scieee AI-readable full text Open interactive document viewer

Os comentários às notícias publicadas no Facebook e respetivo impacto nos jornalistas: o caso do Público

Costa, Maria João Mesquita da

Abstract

A Internet e, por conseguinte, as redes sociais têm uma função cada vez mais preponderante na forma como a população recebe e consome a informação. As notícias, que deixaram de estar só no papel para estarem também nos nossos dispositivos móveis – como computadores, smartphones e tablets –, chegam agora a qualquer pessoa, em qualquer lugar e a qualquer hora. Mais que isso, os cidadãos acabam por participar no processo noticioso, uma vez que são livres de fazer comentários nos websites dos órgãos de comunicação social e nas respetivas redes sociais. O Facebook é, talvez, o maior exemplo de uma plataforma online que faz com que os cidadãos assumam um papel mais ativo no processo informativo. Neste sentido, este trabalho debruça-se sobre o tipo de comentários que se podem encontrar nesta mesma rede social e sobre o modo como estes são encarados por parte dos jornalistas do Público, local onde foi realizado o estágio curricular de três meses. Para tentar perceber todo este ambiente, foram analisados os 10 primeiros comentários às notícias publicadas no Facebook pelos jornalistas do Público durante os primeiros cinco dias dos meses de setembro, outubro e novembro de 2019, sem contar com fins de semana e feriados, uma vez que não têm o mesmo tipo de consumo que as notícias publicadas à semana. Depois de uma análise de conteúdo quantitativa aos comentários recolhidos, foi realizado e analisado um questionário, que foi previamente aplicado aos jornalistas do Público – das redações do Porto e de Lisboa – para avaliar as suas perceções relativamente aos comentários que são feitos nesta rede social e para entender o impacto que estes podem ter na notícia e no próprio jornalista. As conclusões mostram que os comentários feitos às notícias publicadas no Facebook pelo Público apresentam um cariz negativo e têm como alvo as próprias notícias, sobretudo os artigos de Política, Desporto e Sociedade. Embora muitos dos jornalistas tenham uma perceção positiva das opiniões dos leitores no Facebook, mais de metade dos inquiridos apresenta uma perceção negativa dos comentários publicados.

Full text

Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Maria João Mesquita da Costa Os comentários às notícias publicadas no Facebook e respetivo impacto nos jornalistas: o caso do Público novembro de 2019 UMinho | 2019 Maria João Mesquita da Costa Os comentários às notícias publicadas no Facebook e respetivo impacto nos jornalistas: o caso do Público Maria João Mesquita da Costa Os comentários às notícias publicadas no Facebook e respetivo impacto nos jornalistas: o caso do Público Relatório de Estágio Mestrado em Ciências da Comunicação Área de especialização em Informação e Jornalismo Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Felisbela Maria Carvalho Lopes Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais novembro de 2019 ii iii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ iv Agradecimentos “Se podes sonhar, podes tornar os teus sonhos realidade.” Walt Disney Ao meu orientador no jornal Público, David Pontes, por ter sido um grande apoio durante os três meses de estágio. Ao PÚBLICO Comunicação Social SA, pela oportunidade de estagiar nas suas instalações e por me permitir dar mais um passo no mundo jornalístico. Aos jornalistas da redação do Porto do Público, que foram colegas impecáveis. À minha orientadora, Professora Doutora Felisbela Lopes, pelos conselhos, paciência, rigor, motivação e pela prontidão demonstrada para o desenvolvimento deste trabalho. Aos meus professores da Universidade do Minho, em particular ao Professor Doutor Joaquim Fidalgo, que sempre se mostrou pronto a ajudar. Aos meus amigos famalicenses, que me acompanham desde sempre e que nunca me deixaram desistir do meu sonho. Às minhas amigas que comigo fizeram a Licenciatura, pelos três anos de descobertas. Aos meus amigos de Mestrado, por todas as partilhas. Aos meus amigos do Porto, que acreditaram em mim. À minha família valboense, André e Marta Neves, Irene Pereira, Manuel Perfeito e Daniel Yerga, por todo o apoio e amor que demonstraram ao longo desta e de outras etapas. Ao meu tio Mário Mesquita, à minha tia Fernanda Rodrigues, ao meu primo Duarte Mesquita e ao meu sobrinho de coração Rodrigo, pelo carinho e amizade. À minha tia Eduarda Costa e respetiva família, pelos incentivos para lutar pelo meu sonho de ser jornalista. À minha mãe, pelo apoio incondicional, pelo carinho, amor, força e motivação que me transmitiu e que me levou a concluir este ciclo de estudos e por todos os ensinamentos que me incutiu ao longo de toda a minha vida. Obrigada! v DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. vi Os comentários às notícias publicadas no Facebook e respetivo impacto nos jornalistas: o caso do Público Resumo A Internet e, por conseguinte, as redes sociais têm uma função cada vez mais preponderante na forma como a população recebe e consome a informação. As notícias, que deixaram de estar só no papel para estarem também nos nossos dispositivos móveis – como computadores, smartphones e tablets –, chegam agora a qualquer pessoa, em qualquer lugar e a qualquer hora. Mais que isso, os cidadãos acabam por participar no processo noticioso, uma vez que são livres de fazer comentários nos websites dos órgãos de comunicação social e nas respetivas redes sociais. O Facebook é, talvez, o maior exemplo de uma plataforma online que faz com que os cidadãos assumam um papel mais ativo no processo informativo. Neste sentido, este trabalho debruça-se sobre o tipo de comentários que se podem encontrar nesta mesma rede social e sobre o modo como estes são encarados por parte dos jornalistas do Público, local onde foi realizado o estágio curricular de três meses. Para tentar perceber todo este ambiente, foram analisados os 10 primeiros comentários às notícias publicadas no Facebook pelos jornalistas do Público durante os primeiros cinco dias dos meses de setembro, outubro e novembro de 2019, sem contar com fins de semana e feriados, uma vez que não têm o mesmo tipo de consumo que as notícias publicadas à semana. Depois de uma análise de conteúdo quantitativa aos comentários recolhidos, foi realizado e analisado um questionário, que foi previamente aplicado aos jornalistas do Público – das redações do Porto e de Lisboa – para avaliar as suas perceções relativamente aos comentários que são feitos nesta rede social e para entender o impacto que estes podem ter na notícia e no próprio jornalista. As conclusões mostram que os comentários feitos às notícias publicadas no Facebook pelo Público apresentam um cariz negativo e têm como alvo as próprias notícias, sobretudo os artigos de Política, Desporto e Sociedade. Embora muitos dos jornalistas tenham uma perceção positiva das opiniões dos leitores no Facebook, mais de metade dos inquiridos apresenta uma perceção negativa dos comentários publicados. Palavras-chave: Comentários de notícias, Facebook, Jornalismo online, Jornalistas, Redes sociais vii Comments on the news published on Facebook and its impact on journalists: The case of Público Abstract The Internet and, therefore, social networks play an increasingly prominent role in the way people receive and consume information. The news, no longer just on paper but also on our mobile devices – such as computers, smartphones and tablets – reach now anyone, anywhere, anytime. Moreover, citizens end up participating in the process of the news, as they are free to comment on the websites of the media and their social networks. Facebook is perhaps the greatest example of an online platform that makes citizens take a more active role in the information process. In this sense, this investigation will look into the kind of comments that can be found on this same social network and how these are viewed by the journalists of Público, where the threemonth curricular internship was held. To try to understand this environment, were analyzed the first 10 comments on Facebook news published by Público journalists during the first five days of september, october and november of 2019, not including weekends and holidays, since they don't have the same kind of consumption as the weekly news. After a quantitative content analysis of the collected sample, a questionnaire was conducted and analyzed, which was previously applied to Público journalists – from the newsrooms of Porto and Lisbon – to evaluate their perceptions regarding the comments that are made in this social network and to understand the impact these may have on the news and on the journalist himself. The conclusions show that the comments made on the news published on Facebook by Público are negative and target the news itself, especially the articles on politics, sport and society. Although many journalists have a positive perception of readers' views on Facebook, more than half of the respondents have a negative perception of the published comments. Keywords: Facebook, Journalists, News commentary, Online journalism, Social networks 3 Parte I – A experiência de Estágio curricular no Jornal Público 1. Uma escolha acertada Escrever para o Público foi, desde a minha entrada para a universidade, o meu grande objetivo enquanto profissional. Durante o período de seleção do local de estágio, não hesitei: a minha primeira opção foi o Público. Era uma escolha óbvia: é o jornal que mais leio e o único que assino; é o órgão de comunicação com que mais me identifico; e é um jornal diário português de referência. Assim, continuar o meu percurso jornalístico nesta redação foi a minha melhor escolha. Há toda uma familiaridade na redação, bem como uma grande distinção e sobriedade nos temas que são abordados. É uma grande escola de jornalismo e eu tive sempre o desejo de conhecer os seus bastidores. A oportunidade surgiu e tentei aproveitar ao máximo todos os ensinamentos. 1.1. A empresa A data oficial do surgimento do jornal diário matutino português Público remonta a 1990. Integrando atualmente a sub-holding da Sonae para as áreas da comunicação – Sonaecom –, o primeiro número do Público saiu para as bancas a 5 de março de 1990 com um Estatuto Editorial que ainda se encontra em vigor. Assumidamente europeísta, o jornal associou-se, desde o início, a publicações como as do El País , La Repubblica e Le Monde , assim como do New York Times ou do Washington Post , sendo considerado um dos jornais de referência em Portugal. Desde a data do seu primeiro lançamento que o jornal Público, generalista e de âmbito nacional, defende ser “orientado por critérios de rigor e criatividade editorial, sem qualquer dependência de ordem ideológica, política e económica” (Estatuto Editorial do Público, 1989, segundo parágrafo 1 ). Continua a ser um jornal diário, apesar de ter perdido alguns suplementos e de ter remodelado algumas secções. Atualmente, para além do jornal diário (P1), existem quatro suplementos físicos, nomeadamente o P2, o Ípsilon, o Culto e a Fugas. Com uma nova direção, constituída após a demissão da equipa de David Dinis, o Público, representado por Amílcar Correia, Ana Sá Lopes, David Pontes e Tiago Luz Pedro, revela-se “um jornal independente de todos os poderes”, “a par das mudanças e dos desafios do país”, bem como “um jornal livre, inconformista, irreverente e crítico”, “empenhado em promover os valores do seu estatuto editorial” (Direção Editorial, 2018). 1 https://www.publico.pt/nos/estatuto-editorial. 4 O jornal apresenta duas edições distintas – uma no Porto e outra em Lisboa. Contudo, as secções em que este se divide são as mesmas: Política, Sociedade, Local, Economia, Mundo, Ciência, Cultura e Desporto. Acrescente-se a esta lista o “Destaque” diário, espaço notável pela atualidade do tema, pela profundidade com que é trabalhado, podendo-se encontrar nas primeiras páginas da publicação e em formato de reportagem, opinião e entrevistas. O caderno diário do Público abrange ainda o Espaço Público (que inclui crónicas, editoriais, colunas de opinião e cartas dos leitores) e os Classificados. Logo a seguir aos Classificados, há um espaço dedicado à agenda cultural (que agrega outras informações úteis, como a previsão meteorológica e a lista de farmácias de serviço do dia), dividido em duas partes: “Ficar” e “Sair”. O primeiro junta essencialmente a programação televisiva, dando destaque a determinados filmes, documentários ou programas. O segundo pretende informar o leitor sobre os horários das sessões de cinema, teatro ou dança, de concertos ou exposições, e alia ainda a avaliação dos filmes mais recentes – em sistema de estrelas (i.e., uma estrela para um filme fraco, cinco estrelas para um filme excelente) –, feita pelos críticos do Público. Na última página deste segmento há também jogos de palavras cruzadas ou de sudoku. O jornal tem um custo de 1,20 euros (de segunda a quinta-feira) e de 1,70 euros (sexta-feira, sábado e domingo). O jornal, marcado pelo ciclo noticioso, apresenta alguns suplementos específicos. Às sextasfeiras, lançam-se o Inimigo Público, que tem redação independente e visa fazer uma sátira à atualidade, e o Ípsilon, um suplemento cultural que complementa a secção de Cultura do Público. A revista Fugas, dedicada ao lazer e às viagens, sai aos sábados, apesar de funcionar online durante a semana, e o P2 sai aos domingos, juntando os textos de leitura mais longa, como reportagens e ensaios. Também a revista Culto sai aos domingos, mas com enfoque em temas sociais ou de lifestyle . Na era da digitalização e num mundo que escolhe, cada vez mais, o online como forma de consumo mediático, o website do Público apresenta ao leitor todos os artigos que são publicados no jornal, assim como artigos exclusivos, mais concretamente galerias fotográficas, podcasts e peças multimédia, apesar de esta leitura se fazer mediante uma assinatura. Apostando cada vez mais no audiovisual, também a aplicação para smartphones do Público permite o acesso a todos estes conteúdos. Neste âmbito, o “Público.pt” tenta adaptar-se aos novos formatos tecnológicos através de conteúdos novos e melhorados. O P3, projeto que se mantém apenas no online, tem em conta um público-alvo específico: os jovens. 