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A importância dos podcasts no zerozero – uma experiência de estágio em jornalismo

Silva, Miguel Freitas da

Abstract

Fruto dos avanços tecnológicos verificados em diversos setores da sociedade, onde o jornalismo está incluído, os podcasts têm assumido um papel importante para se consagrarem como uma alternativa ao meio tradicional da rádio. Com uma estrutura, duração e acessibilidade distinta, este recurso tem sido utilizado pelos órgãos de comunicação para apresentarem ao seu público diferentes conteúdos neste registo. O zerozero tem contribuído para esse fenómeno e apostou no tratamento de temáticas dentro do desporto para reforçar a sua posição. Com enfoque no futebol masculino, feminino e brasileiro, basquetebol, hóquei em patins ou futsal, pretendeu-se estudar o peso que os podcasts ocupam neste meio de comunicação direcionado para o online. Após uma recolha de todos os podcasts lançados durante o mês de março, concluiu-se que existiram conteúdos em crescimento, sendo que o futebol foi o tema predominante que foi tratado no período analisado. No entanto, existe uma tentativa para diminuir a disparidade existente perante o “desporto-rei” e tentar equiparar a atenção entre todas as modalidades que o zerozero aborda.

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Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Miguel Freitas da Silva A importância dos podcasts no zerozero – uma experiência de estágio em Jornalismo julho de 2023 A importância dos podcasts no zerozero – uma experiência de estágio em Jornalismo Miguel Freitas da Silva UMinho | 2023 Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Miguel Freitas da Silva A importância dos podcasts no zerozero – uma experiência de estágio em Jornalismo Relatório de Estágio Mestrado em Ciências da Comunicação Área de especialização em Informação e Jornalismo Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Felisbela Maria Carvalho Lopes julho de 2023 i DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição CC BY https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/ ii Agradecimentos Quem diria que, depois de terminar o secundário e não saber o meu futuro, iria estar a acabar um Mestrado na Universidade do Minho. Saio desta instituição com o sentimento de dever cumprido e de ter dado o melhor de mim durante os últimos dois anos do meu percurso académico, que começou há vários anos. Para todas as pessoas que me acompanharam nesta viagem, o meu obrigado por todas as experiências. Agradeço aos meus pais e avó, que estiveram lá para mim desde o primeiro dia e que sempre me aconselharam a escolher o melhor caminho. Apesar de todas as adversidades (e foram muitas!) que fomos encontrando, continuamos aqui e a encarar cada batalha com o máximo de otimismo possível. Não podia pedir melhor. Agradeço à Carolina, que me fez encontrar a minha melhor versão em todos os aspetos da vida. Não é fácil aturar-me todos os dias com todas as manias e feitio complicado, mas as pessoas de Estarreja são diferentes. (Pequenino)… Agradeço aos meus amigos que se mantiveram até ao final deste percurso, em especial ao Miguel, Luís e Pedro, os meus melhores amigos sem que nunca que lhes tivesse dito isso. Viva o futebol! Agradeço ao zerozero pela oportunidade de concretizar o meu sonho no meu órgão de comunicação social de referência. Ao Miguel Amaral, por todas as aprendizagens, conselhos e, acima de tudo, a amizade. Agradeço à minha orientadora, Felisbela Lopes, que tornou este relatório mais fácil e que deu o exemplo de como acompanhar um estudante durante mais de meio ano. Termino esta parte voltando a agradecer aos meus pais e avó. Foi por vocês. Vemo-nos num jogo de andebol. iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. iv A importância dos podcasts no zerozero – uma experiência de estágio em Jornalismo Resumo Fruto dos avanços tecnológicos verificados em diversos setores da sociedade, onde o jornalismo está incluído, os podcasts têm assumido um papel importante para se consagrarem como uma alternativa ao meio tradicional da rádio. Com uma estrutura, duração e acessibilidade distinta, este recurso tem sido utilizado pelos órgãos de comunicação para apresentarem ao seu público diferentes conteúdos neste registo. O zerozero tem contribuído para esse fenómeno e apostou no tratamento de temáticas dentro do desporto para reforçar a sua posição. Com enfoque no futebol masculino, feminino e brasileiro, basquetebol, hóquei em patins ou futsal, pretendeu-se estudar o peso que os podcasts ocupam neste meio de comunicação direcionado para o online. Após uma recolha de todos os podcasts lançados durante o mês de março, concluiu-se que existiram conteúdos em crescimento, sendo que o futebol foi o tema predominante que foi tratado no período analisado. No entanto, existe uma tentativa para diminuir a disparidade existente perante o “desporto-rei” e tentar equiparar a atenção entre todas as modalidades que o zerozero aborda. Palavras-chave: Desporto; jornalismo desportivo; online ; podcasts v The importance of podcasts in zerozero – a journalism internship experience Abstract As a result of the technological advancements observed in various sectors of society, including journalism, podcasts have taken on an important role in establishing themselves as an alternative to traditional radio. With a distinct structure, duration, and accessibility, this resource has been utilized by media outlets to offer their audience a diverse range of content in this format. Zerozero has contributed to this phenomenon and has invested in addressing sports-related topics to strengthen its position. With a focus on men's and women's football, brazilian football, basketball, roller hockey, as well futsal, the aim was to study the importance that podcasts occupy in this online-focused media. After collecting all the podcasts released during the month of March, it was concluded that there were growing contents, with football being the predominant topic discussed in the analyzed period. However, there is an attempt to reduce the existing disparity regarding the "king sport" and try to equalize the attention among all the sports that zerozero covers. Keywords: sports; sports journalism; online ; podcasts 3 2. Estágio no zerozero 2.1. Descrição do zerozero como empresa jornalística Fundado a 21 de outubro de 2003, o zerozero assume-se como um órgão de comunicação social direcionado para o desporto nas suas mais variadas vertentes. Partindo da ideia de jovens engenheiros informáticos, onde se incluem Marco Sousa, Pedro Dias e António Cardoso, o projeto, numa primeira fase, decidiu aliar os conhecimentos que estes jovens trouxeram da Universidade ao encontro da sua paixão comum pelo futebol. Atualmente com Marco Sousa, Pedro Dias e Lígia Alves como membros da administração, esta proposta continua a expandir-se diariamente alémfronteiras. Com o passar do tempo, foi-se tornando uma das maiores bases de dados do mundo (Ferreira, 2012) e, como tal, deu continuidade à sua evolução ao acrescentar jornalistas para redigirem notícias e chegar ao patamar em que se encontra atualmente. Hoje, além de jornalistas, a empresa conta também com profissionais de multimédia, engenheiros informáticos e gestores de conteúdos que ajudam a manter o portal atualizado com as principais informações do dia com a maior rapidez e precisão possível. Tal como se pode ler nos critérios editoriais publicados a 12 de abril de 2017, o zerozero começou com os números, mas, passados sete anos, deu um passo em frente para ganhar o seu espaço dentro do jornalismo desportivo. Quando, a 21 de outubro de 2003, o embrião zerozero se começou a desenvolver, a principal – e única – missão era servir o público com a melhor e mais precisa informação sobre futebol. O sonho nasceu dos números, das estatísticas que muitas vezes funcionam como barómetro da razão num espetáculo naturalmente dominado pela emoção, mas chegou às palavras e ao jornalismo em forma de redação no ano de 2010. (Zerozero, 2017) E com o seu próprio espaço conquistado, este órgão de comunicação social procurou fugir das polémicas que alimentam a esfera pública do desporto e marcar esse espaço pela diferença no que diz respeito ao tratamento desses assuntos. O zerozero nunca foi nem será, seguramente, um “mensageiro” de informação plantada diariamente com o intuito de acicatar ânimos, de semear a polémica e de alimentar guerras entre clubes e, consequentemente, entre adeptos. Para isso, os emblemas já dispõem das suas 4 plataformas e a comunicação social fará muito melhor o seu papel se souber distinguir claramente o que tem ou não valor notícia no turbilhão de comunicados ou posts nas redes sociais. (Zerozero, 2017) Apesar de, inicialmente, incidir o seu enfoque na Primeira Liga do Futebol português, rapidamente alargou a sua abrangência para outros escalões, tanto dentro de portas como no estrangeiro. Com jornalistas em Vila Nova de Gaia, a sua sede, e em Lisboa, o zerozero consegue fazer o acompanhamento ao minuto dos três principais campeonatos de futebol em Portugal, algo inédito no panorama do jornalismo desportivo. Dentro desta medida, inclui-se, desde a temporada 2022/23, o apoio ao Campeonato Nacional Feminino BPI, com relatos ao minuto dos encontros, assim como as fichas das partidas atualizadas com golos, assistências, cartões ou substituições. Com o crescimento deste nicho, o zerozero decidiu acompanhar essa mesma evolução ao tentar contribuir para uma igualdade de tratamento de género e para o crescimento de uma modalidade que, um pouco por todo o mundo, tem vindo a desenvolver-se e a gerar cada vez mais entusiasmo e expectativa à sua volta no que toca ao futuro. Ao longo dos últimos anos, procurámos e lutámos sempre pela pluralidade, sem olhar a géneros, acompanhando o crescimento da modalidade no feminino. Atribuímos o prémio de melhor jogadora da temporada (…) à semelhança do que também fazemos no masculino, e, mais recentemente, estivemos presentes em Inglaterra a acompanhar a prestação da Seleção Nacional no Campeonato da Europa. (Coimbra, 2022) Os restantes escalões, como infantis, juvenis ou juniores, juntamente com colaboradores, são atualizados todos os dias pelos próprios leitores. Auxiliados por uma equipa de conteúdos destinada à verificação da informação fornecida, o zerozero cresce com a ajuda de todos. Assim, qualquer visitante pode atualizar resultados, criar ou alterar perfis, acrescentar fotos ou vídeos, sendo que, com o passar do tempo, são-lhe fornecidas determinadas regalias, mediante os dados que ajudou a introduzir no passado. Com um olho sempre na diferenciação, o zerozero foi criando outros domínios, como é o caso espanhol (Ceroacero), brasileiro (oGol), inglês (PlaymakerStats), italiano (Calciozz), francês (Leballonrond), alemão (Fussballzz), neerlandês (Voetballzz), argentino (Zerozero.com.ar), americano (Soccerzz) e mexicano (Zerozero.com.mx). Ainda que apenas o oGol e o PlaymakerStats tenham jornalistas dedicados para o efeito, os restantes são alimentados por um instrumento 5 criado pela própria empresa, o Prosebot , que funciona mediante inteligência artificial. Assim, as páginas nunca estão despidas de informação e contêm os principais conteúdos a si associados. Ainda que seja algo recente e que precise de alguns ajustes para funcionar na perfeição, esta ferramenta tem sido bastante importante para conseguir manter o fluxo de notícias nos domínios acima mencionados sempre ativos. Com apenas um ano de existência e tendo em conta a evolução constante da tecnologia em vários setores, o Prosebot já tem um papel fundamental dentro do meio. Tal como mencionado anteriormente, o domínio brasileiro é aquele que, atrás do português, recebe mais visualizações e visitas diariamente. Com sete jornalistas, o oGol tem igual acesso a toda a base de dados, assim como o “PlaymakerStats”, um dos que mais cresceu nos últimos anos. Não obstante o foco ser o “desporto-rei” em Portugal, o zerozero tem feito, cada vez mais, uma cobertura minuciosa de diferentes modalidades como é o exemplo do futsal, basquetebol, andebol, voleibol, futebol de praia e hóquei em patins, algo consumado em setembro de 2017. À imagem do que acontece hoje com o Futebol e suas variantes, o grande objetivo é construir uma das maiores bases de dados do mundo nestas modalidades e alargar a nossa rede de colaboração. Todas as competições, todas as equipas, todos os jogadores, todas as estatísticas. É essa a identidade do zerozero. Antes no Futebol, agora em todo o Desporto. (Ferreira, 2017) Com uma base de dados cada vez mais profunda, as peças são acompanhadas por vários trabalhos multimédia como podcasts , reportagens ou vídeos. Assume-se, assim, como um dos poucos órgãos de comunicação social em Portugal que tentam equiparar a atenção do futebol com as outras, ainda que esse caminho seja longo, no que toca a utilizadores, visualizações e visitas diárias. Os podcasts , nas diversas modalidades, ajudam a trazer cada vez mais ouvintes para o jornal e diminuir a disparidade existente. No caso do futebol, temos o “Destino: Saudade”, “Ataque Rápido”, “Tem Mister na Área”, “Primeiro as Senhoras”, “Mercado Flash” “Negócio Fechado” e o “Mundo Fantasy”. Nas restantes áreas, “Desporto em 10”, “5x4”, “Afunda de 3“ e “Está tudo Hóquei” ajudam a uniformizar a procura e falar sobre diversos temas da atualidade desportiva onde, por vezes, são acompanhados por personalidades dentro desse campo. 6 Num mundo cada vez mais digital, o zerozero tentou, desde cedo, explorar ao máximo as potencialidades que a internet foi trazendo e que, cada vez mais, se tornaram parte da nossa rotina. Esse trabalho em volta dos podcasts foi reconhecido, ao longo dos anos, com várias nomeações para os “Prémios Podes”, na categoria de Desporto, atribuídos anualmente pelo jornal PÚBLICO. Além dos podcasts , fora do registo da notícia tradicional, são feitas, semanalmente, várias reportagens sobre histórias do desporto, entrevistas, crónicas, antevisões ou figuras de jogo, onde se apostam em variados recursos multimédia para enriquecer o conteúdo apresentado. Existe, também, lugar para um espaço de opinião de vários cronistas convidados, de que é exemplo Carlos Daniel, António Costa ou Luís Cirilo Carvalho, sendo que são publicados uma vez por semana. Os temas vão variando e acompanham a atualidade nacional ou internacional, mediante a altura da época desportiva. Outra aposta muito presente na tarefa diária de um jornalista consiste na utilização do “PlaymakerStats”, uma ferramenta também ela criada dentro de portas, para tratar de toda a informação que está inserida na base de dados do zerozero . Golos, assistências, idades dos jogadores ou cartões amarelos estão acessíveis em poucos minutos e ajudam a criar conteúdo noticioso ou aproveitar o trabalho feito para complementar as suas peças, tal como notícias ou crónicas. Tal como explica Ferreira (2012), O Playmaker é a estatística, a curiosidade, o momento histórico ou o recorde batido. É o trabalho de toda uma equipa que analisa o histórico de uma competição, de uma equipa ou de um jogador, e é capaz de detetar na imensidão de dados o que realmente interessa aos leitores: o tal facto que sai da norma. (Ferreira, 2012) 123.436 equipas, 1.017.029 jogadores, 57.727 treinadores, 3.659 competições, 4.076.008 jogos, 1.332.110 fichas de jogo, 897.537 fotos, 1.065.605 vídeos, 22.918 estádios e 13.761 árbitros provenientes do futebol, futsal, andebol, voleibol, hóquei em patins, andebol e futebol de praia ajudam a perceber a importância que o zerozero tem no panorama nacional e internacional em tudo o que rodeia o desporto. 