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Teatro do oprimido como ferramenta de inclusão social no bairro Horta da Areia em Faro

Martins, Vânia; Lucio-Villegas Ramos, Emilio Luis

Abstract

Quando foi criado o bairro Horta da Areia, em Faro, pretendia ser uma solução provisória para albergar famílias das ex-colónias africanas, resistindo até hoje com manifestos problemas de segurança, sanidade, pobreza e exclusão social. No presente artigo expõem-se algumas das características das famílias do bairro e uma metodologia que tem vindo a ser utilizada desde 2010 no trabalho com as crianças e jovens: o teatro do oprimido. Assim, reflete-se sobre os efeitos dessa abordagem num grupo de jovens, expondo o que poderá trazer de novo para os seus residentes, nomeadamente se a atividade for alargada a toda a família, no sentido de colmatar a desunião entre as famílias e o pouco sentido de comunidade.

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Martins, Vânia; Lucio-Villegas, Emilio – Teatro do oprimido como ferramenta de inclusão social no bairro… Sociologia, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto Número temático – Ciganos na Península Ibérica e Brasil: estudos e políticas sociais, 2014, pág. 57-75 57 Teatro do oprimido como ferramenta de inclusão social no bairro Horta da Areia em Faro Vânia Martins Universidade do Algarve Emilio Lucio-Villegas Universidade de Sevilha Quando foi criado o bairro Horta da Areia, em Faro, pretendia ser uma solução provisória para albergar famílias das ex-colónias africanas, resistindo até hoje com manifestos problemas de segurança, sanidade, pobreza e exclusão social. No presente artigo expõem-se algumas das características das famílias do bairro e uma metodologia que tem vindo a ser utilizada desde 2010 no trabalho com as crianças e jovens: o teatro do oprimido. Assim, reflete-se sobre os efeitos dessa abordagem num grupo de jovens, expondo o que poderá trazer de novo para os seus residentes, nomeadamente se a atividade for alargada a toda a família, no sentido de colmatar a desunião entre as famílias e o pouco sentido de comunidade. Palavras-chave: exclusão social; etnicidade; teatro do oprimido. Theatre of the oppressed as a tool for social inclusion in the neighborhood Horta da Areia in Faro Horta da Areia was an emergency quarter built in Faro to receive Portuguese people forced to return from portuguese colonies in Africa. It prevails until nowadays with evident problems of security, sanity, poverty and social exclusion. The present article exposes some of the main characteristics of the families from the neighborhood. It shows as well a methodology that has been used since 2010 in the social intervention with children and youth: theatre of the oppressed. We try to understand the effects of this approach in a group of young people, reflecting about what results the methodology can bring to the neighborhood inhabitants, having in account the lack of sense of belonging and community. Keywords: social exclusion; ethnicity; theatre of the oppressed. Resumo Abstract Martins, Vânia; Lucio-Villegas, Emilio – Teatro do oprimido como ferramenta de inclusão social no bairro… Sociologia, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto Número temático – Ciganos na Península Ibérica e Brasil: estudos e políticas sociais, 2014, pág. 57-75 58 Théâtre de l'opprimé comme outil d'inclusion sociale dans le quartier de Horta da Areia de Faro Quand le quartier Horta da Areia, à Faro, a été construit, il devrait être une solution provisoire d’hébergement de familles des anciennes colonies portugaises en Afrique. Les préjugés relativement à ce quartier, la pauvreté et l’exclusion sociale ont le donné une mauvaise image. Dans cet article nous discutons les caractéristiques des familles du quartier, bien comme le méthode utilisée depuis 2010 dans le travail avec les enfants et les jeunes: le théâtre de l’opprimé. Nous discutons l’impacte du théâtre de l’opprimé dans un groupe de jeunes et nous analysons quels sont les bénéfices pour les résidents, une fois que nous vérifions une désunion entre les familles et un faible sentiment de communauté. Mots-clés: exclusión social; ethnicité; théâtre de l'opprimé. El teatro del oprimido como herramienta de inclusión social en el barrio Horta da Areia en Faro Cuando el barrio Horta da Areia fue creado, en Faro, pretendía ser una