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Luso(A)fonias: memórias cruzadas sobre o colonialismo português

Cabecinhas, Rosa

Abstract

Neste artigo revisitamos um conjunto de estudos sobre as representações sociais da história nacional realizados junto de jovens em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e Timor-Leste. Em cada um desses países foram recolhidos dados com vista a examinar as representações sociais da história nacional e as emoções associadas aos acontecimentos considerados mais marcantes, entre os quais se destacaram os referentes ao processo de colonização e as guerras de libertação. Os resultados apontam para ambiguidades, ambivalências e contradições nas representações sociais da história que “liga” os países de língua oficial portuguesa. De um modo geral, observa-se um “desencontro” das memórias sobre o passado colonial. Esse desencontro das memórias sobre o “passado comum” é particularmente evidente quando comparamos as memórias históricas de jovens angolanos e de jovens portugueses: enquanto os participantes portugueses destacam os descobrimentos os participantes angolanos destacam a escravatura, o tráfico de escravos e os massacres. Tomando de empréstimo a expressão de Mia Couto (2009), globalmente os resultados espelham Luso(A)fonias e demonstram o quão desafiante é a escuta ativa de outras fonias.

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MeMórias da Violência colonial: reconhecimentos do passado e lutas pelo futuro https://doi.org/10.15448/1980-864X.2019.2.32857 ESTUDOS IBEROAMERICANOS Estudos Ibero-Americanos , Porto Alegre, v. 45, n. 2, p. 16-25, maio-ago. 2019 Este artigo está licenciado sob forma de uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional, que permite uso irrestrito, distribuição e reprodução em qualquer meio, desde que a publicação original seja corretamente citada. https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt_BR Luso(A)fonias . Memórias cruzadas sobre o colonialismo português Luso(A)fonias. Crossed Memories on Portuguese Colonialism Luso(A)fonias. Recuerdos cruzados sobre el colonialismo portugués Rosa Cabecinhas Universidade do Minho, Braga, Portugal. Resumo Neste artigo revisitamos um conjunto de estudos sobre as representações sociais da história nacional realizados junto de jovens em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e Timor-Leste. Em cada um desses países foram recolhidos dados com vista a examinar as representações sociais da história nacional e as emoções associadas aos acontecimentos considerados mais marcantes, entre os quais se destacaram os referentes ao processo de colonização e as guerras de libertação. Os resultados apontam para ambiguidades, ambivalências e contradições nas representações sociais da história que “liga” os países de língua oficial portuguesa. De um modo geral, observa-se um “desencontro” das memórias sobre o passado colonial. Esse desencontro das memórias sobre o “passado comum” é particularmente evidente quando comparamos as memórias históricas de jovens angolanos e de jovens portugueses: enquanto os participantes portugueses destacam os descobrimentos os participantes angolanos destacam a escravatura, o tráfico de escravos e os massacres. Tomando de empréstimo a expressão de Mia Couto (2009), globalmente os resultados espelham Luso(A)fonias e demonstram o quão desafiante é a escuta ativa de outras fonias. Palavras-chave: Memória social. Colonialismo. Luso(A)fonias. Abstract In this article, we review a series of studies on social representations of national history carried out among young people in Angola, Brazil, Cape Verde, Guinea-Bissau, Mozambique, Portugal, and East Timor. In each one of these countries, data were collected to examine the social representations of national history and the emotions associated with the most important events, among which the colonization process and the wars of liberation stood out. The results point to ambiguities, ambivalences, and contradictions in the social representations of history that “binds” Portuguese-speaking countries. In general, one observes a “mismatch” of memories about the colonial past. This mismatch of memories about the “common past” is particularly evident when we compare the historical memories of the young Angolans and of the Portuguese youth: while the Portuguese participants highlight the discoveries, the Angolan participants highlight the slavery, the slave trade, and the massacres. Borrowing the expression of Mia Couto (2009), globally the results mirror Luso(A)fonias and demonstrate how challenging is the active listening and engagement with of Other. Keywords: Social memory. Colonialism. Luso(A)fonias. Resumen En este artículo revisamos un conjunto de estudios sobre las representaciones sociales de la historia nacional realizado con jóvenes de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guinea-Bisáu, Mozambique, Portugal y Timor Oriental. En cada uno de estos países se recogieron datos para