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Avaliação da sustentabilidade energética e ambiental e seus impactos no desenvolvimento sustentável numa empresa do setor têxtil

Ferreira, Hélder Fernandes

Abstract

A Indústria Têxtil e Vestuário está ligada a diversas questões ambientais, como o consumo excessivo de recursos e a produção de resíduos, os quais têm impactes no meio ambiente e na saúde humana. A adoção de uma abordagem de produção sustentável pode ajudar a diminuir o consumo de recursos e a produção de resíduos, além de reduzir os custos associados às operações das empresas têxteis. A busca pela sustentabilidade é um dos principais objetivos na maioria das indústrias, pois as práticas sustentáveis aumentam a confiança entre a empresa e os clientes. Pode adotar práticas sustentáveis na seleção de matérias-primas, processos ecologicamente corretos e avaliação do ciclo de vida do produto. Este trabalho foi realizado no sentido de entender qual o grau de importância que as empresas atribuem à implementação de um desenvolvimento sustentável, caracterizar e avaliar os processos industriais passíveis de gerar impactes ambientais e por fim, identificar potenciais problemas e apresentar propostas de melhorias que promovam o desenvolvimento sustentável da empresa. Devido à grande quantidade de processos industriais dentro de cada setor, só foram considerados aqueles que decorrem na área de comercialização da Moda – acabamentos, tinturaria e expedição. Através do estudo foi possível não só avaliar os impactes ambientais negativos passíveis nesses processos industriais como também a sustentabilidade energética presente em cada um deles. Fazendo uma análise desses impactes, foi possível apresentar diversas propostas de melhorias sustentáveis em cada setor que, se implementadas, têm o potencial de tornar a empresa mais eficiente e sustentável, nas dimensões ambiental, social e de governança.

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Hélder Fernandes Ferreira Avaliação da sustentabilidade energética e ambiental e seus impactos no desenvolvimento sustentável numa empresa do setor têxtil Universidade do Minho Escola de Ciências janeiro de 2024 Hélder Fernandes Ferreira Avaliação da sustentabilidade energética e ambiental e seus impactos no desenvolvimento sustentável numa empresa do setor têxtil Minho | 2024 U Hélder Fernandes Ferreira Avaliação da sustentabilidade energética e ambiental e seus impactos no desenvolvimento sustentável numa empresa do setor têxtil. Dissertação de Mestrado Mestrado em Ciências e Tecnologias do Ambiente Área de Especialização em Energia Trabalho efetuado sob a orientação do Professora Amélia Paula Martins Marinho Dias Reis Sílvia Portela Martins janeiro de 2024 ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do Repositório UM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ iii AGRADECIMENTOS Quero expressar a minha profunda gratidão aos meus queridos pais, cujo amor incondicional, apoio incansável e inspiração constante foram fundamentais para a conclusão bem-sucedida da minha dissertação de mestrado. O caminho foi longo, mas a presença deles e o encorajamento dado tornaram cada desafio mais leve. Obrigado por serem a minha fonte constante de força e motivação neste percurso académico. Esta conquista é dedicada a vocês com todo o meu carinho e reconhecimento. Às minhas orientadoras, Professora Paula Marinho Reis e Senhora Sílvia Portela Martins, por toda a dedicação, disponibilidade e paciência que tiveram para comigo ao longo deste percurso ao me incentivarem que tudo é fazível com devida persistência. À minha incrível namorada por ser a luz constante ao longo desta jornada. Ao teu apoio inabalável, paciência e amor que foi fundamental para que eu alcançasse a finalização desta dissertação. Por fim, à Matias & Araújo S.A. por me acolher para a realização da dissertação e facultar os documentos e dados necessários para a realização da mesma. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho v RESUMO A Indústria Têxtil e Vestuário está ligada a diversas questões ambientais, como o consumo excessivo de recursos e a produção de resíduos, os quais têm impactes no meio ambiente e na saúde humana. A adoção de uma abordagem de produção sustentável pode ajudar a diminuir o consumo de recursos e a produção de resíduos, além de reduzir os custos associados às operações das empresas têxteis. A busca pela sustentabilidade é um dos principais objetivos na maioria das indústrias, pois as práticas sustentáveis aumentam a confiança entre a empresa e os clientes. Pode adotar práticas sustentáveis na seleção de matérias-primas, processos ecologicamente corretos e avaliação do ciclo de vida do produto. Este trabalho foi realizado no sentido de entender qual o grau de importância que as empresas atribuem à implementação de um desenvolvimento sustentável, caracterizar e avaliar os processos industriais passíveis de gerar impactes ambientais e por fim, identificar potenciais problemas e apresentar propostas de melhorias que promovam o desenvolvimento sustentável da empresa. Devido à grande quantidade de processos industriais dentro de cada setor, só foram considerados aqueles que decorrem na área de comercialização da Moda – acabamentos, tinturaria e expedição. Através do estudo foi possível não só avaliar os impactes ambientais negativos passíveis nesses processos industriais como também a sustentabilidade energética presente em cada um deles. Fazendo uma análise desses impactes, foi possível apresentar diversas propostas de melhorias sustentáveis em cada setor que, se implementadas, têm o potencial de tornar a empresa mais eficiente e sustentável, nas dimensões ambiental, social e de governança. Palavras-chave: Certificação, Recursos naturais, Processos industriais, Consumo. vi ABSTRACT The environmental impacts of the Textile and Clothing Industry, which is linked to various environmental issues, such as the excessive consumption of resources and the production of waste, presents risks to the environment and human health. Adopting a sustainable production approach can help reduce the consumption of resources and the production of waste, as well as reducing the costs associated with the operations of textile companies. The pursuit of sustainability is one of the main objectives in most industries, as sustainable practices increase trust