solución provisional para albergar familias de las ex-colonias africanas. No obstante, sigue existiendo hoy. La pobreza y exclusión social han creado una mala imagen del mismo. En el presente artículo se exploran las características de las familias del barrio, así como una metodología que ha sido utilizada desde 2010 en el trabajo con niños/as y jóvenes: el teatro del oprimido. Se reflexiona sobre los efectos del método en un grupo de jóvenes, intentado comprender lo que puede traer de nuevo para los residentes del barrio, ya que una de las conclusiones parece remitirnos a la desunión de las familias y el poco sentido de comunidad existente. Palabras clave: exclusión social; etnicidad; teatro de lo oprimido. Introdução O teatro do oprimido (T.O.) surgiu no bairro Horta da Areia em abril de 2010 como atividade dinamizada pelo centro comunitário do bairro. A atividade desenvolveuse no âmbito de um projeto coordenado pelo Núcleo de Faro da Cruz Vermelha Portuguesa, mas, pelo envolvimento positivo dos jovens na atividade, esta acabou por ter continuidade pós-projeto. O Centro Comunitário Horta da Areia tenta potenciar o desenvolvimento dos seus moradores, agindo como um mediador institucional e intervindo a diversos níveis, como a saúde e a educação. Atividades como o T.O., direcionado especialmente para Résumé Resumen Martins, Vânia; Lucio-Villegas, Emilio – Teatro do oprimido como ferramenta de inclusão social no bairro… Sociologia, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto Número temático – Ciganos na Península Ibérica e Brasil: estudos e políticas sociais, 2014, pág. 57-75 59 crianças e jovens, são importantes para intervir junto das faixas etárias mais novas. No bairro, o T.O. possibilitou novas experiências através de apresentações teatrais, contribuindo também para a coesão grupal. Criou novas pontes entre os moradores e a cidade exterior e contribuiu para a aquisição de novas competências nos jovens do bairro. O bairro foi montado na década de 1970. Pretendia-se que fosse temporário, com casas pré-fabricadas, mas persiste até hoje na periferia da cidade, ao lado de uma zona industrial. O bairro tem um forte estigma social, casos de pobreza, problemas habitacionais e falta de segurança, aspetos que contribuíram para a exclusão social dos seus habitantes. No âmbito de uma dissertação de mestrado, cujo principal objetivo foi compreender a importância do T.O. para os jovens do bairro Horta da Areia, estudou-se um grupo de oito jovens entre os 13 e os 17 anos de idade, que participaram durante dois anos na atividade. Pretendia-se conhecer as suas perceções face à sua vida no bairro, explorando depois de que forma o T.O. veio influenciar a vida dos elementos do grupo. Em última instância, fizeram-se algumas reflexões sobre se o T.O. lhes poderá proporcionar ferramentas que, no futuro, lhes permitam lidar com os constrangimentos de viver no bairro, assim como qual a importância de alargar a atividade aos adultos. Os resultados mostraram a existência de alguns elementos importantes relacionados com o território e a forma como os jovens o percecionam. As transformações que o T.O. poderá trazer ao bairro só serão mensuráveis a longo prazo, mas percebeu-se que a metodologia trouxe novas ferramentas que poderão ajudar a gerir os problemas do bairro. 1. Fundamentação teórica 1.1. Teatro do Oprimido O T.O. é uma metodologia com um forte compromisso político e educacional. Cria uma conexão com a realidade social, permitindo uma análise dos problemas e das injustiças sociais, ensaiando soluções num cenário protegido. Pensa-se que a metodologia poderá ter acrescentado novos elementos de conhecimento sobre os habitantes do bairro e trouxe novas possibilidades para as pessoas o vislumbrarem numa perspetiva diferente. Martins, Vânia; Lucio-Villegas, Emilio – Teatro do oprimido como ferramenta de inclusão social no bairro… Sociologia, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto Número temático – Ciganos na Península Ibérica e Brasil: estudos e políticas sociais, 2014, pág. 57-75 60 Tendo sido criado por Augusto Boal, o T.O. ganhou forma durante os anos 60 e 70 do século XX, em países da América do Sul (Brasil, Argentina e Peru). Na década de 80 foi trazido para a Europa. Boal viveu e trabalhou em diferentes contextos que o levaram a utilizar o teatro como uma ferramenta, reinventando as suas técnicas e adaptando-o