analizar las representaciones sociales de la historia nacional y las emociones asociadas a los acontecimientos considerados como más destacados, entre los que se encuentran los referentes al proceso de colonización y las guerras de liberación. Los resultados apuntan a ambigüedades, ambivalencias y contradicciones en las representaciones sociales de la historia que “vincula” a los países de habla portuguesa. En términos generales se observan “desencuentros” en los recuerdos sobre el pasado colonial. Este desencuentro en los recuerdos sobre el “pasado común” se hace especialmente evidente cuando se comparan los recuerdos históricos de los jóvenes angoleños con los de los jóvenes portugueses: mientras que los participantes portugueses destacan los descubrimientos, los participantes de Angola resaltan la esclavitud, la trata de esclavos y las matanzas. Tomando prestada la expresión de Mia Couto (2009), en su conjunto los resultados reflejan Luso(A) fonias y muestran cuán desafiante es la escucha activa de otras voces. Palabras clave: Memoria social. Colonialismo. Luso(A)fonias. dados biográficos da autora_biographical data of the author 17 Estudos Ibero-Americanos , Porto Alegre, v. 45, n. 2, p. 16-25, maio-ago. 2019 Cabecinhas, R. | Luso(A)fonias. Memórias cruzadas sobre o colonialismo português Introdução “[...] poku poku guentis sta ta skeci / bu sta mori manenti na mimoria di nos povu / bu storia ta duvidadu pa gerason mas nobu / nem bu imagem ka sta mas na livru primaria / na dinheru djes trau / [...] bu bai bu dexa puema pa nôs kriança ki e flor di revoluson i di sperança / mas mesmu si ka sta xinti bu prizensa / kriança sta nasi e ka konxi storia di ses eróis / alguem ki da si vida pa liberta si povo se foi / es ta trokau pa eróis virtuais / homem-arranha, super-homem.”1 (Pomba Preto, Abel Djassi, 2010) “Portugal gosta de ser um país aberto que recebe pessoas que vêm de todas as partes do mundo [...] Conectar pessoas de todo o mundo faz parte do nosso ADN. Começámos há 600 anos a conectar a Europa à África, à Ásia, à América. No próximo ano comemoraremos os 500 anos da primeira viagem de circum-navegação do globo por Fernão de Magalhães. Desde então, sempre fomos um ponto de encontro entre povos e culturas. Um polo de migração e um impulsionador do comércio global.” (António Costa, websummit2018) As palavras do Primeiro-Ministro português na sessão de abertura do Websummit2018 remetem para uma ideia recorrente na esfera pública portuguesa: a alegada “abertura ao mundo” do povo português e o seu papel pioneiro como “ponto de encontro” entre povos e culturas, sendo esse “encontro” associado ao período dos “descobrimentos”, que continua a figurar como a “época de ouro” da nação, da qual são dissociados os efeitos mais nefastos da colonização. Nos livros escolares, na toponímia das cidades, nos média e nos discursos de políticos, gestores e até de agentes culturais, os “descobrimentos” continuam sendo evocados como prova de que a interculturalidade está no “ADN” dos portugueses, reivindicando assim uma especial apetência como mediadores de conflitos internacionais2. 1 “Pouco a pouco as pessoas estão a esquecer / estás paulatinamente a morrer na memória do nosso povo / a geração mais nova duvida da tua história / a tua imagem já não se encontra nos livros da escolaridade básica / tiraram-te do dinheiro / [...] foste e deixaste poemas para as nossas crianças que são as flores da revolução e de esperança / mas mesmo assim não se sente a tua presença / crianças nascem e não conhecem a história dos seus heróis / alguém que deu a sua vida para a libertação do seu povo se foi / trocaram-no por heróis virtuais / homemaranha, super-homem” (ABEL DJASSI, 2010, tradução de Barros; Lima, 2012, p. 101). 2 Por exemplo, os discursos de Aníbal Cavaco Silva e de Marcelo Rebelo de Sousa em numerosas ocasiões (ver SOUSA, 2017 para uma revisão crítica). Mas como é que esse passado é recordado e evocado hoje nos países que fizeram parte do império colonial português? Hoje em dia, a música constitui um dos bens culturais que mais circula entre os países de língua oficial portuguesa (VANSPAUWEN, 2013). No que respeita ao rap, alguns textos alertam explicitamente para o risco de branqueamento da memória histórica. Por exemplo, como salientam Barros e Lima (2012, p. 101), as palavras de Abel Djassi (2010) denunciam as tentativas de “branqueamento da história nos espaços institucionais”, mas são frequentemente encaradas como sendo posturas de “alguns jovens periféricos”. Ao escutar atentamente essas outras “fonias” é notória a preocupação com a “salvaguarda da memória” de heróis3 que continuam remetidos para o silêncio na esfera pública e o alerta para os “perigos da história única” (ADICHIE, 2009). Trata-se de uma questão extremamente vasta e complexa, que implica um olhar interdisciplinar, ou melhor transdisciplinar, dada a diversidade de áreas estudos e perspectivas que poderão dar contributos. Neste trabalho iremos cingir-nos a uma análise