7 2.2. Rotina e análise do trabalho realizado O meu estágio no zerozero começou a 3 de janeiro e terminou a 3 de abril, sendo que, no primeiro dia, foi-me atribuído um orientador – Miguel Amaral – para me acompanhar durante os três meses em que estive neste órgão de comunicação social. Por já ter estado na empresa aquando da licenciatura, conhecia os horários que estavam atribuídos aos jornalistas: ou entrava de manhã, às 10h00, ou fazia o turno da noite e começava a trabalhar às 15h00. Optei, nos primeiros dias, pela segunda opção, uma vez que esta coincidia sempre com o horário de trabalho do meu orientador, salvo raras exceções. Desde a primeira reunião, os chefes de redação, Luís Rocha Rodrigues e Pedro Cunha, incentivaram-me a sugerir reportagens, histórias ou entrevistas, com o objetivo de marcar a diferença relativamente ao tratamento jornalístico de alguns temas importantes. Além disso, as notícias de atualidade, em dias que não existiam jogos, assumiam especial destaque para deixar o portal sempre atualizado com informações pertinentes. Devido à maior parte de os eventos desportivos estarem calendarizados para o fim-de-semana, a tarefa dos jornalistas durante a semana passava por trabalhar em peças próprias. Assim, no meu segundo dia como estagiário, sugeriram-me que fizesse a antevisão geral do Mundial de Andebol que ia ser realizado na Polónia e Suécia, onde Portugal ia participar. A partir daí, propus alguns trabalhos relacionados com temas diversificados tais como o futebol chinês, ucraniano ou italiano, que culminaram em peças em que pude trabalhar com mais tempo. A juntar a isso, consegui utilizar multimédia em todas estas peças com a inserção de imagem, vídeo ou áudio, tendo em conta o meio para o qual este órgão de comunicação está direcionado. Não obstante, o zerozero aposta, também, em recursos multimédia quando falamos de conferências de imprensa após os jogos de futebol da Liga Portugal Bwin, uma vez que os jornalistas se deslocam todas as semanas para os recintos desportivos onde os encontros se disputam. Durante estes três meses, tive a oportunidade de conhecer o Estádio Municipal de Braga, Estádio Municipal de Famalicão ou o Estádio do Dragão para observar de perto o trabalho aí desenvolvido. Além de fazerem a crónica do jogo, os jornalistas assistem, no final de cada desafio, às conferências de imprensa para ouvirem e gravarem as declarações dos treinadores das duas equipas. 8 Ainda assim, o zerozero não se foca apenas no futebol, pois tenta, ao máximo, cobrir as outras modalidades e diminuir a diferença existente. Assim, pude fazer a cobertura dos oitavos-de-final da Taça da Liga de futsal, realizada em Gondomar, onde me foi solicitado que realizasse o acompanhamento ao minuto de todos os quatro jogos, a crónica e, no final, falasse com os técnicos na zona mista, onde o zerozero foi o único órgão de comunicação social a marcar presença. Um dia na redação era sempre diferente, pois apareciam histórias de vários pontos do mundo que suscitavam o interesse de todas as partes envolvidas. O desporto é bonito por isto. 2.2.1. Particularidades jornalismo online Durante o meu estágio no zerozero aprendi várias especificidades relacionadas com o meio para o qual este órgão de comunicação social está direcionado. Figura 1 - Exemplo notícia com hiperligações 9 Tal como podemos constatar na Figura 1 intitulada de “Peter Nenadic abandona Vezprém no imediato”, a maioria das notícias é feita com o recurso à intertextualidade, sendo este mais um exemplo das tarefas realizadas diariamente por parte de todos os jornalistas. No exemplo referido, são utilizadas hiperligações para várias funcionalidades tais como a página do jogador em questão, as equipas mencionadas, as notícias relacionadas com o atleta ou o histórico de jogos durante um determinado período da carreira. Para destacar este mecanismo, é aplicada a função negrito, juntamente com uma cor diferente (azul) das restantes palavras. Assim, se o leitor clicar em cada uma dessas ferramentas, será redirecionado para as informações que pretende, sem ter de pesquisar na base de dados do zerozero, contribuindo para que as referências sejam o mais precisas possível e de fácil acesso. No exemplo da Figura 2 “Nuno Santos opera mudanças para encontros frente à Hungria”, observamos o uso deste recurso, num caso relacionado com um assunto que se prende com a seleção nacional portuguesa no escalão sub-19, na modalidade de andebol. As hiperligações foram Figura 2 - Exemplo notícia com hiperligações 10 colocadas para os leitores conseguirem consultar com rapidez as fichas dos jogadores portugueses que entraram e saíram da convocatória do selecionador, em relação aos jogos amigáveis que se vão disputar no mês de março de 2023. Deste modo, percebemos que esta ferramenta é essencial para estabelecer a intertextualidade entre diferentes artigos jornalísticos, que se tornam intuitivamente acessíveis aos utilizadores e fornecem o contexto essencial para cada artigo publicado. Para além deste recurso, o zerozero dá a possibilidade de lançar notícias sem as mesmas estarem completas, alimentado a necessidade que as pessoas têm de consumir informação num curto espaço de tempo. Estas situações, num meio como o online , podem acontecer em distintos tipos de peça como é o caso da crónica ou da notícia. Para identificar que o trabalho ainda está incompleto, o colaborador deve marcar o item “Em atualização” e lançar o primeiro parágrafo introdutório ao tema. À medida que as informações vão sendo fornecidas, é trabalho do jornalista atualizar o mais rápido possível o público com o restante texto. Figura 3 - Exemplo notícia com selo de atualização 11 Como podemos observar na Figura 3, na notícia “Portugal conquista primeira vitória no Mundial 2023!”, relativa à participação da seleção nacional no Mundial de andebol, apenas foi publicado o primeiro parágrafo com os pontos mais importantes, sendo que, tal como explicado anteriormente, esta peça não se encontra completa. A partir daqui, o jornalista deve escrever os restantes conteúdos e, no final, retirar o selo da atualização, tal como constatamos na Figura 4, onde a notícia já aparece na sua totalidade juntamente com toda a informação sobre o respetivo encontro. 2.2.2. Importância da multimédia nas notícias Desde o primeiro dia do estágio curricular, fui incentivado a utilizar recursos com o objetivo de explorar ao máximo as funcionalidades do digital, não sendo algo específico para um Figura 4 - Exemplo notícia já pronta, sem o selo de atualização 12 determinado tipo de estrutura. Ou seja, é sempre aconselhável a incorporação da multimédia em notícias, crónicas, reportagens, entrevistas ou textos de opinião. Tal como referido anteriormente, além da aplicação de hiperligações, a inserção de vídeos, fotografias e texto é sugerida, sobretudo em textos mais longos, onde os blocos de informação são maiores. Assim, é possível melhorar a experiência do leitor com o uso de vários elementos que fornecem outro tipo de tópicos que não estão presentes no corpo do texto e que facilitam a leitura. Tendo como o exemplo da figura 5 intitulado de “Dnipro: renascimento desportivo nos escombros da guerra”, podemos constatar a utilização de uma fotografia relacionada com o tema e com a informação que vai sendo apresentada. Partindo da quantidade de dados que pretende ser exposta, o zerozero aconselha a aplicação da multimédia para evitar apenas texto corrido durante o corpo da notícia. Figura 5 - Exemplo peça com utilização de multimédia 19 Como podemos observar nas notícias associadas ao treinador do FC Porto, o zerozero limitou-se a tratar os assuntos em que as fontes oficiais tenham falado sobre uma das matérias mais mediáticas dos últimos tempos. Passamos a explicar. Aquando de uma conferência de imprensa de Sérgio Conceição no final do jogo contra o Internazionale, que acabou com a eliminação dos dragões da Liga dos Campeões, o técnico referiu que a equipa de futebol sénior masculina do FC Porto teve falta de investimento no seu plantel, desde que assumiu o comando técnico, na temporada 2017/18. Ora, fruto disso, o presidente Jorge Nuno Pinto da Costa comentou essas palavras, numa gala realizada pelo O Gaiense , desmentindo essas afirmações e enumerando alguns jogadores que o clube contratou no mercado de transferências nesta temporada. Figura 11 - Exemplo notícias do treinador do FC Porto, Sérgio Conceição 20 Consequentemente, a maioria (para não dizer toda) da comunicação social lançou vários rumores sobre uma possível rutura entre o presidente e o treinador, afirmando que Sérgio Conceição tinha a saída acertada. Ainda assim, o zerozero não fez qualquer tipo de notícia nesse sentido, esperando, sempre, por comunicados oficiais do emblema azul e branco e/ou reações das duas pessoas envolvidas no suposto “conflito”. Também neste exemplo da figura 13, “Paulo Gonçalves, ex-assessor do Benfica, condenado no caso E-Toupeira”, constatamos uma das várias notícias que o zerozero fez com recurso a fontes e/ou decisões oficiais. Neste caso, falamos sobre um dos processos que marcou a atualidade do futebol português nos últimos anos, envolvendo várias pessoas relacionadas com o Benfica. No total, na acusação feita pelo Ministério Público em 2018, foram encontrados 261 crimes cometidos pela SAD encarnada e Paulo Gonçalves relacionados, entre outros, com corrupção ativa ou falsidade informática. Figura 12 - Exemplo notícias caso E-Toupeira 21 Tal como aconteceu no exemplo anterior relativo ao FC Porto, este órgão de comunicação limitouse a esperar pelo desfecho relacionado com este processo, não avançando com qualquer tipo de informação privilegiada que ainda não tivesse sido tornada pública por todas as entidades envolvidas. Neste último exemplo, relacionados com o Cashball, um processo que envolveu o andebol do Sporting durante duas temporadas, observamos uma notícia associada ao fim do caso por parte da Federação de Andebol de Portugal, ou seja, novamente, uma fonte oficial. Esta prática tem sido recorrente em todos os assuntos polémicos relacionados com o futebol português, sendo umas linhas editoriais do zerozero e que já está em vigor há bastante tempo neste órgão de comunicação. Figura 13 - Exemplo notícia caso Cashball 22 2.2.5. Notícias das modalidades Ainda que o foco seja o “desporto-rei”, tal como constatamos anteriormente, o zerozero tem marcado pela diferença no tratamento de diversas modalidades como o futsal, futebol de praia, hóquei em patins, andebol, basquetebol e voleibol. Sendo o único site com uma base de dados tão abrangente em Portugal, este órgão de comunicação procura, cada vez mais, juntar o tratamento jornalístico com os números das estatísticas. Antevisões, crónicas, peças de transferências ou pontos de vista: a oferta é imensa e distintiva. Na figura 15, temos acesso a todos os artigos de futsal durante três dias – 1 de abril a 3 de abril -, numa altura em que a Taça de Portugal masculina e feminina decorriam nesse fim-de-semana na Póvoa de Varzim, assumindo, naturalmente, maior destaque. Dessas peças, duas delas prendem-se com o acompanhamento ao minuto do Benfica x Nun’Álvares e o Benfica x Sporting, ou seja, o relato de todos os lances desses dois encontros da prova, não assumindo a designação de notícia. Este cenário no futebol era impensável, dada a sequências de artigos e informações que vão saindo a cada minuto em todos os órgãos de comunicação ao redor de todo o mundo. Figura 14 - Notícias futsal no zerozero de 28 de março a 3 de abril 23 Tal como no futsal, também no andebol conseguimos observar essa tendência, embora aqui, ao contrário do que aconteceu anteriormente, não tivesse ocorrido nenhuma competição importante durante o fim-de-semana analisado. Nesta figura 16, vemos uma notícia relativa à passagem do Sporting na EHF European League, as jogadoras convocadas para o Torneio Internacional da Batalha, as vitórias do Sporting e do Benfica no campeonato, a conquista de um troféu nas Ilhas Faroé por parte de Nuno Farelo e uma decisão relativamente ao dia e hora do encontro entre águias e leões , para a Taça de Portugal. Ao contrário do futebol, no andebol não existem, com tanta regularidade, artigos sobre eventuais transferências de jogadores, conferências de imprensa de antevisão e rescaldos das partidas ou polémicas em tornos das equipas. Figura 15 - Notícias andebol no zerozero de 28 de março a 3 de abril 24 O último exemplo para percebermos esta orientação tem como ponto de partida o basquetebol. Aqui, voltamos a verificar a escassa publicação de peças comparativamente ao futebol, sendo dominado, na sua maioria, por artigos sobre o campeonato português da modalidade e a NBA, a principal liga norte-americana. Um incidente com Ivan Almeida, jogador do Benfica, os últimos seis dias da fase regular da NBA, o episódio do podcast “Afunda de 3,” a primeira derrota do Benfica em basquetebol feminino e duas notícias relativamente aos três grandes dominaram a agenda durante este período. Entre estas três modalidades escolhidas, observamos um ponto em comum: Benfica, Sporting e FC Porto, (este último sem uma equipa de futsal), prevaleceram como o principal assunto destas peças. Este facto é habitual em toda a época desportiva, excetuando quando a Seleção Nacional está em alguma competição de maior renome como um Europeu ou um Mundial. Figura 16 - Notícias basquetebol no zerozero de 1 de abril a 3 de abril 25 Sendo os maiores emblemas do panorama nacional no que toca a adeptos e simpatizantes, é com naturalidade que o zerozero opte, na maior parte dos casos, por fazer a sua cobertura ao detalhe, atraindo mais pessoas e visualizações. 2.2.6. Preponderância dos três grandes Num país dominado (praticamente) apenas por um desporto, a maioria dos holofotes da imprensa, online , televisão ou rádio estão direcionados para aí. Nesse campo dominam Benfica, FC Porto e Sporting, os principais impulsionadores deste fenómeno. Apesar de existirem dezenas de equipas em todos os escalões de futebol em Portugal, a grande parte dos adeptos tem um sentimento especial por estes clubes que, consequentemente, acabam por dominar a agenda dos órgãos de comunicação desportivos. As principais polémicas, os jogos com mais importância, os estádios com mais adeptos: tudo gira à volta dos três grandes , ainda que, nos últimos anos, o SC Braga tenha tentado intrometer-se nesta luta, num processo que promete ser longo e que vai contar com diversas fases para que o clube minhoto consiga receber metade da atenção. O zerozero, tal como a restante comunicação social, opta por dar um maior destaque a estes emblemas, ainda que tente equilibrar a atenção de todas as equipas do campeonato português, assim como em todas as suas modalidades, tal como já referido no ponto anterior. Entrevistas com os principais intervenientes destas equipas ajudam a diminuir essa disparidade para conseguir, também, satisfazer as necessidades dos adeptos fora dos três grandes . O foco principal, durante o meu estágio de três meses, passou sempre por alimentar a homepage do zerozero com conteúdos maioritariamente ligados ao futebol, com maior ênfase para estes três clubes, quer seja com declarações, peças de um treino, vídeos ou possíveis transferências de jogadores. 