às necessidades das populações locais. Permitiu-lhe lidar, na América Latina, com problemas coletivos das comunidades, a maioria deles originados por sistemas políticos autoritários e totalistas. Na Europa adaptou a ferramenta para trabalhar opressões individuais causadas por um estilo de vida moderno (Boal, 1976, 1997, 1998, 2004a, 2004b). Portugal foi justamente o primeiro país da Europa que Boal visitou antes de partir para França e onde viveu e trabalhou durante dois anos (Barbosa, 2011). O trabalho desenvolvido com o T.O. tem vindo a ganhar expressão no país nas últimas décadas. Hoje há grupos de norte a sul do país, alguns deles referenciados em estudos recentes (Barbosa, 2011; Lopes, 2014), cujo foco para intervenção comunitária é o T.O.. Numa visita de Bárbara Santos 1 a Portugal, esta revelou-se satisfeita pelo trabalho sério desenvolvido por alguns grupos, direcionado para o oprimido e mantendo a base comunitária que está na génese do mesmo (Santos, 2011). Para Boal o teatro, como uma forma de arte, é político e uma forma de mostrar um mundo em transformação (Boal, 1977). Permite ensaiar uma revolução (Boal, 1977), sendo uma arma para resistir a sistemas opressivos e um instrumento para transformar a realidade social (Picher, 2007, Schaedler, 2010). É uma resposta contrahegemónica contra um sistema que conduz as pessoas ao conformismo e à aceitação da desigualdade social e da injustiça (Boal, 2009). Boal (1977) descreve-o como uma ferramenta para a liberdade que pode ser usada por pessoas, pois permite um outro olhar sobre o quotidiano (Boal, 2004b). Permite a práxis (reflexão-ação), conforme descrita por Paulo Freire (Freire, 2005; Bardaro, 2006). O T.O. baseia-se nas obras de Paulo Freire e é adaptado para o palco por Augusto Boal. Ambos reconhecem a importância de conscientização e prática como forma de pôr fim à injustiça social. Práxis permite a transformação social (Freire, 2000; Mayo, 2008) e T.O. gera práxis. 1 Atriz e Curinga do T.O., trabalhou com Augusto Boal durante duas décadas, tendo ajudado a conceber algumas das metodologias do T.O.. Martins, Vânia; Lucio-Villegas, Emilio – Teatro do oprimido como ferramenta de inclusão social no bairro… Sociologia, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto Número temático – Ciganos na Península Ibérica e Brasil: estudos e políticas sociais, 2014, pág. 57-75 61 De acordo com Freire, algumas pessoas vivem numa cultura do silêncio, uma forma de opressão dirigida para manter as pessoas à margem da sociedade e podem libertar-se por um processo de conscientização. A conscientização parte da realidade e condições de vida, pela qual se pode construir uma práxis libertadora que permita sair da cultura do silêncio. É importante notar que este processo de conscientização inclui reflexão e prática. A práxis surge pelo diálogo, a forma de traçar um caminho libertador e educativo (Freire, 2000). Com a criação do T.O., que pretendia, entre outras coisas, devolver o teatro ao povo, Boal permitiu que a ferramenta fosse usada não apenas por uma elite de atores profissionais, mas também por cidadãos comuns (Boal, 1977, 2009). Isso foi possível pela aceitação de que o teatro é uma recriação da realidade social, o que significa que toda a gente é um ator representando papéis diferentes na sua vida diária. No teatro as realidades não são estáticas, mas dinâmicas, o que permite que sejam alteradas e transformadas. Os que assistem a uma peça são convidados a refletir e a agir sobre o problema apresentado. Esta reflexão e ação, como práxis, é importante para superar a dualidade entre opressores e oprimidos de uma forma dialética, não só para mudar cada indivíduo, mas para transformar toda a sociedade (Freire, 2000). Picher (2007) argumenta que a força do T.O. está no facto de permitir a organização democrática pela democracia. O T.O. é um contributo para a descentralização dos sistemas hegemónicos (Snyder-Young, 2011), permitindo que o público e os atores aprendem uns com os outros e entendam os possíveis efeitos de suas ações em cenários específicos. Boal defende que o T.O. não é em si uma revolução, mas permite ensaiar a revolução (Boal, 1977). Assim, as pessoas podem ir além da sua realidade (Sullivan e Lloyd, 2006) pela oportunidade de agir para mudar a sua vida. 1.2. Sobre o conceito de comunidade O termo comunidade refere-se a uma dupla perspetiva. Por um