comparativa das percepções dos jovens de diversos países de língua oficial portuguesa sobre a história do seu país e como nesse âmbito é espontaneamente recordado o passado colonial. Na seção seguinte apresentamos um breve enquadramento teórico e metodológico do programa de pesquisa que deu origem aos estudos que iremos revisitar de forma comparativa. Lembrança, esquecimento e assimetria simbólica De acordo com Saint-Laurent “o passado nunca foi tão relevante para o presente quanto no mundo da pósverdade de hoje” (2017, p. 147). Por seu turno, Martins argumenta que as comunidades humanas sempre se confrontaram com a questão da ordem e da história: “Neste aspecto, a nossa época não é distinta de todas as outras. E, todavia, estas questões, a da ordem e a da história, colocam-se hoje com particular acuidade” (2017, p. 11). De fato, nos dias de hoje é crucial entender como as pessoas se relacionam com a história e compreender os usos públicos do passado e a sua relação com as dinâmicas identitárias no presente e as agendas para 3 Sobre o silêncio abissal relativamente às heroínas e o profundo androcentrismo que continua a caracterizar a memória pública contemporânea ver, por exemplo, Cabecinhas (2018). 18 Estudos Ibero-Americanos , Porto Alegre, v. 45, n. 2, p. 16-25, maio-ago. 2019 Cabecinhas, R. | Luso(A)fonias. Memórias cruzadas sobre o colonialismo português o futuro. A recente explosão das redes sociais, a intensificação e a diversificação dos fluxos migratórios e a crescente interconectividade e a “mistura” no mundo tornam essa área de estudos particularmente desafiante. Nas últimas décadas houve uma proliferação de debates científicos e políticos em torno da “memória pública”, nomeadamente no que diz respeito às “políticas da memória”, às “políticas de identidade” e aos “direitos de memória”. Na nossa perspectiva, a memória é simultaneamente um processo e um produto social, que compreende lembrança e esquecimento seletivos. As dinâmicas da memória coletiva não podem ser entendidas sem ter em conta as relações de poder, as forças assimétricas e os filtros que operam em determinado contexto cultural, a agência individual e grupal, as experiências e trajetórias pessoais, e as “ferramentas” e “veículos” da memória, tanto em suas formas corporificadas quanto tecnológicas. A memória não é apenas a lembrança objetiva de acontecimentos ou o simples armazenamento de um passado fixo. É um processo seletivo de interpretação e reconstrução permanente, que compreende lembrança e esquecimento. A memória coletiva tem sido uma arena privilegiada de luta simbólica entre grupos devido ao seu potencial de legitimação das agendas atuais e futuras. A memória constitui uma âncora vital para os processos identitários, uma âncora que não é estática e fixa, mas sim maleável e fluida, com fios amaranhados” e “nós cegos”. Tais “nós cegos” são particularmente evidentes na ainda muito escassa pesquisa sobre a memória histórica da colonização portuguesa (CABECINHAS; LIMA; CHAVES, 2006; CARDINA; MARTINS, 2018). Rothberg (2009) salientou a necessidade de se ativar uma memória pública “multidirecional”, em que diferentes memórias não sejam percebidas em uma lógica concorrencial entre grupos. Mas, como articular os diversos passados a partir de uma perspectiva “não competitiva” em um contexto em que a memória pública constitui um verdadeiro “campo de batalha” (CUNHA, 2006)? Como salienta Cardina, “todos os Estados, nações e comunidades possuem ‘políticas de memória’, ou seja, mecanismos através dos quais se selecionam marcos históricos e se constituem narrativas, instituições e valorações que as dotam de conteúdo e sentido”. Isto é, as “políticas da memória” são indissociáveis das “políticas de silêncio”, através das quais se constroem versões seletivas do passado. Tais políticas pressupõem um silêncio, que é construído socialmente (WINTER, 2010), e que se constitui como um “espaço em branco” (KHAN, 2017). Na nossa acepção, a memória social é simultaneamente um processo e um produto da atividade criativa das pessoas e dos grupos, em permanente (re)construção, influenciando e sendo influenciada pelas trajetórias de vida e pelo contexto envolvente. Assim, o conceito de memória social está intimamente relacionado com outros dois conceitos fundamentais: identidades sociais e representações sociais. No entanto, a articulação entre esses conceitos não pode ser feita em um vazio social e sem ter em consideração as múltiplas e persistentes assimetrias de poder que marcam a vida das pessoas e as suas trajetórias, assim como as interações interpessoais e intergrupais quotidianas (AMÂNCIO, 2017; CABECINHAS; CUNHA, 2017). Logo, no nosso entendimento, as dinâmicas da memória social só podem ser compreendidas na sua interligação com os processos identitários, as representações sociais e o contexto social e cultural envolvente. Com o objetivo de auscultar as memórias históricas de jovens sobre o passado colonial realizamos um conjunto de estudos sobre as representações