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Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Diogo José Loureiro da Silva Os impactos sociais do voluntariado – estudo de caso da Sopro setembro de 2023 UMinho|2023 Diogo José Loureiro da Silva Os impactos sociais do voluntariado – estudo de caso da Sopro
Universidade do Minho Escola de Economia e Gestão Diogo José Loureiro da Silva Os impactos sociais do voluntariado – estudo de caso da Sopro Dissertação de Mestrado Mestrado em Economia Social Trabalho efetuado sob a orientação do Professor Doutor Paulo Jorge Reis Mourão setembro de 2023
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND h tt p s :/ / crea t ive c o mm on s .or g / lic en ses / by - nc - n d/ 4.0/
iii DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducentes à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
iv Os impactos sociais do voluntariado – estudo de caso da Sopro Resumo O voluntariado é uma atividade que remonta já às primeiras civilizações, tendo ao longo do tempo, assumido maior importância no papel desenvolvido, uma vez que, este contribui fortemente para a coesão económica e social de qualquer comunidade. Pretende-se com este estudo conhecer o contributo que a SOPROSolidariedade e Promoção, enquanto Organização não Governamental para o desenvolvimento tem para o bem-estar da população idosa, envolvida nos seus projetos e comunidade, mais especificamente o projeto Amor Não Tem Idade (ANTI). Objetiva-se analisar o impacto do voluntariado na vida do idoso, tendo em conta, que o voluntariado não só gera benefícios em quem o pratica, mas também em quem é alvo do mesmo. Foram realizadas entrevistas aos diversos agentes do Projeto, desde a responsável pelo projeto, até voluntários e utentes. A pesquisa realizada permitiu compreender que SOPRO é uma importante fonte de companhia social e apoio emocional, contribuindo para a estabilidade dos seus utentes, em complementaridade para com o conjunto de relações pessoais dos indivíduos, protagonizadas muitas vezes pelos voluntários do projeto que seriam em última instância a única companhia de alguns Beneficiários do projeto. Palavras Chave: Crescimento Intergeracional , Idosos, Impactos sociais, Voluntariado.
v The Social Impacts of VolunteeringStudy Case of SOPRO Abstract Volunteering is an activity that dates back to the first civilizations, having over time assumed greater importance in the role played, since it strongly contributes to the economic and social cohesion of any community. The aim of this study is to know the contribution that SOPRO-Solidarity and Promotion, as a non-governmental organization for development, has for the well-being of the elderly population, involved in its projects and community, more specifically the project Amor Não Tem Idade (ANTI). The objective is to analyze the impact of volunteering in the life of the elderly, considering, that volunteering not only generates benefits for those who practice it, but also for those who are targeted. Interviews were conducted with the different agents of the Project, from the person responsible for the project, volunteers, and users. The research carried out allowed us to understand that SOPRO is an important source of social companionship and emotional support, contributing to the stability of its users, in complementarity with the set of personal relationships of individuals, often carried out by project volunteers who would ultimately be the only company of some beneficiaries of the project. Keywords: Elderly, Intergenerational Growth, Social Impacts, Volunteering.
vi Índice I. Introdução ......................................................................................................... 1 II. Enquadramento Teórico .................................................................................... 3 2.1-Conceito de Voluntariado ................................................................................... 3 2.2História do voluntariado em Portugal .................................................................................... 4 2.2.1Período Pré-Industrial ......................................................................................... 5 2.2.2Era Industrial ..................................................................................................... 6 2.2.3Período Pós-Industrial e o Estado Providência ................................................................ 7 2.2.4Voluntariado na Atualidade ........................................................................................... 8 2.3Tipos de Voluntariado ............................................................................................... 8 2.4Principais impulsionadores do Voluntariado ........................................................................ 10 2.4.1Estado .................................................................................................... 10 2.4.2Igreja .............................................................................................................. 10 2.4.3Terceiro Setor .......................................................................................... 11 2.4.4Empresas ................................................................................................ 11 2.5Envelhecimento Populacional e Demográfico ...................................................................... 12 2.5.1Envelhecimento Ativo ............................................................................... 13 2.6Apoio ao Idoso ....................................................................................................... 14 2.6.1Família .................................................................................................... 14 2.6.2Terceiro Setor .......................................................................................... 15 2.7Os Impactos do Voluntariado................................................................................... 17 IIICaso de estudoSOPRO e projeto ANTI ................................................................. 19 3.1Caracterização da Organização SOPRO ............................................................................... 19 3.2Projeto ANTIAmor Não Tem Idade ................................................................................... 23 3.2.1Público Alvo ............................................................................................. 23 3.2.2Descrição do Projeto................................................................................. 24 IVMetodologia de Investigação .......................................................................... 30 4.1Questão de Investigação ......................................................................................... 30 4.2Hipóteses ...................................................................................................... 31 4.3Método de investigação .......................................................................................... 31 4.4Recolha de Dados - Seleção da População .......................................................................... 32 4.5Análise QualitativaEntrevistas .......................................................................................... 33
vii 4.5.1Conteúdo das entrevistas ............................................................................................ 33 4.5.2Entrevista com a responsável ...................................................................................... 34 4.5.3Entrevista com Voluntárias .......................................................................................... 38 4.5.4Entrevista com os idosos ................................................................................... 41 VConclusão ................................................................................................. 45 Anexo 1Entrevista com representante do Projeto .................................................... 50 Anexo 2Entrevistas com Voluntárias ......................................................................... 54 Anexo 3Entrevistas com Idosos ........................................................................ 59 Índice de Figuras Figura 1. Organograma – Hierarquia da Instituição................................................................................. 23 Figura 2. OrganogramaObjetivos e Ações do ANTI ................................................................................ 25 Figura 3. Quadro de relação entre questões e HipótesesResponsável .................................................... 37 Figura 4. Quadro de relação entre entrevistados e Hipóteses ........................................................ 44
7 aumento do trabalho social remunerado. Deste modo, o Estado Novo marcou a interrupção do desenvolvimento do voluntariado em Portugal. 2.2.3Período Pós-Industrial e o Estado Providência Com o aparecimento do Estado Providência, para Amaro (2002, citado por Serapioni et al., 2013), o voluntariado foi considerado desajustado e extremamente insuficiente para dar resposta às novas necessidades sociais. O voluntariado passou a ser uma forma de atuação complementar à intervenção do Estado, assumindo uma ação menos relevante, sendo assim remetido para a esfera das relações familiares, de vizinhança e comunitárias da sociedade civil (Serapioni et al., 2013). Catarino (2004, citado por Serapioni et al., 2013) refere que no pós-25 de Abril de 1974, à semelhança do que aconteceu com outras esferas, assistiu-se a uma renovação nos conceitos de voluntariado. Desde logo, o voluntariado passou a ser entendido como uma forma de exercício de cidadania, e passou-se assim a adotar-se a solidariedade como a principal base do voluntariado. Para além disso, e ao mesmo tempo, associadas à prática do voluntariado, surgem novos princípios de voluntariado como: promoção da participação, contribuição para o desenvolvimento humano e transformação da realidade social. Importante é de realçar também o facto de ter sido no período pós-revolucionário quando surgem as primeiras organizações não-governamentais (ONG) para o desenvolvimento e, lentamente, o Estado foi reconhecendo a importância da sua relação com a sociedade civil. (Catarino, 2004, citado por Serapioni et al., 2013). De acordo com Serapioni et al. (2013), no período Pós-Industrial, o voluntariado sofreu uma grande transformação, sendo a mesma motivada pelo elevado crescimento e reconhecimento obtidos. As crescentes desigualdades sociais contemporâneas levaram ao aumento das necessidades de apoio social à escala local, nacional e mundial. Assim, o voluntariado nesta altura, segundo Amaro (2002, citado por Serapioni et al., 2013), passou a ser encarado como um fenómeno socialmente necessário, tendo a sua razão de ser não apenas nas motivações, sacrifícios e disponibilidade exclusivamente individuais, como sucedia nos restantes períodos, mas também uma necessidade social que faz dele um fenómeno estrutural, uma das forças sociais das sociedades atuais.