5 Até há pouco tempo, o jornal contava com um Provedor do Leitor, cargo que visava, por um lado, disponibilizar ao leitor a figura de “um interlocutor permanente, independente e responsável pela defesa dos seus direitos”, como se pode ler no “Estatuto do Provedor do Leitor do Público” (Livro de Estilo do Público, 1997, primeiro parágrafo) e, por outro, “constituir para os jornalistas do Público uma instância crítica do seu trabalho à luz das normas deontológicas que regem a profissão”, continua o documento. De acordo com este estatuto (1997), o provedor deveria ser “uma pessoa de reconhecido prestígio, credibilidade e integridade pessoal e profissional, cuja atividade principal tenha estado nos últimos cinco anos relacionada com a problemática dos média, de preferência enquanto jornalista” (Livro de Estilo do Público, 1997, sexto parágrafo). O último provedor do Público foi o professor José Paquete de Oliveira. Depois da sua morte, em Junho de 2016, o jornal não lhe arranjou sucessor e o cargo ficou até hoje por ocupar. 1.2. O percurso histórico O ano de 1990 foi marcante para a história da imprensa em Portugal. A 5 de março desse ano, depois de meses de preparação, é publicada a primeira edição do Público. Na capa, o destaque foi para Álvaro Cunhal e para a sua sucessão no PCP, havendo espaço para se fazer referência ao clássico entre o Futebol Clube do Porto e o Sporting Clube de Portugal, que ocorrera no dia anterior. O objetivo desta redação, com nomes consagrados do jornalismo português, era revolucionar o panorama da época e fazer um jornal capaz de estar à altura dos principais títulos internacionais. José Vítor Malheiros, um dos fundadores do Público, descreve da seguinte forma o panorama cultural que se vivia em Portugal aquando da fundação deste jornal e dos objetivos dos jornalistas que, no final dos anos 80, começaram a preparar um novo diário: O jornalismo tradicional [em Portugal] estava então muito marcado pela escola d’ “O Século” que tinha uma evidente qualidade literária (se bem que não só no bom sentido) e onde era visível a influência cultural do Estado Novo. A cultura dominante – com naturais exceções – era de um ‘jornalismo de secretariado’, onde as insuficiências técnicas dos jornalistas eram evidentes em várias áreas (...). Nós queríamos um jornalismo que fosse mais profissional e rigoroso na escrita, sem perder a qualidade literária. Mais anglo-saxónico, criativo, moderno, aberto e profundo, atrevido e interventivo (Malheiros, citado em Rebelo, 2011, pp.595-596). 6 Segundo Malheiros, o projeto surgiu de uma proposta feita por Vicente Jorge Silva, primeiro diretor do Público e antigo coordenador da edição da Revista – suplemento do Expresso – juntamente com um grupo de jornalistas deste mesmo semanário, que queriam fundar um novo jornal diário. Primeiramente, foi feita a proposta a Francisco Pinto Balsemão, diretor do semanário, que não quis levar a cabo a ideia, pois “havia uma grande agitação nessa altura no panorama mediático português por causa das televisões privadas que estavam a aparecer” (Malheiros, citado em Rebelo, 2011, p.595). Já Belmiro de Azevedo gostou da ideia, tendo em conta que almejava ser proprietário de um grande grupo mediático. Não obstante, “os contactos com a Sonae foram prudentes de início, com algum receio de que o empresário estivesse, sobretudo, interessado em criar um órgão de propaganda. Mas os objetivos de uns e de outros revelaram-se compatíveis” (Malheiros, citado em Rebelo, 2011, p.595). Estava tudo pronto para ser lançado o projeto. Meses antes do lançamento do Público, numa carta assinada por Belmiro de Azevedo, a equipa fundadora assumia o desafio de criar um jornal diário que levasse ao leitor informação moderna e de qualidade. O presidente da Sonae queria intervir na paisagem mediática portuguesa e, como tal, recorreu a uma tecnologia de ponta e contratou conceituados profissionais. A equipa fundadora do Público era constituída pelos jornalistas Vicente Jorge Silva, Joaquim Fidalgo, Jorge Wemans, José Manuel Fernandes, Nuno Pacheco, José Vítor Malheiros, José Queirós e Augusto M. Seabra, além do designer Henrique Cayate. Mas não foram apenas os jornalistas já renomados que formaram a nova redação do jornal. A equipa decidiu colocar anúncios em diversos jornais “à procura de jornalistas que aliassem conhecimentos técnicos a abordagens criativas” (Malheiros, citado em Rebelo, 2011, p.596). Do concurso nacional, que contou com 500 candidaturas, foram selecionados 50 estagiários, que frequentaram uma formação de seis meses, estabelecida pelo jornal, dos quais mais de metade foram recrutados posteriormente. No que concerne às suas publicações, o Público destacou-se quer pelo conteúdo, quer pela apresentação gráfica. Apresentando-se em formato tabloide, o jornal introduziu a cor na primeira página e distinguiu-se por fazer uma cobertura jornalística mais aprofundada dos acontecimentos, tendo sido o primeiro jornal a ter duas edições diferentes – uma no Porto e outra em Lisboa. Nos primeiros anos, o jornal conseguiu sempre aumentar a sua média anual de vendas em banca, passando dos 33 mil exemplares, em 1990, para 59 mil, número que obteve em 1994, e 7 que é até hoje a melhor média do jornal (Nobre, 2015). O ano de 1994 foi, por exemplo, um bom ano para o Público, que obteve lucros de mais de 130 mil contos. Contudo, em 1995, chegaram os prejuízos, nomeadamente devido à crise da publicidade na imprensa, ao aparecimento das estações de TV privadas e ao facto de o jornal, nas eleições de 1995, se ter inclinado para o lado socialista. Nesta altura, gerou-se um conflito entre os responsáveis editoriais e os acionistas, o que levou, seguidamente, à saída de Vicente Jorge Silva do jornal, em 1996. Nicolau Santos foi o seu sucessor na direção, mas só esteve à frente do jornal durante um ano. Mas, ainda antes da saída de Vicente Jorge Silva, o jornal criou o “Público.pt”, um site informativo online que contava com o trabalho de alguns jornalistas dedicados exclusivamente aos conteúdos digitais. Este projeto começou por ser independente, mas acabou por se integrar na empresa em Janeiro de 2006 (Malheiros, citado em Rebelo, 2011). Após a saída de Nicolau Santos, Francisco Sarsfield Cabral foi escolhido para diretor do jornal, cargo exercido entre dezembro de 1997 e março de 1998. Depois dele, José Manuel Fernandes, um dos fundadores do jornal, assumiu os destinos do Público até 2009. Durante esse período, o jornal conheceu períodos financeiramente positivos, apesar de ter ficado conotado com uma suposta ligação à direita política. Após algumas polémicas políticas, José Manuel Fernandes decidiu abandonar o cargo, sendo substituído por Bárbara Reis, que assumiu funções no dia 1 de novembro de 2009. A antiga editora do Público queria repor a credibilidade do projeto e conseguiu-o, de certa forma. Porém, vivenciou uma das situações mais difíceis no jornal: o despedimento coletivo de 48 trabalhadores (dos quais 36 jornalistas), em 2012. A medida foi na altura justificada pela administração, que pretendia garantir a sustentabilidade do diário. No final de 2013, apesar dos bons resultados, uma outra ameaça de despedimento coletivo pairou sobre a redação. Entretanto, em maio de 2016, depois de sete anos à frente do Público, Bárbara Reis anunciou que iria abandonar o cargo. O seu sucessor foi David Dinis, que assumiu o cargo de diretor do jornal no início de outubro de 2016. No entanto, na sequência do despedimento, por parte da administração, do diretor-adjunto Diogo Queiroz de Andrade, também David Dinis abdicou desta função em 2018 (Público, 2018a). Manuel Carvalho é, no tempo de escrita deste relatório, o novo e atual sucessor, contando com o apoio dos diretores-adjuntos Amílcar Correia, Ana Sá Lopes, David Pontes e Tiago Luz Pedro. Nascido em Alijó em 1965, Manuel Carvalho fez parte do grupo de estagiários que integraram a primeira redação do Público no final de 1989, tendo trabalhado na década seguinte na área da Economia. Antes disso, foi professor do ensino básico durante dois anos. Também trabalhou no Diário Económico, como repórter. Foi jornalista 8 fundador do Público, na secção de Economia, e subdiretor e diretor-adjunto entre 2000 e 2012, nas direções de José Manuel Fernandes e Bárbara Reis. Foi também redator principal nas instalações do Porto (Público, 2018a). 1.3. Prémios, Concorrência e Vendas Hoje, assiste-se a uma consolidação da Internet, sendo esta uma das principais fontes de informação. A Internet surge como uma forma de superar certas dificuldades sentidas pelos órgãos de comunicação, mais concretamente os custos associados à produção e à distribuição. Com efeito, os novos meios de distribuição de notícias revelam-se uma oportunidade para os média, possibilitando uma atualização e divulgação noticiosa mais célere. Além disso, trouxe novas linguagens e competências, que fazem com que a informação coabite quer em meios tradicionais, quer nos novos meios (Jerónimo, 2015). Segundo a informação disponibilizada pelos Relatórios de Contas dos grupos mediáticos portugueses, por exemplo, o jornal Público, entre 2007 e 2015, viu o seu volume de negócios diminuir 55%. Não obstante, a diminuição da circulação em papel não significa que os indivíduos consumam menos notícias. Pelo contrário, a exposição a conteúdos noticiosos tem aumentado, sendo a Internet uma das razões para tal. No entanto, nem sempre as empresas alcançam a devida remuneração pela distribuição deste produto e, mesmo com publicidade nos sites dos títulos informativos, o seu valor é menor do que na publicidade no papel de outrora. Tal significa que ainda “é o papel que paga os produtos informativos”, apesar de o futuro estar no digital (Silva, 2018). De acordo com Pereira (2019), a imprensa continua a vender mais em papel do que no online. No caso do jornal Público, as vendas subiram e os assinantes digitais aproximaram-se dos compradores em banca. Entre janeiro e abril de 2019, o Público vendeu, nas bancas, uma média de 13.639 exemplares por edição, o que representa uma subida de 9% relativamente aos mesmos meses de 2018. Já na plataforma digital, o jornal registou 12.728 assinantes, um aumento de 11%. Também em abril de 2019, o jornal passou a disponibilizar conteúdos online exclusivos para assinantes. Ora, o Público continua a ser o único jornal generalista a apresentar um saldo positivo com o crescimento de 13,9% na circulação digital paga. O saldo final é uma circulação total paga de 30.101, que representa um crescimento de 4,4% relativamente aos 28.845 que o diário da Sonaecom registava nos primeiros dois meses de 2018 (Durães, 2019). 9 Em 2018, o Público continuou a executar a sua estratégia digital, reforçando as suas competências digitais e a presença em plataformas online. Desde logo, foi reconhecido, entre outros, pela SDN (Society for News Design) que já lhe atribuiu três Prémios de Excelência a capas do Ípsilon, um prémio de Jornal Nacional diário do ano e um Prémio de Ouro de melhor capa. O Observatório de Ciberjornalismo, por sua vez, também distinguiu o Público, atribuindo um Prémio de Excelência ao seu website . Além disso, o desempenho positivo das receitas de subscrição online e dos conteúdos, aliados a uma nova metodologia de registo de custos de distribuição, traduziram-se num crescimento de 4,0% no total das receitas, quando comparadas com 2017 (Sonaecom, 2018). 