sociais da história mundial e da história nacional através de um inquérito por questionário. Nesse inquérito não havia qualquer afirmação ou questão sobre colonialismo ou sobre colonização, nem era fornecida qualquer lista de acontecimentos para os participantes se posicionarem. O objetivo era analisar as memórias históricas espontâneas dos jovens, por isso as questões foram colocadas de forma a não condicionar as respostas. Neste artigo revisitamos de forma comparativa os resultados referentes às representações da história nacional. No total, participaram nesse estudo 1106 estudantes universitários. Os estudantes foram convidados a participar em um estudo internacional sobre história, sendo-lhes explicado que o que interessava era a sua opinião pessoal e não o seu nível de conhecimentos. Os participantes foram convidados a responder a um conjunto de questões abertas sobre os acontecimentos da história do seu respectivo país (Angola, por exemplo). Do ponto de vista empírico, procedemos a uma triangulação metodológica, que passou pela realização de inquéritos por questionário, entrevistas, grupos focais e a análise de discursos nas redes sociais digitais (CABECINHAS, 2018; CABECINHAS; ABADIA, 2013). Foram utilizados os mesmos procedimentos de recolha e de tratamento de dados nos vários países, de modo a permitir análises comparativas. 19 Estudos Ibero-Americanos , Porto Alegre, v. 45, n. 2, p. 16-25, maio-ago. 2019 Cabecinhas, R. | Luso(A)fonias. Memórias cruzadas sobre o colonialismo português Os resultados referentes aos acontecimentos mais mencionados em cada um dos países foram apresentados em trabalhos anteriores (e.g. CABECINHAS et al., 2006; CABECINHAS; ÉVORA, 2008; CABECINHAS; NHAGA, 2008; FEIJÓ; CABECINHAS, 2009; MENDES et al., 2010). Na seção seguinte, iremos revisitar, de forma comparativa, os dados relativos à evocação espontânea de acontecimentos da história nacional, focando a nossa atenção nos acontecimentos que dizem respeito ao passado colonial. Memórias cruzadas sobre o passado colonial Nesta seção iremos discutir, de forma comparativa, os resultados referentes à evocação livre de acontecimentos da história nacional. No inquérito realizado nas instalações de Ensino Superior, no qual os estudantes participaram voluntariamente, foi pedido aos participantes para listarem os cinco acontecimentos que consideravam mais importantes na história do seu país4. Uma vez efetuada a listagem, os participantes deveriam avaliar o impacto (positivo ou negativo) de cada um dos acontecimentos e, posteriormente, indicar as emoções associadas a tal acontecimento. A evocação dos acontecimentos, das personalidades e das emoções foi efetuada de forma completamente livre (não foi fornecida qualquer listagem prévia aos participantes para não condicionar as suas respostas). As respostas dos participantes dos diversos países revelam convergências e divergências no modo de pensar a história nacional. No que respeita às convergências destaca-se o facto de os jovens pensarem a história nacional em função de momentos-chave que assinalam a formação das fronteiras da nação e a sua independência. Assim, a independência nacional foi o acontecimento mais mencionado pelos participantes angolanos (“independência de Angola”: 86%), cabo-verdianos (“independência de Cabo Verde”: 84%) e moçambicanos (“independência Nacional”: 82%), sendo considerado um dos acontecimentos mais positivos na história da nação, ao qual foram associadas emoções consensualmente positivas, entre as quais se destacam o “orgulho” e a “alegria”. Por seu turno, a “declaração da independência da Guiné” 4 Os questionários aplicados nos diferentes países tinham a mesma estrutura básica e foram redigidos em língua portuguesa, tendo sido efetuadas pequenas adaptações de conteúdo e de linguagem em função do país em causa. A aplicação do questionário foi efetuada por investigadores dos respectivos países. foi o terceiro acontecimento mais mencionado por participantes guineenses (44%), sendo a “guerra Civil” o acontecimento mais mencionado (86%). Os participantes timorenses destacaram a [restauração da] independência de Timor-Leste, a 20 de Maio de 2002 (46%) e os acontecimentos que a precederam, nomeadamente o referendo de 1999 (44%) e o Prémio Nobel da Paz atribuído a Ximenes Belo e a Ramos Horta em 1996 (15%). A invasão de Timor-Leste pela Indonésia em 1975 (31%) e os diversos massacres que ocorreram no território durante a ocupação indonésia foram os acontecimentos considerados mais negativos na história do país. O massacre de Santa Cruz (12 de Novembro de 1991) foi o acontecimento mais referido pelos participantes (78%), sendo considerado o acontecimento que despertou a consciência internacional e despoletou uma série de campanhas a favor da autodeterminação do povo timorense, o que veio a permitir a realização do referendo que conduziu à restauração da independência. Os participantes brasileiros destacaram sobretudo a “ditadura militar” (72%), a “abolição da