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Identidades cruzadas: História do Cerco de Lisboa e Geschichte Der Belagerung Von Lissabon

Grossegesse, Orlando

Abstract

É sabido que o romance História do Cerco de Lisboa empreende uma revisão da origem da identidade portuguesa revelando a sua frágil base histórica, no sentido de hibridismo cultural. Este estudo mostra como a narração da procura problemática da origem histórica está cruzada com a procura da origem do texto. Ao analisar a densa rede intertextual, na qual se emaranha a revisão criativa de Raimundo Silva, fica patente que a questão central desta metaficção historiográfica é menos a revisão do que a tradução. Nesta base, a aventura da leitura / escrita, empreendida neste romance, torna-se uma questão de identidades cruzadas, no caso da tradução para alemão que tem de lidar com a afinidade cultural do leitor com os Cruzados.

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Esta obra está licenciada com uma Licença: Creative Commons AtribuiçãoNãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional. http://dx.doi.org/10.5007/2175-7968.2015v35nesp1p109 IDENTIDADES CRUZADAS: HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA E GESCHICHTE DER BELAGERUNG VON LISSABON Orlando Grossegesse* Universidade do Minho Resumo: É sabido que o romance História do Cerco de Lisboa empreende uma revisão da origem da identidade portuguesa revelando a sua frágil base histórica, no sentido de hibridismo cultural. Este estudo mostra como a narração da procura problemática da origem histórica está cruzada com a procura da origem do texto. Ao analisar a densa rede intertextual, na qual se emaranha a revisão criativa de Raimundo Silva, fica patente que a questão central desta metaficção historiográfica é menos a revisão do que a tradução. Nesta base, a aventura da leitura / escrita torna-se uma questão de identidades cruzadas que se prolonga no leitor do romance: no caso da tradução para alemão, tem de lidar com a afinidade cultural do leitor com os Cruzados. Palavras-chave: Metaficção tradutológica. Hibridismo cultural em tradução. * Possui M.A. em Filologias Românicas e Ciências da Comunicação pela Ludwig-Maximilians-Universität (LMU) de Munique, Alemanha, e doutorou-se nestas áreas pela mesma universidade, em 1989. Desde 1990 é docente (atualmente, professor associado) do Departamento de Estudos Germanísticos e Eslavos, Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho, Braga, Portugal. E-mail: [email protected] 110 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Orlando Grossegesse INTERSECTED IDENTITIES: HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA AND GESCHICHTE DER BELAGERUNG VON LISSABON Abstract: It is well known that the novel The History of the Siege of Lisbon undertakes a revision of the origin of Portuguese identity by revealing the fragile historical fundament in the sense of a culture’s hybridity. This study argues that in this story the problematic search for ‘pure’ historical origin is intertwined with the search for ‘pure’ text. By analyzing the dense intertextual net of Raimundo Silva’s doubtful and creative proof- -reading it becomes evident that it is less a question of proof-reading than of translating that is at stake in this historiographic metafiction. From this perspective the adventure of reading/writing turns out to be a question of criss-crossed identity that is extended to the novel’s reader: in the case of its translation into German, the new text has to tackle with the reader’s cultural affinity with the Crusaders. Keywords: Metafiction about translation. Cultural hybridity in translation. “É humilhante para os portugueses a percepção que o exterior tem de Portugal, (…)”. Esta e outras afirmações, recentemente proferidas pelo gestor norte-americano Jack Welsh num congresso em Lisboa1, mereceram, para além de reações imediatas de indignação, um artigo de opinião de José Pacheco Pereira: Welsh fez bem em dizê-lo e fazia-nos bem ouvir mais verdades como esta para substituirmos a nossa balofa e incompetente auto-estima pela percepção de que a realidade não é propriamente um espelho do nosso excesso identitário. (Pereira, 2006). Pacheco Pereira reconhece que esta percepção não é acolhida de bom grado e logo classificada de “arrogância do estrangeiro”. Em vez de assim “esconjurar o que não queremos ver”, ele destaca a utilidade particular de sermos confrontados com a nossa imagem vista de fora, quando nos entregamos à “tarefa permanente de nos 111 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Identidades cruzadas: História do Cerco de Lisboa e ... iludirmos” (Pereira, 2006). Nesta contraposição, predominam categorias rígidas e relações claramente antagónicas: realidade e ilusão; visão de fora e de dentro; capacidade de percepção e respectiva incapacidade. Contudo, a conclusão de os portugueses ficarem “mal amados, mal lembrados, pouco estimados no mundo”, e o senhor Welsh ter lembrado isto “com crueldade”, não vai muito além do citado “negativismo dos intelectuais, traço típico desde os Vencidos da Vida”, que também não satisfaz o próprio comentarista, apesar de preferir “uma boa dose de realidade, cruel que seja” (Pereira, 2006). De facto, Pacheco Pereira opera com uma categoria de realidade difusa porque não expressamente identificada como construção política, social e cultural responsável pela afirmação das imagens, seja de fora ou de dentro. Portanto, a