lado, fala-se sobre um território. Por outro lado, implica elementos menos palpáveis, assentes nas características e perceções da população face ao território. Wildemeersch e Vandenabeele (2007) descrevem a comunidade como um lugar onde o conflito é comum. Para este fim, Mouffe opões “política” a “políticas”. Por um lado, apresenta uma visão consensual de comunidade, uma que procure “reduce Martins, Vânia; Lucio-Villegas, Emilio – Teatro do oprimido como ferramenta de inclusão social no bairro… Sociologia, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto Número temático – Ciganos na Península Ibérica e Brasil: estudos e políticas sociais, 2014, pág. 57-75 62 political problems to technical issues, which can be resolved by an expert” (Wildemeersch e Vandenabeele, 2007: 26). Por outro lado, a política está associada a insegurança e risco: “People tend to look for protection in their own communities and wish to reinforce the securities offered by those one likes. The world tends to be divided into ‘them’ and ‘us’, whereby the ‘us’ creates a shelter against insecurities and ‘the other’ can be identified as the reason for these insecurities.” (Wildemeersch e Vandenabeele, 2007: 27-28). Comunidade pode também referir-se a um contexto democrático decorrente do seu ambiente. Segundo Williams (1989:76), a noção de comunidade “express particular kinds of social relations (…) the warmly persuasive word to describe an existing set of relationship, or the warmly persuasive word to describe an alternative set of relationship”. Deste ponto de vista, a comunidade é um espaço público onde o debate toma o seu lugar. A comunidade não é homogénea; pelo contrário é um espaço heterogéneo onde o conflito é parte fundamental do quotidiano. Também conduz a um entendimento político de cidadania (Biesta, 2011). Portanto, na arena pública, o debate, a contradição e a democracia deliberativa devem ser a norma. Por fim, a comunidade não é um sítio que possa oferecer proteção do exterior, pois não há exterior por si. Na realidade, o “exterior” é dentro da comunidade. É o contexto no qual devemos recuperar a participação como forma de gerir conflitos no espaço heterogéneo. Como Geertz refere falando dos rituais funerários em Java, “In most societies, where change is a characteristic rather than an abnormal occurrence, we shall expect to find more or less radical discontinuities between the two [social and cultural aspects]. I would argue that it is in these very discontinuities that we shall find some of the primary driving forces in change.” (Geertz, 1973: 144) Podemos afirmar que a comunidade é um espaço para mudança, um espaço dinâmico onde tensões e conflito são usuais. Neste caso o conflito existe em situações externas e internas. O T.O. ajuda os jovens a lidar com o sentimento de marginalização face aos outros habitantes da cidade de Faro e também com as contradições que cada cultura tem em si. Martins, Vânia; Lucio-Villegas, Emilio – Teatro do oprimido como ferramenta de inclusão social no bairro… Sociologia, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto Número temático – Ciganos na Península Ibérica e Brasil: estudos e políticas sociais, 2014, pág. 57-75 63 2. Aspetos metodológicos De março 2011 a abril 2012 utilizaram-se diferentes procedimentos metodológicos. Como referido anteriormente, pretendia-se com o estudo compreender a importância do T.O. para o grupo de jovens participantes na atividade, assim como conhecer as suas opiniões sobre o bairro. O estudo teve um caráter etnográfico. O investigador integrou o contexto de estudo (Altheide e Johnson, 1998) participando no grupo de teatro como ator e escrevendo sobre a rotina do grupo (Fetterman, 1997). A observação participante foi importante numa primeira fase do estudo. Permitiu o início da interação com o grupo, ganhando confiança dos seus elementos, e a recolha de dados verbais e não-verbais (Mason, 1996; Patton, 1980; Flick, 2004). Experiências anteriores (Lucio-Villegas, 1993) indicam que as funções do investigador externo se materializam no mínimo em quatro questões: i) como formador ao longo de todo o processo teatral; ii) apoiando na sistematização de reflexões e descobertas que derivam do processo; iii) ajudando na eleição e na tomada de decisões; iv) na passagem da esfera pública à privada. O investigador externo converte-se em mais um elemento do grupo porque o mesmo