escravatura” (46%) e a “independência do Brasil” (41%). O “descobrimento do Brasil” (28%) e as revoltas contra a colonização portuguesa durante os séculos XVIII e XIX obtiveram algum destaque (por exemplo, a inconfidência mineira). Os participantes portugueses destacaram o 25 de Abril de 1974 (81%), que assinala o fim da ditadura, e referiram a “fundação” do estado português (20%) e a “restauração” da independência (11%), acontecimentos aos quais foram associadas emoções positivas. Um dos aspetos em que os dados divergem nesses países diz respeito aos acontecimentos relacionados com os descobrimentos, o colonialismo e a descolonização. Os participantes portugueses colocaram os “descobrimentos” como o 2º evento mais importante da história nacional (80%), só superado em termos de nomeações espontâneas pelo “25 de Abril de 1974” (81%). Sendo um acontecimento bastante remoto, a elevada saliência cognitiva dos “descobrimentos” deve-se ao fato de este ser constantemente reatualizado nos manuais escolares e nos média, onde é apresentado como o momento mais “glorioso” da história nacional (MIRANDA, 2002). A maior parte dos participantes portugueses se referiu genericamente aos “descobrimentos” ou aos “descobrimentos portugueses”. Outros mencionaram especificamente a “descoberta do caminho marítimo para a Índia” ou a “descoberta do Brasil”. Em qualquer dos casos os “descobrimentos” foram considerados pelos 20 Estudos Ibero-Americanos , Porto Alegre, v. 45, n. 2, p. 16-25, maio-ago. 2019 Cabecinhas, R. | Luso(A)fonias. Memórias cruzadas sobre o colonialismo português participantes portugueses de forma consensualmente positiva e suscitaram emoções positivas, sobretudo orgulho, alegria, felicidade e fascínio. O “descobrimento do Brasil” foi evocado por 28% dos participantes brasileiros (sétimo evento mais mencionado no contexto da história nacional). Verificaram-se também referências espontâneas à “chegada dos portugueses” (8%), à “vinda da família real” portuguesa para o Brasil (9%), e à “colonização portuguesa” (6%). Os participantes brasileiros reportaram emoções ambivalentes face à presença portuguesa: os que mencionaram a “vinda da família real” para o Brasil associaram-na a emoções positivas enquanto os que referiram a “colonização portuguesa” declararam emoções negativas. O “descobrimento do Brasil” suscitou sentimentos ambivalentes da parte dos participantes brasileiros, que indicaram uma mistura de emoções (decepção, revolta, alegria, admiração e indiferença). Quando confrontamos esse padrão de resultados com o obtido em relação à história mundial (CABECINHAS et al., 2006), constatamos que enquanto para os participantes portugueses os descobrimentos suscitaram emoções fortemente positivas independentemente do enquadramento da evocação desse acontecimento (história mundial ou história nacional), os participantes brasileiros expressaram emoções mais negativas quando evocaram os descobrimentos no contexto da história nacional do que no contexto da história mundial. Esse padrão de resultados poderá dever-se ao fato de o contexto nacional poder conduzir a uma maior ativação das “críticas recentes” (VALE DE ALMEIDA, 2004). A “colonização de Angola” foi mencionada por 7% dos participantes angolanos e a “chegada dos portugueses” (em 1482) foi mencionada por 6%. Em ambos os casos, os participantes angolanos reportaram emoções ambivalentes: os que referiram a “colonização portuguesa” ou a “ocupação portuguesa” reportaram sobretudo emoções negativas enquanto que os que referiram a “chegada dos portugueses” mencionaram sobretudo emoções positivas. Por seu turno, os participantes cabo-verdianos destacaram o “descobrimento de Cabo Verde” (46%), a “descolonização” (15%), o “povoamento de Cabo Verde” (12%) e a “colonização de Cabo Verde” (10%), sendo essa avaliada negativamente por contraste com a “descoberta” e o “povoamento”. A “colonização” foi mencionada por 28% dos participantes moçambicanos e por 4% dos participantes guineenses, sendo avaliada negativamente (em ambos os contextos as referências à “chegada” dos portugueses foram residuais). Assim, globalmente, os resultados obtidos nos países africanos de língua oficial portuguesa apontam para uma avaliação negativa da “colonização” e uma avaliação mais positiva da “chegada” dos portugueses ou “descoberta” (conforme as designações adotadas pelos participantes), especialmente em Cabo Verde. Verificam-se igualmente claras divergências no que concerne à percentagem de evocação espontânea da escravatura e do tráfico de escravos. A “abolição da escravatura” foi o segundo acontecimento mais mencionado pelos participantes brasileiros (46%) no contexto da história do Brasil. No contexto da história da Guiné-Bissau, a “venda de escravos” foi referida por apenas um participante e não se verificaram quaisquer outras referências à problemática da escravatura. No entanto, é de salientar que tal problemática esteve extremamente saliente nas respostas desses mesmos participantes às questões que foram