8 “Desde a implantação e consolidação do Estado Providência, que o voluntariado passou a ser visto como uma estratégia de luta contra a pobreza, exclusão, desemprego e ainda de promoção da cidadania e do envelhecimento ativo.” (Serapioni et al., 2013). 2.2.4Voluntariado na Atualidade “Segundo a ONU, mais de 1 bilião de pessoas em todo o mundo oferecem seu tempo, habilidades e experiência para ajudar a melhorar as comunidades em que vivem.” (Nações Unidas,2022) Segundo Gomes (2009, citado por Serapioni et al., 2013), na sociedade atual, os Governos, bem como, a própria sociedade, atribuem cada vez mais importância ao voluntariado. Esta prática é vista como uma forma complementar do trabalho profissional e da atuação das instituições, um recurso valioso para a vida social e um espaço próprio de exercício de cidadania. Serapioni et al. (2013) defendem que o voluntariado assume, atualmente, um papel fundamental na economia e na sociedade permitindo alcançar várias dinâmicas: reforçar a coesão social e económica; atenuar as tensões sociais e económicas que surgem em momentos de crise; gerar capital social; promover a cidadania ativa, a solidariedade é uma forma de cultura que põe as pessoas em primeiro lugar. Os mesmos autores defendem ainda a importância do papel que os voluntários assumem enquanto transmissores de valores que fortalecem a construção da Europa, os mesmos tornam-se exemplos de solidariedade, democracia, liberdade e igualdade. Além disso, os voluntários dão um forte contributo para o diálogo intergeracional e intercultural, para o bem-estar e o envolvimento ativo dos cidadãos, bem como para a promoção da União Europeia no mundo. Em Portugal, o reconhecimento crescente do importante papel do voluntariado na sociedade tem levado ao aumento do número de instituições, um pouco por todo o país, que investem na valorização e qualificação dos voluntários, de forma integrada e continuada (Serapioni et al., 2013). 2.3Tipos de Voluntariado Segundo Ferreira, Proença & Proença (2008), a prática do voluntariado pode ser fragmentada seguindo os dois principais tipos de voluntariado: voluntariado formal e voluntariado informal. O voluntariado formal diz respeito a atividades que são realizadas normalmente tendo ligação a uma
9 determinada organização sem fins lucrativos, em áreas como o desporto e recreação ou prestação de serviços sociais. Por outro lado, o voluntariado informal é o mais frequente, sendo realizado numa base interpessoal no contexto de relações de vizinhança e da dádiva e inclui comportamentos como ajudar os vizinhos (Ferreira et al., 2008). Atualmente a legislação portuguesa abrange apenas o voluntariado formal desenvolvido no âmbito de organizações. Este subdivide-se em dois tipos: voluntariado dirigente e não dirigente. De acordo com Ferreira et al. (2008), no voluntariado dirigente os voluntários integram os órgãos de gestão e manutenção da própria instituição, estabelecendo não só o número de voluntários necessários, bem como as áreas onde é necessária à sua intervenção. Importante também entender que este engloba um reduzido número de participantes. Por outro lado, o voluntariado não dirigente consiste na ação direta, que o voluntário exerce sobre determinado grupo, traduzindo-se, desta forma, num contacto mais próximo ou direto com o público-alvo da organização beneficiária. Ao contrário do voluntariado dirigente, o voluntariado não dirigente conta com um elevado número de participantes (Ferreira, et al., 2008). Relativamente à regularidade da prática do voluntariado este pode ser praticado de forma regular ou ocasional (Ferreira, et al., 2008). Segundo Rotolo (2003, citado por Serapioni et al., 2013), são considerados voluntários regulares aqueles que desempenham atividades de voluntariado pelo menos uma vez por mês durante um período de pelo menos um ano. Em relação ao voluntariado ocasional, os voluntários desenvolvem atividades de regularidade inferior a uma vez por mês durante um ano. O autor acrescenta, ainda, uma terceira forma de compromisso, de caráter regular, na qual o voluntário desenvolve atividades a tempo inteiro, ao longo de meses ou anos. Este tipo de voluntariado, está associado ao voluntariado internacional, que implica para a organização a preparação do voluntário e a responsabilidade pelos custos de viagem, alojamento, saúde, etc. Num estudo realizado por Smith, Holmes, Haski-Leventhal, Cnaan, Handy & Brudney (2010), os autores decidiram comparar ações de voluntariado realizadas por estudantes de ensino superior de 5 países diferentes. Na comparação entre voluntários ocasionais e regulares, descobriram que os estudantes voluntários regulares relataram níveis mais altos de motivações altruístas do que os estudantes voluntários ocasionais. Estes autores apontam duas explicações para estas descobertas, primeiro que as pessoas verdadeiramente altruístas tendem a voluntariar-se mais do que as outras, e segundo, as pessoas que se voluntariam podem preferir atribuir traços positivos como o altruísmo.
10 2.4Principais impulsionadores do Voluntariado Importante também será entendermos quais os principais agentes promotores do voluntariado. Neste sentido, Serapioni et al. (2013) referem que o Estado, a Igreja, o Terceiro Setor e as Empresas têm um papel direto na promoção do voluntariado, como um importante instrumento de solidariedade e desenvolvimento. 2.4.1Estado O Estado, como interveniente no voluntariado, atua de duas formas, primeiro enquanto criador de condições para o voluntariado, os voluntários e as organizações, determinando o seu âmbito de ação em termos legais, assumindo desta forma, um papel importante na infraestrutura do voluntariado. Segundo, o Estado assume o papel de promover o voluntariado, nomeadamente através de políticas públicas e medidas específicas que visem: um enquadramento legal favorável; a remoção de obstáculos; a criação de agências governamentais; definição de estratégias e programas e o financiamento de projetos ou organizações (Serapioni et al., 2013). Serapioni et al. (2013) dão conta de que existem estudos científicos, que demonstram que o Estado apenas está a atuar na regulação jurídica do trabalho voluntário, e não na definição de políticas públicas de promoção do voluntariado. 2.4.2Igreja Serapioni et al. (2013) defende a igreja como sendo um ator interventivo no voluntariado, devido ao papel assumido pelas suas organizações e pelo facto de desde os primórdios existir uma ligação entre o voluntariado e os valores cristãos. Na realidade, a própria Doutrina Social da Igreja defende que o voluntariado é extremamente importante no que respeita ao princípio da subsidiariedade, pois não deve ser o Estado a ostentar o primado da intervenção social, mas sim a própria sociedade civil. Deste modo, Serapioni et al. (2013) referem que existem estudos que demonstram que os indivíduos que frequentam a Igreja têm um maior nível de participação no voluntariado. É de se notar que o papel da Igreja foi tão importante, que esteve na origem da delineação dos principais períodos históricos do voluntariado, referidos anteriormente, especialmente com a criação das Santas Casas de Misericórdia, no período Pré-Industrial (Serapioni, et al., 2013).
11 2.4.3Terceiro Setor O Terceiro Setor é composto por um conjunto de organizações privadas sem fins lucrativos, que promovem o voluntariado. Em geral, as organizações do terceiro setor apresentam as seguintes caraterísticas: a organização formal, a independência face ao Estado, a ausência de fins lucrativos e o primado do voluntariado (Penido, 2015). Esta última característica, segundo Penido (2015), contribui fortemente para manter o terceiro setor em pleno funcionamento, onde os voluntários são fulcrais na manutenção das instituições que formam o terceiro setor. Ainda segundo a autora, os voluntários dão apoio à gestão e na realização das mais diversas atividades nas instituições. Rotolo (2003, citado por Serapioni et al., 2013), abrange ainda mais esta questão e distingue, no Terceiro Setor, dois tipos de organizações: organizações que dependem diretamente de voluntários e organizações onde profissionais empregados e voluntários desenvolvem atividades conjuntamente. No primeiro caso, os profissionais são em menor número do que os voluntários, sendo que é destes que os objetivos das organizações dependem. Por isso, os voluntários têm um papel com destaque nas organizações. No segundo tipo de organizações, os voluntários não são vitais para o funcionamento da organização, embora sejam parte das atividades, contribuindo para a melhoria dos serviços prestados. De uma forma geral, é possível dizer que os voluntários neste contexto, suplementam a organização (Rotolo 2003, citado por Serapioni et al., 2013). Posto isto, de facto os voluntários assumem um papel importante no Terceiro setor, no desenvolvimento das mais variadas atividades, não sendo, portanto, de estranhar que este seja o maior e mais importante promotor do voluntariado. 2.4.4Empresas Serapioni et al. (2013) apontam a chamada de atenção feita pela União Europeia, para a necessidade de uma maior participação das empresas em voluntariado, como forma de responsabilidade social. A responsabilidade social empresarial pode ser compreendida como o comprometimento das empresas, em criar um mundo que seja sustentável para elas próprias, para a sociedade civil e para o ambiente, trabalhando para isso com os seus colaboradores, fornecedores, comunidade local e sociedade em geral, na melhoria da qualidade de vida (Magalhães & Ferreira, 2014). As autoras apontam o facto de a atividade das empresas assentar em três importantes
12 pilares: económico, ambiental e social. Portanto, a responsabilidade social empresarial surge como forma de cumprir com o seu terceiro pilar. “É nesta perspetiva, que o trabalho voluntário surge como uma forma de responsabilidade social empresarial, que permite fomentar a participação, cooperação, compromisso e a responsabilidade, para a coesão social e económica” (Magalhães & Ferreira, 2014). Para Santos (2010, citado por Serapioni et al. 2013), o voluntariado empresarial constitui a ligação perfeita entre o mercado e a comunidade. Em Portugal, tem-se verificado cada vez mais um aumento de empresas envolvidas em projetos sociais e iniciativas de apoio, que contribuem para o bem-estar da comunidade. Além do impacto positivo na sociedade, o voluntariado também é benéfico para os funcionários da empresa, uma vez que, de acordo com Serapioni et al. (2013), com base no comunicado da União Europeia, o voluntariado permite-lhes adquirir fora da empresa competências sociais que estimulam a criatividade, aumentar a motivação para o trabalho e reforçar a sua ligação com a empresa onde trabalham. 2.5Envelhecimento Populacional e Demográfico Atualmente é cada vez mais usual falar em envelhecimento, seja porque o tema merece mais atenção ou porque o ser velho é uma realidade cada vez mais presente na nossa sociedade (Correia, 2012). Rosa (2012) realça a mesma ideia, afirmando que o termo envelhecimento é cada vez mais um termo habitual nas conversas e pensamentos quotidianos. Abordando o conceito de envelhecimento do ponto de vista demográfico podemos referir que o mesmo é possível de ser verificado de duas formas distintas “se a proporção de pessoas idosas aumenta teremos um “envelhecimento de topo” e (…) se a proporção de jovens diminui, teremos um “envelhecimento de base”. Contudo ao adotarmos esta definição estaríamos restritos ao fenómeno do envelhecimento e não à essência do mesmo. Levet (1985, citado por Coelho, 2008), aliando o envelhecimento ao conceito de idade, acaba por globalizar o conceito. Levet (1985) refere a idade cronológica como sendo a que decorre desde o período do nascimento do indivíduo até a sua morte; a idade jurídica, que se liga à necessidade de a sociedade estabelecer uma idade a partir da qual o indivíduo assume determinados deveres e direitos; a idade biológica e física que se associa ao ritmo de envelhecimento de cada um; a idade psicoafectiva, que reflete a personalidade e emoções do indivíduo e que não se encontra ligada à
13 idade cronológica, e a idade social, que corresponde aos papéis atribuídos pela sociedade ao indivíduo dependentes das suas condições socioeconómicas. Associando o conceito de envelhecimento ao conceito de idade, nomeadamente tendo em conta a idade biológica e psicoafectiva do indivíduo, ficamos com uma abordagem mais rica, uma vez que estamos a ter em conta a especificidade de cada indivíduo. Verificamos, assim, que a categoria “idoso” não é uma categoria homogénea, sendo que cada indivíduo envelhece a seu tempo e que as características desse envelhecimento são distintas de pessoa para pessoa. (Coelho,2008) O envelhecimento da população é (assim) um dos maiores desafios da sociedade, mas também um dos maiores problemas devido às suas consequências sociais, económicas e políticas (Fernandes, 2013). São diversas as consequências do envelhecimento demográfico, embora se destaquem a dificuldade em financiar as pensões de reforma, o aumento das despesas com a saúde e equipamento social, a diminuição da população ativa, a quebra da produtividade e o incremento dos encargos fiscais/impostos sobre a população ativa (Soares, 2002 citado por Fernandes, 2013). 2.5.1Envelhecimento Ativo Como vimos anteriormente, o envelhecimento é, cada vez mais, um dos maiores desafios da sociedade. No entanto é um processo natural pelo qual todos os indivíduos passam ao longo da vida. É importante que, neste sentido, procuremos fazer do envelhecimento uma experiência positiva - segundo a OMS (2005), se quisermos que o envelhecimento seja uma experiência positiva - uma vida mais longa deve ser acompanhada de oportunidades contínuas de saúde, participação e segurança. O envelhecimento ativo torna-se tão importante que o mesmo representa um dos objetivos do desenvolvimento sustentável- – assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades. Deste modo, surgiu, em 2002, o termo “envelhecimento ativo” avançado pela Organização Mundial de Saúde. Segundo a mesma, este conceito pode ser definido como “o processo de otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida à medida que as pessoas ficam mais velhas” (OMS, 2005).