26 Tal como podemos observar na figura 17, onde estão todas as notícias do FC Porto do dia 1 de abril, vemos que, comparativamente às outras modalidades, foram publicadas mais peças durante o mesmo período. Isso deve-se ao facto de os dragões estarem na antecâmara no duelo contra o Portimonense, para a Liga Portugal Bwin, onde é feita a conferência de imprensa de antevisão, assim como um levantamento de alguns jogadores lesionados e que não vão poder dar o seu contributo. Este tratamento é transversal, também, ao Benfica e ao Sporting durante a época desportiva, quer seja no campeonato, taça, Liga dos Campeões, Liga Europa ou outra competição em que os clubes estejam inseridos. Figura 17 - Exemplo notícias FC Porto no dia 1 de abril 27 Também na figura 18, temos mais um exemplo das notícias alusivas ao dia 1 de abril, relativas ao líder do campeonato. Tal como aconteceu com o FC Porto, aqui constatamos de igual modo a conferência de imprensa de antevisão da partida, neste caso frente ao conjunto do Rio Ave. Dessas conferências, são sempre publicados alguns vídeos com declarações dos treinadores, mediante a relevância da informação. Não obstante, saliente-se aqui a peça intitulada “Luís Freire antes da receção ao Benfica: «Temos mais a ganhar do que a perder»” trata-se das afirmações do treinador adversário aos encarnados, algo também recorrente antes de cada jogo. Esta prática só é desenvolvida aquando das partidas do Benfica, Sporting, FC Porto e SC Braga, deixando de lado as restantes equipas da Liga Portugal Bwin. Logo, apenas é apresentado ao leitor a antevisão, crónica e vídeos da conferência de imprensa, quando o assunto são os três grandes e o Braga, atual terceiro classificado do campeonato português. Figura 18 - Exemplo notícias Benfica no dia 1 de abril 28 2.2.7. Fontes no zerozero Em qualquer órgão de comunicação, as fontes utilizadas têm uma importância acrescida para a confirmação de informação ou para obter algum dado em primeira mão sobre um determinado assunto que está a eclodir dentro do mundo do futebol. Nos três meses como estagiário, fui contactando, aos poucos, com várias fontes de informação para conseguir ter acesso às minhas próprias referências e completar algumas notícias. Um desses exemplos recai na peça intitulada de “Diogo Travassos arrisca paragem após lesão no joelho direito”, feita a 8 de março. Este artigo, que aborda um jovem jogador do Sporting B, confirmou a informação avançada por um outro jornal – Record – que divulgou, na sua versão impressa, que o atleta tinha contraído uma lesão grave e ia ficar afastado dos relvados durante tempo indeterminado. Figura 19 - Exemplo notícia com uso de fontes 35 Para explicar este ponto, comecemos pela figura 24, numa notícia da Fiorentina, uma equipa italiana que disputava a primeira mão da Taça de Itália frente à Cremonese. Na crónica deste jogo, para dar a entender que o conjunto da Fiorentina estava a atacar com maior volume que o seu adversário e, minutos depois, conseguiu dilatar a vantagem no marcador, recorri a um provérbio. “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura” significa que, com esforço e trabalho, tudo se consegue para chegar ao objetivo delineado. Portanto, tendo em conta as circunstâncias apresentadas pelo encontro, decidi que, para dar outro toque à peça e fazer uma ponte para o próximo parágrafo, onde é explicada a maneira como a Fiorentina marcou o seu segundo golo, devia utilizar essa expressão. “Filho de peixe sabe nadar” também é popular entre os jornalistas desportivos para designar o filho de um antigo jogador que teve sucesso e que, neste momento, está a dar os primeiros passos no desporto para seguir o caminho traçado pelo seu pai. “Fazer das tripas coração” significa transformar as adversidades em forças para conseguir chegar à vitória e que pode ser aplicado, por exemplo, quando uma equipa de futebol fica reduzida a dez elementos e que, no final, obteve a vitória. Ou seja, esta expressão é utilizada para designar algo ou alguém que conseguiu superar os obstáculos e sair com o triunfo no bolso. Deste modo, o jornalismo desportivo, nos seus mais variados formatos, é pródigo em transformar estes provérbios populares portugueses em frases relacionadas com qualquer desporto que seja mencionado. No zerozero não é exceção e sempre me incentivaram a enriquecer o meu texto com este tipo de expressões que melhoram as peças. 2.2.10 . Notícias “normais” e “curtas” Por existir um constante fluxo de informações sobre o mundo desportivo, é necessário fazer uma distinção entre o que é uma notícia “normal” e uma notícia “curta”. Comecemos pela notícia “normal”. Uma peça deste tipo prende-se com um assunto da atualidade que se associa aos principais clubes europeus, da Liga Portugal Bwin, de algumas seleções ou, por exemplo, de um jogador que tenha importância no contexto do desporto. 36 Essas notícias são sempre acompanhadas de hashtags para as redes sociais – Facebook e Twitter -, de um antetítulo com informação relacionada com o título principal da notícia e de tópicos adicionais quando comparamos à peça “curta”. Como podemos comprovar pelo exemplo acima, temos o antetítulo “técnico falou sobre a experiência recente” antes do título principal da notícia – “Luís Enrique: «Cometi muitos erros enquanto selecionador espanhol»”. Por se tratar de uma figura importante no mundo do futebol, é com naturalidade que se adicionam mais informações sobre esta temática. Já na figura 26, temos o exemplo de uma notícia “curta”. Apesar de se tratar de um jogador do primeiro classificado do campeonato italiano, a peça aquando da sua renovação não tem relevância suficiente para ter destaque na homepage . Figura 25 - Exemplo notícia "normal" 37 Portanto, decidi fazer uma notícia “curta” ao invés de uma “normal”. Observamos que não existe qualquer tipo de antetítulo, só estando presentes os agrupamentos da peça juntamente o selo de oficial. Devido às inúmeras peças que estavam a ser publicadas no dia 1 de abril, os jornalistas mais experientes optaram que este trabalho não fosse para as redes sociais para não tirar protagonismo a outros temas importantes. É importante referir ainda que, no caso das modalidades, na maior parte das notícias, as mesmas são feitas de forma “normal”. Ou seja, como são espaços onde existem muito menos cadência de peças, tudo o que é feito acaba por ser importante, salvo algumas exceções relacionadas com assuntos fora de Portugal. Figura 26 - Exemplo notícia "curta" 38 Tal como observamos na figura 29, “Rugido de Leão!” foi uma peça que incidiu sobre a crónica de um jogo de andebol do Sporting na EHF European League, prova em que já se encontravam nos oitavos-de-final. Ora, por se tratar de um clube português numa prova europeia da modalidade, dar as informações sobre um jogo de importância máxima é fundamental para os leitores. Águas Santas e Benfica eram os outros dois conjuntos que estavam presentes na competição e os jornalistas do zerozero recorreram sempre a notícias “normais” para falar sobre estes clubes enquanto estavam presentes. Figura 27 - Exemplo notícia "normal" em andebol 39 3. Enquadramento teórico 3.1. Primórdios jornalismo desportivo “Se existe domínio onde os jornalistas têm de jogar na ofensiva para garantir a permanência na divisão principal é no desportivo” (Sobral & Magalhães 1999, p.7). Voltando atrás no tempo, observamos que as primeiras publicações em solo português remontam a 1836 e 1840, onde começaram a aparecer as principais referências nos jornais da época: Recreio (Lisboa), Toureiro (Lisboa), Piloto (Coimbra), Ramalhete (Lisboa), Atleta (Porto), Atleta (Lisboa), Recreativo (Lisboa) e A Lança (Lisboa) (Pinheiro, 2009, p.51). O autor afirmou ainda que, até 1860, “a política manteve-se como o tema dominante e principal motivação para o surgimento de periódicos, continuando a aparecer títulos com terminologia que poderia sugerir a publicação de noticiário desportivo” (Pinheiro, 2009, p.51). Ainda assim, o jornalismo desportivo caminhou em passos lentos para conseguir a sua clara afirmação em Portugal, comparativamente com o que aconteceu no estrangeiro, onde tudo andou de forma mais acelerada. Em França, o Journal des Haras , publicado em 1828, foi o “primeiro periódico a aproximar-se da possibilidade de ser catalogado como jornal desportivo” (Andújar, 2013, p.10). Em Espanha, a revista El Cazador , entre 1856 e 1857, foi lançada com o objetivo de falar sobre “os direitos dos caçadores e reivindicar as leis de caça” (Andújar, 2013, p.10). Na altura, o desporto em Portugal era algo que não estava enraizado na população, sendo uma prática reservada para apenas uma parte dos portugueses, pois, numa primeira instância, As primeiras atividades não passavam de uma importação elitista do modelo parisiense. A elite lisboeta, nas ocasionais deslocações a Paris, observava as formas de lazer da elite local, imitando-as no seu regresso a Lisboa, embora de forma episódica e passageira. (Pinheiro, 2009, p.53) Por outro lado, no final do século XIX, a imprensa já desempenhava um papel importante, pois organizava e patrocinava grandes eventos desportivos, fazendo jus ao peso que ocupava na altura. “O Le Veló organizou em 1898 e 1899 grandes competições de natação no Sena e em Joinville Le Pont; O campeonato europeu de futebol teve no L’Equipe um dos seus pilares” (Vásquez, 1989, citado em Andújar, 2013, p.9). 40 A autora foi mais longe e refere que os Jogos Olímpicos foram o principal impulsionador para que o jornalismo desportivo desse outro passo em frente no que toca à sua evolução e consolidação dentro do panorama. Os Jogos Olímpicos de Atenas 1896, e fundamentalmente os de Londres em 1908, com transmissões para todo o mundo através do telégrafo, e os de Estocolmo 1912, com os primeiros envios fotográficos, foram os que facilitaram a consolidação dos primeiros diários desportivos e a criação de outros novos jornais. (Alcoba, 1993, citado em Andújar, 2013, p.9) Foi assim que o jornalismo desportivo foi avançando, um pouco por todo o lado, conseguindo ganhar a importância que tanto desejava quando começou, ainda que, numa primeira instância, abordasse temas que, nos dias de hoje, já não são tão falados. Portugal tentou acompanhar essa tendência, mas tal como já referido anteriormente, teve dificuldades para seguir o ritmo de outros países europeus no que toca ao jornalismo desportivo. Em 1893, apareceu “o primeiro jornal desportivo português – “O Velocipedista” -, dedicado ao ciclismo, uma modalidade muito em voga na altura” (Coelho & Pinheiro, 2002, citado em Nogueira, 2016, p.15). Pinheiro (2009) referiu que, depois do O Velocipedista , que deu o ímpeto necessário para a imprensa desportiva portuguesa começar a crescer, surgiu O Sport , publicado em Lisboa, que tinha conteúdos desportivos diversificados, dando atenção às várias modalidades que eram praticadas naquela época. O cabeçalho era preenchido por um desenho com momentos e objetos alusivos a diferentes modalidades: um jogo de futebol, um cavaleiro a saltar uma cerca, dois sabres, raquetes de ténis em madeira, um alvo para o tiro, duas rodas de bicicletas, um remo, entre outros. (Pinheiro, 2009, p.67) O mesmo autor explicou que a primeira edição do jornal “apresentava a fotografia de um jogo de futebol, realizado em Carcavelos, em 25 de março de 1893”, impulsionando, também, o crescimento do fotojornalismo. “Nos números seguintes, a parte central da capa seria sempre reservada a uma fotografia desportiva” (Pinheiro, 2009, p.67). No entanto, este periódico só contou com a publicação de quatro edições, dando origem a um sucessor com o mesmo nome, mas com o mesmo destino do primeiro Sport : foi extinto passado algum tempo. Tal deveu-se à “ideia de inutilidade à volta do desporto. Esse tópico era dominante 41 na imprensa portuguesa, daí a necessidade de a imprensa desportiva publicar textos doutrinários que contrariassem esse preconceito” (Pinheiro, 2009, p.69). Nos finais do século XIX, os jornais tinham muitas dificuldades em conseguir sobreviver devido à falta de publicidade e receitas que garantissem uma solução que se tornasse sustentável. Além disso, a falta de capacidade para atrair leitores fazia com que estes projetos fossem de curta duração, existindo muito poucos que fugiam a esta tendência, como por exemplo o Tiro e Sport , fruto da fusão entre o O Tiro Civil (1895), a Revista de Sport (1903) e Os Sports , este último, “que entre 1905 e 1904, tratou as modalidades de automobilismo, ciclismo, futebol, hipismo e natação” (Cruz, 2021, p. 45). É também por esta altura que surge o boom no que toca à importância de alguns desportos como a “tauromaquia”, “velocipedia”, “tiro e caça”, “automobilismo”, dando lugar, anos mais tarde, ao “fenómeno” do futebol como conhecemos hoje (Pinheiro, 2009). Numa primeira fase, o futebol foi apoiado pela publicação Os Sports , que tentou tornar esta modalidade acessível a toda a população, ao contrário do que acontecia anteriormente, onde a mesma era reservada apenas a uma elite, que estava concentrada nos grandes centros urbanos do Porto e de Lisboa (Cruz, 2021, p. 45). A partir daqui, e depois da I Guerra Mundial, que causou inúmeros constrangimentos no que toca ao desenvolvimento de vários setores da sociedade, organizou-se, por exemplo, o primeiro Campeonato de Portugal, que “acarretou um natural aumento das rivalidades futebolísticas, quer entre clubes quer entre regiões, contribuindo para a criação de periódicos que defendessem cada uma das fações” (Pinheiro, 2009, p.181). O surgimento dos três denominados grandes clubes portugueses – Sport Lisboa e Benfica em 1904, Sporting Clube de Portugal em 1906 e Futebol Clube do Porto em 1893 – contribuiu para que a população acentuasse a atenção nos jornais desportivos, fazendo com que o futebol subisse um patamar nas preferências da população, ocupando mesmo um lugar central no seu quotidiano e vida. Com milhões de adeptos, sócios e simpatizantes, estes três clubes dominam, desde a sua criação, a agenda dos média, captando a maior parte das atenções em todos os assuntos que são relacionados, quer seja em imprensa, rádio, televisão ou online , sendo algo transversal a toda a comunicação social desportiva. 42 Com grande expressão no futebol nacional, pelo poder financeiro e as fortes estruturas que os envolvem, os “três grandes” surgem como os clubes com maior importância no contexto desportivo português, recaindo sobre eles, ano após ano, elevadas expectativas e a esperança em resultados positivos, quer nas competições nacionais quer nas prestações internacionais. (Fernandes, 2015, p.55) É com naturalidade, portanto, que começam a nascer alguns jornais que ainda hoje são referências quando falamos de imprensa desportiva: A Bola e o Record . O primeiro, fundado em 1945 por Cândido de Oliveira e Ribeiro dos Reis, “iria para as bancas duas vezes por semana: segunda-feira para fazer a «reportagem dos acontecimentos desportivos» e à sexta-feira a «apreciação crítica, à vulgarização, ao exame dos problemas desportivos»” (Pinheiro, 2009, citado em Ferreira, 2013, p.32). O segundo, que foi lançado em 1949, por intermédio de Fernando Ferreira, José Monteiro Poças e Manuel Dias, tinha o “futebol como tema central, dedicando a esta modalidade várias entrevistas a futebolistas”, algo que se continua a verificar atualmente e é predominante em todos os órgãos de comunicação social (Pinheiro, 2009, p.368). Ao mesmo tempo, no estrangeiro, surgiram alguns jornais importantes no contexto desportivo, como a Marca em 1938 e o L’Equipe em 1946, que ajudaram no processo de profissionalização do meio, aliados ao aparecimento e desenvolvimento da televisão e rádio que “fizeram-se sentir em toda a imprensa desportiva” e que permitiram a dar um passo em frente para ganhar preponderância (Pinheiro, 2009, p. 416). Até então o público adepto de desporto estava habituado a apreciar directamente um evento desportivo ou, quando não o podia fazer, a ouvi-lo pela rádio, lendo e vendo no dia seguinte, na imprensa, as respetivas apreciações ao acontecimento e as fotografias mais importantes. (Pinheiro, 2009, p. 416) Juntamente com A Bola e o Record , anos mais tarde, criou-se O Jogo , que visava combater as inúmeras publicações feitas em Lisboa, concentrando a maior parte das atenções na capital do país. Assim, “a direcção do O Jogo começou a ver “inimigos” em várias frentes, tentando cativar mais leitores do Porto e do Norte à volta do seu projeto jornalístico”, algo que conseguiu fazer com sucesso com o passar do tempo para perdurar nos dias de hoje com credibilidade (Pinheiro, 2009, p.508). 43 O futebol em Portugal, tal como a maior parte destes meios de comunicação, teve de ganhar o seu espaço, sendo impulsionado, tal como referido anteriormente, pelo aparecimento dos três maiores clubes portugueses. Tal como defenderam Neves e Domingos (2005), Ao contrário da «Volta a Portugal em Bicicleta», que acontece uma vez por ano, mobilizando as povoações das diferentes localidades por onde passa o pelotão da prova e ocupando, durante cerca de três semanas, o espaço televisivo e mediático, o campeonato nacional de futebol realiza uma volta a Portugal todas as semanas. (Neves & Domingos, 2005, p. 64) O espaço mediático do futebol ao redor de quase todo o mundo é inquestionável e Portugal não foge a esta tendência. Os três maiores jornais desportivos dão maior destaque a esta modalidade que continua a atrair milhares de adeptos todas as temporadas. Paquete de Oliveira (2004) apelidou um jogo de futebol como se se tratasse do “maior espetáculo do mundo” apoiado por “milhões de espetadores”. Com estes ingredientes todos, o futebol vive dos seus intérpretes, mas sobretudo transcende-se em todos estes aspetos pela magia que desperta nos seus milhões de espectadores, que, rendidos às suas peripécias, excitam-se com ele em vibração repleta de emoção-paixão, reconhecendo-lhe o estatuto de «maior espetáculo do mundo». (Oliveira, 2004, p.189) Também Serrado (2011) tem o mesmo ponto de vista, pois Para muitos milhões, o futebol é mais do que um jogo. É uma questão de vida; é o próprio significado da sua existência. É lá que encontram a razão de viver, as forças para continuar numa vida muitas vezes «madrasta» e ingrata. É no futebol que encontram refúgio e se abstraem dos seus problemas, das suas angústias, das suas frustrações. (Serrado, 2011, p. 18) Essa onda de apoio, maioritariamente no futebol, tem repercussões a vários níveis, sobretudo financeiro, devido à disputa pelos direitos de transmissão de várias competições nacionais e internacionais, que geram um retorno considerável para estas entidades. Tal como apontaram Canavilhas e Giacomelli (2015), “além do valor investido na compra dos direitos de transmissão, a imprensa é obrigada a qualificar profissionais e equipamentos, visando contemplar de forma plural e completa a sua audiência, pois é dela que obterá o retorno do investimento” (Camargo, 2005, citado em Canavilhas & Giacomelli, 2015, p.158). 