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Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa
Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa n.º 4 / 2011 Diretor António Gil Hernández Subdiretor José-Martinho Montero Santalha Secretário Ângelo Cristóvão Angueira Edição Iolanda Mato Creo e Joám Evans Pim Conselho de Redação Isaac Alonso Estraviz; Ângelo Cristóvão; Joám Evans Pim (Editor); António Gil Hernández (Diretor); Luís Gonçales Blasco; José-Martinho Montero Santalha; Isabel Rei Samartim; Rudesindo Soutelo; Concha Rousia. Conselho Científico Celso Álvarez Cáccamo (UdC); Carlos Assunção (UTAD); J. Malaca Casteleiro (ACL); Evanildo Bechara (ABL); Zélia Borges (Mackenzie); Paulo Borges (FLUL); Anabela Brito (ULP); Regina Brito (Mackenzie); Luís G. Soto (USC); Carlos Garrido (UVigo); Mª Henríquez (UVigo); Álvaro Iriarte (UMinho); Cristina de Mello (UCoimbra); Cilha Módia (UdC); Isabel Moran (USC); José Paz (UVigo); Carlos Reis (UAb); Ricardo Reis (UVA); José L. Rodríguez (USC); Augusto S. da Silva (UCP Braga); Jurjo Torres (UdC); Álvaro Vidal (UNottingham); Xavier Vilhar (USC); Beatriz Weigert (UÉvora). Conselho Asessor Artur Alonso Novelhe; José Manuel Barbosa; Ângelo Brea Hernández; Margarida Castro; Henrique Correia; Chrys Chrystello; Marcos Crespo; Renato Epifânio; Carlos Durão Rodrigues; Vítor Lourenço Peres; Higino Martins Estevez; Anabela Mimoso; Mário Afonso Nozeda Ruitinha; Henrique Salles da Oliveira; Francisco Paradelo Rodríguez; Ramom Reimunde Norenha; Valentim Rodrigues Fagim; José R. Rodrigues Fernandez; Cathryn Teasley Severino; Joám Trilho; Fernando Vazques Corredoira; Xavier Vásquez Freire; Ernesto Vasques; Crisanto Veiguela Martins. Impressão Tórculo Artes Gráficas Depósito Legal C-2345/08 ISSN 1888-8763 Edita Academia Galega da Língua Portuguesa Rua de Castelão n.º 27 15900 Padrão, Galiza http://www.aglp.net | [email protected]
Conteúdos ESTUDOS A defesa da língua ou a língua como defesa 11 Carlos Reis O repto dos vocabulários ortográficos 25 Álvaro Iriarte Sanromán Sinonímia, conceptualização e variação social 35 Augusto Soares da Silva Dicionário Priberam da Língua Portuguesa 55 Helena Figueira, et al. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa 69 Mª Margarida Gomes Faria da Costa A multiplicidade léxica de Moçambique 83 Cláudia Bergamini O nome de lugar Vila-daelhe ou Vila-delhe 91 Crisanto Veiguela Martins Os nossos nomes de família 99 José-Mª Monterroso Devesa Do big-bang aos planetas extrassolares 111 Manuel Andrade Valinho O marcador discursivo mas 127 Luís Magarinhos As palavras de Robindronath Tagore 137 José Paz Rodrigues Linguagem na obra do genio do samba paulistano 147 Maria Zélia Borges Apontamentos para uma galeguística 167 António Gil Hernández Revisitação d’Os Eidos 185 Manuel Castelão
Nos 15 anos da CPLP 201 Renato Epifânio Identidade nacional e transnacional 211 Dina Maria Martins Ferreira INSTITUIÇÃO Memória do ano 2010 229 Ângelo Cristóvão Crónicas do Brasil 235 Concha Rousia e Isabel Rei Unindo passado e futuro 251 Concha Rousia II Seminário de Lexicologia 255 Ângelo Cristóvão Portulano de recursos em linha 263 Ernesto Vasques Souza Galiza na América do Sul 265 Higino Martins Esteves PUBLICAÇÕES Cantares galegos 273 Maria Seoane Dovigo Ayes de mi País 277 Joám Trilho Traditional Marking Systems 281 Carlos Durão O Mariscal 285 Isabel Rei Samartim Português em contato 289 Álvaro J. Vidal Bouzon O Sempre em Galiza para Portugal 297 Carlos C. Varela Fernando Pessoa em concreto 303 Carlos Quiroga Miscelânea de reflexões e estudos em torno da lingua 307 Maria Isabel Morán Cabanas
4(2011): 25-33 25 Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa (ISSN 1888-8763) O repto dos vocabulários ortográficos O Dicionário de Espanhol-Português como ferramenta para a codificação do português da Galiza* Álvaro Iriarte Sanromán Resumo F a l a r n ã o é u m a t o p u r a m e n t e c r i a t i v o ( o u é menos criativo do que imaginamos), no sentido de que cada vez que utilizamos a linguagem combinamos livremente (utilizando as regras do sistema) e de maneira inovadora os signos, as unidades, as palavras de que dispomos. Reproduzimos de uma maneira muito mais frequente do que parece conjuntos de palavras ou estruturas lexicais pré-fabricadas, fazendo, pois, um uso limitado das possibilidades