pulismo(s) cí Po pulismo mo(s) e suas a e suas lingua mo(s) e suas lin Populis mo(s) suas lin guagens guagens Populismo(s) e suas linguagens Textos selecionados Populismo(s) e suas linguagens Textos selecionados ORGANIZADORES MARIA ALDINA MARQUES SÉRGIO GUIMARÃES DE SOUSA JOSÉ TEIXEIRA MARIA DA CONCEIÇÃO VARELA RUI RAMOS ISABEL ROBOREDO SEARA MICAELA AGUIAR COLÓQUIO DE OUTONO XXII COLÓQUIO DE OUTONO XXII Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional UNIÃO EUROPEIA «A sustentabilidade da política e dos discursos políticos como discursos públicos deve necessariamente contemplar as disrupções dos populismos. Diríamos, mesmo, que não há política sem populismo. Quebra-se, assim, uma das primeiras marcas de populismo assente na dicotomia nós – eles. A questão não estará, pois, em suprimir os discursos e atos populistas, mas em encontrar as raízes do fenómeno, determinar as suas características e os contextos de ocorrência, circunscrever, numa palavra, os modos de tais manifestações.» 9 789897 557897
XXII COLÓQUIO DE OUTONO Populismo(s) e suas linguagens Textos selecionados EDITORES MARIA ALDINA MARQUES SÉRGIO GUIMARÃES DE SOUSA JOSÉ TEIXEIRA MARIA DA CONCEIÇÃO VARELA RUI RAMOS ISABEL ROBOREDO SEARA MICAELA AGUIAR
Comissão de Leitura Alexandra Guedes Pinto, U. Porto – Portugal Ana Isabel Moniz, U. Madeira – Portugal Ana Lúcia Tinoco – Brasil Carlos Pazos, U. Minho – Portugal Carlos Piovezani, UFSCar – Brasil Isabel Sebastião, Centro de Linguística da U. Porto – Portugal Isabelle Marques, U. Aberta – Portugal Jaime Becerra Costa, U. Minho – Portugal Jarbas Nascimento, PUC-SP, Brasil Luzmara Curcino, UFSCAR – Brasil Maria Auxiliadora Baseio, UNISA – Brasil Maria Zara Coelho, U. Minho – Portugal Mário Matos, U. Minho – Portugal Michelle Alonso, UERJ – Brasil Patrícia Neves Ribeiro, UFF – Brasil Rosa Cabecinhas, U. Minho – Portugal Rosalice Pinto, CLUNL – Portugal Sónia Rodrigues, U. Porto – Portugal Vanice Sargentini, UFSCar – Brasil Veronica Manole. U. Cluj – Roménia Vítor Moura, U. Minho – Portugal Zilda Aquino, USP – Brasil POPULISMO(S) E SUAS LINGUAGENS Textos selecionados Organização: Maria Aldina Marques | Sérgio Guimarães de Sousa | José Teixeira | Maria da Conceição Varela Rui Ramos | Isabel Roboredo Seara | Micaela Aguiar Edição do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho © EDIÇÕES HÚMUS, 2022 End. Postal: Apartado 7081 – 4764 -908 Ribeirão – V.N. Famalicão Tel. 926 375 305 E -mail: [email protected] Impressão: Papelmunde, SMG, Lda. – V. N. Famalicão 1.ª edição: junho de 2022 Depósito legal: 501601/22 ISBN 978 -989 -755-789-7 Projecto da FCT – UIDP/00305/2020
ÍNDICE 7 Apresentação Maria Aldina Marques, Sérgio Guimarães de Sousa 13 Discurso populista y redes sociales: el caso de España Catalina Fuentes Rodriguez 43 El discurso populista en las revistas del primer Franquismo Carla Prestigiacomo 67 A (des)cortesia dissimulada nos discursos considerados ‘Populistas‘ em Portugal Isabel Roboredo Seara 91 Populismo na política brasileira: desobedecer para melhor obedecer Vanice Sargentini 109 Discurso populista como resistência? Análise de uma campanha política nas redes sociais Michelle Gomes Alonso Dominguez 127 Populismo(s): o ser e o fazer no discurso político português Isabel Fuzeta Gil 149 Falar às massas, calar o povo. Usos da linguagem fascista no Brasil contemporâneo Carlos Piovezanil 173 (Des)acordo ortográfico. Análise discursivo-pragmática de argumentos populistas na construção da polémica verbal escrita sobre o Acordo Ortográfico de 1990 Mariana Silva Ninitas 197 Livros, política e populismo: a ‘nova‘ direita brasileira e seus best sellers Luzmara Curcino, Thiago Augusto Carlos Pereira
223 Arte de massas, populismo e arte popular Carlos Bizarro Morais 237 Populismo no Youtube: elementos materiais e retórica na Bolsonaro TV Karina Santos, Flávio Nehrer, Fabio Minervini, Maria Fernanda Pereira Machado, Karina Negrão 263 Emergência de um novo populismo no Brasil e liberdade de expressão: os deslocamentos do dizer verdadeiro na política Kátia Menezes de Sousa 279 Charismatic or providential? Popular or populist? The case of Portugal’s President Marcelo Rebelo de Sousa Jean Noël Fernand Mercereau, Jorge Manuel Almeida Gomes da Costa
APRESENTAÇÃO A sustentabilidade da política e dos discursos políticos como discursos públicos deve necessariamente contemplar as disrupções dos populismos. Diríamos, mesmo, que não há política sem populismo. Quebra-se, assim, uma das primeiras marcas de populismo assente na dicotomia nós – eles. A questão não estará, pois, em suprimir os discursos e atos populistas, mas em encontrar as raízes do fenómeno, determinar as suas características e os contextos de ocorrência, circunscrever, numa palavra, os modos de tais manifestações. Como palavra em moda, populismo serve de argumento e contra-argumento nas mais diversas situações, levando a um alargamento, quase pulverização, de sentidos, marcados assim por alguma vagueza. É necessário, com efeito, investigar os novos, e por vezes díspares, sentidos em uso. Ter em conta os interlocutores, a sua experiência cognitiva e social, os contextos sociais e políticos em que se enquadram, vale dizer, encontrar as raízes do fenómeno e as formas discursivas em que se constitui. Os populismos são uma preocupação séria das sociedades atuais. Portugal, ao contrário do que se tem afirmado, não está imune a este fenómeno político e social. Com a edição desta obra, pretende-se recolocar a questão dos populismos e contribuir para uma literacia política, cada vez mais necessária. O intuito primeiro deste volume consiste em oferecer ao leitor análises aprofundadas do fenómeno do populismo e das suas linguagens, ou, se se preferir, das suas múltiplas declinações, dado tratar-se, como é sabido, de um fenómeno assaz complexo e sujeito a diversos deslindamentos. São, de facto, muitas, e infelizmente fecundas, as veredas pelas quais se manifesta o populismo. Disso mesmo nos dão conta as análises propostas neste livro, assinadas por reputados autores oriundos de diversas proveniências geográficas e, por vezes, de distintas filiações académico-intelectuais. Todos, porém, norteados pelo rigoroso princípio da análise crítica e imparcial do fenómeno populista e das suas decorrências ao nível da linguagem.
8POPULISMO(S) E SUAS LINGUAGENS Assim, Catalina Fuentes Rodríguez (“Discurso populista y redes sociales: el caso de España”), focando esse campo de batalha e de confronto social que são as redes sociais, em especial o Twitter, analisa as acusações de populismo lançadas pelos seus utilizadores aos políticos bem como as acusações desse teor que os políticos entre si trocam. A finalidade da autora é clara: recensear e refletir sobre as componentes argumentativas mobilizadas neste tipo de ataques verbais. O mesmo é dizer, perceber do ponto de vista dos seus expedientes e das suas estratégias a mecânica da linguagem do chamado discurso populista, de modo a avaliar se esse discurso se consubstancia por uma argumentação incorreta ou antes por uma manipulação consciente. Por sua vez, Carla Prestigiacomo (“El discurso populista em las revistas del primer franquismo”), tomando como objeto de estudo o discurso mediático veiculado por emblemáticas revistas (neste caso, Legíones y Falanges e Y, Revista para la mujer nacional sindicalista) e apoiada em consistentes metodologias científicas (análise crítica do discurso, estudos sobre ideologia, linguística pragmática, teoria da argumentação), expõe o modo como nessas publicações, ao serviço da propaganda ideológica franquista, se constrói um discurso populista sobre a identidade da mulher. Isabel Roboredo Seara (“A (des)cortesia dissimulada nos discursos considerados ‘populistas’ em Portugal”), por seu turno, cientificamente balizada em autores como Kaiser, Dockendorff e Drămnescu, e centrando a sua atenção em discursos populistas produzidos em Portugal, mostra aí a relevância tanto de uma estratégia de cortesia (estando em pauta a construção de uma imagem social positiva do outro) como de uma estratégia inversa, a da descortesia (estando em causa a construção de uma imagem social negativa do outro), visível esta última na violência verbal. Ademais, a autora, recorrendo à noção de ethos discursivo, expõe os argumentos subjacentes à construção de um ethos carismático: aquele pelo qual um líder se reivindica porta-voz do povo, porque supostamente em simbiose ideológica com a vontade popular e da qual seria a expressão mais pura. Daí o consequente confronto com as elites, denegrindo-as. Noutro estudo, o de Vanice Sargentini (“Populismo na política brasileira: desobedecer para melhor obedecer”), procede-se a uma análise das formas de expressão do populismo e das suas práticas discursivas no âmbito da presidência bolsonarista, prestando especial atenção ao modo paradoxal como essa presidência apela à obediência acrítica, por um lado, e instiga no interior do próprio governo, por outro lado, à desobediência civil. Como bem revela a
9APRESENTAÇãO autora, este double bind inscreve-se numa clara estratégia autoritarista. Quanto a Michelle Gomes Alonso Dominguez (“Discurso populista como resistência? Análise de uma campanha política nas redes sociais”), a autora – na esteira de Chantal Mouffe (Por um populismo de esquerda) e da noção de populismo proposto por E. Laclau e ainda do conceito de populismo digital teorizado por Cesarino – questiona a possibilidade de os discursos populistas se poderem constituir enquanto discursos de resistência. Isabel Fuzeta Gil (“Populismo(s): o ser e o fazer no discurso político português”), por seu lado, a partir dos termos “populismo”/”populista” e tendo por base o Diário da Assembleia da República e a imprensa escrita, debruça-se sobre o modo como, em contexto português, se manifesta discursivamente o populismo, isto é, de que forma entre nós se perfaz a construção de um ethos discursivo de natureza populista, tendo presente aspetos sócio-cognitivos (a ênfase emocional, por exemplo) e figurações retórico-pragmáticas e pragmático-discursivas. Carlos Piovezani (“Falar às massas, calar o povo. Usos da linguagem fascista no Brasil contemporâneo”), fundamentando-se em Victor Klemperer (A linguagem do Terceiro Reich) e Jean-Pierr Faye (Introdução às linguagens totalitárias) e em postulados afetos aos estudos de análise do discurso bem como à retórica, estabelece pertinentes pontos de convergência entre o fascismo e o populismo, de forma a colocar em evidência o facto de os pronunciamentos e as declarações de Bolsonaro materializarem traços de linguagem neofascista. Mariana Silva (“Des)acordo ortográfico. Análise discursivo-pragmática de argumentos populistas na construção da polémica verbal escrita sobre o acordo ortográfico de 1990”), enquadrando-se cientificamente nas perspetivas da análise do discurso, da pragmática, da retórica, da argumentação e da linguística interacional, reflete sobre os principais argumentos manipulados no tocante à construção do discurso polémico sobre o AO90, designadamente os argumentos populistas, conforme sucede quando a argumentação em pauta se arroga a pretensão de traduzir a vontade do povo. Luzmara Curcino e Thiago Augusto Carlos Pereira (“Livros, política e populismo: a ‘nova’ direita brasileira e seus best sellers) estudam o cenário livreiro através do qual, nas últimas décadas, se publicaram no Brasil obras ligadas à chamada “Nova Direita”. O que, por sua vez, ajuda, segundo os autores, a melhor entender o atual panorama político brasileiro, marcado pela ascenção da direita ao poder.
10 POPULISMO(S) E SUAS LINGUAGENS Carlos Bizarro Morais (“Arte de massas, populismo e arte popular”), abordando a matéria da arte de massas, típica da cultura pós-moderna, demonstra, filiando-se em M. Dufrenne, como nela se perspetiva uma dissimulação no sentido de a colar à autêntica expressão popular. Razão pela qual, diz-nos com inegável pertinência Carlos Bizarro Morais, cabe à estética filosófica atuar, contrapondo as categorias de arte de massas e arte popular, sendo esta última, com a eficácia estética que se lhe reconhece, capaz, defende o autor, de combater o populismo. Karina Santos, Flávio Nehrer, Fabio Minervini, Maria Fernanda Pereira Machado e Karina Negrão (“Populismo no youtube: elementos materiais e retórica na bolsonaro TV”) identificam o estilo retórico de Bolsonaro com o discurso populista ocorrido aquando da pré-campanha para as eleições maioritárias de 2008 na Bolsonaro TV e no canal youtube do atual presidente brasileiro. Desta maneira, relevam no então candidato à presidência do Brasil reconhecíveis marcas de discurso populista. Kátia Menezes de Sousa (“Emergência de um novo populismo no Brasil e liberdade de expressão: os deslocamentos do dizer-verdadeiro na política”) problematiza a forma como a extrema-direita, na qual neoliberalismo e características de fascismo convergem, se serve de um discurso de liberdade orientado, em boa verdade, para uma ideologização repressora das liberdades democráticas e, como tal, promotora, entre outros aspetos, da discriminação e da violência. Neste sentido, a autora não deixa de apresentar um estudo competente sobre o modo como discursos ligados ao direito à liberdade de expressão se conjugam com o populismo autoritário. Para finalizar, Jean Mercereau e Jorge Manuel Almeida Gomes da Costa (“Charismatic or providential? Popular or populist? The case of Portugal’s President Marcelo Rebelo de Sousa”), diferenciando noções por vezes amalgamadas (como “popular” e “populista”, liderança “carismática” ou “providencial”) e avaliando o grau de compatibilidade destas noções com os valores democráticos, estudam, através de quatro discursos apresentados no seu primeiro mandato presidencial, o caso Marcelo Rebelo de Sousa, um carismático presidente não raro rotulado de “populista bom” e de “líder providencial”. De que maneira estes rótulos se enquadram no comprometimento democrático, eis uma das questões, entre outras, a que este interessante estudo sobre as implicações de estilos de liderança pretende fornecer resposta. Resta salientar que os estudos aqui apresentados foram objeto de uma primeira comunicação, aquando do XXII Colóquio de Outono, realizado no
17DISCURSO POPULISTA y REDES SOCIALES: EL CASO DE ESPAñA los populismos es la simplificación: “Todos proponen soluciones fáciles a problemas complejos”. Victoria Prego, periodista, lo describe como “una amenaza seria para las democracias liberales”. “Pretenden destruir las democracias pidiendo precisamente más democracia – ha argumentado –; el resultado: sistemas totalitaristas”. Para Casimiro García-Abadillo, director de El Independiente, sus puntos esenciales son: a) “La idea del pueblo como un todo”, algo que considera positivo, “que siempre tiene la razón y que a veces tiene características nacionalistas como Vox, Podemos o los populistas latinoamericanos”. b) El maniqueísmo: “Hay dos bloques, los buenos y los malos; el pueblo y la oligarquía; los desheredados y el Ibex35; y ese discurso tiene una demagogia extraordinaria, solo hace falta recordar que Trump, un millonario, se presentó como un antisistema ante Clinton, que representaba a los ricos de Wall Street”. c) La crítica constante al sistema parlamentario. “Podemos reclamaba ‘Democracia real, ya’, como si la democracia fuese un invento de los oligarcas para quitarle poder a los ciudadanos”. d) La existencia de un líder carismático. “Desde Le Pen a Pablo Iglesias, o Chávez, Trump, Putin… El partido es un instrumento al servicio del líder, que es el único que sabe interpretar lo que quiere el pueblo”. e): El rechazo a la libertad de prensa. “Trump insulta y maltrata a los escépticos”. Álvaro Ibarra, director de ABC de Sevilla, liga este movimiento a las situaciones de necesidad, en las que surgen los demagogos. Insiste en ese planteamiento maniqueísta que opone “el pueblo a las élites” porque falta una clase media que frene esta aparición de los populismos. Obra a su favor la desinformación, que afecta más a las generaciones jóvenes, entre las que se extiende este movimiento. Como vemos, la manipulación está en la base de todo el fenómeno y lo que puede tener un origen virtuoso se desplaza, por el uso interesado, a la demagogia y al empleo de la falsedad como base del proceso.
18 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS 3.2. Anatomía del populismo Características recurrentes de los movimientos políticos populistas son, según Nardaccio (2019, pp. 42-43): – La exaltación de la figura del líder político carismático (Freidenberg 2007; Charaudeau 2009). – El enfrentamiento dialéctico entre el pueblo puro contra la élite corrupta. Para ello se recurre a temas emotivos, simples de aceptar para el ciudadano, a la altura de su inteligencia, y se explotan temas prácticos como el empobrecimiento, la desigualdad, el paro o la identidad nacional. El culpable siempre es el otro, entendido como enemigo, en una polarización extrema. El líder es el Robin Hood que nos va a salvar de la situación. – El ensalzamiento de la colectividad y soberanía ciudadana, que constituye la legitimación de líder. Es producto de la democracia, como dice Charaudeau, pero entendida de manera simplista y reduccionista. En el caso del discurso populista, nos refiere Nardaccio (2020, p.722) en relación al movimiento Cinque Stelle: A tal fin, el discurso se llena de inferencias a la participación y a la intervención activa de los ciudadanos, asumiendo una igualación de niveles entre la clase política y la ciudadanía. Un recurso, la hipersimplificación de la complejidad política, que se acompaña de la coloquialización del lenguaje y ausencia de tecnicismos, que a menudo se ha listado dentro de las estrategias características del discurso populista (Tarchi, 2014). – La inconsistencia y falta de homogeneidad ideológica. Cualquier líder puede serlo. Por ello Charaudeau habla del populismo como una estrategia. Nardaccio alude también a lo que Kirchheimer llamaba partidos multicomprensivos (metapartidos, catch-all parties), con una ideología menos marcada e indefinida, que busca aglutinar electores de diferentes orígenes. Privilegian conseguir resultados más que la coherencia en los principios que los sustentan. Esta tendencia se observa en los partidos actuales y conecta claramente con el populismo. En suma, la anatomía del discurso populista se concentra en 4 elementos básicos: – Origen: Una situación negativa que afecta a la población – Agente: Un líder carismático que ejerce una labor de imagen y se proyecta hacia los demás
19DISCURSO POPULISTA y REDES SOCIALES: EL CASO DE ESPAñA – Discurso de confrontación: Una situación de enfrentamiento ideológico entre líderes – Rol del pueblo: El ciudadano cobra un papel fundamental, no solo como receptor del mensaje, sino como el objetivo de la labor del político. Este hace suya sus necesidades y le presta su voz. Se convierte en el defensor del pueblo. El líder aúna su misión con la del pueblo, y sitúa al ciudadano en el centro de su discurso. Este objetivo es el fundamental y todos los demás (defender al país, hacerlo avanzar, defender la democracia, etc.) se subordinan a obtener el apoyo de la masa. De ahí que el fenómeno adquiera un contenido negativo. La pregunta que nos hacemos es ¿el populismo es una estrategia o un tipo de discurso político? Es una característica que tiene como objetivo, según dice la RAE, atraerse al pueblo, llegar a la mayor cantidad de votantes (“Tendencia política que pretende atraerse a las clases populares.U.m.en sent. despect.”, DLE, s.v.) pero puede terminar siendo un tipo de discurso que atraviesa todo el espectro político. Aspectos como la construcción del liderazgo y los efectos sociopragmáticos ligados a la imagen social e identidad (Arundale 2006; Fuentes Rodríguez coord. 2013, 2016; Goffman 1967; Spencer-Oatey 2007) van asociados al proceso. 3.3. El líder, hombre del pueblo: Identificación líder y pueblo Este tipo de discurso, y herramienta o estrategia para la persuasión a la vez, tiene una gran importancia en la construcción de la imagen del líder. Charaudeau (2009) establece un proceso entre Líder carismático - fomentar el descontento - usar la eomoción - simplificar… El lider es del pueblo - representa al pueblo - recoge las demandas del pueblo Pérez Curiel (2020, p. 177) insiste en este aspecto del liderato: A new opinion leader model has emerged, which has established itself as an interesting marketing tool, whose value resides in that these leaders have learned how to combine their tasks as such with the care and management of their political identity in a space as conducive as social media. Campus (2010, p. 151), por su parte, considera que esta estrategia puede ser usada por el gobierno:
20 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS la motivación de la antipolítica entre los ciudadanos puede ser fomentada y amplificada por el gobierno y, en particular, por los líderes carismáticos, a fin de crear apoyo para reformas de la administración pública y/o la introducción de nuevas políticas económicas y sociales. El lenguaje populista es frecuente y efectivo en etapas sociales de desilusión, cuando aparece ligado a la antipolítica, según esta autora. Es utilizado por líderes carismáticos que se aprovechan del descontento para alentar a las masas y, así, conseguir que triunfen sus propuestas. A menudo los líderes populistas son outsiders y hacen gran hincapié en su oposición al establishment. Con frecuencia prometen “devolver el poder a la gente”. Pero esos líderes enfrentan una contradicción potencial una vez en el gobierno. ¿Cómo pueden ser anti-establishment y en forma simultánea estar en el poder? (idem, p. 152) Este instrumento prendió en el movimiento social de los Indignados, que se extendió por toda Europa y parte de América y dio lugar, en el caso de España, a la aparición de nuevos partidos, como Podemos7: en el caso de los líderes que sustentan el poder, los que están en el gobierno, el populismo radica en la relación “de identidad fundamental entre la persona del líder y su proyecto político”.(idem, p. 153) Campus considera que este tipo de discurso puede prender y contaminar todo el discurso político general. El líder se presenta como alguien cercano al pueblo, surgido de entre ellos. Uno de los rasgos más típicos de los líderes populistas es el intento de presentarse a sí mismos como hombres comunes, aun cuando en realidad se hayan beneficiado de una educación elitista y del bienestar económico. (idem, p. 154) Albert Rivera, líder de Ciudadanos en 2019, por ejemplo, utilizó para su última campaña su imagen como padre, divorciado, escribiendo una carta a su hija: “a mi hija Daniela”, como símbolo de todos los españoles. Frecuentemente aludía al trabajo de su padre como autónomo. Inés Arrimadas (Ciudadanos) cita sus orígenes andaluces, a la vez que su trabajo en Cataluña. Teresa Rodrí7 Cfr. Alcaide Lara (2019) sobre el discurso populista de Ciudadanos y Podemos.
21DISCURSO POPULISTA y REDES SOCIALES: EL CASO DE ESPAñA guez (Adelante Andalucía) se presenta como profesora de secundaria y mujer de Kichi, apelativo con el que se conoce a su marido, alcalde hoy de Cádiz. Este término familiar es el empleado por periodistas y políticos. Es una estrategia de acercamiento extrema, pero eficaz. Los nombres de los nuevos partidos también se orientan en la misma dirección. Vox se asocia con la voz del pueblo, que ahora es escuchada, y Ciudadanos encarna ese ideal de ser portavoz del hombre de la calle. Podemos, acción en plural y en presente (aserción), encarna el poder del votante. Es un mensaje de esperanza que tuvo mucho eco en los españoles decepcionados de la política. Cambia el paradigma (o se vende como tal): de una élite de gobernantes a una puerta abierta a cualquier ciudadano. El votante se dice: “El político es igual que yo, usa Twitter como yo, me habla como uno más de la red”. Como vemos, partidos de uno y otro signo se apuntan a la estrategia fácil y simplista que compra el usuario sin pensar mucho. Mientras más simple, más fácil es que prenda. Lo tenemos en el discurso de Trump, que simplifica o miente, y aun así gana elecciones. Parecería que el ciudadano prefiere mensajes directos y sencillos, que las situaciones difíciles se atenúen de modo que pueda entenderlas y vea una solución, o que se le promete una solución, aunque sea falsa. 3.4. El populismo como argumento de ataque entre partidos La percepción del populismo es muy variada. Es muy curioso ver qué consideran los usuarios populismo, ya pertenezcan a la clase política o no. Por ello, vamos a centrarnos en los mensajes de políticos españoles relevantes para ver en qué sentido emplean este término, y cómo reaccionan los ciudadanos que intervienen en redes. Estos últimos son los que más utilizan el término. En todos ellos la visión es negativa y constituye una acusación dirigida a políticos de todo signo. Por ejemplo, en Twitter, como reacción a un tuit de Cayetana Álvarez de Toledo (PP), se define populismo como “Absolutismo moderno, 2.0”, una versión más de una dictadura de la voluntad popular. TW 2020 ene ALV 14/01 Cayetana Álvarez de Toledo: El voto como eximente del delito. ¿Lo dirían de un presidente condenado por corrupción? [imagen de Pablo Iglesias en Antena 3]
22 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS Usuario 1 (sin identificar): Y he ahí queridos amigos… el populismo. (La voluntad popular está por encima de la ley. Es el absolutismo 2.0) En un comentario a un mensaje de Cayetana sobre Monedero, otro usuario pone las claves: que vayan mal las cosas es la condición para que prenda el populismo: TW 2020 mar ALV 20/03 Cayetana Álvarez de Toledo: “«He amanecido con un Orinoco triste paseándose por mis ojos. Querer a Chávez nos hace tan humanos, tan fuertes.» [enlace a un tuit de Juan Carlos Monedero con el comentario: “@IdiazAyuso y el .@ PPopulares han cerrado camas y habitaciones en la pública para medicalizar hoteles de sus amigos y derivar pacientes a la privada. ¿Creíais que no iban a hacer negocio con la crisis? ¿Ya habéis olvidado lo que robaron en la anterior? Qué jeta eres Ayuso. Twitter. com/Emilio_Silva_/…”] Usuario 1 (hombre): Como es posible que sea tan sinverguenza el tipo ese. El sabe que cuanta más miseria, más sufrimiento, más caos….mejor funciona el populismo. Y van ganando, ojo En otros casos se critica como populismo la tendencia constante a la confrontación: TW 2020 abr ALV 09/04 Cayetana Álvarez de Toledo: Adriana Lastra boicotea los Pactos de la Moncloa de Pedro Sánchez. Usuario 1 (sin identificar): Ustedes tienen que resituar su relato! dejen de seguir los ruidosos a la par que absurdos discursos del partido de Abascal y demuestren su patriotismo de una manera veraz mas adecuada a sus actos y mas alejada del populismo histérico de quien se sitúa fuera de la realidad. TW 2020 ene ABA 17/01 Santiago Abascal: ¡Vaya, una valla más alta! Casi el muro de VOX. No son más cínicos porque no se entrenan.
23DISCURSO POPULISTA y REDES SOCIALES: EL CASO DE ESPAñA [enlace a un tuit de El Diario.es con el comentario: “El Gobierno aumentará la altura de las vallas de Ceuta y Melilla en un 30%.”] Usuario 1 (hombre): Claro, por eso copiar a Trump es porque en ya hay vallas que separan las fronteras. Cambiar una valla por un muro para ser como Trump es, populistas O se liga a la emoción, cuando se utilizan temas sensibles como la salud: TW 2020 abr ALV 09/04 Usuario 1 (sin identificar): Porque funciona. Aunque siempre esta el egoísta de turno que hace populismo del virus y se cree ensecial saliendo y jodiendo a las familias enteras q estamos confinados con niños y viendo por la tele a estos parásitos amigos de la oposición destructiva y no resolutiva Respirar Otros usuarios en sus comentarios lo ligan a la falsedad o la falta de criterio que hace cambiar, acomodaticiamente, de opinión: TW 2020 ago ALV 18/08 Usuario 1 (hombre): Llevas tiempo haciéndole el juego a VOX. Yo por tu sueldo estoy hasta las 9 de la noche. Menos populismo y más realidades Los usuarios reclaman que se les diga la verdad y lo hacen a veces con tono airado: TW 2020 jul SAN 29/07 Pedro Sánchez: Las prioridades de Europa son también las de España. Retomaremos el crecimiento sobre bases más sólidas y sostenibles. Construiremos un país más fuerte, más competitivo impulsando la transición ecológica, la digitalización, la igualdad de género y la cohesión social y territorial [vídeo de una intervención de Pedro Sánchez en el Congreso] Usuario 1 (mujer): Las prioridades de los españoles es que dejéis el populismo ya y nos digáis la verdad
24 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS TW 2020 feb IGL 10/02 Pablo Iglesias: El compromiso de este Gobierno con los derechos de los niños y niñas se traducirá pronto en una ley integral de protección de la infancia y la adolescencia con capacidad de convertir a España en un referente en todo el mundo. Me gustaría que se conociera como la ley Rhodes. [vídeo de una entrevista de Pablo Iglesias en ARV] Usuario 1 (hombre): Excepto de las niñas tuteladas en Baleares, las cuales ni @PSOE ni @PODEMOS quieren que se abra investigación. Os dan igual las mujeres y niños. Populismo y chiringuitos. Sois cinismo puro!! Con Podemos la legislatura es de: corrupción, mentiras, manipulación, violación de los DDHH, populismo, demagogia y por último y lo más grave, de desintegración de España. En Twitter se acusa de populismo a todos los representantes políticos, como recoge la siguiente tabla, en la que hemos documentado las siguientes ocurrencias de populismo /populista en el corpus recopilado, desde enero a agosto de 2020. Tabla 1. Ocurrencias de populismo /populista Político (Partido) Populismo Populista Total Partidos Sánchez (PSOE) 68 88 C.Calvo (PSOE) 20 Iglesias (Podemos) 56 1 101 Montero (Podemos) 44 Arrimadas (Ciudadanos) 41 69 Bal (Ciudadanos) 28 Casado (Partido Popular) 47 79 Alvarez de Toledo (Partido Popular) 32 Abascal (Vox) 0 2 2 Monasterio (Vox) 0 0 Es llamativa la ausencia de calificaciones de populismo por parte de los usuarios que comentan los mensajes de Vox. El gráfico siguiente muestra el contraste entre partidos:
25DISCURSO POPULISTA y REDES SOCIALES: EL CASO DE ESPAñA Gráfico 1. El contraste entre partidos 4. El discurso populista El discurso es un factor importante en la construcción del populismo ya que este fenómeno no se limita a las acciones: aparecer en determinados eventos, reunirse con ciertas personas… Afecta a las ideas y sobre todo a cómo se propagan esas ideas. Esta estrategia al servicio de un fin ideológico debe cumplir ciertas condiciones: a) Llegar a todos. La extensión del mensaje es fundamental. Afecta a la fuente de la argumentación8 (la comunidad) y al contenido: Argumentos de generalidad que son aceptados y afectan a todos: “Todo el mundo piensa, sabe que…”. El medio más oportuno de comunicación son las redes sociales: actualidad, sencillez, rapidez, llega a todo el público. b) Mensaje de confrontación: buenos contra malos. Simplificación. c) Exaltación. Argumento emocional. Intensificación. d) Mesianismo: construcción del líder e) Persuasión en nivel alto. Para dibujar la anatomía del populismo debemos contar con varios conceptos que se intersectan: inmediatez, generalidad, simplificación y emoción. Todos estos ingredientes auguran una gran extensión y una rápida aceptación por parte de un público poco formado y variado. Con ellos se produce un mensaje que se caracteriza por cómo construye el político su argumentación para persuadir, más que para convencer. Por ello la inmediatez y la proyección de una imagen brillante y exitosa son fundamentales. 8 Cfr. Fuentes & Alcaide (2002)
26 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS En cuanto a la construcción de la argumentación, nos vamos a centrar en dos puntos (interconectados) que justifican las acusaciones de populismo: – una argumentación falaz – el uso de la emoción y la autopresentación de una imagen positiva (Fuentes Rodríguez 2016) como estrategias para conseguir la aprobación del pueblo y la identificación de este con el líder. 4.1. Argumentación falaz La argumentación empleada por el político o usuario no cumple con los estándares y hace uso en ocasiones de falacias. Se presenta una argumentación incompleta o incorrecta por diversos motivos: a) Falsedad: violación de la máxima de calidad. Se emplean argumentos no constatados, tomados de la calle, con amplio respaldo, aunque no sean verdad: “usted miente, usted no defiende al país”. b) Mala construcción: argumentos envolventes o dinámicas argumentativas confusas que manipulan. Faltan pasos en la estructura argumentativa. Se pasa de lo particular a lo general sin topos que lo justifique. Se manipula por adjudicar una valoración de objetividad a lo que es pura opinión. Así ocurre con el manejo de los datos, la apariencia de cientificismo, el uso de tecnicismos o los saltos en la argumentación (Post hoc propter hoc, Plantin 1998). c) Simplificación: se tratan temas básicos, que afectan a todos los individuos (salud, vida, bienestar, patria) y con los que el líder se asegura la atención y aquiescencia del ciudadano. d) El uso manipulador del “pueblo”. Para ello aluden constantemente a él. Se presentan como defensores del ciudadano… La clave del éxito radica en la misma simplificación de la que hablábamos: el político (profesional, entendido) usa los mismos argumentos que el pueblo para destruir al poder. Por tanto, el pueblo siente que tiene razón, se ve empoderado. Se le hace creer que sus problemas son importantes y que es más perspicaz que el político en el gobierno. La manipulación radica en que este discurso intenta fascinar, persuadir, al votante. Es una estrategia más del político para derrocar al poder o al partido contrario usando al ciudadano. El pueblo es el ejército que emplea para sus fines partidistas. Consideran que esta actuación está legitimada porque en “la política, como en la guerra, todo vale”.