1.4. A Sonaecom e a relação com outros grupos de comunicação Durante o exercício de 2013, ocorreu uma operação de fusão por incorporação da Optimus SGPS, S.A., na Zon Multimédia – Serviços de Telecomunicações e Multimédia, SGPS, S.A., tendo o segmento de telecomunicações do grupo Sonaecom sido classificado como uma unidade operacional descontinuada. Desta forma, atualmente, os negócios do grupo consistem nas seguintes atividades: multimédia e consultoria em sistemas de informação. Na área da multimédia, destaque para o Público, um jornal diário que se encontra na quarta posição entre os jornais diários, no que diz respeito à circulação. É líder online e registou, em 2015, uma média mensal de 1,6 milhões de visitantes. Difunde a sua informação em distintas plataformas: imprensa, Internet e telemóvel (Martins, 2015). No entanto, mesmo um jornal com esta importância acaba por “sofrer” com as crises do jornalismo, mais propriamente do jornalismo impresso. De acordo com dados do INE de 2016, tratados pela Pordata 2 , assistiu-se a um decréscimo da venda de jornais e revistas na ordem dos 17,6%. De modo a lutar contra esta quebra, o jornal tem dedicado mais atenção à internet e tem-se distinguido no online. O panorama dos jornais impressos, embora distante dos níveis apresentados noutros tempos, dá sinais de uma ligeira recuperação. Para além de apresentar métricas elevadas nas redes sociais – trata-se de um jornal com mais de um milhão de seguidores no Facebook e cerca de 690 mil no Twitter –, em fevereiro de 2018, uma notícia publicada no jornal deu conta de que o Público “foi o único diário generalista 2 https://www.pordata.pt/Portugal/Jornais+e+outras+publica%C3%A7%C3%B5es+peri%C3%B3dicas+edi%C3%A7%C3%B5es++tiragem++circula%C3 %A7%C3%A3o+e+exemplares+vendidos-402. 10 português que conseguiu aumentar as vendas em relação a 2016, com um crescimento na ordem dos 7% no total da circulação paga”, segundo dados da APCT – Associação Portuguesa do Controlo de Tiragens (Público, 2018b). A este fator junta-se a maior presença no online: “vendas do Público crescem e assinaturas online superam compras em banca”. Em maio de 2019, as linhas das vendas em banca e das assinaturas online cruzaram-se. Nesse mesmo mês, o Público vendeu uma média de 13.905 exemplares por edição (face a 13.652 em janeiro e 12.440 em maio de 2018) e somou 14.282 assinantes digitais (eram 12.792 em janeiro). Em junho, as vendas em banca eram de 13.888 exemplares por edição, ao passo que na Internet as assinaturas subiram para 14.909 (Pereira, 2019). Não é fácil estimar o número de assinantes online de todos os jornais portugueses, mas números divulgados em agosto de 2018 pela ACPT não são animadores. Aliás, “na soma dos cinco jornais generalistas auditados pela associação, a circulação paga digital regista um crescimento de apenas 1,5%, comparando os períodos de janeiro a agosto de 2017 e 2018” (Durães, 2008, S/P). 1.5. Contexto de imprensa em crise Os jornais têm vindo a ser um dos principais alvos no que diz respeito aos efeitos do avanço tecnológico. Atualmente, com o uso massificado da Internet, os jornais estão a ver-se obrigados a reinventarem-se (Alcadipani, 2007). Assim, “os novos produtos em formato digital” influenciam o setor da imprensa tradicional e traduzem-se em “agentes de mudança incremental e inovação radical e disruptiva”, uma vez que interferem nas lógicas de uso e consumo de notícias (Quintanilha, 2018, p.138). Efetivamente, assiste-se a uma mudança tecnológica no setor da imprensa escrita e no seu segmento em papel, pois, ao longo do tempo, as vendas de jornais no formato físico têm diminuído. Vivemos, portanto, na “era da híper-informação e do imediatismo online, e em função da forte migração dos públicos de notícias para os formatos online sustentados no multiformato, policentralidade e participação” (Queuniet, citado em Quintanilha, 2018, p.138). A leitura de jornais pagos e respetivas receitas estão em declínio nos países ocidentais. Para além disso, os utilizadores da Internet e das plataformas digitais não estão propriamente 11 dispostos a pagar por notícias, tendo em conta que, com a migração dos públicos para o digital, o consumo noticioso passou a implicar gratuitidade, negligenciando igualmente o formato físico. Tal obriga o setor da imprensa a reduzir os custos associados à produção noticiosa no formato tradicional, investindo-se, em simultâneo, em plataformas de produção e disseminação de notícias, que podem não ter perspetivas de viabilidade (Quintanilha, 2018). De acordo com Quintas et al. (2017), excetuando a ZON/Optimus e a Sonaecom, todos os grupos de comunicação social apresentam quedas no seu volume de negócios em 2013 face ao ano anterior. Conforme os dados do relatório do Banco de Portugal (citado em Quintas et al., 2017), os grupos de comunicação social atuam, cada vez mais, a nível transnacional, seja em termos de produção, seja em termos de criação e difusão de conteúdos, numa lógica de integração vertical, fomentada pelo desenvolvimento digital, que permite a exploração da interatividade entre consumidores, canais de difusão e fornecedores de conteúdos e publicidade. Além disso, esses mesmos conteúdos são transmitidos através de uma variedade de plataformas de distribuição. Esta solução visa responder à crise financeira e aos desafios que se têm colocado ao setor, nomeadamente na tentativa de satisfazer consumidores e publicitários (Quintas et al., 2017). 12 2. O estágio Inserido no plano curricular da vertente profissionalizante do mestrado em Ciências da Comunicação, o estágio que me foi proporcionado pela Universidade do Minho teve a duração de três meses. É deveras importante, tendo em consideração que, para muitos, é o primeiro contacto que se estabelece entre o mercado de trabalho e o aluno. Apesar de esse não ter sido o meu caso – graças às atividades extracurriculares que desenvolvi e aos dois anos de experiência profissional vividos antes do mestrado – esta foi uma vivência encarada como uma grande escola. Cresci profissionalmente e pude realizar um dos meus objetivos: o de estagiar naquele que é, para mim, o jornal português de referência. Assim, adquiri uma postura mais profissional e fui capaz de desenvolver, ainda mais, a minha capacidade crítica. O estágio teve início no dia 2 de julho de 2019, tendo sido acolhida pela secretária de redação Lucinda Vasconcelos, bem como pelo meu orientador de estágio na empresa David Pontes. Não obstante, os editores das várias secções também me iam dando trabalho e assistindo à minha evolução. Desde logo, a editora do Local (que está em Lisboa, mas com quem ia mantendo o contacto via chamada telefónica ou via correio eletrónico), Ana Fernandes; os editores da Fugas Sandra Costa e Luís Santos (Porto e Lisboa, respetivamente); e as subeditoras do P3, Ana Maria Henriques e Amanda Ribeiro fizeram-me sentir em casa, acompanharam-me ao longo dos três meses e foram sempre correspondendo à minha ânsia de trabalho, dando-me mais responsabilidade. A estes jornalistas estou muito grata, assim como a outros editores para quem escrevi, bem como aos meus colegas que se prontificaram para me ajudar sempre que eu precisei. Durante este período de acompanhamento, aprendi bastante sobre as normas de escrita do jornal e sobre como evitar certas redundâncias. Embora estivesse destinada à secção Local que, devido ao seu amplo carácter, alberga diferentes temas, podia facilmente cair noutras. Feitos os contactos e terminada a redação, faltava apenas o feedback: de todas as fases, talvez tenha sido a mais importante e útil. Com a ajuda de jornalistas experientes, o estagiário aprende, reavalia e questiona o que escreveu e a forma como o fez. Com esta revisão, feita antes de a notícia ser visualizada pelo editor da secção – normalmente pelo Abel Coentrão, mas também pela Mariana Correia Pinto e pelo Álvaro Vieira –, senti que passei a cometer menos erros e refletir sobre o modo como poderia passar as minhas ideias para o papel. O primeiro dia de estágio resultou logo em duas notícias, publicadas no dia seguinte no jornal impresso – “Maia recicla mais de cem toneladas de têxteis em meio ano” e “PSP apreende uma 19 No total, escrevi 130 peças, 90 das quais online (aproximadamente). Em média, consegui escrever duas notícias por dia. 2.3. As agências de comunicação ao serviço dos média Embora tenha noção da importância do papel das agências de notícias, como a Lusa ou a Reuters, vi essa relevância bem de perto na atividade de uma redação, em qualquer uma das secções. Como trabalhei essencialmente no Local, não pude deixar de reparar que os takes da Lusa são muito utilizados nesta secção. Por norma, na edição impressa do Porto, o Local tem duas páginas. Seria de esperar que houvesse mais espaço para as notícias locais. Contudo, muitas vezes, a secção poderia ser composta por uma abertura feita por um jornalista do Público e a segunda página ter um ou dois takes da Lusa e nada mais. É exemplo disso a página que se segue à notícia que escrevi sobre a estreia de aluguer de trotinetas da Circ à hora ou por um dia (anexo IX). Fui, por diversas vezes, contactada quer pelos editores online, quer pela editora do Local para ver se havia alguma notícia na Lusa que interessasse para o jornal. Por vezes, surgiam takes relevantes, que dificilmente se transformavam em reportagem. Pediam-me então para utilizar, de forma integral, o texto, isto é, tal como estava no take da Lusa, bastando copiar, corrigir (mudar para o antigo acordo ortográfico – acordo utilizado no Público) e colar no BackOffice do jornal. Embora não seja o caso do Público, é cada vez mais frequente o uso de “noticiário oriundo de agências noticiosas ou da ‘grande imprensa’ do que “trabalho jornalístico próprio”, como “reportagem ou investigação” (Fidalgo, 2006, p.82). E, tendo em consideração os poucos recursos de alguns periódicos, é normal que aconteçam, frequentemente, situações deste género. Contudo, há já “projetos que canalizam para eles jornalistas experientes e muito qualificados, não se ficando pelo recurso a mão-de-obra barata a quem pouco mais se exige do que o adequado manuseio de takes das agências noticiosas” (Fidalgo, 2006, p.84). Esta ação de recorrer às agências noticiosas, nomeadamente à Lusa, intensificou-se nas eleições legislativas de 2019. Embora, como redatora da secção Local, não tenha sido responsável pela cobertura destas eleições – essa tarefa ficou a cargo da secção de Política – lembro-me que foram várias as vezes em que os takes da Lusa foram utilizados 14 . Isto, porque, os jornalistas 14 https://www.publico.pt/2019/09/14/politica/noticia/antonio-costa-alerta-legislativas-nao-ganham-sondagens-1886617. 20 não podem estar em todos os lugares em simultâneo. É aceitável e compreensível o papel de uma agência noticiosa nestas circunstâncias. No entanto, creio que para situações mais comuns, não se deveria recorrer tanto ao trabalho enviado pelas agências. E creio, por um lado, que este foi dos aspetos menos positivos do meu estágio. Por outro lado, o estágio obrigou-me a trabalhar a construção de títulos, algo extremamente positivo para a minha formação enquanto aspirante a jornalista. Apesar de as universidades incentivarem os alunos a fazer títulos simples e informativos, a verdade é que nunca me senti confortável e confiante com o que propunha. Aliás, foram várias as vezes em que, no Público, me vi forçada a alterar o título. Com o tempo, comecei a conseguir criar títulos mais criativos, sem deixarem de ser informativos e objetivos. A muito devo esta aprendizagem ao P3. 2.4. O processo de construção da notícia Todos os dias, os editores (no geral) têm acesso a inúmeros eventos que lhes são apresentados em press releases , em takes das agências noticiosas, em jornais, na Internet, enfim, num sem número de plataformas. Estes eventos poderiam tornar-se histórias, mas nem todos acabam publicados nos jornais ou na Internet (Schultz, 2007). Tentando explicar esta seleção noticiosa, Ribeiro (2013, p.26) afirma que “as notícias não são um espelho da realidade”. Pelo contrário, “as notícias procedem a uma reconstrução da realidade”. Assim, perante esta situação, há uma função inerente ao jornalista: Estabelecido um mínimo, haverá gradações, mas poder-se-á dizer que um jornalista cumpre a sua parte da promessa implícita ao papel que lhe é atribuído tanto melhor quanto mais se mantiver fiel à busca da comprovação dos factos que escolhe e à adequação das qualificações que lhe atribui (Correia, 2009, p.22). É claro que depois existe um conjunto de critérios de noticiabilidade – já conhecido por muitos – que deve ser respeitado. Desde logo, a novidade, a atualidade, a proximidade (de tempo e espaço), a relevância, a conflitualidade, o ineditismo, a notoriedade dos protagonistas e a adequação ao jornal. Além disso, e acima de tudo, a notícia deve ser verdade. E é por aqui que começa a construção da mesma. Durante o meu estágio, apesar de não ter escolhido sempre o tema a desenvolver, alguém o fez por mim, precisamente com estes critérios e numa adequação à secção da própria notícia. 