habilidade portuguesa de apropriar-se, ou até de antecipar a imagem de fora2, não questiona mas protege o excesso identitário. Esta construção da ‘realidade portuguesa’ entre duas atitudes antagónicas mas, em termos discursivos, no seu excesso análogas revela o desajuste da dicotomia entre a realidade cruel (de fora) e a doce ilusão (de dentro). Em resumo, apesar da sua posição auto-reflexiva, o ensaio de Pacheco Pereira não transcende uma tradição discursiva bem definida: a de absorver posições negativas ‘de fora’ para preservar alguma identidade de Portugal entre a dramatização actual da sua perda total e a memória indelével da sua grandeza. Com este tipo de análise, afastamo-nos de posições substanciais de identidade: em vez de características próprias e inconfundíveis, bem demarcada face a outras identidades, através de território, sangue (povo) e língua, ela é entendida na sua dimensão estrutural de relacionamento ou discurso, seguindo o conceito de Wolfgang Welsch (1995) de transculturalidade como princípio fundamental da praxis da vida.3 Neste sentido, a fala sobre o próprio que se baseia nas ‘verdades cruéis’ ditas (ou dizíveis) pelo outro revela-se uma forma portuguesa de transposição dramática ou cómica que afirma as relações desenhadas nas dicotomias inicialmente referidas. Ao contrário da representação de pureza cultural, a transculturalidade baseia-se na consciência de que somos, em termos de 112 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Orlando Grossegesse identidade cultural, essencialmente “mestiços” (Welsch, 43). Falamos de representação da identidade cultural (nacional) para realçar a sua construção discursiva ao longo da história: no Renascimento e no Barroco, portanto no alvor das nações europeias modernas, inauguraram-se modos de falar sobre o carácter da nação ou do povo, em termos comparativos. No Romantismo, estes discursos adquiriram maior força através da definição do carácter do povo (Volkscharakter) como essência pré-consciente, sucessivamente reinterpretada e amalgamada com o conceito pseudo-científico da raça, a partir do fim do séc. XIX. Esta evolução demonstra que não existe um objectivismo desvinculado da evolução da historiografia e etnografia. Tal como não existe uma substância intemporal da obra de arte, não pode haver uma substância intemporal do discurso historiográfico e etnográfico ou do discurso da identidade cultural (nacional). Conforme a crítica do platonismo subjacente nas filologias e na historiografia tradicionais, o analista de um texto não possui a priori uma posição superior ao ‘leitor normal’, mas deve ancorar a sua própria análise “na consciência de a sua posição actual se integrar numa sequência histórica de leitores”4. A partir destas definições da cultura e do texto analisaremos os cruzamentos de identidades no romance História do Cerco de Lisboa (1989) e na tradução alemã Geschichte der Belagerung von Lissabon (1992).5 O romance saramaguiano subverte, através de uma representação transcultural ou híbrida6, a coesão da identidade portuguesa perante o outro, de definição dupla: por um lado, os cruzados, na maioria procedentes do Norte da Europa, e, por outro, os mouros, oriundos de um Sul longínquo, não concretizado, e senhores atuais do território. São representações estereotipadas e, portanto, ambivalentes, tornando o outro ao mesmo tempo estranho e familiar: “the ambivalence of colonial cultural texts” dá origem à “production of hybridization” (Bhabha, 1985, 112-19), afirmando que “national narrative is the site of an ambivalent identification” (1994, 167). Precisamente a Tomada de Lisboa, que na historiografia nacional se constitui como episódio nuclear da génese da nação, é des-narrada (dénarrée; Prince, 1988) pelo revisor Rai- 113 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Identidades cruzadas: História do Cerco de Lisboa e ... mundo Silva, o protagonista deste romance, partindo de um “não”: “Os cruzados Não auxiliarão os portugueses a conquistar Lisboa” (Saramago, 50). A atitude de des-narrar que produz a indeterminação relativamente à versão supostamente verídica dos factos manifesta-se na problematização das fontes e no uso do futuro ao falar sobre os acontecimentos do ano de 1147, partindo desta negação explícita que o revisor introduz no livro de um historiador7, antes da sua publicação, sem possuir nenhuma autoridade para este acto (Grossegesse, 1996, 810). Portanto, não só o discurso, mas também a própria acção deste romance questionam os conceitos de identidade cultural original e texto original. Assumindo, aos poucos, a tarefa de uma reescrita com base no “não”, Raimundo procura uma “fonte limpa”, lamentando a “imprecisão dos dados” e a “propagação alucinada das notícias”, dando-se a “proliferação das próprias fontes segundas e terceiras” que ele compara com a “multiplicação de esporos” (124) e – numa analogia com a actualidade – com a “repetição variada, nas notícias dos jornais” (Saramago, 125). A procura da origem da nacionalidade entretece-se com a procura do texto da origem, revelando-se cada vez mais a impossibilidade de encontrar pureza identitária: nem existe uma identidade-fonte, nem um texto-fonte, porque ambas as noções colocariam cultura e escrita fora de uma evolução ou discursividade histórica. Ora, se a “verdade” da origem e o seu discurso unívoco ficam desconstruídos, posição já anunciada pela epígrafe, tirada de um Livro dos Conselhos imaginário8, como pode haver então