combinatórias da língua teoricamente ilimitadas, poderíamos pensar. Em casos de línguas afins como o espanhol e o português, com um vocabulário muito semelhante, e até com regras gramaticais também muito próximas, a diferença entre ambas está, muitas vezes, na combinatória lexical e no uso pragmático-contextual que se faz deste vocabulário “quase” comum. Palavras-chave V o c a b u l á r i o , c o m b i n a t ó r i a lexical, espanhol-português, codificação, português da Galiza. Abstract S p e a k i n g i s n o t a p u r e l y c r e a t i v e a c t ( o r i t i s l e s s c r e a t i v e t h a n w e i m a g i n e ) , i n t h e s e n s e t h a t every time we use language we freely and innovatively combine (using the rules of the system) the signs, the units, the words at our disposal. We reproduce, more often than it seems, sets of words or prefabricated lexical structures, therefore making limited use of the combinatory possibilities of language, theoretically unlimited as we might think. In the case of languages with such affinity as Spanish and Portuguese, with very similar vocabulary, and even with very close grammatical rules, the difference between them is quite often in the lexical combination and pragmatic contextual use made of this “almost common” vocabulary. Key words V o c a b u l a r y , l e x i c a l c o m b i n a t i o n , S p a n i s h , P o r t u g u e s e , c o d i f i c a t i o n , P o r t u g u e s e o f G a l i z a . * Comunicação apresentada ao Seminário de Lexicologia da AGLP, Compostela, 5 de outubro de 2009 Fundação Caixa Galicia. Rua do Vilar, 17 – Santiago de Compostela.
Álvaro Iriarte Sanromán Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa (ISSN 1888-8763) 26 Ao João Malaca Casteleiro, Lexicógrafo Os dicionários de língua, em geral, e particularmente os dicionários bilingues, os dicionários de sinónimos e de antónimos, os dicionários terminológicos (especialmente os plurilingues) e os dicionários ideológicos tradicionais apresentam uma visão redutora dos significados das palavras que recolhem ao não tomar em conta, na descrição das aceções das mesmas, as relações sintagmáticas que umas palavras estabelecem com outras para atualizar os diferentes sentidos. Com efeito, muito frequentemente, os dicionários apresentam como aceção de uma palavra o que, em rigor, é o significado dessa palavra combinada com outras palavras (“ter bom ouvido”, como aceção de ouvido, por exemplo). Tais aceções são, de facto, combinações lexicais que deveriam ser registadas, em forma de subentradas, na parte sintagmática ou combinatória do dicionário. Estas combinações pluriverbais deverão ser recolhidas (por ordem alfabética) no fim do artigo lexicográfico, porque nem sempre é possível associar uma expressão pluriverbal a uma determinada aceção do lema. Isto é evidente no caso das expressões idiomáticas: sob que aceção de deitar, foguete ou festa recolhemos a expressão “deitar foguetes antes da festa” (= regozijar-se prematuramente)? Insisto: a prática de associar combinações lexicais a uma determinada aceção assenta muitas vezes no facto de o dicionário atribuir um determinado sentido a uma aceção de uma palavra que, em rigor, é o sentido dessa palavra combinada com outra ou outras palavras. Analisemos o caso que acabei de referir, em que se considera como sendo uma aceção da palavra ouvido (Calderón Campos, 1994: 58) o que, num contexto real, se exprime em combinações como “ter bom ouvido” ou “ter mau ouvido”, nos seguintes dicionários portugueses (Porto Editora, Aurélio e Caldas Aulete): ouvido, s. m. audição; aparelho de audição; acto ou efeito de ouvir; facilidade em fixar de memória peças musicais, ou em distinguir faltas de afinação; … (Porto Editora). ouvido, [Part. de ouvir] S. m. 1. […] 2. […]. 3. Aptidão para captar com relativa precisão sons musicais ou não, e de reproduzir aqueles sem o auxílio de partitura: ter bom ouvido. … 4. […] • […] Ter bom ouvido. Ter fácil percepção de sons, especialmente musicais. (Aurélio). ouvido, s. m. um dos cinco sentidos […]. || […] Ter bom ouvido, ter boa disposição do órgão do ouvido para perceber os sons, e especialmente os musicais. […]. (Caldas Aulete). No Porto Editora considera-se como sendo uma aceção da palavra “ouvido” o que, num contexto real é exprimido pela locução “ter bom ouvido”.
