâmina em sílex castanho, opaco, com talão liso, delineação irregular, secção trapezoidal e perfil côncavo. O retoque é direto, parcial, localizado nas zonas distal, proximal e mediana. É curto com uma inclinação dos bordos rasante. Peça inteira sem vestígios de utilização (Fig.39). 5Fragmento da zona mediana de uma lâmina, em sílex castanho, semitranslúcido, com uma delineação denticulada e secção trapezoidal. No fragmento, o retoque apresenta-se direto, parcial e curto, com uma inclinação dos bordos oblíqua (Fig.40). 6Fragmento da zona distal e mediana de uma lâmina, em sílex cinzento, semitranslúcido, com uma delineação irregular, secção trapezoidal e perfil côncavo. O retoque é alternante, descontínuo e localizado na zona mediana e distal. É curto com uma inclinação dos bordos rasante (Fig.40).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 69 Figura 39. Representação gráfica das lâminas provenientes da primeira fase de escavação parte 1 (Desenho e tratamento gráfico de Amelia Marques).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 70 Figura 40: Representação gráfica das lâminas provenientes da primeira fase de escavação (peça 5 desenho de Pedro Almeida e tratamento gráfico de Amélia Marques e peça 6 desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques) Os raspadores/raspadeiras são peças compósitas, feitos sobre lasca e altamente retocados no inverso, de maneira a criar um gume que poderia ter a função de raspar. São ferramentas com a dupla funcionalidade de raspador e raspadeira pois estão retocados na zona distal e num ou dois bordos laterais. Identificaram-se duas peças, nesta categoria (Fig. 41). A matéria-prima usada nas duas peças foi o sílex esbranquiçado e opaco. O talão da peça “1” é diedral e o da peça “2” é liso. No caso da delineação do gume de ação este é convexo, na primeira peça, e irregular na segunda. Já a secção é triangular nos dois exemplares. A face superior da peça “1” é parcialmente cortical e o da peça “2” é não cortical, o que torna o suporte deste segundo raspador não cortical. O retoque apresenta-se semelhante em ambas as peças, sendo inverso, total e recobridor, mas com uma inclinação dos bordos abrupta, na primeira, e obliquo na segunda peça. A largura destes exemplares varia entre 1,3 cm e 1,8 cm, o comprimento entre 4 cm e 4,2 cm, a espessura entre 1 cm e 1,4 cm e o peso entre 5,6 gr e 9 gr. Tabela 15: Raspadores/raspadeira provenientes da primeira fase Núm Matprima Medidas max. Peso Talão Delineação Secção Suporte Córtex 1 (1996_0033) Sílex esbranquiç ado opaco Lar: 1,8 cm Com: 4,0 cm Esp: 1,4 cm 9 gr Diedral Convexo Triangular Não cortical Parcial. cortical 2 (2018_0099) Sílex esbranquiç ado opaco Lar: 1,3 cm Com: 4,2 cm Esp: 1 cm 5.6 gr Liso Irregular Triangular Não cortical Não cortical
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 71 1Raspador/raspadeira, em sílex esbranquiçado e opaco, com talão diedral, delineação convexa, suporte não cortical e secção triangular. O retoque é inverso, total e recobridor, com uma inclinação dos bordos oblíqua. Peça inteira sem vestígios de utilização, parcialmente cortical na face superior (Fig. 41). 2Raspador duplo /raspadeira, em sílex esbranquiçado e opaco, com retoques laterais e distal. O retoque é inverso, total, recobridor, com uma inclinação dos bordos abrupta. O talão é liso e a delineação irregular. O suporte é não cortical e a secção triangular. Peça inteira sem vestígios de utilização (Fig. 41). Com apenas um exemplar, temos presente o que poderá ser a ponta de um punhal. Este é confecionado em sílex avermelhado, semitranslúcido, com uma delineação dos bordos convexa e uma secção oval. Pouco mais podemos dizer sobre esta peça pois encontra-se muito fragmentada (Fig. 42). O fragmento tem de largura 3,3 cm, de comprimento 3,3 cm, de espessura 0,8 cm e o seu peso é de 7,2 gr. Figura 41: Representação gráfica dos raspadores/raspadeiras provenientes da primeira fase de escavação (Desenho de Pedro Almeida e tratamento gráfio de Amelia Marques).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 72 Tabela 16: Punhal provenientes da primeira fase Núm. Mat. prima Medidas max. Peso Delineação Secção 1 (1996_0028) Sílex avermelhado semitranslúcido Lar: 3,3 cm Com: 3,3 cm Esp: 0,8 cm 7,2 Convexo Oval 1Fragmento de punhal em sílex avermelhado semitranslúcido, com uma delineação dos bordos convexa e secção oval. O retoque é bifacial, total, recobridor, com uma inclinação dos bodos obliqua. Chegou até nós apenas um pequeno fragmento da zona distal, da ponta (Fig. 42). Temos, ainda, a presença de seis lascas e de uma esquírola. Uma é em quartzo, hialino (uma lasca - peça 5). As restantes são todas em sílex esbranquiçado, cinza-claro, cinza e castanho, podendo ser opaco ou semitranslúcido. Figura 42: Possível fragmento de punhal em sílex avermelhado semitranslúcido proveniente da primeira fase de escavação (Fotografia de Manuel Santos; Desenho de Pedro Almeida e tratamento gráfico de Amelia Marques).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 79 Figura 48: Machado de pedra polida em anfibolito 2 proveniente da primeira fase de escavação (Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques) Figura 49: Machado de pedra polida em silimanite, proveniente da primeira fase de escavação (Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 80 4.1.3.2.3. Outras deposições líticos Falta apenas descrever todos as outras deposições líticas. Nesta categoria incluímos todos os líticos que, apesar de não se classificarem como utensílios lascados ou polidos, são utensílios ou elementos de interesse arqueológico. Neste último grupo consideram-se elementos líticos tudo o que terá sido recolhido e depositado intencionalmente, no monumento, pelas comunidades neolíticas, sem que lhe possamos atribuir uma função específica. Nos utensílios (Tab. 20), distinguimos um polidor em aplito (Fig. 50), um percutor sobre quartzo leitoso (Fig. 52) e uma placa decorada (Fig. 51). O polidor tem uma secção retangular tem 5,2 cm de largura, 10,3 cm de comprimento, 1,2 cm de largura e 98,7 gr de peso. O percutor tem 7,6 cm de largura, 4,1 cm de comprimento, 5,7 cm de espessura e 527 gr de peso. A placa apresenta-se decorada com covinhas e um sulco, tendo 6,5 cm de largura, 8 cm de comprimento, 1 cm de espessura e 79,5 gr de peso. Tabela 20. Outras deposições: utensílios Número Tipo Matéria-prima Medidas max. Peso 1 (1996_0063) Polidor Aplito Lar: 5,2 cm Com: 10,3 cm Esp: 1,2 cm 98.7 gr 2 (1996_0060) Percutor Quartzo leitoso semitranslúcido Lar: 7,6 cm Com: 4,1 cm Esp: 5,7 cm 527 gr 3 (1996_0066) Placa Granito de grão fino Lar: 6,5 cm Com: 8 cm Esp: 1 cm 79,5 gr 1Aplito de contorno ovalar, mas mais alargado de um dos lados, que serviu como polidor em três faces (laterais e distal), com secção retangular (Fig. 50). 2Placa, em granito de grão fino, com secção retangular, decorada em ambas as faces. Numa das faces podemos observar, com o auxílio do desenho, duas covinhas circulares, um na zona distal e outro, mais ou menos, a meio da peça, mas também um sulco oblíquo, na zona proximal. Na outra face, conseguimos distinguir seis covinhas, cinco delas formando uma diagonal (Fig. 51). 3Seixo de quartzo leitoso, semitranslúcido, com marcas de ter sido usado para percutor em várias faces (Fig. 52).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 81 Figura 50: Polidor de aplito (Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques; Fotografia de Manuel Santos) Figura 51: Placa gravada em granito de grão fino (Fotografia de Manuel Santos; Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 82 Figura 52: Percutor em quartzo leitoso (Fotografia de Manuel Santos) No grupo dos elementos líticos (Tab. 21) considerámos um seixo rolado, de granito de grão fino, alongado, com estrangulamento assimétricos (um em cada face lateral) e de extremidades arredondadas o que configura uma forma grosseiramente antropomórfica (ídolo?) (Fig. 55); um seixo anguloso de forma antropomórfica, em granito de grão fino, pesado, tendo 12,5 cm de largura, 21,9 cm de comprimento, 5,5 cm de espessura, pesando 2536,1 gr (ídolo?) (Fig. 55); um cristal de quartzo incompleto (Fig. 53) e dois seixos, um anguloso e outro rolados, sendo este último, pela configuração e matéria-prima (quartzito), oriundo de praia litoral (Fig. 54). Tabela 21: Outras deposições líticas Número Tipo Matéria-prima Medidas max. Peso 4 (1996_0065) Seixo anguloso Aplito Lar: 8,6 cm Com: 9,5 cm Esp: 2,1 cm 258,5 gr 5 (1996_0061) Seixo anguloso Quartzo leitoso semitranslúcido Lar: 7,2 cm Com: 6 cm Esp: 4,4 cm 292,8 gr 6 (1996_0064) Seixo rolado alongado (ídolo?) Granito de grão fino de Briteiros? Lar: 6,2 cm Com: 14,3 cm Esp: 3,1 cm 374,6 gr 7 (1996_0059) Seixo rolado (de praia?) Quartzito Lar: 6,3 cm Com: 6,9 cm Esp: 3 cm 176,6 gr 8 (2017_0287) Seixo anguloso (ídolo ?) Granito de grão fino de Briteiros Lar: 12,5 cm Com: 21,9 cm Esp: 5,5 cm 2536,1 gr 4Seixo anguloso, em aplito. (Fig.54) 5Cristal anguloso, de quartzo leitoso semitranslúcido (Fig.53)
