Enquadramento: o caderno de campo de Moçambique de Orlando Ribeiro e o seu contexto
Abstract
Trazer ao conhecimento do público os cadernos de campo africanos de Orlando Ribeiro é o objetivo desta coleção em que se publica o presente livro. O único desses cadernos que até agora estava publicado era o da Guiné (Havik & Daveau, 2010), no qual se reuniam as observações colhidas na missão de estudo que Ribeiro fi zera àquela colónia portuguesa em 1947. O caderno que agora se publica é de origem bastante mais tardia; foi produzido entre 1960 e 1963 e documenta um conjunto de três visitas que Orlando Ribeiro fez a Moçambique nesse curto lapso de tempo.
Full text
3 Orlando Ribeiro Cadernos de campo Moçambique 1960 -1963 COLECÇÃO EXPERIÊNCIAS DE ÁFRICA SÉRIE ORLANDO RIBEIRO Cadernos de Campo-Mocambique.indb 3Cadernos de Campo-Mocambique.indb 3 22-11-2013 03:48:1522-11-2013 03:48:15
4 ORLANDO RIBEIRO – CADERNOS DE CAMPO, MOÇAMBIQUE 1960 -1963 ORLANDO RIBEIRO – CADERNOS DE CAMPO, MOÇAMBIQUE 1960 -1963 Organização e estudos: João Sarmento e Eduardo Brito -Henriques Coordenação: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto Revisão de texto: Henriqueta Antunes Direcção Gráfi ca: António Pedro Foto da capa: Homens nativos concertando rede de pesca nas margens do Lago Niassa (Metangula – 1963) Foto da contracapa: Suzanne Daveau – Orlando Ribeiro e Fernandes Martins conversando na base de um inselberg em Moçambique (1961) © Edições Húmus, Lda., 2013 Apartado 7081 4764 -908 Ribeirão – V. N. Famalicão Telef. 252 301 382 Fax: 252 317 555 [email protected] Impressão: Papelmunde, SMG, Lda. – V. N. Famalicão 1.ª edição: Novembro de 2013 Depósito legal: 367217/13 ISBN: 978 -989 -755-023-2 Apoios: Cadernos de Campo-Mocambique.indb 4Cadernos de Campo-Mocambique.indb 4 22-11-2013 03:48:1522-11-2013 03:48:15
5 João Sarmento e Eduardo Brito -Henriques (Organização e estudos) Orlando Ribeiro Cadernos de campo Moçambique 1960 -1963 Cadernos de Campo-Mocambique.indb 5Cadernos de Campo-Mocambique.indb 5 22-11-2013 03:48:1522-11-2013 03:48:15
13 I. Enquadramento O Caderno de Campo de Moçambique de Orlando Ribeiro e o seu contexto JOÃO SARMENTO EDUARDO BRITO -HENRIQUES SUZANNE DAVEAU Cadernos de Campo-Mocambique.indb 13Cadernos de Campo-Mocambique.indb 13 22-11-2013 03:48:1522-11-2013 03:48:15
15 1. O contexto científi co das missões de Orlando Ribeiro a Moçambique Trazer ao conhecimento do público os cadernos de campo africanos de Orlando Ribeiro é o objetivo desta coleção em que se publica o presente livro. O único desses cadernos que até agora estava publicado era o da Guiné (Havik & Daveau, 2010), no qual se reuniam as observações colhidas na missão de estudo que Ribeiro fi zera àquela colónia portuguesa em 1947. O caderno que agora se publica é de origem bastante mais tardia; foi produzido entre 1960 e 1963 e documenta um conjunto de três visitas que Orlando Ribeiro fez a Moçambique nesse curto lapso de tempo. É muito diferente o contexto em que os dois cadernos foram produzidos. As viagens a que se reportam fazem -se em momentos distintos da vida de Orlando Ribeiro, e isso refl ete -se nos dois documentos. A missão à Guiné ocorre ainda num período de relativa juventude. Ribeiro tinha regressado a Portugal, vindo de França, havia uma escassa meia dúzia de anos. Estava longe de possuir o reconhecimento público, como professor e como cientista, que mais tarde viria a alcançar. Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico (Ribeiro, 2011), obra que consagraria este autor entre os vultos maiores da cultura portuguesa do século XX, tivera a sua primeira edição dois anos antes, e nada fazia supor à data que o livro viesse a conhecer a difusão e o reconhecimento que obteve nas décadas seguintes. Quando a missão à Guiné decorre, Orlando Ribeiro tinha já viajado bastante por Portugal e França, alguma coisa por Espanha, Bélgica e pelo Marrocos espanhol, fi zera o célebre cruzeiro de férias de 1935, destinado a estudantes e professores universitários e dirigido por Marcello Caetano, com o patrocínio de O Mundo Português (Agência Geral das Colónias e Secretariado de Propaganda Nacional), durante o qual visitara as ilhas da Madeira e de Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe e sobretudo Angola, mas nada mais. É verdade que havia sido nomeado em 1945 vogal da Junta de Investigações do Ultramar, mas à época a sua preocupação maior era consolidar a jovem “Escola de Geografi a” de Lisboa que acabava de fundar, através do Centro de Estudos Geográfi cos. A preparação do Congresso Internacional de Cadernos de Campo-Mocambique.indb 15Cadernos de Campo-Mocambique.indb 15 22-11-2013 03:48:1522-11-2013 03:48:15