uma tradução deste romance no entendimento tradicional que se baseia na ‘verdade’ de um texto-fonte e procura a consistência comparável de um texto-alvo? É precisamente a alternativa imaginada de uma conquista de Lisboa sem recorrer ao auxílio de estrangeiros que expõe a vulnerabilidade do ‘excesso identitário’ implícita na História nacional quando se fala da “ajuda de cruzados, dando à participação deles um valor instrumental quando seria mais correcto dizer que Lisboa foi conquistada com a ajuda dos portugueses” (Caragea, 224). Na procura de minimizar o papel da participação estrangeira, já 114 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Orlando Grossegesse bem visível na Crónica de D. Afonso Henriques (1632), de Frei António Brandão, através de uma compilação comentada de fontes, chegou-se, de facto, no Estado Novo, até à sua negação, num texto de José Augusto de Oliveira (1940). No entanto, esta revisão nacionalista não conseguiu alterar a presença já sedimentada dos cruzados no imaginário português: etnicamente heterogéneos, no entanto unidos aos portugueses por serem também eles cristãos e hostis aos muçulmanos. Neste sentido, a representação do encontro com os cruzados é significativa. Na Crónica de Portugal de 1419, citada no romance sob o título anterior Crónica dos Cinco Reis de Portugal9, no capítulo “Como el·rey dom Afonso se ordenou de ir çerquar Lixboa e das jentes estrangeyras que levou em sua ajuda”, encontramos a seguinte descrição: (…) moverom em aquele tempo muytas jentes de Ingraterra e d·Alemanha e de Framça e vierom em muyto grande frota pelo mar, em guisa que achamos espírito que erom oytenta velas. E, vindo todolas naos de mar em fora busquar terra à roqua de Syntra, el·rey, que estava em çima no castelo com seus fidalguos, devisaram-nos e, quando virom tão grande frota como aquela, foram muy espantados. E el·rey mandou loguo quatro cavaleyros que fossem à ribeyra saber que gemtes erom aquelas. (…). E os cavaleyros perguntaram que gemtes erom e os das naos lhe disserom que erom christãos que partirom de suas terras e vinhom às Espanhas para guerear contra os mouros por fazer serviço a Deos. (Crónica, 47) A chegada dos estrangeiros, cuja força militar espanta, insinua uma espécie de invasão amigável nas “Espanhas”, logo funcionalizada pela História nacional como dádiva divina para a génese da identidade portuguesa, de grande coesão, força e predestinação, já afirmadas pelo milagre de Ourique. Através da reinvenção dos actores históricos e dos seus discursos, o romance saramaguiano nega, de uma forma paródica, o conceito de identidade cultural 115 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Identidades cruzadas: História do Cerco de Lisboa e ... que se define, na tradição herderiana, através do antagonismo entre cultura própria e alheia. Como mostra a Crónica de 1419, a identidade alemã também participa no Cerco de Lisboa, integrando- -se na categoria heterogénea dos estrangeiros do lado colonizador, superiores não só relativamente aos mouros mas também aos colonizadores autóctones que, ao consentir ou adoptar a ideologia importada da cruzada, se revelam, em certa medida, também colonizados. Na noção da milagrosa invasão amigável de estrangeiros que vinham aqui “para guerear contra os mouros” dá-se azo ao excesso identitário que se sobrepõe à contra-imagem humilhante de um papel meramente secundário de anfitrião e ajudante numa conquista de Lisboa liderada pelos cruzados, por sua vez missão menor e de passagem no seio de um contexto maior, o da Segunda Cruzada (1147-49).10 Um romance que não só reescreve, de uma forma paródica, a origem da configuração colonizadora / colonizada específica, responsável do excesso identitário português, mas também sugere ‘leituras’ anacrónicas da actualidade portuguesa, ainda caracterizada pelo dilema deste mesmo excesso identitário, como comprova o ensaio de Pacheco Pereira (2006), é difícil de traduzir porque implica uma operação complexa de mediação cultural no sentido de “cross- -linguistic cultural practice involving recontextualization” (House, 2002, 97). Ilustramos esta dificuldade com um episódio do livro do historiador, lido por Raimundo Silva, antes de introduzir o “não”: (…) agora o historiador embandeirou o estilo para tratar da grande discórdia que se levantou entre os cruzados, (…), sobre se deveriam, ou não, ajudar os nossos portugueses a tomar Lisboa, se ficariam aqui ou seguiram, como previsto, para a Terra Santa, onde os estava esperando Nosso Senhor Jesus Cristo, sob os ferros turcos. Argumentavam aqueles a quem seduzia a ideia de ficar que lançar fora da cidade a estes mouros e fazê-la cristã seria também serviço de Deus, contestavam os contrários que, se esse era serviço de Deus, serviço menor seria, e que cavaleiros tão principais como 116 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Orlando Grossegesse ali todos se prezavam de ser tinham por obrigação acudir aonde mais trabalhosa fosse a obra, não neste cu do mundo, entre labregos e tinhosos, que uns deviam ser os mouros e outros os portugueses, porém não o averiguou o historiador, talvez por não valer a pena de escolher entre os dois insultos. (Saramago, 47) (…) nun übt sich der Historiker in hohem Stil, um den großen Zwist darzulegen, der sich unter den Kreuzfahrern (...) entspann, stand doch die Frage, ob sie unseren Portugiesen bei der Einnahme Lissabons helfen sollten oder nicht, ob hier verbleiben oder aber, wie