44 Desta forma, o jornalista que trabalha nesta área tem um compromisso grande com o seu público, uma vez que lhe é exigido que seja, ao mesmo tempo, “repórter objetivo, investigador crítico (…) ou representantes de adeptos” (Rowe, 1999, citado em Boyle, 2006, p.15), executando várias tarefas com diferentes finalidades para vários públicos que estão a acompanhar um acontecimento. 3.2. Importância do jornalismo desportivo O jornalismo desportivo foi crescendo e tendo cada vez mais público interessado em consumir o conteúdo que os órgãos de comunicação transmitem e publicam. Na opinião de Canavilhas e Giacomelli (2015), Os média não poderiam ignorar um fenómeno desta natureza pela força que tem na sociedade, mas também porque, contrariamente ao que acontece noutros campos em que vários grupos competem pela vitória (ex. política), o ritual desportivo tem uma periodicidade semanal, gerando matéria para um grande volume de notícias de interesse geral. (Canavilhas & Giacomelli, 2015, p. 154) Rosa (2020) defendeu que “a importância dada ao desporto pelos meios de comunicação social e a globalização fizeram do desporto um elemento poderoso” (Rosa, 2020, p.33), fruto das inúmeras transformações em vários setores ao longo dos últimos anos, influenciando e modificando diferentes campos. O jornalismo desportivo ajuda a construir e a desenvolver uma identidade nacional, que é alimentada por eventuais conquistas ou troféus em provas com importância dentro do meio (Rosa, 2020). Os Jogos Olímpicos, onde participam atletas de distintas nacionalidades de todo o mundo em várias modalidades, são um momento onde os sentimentos de pertença e comunidade são exponenciados. Rui Proença García e António Camilo Cunha (2016) argumentam que “os Jogos Olímpicos constituem-se num dos maiores fenómenos mediáticos da contemporaneidade. Os números impressionam! (…) Não haverá manifestações culturais que consigam mobilizar de tal forma a humanidade” (Garcia & Cunha, 2016, p. 29), Neste contexto, é importante que os órgãos de comunicação ajudem a desenvolver a identidade nacional que une os portugueses para apoiar uma eventual conquista de um determinado atleta ou equipa, enquanto estão com o nome de 51 técnicas de escrita que abrangem qualquer trabalho jornalístico, há uma terminologia específica desta editoria e, mais ainda, de cada modalidade a ser noticiada. (Henriques, 2014, p.33) O fundamental é dar a notícia e contar a verdade. “Um pode ir para um pavilhão e outro para uma esquadra ou para um evento de política nacional, mas o trabalho é o mesmo – procurar notícias, encontrar notícias e escrever notícias” (Aamidor, 2003, p.1). Barbeiro e Rangel (2006) concordam com este ponto de vista e argumentam que “a essência não muda porque a sua natureza é única e está intimamente ligada às regras da ética e do interesse público” (Barbeiro & Rangel, 2006, citado em Gurgel, 2009, p.196). Canavilhas e Giacomelli (2015) partilham da mesma opinião e afirmam que este tipo de jornalismo se relaciona com a cultura, política ou economia, pois está interligado com diversas “entidades que regulam o desporto como o COI (Comité Olímpico Internacional) ou a FIFA (Federação Internacional de Futebol), por exemplo, e foram até arma política durante a 2ª Grande Guerra e, mais recentemente, durante a Guerra Fria”, o que demonstra a sua preponderância (Canavilhas & Giacomelli, 2015, p.158). Serazio (2019) defende que, “numa era de fragmentação cultural, polarização política e distração que deriva da abundância de meios, o desporto representa uma das últimas instituições que unem as massas” (Serazio, 2019, citado em Kermanchahi, Ramon & Cortiñas-Rovira, 2021, p.18). Da mesma forma, Rojas-Torrijos (2014) argumenta que o jornalismo desportivo “tem evoluído até converter-se no produto informativo de maior alcance social, assim como o mais procurado e consumido em muitos países da Europa Meridional e América Latina”, reforçando a importância que esta área tem em diferentes pontos do mundo (Rojas-Torrijos, 2014, p. 179). O autor explica ainda que, nos últimos anos, as estruturas que se ligam aos meios de comunicação têm-se desenvolvido a um bom ritmo para os média se tornarem na “tipologia informativa de maior alcance social”, uma vez que desenvolveram novas técnicas para conseguir alcançar cada vez mais público (Rojas-Torrijos, 2014, p.180). O florescimento desta tipologia informativa não tem sido apenas numérico; tem marcado tendências ao criar um estilo próprio, baseado na cor, originalidade e espetacularidade das suas propostas, e traz um novo modelo de apresentação de informações através de uma linguagem visualmente atrativa que é comum e acessível a todos. (Rojas-Torrijos, 2014, p.180) 52 Para sustentar a sua ideia, Rojas-Torrijos (2014) fez um balanço relativamente à imprensa desportiva europeia para demonstrar o peso do jornalismo desportivo. O investigador deu os exemplos de Espanha, com os jornais Marca , As , Sport , Mundo Deportivo , Superdeporte , Estadio Deportivo , Campeón e El 9 Esportiu , estes últimos quatro com abrangência regional. Além disso, La Gazzetta dello Sport , Tuttosport e Corriere dello Sport , em Itália, A Bola , O Jogo , Record , em Portugal e o L’Equipe em França fortalecem a argumentação do autor relativamente à abrangência dos média (Rojas-Torrijos, 2014, p. 182). No que toca aos países da América Latina, o espanhol realça o facto de terem surgido os primeiros jornais desportivos em alguns países como a Costa Rica ( Al Día ), Honduras ( Díez ) ou El Salvador ( El Gráfico ). Na Venezuela, temos o Líder e o Meridiano , no México o Récord , La Afición , Estadio Deportes , Esto e Ovaciones , no Peru o Deport , Todo Sport , Líbero e El Bocón , na Colômbia a Marca e o El Periódico Deportivo , sendo que, na Argentina e no Brasil, só existe um jornal desportivo para cada um destes países, Olé e Lance , respetivamente, onde o futebol tem um peso bastante significativo (Rojas-Torrijos, 2014, p.182). Deste modo, Rojas-Torrijos (2014) concluiu o seguinte: A imprensa desenvolveu-se de uma forma extraordinária em ambos os continentes e continua a ocupar um lugar destacado quando falamos do mercado do jornalismo, apesar do desenvolvimento das novas tecnologias e da aposta firme de algumas empresas jornalísticas para reforçar os seus conteúdos digitais de notícias para ganhar em competitividade e fazer frente aos novos hábitos de consumo do público. (Rojas-Torrijos, 2014, p.183) No entanto, existem vários argumentos contra as posições que defendem o crescimento do jornalismo desportivo nos últimos anos. Belson (2016) argumenta que a NFL, campeonato de futebol norte-americano e a Premier League, relativa a uma das melhores competições de futebol do mundo que é realizada na Grã Bretanha, têm visto as audiências televisivas diminuir drasticamente (Belson, 2016, citado em Evens, 2017, p. 284). Tal se deve, na opinião de Holt e Sanson (2014), ao Aumento das práticas de visualização conectada, que fazem parte de uma iminente revolução na forma como a screen média é criada, circulada e consumida. A migração de uma tela para várias, que abala os modelos de negócio tradicionais e provoca estratégias 53 multiplataforma, desafia a audiência tradicional da televisão. (Holt & Sanson 2014, citado em Evens, 2017, p.284) Não obstante, a pirataria também é um dos grandes problemas, pois, através de sites ilegais, o público consegue consumir uma grande quantidade de conteúdo televisivo sem ter de pagar pelo mesmo. Em sentido inverso, “o aumento dos preços dos serviços de TV, em parte induzido pelo aumento dos custos para adquirir eventos desportivos ao vivo, está a afastar os consumidores para plataformas de vídeo alternativas” (Evens, 2017, p.284). Não é apenas a televisão que tem sofrido um revés num passado recente. Rojas-Torrijos (2014) aponta que, em Espanha, a imprensa desportiva local tem tido dificuldades para se adaptar aos novos tempos dominados pela tecnologia. Além disso, “o grande volume de espaços desportivos que a televisão oferece, a rapidez da rádio, (…) a queda de vendas nos quiosques e dos anunciantes de uma forma geral, iniciaram um processo de redução de modelos” (Rojas-Torrijos, 2014, p. 184). Dias (2020) argumenta que a imprensa tem perdido o seu espaço comparativamente ao digital, uma vez que, tirando “uma ou outra entrevista”, o conteúdo produzido não se diferencia dos restantes, pois “os temas atuais são encontrados pelo leitor com maior rapidez e riqueza em fontes online”, obrigando alguns órgãos de comunicação a fechar portas (Dias, 2020, p.31). Assim, os que ainda estão em pé apostam, cada vez mais, “em formatos longos, um desenho original e conteúdos de qualidade com a contribuição de figuras ilustres” para conseguirem ser sustentáveis e impedir que tenham o mesmo desfecho que outros jornais concorrentes (RojasTorrijos, 2014, p.186). Estas medidas surgiram com o objetivo de conseguir colmatar as alterações que a internet trouxe e, consequentemente, “fazer um produto mais ágil e dinâmico para estar de acordo com a atualidade e complementar os produtos feitos em papel com conteúdos digitais novos e diferenciados” (Rojas-Torrijos, 2014, p.184). Logo, um dos maiores desafios destes órgãos de comunicação passa por tentar conter os novos hábitos dos leitores “que preferem procurar notícias nos suportes digitais em vez de no papel”, algo que foi acelerado com os novos processos tecnológicos associados ao desenvolvimento de variados dispositivos que permitem essa funcionalidade (Rojas-Torrijos, 2014, p.184). 54 Relativamente ao panorama em Portugal, um estudo conduzido por Bucho (2022), intitulado de “As potencialidades do ciberjornalismo na imprensa desportiva: o caso do Euro 2020”, constata que “o jornal O Jogo tem estabilizado ao nível das assinaturas digitais pagas desde 2017, enquanto o Record tem crescido praticamente todos os anos” (Bucho, 2022, p.79). Estes dados, ainda assim, não são animadores, se os compararmos com os registados há alguns anos. Ainda em concordância com o mesmo autor, observamos que o “ Record viu reduzir a sua circulação do 1.º trimestre de cerca de 32 mil exemplares para 15 mil exemplares no mesmo trimestre de entre 2017 e 2022”, o que demonstra a perda de poder por parte do jornalismo impresso (Bucho, 2022, p.79). Em sentido inverso, “as assinaturas digitais passaram de 1756 para 2318”, uma vez que este setor tem conseguido ganhar o seu espaço entre o público, sendo mais um exemplo desta tendência (Bucho, 2022, p.79). O investigador concluiu: Financeiramente, a perda foi muito maior que o ganho. Além disso, conseguir um modelo de negócio financiado apenas pelas assinaturas digitais parece, nesta fase, praticamente impossível, e a rentabilização da publicidade no digital ainda é um problema no atual modelo de negócio do jornalismo. (Bucho, 2022, p.80) 3.4. Domínio do futebol Apesar de o jornalismo desportivo ter passado por distintas fases no que concerne à sua importância, prevaleceu um ponto em comum durante estes anos, que se prende com o facto de o futebol ser o desporto que mais atenção recebe comparativamente com outras modalidades. Ainda que se tenham dado algumas conquistas importantes fora desse contexto, o foco não se desviou do “desporto-rei” (Latas, 2017). Apesar do notório interesse dos meios de comunicação no desporto como fonte de audiências e rendimento, é de realçar que nem todas as modalidades se conseguiram afirmar ao longo do tempo. O futebol tornou-se o desporto de maior importância no espaço social e mediático, e é aquele com o qual existe uma maior identificação a nível europeu. (Latas, 2017, p.13) Torrijos (2012) estudou o caso espanhol e dá exemplos de atletas que triunfaram em diversos desportos, como é o caso de Rafael Nadal no ténis, Fernando Alonso na Fórmula 1, Pau Gasol na NBA ou Alberto Contador no ciclismo. Fruto desse sucesso, o público começou a ganhar interesse 55 em pesquisar tópicos para conseguir “dar opiniões ou fazer análises de uma temática longe dos campos de futebol, o que se pode traduzir, a curto e médio prazo, numa maior atenção jornalística nestes assuntos” (Torrijos, 2012, p.84). No entanto, Relaño (2006) argumenta que, em Espanha, todos os meios de comunicação especializados em desporto dedicam três quartos do seu tempo para falar sobre questões relacionadas com futebol (Relaño, 2006, citado em Torrijos, 2012, p.84). Assim, “muitas das páginas não estão cobertas com verdadeiras notícias, mas sim com anedotas, curiosidades (…) e declarações dos protagonistas que se provocam entre si”, pois todos os assuntos acabam por ser alvo da cobertura dos média graças à sua preponderância (Torrijos, 2012, p.85). Para percebermos esta evolução, é necessário recuarmos até ao final do século XIX, no Reino Unido, onde começaram a desenvolver alguns parâmetros para conseguir transformar-se num “jogo global” com um “conjunto de regras simples de interiorizar” e um “conjunto básico de equipamento necessário” (Silva, 2020, p.33). A Football Association, fundada em 1863, foi o primeiro organismo onde se juntou todas as normas do futebol para proporcionar a “difusão entre as culturas de todo o mundo” (Robertson & Giulianotti, 2006, p.14). Anos mais tarde, em 1904, criou-se a FIFA - Federação Internacional de Futebol, cujo objetivo passava por “regular o futebol a nível global e aplicar sanções aos clubes ou jogadores de determinados países, caso fosse necessário” juntando praticamente todas as nações dos quatro cantos do mundo para conseguir ter o controlo e contribuir para a profissionalização de vários setores dentro da modalidade, que ainda estava a dar os seus primeiros passos para projetar o início do seu trajeto global (Latas, 2017, p.14). Quatro anos mais tarde, o futebol entrou definitivamente para as modalidades escolhidas para os Jogos Olímpicos de 1908, pois até então era visto como um desporto “de exibição” nas três edições anteriores da prova, o que demonstrava o fraco interesse dos cidadãos (Robertson & Guilianotti, 2006, p.14). Em Portugal, o futebol começou a ganhar o seu espaço na imprensa desportiva “a partir de meados da década de 1910”, impulsionado pelo crescimento dos três maiores clubes – Benfica, Porto e Sporting – e da seleção portuguesa de futebol, algo que verificamos nos dias de hoje (Pinheiro, 2009, p.560). Esse espaço foi sendo cada vez maior com a conquista de troféus importantes, uma vez que Benfica e Porto venceram a Liga dos Campeões por duas ocasiões distintas – 1961, 1962, 1987 e 2004, respetivamente - contribuindo para que 56 a atenção dos órgãos de comunicação estivesse maioritariamente sobre os seus trajetos nas suas campanhas europeias. Na visão de José Viseu (2006), conseguir fazer com esta esfera da sociedade progredisse proporcionou Uma mudança drástica na importância socioeconómica dada ao desporto em Portugal. Até aos anos 80, o desporto português era predominantemente uma atividade localizada e de voluntariado. Apesar da atenção social já ser considerável, a importância económica só se veio a instalar mais tarde, com a profissionalização do setor. (Viseu, 2006, p.89) Não obstante, a realização de provas como o Europeu 2004 foram igualmente importantes para que o futebol ganhasse ainda mais protagonismo. O facto de Portugal receber uma prova desta magnitude fez com que fosse necessária a construção de diversas infraestruturas