14 O envelhecimento ativo é considerado numa perspetiva de curso de vida, em que envelhecer não se inicia algures num ponto específico, como seria, por exemplo, a idade legal da reforma (…) mas corresponde antes a um processo que se estende ao longo de toda a vida e em que a história individual se constrói progressivamente e se materializa em resultados profundamente heterogéneos e idiossincráticos” (Ribeiro & Paúl, 2011) O objetivo do envelhecimento ativo passa por aumentar a expectativa de uma vida saudável e a qualidade de vida para todas as pessoas que estão envelhecendo, inclusive as que são frágeis, fisicamente incapacitadas e que requerem cuidados (OMS, 2005). Assim sendo, segundo a OMS (2005) o envelhecimento ativo aplica-se tanto a indivíduos quanto a grupos populacionais. Permite que as pessoas percebam o seu potencial para o bem-estar físico, social e mental ao longo do curso da vida, e que essas pessoas participem da sociedade de acordo com suas necessidades, desejos e capacidades; ao mesmo tempo, propicia proteção, segurança e cuidados adequados, quando necessários 2.6Apoio ao Idoso Coelho (2008) fala numa divisão de Três entidades promotoras de serviços de proteção social dividida em 4 esferas: a esfera política, da ação estatal; a esfera do mercado; o chamado “Terceiro Sector”, e por último a esfera das solidariedades primárias compostas por redes informais de parentesco, amizade e vizinhança. No entanto, cada vez mais o Terceiro Sector e a esfera das solidariedades primárias assumem uma plataforma fulcral e essencial na satisfação das necessidades sociais da população. 2.6.1Família A família pode ser definida como “uma instituição social que regula parte do sistema de relações entre as pessoas e destas com o resto do mundo.” (Silva et al, 2001, citado por Coelho, 2008). A instituição Família encontra-se em mudança, pautando-se hoje por valores de autonomia e individualismo, (Fernandes,2013) e por uma solidariedade baseada no afeto e não na obrigatoriedade. No entanto, apesar de se apontar para uma desfamiliarização da família, sendo esta
15 o desmoronamento das bases sociais (Fernandes,2013, não se pode afirmar que a família deixou de ser a base mais importante para o auxílio e apoio emocional ao mais velho. No entanto, cuidar de uma pessoa idosa exige um grande esforço físico, emocional e financeiro, sendo que o grau de envolvimento da família na prestação de cuidados varia em função do grau de autonomia do idoso (Pimentel, 1995, citado por Coelho, 2008). Aliado a este fator surgem as mudanças que a família tem vindo a sofrer ao longo deste século, fundamentalmente a partir da segunda metade do século XX, tais como o forte crescimento da proporção de famílias nucleares em detrimento da diminuição do número de famílias alargadas, uma crescente mobilidade geográfica e social, a crescente inclusão das mulheres no mercado de trabalho, bem como a vontade dos reformados de manterem alguma autonomia e de não condicionarem a vida dos seus familiares. Todos estes fatores fazem com que hoje grande parte da responsabilidade de cuidar dos mais velhos, atribuída anteriormente à família, passe para outros organismos de solidariedade (Silva et al, 2001, citado por coelho, 2008). O recrutamento de voluntários, a criação de clubes de ajuda e de centros de dia, e a intervenção estatal sistemática são elementos que podem colmatar as insuficiências das solidariedades familiares e informais 2.6.2Terceiro Setor O Terceiro Sector pode ser definido através de “cinco características principais: a organização formal, a independência face ao Estado, a ausência de fins lucrativos ou a distribuição de lucros e o primado do voluntariado” (Delicado, 2002) sendo que este distribui bens relacionais, ajuda, comunicação, assistência paz e serviço às pessoas que necessitam. De acordo com a última Conta Satélite da Economia Social realizado pelo INE em 2019, com dados relativos a 2016, a economia social foi responsável, em Portugal, por 6,1% do emprego remunerado a tempo completo. Este número reflete-se em 234.886 postos de trabalho. Ao nível da União Europeia, o mesmo percentual reflete-se em 2017, em 13,6 milhões de pessoas empregadas. Se falarmos de produção, a economia social tem um impacto de 8% e 7%, respetivamente, no PIB da União Europeia e no PIB Mundial. (INE, 2019)
16 Em 2016, de acordo com a conta Satélite da Economia Social, existiam em Portugal 71885 entidades da Economia Social. As entidades da Cultura, comunicação e atividades de recreio concentravam 46,9% das unidades da ES. As entidades da religião e dos serviços sociais apresentavam um peso bastante significativo no conjunto de entidades da ES, congregando, respetivamente, 11,9% e 9,7% do total de unidades. (INE, 2019) 2.6.3Setor Social O conceito de rede social é um conceito muito abrangente e abordado em diversas áreas disciplinares. Contudo, quando se fala de rede social pessoal, fala-se do conjunto de relações humanas que surtem efeito na vida do indivíduo. (Coelho,2008) Carlos Sluzki (1997) define as redes sociais pessoais como redes formadas pelo conjunto de pessoas que interagem com o indivíduo no seu quotidiano. A rede social pessoal é então o conjunto de relações às quais o indivíduo atribui um significado especial, destacando-as das restantes. (Sluzki; 1997) Os elementos da rede são então as pessoas com quem podemos contar, cujas influências influenciam o nosso estilo de vida, os nossos sucessos e insucessos, a nossa segurança e sentimento de bem-estar e, mesmo, a nossa saúde. (Portugal;2006) A rede social é, então, composta pelo conjunto de relações pessoais do indivíduo e pode ser dividida em quatro grupos fundamentais: a família, os amigos, as relações de trabalho e escolares e as relações comunitárias ou de serviços. (Sluzki, 1997) Os quatro grupos que fazem parte da rede social do indivíduo podem distinguir se em três áreas; a das relações íntimas, composta por familiares diretos com os quais existe um contacto diário e por amigos próximos; a das relações pessoais com menor grau de compromisso, composta pelas relações sociais ou profissionais com contacto pessoal mas sem intimidade, por amizades sociais e por familiares intermédios e por fim a das relações ocasionais a qual é composta por conhecidos da escola ou do trabalho, por vizinhos e por familiares afastados. (Sluzki, 1997) As redes sociais, formadas por familiares e amigos são fundamentais para o suporte social do idoso, implicando múltiplos aspetos, desde a partilha de intimidades, apoio emotivo, afeto, amor e até mesmo apoio a nível material. As chamadas redes sociais de apoio têm também grande influência no
23 Figura 1. Organograma – Hierarquia da Instituição. Fonte: Elaboração Própria 3.2Projeto ANTIAmor Não Tem Idade 3.2.1Público Alvo O público-alvo do projeto é a população envelhecida de Barcelos que viva em situações de isolamento e/ou solidão e não esteja integrada em nenhuma resposta social nem seja apoiada por nenhuma estrutura. É inevitável perceber que à medida que as pessoas envelhecem, têm necessidade de viver em ambientes que lhes proporcionem o suporte necessário para compensar as mudanças associadas ao envelhecimento, algumas delas sinónimo de perda de capacidades. Consideramos que com este projeto é possível criar um contexto favorável e facilitador de um envelhecimento ativo além de promover o bem-estar das pessoas idosas, para que assim possam continuar a ser, pelo maior tempo possível, autônomas e socialmente relevantes. O projeto terá ainda, como públicos-alvo indiretos, os jovens do concelho de Barcelos, entidades que intervêm com idosos e toda a comunidade barcelense. Com o projeto será possível, sempre com a premissa que a prática do voluntariado acarreta vários benefícios para um
24 desenvolvimento saudável e preocupado dos jovens, sensibilizar estes para as questões do envelhecimento e isolamento dos idosos e ainda trabalhar várias competências, capacitando-os assim para um apoio mais específico, estimulante e personalizado na sua interação com a população mais envelhecida. O projeto resultará ainda numa comunidade barcelense mais sensibilizada para a problemática do crescente envelhecimento e posterior isolamento, solidão e perda das funcionalidades físicas e mentais, tornando-se uma comunidade mais inclusiva e atenta. 3.2.2Descrição do Projeto O projeto “Amor Não Tem Idade”, doravante denominado de ANTI, foi concebido com o intuito de combater a solidão bem como o isolamento social da população mais envelhecida no município de Barcelos, através de práticas intergeracionais, tendo sempre em vista a estimulação motora e cognitiva destas pessoas, de forma a enriquecer o seu dia a dia e contribuir para um envelhecimento ativo. O projeto pretende assim chegar a população mais envelhecida de Barcelos, através de diversas atividades e um voluntariado contínuo e comprometimento dos jovens Barcelenses, apoiando assim as poucas respostas existentes na luta contra o isolamento. O projeto pretende contribuir para a criação e construção de uma “comunidade habitável", conectando a estrutura social e as necessidades de todas as gerações que compartilham um local comum. (SOPRO, 2023) Apesar de muitas vezes acontecer serem as próprias pessoas mais velhas a reivindicar e fazer acontecer oportunidades de participação social, existe ainda, muitas vezes, a necessidade de essa participação ser promovida. É neste sentido que a conceção deste projeto serviu para estimular um envelhecimento verdadeiramente participativo na vida das comunidades onde se insere (SOPRO,2023). Este projeto mostra-se assim importante como forma de maximizar a funcionalidade de muitas pessoas idosas que, de outra forma, se tornariam passivas ou até mesmo dependentes. Foram estruturados, para o projeto ANTI, um conjunto de ações em torno dos seguintes objetivos:
25 ● Trabalhar relações intergeracionais entre os idosos e os jovens, enriquecendo assim o dia a dia de ambos os grupos, através da criação de laços afetivos; ● Diagnosticar, prevenir e retardar o declínio motor, cognitivo e funcional dos idosos através de práticas estimulantes, contribuindo assim para um envelhecimento mais ativo dos mesmos; ● Reconhecimento do valor da população idosa, sensibilizando a comunidade local para a problemática do envelhecimento e tornando-a mais inclusiva para com a população idosa. ● Sinalizar as pessoas idosas que tenham necessidades sociais que ainda não foram identificadas, fazendo chegar às respostas sociais mais indicadas e competentes. ● Criação de parcerias entre os atores e entidades locais de forma a trabalhar a problemática do isolamento e solidão, assim como outras problemáticas relacionadas com o envelhecimento. Figura 2. OrganogramaObjetivos e Ações do ANTI Fonte: Elaboração própria, retirada do dossiê do projeto
26 Com os objetivos, referidos anteriormente, o projeto ANTI divide-se em 3 componentes: Componente 1Visitas de acompanhamento aos idosos O ANTI tem como objetivo proporcionar aos idosos barcelenses que vivam isolados ou solitários, uma maior qualidade de vida, promovendo assim o seu papel na sociedade. Com as várias atividades constituintes é possível contribuir para um dia-a-dia mais enriquecido destes, criando novos laços afetivos e encaminhando as situações mais precárias para entidades com respostas mais competentes. O projeto também visa a prevenção e o retardar do declínio mental, motor e funcional dos idosos barcelenses. O projeto resulta numa resposta social coesa às problemáticas da solidão, do isolamento e do declínio funcional resultante de um envelhecimento pouco ativo. A interação e a criação de laços afetivos entre os jovens e os idosos traz uma nova sensação de pertença à sociedade, fazendo-os sentir úteis novamente. O projeto é ainda um elo de ligação entre os vários atores e entidades sociais que trabalham com o envelhecimento. A realização destas visitas é subdividida em 3 momentos. Inicialmente realiza-se a avaliação diagnóstica e especializada a todos os idosos envolvidos, de forma a perceber quais as dificuldades e necessidades em torno de cada idoso. Uma vez que o projeto compreende uma vasta equipa multidisciplinar de voluntários, existem entre os mesmos estudantes de áreas como medicina, enfermagem, fisioterapia, psicologia, etc. para que estes consigam trazer um melhor parecer sobre cada situação individual. Caso seja adequado e haja essa necessidade, os idosos acabam sendo encaminhados para entidades locais que forneçam respostas sociais mais adequadas para cada situação. Numa segunda etapa, realiza-se um plano individual de estimulação. Como referido anteriormente, a existência de uma equipa multidisciplinar permite que cada idoso obtenha um plano individual e adaptado às suas necessidades de forma a obterem um envelhecimento mais ativo possível. Estes planos individuais acabam por ser úteis não só para os voluntários durante as visitas semanais, mas também para cuidadores informais e familiares ativos. Por último, começam as visitas semanais dos voluntários. Nesta atividade os voluntários interessados e pertencentes ao projeto, têm a responsabilidade de visitar semanalmente um idoso mediante a disponibilidade de ambas as partes. Os voluntários devem por sua vez fornecer informação relevante sobre cada visita, bem como sinalizar alguma situação social ou de saúde precária.
27 Componente 2Oficinas interativas O projeto ANTI tem como objetivo proporcionar aos idosos barcelenses, um espaço semanal onde possam encontrar e interagir com voluntários tanto de outras gerações como também de outros países. Estas oficinas são abertas não só para os idosos englobados nas atividades da componente 1, como também para outros idosos que queiram passar uma tarde agradável e diferente. Nestas oficinas realizaram-se uma série de atividades, com o apoio dos vários voluntários pertencentes à SOPRO, que visam, não só estimular de forma cognitiva, motora e funcional, como também criar um verdadeiro espaço de convívio e de criação de novos laços afetivos. Atividades: 1. Oficina de Jardinagem: Uma vez por mês o projeto contempla esta atividade onde idosos, juntamente com voluntários pertencentes ao projeto tanto nacionais como internacionais, se juntam para cuidar de um terreno junto à Associação SOPRO. Este terreno conta com um espaço de lazer, uma horta comunitária e um jardim sensorial. Desta forma é possível estimular os idosos para práticas que muitas vezes foram recorrentes durante a sua vida e para promover uma verdadeira troca de saberes entre diferentes gerações. 2. Oficina de Tecnologia Também com uma periodicidade mensal, o projeto contempla esta atividade, também de sinergia entre idosos e voluntários, onde é procurado promover uma aproximação dos idosos às tecnologias através de desafios e dinâmicas simples. Desta forma é pretendido, com o apoio e o conhecimento dos voluntários relativamente às tecnologias, permitir a inserção dos mais velhos na sociedade da informação, simplificando a sua vida diária e promovendo a inclusão digital. 3. Oficina de artes Mensalmente ocorre esta oficina de artes, que tem como objetivo tanto a valorização e a promoção dos antigos ofícios dos mais velhos, como também a troca de saberes entre as várias gerações. Nesta oficina de artes existe espaço para trabalhar alguns ofícios como, por exemplo, a costura, a carpintaria e a olaria. Desta forma é possível a produção de alguns materiais para uso próprio, institucional ou para exposição.
28 4. Oficina de Ginástica Sénior Por fim e também com uma frequência periódica mensal, ocorre também uma atividade que visa promover o exercício físico dos mais velhos. Esta atividade é preparada maioritariamente pelos voluntários pertencentes ao projeto, visto que alguns deles têm formação na área do desporto, e tem como objetivo principal estimular os idosos, não só no que toca a parte motora e funcional, mas também à parte psicológica e emocional, pois estas acabam por estar intimamente conectadas. Componente 3 – Produção de Materiais Informativos Por fim, o projeto tem também o interesse de, paralelamente ao desenvolvimento das ações anteriores, a produção de algum material informativo e formativo que será distribuído não só ao público-alvo do projeto, mas também a alguns atores sociais e entidades específicas. Desta forma é pretendido informar, sensibilizar e promover a valorização da pessoa idosa e dos processos intergeracionais por toda a comunidade barcelense tornando esta uma comunidade mais coesa e inclusiva. Por outro lado, torna-se importante o uso destes produtos com a finalidade de alertar a população de Barcelos para as consequências sociais provenientes do crescente aumento do envelhecimento em Portugal. Atividades: 1. Livro de Contos Ao longo do projeto são recolhidas histórias antigas de alguns idosos do concelho de Barcelos e posteriormente produzido um pequeno livro com as histórias existentes. Este livro além de preservar as histórias mais antigas pode ser usado no ensino básico e infantários fazendo chegar, aos mais novos, as vivências dos mais velhos. 2. Revista Elaboração de uma revista. A revista é composta por duas partes, uma destinada ao resumo das atividades realizadas e a outra destinada aos idosos. Os idosos produzem os próprios conteúdos (Storytelling, poemas, entrevistas, entre outros) com o apoio dos voluntários tanto nas visitas semanais como nas oficinas interativas.
29 3. Material Informativo e Divulgação Desenvolvimento e produção de material informativo e de divulgação do projeto que será distribuído tanto pelo público-alvo do projeto como pela população geral. Desta forma é pretendido não só informar e divulgar o projeto em si, como também algumas questões relevantes relativamente ao envelhecimento e a toda a área que este contempla.
30 As ações de voluntariado direcionadas a idosos têm impacto social na vida dos mesmos? IVMetodologia de Investigação Nesta secção será compreendida, fundamentalmente, a enunciação da questão de investigação e das Hipóteses a testar, irá ser relevado o interesse da Entrevista como recurso metodológico e finalizarei, procedendo a análise dos conteúdos das entrevistas identificando os termos mais relevantes de forma a testar as hipóteses. 4.1Questão de Investigação A questão da investigação torna-se pertinente na medida em que muitos idosos nos dias de hoje se encontram em situações extremas e muitas vezes ao abandono, pelo que é importante neste sentido procurar entender em que medida estas ações pontuais de voluntariado acabam por afetar a vida destes idosos. Como referido no ponto 2.7, o fenómeno de envelhecimento da população que tem vindo a ocorrer quer nos países desenvolvidos, como nos países em desenvolvimento, tem exigido a realização e promoção de políticas governamentais de saúde e sociais dirigidas aos idosos, com a finalidade de melhorar a sua qualidade de vida e promover uma melhoria na sua saúde, pelo que uma das alternativas que tem vindo a ser incentivada nas pessoas idosas é a prática de trabalho voluntário (Souza & Lautert, 2008). Além disso, a questão de investigação revela-se pertinente, uma vez que a análise das pessoas para este tema pode permitir a construção de campanhas de sensibilização que alertem a população no geral sobre situações de abandono e de falta de acompanhamento. Por último, a investigação pode servir para que no futuro mais organizações locais criem projetos que facilitem a realização de ações de voluntariado dirigidas a Idosos, e que em segunda mão dinamize a população jovem permitindo a partilha e crescimento intergeracional.