vorgesehen, weiterziehen, ins Heilige Land, wo in türkischen Fesseln Unser Herr Jesus Christus ihrer harrte. Es argumentierten jene, die am liebsten hiergeblieben wären, die Mauren aus dieser Stadt treiben und aus ihr einen Christenhort zu machen sei gleichermaßen ein gottdienliches Werk, und die anderen hielten dagegen, wenn gottdienliches Werk, dann doch wohl ein minderes, so hehre Ritter, wie alle hier es zu sein vermeinten, hätten die Pflicht, dorthin zu eilen, wo das Werk mühevoller sei, nicht wie in diesem Weltenwinkel unter Bauersleuten und Wichten, gemeint waren wohl mit den einen die Mauren und mit den anderen die Portugiesen, doch unterließ der Historiker weitere Ergründung, vielleicht weil beides Schmähworte waren. (55) Seja por entender “embandeirar o estilo” num sentido estrito, em vez de intuir a subversão da escrita pelas vozes citadas, no sentido da polifonia bakhtiniana11, seja por obedecer a um conceito do politicamente correcto, a versão alemã “Weltenwinkel” evita o equivalente “Arsch der Welt” da expressão escatológica “cu do mundo”, estereotipada no discurso da identidade portuguesa do século XX. Também suaviza os insultos que expressam a superioridade colonizadora dos cruzados não só relativamente aos mouros mas também aos portugueses: a tradução inofensiva de “Bauersleute” e “Wichte” anula a semântica insultuosa de “labregos”12 e 117 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Identidades cruzadas: História do Cerco de Lisboa e ... “tinhosos”. Com isto, atenua-se a atitude de arrogância dos “cavaleiros tão principais”, que não acham necessidade de diferenciar entre portugueses e mouros. A tradução não consegue transferir a paródia da identidade portuguesa, que dialoga com o leitor implícito (Iser, 1972) do original, para o perfil do leitor da tradução, de maior afinidade cultural com os cruzados. Trata-se de um leitor desprovido (1) da “enciclopédia do mundo português” (Caragea, 209) e (2) da socialização no contexto da realidade política e social portuguesa dos anos oitenta e noventa, com a memória do 25 de Abril de 1974 (por exemplo, implícita no perfil da personagem Mogueime como pré-figuração de Salgado Maia). Esta dupla dificuldade, que – com o tempo – também surgirá cada vez mais para o texto-fonte, conduz à questão do texto comentado que discute Horst Turk (1992), exemplificando-a no romance La reivindicación del conde don Julián de Juan Goytisolo (em reedição comentada, a partir de 1985) e na sua tradução alemã (não comentada). No caso de História do Cerco de Lisboa, ainda não existe uma edição comentada do original. Entre as traduções, a alemã de Andreas Klotsch (1992) prescinde de comentário, tal como a inglesa de Giovanni Pontiero (1996) que se cinge a um breve prefácio; no entanto, a romena, por exemplo, é acompanhada por um prólogo extenso e notas explicativas da tradutora Mioara Caragea.13 Pelo comentário e pela ausência dele acentuam-se as duas caras de Iano (Janusköpfigkeit) da tradução: ela representa o texto-fonte e substitui o texto-fonte na literatura-alvo. Mais ainda, a tradução é também em todas as literaturas um lugar privilegiado para articular qualidades de diferença.14 Destas deliberações surge como questão central: a tradução alemã não comentada da História do Cerco de Lisboa é capaz de transmitir a paródia de identidade / alteridade cultural (nacional) do texto-fonte? Ao falar do handicap do leitor desprovido da “enciclopédia do mundo português” (Caragea, 209), prolonga-se a abordagem purista em vez de se repensar também esta enciclopédia de forma transcultural. Com isto, evidencia-se o cruzamento de identidades, em constante mudança desde as fontes históricas citadas no ‘livro 124 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Orlando Grossegesse Flamen, Bologneser, Bretonen, Schotten und Normannen, und aller durcheinander, zu bezeichnen. (56) Portanto, a palavra “algazarra” sugere, nesta leitura transcultural do discurso régio, a relação ambivalente galega / árabe como fundadora. Esta insinuação integra-se numa paródia do discurso da identidade nacional, nomeadamente na sua projecção anacrónica para a Idade Média – um aspecto que fica esbatido na tradução alemã.22 Uma leitura semelhante sugere a mensagem do rei de Évora aos “seus irmãos de Lisboa”, cuja tradução comentada ao português actual brinca com a identidade estereotipada de alentejanos: Aguentem aí os malvados, que a minha tropa de alentejanos já vai a caminho, dizemo-lo assim por vir essa gente de além do Tejo, ficando demonstrado, de caminho, que já havia alentejanos antes de haver portugueses. (176) Para o leitor da tradução, a existência historicamente invertida de “Alentejaner” antes dos “Portugiesen” não possui significado, centrando-se a atenção na identificação de “diese Leute von jenseits des Tejo” como “Alentejaner” (212). De facto, a epístola latina cita mensagens entre os mouros de Lisboa e o rei de Évora, destacando a ajuda de um intérprete para poder incorporá-las no texto.23 Obviamente, a missiva régia não menciona alentejanos e transmite precisamente o contrário: a recusa do envio de tropas, alegando a existência de “tréguas com o rei dos portugueses” (Conquista, 64). Estas manipulações mostram que Raimundo Silva é cada vez mais consciente da leitura / escrita como cruzamento entre dimensão linguística e cultural no eixo temporal, válido para a questão da tradução24, no sentido das reflexões de André Lefevere (1992), Horst Turk (1992) e Susan Bassnett (1998) que analisam o texto traduzido “embedded in its network of both source and target cultural signs” (Bassnett,9). Transcendo uma definição estática de “cultural signs” e da “hybridization” de Homi Bhabha, podemos falar da 125 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Identidades cruzadas: História do Cerco de Lisboa e ... tradução como crioulização (Stoll, 2005), com base em múltiplos processos de mudança, sincrónicos e diacrónicos. A paródia da génese da identidade portuguesa através da crítica da pureza do texto-fonte (e da sua tradução) coincide com posições da historiografia moderna: a conquista de Lisboa não significa – conforme a História nacional tradicional – a vitória dos portugueses alcançada com ajuda dos cruzados sobre os mouros; significa, isso sim, a imposição militarmente bem sucedida do novo paradigma de pureza cristã, implantada através da ideologia colonizadora da Segunda Cruzada (1147/48), ao velho paradigma da convivência segregada, mais ou menos pacífica entre muçulmanos, cristãos e judeus, em estruturas políticas e sociais localmente autónomas, sob domínio árabe (Marques, 68). O romance saramaguiano insinua esporadicamente a crioulização da identidade portuguesa mas não concede potencial identitário às populações cristã (moçárabe) e judaica de Al-Usbuna, sacrificadas por uma fracção dos cruzados “logo que o saque e o massacre exorbitaram das possibilidades de controlo” (Marques, 68), como conta em pormenor a epístola. Naturalmente, destaca-se o bom comportamento dos ingleses e normandos (identidade de quem escreve) em contraste com o massacre e a devastação perpetrados pelos colonenses e flamengos que até matam o bispo da cidade moura.25 Portanto, o des-narrar saramaguiano não empreende um deslocamento transcultural tão audaz como, por exemplo, La reivindicación del conde don Julián (1970) de Juan Goytisolo.26 Naquele romance, o narrador recupera, através da sua identificação com o mítico ‘traidor’ D. Julião, a identidade árabe e moçárabe, terminando com o anúncio, do lado árabe: “mañana será otro día, la invasión recomenzará”. No entanto, existe em História do Cerco um almuadem cego que preenche claramente o lugar do bispo antiquíssimo, a ser degolado como aquele, por “um soldado cristão, de mais zelosa fé” (348). A sua cegueira, paradoxalmente visionária da Lisboa moura sitiada, é contrária daquela de “ira sanguinária” do seu assassino, identificado como “o cruzado Osberno, só igual de nome” (Saramago, 40), introduzindo-se assim deliberadamente 126 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Orlando Grossegesse uma homonímia com o Osberno da epístola (ainda tratado – erroneamente – como o seu autor), novamente recordada em “o cruzado Osberno, porém não o tal”.27 Esta duplicação de identidades com o mesmo nome adverte o leitor para ficar atento perante redefinições identitárias como, por exemplo, dos sitiadores chamados “os francos e os galegos”28 sob comando dos cruzados e “Ibn Arrinque, o Galego” (74), na perspetiva dos mouros, recriada na mente de Raimundo Silva. O almuadem na sua torre complementa – através dos tempos – a posição de Raimundo Silva, “que hoje quase tão cego se vê como ele” (33). Significativamente, o revisor apercebe-se “de que mora no preciso lugar onde antigamente se abria a Porta de Alfofa”, configurando-se assim topograficamente a incerteza (que corresponde ao des-narrar), “se Raimundo Silva é um sitiado ou um sitiante, vencedor futuro ou perdedor sem remédio” (75). Nos seus passeios por Lisboa, ele revivifica uma cidade dividida entre zonas dos sitiados e dos atacantes, entretecendo “dois tempos” (242), passado e presente.29 A ambiguidade, nos eixos de lugar e tempo, transfere-se não só à história, aplicando o tema da cegueira até ao processo da sua recepção: “(…) esta [história] de agora, começada, só poderá lê-la quem os olhos tiver lúcidos e abertos, não um cego” (243); transfere-se também à língua, na qual está escrita o texto, insinuando-se um regresso a outra fonte, nas duas dimensões de identidade cultural e texto, que evoca aquela transformação da língua castelhana em árabe realizada nas últimas duas páginas de Juan sin Tierra (1975) de Juan Goytisolo: “(…), as mãos de Raimundo Silva pousam sobre a última folha escrita, umas linhas negras indecifráveis, talvez de arábiga língua, não estivemos atentos à voz do almuadem” (Saramago, 243). Na ação mediadora do revisor confluem a voz árabe do almuadem e a escrita latina do clérigo Roger. Na reescrita, inicialmente só mental, do ‘livro do historiador’, Raimundo Silva procura uma reconstrução contextualizada de ambos os lados (cristãos / muçulmanos), por exemplo corrigindo o significado da cegueira do almuadem: 127 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Identidades cruzadas: História do Cerco de Lisboa e ... (...) não foi erro escrever, porque, enfim, escrito está, que era cego o almuadem. O historiador só fala de minarete e muezim, talvez ignorasse que quase todos os almuadens, naquele tempo e por muito tempo depois, eram cegos. (29 (...) es war kein Fehler, und geschrieben ist es nun mal, daß der Muezzin blind war. Der Historiker, der da lediglich von Minarett und Muezzin schreibt, wußte vielleicht nicht, daß fast alle Muezzins damals, und noch lange danach, blind waren. (32) O revisor identifica “minarete” e “muezim” como palavras ligadas ao orientalismo dos séculos XVIII e XIX. Apesar de ser um fenómeno