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 83 6Seixo rolado, alongado, em granito de Briteiros? Faz lembrar um ídolo sobre seixo (Fig.55). 7Seixo rolado (de praia?), em quartzito. (Fig.54) 8Seixo anguloso, em granito de Briteiros (?), com secção oval, com contorno ligeiramente antropomórfico. Faz lembrar um ídolo sobre seixo. Na face inferior são percetíveis algumas fraturas recentes (?) (Fig.55). Achado nas terras soltas do monumento e entregue na Junta de Freguesia de Lamas. Figura 53: Seixo anguloso de quartzo semitranslúcido (Fotografia de Manuel Santos) Figura 54: Seixo anguloso e seixo rolado de praia (?) (Desenho e tratamento gráfico de Pedro Almeida e Fotografia de Manuel Santos)
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 84 Figura 55: Seixos de granito de grão fino, grosseiramente antropomorfos (ídolos?) (Fotografia de Manuel Santos e desenho de Amélia Marques com tratamento gráfico de Pedro Almeida) 4.2. Segunda intervenção (escavação) A segunda intervenção arqueológica foi realizada em 1997. Tratou-se de uma escavação do tipo recuperação/salvamento, sob a orientação de Eduardo Jorge Lopes da Silva, que contou com a colaboração de alunos e licenciados em História da Universidade Portucalense e da Faculdade de Letras da Universidade do Porto como Alexandra Correia, Maria Medeiros, Luísa Soares, Helena Costa, Alberto Araújo, Rui Leite, Sérgio Paiva, César Salazar, João Rui e Rui Carvalho. À semelhança da intervenção anterior, a documentação desta intervenção também nos oferece alguns problemas. Apesar de termos o relatório de escavação, este é pouco específico.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 85 Informa-nos sobre os quadrados que foram intervencionados, mas não dá informação sobre as características das camadas nem sobre o contexto em que os materiais foram recolhidos. Apenas refere que a maior parte do espólio foi recolhido na zona onde estaria a câmara dolménica. Mesmo assim, foi possível retirar do relatório informações valiosas, principalmente sobre a arquitetura do monumento, assim como, observar fotografias e desenhos que aí existiam. Sabemos, também, que o arqueólogo responsável por esta intervenção não teve acesso aos dados resultantes dos trabalhos realizados por Orlando Sousa, em 1993. Na planta da figura 56 podemos verificar as zonas intervencionadas nesta intervenção. Figura 56: Planta da zona do monumento com área intervencionada em 1997 de acordo com a quadricula apresentada em 1997 e o registo fotográfico (Departamento de Planeamento e ordenamento-DPA da câmara municipal de Braga, adaptada)
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 86 4.2.1. Objetivos O principal objetivo desta intervenção foi chegar a alguma conclusão sobre as características arquitetónicas do monumento, tentando-se, assim, definir a sua tipologia. Para isso, foram abertas sondagens principalmente junto aos esteios da câmara que permaneciam “ in situ ”. Pretendia-se, também, achar o limite do monumento. Para isso foram abertas sondagens nas zonas mais periféricas do monumento, na tentativa de encontrar um anel lítico periférico, a este do monumento. Para definir os limites do monumento a oeste, foi aberta uma vala de sondagem até à sua periferia, como se pode comprovar pela fotografia da fig. 57, e não apenas parcial, como está na planta da fig. 56, a tracejado. Este foi aberta com auxílio do Gabinete de Arqueologia da Câmara Municipal de Braga. Figura 57: Sondagem na escavação da segunda fase Sanja este-oeste. (Fotografia fornecida pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor João Alves). Como último objetivo, era pretendido que os resultados obtidos contribuíssem para a reconstrução do monumento. 4.2.2. Metodologia O primeiro passo foi criar uma quadrícula, orientada pelos pontos cardeais, com quadrados de 2 m de lado (Fig. 58). Para além de organizar a intervenção arqueológica, a
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 87 quadrícula foi usada como apoio para posicionar tridimensionalmente os achados. As informações sobre o posicionamento dos achados não chegaram até nós, pois não se encontravam no relatório nem nas etiquetas dos materiais. No relatório de escavação a vala oeste também não é referida. Figura 58: Quadrícula com quadrados de 2 m de lado (Silva, 1997). De salientar que não estão representados todos os quadrados escavados. Voltando à análise do relatório, Eduardo Jorge Silva, após quadricular o monumento, procedeu à limpeza da área que seria intervencionada assim como da área que foi escavada na primeira intervenção para poder realizar um primeiro registo fotográfico.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 88 A escavação foi “fina” e em área e com peneiração das terras recolhidas. Para além disso, foram também recolhidos vários carvões vegetais que poderiam potencializar uma datação por carbono 14. Sabemos que essas amostras não foram entregues ao Museu D. Diogo de Sousa, sendo o seu paradeiro desconhecido para nós. Pela descrição presente no relatório, os primeiros quadrados abertas foram os N10 e A10, onde estavam os esteios “ in situ ” (Área 1). A decapagem desta área possibilitou ligar este parte do monumento à “sanja” que foi aberta na primeira intervenção e que foi orientada de norte para sul. Foi, também, preparado o corte estratigráfico oeste, na zona da câmara, que foi desenhado. De seguida, a escavação avançou para os quadrados O7, O6, N7 e N6, no limite este do monumento (Área 2). Mais tarde foi também feita a limpeza da vegetação que cobria o montículo, de maneira a melhorar a perceção da sua volumetria. Pouco mais conseguimos avançar sobre a metodologia de escavação desta intervenção pois, pouco foi descrito sobre os quadrados intervencionados e praticamente nada sobre a estratigrafia de cada quadrado. 4.2.3. Escavação Como já assinalámos Eduardo Jorge Silva abre duas áreas distintas: a Área 1, que corresponde aos quadrados escavados na zona da câmara e a Área 2 que corresponde à zona mais periférica onde achou o limite do monumento. Por esta razão, iremos descrever a escavação por áreas. A vala oeste, aberta pelos técnicos do Gabinete de Arqueologia da Câmara de Braga, será incluída na Área 1. 4.2.3.1. Área 1 A primeira área correspondem aos quadrados A10 e N10, identificados na planta da quadrícula (Fig. 58), assim como aos quadrados N11 e O10 que foram identificados como tendo sido intervencionados por aparecerem materiais arqueológicos etiquetados como daí provenientes. Sobre a escavação, propriamente dita, apenas nos chegaram três desenhos, o da planta do topo e da base dos esteios (quadrados A10 e N10) e o do corte estratigráfico oeste desses mesmos quadrados.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 95 Figura 65: Corte estratigráfica oeste dos quadrados A10 e N10 (Desenho de Teresa Fonseca, em Silva, 1997, vetorizado por Pedro Almeida) No desenho do corte estratigráfica (Fig. 65), verificados que existiam duas camadas estratigráficas. A camada 1, descrita no desenho, apenas como de “superfície”, seria uma camada superficial com uma grande presença de vegetação. Por outro lado, a camada 2 é a que ocupa a grande maioria do perfil. Apresenta-se com uma cor castanho-escuro e com a inclusão de carvões. Ainda dentro desta camada foi demarcada uma área denominada por “A”, identificada como uma mancha cinzenta, levantando a possibilidade de ser uma acumulação de carvões. Pelo desenho nota-se que há, também, inclusões de pequenos calhaus e, na base, um aglomerado pétreo que deveria corresponder ao que se via do contraforte. Estas seriam as terras de composição do tumulus, caracterizadas por alguma heterogeneidade. Silva (1997, p. 8) diz que a maioria do espólio apareceu onde estaria preservado o piso da câmara, sendo a camada 2 a que cobria este piso. Parece que não foi dado uma numeração ao piso da câmara ou esta não consta do relatório. O facto da camada 2 cobrir o piso, revela, provavelmente, terras do tumulus deslocadas por motivos vários (violações, raizeiros, destruição da câmara pela maquinaria, etc.). 4.2.3.2. Área 2