16 ORLANDO RIBEIRO – CADERNOS DE CAMPO, MOÇAMBIQUE 1960 -1963 Geografi a de Lisboa de 1949, a que Orlando Ribeiro estava decidido desde 1938, sob incitamento de Emmanuel de Martonne, que viu nesta escolha uma forma de manter infl uência internacional, era à data a sua prioridade. A própria missão à Guiné decorreu no contexto dos preparativos de um outro evento científi co internacional, a segunda Conferência Internacional dos Africanistas Ocidentais, que se havia de realizar em Bissau (Havik & Daveau, 2010). O contexto das visitas a Moçambique descritas no caderno de campo que agora se publica é bem diverso. Ocorrem já na maturidade plena de Orlando Ribeiro, como homem e como cientista. A primeira visita dá -se a poucos meses de completar 50 anos de idade. Orlando Ribeiro tinha conseguido trilhar, nesse lapso de tempo que mediou entre as duas missões, uma carreira invejável. Tornara -se um mestre carismático, a cujas aulas acorriam estudantes de muitos cursos, atraídos pela rara “combinação feliz de uma formação científi ca, com uma personalidade viva e uma irreverência que acordava qualquer saber já mumifi cado” (Rosado Fernandes, 1984: 15). Visitara, na qualidade de professor convidado ou conferencista, universidades espalhadas por França, Espanha e Brasil. Fora, em dois mandatos sucessivos, vice -presidente da União Geográfi ca Internacional, pelo que adquirira considerável prestígio no estrangeiro. E a sua bibliografi a, já extensa, contava então com mais de uma centena de títulos, maioritariamente sobre temas portugueses, mas também, desde 1950, cada vez mais sobre assuntos relativos ao mundo tropical (Amaral & Amaral, 1981; www.orlando -ribeiro.info). Como refere Garcia (1998), após o Congresso Internacional de Geografi a de Lisboa de 1949, Orlando Ribeiro inicia um período de quinze anos de intensa atividade científi ca, com numerosas viagens pelo mundo, sobretudo nas regiões tropicais. Nem todas se fi zeram no quadro de missões de investigação subsidiadas. Orlando Ribeiro aproveitava as férias académicas e a oportunidade dos congressos, dos cursos que era convidado a dar, e das reuniões a que estava obrigado pelo seu cargo na União Geográfi ca Internacional, para visitar locais distantes. Logo no fi nal dessa década, visita o arquipélago de São Tomé e Príncipe e a ilha de Fernando Pó (atual Bioco, na Guiné Equatorial). Segue -se Cabo Verde, que visita em 1951, e de novo Cadernos de Campo-Mocambique.indb 16Cadernos de Campo-Mocambique.indb 16 22-11-2013 03:48:1522-11-2013 03:48:15
17 em 1952 para estudar a erupção do Fogo, de cuja missão resultou uma importante publicação (Ribeiro, 1954), para além de Marrocos, Brasil – onde está longos meses – e EUA. Depois, por meados dos anos 50, passa pelo Uganda, Egito e Paquistão Ocidental, e permanece uma temporada de vários meses na Índia portuguesa, onde vai em missão ofi cial e faz aturado trabalho de campo com os seus discípulos mais próximos (Ribeiro, 1999). É portanto um geógrafo já experimentado no mundo tropical este que, em 1960, visita Moçambique pela primeira vez. O facto de ser a única colónia portuguesa em África que Orlando Ribeiro não conhecia desperta- -lhe uma curiosidade que se percebe na riqueza e minúcia das observações deixadas no caderno de campo. Por outro lado, o facto de ter viajado antes, extensamente, por outros territórios africanos e pela Índia permite -lhe ter uma perspetiva comparada sobre a terra que agora visita. Nos apontamentos de Moçambique, deparamo -nos em várias ocasiões