33DISCURSO POPULISTA y REDES SOCIALES: EL CASO DE ESPAñA Puede ser usado por la oposición para reforzar su liderazgo en este campo, o por los miembros del gobierno para reforzar su posición y vencer al candidato contrario. La emoción afecta al contenido y a la forma. Generalmente se usan temas sensibles que llegan al votante porque se refieren a necesidades básicas, a valores universales o a sentimientos. Así, alusiones a la salud, a la vida, a la igualdad, a la solvencia económica, a los niños, discapacitados o mujeres, suelen ser argumentos potentes. Igualmente, la seguridad del pueblo, frente al terrorismo o la violencia. La forma para envolverlo y potenciar su efecto persuasivo puede ser recurrir a la modalidad o valoración: enunciados exclamativos, léxico afectivo, operadores de intensificación, plural inclusivo, entonación elevada (como en el ejemplo anterior)…Veamos algunos ejs. TW 2020 feb SAN 13/02 Usuario 1 (sin identificar): Si no ha sido el #coronavirus, que ha sido Pedrito?? Las alianzas con los separatas y etarras, quizá? Que formas gobierno con el populismo??? Es frecuente en la argumentación calificar como populismo la alusión a grupos desfavorecidos. Por ejemplo, Pedro Sánchez usa ese tema, que llega a todo el mundo, para elaborarse una imagen positiva, pero esto también es rechazado como populismo por los usuarios. TW 2020 mar SAN 02/03 Pedro Sánchez: De nuevo una mujer asesinada. Esta vez en Posadas, Córdoba. Ya son 1047 las víctimas de la #ViolenciaMachista desde 2003 y estamos hartos, hartas de contarlas. No descansaremos hasta erradicar el machismo de nuestra sociedad. Todo mi cariño para su familia y amistades. [enlace a un tuit de la Delegación del Gobierno contra la Violencia De Género con el comentario: Confirmamos el asesinato por #ViolenciaDeGénero de una mujer de 67 años asesinada presuntamente por su cónyuge en la provincia de #Córdoba. El número de mujeres asesinadas por violencia de género asciende a 14 en 2020, y a 1.047 desde 2003. #NosQueremosVivas #NiUnaMenos”]
34 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS A veces PS nombra directamente a las personas que han sido asesinadas. Sin embargo, los usuarios lo consideran populista e hipócrita, como podemos ver a continuación. Usuario 1 (sin identificar): Con los tweet no haces nada solo populismo y los borregos que te siguen aplauden, pero verdaderamente no estáis haciendo nada por ellas, el dinero no les llega por tanto lo byes que se lo quedan. No te das cuenta que la ley no sirve? Y los niños? No crean lobby es? Hipocresia PS nos dice “estamos hartos, hartas de contarlas”. En español no hace falta ese doblete, que es puramente ideológico y populista en este contexto. Pablo Casado, jefe de la oposición, cuyo rol consiste en atacar al gobierno, busca minar su credibilidad y ganarse al pueblo. En el siguiente tuit se dirige a los autónomos, que lo están pasando mal durante el confinamiento. El usuario narra claramente por qué lo considera populismo. No olvidemos la situación de alerta sanitaria que está viviendo el país y el mundo: TW 2020 abr CAS 01/04 Pablo Casado: Pedimos suprimir las cuotas a autónomos y la obligatoriedad de impuestos en estado de alarma, ampliar el plazo de prestación a 3 meses y finalizar los ERTEs un mes después del estado de alarma, y bajar el umbral para ser colectivo vulnerable del 75 al 40% de caída de actividad. [vídeo de varias personas abriendo sus negocios y mensajes referentes a la cuota de autónomos] Usuario 1 (mujer): El PP pide menos ingresos públicos y más gasto. Casado está aburrido y se reune con colectivos afectados para prometerles el oro y el moro sabiendo q él no tiene ninguna capacidad de gestión. También pide mayor retribución al personal sanitario, ahora q no gobierna él. Populismo. Casado hace una propuesta en Twitter, cuando el sitio de discutirlo es el Congreso. Lo da por hecho, aunque él no tiene autoridad para que tenga efecto, y menos en este foro. El siguiente también es claro en este sentido.
35DISCURSO POPULISTA y REDES SOCIALES: EL CASO DE ESPAñA TW 2020 abr CAS 02/04 Pablo Casado: Propongo que los trabajadores de los sectores esenciales no paguen impuestos ni cotizaciones sociales durante el estado de alarma. Merecen su sueldo bruto por su gran esfuerzo y riesgo de contagio trabajando mientras los demás estamos confinados. Merecen aplausos y más sueldo [vídeo de una intervención de Pablo Casado en el programa de Ana Rosa] Usuario 1 (sin identificar): Populismo puro y duro. Estamos trabajando, yo no quiero mi sueldo bruto, quiero q con mis impuestos se ayude a los demás. La ventaja en las redes sociales es que un tuit provoca un efecto en cadena en los usuarios y genera reacciones a favor y en contra. En estas es fácil llegar al insulto. Por ejemplo, en este tuit de Abascal que citamos anteriormente: TW 2020 ene ABA 05 Santiago Abascal: 5 de enero de 2020. Los socialistas aplaudiendo a los herederos de ETA una vez que obtienen desde la tribuna el salvoconducto de la banda. Pedro Sánchez y el PSOE ya han cruzado todas las líneas rojas de la democracia y de la dignidad. La traición galopa a lomos del socialismo. El líder usa las redes sociales emitiendo un mensaje que sabe va a exacerbar los ánimos en las redes y producir comentarios. Así provoca a sus seguidores. Ellos van a reaccionar y extender sus mensajes, van a hacer el trabajo de popularización, de llegar al pueblo. ¿Cómo lo hace? Recurre a la realidad compartida y a un tabú social: el terrorismo de ETA. El lenguaje es bélico: salvoconducto, cruzar las líneas rojas, traición. La imagen resultante es construir un enemigo. Y, en consecuencia, SA aparece como el defensor del país. Los comentarios que siguen lo demuestran. Podemos ver claros ejemplos del uso de la emoción en beneficio propio. SA es líder de VOX, partido de extrema derecha que ha irrumpido con fuerza en la política nacional. Se disputa con el otro partido de la derecha el liderazgo de este espacio político. Ellos eligen una estrategia más beligerante y radical para diferenciarse del PP. En octubre, tras la moción de censura, dice el portavoz en
36 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS el Congreso: “Vox no se ha quedado solo. Solo está Vox”, excluyendo al PP. Es un juego de palabras con gran efecto. Las reacciones de los usuarios no se hacen esperar y son claramente emotivas. Usuario 1 (hombre):@Santi_ABASCAL El PSOE debe desaparecer. Que asco de gente. Usuario 2 (no identificado):@Santi_ABASCAL Nadie hizo tanto daño a España, como esta gentuza d , todo en su propio beneficio, votados por estómagos agradecidos o ignorantes abducidos sin criterio propio, a los q les han inculcado el miedo y odio a la derecha y no ven el infierno d la dictadura comunista a la q nos llevan(Cara enfadada) Usuario 3 (hombre):@Santi_ABASCAL e @usuario4 Algunos que vivimos lo que estos asesinatos hicieron al pueblo Español, pensábamos que no viviríamos jamás un espectáculo tan vejatorio. El @PSOE a escupido en la tumba de sus propios integrantes, que murieron a manos de estos herederos de ETA Memoria histórica Usuario 5 (no identificado): A ver si te enteras de que es un video MANIPULADO si, tu querido Abascal te miente en toda tu cara. Usuario 4 (hombre): Querido Ser mononeuronal, Que te hayan contado en la sexta, como en mil ocasiones, que esto o aquello es manipulación, fascismo y bla, bla, bla, no significa que el resto del mundo tenga tu capacidad mental Tomate el cola cao con galletas, y reza al amado líder tu plegaria Usuario 6 (no identificado):@Santi_ABASCAL Exactamente como en el 36 y exactamente los mismos imbéciles Usuario 7 (no identificado):@Santi_ABASCAL Hoy casi 900 víctimas de ETA estarán revolviéndose en sus tumbas, esto es lo último que quedaba por ver, Los Socialistas que también sufrieron asesinatos de ETA aplaudiendo a la Rama política de ETA. No tienen dignidad, ni vergüenza, ni respeto.
37DISCURSO POPULISTA y REDES SOCIALES: EL CASO DE ESPAñA Usuario 9 (mujer):@Santi_ABASCAL e @jaimeberenguer Cómo pueden aplaudir. No hay un diputado honrado en el PSOE? En los usuarios aparece: qué asco de gente, gentuza de mierda, estómagos agradecidos (metonimia) o ignorantes abducidos (en vez de convencidos), con léxico valorativo e insultante. Alguno recurre a la ironía: reza al amado líder tu plegaria. El amado líder se presenta como un Dios, pero se coloca junto al colacao con galletas. La inferencia es la de un comportamiento infantil. Se provoca, así, enfrentamientos entre los propios usuarios. De este modo, se consigue mucho eco, enardeciendo los ánimos. La referencia a los hijos es un tema universal que provoca reacciones emocionales y puede nublar la razón, permitiendo un uso manipulador. Así el famoso “pin parental” o derecho de los padres a elegir qué se les enseña a sus hijos (no los profesores ni el plan del centro). El topos en el que se sustenta es la pertenencia de los hijos a los padres, como objetos poseídos. TW 2020 ene ABA 18 Santiago Abascal: “Los hijos no pertenecen a los padres”. ¡Claro! Nuestros hijos pertenecen al Estado, o peor aún: al PSOE o a Podemos. Pretenden arrebatar a las familias la patria potestad sobre los hijos. Este es un gobierno de perturbados y totalitarios. [enlace a una noticia de El Mundo con el titular “Educación. El Gobierno contra el pin parental: “Los hijos no pertenecen a los padres”] Aquí encontramos una manipulación clara, basada en los sentimientos. La conclusión falsa es: “Los hijos no pertenecen a los padres”. Ponen el énfasis en pertenecer, lo aplica a personas (según la RAE se aplica solo a cosas). Además, propone una conclusión no demostrada: los hijos pertenecen al Estado o, peor aún, a Psoe y Podemos, dos partidos políticos. Y con ello llega al insulto: es un gobierno de perturbados y totalitarios. SA descontextualiza la información y la manipula poniendo una conclusión falsa. Otro tema emotivo, políticamente candente, es el de la igualdad entre hombres y mujeres. Abascal ridiculiza en este tuit a los partidarios de dicha igualdad, basándose en unas declaraciones de Carmen Calvo.
38 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS TW 2020 ene ABA 23. Santiago Abascal: Si se hace, se hace bien: Congresa de las diputadas. No pueden ser más ridículos y ridículas. [enlace a un tuit de @elespanolcom en el que aparece un vídeo de unas declaraciones en La Ser de Carmen Calvo, Vicepresidenta del Gobierno, con el comentario “Sería muy correcto que el Congreso de los Diputados se llamara solo #Congreso, igual que el Senado. Si no, a ver qué hacemos allí las #diputadas”] En él un argumento personal se emplea para conseguir acercamiento y legitimidad en los mensajes. Carmen Calvo alude a su propio sufrimiento como víctima del Covid 19 para provocar la solidaridad y empatía del lector: TW 2020 may CAL 07/05 Carmen Calvo: He tenido que mirar al coronavirus de frente, he sentido lo que mucha gente siente: miedo, inseguridad, dolor por los fallecidos. Creo que es el momento de arrimar todos el hombro, es una oportunidad para cambiar muchas cosas, hay que rehumanizar la sociedad. En @Desayunos_tve [imagen de un momento de la entrevista en Los Desayunos de TVE”] Usuario 1 (sin identificar): Populismo nivel Dios. La verdad es que nos suda los cojo… lo que piensas y pasaste. Demagoga. Arrimadas recurre a otra emoción: reta a los diputados socialistas a reaccionar contra su líder, como vimos más arriba: “¿no hay ni un solo socialista valiente dispuesto a frenar a Sánchez para abrir la vía constitucionalista? ¿Ni uno?”. El usuario 76 utiliza el mismo procedimiento en un enfrentamiento agresivo. Toma la voz de la representante de Ciudadanos e incluye ataques ad hominem, ridiculizándola. Es una intervención totalmente descortés e insultante.
39DISCURSO POPULISTA y REDES SOCIALES: EL CASO DE ESPAñA TW 2020 ene ARR 04 Usuario 76 (no identificado): @InesArrimadas Después de ver mi actuación de #ChoniPoligonera hoy en el parlamento y soportar risas, burlas y humillaciones de toda España, me pregunto: ¿no hay ni un solo de @ CiudadanosCs valiente y dispuesto a frenar a Arrimadas para abrir la vía de la política NO populista? ¿Ni uno? ¿Miedo? La emoción, como vemos, tiene un amplio campo de acción y resulta un procedimiento muy rentable ya que es fácil de entender por todos y pone en marcha los instintos básicos, anulando el razonamiento y la discusión. De ahí que su uso se considere falaz, aunque en la argumentación política actual esto no parece importar. 5. Conclusión El sentido general de populismo como la conexión e identificación con el pueblo, luchando por sus derechos, deriva con facilidad a dos graves errores: la hipersimplificación de los mensajes para que lo entienda el ciudadano, el acceso a él a través de los sentimientos, y la construcción de una imagen que fascine. Pero rápidamente el objetivo pasa a subordinarse a la estrategia y a conseguir el objetivo de manera fácil. Esto implica un desplazamiento a la valoración negativa. Hablar de populismo en el discurso político español es una constante y siempre se utiliza como argumento de ataque hacia el otro. Esto lleva a analizar qué consideran populismo los usuarios de las redes sociales. En el estudio realizado en este trabajo tenemos que diferenciar lo que los políticos llaman populismo, y lo que los otros ven como tal. En el primer caso podríamos decir que todos los políticos usan las redes para llegar a todos los ciudadanos y conseguir el máximo de audiencia, buscan persuadir, fascinar a sus votantes y recurren fundamentalmente a una argumentación falaz, con errores en la construcción de la misma y el uso de falacias constantes, entre las que destaca la emoción. Y todos ellos consideran populista al contrario. Por tanto, populista es lo que hace el político de signo contrario. Parecido es el empleo que los usuarios en sus comentarios hacen del término, sobre todo cuando opinan de manera distinta al político de turno. Califican como populismo prometer lo que no van a cumplir, presentarse de manera positiva, la ocultación de datos, el recurso a argumentos emotivos (alusión a
40 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS colectivos menos favorecidos, niños, mujeres, discapacidad, enfermedad, etc.), o presentarse de manera triunfalista. No están nada equivocados, como podemos comprobar. Por tanto, populismo se convierte en sinónimo de persuasión directa, que quiere llegar a todos sin importar la corrección de la misma. Pero ¿es esto ya argumentación o entramos en el campo de la manipulación? Financiación Este trabajo se ha realizado dentro del marco de dos proyectos de investigación: el proyecto Frontera P18-FR-2619, financiado por la Junta de Andalucía y fondos FEDER: “Macrosintaxis del discurso persuasivo: construcciones y operadores”. Y el proyecto FEDER Andalucía US– 1263310, sobre “Liderazgo femenino: estrategias comunicativas y proyección de imagen”. Referencias Alcaide Lara, E. R. (2019). Discursos populistas en la política española actual: el caso de Podemos y Ciudadanos. In F. Sullet-Nylander, M. Bernal, C. Premat, & M. Roitman (Eds.), Political Discourses at the Extremes: Expressions of Populism in Romance-Speaking Countries (pp. 83-104). Stockholm: Stockholm University Press. DOI: https://doi. org/10.16993/bax Arundale, R. B. (2006). Face as a relational and interactional: a communication framework for research on face, facework and politeness. Journal of Politeness Research, 2(2), 193216. Campus, D. (2010). El lenguaje populista en el poder. Revista de sociología, 24, 151-164. Charaudeau, P. (2009). Reflexiones para el análisis del discurso populista. Discurso y Sociedad, 3(2), 253–279. Chilton, P. & Shäffner, Ch. (2000). Discurso y política. In T. A. Van Dijk (Org.), El discurso como interacción social (pp. 297-329). Barcelona: Editorial Gedisa. Ducrot, O. (1984). El decir y lo dicho. Buenos Aires: Hachette. Engesser, S., Fawzi, N. & Larsson, A. O. (2017). Populist online communication: Introduction to the special issue. Information, Communication & Society, 20(9), 1279–1292. https://www.doi.org/10.1080/1369118X.2017.1328525 Ernst, N., Engesser, S., Büchel, F., Blassnig, S. & Esser, F. (2017). Extreme parties and populism: an analysis of Facebook and Twitter across six countries. Information, Communication and Society, 20(9), 1347-1364. https://www.doi.org/10.1080/13691 18X.2017.132933 Freidenberg, F. (2007). La tentación populista. Madrid: Síntesis.
41DISCURSO POPULISTA y REDES SOCIALES: EL CASO DE ESPAñA Fuentes Rodríguez, C. (2010): La aserción parlamentaria: de la modalidad al metadiscurso. 13, 97-126 Fuentes Rodríguez, C. (Coord.) (2013). Imagen social y medios de comunicación. Madrid: Arco Libros. Fuentes Rodríguez, C. (2015). Pero, ¿cuál es su valor? Philologia hispalensis, 12(1), 123-145. Fuentes Rodríguez, C. (2016). Descortesía, imagen social e identidad como categorías sociopragmáticas en el discurso público. In D. Dumitrescu & M. Bernal (Eds.), Roles situacionales, interculturalidad y multiculturalidad en encuentros en español (pp. 165192). Buenos Aires-Estocolmo: Dunken. Fuentes Rodríguez C. (ed.) (2016). Estrategias argumentativas y discurso político. Madrid: Arco Libros. Fuentes Rodríguez, C. (Ed.) (2020a). Persuadir al votante. Estrategias de éxito. Madrid: Arco Libros. Fuentes Rodríguez, C. (2020b). Contextos discursivos de la argumentación emotiva. In C. Santibáñez (Ed.), Emociones, argumentación y argumentos (pp. 153-180). Lima: Ed. Palestra. Fuentes, C. & Alcaide, E. (2002). Mecanismos lingüísticos de la persuasión. Madrid: Arco Libros. Fuentes Rodríguez, C. & Alvarez Benito (Eds.) (2016). A gender based approach to parliamentary discourse. Amsterdam: John Benjamins. Gallardo Paúls, B. (2014). Usos políticos del lenguaje: un discurso paradójico. Barcelona:Anthropos Editorial. Gallardo, B. & Enguix, S. (2016). Pseudopolítica: el discurso político en las redes sociales. Valencia: Universitat de València. Goffman, E. (1967). Interaction ritual. Essay on face-to-face behaviour. New York: Doubleday. Hamblin, C. L. (1970). Fallacies. Londres: Methuen. Laclau, E. (2012). La razón populista. México D.F.: FCE – Fondo de Cultura Económica. Mancera, A. & Pano, A. (2013). El discurso político en Twitter. Barcelona: Anthropos. Nardaccio, E (2019). Indefinición y oscilación ideológica en la identidad política: un análisis comparativo de las estrategias argumentativas de Albert Rivera (Ciudadanos) y Luigi di Maio (Movimento 5 Stelle). (Trabajo Fin de Máster MELLC. Universidad de Sevilla). Nardaccio, E. (2020). Indefinición y oscilación ideológica en la identidad política: un análisis comparativo de las estrategias argumentativas de Rivera (Ciudadanos) y di Maio (Movimento 5 Stelle). Discurso y sociedad, 14(3), 707– 731. Parra Valero, P. & Oliveira, L. (2018). Fake news: una revisión sistemática de la literatura. Observatorio (OBS*) Special Issue, 54-78. Pérez Curiel, C. (2020). Trend towards extreme right-wing populism on Twitter. An analysis of the influence on leaders, media and users. Communication & Society, 33(2), 175-192.
42 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS Plantin, C. (1998). La argumentación. Barcelona: Ariel. Rivas, M. & M. Calero (2020). Pandemia y posverdad: el impacto de la covid-19 en la comunicación por whatsapp. Revista Prisma Social, 31, 110-154. Ruiz Vicioso (2019). Posverdad y populismo. Cuadernos FAES, 63, 31-40. Shils, E. (1956). The Torment of Secrecy. New York: Free Press Spencer-Oatey, H. (2007). Theories of identity and the analysis of face. Journal of Pragmatics, 39, 639-656. Taguieff, P. A. (1997). Le populisme et la science politique. Du mirage conceptuel aux vrais problèmes. Vingtime siecle. Revue d’histoire, 56, 4-33. Tarchi, M. (2014). Dieci anni dopo. L’Italia populista e il caso Beppe Grillo. Quaderni di sociologia, 65, 31-49. Van Dijk, T.A. (1996). Análisis del discurso ideológico. Versión, 6(10), 15-42. Van Dijk, T.A. (2005). Política, ideología y discurso. Quórum académico, 2(2), 15-47. Van Eemeren, F. & Grootendorst, R. (1992). Argumentation, communication, and fallacies. A pragma-dialectical perspective. Hillsdale, N.J.: Erlbaum. Van Eemeren, F. & Grootendorst, R. (2004). A systematic Theory of Argumentation. The pragma-dialectical approach. Cambridge: Cambridge University Press.
49EL DISCURSO POPULISTA EN LAS REVISTAS DEL PRIMER FRANqUISMO tructura y los mecanismos de coherencia y cohesión que pueden añadir o, por el contrario, restar fuerza a los argumentos que apoyan la tesis. 4.1. La macroestructura A causa de la heterogeneidad de autores y de la tipología textual, es difícil clasificar el corpus seleccionado de forma exhaustiva, puesto que la variedad afecta tanto a la extensión, como al entramado interno del discurso. De textos breves, verbigracia, normalmente conmemorativos o dedicados a noticias o eventos de la alta sociedad de los primeros años de la dictadura, se puede pasar a artículos más extensos, que ocupan un espacio superior a una página. En cuanto a la estructura más propiamente argumentativa, la tesis normalmente4 es adelantada en el título y reafirmada en las conclusiones, tras la exposición de los argumentos. A menudo, la organización resulta compleja o “a grappolo” (Lo Cascio 2009, pp. 78-79), con una concatenación en la que cada argumento puede ser el resultado de otros procedimientos argumentativos y de la exposición de subtesis que, a su vez, pueden funcionar de apoyo argumentativo. La naturaleza de las secuencias, habitualmente declarativas, expositivas o narrativas (pero nunca neutras), se puede enriquecer con elementos polifónicos o enunciados modalizados (sobre todo de forma apreciativa, interrogativa o exclamativa). El primer texto que propongo es La resurrección de España (1941, 6), firmado por el director de la Gaceta literaria, Ernesto Giménez Caballero, una de las figuras más relevantes del panorama cultural español a partir de los años 20. Se trata de un artículo ejemplar en muchos sentidos, puesto que reúne todas las características del discurso populista indicadas por Charaudeau (2009 y 2011), a las que se añade el recurso al elemento religioso, muy propio del ideario franquista. Como se evidencia ya en el título, la metáfora religiosa5 anuncia catafóricamente la tesis, esto es, el sentido providencial e imprescindible de la revolución fascista con respecto a la grave crisis del país e, implícitamente, la dimensión providencial de su caudillo y el martirio de sus promotores. La estructura argumental se organiza en dos niveles. En primer lugar, mediante una isotopía dis4 En algunos casos el título no constituye un mecanismo catafórico del contenido del texto. Es lo que sucede en el artículo El fuero del trabajo y la mujer (Bosch Marín 1938), en el que, en realidad, se argumenta en contra de la oportunidad del trabajo femenino. 5 La metáfora del título es confirmada por la presencia constante de numerosos elementos léxicos religiosos (martirios, actitud profunda y cristiana, rezar, …).
50 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS cursiva, el locutor identifica la España de principios del siglo XX con un ser agonizante, a cuya enfermedad (una crisis sociopolítica que culmina con la fuga de Alfonso XIII) sigue una muerte (la proclamación de la II República) que sanciona el fin de la unidad del Estado. En el nivel macroestructural y, por lo tanto, más propiamente argumentativo, la primera parte del artículo representa una premisa y una justificación al alzamiento del 18 de julio. Las diferentes secuencias narrativas de eventos históricos nefastos recordados por el locutor constituyen, en una suerte de clímax ascendente, una acumulación de argumentos coorientados a la tesis contenida en el artículo: la necesidad de seguir luchando contra el enemigo, en una nueva cruzada en “defensa de la cristiandad”. Los distintos párrafos se enlazan mediante la repetición anafórica del segmento de enunciado Cuando el 14 de marzo de 1931 fundamos “La conquista del Estado” (a lo largo de gran parte del artículo), de la copulativa y, con función enfática (en las últimas secuencias), y de otros elementos léxicos repartidos a lo largo del texto, que marcan la nostalgia por un pasado perdido y, por consiguiente, refuerzan la tesis de la necesidad de la “resurrección de España”. Finalmente, la reiteración del sintagma nominal nuestra unidad, único obstáculo a la amenaza roja, revela un significado grupal (verbalizado también empleo del nosotros inclusivo) en contraposición al enemigo. De hecho, aunque nuestra unidad pudiera interpretarse como referido al país entero, constituye más bien la focalización del exogrupo, del ‘ellos’ que, en este caso, se identifica con la fe republicana y aquellos españoles ‘engañados’ por la utopía del comunismo o, más en general, por la ilusión democrática. Es evidente que no se trata de meros recursos de cohesión, sino de expedientes destinados a focalizar aquellos elementos que el locutor considera argumentativamente relevantes6: Cuando el 14 de marzo de 1931 fundamos “La conquista del Estado”7 - ]…] - España agonizaba. Alfonso XIII, como “Rey”, iba a morir al mes justo: el 14 de abril. Porque, […] el propio Rey había firmado su sentencia de muerte como Monarca. Y la muerte de todo lo que venía detrás: de nuestra unidad territorial, de nuestra unidad religiosa, de nuestra unidad lingüística, de nuestra unidad social. […] 6 La cursiva es mía. A partir de ahora, marcaré con cursiva los elementos más relevantes. 7 Se trata de un semanario fascista inspirado en la homónima revista italiana, fundado por Ledesma Ramos. Muchos de sus números se encuentran disponibles en http://www.filosofia. org/hem/193/lce/.
51EL DISCURSO POPULISTA EN LAS REVISTAS DEL PRIMER FRANqUISMO Cuando el 14 de marzo de 1931 fundamos “La conquista del Estado”, a Ramiro Ledesma y al mínimo grupo de suicidas que le rodeábamos se nos quiso utilizar por las viejas fuerzas reaccionarias como inyecciones de aceite alcanforado. Se nos quiso utilizar – a última hora – como jeringuillas de cafeína… […] Cuando el 14 de marzo de 1931 fundamos “La conquista del Estado”, ya era tarde. El pulso de España – […] – dejaba en verdad de latir. Fue inútil que […] se intentase tramar un modesto Grupo Legionario, al mando del pobre y gran Albiñana. La juventud estaba perdida. Las masas obreras también. […] Cuando el 14 de marzo de 1931 fundamos “La conquista del Estado” tuvimos la clara consciencia de que sólo fundábamos una quimera, una ilusión, una simiente ideal para ser regada con sangres y martirios. Sobre un cadáver – el de España – no cabía más que una actitud profunda y cristiana: rezar. Y creer – místicamente – en una resurrección. Eso hicimos. (Giménez Caballero 1941, 6) Tono y mecanismos persuasivos diferentes son los que se evidencian tanto en la macro, como en la microestructura, de La mujer en la guerra, Trabajar, orar, combatir, artículo publicado en 1938, en el número 4 de Y, y firmado por el escritor y periodista Víctor de la Serna. Su análisis pone de relieve cómo, el momento histórico (la guerra civil), pero sobre todo el destinatario (las lectoras) determina contenidos temáticos, objetivos y estructuras discursivas diferentes con respecto a los que acabamos de ver. Como se ha afirmado, en cuanto emanación directa de la Sección femenina, Y acoge como misión principal forjar la identidad de la mujer que necesita el régimen. Por esta razón, de manera muy singular, el locutor propone y justifica, argumentativamente, las tareas ‘bélicas’ a las que tiene que dedicarse una mujer: No voy a aludir, deliberadamente, a su piadosa misión específica maternal y de ama de casa, de curar heridos, recoger niños y lavar la colada de los soldados. Esta misión ha tenido ya exégetas y los tendrá aún. Yo voy a hablar de la mujer guerrera. De la brava mujer que empuña el arma contra el enemigo, materialmente. Es posible que a algunos estas mujeres les parezcan viragos, abortos de la naturaleza, puesto que la misión principal de la mujer está en la paz (De la Serna 1938, 7). El acto ilocutivo negativo, reforzado por el modal, y el recurso a la polifonía del primer párrafo –una polifonía revelada por la alusión a los exégetas – revelan un juego, desmentido por el desarrollo del discurso, que no hace sino
52 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS reafirmar cuál es la misión confiada a la mujer española en el renacimiento de la patria. Si entramos en detalle, la argumentación de Víctor de la Serna se revela compleja y ambigua. De hecho, gráficamente organizada en secciones diferentes, casi yuxtapuestas, cada una tratando un aspecto de los que se anuncian en el título, conduce a una conclusión opuesta a la intención declarada por el locutor o que, por lo menos, dilucida el concepto de ‘mujer guerrera’ que se pretende transmitir. Se percibe en varios momentos cómo el mecanismo persuasivo privilegiado es el recurso al lenguaje emotivo, recurso seguramente más frecuente en los textos destinados a las lectoras. Lo demuestra el mismo tejido argumentativo, que arranca de un recuerdo personal, esto es, de unos versos y de una alusión a la figura de la madre, con el único objetivo de influir en la esfera emocional del destinatario: Recuerdo la impresión que me hacía de niño oír recitar a mi madre aquellas ingenuas y ripiosas décimas de Bernardo López García al Dos de Mayo. Porque aquellas décimas tenían una cosa pura, calculada para almas pueriles: emoción. (De la Serna 1938, p. 6) El mismo tono se percibe en una larga secuencia narrativa dedicada a una joven catalana, víctima de la ferocidad roja, destinada a presentar el primer argumento coorientado a la tesis: la “bárbara belleza” de la guerra. Un argumento coorientado a la conclusión, pero insuficiente, respecto al argumento de mayor fuerza, que el locutor identifica en Ximena Díaz − que, con “sus hijas participan en los triunfos del Cid con sus oraciones” (De la Serna 1938, p. 8) −, ejemplo de aquel verdadero heroísmo femenino anunciado en el subtítulo del artículo (‘Trabajar, orar, combatir’) y explicitado en la tesis: Trabajar, orar, combatir. Trabajar en el orden de la casa; orar por el soldado de la Fe y por su victoria. Orar por su alma si el soldado pereció. Y finalmente, combatir cuando todo se ha perdido. He aquí las tres fases de la mujer en la Guerra de España (ibidem). 4.2. Los argumentos El último ejemplo nos conduce directamente a otro aspecto esencial del discurso populista, es decir, la naturaleza de los argumentos utilizados para apoyar la tesis. En el tipo discursivo que tratamos, los argumentos se esgrimen
53EL DISCURSO POPULISTA EN LAS REVISTAS DEL PRIMER FRANqUISMO en defensa de la Revolución y pretenden legitimar el neonato régimen. Estos se reparten en todos los textos que he seleccionado, de forma más o menos explícita. Además del que hemos visto en el texto de Giménez Caballero (la situación de crisis generada ya en los años de la monarquía de Alfonso XIII), uno de los argumentos más constantes, incluso después del final de la Guerra civil, es la alusión a la “fuente del mal” (Charaudeau 2011). Por ello el discurso asume una visión maniquea, una neta separación entre el endogrupo de los vencedores y el exogrupo, que se identifica con el enemigo rojo, la otra España o, más en general, con la democracia. 4.2.1. La fuente del mal Desde este punto de vista, nos es dado observar que tanto el enunciador institucional (la Sección Femenina), como el sujeto blanco de la revista Y (me refiero a las mujeres, católicas, de la alta burguesía) determinan un comportamiento discursivo diferente con respecto al que se aprecia en Legiones y Falanges, también revista de alta gama, pero seguramente concebida para un público lector fundamentalmente masculino. Probablemente por esta misma razón, en sus páginas no se oculta la hostilidad hacia el enemigo, el bolchevismo, los británicos o, más en general, hacia los ‘angloyanquis’, como los denomina, entre otros, Giménez Caballero. Al haber tratado detalladamente este tema en otra ocasión (Prestigiacomo 2017), propongo solo dos ejemplos. El primero de ellos es paradigmático con respecto a los mecanismos del discurso populista individualizados por Charaudeau (2009 y 2011), que se aprecian en la macroestructura, en la definición vaga del enemigo, además de en el tono emotivo, que llega incluso a hacerse amenazador. Tono que se hace patente ya en el título, Presagios. Defensa de la cristiandad (1942, pp. 4-5), que, además de presentar la tesis, añade un matiz profético artículo. El sintagma nominal Defensa de la cristiandad sugiere un paralelismo entre la misión redentora de Franco y la guerra santa, confiriendo una dimensión religiosa a la forma discursiva que, sobre todo en las secuencias finales, recuerda de cerca la oratoria sagrada (Martínez Garrido 1997). La actitud del locutor es declaradamente maniqueísta, puesto que contrapone la autopresentación positiva del endogrupo y la presentación negativa del exogrupo, rasgo peculiar de la comunicación manipulativa (VanDijk 2009). La lucha del mundo ‘cristiano’ (representado por España, Italia, Alemania y Japón)
54 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS contra la amenaza del mal, que se identifica nuevamente con el comunismo, pero también con el islam y el judaísmo (promovidos por Rusia, China, India, Inglaterra, EEUU y África) se verbaliza mediante una serie de mecanismos lingüístico-discursivos típicos del discurso populista. En el nivel macroestructural, sobresale el recurso a la repetición anafórica del sintagma verbal percibimos (en algunos casos reforzado por el operador sólo, o el sujeto del verbo, y seguida del signo gráfico de los dos puntos), que focaliza el argumento de cada secuencia y constituye un expediente para reformular la incertidumbre sugerida en la interrogativa “¿qué pasa por Alepo, Bagdad, Beirut, Tiro, Jaifa?” y en su respuesta negativa: “No lo sabemos bien”. El compás marcado por la reiteración favorece la creación de un clímax en el que los presagios anunciados en el título culminan en la amenaza de la vuelta a una “Tenebrosa Edad Media, de barbarie, de saqueos…”. En otras palabras, el locutor construye un discurso que voluntariamente apunta a la esfera emotiva, e incluso irracional, del destinatario, favoreciendo una sensación de incertidumbre (reforzada también por el modal confusamente) que se va convirtiendo en un clima de terror, sugerido por la imagen sinestésica del primer enunciado (estremecimiento cálido, moreno y amenazador) y confirmada por la modalidad exclamativa que cierra el fragmento: Para los que venteamos el aire del futuro, ese aire nos trae un cálido, moreno y amenazador, de allá por Siria. ¿qué pasa por Alepo, Bagdad, Beirut, Tiro, Jaifa? No lo sabemos bien. Sólo percibimos –confusamente, por la distancia: que Inglaterra, desesperada, busca el defender su hegemonía oriental […] entregándoles los secretos bélicos de la sagrada técnica aria de dominación. Sólo percibimos: que en África egipcia, líbica y etiópica, las tribus negras poseen hoy carros de combate y conocen la técnica italiana de guerra […] y en el Asia china, los soldados […] tratan de derrocar – con armas yanquis e inglesas – la misión civilizadora y noble del Japón. Y en la India, el Gange tiembla de venganza secular contra Europa. […] Percibimos: la honda y tremenda agitación del Oriente que, como un terremoto histórico, sacude las entrañas del Islam en estos instantes. […] Y todo esto lo percibimos contemplando de reojo la sonrisa silenciosa, inmóvil e incitadora de Rusia. Esa Rusia que mientras nos ataca y radia diariamente proclamas en lengua árabe, procura impávida el desgaste de las reservas occidentales […]. Para los que venteamos el aire del futuro, ese aire cálido, moreno y amenazador del Oriente, nos trae, también, el recuerdo del pasado.