o assume como tal. Isto não quer dizer que se converta num nativo – seguindo a terminologia antropológica –, mas começa a manter uma relação diferente, em que os afetos pessoais têm um sentido e um lugar. Neste contexto, a presença do investigador -ator permitiu ao grupo de jovens ter nos ensaios e em palco uma referência adulta com experiência em representação, o que foi importante para a sua autoestima, troca de experiências e aprendizagem. O contacto do investigador com os jovens criou momentos de reflexão, nomeadamente nas entrevistas e discussão dos dados, que permitiram uma análise e questionamento por parte dos jovens sobre a sua experiência com o T.O. O investigador assumiu o papel de membro ativo (Adler e Adler, 1998). Isto implicou o envolvimento em atividades centrais, assumindo responsabilidades que contribuíram para o desenvolvimento do grupo, sem intervenção assumida na tomada de decisões. Se inicialmente o papel do investigador no grupo não era claro para o mesmo, nem para o grupo, no desenrolar do processo de investigação as relações tornaram-se naturais e o investigador passou a ser e sentir-se como um elemento do grupo. Martins, Vânia; Lucio-Villegas, Emilio – Teatro do oprimido como ferramenta de inclusão social no bairro… Sociologia, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto Número temático – Ciganos na Península Ibérica e Brasil: estudos e políticas sociais, 2014, pág. 57-75 64 A segunda fase do estudo baseou-se em entrevistas semiestruturadas, como definidas por Patton (1980). Isto possibilitou a recolha de nova informação, mas também a confirmação e clarificação de alguns dados recolhidos antes. Os entrevistados foram quatro jovens participantes da oficina de T.O. e três técnicos do centro comunitário. O critério para a escolha dos entrevistados baseou-se na diversidade de opinião que se pensou que poderiam trazer para o estudo. Mais dados sobre os entrevistados e sua relação com o bairro, constam do quadro que se segue. Quadro 1 Dados socio-demográficos dos entrevistados Designação Género Idade Habilitações Literárias Etnicidade Ligação ao Bairro Entrevistado 1 Masculino 39 Pós- Graduação Não cigano Diretor Técnico do Centro Comunitário Entrevistado 2 Feminino 43 Licenciatura Não cigano Técnica de Teatro do Oprimido Entrevistado 3 Feminino 34 12º ano Não cigano Animadora Comunitária Entrevistado 4 Masculino 13 5º ano Não cigano Morador Entrevistado 5 Feminino 14 5º ano Não cigano Morador Entrevistado 6 Masculino 14 4º ano Cigano Morador Entrevistado 7 Feminino 13 5º ano Misto Morador O material resultante das duas fases foi organizado tematicamente (Ghiglione e Matalon, 1993) em categorias e subcategorias que incluíam não só o significado preciso de específicos fragmentos de texto, mas também partes mais abrangentes de texto, para que não se perdesse o contexto. Com a riqueza e complexidade do material criaram-se e analisaram-se categorias específicas como: o bairro Horta da Areia, o grupo de participantes, o centro comunitário e o T.O. em ação no bairro. Depois de organizar os dados foi importante recorrer ao critério da triangulação (Reichardt, 1986) para verificar a validade do estudo. Foram ainda discutidos os resultados com os participantes no estudo e esta discussão final foi tida em conta ao delinear as conclusões finais. Martins, Vânia; Lucio-Villegas, Emilio – Teatro do oprimido como ferramenta de inclusão social no bairro… Sociologia, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto Número temático – Ciganos na Península Ibérica e Brasil: estudos e políticas sociais, 2014, pág. 57-75 65 3. Exclusão Social no bairro Horta da Areia 3.1. O bairro e a sua população O bairro Horta da Areia, situado na cidade de Faro, surgiu como bairro de emergência, construído na década de 1970. Foi construído para receber os portugueses forçados a retornar após a independência das colónias portuguesas em África. Foi concebido como temporário, construído na periferia da cidade junto a uma zona industrial, mas prevalece até à atualidade. As habitações foram entretanto ocupadas por famílias ciganas e, com a passagem do tempo, as condições de vida das famílias foramse deteriorando pela falta de manutenção das casas e pelo aumento dos agregados. Hoje em dia existem no bairro 230 habitantes, distribuídos por 65 agregados. As fontes de rendimento das famílias assentam em negócios de subsistência