com sugestivas alusões a paisagens e modos de vida encontrados em outras paragens, que ajudam a perceber a posição singular deste território face aos mundos africano e índico e a sua relação imbricada com os vários fl uxos de civilização que, ao longo da história, os cruzaram. Muito provavelmente porque o contacto com Moçambique se faz numa altura já de plena maturidade de Orlando Ribeiro, esta acabou por ser, de todas as antigas colónias portuguesas por ele visitadas, a que menos se refl etiu na sua obra. A saúde de Ribeiro degradou -se bastante a partir de meados da década de 1960. Atravessa períodos longos de depressão que o impedem de produzir. O pouco que escreveu especifi camente sobre Moçambique permaneceu inédito e não corrigido, e só agora, nesta publicação, como apêndice ao seu caderno de campo, irá ser conhecido. Publicam -se em anexo três textos inéditos e relacionados entre si. O primeiro texto viria possivelmente a constituir uma introdução geral a um tema caro a Orlando Ribeiro, o das cidades costeiras de Moçambique. O segundo texto, mais extenso, centra -se na Ilha de Moçambique, e foi escrito com alguma certeza no início dos anos 80 do século XX. O último texto debruça -se sobre a Ilha de Ibo, e inicialmente Orlando Ribeiro teria mesmo a intenção de o incluir como parte do texto anterior. Apesar de pouco ter publicado ORLANDO RIBEIRO – O CADERNO DE CAMPO DE MOÇAMBIQUE Cadernos de Campo-Mocambique.indb 17Cadernos de Campo-Mocambique.indb 17 22-11-2013 03:48:1522-11-2013 03:48:15
18 ORLANDO RIBEIRO – CADERNOS DE CAMPO, MOÇAMBIQUE 1960 -1963 sobre Moçambique, as observações que recolheu nesta terra das margens do Índico enriqueceram a sua interpretação do mundo tropical e refl etem- -se discretamente em alguns dos seus trabalhos de síntese (Ribeiro, 1961; Ribeiro, 1962, Daveau & Ribeiro, 1973; Ribeiro, 1981). Pela altura em que Orlando Ribeiro aqui se desloca, Moçambique era também das menos estudadas províncias ultramarinas portuguesas, pelo menos entre os geógrafos da “Escola de Lisboa”. Mais desconhecida só mesmo a distante Timor. O levantamento exaustivo que Ilídio do Amaral (1979) realizou da bibliografi a geográfi ca sobre as regiões tropicais conduz- -nos inevitavelmente a essa conclusão. Enquanto a África Ocidental e o Golfo da Guiné haviam começado a merecer a atenção de Orlando Ribeiro e dos seus colaboradores mais próximos a partir de meados dos anos 1940 (Ribeiro, 1952; Ribeiro, 1953; Ribeiro, 1954; Tenreiro, 1950; Tenreiro, 1952), a Índia recebera estudos depois de meados da década seguinte (Soeiro de Brito, 1956; Feio, 1956; Ribeiro, 1999), e mesmo Angola fora objeto de alguma investigação (Amaral, 1956; Amaral, 1960), nenhum estudo sobre Moçambique aparece referenciado naquele reportório bibliográfi co com data anterior a 1960. A mais antiga obra identifi cada (Carvalho, 1963) é uma dissertação de licenciatura sobre Lourenço Marques (atual Maputo), que o mestre terá incentivado a que se produzisse na sequência das suas viagens a Moçambique, e de entre os poucos trabalhos sobre esta região que a esse se seguem, cabe destacar uma dissertação de licenciatura sobre a Ilha de Moçambique produzida em 1966 (Coelho, 1966). Não é de supor, portanto, que Orlando Ribeiro se encontrasse a priori muito documentado sobre o território que ia visitar. Ainda assim, a província tinha instalada no terreno uma rede de instituições e de atores com atividade no campo científi co que foram úteis a Orlando Ribeiro nas suas missões, além de que conhecia bem o trabalho que os etnógrafos Jorge Dias, Margot Dias e Manuel Viegas Guerreiro, seus amigos próximos, estavam a desenvolver em Moçambique desde a segunda metade dos anos 1950. De entre esses outros conhecimentos complementares da Geografi a e auxiliares na interpretação da paisagem e da ocupação humana do espaço de que Orlando Ribeiro pôde benefi ciar, destaca -se em primeiro lugar a Cadernos de Campo-Mocambique.indb 18Cadernos de Campo-Mocambique.indb 18 22-11-2013 03:48:1522-11-2013 03:48:15