transnacional europeu, o orientalismo teve maior atracção na cultura francesa, que espalhou para outras línguas europeias as vozes árabes importadas pela via oriental: o Império Otomano (Turquia), na sua expansão europeia a partir do século XIV (ponto alto: conquista de Constantinopla, em 1453), tinha deixado vestígios, nomeadamente na cultura austríaca, no âmbito dos Türkenkriege (ponto de viragem: Cerco de Viena, em 1683) que serviram de base para o orientalismo francês. Raimundo Silva prefere o uso da palavra “almuadem”, de maior e mais antiga presença na língua portuguesa30, importada directamente e recuperada no Romantismo pelas Lendas e Narrativas de Alexandre Herculano, tal como “almádena” em vez de “minarete” (Machado, 62). A tradução alemã não assinala esta tentativa de maior ‘pureza’ histórica no discurso sobre a identidade moura, mantendo a denominação invariável “Muezzin”, embora exista a alternativa lexical menos usada de “Muaddhin” (Brockhaus, 229).31 No contexto do pensamento pós-colonial, esta reaquisição dos processos de imaginação depois das imposições coloniais europeias que começa, em princípio, pelo Romantismo (Herculano, Garrett), revela a raiz histórica da especificidade relacional portuguesa colonizada / colonizadora, isto é: a harmonização, mais ou menos voluntária, da política existente de poder regional na Península Ibé- 128 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Orlando Grossegesse rica com a ideologia colonizadora das cruzadas. Para além de uma subtil reivindicação da identidade moura, História do Cerco de Lisboa se cinge quase unicamente à revisão da identidade conquistadora, na qual entra a identidade alemã – um aspecto importante para a tradução. Assim, estabelece-se uma certa inversão, embora não perfeita, de identidade / alteridade: em geral, o leitor alemão está pouco familiarizado com a génese da identidade portuguesa e ignora a configuração colonizadora / colonizada específica que é responsável pelo excesso identitário, desconhecendo também a participação bem documentada de actores vindos de terras alemãs. Eles aparecem no romance, logo quando Raimundo Silva começa a reler a epístola, na sua procura da “fonte limpa”: (…) a informação é de boa origem, diz-se que directamente do célebre Osberno, e assim podemos ficar a saber que estava o conde Arnoldo de Aarschot, o qual comandava os guerreiros vindos de diversas partes do império germânico, que estava Cristiano de Gistell, chefe dos flamengos e bolonheses, (…). (124) Seguindo a teia intertextual, regressamos ao texto-fonte que, em contraste com a citada Crónica de Portugal de 1419, narra na perspectiva de uma expedição militar: Igitur apud portum de Dertemunde diversarum nationum et morum et linguarum gentes navibus cicrciter CLXIIII convenere. Horum omnium trifariam partitur exercitus. Sub comite Arnoldo de Arescot nepote Godefridi ducis a romani imperii partibus secedit exercitus. Sub Christiano de Gistello flandrenses et bononenses.32 A mudança para “império germânico” (124) corresponde à nota explicativa do tradutor J.A. de Oliveira.33 No entanto, não se expli- 129 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Identidades cruzadas: História do Cerco de Lisboa e ... ca a substituição de “bononenses” por “bolonheses”. Naturalmente, as duas mudanças reflectem-se na tradução alemã que toma o romance saramaguiano como texto-fonte: (…), Information aus verläßlicher Quelle, dem Vernehmen nach direkt vom berühmten Osberno persönlich, und also können wir uns vergewissern, daß da Graf Arnoldo de Aarschot zugegen war, der die aus verschiedenen Regionen des deutschen Kaiserreiches herbeigeströmten Krieger befehligte, und Cristiano de Gistell, der den Flamen und Bolognesern vorstand, (…). (150) Na tradução alemã, nomes próprios estrangeiros não são ‘repatriados’, nem o próprio Osberne, nem Arnold ou Christian que ficam todos na grafia românica. No entanto, “império germânico” passa para “deutsches Kaiserreich”, uma tradução que insinua uma projecção anacrónica do século XIX (refundação do Heiliges Römisches Reich Deutscher Nation como Deutsches Kaiserreich, em 1871), não pretendida no texto-fonte. Naturalmente, a tradução alemã ignora a possibilidade latente, já apagada no texto saramaguiano, de encontrar a identidade alemã nos “bononenses”, mal transcritos em “bolonheses”.34 Esta transcrição defeituosa surpreende, porque é a personalidade do cavaleiro Henrique de Bona, ausente na epístola35, que teve o maior relevo individual na historiografia portuguesa entre os “samtos cavaleyros martires”: Nesta tomada de Lisboa morerom alguns cavaleyros como martires e depois faziam muytos milagres, amtre os quaes foy hum cavaleyro chamado Amriqe, alemão, o qual era de hũa vila que chamom Bona, posta jumto de Colonha, o qual foy enterado em Sam Viçemte, honde fazia muytos milagres, (…). (Crónica, 50) 130 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Orlando Grossegesse Merecendo destaque na história da fundação do mosteiro de São Vicente, com episódios de acção milagrosa depois de morto (Indiculum, 83-85; Crónica, 50-52), Henrique de Bona torna-se uma personagem da História portuguesa digna de entrar n’ Os Lusíadas (VIII, 18). Procede-se a uma apropriação do estrangeiro colonizador: o alemão Henrique torna-se, depois de ter vertido “de gram voontade o seu sangue antre os mouros pola paixom do Nosso Salvador Jesu Cristo” (Indiculum, 83), no maior Santo Cavaleiro da Tomada de Lisboa. Na