55EL DISCURSO POPULISTA EN LAS REVISTAS DEL PRIMER FRANqUISMO Nosotros percibimos desde nuestro rincón romanogermánico de España, desde esta occidental y cristiana España: ¡toda el ansia de “revancha semítica” que vibra en el aire del mundo! Percibimos: el ansia de sangre y venganza que hay acumulado contra aquellos que arruinaron judíos, aplastaron bolcheviques, domeñaron Balcanes, desdeñaron demócratas. […] Si el Eje sale derrotado, el Catolicismo saldrá derrotado. Una tenebrosa Edad Media, de barbarie, de saqueos sin invenciones ni progresos, cubriría Europa. Y sólo sería posible un ‘Renacimiento’ de Europa en un mañana lejano, sobre aquellos pueblos y lugares hasta donde llegue hoy, en sus avances fecundantes, la clara sangre romanogoda del Eje, de los sistemas totalitarios. ¡Esto no son fantasías ni delirios! ¡Hablamos seriamente! Frente a peligros reales, cercanos, tangibles. (Giménez Caballero 1942, pp. 4-5) Como es de esperarse, en las páginas de Y, el enemigo es tratado de forma diferente. En general, se aprecia una actitud negativa mitigada tanto por el objetivo ‘catequizador’ de la revista, como por el sentimiento de caridad cristiana que la anima, tal como demuestran los textos que describen las obras del Auxilio social, entidad fundada por la Sección femenina y destinada sobre todo a acoger a los huérfanos de la guerra. Sin embargo, también se publican artículos en los que la exacerbación de la negatividad del enemigo alcanza niveles muy altos. Es el caso de las páginas firmadas por Edgar Neville, otro intelectual de la vanguardia literaria española. En su Margarita Nelken o la maldad, el enemigo se identifica con el que podemos considerar el ‘antimodelo’ de la mujer azul a la que aspira el régimen, es decir, con una de las tres diputadas (con Clara Campoamor y Victoria Kent) de la II República. La tesis, expresada ya en el título, se explicita verbalmente en el segmento que cierra el texto: Margarita Nelken es un tipo representativo, azuzadora del odio, promotora de la Muerte, merece nuestro encono eterno, nuestro castigo inexorable (Neville 1938, p. 12). El locutor se apoya en argumentos de diferente naturaleza8, con el único objetivo de empujar al destinatario a asumir una actitud de rechazo total, que, 8 El primero coincide con el primer enunciado del texto y está constituido por la referencia a un artículo de Nelken, publicado en agosto de 1936. La modalidad apreciativa, expresada mediante un léxico emotivo, y la cita indirecta sirven para dibujar una figura humana extremadamente negativa, de mujer insolidaria y despiadada: “En aquel terrible Madrid de agosto del 36, cuando el terror
56 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS en el caso de una revista concebida para un público femenino y católico, coincide con la renuncia al perdón cristiano. Por esta razón, el entramado discursivo se construye alrededor de una separación maniquea entre el endogrupo (las víctimas) y el exogrupo (los verdugos), verbalizado mediante una modalización apreciativa (sobre todo en las secuencias descriptivas) que apunta a la esfera emotiva de las lectoras. Todos argumentos basados en una visión subjetiva; ninguna referencia directa a los ideales políticos, sino solo a sentimientos irracionales dictados por el odio y la envidia: … pues a la incitación criminal habían respondido los más bajos sentimientos humanos y aquello se convertía en la venganza, en suspenso durante siglos, de la fea contra la guapa. […] Conocemos a las mujeres que fusilaban, eran aquellos monstruos de los desfiles del 1.° de mayo y de las broncas de los mercados arrabaleros. Eran las feas en celo, las contrahechas en rebelión, supurando odio y envidia, vengando en aquellas víctimas un daño del que eran inocentes, vengando el desaire perpetuo de los hombres hacia ellas. Ahí estaba toda Margarita Nelken. Mujer encorsetada y burriciega, pedante y sin encanto femenino, de carne colorada, había arrastrado una triste vida sentimental. (Neville 1938, p. 12) 4.2.2. Los argumentos “científicos” Si bien, como acabamos de ver, el adoctrinamiento se persigue a menudo a través de un discurso que busca una reacción emotiva en el destinatario, una estrategia persuasiva de seguro efecto es también el recurso a argumentos científicos o, por lo menos, aparentemente científicos. Por esta razón, es frecuente leer textos firmados por ‘expertos’ en diversas materias. El caso más evidente es, sin duda, Características raciales del comunismo de Antonio Vallejo Nájera (1941, pp. 24-25). Si bien le he dedicado un estudio (Prestigiacomo 2016), merece la pena recordarlo, por constituir un ejemplo paradigmático de discurso científico basado en una argumentación falaz. En él, el locutor se propone convertir una opinión (originada por una ideología) en una creencia, o más exactamente, en una verdad demostrable (y demosllegaba al máximo, apareció una noche en ‘Claridad’ un artículo de Margarita Nelken en que pedía a las milicias no se limitaran a asesinar hombres, sino que incluyeran en ‘los paseos’ a las esposas, novias o hermanas de los perseguidos. Estaba uno curado, al parecer, de espanto y sin embargo aquella especial incitación al crimen nos produjo la peor angustia.” (Neville 1938, p. 12)
57EL DISCURSO POPULISTA EN LAS REVISTAS DEL PRIMER FRANqUISMO trada con datos ‘empíricos’ a lo largo del texto). En otras palabras, se trata de exacerbar el peligro del bolchevismo para justificar la necesidad de combatirlo. El objetivo del discurso del psiquiatra se hace manifiesto en el párrafo conclusivo, cuando el augurio de un futuro amenazador revela cómo un entramado argumentativo, solo aparentemente lícito, encierra un claro intento de manipulación: Dadas sus características biológicas, el comunismo únicamente puede difundirse entre las razas degenerativas e incultas, que carecen de confianza en su destino, desposeídas de valores propios, incapaces de perfeccionarse y aspirar, por los propios trabajos y valía, a superarse y superar a los demás hombres en todos los aspectos culturales de la civilización. Considerado el comunismo en su aspecto étnico-cultural, es la vuelta a las civilizaciones primitivas y simplistas: al hombre salvaje. (Vallejo Nájera 1941, p. 25) Algo parecido sucede en las páginas de Y, si bien se diferencia de Legiones y Falanges, tanto en los contenidos, como en las formas discursivas. La revista de la Sección femenina, como he dejado claro, se configura fundamentalmente como instrumento para forjar la identidad de la mujer que necesita el régimen, al servicio de la patria y de la familia, como madre de las futuras generaciones de España.9 Con este fin, en el número de abril de 1938, se publica El fuero del trabajo y la mujer, del Dr. Juan Bosch Marín, pediatra y puericultor. Detrás de una supuesta finalidad informativa, que se propone ‘aclarar’ los puntos del fuero dictados por el mismo Franco, se pretende demostrar cómo el trabajo femenino puede comprometer la reconstrucción de la patria. Una vez más, las estrategias argumentativas empleadas se organizan en diferentes niveles. No pudiendo dedicarle el espacio que se merece, aquí diré solamente que el locutor estructura su discurso como respuesta a tres interrogativas directas (enunciadas con un claro tono amenazador), que conducen a una conclusión que se pretende presentar como científica y que, sin embargo, resulta sin duda falaz. El aspecto más evidente es, sin duda alguna, el empleo de un léxico intensificado, la carga emotiva del enunciado y un tono casi amenazador que constituyen un argumentum ad consecuentiam (Lo Cascio 1991, p. 357): 9 Sobre este tema, es suficiente recordar un fragmento de las Cartas a las camaradas de Neville: “Los hombres hacen la guerra, salvan a España de la barbarie, muchos millares quedarán en la empresa. Tenéis un deber con ellos, el de producir una nueva generación que haga fértil su sacrificio. Con la sonrisa, la belleza, el espíritu y el corazón, manos a la obra.” (Neville 1938, p. 16)
58 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS ¿Sabéis qué significa todo ello? ¿Qué influencia ejerce el trabajo en la mujer? La modalidad o clase de trabajo, ¿cómo influye? ¡He ahí un ejemplo terrible, pero elocuente, de los estragos que el trabajo materno puede producir en la descendencia! Los hechos esbozados ligeramente, la disminución de la nupcialidad y de la natalidad que se acentúa en los centros industriales, los peligros que para la familia supone el trabajo femenino, que le convierten en verdadera plaga social, como puede serlo la tuberculosis u otra enfermedad, hace indispensable la organización de la lucha contra el trabajo femenino, especialmente fuera del hogar. (Bosch Marín 1938, p. 20). 4.2.3. El líder carismático Hasta ahora se ha visto cómo, además de un lenguaje orientado a incrementar los sentimientos irracionales del destinatario, el discurso de la prensa del primer franquismo recurre constantemente a la autopresentación positiva del endogrupo y a la simétrica exaltación de los rasgos negativos del exogrupo. En este mecanismo, lógicamente, se inserta también la exaltación de la personalidad de un líder, tan carismático, que en ocasiones alcanza rasgos divinos, mesiánicos, como en Presagios de Giménez Caballero, que reconoce a Franco la función de salvador de la cristiandad. A su lado, como autor de textos, o como enunciador en segmentos polifónicos, o simplemente evocado por los autores y las autoras de la revista Y, se sitúa la figura mítica de José Antonio, el Ausente, modelo a imitar en la creación de la Nueva España, pero también en su estilo argumentativo y, en general, discursivo. De cualquier manera, en cuanto a la exaltación de las virtudes del líder, probablemente se revele más interesante Legiones y Falanges. Tal vez porque, terminada la urgencia de la guerra civil y asentada de alguna manera la ideología de la Falange, el panorama internacional producido por el conflicto de la Segunda Guerra Mundial le exige a la élite del poder la creación de un líder del mismo nivel que Hitler o Mussolini. De ahí que, en varios textos se exalte al caudillo, un hombre “providencialmente elegido” (Montemayor 1942, p. 10) sin el cual la revolución y el renacimiento de España no habría sido posible. En los ejemplos que he seleccionado, se subrayan sobre todo las virtudes de estratega militar y la magnitud de la obra del caudillo, todo intensificado mediante una evidente modalidad apreciativa:
65EL DISCURSO POPULISTA EN LAS REVISTAS DEL PRIMER FRANqUISMO Ducrot, O. (2001). El decir y lo dicho. Buenos Aires: Edicial. Trad. de Le dire et le dit. Paris: Les Éditions de Minuit, 1985. Fuentes Rodríguez, C. (2004). Enunciación, aserción y modalidad, tres clásicos. Anuario de Estudios Filológicos, XXVII, 121-145. Fuentes Rodríguez, C. (2009). Diccionario de conectores y operadores del español. Madrid: Arco Libros. Fuentes Rodríguez, C. (2013). La gramática discursiva: niveles, unidades y planos de análisis. Nuevas tendencias en el análisis del discurso, Cuadernos AISPI, 2, 15-36. http:// www.aispi.it/magazine/issues/2-slash-2013-nuevas-tendencias-en-la-linguistica-deldiscurso Fuentes Rodríguez, C. (2017[2000]). Lingüística pragmática y análisis del discurso, Madrid: Arco Libros. Fuentes Rodríguez, C. & Alcaide Lara, E. R. (2002). Los mecanismos lingüísticos de la persuasión. Madrid: Arco Libros. Fuentes Rodríguez, C. & Alcaide Lara, E. R. (2008). (Des)cortesía. Agresividad y violencia verbal en la sociedad actual, Sevilla, Universidad Internacional de Andalucía. Lo Cascio, V. (1991). Grammatica dell’argomentare. Strategie e strutture. Firenze: La Nuova Italia. Lo Cascio, V. (2009). Persuadere e convincere oggi. Nuovo manuale dell’argomentazione. Città di Castello (PG): Academia Universa Press. Martínez Garrido, E. (1997). Elementos de oratoria sagrada en el discurso fascista ítaloespañol. Revista de Filología Románica, 14(1), 333-343. http://revistas.ucm.es/index.php/RFRM/article/view/RFRM9797120333A Prestigiacomo, C. (2015). Legiones y Falanges: Estrategias argumentativas para “una España Nueva, Libre y Grande”. En Sinatra, C. (a cura di), Stampa e Regimi. Studi su Legioni e Falangi/Legiones y Falanges, una “Rivista d’Italia e di Spagna”. Bern: Peter Lang, 253276. Prestigiacomo, C. (2016). Ciencia y manipulación discursiva en Legiones y Falanges: «Características raciales del comunismo». En Prestigiacomo, C. (a cura di), Identità, totalitarismi e stampa. Ricodifica linguistico-culturale dei media di regime. Palermo: UniPa Press, 257-275. Prestigiacomo, C. (2017). Legiones y Falanges: construcción lingüístico-discursiva del enemigo. Redis: revista de estudos do discurso, 6, 172-192. https://ojs.letras.up.pt/index. php/re/issue/view/240 Prestigiacomo, C. (2018). La forja de la posverdad en el discurso nacionalsindicalista: Y (1938-1945). En Di Gesù, F.; Pinto, A.; Polizzi, A. (Eds.), Media, Power and Identity: Discursive Strategies in Ideolocically-Oriented Discourse. Palermo: UniPaPress, 149-168. Prestigiacomo, C. (2019). Estrategias persuasivas en el discurso nacionalsindicalista: Y (1938-1945). Rassegna Iberistica, 42, 267-288.
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A (DES)CORTESIA DISSIMULADA NOS DISCURSOS CONSIDERADOS ‘POPULISTAS‘ EM PORTUGAL Isabel Roboredo Seara* 1. Introdução. Noção de ‘populismo’: circunscrever o conceito numa perspectiva interdisciplinar A palavra ‘populismo’ evoca os ressentimentos de longa data do homem comum, levados à efervescência por políticos carismáticos que fazem promessas impossíveis. Como pode ler-se na capa do jornal The Guardian, em 10 de janeiro de 2019, “Nós, o povo: a batalha para definir o populismo”, um artigo da autoria de Peter C. Baker.1 Em primeiro lugar, e subscrevendo a reflexão de Paus (2020), consideramos que o ‘populismo’ é uma etiqueta que se aplica a determinados partidos e líderes políticos, tendo em conta os programas e a visão que preconizam, embora saibamos que esta qualificação lhes é atribuída por terceiros, pelos adversários ou pelos analistas políticos e que os partidos, propriamente ditos, não apreciam, de bom grado, esta designação. Como sublinha Godin: Le populisme est moins une idéologie qu’une rhétorique. Il existe une manière populiste, reconnaissable entre toutes, et qui transcende les clivages politiques et nationaux classiques (2012, p. 6). Sabemos que o populismo é um fenómeno complexo, que o termo, em si, é evasivo (“Il n’ya pas de termes plus insaississables que le ‘populisme’, afirma Mayern (2005, p. 161)) e, por isso, é necessário mobilizar conhecimentos de vários campos disciplinares, desde os estudos de Sociologia e de Ciência Política até às Ciências da Linguagem, para o compreender. Na evolução diacrónica do termo e conceito, amplamente referida, desde o uso pejorativo no século XIX *
[email protected] 1 https://www.theguardian.com/news/2019/jan/10/we-the-people-the-battle-to-define-populism.
68 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS na Rússia, a partir da tomada de posição do movimento Narodniki contra o regime dos czares (Narodnicesto significa justamente o sentimento “qui porte vers le peuple”) até ao peronismo na Argentina, ao carismático Hugo Chavez e ao seu herdeiro Nicolas Maduro, até ao movimento ‘Tea Party’ nos Estados Unidos de contestação da elite política e financeira, múltiplas são as manifestações populistas bem descritas pelos analistas políticos e pelos historiadores sociais. Alguns dos exemplos anotados dos denominados regimes populistas evidenciam que não é possível pensar numa definição singular e congregadora, pois os contextos históricos, sociais e políticos influenciam indubitavelmente as diferentes formas de assunção, pois, como afirma Charaudeau: Il y aurait des populismes classistes, voire ethnicistes; des populismes nationalistes, plus ou moins autoritaires, jouant sur l’identité nationale et la ségrégation; des populismes néolibéraux; des populismes de circonstance s’exprimant dans les campagnes électorales à l’aide d’expressions démagogiques, afin de séduire les masses populaires (2011, p. 103). Corroborando estas ideias, Drămnescu explicita o caso europeu, bem distinto dos da América Latina: “In most countries of Europe through their discourse, populist politicians exploit social frustration generated by economic problems by showing the main culprits: corruption, political elitism and immigrants” (2017, p. 3). Por seu turno, Pierre-André Taguieff, um dos maiores estudiosos deste fenómeno, define o populismo como: “un style politique fondé sur l’appel au peuple ainsi que sur le culte et la défense du peuple, compatible en principe avec toutes les idéologies politiques” (Taguieff 2007, p.31). E, posteriormente, acrescenta esta ideia: “l’acte de prendre publiquement le parti du peuple contre les élites, ou encore par le “culte du peuple” avec diverses connotations (souveraineté populaire, culture populaire, etc.)”. (Taguieff 2012, p. 39) Em sintonia com esta definição, Jamin (2009) considera que o populismo é um estilo político que procura mobilizar o maior número de pessoas, usando
69A (DES)CORTESIA DISSIMULADA NOS DISCURSOS CONSIDERADOS ‘POPULISTAS‘ EM PORTUGAL a demagogia. Não faremos aqui a perspetiva diacrónica da evolução do termo, embora nos pareça que tal é muito importante para compreender a sua evolução semântica. O populista será aquele, que em nome de uma pretensa homogeneidade do povo, se fundamenta no ressentimento popular contra as ditas ‘elites’ (Raynaud 2017). O populismo é, pois, uma forma de fazer política que rompe com uma tradição secular em que esta era concebida como uma deliberação racional e pluralista tendo em vista o bem comum, uma tradição assente na democracia representativa. Assistimos hoje, em vários países do mundo, a fenómenos de política-espetáculo, à conceção de facto político como um tele-espetáculo com o seu drama instantâneo, com a exclusão do mais fraco, com o imediatismo infantil e não refletido da comunicação por tweets, pela manipulação das emoções, em tempo real. Estes, entre outros fatores, estão na génese da explicação do sucesso recente dos movimentos e partidos populistas, e traduzem a volatilidade das expectativas e das expressões políticas que desafiaram as previsões mais consistentes e sólidas. Configura, por isso, tanto o ressurgimento de velhos fenómenos, como o início de uma profunda transformação da política que decorre da erosão dos mecanismos democrático, das disfunções de algumas instituições, decorrendo de um estado de possível exaustão, como é assinalado por Drămnescu: As a political phenomenon, populism did not arise from nothing but it is the natural outcome of the culmination of a stage of exhaustion, trivialization and cultural and ideological exhaustion of the elites in power. Frustration, constant disappointment, repeated deception and expectation without any hope to cling to are the key factors conducive to the recrudescence of this phenomenon. (2014, p. 4) Para dois dos teorizadores do populismo, amplamente citados, De la Torre (2003) e Laclau (1987 e 2005), é populista a reconstrução politizada de identidades desarticuladas expressas através de um discurso que opõe o espaço social em dois campos políticos dicotómicos, a célebre dicotomia social “os de baixo” e “os de cima”, definindo-se assim o fenómeno populista a partir das categorias “deslocação”, “inscrição” e “fronteira”, anotadas em Laclau (1987). Corroborando esta ideia, De la Torre sustenta que uma das peculiaridades do populismo seria: “la construcción discursiva de la sociedad como un campo antagónico y maniqueo en el que se enfrentan el pubelo y la oligarquia” (De la Torre 2003, p. 60).
70 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS As várias aceções do fenómeno que passámos em revista decorrem, sobretudo, de abordagens no campo da Sociologia, da Ciência Política e da Antropologia, sendo, contudo, a posição do analista do discurso Patrick Charaudeau aquela em que verdadeiramente nos filiamos. Este autor considera: Le populisme n’est pas un régime politique. Il est une stratégie de conquête ou d’exercice du pouvoir à travers un discours qui reprend la scénographie du discours politique en radicalisant les imaginaires: la dénonciation du désordre social est exacerbée en crise dont le peuple est victime; la critique des responsables devient satanisation des coupables; la défense des valeurs se fait dans un discours d’exaltation paroxystique; et le leader se construit une image de sauveur providentiel (2016, p. 37). Como sublinhámos nesta citação, distantes dos posicionamentos dos analistas políticos ou dos sociólogos, colocamo-nos na posição de analista do discurso, reforçando a ideia da “estratégia de conquista ou exercício do poder através de um discurso que retoma a cenografia do discurso político, radicalizando os imaginários sociais”, subscrita por Charaudeau. Defendemos, pois, a ideia de que o populismo é mais uma retórica do que uma ideologia, tal como defende Latifi ao afirmar: The classical conception of populism via the central and cause of the ‘people’ may seem too nebulous and too emotive. Today it is difficult to imagine the concept of populism as not worth analysing without the associated populist rhetoric within the political discourse. (2014, p. 174) 2. Construção do discurso dito ‘populista’ em Portugal: quais as estratégias discursivas recorrentes? Procedamos a uma breve nota introdutória de enquadramento do Partido CHEGA e do seu líder. André Ventura, em 2019, fundou o partido político CHEGA, e a 12 de abril de 2019, associou-se à Coligação BASTA! para as Eleições Parlamentares Europeias de 2019. Não conseguindo eleger qualquer eurodeputado, a coligação foi dissolvida a 30 de julho de 2019. Posteriormente, concorreu às eleições legislativas 2019 pelo CHEGA, como cabeça de lista pelo círculo eleitoral de Lisboa, tendo sido eleito como o primeiro deputado do partido por si fundado. O líder do partido assume posições liberais economicamente, nacionalistas culturalmente e conservadoras em questões de costumes.
71A (DES)CORTESIA DISSIMULADA NOS DISCURSOS CONSIDERADOS ‘POPULISTAS‘ EM PORTUGAL Realcem-se algumas asserções constantes do Manifesto Político Fundador (https://partidochega.pt/manifesto/): o apelo aos descontentes com o sistema, a que se alude repetidamente neste manifesto: “O CHEGA está aqui para mobilizar os muitos descontentes. Já pouca gente espera dessa oligarquia organizada em torno dos chamados ‘partidos do sistema’ que leve a cabo as reformas imprescindíveis que os portugueses reconhecem como necessárias mas às quais a oligarquia não mete ombros porque essas reformas representariam, como é evidente, o fim do seu poder. Poder moribundo, mas ainda actuante”; e, mais adiante: “É para dar voz ao descontentamento e meter ombros a essa mudança que aqui estamos.” A construção deste ideário populista do Manifesto assenta num léxico com carga negativa e agressiva, identificando o Estado português como “um monstro burocrático”, “um monstro predador”, “uma máquina de assalto ao cidadão”, qualificando a cobrança de impostos como “um roubo”, reiterado na expressão “No estado a que chegamos, a cobrança de impostos é um roubo. Roubo puro e simples”. A construção anafórica é recorrente neste Manifesto, destacando- -se um parágrafo inteiro em que é enunciado o que o partido se impõe recusar, um verbo de negação, que explicita o que o partido declina, rejeita, não concede e não admite. (“Recusar frontalmente o marxismo cultural; recusar a ditadura da ideologia de género; recusar o aborto-a-pedido; recusar fronteiras escancaradas”). Esta afirmação peremptória da crença em valores ditos patrióticos culmina, nas linhas derradeiras do Manifesto, na oposição ‘Eles’/’Nós’ (já assinalada em van Dijk 2008), em que os outros detêm “mentalidades rotineiras, gastas e vazias”, com sistemas “caducos, ultrapassados e sem destino”, estruturas corruptos, podres e venais”, insistindo numa adjetivação maledicente, desvalorizadora, hostil que diaboliza os adversários, ao passo que o CHEGA assumindo o autoelogio, assume-se como um partido “que veio para, de forma transparente, democrática, corajosa e eficaz, devolver os portugueses a Portugal”. Instala-se, portanto, um confronto dialético entre o ‘povo puro’ e a ‘elite corrupta’, usando as expressões no sentido atribuído por Mudde (2004). I define populism as a thin-centered ideology that considers society to be ultimately separated into two homogenous and antagonistic groups: “the pure people” and “the corrupt elite,” and argues that politics should be an expression of the volonté générale (general will) of the people (Mudde 2004, p. 546; Mudde & Kaltwasser 2017).
72 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS The core features of the populist ideology are monism and moralism: both “the people” and “the elite” are seen as sharing the same interests and values, while the main distinction between them is based on morals (i.e. “pure” versus “corrupt”). Populists claim that they, and they alone, represent the whole people (Mueller 2016), while “the elite” represent “special interests.” Obviously, “the people” is a construct, which can be defined in many different ways (Canovan 2005). Nas áreas da justiça, segurança e imigração, o CHEGA está alinhado com as propostas comuns à autodenominada “direita iliberal” europeia. A introdução de legislação, no Código Penal, sobre a castração química como forma de punição de agressores sexuais, a qualquer culpado de crimes de natureza sexual cometidos sobre menores de 16 anos, é uma das ideias do CHEGA. Outra proposta do partido passa pela oposição frontal à tipificação do chamado «crime de ódio» na lei penal portuguesa. Ventura defende ser necessária uma reflexão sobre o regime de liberdade condicional ou sobre o agravamento da moldura penal para crimes particularmente graves, defendendo a obrigatoriedade de penas de prisão efetiva para quaisquer crimes de violação, sem possibilidade de pena suspensa, e introdução da pena de prisão perpétua para os crimes considerados mais graves, nomeadamente crimes de terrorismo ou homicídios com características específicas. Defende, ainda, a retirada de todos os privilégios nas prisões (salários, apoios sociais, bolsas de estudo, etc.) para reclusos condenados por terrorismo e quaisquer imigrantes ilegais. As políticas do CHEGA incluem, em suma, o reforço de penas para crimes graves – incluindo castração química e prisão perpétua no programa – e o reforço das garantias de atuação das polícias. O discurso antielites é feito contra os partidos atuais, com propostas de redução do número de deputados e a mensagem de que a corrupção é generalizada. A mensagem anti-imigração, que mais atenção tem atraído, visa comunidades específicas, como a dos ciganos. Pelo meio, ataca indiscriminadamente os representantes do “sistema”, Presidente da República, Governo e a própria Assembleia da República, de que faz parte, mas de onde se exclui. No discurso populista são recorrentes algumas temáticas, descritas e analisadas por alguns investigadores: a soberania é a do povo, assumindo a retoma das ideias de nacionalismos. Veja-se a definição do próprio partido CHEGA na sua página Facebook: “um partido político de base e natureza essencialmente popular. Nasce da incapacidade dos partidos e movimentos políticos existentes…”. Claramente no discurso explícito surge a “incapacidade dos outros…”.
73A (DES)CORTESIA DISSIMULADA NOS DISCURSOS CONSIDERADOS ‘POPULISTAS‘ EM PORTUGAL Figura 1: Página de entrada do partido: apresentação: https://partidochega.pt/ 2.1. O apelo ao povo: a oposição povo / elites O apelo ao povo, no discurso populista, passa pela valorização deste, mobilizando-o para um ‘apelo contra’: um apelo a reagir contra as elites, contra os estrangeiros, contra as minorias étnicas, ou qualquer categoria social que seja considerada perturbadora ou ameaçadora para a nação portuguesa. Assiste-se, pois, à instauração da dicotomia: o povo, categoria homogénea, maioritária, composta por pessoas autênticas, trabalhadoras e honestas, que, por ser maioritária, induz a uma forma de legitimação e que o líder do partido denomina “pessoas de bem”; em oposição às elites, minoritárias, heterogéneas, parasitas, ilegítimas e corruptas. A oposição é representada, maioritariamente, por políticos, burocratas e grupos financeiros. Fica comprovada a lógica de oposição identitária já referida por Jamin: On peut parler d’une logique d’opposition identitaire en ayant d’un côté “nous” et “eux”, les “bons” et les “mauvais”, “ceux d’ici” et “ceux de là-bas” mais aussi des “nationaux” et des “étrangers”. (Jamin 2009, p. 107) Os tweets do fundador do CHEGA comprovam também este posicionamento. Atente-se neste exemplo, em que se assume que o partido é “a voz de um povo inteiro farto de corrupção e impunidade”.