19 cartografi a. Dispor de uma boa cobertura cartográfi ca do território era vital para a sua administração. Por isso, à semelhança do que sucedera em outros territórios ultramarinos, o Ministério das Colónias criara, no âmbito da sua Comissão de Cartografi a, uma Missão Hidrográfi ca em 1929, e uma Missão Geográfi ca em 1932, incumbida a primeira do levantamento da rede hidrográfi ca e da feitura de planos de bacias, e a segunda da produção de uma moderna Carta da Colónia de Moçambique (Rodrigues, 2007). Os trabalhos desta Missão começaram em 1933 a partir do paralelo 15o S e foram progredindo para sul e leste, do litoral para o interior, com a fi nalidade de garantirem uma cobertura integral do território por mapas modernos nas escalas de 1:250.000 e 1:500.000 (Soares -Zilhão, 1941). Na segunda metade dos anos 1950, a pouco tempo da chegada de Orlando Ribeiro a Moçambique, eram publicadas as últimas folhas dessa Carta, correspondentes aos territórios a sul do paralelo 25o e a norte do paralelo 15o. Para além desse levantamento, havia cartografi a muito recente na escala 1:50.000 produzida pela Direcção Provincial dos Serviços Geográfi cos e Cadastrais, que cobria uma boa parte da província. Outra informação cartográfi ca útil disponível era a do Atlas de Portugal Ultramarino, publicado em 1948 pelo Ministério das Colónias. O referido atlas comportava uma “Carta Geográfi ca” na escala 1:2.000.000 em três folhas, assim como onze mapas temáticos, sobre Moçambique. A informação básica sobre a geologia de Moçambique também estava disponível. Raquel Soeiro de Brito (1997: 164) informa a este respeito que existia desde 1908 um esboço de uma carta geológica de Moçambique, “de iniciativa particular”, o que talvez signifi que fi nanciada por capitais privados e justifi cada por razões comerciais; a partir de 1928, porém, as autoridades ofi ciais passaram também a realizar sondagens e reconhecimentos geológicos, de que vieram a resultar sucessivos novos esboços em 1934, 1940, 1948 e 1949, este último revisto depois de 1955. Outras áreas de investigação que estavam desenvolvidas eram as da engenharia agronómica, da zootecnia e da veterinária. Tratavam -se de áreas chave para a economia política da colonização e isso explica que tivessem benefi - ciado de atenção especial das autoridades e de apoios generosos para o seu ORLANDO RIBEIRO – O CADERNO DE CAMPO DE MOÇAMBIQUE Cadernos de Campo-Mocambique.indb 19Cadernos de Campo-Mocambique.indb 19 22-11-2013 03:48:1622-11-2013 03:48:16
26 ORLANDO RIBEIRO – CADERNOS DE CAMPO, MOÇAMBIQUE 1960 -1963 só de passagem. A 14 de agosto está de novo (ou ainda?) na capital da província, encontrando -se nesse dia com Aurélio Quintanilha no Centro de Investigação Científi ca Algodoeira. Há contactos com outros engenheiros agrónomos em outras datas, cujos nomes não pudemos identifi car, mas que sugerem que Ribeiro terá tido alguma relação nesse círculo, e eventualmente até feito com eles excursões ou benefi ciado dos seus esclarecimentos no campo. Na última semana de agosto, ou logo em início de setembro – as notas da sua agenda pessoal não são claras – terá feito uma viagem pela região central de Moçambique, aparentemente na companhia de Saul D. Rafael, um funcionário da administração colonial, profundo conhecedor da região, e que deixou obra publicada (Rafael, 2001). Quase todo o mês de agosto parece ter sido passado em Moçambique. Mas em fi m de agosto regressou a Angola, para trabalhar no sul da província, onde se encontrou com Suzanne Daveau, para depois voltar a Moçambique em fi nais de setembro. Esta permanência em África vai prolongar -se até à segunda quinzena de Outubro. Não devemos esquecer que Orlando Ribeiro coordenava então, ao mesmo tempo, duas campanhas de estudo, uma em Angola, onde se encontravam Ilídio do Amaral e Mariano Feio, e a de Moçambique. Apesar de a situação política nos territórios ultramarinos ser tensa, de o confl ito armado estar já instalado em Angola e haver problemas no norte de Moçambique (caso do Massacre de Mueda, no distrito de Cabo Delgado, em 1960), Orlando Ribeiro e os seus colaboradores gozavam de plena liberdade de movimentos e não