Alemanha, ele está totalmente desconhecido, a não ser no âmbito da retórica diplomática bilateral, na qual aparece, não como mártir mas como fundador dos “laços da amizade secular que liga o povo da Alemanha ao de Portugal” (Ehrhardt, 11), projectando a ajuda dos cruzados na génese do reino de Portugal numa ‘lenda de auxílio’ para todas as épocas posteriores. Numa abordagem crítica, observamos um duplo branqueamento: (1) da memória do saque cruel e devastador da Lisboa moura, perpetrado pelos cruzados colonenses e flandrenses, e (2) da relação colonizadora entre aliados, no contexto da Europa. Cingimo- -nos, no âmbito deste estudo, à análise do episódio da torre móvel. No romance, a ideia da sua construção é atribuída ao cavaleiro Henrique, manipulando as fontes históricas que falam de engenhos militares em competição, entre os diferentes grupos étnicos, ou destacam “um engenheiro italiano, natural de Pisa”.36 O discurso profético de superioridade cultural deste cavaleiro revela os motivos desta escolha: Grandes são as vantagens que a Portugal advirão de imitar, neste como noutros casos, o que na Europa se vai fazendo de mais moderno, ainda que ao princípio experimenteis dificuldades em meter na cabeça as tecnologias novas, eu, por mim, sei da construção das tais torres o suficiente para os naturais daqui, (…). (251) 131 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Identidades cruzadas: História do Cerco de Lisboa e ... Große Vorteile sind Portugal gewiß, wenn es, in diesem wie in anderen Fällen, nachahmt, was man in Europa an höchst modernen Dingen tut, mag es euch anfänglich auch schwerfallen, die neuen Techniken in euren Kopf hineinzukriegen, ich meinerseits weiß vom Bau besagter Türme hinreichend viel, um die hiesigen Eingeborenen zu unterrichten, (...). (305) Mesmo a tradução alemã transmite a ideia de que a fala do cavaleiro Henrique perante o primeiro rei português contém uma paródia do discurso político actual que não se cansa de propagar a imitação da Europa avançada, representada pela capacidade económica e tecnológica de Alemanha em competição com outras nações. Ao mesmo tempo, projecta-se – apresentado como verdade de fora – a auto-imagem humilhante dos “naturais”37 como mão-de- -obra sem formação à mercê das decisões de governantes que pactuam com os estrangeiros (252) como condição da própria génese nacional. No entanto, a derrota da torre tão bem construída, que conduz até à morte do seu construtor, faz surgir a crítica dos “engenhos estrangeiros que tanto podem estar a favor como contra” (316), parodiando-se assim tanto a ‘lenda de auxílio’ e a atitude colonizadora como o projecto português de modernização europeia (Grossegesse, 1995, 228). Reservando uma análise da constelação transcultural entre o cavaleiro alemão Henrique, a sua “barregã” Ouroana38 e o soldado Mogueime para outra ocasião, centramo-nos num aspecto de jogo intertextual que ainda recebeu pouca atenção. Face à ausência do episódio da torre móvel e da personalidade de Henrique de Bona na epístola dirigida a Osberno, é significativo que o romance saramaguiano invente “apontamentos para a carta de Osberno” (308) contendo estes, em todo pormenor, a história do cavaleiro Henrique. A explicação psicanalítica de Ersatz para esta escrita do Frei Rogeiro39 também é válida para o revisor Raimundo que insere na sua reescrita do Cerco de Lisboa a história da conquista amorosa de Ouroana por Mogueime, possibilitada pela morte do cavaleiro 132 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Orlando Grossegesse alemão, que espelha – através dos tempos – a sua própria ‘conquista’ de Maria Sara. Com a ficção do texto apócrifo inaugura-se uma hibridização transcultural das próprias fontes históricas, possibilitando um amalgamar das narrativas dos cruzados com a História nacional e o lendário português que culmina na releitura dos milagres do cavaleiro Henrique, em simultâneo com os milagres de Santo António, o padroeiro mais popular de Lisboa. A intersecção de milagres de ambos, pelas leituras simultâneas de Maria Sara e Raimundo, é um acto que subverte tanto a procura da verdade histórica como o conceito de identidades delimitadas por território, sangue e língua. Numa espécie de metalepse, o próprio Frei Rogeiro, após ter compilado “os apontamentos que havia tomado durante uma volta que dera por todos os arraiais” (331), participa no episódio milagroso “Como o cavaleyro Amrique apareçeo em sonhos a hum homem bõo e como lhe disse que soterasem seu escudeiro a par dele” (Crónica, 51; cf. Indiculum, 84-85), cumprindo o papel daquele homem bom não identificado. Mais significativo, nesta leitura de milagres transformada em reescrita paródica, é o destaque atribuído à questão de identidades, processos de deslocação e comunicação, culminando na transformação de um milagre do cavaleiro Henrique numa espécie de contra-mito da origem da língua portuguesa: ao narrar o milagre dos dois homens surdos-mudos que se deitaram ao lado do moimento do cavaleiro (Indiculum, 83-84; Crónica, 50-51), realça-se a incerteza da identidade deles: “tinham vindo na frota, porém não se sabe se ingleses, aquitanos, bretões, flandrenses ou colonenses” (335). Estando os dois homens assim jazendo, “adormeceram ambos e apareceu-lhes em sonho logo o cavaleiro Henrique, (…) e falou àqueles mancebos” (336) – não sabemos em que língua – anunciando a sua cura, de duvidoso efeito: (…) e eles acordando acharam que podiam ouvir, e