Vol. 37, n.º 1, 2023, pp. 1–2. DOI: doi.org/10.21814/diacritica.5402 INTRODUÇÃO INTRODUCTION Elisa Lessa
[email protected] David Cranmer
[email protected] • O presente número da revista Diacrítica tem a figura de Eurico Thomaz de Lima como referência e reúne um conjunto de estudos que se debruçam sobre o seu percurso artístico enquanto pianista, compositor e pedagogo. Herdeiro da tradição romântica centroeuropeia do século XIX de influência germânica, Eurico, além de um intérprete virtuoso, revela nas suas obras para piano o gosto pelas raízes nacionais e uma linguagem pianística próxima do seu mestre Vianna da Motta (1868–1948). Alfredo Pinto (Sacavem), numa das suas Crónicas de Lisboa, publicadas semanalmente no Correio do Minho nas décadas de 20 e 30, afirma ter sido a última prova do curso de virtuosidade de Eurico Thomaz de Lima “um exame brilhantíssimo”. Curiosamente, o pianista pede-lhe que escreva no jornal local, que gostaria muito de tocar em Braga, o que viria a acontecer apenas muitos anos depois, quando passa a lecionar no conservatório da cidade. Colega de conservatório de Lopes-Graça (1906–1994), Eurico não seguirá os novos caminhos representados pelas vanguardas do seu tempo, referindo a propósito de “Ilha do Paraíso, suite em seis quadros” para piano (1966) tratar-se de “(...) música pura, erudita, séria, no idioma romântico, mas de expressão lusíada (...)”. A sua obra, ainda pouco conhecida, é um valioso contributo à literatura pianística nacional, pelo que se justifica a escolha do tema deste número da Diacrítica. Os trabalhos que agora se apresentam demonstram a riqueza da sua ação, enquanto membro de um grupo de artistas do seu tempo designados por pianistas-compositores, como foi também Óscar da Silva (1870-1958), cujas obras Eurico interpretava. E se Vianna da Motta foi um precursor da figura do músico-intelectual em Portugal, introduzindo no nosso país uma conceção da Arte Musical como atividade superior de espírito, Eurico Thomaz de Lima seu discípulo, seguiu o modelo do seu mestre numa articulação e integração extraordinariamente rica na atividade tripartida que realizou, mas percorrida num só caminho – o da ARTE na sua plenitude. O dossiê temático de um periódico não é um livro. Não procura tratar do seu tema de forma sistemática e exaustiva, mas expõe uma série de textos que exemplificam ou contextualizam. No presente caso, Rui Magno Pinto debruça-se sobre a passagem de Eurico Thomaz de Lima pela Madeira, focando a obra programática Ilha do Paraíso que esta ilha lhe inspirou, referindo entre outras questões o uso de melodias folclóricas Centro de Estudos Humanísticos (CEHUM), Escola de Letras, Artes e Ciências Humanas, Universidade do Minho, Braga, Portugal. ORCID: 0000-0003-3718-1629 Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM/IN2PAST), Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, Portugal. ORCID: 0000-0001-6537-5231
ELISA LESSA | DAVID CRANMER DIACRÍTICA, Vol. 37, n.º 1, 2023, pp. 1–2. DOI: doi.org/10.21814/diacritica.5402 madeirenses. O texto de Vitor Matos, Vera Fonte e Pedro Maia contribui para o contexto ao levantar a questão do folclorismo na obra de um contemporâneo: a 1.ª Suite Alentejana de Luiz de Freitas Branco (1890–1955). Luís Pipa e Miguel Simões discutem dois aspetos específicos da atividade de Eurico Thomaz de Lima: no primeiro caso, a sua preocupação como professor de piano referente à questão da dedilhação e a importância de Vianna da Motta como modelo neste respeito; no segundo caso, a história do Conservatório Regional de Música de Braga – a sua fundação por Maria Adelina Caravana e o papel assumido por Eurico nos últimos anos da sua carreira. Na programação dos seus concertos e na sua correspondência, percebe-se a importância que Eurico ligava ao intercâmbio entre Portugal e o Brasil, cujas origens e ramificações Rodrigo Teodoro de Paula descreve. A correspondência conservada na Universidade do Minho é analisada sistemática e detalhadamente, com numerosos exemplos, no artigo de Anabela Barros. Os restantes dois artigos ampliam o nosso conhecimento em outras esferas da vida musical do século XX. Teresinha Prada relembra-nos da atividade de António Augusto Urceira, figura significativa na transformação da guitarra “clássica” de um instrumento “folclórico” para um instrumento “erudito”. Hermano Carneiro delineia os meandros pelos quais a disciplina de Formação Musical passou para chegar a ter os contornos que possui atualmente. O conjunto dos oito textos aqui reunidos constituem, assim, um contributo relevante para os nossos conhecimentos sobre a figura de Eurico Thomaz de Lima, enquanto, ao mesmo tempo, elucidam de forma mais abrangente o nosso entendimento da vida musical portuguesa no século XX. Referências Momentos da Vida, Crónicas de Lisboa. (1929, junho 14). Correio do Minho. Biblioteca Pública de Braga. Thomaz de Lima, E. (1966, dezembro 11). O compositor Eurico Thomaz de Lima. Diário de Notícias. Espólio Eurico Thomaz de Lima [Álbum “Ilha da Madeira (1965–1967)”]. Universidade do Minho.