parecem ter vivido qualquer sentimento de insegurança. As autoridades facilitavam as viagens. A circunstância do Governador de Moçambique à data destas expedições ser o Almirante Sarmento Rodrigues, a mesma pessoa que ocupava o lugar de Governador da Guiné na época da expedição de Ribeiro àquela colónia da África Ocidental, não terá sido certamente irrelevante. Orlando Ribeiro fez questão de deixar nas suas memórias nota de que as expedições em Angola e Moçambique se puderam fazer com toda a liberdade e independência política, asseverando que “nunca o Governo nada nos pediu nem perguntou, conduzindo nós as investigações apenas ao saber das nossas curiosidades e preferências” (Ribeiro, 2003: 129). Cadernos de Campo-Mocambique.indb 26Cadernos de Campo-Mocambique.indb 26 22-11-2013 03:48:1622-11-2013 03:48:16
27 A expedição de 1963, que Orlando Ribeiro realizou na companhia de Pierre Gourou, um bom amigo, professor do reputado Collège de France, e grande especialista de geografi a das regiões tropicais, começou mais tarde, ao que parece apenas a 22 de agosto, e terá sido mais breve, de duração possivelmente inferior a um mês. Contudo, talvez por se fazer na companhia de Gourou, com quem podia trocar impressões, parece ter sido uma expedição particularmente estimulante: dela resultaram 48 páginas do seu caderno de campo. 3. Os espaços visitados Como já dissemos, reconstruir a sequência de lugares visitados por Orlando Ribeiro nas suas expedições não é uma tarefa simples. Fazer a reconstituição exata dos trajetos que seguiu é impossível. Nem todos os locais que visitou lhe mereceram apontamento no caderno de campo e os caminhos seguidos entre os topónimos referidos são desconhecidos. Por vezes, ocorria -lhe apontar algo sobre um local que tinha sido visitado dias antes, o que signifi ca que o ponto do caderno em que determinado lugar aparece referenciado nem sempre está na ordem cronológica certa. Por outro lado, certos sítios foram visitados em mais do que uma ocasião, e Orlando Ribeiro, em vez de escrever outra nota, podia regressar à nota anterior para nela acrescentar as novas observações entretanto realizadas. Pesem embora estas difi culdades, podemos considerar que o mapa da Fig. 1, (ver Parte III, mapas), onde estão localizados os topónimos referidos no caderno de campo, descreve os contornos essenciais do espaço visitado por Orlando Ribeiro em Moçambique. Vendo esse mapa, é impossível não nos impressionarmos com o facto de Ribeiro ter estado, no conjunto das três campanhas que realizou, em praticamente todo o território daquela vastíssima província ultramarina, ainda que tenha visitado muitos lugares de passagem, fi cando certamente com a intenção de lá voltar com mais tempo. Estendendo -se em latitude desde os 10o 27’ aos 26o 52’ S, e dos 30o 12’ aos 40o 51’ E, Moçambique recobre mais de 771.000 km2, prolonga -se na ORLANDO RIBEIRO – O CADERNO DE CAMPO DE MOÇAMBIQUE Cadernos de Campo-Mocambique.indb 27Cadernos de Campo-Mocambique.indb 27 22-11-2013 03:48:1622-11-2013 03:48:16
28 ORLANDO RIBEIRO – CADERNOS DE CAMPO, MOÇAMBIQUE 1960 -1963 sua maior extensão, no sentido norte -sul, por mais de 1.900 km, enquanto em largura varia entre 200 e 600 km. São números bem elucidativos da imensa extensão do território que Orlando Ribeiro percorreu nessas missões de estudo em Moçambique. Fisicamente, Moçambique pode ser dividido em duas unidades essenciais, uma planície litoral, onde se encontram as formações sedimentares cretácicas e pós -cretácicas, e o interior de terras altas aplanadas, que corresponde ao soco antigo de rochas cristalinas do Pré -Câmbrico. Depois, mais para o interior ainda, mesmo junto às fronteiras, esses planaltos são interrompidos por blocos tectonicamente sobrelevados que formam cadeias montanhosas, os quais, a nordeste, junto ao lago Niassa, ainda se integram no vale do Rift. Desde a fronteira da Tanzânia até sensivelmente à latitude de Quelimane, a franja litoral é estreita e o rebordo do planalto chega a poucos quilómetros do litoral. Daí para sul, a planície litoral alarga -se até ocupar quase a totalidade