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 96 A esta segunda área correspondem os quadrados O6, O7, N6 e N7, no limite este do monumento. Nada sabemos sobre as camadas aqui encontradas, embora tenhamos plantas, fotografias e descrições do relatório de escavação (Fig. 66) Figura 66: Zona periférica do monumento durante o início da 2ªfase de escavação nos quadrados O7 e N7 (Fotografia fornecida pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor João Alves, adaptada). 4.2.3.2.1. Estruturas No início da intervenção foi logo possível verificar um conjunto de calhaus e blocos pétreos, nos quadrados O6, O7, N6 e N7, que poderiam pertencer a um anel lítico periférico. O resultado da intervenção nestes quadrados não foi o esperado pois, para além de ser bem evidente a existência deste anel lítico periférico, foi possível a deteção de um outro, mais interior, existindo um eventual “hiato” de deposições pétreas, entre os dois anéis líticos. O anel lítico mais interior (Figs. 67 e 68) localizava-se numa área mais aplanada, provavelmente nos N6 e O6 (tendo em conta o desenho da Fig. 68), era constituído por calhaus pouco “imbricadas” e de tamanho mais reduzido, por comparação com o anel lítico periférico. Já o anel periférico (Figs. 67 e 68), implantado na periferia do monumento, nos quadrados N7 e O7, delimitava a área do tumulus e era constituído por blocos pétreos de maior dimensão (Silva, 1997, p. 6). Segundo o relatório de escavação o anel lítico mais periférico não se prolongava para norte e sul da área dos quadrados, provavelmente uma consequência da ação da máquina escavadora, que afetou muito o terreno, nessas áreas. No entanto também não se verifica na fig.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 97 52, a oeste, do montículo, pelo que era provável que não fosse um anel lítico periférico, mas o limite de um eventual átrio, existente, em frente à câmara. No “hiato” entre os dois anéis surgiu algum espólio cerâmico e carvões, mas no geral, raros, materialidades que abonam a favor da hipótese de aí ter existido um átrio. O anel mais interior poderia corresponder ao fecho ou condenação do monumento ou do que restava desta estrutura. O responsável pela intervenção afirma, ainda, que este anel poderá ter “… pertencido a uma estrutura que delimitasse o espaço fronteiro à entrada do corredor “(Silva, 1997, p. 6), caso esse tivesse alguma vez existido, e chamou-lhe uma “dupla estrutura de contenção” (Fig.67) Figura 67: Zona periférica a este do monumento durante a 2ªfase de escavação. É possível observar os vestígios de um anel lítico nos quadrados O7, O6, N7 e N6 e do “hiato” entre os dois (Fotografia fornecida pelo Museu D. Diogo de Sousa, autor João Alves, vista de norte).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 98 Figura 68: Planta inicial (?) da Área 2, quadrados N6, N7 e O6, O, (elaborado por Teresa Fonseca e vetorizado por Pedro Almeida). 4.2.4. Espólio O espólio recolhido durante estas escavações foi menos númeroso do que o exumado em 1993. Forom recolhidos tanto utensílios líticos como cerâmicos. A maioria do espólio foi encontrado entre os quadrados N10 e N11, ou seja, na área 1 da escavação. Na área 2 apenas foi possível recolher alguns fragmentos cerâmicos.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 99 O espólio proveniente desta intervenção encontra-se depositado no Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa, sendo possível verificar no gráfico da figura 69 a distribuição do espólio em que 22% são líticos (11 peças) e 78% fragmentos cerâmicos (39 fragmentos). Figura 69: Espólio total da segunda intervenção. 4.2.2.1. Cerâmica Apesar de ter ocorrido cerâmica nas duas sondagens (Áreas 1 e 2) não conseguimos distingui-las pela marcação dos fragmentos que só tem o número de registo do Museu D. Diogo de Sousa e o ano da intervenção 10 . As etiquetas originais, se as houve, não se encontram nesta instituição. A consulta do relatório mostrou-se omissa em relação a esta informação, pois não têm inventário. Assim sendo, a opção foi estudar este material em bloco. A cerâmica recolhida, num total de 39 fragmentos, encontra-se muito fragmentada, sendo, na maioria, cerâmica da Pré-história Recente, quer do Neolítico, quer da Idade do Bronze. Há, também, cerâmica datada da época romana e medieval, como podemos verificar pela tabela 22. Tabela 22: Espólio cerâmico proveniente da segunda fase de escavação Período Número de Peças Pré-história Recente (Neolítica e Idade do Bronze) 34 10 Consultada a base de dados do Museu verificámos a total ausência de informação, além do ano. 22% 78% Espolio lítico Espolio cerâmico
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 100 Romano 1 Medieval 4 Total 39 Começando com a cerâmica da Pré-história Recente, na tabela 23 podemos verificar a distribuição dos fragmentos pelo tipo de peça. Assim, verificamos que 11 fragmentos são bordos, 21 são panças e apenas dois, são bases. Tabela 23: Tipologia dos fragmentos Pré-históricos Tipologia Número de Peças Bordo 11 (três decorados) Pança 21 (seis decoradas) Bases 2 Total 34 Todas as cerâmicas são de fabrico manual, algumas efetuadas através da modelagem e outras através da adição de rolos (o que é observável num dos fragmentos). Maioritariamente as pastas são arenosas-micáceas, o que representa 68% dos fragmentos (23 exemplares). As pastas arenosas também estão presentes, mas em menor número, sendo representadas por 32% (11 exemplares), como podemos verificar pelo gráfico da figura 70. Figura 70: Distribuição das pastas no espólio pré-histórico cerâmico da segunda fase de escavação 32% 68% Arenosa Arenosa micácea
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 101 Os desengordurantes representados por quartzo leitoso, feldspato e, raras vezes, por quartzo hialino ou por outras matérias-primas de origem local, variam entre o médio e o grande calibre. No caso das pastas arenosas-micáceas, as micas são sempre caracterizadas por moscovite. Em dois fragmentos foi possível detetar negativos de palhas, talvez resultantes do contacto com esta matéria orgânica, no ato de secagem (Fig. 71). Figura 71: Negativos de palha (2017_0078) num fragmento pré-histórico (Fotografia de Manuel Santos) As pastas são, maioritariamente, grosseiras, com 71% (24 exemplares), seguidas das pastas de textura média, com 23% (8 exemplares) e das pastas muito grosseiras, com apenas 6% (2 exemplares) (Fig. 72).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 102 Figura 72:Distribuição do estado da superfície da cerâmica pré-histórica. As cozedura foram realizadas em ambiente redutor, originando colorações em tons de castanho, com a exceção de quatro fragmentos (três com tons mais avermelhados e em um acinzentado). No acabamento, de acordo com o gráfico da figura 73, verificamos uma maioria de fragmentos com um acabamento alisado, representados por 62% (21 exemplares) dos fragmentos. O rugoso está representado por 38% (13 exemplares), em que os fragmentos se encontram erodidos. Figura 73:Distribuição dos acabamentos do espólio cerâmico neolítico da segunda fase de escavação No conjunto dos bordos encontrámos quatro tipologias diferentes. Assim, na tabela 24, verificamos que predominam os bordos abertos, com cinco exemplares (Fig.74), seguidos dos 6% 71% 23% Muito grosseira Grosseira Média 38% 62% Rugoso (erosão) Alisado
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 103 verticais e esvasados, com dois exemplares cada (Fig.76 e 77) e reentrantes com apenas um fragmento (Fig. 75). Nem todos os bordos correspondem a peças diferentes, sendo que estes dez correspondem apenas a oito recipientes. Tabela 24: Tipo de bordos dos fragmentos Pré-históricos Tipologia Número de Peças Aberto 5 Esvasado 2 Vertical 2 Reentrante 1 Total 10 (oito recipientes) Figura 74: Recipientes de bordo aberto. (Peça 1, 2017_0077; Peça 2 2017_0078) (Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida)
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 104 Figura 75: Recipiente de bordo reentrante (2017_0075) (Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida) Figura 76: Recipientes de bordos verticais com motivos impressos, formando crescentes (Peça 1 2017_0082), e incisos (Peça 2 2017_0073) (Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 111 Figura 83: Espólio lítico da segunda intervenção por tipo de fabrico Ambos os tipos de fabrico mostraram-se diversificados em relação à sua tipologia. Na tabela 27 temos presente os tipos de utensílios lascados, assim como a sua quantidade. Já na tabela 28 é apresentada a quantidade e tipologia dos utensílios polidos. Tabela 27: Líticos lascados provenientes da segunda fase Tipologias Número de Peças Pontas de seta 5 Trapézios (geométrico) 2 Lâmina 1 TOTAL 8 Tabela 28: Líticos polidos provenientes da segunda fase Tipologia Número de Peças Goiva 1 Machado 1 TOTAL 2 4.2.2.2.1. Utensílios líticos lascados Entre os utensílios lascados há pontas de seta, trapézios (geométrico) e uma lâmina. As pontas de seta são, mais uma vez, maioritárias. Destaca-se o aparecimento de dois trapézios. Nas 80% 20% Líticos Lascados Líticos Polidos