31 4.2Hipóteses Hipótese 1: As ações de Voluntariado dirigidas a Idosos criam um forte impacto na vida dos mesmos. O exercício de ações voluntárias auxilia na definição de objetivos, ajudando o indivíduo a reintegrar-se na sociedade e a atenuar os estereótipos e preconceitos associados às condições dos reformados (Dal-Rio, 2004, citado por Pedrosa, 2017), a integração de indivíduos com mais de 65 anos nas atividades de voluntariado vai permitir uma menos exclusão social e maior participação na sociedade onde se inserem. (Souza &Lautert, 2008). A partir desta hipótese surge uma nova hipótese: Hipótese 2 : As ações de voluntariado permitem uma nova perspetiva relativamente aos problemas dos idosos também nos voluntários. Relativamente aos Benefícios do Trabalho Voluntário, importa, desde já, assumir que este tanto beneficia a sociedade em geral como o indivíduo que faz voluntariado. O trabalho voluntário é um meio chave para as pessoas expressarem o seu envolvimento cívico, e é através da construção da confiança e a reciprocidade entre os cidadãos que o voluntariado contribui para uma sociedade mais coesa, estável e menos desigual. (Reunião do Grupo de Trabalho de Especialistas sobre o Voluntariado e o Desenvolvimento Social, 1999) Os jovens que realizam voluntariado revelam um maior grau de consciencialização relativamente à promoção de valores de cidadania, esta é assim uma consequência que podemos tirar desta hipótese. 4.3Método de investigação O método que se afigura mais adequado no estudo foi o qualitativo, uma vez que o mesmo permite uma pesquisa mais intensiva e exploratória da problemática, podendo adequar as perguntas às diferentes pessoas e faixas etárias. Deste modo, o método de pesquisa selecionado refere-se em concreto à entrevista A opção por este método também passou pelo facto de que o estudo de caso apenas se alargou a utentes e voluntários do projeto, pelo que, apesar de tudo, não seriam de quantidade
32 suficiente que justificasse o recurso a questionários. Não obstante a isso, o uso de questionários seria muito complicado para esses idosos que muitas vezes não têm acesso a um dispositivo nem capacidades para realizar a tarefa. Com efeito, a entrevista assume-se como “um método de recolha de informações que consiste em conversas orais individuais, ou em grupos, com várias pessoas selecionadas cuidadosamente, a fim de obter informações sobre os factos ou representações, cujo grau de pertinência, validade e fiabilidade é analisado na perspetiva dos objetivos da recolha de informação.” (Ketele, citado por Coelho, 2008). 4.4Recolha de Dados - Seleção da População Face à presente investigação e aos objetivos da mesma, foi estabelecido contacto com a SOPRO a fim da realização do estudo, podendo assim incidir a minha pesquisa nos utentes e voluntários do Projeto ANTI. A seleção dos participantes foi realizada com ajuda da assistente social e responsável pelo projeto. A ajuda da responsável permitiu selecionar os idosos mais habilitados a receber-me e a responder às questões colocadas. Por outro lado, tive também oportunidade de saber quais os voluntários mais indicados para me ajudarem na investigação. A ajuda da responsável justifica-se seguindo a ideia de que a subjetividade, elemento constitutivo da alteridade presente na relação entre sujeitos, não pode ser expulsa, nem evitada, mas deve ser admitida e explicitada e, assim, controlada pelos recursos teóricos e metodológicos do pesquisador, vale dizer, da experiência que ele, lentamente, vai adquirindo no trabalho de campo. (ROMANELLI, 1998) Como não existiu oportunidade de realizar trabalho de campo que me proporcionasse clareza na decisão de quais beneficiários selecionar, optei por selecionar uma dirigente que se encontrava familiarizada com os idosos e a sua realidade, apoiando-me assim na sua experiência. Neste sentido, optei então por entrevistar 2 Voluntárias da SOPRO, uma voluntária Internacional e uma Voluntária nacional, 3 beneficiários, sendo que 2 deles eram um casal fazendo por isso apenas uma entrevista e por fim entrevistei a responsável pelo projeto ANTI. Os entrevistados foram selecionados de forma a tentar abranger distintos percursos e experiências, sendo que a seleção dos mesmos estava dependente da sua livre vontade para participar no estudo.
39 sincera não gostava muito deles. A verdade é que quanto mais trabalhava com eles mais eu os achava interessantes e engraçados. Especialmente as conversas com a Dona Cândida faziam-me perceber o quão interessante ela era e o quanto a experiência de vida dela me ensinava a olhar para as coisas de forma diferente” - Chiara. Numa fase inicial, apesar de tudo, os idosos não se sentiam intimidados nem assustados, apenas felizes pela oportunidade que tinham, essa felicidade transmitia-se pelo carinho e afeto que davam aos voluntários. Segundo Erlandsson e Eklund (2001, citado por Pedrosa, 2017) a experiência subjetiva do envolvimento no desempenho, não representa um artefacto de realização, mas sim uma fonte fundamental do conhecimento como e por que se faz, significando que para o idoso é mais importante a gratificação sentida do envolvimento em determinada atividade do que o envolvimento per si. O simples facto de os idosos se sentirem envolvidos criava uma sensação de gratidão que se transmitia para os voluntários. Q7: “ A meu ver, sempre foram muito abertos connosco e estavam sempre dispostos a fazer as atividades em conjunto, pedindo ajuda e fazendo perguntas acerca do que era para realizar. Claro que houve aquela primeira barreira, mas é normal quando conhecemos alguém pela primeira vez. Se bem me lembro, na primeira atividade em que estive presente, os idosos tentaram perguntar-nos quem éramos e queriam todos que os ajudássemos a realizar a atividade.” - Sara. Q7: “ À exceção da barreira linguística, todos os idosos eram muito acolhedores e calorosos para mim. Desde o primeiro dia que me conheceram, todas as senhoras me abraçavam e me davam beijos e desejavam boa sorte.” - Chiara Por fim, quando questionadas relativamente ao impacto, subjetivo, do projeto na vida dos idosos, é de se notar que não apenas nos idosos surgiram efeitos positivos, como também nos próprios voluntários que começaram a dar mais valor às necessidades dos idosos. Segundo Ferreira (2008, citado por Serapioni et al., 2013) os jovens que realizam voluntariado revelam um maior grau de consciencialização relativamente à promoção dos valores de cidadania. Q8: “ Sim, tanto a minha como a dos outros voluntários e organizadores do projeto. Acho que foi uma das primeiras vezes que senti que realmente fazia diferença na vida de alguém, e por esse motivo tentava sempre estar presente. O carinho que os idosos têm por mim e por estas pessoas
40 demonstra o quanto dedicarmos o nosso tempo como voluntário vale a pena, que pode melhorar o dia daquela pessoa. Relembro que muitos deles mencionaram que só por irem ao projeto que o seu dia já valia a pena. (...)E ser parte disso realmente faz com que a minha presença faça a diferença no dia de algum dos idosos. Nas visitas, mesmo que seja por pouco tempo, a idosa fica feliz por me ver semanalmente.”. - Sara Q9: “(...) o sorriso e o carinho dos idosos quando falavam que gostam muito de estar lá e da companhia dos voluntários é uma das maiores provas. Neste projeto eles puderam ser ouvidos e ouvirse uns aos outros e compartilhar as suas histórias fossem elas boas ou más, algo que provavelmente muitos sentiram falta durante os momentos mais amargurantes da sua vida.” - Sara. Q8: “ Eu penso que sim, talvez não para toda a gente, mas muitas vezes a Dona Cândida diziame o quanto a minha presença e a dos outros dos voluntários a ajudaram não só para a companhia que lhe fazíamos mas mais importante quanto nós fazíamos companhia ao Sr. André permitindo que ela saísse de casa, esvaziasse a mente e fosse socializar um pouco.”. - Chiara Q9: “ Foi bastante importante porque foi maioritariamente um espaço e convívio para eles e para se divertirem um pouco e se encontrarem com velhos amigos, mas também participaram em workshops que lhes fizeram puxar pela cabeça, acreditarem mais em si mesmos e no que são capazes” - Chiara Q12: “O projeto definitivamente ajudou com a confiança dos idosos, mas também acho que deu aos jovens uma melhor perceção das necessidades e da preciosidade dos idosos.” - Chiara Neste sentido podemos verificar que existem vários fatores que levam à validação da hipótese 2 previamente estabelecida, “As ações de voluntariado permitem uma nova perspetiva relativamente aos problemas dos idosos também nos voluntários.” Após analisar as entrevistas com os voluntários percebemos que o voluntariado implementa e fomenta melhores práticas de cidadania nos jovens que o realizam. Bekkers (2005, citado por Silva, A., 2012) refere que o voluntariado fomenta a identidade cívica dos indivíduos, em especial dos jovens, e potencia a criação de rede de contactos, competências sociais, entre outros. Inicialmente vemos 2 jovens que estavam reticentes à entrada no projeto pela indiferença que sentiam pelos idosos, e no final apresentam-se com uma mentalidade mais madura e percetiva do mundo que os rodeia. Como referido anteriormente os jovens que realizam voluntariado revelam um maior grau de