74 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS Figura 2: Post de André Ventura na rede social Facebook no dia 4 de outubro de 2019 2.2. O destinatário coletivo global A segunda característica do discurso populista é que este se destina a toda a população e não se focaliza numa categoria social específica como a classe operária ou trabalhadora (como no caso do partido comunista), pois o objetivo é alcançar o maior número possível de pessoas. Os discursos populistas visam desenvolver ao máximo o sentimento de pertença nacional e, portanto, construir uma rejeição de tudo o que não faz parte da nação, o que está em relação com o que anotaremos no ponto 2.4. Além disso, podemos acrescentar que uma tónica do discurso populista é o desejo de “devolver o poder” ao povo por meio de muitas promessas; no entanto, em termos de programa político, muitas vezes não é claro. O ‘povo’, no discurso populista, pode ser definido por uma identidade étnica que sente estar ameaçada, em que perpassa igualmente um sentimento comum de ser vítima de exploração económica. O que importa é que se culpa uma classe de elites corruptas; no caso de populismos de direita, também podem desprezar- -se algumas classes inferiores, sejam imigrantes ou minorias raciais, a quem as elites são acusadas de favorecer com tratamento especial como parte de sua conspiração para manter o poder longe de ‘pessoas comuns’. 2.3. A austeridade Neste mesmo sentido, surge repetidamente a temática da ‘austeridade’, denunciando a corrupção dos mercados financeiros a nível mundial. Preconiza-se uma economia protecionista, com fronteiras fechadas, e critica-se a grande carga de impostos sobre os cidadãos comuns. No entanto, como explica Mudde
81A (DES)CORTESIA DISSIMULADA NOS DISCURSOS CONSIDERADOS ‘POPULISTAS‘ EM PORTUGAL Com base nestes seis pressupostos e na classificação proposta por Charaudeau (2015), em que defende que as noções de ethos e carisma são duas categorias distintas da legitimidade, podemos facilmente depreender que o discurso carismático de Ventura decorre desse jogo de imagens que Charaudeau refere como condição para esta construção do ethos carismático, que é o da interação: Le charisme est une affaire d’échange. Il résulte de l’interaction entre des images et des regards qui entrent en résonnance et se font écho. Il faut que la personne charismatique se présente comme un miroir-médiateur de cet au-delà, de sorte que le public soit attiré dans un mouvement d’identification, et en même temps mesure que derrière le miroir il y a un idéal, une pureté, un absolu, inatteignable, une sorte de “désir inessentiel”. (Charaudeau 2015, p. 7) Dos vários tipos carismáticos recenseados, descritos e ilustrados por Charaudeau (messiânico, cesarista, enigmático, sage, de alma mater), encontramos apenas alguns traços deste carisma messiânico no líder André Ventura, sendo claro que é um iniciado, embora esta ascensão no seio do seu partido e a aceitação das suas ideias nos leve a questionar esta forma de construção rápida deste tipo de carisma, em que exalta os valores identitários, ajuda a reforçar a necessidade das condições utópicas da nação como fundadoras da comunidade. Alia-se nesta construção do carisma messiânico naturalmente a assunção da imagem de profeta da desgraça que anuncia potenciais catástrofes e estigmatiza os outros: as formas de representação política e mediática (a classe política, as elites, os media); os lobbies (grupos de interesse capitalista, a especulação, as corrupções bancárias); as instituições políticas e os adversários coletivos. De resto, a imagem que o líder constrói está em sintonia com as expetativas do povo, na construção de um suporte de identificação, pois “o ethos político deve, portanto, mergulhar nos imaginários populares mais amplamente partilhados, uma vez que deve atingir o maior número, em nome de uma espécie de contrato de reconhecimento implícito” (Charaudeau, 2013, p. 87). No caso em análise, o líder deseja convencer todos da pertinência e da ousadia do seu projeto político exibindo, assim, um ethos de arrogância. Ora, como anota Marques, “ a acusação de arrogância fragiliza o destinatário, ao identificá-lo com uma imagem autoritária, ditatorial, a partir de um contexto de democracia” (Marques 2008, p.7)
82 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS 4. A (des)cortesia dissimulada e a sua relevância na construção do discurso populista Os estudos de cortesia privilegiam a análise de estratégias discursivas que subjazem à construção da harmonia social das interações. Em polo oposto, os estudos sobre descortesia e violência verbal privilegiam a análise dos comportamentos verbais que visam ferir a imagem do outro e, de alguma forma, estigmatizá-lo. Sobre estes conceitos, ratificamos as considerações de Kaul de Marlangeon, que defende a existência de um continuum: A cortesía y la descortesia son dos aspectos del mismo continuo, o sea, dos valuaciones opuestas de la misma function, concepto que permite abarcar naturalmente ambos fenómenos, sin planteraos como simples opuestos polares (2008, p. 256) A cortesia verbal consiste em não produzir atos que ameacem quer a face positiva que corresponde, segundo C. Kerbrat-Orecchioni “au narcissisme et à l’ensemble des images valorisantes que les interlocuteurs construisent et tentent d’imposer d’eux-mêmes dans l’interaction” (1992, p. 168), quer a face negativa, entendida como “Le territoire corporel, spatial, temporel, bien et réserves, matérielles ou cognitives de l’interlocuteur” (idem, p. 167). Qualquer ameaça às faces constitui um FTA (Face Threatning Act), na medida em que o locutor “põe em risco o narcisismo” (idem, p. 170) do seu interlocutor. Todavia, a ameaça à face não é uma descortesia verbal per se. Para identificar a descortesia, é necessário ter em conta elementos extralinguísticos tais como o contexto da enunciação, o estatuto e a relação entre os interlocutores, o objetivo do discurso, etc. Para que exista agressividade verbal, o locutor assume através do seu discurso a realização de um ato perlocutivo como desacreditar, desqualificar, depreciar, insultar, refutando as ideias ou desacreditando o(s) outro(s). Para abordar aqui a noção da cortesia dissimulada, ancorar-nos-emos naturalmente na teoria da cortesia verbal, proposta por Brown e Levinson (1978, 1987), e revista por Kerbrat-Orecchioni, Watts, Terkouraffi, Fraser (1990) e Culpeper (1996). Tomaremos aqui a aceção de cortesia como um princípio de regulação social das interações, sublinhando a ideia defendida por Kerbrat- -Orecchioni (1992) que a cortesia não se localiza ao nível do conteúdo, da informação transmitida, mas ao nível da relação interpessoal, que é necessário regular. Bousfield (2008) define que a descortesia verbal constitui um FTA
83A (DES)CORTESIA DISSIMULADA NOS DISCURSOS CONSIDERADOS ‘POPULISTAS‘ EM PORTUGAL intencional, gratuito e conflituoso que foi produzido de forma propositada. Por sua vez, Culpeper, Haugh e Kádár (eds, 2008) sublinham a intenção de causar um dano da face. De facto, quando a intenção é desqualificar o interlocutor, a violência parece mostrar-se uma estratégia eficaz e, como tal, conforme expuseram Cabral e Lima (2017), precisa estar linguisticamente marcada, por exemplo, com o emprego de um qualificador de caráter pejorativo. Por sua vez, Terkourafi (2008) subscreve que a descortesia e a agressividade verbais ocorrem quando a expressão utilizada não é convencional relativamente ao contexto em que ocorre. Segundo Culpeper (1996), as estratégias discursivas ao serviço da descortesia verbal são tradicionalmente categorizadas: diretas [Bald on record impoliteness] quando expressas de maneira clara; positivas [positive impoliteness], quando ameaçam a imagem positiva; negativas [negative impoliteness], quando fere a imagem negativa; e dissimuladas [sarcasm or mock politeness], quando o enunciado parece cortês, mas é irónico ou sarcástico; não-corteses [Withhold politeness], quando se trata da ausência de cortesia em contextos nos quais essa é esperada. Nos discursos do líder do CHEGA, é frequente uma cortesia aparente, que é expressa linguisticamente através de modalizadores, atenuadores e pela assunção da responsabilidade do enunciador através de enunciados prévios (“peço desculpa”, “parece-me”) correspondentes a uma cortesia dissimulada. A polemicidade que caracteriza o seu discurso e pela qual o líder é reconhecido decorre da transgressão das regras de cortesia linguística que domina e estrutura o discurso, a fim de convencer o público da validade das suas ideias enquanto desacredita as políticas vigentes. Vejamos, então, a aplicação dos conceitos teóricos que recenseámos em alguns excertos de discursos do líder do CHEGA: (AV 1) Digam o que quiserem, mas um homem que espeta uma faca num bebé para se vingar da companheira e faz um vídeo desse ato atroz, não merece provavelmente voltar a pôr os pés cá fora. Os portugueses estão fartos de um sistema de justiça que parece brincadeira. (2 de setembro de 2017) A identificação da sua voz como a do povo que representa, com o coletivo “os portugueses estão fartos de um sistema que parece brincadeira” “Não merece provavelmente voltar a pôr os pés cá fora” assume-se com uma condenação, mas a expressão metafórica contribui para a atenuar esse julgamento.
84 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS Seguidamente, atentemos nestas três passagens de discursos de André Ventura: (AV 2) Temos de deixar cair o mito de que todos [os presos] são ressocializáveis. O trabalho em prol da sociedade deve ser uma obrigação dos presos”. “Devem trabalhar em prol da comunidade que agrediram e cujos valores fundamentais colocaram em causa”, acrescenta, sublinhando que é uma forma de “integração social” porque “o trabalho promove disciplina, interação e consciência social”, e também “uma compensação à sociedade” pelos crimes cometidos. (18 de agosto de 2017) (AV 3) Sou um defensor acérrimo da prisão perpétua periodicamente revista. (12 de maio de 2020) (AV 4) Muitos dos terroristas que estão presos voltariam a atacar se fossem colocados em liberdade hoje, assim como muitos pedófilos ou violadores. (20 de abril de 2020) Nestes três exemplos, atestamos as posições intransigentes e radicais do líder que, se, por um lado, chocam algumas mentes, por outro granjeiam simpatia por se assumirem como formas definitivas de calar e eliminar setores, demonstrando, assim, intolerância e prepotência. Repare-se, contudo, que quando o líder do partido CHEGA é questionado mais diretamente sobre se é a favor da pena de morte, assume, primeiramente, através de uma (des)cortesia dissimulada, que não a defende nem a deseja para Portugal para, logo de seguida, num discurso contraditório e violento, defender a pena de morte para algumas situações que identifica: (AV 5) Tentaram associar-me à pena de morte, mas acho que a pena de morte deve ser evitável, e deve ser evitável ao máximo porque nós não somos Deus para tirar a vida a ninguém (12 de agosto de 2020). Atente-se, seguidamente, nesta passagem (AV5), em que há um ato de culpabilização remetendo para outrem (construção elítica de sujeito, com uma terceira pessoa de plural genérica) e assumindo um posicionamento cortês, justificado através da invasão do dom divino da vida, com o intuito de reforçar a sua visão católica e tolerante perante uma questão social de enorme importância, retomando a trilogia ‘Deus, Pátria, Família’, apanágio do imaginário do Estado Novo, como bem demonstrou Aguiar (2017).
85A (DES)CORTESIA DISSIMULADA NOS DISCURSOS CONSIDERADOS ‘POPULISTAS‘ EM PORTUGAL Todavia, logo de seguida, (AV6) afirma perentoriamente o contrário, assumindo-se a favor da pena de morte e convocando naturalmente o seu ethos de liderança e de autoridade, de especialista em Direito e, enumerando os factos, por ordem cronológica, constrói a “narrativa dramatizante” que subjaz ao discurso de manipulação (Charaudeau 2009) e que justifica a aplicação da pena de morte, ressuscitando, assim, de forma inequívoca, a sua visão de não tolerância e de afirmação da sua posição radical, construída através da pergunta retórica e do reforço da negativa de exclusão total. (AV6) Acho que isto não é justiça. Eu sei que o direito penal não se faz para castigar, sou professor de Direito. É essencialmente para reintegrar e prevenir. Mas não dá sentimento de justiça a ninguém que um indivíduo – que mata o número de pessoas que PD5 matou, da forma fria como matou, a carnificina que se seguiu, a forma como tentou encobrir os crimes e a forma fria como se mostrou em tribunal, mostrando que tem um padrão e que provavelmente até poderá voltar a matar – tenha uma pena destas. Por isso mesmo, sou a favor que se faça o que se fez agora em Espanha, se aplique a pena de morte. Não o defendo nem desejo para Portugal. Outra coisa é se me choca que um terrorista que põe fim à vida de 30 ou 40 pessoas seja executado, ou um pedófilo que viola e assassina várias crianças? Não choca! Absolutamente nada. Se me quiserem julgar por isso julguem… mas acho que ainda vivemos num país em que a opinião é livre. (entrevista André Ventura, 11 de outubro de 2018) Esta mesma posição de cortesia dissimulada, presente num ethos que inicialmente parece ser de tolerância e de compreensão do outro, degenera sempre na afirmação explícita do seu pensamento radical, explicitando cruamente, através de uma exclamativa de negativa, seguida de uma construção enfática de negação (com o advérbio intensificador “absolutamente”), que enfatiza a sua drástica posição. Outro dos temas polémicos é o casamento homossexual. Numa entrevista ao líder do CHEGA (9 de fevereiro de 2020), o entrevistador afirma: “Uma das propostas do CHEGA é a proibição do casamento homossexual. Esta foi possivelmente a que causou mais contestação nas redes sociais. Como justifica?” Similarmente ao exemplo anterior, a resposta inicial (AV8) configura uma cortesia dissimulada, expressa através de um ato de elogio pela oportunidade 5 Refere-se a um caso mediático em Portugal, sendo PD as iniciais do nome de Pedro Dias, que foi condenado por três crimes de homicídio qualificado na forma consumada à pena máxima de prisão por 25 anos, em março de 2018.
86 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS da questão, um ato de agradecimento, reafirmando a sua pertinência e prosseguindo na sua afirmação clara de político inclusivo, tolerante, para captar o seu auditório: (AV 8) Ainda bem que me fez essa pergunta, muito obrigada, porque ainda não tive oportunidade de esclarecer isso. Sou obviamente contra qualquer restrição de direitos dos homossexuais […]. Acho que têm esse direito: de se unir, em termos fiscais e jurídicos acho que devem ter exatamente os mesmos direitos. Estranhando esta posição, o entrevistador insiste: E: Portanto, não se coloca a questão de criminalizar as relações homossexuais? (AV9): (a) Nunca, nunca, pelo amor de Deus. Isso sim seria um retrocesso que ninguém compreenderia. (b) Há pouco dizia-lhe que defendo que os pedófilos devem ser quimicamente castrados – aqui há uma relação de ato criminoso com consequência penal. Agora, por gostarem de pessoas do mesmo sexo? Por quererem viver com pessoas do mesmo sexo? Estão no seu direito, e estão no direito de fazer o seu caminho em busca da felicidade, é isso que temos todos de fazer. Só não estão no direito de casar por eu entender que há uma série de decorrências jurídicas da figura do casamento que acho que não devem ser ipsis verbis aplicadas a pessoas do mesmo sexo que se decidam unir” […] (c) De resto, queria deixar isto muito claro: não defendo nenhum tipo de discriminação contra casais homossexuais, e acho até que estamos muito pouco evoluídos em matéria de defender essas pessoas. Queria deixar essa mensagem bem clara. Face à questão colocada pelo entrevistador, Ventura nega categoricamente em a), invocando, como é seu hábito, a fórmula de rotina “pelo amor de Deus”, que encerra um valor de cortesia, na medida em que é uma fórmula convencional, pragmaticamente fixa, indicadora de um padrão convencional de comportamento, habitualmente usada com esse valor de justificação, equivalendo a uma negação absoluta que não admite exceção. Em AV9 b), o líder político instaura, mais uma vez, a falácia entre a primeira parte da resposta, estrategicamente ao serviço da cortesia dissimulada, e os enunciados seguintes, em que assume perentoriamente o seu pensamento, quer reiterando a defesa da castração química para pedófilos, quer assumindo que os homossexuais podem juntar-se, mas não casar.
87A (DES)CORTESIA DISSIMULADA NOS DISCURSOS CONSIDERADOS ‘POPULISTAS‘ EM PORTUGAL Na parte final da resposta (AV9 c), numa estratégia de retoma do discurso delicado e condescendente inicial (AV9 a), relembra, em tom de aviso, a sua posição compreensiva e conivente, afirmando que não defende nenhum tipo de discriminação, evidenciando o seu posicionamento ‘contra’. Prossegue com um juízo crítico sobre a mentalidade social para ensaiar mostrar o seu ethos de competência e de liderança, afirmando-se precursor da necessidade de novas reflexões sobre o tema. O enunciado final “Queria deixar bem clara esta mensagem” configura um ato de confirmação, espelhando o seu ethos de convicção e assumindo intrinsecamente um ethos arrogante que deriva de uma pretensa superioridade moral (Marques 2008). Considerações finais A maioria dos estudos sobre os movimentos populistas subscreve o posicionamento do analista político Mudde, que demonstra que o populismo é uma forma política que apregoa a oposição entre uma elite corrupta, com uma moral virtuosa, e o povo (Mudde, 2007). Ensaiámos mostrar que o populismo não é apenas uma ideologia preconizada por líderes políticos carismáticos nem um movimento de combate ao modelo representativo da democracia. Contrariamente a estas posições, advogamos que o populismo deverá ser encarado como um conjunto de estratégias discursivas utilizadas de forma ardilosa pelos políticos para desafiar o status quo vigente. Embora uma classificação binária seja comum a toda a retórica populista, expressa no vilipendiar das elites e na glorificação do povo, importa descodificar a construção discursiva para perceber se estamos face a uma ideologia coerente ou apenas a uma interpretação de um conjunto de ideias que, numa lógica moral rudimentar, oferece uma crítica simplista das configurações de poder existentes, como anota Bonikosvky (2016). Assim, a abordagem do fenómeno deverá centrar-se ao nível do discurso e, concomitantemente, ao nível das estratégias retóricas do líder que as usa como instrumento estratégico para captar não apenas os seus apoiantes fervorosos, mas o eleitorado em geral, numa retórica que é considerada incendiária. No caso do partido CHEGA, o líder mobiliza as identidades coletivas de exclusão, e, embora se expressem ideias de hostilidade e de ameaça, o seu discurso exibe uma atitude favorável à satisfação completa dos desejos do povo, uma forma de cortesia dissimulada que tem como objetivo agradar afetiva-
88 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS mente a um largo conjunto de cidadãos. Como defendem Hernandez-Flores e Infante (2015, 2018), esta cortesia dissimulada, direcionada para um grupo, provoca inevitavelmente uma descortesia relativamente aos excluídos, de modo que, ao acentuar esta atração empática com o povo, rejeita os demais. Em suma, as estratégias discursivas preponderantes nos exemplos analisados seguem um esquema de funcionamento: primeiramente, uma cortesia dissimulada, na medida em que o primeiro enunciado é de captação do auditório, mascarando o seu posicionamento. Esta mesma posição de cortesia dissimulada, presente num ethos que inicialmente parece ser de tolerância e de compreensão do outro, pende sempre para a afirmação explícita do seu pensamento radical, negando o discurso anterior, ao serviço do que designámos a retórica populista de ‘estar contra’. A credibilidade discursiva é construída a partir de uma voz autorizada que decorre do seu legítimo cargo de líder absoluto do partido. Referências Aguiar, M. (2017). Manipulação nos discursos presidenciais de tomada de posse do Estado Novo – estratégias discursivas e manipulatórias. REDIS, 6, 12-37. Consultado em https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/15709.pdf Amossy, R. (Dir.). (1999). Images de soi dans le discours. La construction de l’ethos. Lausanne: Delachaux et Niestlé. Amossy, R. (2008). Dimension rationnelle et dimension affective de l’ethos. In M. Rinn (Org.), Émotions et Discours. L’usage des passions dans la langue (pp. 113-125). Rennes: Presses Universitaires de Rennes. Bonikowski, B. (2016). Three Lessons of Contemporary Populism in Europe and the United States. Brown Journal of World Affaires, Vol. XXIII, 9-24. Bousfield, D. (2008). Impolitenesse in the struggle for power. In D. Bousfield & M. A. Locker (Eds.), Impoliteness in Language (pp. 127-153). Berlin/NY: Mouton de Gruyter. Brown, P. e Levinson, S. (1987). Politeness – some universals in language usage. Cambridge: Cambridge University Press. Cabral, A. L. & Lima, N. V. (2017). Argumentação e polêmica nas redes sociais: o papel de violência verbal. Signo. 42(73), 86-97. Consultado em http://online.unisc.br/seer/ index.php/signo Canovan, M. (1981). Populism. New York e London, Harcout Brace Jovanonich. Charaudeau, P. (2005). Le Discours Politique – Les Masques du Pouvoir. Paris: Vuibert. Charaudeau, P. (2011). Réflexions pour l’analyse du discours populiste. Mots. Les langages du politique, 97, 101-116. Consultado em http://journals.openedition.org/mots/20534
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97POPULISMO NA POLíTICA BRASILEIRA: DESOBEDECER PARA MELHOR OBEDECER e resistência (Foucault 2006), para analisar formas de expressão da obediência e da desobediência (Gros 2018), expostas no governo populista brasileiro. 3. As formas de expressão do populismo e as disrupções em suas práticas discursivas O corpus de análise foi extraído da imprensa publicada em meio digital que noticia enunciados produzidos pela presidência em situações públicas nas quais se refere ou se dirige ao ‘povo brasileiro’, seja tratando-o como aquele para quem ele atua favorizando-o, seja como aquele para quem ele dirige seus comandos e de quem ele espera ações a seu próprio favor. A seleção de nosso corpus abrange os discursos produzidos nos vários domingos a partir de 15 de março de 2020 até final de junho, justamente pela recorrência desses eventos que tão bem sustentaram a presença intensa e incômoda do bolsonarismo no país, motivo de cobertura jornalística no mundo. Analisemos esse primeiro evento ocorrido no dia 15 de março, quando é chamada uma manifestação de rua para ‘Apoio ao Governo’. J. Bolsonaro sai em um comboio presidencial em Brasília em apoio aos manifestantes a favor do presidente. Na semana que antecedeu o domingo (mais exatamente no dia 13 de março), o presidente, em um pronunciamento oficial8, lê com pouca convicção um texto, verbalizando que diante do quadro de pandemia recomenda- -se repensar o ato político programado por seu apoiadores: “Nossa saúde e de nossos familiares devem ser preservadas”, seguindo um discurso de obediência às orientações da OMS, e do então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. Entretanto, no domingo, o próprio presidente sai em comboio, expondo nessas manifestações um discurso de defesa da desobediência civil, saudando efusivamente os manifestantes e causando aglomerações. 8 https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2020-03/bolsonaro-pede-que-populacaorepense-ida-manifestacoes-de-domingo
98 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS Figura 1: Manifestação de apoio ao governo Orientado a ficar em isolamento até refazer testes para o coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro passou de carro ao lado de manifestantes no ato pró-governo deste domingo, 15, na Esplanada dos Ministérios e, na volta, foi ao encontro de apoiadores no Palácio do Planalto. Bolsonaro cumprimentou apoiadores e chegou a usar o telefone celular de algumas pessoas para tirar selfies.9 Para justificar essa ação, o enunciado que emerge em uma postagem do presidente em redes sociais é “Isso não tem preço”10. Esse enunciado atualiza uma memória discursiva recente relativa a uma propaganda que circulou intensamente no Brasil, referente a um cartão de crédito11 que habilita o possuidor a fazer as coisas que lhe dão prazer. Vemos, nessa atitude, um primeiro exemplo de uma característica do discurso populista, que queremos destacar: o presidente ao mesmo tempo orienta em pronunciamento oficial a população a se preservar e também a orienta a não abrir mão de seus prazeres; ele saúda o povo por ter desrespeitado suas orientações primeiras, por fim, expõe que, para o presidente, o seu ‘povo’ é sua fonte de prazer. Ora esse povo que o acompanha parece representar toda a nação, ora esse povo é constituído somente por seus apoiadores, que se mostram como exemplo de como o povo da nação deveria ser. 9 https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,bolsonaro-passa-de-carro-ao-lado-de-manifestacaoem-brasilia,70003233885 10 “Isso não tem preço”, disse, durante transmissão ao vivo em suas redes sociais. Consultado em https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/03/com-apoio-de-bolsonaro-manifestantes-ignoramcoronavirus-e-fazem-atos-pro-governo.shtml 11 A campanha publicitária do cartão de crédito Mastercard, que repetia o bordão “Isso não tem preço” foi ampla e de longa duração no Brasil.
99POPULISMO NA POLíTICA BRASILEIRA: DESOBEDECER PARA MELHOR OBEDECER Estendendo as análises aos sequentes movimentos dominicais de março a julho, vimos que esse procedimento de orientar seus seguidores – reconhecidos pelo presidente como ‘o povo patriota’ – é recorrente. O povo é chamado a desobedecer às leis civis, a desobedecer às regras da Constituição, de modo a melhor obedecer às ordens de um líder onipotente. Com isso, esse dado ‘povo’ apoia o presidente autoritário e legitima uma estratégia populista. Figura 2. Convocação para manifestação Considerando a noção de poder, conforme proposta por Foucault (1995), como uma relação presente nas microestruturas do cotidiano, vemos que no enunciado do cartaz reproduzido na figura 2 há um diálogo em que o sujeito ocupa uma função enunciativa, que ligada às regras de condições de emergência dos enunciados, responde a esse jogo do referencial do enunciado – participar e não participar da manifestação. O enunciado contendo a hashtag #DesculpaJairMasEuVou e a foto do presidente expressando contentamento, envolve a duplicidade do sujeito na função enunciativa que supostamente marca os dois lugares, desobedecendo e ao mesmo tempo obedecendo. A síntese do discurso ‘desobedeça para melhor obedecer’ corresponde a essa dupla posição enunciativa ocupada pelo presidente – não só ocupada, mas estimulada, planejada para apoiar ministro e para opor-se a ministro de seu próprio governo. Além disso há uma estética – como vimos na foto (figura 1), que ao mesmo tempo o isola, separando-o de seus seguidores, por grades e por seguranças, e o aproxima em um gesto de selfie no qual todos se incluem.
100 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS As ações de expressão populista se repetem. Em outros domingos, o presidente sobrevoa a manifestação com um helicóptero12, na Esplanada dos Ministérios margeia os manifestantes à pé ou à cavalo13 (expondo a grandiosidade do seu poder), percorre a cidade (indicando a extensão do seu poder) e abraça seguidores (garantindo proximidade e intimidade), margeando o povo a quem cabe ficar contido pelo cercado. Foram, enfim, vários domingos sempre em cenários renovados, em uma estratégia de espetáculo, conduzido por um poder histriônico. A oposição a essas ações, especialmente feitas por alguns meios midiáticos, não se apresenta como forma de resistência, mas como uma forma de reação. Uma vez que o presidente lidera os atos antidemocráticos e o povo patriota desodedece às leis civis para melhor obedecer ao presidente, parece restar à oposição apenas um lugar reativo, explicitado por forma de indignação. Os comentários publicados em jornal sobre os atos da manifestação dominical revelam isso. Sem máscara, o presidente desceu a rampa em seguida e passou a esticar o braço para tocar nos manifestantes, separados por uma grade. [...] O presidente também manuseou o celular de alguns manifestantes para fazer selfies.14 Todas essas ações pareceram cuidadosamente planejadas. Os governos populistas apelam ao seu povo, chamam-no a segui-los, mas nesse caso, – e é aí que queremos marcar a especificidade do presidente brasileiro –, esses eventos foram discursivizados por práticas recorrentes, sincronizadas no país e de grande visibilidade, e que se evidenciaram contra o sistema democrático, caracterizado pela divisão de poderes (executivo, legislativo e judiciário). São práticas discursivas que revelam a atribuição de autoridade máxima e total ao líder, de forma que a oposição ao sistema democrático repete a mesma lógica: desobedecer para melhor obedecer. Obedecer somente ao líder, emergindo, assim, do interior do próprio sistema democrático a instalação de um sistema não pautado na divisão dos poderes, porque esses se mostram como entraves 12 https://www.cnnbrasil.com.br/politica/2020/05/24/bolsonaro-participa-de-manifestacao-embrasilia-neste-domingo-24 13 https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/05/31/bolsonaro-mostra-passeio-decavalo-e-diz-estarei-onde-o-povo-estiver.htm 14 https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/03/com-apoio-de-bolsonaro-manifestantes-ignoramcoronavirus-e-fazem-atos-pro-governo.shtml
101POPULISMO NA POLíTICA BRASILEIRA: DESOBEDECER PARA MELHOR OBEDECER A resistência, que pode ser compreendida como uma ação de força, um desejo de mudança, uma forma de apontar para o novo, engendrando novas possibilidades de vida, não emerge de um grupo opositor ao governo, faz crer que o desejo de mudança está nos apoiadores do governo. Durante meses, e diante de um quadro imobilizante de pandemia, o máximo que houve foram reações – que são apenas formas de dar respostas àquilo que o poder quer dos brasileiros: no caso reações de surpresa, de indignação, de avaliação de um ato visto como suicidário (Safatle 2020) em razão da negação da gravidade e dos riscos relacionados à pandemia – o que levou algumas mídias e alguns comentadores a criticarem tais ações –, mas que acabaram de fato respondendo apenas como uma ação reativa e não de engendramento do novo. O quadro a seguir sintetiza como um discurso de confronto com a obediência muitas vezes gera a reação, mas não a resistência. Os enunciados selecionados foram pronunciados em 19/04/2020, por distintos enunciadores (‘povo patriota’, Bolsonaro e comentadores de mídia e presidente da Câmara) sobre o mesmo evento. Tabela 1. Obediência, desobediência e reação Obediência (segue-se um determinado poder) “Nós não queremos negociar nada. Nós queremos ação pelo Brasil” 1 “Todos no Brasil têm que entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro. Tenho certeza, todos nós juramos um dia dar a vida pela pátria. E vamos fazer o que for possível para mudar o destino do Brasil. Chega da velha política” (J. Bolsonaro) 2 . Desobediência (opõe-se a um determinado poder) Antes da fala de Bolsonaro, manifestantes gritavam “Fora, Maia”, “AI-5”, “Fecha o Congresso”, “Fecha o STF”, palavras de ordem ilegais, inconstitucionais e contrárias à democracia. 3 Reação/ Comentários (responde-se àquilo que o poder quer de nós) A reação é antinatural, porque ela coincide com o desejo de o quê o poder quer desses manifestantes. O que se viu foram comentários. “Em nome da Câmara dos Deputados, repudio todo e qualquer ato que defenda a ditadura, atentando contra a Constituição” 4 (Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados) Fonte: elaborado pela autora. Os fragmentos de frases pronunciadas sobre a manifestação de 19/04/2020 continuam a nos mostrar a instalação do sujeito nos dois lugares: da obediência e da desobediência. J. Bolsonaro diz submeter-se à vontade do ‘povo brasileiro’, e, portanto, obedece-os; e juntamente com eles pretende mudar o destino do Brasil – “Chega da velha política”, consequentemente conclama-os à desobediência, sobretudo ao acenar positivamente aos pedidos de fechamento do Congresso, do STF, da Lei de Segurança Nacional imposta no período dita-
102 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS torial. Enfim, gestos gravíssimos contra a Constituição. Não há na expressão daquele povo uma manifestação em oposição ao discurso presidencial (é um protesto a favor do autoritarismo), porque supostamente já é um discurso de desobediência que viria coincidentemente de onde emana o poder. Em reação, há comentários recolhidos pelo poder midiático, que não necessariamente se confronta com o poder político. Há também várias notas de repúdio e de indignação publicadas e divulgadas em mídia de grande alcance. Somente em 31 de maio de 2020, ocorre um movimento de resistência que não aquela forjada pelo próprio sistema e naquela ocasião aparecem manifestações em oposição ao governo que logo são rotuladas pelo governo e seus seguidores como feitas por ‘antifas’ e marginais: E, ontem, na inauguração do hospital de campanha de Águas Lindas (GO); o primeiro da União para atender a pacientes com covid-19; ele não deu uma palavra direcionada às vítimas da doença e a seus familiares, mas não se esqueceu dos chamados; antifas; (antifascistas). Bolsonaro, mais uma vez, chamou aqueles que protestaram contra seu governo de marginais, terroristas, maconheiros e desocupados: “Não sabem o que é economia, o que é trabalhar para ganhar seu pão de cada dia e querem quebrar o Brasil em nome de uma democracia que eles nunca souberam o que é e nunca zelaram por ela, disparou.15 Observamos, portanto, que a resistência é posta pelo populista como bagunça, violência, agressão – e que não se pode admitir então esse descontrole da ‘ordem’16. A reprimenda logo chega em forma de autoritarismo. Em 24 de julho, a Inteligência do Ministério da Justiça listou 579 servidores “antifascistas” e três professores universitários, um dos quais ex-secretário nacional de direitos humanos e atual relator da ONU sobre direitos humanos na Síria17. 15 https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/06/06/interna_politica,861553/ protestos-contra-o-governo-neste-domingo-aumentam-a-tensao-no-planalto.shtml 16 A respeito da manifestação de 15 de março, o presidente afirma em pronunciamento oficial que aquele movimento era espontâneo, legítimo e balizado pela lei e pela ordem: “Os movimentos espontâneos e legítimos marcados para o dia 15 de março atendem aos interesses da nação. Balizados pela lei e pela ordem, demonstram o amadurecimento da nossa democracia presidencialista e são expressões evidentes de nossa liberdade.” 17 https://noticias.uol.com.br/colunas/rubens-valente/2020/07/24/ministerio-justica-governobolsonaro-antifascistas.htm?