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 112 tabelas seguintes, articulando com uma descrição em texto e alguns gráficos estatísticos, descrevemos, detalhadamente, todo o espólio lascado em termos tipológicos e tecnológicos. Todas as pontas de seta desta intervenção em perfeitas condições, apresentando-se inteiras, à exceção da ponta de seta “39” que apresenta uma pequena fratura na ponta. Foram fabricadas com diferentes matérias-primas, estando presente o sílex, a corneana e o quartzito de grão fino. De notar, ainda, que a ponta de seta “38” preserva parte do córtex na face superior. No caso das bases, apenas temos presente dois tipos: as pedunculadas, em maior número, com 60% (3 casos) e as triangulares que correspondem a 40% (2 casos) (Fig. 84). Figura 84: Gráfico da distribuição das bases de pontas de seta da segunda intervenção No caso das formas, temos novamente dois tipos: triangulares (4 casos) e losângicas, (apenas a ponta de seta “35”). Nas secções estão presente três tipos. Com secção oval temos a ponta de seta “36” e “39”, com secção triangular as peças “35” e “37” e como secção trapezoidal apenas um exemplar, a ponta de seta “38” (Fig. 85). O retoque é, em todas as peças, bifacial, com os bordos totalmente retocados. Este é, ainda, recobridor em todas as peças com uma exceção (ponta de seta ”38”), onde o retoque é longo. A delineação dos bordos é variada: as pontas de seta “37” e “38” têm bordos serrilhados; a “35” tem os bordos convexos; a “36” tem bordos irregulares e a “39”, retilíneos. A sua inclinação é ainda rasante com a exceção da ponta de seta “”38”, que é obliqua (Fig. 85). 60% 40% Pedunculada Triangular
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 113 Por fim, a largura das pontas de seta varia entre 1,7 cm e 4 cm; o comprimento entre 3,2 cm e 7,9 cm; a espessura entre 0,3 cm e 0,6 cm e o peso entre 1,5 gr e 9,2 gr. Com a exceção da peça “39”, que apareceu no quadrado N11, todas elas são proveniente do quadrado N10, ambos na zona da câmara. Tabela 29: Pontas de seta provenientes da segunda fase Núm. Matéria-Prima Medidas Max. Peso Base Delineação Secção 35 (1997_0856) Sílex castanho cinza semitranslúcido Lar: 1,9 cm Com: 3,2 cm Esp: 0,3 cm 1,5 gr Triangular Convexo Triangular 36 (1997_0849) Sílex castanho semitranslúcido (?) Lar: 1,7 cm Com: 3,2 cm Esp: 0,6 cm 1,7 gr Triangular Irregular Oval 37 (1997_0850) Corneana Lar: 4 cm Com: 6 cm Esp: 0,6 cm 9,2 gr Pedunculada Serrilhado Triangular 38 (1997_0853) Quartzito de grão fino cinza Lar: 2,4 cm Com: 4,5 cm Esp: 0,5cm 5,9gr Pedunculada Parcialmente serrilhado Trapezoidal 39 (1997_0857) Sílex rosa-escuro semitranslúcido Lar: 2,8 cm Com: 7,9 cm Esp: 0,5cm 7,1gr Pedunculada Retilíneo Oval 35Ponta de seta losângica, em sílex castanho cinza semitranslúcido, sobre lasca, corpo curto, bordos convexos, secção triangular e base triangular. O retoque é bifacial, invasor, total na face superior, parcial na face inferior, com uma inclinação dos bordos rasante. Peça inteira proveniente do quadrado N10 (Fig. 85). 36Ponta de seta triangular, em sílex castanho semitranslúcido (?), corpo curto, bordos irregulares, secção oval e base triangular. O retoque é bifacial, total, recobridor, com uma inclinação dos bordos rasante. Peça inteira proveniente do quadrado N10 (Fig. 85). 37Ponta de seta triangular, em corneana, corpo mediano, bordos serrilhados, secção triangular e base pedunculada. O retoque é bifacial, total, recobridor, com uma inclinação dos bordos rasante. Peça inteira proveniente do quadrado N10 (Fig. 85). 38Ponta de seta triangular, em quartzito de grão fino cinza, corpo mediano, bordos parcialmente serrilhados, secção oval e base pedunculada. O retoque é bifacial, total, longo, com uma inclinação dos bordos obliqua. Peça inteira que preserva ainda córtex na face superior, proveniente do quadrado N10 (Fig. 85). 39Ponta de seta triangular, em sílex rosa-escuro semitranslúcido, corpo alongado, bordos retilíneos, secção retangular e base pedunculada. O retoque é bifacial, total, recobridor,
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 114 com uma inclinação dos bordos rasante. Peça inteira com apenas uma pequena fratura na ponta proveniente do quadrado N11 (Fig. 85). Figura 85: Representação gráfica das pontas de seta de bases triangulares e pedunculadas, provenientes da segunda fase de escavação (35, 38, e 39. Desenho de Pedro Almeida tratamento gráfico de Amélia Marques; 37. Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques; Fotografia de Manuel Santos) Há apenas uma lâmina, em sílex, que apareceu no quadrado N10, na zona da câmara. Tem o talão liso, secção triangular e perfil côncavo. O retoque é bastante simples, alternante,
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 115 descontínuo e curto, localizado na zona distal e mediana. Tem ainda uma inclinação dos bordos rasante (Fig. 86). A largura da peça é de 2 cm; o comprimento de 14,4 cm; a espessura 0,6 cm e o peso de 19,9 gr. Tabela 30: Lâmina proveniente da segunda fase Núm. Mat. prima Medidas max. Peso Talão Delineação Secção Perfil Córtex 7 (1997_0855) Sílex cinza semitranslúcido Lar: 2 cm Com: 14,4 cm Esp: 0,6 cm 19,9 gr Liso Irregular Triangular Côncavo Não cortical 7Lâmina em sílex cinza semitranslúcido, talão liso, delineação irregular, secção triangular e perfil côncavo. O retoque é alternante, descontinuo, localizado na zona distal e mediana, curto, com uma inclinação dos bordos rasante. Peça inteira proveniente do quadrado N10 (Fig. 86). Figura 86: Representação gráfica da lamina proveniente da segunda fase de escavação (Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 116 Uma novidade desta escavação foi a recolha de dois trapézios geométricos, ambos em sílex esbranquiçado semitranslúcido. São peças muito semelhantes, com secções trapezoidais e suportes não corticais. As medidas de ambos são muito semelhantes. O trapézio “1” tem de largura 1 cm, de comprimento 3 cm, de espessura 0,2 cm e 0,5 gr de peso. Já o trapézio “2” tem de largura 1,2 cm, de comprimento 2,5 cm, de espessura 0,3 cm e 0,8 gr de peso (Fig. 87). Ambas as peças são provenientes do quadrado N10 Tabela 31: Trapézio (geométrico) proveniente da segunda fase Núm. Mat-prima Medidas max. Peso Secção Suporte 1 (1997_0851) Sílex esbranquiçado semitranslúcido Lar: 1 cm Com: 3 cm Esp: 0,2 cm 0,5 gr Trapezoidal Não cortical 2 (1997_0858) Sílex esbranquiçado semitranslúcido Lar: 1,2 cm Com: 2,5 cm Esp: 0,3 cm 0,8 gr Trapezoidal Não cortical 1Trapézio (geométrico) em sílex esbranquiçado semitranslúcido, com uma secção trapezoidal e suporte não cortical. Peça completa proveniente do quadrado N10 (Fig. 87). 2Trapézio (geométrico) em sílex esbranquiçado semitranslúcido, com uma secção trapezoidal e suporte não cortical. Peça completa proveniente do quadrado N10 (Fig. 87). Figura 87: Representação gráfica dos trapézios provenientes da segunda fase de escavação. (Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 117 4.2.2.2.2. Utensílios líticos polidos Mais uma vez, em menor número, temos os utensílios líticos polidos. Encontrou-se um machado, uma goiva e um moinho. O único machado foi exumado no quadrado N10. É de anfibolito verde-escuro, com acabamento polido, gume convexos e contorno subtrapezoidal. A secção é oval. Tem de largura 5,6 cm, de comprimento 14 cm, de espessura 2,3 cm e de peso 259,2 gr (Fig. 88). Tabela 32: Machado proveniente da segunda fase Núm. Mat. prima Medidas max. Peso. Contorno Secção 4 (1997_0854) Anfibolito verde-escuro Lar: 5,6 cm Com: 14 cm Esp: 2,3 cm 259,2gr Subtrapezoidal Oval 4Machado em anfibolito verde-escuro, com um acabamento polido, contorno subtrapezoidal, gume convexo e secção oval. Peça completa, proveniente do quadrado N10, com algumas fraturas no gume e na zona de encabamento (Fig. 88). Figura 88: Representação gráfica do machado em pedra polida proveniente da segunda fase de escavação (Desenho e tratamento gráfico de Amelia Marques).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 118 Mais uma vez esta segunda intervenção oferece-nos algo diferente da anterior em termos de espólio lítico. Referimo-nos a uma goiva que apareceu no quadrado N10. Esta foi confecionada em anfibolito verde-escuro, tem acabamento polido, contorno oval e secção oval. Tem de largura 1,6 cm, de comprimento 10,5 cm, de espessura 1,6 cm e de peso 47,3 gr (Fig. 89) Tabela 33: Goiva proveniente da segunda fase Núm. Mat.prima Medidas max. Peso. Contorno Secção 1 (1997_0852) Anfibolito verdeescuro Lar: 1,6 cm Com: 10,5 cm Esp: 1,6 cm 47, 3 gr Oval Oval 1Goiva em anfibolito verde-escuro, contorno oval e secção oval. Peça completa proveniente do quadrado N10 (Fig. 89). Figura 89: Representação gráfica da goiva proveniente da segunda fase de escavação (Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques) O moinho dormente, de grades dimensões, em granito de grão fino e encontra-se fragmentado, mais ou menos a meio e, por isso, temos apenas acesso a metade da peça. Foi um