21 Posteriormente, e depois de me serem enviados alguns dados, que podem ser press releases , emails com alguma informação, e ainda tópicos (que deveria pesquisar e desenvolver), é tempo de contactar as fontes e tentar perceber o assunto em questão. E esta parte é fundamental: mesmo que saibamos aquilo que estamos a dizer e a escrever, é sempre importante ter declarações das pessoas por detrás do projeto ou temática noticiada. Entra aqui também o Princípio do Contraditório, pois devemos ouvir todas as fontes envolvidas no processo – algo fundamental no jornalismo. Segue-se, após contacto com a fonte, o processo de escrever o que foi ouvido e/ou gravado e de selecionar, posteriormente, a informação relevante para a notícia. Esta talvez seja a fase mais complexa, pois temos de pensar em tudo e mais alguma coisa: no que queremos salientar e destacar, no que o leitor quer ver noticiado e no próprio projeto editorial do jornal. Selecionada a informação, é tempo de escrever e pôr em ordem as ideias. Segue-se, então, uma lógica jornalística, em que o mais importante vem sempre primeiro, tentando responder logo de imediato às seguintes questões: Quem?, Onde?, Quando?, O quê? e Porquê? (respeitando o lead, isto é, a pirâmide invertida). No jornal Público, após ser escrita a notícia, deve ser feita uma entrada e, claro, um título. Este último, como já mencionei, deve aliar a criatividade à objetividade. A entrada, por sua vez, deve ir direta ao assunto. O que notei nesta fase é que é difícil não repetirmos ideias e/ou expressões. Após estarem prontas as notícias (eu escrevia-as em word ), colocava-as no BackOffice, software interno do jornal Público, que requeria imagem (do banco de imagens ou tirada especificamente para a peça), título, entrada, corpo de texto, tags (que levassem o leitor a navegar por outras notícias ou websites dentro do tema em questão), relacionados (notícias publicadas anteriormente sobre o assunto) e autor. Todas as peças eram colocadas nesta plataforma, mas não publicadas. Eram, primeiramente, revistas pela editora da secção ou, na sua ausência, por outro jornalista que o pudesse fazer. Após a edição, era ocasionalmente dito o que poderia ser melhorado na escrita ou se as edições estavam ou não de acordo com o que era previsto. 2.5. A participação do cidadão Nos dias que correm, o jornalismo tem apresentado um interesse específico nas contribuições que as pessoas podem fazer relativamente às rotinas jornalísticas. Tendo em conta o desenvolvimento das novas tecnologias, os média têm desenvolvido estratégias para que todos 22 possam contribuir, independentemente do formato utlizado. As pessoas são, assim, convidadas a participar nas diversas temáticas mediáticas, através do telemóvel e de outras ferramentas digitais (Ribeiro, 2012). É o caso do jornal Público, que se tem vindo a impor cada vez mais no online. Presente em variadas redes sociais – e através, essencialmente, das contas do Público, da Fugas e do P3 – como o Facebook, o Instagram, o Twitter e o LinkedIn, este órgão de comunicação convida os leitores a participar nas discussões, sejam elas notícias, questionários, quizz ou sondagens. Para começar, cada jornalista possui uma conta de e-mail, que pode ser consultada no site , e para a qual qualquer pessoa com interesse nas matérias noticiadas pode mandar mensagem. Por norma, e sempre que o conteúdo dessas mensagens seja pertinente, o jornalista responde, tentando sempre atender às considerações da pessoa. Aliás, há uma ferramenta no website do Público que permite mesmo que os leitores sugiram correções para os artigos. A título de exemplo, durante o meu estágio escrevi uma notícia sobre suricatas no jardim zoológico de Lisboa, mas enganei-me no número de crias desta espécie que já se encontravam no local – o número verdadeiro destas estava no parágrafo seguinte. Este lapso passou também ao meu editor, tendo a notícia sido publicada de forma incorreta. Passado pouco tempo, surgiram os comentários, quer nas redes sociais, quer nas sugestões feitas ao jornalista. Tratámos logo de corrigir a informação. Como é política no jornal, deve sempre responder-se ao leitor e da melhor forma possível – como me explicou o editor da Fugas Luís Santos. Assim, foi esta a nossa resposta: “Boa tarde. Tem toda a razão! Mas a falha aqui foi até uma troca de parágrafos, já que essa informação, entretanto corrigida, refere-se, na verdade, ao bloco de texto sobre os suricatas adultos do Zoo de Lisboa e não às novas crias. Gratos pela chamada de atenção. Bom fim de semana!”. Assim, sempre que é pertinente, como o foi neste caso, os comentários têm sempre uma resposta do Público, que agradece toda e qualquer sugestão. O P3, por sua vez, vai mais além e aceita sugestões dos leitores para melhorar e acrescentar algo à própria notícia. Numa outra notícia que escrevi sobre cineclubes e sobre cinema ao ar livre 15 , e tendo em consideração que não temos uma lista completa de todos os cineclubes que existem em Portugal, deixámos um recado aos leitores na própria notícia: “Outras sessões de cinema ao ar livre promovidas por cineclubes: Envia-nos a tua sugestão para [email protected] e nós acrescentamos à lista”. Ora, perante uma lista de dez cineclubes, fomos acrescentando 15 https://www.publico.pt/2019/07/25/p3/noticia/o-que-queremos-no-verao-ar-livre-e-cinema-gratis-pela-mao-de-cineclubes-1881007. 23 outros tantos que nos foram contactando, dando oportunidade aos cidadãos de participarem, de certa forma, na notícia. Para além do que já foi mencionado, existem os comentários que podem ser feitos nas várias redes sociais, o chat do messenger do Público (e respetivos suplementos), os comentários às notícias e os próprios telefones do jornal. Tendo em conta todas estas ferramentas que permitem ao leitor entrar em contacto com os jornalistas, considerei pertinente analisar a forma como os comentários às notícias, nomeadamente na página do Facebook do Público, podem afetar os jornalistas. 24 Parte II – Apresentação da Problemática e Enquadramento Teórico 1. Apresentação e problemática O jornalismo online trouxe grandes mudanças para os meios de comunicação. Cada medium passou a contar com um espaço permanentemente atualizado na internet, onde a informação chega aos consumidores de notícias em segundos, através de alguns cliques. Com esta migração, digamos assim, dos meios de comunicação para o online, o jornalista passou a ter de comunicar em diversas linguagens e em diversos meios, como as redes sociais. Ora, se a linguagem mudou, também a sua atenção mudou, uma vez que as novas tecnologias vêm dar poder e voz aos leitores, que acabam também por fazer parte de todo o processo noticioso. Perante esta mudança de funções e mesmo de rotinas, importa saber que impacto tem esta participação do cidadão nos jornalistas, mais concretamente os comentários que se podem ler nas redes sociais. A segunda parte deste trabalho, dedicada a uma investigação, pretende saber o efeito das redes sociais e, neste caso em específico, do Facebook, nos jornalistas. Uma das principais características da Internet passa por não ser somente digital, mas também uma rede que abarca a comunicação entre todos os elementos que a constituem. Por conseguinte, percebe-se que, caso os jornalistas optem por controlar unilateralmente o processo informativo, os seus públicos (meros recetores) podem deixar de respeitar este perfil de rede e o próprio papel do jornalista. Isto, porque, numa rede, todos estão conectados (Neto, 2017). Logo, face a esta mudança radical para os jornalistas, importa saber de que forma é que estes profissionais se sentem influenciados pelos cidadãos e por aquilo que se diz no Facebook relativamente às notícias que escrevem. Mais que isso, surge a necessidade de saber o tipo de comentários que são feitos às notícias – e de que modo. Para tal, será apresentada, primeiramente, uma revisão de literatura onde serão abordados temas como o jornalismo online, o papel das redes sociais no jornalismo, a mudança de práticas e rotinas das redações, o Facebook e o funcionamento do mesmo, os comentários às notícias nas redes sociais, a participação dos cidadãos no processo noticioso e a presença do jornal Público no Facebook. Segue-se a definição da pergunta de partida e dos objetivos aos quais se pretende dar resposta. Posteriormente, é apresentada a metodologia que, visando responder à pergunta de partida e aos objetivos formulados, inclui dois momentos de análise: em primeiro lugar, uma análise de 25 conteúdo quantitativa a 349 notícias publicadas pelo Público no Facebook em 2019 e aos respetivos comentários; em segundo lugar, uma análise a um questionário aplicado aos jornalistas do Público, cujo intuito é saber que impactos e efeitos têm estes comentários neles próprios e nos artigos que escrevem. Findo o ponto anterior, serão apresentados e analisados os resultados obtidos, por forma a compreender a importância da participação dos cidadãos no processo noticioso do jornal Público. Finalmente, será explorado um último ponto referente às considerações finais que emergiram deste trabalho, assim como o reconhecimento de algumas limitações encontradas aquando da realização do mesmo e alguns estudos passíveis de serem feitos futuramente face aos resultados obtidos. 26 2. Enquadramento teórico 2.1. O jornalismo online Com o surgimento da internet e das novas tecnologias, assistiu-se a uma mudança na área da comunicação. O jornalismo online assume-se, nos dias de hoje, como uma “forma de convergência dos diversos meios de comunicação” e apresenta-se como um novo modo de produzir e divulgar a informação (Martins, 2013, p.1). A evolução do jornalismo parece estar também intrinsecamente relacionada com o aparecimento das novas tecnologias. Os computadores, os smartphones , os tablets são apenas alguns dos exemplos de tecnologias que vieram alterar “as rotinas de produção noticiosa em diferentes momentos da história do jornalismo” (Canavilhas, 2010, p.2). Mas é a Gutenberg que se atribui todo o mérito, nomeadamente com a invenção da imprensa. Após a popularização da escrita e com a evolução dos tempos, foram desenvolvidas novas técnicas de apresentação e difusão do conhecimento e do conteúdo noticioso. A invenção do computador e, posteriormente, da Internet possibilitou a atual comunicação em rede, assim como a transmissão de informação de forma célere e imediata. Deste modo, dá-se a passagem do analógico para o digital, tal como se observa a passagem da massificação para a individualização (Martins, 2013). Como afirma Salaverría (2015, p.81), “as empresas jornalísticas estão a ser obrigadas a evoluir a partir de um modelo analógico, fortemente condicionado pelo suporte de distribuição, para o digital, onde as regras do jogo e a escala de valores mudaram por completo”. Na última década, as grandes mudanças estiveram ligadas, contudo, ao surgimento da World Wide Web que, apesar de inicialmente ser apenas um “serviço de internet”, veio trazer outros conteúdos e outros browsers mais intuitivos, como o Blogger (1999), o Facebook (2004), o Youtube (2005) e o Twitter (2006). Estas aplicações que “alavancaram o sucesso da web” são também as que os jornalistas mais utilizam no quotidiano. Aliás, algumas delas, mais concretamente as redes sociais, alteraram de forma profunda todo o processo noticioso. Hoje, encontram-se já inseridas nas rotinas desta atividade profissional (Canavilhas, 2010, pp.2-3). O jornalismo deixou, portanto, de ser criado apenas para determinados formatos, passando a incluir todos numa só plataforma, acessível através de um clique. Surge assim, como já foi mencionado, “um novo tipo de jornalismo adaptado ao formato digital, que se divulga através 27 das novas tecnologias, mais precisamente da Internet, ou seja, o denominado jornalismo online” (Martins, 2013, p.5). Desde sempre que o jornalismo tem vindo a depender da tecnologia. Com o objetivo de se destacar publicamente e de chegar às audiências, esta profissão conta com ferramentas tecnológicas para a recolha, edição, produção e divulgação da informação. A tecnologia veio permitir que, no jornalismo, passasse a existir uma rápida transmissão e uma forma mais percetível de informar. Ora, esta atividade tem-se profissionalizado e evoluído nestes moldes, de tal forma que as especializações impressas (como jornais e revistas) concorrem também com a rádio, com a televisão e com o próprio jornalismo multimédia – que emergiu nos primeiros anos do século XXI. O jornalismo online deve ser distinguido, então, “pela sua componente tecnológica enquanto fator determinante em termos de definição (operacional)”. Consequentemente, o próprio jornalista (online) tem que fazer escolhas no que concerne ao tipo de formato ideal para contar determinada história (multimédia), de forma a levar o público a interagir e a identificar-se com o que se está a contar. Mais que isso, é necessário saber ligar o artigo a outras peças jornalísticas, a outros recursos, através de hiperligações ou do chamado hipertexto (usualmente designados links ). Há, como referido na primeira parte deste trabalho de investigação, toda uma série de opções que o jornalista tem de ter em atenção nos dias de hoje (Deuze, 2006, p.17). Considerado o “quarto tipo de jornalismo”, o jornalismo online apresenta quatro características principais: a interatividade, a personalização de conteúdo, a hipertextualidade e a