103POPULISMO NA POLíTICA BRASILEIRA: DESOBEDECER PARA MELHOR OBEDECER 4. Formas de obediência e de resistência Os governos populistas do século XXI chegam ao poder por eleições diretas e governam de forma autoritária. Para garantirem sua manutenção no cargo, investem em tentativas de derrubada de outros poderes que sustentam a democracia em um país. Como indicamos em alguns enunciados anteriores, é recorrente no discurso de J. Bolsonaro a afirmação de que a vontade do povo é a que prevalece – Todos no Brasil têm que entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro –, de forma a indicar que é o ‘povo brasileiro’ que conduz os rumos da nação, entretanto, na ótica bolsonarista, o atendimento a essa vontade passa antes por diversos filtros, que exigem formas de obediência: submissão, subserviência, conformismo, consentimento (Gros 2017). Não foi uma mera casualidade a afirmação de J. Bolsonaro – Eu sou a Constituição18 – proferida um dia após participar de um ato Pró-golpe, ocorrido no domingo, dia 19 de abril. Ele verbaliza esse enunciado quando se dirige aos seus seguidores e à imprensa no ‘cercadinho’ instalado no Palácio da Alvorada. A manutenção de um governo populista exige um povo subserviente, em parte desejoso dessa subserviência ou omisso, conformado ou que, mesmo inconformado, emite consentimento – que já não é mais compreendido como o povo de uma nação, mas como um povo seguidor, submisso e subordinado. Nos enunciados que recuperamos anteriormente, pode-se observar deslizamentos que indicam ora a simulação de um governante submisso ao povo, ora a simulação de um governante submisso à Constituição, ora a submissão do povo ao próprio governante, que teria supostamente um discurso de acordo com a Constituição. A relação que se estabelece entre o líder e o ‘povo patriota’ é a de submissão e subordinação, tanto no verbo, quanto na estética da cena discursiva, que apresenta o ‘povo’, no cercadinho, sem direito ao diálogo. Às vezes concede-se ao povo o direito a alguns aplausos efusivos ao presidente em expressão de devoção àquele que impõe a submissão, conforme vê-se na imagem a seguir. 18 https://www.youtube.com/watch?v=P96YaQYGmHM
104 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS Figura 3. Eu sou a constituição, diz Bolsonaro um dia após participar de ato pró-golpe19 A característica que destacamos no populismo é aquela que se expressa por uma prática discursiva que responde a uma estratégia de adesão a um discurso que flutua entre a obediência e a desobediência. Seguindo as reflexões de F. Gros (2018), para quem é preciso evitar o dualismo da obediência versus desobediência, as formas de obediência podem ser apreendidas em modos de submissão, de subordinação e de conformismo, sendo essas ainda modos pré- -políticos de inscrição dos sujeitos nas relações de poder, porque não há uma alternância e sim somente uma subserviência que alimenta um totalitarismo democrático. O conformismo moderno modela-se por uma igualdade de normalização e “é pelo desejo de sermos nós mesmos que nos fazemos mais parecidos com os outros” (Gros 2018, p. 107). É neste caráter ainda pré-político da obediência que vemos estarem circunscritos seus apoiadores que agem obedecendo seu líder. Os manifestantes ‘patrióticos’ obedecem de forma entusiasmada ao comando do líder populista, que, por sua vez, por possuir poder frente à nação, faz os seus comandados agirem como se não houvesse outra ação a fazer senão apoiá-lo e o fazem com devoção. Objetivados defensores da nação, produzem enfrentamentos e transgressões. O líder, entretanto, atribui os resultados a uma insurgência popular – Eu não coordeno nada, não sou dono de grupo, eu não participo de nada. Eu só vou prestigiar vocês que estão me apoiando, fazem um movimento limpo, decente em favor da democracia, pela lei e pela ordem. Tá 19 https://www.youtube.com/watch?v=P96YaQYGmHM, 20/04/2020.
105POPULISMO NA POLíTICA BRASILEIRA: DESOBEDECER PARA MELHOR OBEDECER certo? Eu apenas compareço20. Portanto, o suposto discurso da desobediência é ainda pré-político, porque não responde a uma contraconduta, mas sim ao seguidismo de uma conduta comandada pelo líder. Ao problematizar as formas de (des)obediência, Gros (2107) expõe que há também uma estilística da obediência que se apresenta como política, uma vez que se caracteriza por uma obediência ativa. São as formas estilísticas de consentimento e de obrigação. Na forma estilística do consentimento, observa-se que a obediência política do cidadão se dá por conta de um pacto social que estabeleceu e consentiu que a vida cidadã seja vivida seguindo determinadas regras, ou se dá em razão de uma unanimidade na qual o cidadão deve obedecer aos decretos da cidade, respeitar as leis votadas pelas câmaras composta pelos representantes eleitos; seria enfim, um consentimento que indicaria que se “obedece sempre livremente às leis” (Gros 2018, p. 318). A transgressão seria a forma de resistência. Entretanto, em um governo populista, a desobediência que simula ser um modo de resistência que se levanta em eventos democráticos contra os poderes democráticos – porque movida a favor de ditaduras militares – é antidemocrática e exige, portanto, a subserviência daquele ‘povo’ que se traveste de desobediente, quando não faz mais que desobedecer para melhor obedecer. Quando observamos que os poderes midiáticos e políticos (ocupados por deputados e senadores) e os órgãos e as entidades de representação de classe emitem notas de repúdio, de desagravo, comentários indignados em relação a essas atividades dominicais, vemos não mais que uma reação, oferecendo uma resposta àquilo que o poder espera. Os contrapoderes ‘consentem’, consequentemente, que o governo populista aja assim. Desse modo, não se exerce uma forma política de resistência. Os eventos dominicais ocorreram mais intensamente no primeiro semestre de 2020, período coincidente com o apelo para que as pessoas ficassem em casa, em razão da pandemia. As manifestações articuladas por grupos identificados com o antifascismo, por lideranças de torcidas organizadas de futebol como a Gaviões da Fiel e a Torcida Jovem do Santos, e grupos em oposição a movimentos ultraconservadores, supremacistas e fascistas ocorreram em apenas dois eventos, que levaram também a um confronto quase direto com os grupos apoiadores do governo. Esse movimento, embora fosse resultante de 20 https://www.cnnbrasil.com.br/politica/2020/06/01/bolsonaro-pede-que-apoiadores-naoparticipem-de-manifestacao-no-domingo
106 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS uma desobediência refletida – aquela obediência a si mesmo, que sai às ruas porque já não é mais possível se calar –, é culpabilizado e apontado, desta vez sim, como organizado por aqueles que apostam no desgoverno. Emprega-se uma estratégia que associa a desobediência como apoio e a resistência como confronto, baderna, desordem a ser imediatamente coibida. Considerações finais O novo populismo, em nossas considerações, pode ser compreendido como um populismo dissimulado. O seu líder não defende a queda da Constituição ou ainda a instalação de um visível regime ditatorial. Entretanto, em suas ações, o líder populista atua para modificar a essência da Constituição, apoiando Reformas trabalhistas, previdenciárias que quebram o pacto social democrático, enquanto se arroga ser a própria Constituição. O histrionismo do líder populista engrossa a fileira de devotos, e quanto mais age polemicamente em eventos públicos e nas redes sociais, mais mobiliza os seus seguidores. Todo populista age como tal, mas ao mesmo tempo recusa o rótulo. Assim, reconhecemos dois lugares de enunciação: aquele que claramente inscreve um governante como populista e destaca seus atributos negativos, considerando as suas práticas discursivas e um outro lugar enunciativo que é o da recusa do rótulo e que, para tal emprega práticas discursivas que expõem as atitudes de desobediência civil como uma força que emana do povo. Essas atitudes, a nosso ver, reforçam ainda mais o caráter populista daquele que o recusa. Há uma complexidade que se impõe ao sujeito na função enunciativa, que é inevitavelmente estar inscrito em relações de poder (Foucault 2006): sujeitos que se submetem para viver, que se subordinam crendo na sua inferioridade ou infantilidade, que se conformam por um hábito reforçado pelo seguidismo, que consentem porque uma vez aceitaram a imposição das leis (Sargentini 2020). As resistências, fazendo parte das relações de poder, sempre terão a oportunidade de emergir na tentativa de virem também a tornarem-se poder. Entretanto, muitas vezes é somente a obediência ao poder, travestida de resistência, que se apresenta. É isso que vemos como mais uma estratégia característica do populismo do governo Bolsonaro. Em nossa análise, avaliamos que as ações de desobediência ao governo populista de Jair Bolsonaro são coordenadas por um alinhamento horizontal da vontade do povo que, por sua vez, é reduzido a um único povo. As contra-
113DISCURSO POPULISTA COMO RESISTêNCIA? ANáLISE DE UMA CAMPANHA POLíTICA NAS REDES SOCIAIS não está vinculado a nenhum partido político. Em última instância, o significante “brasileiro/povo” é positivamente preenchido como quem está a favor do Brasil (com texto redigido nas cores da bandeira do país); enquanto seu oposto, representado pelos termos “PT” “PSDB” “partido”, podendo ser ampliado para políticos e partidos de modo geral, é negativizado como “quem está acabando com o Brasil”. Reforça-se, assim, a polarização Nós-brasileiros-povo contra Eles-políticos-elite. Para além de uma arquitetura amigável ao binarismo, a internet apresenta ainda a capacidade de potencializar esses significantes vazios através de algoritmos e da produtividade recursiva dos próprios usuários, que, na web, atuam na distribuição de mensagens na sua própria rede. Assim, a partir do algoritmo das redes (que apresenta os conteúdos de acordo com o comportamento, preferências e engajamento do usuário), determinado significante passa a ser reforçado e preenchido positiva ou negativamente, ao mesmo tempo em que é exponencialmente replicado por cada nó da rede. De acordo com Cesarino (2020, p. 15), reside nisso “o principal elemento diferencial do populismo em sua modalidade digital”: Em outras palavras, o mecanismo populista, que na sua versão analógica dependia pesadamente do carisma pessoal do líder e de eventuais grupos e instituições que ele implementava para buscar rotinizar esse carisma, na versão digital opera transferindo sua lógica para toda a rede, inclusive para os próprios eleitores, que passam a reproduzi- -la de modo espontâneo. Sugiro que essa fractalização, que intensifica sobremaneira a capilaridade do mecanismo populista, seja propiciada – e aqui, podemos nos valer da affordance gibsoniana – pela sua natureza propriamente digital. Ligado a essa potencialidade da rede está ainda um último aspecto do populismo exacerbado no digital: a simetria do antagonismo amigo-inimigo, intensificada na web pela inversão e canibalização de enunciados do oponente.
114 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS Figura 2. Meme divulgado nas eleições presidenciais de 2018. Na figura 2, vemos a fotografia do ex-presidente Lula, quando fichado e preso pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) durante a ditadura militar, ao lado da fotografia do, então, jovem Bolsonaro, capitão das forças armadas brasileiras. A oposição explícita de forças históricas é iconicamente demarcada através de diversos elementos e completada pela legenda que impele o interlocutor a uma tomada de posição entre o crime/desordem ou a lei/ordem. Na internet, entretanto, se a alta velocidade e o grande alcance de uma informação reforçam um conteúdo, são eles também que mobilizam forças contrárias na disputa de sentidos. Figura 3. Slogan/meme de partidários de Lula.
115DISCURSO POPULISTA COMO RESISTêNCIA? ANáLISE DE UMA CAMPANHA POLíTICA NAS REDES SOCIAIS É assim que, diante da imagem negativa associada a Lula e seu partido pela oposição bolsonarista (sistematicamente vinculados ao crime e à corrupção por seus adversários), os usuários da rede favoráveis ao ex-presidente se apropriaram do sintagma da oposição “Lula ladrão” (pelo processo de canibalização), convertendo seu teor negativo positivamente: “roubou meu coração”. Pelos procedimentos de inversão e de canibalização, a polarização amigo-inimigo funciona como subsídio discursivo para a construção de sentido. Como se pode verificar, o impacto da digitalização do populismo não é rudimentar e os aspectos relevantes desse encontro devem ser considerados sempre que se observam dados da web, cada vez mais relevantes politicamente. É a partir deles que passarei a examinar na seção seguinte as publicações de campanha de Guilherme Boulos, no Twitter e no Facebook, inicialmente, identificando-as com o populismo de esquerda, conforme apregoado por Mouffe (2019), e reconhecendo as interferências desse populismo digital (Cesarino 2020), para, por fim, verificar a possibilidade de equalizar esse discurso como resistência. 3. Um populismo de esquerda De acordo com os objetivos deste trabalho, parto da compreensão de Mouffe (2019) sobre o que seria um populismo de esquerda capaz de fazer frente à escalada de uma extrema-direita populista. Nesse sentido, adotarei como estratégia retomar as palavras da autora para, na sequência, expor e analisar as publicações de Guilherme Boulos. Importa antes fazer uma pequena digressão para apresentar o candidato. Guilherme Boulos é professor de filosofia e uma reconhecida liderança de movimentos populares, especialmente, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), do qual participa desde 2002 e é um dos atuais coordenadores nacionais. Em 2018, ingressou no Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e concorreu às eleições presidenciais, sendo o 10o colocado. Já em 2020, concorreu à prefeitura de São Paulo (a maior cidade do país), alcançando um resultado histórico ao desbancar 12 dos seus 13 concorrentes, com apenas 17 segundos de propaganda eleitoral na televisão e no rádio, em um contexto pandêmico. A 2a colocação foi conquistada com uma forte campanha nas redes, que mereceu destaque em diversos veículos de comunicação, conforme se lê nas manchetes a seguir:
116 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS a) Videogame, Celta e ‘pegadinha’ nainternet: como acampanha de Bouloscativa os nativos digitais4.(Jornal Estadão) b) Sucesso na web hackeou o sistema com memes e bom humor5 (Portal Uol) c) Boulos controla a narrativa na web e tem vantagem sobre Covas no digital, analisa Bites6 (Poder 360) Um dos principais aspectos para o sucesso de um empreendimento populista é a instituição de uma liderança. Um líder reconhecido como tal tem a força necessária para mobilizar os sentidos de acordo com o que lhe convém. Para a esquerda, entretanto, há um limite ético que impede a construção de uma liderança que se coloque acima das instituições e da população em geral, o que, segundo Mouffe (2019, p. 111) pode ser conduzido alternativamente: O papel do líder na estratégia populista foi sempre objeto de crítica e, por essa razão, esses movimentos são frequentemente acusados de autoritários. […] No entanto, o líder pode ser concebido como um primus inter pares, sendo perfeitamente possível um tipo diferente de relação, menos vertical, entre o líder e o povo. Figura 4. A construção do líder. 4 Consultado em: https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,videogame-celta-e-pegadinha-na- -internet-como-a-campanha-de-boulos-cativa-os-nativos-digitais,70003502183. 5 Consultado em: https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/12/07/meme-e-zoeira-o-que- -fez-a-campanha-de-boulos-bombar-nas-redes-sociais.htm. 6 Consultado em: https://www.poder360.com.br/opiniao/eleicoes/boulos-controla-a-narrativa-na- -web-e-tem-vantagem-sobre-covas-no-digital/.
117DISCURSO POPULISTA COMO RESISTêNCIA? ANáLISE DE UMA CAMPANHA POLíTICA NAS REDES SOCIAIS Na figura 4, observa-se a construção de uma liderança acessível, sincera e corajosa. No primeiro tuíte, Boulos se autodenomina “um líder” e se destaca pela “coragem para mudar os esquemas” com a qual legenda a divulgação de sua entrevista com Datena – apresentador de um telejornal de reconhecido teor espetacularizado e violento. Nele, podemos ainda observar o uso da expressão “puxa-saco” (equivalente a bajulador) para se referir a Celso Russomanno, seu principal adversário naquele momento da campanha, pela relação de subserviência ao governo Bolsonaro. O segundo tuíte se constitui da repercussão de uma ação que o candidato realizou em sua campanha, na qual qualquer cidadão que enviasse mensagem convidando-o a tomar café da manhã em sua casa poderia ser surpreendido por sua visita. Trata-se de um líder que se coloca ao alcance de “Dona Geralda”, na periferia da cidade, e de quem mais o convidar, como um igual: “O povo de São Paulo sabe quem tá do lado dele”. Registre-se aqui a expressão “do lado”. Os tuítes seguintes seguem o mesmo princípio, pois reforçam as três características mais marcantes dessa liderança. O tuíte inferior à esquerda repercute a ação “Se vira nos 50”, em que Boulos ia às ruas responder em 50 segundos às perguntas feitas pelos eleitores no mesmo tempo. Colocando-se, mais uma vez à disposição da população, o candidato reforça a imagem de alguém que não teme ser confrontado e que é capaz de responder sem artifícios ou mediação, dando provas de sua sinceridade. Do mesmo modo, o último tuíte divulga um programa inaugurado em seu canal do Youtube muito antes das eleições, chamado “Café com Boulos”, em que comenta assuntos políticos diversos, entrevista convidados etc. No referido episódio, Boulos comenta as fake news que circularam contra ele no período, investindo-se da imagem de alguém que preza pela verdade, não se esconde e mantém interlocução direta com a população. A análise dos tuítes permite, então, verificar a construção de um líder que não só se coloca como um igual, identificando-se com um nós periférico e diverso (trabalhadores, mulheres, jovens, LGBTQI), mas, principalmente, disponibiliza-se a estar junto e, assim, adquire a credibilidade para ser “o primeiro entre seus iguais”, conforme apontou Mouffe (2019). Trata-se aqui do eixo sintagmático de operação do populismo, que vincula o líder ao povo. Há de se observar ainda o eixo paradigmático, que contrapõe esse Nós (líder-povo) ao Eles, construído na cadeia de sentidos negativos:
118 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS A questão crucial num regime democrático-liberal, portanto, é como estabelecer essa distinção nós-eles, a qual é constitutiva da política, de um modo que seja compatível com o reconhecimento do pluralismo. O importante é que o conflito, quando surgir, não tome a forma de um antagonismo (uma luta ente inimigos), mas de um agonismo (uma luta entre adversários). (Mouffe 2019, p. 140). Figura 5. A construção do agonismo. Na figura 5, os tuítes superiores apresentam a imagem de seus adversários políticos. À esquerda, há a reprodução de um fragmento do debate eleitoral ocorrido na emissora de tv Bandeirantes, em que Boulos faz referência a um episódio no qual Celso Russomanno destrata um caixa de supermercado em seu programa de televisão7, acusando-o de ser grosseiro com “o povo”, ao mesmo tempo em que é subserviente aos “poderosos”. Já no da direita, aparecem as imagens se seus opositores e respectivos aliados (Russomanno e Bolsonaro/Dória e Bruno Covas, o “Bolsodória”) como representantes do “ódio e o atraso”. Os tuítes inferiores colocam em oposição o medo e a coragem em diferentes aspectos. No primeiro, Boulos divulga mais um episódio de seu programa no Youtube “Café com Boulos”, em que questiona os interesses que estariam por trás do cancelamento dos debates. Em resumo, os poderosos, interessados 7 Celso Russomanno é jornalista e apresentou diversos programas de televisão, destacando-se como protetor dos direitos do consumidor.
119DISCURSO POPULISTA COMO RESISTêNCIA? ANáLISE DE UMA CAMPANHA POLíTICA NAS REDES SOCIAIS pela manutenção da atual situação política, da qual seus opositores são representantes, temeriam o confronto e o bom desempenho de Boulos e, portanto, não teriam interesse em sua realização. No segundo tuíte, o medo é imputado ao “governo Bolsonaro”, por não optar pela taxação “de grande fortunas” para gerar recursos para o pagamento de uma “renda cidadã”, enfrentando, assim, “os verdadeiros privilégios”. Colocar-se em oposição ao outro é também definir-se pela inversão dos traços atribuídos à alteridade. Assim, o vínculo de seus adversários à semântica do “atraso”, do “ódio”, do “poder” e do “medo”, fortalece a construção de um ethos automaticamente associado a valores contrários: Tabela 1. Eu/Nós Eles futuro atraso afeto ódio povo poderosos/esquema coragem medo Desse modo, observamos conforme Mouffe (2019), a possibilidade de estabelecer o contraste por uma relação agônica, que reconhece o outro pela diferença (e por valores negativos), investindo-o da categoria de adversário e não de inimigo. Se, normalmente, o que se vê instituído no discurso populista é a construção da polarização Nós x Eles pela metáfora da guerra, na campanha de Boulos, é a metáfora do jogo (especialmente do futebol) que funda a relação de oposição entre adversários: (“Virada”, “virar o jogo”, “na raça”, “derrotar” etc. são expressões comuns no discurso do candidato.) Outro aspecto extremante relevante e diferenciador da campanha de Guilherme Boulos é a mobilização da emoção por seu aspecto positivo. O que se tem visto comumente construído em discursos populistas até o momento é a fomentação do medo e do ódio como elementos reforçadores da crise e da consequente exaltação da liderança. O caminho percorrido na campanha de Boulos, entretanto, apela à emoção pela face do “afeto”. Reconhecer o papel fundamental desempenhado pelos afetos na política, e como eles podem ser mobilizados, é decisivo para conceber uma estratégia populista de esquerda eficaz. […] Ela tem de ser congruente com os valores e identidades que visa interpelar, devendo conectar-se com os aspectos da experiência popular. […] ela precisa partir de
120 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS onde elas estão e de como elas se sentem, oferecendo-lhes uma visão de futuro que lhes dê esperança, em vez de manter-se no registro da denúncia. […] As práticas artísticas e culturais têm, por essa razão, um papel importante a desempenhar numa estratégia populista de esquerda. (Mouffe 2019, pp. 120-121). Figura 6. Boulos e a vice Luiza Erundina. A figura 6 é composta por uma mensagem de agradecimento, juntamente com a fotografia de Boulos e sua vice, utilizada em diversos momentos da campanha. O profundo respeito e admiração do candidato à Luiza Erundina8 sempre foi expresso sem contenção e, nessa imagem, transborda em lágrimas. Os candidatos, representantes de gerações diferentes, aparecem unidos, abraçados e extremamente emocionados. São motivados pelo amor à causa e, na mensagem, promovem o encontro entre gratidão e esperança, agradecendo pelos votos de mais de 40% dos eleitores. Mobilizadores de afeto são também a arte, a cultura e o prazer. Sobre eles, são incontáveis os exemplos utilizados durante a campanha do candidato do PSOL. 8 Luiza Erundina tem 86 anos de idade e 40 de vida política. É uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores (PT), pelo qual foi prefeita de São Paulo de 1989 a 1992. Atualmente, está no PSOL e atua em seu sexto mandato como deputada federal.
121DISCURSO POPULISTA COMO RESISTêNCIA? ANáLISE DE UMA CAMPANHA POLíTICA NAS REDES SOCIAIS Figura 7. A presença da cultura na campanha. Conforme sugerido na última citação de Mouffe (2019) apresentada anteriormente, elementos artísticos e culturais são instrumentos fundamentais na promoção de conexão com os aspectos da experiência popular. E, na campanha de Boulos, eles foram explorados de variadas formas. À esquerda da figura 7, vemos um dos jogos online produzidos no período de campanha. Nele, o jogador deve levar Boulos à prefeitura, atravessando bairros de diferentes regiões da cidade, onde aparecem as soluções de problemas propostas pelo candidato (os bolinhos são equivalentes às “vidas” do personagem, trocadilho frequente com o seu nome). À direita, dois exemplos da saga “Virada para o futuro” (sátira do filme Back to the Future, traduzido no Brasil como “De volta para o futuro”), série de quadrinhos em que Boulos viaja ao passado para encontrar na gestão da então prefeita Luiza Erundina as soluções para os problemas atuais. Destaco, no último caso, a edição especial de “Go Boulos” (em referência ao filme Ghostbusters), pela exaltação à cultura nacional através da substituição do “Halloween” pelo “dia do Saci9” (comemorado em 31 de outubro, no Brasil). A emoção, em diferentes formas, não só é demonstrada pelo candidato – que chora, indigna-se, sorri, diverte-se –, mas é também compartilhada com seus eleitores a partir das múltiplas possibilidades de interação que a internet proporciona. Hipertextualidade, multimodalidade e interatividade foram 9 O saci (saci-pererê, saci-cererê, matimpererê etc) é uma das figuras mais famosas do folclore brasileiro. A lenda do ser negro, pequeno e de uma perna só, que habita as florestas e é conhecido por suas travessuras, surgiu no Sul do Brasil e foi influenciada por elementos das culturas indígena e africana.
122 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS potenciais explorados ao máximo, proporcionando um grau de engajamento bastante alto, ao se considerar, especialmente, o padrão de participação de eleitores brasileiros. Nesse sentido, a replicabilidade/fractalidade proporcionada pelas redes, foi fundamental para ampliar o escopo da campanha. Figura 8. Replicabilidade e fractalidade na campanha. A figura 8 traz exemplos de como um conteúdo que, inicialmente, ficaria restrito aos seguidores do candidato, ganha alcance e repercussão filtrada pelo próprio algoritmo das redes. A postagem de Guilherme Boulos sobre a experiência de jogar Among Us online com outros “gamers” famosos não tem grande repercussão se restrita apenas a seus seguidores. Quando repostada por um “gamer”, no entanto, tem o potencial de furar a bolha digital que mantém apartados os universos do político e dos jogos, atingindo um público externo à sua própria rede. O alcance proporcionado pela replicabilidade é ainda fortalecido pela fractalidade, que atua como um filtro que apresenta os fragmentos que compõem a imagem do candidato de acordo com suas afinidades. Assim, para os seguidores do usuário “gamer”, será apresentado como o candidato jovem, que gosta de se divertir e se interessa por jogos; de outro modo, será apresentado como o candidato simples, portador de um “celtinha” (carro popular), ou capaz de animar e estimular o eleitor, conforme os perfis à direita da figura 8. Destaco, por fim, a inversão e a canibalização como procedimentos do populismo digital recorrentemente utilizados na campanha de Boulos. Todo o discurso proferido durante a campanha foi construído no sentido de fortalecer o candidato como alternativa de mudança e, como se viu, as práticas discursivas materializaram a mudança ao inverter os parâmetros do medo em esperança, do ódio em amor. Mais do que isso, o discurso de seus adversários políticos foi apropriado e transformado positivamente, conforme observamos nas imagens que seguem.
129POPULISMO(S): O SER E O FAZER NO DISCURSO POLíTICO PORTUGUêS de modo a cativar os destinatários; uma instância constituída pelos cidadãos que hão de delegar o poder nos seus representantes; uma instância adversária opositora aos detentores do poder; finalmente, uma instância mediática, não menos importante já que transmite, amplifica e, diremos nós, dá a ver segundo perspetivas várias, nem sempre ao serviço dos interesses do público, o que se passa no domínio do poder político. 2.2. Populismo(s) A fim de tentar caracterizar o populismo, partiremos do pressuposto de que, mais do que evocar questões ideológicas para essa caracterização, é na perspetiva do dizer que se pode tentar descrever este fenómeno. Efetivamente, de um ponto de vista ideológico, o populismo abrange tendências ideológicas de todos os espetros e abrange as mais distintas épocas.3 A conotação do termo envolve não raro uma avaliação ou juízo de valor negativos. Como denominador comum, os vários populismos partilham o facto de entrarem em um conflito contra o Outro, um conflito em que as massas que estão na base se opõem àqueles atores políticos que estão no topo, apoiando-se naquele que representa o cidadão comum oprimido ou desprezado pelo poder político ou pelas elites (económicas, políticas, etc.). Como refere Kranert (2020), apesar da dificuldade em definir o que é o “populismo”, dois eixos parecem percorrer o resultado de várias teorizações: o povo vs. a elite e o nosso povo vs eles. Por outro lado, o sentido que se possa atribuir ao termo (e que não é invariável) carreia uma carga avaliativa, cognitiva e afetiva, como em geral outros termos usados no léxico político. Trata-se de, citando ainda o mesmo autor, pôr em cena uma luta semântica que “strategically chooses programme terms to signify the group’s own position or stigma terms to describe and devalue the position of the political opponent” (Kranert 2020, p. 34). O sentido de termos como “populismo” variam ao longo do tempo, do contexto socio-político, ora denotando um determinado ator político, ora associando-se a um dado programa político. Embora o populismo seja avaliado negativamente, é graças ao jogo democrático que ele se desenvolve: o princípio do debate político como meio de estabelecer uma representação da maioria dá voz ao populismo como discurso manipulador das massas (Charaudeau 2011, §41). 3 Cf. os estudos de Chantal Mouffe (2016) e Ernesto Laclau (2008).
130 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS Note-se que, se hodiernamente o termo tem um pendor negativo, algumas figuras políticas, como refere Charaudeau (2009)4, reclamam para si a qualidade de ser populistas, no sentido de que um político populista é aquele que está próximo de e escuta o povo, sendo que a este é também reconhecido o direito de expressar a sua opinião – ou seja, ser populista é ser democrata. Assim, definir os termos “populismo” ou “populista” levanta algumas dificuldades, dada a multiplicidade de sentidos a eles associados, como refere Charaudeau (2011, pp. 101-116): este A. destaca o caráter essencialista e simplista de um discurso eivado de efeitos patémicos tendentes a suscitar o medo ou a estigmatizar o Outro (ibidem). Por outro lado, os populistas chamam a si a missão de denunciar a corrupção ou as injustiças cometidas contra os mais fracos, o ‘povo’. A encenação é a de uma crise social que só um salvador poderá resolver (Charaudeau 2009, 2011). 2.3. Populismo e ethos Quer se trate de uma crise de valores, de identidade ou uma crise económica, supõe-se que só um líder forte a poderá ultrapassar. Esse líder populista pretende representar a voz do povo – e só ele representa e se identifica com o povo. O populismo requer a voz de um EU que defende os interesses do povo e que, não raro, se identifica com ele, partilha das mesmas reivindicações, da revolta contra uma elite e apresenta um ethos coletivo (mais do que um EU, é um NÓS que perpassa o discurso). A construção de um ethos de credibilidade, de autenticidade, de identificação com as massas faz parte das estratégias de captação; a descredibilização ou mesmo diabolização do oponente assenta na necessidade de conseguir a adesão ao projeto apresentado aos cidadãos. Neste contrato de comunicação a instância que exerce ou procura exercer o poder deve ser dotada de credibilidade e legitimidade: deve saber cativar os cidadãos no seio do dissenso, assumir-se como o porta-voz das aspirações do povo, dissuadindo-os da tentação de aderirem ao projeto do oponente, representante do poder. 4 Charaudeau cita o caso de Le Pen, para quem ser populista é, neste sentido, ser democrata. Cf. Patrick Charaudeau. 2009., “Du discours politique au discours populiste. Un nouveau défi pour la démocratie”. In La Clé des Langues [em linha]. Lyon, ENS de LYON/DGESCO (ISSN 2107-7029). Consultado em http://cle.ens-lyon.fr/plurilangues/langue/miscellanees/du-discours-politique-audiscours-populiste-un-nouveau-defi-pour-la-democratie. Acedido em 11/06/2021.
131POPULISMO(S): O SER E O FAZER NO DISCURSO POLíTICO PORTUGUêS No entanto, há que ver que a retórica populista constrói a ilusão de devolver ao povo a sua soberania, a grandeza do passado (veja-se o caso de Salazar e do Estado Novo em Portugal), a identidade nacional face ao Outro, sublinhando o direito de as massas participarem na decisão de fazer frente aos partidos políticos que ao longo do tempo se distanciaram das aspirações e preocupações do povo. 2.4. Populismo e pathos/patemização Dada a óbvia matriz persuasiva deste discurso, trata-se de problematizar, de seduzir, de manipular, adoptando o locutor as estratégias que melhor servem o seu propósito. A patemização discursiva, manifestada através de subjetivemas, termos de emoção, processos de amplificação, marca também o discurso populista: a palavra emocionada (Plantin 2011) é posta ao serviço dos objectivos perseguidos, bem como a esquematização de determinadas situações que dão a ver (Grize 1995, p. 264) uma realidade construída discursivamente, assente em pré-construídos culturais (‘éclairage’). A espetacularização da crise e da imagem negativa do oponente constituem uma encenação patemizada propícia ao aparecimento do salvador que trará a resolução dos problemas, a reposição de valores ou a afirmação identitária nacional. Como refere Taguieff: Les réactions dites populistes mêlent ainsi, selon divers dosages, des motifs souverainistes et des motifs identitaires, qui sont largement partagés dans tout l’espace politique. Elles diffusent des interprétations relevant du récit mythique qu’elles mélangent à des descriptions de faits observables engendrant l’inquiétude. Elles appliquent systématiquement aux événements une grille de décodage d’inspiration manichéenne, qui constitue le cœur de la rhétorique populiste : l’opposition entre les puissants (prédateurs et coupables) et le peuple (innocent et vertueux, mais victime). (2012, p. 23) Tal não significa que no discurso populista se plasme oposição à democracia, a valores como a igualdade, a solidariedade, a liberdade de opinião, etc., continua o ator. É em nome da igualdade entre sexos ou do direito à educação que se critica o grupo minoritário da etnia cigana, por exemplo. O discurso político passa por uma fase de promessa e de sedução junto do eleitorado. É em função do dizer, dos objetivos persuasivos que o eleitorado /
132 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS povo constrói a imagem dos atores políticos e dos valores que afirmam defender. Desta encenação surge a opinião pública, que constituirá um “savoir de croyance” que guia um posicionamento de ordem emotiva, racional ou moral, pragmática ou simbólica, levando à aceitação ou rejeição de um candidato. Essas reações, quando verbalizadas, deixam na superfície textual “índices de patemização” (Charaudeau 2000, pp.125-155). Note-se que não está em causa a autenticidade da emoção plasmada no discurso: trata-se antes de analisar a enunciação da expressão ou da descrição (em modo ilocutivo, alocutivo ou delocutivo) que visa produzir um determinado efeito patémico no auditório. A recuperação desses índices passa pelo domínio da inferência e depende do contrato de comunicação. A emoção joga um papel essencial junto dos cidadãos indecisos quanto à eleição ou adesão do projeto ideológico de um ator político: é então que o apelo ao medo ou à revolta suscitados por situações de desemprego, imigração, presença de minorias, etc. atrai os cidadãos, que se deixam seduzir por um ethos de autoridade e de salvação, pronto a defender os interesses de (alguns) cidadãos. De um modo geral, trata-se de afirmar o bem em prol do ‘povo’; dados os diferentes contextos socio-históricos, culturais e sociais, é evidente que não há uma definição de ‘populismo’. Diremos que não há discursos populistas per se, mas antes que no discurso político é possível encontrar projetos com diferentes gradações de ‘populismo’. Tais gradações manifestam-se ao nível da superfície textual de formas diversas: é sobre o dizer que nos debruçaremos. Não é possível fazer (política) sem passar pela enunciação, isto é, antes de exercer o poder há que conquistá-lo e “il faut en passer par la parole”5 (Charaudeau 2013, p. 8). 2.5. Da polemicidade no discurso populista Adotando uma perspectiva retórico-pragmática e argumentativa, adiantaremos que o(s) discursos(s) populista(s) se configuram globalmente como agónicos, podendo mesmo ser percorridos por traços que Kerbrat-Orecchioni (1980, p.7) designa por “policimèmes”. A construção discursiva da alteridade marca de modo particular estes discursos, já que, como se verá, neles se con5 Müller (2017: 54) sublinha também o papel da palavra associado ao fazer política:“O populismo não é apenas qualquer estratégia de mobilização que apele ao “povo”; emprega um tipo de linguagem muito específico. Os populistas não se limitam a criticar as elites. Pretendem também que eles e só eles representam o povo.