41 consciencialização relativamente à promoção dos valores de cidadania. (Ferreira 2008, citado por Serapioni et al., 2013). Na secção 4.5.4 foi elaborado um quadro com cruzamento das transcrições face às hipóteses lançadas. 4.5.4Entrevista com os idosos As entrevistas dirigidas aos idosos foram realizadas com intuito de entender o impacto do projeto sobre o ponto de vista dos mesmos. As mesmas foram conduzidas a três idosos, sendo que dois deles são um casal pelo que apenas realizei uma entrevista para ambos. A Dona júlia, de 87 anos, e o senhor Manuel, de 86 anos, eram alvo de visitas semanais de voluntários e frequentavam semanalmente as oficinas do projeto; por sua vez, a Dona Cândida, de 82 anos, também frequentava as oficinas do projeto menos assiduamente, no entanto tinha visitas semanais de vários voluntários nacionais e internacionais. Em ambas as situações, os idosos foram encaminhados para a SOPRO através de entidades externas que se encontravam familiarizadas com a SOPRO e o projeto ANTI. Q1: “Conheci este projeto através do João 1 e da Associação Humanitária de Rio Covo Santa Eugénia, o João começou a trazer voluntários para cá e na altura ele pedia-me para ir para a SOPRO e como tinha o meu marido doente não conseguia ir, então pedia-lhe para trazer voluntários para cá e assim ia para as oficinas.”- Dona Cândida. Q1: “Olha foi uma história, eu estava a ir à Misericórdia a pagar o aluguer(...),mandaram-me ir lá falar com as senhoras da assistência e eu e o meu marido fomos e lá, começaram-nos a fazer perguntas e eu respondia tudo, o que tinha e não tinha, e depois mandaram cá duas assistentes e elas é que depois falaram com a SOPRO.” - Dona Júlia e Senhor Manuel. Em ambos os casos, a necessidade de acompanhamento já prevalecia. A necessidade de apoio à Dona Cândida devido às circunstâncias em que o marido se encontrava levava a que despertasse a atenção dos assistentes sociais. Já a Dona Júlia e o senhor Manuel viviam em condições de pobreza, o que os levou a serem realojados num Bairro da Santa Casa de Misericórdia em Barcelos. 1 JoãoAssistente Social
42 Quando questionadas relativamente às visitas dos voluntários, em ambas as situações o carinho e o gosto pelas visitas e voluntários era notório. Q6: "Aí sim! Eles ajudaram-me muito, às vezes vinham aqueles de países de fora e eu gostava muito de os ter cá até porque alguns já falavam português e nós passámos aqui tardes a falar dos países deles e eu gostava de conhecer as histórias dos países deles. Eu gostava muito deles e tinha sempre aqui algo para lhes dar e às vezes eles ajudavam-me a fazer a comida e ficavam aqui a almoçar. Olha, fico-lhes para sempre agradecida, sabes?” - Dona Cândida. Q6: “Oh se não foram, e se Deus quiser serão. Nós desabafamos e encontramos soluções para problemas, eles ajudaram muito.” - Senhor Manuel. “Aí eu sempre disse que eles são como netinhos, sempre os tratei como se fossem meus netos.” - Dona Júlia. As oficinas realizadas na sede da SOPRO eram também muito valorizadas pelos idosos, não só pela parte cognitiva e motora que era estimulada como também pelo convívio existente nas sessões onde jovens e idosos partilhavam experiências e histórias. Q7: “Olha aquilo era tão bonito, eu gostava tanto de toda a gente de lá e ficava mesmo feliz e ficava lá a falar com as outras senhoras. Olha eu ia para lá e mandavam-me fazer coisas e eu nem sabia como se fazia mas tinha sempre lá os voluntários e a Cristiana que me ajudavam a fazer as coisas, mas trouxe muitas coisas bonitas, olha tenho aqui tanta coisa que lá fiz e guardo com todo o carinho.”- Dona Cândida . Q7: “Aí eram muito bonitas, nós convivemos muito e rimo-nos muito, eu tenho pouca força nos dedos e eles adormecem-me então as outras senhoras ajudavam-me e os voluntários também.” - Dona Júlia . “Olha era uma maravilha, nós fizemos tantas coisas, ainda tenho tudo aí guardado, tenho aí esse chapéu atrás de ti, e estes quadros que fizemos com linhas, olha eu gostava muito e só queria lá voltar.” - Senhor Manuel. Após várias perguntas é percetível o impacto do projeto e da SOPRO na vida destes idosos, e quando questionadas relativamente ao projeto e ao impacto que o mesmo teve na sua vida, os idosos ficam inevitavelmente emocionados pois relembram o final do projeto, as relações e os momentos que partilharam. Q8: “Olha eu não tenho sequer palavras para agradecer tudo o que fizeram, posso aqui agradecer as vezes que for preciso e nunca irá chegar. Eu quando tinha aqui o meu marido acamado eles vinham
43 me ajudar, porque eu precisava mesmo, estava mesmo cansada e os voluntários ajudaram tanto que me deixavam sair um bocado de casa para eu espairecer a cabeça. E quando o meu marido faleceu, eu fiquei muito em baixo e eles ligavam-me tantas vezes para falar comigo e sabia-me tão bem. É como te digo, o que eu agradeço nunca será suficiente. Eu precisava disto, se não fossem eles eu não sei o que seria de mim. São uma família para mim.” - Dona Cândida. Q8: “ Aí muito, muito, muito! Conhecemos pessoas e estávamos lá a conviver, era por isso que nós gostávamos tanto.” - Senhor Manuel. “Olha nós andávamos mais contentes quando lá íamos e falávamos muito com outras as senhoras de lá e mudávamos o nosso dia, era um dia diferente em que íamos para a SOPRO e fazíamos coisas que nos distraíam os pensamentos.” - Dona Júlia. Em fase final da entrevista foi-lhes pedido que descrevessem o projeto em uma palavra e o justificassem, de forma a ter uma ideia sobre a perceção do significado do projeto para cada um deles. Palavras como “família”, "descoberta individual” e “Convívio” foram sem dúvida aquilo que marcou as entrevistas. Q10: “Aí, eu sei lá, tantas palavras, maravilhoso, lindo, olha família mesmo. Foi o que foram para mim, uma grande família!” - Dona Cândida. Q10: “Descobrir! Era uma forma de conhecermos novas realidades e foi uma forma de nos descobrirmos a nós próprios e a nossa felicidade.” - Senhor Manuel . “Convívio, até me dá vontade de chorar porque realmente aquilo era lindo.” - Dona Júlia. A análise das entrevistas permite corroborar a hipótese 1, “As ações de Voluntariado dirigidas a Idosos criam um forte impacto na vida dos mesmos”. Em ambas as situações analisadas vemos idosos em situações delicadas e que muitas vezes apenas precisam de atenção e acompanhamento. No final do projeto vemos por sua vez idosos que se sentem bem com as atividades e que sentem que possuem “família” onde anteriormente não existia. Como havia sido dito anteriormente, o exercício de ações voluntárias auxilia na definição de objetivos, ajudando o indivíduo a reintegrar-se na sociedade e a atenuar os estereótipos e preconceitos associados às condições dos reformados (Dal-Rio, 2004, citado por Pedrosa, 2017). Araújo & Melo (2011, citado por Pedrosa, 2017), referem que, com o avançar da idade, surgem transformações (e.g., perdas significativas, mudança de papéis profissionais) que potenciam a necessidade de conviver. Através do voluntariado, os indivíduos encontram a possibilidade de se
44 manterem ativos, (…), pois sentem-se úteis e inseridos na sociedade, potenciando a sua saúde e a sua Qualidade de Vida (Souza &Lautert, 2008, citado por Pedrosa, 2017 ) Em forma de conclusão é apresentado um quadro que procura estabelecer ligação entre os grupos de entrevistados e as hipóteses estabelecidas: Figura 4. Quadro de relação entre entrevistados e Hipóteses Fonte: Elaboração Própria
45 VConclusão A presente investigação teve por objetivo perceber de que forma as ações de voluntariado direcionadas a idosos afetam a vida dos mesmos. Como forma de atingir esse objetivo o recurso à organização SOPRO e ao projeto ANTI foram fundamentais. Com a oportunidade de realizar um estágio profissional na SOPRO, tive a oportunidade de intervir de forma direta em vários momentos do projeto, através da realização de visitas. O apoio em várias oficinas foi essencial para entender a importância do tema em questão e para conseguir aproximar-me dos idosos e dos voluntários sem ter muitos entraves ao longo da realização da dissertação. Desta forma e face às hipóteses enunciadas, passa-se a sintetizar os resultados obtidos. Após a finalização do trabalho e investigação apresentada, foi possível concluir que o contributo da SOPRO é significativo quer pelo apoio oferecido aos idosos quer pelas oportunidades criadas para jovens no que toca ao voluntariado. Analisando a hipótese: “As ações de voluntariado permitem uma nova perspetiva relativamente aos problemas dos idosos também nos voluntários.”, c onstata-se que o intercâmbio intergeracional e o voluntariado permitem um crescimento na maturidade emocional dos jovens. A integração nas ações de voluntariado alerta os jovens para os problemas e as realidades enfrentadas pelos idosos permitindo que os voluntários se tornem mais atentos e vigilantes para problemas que afetam os idosos não apenas do projeto, mas também na própria comunidade. Através das entrevistas percebemos o impacto que a sensibilização destes problemas tem na vida dos jovens, que além de ficarem mais atentos ganham um importante senso de impacto na comunidade que por sua vez cria um efeito bola de neve levando a longo prazo à criação de jovens proativos e a um serviço social mais alargado. Por sua vez, relativamente à hipótese “As ações de Voluntariado dirigidas a Idosos criam um forte impacto na vida dos mesmos.”, pode-se afirmar que o mesmo se verifica. Constata-se assim que a organização SOPRO e o projeto ANTI servem como forte estímulo para a vida dos idosos neles inseridos. Desta forma, realça-se a necessidade da criação de projetos que permitam o suporte e acompanhamento de idosos com as mais variadas necessidades. A proteção social para com a pessoa idosa, assente em diferentes esferas, de entre as quais a das solidariedades primárias, é composta por redes informais de parentesco, amizade e vizinhança e a do chamado Terceiro Sector.