multimedialidade. A interatividade diz respeito ao facto de as notícias online fazerem com que o leitor participe no processo noticioso. Tal pode ser concretizado através de uma troca de e-mails entre o jornalista e o leitor; através da caixa de comentários presente nos sites noticiosos; ou através das redes sociais do órgão de comunicação. Já a personalização traduz-se na adaptação dos conteúdos jornalísticos às necessidades e desejos do leitor, algo que se pode ver, por exemplo, nas newsletters ou no facto de o utilizador poder, atualmente, escolher o que quer ler, selecionando previamente os tópicos que mais lhe interessam (como acontece na app do jornal Público). A hipertextualidade, por seu turno, oferece informação adicional àquela que já é disponibilizada. O hipertexto e os hiperlinks são exemplos desta característica que visa fornecer outros conteúdos noticiosos e/ou fazer com que o leitor tenha acesso a documentos originais, comunicados de imprensa e a outros sites de informação, por exemplo. Por fim, a multimedialidade é a convergência de todos os formatos tradicionais de média, desde logo a 28 imagem, o texto e o som. Desta forma, e perante as características apresentadas, “o jornalismo em rede está a mudar a relação entre jornalistas e público”. Estamos perante uma nova forma de fazer jornalismo que acarreta, consequentemente, uma maior participação por parte das audiências (Bardoel & Deuze, 2001, p.97). Assim, segundo Salaverría (2015, p.81), tal como é necessária uma renovação das organizações jornalísticas, também os seus profissionais “necessitam de uma profunda modernização”. Neste sentido, e como explica Jerónimo (2015, p.41), o papel do jornalista tem vindo a mudar ao longo do tempo, “com novas rotinas de produção a serem adicionadas, enquanto que as antigas vão sendo alteradas ou eliminadas”. Mas, e como aponta o autor, esta adaptação ainda está a decorrer: A caminho das duas décadas de Internet nas redações, a adaptação e a investigação dos cibermédia, do ciberjornalismo e dos ciberjornalistas continua em fase de construção. Um desafio para as empresas, que exploram modelos de negócio, para os ciberjornalistas, que estão a habituar-se às novas linguagens e rotinas de produção, e para os investigadores, que procuram entender o fenómeno de diferentes perspetivas. A tipologia e o design dos cibermédia, os géneros do ciberjornalismo, a arquitetura noticiosa, a narrativa, o jornalismo participativo, as rotinas de produção, a convergência dos média e a evolução do ensino do ciberjornalismo são algumas das abordagens efetuadas nos últimos anos (Jerónimo, 2015, p.43). Tendo em consideração todas estas mudanças, eis alguns aspetos que podem ajudar o jornalista “a renovar-se”: a destreza tecnológica, o tratamento da informação, os meios e as linguagens e os processos editoriais. Com efeito, o primeiro ponto diz respeito ao domínio que o profissional da informação deve ter relativamente às tecnologias, de forma a “obter resultados informativos de qualidade”. Já o segundo ponto relaciona-se com a importância de “selecionar, hierarquizar e interpretar a informação com verdadeiro valor”, de maneira a não dar aso a notícias falsas, por exemplo. O terceiro ponto distingue os vários tipos de jornalismo – “jornalismo impresso, jornalismo radiofónico, webjornalismo” – e dá a entender que, nos dias que correm, os jornalistas devem “esforçar-se por explorar todo este potencial comunicativo”. Finalmente, os processos editoriais abrangem a necessidade de se investir em novas rotinas e novos fluxos de trabalho e de se “organizar o trabalho editorial de modo diferente” como, por exemplo, orientando as equipas “de um modo eficiente” (Salaverría, 2015, pp.82-83). 35 Perante o facto de as tecnologias digitais de comunicação estarem mais interativas e instantâneas, há todo um cenário que está, consequentemente, mais predisposto para a circulação de conteúdos e para a ocorrência de discussões sobre as questões públicas (Barros & Carreiro, 2015). De um modo geral, a partilha de opiniões sobre o consumo de notícias sempre foi possível, mas ganhou especial expressão com a consolidação de novas plataformas, como é exemplo o Facebook (Barros & Carreiro, 2015). Mota & Almeida (2014) vão mais além e afirmam que, dado que as audiências já não são apenas recetoras passivas, também elas, ao participar no processo noticioso através dos comentários, se assumem como produtoras de conteúdo: No contexto social e histórico atual, as redes sociais exercem a função de quinto poder: o de protestar contra os domínios tradicionais, sejam eles políticos ou mediáticos. Ao comentar uma notícia online, por exemplo, o leitor não só expressa a sua opinião e complementa uma informação, como também assume a função de produtor de conteúdo (Ramonet, citado em Mota & Almeida, 2014, p.3). No que concerne às páginas do Facebook, podemos dizer que não há limite de “amigos” – neste caso de seguidores –, contrariamente ao perfil de um utilizador (que está limitado aos cinco mil amigos). Neste sentido, as páginas acabam por “diminuir as barreiras para a participação de cidadãos interessados”. Um comentário publicado por um utilizador numa dessas páginas pode, por conseguinte, ser direcionado para a cronologia dos seus amigos, tornando o conteúdo acessível a mais pessoas. Mas o que diferencia um comentário numa página e um comentário num perfil (normalmente privado) é também o facto de a publicação original ser difundida de forma mais célere (Barros & Carreiro, 2015, p.176). De acordo com Hille & Bakker (2014), há vantagens e desvantagens face à possibilidade que as audiências têm em comentar as notícias publicadas nas redes sociais. As vantagens incluem novas ideias para novas histórias, material adicional para a notícia em questão ou para outras e a identificação de erros. Mas é importante que a informação encontrada seja verificada com muita cautela antes de se fazer circular ainda mais informação com origem nesses comentários (Veloso, 2015). Apesar de tudo, esta participação do público preocupa repórteres e editores. Pesquisas realizadas sobre comentários de notícias encaram o espaço disponibilizado pelos jornais como um possível debate democrático. No entanto, os resultados são pouco positivos: 36 Encontramos na participação dos leitores uma grande quantidade de incivilidade através de insultos, desqualificação, ataques pessoais e mentiras, além de uma forte tendência à negatividade e pessimismo; apesar dos debates estudados na sua maioria seguirem o tema das notícias, o que preocupa é a predominância de um discurso hegemónico e geralmente alinhado às opiniões dos veículos (Díaz Noci et al., Silva & Cunha, citados em Caminada & Christofoletti, 2016, p.57). Segundo Caminada & Christofoletti (2016, p.57), as redações pecam pela “falta de uma cultura, de parâmetros técnicos e valores éticos para indicarem novas maneiras de lidar com a avalanche de participações”. Para além disso, os jornalistas falam também em “difamação, abusos, racismo e discursos de ódio” (Hille & Bakker, 2014, p.564). Este último ponto “representa um grande desafio para o jornalismo de hoje”: “jornalistas socialmente conscientes ficaram alarmados com a rapidez com que mensagens cheias de ódio se infiltram e frequentemente sobrecarregam os comentários na Internet”. Contudo, a maioria das organizações mediáticas afirma que “a manutenção completa das suas plataformas da Internet requer mais horas de trabalho do que elas podem pagar”, daí o facto de hoje em dia já se contratarem profissionais exclusivamente responsáveis pela gestão das redes sociais (George, 2017, p.30). Além das desvantagens enumeradas, existem outras, desde logo a presença do humor nos comentários, muitas vezes relacionado com a ironia. O uso de recursos humorísticos, bem como os atos de ridicularizar e satirizar os média são constantes nestes comentários às notícias publicadas nas redes sociais (Caminada & Christofoletti, 2016). Mas, como considera Carlson (2016), as notícias, como discurso de representação, nunca conseguem escapar às críticas. Por estas razões, os meios de comunicação têm tentado usar uma estratégia de gestão de comentários, podendo, inclusive, proibir comentários que sejam mais sensíveis e/ou causem controvérsia. Esta moderação pode ser feita por editores ou por pessoas responsáveis por estas situações. Com a introdução do Facebook, este problema tem diminuído, pois os comentários deixaram de ser anónimos. Contudo, os utilizadores podem continuar (e continuam) a publicar comentários abusivos de forma pública (Hille & Bakker, 2014). Face às inovações tecnológicas e às mudanças nas práticas jornalísticas, é igualmente necessária uma ação de reflexão por parte dos meios de comunicação social (Caminada & Christofoletti, 2016). Mas tal não quer dizer que o jornalista não tem de ter em conta a opinião 37 do seu público. Pelo contrário, o jornalista, levando em atenção as regras éticas e deontológicas da profissão, deve ter “uma interação com os leitores, hoje possível através das mais diversas formas neste novo modelo comunicacional em rede”. Ao jornalista cabe também a função de “direcionar os leitores para a informação relevante” (Rodrigues, 2010, p.230). No fundo, como afirma Lopez (citado em Francisco, 2010, p.218), “olhando para o futuro (…) o jornalismo vai tornar-se cada vez mais participativo”, sendo que, perante essa realidade, “as redações dos média online têm de estabelecer sistemas organizacionais renovados para assegurar uma boa gestão dessas vias de participação para que, sob a coordenação de profissionais da informação, tenham sempre informações de melhor qualidade, comprometidas com a cidadania e a serviço da comunidade”. 2.5. O jornal Público no Facebook O jornal Público foi um dos primeiros órgãos de comunicação social em Portugal a ter “uma redação própria a trabalhar exclusivamente para o online” (Martins, citado em Francisco, 2010, p.210). Colocou, pela primeira vez, conteúdos online em 1995, de forma praticamente primitiva em comparação com a atualidade e sem qualquer tipo de interatividade. Só em 1999 viria a ser criada uma redação própria para o online, com jornalistas a trabalhar apenas para o Público online, no que é hoje designado de Última Hora (Francisco, 2010). Hoje em dia, existe um grupo de jornalistas no jornal – quer na redação do Porto, quer na de Lisboa – que está mais dedicado ao online, que tem horários, rotinas e tarefas para cumprir, para além da publicação frequente de notícias ao longo do dia. Deste modo, há jornalistas com horários fixos ou com turnos, “para que se possa trabalhar todos os dias do ano” no online (Francisco, 2010, p.211). No que concerne às redes sociais, o Público conta com cerca de 690 mil seguidores no Twitter e com mais de um milhão no Facebook. Quanto a esta última plataforma, podemos dizer que o jornal publica as notícias consoante um critério editorial: estas devem ser publicadas com intervalos de cerca de uma hora (o que não quer dizer que não possam existir exceções). Além disso, no Facebook, o Público acompanha ao vivo certos temas, como a votação do Orçamento, lança sondagens e convida as pessoas a interagir (Francisco, 2010). Se se considerar a quantidade de pessoas que gostam da página do Público no Facebook, concluiu-se que a participação de leitores é pequena. Ainda assim, quando comparada com os 38 restantes jornais, percebe-se que a participação através dos comentários é bastante alta. Existem publicações com 20 ou 30 comentários e outras com 100, 200 ou até 500 opiniões, o que se traduz num número bastaste expressivo se se comparar com a participação da população portuguesa nas páginas de Facebook de outros órgãos de comunicação (Francisco, 2010). 