Full text
U n i v e r s i d a d e d o M i n h o
In s ti tu to de C iê n ci as S oc iai s
Guilherme Pinheir o P ozzer
A memória persistente
A f ábrica Sam paio, F err eira & Cia. em Riba d'Ave:
memória, hist ória e patrimônio industrial
maio de 202 1
UMinho | 202 1 Guilherme Pinheir o Pozzer A memória persistente. A f ábrica Sampaio, F err eira & Cia.
em Riba d'Abe: memória, hist ória e patrimônio industrial
Este trabalho foi financiado pe lo Conselho Nacional de Desen volviment o Científ ico e T ecnológico
do Brasil sob a forma de Bolsa de Doutoramento.
ii
Direit os de aut or e condiçõe s de utili zação do trabalho por ter ceiros
Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas
as regras e boas práticas internacionalme nte aceites, n o que concerne aos direitos de autor e
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Assim, o presente trabalh o pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo
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Atribuição -NãoCo merci al-S emDerivações
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https://creativecom mons.o rg/licenses /by- nc -nd/4.0/
iii
À Mila, sem qu em eu não teria começado este trabalho ;
À Rita, sem quem eu não teri a terminado es te trabalho ;
Ao Nereu (in memoriam), por te r me en sinado a não ter medo de sonh ar;
À Vera, por ter me ens inado a não ter medo de recomeçar;
Ao Ben jamin, por me ter recor dado o significado da esperança.
v
Agrade cimento s
Ao CNPq, pelo financiamento e investiment o em educação públi ca sem os qua is teri a sido
impossível desenvolver e sta investigação ;
Ao meu orientador Professor Jos é Manuel Lopes Cordeiro , pel a confiança, ensinamentos ,
paciência com o meu tempo de trabalho e pela inspiradora dedicação ao patrimônio industrial;
À Professora Beatriz Kühl, por ter acompanhado e acreditado neste trabalho desde o
princípio; e ao Professor Julián Sobrino , por t er me aju dado a encontrar o caminho para
desenvolvê- lo . A am bos agradeço também as palavras de incentivo e a ime nsa ge nerosidade das
leituras cuidadosas;
Ao Profes sor Jörg Schröder e à Professora F eder ica Scaffidi pela generosa leitura da tese;
Ao Profes sor F rancisco Costa e às minhas ex-orientadoras Profes soras Cristina Meneguello
e Silvana Rubino, por terem me apoiado a in iciar o doutoramento;
Às colegas Cláudia Marun e Lett ícia Leite, pelas leituras do projeto e dos relatórios;
Aos funcionários da Univers idade do Minho e d os arquivos, bibliotecas e outros centros de
documentação, pela atenção e dedicação; especialmen te Sofia Olive ira (ICS), Carina Silva (Archiv-
Ave), Marco Marlier (MIT), Suzana Salazar (MI T) e Nestor Borges (FNF);
À Rita Neves, pelo exemplo de resil iência, pela par ceria intelectual , pelo carin ho e
companheirismo funda mentais para qu e eu conseguisse terminar a tese que “parecia qu e eu não
queria acabar”.
À Camila Pozzer e à Vera Pinheiro, pelos s orrisos e carinho virtuais que me davam forças
para enfrentar a saudade. À Vera tam bém agradeço a revisão minuciosa do texto;
Aos amigos qu e, mesmo à distância, sempre estiveram comigo : Rafael Medeiros de Souza,
Viviane Coentro, Rodrigo Araújo, Marian a Marinelli, Bru no Medeiros , Joaquim Fantin Pere ira,
Ricardo Cardoso Leite e Maíra Ch inelatto Alves;
Aos amigos que m e acolheram com carinh o em Portu gal : Cédric Figueir edo, Rita Faria,
Luís Martins, Davide Carneiro, A udrey Simões, A lberto Correa, Cátia Conceição, Rui Cruz, An a
Francisca e Olívio Neves;
Ao Carlos Marinho , cuja sensibilidade me ajudou a crescer durante esse per curso;
À Alexandra Elbakyan e ao
Z-Library T eam
, pela dedicação em pr ol da democratização do
saber científico.
vi
Decl aração de integri dade
Declaro ter at uado com integridade na elaboração do presente trabalho acadé mico e
confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qu alquer forma de utilização indevida ou
falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas c onducente à su a elaboração.
Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do
Minho.
Braga, Universidade do Minho, 01 de jan eiro de 2021.