colocadas sobre a história da humanidade, tendo a maioria dos participantes guineenses destacado a “escravatura”, o “tráfico negreiro” e a “abolição da escravatura”5. Também em Cabo Verde, a temática da escravatura obteve mais destaque no contexto da histórica mundial do que no contexto da história nacional: a “escravatura” foi referida espontaneamente por 7% dos participantes cabo-verdianos no contexto da história nacional, sendo considerada como o acontecimento mais negativo na história do país, enquanto a “abolição da escravatura” foi evocada espontaneamente sobretudo no contexto da história mundial (18%, quinto acontecimento mais evocado)6. Os participantes moçambicanos mencionaram o “tráfico de escravos” (11%) como o acontecimento mais negativo da história de Moçambique. Verificaramse ainda algumas referências ao trabalho forçado (chibalo). O estatuto do indigenato e o regime de trabalho obrigatório foram sobretudo evocados em contexto de discussão de grupo (ver FEIJÓ; CABECINHAS, 2009). A “abolição da escravatura” foi o sétimo acontecimento mais mencionado pelos participantes angolanos (17%) e o “tráfico de escravos” foi o nono acontecimento mais evocado (10%). Em contrapartida, as referências espontâneas à [abolição da] escravatura no contexto da história nacional (e também no contexto da história mundial) 5 Para mais detalhes, ver CABECINHAS; NHAGA, 2008. 6 Para mais detalhes, ver CABECINHAS; ÉVORA, 2008. 21 Estudos Ibero-Americanos , Porto Alegre, v. 45, n. 2, p. 16-25, maio-ago. 2019 Cabecinhas, R. | Luso(A)fonias. Memórias cruzadas sobre o colonialismo português foram residuais por parte dos participantes portugueses, à semelhança do que aconteceu em estudos idênticos realizados na América do Norte, Ásia, Europa e Oceânia (LIU et al., 2005; 2009). Os acontecimentos relativos ao colonialismo e ao processo de descolonização assumiram também um papel importante nas evocações dos participantes. Os participantes portugueses destacaram sobretudo os “descobrimentos” (80%), cujo impacto na história nacional foi considerado consensualmente positivo. Contrariamente aos “descobrimentos”, o “colonialismo” (16%) foi avaliado negativamente e suscitou emoções negativas. A “guerra colonial” (10%) foi considerada o acontecimento mais negativo da história nacional, suscitando emoções muito negativas, sobretudo revolta e frustração. Por seu turno, a “descolonização” (16%) configurou-se como o acontecimento mais polêmico, uma vez que as opiniões sobre a sua valência cobriram todo o espectro da escala, desde as mais positivas às mais negativas, o que deu origem a uma média de valência que, embora negativa, pouco se distancia do ponto neutro da escala. Tal ambivalência em relação à “descolonização” foi também notória caso dos participantes cabo-verdianos e guineenses (CABECINHAS; ÉVORA, 2008; CABECINHAS; NHAGA, 2008). As memórias da violência colonial foram especialmente salientes junto dos participantes angolanos, que destacaram sobretudo a escravatura, o tráfico de escravos e os massacres. A luta armada para a libertação nacional e a conquista da independência foram os acontecimentos mais destacados, para além do fim da guerra civil, com a assinatura dos acordos de paz em 2002 (MENDES et al., 2010). A luta armada pela libertação nacional foi o terceiro acontecimento mais mencionado pelos participantes angolanos (60%). À semelhança do que ocorreu na Guiné-Bissau CABECINHAS; NHAGA, 2008) e em Moçambique (CABECINHAS; FEIJÓ, 2010), os jovens angolanos consideraram a luta armada pela libertação nacional um acontecimento positivo. As emoções reportadas em relação a esse acontecimento foram ambivalentes, embora predominassem as emoções positivas: “orgulho” e “alegria”, porque resultou na independência nacional, mas também “revolta” e “tristeza”, porque implicou a perda de muitas vidas. O quarto acontecimento mais evocado pelos jovens angolanos referiu-se ao massacre da Baixa de Kassanje (43%), ocorrido no início dos anos sessenta na sequência da sublevação dos camponeses contra a exploração colonial. A maior parte dos jovens consideram esse acontecimento como negativo, mas alguns consideraram-no como positivo. As emoções reportadas em relação a esse acontecimento foram mistas, variando entre “revolta”, “tristeza” e “alegria”. A tonalidade emocional desse acontecimento depende da “âncora” mental usada pelos participantes: como episódio que exemplifica a violência colonial exercida contra os angolanos ou como episódio que assinala a resistência contra o colonialismo, associado a outros relacionados com o início da luta armada em 1961 (MENDES et al., 2010). Alguns participantes angolanos mencionaram, ainda, outros acontecimentos com conotação muito negativa ligados à ocupação do território angolano: as guerras do kwata-kwata (4%), que ocorreram no século XVI entre reinos angolanos com o intuito de capturar escravos e o regime de trabalho forçado (1%), que substituiu o regime de escravatura (ZAU, 2009). Os participantes guineenses destacaram