do território e chegar praticamente à fronteira. Grandes rios internacionais, como o Zambeze, o Save e o Limpopo, vêm desaguar nesta planície, formando deltas, mais desenvolvido no primeiro caso, menos nos dois últimos. Retomando a geografi a dos espaços visitados por Orlando Ribeiro, percebemos que é sobretudo o litoral, onde se encontram interessantes formações lagunares e seus ecossistemas, assim como as áreas mais interiores, de montanha, ao longo da fronteira terrestre, que mais parecem captar a atenção de Orlando Ribeiro. A norte, o interior das atuais províncias de Cabo Delgado e Niassa, onde as densidades demográfi cas descem bastante e o povoamento se torna mais ralo, correspondem, em contrapartida, às regiões menos presentes nos cadernos. Em todas as suas visitas Orlando Ribeiro esteve em Lourenço Marques, e assim dispomos de alguns apontamentos não só sobre a estrutura da cidade e o seu porto, mas também sobre o litoral próximo onde se podia deslocar em excursões breves, mesmo durante os períodos em que tinha afazeres (palestras, cursos, etc.). Se na sua primeira visita Orlando Ribeiro viajou pelo litoral até Xai Xai, na segunda visita continuou o itinerário para norte até à Beira, passando por Vilanculos Cadernos de Campo-Mocambique.indb 28Cadernos de Campo-Mocambique.indb 28 22-11-2013 03:48:1622-11-2013 03:48:16
29 e a foz do rio Save, fazendo sempre quer observações sobre as actividades humanas, quer sobre aspectos geomorfológicos. Nessa segunda viagem, a partir da Beira, infl ectiu para o interior, para Vila Pery, Zembe, Rotanda, Chicamba e Manica, viajando depois para o norte para Vila de Sena, e pela única vez nestas três viagens, para Vila Cabral (atual Lichinga). Não há indicação de como lá chegou a partir de Nampula (anterior topónimo por ele referenciado no caderno), nem como viajou depois para a Ilha de Moçambique, um dos seus espaços de eleição, e onde esteve nas três viagens que efectuou. A sua terceira viagem, apesar de não ser a mais extensa no tempo, é a mais abrangente. Talvez pelo entusiasmo de estar na companhia do mestre e amigo Pierre Gourou. De Lourenço Marques viaja para norte, mas desta vez pela fronteira com o Zimbabué, dedicando atenção ao Limpopo e à sua barragem, onde já tinha estado na primeira visita. Segue então para Malvérnia, Save, Chimanimani, e passa novamente em Vila Pery, onde para além dos aspectos geomorfológicos, observa a situação nos colonatos e dos agricultores. Compara inclusivamente o que viu em 1961 (‘principalmente bananas’) com o que se depara nesta visita (‘girassol, laranja, milho, knaf’). Segue depois para norte, onde pela primeira vez visita Vila Gouveia, Guru, Tete e a Niassalândia. Esta região fronteiriça causou- -lhe uma profunda impressão – ‘a brutal montanha de Milange’, o planalto a 1000 metros, as escarpas vivas, as plantações de chá. Tal como na segunda viagem, visita Quelimane, e desta vez deixa -nos mais observações, sobre os palmares, algumas famílias e as suas culturas agrícolas, a pesca. A Quelimane chegou de avião vindo de Blantyre (muito provavelmente algumas das observações da topografi a e degrau de Milange são provenientes de vistas aéreas), e daqui partiu para Milange por terra, regressando novamente para partir para as terras altas de Gurué e Namuli, onde encontrou, nas suas palavras, uma ‘paisagem humanizada única’, resultado da transformação das encostas em socalcos e das plantações de chá. Seguiu por Ribaué e passou em Nampula, onde já tinha estado nas duas anteriores visitas, para parar na Ilha de Moçambique por um período maior de tempo. Pela primeira vez nas suas visitas prosseguiu para norte, para Nacala, observando a islamização do território, as infl uências do Índico, ORLANDO RIBEIRO – O CADERNO DE CAMPO DE MOÇAMBIQUE Cadernos de Campo-Mocambique.indb 29Cadernos de Campo-Mocambique.indb 29 22-11-2013 03:48:1622-11-2013 03:48:16