a nível desportivo para corresponder às expectativas de todas as partes envolvidas na organização de uma prova de seleções. Partindo do ponto de vista do “Secretário de Estado da Administração Interna” da altura, este evento foi assim percecionado: O maior alguma vez realizado em Portugal, quer pelo tempo de duração, quer pela extensão, que em termos geográficos abrangeu a quase totalidade do território nacional, quer ainda pelo número de envolvidos nesta operação de segurança, que implicou um grande empenho e envolvimento de todos os recursos humanos que nela participaram. (Andrade, 2021, p.30) Andrade (2021) argumenta ainda que “existe um país antes do Euro 2004 e existe um país depois do Euro 2004. Ou seja, podemos dizer que é o ícone da mudança”, pois o impacto verificou-se em distintos setores da sociedade, uma vez que adeptos de todo o continente europeu deslocaramse até Portugal para apoiar a sua seleção e ver de perto alguns jogadores que admiravam (Andrade, 2021, p.30). Felisbela Lopes e Sara Pereira (2006) salientaram que “povos ricos e pobres, gentes de idades variadas, de classes variadas, de gostos desencontrados” fizeram parte desta prova e tal vai voltar a suceder no “Europeu seguinte, depois no Mundial, a seguir no outro e no outro” (Lopes & Pereira, p.7). Carlos Daniel (2006), por outro lado, afirmou que se tratou de um “momento de juntar todos os condimentos: a paixão de um povo pelo fenómeno, um evento à escala internacional (…) uma Seleção com pretensões”, para, tal como referido no ponto anterior deste estudo, exponenciar o sentimento de nacionalidade, fazendo com o que povo português 57 ficasse cada vez mais atento aos feitos da seleção e dos seus respetivos clubes no decorrer do campeonato e nas provas onde estão inseridas todas as temporadas (Daniel, 2006, p.39). Vi, de perto, milhares de bandeiras nas janelas e nas varandas de dezenas de cidades. Por isto, dois anos volvidos sobre este grande evento, julgo poder escrever, com uma ponta de orgulho, que conseguimos mostrar que o Euro foi muito mais do que um conjunto de jogos de futebol. (Daniel, 2006, p.40) Manuel Fernandes Silva (2006) também se debruçou sobre o assunto e enfatizou que, durante esse período, os portugueses esqueceram todos os problemas que tinham relacionados com questões económicas, sociais e pessoais para apoiar a sua seleção, criando um clima de grande euforia em volta da competição, um cenário impensável no que toca a qualquer outra modalidade: “Não houve uma retoma económica, o desemprego e a inflação não baixaram, não se esbateram desigualdades sociais, mas os portugueses andavam mais optimistas”, o que demonstra que, durante estas alturas de união em prol de um objetivo comum, existem determinados assuntos que são remetidos para segundo plano, deixando o futebol como a principal temática a ser debatida, analisada e escrutinada por uma sociedade interessada em saber mais (Silva, 2006, p.54). A partir daqui, o futebol tornou-se num assunto indispensável para a vida de várias pessoas. Diversos autores estudaram esta questão, tais como Marivoet (2015), Neves (2013), Coelho e Pinheiro (2002), e constataram que continua a ser uma tendência comprovável partindo da cobertura que os meios de comunicação especializados em desporto fazem ao longo do ano. Para explicar a sua perspetiva no que toca a este tema, Marivoet (2015) fez uma comparação entre o futebol e a religião, uma vez que é “a mais importante forma de religião profana da atualidade”. Os campos de futebol são os reais substitutos dos templos de todos os tempos e regiões. Ir a um jogo de futebol é como ir a uma missa pagã: rezamos fervorosamente, imploramos aos deuses (as modernas estrelas do futebol), partilhamos a empatia da presença através de múltiplas maneiras (as claques são o exemplo mais flagrante), esperamos que o sacerdote (o árbitro) seja convincente. (Marivoet, 2015, citado em Carvalho, 2021, p.26) Neves (2013), por sua vez, realçou que o futebol tem um papel fundamental para a maior parte do público português, pois ocupa um lugar central nos órgãos de comunicação social devido à sua 58 “popularidade e universalidade inegáveis” que “mobiliza a quase totalidade de uma sociedade e das suas instituições” (Neves, 2013, p.1). O futebol é sem dúvida um fenómeno de elevada repercussão no panorama da cultura desportiva contemporânea em todo o mundo e Portugal não é excepção, verificando-se a universalidade deste desporto de norte a sul e do litoral ao interior do país. (Neves, 2013, p.1) Coelho e Pinheiro (2002) partilharam da mesma opinião e afirmam que “hoje em dia não existem, na sociedade portuguesa, muitas atividades e campos sociais que ocupem lugar tão central nos média, nas sociabilidades ou nos gostos dominantes como o futebol”, devido ao interesse que suscita entre várias pessoas de uma comunidade pois, independentemente dos seus cargos ou profissões que exercem no seu quotidiano, estão interligados por um gosto comum relacionado com um clube, seleção ou jogador pelo qual nutrem um sentimento especial de admiração, respeito ou simpatia (Coelho & Pinheiro, 2002, citado em Ferreira, 2020, p.29). Através de canais de televisão com conteúdo exclusivamente ligado ao desporto, a modalidade conseguiu juntar estas pessoas à volta de um ecrã nos cafés ou nas suas casas para visualizarem diferentes abordagens no que toca a temática do futebol (Sobral, 2006, p.67). Nos Estados Unidos da América, em 1980, surgiu a ESPN , sendo que, quatro anos mais tarde, nasceu o canal Screensport e, em 1989, a Eurosport , que é “considerada a maior rede de televisão desportiva por cabo da Europa” (Latas, 2017, p.15). No panorama português, os três canais privados – RTP, SIC e TVI – nos início da década de 1990 mudaram a sua estratégia no que toca à captação de audiências, pois “definiram o desporto como área prioritária” (Pinheiro, 2009, p.532). Comecemos pela primeira estação televisiva. Segundo o mesmo autor, entre 1994 e 1997, a categoria do desporto foi o conteúdo mais visto na RTP, uma vez que programas como o “Domingo Desportivo”, “Segunda Parte” ou “Remate” tiveram bastante sucesso junto do público. A juntar a isso, a transmissão ao fim-de-semana dos “jogos de futebol do campeonato português”, bem como algumas provas amadoras no segundo canal da RTP, contribuíram para a expansão do desporto. Não obstante, a cobertura de eventos como a Volta a Portugal, França e Espanha em bicicleta, Grandes Prémios de Fórmula 1, Campeonatos da Europa de futebol, Mundiais de futebol e Jogos Olímpicos reforçaram a posição da RTP (Pinheiro, 2009, p.532). 59 No que toca à SIC , a estação prometeu “ser polémica e agressiva na sua programação desportiva”, mas não conseguiu ter o mesmo sucesso do seu concorrente, pois “não teve no desporto um dos seus principais aliados para a conquista de audiências entre 1993 e 1997”, apostando apenas em programas informativos como o “Fora de Jogo”, “Os Donos do Jogo” e “Os Donos da Bola” (Pinheiro, 2009, p.532). Já a TVI “não apresentava em 1992 nenhum projeto definido para a área desportiva”, mas, um ano volvido, o desporto foi “o género televisivo que mais contribuiria para as audiências”, fazendo com que, em 1996, acompanhassem a Liga Espanhola de futebol e os “futebolistas e treinadores portugueses que atuavam no estrangeiro” (Pinheiro, 2009, p.532). Assim, em 1998, surgiu a Sport TV , assumindo o papel de “canal exclusivamente desportivo, tal como já tinha acontecido na Europa” (Pinheiro, 2010, citado em Latas, 2017, p.15). Este canal foi inovador neste contexto, pois abriu o caminho para a “emergência de canais televisivos por subscrição”, dando o mote para a criação de outras estações de televisão no mesmo registo (Latas, 2017, p.15). Referimos Lourenço Brito e Faro (2019): Nos últimos vinte anos, as transmissões de eventos desportivos foram asseguradas, em grande parte, pela Sport TV. A Sport TV é o maior canal de televisão pago em Portugal e o seu portefólio de direitos de transmissão inclui as principais ligas de futebol europeias e outros desportos que podem ser relevantes na realidade portuguesa. (Faro, 2019, p.6) Atualmente, além da Sport TV , chegou a Portugal a Eleven Sports , um canal também pago e com conteúdo direcionado essencialmente para o futebol, mas que marca pela diferença com uma abordagem distinta a alguns tópicos que têm dominado a agenda dos órgãos de comunicação como casos de corrupção ou programas de televisão inteiramente dedicados a escrutinar o trabalho de um árbitro numa partida a envolver o Benfica, Porto e Sporting, por exemplo (Faro, 2019, p.6). O mesmo autor explicou que esse procedimento passa pelo seguinte: Passar mais tempo no pré-jogo no estádio, fazer mais entrevistas aos jogadores e treinadores ou maior quantidade de análises às táticas. Em suma, falar mais sobre os jogos de futebol e menos sobre o que está a acontecer fora dessas partidas. (Faro, 2019, p.6) 60 Ou seja, a oferta do conteúdo é imensa e diversificada, fazendo com que o futebol seja discutido praticamente durante todos os dias da semana. Todos estes fatores ajudam a perceber o porquê de ser a modalidade que mais atenção recebe comparativamente a outras que também têm sucesso, mesmo que existam troféus e campeonatos conquistados associados. A realização de grandes competições que envolvem o futebol ajudam a alimentar, cada vez mais, o sentimento que a maior parte da população tem sobre esta temática que atrai milhões de pessoas todos os anos, seja em imprensa, online , rádio ou televisão. João Nuno Coelho (2004) defende que “o futebol pode ser visto como uma das mais profundas matrizes simbólicas do nosso tempo, também porque as suas equipas representam sempre identidades – sejam elas locais, nacionais, étnicas, religiosas –“, devido ao seu peso e importância na sociedade portuguesa (Coelho, 2004, p.120). Anabela Macedo (2011), por sua vez, concorda com essa ideia. O futebol é apaixonante e sentimental, porque envolve competição e um forte antagonismo: ganhar ou perder. Em Portugal, é visto como o maior representante do país lá fora, o que suscita motivos de orgulho, raramente manifestados entre nós. Depois, o jornalismo desportivo empolga todos os feitos da seleção nacional ou dos clubes portugueses na Europa, numa exaltação do sentimento patriótico. (Macedo, 2011, p.63) 3.5. Nicho das modalidades Se o futebol domina a agenda dos média independentemente do tema que está a ser tratado, as modalidades, por sua vez, ficam remetidas para segundo plano. Maria João Marinho da Silva (2020) refere que “o desporto é parte fundamental da cultura portuguesa. Os três F’s–Futebol, Fado e Fátima – fazem com que se comprove a existência de uma primazia do futebol perante as restantes modalidades desportivas na cultura portuguesa”, uma vez que o público dá preferência a temáticas dentro do futebol relacionadas com a equipa que acompanha ou a seleção nacional (Silva, 2020, p.65). Num estudo conduzido pela mesma autora, onde se analisou a cobertura das modalidades nos três maiores jornais desportivos – A Bola , O Jogo , Record - concluiu-se: 67 comunicação começaram a fazer algumas experiências para transformar os seus conteúdos e adaptá-los a um formato digital: os jornais reproduziam as notícias da sua versão em papel, a rádio emitia na web “o sinal hertziano” e as televisões colocavam os telejornais disponíveis na íntegra para o seu público (Bastos, 2023, p.59). No entanto, por se tratar de algo inédito, pairava no ar a sensação de incerteza quando ao futuro, mas “as empresas sentiam que não podiam perder o comboio e lançaram-se como podiam e sabiam nos meandros da publicação noticiosa no ciberespaço”, contribuindo para que se contratassem cada vez mais profissionais para trabalhar no digital, tal como aconteceu no Jornal de Notícias e no PÚBLICO, em 1995, os pioneiros (Bastos, 2023, p.59). O primeiro, aliás, foi o “primeiro diário de informação geral a atualizar, diariamente, a informação na sua edição na Web”, permitindo, anos mais tarde, que outros órgãos de comunicação fizessem o mesmo (Bastos, 2023, p.61). Assim, o que antes era uma novidade, passou a ser parte do trabalho diário de um jornalista, pois “a Internet estava «rapidamente» a transformar-se num instrumento de trabalho indispensável para aqueles profissionais” que aproveitavam esta ferramenta para aprofundar as suas peças através do acesso a diversas fontes de informação com o objetivo de “encontrar autores e especialistas em determinadas matérias” (Bastos, 2023, p.65). Seguiu-se, anos mais tarde, o Correio da Manhã , TSF , TVI , Diário de Notícias e o Expresso , o que demonstrava a aposta no meio digital. É importante ainda realçar o trabalho do Setúbal na Rede , que se tornou “no primeiro jornal exclusivamente online” em janeiro de 1998, sendo que ocupou o primeiro lugar na lista de órgãos de comunicação digitais a registraram-se no Instituto da Comunicação Social, obrigando “a Associação de Imprensa Portuguesa a alterar os estatutos para permitir a sua inscrição como sócio” (Bastos, 2023, p.68). De acordo com Pedro Brinca (2006), o foco inicial passou por “fazer bem feito, com qualidade e dignidade”, uma vez que a adesão foi bastante significativa, o impacto “maior do que se esperava” e o crescimento “exponencial”, o que trouxe uma responsabilidade acrescida a este projeto que abriu caminho para as restantes ideias na mesma linha de pensamento (Brinca, 2006, pp. 147148). O mesmo autor refere ainda que o Setúbal na Rede prevaleceu durante vários anos, ao contrário de outros meios de comunicação, que não se conseguiram adaptar a uma nova realidade marcada pelo aparecimento e desenvolvimento da tecnologia. A verdade é que o Setúbal na Rede nasceu antes dos outros e manteve-se após o desaparecimento de muitos deles. Adaptou-se, sempre que necessário, a uma inevitável normalização. Mas manteve-se firme num conjunto de convicções, apesar da crítica generalizar alinhada com a moda, ditada pela maioria tirana. (Brinca, 2006, p.148) 68 4.2. Particularidades linguagem online Durante os meus três meses de estágio no zerozero, contactei permanentemente com o meio digital, algo que continua em evolução, fruto do avanço da tecnologia. Estas novas descobertas impactaram o jornalismo, sofrendo inúmeras alterações com o passar dos anos que modificaram a sua génese. Em jeito de comparação, este novo tipo de realidade acaba por se diferenciar do jornalismo impresso, pois A Internet não só abarca todas as capacidades dos velhos media (texto, imagens, gráficos, animação, áudio, vídeo, distribuição em tempo real) como oferece um leque de escolhas de novas capacidades, incluindo a interatividade, acesso on-demand, controlo por parte do utilizador e personalização. (Pavlik, 2001, p.3) Também Salaverría (2022) partilhou da mesma opinião e refere algumas áreas em que o impacto foi e é evidente. “Mais profunda foi a transformação do consumo de informação por parte da população; os canais, tempos e dispositivos de acesso aos dados têm poucas semelhanças àqueles que se utilizavam há poucos anos” (Salaverría, 2022, p.21). O investigador foi ainda mais longe e afirmou que, atualmente, “o jornalismo é uma profissão totalmente digital” (Salaverría, 2022, p.21). Logo, existem determinadas funções que a Internet trouxe e são utilizadas com regularidade no trabalho diário de um jornalista: a facilidade de corrigir, alterar ou atualizar textos em poucos segundos viabilizam o trabalho dos profissionais na missão de informar o público (Bianco, 2004, p.1). Tal como afirmaram Santos-Silva & Granado (2021), Hoje, é possível imergir nas estórias, através da realidade virtual ou de narrativas multimédia, mostrar os estilhaços do conflito da Síria através de um drone, denunciar os espaços contíguos de uma habitação na Índia através da fotografia 360º ou fazer o fact-checking em direto de um debate eleitoral. Mesmo que estejamos momentaneamente na singularidade do “aqui” e do “agora”, uma simples notificação no telemóvel leva-nos de volta para o tempo e o espaço dominantes. (Santos-Silva & Granado, 2021, pp.62-63) Como observamos, são cada vez mais as opções que os jornalistas têm disponíveis para realizar o seu trabalho, oferecendo, em contrapartida, uma diversidade de recursos através dos quais a informação é apresentada (Bastos, 2012, p.284). 