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Guilherme Pinheiro Pozz er
vii
Resum o
A fábrica Sa mpaio, F erreira & Cia. em Rib a d’Ave é um caso exemplar dos efeitos d a
desindustrialização na bacia hidrográfica do rio Ave. Após um período de deca dência, a empresa
decretou falência e desse process o resultou o abandono, a degradação progressiva e o
arruinamento parcial de suas instalações que, paralelamen te, passaram a ser ress ignificadas
como patrimônio industrial da região. Esta investi gação identificou que o discurso s obre o qual se
estruturou a patrimonialização teve como fundam ento narrativas memoriais hegemônicas sobre
seu fundador, Narciso F err eira, e sobre a própria Sa mpaio, Fer reira & Cia. e seus papéis na
industrialização d a Bacia do Ave ; que re ssaltavam pers pect ivas positivas e e squeceram ativamente
aspectos negativos ou divergentes.
A análise da Sampaio, Ferreira & Cia. estruturou -se sobre uma perspectiva de longa
duração (1896-2019); sobr e um a a nálise sistemática de diferentes tipos de doc umentos; e sobre
uma metodologia ce ntrada na História, mas com uma abordagem interdiscipl inar, como propos ta
pela Arqueologia Industrial. A investigação part e de uma proble mática do presente , o abandono e
arruinamento do com plexo fabri l e sua pat rimonialização, para mostrar como estas narrat ivas
memoriais hegem ônicas se estruturaram; q uais as múltiplas manifestações; como elas foram
usadas; e de que modo s e relacion am com a própr ia trajetória da cultura material edificada da
fábrica .
A investigação m ostra que as diferentes manifestações assumidas pelas narrat ivas
memoriais h egemônicas ao long o do t empo contribuíram para perpetuar as memórias dom inantes
e funcionaram com o instrumento s de fortalecimento político e social, mesmo qu e, por vezes,
apenas simbolicamente. E ssa memória persistente capacit ou a sociedade a reconh ecer a
Sampaio, Fer reira & Cia. , e out ras edificações relacionadas à fábrica e a Narciso Ferreira e seus
herdeiros em Riba d'Ave, co mo símbolos dos valores a e les associados. Desta forma , mesmo após
o fim da at ividade prod utiva e o po sterior aban dono e arruinam ento da fábrica , as narrativas
hegemônicas foram adequadas à nova realidade e apresentad as como discursos patrimoniais.
Palavras ch ave: Des industrialização d a Bacia do Ave; Mem ória e narrativas memoriais; Patrimônio
Industrial ; Riba d’Ave (Portugal); Sampaio, Ferreira & Cia.
xiv
Figura 157: croqui de referên cia co m destaque ao edifício nº 11. (CdA) .............................................................. 119
Figura 158: excerto do croqui de referência com des taque ao edifício nº 11. (CdA) ................................ .............. 119
Figura 159: PdV 1, 1.1 e 1.2 - interior do edi fício nº 11 e suas conexõ es. (F dA) ................................................... 119
Figura 160: PdV 2 - áre a em frent e ao edi fício nº 11 com acesso ao corredor central. (FdA) ................................ 120
Figura 161: PdV 3 - edifício nº 11, chaminé de 1899 . (FdA) ................................................................................ 120
Figura 162: PdV 4 - edifício nº 11, chaminé de 1899 . (FdA) ................................................................................ 120
Figura 163: croqui de referên cia co m destaque ao edifício nº 12. (CdA) .............................................................. 121
Figura 164: secções do edifício nº 12. (FdA) ....................................................................................................... 122
Figura 165: excerto do croqui de referência com des taque ao edifício nº 12, secção 12.1. (CdA) ......................... 123
Figura 166: PdV 1, 2 e 3 - edifício nº 12, secção 12.1. (FdA) ............................................................................... 123
Figura 167: PdV 4 e 5 - edifício n º 12, sec ção 12.1. Degradação. ( FdA) .............................................................. 124
Figura 168: PdV 6 - edifício nº 12, secção 12.1. Conexõ es internas. (FdA) ................................ ........................... 124
Figura 169: excerto do croqui de referência com des taque ao edifício nº 12, secção 12.2. (CdA) ......................... 125
Figura 170: PdV 1 - edifício nº 12, secção 12.2. Degradação por infiltrações . (FdA) ............................................. 125
Figura 171: PdV 2 - edifício nº 12, secção 12.2. Conexõ es. (FdA) ........................................................................ 125
Figura 172: PdV 3 e 4 - edifício n º 12, sec ção 12.2. Conex ões . (FdA) .................................................................. 126