46 A instituição família encontra-se constantemente em mudança, com o surgimento de novos elementos e com as mudanças de residências, por exemplo; além disso, os vários elementos da família mantêm regimes de emprego que não permitem o acompanhamento necessário sobre os idosos que o necessitam. É neste sentido que o terceiro setor surge como complemento ao papel desempenhado pelas redes de solidariedade primárias. A SOPRO, através da prática de voluntariado, vem colmatar algumas necessidades dos idosos, tais como o apoio psicológico, os contactos sociais, providenciando bens relacionais, ajuda, comunicação e assistência. Neste estudo verifica-se a necessidade de apoio contínuo a estes idosos que muitas vezes, independentemente do estado civil se sentem mal-acompanhados. O voluntariado permite colmatar insuficiências nas solidariedades familiares e informais, características da sociedade moderna. Conclui-se com este estudo que as ações de voluntariado dirigidas aos idosos criam um forte impacto na vida dos mesmos, confirmando-se assim a hipótese. A SOPRO, é, comprovadamente, uma importante fonte de companhia social e apoio emocional, contribuindo para a estabilidade dos seus idosos inseridos nos seus projetos sociais, em complementaridade com o conjunto de relações pessoais dos indivíduos, protagonizados por agentes, como a família, os amigos e até mesmo os vizinhos. Apesar de tudo, estas redes sociais “complementares” protagonizadas pelos agentes sociais, não vêm substituir a necessidade de uma rede social primária estável e saudável, pelo que as organizações sociais apenas vêm colmatar as insuficiências das solidariedades familiares e informais características da atualidade.
47 Referências Bibliográficas Bandeira, A. & Barbedo, P. (2014). O voluntariado como instrumento de desenvolvimento social e económico. ISCAP: Instituto Politécnico do Porto. Consultado em julho 10, 2023, em https://recipp.ipp.pt/bitstream/10400.22/5139/1/O%20VOLUNTARIADO%2%20Ana%20Bandeira% 20%26%20Patricia%20Barbedo%20-%20CIRIEC.pdf Castel, R. (1999). As metamorfoses da questão social – Uma crônica do salário. Petrópolis: Vozes Casado, Demetrio (1999). Imagen y Realidad de la Acción Voluntaria. Barcelona: Hacer. Coelho, S. 2008 O contributo do voluntariado para o bem-estar dos idosos: estudo de casos (Dissertação de Mestrado). Lisboa: ISCTE. Consultado em abril 23, 2023, em http://hdl.handle.net/10071/1371 Coimbra, C. L. (2011). Existe trabalho involuntário? Consultado em janeiro 15, 2023, em https://outraspalavras.net/sem-categoria/tudo-e-voluntario/ Correia, C. (2012). A Qualidade de Vida e a Solidão em Idosos Institucionalizados e na Comunidade. ISPA – Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida. Consultado em março 23, 2023, em repositório. ispa, pt/bitstream/10400.12/2321/1/15439.pdf Costa, T. (2020). Motivações para a prática de voluntariado: caso dos estudantes do ensino secundário e do ensino superior. Universidade do Minho. Consultado em julho 10, 2023 em https://hdl.handle.net/1822/65777 Delicado, A. (2002). Caracterização do Voluntariado em Portugal. Lisboa; Comissão Nacional para o Ano Internacional dos Voluntários Duarte, J. (2005). Entrevista em profundidade. Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. São Paulo: Atlas, 1, 62-83. Duarte, Rosália. (2004). Entrevistas em pesquisas qualitativas. Educar em Revista, 213-225. Consultado em 18 de julho de 2023, de https://doi.org/10.1590/0104-4060.357 Fuster, E., Olaizola, J. & Ochoa, G. (1995). El apoyo social. Barcelona: PPU
48 Fernandes, N. (2013). A Qualidade de Vida em Idosos Institucionalizados. Beja: Instituto Politécnico de Beja – Escola Superior de Educação. Consultado em março 23, 2023, em http://hdl.handle.net/20.500.12207/615 Fernandes, S. (2020). O Voluntariado e a Pandemia (do Medo)! Consultado em julho 10, 2023, em http://diretorio.sector3.pt/Posts/Details/51-O-Voluntariado-e-a-Pandemia-(do-Medo)! Ferreira, M., Proença, T. & Proença, F. J. (2008). As motivações no trabalho voluntário. Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão Leigh, et al. (2011). Universal Values for Global Wellbeing: 2011 State of the World's Volunteerism Report. Magalhães, M. & Ferreira, M. R. (2014). Uma abordagem teórica sobre o voluntariado empresarial. Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão. Consultado em março 21, 2023, em http://hdl.handle.net/10400.22/5467 INE. (2019). Conta Satélite da Economia Social (2016) + Inquérito ao Trabalho Voluntário (2018). Lisboa, Portugal: INE, Instituto Nacional de Estatística. Consultado em julho 10, 2023, em https://www.cases.pt/wp-content/uploads/2019/11/Livro-Conta-Satélite-Voluntariado.pdf IDS (2002). Guia do Voluntariado: Conselho Nacional para o Desenvolvimento Social. Instituto de Desenvolvimento Social. Morais, Pedro (2022). Visões da Economia Social. Leya: Lisboa. NU (2001). Measuring Volunteering: A Practical Toolkit, A joint project of Independent Sector and United Nations Volunteers. Alemanha: United Nation. NU (2022). Mulheres são a maioria de mais de 1 bilhão de voluntários pelo mundo. Consultado em março 21, 2023, em https://news.un.org/pt/story/2022/12/1806282 OMS, (2005) Envelhecimento ativo: Uma política de saúde. Brasília Pedrosa, M. (2017). Envelhecimento: Impacto da Implementação de um Projeto de Voluntariado Sénior numa IPSS. Instituto politécnico de Bragança. Consultado em julho 10, 2023 em https://bibliotecadigital.ipb.pt/bitstream/10198/18881/1/Maria%20José%20Ferreira%20Camisa%20 P edrosa.pdf
56 Q7 - Sentiste alguma resistência por parte dos idosos quanto começaste no projeto? CNão necessariamente. À exceção da barreira linguística, todos os idosos eram muito acolhedores e calorosos para mim. Desde o primeiro dia que me conheceram, todas as senhoras me abraçavam e me davam beijos e desejavam boa sorte. Q8Sentiste que a tua presença vez a diferença na vida ou dia daquela pessoa? CEu penso que sim, talvez não para toda a gente, mas muitas vezes a Dona Cândida dizia-me o quanto a minha presença e a dos outros dos voluntários a ajudaram não só para a companhia que lhe fazíamos mas mais importante quanto nós fazíamos companhia ao Sr. André permitindo que ela saísse de casa, esvaziasse a mente e fosse socializar um pouco. Q9O quão importante achas que este projeto foi na vida destas pessoas? CFoi bastante importante porque foi maioritariamente um espaço e convívio para eles e para se divertirem um pouco e se encontrarem com velhos amigos, mas também participaram em workshops que lhes fizeram puxar pela cabeça, acreditarem mais em si mesmos e no que são capazes. Muitas vezes as pessoas idosas deixam-se ir abaixo quando pensam no que a idade os impede de fazer, mas estes projetos que promovem projetos artísticos e a conexão entre gerações podem ajudar na sua autoconfiança! Q10Quais foram as maiores dificuldades que sentiste quando participaste neste projeto? CPara mim a maior dificuldade foi definitivamente a linguagem que não me permitia comunicar a 100% com as pessoas. Q11Aconselhas que mais organizações ou associações trabalhem com idosos? CSim, definitivamente precisamos de mais projetos como este. Eu própria planeio fazer algo parecido quando voltar para Itália. Q12Quais achas que foram os principais outputs deste projeto? CO projeto definitivamente ajudou com a confiança dos idosos, mas também acho que deu aos jovens uma melhor perceção das necessidades e da preciosidade dos idosos.
57 Entrevista com voluntários –Sara Carneiro Q1Como te Chamas? SaraSara Neto Carneiro Q2Quantos anos tens? S17 anos Q3De onde vens? SSou de Gamil Barcelos Q4Como vieste a conhecer a SOPRO e o projeto “amor não tem idade”? CConheço a associação SOPRO desde que frequento o Colégio La Salle. Esta sempre teve a sua notável presença na escola, desde a apresentação de projetos, como a recolha de alimentos e o apadrinhamento de crianças de Moçambique, entre outros. Conheci o projeto “Amor não tem idade” principalmente através de um dos fundadores. Q5Qual a razão que te levou a querer ser voluntário neste projeto? SSenti, junto dos meus colegas, a necessidade de ajudar os outros e fazer algo útil pela sociedade, com um maior comprometimento e regularidade. Estávamos dispostos a entrar e fazer parte de algum projeto das proximidades, e quando nos fora proposto o projeto do Amor não tem idade, achamos que seria indicado e identificamo-nos com ele, pelo facto de já termos gostado de uma experiência curta anterior com idosos em um centro de dia Q6Achas que trabalhar com idosos te fez ter uma perspetiva diferente deles? SSinceramente, inicialmente, eu ponderei sobre a entrada para o projeto e imaginava que realisticamente não me ia conseguir adaptar a estar com idosos. Sempre os respeitei e pensei que tinham algo a mais para me oferecer, contudo a meu ver eu não estava qualificada o suficiente para ouvir as suas histórias e as suas dores, muito diferentes das minhas próprias dores e da minha realidade. Estes idosos passaram por vários estágios de vida e muitas coisas que fizeram provavelmente eu não as farei. Mas os idosos neste projeto mostraram-me que eles só precisavam de ser ouvidos. Trabalhar com eles fez-me ter a certeza de que nunca entenderei alguns dos seus pensamentos, por vezes ultrapassados, mas que dentro deles também está uma certa ternura, e desse charme antigamente não era visível aos meus olhos.