39 Parte III – Estudo Empírico: Apresentação de Resultados 1. Pergunta de partida Uma das principais mudanças no cenário da comunicação diz respeito ao poder das audiências e à sua participação, produzindo e fazendo circular conteúdo em tempo real através de novas ferramentas tecnológicas, cada vez mais baratas e acessíveis. A audiência quer agora partilhar e conectar-se, de forma célere, eficiente e sem pedir ajuda a outrem (Specht, 2016). Ora, as redes sociais são “verdadeiros habitats dessa cultura de participação”. O Facebook, por exemplo, criado a partir desta lógica participativa, é “um campo ideal e indispensável para o jornalismo”. Mais ainda, esta rede social, assim como tantas outras, influenciou de tal maneira a prática jornalística no online que, atualmente, os jornalistas são obrigados a lidar com a gestão das páginas do Facebook e com os comentários que aí se fazem às notícias publicadas (Caminada & Christofoletti, 2016, p.56). Com efeito, pretende-se responder à seguinte pergunta de partida: Que tipo de comentários são feitos às notícias publicadas no Facebook pelo jornal Público e qual o seu impacto nos jornalistas deste órgão de comunicação? Esta foi uma pergunta suscitada quer durante a experiência de estágio curricular no jornal Público, quer nos anos de licenciatura e mestrado nesta área. Durante estes três meses em específico foram notáveis as constantes publicações feitas na página do Facebook do Público, assim como os respetivos comentários. Devido à negatividade de alguns e ao facto de outros precisarem de uma resposta por parte da redação, revela-se importante saber o impacto que estes comentários têm nos jornalistas. Além disso, e em conversas com alguns profissionais da área, é possível perceber que comentários mais maliciosos põem em causa o valor da própria notícia, que implica trabalho, muita pesquisa e contexto. Pelo facto de esta profissão poder estar a ser desvalorizada e pelo serviço público que presta (e sempre prestou), o caso de estudo desta investigação debruça-se sobre os comentários feitos no Facebook durante um determinado período de tempo e o impacto que têm nos jornalistas do Público. Que tipo de comentários encontramos nas notícias publicadas na página do Facebook do jornal Público? Que impacto têm nos jornalistas que escrevem as notícias? Será que os comentários levam à retificação das notícias? Se tal acontece, com que frequência? Qual o comportamento mais frequente que resulta desses comentários? Face a um cada vez maior uso das novas 40 tecnologias por parte da população, que se revelam importantes no jornalismo, torna-se pertinente investigar e responder a estas questões. Findo o enquadramento teórico desta investigação e tendo dedicado os últimos parágrafos à definição da pergunta de partida, seguem-se os objetivos e a metodologia, que servirão de base ao estudo empírico. 41 2. Objetivos Para além da pergunta de partida que orientou esta investigação, enumeram-se agora os principais objetivos definidos para este estudo: • Perceber que tipo de comentários são mais recorrentes nas notícias publicadas no Facebook pelo jornal Público, através da análise de uma base de dados construída no programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS). • Perceber o impacto que esses comentários do Facebook têm nos jornalistas, com a realização de questionários criados online e enviados, posteriormente, para os jornalistas. • Verificar se há uma secção que suscite mais comentários. • Averiguar a frequência com que os jornalistas veem esses comentários, nomeadamente às notícias que eles próprios escrevem. • Saber qual é a perceção dos jornalistas sobre esses comentários: se são mais positivos ou mais negativos. • Entender se existem comentários que levam à retificação da própria notícia. • Apurar outros comportamentos que resultam dos comentários, como a alteração da própria notícia ou a simples resposta cordial ao leitor. • Analisar as consequências dos comentários, nomeadamente saber se há um melhoramento da qualidade do texto jornalístico, se esses comentários causam entropia (equívocos) ou se não têm qualquer efeito sobre o trabalho realizado. • Perceber se os comentários feitos são justos e/ou construtivos ou se, pelo contrário, nada acrescentam ao trabalho do jornalista. • Apurar se, dos comentários publicados, alguns deles trazem novas ideias e/ou pistas para outras notícias ou para a continuação da peça que já foi divulgada. 42 3. Metodologia De modo a responder à pergunta de partida formulada e aos seus objetivos, esta investigação terá de ser dividida em dois momentos de análise. Primeiramente, será realizada uma análise de conteúdo quantitativa (com recurso a software de análise estatística de dados) aos 10 primeiros comentários de 349 notícias publicadas no Facebook pelos jornalistas do Público, durante os primeiros cinco dias dos meses de setembro, outubro e novembro de 2019, sem contar com fins de semana e feriados, uma vez que não têm o mesmo tipo de consumo que as notícias publicadas à semana. Em seguida, será analisado um questionário, que foi aplicado aos jornalistas do Público – das redações do Porto e de Lisboa – para avaliar as suas perceções relativamente aos comentários que são feitos nesta rede social e para entender o impacto que estes podem ter, quer na notícia, quer no próprio jornalista. • Análise de conteúdo quantitativa Num primeiro momento deste estudo empírico, pretende-se recorrer à análise de conteúdo quantitativa, dado que a presente investigação procura perceber qual o tipo de comentários existentes no Facebook do Público (positivos, negativos ou neutros) e o respetivo conteúdo. Neste último ponto, foi adaptada uma análise de Cabral & Lima (2018) para se perceber melhor o que dizem os comentários. Portanto, a esta análise de conteúdo quantitativa foram submetidas 349 notícias publicadas no Facebook durante o ano de 2019. A extração das notícias fez-se segundo uma amostragem nãoprobabilística acidental, pois apenas foram recolhidas as dos meses de setembro, outubro e novembro, por serem os meses posteriores ao estágio curricular realizado, embora este tenha decorrido também durante todo o mês de setembro e num dia do mês de outubro. É de salientar o facto de terem sido excluídos da análise os diálogos internos estabelecidos entre os leitores. Este diálogo traduz-se nas várias respostas possíveis a um comentário. Abaixo de um comentário a uma publicação do Facebook há duas possibilidades: gostar ou responder. Se o leitor clicar em responder e publicar um texto, dá-se início a uma conversa inerente àquela opinião específica, algo que se decidiu não analisar. De resto, foi selecionada a opção “todos os comentários”, de forma a ter um conteúdo mais abrangente e não só ter acesso aos “comentários mais relevantes”, como é opção do Facebook. 43 Depois da fase de recolha das notícias e da construção do modelo de análise, que será explorado de seguida, os dados foram introduzidos e organizados no SPSS, a fim de se dar início à análise de conteúdo. Esta análise incidirá sobre quatro componentes: secção (da notícia), número total de comentários da publicação, tipo de comentários e conteúdo dos comentários. Abaixo apresenta-se a grelha de análise que servirá de base para a caracterização dos comentários publicados às notícias do Público no período de tempo já mencionado. Componentes Variáveis Comentários das notícias publicadas pelo jornal Público no Facebook Data 02.09.19 03.09.19 04.09.19 05.09.19 06.09.19 01.10.19 02.10.19 03.10.19 04.10.19 07.10.19 04.11.19 05.11.19 06.11.19 07.11.19 08.11.19 Secção Política Sociedade Local Economia Mundo Cultura/Ípsilon Desporto Ciência Tecnologia 44 Culto Fugas P3 Opinião Outra Número total de comentários Número total de comentários de cada notícia Tipo de comentários Positivo Negativo Neutro Não se aplica Conteúdo dos comentários (Cabral & Lima, 2018) Qualificação direta focada no outro (isto é, avaliação do utilizador ao produtor da contribuição inicial, que é, neste caso, o jornal Público) Qualificação direta focada no objeto (ou seja, avaliação do tema em discussão e dos respetivos protagonistas) Qualificação direta focada nos argumentos (avaliação relativa a argumentos expressos por outro utilizador) Qualificação indireta co construída (avaliação a outro comentário através da exposição de um estado ou sentimento que diz respeito ao próprio utilizador que está a fazer o comentário) Qualificação indireta desviante (comentário que se desvia do tema da publicação, sendo um tema que vai ao interesse do 51 humanos, a discriminação, a criminalidade, o aborto, as questões LGBTI, o controlo de armas e a religião). Valores em percentagem Política 23,0 Desporto 20,8 Sociedade 16,5 Mundo 6,5 Local 5,6 Cultura/Ípsilon 5,6 Economia 4,5 P3 3,9 Opinião 3,6 Tecnologia 2,9 Fugas 2,6 Culto 2,3 Ciência 2,3 Tabela 2 – Análise dos comentários feitos por secção 4.2.2. Os comentários Desta análise observou-se ainda que a maior parte dos comentários feitos são de pendor negativo (1475) – o que corresponde a 67,3% –, um valor que se destaca substancialmente dos outros (tabela 3). Há apenas 429 comentários positivos (19,6%) e 289 comentários neutros (13,1%). Tal situação vem sustentar o facto de o Facebook constituir um “contexto propício a interações conflituosas”, na medida em que “permite que uma quantidade expressiva de pessoas, com perfis diversos, debata temas polémicos” (Cabral & Lima, 2018, p.45). Valores em percentagem Negativos 67,3 Positivos 19,6 Neutros 13,1 Tabela 3 – Tipo de comentários feitos às notícias analisadas 52 No que respeita ao conteúdo dos próprios comentários, e com base no estudo de Cabral e Lima (2018), os comentários – quer os positivos, quer os negativos – foram divididos em categorias, de forma a perceber a função de cada um. Desta feita, observou-se que os comentários mais comuns (76,8%) são aqueles que avaliam a temática abordada pela notícia publicada. Falamos aqui numa qualificação direta focada no objeto. Apesar de este ser o tipo de comentário com maior peso, a qualificação indireta desviante (11,1%) e a qualificação direta focada no outro (6,6%) também se destacam, nomeadamente pelo cariz negativo. Com efeito, a primeira diz respeito aos comentários que se desviam do tema da publicação em questão e que introduzem um outro assunto do interesse do utilizador. Já a segunda é uma avaliação do utilizador ao produtor da contribuição inicial que é, neste caso, o jornal Público, muitas vezes alvo das críticas dos leitores. De resto, existem ainda dois tipos de qualificação dos comentários. A qualificação indireta co construída, que corresponde a 3,1% dos comentários, nada mais é do que a exposição de um sentimento que diz respeito ao próprio utilizador, que traz para a discussão uma experiência pessoal. A qualificação direta focada nos argumentos (2,4%) traduz-se, por sua vez, na avaliação feita pelo utilizador a argumentos expressos por outros leitores. Este número acaba por ser mais baixo que todos os outros pois, neste trabalho, e como referido anteriormente, não foram analisados os diálogos internos estabelecidos entre os leitores. Cruzando o tipo de comentários (positivos ou negativos) e o seu conteúdo, podemos facilmente perceber, sem surpresas, que todas as qualificações aqui utilizadas para perceber a função dos comentários são de pendor negativo (tabela 4). Quer isto dizer que, na qualificação direta focada no objeto, foram registados 1078 comentários negativos (73,7%) e 385 comentários positivos (26,3%). Na qualificação indireta desviante, por sua vez, observaram-se 192 comentários negativos (90,6%) e 20 comentários positivos (9,4%). Já na qualificação direta focada no outro existem 123 comentários negativos (97,6%) e três comentários positivos (2,4%). No que concerne à qualificação indireta co construída, assinalaram-se 46 comentários negativos (79,3%) e 12 comentários positivos (20,7%). Finalmente, na qualificação direta focada nos argumentos, foram apontados 36 comentários negativos (80%) e nove comentários positivos (20%). Podemos então concluir que, no total, existem 1475 comentários negativos, 429 comentários positivos e 289 comentários neutros. Tais dados, visíveis na análise das cinco categorias ligadas às finalidades dos comentários na interação verbal, vêm demonstrar que as “intensas” interações nas redes sociais nem sempre se desenvolvem de forma harmoniosa, uma vez que 53 os temas que mais interesse suscitam na sociedade são “temas polémicos”, que revelam os “pontos de vista distintos e antagónicos” dos leitores (Cabral & Lima, 2018, p.56). Qualificação direta focada no outro Qualificação direta focada no objeto Qualificação direta focada nos argumentos Qualificação indireta co construída Qualificação indireta desviante TOTAL Positivo 3 2,4% 385 26,3% 9 20% 12 20,7% 20 9,4% 429 22,5% Negativo 123 97,6% 1078 73,7% 36 80% 46 79,3% 192 90,6% 1475 77,5% TOTAL 126 6,6% 1463 76,8% 45 2,4% 58 3,1% 212 11,1% 1904 100% Tabela 4 – Cruzamento entre o tipo de comentários e o respetivo conteúdo 5. Considerações Gerais Após a análise dos dados, pode-se responder, com clareza, à pergunta de partida. De facto, os comentários feitos às notícias publicadas no Facebook pelo jornal Público apresentam um cariz essencialmente negativo e têm como principal alvo as próprias notícias, sobretudo os artigos das secções Política, Desporto e Sociedade. Estes são os que suscitam mais debate e polémica nas redes sociais por abordarem temas com os quais os leitores se relacionam de forma quase direta. É possível também aferir que a maior parte dos jornalistas inquiridos, com conta no Facebook, vê frequentemente as notícias publicadas pelo Público e presta atenção aos comentários feitos – principalmente se forem notícias que os próprios escrevem. Embora muitos dos respondentes tenham uma perceção positiva das opiniões dos leitores no Facebook, a verdade é que mais de metade destes jornalistas apresenta uma perceção negativa dos comentários publicados. E se a maior parte não se sente afetada por esses comentários, existe uma outra fração de inquiridos que se mostra inquieta e que, devido à negatividade expressa nas redes sociais, optou por deixar de dar a sua opinião publicamente. Além disso, outros jornalistas alertaram para o facto de o próprio conteúdo noticioso poder ser afetado, na medida em que acaba por ser desvalorizado. Isto, porque os jornalistas referem também que os 54 comentários refletem um desconhecimento do trabalho jornalístico. No entanto, apesar de alguns comentários serem mais “injustos” ou até “extremistas”, é importante dar-lhes a devida atenção, tendo em conta que podem trazer novas ideias e/ou pistas para outras notícias ou mesmo para a continuação da peça já divulgada. Com efeito, e como já foi mencionado, os comentários nas redes sociais trazem, muitas vezes, consequências, quer para os jornalistas, quer para a própria notícia. Apesar de a maioria não retificar os textos após a leitura dos comentários, alguns dos respondentes fazem-no e escrevem, inclusive, uma resposta cordial – até porque é de bom tom que tal aconteça. Neste sentido, um dos respondentes fez questão de salientar que, não obstante os comentários negativos, prefere “desvalorizar os excessos” e, caso surjam “comentários construtivos”, comenta e agradece. Quanto ao que pensam os jornalistas sobre os comentários que observam, as opiniões dividemse, mas existem duas situações que se encontram no mesmo patamar: independentemente de alguns comentários não terem qualquer efeito sobre o trabalho jornalístico realizado, outros causam equívocos nos assuntos noticiados. Das respostas obtidas, apenas uma pequena fatia considera que os comentários levam a uma melhoria do texto jornalístico. 