between the company and its customers. Can adopt sustainable practices in the selection of raw materials, eco-friendly manufacturing, and product life cycle assessment. This work was carried out to understand the level of importance that companies give to the implementation of sustainable development, to characterize and evaluate the industrial processes that are likely to generate environmental impacts and, finally, to identify potential problems and suggest improvements that will promote the company's sustainable development. Due to the large number of industrial processes within each sector, only those that relate to the fashion marketing area - finishing, dyeing, and shipping - were considered. Through the study, it was possible not only to assess the negative environmental impacts of these industrial processes, but also the energy sustainability present in each of them. By analyzing these impacts, it was possible to come up with several proposals for sustainable improvements in each sector which, if implemented, have the potential to make the company more efficient and sustainable in the environmental, social and governance dimensions. Keywords: Certification, Natural resources, Industrial processes, Consumption. vii Índice DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS ...... ii AGRADECIMENTOS .................................................................................................................. iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE ..............................................................................................iv RESUMO ......................................................................................................................................v ABSTRACT..................................................................................................................................vi Índice de Figuras .......................................................................................................................ix Índice de Tabelas .......................................................................................................................x Lista de Abreviaturas, Siglas e Acrónimos ..............................................................................xi Capítulo I - Introdução .............................................................................................................. 1 Capítulo II - Enquadramento ao Tema ..................................................................................... 1 2.1. Desenvolvimento sustentável e economia circular.................................................................. 3 2.2. Impactes ambientais da ITV ................................................................................................. 5 2.2.1. Consumo de recursos ................................................................................................... 5 2.2.2. Emissão de poluentes atmosféricos ............................................................................... 7 2.2.3. Poluição da água e degradação dos solos....................................................................... 9 2.3. A ITV e o consumo energético ............................................................................................ 10 Capítulo III – Matias & Araújo S.A. (M&A) ............................................................................ 12 Capítulo IV - Resultados .......................................................................................................... 15 4.1 Inventariação dos processos industriais passíveis de gerar impactes...................................... 15 4.1.1 Pré-tratamento ............................................................................................................ 15 4.1.2 Tingimento.................................................................................................................. 16 4.1.4 Expedição ................................................................................................................... 18 4.2 Avaliação dos impactes ambientais na empresa ........................................................ 18 4.2.1 Setor de acabamentos ................................................................................................. 19 4.2.2 Setor de tinturaria........................................................................................................ 20 4.2.3 Setor de expedição ...................................................................................................... 21 4.3 Avaliação da sustentabilidade energética da empresa .............................................. 22 4.3.1 Rámulas ..................................................................................................................... 22 4.3.2 Jet´s .......................................................................................................................... 23 4.3.3 Frota própria ............................................................................................................... 24 4.4 Propostas de melhorias sustentáveis................................................................................ 25 3 2.1. Desenvolvimento sustentável e economia circular O desenvolvimento sustentável tem sido definido de muitas formas, mas a definição mais frequentemente citada é a do documento Our Common Future , também conhecido como Relatório Brundtland: "O desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades”. Assim, o conceito de desenvolvimento sustentável foi inicialmente formulado como um processo que atende às necessidades atuais sem comprometer as necessidades das gerações futuras, procurando integrar o progresso económico, a preservação do meio ambiente e a equidade social. A sustentabilidade ambiental concentra-se na preservação e manutenção do meio ambiente, considerando a degradação ambiental como uma ameaça à nossa sobrevivência. Isso implica em alterar os hábitos individuais e requer a responsabilidade das empresas, uma vez que ao longo do tempo, a capacidade de produção e o aumento do consumo têm contribuído para uma crescente degradação ambiental (Cosme, 2019). A sustentabilidade social tem origem na consciência coletiva em relação ao meio ambiente, destacando a necessidade de preservar os recursos naturais de uma determinada área. Por sua vez, a