133POPULISMO(S): O SER E O FAZER NO DISCURSO POLíTICO PORTUGUêS trói frequentemente através de processos de dicotomização e bipolarização uma relação entre um EU e um ELES (os oponentes num debate ou um grupo externo minoritário ou de etnia diferente, por exemplo). Tendo em conta que, cada vez mais, mediatizar os projetos ideológicos é a forma de os atores políticos se fazerem ouvir, o insulto, o desrespeito pelas normas institucionais que guiam o debate, o chamado ‘politicamente incorreto’ têm vindo a tornar-se mais visíveis e paulatinamente vão ganhando lugar, ainda que sob protesto. 3. Constituição e análise do corpus Para esta análise selecionámos aleatoriamente quatro Diários da Assembleia da República, I Série6, (publicações que contêm a transcrição dos debates parlamentares), da XIV legislatura (iniciada em 2019), bem como alguns textos na imprensa escrita que mediatizaram junto do grande público algumas questões que suscitaram polémica7 (Amossy 2014) no Parlamento. Tal recorte temporal permite-nos analisar o modo como um partido de extrema-direita apresenta discursivamente o seu programa ideológico8, em especial tendo em conta que na Europa se estendem gradualmente movimentos populistas (maioritariamente de direita) e o impacto do partido Chega junto de partidos há muito representados no Parlamento. Para mais, Portugal junta-se assim ao grupo dos países com representação da extrema-direita, pela primeira vez desde 1974 (cf. Quintas da Silva 2018). Surpreendentemente, verificámos que nos textos escolhidos não são muitas as ocorrências de lexias como “populista” ou “populismo”; quanto a “povo”, concorre com “populações” (por vezes no singular); em alternativa, surge a 6 Doravante assinalados pela sigla “D.A.R.”. 7 Segundo Amossy, trata-se de uma modalidade argumentativa fortemente agónica, marcada pela dicotomização, pela polarização e pela desqualificação do Outro, em que as divergências são abordadas sob a égide do dissenso. 8 André Ventura foi eleito nas eleições legislativas de 6 de outubro de 2019. Entre “o silêncio” e o “ataque frontal”, com acusações de xenofobia e de “fraude política”, a sua eleição fez soar um alerta perante a onda de partidos de extrema-direita que vão grassando na Europa (é caso da Polónia, da Hungria, da República Checa, da Itália, da Bulgária, entre outros). A memória do Estado Novo em Portugal suscitou uma onda de protestos face à presença de um partido de extrema-direita na A.R.: veja-se, a título de exemplo, o artigo publicado na imprensa em https://www.dn.pt/poder/extrema- -direita-recebida-no-parlamento-entre-o-silencio-e-o-ataque-frontal-11435722.html. A imigração e o euroceticismo, entre outras questões, põem AV no Parlamento, deputado único do CH, partido fundado havia apenas um ano.
134 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS lexia “portugueses”. De relevo é também a referenciação do “povo”: na verdade, capta-se nos discursos o recorte do povo em camadas distintas, já que o líder carismático distingue o “seu” povo do Outro, sejam etnias minoritárias que se aproveitam do trabalho do “povo”, sejam imigrantes ou elites. Como referido anteriormente, a conquista do poder político passa pela enunciação, pelo apelo aos valores partilhados na comunidade, pela construção da imagem de um líder porta-voz desses valores e dos interesses do “povo”. Os meios de comunicação focalizam a interação entre os actores políticos e os cidadãos alvo da persuasão por parte daqueles. Daí o interesse em incluir na análise alguns excertos publicados na imprensa escrita. 4. Populismo e discurso A referenciação de “populismo” está, em Portugal, em datas mais recentes, relacionada com a representação (algo inesperada) de dois partidos minoritários: o partido Iniciativa Liberal (doravante IL) e o Chega (doravante CH), ambos os partidos situados no espetro da direita. Em particular o CH e o seu representante mais icónico, André Ventura, têm vindo a afirmar-se no espaço político português, como o comprovam as recentes eleições presidenciais.9 A estratégia de polarização destes partidos assenta não só num sentimento de desencanto por parte dos cidadãos como ainda da pulverização da esquerda em Portugal (como se veio a verificar nas eleições presidenciais). Vejamos alguns exemplos: (1) – D.A.R., I Série, nº 51, p.6, 8/05/2020 O Sr. André Ventura (CH): – Sr. Presidente, Sr. Primeiro-Ministro, não queria começar este debate assim, mas aqui vai uma nota inicial: Sr.ª Deputada Catarina Martins, as nossas ideias nunca serão tão repugnantes como as de menores com marijuana ou humilhar as forças de segurança sempre que acontece alguma coisa. Os meus vencimentos nunca serão de alojamento local nem de moradas fictícias no Parlamento – pode ter a certeza disso! Também lhe quero dizer outra coisa, Sr.ª Deputada Catarina Martins: se o caixote do lixo da história mandar o Chega para lá, olhando para as sondagens de hoje e de ontem, 9 As eleições presidenciais realizaram-se em 24 de janeiro de 2021; o candidato do CH (tendo-se entretanto afastado do cargo de deputado) conquistou 11,90% dos votos, ficando em 3º lugar e ultrapassando os 10% que se propunha conquistar.
135POPULISMO(S): O SER E O FAZER NO DISCURSO POLíTICO PORTUGUêS mais rápido a sua bancada irá toda para o caixote do lixo do que o Chega alguma vez irá. Muito obrigado por isso. Sr. Primeiro-Ministro, agora, sim, dirijo-me a si: temos em Portugal um problema com a comunidade cigana e, portanto, quero perguntar-lhe o que é que o Governo pensa fazer com o reiterado incumprimento que temos visto, em várias zonas do País – no Alentejo, em Lisboa, no Norte –, por parte de comunidades ciganas. […] O Sr. Primeiro-Ministro: – Sr. Presidente, Sr. Deputado André Ventura, não, não há um problema com a comunidade cigana em Portugal. O Sr. Deputado é que tem um problema que já foi de trivela. Este excerto testemunha o caráter agónico que encontramos no discurso político português atual. Tal agonismo envolve estratégias retórico-argumentativas diversas e a manifestação linguística de emoções. Num primeiro momento, o deputado André Ventura (que referiremos doravante por “AV”) procede à denúncia e crítica de situações de corrupção num partido de esquerda, bem como à denúncia da intenção de boicotar a segurança no país; acresce que a falta de segurança que se adivinha no futuro será tanto mais grave dada a liberalização da droga. Por outro lado, apresenta uma imagem de SI que se caracteriza pela idoneidade e pela honestidade, em contraste com o oponente. A estratégia retórico-argumentativa através da qual surge um ethos de credibilidade (porque honesto) corresponde, do ponto de vista pragmático, a um macroato ilocutório que se consubstancia num compósito de atos: por um lado, para além da realização de um ato compromissivo “as nossas ideias nunca serão tão repugnantes […]”, realiza-se por derivação ilocutória um ato expressivo, que comporta uma clara dimensão de crítica ou censura; por outro lado, essa dimensão de crítica e de avaliação negativa anuncia o ato promissivo vazado em “pode ter a certeza disso!”, que reforça a crítica dirigida ao oponente. A manifestação linguística de emoções como a repulsa – emoção dita – pela humilhação das forças de segurança ou por ganhos ilícitos constitui uma resposta à tentativa de descredibilizar o seu próprio partido, antes descredibilizando a imagem do BE.10 A opinião pública, os “savoirs de croyance” explorados pela retórica populista ancora a defesa do CH: o “caixote do lixo” será o destino dos oponentes segundo a vontade do povo. Os discursos de denúncia dos oponentes de AV são percorridos por acusações ad hominem (Plantin 2016) (note-se que o próprio ethos pré-discursivo 10 BE refere-se ao Bloco de Esquerda.
136 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS de AV é motivo de jocosidade: a carreira de comentador de futebol não lhe dá credibilidade como ator político). Veja-se como a inversão argumentativa se fez a partir das intervenções prévias dos oponentes: (2) O Sr. João Oliveira (PCP): Durante 48 anos não nos deixámos atrapalhar pela agressividade dos fascistas e não é agora que nos vamos deixar atrapalhar pela agressividade desta gente! […] um partido como o PCP, que tem nas suas fileiras exemplos de gente que deu a vida na luta pela liberdade e pela democracia, naturalmente assume a mesma posição firme, resistente e confiante de que o povo português há de saber colocar aqueles que procuram branquear o fascismo e o nazismo com posições e resoluções deste tipo […] no caixote do lixo da História, porque é esse o lugar para que os povos vos hão de remeter. (p. 36) (3) A Sr.ª Catarina Martins (BE): […] Às vezes há uma linha ténue demais entre ignorar para não dar visibilidade à atrocidade ou, pelo silêncio, consenti-la. André Ventura fez uma proposta inqualificável de decidir o confinamento de pessoas tendo em conta a sua origem étnica. Teve a resposta que devia de um campeão português, Ricardo Quaresma, e veio logo sugerir que os futebolistas deveriam ter direitos à opinião limitados. Ficámos, portanto, a saber que o Chega não só tem opiniões repugnantes como André Ventura tem a cobardia de querer calar quem lhe faz frente. […] fique certo de que as suas ideias racistas hão de ir parar ao caixote do lixo, de onde nunca deveriam ter saído. (p. 15) Em (2) a resistência aos 48 anos do regime ditatorial em Portugal é apresentada como prova de que, também no futuro, o PCP ultrapassará a agressividade do CH: o NÓS presente nas formas verbais tem também um uso meta-discursivo (Marques 2000), apontando para todas as atividades políticas durante o Estado Novo. Se o defunto regime merece a referenciação como “fascista” (i.e., recorre-se ao uso de um lexema próprio do domínio político), já no presente o CH é referenciado como “esta gente”, plasmando-se no discurso as marcas de desprezo e desvalorização. Esta desvalorização conjuga-se com um ato de elogio ao povo português, a quem se atribui a capacidade de rejeitar o “fascismo” e o “nazismo” merecedores do “caixote do lixo da História”. A forma perifrástica do futuro traduz um apelo aos portugueses e à sua sensatez sob a forma de uma asserção. Num crescendo de indignação – indignação que deve ser experienciada perante
137POPULISMO(S): O SER E O FAZER NO DISCURSO POLíTICO PORTUGUêS as propostas do CH – o locutor toma como destinatários não apenas o povo português, mas todos os povos. A forma pronominal “vos” designa, no plano enunciativo, não apenas AV ou o CH, mas todos aqueles que se pautam pelos mesmos valores (negativamente considerados). Neste contexto, remete-se para uma forma de tratamento que visa sublinhar o desprezo e a rejeição. A satanização da imagem do CH contrasta com o ethos de autoridade e de legitimidade do locutor (voz coletiva representativa da bancada) e ainda com a imagem dos portugueses, fortemente encarecida pelo locutor. É que, como se disse, por um lado, há um NÓS institucional, correspondente a um uso meta- -discursivo (Marques 2010, pp. 91-92) que comenta a atividade discursiva em curso e que força o adversário a reconhecer as iniciativas já tomadas em relação a um projecto que envolve interesses que o próprio adversário parece partilhar; por outro lado, é um NÓS que invoca as vozes daqueles que sucumbiram às perseguições do Estado Novo. Em (3) é toda a postura do CH que é criticada, através do recurso a uma lexia cujo semantismo encerra uma forte avaliação negativa: “atrocidades”. Esta lexia toma um valor hiperonímico em relação com “racismo”, “cobardia”, “silenciar”. Na verdade, esta manobra de diabolização corporiza-se em AV, apelidado de “cobarde”; trata-se de uma intervenção emocionada, perpassada pela repugnância – e que “conduz” ao “caixote do lixo”, que é, afinal, a origem do CH. A insistência no uso da lexia complexa “caixote do lixo” perpetua o sentimento de repugnância (já contido na adjetivação) e de rejeição perante o conteúdo das propostas do CH. A manifestação linguística de indignação e repulsa auto-atribuídas compreendem-se à luz da polémica criada em torno de uma comunidade minoritária: a dos ciganos, destacados como uma comunidade que impunemente ignora as regras sanitárias impostas pela pandemia. Esta dimensão contextual explica a amplificação da polemicidade e violência que perpassa a interação verbal. Tratando-se de um discurso organizado em torno de profundo desacordo, amplificam-se os traços negativos de um adversário frequentemente acusado de populismo. Em resposta, AV baseia a sua contra-argumentação na opinião pública, apelando à emotividade do imaginário social e explorando o medo perante uma comunidade que é associada a atividades ilegais e, por vezes, violentas. Deste modo, valores como a autoridade, a segurança, o trabalho, a justiça surgem implicitamente na estratégia retórico-argumentativa de AV como algo que o BE despreza, pelo que o seu destino será certamente o “caixote do lixo” por
138 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS vontade popular. Note-se que AV explora ainda um contexto de pandemia que suscita também o medo. Assim, o desrespeito pelas autoridades sanitárias por parte de uma minoria étnica, pondo em perigo a saúde do povo, surge como argumento para tornar a referida comunidade num problema em torno do qual se defronta um EU e os OUTROS, sendo que aquele constrói destes uma imagem de permissividade e de inércia. Daí a pergunta em tom de invetiva ao Primeiro-Ministro: (4) Sr. Primeiro-Ministro, agora, sim, dirijo-me a si: temos em Portugal um problema com a comunidade cigana e, portanto, quero perguntar-lhe o que é que o Governo pensa fazer […]. Pergunto-lhe: o Governo pensa ou não fazer alguma coisa sobre isso? (p. 27) Efetivamente, a questão aqui abordada foi tema de discussão na imprensa, dando origem a artigos de opinião com títulos elucidativos como este: “Afinal, a cena do momento não é o politicamente correcto, é o politicamente incorrecto ou uma estranha forma de Ventura”. O referido título abria um artigo assinado por Paula Cordeiro publicado no jornal Sábado11; num jogo de intertextualidade que evoca o fado “Estranha forma de vida”, a autora comenta que “A comunicação é o exercício da retórica e, esta, a forma de transformar o banal em exercícios de eloquência: por vezes, uma diarreia verbal que ninguém entende; outras vezes, uma mensagem simples ascende à noção de valor universal”. Classificando os argumentos do deputado Ventura como abjetos, relembra que é em situações de crise económica e política que “extremistas” e “radicais” surgem. O adversário do deputado Ventura (o Primeiro-Ministro, neste caso) desqualifica-o de imediato, apelando a um ethos pré-discursivo que não o favorecerá junto da maioria dos cidadãos ao mencionar um problema de “trivela”12, já que relembra que Ventura13 chegou à televisão como um comentador de fute11 In: <https://www.sabado.pt/opiniao/detalhe/afinal-a-cena-do-momento-nao-e-o-politicamente- -correcto-e-o-politicamente-incorrecto-ou-uma-estranha-forma-de-ventura>. 12 Trivela é um pontapé na bola dado de modo a produzir efeitos especiais. Por outro lado, este locutor relembra assim que Ventura foi em tempos comentador de futebol num canal televisivo pouco conceituado. 13 AV, doutorado em Direito, tendo sido professor na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, chegou à arena política depois de ter sido comentador televisivo, mais conhecido por ser adepto e defensor do SLB (mas também colunista e comentador jurídico) foi como candidato autárquico à presidência da Câmara Municipal de Loures pelo PSD (um partido de centro socia-democrata) e do CDS-PP (um partido alinhado à direita) que chegou à arena política (Marchi 2020, pp. 22-28). O seu discurso focou-se desde o início nos “abusos” de minorias, como a etnia cigana em
145POPULISMO(S): O SER E O FAZER NO DISCURSO POLíTICO PORTUGUêS (11) O protesto “Portugal não é racista”, convocado pelo Chega, arrancou com seis vezes menos participantes do que o esperado, mas o grupo foi-se compondo, chegando ao Terreiro do Paço com cerca de 1200 pessoas. […] O líder populista acabou a invocar Sá Carneiro e Deus, após ter feito um gesto semelhante ao da saudação nazi durante o desfile.18 Em resposta às acusações de racismo, um grupo heteróclito de apoiantes do Chega organiza a contra-manifestação referenciada como “protesto” face à construção do anti-ethos de AV. A notícia dá conta de algumas estratégias deste partido: a evocação de um político (já falecido) credível e revestido de autoridade, a referência a Deus (Portugal é ainda um país onde as tradições religiosas se mantêm) e ainda a referência a uma atriz comparada a Brigitte Bardot por sofrer represálias ao apontar o dedo aos muçulmanos. Citando algumas palavras de AV, infere-se que este apresenta um ethos próximo do de um líder forte, capaz de cativar apoiantes fiéis com os quais estabece um vínculo de confiança cega, de natureza patémica – mais do que ideológica, como sublinha ainda Charaudeau (2011, p. 204). (12) “Desde Sá Carneiro que nunca mais tivemos um líder que defendesse os portugueses, apontou. Por esse ideal, que não detalhou, Ventura disse que aqueles que o acompanham estão “dispostos a morrer”.19 Se já na Retórica de Aristóteles o ethos é definido como prova técnica dirigida a um grupo de indivíduos e é conceptualizado como algo ligado à própria enunciação (1356a), também é verdade que fatores extradiscursivos, como o tom de voz, um discurso inflamado, a dimensão do mimo-gestual e até o vestuário possam condicionar a construção do ethos do locutor por parte do auditório. Aliás, a conceção multimodal da atividade discursiva acaba por fazer com que esses fatores façam parte do discurso. Tal é visível na estratégia populista que temos vindo a analisar: o tom intempestivo de AV nas intervenções, o gesto evocativo da saudação nazi ou ainda o ato de se fazer fotografar junto do túmulo de D. Afonso Henriques contribuem para a construção identitária de um líder messiânico e fundador de uma espécie de nova nação20, escolhida 18 https://www.jn.pt/nacional/manifestacao-de-direita-arranca-com-um-sexto-dos-participantes- -esperados-12360962.html 19 https://www.jn.pt/nacional/manifestacao-de-direita-arranca-com-um-sexto-dos-participantes- -esperados-12360962.html 20 Aliás frequentemente referenciada por AV como a “Quarta República”.
146 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS por “portugueses de bem”, designação que concretiza a cisão entre o povo e a alteridade ameaçadora. Efetivamente, tão nuclear é o projeto discriminatório contra uma minoria, que aquela designação constava de um cartaz durante a campanha presidencial de AV. Em comícios pelo país, AV referencia a luta pelo poder como uma batalha “do Bem contra o Mal, dos portugueses de bem contra a minoria”21 A construção identitária de um salvador messiânico (belicista em prol do povo) é discursivamente construída e reforçada através de dimensões multimodais (a imagem): (13) Será a decisão da maioria dos portugueses de bem que vão votar no dia 24 […]. Nós não temos medo. Nem de manifestações, nem de ameaças, nem de boicotes. Nós não nos deixamos intimidar e aqui mesmo, onde D. Afonso Henriques está sepultado, ele que é o pai da nacionalidade, temos o dever histórico de dizer que nenhuma minoria nos vai impedir de salvar Portugal.22 5. Considerações finais A defesa de valores como a liberdade, a denúncia do sistema contra os cidadãos, a repressão, o apelo ao medo, a clivagem entre grupos de cidadãos invocando argumentos distintos tematizam, de um modo global, o discurso político parlamentar nos dias correntes. Estabelecer uma ligação forte com o “povo” ou “população” é uma estratégia comum. A apropriação de slogans, quer da esquerda, quer da direita, o apelo ao medo e à coragem para mudar o estado de coisas vigente, a denúncia de perigos que ameaçam a democracia, a diabolização dos adversários parecem ser estratégias dos discursos populistas. O poder do discurso advém não apenas da defesa de valores e de projetos ideológicos mas também do apelo à emoção. A vitimização dos cidadãos constitui outra estratégia, acompanhada da esquematização de uma situação avaliada negativamente e da apresentação de um líder com um ethos de credibilidade e legitimidade. Certamente que a dimensão patémica está imbricada no fio do discurso: neste se plasmam emoções como o medo, a indignação, a vergonha e a cora21 https://www.tsf.pt/portugal/politica/ventura-fala-em-eleicao-do-bem-contra-o-mal-dosportugueses-de-bem-contra-a-minoria-13255377.html. 22 https://expresso.pt/presidenciais2021/2021-01-20-Ventura-enfrenta-maior-protesto-antifascista-aporta-da-igreja-e-pede-cartao-vermelho-para-a-vergonha-de-Presidente-Marcelo
147POPULISMO(S): O SER E O FAZER NO DISCURSO POLíTICO PORTUGUêS gem. O processo de patemização contribui significativamente para a estratégia de um discurso e de um agir populistas. Pela persuasão e sedução, o discurso populista procede à aniquilição do(s) adversário(s), defende o povo, que valoriza como decisor no espaço político, e idealiza pela palavra uma nova ordem política, à cabeça da qual surge a figura do “salvador”. Referências bibliográficas Amossy, R. (2014b). Apologie de la polémique. Paris: P.U.F. Charaudeau, P. (2000). La pathémisation à télévision comme stratégie d’authenticité. In Plantin, C., Doury, V. & Traverso, V., Les émotions dans les interactions (pp. 125-155). Lyon: P.U.L. Charaudeau, P. (2005). Le discours politique. Les masques du pouvoir. Paris: Vuibert. Charaudeau, P. (2009). Du discours politique au discours populiste. Un nouveau défi pour la démocratie. In La Clé des Langues [em linha]. Lyon, ENS de LYON/DGESCO (ISSN 2107-7029). Consultado em http://cle.ens-lyon.fr/plurilangues/langue/miscellanees/ du-discours-politique-au-discours-populiste-un-nouveau-defi-pour-la-democratie Charaudeau, P. (2011). Réflexions pour l’analyse du discours populiste. Mots. Les langages du politique, 97, 101-116. Charaudeau, P. (2013). La conquête du pouvoir. Opinion, persusasion, valeur. Le discours d’une nouvelle donne politique. Paris: L’Harmattan. Charaudeau, P. (2015). Le charisme comme condition du leadership politiqe. Revue française des sciences de l’information et de la communication, 7. http://openedition. org/rfsic/1597 Charaudeau, P. (2016). Du discours politique au discours populiste. Le populisme est-il de droite ou de gauche?. In Corcuera F. et al. (dir.), Les discours politiques. Regards croisés (pp. 32-43). Paris: L’Harmattan. Consultado em http://www.patrick-charaudeau.com/ Du-discours-politique-au-discours.html Duarte, I. M., Pinto, Guedes, A., & Salgado, S. (2019). Estratégias discursivas populistas do discurso político populista em Portugal: Estado Novo e movimentos populistas atuais. In M. A. Marques & S. S. Pinto (Org.s), Linguagens de Poder (pp. 35-54). Braga: CEHUM. Grize, J-B. (1995). Argumentation et logique naturelle. Convaincre et persuader. Hermès, La revue, 1 (15), 263-269. Kerbrat-Orecchioni, C. (1980). Le discours polémique. Lyon: P.U.L. Kranert, M. (2020). When populists call populists populists: ‘populism’ and ‘populist’ as political keywords in German and British politica discourse. In Kranert, M. (Ed.),
148 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS Discursive approaches to populism across disciplines. The return of populists and the people (pp. 31-60). Cham: Palgrave, MacMillan. Laclau, E. (2008). La raison populiste. Paris: Le Seuil. Marchi, R. (2020). A nova direita anti-sistema. O caso do Chega. Lisboa: Edições 70. Micheli, R. (2010). L’émotion argumentée. L’abolition de la peine de mort dans le débat parlementaire français. Paris: Cerf. Mouffe, Ch. (2016). L’illusion d’un consensus. Paris: Albin Michel. Müller, J-W. (2017). O que é o populismo? Lisboa: Texto Editores. Marques, M. A. (2000). Funcionamento do Discurso Político Parlamentar: a organização enunciativa no debate da Interpelação ao Governo. Braga: CEHUM. Marques, M. A. (2005). Debate, argumentação e organização enunciativa. Comunicação e Sociedade, 8, 47-62 Plantin, Ch. (2011). Les bonnes raisons des émotions. Principes et méthode pour l’étude du discours émotionné. Bern: Peter Lang. Plantin, Ch. (2016). Dictionnaire de l’argumentation. Une introduction aux études d’argumentation. Lyon: ENS Éditions. Quintas da Silva, R. (2018). A Portuguese exception to right-wing populism. Palgrave Commun 4, 7. https://doi.org/10.1057/s41599-017-0062-8 Taguieff, P-A. (2012). Le Nouveau National-Populisme. Paris: C.N.R.S. Éditions. Wodak, R. (2015). The politics of fear: what right-wing populist discourses mean. London, Sage.
FALAR ÀS MASSAS, CALAR O POVO. USOS DA LINGUAGEM FASCISTA NO BRASIL CONTEMPORÂNEO Carlos Piovezani* 1. Introdução Os amantes da linguagem sempre tiveram uma aguda consciência das relações entre a palavra e o poder. Desde os antigos, já provém a ideia de que nossa fala tem grandes capacidades e não menores perigos, ou seja, de que ela pode tanto servir de remédio quanto de veneno: Assim como tal droga faz sair do corpo um tal humor, e que umas fazem cessar a doença, outras a vida, assim também, dentre os discursos, alguns afligem, outros encantam, fazem medo, inflamam os ouvintes, e alguns, por efeito de uma má persuasão, drogam a alma e a enfeitiçam (Górgias 2005, p. 299). Entre seus amantes modernos, essa consciência não se perdeu. Nós podemos encontrá-la nas reflexões de Roland Barthes sobre as constitutivas relações entre o poder e a linguagem. A respeito do primeiro, o pensador francês afirma o seguinte: O poder está presente nos mais finos mecanismos do intercâmbio social; não somente no Estado, nas classes, nos grupos, mas ainda nas modas, nas opiniões correntes, nos espetáculos, nos jogos, nos esportes, nas informações, nas relações familiares e privadas, e até mesmo nos impulsos liberadores que tentam contestá-lo (2000, p. 11). * Departamento de Letras, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), São Carlos/SP, Brasil. ORCID: orcid.org/00000002-3612-983X cpio[email protected]r
150 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS Já no que se refere à segunda, Barthes diz que o poder habita seu interior e a explora: o objeto “em que se inscreve o poder, desde toda a eternidade humana, é: a linguagem – ou, para ser mais preciso, sua expressão obrigatória: a língua” (2000, p. 12). Uma célebre passagem desse mesmo texto de Barthes vem então logo em seguida: “a língua, como desempenho de toda linguagem, não é nem reacionária, nem progressista; ela é simplesmente: fascista; pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer” (2000, p.14). O uso da língua aprisiona, porque nela se confundem o poder e a servidão. Se a liberdade é a potência de subtrair-se ao poder e de não submeter ninguém, então, somente poderia haver a experiência absoluta da liberdade fora da linguagem. Isso nos seria impossível, pois não há vida humana fora da linguagem. Barthes indica uma única saída: “só resta, por assim dizer, trapacear com a língua, trapacear a língua” (2000, p. 16). É no interior da própria linguagem que o fascismo da língua pode e deve ser combatido. Ao fascismo da língua e a todo e qualquer fascismo, devem-se contrapor as trapaças da língua, as participações democráticas e as liberdades dos desejos. Muitas línguas, diversas vozes e múltiplas funções: todas elas alçadas à condição de igualdade. Elas formariam, assim, uma fonte da qual todos os humanos poderiam beber livremente e conforme a verdade de seus desejos. Essa liberdade é um luxo que toda sociedade deveria proporcionar a seus cidadãos: tantas linguagens quantos desejos houver. Que uma língua, qualquer que seja, não reprima outra: que o sujeito conheça, sem remorso, sem recalque, o gozo de ter a sua disposição duas instâncias de linguagem, que ele fale isto ou aquilo segundo as perversões, não segundo a Lei (Barthes 2000, p. 24). Sem essa utopia, sem essa resistência forjada com a linguagem e na própria linguagem, o fascismo grassa como desejo que deseja sua própria repressão, seja no Estado totalitário, seja no mercado neoliberal, seja ainda em interconexões de seus traços e de suas facetas em democracias formais. Se, no fascismo cotidiano, os poderes imiscuem-se na linguagem para nos tentar impor o que deveríamos pensar, fazer e dizer, com mais forte razão, estabelecem-se relações constitutivas entre a língua e as opressões, entre os discursos do ódio e as ações de extermínio, quando os fascistas ou neofascistas assumem os lugares de poder no Estado. Dois ilustrativos episódios ocorridos ainda no começo dos Estados totalitários da Itália e da Alemanha comprovam-no.