o Massacre de Pindjiguiti (3 de agosto 1959), como um dos acontecimentos mais importantes da história nacional (31%), sendo avaliado de forma negativa. Nesse dia um grupo de pescadores e trabalhadores do porto de Pindjiguiti fizeram greve, exigindo melhores condições de trabalho e salariais, tendo por esse motivo sido abatidos com armas de fogo pelas forças coloniais. Documentos escritos por Amílcar Cabral, enquanto Secretário-Geral do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), referem a esse acontecimento como um dos determinantes para a decisão de avançar com a luta armada contra o colonialismo (ANDRINGA; GOMES, 2007; CABECINHAS; NHAGA, 2008). Os massacres ocorridos durante o período colonial em Moçambique foram também recordados pelos participantes moçambicanos, embora com percentagens de evocação espontânea mais baixas. Por exemplo, o Massacre da Mueda foi evocado por 8% dos participantes moçambicanos (para discussões sobre a forma como este massacre foi retratado no cinema moçambicano, ver, por exemplo, SCHEFER, 2016), mas não se registaram quaisquer referências espontâneas ao massacre de Wiriamu (ver, por exemplo, ROSAS, 2017). A “colonização portuguesa” (12%) foi evocada pelos participantes timorenses como um dos acontecimentos mais importantes na história nacional. Alguns referiram especificamente a “evangelização de Timor” e a “chegada dos missionários portugueses” (5%). A “colonização portuguesa” e a “sobre-exploração dos recursos naturais” foram avaliadas de forma negativa enquanto que a “chegada dos missionários 22 Estudos Ibero-Americanos , Porto Alegre, v. 45, n. 2, p. 16-25, maio-ago. 2019 Cabecinhas, R. | Luso(A)fonias. Memórias cruzadas sobre o colonialismo português portugueses” e a “evangelização portuguesa” foram avaliadas de forma muito positiva. Assim, constata-se uma ambivalência em relação à presença portuguesa no território dependendo da “âncora” que é ativada no contexto particular: a “exploração” ou a “evangelização” (CABECINHAS, 2006). O “25 de Abril de 1974” foi o acontecimento mais referido pelos participantes portugueses (81%), assinalando o fim de uma longa ditadura e a conquista da liberdade. A “Revolução dos Cravos” foi referida por 6% dos participantes timorenses, sobretudo por parte de estudantes mais velhos, frequentando o curso de formação de professores. Enquanto os participantes portugueses reportaram emoções positivas face ao 25 de Abril, os participantes timorenses reportaram emoções ambivalentes. Essa ambivalência verificouse igualmente na evocação da “Guerra de Manufahi” (referida por 5% dos participantes timorenses), que constitui a mais célebre revolta de timorenses contra a ocupação portuguesa, tendo sido reprimida com “um banho de sangue em 1912” (MATTOSO, 2005, p. 32). Em síntese, de um modo geral, verificou-se uma focalização nos acontecimentos que assinalaram a delimitação das fronteiras da nação e de outros pontos de viragem da vida da nação, dentre os quais se destacam a conquista da liberdade e da democracia. Os temas predominantes foram o colonialismo, as lutas de libertação e a conquista da independência. Considerações finais O objetivo principal da investigação aqui revisitada foi analisar as memórias históricas dos jovens em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e Timor-Leste. Os acontecimentos ligados ao passado colonial foram espontaneamente evocados pelos jovens dos vários países, embora com um peso e uma tonalidade emocional diferenciada. Enquanto os jovens portugueses se focaram nos “descobrimentos” e silenciaram a violência colonial, os jovens dos países africanos de língua oficial portuguesa destacaram a violência colonial, as lutas de libertação e a conquista da independência nacional. No entanto, destacam-se também algumas convergências, nomeadamente o fato de os dados recolhidos nos vários países revelarem ambivalências face ao colonialismo e ao processo de descolonização. Quando nos debruçamos especificamente sobre os grupos nacionais, é necessário ter em conta que cada grupo é heterogéneo, sendo constituído por uma grande diversidade de pessoas, com diferentes percursos e experiências de vida e pertencendo a grupos com diferentes posicionamentos na estrutura social. Nesse sentido, não pretendemos generalizar os resultados desses estudos à população em geral, mas apenas realizar uma análise comparativa exploratória sobre as representações da história nacional nos diferentes países. O fato das amostras serem constituídas exclusivamente por estudantes universitários deveu-se, por um lado, a questões de exequibilidade na aplicação dos questionários em boas condições e, por outro lado, a questões de comparabilidade com os estudos realizados em outros contextos culturais. Como referimos, neste estudo participaram apenas jovens universitários, cujos dados não podem ser extrapolados para a população em geral. De fato, alguns estudos em que recorremos a outras metodologias e auscultámos pessoas de diferentes faixas etárias e