sustentabilidade económica abrange uma série de princípios económicos, financeiros e administrativos com o objetivo de promover o desenvolvimento económico de uma entidade específica, ao mesmo tempo em que preserva o meio ambiente e assegura a disponibilidade contínua de recursos económicos para as gerações futuras. Já dentro do contexto da sustentabilidade económica, é crucial destacar o conceito de economia circular. Esse modelo de crescimento económico incorpora a proteção ambiental, incentiva a prevenção da poluição e favorece o desenvolvimento sustentável (Ribeiro, 2023). Atualmente, a busca pela sustentabilidade é um dos principais objetivos na maioria das indústrias porque as práticas sustentáveis aumentam a confiança entre a empresa e os clientes. As práticas sustentáveis poderiam centrar-se em três perspetivas: ambiental, económica e social. O termo “verde” ou “produção verde” está a ganhar muita importância em muitos setores. Como resultado, os produtores e retalhistas do setor da moda e do vestuário estão cada vez mais a adotar práticas que ajudam o ambiente e que cumpram as diretrizes éticas (Purvis et al., 2019). Muitas abordagens podem ser utilizadas para alcançar a sustentabilidade nesta indústria, desde a seleção das matérias-primas até ao fim da vida útil de um produto. Tecnologias emergentes, materiais avançados (materiais renováveis e biodegradáveis) e abordagens de produção amigas do ambiente estão 4 a ajudar as empresas da moda e têxteis a alcançar uma produção sustentável. Por outro lado, o acordo de ações entre fabricantes, governos, organizações não governamentais e consumidores pode ajudar a obter uma indústria mais amiga do ambiente (Costa et al. 2020). No que diz respeito ao processamento químico de tecidos, este é o que tem o impacte ambiental mais significativo. No entanto, esta etapa pode tornar-se mais amiga do ambiente com a adoção de tecnologias mais recentes, como o processamento enzimático, tratamentos de plasma, utilização de pigmentos/corantes naturais, micro-ondas e tratamentos de ultrassom. Outro grande desafio enfrentado pela ITV é a adoção de práticas sustentáveis na produção, como a seleção criteriosa de matérias-primas, processos ecologicamente corretos e Avaliação do Ciclo de Vida do produto (ACV e reciclabilidade) (Saxena et al., 2017). Além de todo o processo produtivo, outros aspetos de sustentabilidade devem ser considerados. Com o aparecimento da fast fashion , surgiu o termo “desperdício pré consumo”. Cerca de 95% desses resíduos têxteis poderiam ser recuperados através da reciclagem ou upcycling , que é o processo de conversão de resíduos ou produtos inúteis em novos materiais ou produtos de melhor qualidade, onde são adicionados recursos valiosos e posteriormente, remodelados. É uma das formas mais econômicas e elegantes de sustentabilidade na indústria têxtil no caso de resíduos pré/pós-consumo (Pandit et al., 2019). Na população europeia, a média de compra de roupas novas anual é de 6,4 milhões de toneladas, o que equivale a aproximadamente 12,66 quilogramas (kg) por pessoa. O crescimento constante de consumo ao longo dos anos tem resultado num aumento significativo do desperdício. Cerca de 30% das peças de vestuário armazenadas na casa de uma família são utilizadas, em média, apenas um ano. Quando desprezadas, mais de metade dessas roupas não é reaproveitada e acaba incinerada ou enviada para aterros sanitários (Pinto, 2021). De 2000 a 2015, a produção duplicou, ao passo que a utilização média de uma peça de roupa diminuiu. Anualmente, na Europa, as pessoas consomem aproximadamente 26 kg de produtos têxteis e descartam cerca de 11 kg. Embora o vestuário usado possa ser exportado para fora da União Europeia, a maioria é incinerada ou depositada em aterros (87%) (Parlamento Europeu, 2023). A maneira como as pessoas se desfazem de roupas indesejadas passou por uma mudança, com muitas peças sendo deitadas fora em vez de doadas. Além disso, é sabido que menos de metade das roupas usadas é coletada para reutilização ou reciclagem e apenas 1% do vestuário reciclado é 5 transformado em novos produtos. Essa situação ocorre devido à recente disponibilidade de tecnologias que possibilitam a transformação de peças recicladas em fibras virgens (Parlamento Europeu, 2023). A economia circular é um modelo cujo objetivo é manter os produtos/componentes/materiais em circulação pelo maior tempo possível, mantendo ou acrescentando valor (Costa et al. 2020). O crescimento da fast fashion desempenhou um papel fundamental no aumento do consumo de vestuário. Em parte, esse comportamento é motivado pelos meios de comunicação e pela indústria, que difundem as tendências da moda para um número maior de consumidores a um ritmo mais rápido do que no passado (Parlamento Europeu, 2023). As novas abordagens para resolver esse problema envolvem a criação de novos modelos de negócios para o aluguer de roupas, o design de produtos visando facilitar a reutilização e reciclagem (economia circular), persuadir os consumidores a adquirirem peças de qualidade superior em menor quantidade ( slow fashion ) e, de maneira geral, direcionar o comportamento dos consumidores para opções mais sustentáveis (Parlamento Europeu, 2023). 2.2. Impactes ambientais da ITV Embora a ITV seja uma indústria com enormes benefícios económicos e sociais, é importante salientar que esta indústria está intrinsecamente ligada a diversas questões ambientais, nomeadamente o consumo de recursos e energia, a poluição dos solos e dos recursos hídricos, e a emissão de gases poluentes para a atmosfera (Sousa, 2022). 