falar também, porém falavam como gagos, e de maneira que não se entendia que língua estavam falando, se a dos ingleses, 133 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Identidades cruzadas: História do Cerco de Lisboa e ... ou aquitanos, ou bretões, ou flandrenses, ou colonenses, ou, conforme não poucos afirmavam, a língua dos portugueses. (336) Esta manipulação, não de fontes históricas mas de uma lenda, convida para uma leitura metadiscursiva: em vez de “com voz chlara (…) contar a todo o povo o milagre que Deos em eles fizera” (Crónica, 51), os dois ficam gagos. No entanto, o problema não consiste em entender o que é que eles dizem mas em identificar a língua que eles falam. Nesta leitura, o milagre reinterpretado enfatiza a visão de uma hibridização das línguas e das identidades, no entanto consciente da imperfeita capacidade comunicativa, que é aplicável às questões de revisão e tradução. Tal como o revisor Raimundo Silva dentro da ficção, o tradutor reescreve um texto anterior, no entanto noutra língua e para um leitor com outro horizonte cultural. A procedência das fontes históricas e a apropriação do cavaleiro Henrique pelo discurso da identidade portuguesa demonstram a ineficácia das definições puras de identidade e alteridade. Em vez da tentativa de uma reprodução de uma língua na outra, no fundo irrealizável, a visão da hibridização das línguas e identidades advoga uma recriação, naturalmente sempre parcial e imperfeita, daquela heterogeneidade que História do Cerco de Lisboa exibe ao narrar a procura de uma “verdade” que “não pode ser mais do que uma cara sobreposta às infinitas máscaras variantes, (…)” (26). Para tal, activa-se “outro tipo de relações entre os elementos, (…) porque as coerções impostas pelas línguas levam a diferentes possibilidades de contextualizações, de remissões, de encadeamentos, de atribuição de valores entre os elementos” (Rodrigues, 205). Se o romance reflecte claramente a différance (Derrida, 1967) como princípio universal40, destacando os processos de tradução e reescrita, este princípio deve ser válido também para a própria tradução, como propõe Cristina Carneiro Rodrigues, na continuação de Rosemary Arojo (1993): 140 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Orlando Grossegesse abençoou as naus da expedição, antes de eles se encontraram com os outros em Dartmouth (Alves, 73). 35. Neste texto referem-se repetidas vezes “colonenses”, sempre unidos aos “flandrenses” (Conquista, 46/62). Supondo um conhecimento geográfico da proximidade entre Colonia e Bona, a versão “bononenses” em vez de “bolonenses” fica reforçada. 36. Herculano (508), com base na carta do cruzado Arnulfo ao bispo Milão (Epistola Arnulfi ad Milonem Episcopum Morinensem). Tanto Herculano (nota 138) como posteriormente Alves (nota 41) destacam a divergência entre a carta de Arnulfo e a carta a Osberno. Paulo Moura (2006, 95) refere a procedência do novo engenho de Pisa, comentado como “ridiculamente moderno” e “a moda de Constantinopla”. 37. A tradução “hiesige Eingeborene” revela claramente o olhar colonizador do cavaleiro alemão. 38. “barregã de um cruzado alemão” (254). O narrador analisa a dependência histórica e cultural desta palavra ao negar a sua aplicação a Maria Sara, “que não é barregã de ninguém”: “as diferenças, que as há, são culturais, sim senhor.” (255). Tradução alemã que intenta reproduzir a historicidade: “Bettschatz” (310). 39. “(…), diremos que não podendo Frei Rogeiro satisfazer em Ouroana os apetites, não encontrou melhor exutório, salvo outro qualquer secreto, que exaltar até à desmedida o homem que se gozava do corpo dela.” (309) 40. Basta citar a imagem central do romance: “(…), os livros estão aqui, como uma galáxia pulsante, e as palavras, dentro deles, são outra poeira cósmica flutuando, à espera do olhar que as irá fixar num sentido ou nelas procurará o sentido novo, porque assim vão variando as explicações do universo, também a sentença que antes parecera imutável para todo o sempre oferece subitamente outra interpretação, a possibilidade de uma contradição latente, a evidência do seu erro próprio.” (26) 41. Perante esta analogia surpreende que a interpretação do próprio romance saramaguiano por parte de Rosemary Arrojo fique limitada à “idealização romântica” do poder autoral (Arrojo, 2003, 203), negligenciando toda a riqueza de dialogismo e sucessiva reflexão meta-discursiva. 141 Cad. Trad., Florianópolis, v. 35, nº especial 1, p. 109-145, jan/jun. 2015 Identidades cruzadas: História do Cerco de Lisboa e ... 42. A análise do acto de traduzir como tema literário também se aplica ao caso do revisor Raimundo Silva: traduzir “significa uma renúncia dupla da subjectividade viva: renunciar à plenitude do jogo dos significados e à constituição do sentido próprio. (…) Na literatura, o traduzir é representado como actividade de pessoas já trans-feridas, longe do seu próprio Eu ou longe da vida activa.” (Klein, 119-120). No caso do revisor, a introdução do “Não” inicia o abandono de conformidade passiva, sendo a visibilidade textual do revisor o germe de um ‘auto-nascimento’ (Grossegesse, 1999, 68-77). Referências Alves, José Felicidade (2004), Conquista de Lisboa aos Mouros em 1147. Carta de um cruzado Inglês que participou nos acontecimentos, Lisboa: Livros Horizonte (2ª ed.). Arrojo, Rosemary (1993), Tradução, desconstrução, psicanálise, Rio de Janeiro: Imago. ______. 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