O repto dos vocabulários ortográficos 27 Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa (ISSN 1888-8763) No caso do Aurélio regista-se uma contradição, pois o mesmo significado ('aptidão para captar com relativa precisão sons musicais') é atribuído tanto à palavra “ouvido” como à expressão “ter bom ouvido”, que aparece como locução no fim do artigo. O mesmo acontece no Dicionário da Academia e no Houaiss. Não é este o caso do Caldas Aulete, que regista este valor unicamente como locução. Como já indicava Rodrigues Lapa (Lapa, 19841), é um excelente dicionário quanto ao tratamento da combinatória lexical. Os dicionários, ao excluir as possibilidades combinatórias das palavras, estão, implicitamente, a pressupor a existência de um paralelismo na organização léxico-semântica e sintática das duas línguas. Isto, como adiantávamos, apesar do princípio de arbitrariedade do signo linguístico estabelecido por Saussure no seu Curso de Linguística Geral. Com efeito, Saussure (1992) entende este carácter arbitrário do signo não só como oposto à motivação onomatopéica, no sentido óbvio de que não há uma relação direta entre o significante e o significado (Saussure, 1992: 126-127) [todos se lembram dos famosos exemplos de equus/cavalo/horse, etc.], mas também, e muito mais importante, esta conceção de arbitrariedade leva Saussure a contestar a ideia de língua como uma nomenclatura em que as unidades se justapõem, e a concebê-la antes como uma estrutura em que se estabelecem relações: A primeira coisa que se destaca nesta organização são as solidariedades sintagmáticas: quase todas as unidades da língua dependem quer do que as enquadra na cadeia falada, quer das partes sucessivas de que elas se compõem. (Saussure, 1992: 214). Será esta arbitrariedade a que levará a combinar em português e em espanhol: português espanhol lâmpada fosca bombilla mate fotografia mate fotografia mate português espanhol prótese dentária prótesis dental fio dental hilo (seda) dental 1 «É precisamente neste capítulo da fraseologia, muito importante, que os dicionários correntes deixam mais a desejar. O mais celebrado de entre eles e o mais moderno dos grandes dicionários, o de Cândido de Figueiredo, é muito pobre em grupos fraseológicos, o que constitui um grave defeito, porque é nessas locuções que se imprime o chamado génio da língua. Como repositório de fraseologia, nada há que possa substituir entre nós o Dicionário Contemporâneo de Caldas Aulete.» (Lapa, 1984: 83).
Álvaro Iriarte Sanromán Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa (ISSN 1888-8763) 28 É esse “paralelismo” na organização léxico-semântica e sintática que, na Galiza, encontramos em tantos decalques do castelhano. Estamos aqui perante uma conceção das línguas como nomenclaturas em que as palavras são etiquetas que se aplicam às coisas previamente existentes. É a língua concebida apenas como um conjunto de etiquetas (palavras) que se combinam por meio de regras gramaticais: ! + " / # + $ % % % % !' + "' / #' + $' Vejamos alguns desses decalques do castelhano: el alto el fuego % % % % o alto o fogo (o cessar-fogo) celebrar una reunión % % % celebrar uma reunião (realizar/efetuar uma reunião) entablar una conversación entabuar uma conversa (encetar uma conversa) espantapájaros espanta-pássaros2 (espantalho) fecha de caducidad data de caducidade (prazo de validade) hacer la puñeta fazer a punheta (encher a cabeça) 2 A questão das unidades pluriverbais pouco tem a ver com a tradição ortográfica —cf., por exemplo, primeiro ministro (Vilela, s.v. salário) vs. primeiro-ministro (Vilela, s.v. reunir), caminho-de-ferro (Porto Editora) vs. caminho de ferro (Cândido) vs. estrada de ferro (Porto Editora e Aurélio), co-opositor vs. coocupante (Aurélio) vs. co-ocupante (Porto Editora); etc. De facto, a prática de grafar com hífen algumas formas compostas não passa de uma convenção puramente gráfica que parece não visar senão uma solução para o problema da lematização destes compostos (um caso evidente é a entrada bilhete-de-identidade, no Dicionário da Academia). Sobre o assunto, vd. Mathieu-Colas (1994), Catach (1981), Herculano de Carvalho (1979: 506-507, nota 9). À partida, a minha posição sobre o uso do hífen nos compostos resume-se a isto: ! tendencialmente aglutinados….......................................................... tendencialmente disjuntos " prefix. e c. morfológicos -------------- compostos morfossintáticos ------------- compostos sintáticos* (contraindicação, extraescolar) (camião cisterna, amarelo canário) (primeiro ministro, castanho claro) *(salvo com adv. e prep.) Evitando, sempre que possível, o uso do hífen. Mas, lamentavelmente, o AO afasta-nos claramente de uma proposta como esta.