2.2.1. Consumo de recursos Ao longo da complexa cadeia produtiva têxtil, diversos processos envolvem o uso considerável de produtos químicos, matérias-primas, energia e água. Essa utilização excessiva de recursos resulta numa quantidade substancial de resíduos que apresentam riscos significativos tanto para o meio ambiente como para a saúde humana (Ferreira, 2021). É crucial reconhecer os riscos associados e os resíduos produzidos em cada fase do processo produtivo, assim como compreender os seus impactos ambientais. A otimização do uso de matériasprimas, água e energia, além da diminuição na geração de resíduos, não apenas resulta em benefícios 6 financeiros, mas também em ganhos ambientais substanciais. Essas melhorias podem ser alcançadas por meio da implementação de técnicas de produção mais sustentáveis. Essa abordagem não só contribui para a competitividade das empresas, reduzindo os custos de produção, mas também promove melhorias no ambiente de trabalho e fortalece a imagem das empresas perante o mercado, a sociedade e os seus colaboradores (Ferreira, 2021). No caso das matérias-primas, a indústria deve apostar nas renováveis (fibras naturais como algodão, linho, lã, seda, etc., ou fibras celulósicas artificiais, como a viscose e o lyocell ) e materiais degradáveis (poliéster reciclável, poliamida, entre outros). No entanto, mesmo as fibras naturais não são integralmente sustentáveis. Por exemplo, o algodão, que é um material natural e biodegradável, necessita de uma enorme quantidade de água para o seu cultivo e processamento. O consumo de água na produção de fibras sintéticas é expressivamente menor em comparação com o algodão, por exemplo, em média, são necessários 50–100 litros (L) de água para processar 1 kg de material têxtil sintético (Costa et al. 2020). Pode-se afirmar então que, a fabricação de fibra sintética consome grandes quantidades de água. Ao empreender esforços na reestruturação de padrões de consumo e procedimentos, a ITV está a avançar de maneira significativa em direção a padrões mais rigorosos no panorama da sustentabilidade. A adoção de uma abordagem de produção sustentável apresenta potencial para a diminuição do consumo de recursos, a diminuir a produção de resíduos e os custos associados nas operações das empresas têxteis (Ferreira, 2021). Diminuir gradualmente os efeitos ambientais e a intensidade do uso de recursos ao longo do ciclo de vida do produto são elementos fundamentais para promover tanto a prosperidade económica quanto a ambiental. Isso ocorre por meio da otimização e eficiência no uso de recursos, resultando na redução de resíduos ao longo de todas as fases produtivas. A interligação entre benefícios económicos e ambientais contribui para fortalecer a competitividade das empresas e aumentar, consequentemente, os seus lucros (Ferreira, 2021). Se continuarmos a utilizar os recursos naturais no ritmo atual, será necessário o equivalente aos recursos de três planetas Terra até o ano de 2050 para atender às nossas necessidades. Diante de recursos finitos e desafios climáticos, torna-se imperativo fazer a transição de uma sociedade que segue o padrão "extrair, fabricar, desfazer" para uma economia neutra em carbono, sustentável, livre de substâncias tóxicas e totalmente circular até 2050. A crise atual expôs fragilidades nas cadeias de recursos e de valor, afetando especialmente as pequenas e médias empresas e a indústria em geral. 7 Uma economia circular não apenas reduzirá as emissões de CO2, mas também impulsionará o crescimento econômico e abrirá oportunidades de emprego (Parlamento Europeu, 2023) 2.2.2. Emissão de poluentes atmosféricos Num contexto do âmbito do setor têxtil, as emissões gasosas podem originar-se tanto nos procedimentos de produção quanto nos processos complementares. No processo produtivo, as fases que mais contribuem para a emissão de gases são os processos de acabamento, tingimento e estamparia. Em relação aos processos auxiliares, as caldeiras (de vapor e termofluido) representam a principal fonte de emissão. A quantidade específica de dióxido de carbono emitida na indústria têxtil é aproximadamente de 3,5 gramas por quilo de produto produzido (AEP, 2000). As emissões gasosas geradas por esta indústria podem ser categorizadas em dois amplos conjuntos, considerando a natureza das fontes de sua origem: • Fontes fixas: emissões provenientes de caldeiras empregadas para aquecimento e geração de vapor, juntamente com as emissões de exaustores, entre outros. Os poluentes vinculados a essas fontes incluem principalmente compostos orgânicos voláteis (COV), óxidos de azoto (NOx), óxidos de enxofre (SOx), monóxido de carbono (CO) e partículas totais suspensas (PTS); • Fontes difusas: emissões que incluem vapores de solventes, vapores ácidos, óleos, partículas e odores. Os vapores oleosos surgem quando materiais têxteis, contendo óleos ou substâncias que podem volatilizar ou degradar-se pelo calor, são submetidos a tratamentos térmicos. Já os vapores ácidos resultam principalmente da carbonização de lã, utilizada para remover substâncias residuais como matéria vegetal e impurezas, além de diversos processos de tingimento. Por sua vez, os vapores solventes estão relacionados ao uso de solventes, principalmente nas operações de limpeza, tingimento e acabamento. Por fim, os odores estão geralmente associados aos poluentes utilizados e aparecem durantes as operações de secagem, acabamento e tingimento com compostos sulfurosos (AEP, 2000). Quando se trata das emissões originárias de fontes estacionárias, as operações que destacam emissões mais substanciais são o tratamento preliminar, o branqueamento, tingimento e estamparia. Contudo, a emissão de gases nessas operações ocorre principalmente de maneira indireta, ou seja, como resultado de processos de combustão associados às caldeiras encarregadas da produção de vapor. Com isto, a nível de fontes difusas, pode-se destacar três tipos de emissões: 8 • PTS: libertadas durante tanto o processo de fiação, tecelagem e tricotagem como também na preparação e dissolução de corantes; • Vapores ácidos e alcalinos: a sua libertação ocorre durante processos de temperaturas elevadas, como a lavagem, desencolagem, carbonização e termofixação. • COV: ocorre particularmente durante o processo de tingimento e secagem (Soto, 2018). Dentro da indústria têxtil, os elementos geralmente analisados para descrever os efluentes gasosos incluem partículas de CO, COV, NOx e SOx. No entanto, dependendo do tipo de processo realizado, outros parâmetros podem ser considerados. Além dos mencionados, gases de efeito estufa (GEE) como dióxido de carbono (CO2), metano (CH4), óxido nitroso (N2O) e gases fluorados também podem ser avaliados. A caracterização desses parâmetros geralmente é realizada em termos de concentração e caudais mássicos emitidos, sendo os valores obtidos altamente variáveis de acordo com o tipo de equipamento e as condições do processo (Soto, 2018). Quanto às emissões gasosas em 2015, a ITV em Portugal foi responsável pela libertação de 760 984 toneladas de GEE, representando 1,27% do total de emissões de todas as atividades económicas no país. Ao analisar as emissões de cada gás de forma isolada, constata-se que em 2016, o CO2 foi indiscutivelmente o poluente mais libertado por este setor industrial, totalizando um valor de 735 900 toneladas emitidas, o que representa praticamente a totalidade das emissões. Entre os restantes poluentes, os NOx, o CH4 e o CO são os que apresentam as emissões mais significativas, enquanto o N2O é o menos relevante, conforme ilustrado na Figura 1 (EUROSTAT, 2017). Figura 1 - Emissões de NOx, CO, CH4 e N2O pela ITV no ano de 2016. Fonte: EUROSTAT, 2017. 