151FALAR àS MASSAS, CALAR O POVO. USOS DA LINGUAGEM FASCISTA NO BRASIL CONTEMPORâNEO Na noite do dia 22 de junho de 1925, Mussolini pronunciou um discurso no mausoléu de Augusto. Esse pronunciamento registra pela primeira vez o uso do termo totalitário entre os fascistas. Contudo, essa não é a única razão de ele ter se tornado conhecido. Por um lado, sua fala situa-se numa longa cadeia de discursos, nos quais as coisas ditas narram e engendram as ações totalitárias; por outro, manifesta pela boca de seu líder supremo um dos principais traços do fascismo: “negar aos outros partidos a legitimidade, o direito de existirem ou de tornarem-se fatores positivos de governo” (Faye 2009, p. 57). As ações violentas e os assassinatos já haviam começado, mas esse discurso dava-lhes uma justificativa, um acobertamento e um incentivo do Estado. Usar sem reserva um último e radical ato de linguagem: o comando à execução. Era isso que passara a circular nos discursos de Hermann Göring, desde o início de fevereiro de 1933. Ele era ministro do Interior da Prússia e fora figura fundamental para que Hitler alcançasse o posto de chanceler da Alemanha. A partir do dia 07 daqueles mês e ano, Göring passara a anunciar aos membros da polícia que haveria proteção legal para “qualquer um que fosse levado a ‘puxar sua arma’ no combate ‘contra a ralé e a canalha internacional’ ou, numa linguagem mais clara, contra o que se denominava então os partidos social-democrata e comunista alemães” (Faye 2009, p. 148). Dez dias mais tarde, Göring lançou um decreto no qual precisa que “a polícia deve evitar qualquer processo contra as ‘associações nacionais’, SA, SS e Capacete de Aço, mas deve, ao contrário, se necessário, ‘fazer uso de suas armas sem hesitação’” (Faye 2009, p. 149). As reflexões de Barthes, de Faye e ainda de outros pensadores, de cujas ideias valer-nos-emos adiante, atestam os terríveis vínculos entre os poderes e os perigos da palavra nos regimes fascistas. Em contextos de exceção, seus líderes falam às massas para mais bem calar o povo e usam a linguagem humana para estimular a violência e para calar a linguagem humana, ou seja, para minar sua abertura ao diálogo e à compreensão das diferentes visões de mundo e das distintas formas de vida. Não poucos traços dessa linguagem, que concorreu mais decisivamente do que costumamos supor para o acontecimento de abomináveis catástrofes, voltam a rodear-nos e a frequentar-nos em vários países nas primeiras décadas do século XXI. Em alguns deles, isso ocorre a despeito da existência de condições formais da democracia representativa. É por essa razão que o objetivo mais fundamental deste capítulo consiste em contribuir para a compreensão de algumas das principais propriedades da
152 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS linguagem fascista, tal como elas têm se reatualizado em discursos políticos do Brasil contemporâneo. Nossa pretensão é a de realizar, inicialmente, uma breve exposição histórica de certas semelhanças e diferenças entre o populismo e o fascismo, com base nas ideias de Federico Finchelstein, em sua obra Do fascismo ao populismo na história, para, em seguida, apresentar algumas reflexões sobre a linguagem fascista, a partir de Victor Klemperer, em A linguagem do Terceiro Reich, e de Jean-Pierre Faye, em Introdução às linguagens totalitárias, e, finalmente, reproduzir e analisar alguns pronunciamentos e declarações de Jair Bolsonaro. Amparados em postulados da Análise do discurso e ainda em certos princípios da Retórica, sustentaremos aqui a ideia de que vários discursos desse político brasileiro, produzidos ao longo de mais de três décadas de sua vida pública, materializam traços de uma linguagem neofascista, tais como os discursos de ódio e de incitação à violência e ainda os desempenhos oratórios virulentos. 2. Populismo, fascismo: história, diferenças e conjunções Nas primeiras décadas do século XXI, assistimos a uma ascensão da extrema- -direita em vários lugares do mundo. Dadas algumas semelhanças entre esse fenômeno e o surgimento e a consolidação dos fascismos nas décadas de 1920 e 1930 na Europa, várias análises de cientistas políticos, filósofos e historiadores, dedicadas à presença da extrema-direita em nossos dias, dividiram-se, grosso modo, em dois blocos: o primeiro afirma que líderes políticos como Donald Trump, Viktor Orbán, Recep Tayyip Erdoğan e Jair Bolsonaro são populistas de extrema-direita; já o segundo, tendo em vista as medidas radicais tomadas por esses líderes, considera-os neofascistas. Vejamos abaixo uma pequena amostra desse debate. Em 2019, o fascismo completara 100 anos de seu nascimento. Por essa ocasião, a BBC de Londres entrevistou o historiador italiano Emilio Gentile. Naquela circunstância, o jornalista Angelo Attanasio, que conduziu a entrevista, assim apresentou seu entrevistado: “O historiador italiano Emilio Gentile é um dos maiores especialistas em fascismo do mundo”. Com o lastro de uma vida acadêmica inteira dedicada ao estudo do fascismo, Gentile afirmava que é preciso distinguir entre o fascismo histórico e o que é frequentemente chamado de “fascismo” após 1945. Isso porque somente o primeiro consiste no “regime que, a partir da Itália, marcou a história do século 20 e se estendeu à
153FALAR àS MASSAS, CALAR O POVO. USOS DA LINGUAGEM FASCISTA NO BRASIL CONTEMPORâNEO Alemanha e a outros países europeus no período entre as duas guerras mundiais”, ao passo que o segundo “se refere a todos aqueles que usam da violência em movimentos de extrema-direita” (Gentile 2019, s. p.). Segundo o historiador italiano, a extrema-direita se caracteriza por se opor “aos princípios da Revolução Francesa de igualdade e liberdade, mas sem necessariamente ter uma organização totalitária ou uma ambição de expansão imperialista” (Gentile 2019, s. p.). São esses últimos aspectos que tornam um movimento ou um regime fascista: “Sem o regime totalitário, sem a submissão da sociedade a um sistema hierárquico militarizado, não é possível falar de fascismo” (Gentile 2019, s. p.). Com base nessas afirmações de Gentile, Attanasio lhe dirige estas questões, que são assim respondidas: BBC – O senhor acha que existe o perigo de um retorno do fascismo? Gentile – Não, absolutamente, porque na história nada volta, nem de um jeito diferente. O que existe hoje é o perigo de uma democracia, em nome da soberania popular, assumir características racistas, antissemitas e xenófobas. Esses movimentos se definem como uma expressão da vontade popular, mas negam que este direito possa ser estendido a todos os cidadãos, sem discriminações entre os que pertencem à comunidade nacional e aqueles que não lhe pertencem. BBC – Donald Trump, Vladimir Putin, Jair Bolsonaro, Viktor Orbán e outros líderes políticos foram chamados de fascistas por suas políticas de imigração ou seu nacionalismo. É correto defini-los assim? Gentile – Se afirmamos isso, poderíamos dizer então que todos o são, porque são homens e brancos. Mas, ao mesmo tempo, não entenderíamos a novidade destes fenômenos. Não se deveria aplicar o termo “fascista” para todos os contextos, mas entender quais são as causas que geraram e fizeram proliferar estes fenômenos. Em todos esses países, esses movimentos extremistas se afirmaram com base no voto popular. BBC – O senhor acha, então, que a palavra “fascismo” está sendo abusada para definir estes governos? Gentile – Na minha opinião, é um grande erro, porque não nos permite compreender a verdadeira novidade destes fenômenos e o perigo que eles representam. E o perigo é que a democracia possa se tornar uma forma de repressão com o consentimento popular. A democracia em si não é necessariamente boa. Só é boa se realiza seu ideal democrático, isto é, a criação de uma sociedade onde não há discriminação e na qual todos podem desenvolver sua personalidade livremente, algo que o fascismo nega completamente. Então, o problema hoje não é o retorno do fascismo, mas quais são os perigos que a democracia pode gerar por si mesma quando a maioria da população – ao menos,
154 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS a maioria dos que votam – elege democraticamente líderes nacionalistas, racistas ou antissemitas.1 Sem dúvida, a história não se repete. Subscrever essa ideia não corresponde ao encerramento de um debate nem à impossibilidade de lhe produzir uma inflexão. O debate permanece aberto, está efervescente no Brasil de nossos dias e envolve não apenas antagonismos frontais e manifestos, mas, também, posições ao mesmo tempo relativamente divergentes e bastante próximas.2 Estas últimas parecem se distinguir pela disposição distinta da lógica concessiva nas avaliações sobre Bolsonaro e os bolsonaristas: “Ainda que haja ‘malignidade’ no bolsonarismo, não se trata de fascismo, porque o fascismo foi um fenômeno histórico preciso” versus “Ainda que não se trate da repetição de um fenômeno histórico preciso, o bolsonarismo consiste num neofascismo brasileiro”. Inscrevendo-se numa espécie de posição intermediária, Federico Finchelstein, também ele reconhecido como grande historiador do fascismo, sustenta que “Não estamos assistindo ao regresso do fascismo como este existiu antes. O passado nunca é o presente”, mas acrescenta o seguinte: “No entanto, as atuais manifestações de neofascismo e populismo têm importantes antecedentes históricos, e a passagem do fascismo para o populismo ao longo do tempo determinou o nosso presente” (2019, p. 13). Finchelstein concebe uma diferença e relações dinâmicas entre o fascismo e o populismo na passagem do primeiro ao segundo: O populismo moderno nasceu do fascismo. Os primeiros regimes populistas modernos na América Latina do pós-guerra afastaram-se do fascismo, mas mantiveram importantes características antidemocráticas que não eram tão evidentes em movimentos pré- -populistas e protopopulistas anteriores à Segunda Guerra Mundial. […] Uma nova modernidade populista surgiu com a derrota do fascismo. Depois da guerra, o populismo reformulou os legados do “anti-Iluminismo” para a era da Guerra Fria e pela primeira vez na história tornou-se completo; ou seja, alcançou o poder. Em 1945, 1 https://www.bbc.com/portuguese/internacional/47686939 2 No mesmo mês de fevereiro de 2020, a revista Carta Capital publicou dois textos nos quais se materializam estas duas posições distintas. Em “Não há ‘fascismo’ no Brasil, mas ‘malignidade’, diz sociólogo”, Antonio Cattani, professor da UFRGS, ressalta as especificidades do que ocorreu na Itália nas primeiras décadas do século XX, enquanto em “Os maus modos do neofascismo brasileiro”, Tales Ab’Saber, professor da UNIFESP, sustenta haver traços suficientes para chamarmos o que se reúne em torno do bolsonarismo de um neofascismo. https://www.cartacapital.com.br/sociedade/nao-ha-fascismo-mas-malignidade-no-brasil-diz- -sociologo/ e https://www.cartacapital.com.br/opiniao/os-maus-modos-do-neofascismo-brasileiro/.
257 POPULISMO NO yOUTUBE: ELEMENTOS MATERIAIS E RETóRICA NA BOLSONARO TV Figura 7. Análise por correlação da Classe 2 Figura 8. Análise por correlação da Classe 1 Assim como a análise por frequência esmiuçada acima, a análise por correlação também posiciona os termos mais correlacionados ao centro e aumenta seu tamanho em relação aos outros. Podemos perceber que em todas as nuvens há pouca alteração entre os termos mais frequentes e mais correlacionados em cada classe de vocabulário. A comparação entre duas nuvens relativas à Classe 4, por exemplo, mantém a centralidade dos vocábulos “Deus” e “Brasil”. Per-
258 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS cebemos que estas palavras vêm correlacionadas com os vocábulos “acreditar”, “mudar”, “destino” e “nação”, o que corrobora nossa análise anterior e nos leva a crer que o tema desta classe de vocabulário é a construção de uma narrativa nacionalista pia, que pretende se apropriar de abordagens religiosas para subvencionar uma crença na capacidade do candidato em mudar o destino da nação. Da mesma forma, a nuvem correspondente à Classe 1 corrobora nossa análise de que nos deparamos com um discurso de deslegitimação da mídia e tomada de posição contra certos atores na paisagem política, ao apresentar os vocábulos “fake”, “news”, “revista”, “imprensa” só que, aqui, as vemos associadas a outros vocábulos de grande centralidade “Lula”, “Dilma”, “preso”, “mentira” e “dinheiro”. O mesmo acontece com a Classe 2, com a centralidade da referência a sua história pessoal, ao seu passado – aqui, como na primeira análise, as palavras “quando”, “pai”, “filho”, “colega”, “mãe” etc. tem muita centralidade, denotando o discurso sobre o tempo – e também com a Classe 3, desta vez deixando ainda mais clara a referência ao seu discurso político, trazendo a centralidade máxima da palavra “PSL” e a grande correlação com “deputado”, “senador”, “disputar” e “eleger”. Assim, a identificação das correlações mais relevantes nos ajuda a confirmar nossas hipóteses levantadas em nossa análise das frequências. 4.2. Materialidades Nossa abordagem sobre materialidades na comunicação parte do arcabouço teórico proposto por Gumbrecht e Pfeiffer (1994), e busca oferecer uma alternativa não-hermenêutica de análise – uma vez que a análise do discurso através do vocabulário utilizado visa essencialmente a produção de sentido pelo método hermenêutico de distanciamento entre sujeito e objeto –, contribuindo para a expansão da abrangência da análise, ao incorporar também “fenômenos e elementos que contribuem para o sentido sem serem, eles próprios, sentido” (idem). Não podemos deixar de abordar o fato de que a plataforma utilizada para a publicação dos vídeos é, em si, um fator contribuinte para o sentido mais amplo da produção de presença intencionada como campanha pré-eleitoral do candidato. A plataforma YouTube caracteriza-se por sua ubiquidade, podendo ser acessada de diversas formas e através de diversos dispositivos, o que substitui
259 POPULISMO NO yOUTUBE: ELEMENTOS MATERIAIS E RETóRICA NA BOLSONARO TV a impossível onipresença física do candidato. O conteúdo (o candidato?), portanto, pode ser acessado pelo usuário tanto em trânsito quanto no momento mais propício no conforto do seu lar, no computador, no tablet e, como o próprio HGPE, com a vantagem da disponibilidade a qualquer momento, na TV, inclusive podendo ser avisado com antecedência de sua transmissão ao vivo ou no momento da publicação. Em última instância, o usuário leva consigo o discurso do candidato, compartilha-o exponencialmente através das redes sociais e funciona, ele mesmo, como um motor de expansão da mensagem. Contudo, a metodologia materialista aplicada neste artigo não dá conta de explicar todos os fenômenos que levam em conta a expressão corporal do candidato, a interface dos usuários com a plataforma e outras implicações que possam decorrer deste relacionamento direto. 5. Conclusões Foi intuito deste trabalho tirar uma fotografia do momento em que o discurso populista toma as ruas através da atuação de Jair Bolsonaro em sua campanha eleitoral para o pleito majoritário de 2018. Longe de pretender fazer um abarcamento histórico exaustivo do tema Populismo, tratado por autores nacionais e internacionais ou sequer articular possíveis adaptações, conscientes e inconscientes, levadas a cabo pelo ator político em questão do que se tem hoje como ponto pacífico entre acadêmicos sobre o comportamento e retórica populistas, menos ainda o de conjecturar sobre a conjuntura onde emerge do discurso populista de Bolsonaro, nosso objetivo foi meramente o de tentar esclarecer o fato que identificamos através da observação critica, primeiramente, e através de análise científica neste momento. A partir desta análise, evidenciamos a necessidade de entendermos como o desenvolvimento de fenômenos populistas em diversos países pode estar relacionado às transformações nos processos comunicativos, principalmente quando novas plataformas de comunicação contemporâneas têm papel tão central em todas as mediações sociais e, principalmente, na mediação entre candidato e eleitor. Como uma dessas plataformas, o YouTube tornou-se uma ferramenta essencial para a pré-campanha de Jair Bolsonaro, usada posteriormente de forma intensa e constante durante a campanha, tal fato possibilitou acesso alternativo
260 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS aos eleitores, fugindo da necessidade de grande exposição em TV, paga ou via HGPE, e expansão de seu discurso a nível nacional. Pudemos identificar neste discurso diversos traços que o aproximam do discurso populista, tais como o personalismo, o apelo ao “povo”, o relacionamento direto, a narrativa antagônica e antissistema, o nacionalismo ufanista, além do ingrediente religioso que, se pudermos, identificamos como uma peculiaridade que o aproxima de um eleitorado específico, porém relevante nacionalmente. Ainda, há outros debates na literatura acerca do próprio conceito de populismo e suas versões contemporâneas, como o neopopulismo e o pós-populismo que nossa análise não chega a abordar (Waisbord 2013). Pois, estabelecemos como foco, neste momento, entender, primeiramente, aspectos do discurso populista em diálogo em diferentes fenômenos e ideologias ao longo do tempo, evidenciando a urgência para o campo científico de se debruçar sobre os aspectos comunicativos do populismo enquanto recurso retórico, que pode vir a ser utilizado por diferentes agentes sociais, inclusive a mídia. A metodologia escolhida neste trabalho nos possibilitou inferir sobre estratégias retóricas utilizadas pelo candidato vitorioso. No entanto, possui limitações para a análise de outros aspectos, como a contribuição da expressão corporal do candidato para o processo retórico, os impactos da interface da plataforma de vídeo no usuário, diferenças de engajamento dos seus apoiadores comparado a outros canais digitais utilizados por Jair Bolsonaro e se os aspectos do discurso populista do candidato eleito foram utilizados predominantemente ou de forma diferenciada nesta plataforma de vídeo, em comparação aos outros aplicativos de interação social online. Questões estas devem vir a ser analisadas em trabalhos futuros, para a compreensão em maior profundidade de estratégias de novos atores políticos em um ambiente hiperconectado. Referências Aalberg, T.; Esser, F.; Reinemann, C. et al. (2006). Populist Political Communication in Europe. Routledge. Disponível em http://www.tandfebooks.com/doi/ book/10.4324/9781315623016 Albuquerque, A. (1999). Aqui você vê a verdade na tevê: a propaganda política na televisão. Niterói. (Dissertação de Mestrado em Comunicação, Imagens e Informação (MCII), Universidade Federal Fluminense).
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EMERGÊNCIA DE UM NOVO POPULISMO NO BRASIL E LIBERDADE DE EXPRESSÃO: OS DESLOCAMENTOS DO DIZER VERDADEIRO NA POLÍTICA Kátia Menezes de Sousa* 1. Introdução Atendendo à proposta do Colóquio Populismos e suas linguagens e considerando os problemas da relação entre poder e economia que constituem as práticas políticas, não só brasileiras, mas das democracias do mundo ocidental, este trabalho tomou por objetivo discutir o modo como a extrema direita vem mobilizando um discurso de liberdade para justificar rompimentos com a justiça social, como também, falas e atitudes violentas. Esse objetivo formulado com base em acontecimentos da atualidade só pode ser atingido se tais acontecimentos forem considerados em sua dispersão no campo discursivo, no sentido arqueológico de Michel Foucault (1995), constituído por enunciados efetivamente produzidos. Apesar de se tratarem de enunciados que carregam a singularidade de sua situação, a análise de discursos de liberdade materializados por sujeitos extremistas e por meio de pautas autoritárias precisa considerar suas condições de existência, estabelecer suas correlações com outros enunciados a que podem estar ligados e mostrar que outras formas de enunciação excluem (Foucault 1995). As condições que dão possibilidade de existência às práticas populistas, ou mesmo autoritárias e fascistas, se ligam, de forma determinante, à emergência de acontecimentos desencadeados por manifestações de rua iniciadas em 2013 que iriam se efetivar com discursos de perseguição às políticas sociais e às práticas discursivas e não discursivas de grupos minoritários no Brasil e com a construção da polarização entre esquerda e direita. * Professora do Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística, Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás, Goiânia, Brasil ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3391-2594 [email protected]m.br
264 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS A repetição do slogan “O povo acordou” marcou o sentimento de uma parcela da população que se sentiu enganada pelos discursos de defesa das minorias apoiados pelo governo do Partido dos Trabalhadores (PT), considerado como de esquerda.Era o início do golpe que derrubaria a Presidenta Dilma Rousseff em 2016 e que sustentaria a vitória de Jair Messias Bolsonaro nas eleições de 2018, cuja campanha foi marcada por discursos de ódio e de difamação dos governos do PT. Termos como esquerdista, comunista, petralha (em referência a irmãos metralhas) passaram a servir de alcunha por seus eleitores e seguidores para agredir os eleitores de partidos alinhados à defesa das políticas sociais. Ao inventar uma esquerda como inimiga do crescimento econômico e incentivadora de uma moralidade desviante dos padrões da família tradicional, adeptos da extrema direita estenderam, a todas as políticas de defesa das minorias e do meio ambiente, a visão distorcida de que tais políticas aplicavam o dinheiro de impostos dos verdadeiros produtores das riquezas do país, os “homens de bem”, em ações que protegiam vagabundos, desviados da conduta moral, e em causas que emperravam o desenvolvimento da agricultura, da mineração e do turismo brasileiros. Mais interessante é perceber, pelo resultado das eleições presidenciais de 2018, que grande parte da classe média e também de pobres apoiaram as propostas de retirada de direitos trabalhistas e humanos conquistados historicamente por meio de lutas e mobilizações sociais. Esse quadro de acontecimentos enunciativos, breve, mas que serve de gatilho para retomada de enunciados que margeiam e sustentam os enunciados que serão considerados a seguir, possibilita o recorte temporal e situacional feito para este artigo, como forma de atender à expectativa de ele poder explicitar a possibilidade de emergência de enunciados fascistas e não de outros que pudessem construir práticas políticas e sociais democráticas. Ou seja, este trabalho especula sobre as regularidades que dão conta da existência desses enunciados que constituem a luta travada em torno do direito à liberdade de expressão, protagonizada por Bolsonaro e seus seguidores, quando seus enunciados ferem os Direitos Humanos ou a Constituição brasileira ou a ética do dizer verdadeiro. Mesmo Antes da campanha à eleição presidencial, Bolsonaro já dirigia palavras de ódio à esquerda, às minorias e suas lutas, de forma a inferioriza-las e culpa-las pela desordem. Adotando essa postura, Bolsonaro se tornou um mito para parcela da população, visto como o corajoso, o salvador, aquele que fala a verdade, invertendo aí as posições sujeito, ao se colocar numa suposta
265 EMERGêNCIA DE UM NOVO POPULISMO NO BRASIL E LIBERDADE DE EXPRESSãO… resistência à ditadura dos grupos minoritários, do politicamente correto, dos direitos humanos e dos programas sociais do governo anterior, e se colocando e colocando a população como vítimas. Como forma de problematizar acontecimentos que trazem de volta discussões sobre as práticas populistas no governo das populações (Foucault, 2008a), o artigo é construído no sentido de contemplar quatro questões reitoras que enredam práticas que: implicam uma dada razão que une a moralidade tradicional da extrema direita ao neoliberalismo, elegendo o mercado e a moral como fundamento da liberdade, da ordem e do desenvolvimento da civilização; aproximam a forma de governar de Jair Bolsonaro aos ímpetos fascistas do passado; confundem práticas de liberdade de expressão com licença para cometer crimes com a adoção de uma estética da violência; e conduzem as condutas da população por meio da criação de inimigos que mentem para encobrir a verdade sagrada e absoluta que só pode ser conhecida por aqueles que seguem o líder. Nas seções seguintes, essas questões serão desenvolvidas no sentido de demonstrar como o populismo do governo de Jair Bolsonaro se aproxima do fascismo em suas estratégias de convencimento e condução da população. 2. “O trabalho liberta”: a economia neoliberal e a pauta de costumes O enunciado “O trabalho liberta”, como os demais que abrem as seções seguintes, tem como referencial enunciados reatualizados por Bolsonaro e por seu governo. Em maio de 2020, a imprensa1 noticiou que a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República usou o lema, que foi associado ao nazismo, “O trabalho liberta”, para divulgar as ações que o governo federal vinha tomando para conter o avanço do novo coronavírus no país. Antes de comentar sobre o embate construído em torno das medidas para conter a pandemia no país que se deu pela oposição entre a economia e a vida, outra reativação do enunciado em questão ocorreu com o lema “Não pense em crise, TRABALHE!”, proferido pelo presidente interino da República, Michel Temer, em seu discurso de posse2 e, também, materializado em outdoors que foram espalhados pelo Brasil. Sousa (2017) considera que o enunciado chama 1 Um dos sites que publicou a notícia pode ser consultado em: https://noticias.uol.com.br/politica/ ultimas-noticias/2020/06/01/bolsonaro-posta-video-facebook.htm?cmpid 2 Michel Temer assumiu interinamente a presidência da República em 13 de maio de 2016, após a votação, na Câmara dos deputados, do Impeachment da Presidenta eleita Dilma Rousseff, de quem era vice presidente.
266 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS a atenção, primeiro, por constituir o lema de um presidente interino que chegou à presidência por um golpe orquestrado com outros partidos políticos e não pelos votos de uma eleição direta e, segundo, por recuperar um dos argumentos para a derrubada da presidenta Dilma, com a insistência da existência de crise econômica, e de suas consequências figuradas nos discursos de diferentes domínios, que era lembrada a todo instante pelos veículos de mídia. O discurso do presidente interino marca um ponto inicial contraditório de seu governo ao afirmar a existência de uma grave crise, a pior crise vivida pelo Brasil, e, em sua posse, propor que ela fosse silenciada para uma simulação de sua inexistência, para produzir um clima de harmonia, interesse e otimismo. Além de antecipar o negacionismo com o qual o Brasil ia conviver a partir de 2019, com a posse de Jair Bolsonaro, o enunciado do interino Michel Temer remete ao discurso nazista, como mostrou a matéria veiculada na página de Viomundo3 do dia 17/05/2016 que trazia como título: “Do portão de Auschwitz para o golpe de Temer”. Foi no governo Temer que a reforma trabalhista foi aprovada, firmando a retirada de vários direitos dos trabalhadores sob a justificativa de gerar mais empregos e de conter a crise econômica. O que não aconteceu. Ainda em 2016, num programa de televisão4, Bolsonaro disse que era muito difícil ser patrão no Brasil, porque o sistema trabalhista brasileiro era paternalista, e que os direitos trabalhistas dificultavam a contratação de empregados nas empresas. Na campanha à presidência da república, em 2018, numa entrevista5 do Jornal Nacional de rede Globo de televisão, o então candidato afirmou que daria voz à reivindicação de empregadores e empresários brasileiros, que entendem os direitos trabalhistas como obstáculos para o crescimento das empresas e, ainda, profetizou: “Um dia o trabalhador vai ter que decidir: menos direitos e emprego ou todos os direitos e desemprego”. Em meio à pandemia, Bolsonaro se manteve coerente com a ordem discursiva do trabalho para o gozo da liberdade e, por diversas vezes, se posicionou contrário ao isolamento social, ao uso de máscara e apresentou soluções rápidas e enganosas para a não contaminação pelo vírus, por meio de tratamento 3 Disponível em: http://www.viomundo.com.br/politica/patrick-mariano-do-portao-de-auschwitzpara-o-golpe-de-temer.html 4 Essa informação foi obtida no site https://www.brasildefato.com.br/2018/10/17/bolsonaro-e-fascista-listamos-13-frases-do-candidato-para-reflexao. 5 Essa informação foi obtida no site https://www.brasildefato.com.br/2018/10/17/bolsonaro-e-fascista-listamos-13-frases-do-candidato-para-reflexao.
273 EMERGêNCIA DE UM NOVO POPULISMO NO BRASIL E LIBERDADE DE EXPRESSãO… a estética da violência como liberdade de expressão O presidente Jair Bolsonaro compartilhou num domingo de junho de 2020 um bordão popularizado na Itália por Benito Mussolini e fez com que o ditador fascista chegasse à lista de assuntos mais comentados do Twitter. A mensagem aparece no final de um vídeo compartilhado por Bolsonaro em que um senhor italiano esbraveja e diz que a “liberdade vale mais do que a morte” e que “a liberdade não tem preço”. “Em 1 minuto o velho italiano resumiu o que passamos nos dias de hoje”, legendou Bolsonaro9. O início de seu governo foi marcado por sua participação em manifestações que defendiam seu governo como se ainda estivesse em campanha para eleição, para defender pautas nada democráticas que tinham unido seus apoiadores na defesa de sua eleição. As reivindicações iam do fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF) à intervenção militar. Em maio de 2020, a imprensa divulgou notícia de que Bolsonaro usou a expressão “Chega!” para se mostrar atacado pessoalmente e incomodado com a operação determinada pelo STF no âmbito do inquérito das fakenews. Em defesa dos investigados, seus apoiadores, o presidente reclamou que não se tratava de bandidos, marginais ou traficantes e questionou sobre o ataque ao direito de expressão, tentando confundir a população, como forma de manter o seu domínio fascista. Alguns dias depois disse a seus seguidores que a liberdade de expressão teria que valer para todo mundo. Em outra declaração após manifestações anti-democráticas, o presidente, para mostrar a sua força de leão e justificar o seu merecimento, portanto, de expressar com liberdade a sua verdade, declarou ter certeza de uma coisa: “nós temos o povo ao nosso lado, nós temos as Forças Armadas ao lado do povo pela lei, pela ordem, pela democracia e pela liberdade. E o que é mais importante: temos Deus conosco. O Brasil tem tudo para dar certo e o Brasil vai dar certo”10. Percebe-se, com esses acontecimentos, o que Finchelstein (2020) nomeia de corporativismo para se referir à proposta ideológica de formas de governo ditatoriais, em que o ditador deve demonstrar a verdade do poder do povo encarnada no líder. Assim, a ditadura era construída como democracia, e a 9 Notícia disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2020/06/ bolsonaro-compartilha-video-que-cita-bordao-de-mussolini-e-leva-ditador-aosassuntos-mais-comentados-do-twitter.shtml 10 Disponível em: https://www.metropoles.com/brasil/politica-brasil/falas-de-bolsonaroe-violencia-em-ato-antidemocratico-geram-amplo-repudio
274 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS democracia, como a que temos, “era apresentada como um recipiente falso para planos malígnos que deviam ser destruídos” (Finchelstein, 2020, p. 117). No caso atual do Brasil, parece haver fanáticos que trilham cegamente o caminho apontado por seu líder e se dedicam a sua verdade fazendo com essa verdade trascenda a ética e justifique atos ofensivos e até ilegais. Finchelstein (2020, p. 142) compara Bolsonaro a Trump em sua ideia da política como um campo de batalha do tudo ou nada entre a verdade sagrada e as mentiras do inimigo demoníaco, e isso “explica por que a violência política é preferível à derrota eleitoral do líder”. O historiador, ainda, enfatiza que os seguidores de Bolsonaro o chamam literalmente de mito e o consideram um herói, um guerreiro cristão dos valores do patriotismo e da família, que merece toda a confiança sem necessidade de questionamentos. Exigindo direito à liberdade de expressão, os fascistas, como Bolsonaro, atacam as instituições, que, de outro modo, poderiam cercear seu poder. Sua política visa a proteger as liberdades individuais, mas estas dependem da opressão de alguns grupos. Trata-se de usar sua liberdade para pisar na liberdade dos outros, numa estratégia, conforme descreve Stanley (2020), que leva a liberdade de expressão aos seus limites para utiliza-la para subverter o discurso dos outros. O autor ainda rememora com Sócrates que as pessoas não são naturalmente levadas ao autogoverno, mas buscam um líder forte para seguir, e a democracia, ao permitir a liberdade de expressão, abre espaço para que um autoritário explore a necessidade que o povo tem de um homem forte que poderá usar essa liberdade para se aproveitar dos ressentimentos e inseguranças das pessoas. No final das contas, o que está em jogo não é o livre exercício do religioso, patriota ou do cidadão de bem, mas uma estratégia política que faz com que a liberdade de expressão assegure o direito ao dissenso político, à discriminação e o impedimento das leis de igualdade. A liberdade de expressão, na política fascista, além de disfarçar a base religiosa e política das propostas do governo, também evita acusações de que o governo esteja usando a fé para promover a violência. O conteúdo do que é expresso jamais é discutido ou problematizado, mas simplesmente publicizado. Assim, não há obrigação com a verdade, e o governo pode até se desobrigar de informar a população sobre a pandemia, por exemplo, pelo fato de se opor à realidade de sua gravidade. Wendy Brown (2019), além de apontar como as formulações neoliberais da liberdade inspiram e legitimam a extrema direita, também discute o modo como esta mobiliza um discurso de liberdade para justificar suas exclusões
275 EMERGêNCIA DE UM NOVO POPULISMO NO BRASIL E LIBERDADE DE EXPRESSãO… e violações às vezes violentas e que visam reassegurar a hegemonia branca, masculina e cristã, e não apenas expandir o poder do capital. A autora retrata como essa formulação de liberdade pinta a esquerda como tirânica ou mesmo fascista em sua preocupação com justiça social e, ao mesmo tempo, como responsável pelo esgarçamento do tecido moral. O medo da perda de privilégios da tradição branca e masculina é convertido em raiva contra a inclusão social e a igualdade política dos historicamente excluídos, e essa raiva tornou-se no Brasil a expressão consumada da liberdade para o supremacismo masculino branco ganhar nova voz e legitimidade e ser identificado com a liberdade por seus seguidores, justamente por ser politicamente incorreto e por colocar como normas autoritárias as políticas e princípios de inclusão social. 5. “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”: a liberdade inatingível para um efeito de fim Em agosto de 2019, Jair Bolsonaro, na véspera de uma reunião, com governadores da Amazônia, para discutir acerca do desmatamento e das queimadas que vinham assolando a região, afirmou que revelaria o que chamou de “a verdade sobre o que os outros querem com a região”. Ele citou ainda o versículo 32 do capítulo 8 da bíblia, do evangelho de João 8:32, que diz “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”11. Essa foi uma das muitas vezes que Jair recorreu a tal versículo, se apropriando do cristianismo e o descontextualizando para colocar em prática os seus propósitos autoritáros, repressivos e destrutivos. Como um fascista não tem compromisso com a verdade dos fatos, ele recorre àquela verdade inquestionável e absoluta do discurso religioso cristão para se representar como um Deus e se colocar no lugar do pastor que deve conduzir o seu rebanho. Portanto, tentar compreender as formas de construção do que seja verdade e suas transformações se torna imprescindível para a compreensão do governo das condutas nos dias de hoje, visto que todos alegam que seguem a verdade. As produções de verdades, conforme Foucault (2003) não podem ser dissociadas do poder e dos mecanismos de poder, que induzem essas produções de verdades, e estas têm efeitos de poder que unem e atam as pessoas. O exercício do poder é um modo de ação de alguns sobre alguns outros. É um conjunto de 11 A notícia pode ser conferida em: https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2019/08/26/interna_ politica,1080106/bolsonaro-cita-joao-8-32-afirma-revelara-verdade-sobre-amazonia.shtml
276 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS ações sobre ações possíveis, operando no campo de possibilidade em que vem inscrever-se o comportamento dos sujeitos agentes. A partir dessas considerações sobre o exercício do poder, Foucault (2003) propõe o termo conduta por permitir, segundo ele, melhor apreender o que há de específico nas relações de poder. A conduta é, ao mesmo tempo, o ato de conduzir os outros e a maneira de se comportar em um campo mais ou menos aberto de possibilidades. O exercício do poder consiste em conduzir condutas. Nesse sentido, as ações de Bolsonaro sobre as ações da população remetem à condução das condutas do pastorado cristão em que cada indivíduo, como uma ovelha, devia seguir o pastor sem desgarrar do rebanho para alcançar a vida eterna, a real liberdade e a verdade absoluta. A liberdade está na eterna busca da verdade mística, mas de forma obediente e sem desvios dos ensinamentos do líder. Contudo, para Foucault, como bem descreve Portocarrero (2012), as ações do governo dos homens, uns pelos outros, no sentido mais extenso da palavra, incluem necessariamente não só o conflito e a resistência, mas o elemento da liberdade; não o confronto entre poder e liberdade, numa relação de exclusão, mas um jogo muito complexo. É aqui que era preciso chegar para pensarmos as ações fascistas em nome de uma verdade invisível e inatingível, mas que funciona na condução das condutas dos seus seguidores, e considerarmos outras possibilidades de condutas frente às prescrições morais que nos são impostas. Talvez, fosse preciso pensar com Foucault (2010) o discurso diante do princípio de dizer-a-verdade, da parresía grega, pois, em um enunciado parresiástico, não se espera que os enunciados produzam um efeito esperado, pois eles abrem um risco indeterminado; o enunciador se vincula, como sujeito, à verdade do que diz, comprometendo o que pensa no que ele diz. Fora do estatuto definido e de tudo o que poderia codificar e determinar a situação, o enunciador faz valer sua própria liberdade de indivíduo que fala – um ato corajoso, no qual o acontecimento da enunciação pode afetar o ser do enunciador. Na parresía, o sujeito tem um pacto consigo mesmo, “pelo qual ele se liga ao conteúdo do enunciado e ao próprio ato do enunciado: sou aquele que disse isso” (Foucault, 2010, p. 62). A análise da parresía seria a análise da dramática do discurso verdadeiro que revela o contrato do sujeito falante consigo mesmo no ato do dizer-a-verdade, considerando que a parresía seja uma estrutura de igualdade, que faz com que direito e dever, liberdade e obrigação sejam iguais, uma estrutura política, que prevê a liberdade de tomar a palavra a todos os cidadãos. Em suas últimas
277 EMERGêNCIA DE UM NOVO POPULISMO NO BRASIL E LIBERDADE DE EXPRESSãO… aulas, Foucault (2010, p. 319) vai mostrar que “onde há parresía filosófica deve haver relação com a política, mas não pode haver retórica”. Contrapondo a parresía à retórica, Foucault (2010), com base em textos da filosofia grega, discute as ações das duas técnicas sobre o governo, a direção e a condução dos outros. A prática retórica utiliza a argumentação contra a lei da igualdade, pois o sistema igualitário se torna um escândalo para aquele que joga um jogo agonístico tradicional em que os mais fortes devem prevalecer sobre os mais fracos. Assim, a retórica serve de instrumento que possibilita jogar, no sistema igualitário, o jogo tradicional dos estatutos privilegiados; um instrumento para tornar novamente inigualitária uma sociedade democrática. Trata-se de “uma prática de discurso jogada com três categorias de personagens: há os numerosos que é preciso convencer; há os rivais sobre os quais é preciso prevalecer; e há aquele que utiliza a retórica e quer se tornar o primeiro” (Foucault 2010, p. 335). Já a filosofia parresiástica, contrária ao jogo inigualitário, acredita que haja uma afinidade entre o discurso mesmo e aquilo que ele prova. Assim, é um jogo de prova a dois, por afinidade de natureza e de manifestação de autenticidade, da realidade-verdade da alma. Exercita a homologia do diálogo para que haja identidade do discurso nos dois jogadores, já que o que é dito por um pode ser dito pelo outro. O critério de verdade não é dado pelo estatuto de quem pensa e o que é pensado, mas pela homologia, identidade do discurso entre duas pessoas. A homologia não é a lisonja, tão exercitada na prática política de hoje, quando o enunciador pega no ouvinte o que ele pensa, reformula por conta própria como seu próprio discurso pessoal e o restitui ao ouvinte, “que fica com isso tanto mais facilmente convencido e tanto mais facilmente seduzido por ser o que ele diz” (Foucault 2010, p. 336). Três critérios constituem os operadores da verdade na homologia, que no lugar da lisonja, exercita o saber (nunca dizer o que diz a não ser sabendo que é verdade); a benevolência (cada um dos dois interlocutores tenha, pelo outro, um sentimento de bondade que provém da amizade); e a própria parresía (que nada que seja da ordem do medo, da vergonha venha limitar a formulação do que se considera ser verdade). É pela homologia que os diálogos devem ser ritmados para trazer neles mesmos a prova da verdade e, assim, poder agir sobre a alma do outro e conduzi-lo à verdade. Com base nessa breve exposição do dizer-verdadeiro, é que se pode problematizar a emergência da ideia de mentira na política como prática normalizada pela transformação da parresía grega, o dizer verdadeiro, em retórica,
278 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS quando valorizou a lisonja como forma de convencimento do outro. Na retórica da política fascista, como argumenta Stanley (2020), a linguagem não é usada simplesmente para transmitir informações, mas para provocar emoção, e, numa sociedade dividida entre a força da razão e o poder dos ressentimentos irracionais e do preconceito, um político demagógico e lisonjeador pode explorar essa divisão, usando a linguagem para semear o medo, acentuar o preconceito e pedir vingança contra membros de grupos odiados. Nas palavras de Stanley (2020, p. 76), “tentar contrariar tal retórica com a razão é semelhante ao uso de um panfleto contra uma pistola”. Referências Brown, W. (2019) Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no ocidente. São Paulo: Editora Filosófica Politeia. Finchelstein, F. (2019). Do fascismo ao populismo na história. São Paulo: Almedina. Finchelstein, F. (2020). Uma breve história das mentiras fascistas. São Paulo: Vestígio. Foucault, M. (1995). A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Foucault, M. (2003). Saber e poder. In: Foucault, M. Estratégia, poder-saber. (Col. Ditos e escritos, IV). Rio de Janeiro: Forense Universitária. Foucault, M. (2008a). Segurança, território e população. São Paulo: Martins Fontes. Foucault, M. (2008b). Nascimento da Biopolítica. São Paulo: Martins Fontes. Foucault, M. (2010). O governo de si e dos outros. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes. Portocarrero, V. (2012). Verdade irresponsável e dizer-verdadeiro. O que nos faz pensar, [S.l.], v. 21, n. 31, p. 174-193, feb. Sousa, K. M. (2017). Das condições de possibilidade dos discursos em Michel Foucault: uma breve análise do presente. In: Fernandes Júnior, A. & Stafuzza, G. B. Discursividades contemporâneas: política, corpo, diálogo. Campinas, SP: Mercado de Letras. Stanley, J. Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”. Porto Alegre [RS]: L&PM, 2020.