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 119 achado ocasional encontrado na área do monumento e entregue à Junta de Freguesia de Lamas, tendo, posteriormente, transitado para o Museu D. Diogo de Sousa (Fig. 90). Tabela 34: Moinho provenientes da segunda fase Número Tipo Matéria-prima Medidas max. Secção 1 (2017_0288) Moinho Granito de grão fino Lar: 26 cm Com: 34,5 cm Esp: 15 cm “Meia-lua” 1Moinho dormente, em granito de grão fino, com uma secção em “meia-lua”. Peça fragmentada (Fig. 90). Figura 90: Representação gráfica do moinho proveniente da segunda fase de escavação (Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte III. Estudo monográfico da Mamoa de Leira das Mamas 120 4.2.2.3. Outras deposições Foram, ainda, recolhidos, vários fragmentos de ocre, de várias cores, variando entre o vermelho, laranja e amarelado. São pequenos fragmentos que podem corresponder a depósitos de metassedimentos 11 Figura 91: Fragmentos de ocre proveniente dos trabalhos da segunda fase (2017_0085) (Fotografia de Pedro Almeida) 4.3. Reconstituição do monumento Foi durante os trabalhos arqueológicos de 1997 que foi pensado o restauro do monumento, por parte da Junta de Freguesia de Lamas, de forma a potenciar a sua visitação e 11 Segundo Luís Gonçalves, do Departamento de Ciências da Terra da Universidade do Minho, a quem agradecemos a informação.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 223 Figura 189: Goiva (Desenho e tratamento gráfico de Amélia Marques) Por fim, foi recolhido um moinho dormente, em granito de grão fino 17 (Tab. 70, Fig. 190). É uma peça de grandes dimensões, de secção longitudinal em “meia-lua” e secção transversal, retangular. Encontra-se fragmentado, mais ou menos a meio e, por isso, temos apenas acesso a metade da peça. Teria mais de 40 cm de comprimento, por estimativa. Foi um achado ocasional, encontrado na área do monumento, após a intervenção de 1997, que terá vindo à superfície pela ação da maquinaria pesada. Trata-se de um utensílio associado ao trabalhos agrícola, nomeadamente à moagem, que Bettencourt (2010: 40) interpreta como “eventualmente reveladora de uma ligação simbólica entre atos relacionados com a subsistência ou a transformação e a morte.” São peças comuns em contexto megalítico, muitas vezes reaproveitados para incorporar a estrutura do monumento (Jorge, 1982; Cruz, 2001) 17 Foi retirada uma amostra da parte polida da peça, através de raspagem, para futuras análises.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 224 Tabela 69: Moinho Número Tipo Matéria-prima Medidas max. Secção 1 (2017_0288) Moinho Granito de grão fino Lar: 26 cm Com: 34,5 cm Esp: 15 cm “Meia-lua” Figura 190: Moinho (Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida) 1.2.3. Outras deposições Para além dos utensílios lascados e polidos foram recolhidos outros elementos líticos, de interesse arqueológico que fazem parte dos rituais que constituem o monumento. Na tabela 71 podemos verificar esse tipo de espólio assim como a quantidade recolhida. Assim verificamos a presença de cinco seixos, um percutor, um polidor, dois cristais de quartzo (um deles é um conjunto), dois calhaus graníticos, uma placa decorada e dois possíveis ídolos sobre seixo.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 225 Tabela 70: Outros depósitos líticos Tipologia Número de Peças Seixos rolados 5 Cristais de quartzo 2 Calhão 2 Ídolo (?) sobre seixos rolados 2 Percutor 1 Polidor 1 Placa decorada 1 Total 14 Já nas tabelas 72 e 73, dividimos este conjunto em dois grupos. Na primeira tabela estão os objetos com marcas claras de atividade humana e na segunda todo os restantes achados que não aparentam ter mão humana, mas que poderia ter significado simbólico e religioso. Todas estas peças foram recolhidas nos trabalhos de 1993. Tabela 71: Outras deposições: utensílios Número Tipo Matéria-prima Medidas max. Peso 1 (1996_0063) Polidor Aplito Lar: 5,2 cm Com: 10,3 cm Esp: 1,2 cm 98.7 gr 2 (1996_0060) Percutor Quartzo leitoso semitranslúcido Lar: 7,6 cm Com: 4,1 cm Esp: 5,7 cm 527 gr 3 (1996_0066) Placa Granito de grão fino Lar: 6,5 cm Com: 8 cm Esp: 1 cm 79,5 gr
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 226 Figura 191: Outros depósitos líticos: 1polidor; 2 - percutor em quartzo – várias faces (Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida; Fotografia de Manuel Santos).) O primeiro objeto, em aplito, de contorno ovalar, mas mais alargado de um dos lados e secção retangular serviu como polidor em três faces (laterais e distal). Mede 5,2 cm de largura, 10,3 cm de comprimento, 1,2 cm de espessura e tem 98,7 gr de peso (Fig. 191 - 1). O percutor, em quartzo leitoso semitranslúcido, apresenta marcas de utilização em toda a sua envolvente. Tem 7,6 cm de largura, 4,1 cm de comprimento, 5,7 cm de espessura e 527 gr de peso (Fig. 191 - 2). A placa, em granito de grão fino, com secção grosseiramente retangular aparentemente sem ser afeiçoada, apresenta-se decorada em ambas as faces. Numa das faces observamos duas covinhas circulares (uma na zona distal e outra, mais ou menos, a meio), mas também um sulco oblíquo, na zona proximal. Na outra face, conseguimos distinguir seis covinhas, cinco delas formando uma diagonal. Mede 6,5 cm de largura, 8 cm de comprimento, 1 cm de espessura e 79,5 gr de peso. Seria pintada? (Fig. 192).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 227 Não conhecemos paralelos para placas deste tipo no Noroeste de Portugal, embora se conheçam bloco com covinhas provenientes de monumentos megalíticos, com na Mamoa da Ermida, em Santo Tirso, onde se integravam em elementos pétreos do monumento (Baptista e Oliveira, 2021), nas Mamoas do Alto da Portela do Pau 2 e 3, em Melgaço (Jorge et al ., 1997) e na Mamoa 1 de Chã de Santinhos, em Baião (Jorge, 1989b) sempre integradas nas couraças pétreas ou na estrutura de condenação da câmara funerária. No entanto esta peça tem a particularidade de não ser um bloco, mas uma placa o que nos permite questionar se não terá chegado à região, alguma influência das placas existentes no Centro e Sul do território (Lillios, 2008; Cardoso e Carvalho, 2010-2011), embora os seus motivos sejam distintos. A placa mais a norte que se conhece inserida num monumento megalítico, é a do Cabeço dos Moinhos, na Figueira da Foz, publicada por Santos Rocha (1949) mas valorizada como placa por Cruz et al. (2014). Mesmo assim é diferente pois apresenta motivos triangulares. Figura 192: Esquerda: placa de granito de grão fino gravada (Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida; Fotografia de Manuel Santos). Direita: placa gravada com sulcos onde se distinguem dois triângulos unidos pelo vértice do Cabeço dos Moinhos (Santos Rocha, 1949, em Cruz et al. 2014). No segundo grupo (Tab. 73) considerámos os seixos rolados e angulosos, os cristais de quartzo, os possíveis ídolos (?) sobre calhaus rolados e calhaus graníticos.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 228 Tabela 72: Outras deposições líticas Número Tipo Matéria-prima Medidas max. Peso 4 (1996_0065) Seixo anguloso Aplito Lar: 8,6 cm Com: 9,5 cm Esp: 2,1 cm 258,5 gr 10 (2018_0109 G12) Seixo anguloso Quartzo leitoso semitranslúcido Lar: 7,2 cm Com: 6 cm Esp: 4,4 cm 459,7 gr 11 (2018_0109 G13) Seixo anguloso Quartzo leitoso opaco Lar: 4,2 cm Com: 6,1 cm Esp: 2,2 cm 138,9 gr 7 (1996_0059) Seixo rolado (de praia?) Quartzito Lar: 6,3 cm Com: 6,9 cm Esp: 3 cm 176,6 gr 13 (2018_0109 G10, 14, 15 e 16) Conjunto de pequenos seixos rolados Quartzo leitoso XXX XXX 9 (2018_0109 G51) Calhau rolado Granito de grão fino (Briteiros?) Lar: 7,3 cm Com: 10,3 cm Esp: 5,1 cm 591,7 gr 12 (2018_0109 G52 Fragmento de calhau rolado Granito de grão fino (Briteiros?) Lar: 9,9 cm Com: 12,2 cm Esp: 5,2 cm 842 gr 6 (1996_0064) Seixo rolado alongado (ídolo?) Granito de grão fino Briteiros? Lar: 6,2 cm Com: 14,3 cm Esp: 3,1 cm 374,6 gr 8 (2017_0287) Seixo rolado de contorno “antropomórfic o” (ídolo ?) Granito de grão fino de Briteiros Lar: 12,5 cm Com: 21,9 cm Esp: 5,5 cm 2536,1 gr 5 (1996_0061) Seixo anguloso Quartzo leitoso semitranslúcido Lar: 7,2 cm Com: 6 cm Esp: 4,4 cm 292,8 gr Começando pelos seixos devemos dizer que o seu depósito é comum neste tipo de monumentos (Gomes, 1996 18 ; Cruz, 2001, Sampaio et al ., 2013 19 , entre outros). No caso de estudo, são materiais que variam entre a aplito, o quartzo leitoso e o granito de grão fino, provavelmente Granito de Briteiros, sendo os seixos 4, 11 e 12, angulosos e os seixos 10, 13 e conjunto de quatro pequeno seixos, em quartzo (15), rolados (Fig. 193). A nossa atenção vai para o seixo 7, rolado e em quartzito que, pela sua configuração e matéria-prima, parece ser um seixo de praia, ou seja, de âmbito regional 20 . 18 Nomeadamente no dólmen de 2 da Lameira de Cima, Penedono. 19 Na Mamoa do Carreiro da Quinta, em Vila Verde. 20 de acordo com a classificação de Luís Gonçalves, do Departamento de Ciências da Terra da Universidade do Minho.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 229 A propósito de um seixo rolado incluído numa lareira encontrada no túmulo 1 de Campo de Caparinho, em Montalegre, entre outros seixos detetados neste monumento, Bettencourt et al. (2008: 77) coloca a hipótese de que “teria existido a intenção de associar a água ao fogo, num universo ideológico que valorizaria a importância de elementos de significação contrária no momento da morte”. Trata-se de monumento datado pelo radiocarbono do segundo quartel do IV milénio a.C., segundo os autores. Figura 193: Outros depósitos: seixos rolados e angulosos (Fotografias de Manuel Santos)