69 Logo, teoricamente, um jornalista deve desejavelmente estar apto para assumir várias funções e não “ficar agarrado à divisão tradicional do jornalismo em imprensa escrita, rádio e televisão, mas estar preparados para trabalhar em qualquer meio”, algo que se tornou normal com o passar dos anos (Canavilhas, 2017, p.27). Por outro lado, é necessário estar capacitado para tomar várias decisões em poucos segundos no que toca a transmitir a informação da melhor maneira possível para o público, algo defendido há muito por vários investigadores, como por exemplo Deuze (2001). Os jornalistas do online têm de tomar decisões sobre qual é o melhor formato para explicar uma história (multimédia), têm de dar espaço ao público para responder, interagir ou adaptar determinadas histórias às necessidades (interatividade) e têm de considerar diversas formas de ligar novas histórias e outros elementos através da utilização de links (hipertexto). (Deuze, 2001, p.3) Da mesma forma, Gradim (2003) sublinhou as exigências com que habitualmente se confronta um jornalista. Espera-se que produzam para três ou quatro meios diferentes, que escrevam belas prosas para o jornal, realizem vivos para a TV e sejam entrevistados pela rádio do grupo. A cereja no topo do cheesecake passa pela produção de peças web com cunho original. Tudo isto, dada a rapidez do processo, com muito menos controlo editorial comparando quando o trabalho do jornalista se circunscrevia apenas ao texto impresso. (Gradim, 2003, p. 122) Portanto, podemos dizer que o jornalismo “deixou de ser criado exclusivamente para determinados formatos, passando a incluir todos numa só plataforma, que estão acessíveis através de um clique” (Martins, 2013, p.5). Hoje a produção jornalística permite um maior número de informações armazenadas e acessíveis, algo que não era possível fazer com tanta eficácia e qualidade. Logo, existe maior espaço para o consumo de notícias num determinado órgão de comunicação social através deste meio, uma ideia sustentada, por exemplo, por Palacios (2014). Antes da Web, alguns jornais tinham arquivos de melhor qualidade (mais completos, mais bem indexados) e, portanto, melhores condições de recurso à memória na produção do texto sobre a atualidade. Nos dias de hoje, mais e mais arquivos vão sendo digitalizados, indexados, tornados públicos e abertos, tornando uniforme as condições de uso da memória, não só na produção, mas também na receção. (Palacios, 2014, p.96) 70 Fruto destas mudanças, também os leitores se foram transformando. Tal como afirmou Gradim (2003), as pessoas que utilizam estas funcionalidades, na sua maioria, são “tecnologicamente fluentes, visualmente orientadas, têm intervalos de atenção curtos, gostam de navegar (…) e apreciam interatividade nos media” (Gradim, 2003, p.11). Também é importante perceber que estamos numa época em que os leitores “estão aptos para processar simultaneamente múltiplas informações de diversas origens” (Gradim, 2003, p.11). Bastos (2000) partilhou da mesma linha de pensamento e defende que os leitores que estão inseridos neste meio digital “acabam por procurar nos serviços noticiosos da Internet as mesmas qualidades que os leitores de jornais tradicionais exigem há anos: facilidade e qualidade de informação, a par de satisfação na leitura” (Bastos, 2000, p. 53). Assim, quem visualiza os conteúdos foi desenvolvendo novas caraterísticas que devem ser tidas em conta neste processo, pois é preciso ir ao encontro das necessidades das mesmas para continuar a desenvolver a relação mútua entre as duas partes. Logo, como resultado destas alterações, existe, cada vez mais, uma relação próxima entre o jornalismo e os seus públicos, assim como a “omnipresença do feedback”, onde os interesses dos leitores são valorizados numa tentativa de melhorar o produto apresentado (Kramp & Loosen, 2018, p. 206). Consequentemente, “a aparição dos blogs, classificada como revolução por alguns autores (Orihuela, 2006), foi o sinal de partida para que este fenómeno incorpore, rapidamente, a voz dos cidadãos (…) no próprio jornalismo”, atribuindo-lhes uma importância redobrada (Salaverria, 2019, p. 6). Alguns autores afirmaram mesmo que os públicos devem assumir um papel cada vez mais central. “A transformação digital jornalística deve estar centrada na audiência, porque são os próprios usuários que produzem as disrupções digitais, potenciando, assim, modelos de negócio em diferentes plataformas” (Sánchez Gonzales & Canavilhas 2022, p. 3). Mas, para um meio de comunicação ter leitores/seguidores, é necessário criar narrativas suficientemente atrativas para captar a máxima atenção de quem está a consumir os conteúdos. Tal como referido anteriormente, sendo o zerozero um meio de comunicação digital, estas especificidades devem ser tidas em conta. Uma das caraterísticas intrínsecas ao online prende-se com a utilização de várias hiperligações no desenvolvimento de uma notícia. Esta funcionalidade 71 serve para fornecer outro tipo de informações adicionais ou relembrar o leitor de determinados assuntos ligados com o principal da peça. Existem vários estudos para tentar explicar a definição de hiperligação, um recurso utilizado com abundância neste meio e que, na opinião de Koch (2015), permite que quem visualize tenha a possibilidade de navegar “entre caminhos diversificados, de modo a permitir diferentes níveis de desenvolvimento e aprofundamento de um tema” (Koch, 2015, p.63). Já Picard (2008) reforçou que as hiperligações, de certa forma, permitem que quem consome os conteúdos controle esse processo. Deixam as pessoas controlar o seu próprio destino. Além disso, permitem que façam o seu próprio caminho dentro das funcionalidades de um meio de comunicação social. Possibilitam que escolham o que seguir, o que lhes interessa e, acima de tudo, consumir informação ao ritmo que queiram. (Picard, 2008, p. 159) Na visão de Deuze (1999), o relacionamento com outro tipo de textos faz com que naveguemos entre notícias antigas, documentos oficiais ou entrevistas transcritas na totalidade, sendo que isso assume um papel relevante, pois dá a possibilidade de fornecer outras informações (Deuze, 1999, p. 382-383). Já Steensen (2010) afirmou que este tipo de instrumento é “considerado, geralmente, como a ferramenta com mais potencial no meio online” utilizado, na maior parte dos casos, para retirar algumas vantagens relativamente ao meio tradicional do jornalismo impresso, tal como referido e explicado anteriormente (Steensen, pp.2-3). Além disso, segundo Canavilhas & Baccin (2015), num estudo intitulado de “Contextualização de reportagens hipermédia: narrativa e imersão”, este recurso apresenta um papel importante, na medida em que cria outro tipo de narrativas partindo de uma notícia. “Unindo as características do webjornalismo antes referidas na construção de narrativas contextualizadas, o jornalista tem novas formas de produzir, publicar e relacionar-se com o leitor, tendo em vista a demanda por conteúdos hipermultimediáticos” (Canavilhas & Baccin, 2015, p.13). 72 Ainda de acordo com os mesmos autores, “a hipertextualidade pode proporcionar o enriquecimento da experiência do leitor com o conteúdo por meio da construção de diferentes percursos de leitura e exploração dos recursos hipertextuais (personalização)” (Canavilhas & Baccin, 2015, p.16). Mas não é só de hiperligações que o meio online vive. O facto de se poder lançar notícias sem estarem prontas é outra das caraterísticas presentes no dia a dia de um jornalista. Ao contrário do que acontece, por exemplo, nos jornais impressos, onde a informação já não pode ser alterada depois de publicada, o digital tem essa possibilidade. Tal como defenderam Lacerda e Dias Di Raimo (2019), O jornal impresso, de um grupo jornalístico de publicação diária, tem uma edição por dia, lançada ao público logo nas primeiras horas da manhã, discorrendo sobre aquilo que ocorreu no dia anterior. Na versão digital, as notícias são atualizadas a todo o momento, de forma que o leitor não precise de esperar até o dia seguinte para saber de algo que aconteceu naquele mesmo dia, poucas horas ou mesmo minutos atrás. (Lacerda & Dias Di Raimo, 2019, p.138) Tendo em conta a velocidade a que as informações são difundidas por toda a Internet, os órgãos de comunicação social têm no digital a sua plataforma de difusão mais rápida e eficiente para partilha de conteúdo. Na visão de Brose (2010), “a informação passou a ter um valor bastante significativo. Em tempos de velocidade, urgência e ansiedade da informação, é preciso registar, reportar, ensinar, compartilhar e, principalmente, saber lidar com a informação que surge ou se modifica a cada segundo”, ou seja, é necessário adaptarmo-nos aos novos tempos onde tudo acontece depressa e em poucos segundos (Brose, 2010, citado em Oliveira, 2018, p.53). Por sua vez, Bradshaw (2014) afirmou que “a velocidade foi sempre algo intrínseco ao jornalismo – a notícia é, afinal, algo novo para alguém – e isto significa ser o primeiro a contar o fato ocorrido à audiência“ (Bradshaw, 2014, p.111). O autor foi mais longe e refere que, todos os processos de criação de uma notícia atualmente, acontecem ao mesmo tempo, comparativamente ao passado, pois já não existem as “limitações do espaço físico que sustentavam a organização das redações”, algo muito comum no jornalismo impresso e que perdurou durante vários anos dentro do meio (Bradshaw, 2014, p.116). 73 Bradshaw (2014) também estudou as alterações que este novo tipo de método acrescentou ao digital como consequência das transformações tecnológicas verificadas em todos os setores da sociedade, onde o jornalismo está incluído e assume um papel importante. “(…) A instantaneidade do chamado web publishing (publicação na Web) traz consigo novas oportunidades para os publishers (emissoras e editoras) em contextos completamente novos. Trata-se de uma instantaneidade em publicar, mas também em consumir, e, sobretudo, em distribuir” (Bradshaw, 2014, p.112). Em conclusão, podemos afirmar que o jornalismo tem sofrido inúmeras alterações que afetaram a sua existência, fazendo com que todas as pessoas envolvidas no meio se tenham de adaptar a esta nova realidade, onde a velocidade tem um papel importante. “No último quarto do século, o jornalismo experimentou a transformação mais rápida e profunda da sua história” (Salaverría, 2022, p.21). 4.3. Podcast no jornalismo O surgimento da internet veio mudar o paradigma dos profissionais de várias áreas, incluindo o ciberjornalismo, que, com o passar dos anos, foi desenvolvendo novas formas de trabalho. Uma das principais diferenças em relação ao jornalismo dito “tradicional” recai na interatividade, que está ligada à “interação humana (entre dois ou mais seres humanos) potenciada pela máquina e não apenas da reação do homem ao que outro lhe oferece, por intermédio da tecnologia” (Zamith, 2011, p. 27). Assim, os meios de comunicação começaram a fundir texto, imagem e som numa só mensagem, algo que antes não era possível. De acordo com Canelas (2011), a “internet foi, desde muito cedo, encarada pelos órgãos de informação, principalmente pelos media impressos – os jornais eletrónicos, como uma nova plataforma de disseminação dos seus conteúdos jornalísticos”, algo que foi crescendo com o passar dos anos, devido aos resultados positivos que este meio trouxe, proporcionando inúmeras vantagens que ajudam a perceber a sua importância e relevância (Canelas, 2011, p. 131). Apesar de, numa fase inicial, o ciberjornalismo português ter demorado a conseguir conquistar o seu espaço, aos poucos, conseguiu adaptar-se aos novos tempos, ainda que com algumas dificuldades associadas, que tornaram o crescimento mais lento que o esperado (Bastos, 2006, p.104). Tal como referiu Bastos (2006), imperava o desconhecimento no que concerne ao aparecimento de algo diferente, mas predominava a certeza de que era o futuro de várias esferas 74 da sociedade, onde o jornalismo estava incluído. “Ninguém parecia saber ao certo qual o rumo certo a seguir, mas todos pareciam ter a certeza inabalável de que o comboio da revolução digital do jornalismo tinha chegado e não podia, de forma alguma, ser perdido” (Bastos, 2006, p.104). Tendo como ponto de partida as contrariedades que foram encontrando no caminho, os órgãos de comunicação social em Portugal decidiram apostar em novas ideias relacionadas com as potencialidades e funcionalidades que a tecnologia trouxe. O Correio da Manhã , em 2002, passou por algumas mudanças: Repositório da edição em papel no início do ano para uma interpretação das especificidades do meio digital, com a introdução de alguns recursos facilitadores de uma maior interatividade entre o jornal e os seus leitores, no final do mesmo ano. Passou, assim, a permitir aos seus utilizadores comentar as notícias publicadas ou enviá-las por correio eletrónico a outros utilizadores. (Bastos, 2009, p.2524) Seguiu-se o Expresso e, dois anos depois, a TSF, que tinha como objetivo transformar de forma gratuita os conteúdos noticiosos em formato podcast , “algo que concretizaria três meses depois, altura em que alguns programas da estação passaram a estar disponíveis em formato mp3” (Bastos, 2009, p.2524). Tendo a TSF como modelo, a generalidade da comunicação social portuguesa começou a produzir conteúdos nesse registo, algo que, até então, ninguém tinha feito. A disponibilização de notícias através de áudio agradava os leitores, que foram aderindo em massa e a consumir cada vez mais (Bastos, 2009, p.2524). Mas afinal o que é um podcast ? Em 2005, os editores do New Oxford American Dictionary escolheram “ podcast ” como a palavra do ano. Foi definido como “uma gravação digital de uma transmissão ou de um programa semelhante, que está disponível na internet para ser descarregado para um leitor de áudio pessoal” (Skiba, 2006, citado em Kuchta, 2022, p.3465). Segundo a mesma autora, esse termo só era utilizado por jovens que “queriam um iPod como presente”, mas, com o passar do tempo, foi sendo cada vez mais comum na “comunidade global” que dava os primeiros passos na sua relação com a tecnologia (Skiba, 2006, citado em Kuchta, 2022, p. 3465). Na perspetiva de Primo, (2005) trata-se de “um processo midiático que emerge a partir da publicação de arquivos áudio na Internet. Em virtude da mínima estrutura tecnológica exigida, a produção e a distribuição podem ser realizadas de maneira simplificada por uma única pessoa” (Primo, 2005, p.64). 75 Já no entendimento de Barros & Menta (2007), são “programas de rádio personalizados e gravados em extensões nas extensões mp3 ogg ou mp4 (…) que permitem que se assine os programas recebendo as informações sem precisar ir ao site do produtor” (Barros & Menta, 2007, pp. 2-3). Também Berry (2006) tem uma visão diferente sobre o conceito. Podcasting não é apenas um meio convergente (onde se reúne áudio, a web e dispositivos de médias portáveis), mas é, também, uma tecnologia disruptiva e que já forçou algumas pessoas no negócio da rádio a reconsiderar algumas práticas e preconceitos sobre audiências, consumo, produção e distribuição. (Berry, 2006, p.144) Intrinsecamente ligado à rádio, o podcast diferencia-se desse meio, pois não tem uma relação direta entre os emissores e os ouvintes, dado que quem consome este tipo de conteúdos tem autonomia para ouvir o que quiser a qualquer altura. Aqui, as narrativas que são operadas têm um papel fundamental. Partilham socialmente os sentidos; porque desencadeiam um processo cognitivo que convida o recetor a imergir no universo diegético; porque envolvem processos emocionais. Por outras palavras, a narrativa é um modelo de comunicação mais eficaz porque mais persuasivo, o que decorre do seu estatuto privilegiado na cognição humana. (Santos & Peixinho, 2019, p. 150) Herschamann e Kischinhevsky (2009) suportam a ideia de que a ausência de uma determinada estrutura ajuda a cativar o público e a fugir ao tradicional do meio sonoro que é a rádio. “Não há padrões de locução ou restrições em termos de linguagem e temas abordados. A principal hierarquização dá-se por meio dos diretórios, que, muitas vezes, classificam as emissoras a partir de rótulos preexistentes, com ancoragem nas rádios convencionais” (Herschamann & Kischinhevsky, 2009, p.103). Partindo de um estudo feito por Cardoso, Paisana e Martinho (2020) intitulado Digital News Report 2020 – Portugal , o podcast também se distancia da rádio no sentido em que, cada vez mais, as empresas apostam neste tipo de formato para “monetização de conteúdos, exploração de novas narrativas e de novas formas de relacionamento com os públicos” numa tentativa de conseguir diversificar os formatos que apresentam ao seu público (Cardoso, Paisana & Martinho, 2020, p.49). 