58 Q7Sentiste alguma resistência por parte dos idosos quanto começaste no projeto? SA meu ver, sempre foram muito abertos connosco e estavam sempre dispostos a fazer as atividades em conjunto, pedindo ajuda e fazendo perguntas acerca do que era para realizar. Claro que houve aquela primeira barreira, mas é normal quando conhecemos alguém pela primeira vez. Se bem me lembro, na primeira atividade em que estive presente, os idosos tentaram perguntar-nos quem éramos e queriam todos que os ajudássemos a realizar a atividade. Q8Sentiste que a tua presença fez a diferença na vida ou dia daquela pessoa? SSim, tanto a minha como a dos outros voluntários e organizadores do projeto. Acho que foi uma das primeiras vezes que senti que realmente fazia diferença na vida de alguém, e por esse motivo tentava sempre estar presente. O carinho que os idosos têm por mim e por estas pessoas demonstra o quanto dedicarmos o nosso tempo como voluntário vale a pena, que pode melhorar o dia daquela pessoa. Relembro que muitos deles mencionaram que só por irem ao projeto que o seu dia já valia a pena. Por mais que às vezes tenham alguém para os visitar em casa, muitas vezes acabam por estar sozinhos ou sem algo para fazer que seja diferente do habitual. Então terem a oportunidade de desenvolverem várias habilidades e de estarem todos juntos, ou até mesmo de conversar com alguém durante uma visita, certamente traz-lhes um sorriso para o rosto. E ser parte disso realmente faz com que a minha presença faça a diferença no dia de algum dos idosos. Nas visitas, mesmo que seja por pouco tempo, a idosa fica feliz por me ver semanalmente. Q9O quão importante achas que este projeto foi na vida destas pessoas? SSentimos mais falta é quando perdemos algo ou alguém. E essa frase adequa-se neste contexto na medida de que eu finalmente me apercebi profundamente da importância deste projeto na vida das pessoas quando vi as suas reações quando as oficinas acabaram, e a nostalgia de quando atualmente falam sobre elas. Para além disso, o sorriso e o carinho dos idosos quando falavam que gostam muito de estar lá e da companhia dos voluntários é uma das maiores provas. Neste projeto eles puderam ser ouvidos e ouvir-se uns aos outros e compartilhar as suas histórias fossem elas boas ou más, algo que provavelmente muitos sentiram falta durante os momentos mais amargurantes da sua vida. Q10Quais foram as maiores dificuldades que sentiste quando participaste neste projeto? STendo uma visão geral sobre o tempo que estou inserida neste projeto, vejo que não tive tantas dificuldades como imaginaria ao início. A pior foi quando existiam brigas entre os idosos e eu, como voluntária, tinha que ser neutra e tentar amenizar a situação, mesmo por vezes não sabendo como
59 reagir muito bem a certos argumentos e ações. Para além disso, como somos poucos voluntários e muitos idosos para a proporção, todos queriam ajuda, mas eu nem sempre era capaz de ajudar a todos. O facto de não conseguir ajudar todos ou de, por vezes ter que optar por dar uma mão a um e não a outro, trazia-me um sentimento de culpa. A acrescentar a essas dificuldades, como já mencionei, os idosos são muito carinhosos. Junto a isso veem muitas palavras carinhosas e toque físico como uma demonstração do carinho que tinham por nós, e pessoalmente como alguém que não lida muito bem com isso, foi um pouco difícil a adaptação, porém fui entendendo ao logo do tempo. Por último, mas não menos importante, desta vez direcionado às visitas às casas dos idosos, mais especificamente, o mais difícil a meu ver é manter e ter ideias para seguir com uma conversa fluída por cerca de hora e meia. Q11Aconselhas que mais organizações ou associações trabalhem com idosos? SAconselho, por mais que por vezes seja difícil e que nem todos os idosos sejam iguais. Porém, a verdade é que os idosos têm muito a oferecer, e eles também precisam que essa ajuda lhes seja oferecida.
60 Anexo 3Entrevistas com Idosos Entrevista com a Dona Cândida Q1Qual o seu nome completo? Dona CândidaMaria Cândida Bouças de Brito. Q2Quantos anos tem? DC82 anos. Q3Como é que conheceu o projeto "Amor não tem idade”? DCConheci este projeto através do João e da Associação Humanitária de Rio Covo Santa Eugénia, o João começou a trazer voluntários para cá e na altura ele pedia-me para ir para a SOPRO e como tinha o meu marido doente não conseguia ir, então pedia-lhe para trazer voluntários para cá e assim ia para as oficinas. Q4E a SOPRO como é que conheceu? DCA SOPRO eu conheci na altura que conheci o João porque a diretora da Associação de Santa Eugénia apresentou-me o João por causa disto (ANTI), ela dizia-me que o João tinha um projeto para mim e então começou a vir cá a minha casa e fazia uma festa tão grande a ver o meu marido e ele gostava tanto do João. Q5Na altura entrou no projeto porque o João lá a convenceu a participar, certo? DCSim o João como disse começou a vir cá e depois trazia voluntários e depois com o tempo também comecei a ir também para as oficinas quando os voluntários ficavam cá com o meu marido. Q6E sentia que os voluntários eram uma boa companhia? DCAí sim! Eles ajudaram-me muito, às vezes vinham aqueles de países de fora e eu gostava muito de os ter cá até porque alguns já falavam português e nós passamos aqui tardes a falar dos países deles e eu gostava de conhecer as histórias dos países deles. Eu gostava muito deles e tinha sempre aqui algo para lhes dar e às vezes eles ajudavam-me a fazer a comida e ficavam aqui a almoçar. Olha, fico-lhes para sempre agradecida, sabes?
61 Q7E quando participava nas oficinas, como se sentia? DCOlha aquilo era tão bonito, eu gostava tanto de toda a gente de lá e ficava mesmo feliz e ficava lá a falar com as outras senhoras. Olha eu ia para lá e mandavam-me fazer coisas e eu nem sabia como se fazia mas tinha sempre lá os voluntários e a Cristiana que me ajudavam a fazer as coisas, mas trouxe muitas coisas bonitas, olha tenho aqui tanta coisa que lá fiz e guardo com todo o carinho. Q8Acha que este projeto afetou a sua vida ou os seus dias de alguma forma? DCOlha eu não tenho sequer palavras para agradecer tudo o que fizeram, posso aqui agradecer as vezes que for preciso e nunca irá chegar. Eu quando tinha aqui o meu marido acamado eles vinham me ajudar, porque eu precisava mesmo, estava mesmo cansada e os voluntários ajudaram tanto que me deixavam sair um bocado de casa para eu espairecer a cabeça. E quando o meu marido faleceu, eu fiquei muito em baixo e eles ligavam-me tantas vezes para falar comigo e sabia-me tão bem. É como te digo, o que eu agradeço nunca será suficiente. Eu precisava disto, se não fossem eles eu não sei o que seria de mim. São uma família para mim. Q9Recomendava este projeto a mais gente? DCOlha eu falo disto com toda a gente, eu recomendo e acho que fazem muito bem e dão uma grande ajuda. Havia era de ter sido mais tempo. Q10Se pudesse descrever o projeto numa palavra qual seria? DCAí, eu sei lá, tantas palavras, maravilhoso, lindo, olha família mesmo. Foi o que foram para mim, uma grande família!
62 Entrevista Dona Júlia e Senhor Manuel Q1 - Podem-me dizer o vosso nome completo? Dona Júlia (DJ) - Maria Júlia Carvalho Rodrigues Senhor Manuel (SM) - Manuel Oliveira Torres Q2E as vossas idades? DJ87 anos SM86 anos Q3Como conheceram o projeto “Amor não tem Idade” e a SOPRO? DJOlha foi uma história, eu estava a ir à Misericórdia pagar o aluguer e o senhor perguntou-me se o meu falecido filho que tinha tido um AVC à pouco tempo, na altura ganhava alguma coisa e eu disse que não que eu é que lhe pagava tudo e ele mandou-me falar com as senhoras do apoio social, eu nunca fui de pedir nada, sabes? Mas mandaram-me ir lá falar com as senhoras da assistência e eu e o meu marido fomos e lá, começaram-nos a fazer perguntas e eu respondia tudo, o que tinha e não tinha, e depois mandaram cá duas assistentes e elas é que depois falaram com a SOPRO. Q4Então vocês não conheciam a SOPRO antes certo? SMSim, nós não conhecíamos nada, nem sabíamos o que era, mas depois lá fomos e gostamos muito. Q5Vocês então vieram para a SOPRO por intermédio da Misericórdia? SM e DJSim sim, na altura não fizemos nada, eles depois de lá irmos mandaram cá vir as senhoras e depois olha lá fomos e íamos com a carrinha, vinham-nos buscar e nós íamos para lá, e às vezes os voluntários também cá vinham. Q6Sentiram que os voluntários foram uma boa companhia e ajuda durante as visitas? SMOH se não foram, e se Deus quiser serão. Nós desabafamos e encontramos soluções para problemas, eles ajudaram muito. DJAí eu sempre disse que eles são como netinhos, sempre os tratei como se fossem meus netos.
63 Q7Como se sentiam quando faziam as Oficinas? DJAí eram muito bonitas, nós convivemos muito e rimo-nos muito, eu tenho pouca força nos dedos e eles adormecem-me então as outras senhoras ajudavam-me e os voluntários também. SMOlha era uma maravilha, nós fizemos tantas coisas, ainda tenho tudo aí guardado, tenho aí esse chapéu atrás de ti, e estes quadros que fizemos com linhas, olha eu gostava muito e só queria lá voltar. Q8-Acham que este projeto afetou ou mudou a vossa vida de alguma forma? SMAí muito, muito, muito! Conhecemos pessoas e estávamos lá a conviver, era por isso que nós gostávamos tanto. DJOlha nós andávamos mais contentes quando lá íamos e falávamos muito com outras as senhoras de lá e mudávamos o nosso dia, era um dia diferente em que íamos para a SOPRO e fazíamos coisas que nos distraíam os pensamentos. Q9Recomendam este projeto a mais pessoas? SM e DJAí sim muito, nós às vezes tínhamos aqui uma vizinha que infelizmente não conseguia entrar no projeto e ficava aqui connosco junto com os voluntários e gostava muito. Q10Se pudesse descrever o projeto numa palavra qual seria? SMDescobrir! Era uma forma de conhecermos novas realidades e foi uma forma de nos descobrirmos a nós próprios e a nossa felicidade. DJ-Convívio, até me dá vontade de chorar porque realmente aquilo era lindo. Q11Voltaria a participar caso tivesse oportunidade? SMEra a minha maior alegria, só queria que voltasse e só peço a Deus que consigam voltar a fazer o projeto porque as pessoas precisam disso. DJNem que metam lá só uma mesa para nós irmos conversando, olha ao menos ajudava a ocupar a cabeça.