30 ORLANDO RIBEIRO – CADERNOS DE CAMPO, MOÇAMBIQUE 1960 -1963 e visitando o arquipélago das Quirimbas, sobretudo a ilha do Ibo e da Quirimba, onde tirou alguns apontamentos do que poderia vir a ser um dia uma interessante geografi a cultural das ilhas: hábitos alimentares e de pesca, culturas agrícolas dominantes, confi guração de casas e povoamento, desejos e costumes, etc. De regresso a Nampula observa ainda de caminho as quedas do rio Lúrio. 4. O material do caderno e os temas tratados Os cadernos de campo constituem um registo importante de factos observados e de ideias suscitadas nas interações do investigador com o terreno, que podem ou não ter uma continuidade no tempo e no espaço. Entre antropólogos, etnógrafos, botânicos, geólogos e geógrafos, o caderno de campo, a par com a máquina fotográfi ca a partir do fi nal do século XIX, sempre fez parte integrante do processo de investigação e da tradição de trabalho nas suas disciplinas. Nele se escreve, nele se esboça e desenha, nele se tomam apontamentos de datas, estatísticas, moradas, ou contactos de gente com quem convém falar. Engloba sem dúvida um processo de escrita criativa baseado numa experiência da realidade em primeira mão, e é, mais do que um mero espelho neutro do mundo que se observa, um refl exo do olhar do sujeito que observa, fruto de um trabalho de seleção que determina sobre o que se escreve e o que se omite. O objectivo principal dos cadernos de campo é serem uma ajuda ou contributo para publicações futuras, a partir dos quais, enquanto repositório de memórias, se espera que venham mais tarde a despertar sensações e impressões do contacto com o terreno. São geralmente textos produzidos pelo autor para o próprio autor, estando assim mais próximas de um diário do que de um texto académico ou de divulgação científi ca. Por vezes entremeiam -se mesmo nas observações notas mais pessoais. Hoje, com máquinas fotográfi cas e de vídeo, com gravadores de som digitais e sistemas de posicionamento global (GPS), podemos registar notas, ideias, e informação variada de outras formas e em outros suportes, razão por que os Cadernos de Campo-Mocambique.indb 30Cadernos de Campo-Mocambique.indb 30 22-11-2013 03:48:1622-11-2013 03:48:16
31 cadernos de campo têm vindo a perder alguma centralidade na investigação geográfi ca. De certa forma, os cadernos de campo são documentos invisíveis e que, na mais das vezes, foram inclusive produzidos na presunção dessa invisibilidade. A maioria dos cadernos de campo nunca chega a ser publicada. Não há dúvida que podem possuir informação valiosa, cuja divulgação merece ser feita; contudo, há que ser cauteloso na sua divulgação, uma vez que se tratam de textos que não foram normalmente pensados para serem publicados. Não só podem conter observações íntimas cuja divulgação seja de evitar, como podem também incluir imprecisões que o autor regista na precipitação do momento e que mais tarde, no gabinete, confrontando esse facto com outras fontes, ou depois de colher outras observações, vem a retifi car. Ao contrário dos textos que escrevemos num espaço controlado, em casa ou no escritório, os cadernos de campo fazem -se no terreno, debaixo de sol, ou sob chuvas e trovoadas. Por vezes escrevem -se em andamento, num Jeep, em cima do joelho, ou de pé enquanto se entrevista um transeunte. São documentos provisórios, rascunhados, compostos de notas avulsas e sem sequência, a que o autor espera poder vir a dar coerência mais tarde, a tornar mais elegante e legível a redação, e até, eventualmente, a encontrar forma de confi rmar um ou outro aspeto. Geralmente nunca chegam a ser objeto desse trabalho de revisão e melhoramento e permanecem por isso como documentos sempre inacabados. Produzir um caderno de campo é um trabalho que pode ser muito moroso. Fazer o esboço de uma vertente é demorado. É um trabalho de precisão, que obriga a uma capacidade de observação fi na e a uma mão segura e treinada, que hoje em dia, com máquinas digitais de alta resolução, já não se faz. Os cadernos de campo variam naturalmente muito de pessoa para pessoa. Uns são estruturados, incluem datas e lugares com grande rigor e de forma sistemática; outros são mais caóticos, misturam temas, confundem lugares sem uma sequência temporal clara. Uns são artísticos, contendo esboços e desenhos notáveis; outros têm meros traços perceptíveis apenas ORLANDO RIBEIRO – O CADERNO DE CAMPO DE MOÇAMBIQUE Cadernos de Campo-Mocambique.indb 31Cadernos de Campo-Mocambique.indb 31 22-11-2013 03:48:1622-11-2013 03:48:16