9 2.2.3. Poluição da água e degradação dos solos No contexto de todos os setores industriais, a ITV é identificada como uma das atividades mais prejudiciais ao meio ambiente, principalmente devido ao volume e à composição dos efluentes líquidos produzidos durante as etapas finais do processo têxtil e marcado pelo intenso consumo de água (Ferreira, 2021). O setor têxtil necessita de uma enorme quantidade de água tanto para o processo produtivo quanto para o processamento de matérias-primas como o algodão e outras fibras (Sousa, 2022). De acordo com as estimativas, a poluição da água potável a nível global é atribuída, em aproximadamente 20%, à produção têxtil, resultante da utilização de produtos para tingimento e acabamento (Parlamento Europeu, 2023). A lavagem de roupas sintéticas contribui com 35% dos microplásticos primários libertados no meio ambiente. Uma única lavagem de vestuário feito de poliéster resulta na libertação de 700 000 fibras de microplásticos, que posteriormente, têm um potencial para entrar na cadeia alimentar. A maior parte dos microplásticos provenientes de têxteis é libertada nas primeiras lavagens. A abordagem de fastfashion envolve a produção em larga escala, preços acessíveis e volumes de vendas elevados, resultando em numerosas primeiras lavagens (Parlamento Europeu, 2023). A lavagem de artigos sintéticos resultou na acumulação de mais de 14 milhões de toneladas de microplásticos nos leitos oceânicos. Além dessa questão em escala global, a poluição derivada do fabrico de vestuário tem um impacto severo na saúde das comunidades locais, dos animais e nos ecossistemas onde as fábricas estão situadas (Parlamento Europeu, 2023). Além disso, as etapas húmidas durante a fabricação, os resíduos de lavandarias durante o uso de produtos têxteis e a aplicação de fertilizantes no cultivo de matéria-prima contribuem para o fenómeno da eutrofização em massas de água superficiais (Ribeiro, 2023). A contaminação dos recursos hídricos, combinada com o consumo excessivo, reduz de maneira significativa a disponibilidade de água com padrões de qualidade adequados para diversos fins. Isso afeta uma ampla gama de usos, desde a irrigação de culturas, especialmente notável no cultivo do algodão devido ao uso intensivo de água, até a água destinada ao consumo humano (Ribeiro, 2023). 10 2.3. A ITV e o consumo energético A energia representa um dos principais custos na indústria têxtil. Embora não seja normalmente identificada como uma indústria de alto consumo energético, devido ao grande número de unidades industriais envolvidas, exibe valores totais de consumo energético consideráveis (Soto, 2018). Na indústria têxtil, os tipos de energia utilizados incluem a eletricidade para gerar força motriz e iluminação, bem como combustíveis (fuelóleo pesado, gás natural e gás propano) para a produção de vapor, aquecimento de óleo térmico ou utilização direta em máquinas produtivas. Além disso, na frota de transporte, pode-se fazer uso do gás propano, gasóleo e/ou gasolina (CITEVE, 2012). Esta indústria utiliza quantidades significativas de eletricidade e combustíveis, mas a sua participação no consumo total de energia do setor têxtil de um país pode variar conforme a estrutura da indústria nesse país. Isso ocorre devido à diversidade na estrutura de consumo deste setor, dependendo da atividade específica. Por exemplo, os processos de fiação e tecelagem predominantemente consomem eletricidade, abrangendo a força motriz das máquinas, produção de ar comprimido, iluminação e aspiração de resíduos. Já a tinturaria e os acabamentos baseiam-se na queima de combustíveis (AEP, 2000). Quanto à energia elétrica, esta é utilizada em operações que exigem altos valores de temperatura e humidade, como os processos de tinturaria, branqueamento e estampagem. Uma instalação industrial composta é uma unidade que abrange tanto processos secos quanto húmidos. Na Figura 2, estão destacados os processos que normalmente consomem mais energia elétrica nesse tipo de instalações. A fiação é o procedimento que mais consome energia elétrica, seguido pelos processos de humidificação que ocorrem ao longo de toda a produção (Soto, 2018). 11 Figura 2 - Consumo típico de energia elétrica numa instalação industrial composta. Fonte: Soto, D. (2018). No âmbito da energia térmica (Figura 3), os processos que mais consomem energia estão relacionados ao pré-tratamento, tingimento, estamparia, acabamento e branqueamento, ou seja, os processos que envolvem humidade. Além disso, observa-se uma considerável perda de energia térmica durante a produção e distribuição de vapor. É crucial salientar que esses valores podem variar de uma instalação para outra (Soto, 2018). Figura 3 - Consumo típico de energia térmica numa instalação industrial composta. Fonte: Soto, D. (2018). 12 Estima-se que os valores típicos de consumo específico de energia térmica e elétrica variem, respetivamente, entre 11 e 65 MJ/kg de produto (263 a 1552 kgep/t de produto) e 0,5 a 7,5 kWh/kg de produto (43 a 645 kgep/t de produto). No contexto específico da indústria têxtil e de vestuário em Portugal, no ano de 2015, o consumo total foi de 12 576 terajoules, representando 6,7% do consumo total de energia em toda a indústria do país (Ozturk et al ., 2015; EUROSTAT, 2017). Capítulo III – Matias & Araújo S.A. (M&A) A empresa em estudo situa-se na Travessa da Cruz de Pedra 13, 4750-543 Lijó, Barcelos, conhecida pela sua vasta produção têxtil e com 22 anos no mercado da produção de malha em tear circular (Figura 4). No seu início apenas produzia malha para o setor de moda, mas há cerca de 10 anos investiu na produção para a malha de colchões e almofadas. Neste momento a empresa trabalha tanto para o mercado nacional como para o mercado internacional exportando para vários países da europa principalmente Espanha e França. Figura 4 – Entrada da empresa