diária, Rendimento Social de Inserção (RSI) e, com menos peso, alguns contratos de trabalho por conta de outrem. A sazonalidade no trabalho é uma realidade no bairro, o que cria instabilidade financeira nas famílias. Os preconceitos contra os ciganos são uma das razões que tem levado à exclusão social do bairro. Os jovens sentem essa exclusão, como podemos ver no relato que se segue: “Pensam que o bairro é muito mau e às vezes já me chamaram cigana. Na escola. E sinto-me super mal, não gosto. Eu nem sequer sou cigana!...” (Entrevista 5, rapariga não cigana) Existe uma imagem social negativa do bairro, assim como problemas de segurança. Isto deve-se à falta de policiamento no bairro, o que o torna perigoso até mesmo para os seus habitantes. Além disso, a área está separada por uma linha de caminho de ferro, numa espécie de fronteira visível e simbólica entre o centro e a periferia da cidade. O bairro tem sua própria dinâmica, lideranças e relações complexas entre as famílias, com regras e modo particular de viver. Os conflitos na Horta da Areia estão relacionados com questões étnicas, como o casamento, que cria problemas entre as famílias. O alojamento, por não ter sido planeado mas aleatório, também é uma das causas de conflitos, já que obriga as famílias a uma convivência diária não desejada. Martins, Vânia; Lucio-Villegas, Emilio – Teatro do oprimido como ferramenta de inclusão social no bairro… Sociologia, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto Número temático – Ciganos na Península Ibérica e Brasil: estudos e políticas sociais, 2014, pág. 57-75 72 As mulheres ciganas portuguesas parecem ter um triplo problema (Casa-Nova, 2004), marcadas pela pobreza, etnicidade e género. Face a tantos condicionalismos, torna-se difícil para a rapariga/mulher cigana, ainda mais do que para o homem, conseguir traçar o seu percurso individual (Mendes, 2005). Foi possível verificar que alguns dos jovens ciganos do grupo se sentem divididos entre as suas raízes ciganas e outros aspetos que os atraem na restante sociedade. Os jovens ciganos de hoje combinam aquilo que é a sua herança sociocultural com aquele que é o seu trajeto individual, numa sociedade com padrões culturais diferentes dos da sua origem (Dias, Alves, Valente e Aires, 2006). Atividades como o T.O., que abrem caminho a aprendizagens não formais, podem ser uma forma de intervenção junto das famílias ciganas. A estrutura escolar em si não está preparada para receber alunos com diferenças étnicas tão marcantes (Cortesão, Stoer, Casa-Nova e Trindade, 2005), portanto talvez olhar para formas de educação não formal possa ser uma forma de contornar as barreiras culturais. Em A filha do capitão, um romance do escritor português José Rodrigues dos Santos (2004), é descrita a vida de um jovem num vilarejo perdido no interior de Portugal no final do século XIX. O autor considera a escola como uma porta aberta para o futuro deste jovem. Como o personagem principal do romance, os jovens atores da Horta da Areia podem olhar para a vida com novos olhos, novas esperanças e uma espécie de orgulho e dizer: “Eu sou capaz de fazer isto”. Referências bibliográficas ADLER, Patricia; ADLER, Peter (1998), “Observational Techniques”, in Norman Denzin and Yvonna Lincoln (eds), Collecting and Interpreting Qualitative Materials, Thousand Oaks, Sage Publications, pp. 79-109. ALTHEIDE, David; JOHNSON, John (1998), “Criteria for assessing interpretive validity in qualitative research”, in Norman Denzin and Yvonna Lincoln (eds), Collecting and Interpreting Qualitative Materials, California, Sage Publications, pp. 283-312. BARBOSA, Inês (2011), Jovens e teatro do oprimido: (re)criando a cidadania, (re)construindo o futuro, Tese de Mestrado em Estudos da Criança, Braga, Universidade do Minho. 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Mestre em Educação Social, curso de Mestrado de Educação Social da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve (Faro, Portugal). Endereço de correspondência: Almargens, Cx 209A, 8150-013 S. Brás de Alportel, Portugal. E-mail: [email protected]. Emilio Lucio-Villegas. Professor Titular do Departamento de Teoría e Historia de la Educación y Pedagogía Social da Faculdade de Educação da Universidade de Sevilha (Sevilha, Espanha). E-mail: [email protected]. Artigo recebido a 23 de abril de 2014. Publicação aprovada a 24 de julho de 2014.