55 Parte IV – Conclusão Com as inovações tecnológicas, também o jornalismo vê as suas práticas a serem transformadas, algo que exige reflexão (Caminada & Christofoletti, 2016). São exemplos desta transformação as novas formas de consumo de informação, desde logo as redes sociais, que vieram fazer com que os cidadãos pudessem participar, de alguma forma, no processo noticioso (Crespo, 2019). Os comentários que se leem nas redes sociais – como o Facebook, que é, atualmente, a plataforma mais utilizada em Portugal – são, contudo, essencialmente negativos e refletem as interações fortes e muitas vezes antagónicas entre os leitores. Tal é notável, sobretudo, nos temas que afetam mais diretamente a sociedade, como é o caso da política, do desporto e das questões sociais. Para tentar responder à primeira parte da pergunta de partida, nomeadamente para se compreender o tipo de comentários que são publicados, foram estabelecidas cinco categorias ligadas às finalidades dos próprios comentários, o que permitiu verificar que estes cumprem diversas funções. Assim, e atendendo ao tipo de comentários mais comummente visualizados e ao seu pendor negativo, cada categoria revela algo sobre os mesmos, como se pode inferir, tendo como base o estudo de Cabral & Lima (2018). Primeiramente, a qualificação direta focada no objeto acaba por desqualificar o propósito da notícia. Já a qualificação indireta desviante releva a fixação da sociedade em mostrar os seus pontos de vista, mantendo-se, assim, o antagonismo inerente às interações. A qualificação direta focada no outro vem demonstrar, por sua vez, que os leitores centram os seus comentários em juízos de valor em torno do próprio produtor da notícia, reforçando a desqualificação do meio de comunicação em causa. Na qualificação indireta co construída, os utilizadores, expressando os seus próprios sentimentos e revelando as suas experiências pessoais, transmitem a sensação de que querem fazer parte da conversa a todo o custo. Finalmente, na qualificação direta focada nos argumentos, o utilizador desqualifica os comentários de outros leitores, dando a entender que só importa a sua própria opinião. Ora, com estas cinco categorias é possível perceber que há todo um antagonismo que rege as interações nas redes sociais e que são cada vez mais constantes nos assuntos mais polémicos. No que aos jornalistas diz respeito, embora se tenham vindo a adaptar às novas formas de comunicação para conseguirem responder, de forma cordial e célere ao público, sentem-se, muitas vezes, injustiçados e desvalorizados. E se, por um lado, os comentários às notícias 56 publicadas no Facebook trazem novas ideias e até novas histórias passíveis de serem exploradas, por outro lado podem causar desconforto, bem como um sentimento de reserva face à escrita de artigos – nomeadamente os de opinião. Com efeito, e em concordância com o estudo de Veloso (2015), embora não se possa dizer que as redes sociais revolucionaram o jornalismo, tendo em conta que as bases desta atividade continuam intactas, a existência de novas rotinas nesta profissão quase que obriga os jornalistas a refletir de forma mais aprofundada sobre o seu uso. Além dos códigos pelos quais se rege o exercício jornalístico e das orientações mais específicas que possam vir a ser dadas pelos meios de comunicação sobre o uso das redes sociais, o jornalista, por si só, terá de repensar a forma como usa estas ferramentas. Perante isto, e atendendo às limitações, este relatório de estágio não pretende apresentar um estudo exaustivo dos comentários feitos nas redes sociais, até porque existem várias plataformas e uma quantidade infinita de artigos e comentários a serem analisados em vários órgãos de comunicação. Deste modo, e futuramente, outros trabalhos poderão ser feitos a esse nível. Poderão ser analisados outros média, a amostra poderá abranger mais artigos – num maior período de tempo – e outras formas de recolher informação sobre o impacto dos comentários das redes sociais nos jornalistas poderão vir a ser aplicadas. 57 Referências Bibliográficas Alcadipani, R. (2007). O declínio dos jornais. GV executivo , 6(2), 31-35. DOI: 10.12660/gvexec.v6n2.2007.34558 Bardoel, J. & Deuze, M. (2001). Network Journalism: Converging Competences of Media Professionals and Professionalism. Australian Journalism Review , 23(2), 91-103. Retirado de https://scholarworks.iu.edu/dspace/bitstream/handle/2022/3201/BardoelDeUze+NetworkJou rnalism+2001.pdf?sequence=1 Barros, S. & Carreiro, R. (2015). A discussão pública e as redes sociais online: o comentário de notícias no Facebook. Revista Fronteiras – estudos midiáticos , 17(2), 174-185. Retirado de http://revistas.unisinos.br/index.php/fronteiras/article/view/fem.2015.172.05 Cabral, A. & Lima, N. (2018). Interações conflituosas e violência verbal nas redes sociais: polêmica em comentários no Facebook. Revista (Con) Textos Linguísticos (Edição Especial Violência Verbal) , 12(22), 39-58. Retirado de http://periodicos.ufes.br/contextoslinguisticos/article/view/20626/14231 Caminada, T. & Christofoletti, R. (2016). O erro anotado: um estudo dos comentários de leitores no Facebook sobre falhas jornalísticas. Estudos em Comunicação , 22, 51-66. DOI: 10.20287/ec.n22.a03 Canavilhas, J. (2010). Do gatekeeping ao gatewatcher: o papel das redes sociais no ecossistema mediático. In Trabalho apresentado no II Congresso Internacional de Comunicación (Vol.3). Carlson, M. (2016). Embedded Links, Embedded Meanings. Social media commentary and news sharing as mundane media criticism. Journalism Studies , 17(7), 915-924. DOI: 10.1080/1461670X.2016.1169210 Correia, J. C. (2009). Teoria e Crítica do Discurso Noticioso. Notas sobre Jornalismo e representações sociais . Livros LabCom. Crespo, A. (2019, 14 de novembro). É para matar o jornalismo de vez?. TSF . Acedido em https://www.tsf.pt/opiniao/e-para-matar-o-jornalismo-de-vez-11512812.html Deuze, M. (2006). O jornalismo e os novos meios de comunicação social. Comunicação e Sociedade , 9-10, 15-37. DOI: 10.17231/comsoc.9(2006).1152 Direcção Editorial (2018, 16 de agosto). Os compromissos da Direcção Editorial. Público . Acedido em https://www.publico.pt/2018/08/16/opiniao/noticia/os-compromissos-dadireccao-editorial-1841144 Durães, P. (2019, 29 de abril). APCT: 2019 arranca com mais quebras na imprensa generalista. Meios & Publicidade . Acedido em https://www.meiosepublicidade.pt/2019/04/apct-2019arranca-quebras-na-imprensa-generalista/ Fidalgo, J. (2006). Imprensa gratuita “veio para ficar”. In Pinto, M. & Fidalgo, J. (coord.) (2006) A comunicação e os media em análise (pp. 79-84). Braga, Universidade do Minho: Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade. 58 Francisco, K. C. (2010). O jornalismo e as redes sociais: participação, inovação ou repetição de modelos tradicionais?. Prisma.com , 12, 193-218. Retirado de http://ojs.letras.up.pt/index.php/prismacom/article/view/2020 George, C. (2017). Hate Speech. A Dilemma for Journalists the World Over. In Ethical Journalism Network (2017) Ethics in the News. EJN Report on Challenges for Journalism in the Post-truth Era (pp.29-32). Londres, Reino Unido. Henriques, A. (2014, 4 de julho). Jornais que publiquem textos assinados por estagiários arriscam multa. Público . Acedido em https://www.publico.pt/2014/07/04/sociedade/noticia/jornais-que-publiquem-textosassinados-por-estagiarios-arriscam-multa-1661566 Hille, S. & Bakker, P. (2014). Engaging the Social News User. Comments on news sites and Facebook. Journalism Practice , 8(5), 563-572. DOI: 10.1080/17512786.2014.899758 Jerónimo, P. (2015). Ciberjornalismo de Proximidade. Redações, jornalistas e notícias online . LabCom. Jesus, G., Araújo, W. & Carvalho, C. (2018, julho). Internet e redes sociais: Jornalismo no meio digital. Comunicação apresentada no XX Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste, Juazeiro. Lopes, F., Ruão, T., Marinho, S. & Araújo, R. (2011). Jornalismo de Saúde e Fontes de Informação, Uma Análise dos Jornais Portugueses entre 2008 e 2010. Derecho a Comunicar , 2, 100-120. Retirado de http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/29438/1/jornalismo_de_saude_fontes_ De_informacao.pdf Martins, C. (2013) Jornalismo Online: a convergência dos meios. Biblioteca online de ciências da comunicação. [Internet] Retirado de http://www.bocc.ubi.pt/pag/martins-celia-2013-jornalismoonlineconvergencia.pdf Martins, G. (2015). Caracterização dos principais grupos económicos da Comunicação Social. ERC . Retirado de http://www.erc.pt/download/YToyOntzOjg6ImZpY2hlaXJvIjtzOjM4OiJtZWRpYS9lc3R1ZG9zL29ia mVjdG9fb2ZmbGluZS82NS4xLnBkZiI7czo2OiJ0aXR1bG8iO3M6NTA6ImNhcmFjdGVyaXphY2FvL WRvcy1wcmluY2lwYWlzLWdydXBvcy1lY29ub21pY29zLWRhIjt9/caracterizacao-dos-principaisgrupos-economicos-da Mota, C. & Almeida, P. (2014). Jornalismo e redes sociais: identidade e cidadania. Revista Ecopós , 17(1), 1-10. DOI: 10.29146/eco-pos.v17i1.1287 Neto, I. (2017). As multiplataformas informativas: os desafios que as redes de media social e os periféricos móveis colocam no campo do jornalismo. (Tese de Doutoramento), Universidade do Minho, Braga. Acedido em http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/55776/1/Tese%20Doutoramento%20Ivo% 20Neto.pdf 59 Nobre, A. (2015, 5 de março). “Público”: 25 anos em papel, num jornal cada vez mais digital. Expresso . Acedido em https://expresso.pt/dossies/diario/publico-25-anos-em-papel-num-jornalcada-vez-mais-digital=f913732 Pereira, J. P. (2019, 29 de agosto). Vendas do PÚBLICO crescem e assinaturas online superam compras em banca. Público . Acedido em https://www.publico.pt/2019/08/29/tecnologia/noticia/vendas-publico-crescem-assinaturasonline-superam-compras-banca-1884869 Pinto, M. (2000). Fontes Jornalísticas: Contributos para o mapeamento do campo. Comunicação e Sociedade 2 , 14 (1-2), 277-294. Retirado de https://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/5512/1/CS_vol2_mpinto_p277-294.pdf Pinto, S. (2017). O debate democrático no espaço público digital: A participação política no espaço de comentários do Expresso no Facebook. Relatório de Estágio, Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal. Retirado de https://estudogeral.sib.uc.pt/handle/10316/85528 Público (2005). Livro de Estilo . Lisboa: Público. Público (2018a, 2 de julho). Director do PÚBLICO demite-se. Público . Acedido em https://www.publico.pt/2018/07/02/sociedade/noticia/director-do-publico-demitese-1836591 Público (2018b, 28 de fevereiro). PÚBLICO foi único diário generalista que aumentou vendas em 2017. Público . Acedido em https://www.publico.pt/2018/02/28/culturaipsilon/noticia/publicofoi-unico-diario-generalista-que-aumentou-vendas-em-2017-1804820 Quintanilha, T. L. (2018). 