Matias & Araújo, S.A. Fonte: Matias & Araújo (2022). Além da zona produtiva dos teares tem também nas suas instalações uma tinturaria e uma zona de acabamentos para que possa ter dentro de portas todo o processo produtivo da malha. Neste momento os dois setores (Moda e Têxteis Lar) tem armazéns de matéria-prima separados e cada um 19 essa indústria continua a prosperar, cresce também a preocupação em relação aos impactes ambientais associados aos seus processos produtivos. O aumento da consciência ambiental global trouxe à tona a necessidade premente de avaliar e compreender os efeitos adversos que determinados processos industriais podem ter sobre o meio ambiente. Neste contexto, a avaliação dos impactes ambientais associados a esses processos torna-se imperativa para a implementação de práticas mais sustentáveis e a redução dos danos ambientais causados pela indústria têxtil. De seguida, é feita uma identificação dos impactes ambientais associados à atividade industrial da empresa. 4.2.1 Setor de acabamentos Neste setor, existem duas máquinas, denominadas por rámulas (Figura 8), passíveis de realizar dois tipos de tratamentos (pré e pós-tratamentos), que apresentam impactes negativos, como evidenciado no ponto 1 e 2 da tabela 1. O acabamento têxtil muitas vezes envolve o uso significativo de água, por vezes quente, e produtos químicos que, pode contribuir para a escassez dos recursos hídricos e aumentar a carga de poluentes nos efluentes, podendo contaminar os corpos de água locais. Para a mitigação deste impacte ambiental negativo, a empresa implementou um processo complexo para o tratamento de efluentes com a Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) de Barcelos. Os efluentes gerados pela empresa podem conter produtos químicos, fibras e outros contaminantes. Estes efluentes passam por tubagem que incorpora estruturas de filtragem capazes de conter e remover tanto os materiais grosseiros como partículas finas remanescentes, antes de serem descartados, coletados e direcionados para a ETAR. Tendo em conta à poluição térmica das águas que ocorre neste processo industrial pois, muitas vezes, são utilizadas temperaturas elevadas nos tratamentos, de modo a prevenir o impacto nas bactérias de tratamento biológico da ETAR, o aumento de solubilidade de gases e riscos de corrosão de infraestruturas, foi implementada uma tubagem que percorre água à temperatura ambiente (20º C) que, ao fazer um cruzamento com a tubagem de descarga vai arrefecer efluentes quentes, antes da coleta por parte da ETAR. Um dos maiores problemas da empresa é o facto do consumo de água ser efetuado em sistema aberto. A transição do consumo de água de sistemas abertos para sistemas fechados é desafiadora e está associada a diversos fatores que podem dificultar a implementação dessa mudança. O principal motivo pela qual ainda não ocorreu essa mudança passa pelos custos iniciais elevados e limitação 20 tecnológica, pois requer investimentos significativos em infraestrutura e exige atualização ou substituição de equipamentos, o que pode ser complexa e dispendiosa. O uso de produtos químicos no processo de acabamento resulta na emissão de gases tóxicos contribuindo para a poluição do ar atmosférico. Neste caso, as máquinas responsáveis por estes tratamentos estão equipadas com uma chaminé comum que, no seu interior, contêm filtros próprios que reduzem a libertação de partículas para a atmosfera e previnem a sua acumulação no equipamento, o que compromete a eficiência operacional das rámulas. Estes processos de filtragem ajudam então a minimizar a deposição e emissão dessas partículas contribuindo para uma operação mais eficiente e duradoura, garantindo que as emissões atmosféricas estejam em conformidade com as normas ambientais e promove práticas industriais mais sustentáveis. Na parte final de todo o processo de acabamento, são gerados resíduos têxteis que são encaminhados para aterros, incineração ou reciclagem, que no caso da M&A, vende os resíduos têxteis a uma outra empresa que se encarrega de reutilizar ou reciclar esses resíduos gerados. 4.2.2 Setor de tinturaria Os jet’s de tinturaria (Figura 7) são componentes essenciais nos processos de tingimento e prétratamento utilizados na indústria têxtil, desempenhando um papel vital na aplicação eficiente de produtos e corantes aos materiais. Contudo, esses sistemas também podem resultar em impactes ambientais negativos, como evidenciado no ponto 3 da tabela 1. O consumo e desperdício de água são muito idênticos ao setor dos acabamentos. O tratamento de efluentes e da poluição térmica da água é realizada de igual forma à exceção de um ponto. O processo de tingimento liberta substâncias químicas voláteis e partículas no ar, por isso, as emissões de COVs e partículas finas podem contribuir para a poluição do ar interior e ter impactes na qualidade do ar local e o uso de corantes e produtos químicos resulta na libertação de resíduos tóxicos. Na empresa, os funcionários estão protegidos por uma máscara no momento de manuseamento no interior dos jet’s de modo prevenirem a exposição a gases e partículas emitidos. Os corantes e auxiliares específicos usados atualmente não possuem componentes tóxicos de forma a proteger a saúde dos trabalhadores, uma vez que existem corantes e auxiliares que contêm substâncias químicas perigosas, como metais pesados e COV. 21 4.2.3 Setor de expedição As atividades de expedição de uma empresa têxtil envolvem o transporte, o manuseamento e armazenamento de produtos acabados. Esta fase da cadeia de produção também pode gerar impactes negativos, como evidenciado no ponto 4 da tabela 1. O uso excessivo de embalagens, especialmente aquelas que não são biodegradáveis ou recicláveis, resultam numa grande quantidade de resíduos sólidos. Isso contribui para a poluição ambiental e aumenta a pressão nos sistemas de gestão de resíduos. De modo a combater essa poluição, os plásticos que envolvem cada rolo de malha pronto a ser expedido, são desenvolvidos a partir de poliéster 100% reciclado. Porém, o mesmo não acontece ao filme que envolve a palete de rolos pronta a expedir. A empresa conseguiu adquirir filme que fosse 100% poliéster em que apenas 50% é reciclado. No entanto, no ano de 2021, tentou usar um que fosse reciclado na sua totalidade, mas não resultou pois, pelo facto de ser 100% reciclado, este não se “agarra” ao produto e acabava por se soltar. O transporte durante as expedições envolve veículos que emitem GEE. A frota usada pela empresa utiliza as duas principais fontes de combustíveis fósseis, o diesel e a gasolina. As emissões de GEE podem ser significativas e contribuir para poluição atmosférica e o uso desses veículos com motores de combustão intensifica os impactes ambientais associados à queima dos combustíveis fósseis e à dependência de recursos finitos. 