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 230 Há dois seixos, em granito de grão fino, de Briteiros (?) que merecem destaque, apesar de não se conhecer os seus contextos precisos, à micro-escala de análise (Fig. 192). Um deles é rolado, alongado, de extremidades arredondadas e com estrangulamento assimétricos, em cada face lateral (6), o que configura uma forma grosseiramente antropomórfica (Fig. 194) O outo é um seixo anguloso, também de forma antropomórfica e pesado, tendo 21,9 cm de comprimento, 12,5 cm de largura, 5,5 cm de espessura e 2536,1 gr. de peso (8). Terão sido escolhidos pela sua forma? Poderão ter funcionado como ídolos? Figura 194: Outros depósitos: Ídolos (?) (Fotografia de Manuel Santos; Desenho de Amélia Marques e tratamento gráfico de Pedro Almeida)
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 231 Ídolos sobre seixos são conhecidos em vários monumentos do Noroeste ibérico, nomeadamente no Mamoa 3 de Chã de Arcas, Vila Pouca de Aguiar (Sanches et al , 2021); dólmen 1 de Madorras (Gonçalves e Cruz, 1994); no dólmen 1 da Lameira de Cima, em Penedono (Gomes, 1996), com utilização na primeira metade do IV milénio a.C. (Cruz, 2001); entre outros da Galiza (Fábregas, 1991). Foram, ainda, recolhido um cristal de quartzo (O cristal isolado é em quartzo leitoso, semitranslúcido e está partido na ponta). Este não foi incluído na tabela pois, encontra-se sem contexto, não sabendo em que ano foi recolhido. (Fig. 195) Figura 195: Cristal de quartzo (Fotografia de Manuel Santos) O depósito de cristais de quartzo é comum em monumentos megalíticos do Noroeste, sendo considerados depósitos intencionais. Tal ocorre no Alto Minho, em diversos monumentos (Bettencourt e Vilas Boas, 2021); na bacia do Cávado (Mamoa 10 do Chão da Cheira, em Vila Verde - Bettencourt, 1991-1992), na bacia do Ave, com particular destaque para a Mamoa da Ínsua, em Vila do Conde (Bettencourt, 2023), na bacia do Leça, como é o caso da Mamoa 5 de Leandro (Ribeiro e Loureiro, 2010), entre muitos outros. Para além destes materiais, foi, ainda, recolhido um conjunto significativo de 48 fragmentos de ocre, praticamente todos, encontrados nos trabalhos de 1997. Estes têm colorações que variam entre o vermelho, o alaranjado e o amarelo alaranjado (Fig. 196)
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 232 Figura 196: Exemplos dos fragmentos de Ocre (Fotografia de Pedo Almeida) No contexto da Mamoa de Leira das Mamas poderiam ter várias funcionalidades como, por exemplo, serem usados nas pinturas megalíticas dos esteios, tendo em conta o que referiu Silva (2003: 273), a propósito de um dos esteio pintados deste monumento 21 , ou para cobrir deposições dentro da câmara funerária, tal como indicia a presença de restos de ocre vermelho na parede exterior de um recipiente cerâmico neolítico. Restos de ocre em contextos funerários no Noroeste português são conhecidos, como na pequena câmara da Mamoa da Cruzinha, em Esposende (Bettencourt, 2013c), entre muitos outros casos referidos em Jorge (1982) e Cruz (2001). De destacar, também, a sua presença no túmulo 2 de Vale Ferreiro, em Fafe, já do Bronze Inicial (Sampaio e Bettencourt, 2018). Mesmo assim o ocre poderá ter outras funcionalidades, tal como defende Cruz (2001: 192). Este autor indica que a presença de ocre, num momento megalítico, poderá revelar que a sua utilização seria importante nas práticas funerárias. Considera que a sua presença invoca a cor do sangue, simbolizando a vida para além da morte. Defende, também, o seu uso como pigmentos para pinturas corporais, além de na arte megalítica. Coloca, ainda, a hipótese de o ocre poder ser 2121 No entanto, nas análises efetuadas aos pigmentos de dois esteios decorados por Oliveira et al. (2017:4) o vermelho não foi detetada.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 239 Quanto ao seixo quartzito escuro (vermelho-tinto), este será provavelmente do litoral, pela sua configuração, ou seja, de origem regional. Este monumento fica a cerca de 30 km, em linha reta do litoral da Apúlia, onde esta matéria-prima é comum. O sílex, é a única matéria-prima de origem suprarregional. É a matéria-prima de preferência no fabrico de lascas, devido à sua fratura concoidal. Sabemos que no norte de Portugal não existem depósitos naturais de sílex, o que nos leva a concluir que tal matéria chegou, à area de estudo, através de relações de intercâmbio e de contacto com sociedades que viveriam para o centro de Portugal. A zona mais perto onde podemos encontrar sílex é no distrito Coimbra (Aubry et al. , 2014: 173), em Cantanhede, por exemplo, mas, também, no distrito de Leiria, como por exemplo, na Nazaré (Jordão 2012: 205), com características distintas, sendo o de Cantanhede mais esbranquiçado e acinzentado e o da Nazaré mais acastanhado e avermelhado As trocas poderiam ser: da matéria-prima em bruto (em nódulos); de núcleos ou de utensílios acabados. Como para alguns sílices há materiais residuais (lascas, esquírolas), é provável que tenham chegado alguns nódulos. A diversidade de sílices aponta para diversas proveniências, mas pouco mais podemos acrescentar sobre a proveniência desta matéria-prima, pois não realizámos análises através de lâminas delgadas, comparando a matéria-prima do espólio do monumento com amostras retirados dos depósitos originais, tal como fez Jordão (2012) sobre o sílex da faixa litoral entre a Nazaré e Peniche. 1.3Aspetos cronológicos 1.3.1. Construção Apesar de Silva (1997: 11) ter considerado que a construção deste monumento, de acordo com o espólio exumado, se verificou entre o Neolítico Final e o Calcolítico, o resultado da nossa investigação indicia uma cronologia mais antiga para a sua edificação. A nossa proposta baseia-se numa análise atenta do material depositado, em paralelos para o mesmo, e na análise da tipologia estabelecida por Carrera (2011) para as pinturas megalíticas. Datações mais recentes para o fenómeno do megalitismo funerário têm proposto que este é mais antigo do que considerado por Silva (1997). Além das cronologias gerais que englobam a Península ibérica (Paulsson, 2019), as datas existentes para o Noroeste mais litoral também apontam para esse fenómeno, como é o caso das Mamoas do Alto da Portela do Pau 1, 2 e 3
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 240 (Jorge, et al ., 1997), Mamoa de San Bieito 2 (Álvarez, 1993), Mamoa 10 do Chão da Cheira (Bettencourt 1990-1992), Mamoa do Leandro 2 (Valera e Antunes, 2008) e Mamoa da Chã da Mourisca (Vilas Boas et al. , no prelo). Nesses monumentos há espólios similares ao da Mamoa de Leira das Mamas, pelo que esta deverá enquadrar-se no Neolítico, entre os fins do V e os fins do IV milénios a.C. Em abono desta cronologia, temos os paralelos para a cerâmica decorada por sulcos verticais, normalmente designada por canelada. Esta ocorre na Mamoa 10 do Chão da Cheira, em Vila Verde, que Bettencourt (1991/1992) datou de meados do IV milénio a.C. Também aparece em monumentos da Serra da Aboboreira, como na Chã de Santinhos 2, inserido na primeira metade do IV milénio a.C. (Jorge, 1985: 113), na Mamoa de Furnas 2 datado da segunda metade do V milénio a.C. (Jorge et al. , 1988) e em Chã da Parada 1, datado dos meados do IV milénio a.C. (Jorge e Bettencourt, 1988). Assim, este tipo de decoração, rara em monumentos megalítcos, ocorre entre a segunda metade do V milénio a.C. e os meados do IV a.C., intervalo cronológico em que, hipoteticamente, inserimos a construção deste monumento. Este intervalo cronológico articula-se bem com o tipo de arte megalítica existente no monumento (onde as pinturas se efetuaram diretamente sobre os esteios), o que as inserisse na primeira metade do IV milénio a.C., segundo a proposta de Carrera (2011). Assim, é muito provável que a Mamoa da Leira das Mamas tenha sido construída durante este intervalo – primeira metade do IV milénio a.C. no que se considera o Neolítico Médio Regional. 1.3.2. Reutilização Forenbaher (1999: 81), com base num trabalho que compara as pontas de seta de 79 sítios arqueológicos, onde inclui oito do Norte de Portugal (sendo apenas dois do Noroeste), chega à conclusão de que é possível atribuir uma cronologia às pontas de seta, a partir da sua tipologia de base. O autor defende que, em Portugal, pontas de seta de base convexa e “salientes” (grupo 1) serão do Neolítico Final, enquanto as pontas de seta de bases concavas (grupo 2, 3, 4 e 5) e retas (grupo 2) pertencem ao Calcolítico (Forenbaher, 1999: 78). Para o grupo 6 não atribui cronologia. O mesmo autor afirma que as bases concavas são raras em contextos do Noroeste de