CHARISMATIC OR PROVIDENTIAL? POPULAR OR POPULIST? THE CASE OF PORTUGAL’S PRESIDENT MARCELO REBELO DE SOUSA Jean Noël Fernand Mercereau*, Jorge Manuel Almeida Gomes da Costa** 1. Introduction In Portugal as elsewhere, studies on populism have increased exponentially in recent years, as if to feed the general curiosity following the birth and growth of so-called populist movements in many countries. On the whole, however, populism is often mentioned without any clear definition of what it actually means, as summed up by Cas Mudde in an article in The Guardian entitled “We the people, the battle to define populism” on 10th January 2019: When populism appears in the media, which it does more and more often now, it is typically presented without explanation, as if everyone can already define it. And everyone can, sort of – at least as long as they’re allowed to simply cite the very developments that populism is supposed to explain: Brexit, Trump, Viktor Orban’s takeover in Hungary, the rise of Jair Bolsonaro in Brazil. The word evokes the long-simmering resentments of the everyman, brought to a boil by charismatic politicians hawking impossible promises. Indeed, as Mudde points out, beside the lack of clarification of what is meant by populism, there seems to be a consensus among politicians themselves, the media and academics to associate a politician’s alleged charisma to populism. As Moffitt explains in his Global Rise of Populism, “charisma has often been attributed to populist leaders in order to explain the seemingly mystical grip that they have on their followers” (2016, p. 62). * Escola Superior de Tecnologia e Gestão, Instituto Politécnico de Leiria, CICS-NOVA, Portugal. jean.mercer[email protected]t ** Escola Superior de Tecnologia e Gestão, Instituto Politécnico de Leiria, CICS-NOVA, Portugal. jorg[email protected]
280 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS To make matters even more confusing, politicians with exceptional levels of popularity are often labelled as populists, while charismatic leaders are frequently accused of having providential ambitions. This twofold ambiguity, between popular or populist leaders on one side, and charismatic or providential leadership on the other, is at the heart of this article, and has motivated the definition of its objectives, which are to provide answers to the following key questions: how can the concepts of charismatic and providential leadership be defined, and what are the essential implications of each as far as political leaders and their relationship with democratic regimes are concerned? At the same time, what are the essential features of populism, and how can this phenomenon be dissociated from popularity? To propose answers to these questions, Portugal’s president Marcelo Rebelo de Sousa has been chosen as a case study because of the politician’s unique characteristics, halfway between charismatic and providential and between popular and populist. Therefore, what is at stake in this article is to determine to what extent the Portuguese president can be seen as an example of a charismatic or providential leader, taking into account the characteristics usually implied by these concepts, and whether a politician such as Rebelo de Sousa should be considered a populist leader, or simply an exceptionally popular statesman. Since his election as Portugal’s President in March 2016, Rebelo de Sousa has enjoyed exceptional levels of popularity that have led to an increasing number of debates as to whether such an ability to attract the people’s support could be seen as a sign of populism. Following some controversial episodes in the Portuguese media, some voices within the public sphere have indeed raised questions about Rebelo de Sousa’s propensity for populism, and some actors or observers of Portugal’s political life have considered Marcelo Rebelo de Sousa a “light populist”, a “benign populist” or a “good populist”1, while defending that, by occupying spaces that have become empty in other societies, Rebelo de Sousa has actually contributed to reduce the risk of populism in Portugal.2 In 1 While Jaime Gama, former Socialist Foreign Minister and speaker of the Parliament, described Sousa as “um populista light” in Expresso on 2nd February 2019, journalist Maria João Marques referred to President Sousa as “um populista benigno” in O Observador on 9th January 2019. 2 Luís Marques Mendes, Rebelo de Sousa’s successor, not only as short-lived leader of the Social Democratic Party (PSD) but, perhaps more significantly, as the country’s main commentator of Portuguese politics on national mainstream TV channel SIC, declared on 10th March 2019 that “just like cholesterol, there is a good and a bad populism” and that “the President’s good populism has helped to fight the bad one”. Miguel Sousa Tavares, a leading journalist and novelist, once compared the Portuguese president to “the eucalyptus of populism” in the sense that he dries up the soil on which
281 CHARISMATIC OR PROVIDENTIAL? POPULAR OR POPULIST?… her PhD thesis on President Marcelo Rebelo de Sousa, Sandra Sá Couto gives voice to several leading academics and journalists who share the same view (Gomes 2019, pp. 269-319). This debate around Rebelo de Sousa’s relation to populism probably gained particular importance, at least until recently, because of the lack of parties widely recognized as populist (Salgado & Zúquete 2017) and to the fact that populism, as Salgado and Silva put it, paid “less electoral dividends in Portugal than in other comparable countries” (2018, p. 260). Here again, Rebelo de Sousa offers an interesting and original position: while he is widely regarded as a charismatic character, an expression mostly used with a clearly positive connotation, this quality does not, in his case, systematically lead to unanimous accusations of (bad) populism. This apparent paradox is particularly interesting because it demonstrates the need to distinguish between the concept of charismatic leadership, which is often taken for granted as a gift only enjoyed by very few human beings but compatible with democratic values, and the one of providential leadership, which clearly conveys a more negative bias and a natural evolution towards autocracy (Monod 2017, p. 206). In its theoretical perspective, this article stems from the general theories of the Critical Discourse Analysis developed by authors such as Fairclough (2010), Wodak (2013) or Van Dyck (1997), assuming as a starting point that The theory of ideology is concerned in general terms with the question of how beliefs and concerns which are associated with the interest of particular social groups come to be general beliefs and concerns, and how they come to have effects on social life. Ideologies are part of the way in which the dominance of dominant social groups is achieved, maintained and renewed through particular directions of social change (Fairclough & Fairclough 2012, p. 100). This study also relies on a transdisciplinary approach (Fairclough 2010, p. 231 and Wodak et al 2009, p. 9), since it is only by confronting different areas of knowledge that one may seek to bring answers to the deliberately complex nature of the questions raised above. Accordingly, and taking into account the very nature of the project, leading authors have provided some of the essential theoretical basis in the areas of populism and charismatic or providential styles of leadership. On the one hand, as far as populism is concerned, special populists would otherwise flourish, before adding that “Marcelo is our charismatic and popular leader” (TVI evening news, 31st December 2018).
282 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS attention has been given to those deemed more liable to help reach this article’s objectives: Laclau (2005), Wodak (2013), Judis (2016), Moffitt (2016), Müller (2016), Mudde & Kaltwasser (2017), Eatwell & Goodwin (2018) and Mouffe (2018). On the other hand, beyond Weber’s inevitable studies on charismatic leadership, other references have been taken into account, in particular French specialists of the concept of providential leaders (“hommes providentiels”) such as Girardet (1986), Fischer (2009), Dorna (2012), Garrigues (2012) and Monod (2017). In order to analyze the main characteristics of Rebelo de Sousa’s discourse, and to assess the leader’s charismatic or providential nature and potential populism, the object of study has been limited to four communications delivered by the Portuguese president: two broadcasts to the nation, in March 2016 and October 2017, and two speeches delivered in the Portuguese Parliament in April 2018 and in Portalegre in June 2019.3 Because of the crisis the country was going through when they were delivered, be it financial (in 2016 with the approval of the budget after a series of amending budgets in previous years), social (in 2017 with the unprecedented human toll of the fires in June and October), or political (with the growing threat of national populist movements from 2018 onwards), these speeches were deemed liable to help provide the keys for an effective content analysis of such an atypical politician’s discourse. 2. Theoretical framework: charismatic or providential, popular or populist? Before attempting to determine to what extent Marcelo Rebelo de Sousa may be considered charismatic, providential or populist, it is essential to agree on what each of these terms conveys. 2.1. The concepts of charismatic leader and providential leader The concepts of charismatic and providential leaders are often used as synonyms but, although somehow complementary, each term actually refers to slightly different forms of leadership. 3 On the celebration of the 44th anniversary of the 25th April 1974 revolution and of the national holiday on 10th June respectively.
289 CHARISMATIC OR PROVIDENTIAL? POPULAR OR POPULIST?… 19 Moses The archetype of the nation’s prophet, who embodies his people by inexorably linking his own personal destiny with that of the nation (Fischer, 2009, p. 85); gifted with a unique foresight and capacity to anticipate the ways that will help lead the people to its promised land (Girardet 1986, p. 79). General de Gaulle in June 194019 On the whole, by attempting to gain legitimacy to lead the collective destiny of the nation in a specific context, and whatever the profile it may fit into among the four mentioned above20, the providential leader will be seen as responding to the people’s expectations and, as such, will integrate the national collective imaginary. While both the notions of charismatic and providential leader share the same biblical origin, and are often used in common language as synonyms, the latter is more generally given a clearly derogatory bias and used with a negative connotation in common language than the former, namely in the media. Thus, by confronting the usual characteristics attributed to both the charismatic and providential leader, one may conclude that the two notions are far from identical, albeit somehow complementary. Above all, while there may not be any essential contradiction between charismatic leadership and democracy, the notion of providential leadership is usually linked to a more autocratic use of power, or at least to an ambition to concentrate power within one’s hands.21 Consequently, the notion of charismatic leadership, according to Weber’s definition, is willingly recognized as a gift or set of exceptional qualities by the people who will be submitted to the leader’s authority, whereas the concept of providential leader is more easily self-appointed and, whenever necessary, imposed to others. According to Monod (2017, pp. 14-16), in societies where the selection of political leaders essentially relies on individual charisma, a clear-cut distinction must be made between a truly democratic charisma and another form of charisma, which he calls demagogic charisma and which only respects the rules 19 This model, to which Garrigues gives the name of Pericles after the Greek statesman of the Vth century BC (2012, p. 39), may be illustrated by General de Gaulle in June 1940 when, following France’s capitulation imposed by the Vichy government, he leads the resistance to German forces and “sees his personal fate and the nation’s collective destiny merge into one” (Girardet 1986, p. 78). 20 Some historical characters, although hardly demonstrating the usual personal qualities of charismatic leaders, may fit into more than one of these models. This is the case, for example, of António Salazar in Portugal, Francisco Franco in Spain or Eamon de Valera in Ireland. 21 Which explains while some leaders, despite having reached power in unquestionably democratic regimes, were repeatedly accused of dictatorial intentions, such as de Valera in Ireland from 1932 onwards or General de Gaulle in France after 1958.
290 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS of democracy insofar as it serves its leader’s search for legitimacy. As Monod explains (2017, p. 206), while charisma may in itself be perfectly compatible with democracy, the very concept of providential leadership is by nature demagogic and, as such, potentially dictatorial. In this process, it is the crisis, be it real or invented, but always made as dramatic as possible (Moffitt 2016, pp. 127-128), that will provide the potential leader with the necessary means to achieve his/her ends. Thus, while charismatic leaders may not go beyond the mere aspiration to power, through a set of symbolic or discursive representations, it is action and the exercise of power that may allow charismatic leaders to become providential. Whereas charisma refers to a leader’s exceptional personal characteristics recognized by the people as such, the providential nature of the leader stems from the combination of the leader’s personal achievement and their his/her contribution to the country’s success. These essential differences between charismatic and providential leadership explain why the two notions cannot be taken as synonyms: charismatic leadership works from down to the top, or from the outside to the inside, while providential leaders seek to impose their power top down, or from the inside to the outside. As far as populism is concerned, the distinction makes all the more sense insofar as it is often difficult, if not impossible, to distinguish between popular parties or movements and their leaders. In any case, there is no such thing as an archetype of the populist leader, as Mudde and Kaltwasser explain: “While a certain type of leadership is prevalent, populist leaders come in many different shapes and sizes. They all do have one thing in common, however: a carefully crafted image of the vox populi.” (2017, p. 20). 2.2. Populism and populists The terms “populist” or “populism” are often used in the media without any well-defined criteria, with an unambiguous negative connotation and always about personalities, parties or movements that systematically refute this label for themselves. Besides, populism is always ascribed to others (Mudde & Kaltwasser 2017, pp. 1,2), including by politicians who sometimes accuse each other of being populist for lack of better arguments (Dorna 2002, p. 6), which contributes to a Manichean division without any clear indication as to what each category may imply. To make matters worse, there is no such thing as a
291 CHARISMATIC OR PROVIDENTIAL? POPULAR OR POPULIST?… consensual and comprehensive definition of populism even among scholars, as most authors willingly admit. Mudde and Kaltwasser, for instance, state in their “Introduction to Populism” that “populism is one of the main political buzzwords of the 21st century. […] But while the term has great appeal to many journalists and readers alike, its broad usage also creates confusion and frustration”. (2017, pp. 1, 2) According to Judis (2016, pp. 13, 14), there is no set of features that exclusively defines movements, parties and people that are called populist. […] As with ordinary language, even more so with ordinary political language, the different people and parties called ‘populist’ enjoy family resemblances of one to the other, but not a set of traits can be found exclusively in all of them. Müller’s view is similar (2016, p. 2): For all the talk about populism, it is far from obvious that we know what we are talking about. We simply do not have anything like a theory of populism and we seem to lack coherent criteria for deciding when political actors turn populist in some meaningful sense. Although the recent surge in academic interest for the topic has brought a significant increase in the understanding of the populist phenomenon, many disagreements remain among academics, as Mudde himself observed in the Guardian in November 2018: While the term still lacks meaning in much of the public debate, the academic community is closer to a consensus than it has ever been. Most scholars use populism as a set of ideas focused on an opposition between the people (good) and the elite (bad), although they still disagree on whether it is a fully fledged ideology or more a political discourse or style.22 Indeed, depending on the authors, populism can be seen as either an ideology, a strategy, a style, a discourse or a logic (Moffitt 2016, p. 17). More importantly as far as this article is concerned, an essential question is about whether populism is compatible with democratic practices. While most authors con22 Cas Mudde, “How populism became the concept that defines our age” in the Guardian, 22nd November 2018.
292 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS sider, that populism is, by essence, a threat to democracy (Müller 2016, p. 106), Mouffle and Laclau stand out insofar as they defend that populism “is a way of doing politics that can take various ideological forms according to both time and place, and is compatible with a variety of institutional frameworks” (Mouffe 2018, p. 11), an idea in agreement with their approach to populism “not as a type of movement” but as “a political logic” (Laclau 2005, p. 117). On the whole, Mudde sums up the debate in these terms: The relationship between populism and democracy is not as straightforward as its many opponents or its few protagonists claim. The relationship is complex, as populism is both a friend and a foe of (liberal) democracy, depending on the stage of the process of democratization (2017, p. 20). Still, it is possible to identify a series of sine qua non conditions for a party or movement to be considered populist. Thus, a sort of minimal definition may be reached based on the principal features of populism as described by some of the main analysts of this phenomenon. The first characteristic shared by all populist movements or parties is the dramatic, and allegedly irreconcilable, opposition between “the “people” (we) and “the elite” (them). Whatever their specificities may be, all populists base their legitimacy on their systematic defense, on the one hand, of the “good, ordinary people” (Eatwell & Goodwin 2018, p. ix), the “underdogs” (Mouffe 2018, p. 10), the “pure people” (Mudde and Kaltwasser 2017, p. 6), the “ordinary folks” (Müller 2016, p. 2), the “silent majority” (Judis 2016, p. 62) or the “masses” (Laclau 2005, p. 2) against, on the other hand, the “corrupt elites”, the “system”, the “establishment”, “those in power” (Mouffe 2018, p 10)… Thus, populisms always claim the exclusive moral right to defend the people (Müller 2016, p. 38) against the elites, be them political, financial, economic, intellectual or others, which are presented as the enemy to be defeated. Besides antielitism, the second feature common to most populists is antipluralism. Whatever the people may be (Muller 2016, p. 22, Wodak et al 2013 p. 4), be it ethically inclusive or exclusive (Wodak 2013, p.14), two – or three – dimensional23 populist leaders claim the exclusive moral right to represent it (Mller 2016, p. 3) in the sense that whoever does not support them has no 23 The people against the elites (leftwing populism) or the people against both the elites and the other, namely immigrants (rightwing populism), which Judis refers to as dyadic or triadic populisms (2016 p. 15).
293 CHARISMATIC OR PROVIDENTIAL? POPULAR OR POPULIST?… right to any claim of belonging to the people, since they alone can represent the people. In a sort of metonymy in which a portion of the people stands for the whole of the people, populists limit their view of the people to their own supporters and all those who do not follow are presented as belonging to the opposite side. Mudde and Kaltwasser sum up these two essential characteristics of all populist movements in this way: There are at least two direct opposites of populism: elitism and pluralism. […] Pluralism is the direct opposite of the dualist perspective of both populism and elitism, instead holding that society is divided into a broad variety of partly overlapping social groups with different ideas and interests. […] Diversity is seen as a strength rather than a weakness. Pluralists believe that a society should have many centres of power and that politics, through compromise and consensus, should reflect the interests and values of as many different groups as possible. (2017, pp. 7, 8). Alongside antielitism and antipluralism, another characteristic shared by most populists is the constant demand for a supposedly more direct democracy, some sort of people’s direct rule without the usual checks and balances of democratic regimes (Wodak 2009, p. 3). According to populists, politics should be an expression of the volonté générale (general will) of the people (Mudde & Kaltwasser 2017, p. 6). Popular referenda, for instance, are often demanded by populist leaders or movements in order to guarantee the people’s real contribution to the decision-making process instead of the usual legislators whom, albeit elected by popular vote, they increasingly distrust. Lastly, populist movements often reveal a lack of a constant and systematic ideological orientation (Laclau 2005, p. 117). Unlike mainstream politicians, however radical, populisms easily shift from one position to another according to the events and the general mood, particularly as far as the national economy is concerned, in what Llogier calls “postideological populism” (2018, p. 40) and which Mudde and Kaltwasser refer to as “thin-centered ideology” (2017, p. 6). 3. Marcelo Rebelo de Sousa as a charismatic or providential man, popular or populist leader Having confronted the terms of charismatic and providential leaders, and summed up the main features shared by most populist parties or movements, it is now possible to turn to Marcelo Rebelo de Sousa in order to determine
294 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS whether, on the one hand, he may be seen as a charismatic or a providential leader and, on the other hand, considering his unique popularity, he reveals features that are usually characteristic of populist leaders. 3.1. Charismatic or providential Rebelo de Sousa’s election as Portugal’s president in March 2016 was widely hailed, both in Portuguese and foreign media, as the triumph of a charismatic candidate, with some observers going a step further and seeing in Rebelo de Sousa a providential man capable of taking the country out of a crisis that had then been going on for years (Sá Couto 2019, pp. 279-301). In Portugal’s recent democratic history, other leaders may have been seen as charismatic, gifted with exceptional qualities, and capable of solving the crisis in which the country was then living.24 But in view of the typologies defined above, and at a time when politicians are easily accused of providential ambitions or populist tendencies, it is important to determine to what extent the Portuguese president may be seen as wanting to appear as a charismatic or providential leader, by focusing on two essential differences that distinguish both types of leadership: the use of the crisis situation and the definition of the qualities that are evidenced. Although crises faced by politicians holding power may be seen, anywhere and at any time, as opportunities for others who are seeking it, one of the most common features of providential leaders’ rhetoric is the use of a situation of crisis in order to give an impression of a chaotic situation to which only exceptional qualities such as those which they claim as their own could put an end. For this reason, the crisis is often exaggerated and dramatized in order to draw as much political benefit as possible to serve their own political aspirations by making them appear as the nation’s saviour sent by providence itself in order to set the bases for the exercise of their tyrannical power (Monod 2017, p 206). As stated above, one of the main reasons for the choice of Rebelo de Sousa’s four speeches is that all were delivered at a time of crisis of some sort. But in none of these speeches does Rebelo de Sousa attempt to exaggerate the crisis scenario, or dramatize it in a way, as is common practice among politicians. In total, in all four of the speeches analysed, the word is pronounced only three 24 Arguably, and for different reasons, one may think of General Eanes’s first election as president in 1976, Prime Minister Cavaco Silva in 1985 or Mário Soares’s second term as president in 1991.
295 CHARISMATIC OR PROVIDENTIAL? POPULAR OR POPULIST?… times25, which confirms the Portuguese president’s attempt to reassure more than alarm his audience. For instance, in March 2016, when addressing the nation shortly after his election, Rebelo de Sousa seems to have opted for the deliberately informal style which has made him Portugal’s most famous TV pundit in previous years. When explaining his reason to ratify the 2016 budget proposed by the coalition of left-wing parties then in power, for instance, the president appears once again as the professor who lectures his audience and provides a balanced perspective on the state of the nation, its reasons and its potential consequences. Instead of pointing at potential politicians to blame for the situation, he uses a clearly professorial tone, asking and answering questions, and skilfully leading his audience to share in his conclusions. As far as the 2016 budget is concerned, Rebelo de Sousa’s bases his argumentation on a straightforward strategy to which he will stick throughout this communication to the country, and which essentially relies on the repetition of the same method: the presentation of the problems to be faced, the possible solutions and the justification of his own decision to ratify the budget. He neither seeks to diminish the complexity of the problem (referring for example to its national, European and international dimension26) nor to propose simple or straightforward solutions. The same can be said, to a lesser extent, of the highly emotional situation of the second series of fires in October 2017 when the President, who opted to speak to the country from one the most affected areas27, did not take the opportunity to over-dramatize the situation. Despite the use of some rhetorical techniques that make the opening part of his speech somewhat more dramatic28, the President, after duly stating the dimension of the human tragedy and reminding the government of its own responsibility, maintained his usual polished style. 25 Two of these occurrences can be found in the statement on the ratification of the budget in 2016 (each time referring exclusively to the economic crisis), the other one being used in Portalegre in 2019 to refer to the ordeals suffered by the Portuguese people throughout its history. 26 O Orçamento de Estado nasce numa situação complexa com sinais contraditórios a nível mundial, a nível europeu e a nível nacional (March 2016). 27 Aqui, em Oliveira do Hospital, o último fim de semana conheceu o maior número de vítimas, de desalojados, de desempregados, de pessoas atingidas pelos fogos. Por isso, falo aos portugueses daqui (October 2019). 28 For example, the opening accumulation of all the victims of the fires or a long anaphora in which he starts ten successive sentences with “He can and must say” to answer the question raised by himself: “What can the President say?” (O que pode e deve dizer o Presidente da República? Pode e deve dizer […]).
296 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS All through his public life as a politician and TV pundit, and even more so since his election in January 2016, Rebelo de Sousa has been widely regarded as a politician particularly close to the people and prone to showing his emotions towards people in general, to such a point that he is often referred to as “the President of emotions”. The forest fires and their dramatic number of casualties offer a unique opportunity to display emotions usually associated to his character: empathy, sympathy and comfort of people in need. And Rebelo de Sousa did just that, offering TV cameras unusual scenes of a President hugging and kissing people who had lost just about everything. Still, the qualities thus demonstrated are not meant to convey any sort of exceptional, supernatural or magical gift, but to evidence essentially humane qualities that are supposed to place him alongside ordinary people rather than above them. Instead of emphasizing the differences between the “people of flesh and bones” and their president, the head of state insists on the fact that he is, first and foremost, a person.29 As such, he feels the same emotions as the ordinary people when he claims that the drama of the forest fires and its more than a hundred casualties will “never leave [his] thoughts” and “bear a huge weight over [his] conscience as well as on [his] presidential mandate”.30 At the same time, he does not give up on his position as president, an essential ambiguity that he solves by intertwining emotion and reason: the feelings of a human being, who feels for his fellow citizens, on the one hand, and the duties of the head of the State, who must comply with his constitutional duties, on the other. He never pretends to shirk from either of these obligations, or to pretend, as self-proclaimed providential leaders so willingly do, to sacrifice his own comfort and wellbeing to carry out his duties and save the country. In other words, while claiming to be part of the people, to be one among them, he assumes his role as the voice and face of the system, which doesn’t prevent him from calling for some adjustments to it31, albeit far from populist leaders’ loud demands for systemic changes. 29 Os dramas das pessoas de carne e osso. […] O presidente da República é, antes de mais, uma pessoa (October 2017). 30 Estes mais de cem mortos não mais sairão do meu pensamento como um peso enorme na minha consciência tal como no meu mandato presidencial (October 2017). 31 […] a necessidade de constante renovação do sistema político (April 2018),
297 CHARISMATIC OR PROVIDENTIAL? POPULAR OR POPULIST?… On the contrary, he wants to stand out as a reliable leader, true to his word32, who accompanies rather than guides his flock, “the people who come and go33”, on their way through life, while reminding them, whenever the opportunity arises, of general truths about life in general, the art of politics or the path to be followed in the future. By doing so, Rebelo de Sousa clearly wishes to stand out as a figure that Fischer calls “pedagogue of the nation” (Fischer 2009, p. 38). More importantly, this attitude tends to make him a bridge rather than a barrier between the people and their elite. This characteristic takes its full meaning when it comes to evaluating to what extent the Portuguese president may be seen as a populist. 3.2. Popular or populist Populist leaders always see themselves as the exclusive defenders of the good people against the corrupt elite, without any attempt to define what both these terms may refer to, which is why analyzing Rebelo de Sousa’s attitude in this respect may give a first indication as to whether he may be considered a populist. The main indication as to the type of Portuguese society defined by the Portuguese President may be reached by paying attention to his use of the first-person plural pronoun “we”. Based on Wodak’s typology (Wodak et al. 2009, pp. 45-47), one can trace three main uses of the “we” in Rebelo de Sousa’s rhetoric, as the following table illustrates: 34 Table 3: Rebelo de Sousa’s use of the “we” pronoun Use of We Who does “we” include Examples I + you (plural) + they Speaker + the whole of the Portuguese citizens, past and present, the Portuguese imagined community – Our way of being what we are (2019); – Portugals are being built every day, far from our sight, but close to our heart (2018); – We will be 900 years old in less than three decades (2019). 34 32 Eu prometi aos portugueses que como Presidente da República lhes falaria para explicar as minhas decisões. É o que faço hoje (March 2016). 33 As pessoas que vão e que vêm (October 2017). 34 O nosso modo de sermos o que somos; todos os dias constroem-se Portugais longe da nossa vista mas perto do nosso coração; faltam menos de três décadas para fazermos 900 anos.
298 POPULISMOS E SUAS LINGUAGENS I + you (plural) Speaker + audience (viewers, listeners, readers…) – We do not forget, we do not omit, we do not erase (2018); – Time for us to remember the past and to learn lessons for the present and the future (2018); – The democracy that we are today (2018).35 I + they Speaker + political decisionmakers – People are the reason of our daily commitment (2019); – This is our last opportunity to take the forest seriously and to make it a national priority (2017); – Let us not minimize it (about the danger of populism).36 35 36 The “we” used by Rebelo de Sousa therefore includes, in turn, a historical nation, a community of living citizens and a group of political decision-makers, which all reveal an essentially inclusive view of the nation as well as the refusal to limit the notion of people to a restricted group of individuals sharing the same self-defined characteristics and whom populist leaders pretend to be the only ones to defend. In that respect, it is significant that the President includes himself in all three groups, including the one restricted to the ruling elite, the only one from which the people are de facto excluded but to which he willingly acknowledges to belong. By doing so, he presents himself again as the link between the people and their leaders. This assimilation even goes further when Rebelo de Sousa deliberately confuses the first-person singular and plural pronouns “I” and “we” to give the impression of a perfect fusion between his own individual fate and the collective destiny of the nation: “this future will be more fair, more supportive, more humane; I am sure of it, we are sure of it; because I believe, because we believe in Portugal” (June 2019).37 Conversely to the uses of the first-person pronouns, the third-person plural pronoun “they”, so dear to populist leaders to refer to an unidentified, obscure, evil enemy, is hardly ever used by Rebelo de Sousa. The only example of “they” taken as “the others” actually occurs on 25th April 2018 when the President launches a scathing attack on what he calls “dangerous populist temptations” and “sebastianist, messianic and providentialist illusions”. From his position 35 Não esquecemos, não omitimos, não apagamos; tempo mais do que suficiente para recordarmos o passado e retirarmos ilações para o presente e para o futuro; a democracia que hoje somos. 36 As pessoas a razão de ser do nosso empenho diário; este é a última oportunidade de levarmos a sério a floresta e a convertermos em prioridade nacional; não o minimizemos (os vazios que venham a ser deixados pelos protagonistas institucionais alimentarão tentações perigosas de apelos populistas. 37 […] que este futuro seja muito mais justo, solidário, humano… e vai sê-lo, tenho a certeza, temos a certeza, porque eu acredito, porque nós acreditamos em Portugal! (June 2019).