32 ORLANDO RIBEIRO – CADERNOS DE CAMPO, MOÇAMBIQUE 1960 -1963 para quem os faz, e por vezes nem para eles próprios. Há ainda cadernos que incluem materiais diversos, como recortes de papel, cartões de visita, rótulos de publicidade, que tanto podem ser colados como meramente colocados entre páginas. Certos autores de cadernos de campo são metódicos na sua realização, escrevendo neles diariamente em certo momento determinado, ao fi nal do dia, ou ao início da manhã, antes de partir para o campo. Outros escrevem irregularmente e de supetão, mal observam algo que desperta a sua atenção, para assegurarem que não se esquecem, e tal como Malinovski, as suas notas de campo são como ‘relatos caóticos’, onde tudo se escreve ou se conta. O caderno de Orlando Ribeiro que agora se publica inscreve -se claramente neste modelo mais desorganizado, rascunhado, ou ‘espontâneo’ de caderno. O rigor e a elegância que caracterizam a prosa publicada de Orlando Ribeiro não se detetam facilmente nas páginas rabiscadas deste caderno, onde tanto se podem encontrar, com a mesma naturalidade, primorosas representações de modelado do relevo e esquiços quase impercetíveis. A caligrafi a é por norma descuidada. A sintaxe, muito básica. Não há, na maior parte das páginas, cuidado evidente em conjugar os verbos ou sequer em manter as concordâncias de número e género. Os artigos e outras preposições são muitas vezes omitidos, como se desnecessários. Em contrapartida, abundam as abreviaturas. Tudo isto remete para uma forma de escrita telegráfi ca, apressada, de alguém que procura registar os factos que observa, datas e estatísticas, vocábulos novos, ou então relampejos de pensamentos mais especulativos, possíveis hipóteses de interpretação da realidade para necessária confi rmação posterior. Pela forma como está estruturado e pelo tipo de material que contém, percebemos que o caderno de campo era claramente apenas um instrumento de trabalho para Orlando Ribeiro, uma ferramenta para seu estrito uso pessoal, um auxiliar de memória onde tratava de guardar os dados colhidos e as observações que ia fazendo nos seus contactos com o terreno. Isso é muito notório se observarmos as informações que registou no caderno acerca do mercado de Lourenço Marques e a descrição que faz da Ilha de Moçambique no texto inédito agora publicado. Cadernos de Campo-Mocambique.indb 32Cadernos de Campo-Mocambique.indb 32 22-11-2013 03:48:1622-11-2013 03:48:16
33 ORLANDO RIBEIRO – O CADERNO DE CAMPO DE MOÇAMBIQUE Os cadernos de Moçambique, na globalidade das três missões realizadas, contêm de forma dominante apontamentos sobre aspectos geomorfológicos e sobre a vida rural. No primeiro grupo destacam -se as referências aos inselbergen ou montes -ilha (com 54 ocorrências em relação a Nampula, Xilovo, Vila Pery, Mafura, Zembe, Umtali, Vila Gouveia, entre muitas outras, e com diversos esboços), e à evolução morfológica do litoral, com destaque para os sistemas dunares e de lagunas. Estas vão muitas vezes acompanhadas de comparações com outros lugares visitados. No segundo grupo têm relevo os colonatos (Vila Pery, Sussundenga, etc.), incluindo os seus aspectos sociais e económicos e a proveniência e trajecto dos colonos, bem como os aproveitamentos hidroagrícolas de maior dimensão (o projecto da barragem do Incomati, a barragem do Limpopo, a barragem de Chicamba no rio Revuè, a albufeira de Kariba, no rio Zambeze) e aspectos da economia e sociedade agrária. Nestas últimas observações e apontamentos, Orlando Ribeiro preocupa -se sobretudo com as características das práticas agrícolas indígenas e sua transformação, os dois mundos do branco e do negro, do papel das cooperativas e do Estado no funcionamento da economia agrária, das culturas e da mecanização. Cadernos de Campo-Mocambique.indb 33Cadernos de Campo-Mocambique.indb 33 22-11-2013 03:48:1622-11-2013 03:48:16