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 241 Portugal e que, devido à ausência de bases retas, nesta região, as bases convexas poderiam ter predominado no Noroeste no Neolítico Final e no Calcolítico 22 (Forenbaher, 1999: 81). Figura 200: Tabela de formas para as pontas de seta de Portugal (Forenbaher, 1999). Considerando esta informação, na Mamoa da Leira das Mamas não foram recolhidas pontas de seta de base concava, mas foram recolhidas duas de base reta (2.0-A0) (Tab. 76). Tal permitenos, desde logo, acrescentar que, no Noroeste de Portugal, existem pontas de seta de base retas, apesar de escassas, e de origem endógena, pois uma delas foi fabricada com matéria-prima local (corneana). Tabela 75: Formas das pontas de seta da Mamoa de Leira das Mamas, de acordo com a tipologia de Forenbaher (1999) Forma Número de peças 1.0-C0 2 1.0-D0 7 1.0-E0 4 22 Já em relação à proposta cronológica de Forenbaher (1999) para as pontas de seta de base triangular e pedunculada (grupo 1) que insere no Neolítico Final, temos muita dificuldade em aceitá-la dada a quantidade de pontas de seta destes tipos, existentes em monumentos mais antigos do Noroeste peninsular.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 242 2.0-A0 2 2.0-C0 5 2.0-D0 6 2.0-D1 1 2.0-E0 7 2.0-F0 1 3.0-D0 1 3.0-E0 2 Indeterminada 1 TOTAL 39 Tendo por base o modelo de Forenbaher (1999), é provável que o monumento tivesse estado em uso até ao Neolítico Final ou ter sido reutilizado durante este período ou durante o Calcolítico. De notar a presença de um eventual punhal, em sílex, no monumento em estudo, peças que Soares (2000 e 2005) considera calcolíticas. Assim, é provável que tivesse existido na Mamoa de Lamas, uma reutilização calcolítica, embora pouco expressiva. Foi admitido por Silva (1997: 11) eventuais “perdurações” até à Idade do Bronze na Mamoa de Leira das Mamas, sem que tenha especificado os motivos desta ilação. No entanto, sabemos, através da análise do espólio cerâmico que, de alguma forma, o monumento foi revisitado na Idade do Bronze o que poderá indicar quer novos depósitos funerários quer, apenas, depósitos ritualísticos que, aparentemente, se terão realizado na área da câmara. São indicadores dessa reutilização a presença de uma forma 10 (potinho/púcaro), que atravessa toda a Idade do Bronze; da forma 13 (vaso de bordo horizontal), muito comum na primeira metade do II milénio a.C., ou seja, entre o fim do Bronze Inicial e durante o Bronze Médio (cf. Sampaio, 2014, 2017a, 2017b, por exemplo); da forma 7 (pote), comum no Bronze Inicial e Médio (Bettencourt, 1991; 2000b; Bettencourt et al., 2004; Bettencourt e Fonseca, 2011) e da forma 1 2 (taça carenada de paredes grosseiras e alisada) que, segundo Bettencourt (1999: 1042; 1992; 2000b), ocorre no Bronze Médio. Assim, com base neste conjunto, levantamos a hipótese de que a reutilização ou reutilizações se verificaram, provavelmente, durante o Bronze Médio. O monumento também parece ter sido revisitado durante a época romana, por volta de meados do século I a inícios do século II d.C., no Alto Império, tendo presente os fragmentos de uma taça de tipo bracarense - imitação da forma Hispânica 4, entre outros materiais romanos, como fragmentos cerâmicos de tipo bracarense, uma ruela, uma ficha de jogo e uma tégula.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 243 Anteriormente, levantamos a possibilidade de no monumento ter sido depositado um tipo de “caixa votiva”, semelhante as descobertas na necrópole da Via XVII, onde são comuns tégulas e vasos destes tipo (Braga, 2010: 68). Apesar de existir espólio medieval (restos de dois recipientes) desconhecemos se seriam resultado de uma reutilização intencional ou de alguma violação antiga. Sabemos, ainda, que o monumento foi importante na longa duração, pela toponímia do lugar onde se implanta - “Leira das Mamas 23 ”, o que denota a importância deste tipo de monumentos como marcadores espaciais no tempo e no espaço. 2. A mamoa de Leira das Mamas no contexto local e regional 2.1. Contexto Local Apesar de não conhecermos povoados neolíticos nas proximidades do monumento, o facto de aí ter sido depositado um fragmento de um moinho granítico, que teria cerca de 40 cm de comprimento, e seria pesado, indicia que este poderia não estar muito longe. No entanto, no limite dos 120 minutos pedestres de circulação, a cerca de 7,5 km para nordeste, conhece-se o povoado do Monte Pedroso, em Adaúfe (Fontes et al., 2019) que parece ter uma ocupação do Neolítico e/ou do Calcolítico Inicial 24 (Fig. 197). Pelo topónimo e tradição local do sítio de implantação deste monumento - “Leira das Mamas”, é possível colocar a hipótese de que este estaria inserido num núcleo megalítico. Aliás, entre 60 e 120 minutos pedestres há, igualmente, vários monumentos megalíticos (cf. Ferreira et al. , 2000; Barbosa e Azevedo, 2004-2005: 118; Ferreira, 2012: 47), evidenciando que esta área foi muito frequentada durante o Neolítico. Pela localização do monumento, numa via natural de circulação, com acesso a uma grande variedade de recursos geológicos, descritos detalhadamente nas alíneas 1.1.6 e 1.2.4, e usados, tanto na construção do monumento como no fabrico do espólio lítico, é fácil perceber que a escolha da sua localização não foi arbitrária. De salientar, ainda, o facto de ter sido construído 23 Deturpação popular de Mamoa, segundo o dicionário, órgão glandular que segrega o leite nas fêmeas dos mamíferos. 24 Segundo Ana M. S. Bettencourt, que observou algumas cerâmicas do local.
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 244 no topo de uma colina, o que lhe conferia grande visibilidade para as populações que circulassem neste território, tornando-o, não só, um monumento de importância funerária, como um marco espacial relevante na paisagem. O local onde se implanta, nas imediações de recursos de vale, de monte e fluviais, em menos de 30 minutos pedestres (Fig. 197), indicia que as populações que construíram a Mamoa da Leira das Mamas tinham a possibilidade de praticar diferentes atividades, desde a agricultura, a pastorícia, o aproveitamento do bosque e a recoleção fluvial e terrestre. A ocupação Calcolítico existe, não muito longe, nomeadamente nos Covelinhos e em Santa Marta das Cortiças, ambos na freguesia de Esporões (Bettencourt, 1999, 2000a; Barbosa e Azevedo, 2004-2005; Bettencourt et al. , 2007). O primeiro, a cerca de 1,5 km para este-nordeste, dentro do território de circulação pedestre de menos de 30 minutos, e o segundo, a cerca de 3,5 km, também para este-noroeste, no território de circulação de 60 minutos (Fig. 197). É possível que as comunidades que aí habitaram tenham revisitado este monumento, embora não de forma continuada. Figura 201: Território de circulação pedestre de 2 h, a partir da Mamoa da Leira das Mamas, e sítios arqueológico no seu interior (elaborado por Ricardo Oliveira e Nuno Oliveira). Já a reutilização deste monumento, durante a Idade do Bronze, deverá relacionar-se com alguns povoados que existem nas suas imediações. No território de circulação inferior a 30