22 Tabela 1 - Inventariação dos processos industriais e respetivos impactes ambientais. 4.3 Avaliação da sustentabilidade energética da empresa A avaliação da sustentabilidade energética numa empresa têxtil é um processo abrangente que envolve a análise de diversos aspetos relacionados ao consumo de energia em todas as fases do processo produtivo. Neste relatório, irão ser apenas caracterizados as fontes de energia utilizadas das máquinas de cada setor (rámulas, jet’s e frota própria), uma vez que só foram considerados os setores de acabamento, tinturaria e expedição, respetivamente. 4.3.1 Rámulas A fonte de energia utilizada por uma rámula numa empresa têxtil pode variar, dependendo das características específicas do equipamento e das práticas adotadas pela empresa. A escolha da fonte muitas vezes depende de fatores como a eficiência energética, custos operacionais, disponibilidade de recursos, requisitos específicos do processo de acabamento e considerações ambientais. Cada vez mais as empresas se focam na adoção de práticas sustentáveis, incluindo a escolha de fontes de energia mais limpas e eficientes, como parte dos seus esforços na responsabilidade ambiental. 23 Na empresa M&A, as rámulas utilizadas para este efeito são compostas por dois tipos de fontes de energia diferentes, eletricidade e caldeira a gás natural. Essas máquinas contêm motores elétricos que são alimentados por eletricidade da rede, responsáveis por acionar diferentes partes do equipamento, como cilindros, rolos ou correios que desempenham um papel crucial no funcionamento da máquina. Sistemas de controlo eletrónico e automação dependem da eletricidade para operar, incluindo os painéis de controlo, sensores eletrónicos e outros componentes que garantem precisão e consistência nos processos de acabamento. Por outro lado, o gás natural é usado nos processos iniciais das rámulas. As relações de banho, onde são diluídos e fixados os pré e pós-tratamentos, são aquecidas através da caldeira a gás natural, com o objetivo de fornecer calor durante esses tratamentos e também durante a secagem do produto. Estes processos necessitam de temperaturas da ordem dos 60º C aos 130º C. Desta forma, é possível afirmar que as rámulas foram projetadas para serem alimentadas por mais que uma fonte de energia, resultando numa combinação de fontes. Isto é indicador de uma tentativa de otimização da eficiência energética da empresa pela escolha de fontes de energia mais limpas e eficientes, de modo a tornarem a empresa energeticamente mais sustentável. 4.3.2 Jet´s No setor de tinturaria, o processo é semelhante. As fontes de energia utilizadas para os jet’s são também as duas fontes de energia comuns às rámulas, a eletricidade e a caldeira a gás natural. Motores elétricos são comuns para acionar bombas, rolos e outros componentes. Além disso, a eletricidade também pode ser usada para aquecer a água ou a solução de corantes para o tingimento da malha, caso a caldeira a gás natural não esteja a funcionar de momento, a eletricidade proveniente da rede assume essa função. No entanto, esse não é caso da M&A. A caldeira a gás natural é composta por uma ramificação, semelhante à ramificação que alimenta as rámulas para o aquecimento térmico da água do jet para os diferentes tingimentos de fibras, entre os 60ºC e os 130º C. Com a evolução da empresa e aumento da quantidade de jet’s, também devido aos custos operacionais, preferências e regulamentações ambientais, a M&A decidiu implementar práticas mais sustentáveis e eficientes no que toca a energia, incorporando então à caldeira uma ramificação com o objetivo de fornecer energia térmica aos processos realizados na tinturaria. 24 4.3.3 Frota própria O objetivo do setor da expedição passa maioritariamente por atender diversas necessidades logísticas relacionadas ao transporte e distribuição de produtos, de forma a garantir controlo, eficiência, qualidade, flexibilidade e adaptação às necessidades específicas do negócio. A escolha da fonte de energia para a frota própria de uma empresa pode depender de vários fatores, incluindo considerações económicas, disponibilidade de locais de abastecimento de combustível, políticas ambientais, regulamentações governamentais, entre outros. No entanto, é de salientar que as fontes de energia utilizadas neste setor são combustíveis fósseis, como gasóleo e gasolina, que resultam em impactes negativos no meio ambiente e na dependência total de recursos finitos. Estes são derivados do petróleo bruto, o que os tornam recursos limitados e não renováveis numa escala de tempo humana. A sua extração, processamento e queima contribuem, não só para a emissão de GEE como para o aquecimento global. A queima destes combustíveis para obter energia é um processo que envolve perdas significativas de energia térmica, o que os torna menos eficientes. A frota própria de expedição da M&A é composta da seguinte forma – dois carros e três carrinhas. Irei usar como exemplo uma das carrinhas, em que a fonte de combustível é gasolina. Sendo assim, com a ajuda de uma calculadora da Carbon Footprint foi possível calcular a pegada de carbono deste veículo. Sabendo que a maior rota que a expedição percorre é até ao Porto, a cerca 70 quilómetros, numa média de três viagens semanais, esse veículo percorre, por ano, cerca de 20 160 km. A calculadora, ao especificar o tipo de veículo, pergunta o peso do carro, da qual eu assumi que com o peso do produto exportado, o veículo poderia pesar até 3.5 toneladas. Sendo assim, colocando os dados na calculadora, obtivemos o total de 6.34 toneladas de CO2e emitido para a atmosfera anualmente por um único veículo. 