diferentes percursos de vida permitem complementar esses dados e matizar algumas das tendências aqui reportadas (e.g. ABADIA et al., 2018). Além disso, na interpretação dos dados que foram aqui revisitados não podemos esquecer que esses são o fruto de um determinado momento histórico, tendo sido recolhidos em um dado “tempo” e em um dado “espaço”, elementos fundamentais na estruturação das memórias coletivas (HALBAWCHS, 1925). Salientamos de novo que não foi dada aos participantes qualquer lista prévia de acontecimentos, por isso a probabilidade de evocação espontânea de determinado acontecimento foi muito afetada pela sua recência ou pela sua atualização mediática, aquando das efemérides e comemorações. De um modo geral, as memórias históricas dos jovens estão alinhadas com a versão dominante da história nacional na esfera pública dos respectivos países, o que por vezes colide com as memórias familiares, com a versão da história que é apresentada na escola, nas redes sociais, nos filmes e documentários ou com a memória pública dominante no país para o qual se emigrou, por exemplo (CABECINHAS; CUNHA, 2017; CABECINHAS et al., 2018). De fato, vários estudos recentes têm demonstrado os efeitos persistentes do processo colonial na formação das mentalidades, nos estereótipos sociais e nas atuais relações intergrupais (e.g. ABADIA et al., 2018; BRASIL; CABECINHAS, 2017; MACEDO, 2016; KHAN, 2015). Globalmente, esses resultados espelham algumas representações hegemônicas sobre a história, que se traduzem em imagens do passado, que legitimam a 23 Estudos Ibero-Americanos , Porto Alegre, v. 45, n. 2, p. 16-25, maio-ago. 2019 Cabecinhas, R. | Luso(A)fonias. Memórias cruzadas sobre o colonialismo português ordem social presente nos diferentes países em que os dados foram recolhidos, mas evidenciam também de forma clara expressões da memória social como um “campo de disputa” e de luta simbólica entre grupos. As memórias sobre o “passado comum”, que liga os países de língua oficial portuguesa, são vivenciadas com diferentes tonalidades emocionais e têm significados diferenciados. De um modo geral, os resultados apontam para um “desencontro” das memórias sobre o passado colonial da parte dos jovens que participaram nesse estudo. Por exemplo, enquanto os participantes angolanos evocaram a escravatura, o tráfico de escravos e os massacres, os participantes portugueses recordaram sobretudo os descobrimentos, esquecendo os efeitos opressivos da colonização. Assim, adaptando a expressão cunhada por Mia Couto, globalmente os resultados espelham Luso(A)fonias: as memórias dos jovens portugueses estão alinhadas à representação hegemônica da história de Portugal como país que “deu novos mundos ao mundo”, mas desalinhadas face às memórias dos jovens que habitam esses “novos mundos”. Como salienta Sousa, “a Lusofonia é uma construção extraordinariamente difícil. É um espaço geolinguístico altamente fragmentado, um sentimento pleno de contradições, uma memória de um passado comum, uma cultura múltipla e uma tensa história partilhada” (2006, p. 9). Os efeitos opressivos do colonialismo a longo prazo são frequentemente subestimados, contribuindo para a sua manutenção em sociedades formalmente pós-coloniais (LICATA et al., 2018). Assim, é urgente a descolonização do pensamento, de modo a desconstruir “velhos” estereótipos e ultrapassar as categorias analíticas binárias que herdamos do passado colonial, mas que continuam a pesar e a moldar o nosso presente. Resumindo, os acontecimentos que marcaram a história que “liga” os países de língua oficial portuguesa suscitaram emoções diferenciadas em função do papel desempenhado durante o período colonial, verificandose uma grande divergência na forma como os acontecimentos ligados à colonização foram evocados pelos jovens portugueses e pelos jovens dos países que no passado foram colônias portuguesas. No entanto, verifica-se uma convergência na totalidade emocional associada ao processo de “descolonização”, que suscita, emoções ambivalentes nos participantes de vários países. É, pois, necessário olhar para esses resultados para além das fraturas abissais (MENESES, 2016) e desocultar os verdadeiros “apagões de memória” que persistem na esfera pública. Agradecimentos Agradeço a todas as pessoas que colaboraram na recolha dos dados assim como a todas as pessoas que participaram nos estudos realizados nos vários países. Agradeço igualmente o apoio do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) da Universidade do Minho e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia pela bolsa de licença sabática (SFRH/BSAB/128145/2016). Referências ABADIA, L. et al. Interwoven migration narratives: identity and social representations in the Lusophone world. Identities – Global Studies in Culture and Power, v. 25, n. 3, p. 339-357, 2018. https://doi.org/10.1080/1070289x.2016.1244062 ADICHIE, C. N. The danger of a single story. [Vídeo]. Oxford: TED. 2009. 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