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 245 minutos fica o povoado da Senhora de Fátima, em Lajes, aparentemente do Bronze Final (Dinis, 1993: 124; Sampaio, 2014: 116-117), a cerca de 1,5 km para oeste da Mamoa da Leira das Mamas. No território de circulação de entre 30 e 60 minutos ficam os povoados de Outeiro de Chascos, em Fradelos (Fontes, 1993: 53; Bettencourt, 1999: 256), a cerca de 3,5 km para oestenoroeste; o de S. Bento, em Vimieiro (Fontes, 1993: 79), a oeste-noroeste; o da Quinta das Rosas, em Priscos, a oeste-sudoeste, com uma ocupação do Bronze Médio (Barbosa e Azevedo, 20042005: 124-125; Sampaio, 2014: 124) e o de Santa Marta das Cortiças, com ocupação no Bronze Final (Bettencourt, 1999, 2000a), a este-nordeste. No território de circulação de entre 60 e 90 minutos devemos assinalar os povoados de Bandeira/Monte do Talégrafo, em Tebosa (Barbosa e Azevedo, 2004-2005: 127-128) e o do Alto da Cividade, em Braga, com ocupação do Bronze Final, a norte-nordeste (Bettencourt, 1999: 253; Bettencourt 2000a; Sampaio 2014: 118, etc.), entre outros sítios arqueológicos da Idade do Bronze Inicial e Médio, existentes sob a cidade de Braga (Sampaio, 2014). No território de entre 90 e 120 minutos há a referir o povoado da Quinta do Amorim, em Braga, do Bronze Médio, a cerca de 7,5 km para norte (Sampaio, 2014: 129-130) e o da Sola, em Palmeira, do Bronze Inicial e Médio (Bettencourt, 1991; 2000b), a nor-noroeste. O “depósito” romano da Mamoa da Leira das Mamas não deverá ser alheio à possível via romana XVI, que sairia de Bracara Augusta e atravessaria o vale do rio da Veiga (Ferreira, 2012: 52), ao qual se deve associar, também, o casal rural, conhecido por Casal da Vila, na freguesia de Figueiredo (Lemos e Teixeira, 2000), a oeste-sudoeste do monumento e a menos de 30 minutos. Aí foram recolhidos fragmentos de material de construção e fragmentos cerâmicos romanos e medievais (Lemos e Teixeira, 2000). 2.2. Contexto Regional A Mamoa da Leira das Mamas localiza-se a baixa altitude, o que não é muito frequente a nível regional. Relaciona-se, assim, com os vários monumentos que tem vindo a ser descobertos em contexto de vales e na plataforma litoral, como é o caso do Dólmen da Barrosa, em Caminha (Castro-Nunes, 1951; 1955); da Mamoa da Ereira, em Viana do Castelo (Silva, 1988; 1992; 2003); da Mamoa de Lordelo de Cima, em Chafé, Viana do Castelo (Silva, 2003: 271) e da Bouça da Mó 2, em Barcelos (Vilas Boas e Dias, 2023). Silva (2003) e Bettencourt (2013a) têm vindo a defender que estes monumentos têm um elevado número de oferendas, em contraste com os monumentos implantados em zonas serranas e de maior altitude, que têm como característica, poucas oferendas (Jorge, 1982). O elevado
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 246 conjunto de oferendas, tanto cerâmicas como líticas, encontrados na Mamoa da Leira das Mamas, comprovada esta situação. Bettencourt (2013a) tem vindo a defender que tal se deve a diferentes modos de vida, sendo os construtores de monumentos de montanha, essencialmente pastores, e os de vale, mais vocacionados para a agricultura e com menor mobilidade. Se tivermos presente o contexto físico da área de localização da Mamoa da Leira das Mamas, verificamos que, se as populações vivessem nas suas imediações (o que é possível dada a presença de um moinho de grande porte), a diversidade de recursos existentes poderia garantir complementaridade de atividade e de meios de subsistência e, por conseguinte, uma maior sedentarização. Sobre os aspetos arquitetónicos, apesar de não conhecermos a planta da câmara, a constituição do montículo, apenas com sedimentos, tem paralelo na Mamoa 3 da Bouça do Rapido (Silva, 1990-1991), na Antela da Portelagem (Silva, 2003) e na Mamoa da Cruzinha, todas em Esposende (Silva et al., 1994; 1995), e na Mamoa da Ermida, em Santo Tirso (Baptista e Oliveira, 2022) todas elas na fachada mais ocidental. Vilas Boas ( et al. , no prelo), refere, ainda, que na bacia hidrográfica do rio Lima, este fenómeno é mais comum no curso inferior e em áreas de baixa altitude. Levantando a possibilidade de tal comportamento estar relacionado com a facilidade de obter sedimentos argilosos, facilmente encontrados em terraços fluviais. Quanto à existência de um piso, na câmara, há paralelos na Mamoa 1 de Outeiro de Ante, em Baião (Jorge 1982: 700), que apresenta, a poucos centímetros do solo geológico, um piso formado por pequenos seixos rolados. Sabemos que, também, na Mamoa do Poço da Chã, em Caminha, o corredor foi pavimentado com um “ladrilho” (Sarmento, 1993: 95), assim como a Mamoa 1 do Alto da Portela do Pau, em Melgaço (Jorge et al , 1997), construída sobre um “lajeado basal”. A possível existência de um átrio, definido por dois anéis líticos, tem paralelo na Mamoa 2 do Leandro, na Maia (Varela e Antunes, 2008). Quanto à arte rupestre, há vários monumentos megalíticos que apresentam pinturas diretamente sobre os esteios, como o de Cimo de Vila, em Esposende (Silva, 1990/1992; Bettencourt, 2013c); a Mamoa 5 do Leandro, na Maia (Ribeiro e Loureiro, 2015; Oliveira et al., 2017) e os de Chã de Parada 1 e 3, em Baião (Thowing, 1981). Os motivos reticulados das pinturas não são muito comuns, mas aparecem no Dólmen 1 da Aliviada, em Arouca (Silva, 1984; 2004), e no Dólmen da Areita, em S. João da Pesqueira (Raposo, 2001).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 247 No caso do espólio cerâmico neolítico, os recipientes com motivos em forma de crescentes encontram paralelo na Mamoa 5 do Leandro, na Maia (Oliveira et al. , 2019: 2). Já os sulcos verticais têm paralelos na Mamoa 10 do Chão da Cheira, em Vila Verde (Bettencourt, 1991-1992) e em monumentos na Serra da Aboboreira, como na Chã de Santinhos 2 (Jorge, 1985: 113), na Mamoa de Furnas 2 (Jorge et al. , 1988) e em Chã da Parada 1 (Jorge e Bettencourt, 1988), ou seja, numa área geográfica mais abrangente. A presença provável de idoliformes sobre seixos tem paralelo em inúmeros monumentos megalíticos, desde a Galiza ao Centro-Norte de Portugal. Como exemplos temos a Anta do Penedo do Com, em Penalva do Castelo (Perpétuo, 2021), a Orca de Pendilhe e Orca de Porto Lamoso em Vila Nova de Paiva (Cruz, 2001); As reutilizações de monumentos megalíticos na Idade do Bronze, são um fenómeno relativamente comum. A título de exemplo, na serra da Aboboreira, referimos as Mamoas de Cabritos 1 (Jorge, 1982), Chã da Parada 1 e das Cabras, em Baião (Cruz, 1992). Na bacia do Lima, esta existe num dos monumentos dos Montes de Prados, em Arcos de Valdevez (Bettencourt, 2010) e no Outeiro de Cavaladre 1, Ourense, já na Galiza (Eguileta, 1999). Já na bacia do Neiva, destaca-se a Mamoa da Mó 2, em Barcelos (Vilas Boas e Dias, 2023) e a de Chã da Mourisca 1 (Vilas Boas et al. , no prelo). Na bacia do Cávado, conhecem-se reutilizações da Idade do Bronze na Mamoa do Carreiro da Quinta, em Vila Verde (Sampaio et al., 2013) e na Antela da Portelagem, em Esposende (Bettencourt, 2010) e na bacia do Ave, estas existem, pelo menos, na Antela dos Corgos/Córregos, na Trofa, e na Lapinha, em Guimarães (Sampaio, 2014; 2017a). Mais ao centro do país, referimos, ainda, o monumento da Orca da Penela 1, em Tondela, entre muitos outros citados em (Cruz, 2001). Já as deposições de época romana em monumentos megalíticos são um fenómeno raro ou pouco valorizado, pelo que se trata de um tema de investigação muito importante. Damos, como exemplo, a Mamoa do Carreiro da Quinta, em Vila Verde, onde Sampaio et al. (2013: 52) também levantaram a possibilidade de uma deposição intencional do monumento, neste período. Outro exemplo importante é o da Mamoa da Casinha dos Moiros/Portela da Anta, em Arouca, onde se abriu uma sepultura romana, de incineração, no montículo (Silva, 2004).
Mamoa de Leira das Mamas – Parte IV. Discussão dos dados e interpretações 248 3. Considerações finais Tendo presente todos os resultados e interpretações deste trabalho, concluímos o estudo com as seguintes considerações finais: -o monumento megalítico de Leira das Mamas era de grande dimensões, com cerca de 34 m de diâmetro e mais do que 1,55 m de altura, considerando o esteio da câmara que estava inteiro e in situ , sendo possível que chegasse aos 2 m de altura; - era formado por um montículo, apenas em terra, que cobria por completo a estrutura dolménica; -apesar da reconstrução da câmara do monumento ser problemática, podemos levantar várias hipóteses para a sua tipologia. Uma delas é que poderia ser poligonal e sem corredor, formada por oito esteios, o que estaria de acordo com o contorno circular do montículo; - a base da câmara parece ter tido um piso; - no interior da câmara houve uma subdivisão interna, composta, pelo menos, por duas lajes, perto do seu lado oeste, de cronologia desconhecida; - a câmara teria sido pintada, restando ainda três esteios com vestígios de motivos abstratos (reticulados), de coloração branca e, talvez vermelha, efetuada diretamente sobre o granito; - a câmara era rodeada por um contraforte formado por blocos e calhaus, colocado a 10 cm do “solo de base” com cerca de 45 cm de altura; - a este/sudeste da câmara a existência de dois anéis líticas periféricos o que permite levantar a possibilidade de aí ter existido um antigo átrio ou área aberta no momento da condenação do monumento, onde se teriam verificado deposições, de espólio cerâmico e carvões. De notar que a presença de espólio na área da estrutura de condenação das câmaras e corredor é abundante noutros monumentos. - a sociedade que construiu este monumento aproveitou, ao máximo, a matéria-prima local; - a tinta para as pinturas dos esteios também foi efetuada, pelo menos em parte, com matéria-prima local, segundo Oliveira et al. (2017); - os ritos de enterramento parecem ter implicado o uso de vários tons de ocre;
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