76 Ainda que o termo esteja muito associado a um registo informal, a expressão começa, aos poucos, a ser utilizada em contextos ligados ao mundo jornalístico, sobretudo nos últimos anos. Foram as rádios as primeiras a disponibilizar podcast dos seus programas emitidos por via hertziana, os jornais seguiram-lhes os passos. É uma forma de ampliarem as suas matérias e os jornais convertem-se em geradores de conteúdos áudio porque é barato e simples, é um novo campo em expansão e uma nova forma de explorar marcas históricas com grande credibilidade. (Reis, 2018, p.211) Com durações compreendidas entre os três e os 25 minutos, o podcast é produzido pelos grandes meios de comunicação para fornecer mais uma alternativa através da qual as pessoas podem estar informadas diariamente, como é o caso do Daily News , criado pelo jornal The Guardian , em 2006 (Pérez & Gárate, 2019, p. 320). Para além disso, é uma oportunidade para as marcas ganharem o seu espaço no mercado com a diversificação de técnicas que utilizam que contribui para a retenção de novo público que fica cada vez mais interessado em produzir conteúdos de curta duração (Portela, 2011). No ponto de vista de Portela (2011), estas estratégias colocadas em prática ajudam a que se desenvolvam tipos de ouvintes particulares, devido aos interesses comuns que partilham entre si, uma vez que escolhem o que ouvir consoante as suas preferências pessoais. “O podcast torna possível a cada um seguir o impulso individual e produzir o seu próprio espaço radiofónico, que assim se apresenta fragmentado nas suas audiências e endereça uma abrangente amplitude de interesses, criando nichos de públicos bastante específicos” (Portela, 2011, p. 17). Walter Benjamin (1968/2007), na sua obra intitulada Illuminations: Essays and reflections , apontou que o storytelling estava a caminhar a passos largos para o seu fim, pois é cada vez mais difícil encontrarmos pessoas com capacidade para contar uma boa história, sendo que existem inúmeros constrangimentos para conseguir um produto final com qualidade. “Tiraram-nos a capacidade de troca de experiências” (Benjamin, 1968/2007, p.83). No entanto, muitos investigadores acreditam que, nos últimos anos, os podcasts vieram colocar um travão nesta narrativa, pois, é aqui que se contam histórias que não tinham o devido reconhecimento e espaço noutras plataformas que são utilizadas habitualmente para o efeito. Segundo Santos & Peixinho (2021) “o podcast estabeleceu-se como o espaço privilegiado para um pleno renascimento da história. (…) Este recurso à narrativa centrada na personagem é uma 83 No que toca à TSF , no “Visão de Jogo” juntam-se João Ricardo Pateiro, Vítor Santos e Luís Freitas Lobo para escrutinar o futebol português, nomeadamente os três grandes e a Seleção Nacional de Futebol, acabando por ser o único podcast ativo por parte deste meio radiofónico, que já contou com outros conteúdos, mas que não tiveram continuidade com o passar do tempo. A Rádio Renascença oferece a “Tertúlia Bola Branca”, que conta com a participação de Rui Miguel Tovar, Luís Aresta, Daniel Leitão e Filipa Galvão para se debruçarem sobre a atualidade desportiva de várias modalidades. Por outro lado, “Jogos Sem Fronteiras”, conduzido por Olivier Bonamici, tem várias histórias do mundo do desporto, assim como algumas curiosidades ou factos históricos associados a diversas equipas ou jogadores. Já a Rádio Observador, com Júlio Magalhães, Bruno Vieira Amaral, Gabriel Alves, Pedro Henriques, João Pinto, Bruno Roseiro, Filomena Martins e Miguel Cordeiro no “E o Campeão é…”, discutem a atualidade nacional e internacional do futebol.uma Passemos à televisão, nomeadamente para a Sport TV, que criou “Grelha de Partida”, onde comentam as últimas notícias relativas a desportos motorizados. Também “MotoGP na Sport TV” aborda um desporto motorizado, mas desta vez o Moto GP, onde Miguel Oliveira está inserido (o único português). Em “F1 na Sport TV”, por outro lado e, tal como nome indica, o enfoque passa pela Fórmula 1. Não obstante, também existe espaço para o basquetebol norte-americano no “NBA na Sport TV”, com a presença de Ricardo Brito Reis, Miguel Minhava, Luís Avelã, Pedro Oliveira e Diogo Carreira, que comentam vários assuntos relacionados com a principal liga de basquetebol do mundo. Por último, no “Futebol é Momento”, Claúdia Lopes, Nuno Gomes, Pedro Barbosa e Pedro Ribeiro debatem a atualidade do futebol nacional e internacional. No que toca à Eleven Sports , a mesma conta com um podcast – “Eleven” – onde tratam de várias temáticas tais como a Champions League, La Liga, Ligue 1, Premier League, Jupiler Pro League, NFL, NASCAR, Formula E ou WTA. Da televisão para a imprensa. A Tribuna Expresso criou o “A culpa é do árbitro”, com a colaboração de Duarte Gomes, antigo árbitro português, que comenta os principais casos de arbitragem da jornada, assim como algumas notícias relacionadas com o mundo do futebol. 84 Por sua vez, o Record tem o “Mercado Record”, um segmento onde junta as últimas notícias relativas ao mercado de transferências de verão e de inverno, sobretudo do Benfica, FC Porto e Sporting. 4.5.1. Podcasts no zerozero No caso do zerozero, existem vários podcasts relacionados com diversas temáticas dentro do mundo do desporto. “Mercado Flash” conta com a colaboração dos jornalistas Igor Gonçalves, Humberto Ferreira ou Hugo Filipe Martins para agrupar as principais notícias do dia relacionadas com o mercado de transferências de verão e inverno em episódios que não ultrapassam os 20 minutos de duração. “Destino: Saudade”, por sua vez, junta Pedro Jorge da Cunha e Rui Miguel Tovar, para recordarem equipas, jogadores, campeonatos ou competições que ficaram na memória dos adeptos de futebol, fazendo uma ponte para assuntos da atualidade. “Ataque Rápido”, por outro lado, tem a participação de Ricardo Lestre e Luís Rocha Rodrigues, cujo objetivo passa por analisar a temporada que está a decorrer e os campeonatos internacionais. Além disso, os jornalistas discutem opções táticas de treinadores, assim como jogadores a ter debaixo de olho. Já o “Negócio Fechado”, com Luís Rocha Rodrigues e Vasco Sousa, é um projeto novo, uma vez que foi lançado pela primeira vez em março de 2023. O conceito passa por relembrar transferências de jogadores de renome que passaram despercebidas na altura em que aconteceram. Não obstante, o “Primeiro as Senhoras” fala sobre o futebol feminino em Portugal, assim como a Seleção Nacional Feminina. Para tal, juntam-se Rita David, Duarte Monteiro ou Pedro Dias, assim como alguns convidados, para debaterem a temática. “Tem Mister na Área” junta jornalistas brasileiros e portugueses do O Gol e do zerozero , respetivamente, com o propósito de fazerem um levantamento dos vários treinadores portugueses que estão no Brasileirão, o campeonato brasileiro de futebol. 85 Por último dentro do capítulo do futebol, “Mundo Fantasy” debruça-se sobre fantasys de futebol, sobretudo da Liga Portugal Bwin e da Liga dos Campeões, cujo objetivo passa por montar uma equipa com vários jogadores e fazer mais pontos que o seu adversário. Nas restantes modalidades, o “5 para 4” recai sobre o futsal nacional e internacional, muitas vezes com recurso a convidados que estejam familiarizados com os tópicos que estão a ser tratados. O “Afunda de 3”, em contrapartida, aborda o basquetebol nacional e internacional – com especial enfoque para a NBA, campeonato norte-americano – com Francisco Paulo Carvalho, Igor Gonçalves e Vasco Moreira, jornalistas do zerozero. Por último, “Está Tudo Hóquei”, conduzido por Humberto Ferreira, incide sobre o hóquei em patins convidando, todos os episódios, um protagonista da modalidade para dar o seu ponto de vista sobre o seu trajeto ou temporada. 86 5. Podcasts no zerozero : caminhos metodológicos 5.1. Questão de investigação A criação de podcasts tornou-se uma prática recorrente dentro dos órgãos de comunicação portugueses, visto que, por exemplo, “passou a ser possível o consumo em diferido e em dispositivos pessoais e móveis, como os reprodutores mp3 e, mais recentemente, os smartphones ” (Canavilhas, 2020, p.277). É com naturalidade, portanto, que este tipo de trabalho, nos últimos anos, tenha ganho uma importância crescente numa comunicação social cada vez mais direcionada para o meio digital. O zerozero não é exceção e tem acompanhado essa tendência com a publicação de vários podcasts sobre as mais diversas modalidades em Portugal. Futsal, basquetebol, futebol ou hóquei em patins têm o seu espaço semanal através do registo sonoro dos seus colaboradores que conversam sobre variados temas relacionados com a atualidade das modalidades desportivas. Ainda que existam várias plataformas para a publicação deste tipo de conteúdo, uma das apostas deste órgão de comunicação recai no Spotify que, em 2020, aumentou cerca de 200% no que toca à sua audiência, comparativamente com o ano anterior (Spotify, 2020, citado em Santos, 2022, p.47). Assim, a presente investigação pretende analisar a influência que que os podcasts publicados no Spotify têm no zerozero , de forma a conseguir perceber a recetividade dos seus ouvintes no que toca aos vários temas apresentados nesta plataforma que, tal como vimos anteriormente, tem um peso significativo quando falamos na publicação de conteúdos áudio. Não obstante, mais recentemente, também verificamos a incorporação do vídeo nos podcasts , algo inovador que ajuda a trazer outro tipo de sensações para quem está a consumir o produto. Tendo como ponto de partida estes pontos, a questão da nossa pesquisa é a seguinte: “Que espaços ocupam os podcasts publicados no Spotify no zerozero ?” 87 5.2. Objetivos e hipóteses Além disso, foram definidos vários objetivos para conseguir criar uma linha orientadora no que toca ao estudo que iremos desenvolver: - Identificar os podcasts com mais visualizações; - Analisar o tema predominante entre os vários podcasts que o zerozero publica semanalmente; - Estudar de que forma os podcasts são construídos; - Apurar qual a duração média dos podcasts publicados; - Verificar a duração média dos ouvintes que consomem este tipo de conteúdo no Spotify ; - Compreender a influência dos podcasts publicados nas redes sociais – Facebook e Twitter ; - Estudar a audiência deste tipo de conteúdos. Para além destes objetivos, foram estabelecidas três hipóteses que assumem um papel importante no desenrolar deste estudo. 1 – Os podcasts sobre futebol são o conteúdo com maior número de visualizações no Spotify; 2 – Em termos de ouvintes, Portugal é o país com maior peso em todos os podcasts , independentemente da modalidade que está a ser tratada; 3 – A maioria dos podcasts opta por não modificar os membros que realizam os conteúdos e que dão voz ao tema. Logo, este trabalho, que visa explorar o crescimento recente dos podcasts num órgão de comunicação desportivo, assume especial importância uma vez que existem poucos estudos sobre a temática no contexto desportivo. O zerozero , estando direcionado para o meio online , explorou, desde cedo, as potencialidades que esta ferramenta traz e tem conseguido marcar a diferença com o tratamento de diversos assuntos. 88 5.3. Desenho metodológico A recolha dos dados analisados foi feita durante todo o mês de março de 2023 – de 6 a 31 de março – para conseguir observar o impacto que os podcasts têm junto do seu público, pois alguns assuntos relacionam-se com a atualidade e devem ser ouvidos no imediato. Assim, a primeira amostra foi recolhida a dia 6 de março (segunda-feira) e a última no dia 31 de março (sexta-feira). No total, foram analisados 38 podcasts publicados no Spotify no zerozero durante o mês de março. Apesar de este órgão de comunicação ter um domínio brasileiro onde são explorados temas relacionados com o futebol do país, para esta análise só foram tidos em conta os conteúdos publicados na página portuguesa do zerozero. Destes 38 podcasts , foram analisadas as seguintes variáveis: - os intervalos de visualizações, - os temas, - as estruturas, - a duração, - o estilo, - as interações nas redes sociais, - a audiência de quem consome o conteúdo. Para tal, estes pontos foram organizados numa grelha de análise que, segundo Mertens (1998), corresponde a “um conjunto inter-relacionado de conceitos, definições e proposições que apresentam uma visão sistemática do fenómeno em estudo, especificando as relações entre as variáveis” (Mertens, 1998, p.2). Posteriormente, estes dados serão analisados de uma forma quantitativa, ou seja, seguiremos uma metodologia mista. Segundo Coutinho (2014), esta metodologia trata-se de uma “complementaridade metodológica na implementação da investigação no campo empírico”, isto é, a conjugação de diferentes técnicas para a concretização de um estudo. (Coutinho, 2014, p.335) 89 Conceito Dimensões Componentes Indicadores Importância dos podcasts publicados no Spotify no zerozero Tempo Data De 06.03.2023 a 31.03.2023 Intervalo de visualizações 0 – 250 visualizações; 250 – 500 visualizações; 500 – 750 visualizações; 750 – 1000 visualizações Duração do podcast 0 – 20 minutos; 20 – 40 minutos; 40 – 60 minutos; 60 – 80 minutos Duração média dos ouvintes 0 – 20 minutos; 20 – 40 minutos; 40 – 60 minutos; 60 – 80 minutos Forma Tema Futebol; Modalidades; Outro Estrutura Entrevistas; Rubricas; Convidados; Membros Permanentes; Áudio; Vídeo; Áudio e vídeo Audiência Interação nas redes sociais Facebook; Twitter País de audiência Portugal; Outro Tabela 1 - Variáveis de análise 90 Os componentes utilizados e aplicados na dimensão temporal da grelha de análise incidem sobre a “data”, “intervalo de visualizações”, “duração do podcast ” e “duração média dos ouvintes”. A “data” recai no dia em que o podcast foi publicado no Spotify sendo que, tal como explicado anteriormente, o período compreendido é de 6 de março a 31 de março de 2023. O “intervalo de visualizações” incide sobre o número de pessoas que ouviram o episódio do podcast no Spotify . Para tal, foram escolhidos os seguintes intervalos “0 – 250 visualizações”, “250 – 500 visualizações”, “500 – 750 visualizações” e “750 – 1000 visualizações”. Já na “duração do podcast ”, foi tida em conta a extensão de tempo do conteúdo em minutos, cujos indicadores são “0 – 20 minutos”, “20 – 40 minutos”, “40 – 60 minutos” e “60 – 80 minutos”. Por último, a “duração média dos ouvintes” representa os minutos que os ouvintes despenderam para um episódio do podcast . Assim, os indicadores são os mesmos que o ponto anterior, ou seja, “0 – 20 minutos”, “20 – 40 minutos”, “40 – 60 minutos” e “60 – 80 minutos”. No que toca aos componentes da dimensão espacial, foram tidos em conta o “tema”, “estrutura” e “estilo”. O “tema” incide sobre o conteúdo que foi tratado no episódio de um podcast. Deste modo, os indicadores são “futebol”, “modalidades” ou “outro”. No que toca à “estrutura”, a análise pretende desconstruir a maneira como os podcasts foram construídos tendo em conta as “entrevistas”, “rubricas”, “convidados”, “membros permanentes”, “áudio”, “vídeo” e “áudio e vídeo”. Não obstante, a dimensão no que toca à audiência foi separada em dois tópicos relacionados com a “interação nas redes sociais” e “país de audiência”. Para o primeiro ponto supracitado, foram tidos em conta os gostos nas únicas duas redes sociais em que o zerozero publica os seus podcasts, ou seja, no “Facebook” e no “Twitter”. O segundo posto analisado, por sua vez, recai no país em que os ouvintes estão a visualizar o conteúdo no Spotify, sendo que foram divididos em “Portugal” ou “Outro”. 