2029 – o fim dos jornais em papel em Portugal? Um estudo longitudinal sobre os principais indicadores de desempenho no sector da imprensa escrita tradicional portuguesa. Observatorio (OBS*) Journal , 12(3), 138-155. Retirado de http://www.scielo.mec.pt/pdf/obs/v12n3/v12n3a08.pdf Quintas, C., Dutschke, G. & Silva, I. (2017). Grupos de comunicação social em Portugal e desafios da globalização. OBSERVARE – JANUS 2017 – A comunicação mundializada , 98-99. Retirado de http://repositorio.ual.pt/bitstream/11144/3559/1/2.3.2_C%c3%a9liaGeorgIsabel_Comunica%c 3%a7%c3%a3oPortugal.pdf Rebelo, J. (Ed.) (2011). Ser jornalista em Portugal – perfis sociológicos . Lisboa: Gradiva. Ribeiro, F. (2012). Opening the gates for the public in the media: problems posed to the audience discussion programmes. Revista Estudos de Jornalismo , 1, 114-125. Retirado de http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/36698/1/FR_rev_estudos_jornalismo_2 012.pdf Ribeiro, V. (2013). O spin doctoring em Portugal: Estudo sobre as Fontes Profissionais de Informação que Operam na Assembleia da República. (Tese de Doutoramento), Universidade do Minho, Braga. Acedido em: http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/34431/1/Fernando%20Vasco%20Moreira %20Ribeiro.pdf 60 Rodrigues, C. (2010). Redes sociais: novas regras para a prática jornalística?. Prisma.com , 12, 219-231. Retirado de http://ojs.letras.up.pt/index.php/prismacom/article/view/2022 Sá, M. (2010). As redes sociais na rádio TSF: o Facebook e o Twitter como veículos de difusão e angariação de informação. Dissertação de Mestrado, Universidade do Minho, Braga, Portugal. Retirado de http://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/41748 Salaverría, R. (2015). Media e jornalistas: um futuro em comum?. Revista Científica de Comunicação Social da FIAM-FAAM , 3(1), 79-83. Retirado de http://revistaseletronicas.fiamfaam.br/index.php/recicofi/article/view/297/304 Schultz, I. (2007). The Journalistic Gut Feeling. Journalistic doxa, news habitus and orthodox news values. Journalism Practice , 1(2), 190-207. DOI: 10.1080/17512780701275507 Silva Filho, F. (2014). O perfil social dos jornalistas: uma análise do uso do Facebook nos jornalistas portugueses. Dissertação de Mestrado, Universidade do Minho, Braga, Portugal. Retirado de http://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/30477 Silva, E. C. (2018). A imprensa em Portugal – os cenários da crise e os desafios. Communitas Think Tank – Ideias . Retirado de http://www.communitas.pt/ideia/a-imprensa-em-portugal-oscenarios-da-crise-e-os-desafios/ Somaiya, R. (2014, 26 de outubro). How Facebook Is Changing the Way Its Users Consume Journalism. The New York Times . Acedido em https://www.nytimes.com/2014/10/27/business/media/how-facebook-is-changing-the-way-itsusers-consume-journalism.html Sonaecom (2018). Relatório & Contas 2018 . Retirado de https://web3.cmvm.pt/sdi/emitentes/docs/PC71571.pdf Specht, P. (2016). O esvaziamento das seções de comentários de leitores nos portais de notícias: o Facebook como novo espaço de expressão. Sessões do Imaginário , 35, 80-87. DOI: 10.15448/1980-3710.2016.1.23361 Veloso, A. S. (2015). O uso das redes sociais por jornalistas em Portugal. Sobre jornalismo , 4(1), 120-139. Retirado de https://surlejournalisme.com/rev/index.php/slj/article/download/204/260/ 67 Anexo V 68 69 Anexo VI 70 Anexo VII 71 Anexo VIII 72 Anexo IX 73 Anexo X Lista de links das notícias publicadas online durante o estágio LOCAL Maia recicla mais de cem toneladas de têxteis em meio ano https://www.publico.pt/2019/07/02/local/noticia/maia-recicla-cem-toneladas-texteis-meio-ano1878497 PSP apreende uma tonelada de plantas e folhas de cannabis https://www.publico.pt/2019/07/02/local/noticia/psp-apreende-tonelada-plantas-folhascannabis-1878482 Vila Nova de Gaia recebe 150 trotinetes eléctricas https://www.publico.pt/2019/07/09/local/noticia/vila-nova-gaia-recebe-150-trotineteselectricas-1879250 Divisão da PSP transita de Águas Santas para a Maia https://www.publico.pt/2019/07/09/local/noticia/divisao-psp-transita-aguas-santas-maia1879292 MAI investe mais de quatro milhões de euros em obras para esquadras da PSP no Norte https://www.publico.pt/2019/07/10/local/noticia/mai-investe-quatro-milhoes-euros-obrasesquadras-psp-1879449 Fapas contra intervenção urbanística nos antigos estaleiros de São Jacinto https://www.publico.pt/2019/07/11/local/noticia/fapas-intervencao-urbanistica-antigosestaleiros-sao-jacinto-1879557 Porto: CDS questiona Governo sobre reforço policial que impeça tráfico de droga https://www.publico.pt/2019/07/12/local/noticia/porto-cds-questiona-governo-reforco-policialimpeca-trafico-droga-1879717 Universidade do Porto quer alunos a ter uma alimentação e hábitos mais saudáveis https://www.publico.pt/2019/07/15/local/noticia/u-porto-promove-habitos-saudaveis-planoaccao-estudantes-1879926 Porto apela à entrega dos manuais escolares usados https://www.publico.pt/2019/07/16/local/noticia/porto-smarle-apela-reutilizacao-manuaisescolares-1880087 Espaços verdes do Porto são distinguidos com prémio “Green Flag” https://www.publico.pt/2019/07/16/local/noticia/espacos-verdes-porto-sao-distinguidospremio-green-flag-1880108 Organizações insistem em tourada na Praça de Touros da Póvoa. Câmara diz não https://www.publico.pt/2019/07/16/local/noticia/organizacoes-querem-realizar-tourada-pracatouros-camara-nao-passa-licencas-1880126 74 Incêndio no Porto destruiu um negócio com 60 anos. No prédio está para nascer um hostel https://www.publico.pt/2019/07/17/local/noticia/incendio-destroi-negocio-60-anos-predionascer-hostel-1880309 Incêndio em edifício no Porto reacende-se e atinge prédio contíguo https://www.publico.pt/2019/07/18/local/noticia/incendio-edificio-porto-reacende-destroipredio-contiguo-1880389 Ambientalistas continuam a contestar localização do Marés Vivas https://www.publico.pt/2019/07/19/local/noticia/campo-aberto-contesta-localizacao-maresvivas-1880574 Pescadores criticam descarga poluente no Estuário do Douro https://www.publico.pt/2019/07/25/local/noticia/pescadores-criticam-descarga-poluenteestuario-douro-1881185 Porto: trotinetas e triciclos partilhados vão ser obrigados a recolher às 22h https://www.publico.pt/2019/07/25/local/noticia/camara-porto-estabelece-recolha-obrigatoriaveiculos-partilhados-ate-22-horas-1881265 Transformar o Monte Pedral num arquipélago em plena cidade venceu concurso de ideias https://www.publico.pt/2019/07/26/local/noticia/arquitectos-gabinete-masslab-vencemconcurso-ideias-monte-pedral-1881429 Incêndio consome prédio devoluto no Porto onde está previsto nascer um hotel https://www.publico.pt/2019/07/29/local/noticia/incendio-consome-predio-devoluto-portoonde-previsto-nascer-hotel-1881663 PJ deteve suspeito de crime de incêndio em prédio devoluto no Porto https://www.publico.pt/2019/07/30/local/noticia/pj-deteve-suspeito-crime-incendio-prediodevoluto-porto-1881727 Trotinetas eléctricas da Circ evitam emissão de dez toneladas de dióxido de carbono em Matosinhos https://www.publico.pt/2019/07/30/local/noticia/trotinetes-electricas-circ-evitamemissao-dez-toneladas-dioxido-carbono-1881747 Fórum Internacional de Gaia: uma aposta portuguesa na sustentabilidade https://www.publico.pt/2019/08/01/local/noticia/forum-internacional-gaia-aposta-portuguesasustentabilidade-1881946 Na Avenida da República, as empenas cegas são agora mostras de arte https://www.publico.pt/2019/08/09/local/noticia/avenida-republica-empenas-cegas-saopropostas-arte-1882859 Circ estreia em Portugal aluguer de trotinetes à hora ou por um dia https://www.publico.pt/2019/08/12/local/noticia/circ-testa-portugal-novo-modelo-aluguertrotineta-packs-horas-1883194 75 O vento moldou, e ainda molda, Vila do Conde. Que o leva ao palco https://www.publico.pt/2019/08/15/local/noticia/porto-mundo-espectaculo-convivio-geracoeslicao-historia-1883296 STCP passa paragens da Rua Formosa para Fernandes Tomás https://www.publico.pt/2019/08/19/local/noticia/stcp-passa-paragens-rua-formosa-fernandestomas-1883780 Câmara de Gaia vai investir oito milhões de euros num pavilhão multiusos https://www.publico.pt/2019/08/21/local/noticia/camara-gaia-vai-investir-oito-milhoes-eurosconstrucao-pavilhao-multiusos-1884045 Valnor e Resinorte incentivam famílias a reciclar em troca de bilhetes de cinema https://www.publico.pt/2019/08/21/local/noticia/valnor-resinorte-incentivam-familias-reciclarpremios-bilhetes-cinema-1884035 Câmara de Gaia aproveita obras em 33 escolas para remover amianto das coberturas https://www.publico.pt/2019/08/23/local/noticia/camara-aproveita-obras-33-escolas-removeramianto-coberturas-1884146 Câmara de Gaia avança com obras de requalificação na Biblioteca Municipal https://www.publico.pt/2019/08/23/local/noticia/camara-avanca-obras-requalificacaobiblioteca-municipal-1884235 De Miranda ao Peru, a World Music está de regresso a Gaia https://www.publico.pt/2019/08/30/local/noticia/gaia-world-music-2019-regressa-festivalmusicas-mundo-1884569 Rádio Nova: uma escola de jornalismo do Porto celebrou 30 anos https://www.publico.pt/2019/09/06/local/noticia/radio-nova-escola-jornalismo-porto-faz-30anos-1885814 Fórum Internacional de Gaia arranca esta quarta-feira https://www.publico.pt/2019/09/10/local/noticia/forum-internacional-gaia-arranca-jaquartafeira-1886096 Todos se uniram por um rio e o Sousa vai ser uma área protegida https://www.publico.pt/2019/09/16/local/reportagem/camara-juntas-freguesia-lousadaunemse-preservar-biodiversidade-rio-sousa-1884133 Em Alfama, há publicidade nos estendais para ajudar a pagar a renda. E há quem não goste https://www.publico.pt/2019/09/20/p3/noticia/alfama-publicidade-estendais-moradoresdivide-opinioes-1887372 Transportes públicos: baixam os passes, sobem as queixas https://www.publico.pt/2019/09/22/local/reportagem/transportes-publicos-1887287 Ornatos Violeta “devolvem” Super Bock Arena ao Porto com concerto de inauguração https://www.publico.pt/2019/10/01/local/noticia/ornatos-violeta-devolvem-super-bock-arenaporto-concerto-inauguracao-1888474 76 Sábio Sabor: uma horta que promove a saúde mental https://www.publico.pt/2019/10/10/local/noticia/horta-sabio-sabor-terapeutica-solidariapromove-saude-mental-1886816 Porto: a cidade que não se vê está em risco https://www.publico.pt/2019/10/13/local/reportagem/cidade-nao-ve-risco-1888111 P3 Parlamento Europeu tem 12 vagas para engenheiros civis e arquitectos https://www.publico.pt/2019/07/04/p3/noticia/parlamento-europeu-12-vagas-posicaoengenheiros-1878595 Lisboa: há um campo de basquetebol pintado por Aka Corleone https://www.publico.pt/2019/07/05/p3/noticia/lisboa-ha-um-campo-de-basquetebol-pintadopor-aka-corleone-1878893 Um fotógrafo também pode construir edifícios. Mr. Lee mostra-o em Landing https://www.publico.pt/2019/07/07/p3/video/um-fotografo-tambem-pode-construir-edificiosmr-lee-mostra-o-em-landing-20190701-122700 Fractal: um festival de arte urbana para mostrar outro lado do Funchal https://www.publico.pt/2019/07/09/p3/noticia/fractal-um-festival-de-arte-urbana-para-mostraroutro-lado-do-funchal-1879122 Alcácer do Sal: uma “casa do Monopólio” em ponto grande https://www.publico.pt/2019/07/10/p3/fotogaleria/alcacer-do-sal-uma-casa-do-monopolio-emponto-grande-395916 Japão: veados de Nara estão a morrer por ingestão de plástico https://www.publico.pt/2019/07/10/p3/noticia/japao-veados-de-nara-estao-morrer-ingestaoplastico-1879415 Um protesto silencioso contra as “mortes evitáveis” de ciclistas em Nova Iorque https://www.publico.pt/2019/07/11/p3/noticia/um-protesto-silencioso-contra-as-mortesevitaveis-de-ciclistas-em-nova-iorque-1879568 De Dublin ao Porto, sem usar o avião: Ana vai pedalar pela Greenpeace https://www.publico.pt/2019/07/16/p3/noticia/de-dublin-ao-porto-sem-usar-o-aviao-ana-vaipedalar-pela-greenpeace-1879954 Grátis e ao ar livre: dez filmes para ver no Porto durante o mês de Agosto https://www.publico.pt/2019/07/18/p3/noticia/gratis-e-ao-ar-livre-dez-filmes-para-ver-no-porto1880404 Pátio do Meco: uma “recriação do passado” pelo futuro da aldeia https://www.publico.pt/2019/07/19/p3/fotogaleria/patio-do-meco-uma-recriacao-do-passadopelo-futuro-da-aldeia-395923 83 CIÊNCIA Aves do Sudeste da Amazónia são as mais afectadas pelo clima https://www.publico.pt/2019/07/04/ciencia/noticia/aves-sudeste-amazonia-sao-afectadasclima-1878770 SOCIEDADE Reportagem do PÚBLICO ganha prémio de jornalismo da Rede Europeia Antipobreza https://www.publico.pt/2019/08/06/sociedade/noticia/reportagem-publico-inclusao-criancasciganas-escolaridade-obrigatoria-distinguido-eapn-1882590 MUNDO Polícias a cavalo levam homem detido preso por uma corda. Polícia pede desculpa https://www.publico.pt/2019/08/07/mundo/noticia/policias-cavalo-levam-homem-detidopreso-corda-situacao-gera-polemica-chefe-policia-pede-desculpa-1882678 ECONOMIA Seis milhões para reescrever uma tempestade: a gráfica da Porto Editora reabriu https://www.publico.pt/2019/09/03/economia/noticia/porto-editora-abre-novo-capitulohistoria-inauguradas-instalacoes-renovadas-maia-1885363 CULTO O “primeiro spa 100% orgânico e vegan de Portugal” abriu no Algarve https://www.publico.pt/2019/09/06/culto/noticia/hotel-abre-spa-organico-vegan-1885624 ÍPSILON Marés Vivas tem passes gerais e bilhetes para dia 20 esgotados https://www.publico.pt/2019/07/18/culturaipsilon/noticia/mares-vivas-passes-gerais-bilhetesdia-20-esgotados-1880425 Marés Vivas 2019 com números recorde: “A melhor edição de sempre” https://www.publico.pt/2019/07/22/culturaipsilon/noticia/mares-vivas-2019-numeros-recordemelhor-edicao-1880744 Supremo Tribunal Federal do Brasil proíbe censura de BD com beijo gay https://www.publico.pt/2019/09/09/culturaipsilon/noticia/supremo-tribunal-federal-brasilproibe-censura-bd-beijo-gay-1885986 DESPORTO Sobrevivente de cancro é a primeira pessoa a cruzar a nado o Canal da Mancha quatro vezes – sem parar https://www.publico.pt/2019/09/17/desporto/noticia/sobrevivente-cancro-primeirapessoa-nadar-canal-macha-quatro-vezes-parar-1886929 84 Apêndices Apêndice I – Questionário aplicado aos jornalistas do Público 85 86 87 88