25 Figura 9 - Cálculo da pegada de carbono de um veículo movido a gasolina. Fonte: Carbon Footprint (2024). É possível então verificar a quantidade significativa de CO2 libertada apenas por um veículo, com potencial impacto nas mudanças climáticas e na qualidade do ar. Devido a estas preocupações, tem havido uma busca crescente por alternativas mais sustentáveis e energeticamente mais eficientes, que visam a reduzir a dependência de combustíveis fósseis e mitigar os impactes ambientais associados, tais como, a alteração da frota para carros elétricos e a instalação de pontos de carregamento elétrico que, neste momento, são os temas mais abordados industrialmente. 4.4 Propostas de melhorias sustentáveis No cenário empresarial, a procura por práticas mais sustentáveis tornou-se imperativa e a indústria têxtil não é exceção. Diante dos desafios ambientais globais e da crescente consciência sobre a importância da responsabilidade corporativa, a empresa do setor têxtil enfrentam a necessidade premente de adotar medidas concretas para promover a sustentabilidade, sempre que possível, nos seus processos produtivos. A seguinte apresentação de propostas de melhorias sustentáveis emerge como um elemento fundamental nesses processos, proporcionando não só benefícios ambientais, mas também um aperfeiçoamento na eficiência operacional em resposta à procura crescente, por parte dos consumidores, de práticas éticas e ecológicas. 26 Neste contexto, irão ser exploradas estratégias inovadoras e práticas sustentáveis que possam ser implementadas, destacando a importância de abordagens responsáveis para promover um futuro mais equilibrado e ecoeficiente. 4.4.1 Rámulas Estes equipamentos alimentados por duas fontes de energia, eletricidade e caldeira a gás natural, podiam sofrer uma ligeira mudança que oferecesse uma melhoria no âmbito da sustentabilidade. Os resíduos da indústria madeireira, gerados durante o processamento da madeira, podem ser submetidos a diversas práticas de gestão e reaproveitamento, dependendo da natureza específica dos resíduos e das práticas adotadas pela indústria. Neste caso, a serragem, casca de árvores e outros resíduos, podem ser utilizados como biomassa para a geração de energia. Isso pode ser feito por meio da queima direta para a produção de calor ou eletricidade ou por processos mais avançados, como a produção de pellets ou briquetes para o uso em caldeiras ou estufas. Uma vez que já é aplicada uma combinação de fontes de energia para uso destes equipamentos e o facto da empresa se encontrar em crescimento ao nível de estruturas, uma proposta de melhoria sustentável seria a aquisição de uma caldeira a pellets , com o objetivo de passar de uma caldeira de fonte de energia não renovável e que emite GEE para a atmosfera para uma fonte de energia renovável. Uma proposta também muito interessante seria uma caldeira a PKS ( Palm Kernel Shell ). Os PKS , provenientes dos "caroços" de palmiste, passam por um processo de lavagem, crivagem, limpeza e uniformização da humidade. Anteriormente, esta biomassa era negligenciada nos locais de plantação, causando impactos prejudiciais. A grande vantagem, em comparação com as caldeiras a gás natural, é o uso de um recurso que antes era considerado um resíduo. Uma caldeira deste tipo exemplifica os objetivos da economia circular e do desenvolvimento sustentável. Em relação às caldeiras a pellets , a principal vantagem dos PKS é que, para além de terem um valor energético superior, durante o processo, não contribuem negativamente para o meio ambiente, ao contrário dos pellets que requerem o abate de árvores (Marques, 2022). 27 4.4.2 Jet’s O mesmo acontece para o setor de tinturaria. Sendo que a mesma caldeira a gás natural abastece os dois setores, acabamento e tinturaria, seria interessante que, com a inclusão de uma caldeira a pellets, existir uma ramificação dessa caldeira que, da mesma forma, alimentasse o aquecimento de águas dos jet’s. 4.4.3 Frota própria Devido às preocupações ambientais, muitas empresas estão a explorar alternativas mais sustentáveis para o transporte, com veículos elétricos, híbridos, biocombustíveis, entre outros. Em termos de combustíveis, essas escolhas permitiriam reduzir o impacte ambiental associado ao transporte de produtos. Desta forma, para a empresa M&A, uma proposta mais sustentável a nível de combustíveis, seria a instalação de kit’s GPL (Gás de Petróleo Liquefeito) na sua frota. Qualquer veículo que seja movido a combustíveis como o gasóleo ou gasolina pode passar pelo processo de conversão GPL e com isto, ter vantagens no aumento da autonomia dos veículos e obter uma maior poupança para a empresa com menor impacte ambiental. A instalação deste kit é muito simples e segura. Neste caso os veículos passariam a ter dois depósitos, um de combustível convencional (diesel ou gasolina) e outro de GPL, resultando numa maior autonomia no que toca a viagens e a possibilidade de gastar bem menos por quilómetro feito. O preço deste kit GPL pode variar. Custa em média, cerca de 1500€, dependendo da fonte de combustível do veículo (Goldenergy, 2023). Uma vez que a frota própria da M&A faz muitos quilómetros todos os dias, justifica-se a instalação destes kit’s e este tipo de investimento seria rapidamente amortizado. É importante salientar que cada tipo de combustível tem as suas próprias características e vantagens e a escolha entre GPL, diesel e gasolina, deve ser baseada nas necessidades especificas dos veículos. Por isso, a escolha do kit GPL vem de encontro a emissões mais limpas, menor emissão de CO2, mais económico em termos de quilómetro percorrido e menor dependência de combustíveis fósseis tradicionais, uma vez que é produzido como subproduto do processamento de gás natural. 28 Por exemplo, voltando a pegar na calculadora da Carbon Footprint , foi possível calcular a pegada de carbono do mesmo veículo, mas agora com a fonte de combustível a GPL. Percorrendo os mesmos quilómetros, efetuando a mesma quantidade de viagens e considerando que o veículo transporta o mesmo peso de produto exportado, obteve-se um valor de 5.14 toneladas de CO2. Figura 10 - Cálculo da pegada de carbono de um veículo movido a GPL. Fonte: Carbon Footprint (2024). Com isto, é possível comprovar que a troca de fonte de combustível, diesel ou gasolina para um kit GPL, é mais sustentável no que toca à emissão de poluentes atmosféricos, levando a uma diminuição da pegada de carbono em quase 19%. Para calcular a percentagem foi utilizada a seguinte equação: X = (Valor Inicial−Valor Final / Valor Inicial) × 100; Substituindo os valores conhecidos: X = (6.34−5.14 /6.34) × 100; X = (1.26.34) ×100; X ≈0.189 × 100; X ≈18.9% ≈ 19%.