91 6. Análise dos dados recolhidos Durante o mês de março, foram recolhidos dados estatísticos de 36 episódios de podcasts publicados no zerozero sobre variados temas relacionados com a atualidade desportiva em que este órgão de comunicação social se foca. De uma forma geral, conseguimos perceber que, na sua maioria, este tipo de conteúdo contou com uma publicação regular em cada uma destas semanas, excetuando o “Primeiro as Senhoras”, “Mundo Fantasy” e “Está tudo Hóquei”, que não foram gravados nas semanas de 13 a 17 de março e 20 a 24 de março, respetivamente. É importante realçar ainda que, durante este período, apenas foi criado um podcast – que se estreou a 8 de março com a designação de “Negócio Fechado” -, sendo que os restantes já contavam com vários episódios feitos. Gráfico 1 – Total de publicações durante o mês de março Tal como conseguimos observar no gráfico 1, “Afunda de 3” foi o podcast que contou com mais episódios no mês de março, mas, contrariamente ao resto, foi publicado duas vezes por semana, o único neste registo. Todos os outros, excetuando os três casos apontados anteriormente, têm um episódio por semana, ou seja, quatro, mantendo o registo para os seus ouvintes sem qualquer tipo de falha no que toca à publicação dos conteúdos. 0 1 2 3 4 5 6 7 8 5 para 4 Afunda de 3 Ataque Rapido Destino: Saudade Está tudo Hóquei Mundo Fantasy Negócio Fechado Primeiro as Senhoras Total de publicações 92 6.1. Visualizações Gráfico 2 - Intervalo de visualizações dos podcasts publicados no Spotify durante o mês de março no zerozero Ainda assim, apesar de ser publicado duas vezes por semana, “Afunda de 3” não foi o podcast mais ouvido durante o mês de março no Spotify, dando esse lugar ao “Ataque Rápido”, que liderou durante este período de forma clara. Ao apostar na sua divulgação através de uma conta na rede social Twitte r, os números do podcast têm crescido nos últimos meses e o mês de março confirmou essa tendência, que se tem vindo a verificar recentemente. Para tal, a constante oferta de bilhetes para jogos da Liga Portugal Bwin durante os episódios ajuda a cativar o público, assim como alguns passatempos que os anfitriões fazem para interagir com os seus ouvintes diariamente por intermédio das redes sociais. Por outro lado, “Está tudo Hóquei” e “Primeiro as Senhoras”, que falam sobre hóquei em patins e futebol feminino, respetivamente, foram os conteúdos que menor adesão tiveram no Spotify. No que diz respeito ao “Negócio Fechado”, o mesmo não se conseguiu destacar dos demais no que a ouvintes diz respeito, uma vez que ocupa os últimos lugares quando analisamos estes números. 0 250 500 750 1000 6 a 10 de março 13 a 17 de março 20 de 24 de março 27 a 31 de março Visualizações 5 para 4 Afunda de 3 Ataque Rápido Destino: Saudade Está Tudo Hóquei Mundo Fantasy Negócio Fechado Primeiro as Senhoras Tem Mister na Área 99 “Tem Mister na Área”, esse, que conta com uma colaboração entre jornalistas do zerozero e oGol , sendo que o tema principal recai sobre o campeonato brasileiro ou assuntos ligados com atletas/treinadores portugueses no Brasil. Ou seja, o foco acaba por não estar relacionado com o contexto português, incidindo sobre um nicho específico dentro do público que consome o conteúdo. Não obstante, “Afunda de 3”, que foi o segundo podcast mais ouvido em março, voltou a estar no pódio, desta vez no terceiro lugar, ainda que, ao contrário do “Ataque Rápido”, não tenha uma página específica para a divulgação dos episódios. 6.8. Interação nas redes sociais – Twitter Gráfico 9 - Número de likes no Twitter dos episódios publicados no Spotify no zerozero No que toca às interações no Twitter, onde o zerozero conta com mais de 50 mil seguidores, comparativamente aos 251 mil na rede social anterior, vemos que os números são bastante mais baixos, uma vez que o “Ataque Rápido” foi o podcast com mais interações nestas quatro semanas, ou seja, 45. Tal como já explicado, esse conteúdo conta com uma página própria para difundir os episódios, que ajuda a que as interações sejam maiores. Na mesma linha de pensamento, observamos que 0 21 45 14 02 15 26 1 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 5 para 4 Afunda de 3 Ataque Rápido Destino: Saudade Está tudo Hóquei Mundo Fantasy Negócio Fechado Primeiro as Senhoras Tem Mister na Área 'Likes' no Twitter 100 o “Afunda de 3” e “Primeiro as Senhoras”, também podcasts com um tratamento individual, foram aqueles que mais likes tiveram em março. Seguido desses aparece o “Negócio Fechado” que, apesar de contar com pouco mais de 100 seguidores, conseguiu ter 15 interações no seu mês de estreia no que toca à publicação e divulgação de conteúdo. Também notamos que existem dois podcasts sem qualquer tipo de resultado – “5 para 4” e “Está tudo Hóquei” -, pois os mesmos não são propagados na conta principal do zerozero, optando por fazê-lo na página dedicada à modalidade mencionada, futsal e hóquei em patins, respetivamente. 6.9. País de audiência Gráfico 10 - País de audiência dos episódios publicados no Spotify no mês de março no zerozero Por último, o país de audiência refere-se à localização dos ouvintes durante o período compreendido. Tal como podemos constatar no gráfico 10, a esmagadora maioria prende-se com Portugal, existindo uma pequena parte para outros países que estão relacionados com a categoria “outro”. Em nenhum dos episódios analisados ouvintes provenientes do estrangeiro se sobrepuseram aos portugueses, uma vez que a maior parte do público-alvo do zerozero reside em território nacional e fala a língua portuguesa. 620 1134 2051 907 92 469 310 58 523 19 47 189 90 929 12 824 0 500 1000 1500 2000 2500 5 para 4 Afunda de 3 Ataque Rápido Destino: Saudade Está tudo Hóquei Mundo Fantasy Negócio Fechado Primeiro as Senhoras Tem Mister na Área País de audiência Portugal Outro 101 O resto prende-se com pessoas que viviam em Portugal, mas que se mudaram para um novo país, sem nunca deixar de acompanhar a atualidade desportiva, dado que consomem estes conteúdos de forma diária. Angola, Inglaterra, Noruega, França, Suíça e Luxemburgo são os principais pontos que fazem com que os podcasts sejam ouvidos nos quatro cantos do mundo. Ao contrário, por exemplo, da rádio, onde os conteúdos são imediatos, estes episódios ficam guardados e podem ser ouvidos em qualquer horas e em qualquer lugar. 6.10. Discussão crítica dos resultados Depois de todos os dados recolhidos no período compreendido terem sido analisados de uma forma quantitativa, conseguimos retirar algumas conclusões no que toca às hipóteses pensadas previamente. Vamos por partes. De pronto, percebemos que os podcasts alusivos ao futebol são o conteúdo áudio que mais espaço ocupa no zerozero , sendo que, além disso, são os que contam com mais visualizações por parte do público, muito impulsionado pelo crescimento do “Ataque Rápido”, que dominou a audiência em todas as semanas de março pelos motivos já enumerados no ponto 1 deste trabalho. Assim, confirmamos a primeira hipótese, que incide sobre o facto de o futebol ocupar a maior parte do espaço deste órgão de comunicação, aliado à dimensão atribuída por parte do público e do zerozero. Modalidade Visualizações em março Basquetebol 1916 Futebol 5811 Futsal 806 Hóquei em Patins 131 Tabela 2 – Total de visualizações de todos os podcasts, divididos por modalidades Na tabela 2, verificamos que os podcasts de futebol, onde se inclui “Ataque Rápido”, “Destino:Saudade”, “Negócio Fechado”, “Primeiro as Senhoras” e “Tem Mister na Área” 102 estiveram perto das 6000 visualizações durante o mês de março, enquanto as restantes três modalidades juntas não chegaram às 3000. Ainda que a diferença seja mínima no que toca ao número de episódios publicados – cinco –, constatamos que a audiência do zerozero tem muito mais interesse em determinados assuntos relacionados com o “desporto-rei” em Portugal, pois a oferta ajuda nesse sentido, uma vez que os anfitriões debatem sobre temáticas variadas como é o caso, por exemplo, do futebol feminino, brasileiro ou europeu, sempre ao encontro daquela que é a atualidade desportiva. Esta tendência, que perdura há vários anos, é transversal a toda a comunicação social desportiva, dado que esta vertente, em Portugal, traz mais ganhos a vários setores da sociedade, pois os média ficam “à espera de um retorno económico que os faça crescer no mercado” para desenvolver, então, uma relação de entreajuda entre as duas partes envolvidas (Latas, 2017, p.64). A comunidade que este projeto jornalística envolve, constituída essencialmente por pessoas que vivem em Portugal, tem uma função importante, pois faz com que o zerozero continue a evoluir diariamente com as visualizações, comentários e feedback por parte do seu público. Os podcasts acompanham esse crescimento e, independentemente da modalidade, as pessoas que residem em Portugal são aquelas que mais consomem o respetivo conteúdo, uma vez que têm facilidade com a linguagem e estão por dentro da maior parte dos assuntos que são tratados por parte dos anfitriões. Logo, este estudo comprova a segunda hipótese colocada anteriormente, cujo objetivo passava por perceber se Portugal era o país com maior peso em termos de ouvintes em todos os podcasts de diferentes desportos e abordagens. Ainda que, por exemplo, alguns podcasts abordam assuntos que se relacionam com competições europeias ou americanas (no caso da NBA), os episódios acabam por não chegar às pessoas desses países, pois tal só acontece quando alguém que fala português se desloca para fora do país e não deixa de acompanhar a atualidade. Não obstante, é importante realçar que o facto de “Tem Mister na Área” ser constituído por jornalistas afetos ao oGol ajuda a atrair público proveniente do Brasil, uma vez que as informações se relacionam com esse país e também são divulgadas no domínio brasileiro. Logo, como o público 103 que visita o oGol e o zerozero é diferente, existem sempre novas pessoas que acabam por descobrir novos conteúdos. A criação e consumo de podcasts em Portugal, tal como já visto anteriormente, é algo que está em crescimento constante. De acordo com o estudo feito pela OberCom, em 2021, a categoria “desporto” foi a quarta mais ouvida pelos portugueses, atrás de “lifestyle” (gastronomia, lazer ou arte), “temas especializados” (ciência e tecnologia ou negócios e finanças) e “política ou temas internacionais” (Obercom, 2022, p.23). A facilidade em ouvir quando quisermos, na altura que quisermos e às horas que quisermos ajuda a que este fenómeno esteja já enraizado na sociedade portuguesa, sendo utilizado em vários setores da mesma. A pandemia veio acelerar esse processo pois, durante este último período, deu-se a criação de vários podcasts para conseguir combater os entraves físicos que a pandemia trouxe. Aliado a tudo isto, o facto de existir uma estrutura permanente no que toca aos membros que produzem a informação cativa o seu público e é algo em que o zerozero também aposta para conseguir ser o mais coerente possível. Como é possível constatar em todos os 36 episódios analisados, este órgão de comunicação opta por não modificar os anfitriões, existindo uma equipa de vários elementos designada para a criação do conteúdo, que dá voz às discussões, entrevistas ou rubricas que são implementadas nos seus podcasts para trazer outro tipo de perspetivas sobre alguns assuntos com os quais estão familiarizados. Assim, a hipótese número três é comprovada na totalidade, pois nenhum conteúdo altera os seus intervenientes e consegue reproduzir a mesma linha de organização. Em suma, percebemos que os podcasts assumem, cada vez mais, um papel importante na comunicação social desportiva portuguesa, uma vez que, nos últimos anos, têm permitido que os conteúdos sejam divulgados de uma forma diferente para ir ao encontro das inovações tecnológicas. Estando direcionado para o online , o zerozero assume uma aposta forte nesta vertente, como forma de tentar marcar a diferença ao discutir variados assuntos de distintas modalidades que fazem parte da atenção deste órgão de comunicação. 104 7. Considerações finais Este estudo é o ponto final numa aventura que começou quando eu era pequeno por influência do meu pai, que sempre me levou aos principais recintos desportivos para ver de perto aqueles que eu observava através da televisão. Passava horas a seguir programas de desporto, sobretudo futebol, mas, desde cedo, percebi que não ia ter a capacidade necessária para conseguir ser um atleta profissional que me permitisse fazer disso profissão. Assim, decidi ingressar num curso que me habilitasse a fazer algo relacionado com a modalidade e que me abrisse a possibilidade de estar a par de tudo o que envolve o futebol. O Jornalismo, portanto, foi a maneira mais criativa que encontrei para estar conectado ao meio e chegar ao patamar que idealizava. O zerozero “abriu-me a porta” e “deu-me a mão” para me aventurar nos primeiros passos dentro do jornalismo desportivo. Tentando manter sempre um grande espírito de responsabilidade, encarei estes três meses com o maior entusiasmo possível e fui desenvolvendo um gosto ainda maior por tópicos pelos quais já tinha grande atração. Fruto do contacto com outras modalidades, fui capaz de alargar o meu horizonte e aprender especificidades sobre outros desportos que não acompanhava com tanta regularidade no meu quotidiano. Apesar de o futebol ser o principal foco de atenção, aprendi que existem inúmeros motivos de interesse fora do “desporto-rei” que merecem ser tratados de igual modo, algo que o zerozero tenta fazer com regularidade em diferentes parâmetros. Quando somos consumidores do jornalismo, só observamos o produto final de uma notícia, reportagem, podcast ou entrevista e não pensamos no processo necessário para chegar até lá: o trabalho de pesquisa, as perguntas, a escolha dos entrevistados ou a montagem de várias imagens/sons para ter aquilo que idealizamos na nossa peça. Assim, observar de perto a rotina diária de uma redação enriqueceu o meu percurso enquanto estudante de jornalismo, pois comecei a adquirir hábitos que irão ser bastante importantes para o meu futuro. Depois de aprofundar conceitos durante o Mestrado em Ciências da Comunicação - Informação e Jornalismo na Universidade do Minho, é importante ter a oportunidade de aplicar os mesmos num ambiente profissional com um ritmo de trabalho constante. Essa possibilidade pode abrir inúmeras portas para os estudantes que estão a dar os primeiros passos nesta profissão. É importante realçar ainda que estes meses assumem-se como a parte mais importante no trajeto académico, pois vão ser a porta de entrada para jovens jornalistas que queiram ingressar no meio. 105 Graças a isso, comecei a acompanhar alguns tipos de conteúdo fora do registo tradicional dentro do jornalismo: os podcasts , o tema principal deste relatório. Depois de verificar a diversidade de temas que são apresentados, assim como o trabalho que é desenvolvido pela redação, comecei a querer saber mais sobre o assunto, sobretudo a parte histórica que aborda o trajeto que os podcasts precisaram de trilhar para assumirem um papel relevante em alguns órgãos de comunicação a fim de darem espaço a diferentes temas. Quando cheguei ao zerozero , não estava familiarizado com o crescimento do podcast em Portugal e fui aprendendo mais sobre aquilo que muitos consideram um género emergente do jornalismo. Para comprovar esta ideia, verifiquei que, no segundo mês de estágio, foi produzido mais um podcast relacionado com a atualidade desportiva. O meio online continua a ter um potencial que ainda não foi explorado na sua totalidade mas, com a evolução do tempo, tem dado passos coerentes para uma abrangência cada vez maior. Deste modo, é importante sublinhar que este trabalho foi um marco relevante no meu trajeto académico e que contribuiu para um aprofundamento do conhecimento sobre jornalismo desportivo. Hoje, sinto-me mais preparado para ser jornalista, sinto-me mais preparado para desenvolver conteúdos a partir de géneros emergentes, os que existem e os que o tempo fará surgir. É também deste tipo de aprendizagens que se faz o Ensino Superior: preparar os estudantes para aprender. Ao longo de um trajeto que inicio agora, cheio de expectativas, motivação e vontade de saber e fazer cada vez melhor. Apito final. 106 Referências Bibliográficas Aamidor, A. (Ed.) et al. (2003). Real sports reporting . Indiana: Indiana University Press. Andrade, M. V. G. F. (2021). Euro 2004: do medo à festa de um acontecimento vista através do discurso jornalístico. Dissertação de Mestrado, Universidade Autónoma de Lisboa, Lisboa, Portugal. Retirado de http://hdl.handle.net/11144/5589 Andújar, C. S. (2013). 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