Figura 173: edifício n º 12, sec ção 12.2 . Cultura material. (F dA) .......................................................................... 126
Figura 174: 4.2 e 4.3: edifício n º 12, secção 12.2. con exão à ch aminé e à secção 12.5 . (FdA) ........................... 126
Figura 175: PdV 4.3, 4.4, 4.5 e 4 .6 - edifício n º 12, sec ção 12.2; conex ões internas. (FdA) ................................ . 127
Figura 176: excerto do croqui de referência com des taque ao edifício nº 12, secção 12.3. (CdA) ......................... 128
Figura 177: PdV 1 - edifício 12, secção 12.3, visto do largo em fre nte ao mon umento. (F dA) ............................... 128
Figura 178: PdV 2 - edifício 12, secção 12.3. (FdA) ............................................................................................. 128
Figura 179: PdV 3 - edifício 12, secção 12.3, desta que ao pequen o escritó rio. (FdA) ........................................... 129
Figura 180: PdV 4 - edifício 12, secção 12.3. ...................................................................................................... 129
Figura 181: PdV 5 e 5.1 - edifício 12, secção 12.3. ............................................................................................. 129
Figura 182: PdV 6 e detalhe “a” - edifício 12, secção 12.3. Cultura material (FdA) .............................................. 130
Figura 183: detalhe “a.1” - edifíci o 12, secção 12.3 , docu mentação – cartões. (CSFC) ....................................... 130
Figura 184: excerto do croqui de referência com des taque ao edifício nº 12, secção 12.4. (CdA) ......................... 131
Figura 185: PdV 1 e 1.1 - acesso ao edifício 12, secção 12.4, pelo co rredor central. (Fd A) .................................. 131
Figura 186: PdV 2 - edifício , 12, secção 12.4, porção o este, sen tido no rte -su l. (FdA) ........................................... 132
Figura 187: PdV 3 - edifício , 12, secção 12.4, porção o este, sen tido sul -norte. (FdA) ........................................... 132
Figura 188: PdV 4 e 4.1 - edifício , 12, secção 12.4, porção les te, sentido norte - sul (F dA) .................................... 132
Figura 189: PdV 4 - edifício , 12, secção 12.4, porção le ste, sentido sul -norte (FdA) ............................................. 132
Figura 190: excerto do croqui de referência com des t aque ao edifício nº 12, secção 12.5 . (CdA) ......................... 133
Figura 191: PdV 1 e 2 - edifício n º 12, sec ção 12.5, sen tido su l- norte. (FdA) ........................................................ 133
Figura 192: PdV 3 - edifício nº 12, s ecção 12.5. porção sul. S eta: edifício nº 13. (FdA) ........................................ 133
Figura 193: PdV 4 - edifício nº 12, secção 12.5, sentido n orte - sul. (FdA) ................................ ............................. 134
Figura 194: PdV 4.1 - açude mai s ao su l da SFC visto do edifício nº 12. (FdA) ..................................................... 134
Figura 195: PdV 5 - edifício nº 12, secção 12.5. escada que leva à secção 12.2. (FdA) ................................ ....... 134
Figura 196: PdV 6 e 7 - edifício n º 12, sec ção 12.5, divisó ria intern a. (FdA) ......................................................... 135
Figura 197: PdV 8 e 8.1 - edifício nº 12, secção 12.5. S alas do laboratório. (F dA) ............................................... 135
Figura 198: PdV 8.2 e 8.3 - edifíc io n º 12, s ecção 12.5. S alas do laboratório. (FdA) ............................................ 136
Figura 199: PdV 9, 10 e 11 - edi fício 12, secção 12.5. Conex ões int ernas. (FdA) ................................ ................. 136
Figura 200: croqui de referên cia co m destaque ao edifício nº 12a. (CdA) ............................................................ 137
Figura 201: excerto do croqui de refe rência com des taque ao edi fício nº 12a. (CdA) ................................ ............ 137
Figura 202: PdV 1 (mo ntage m), 2 e 3 - edifício n º 12a. (FdA) .............................................................................. 137
Figura 203: croqui de referên cia co m destaque ao edifício nº 13. (CdA) .............................................................. 138
Figura 204: excerto do croqui de referência com des taque ao edifício nº 13. ....................................................... 138
Figura 205: foto de satélite da área do edifício nº 13. (GE ) .................................................................................. 138
Figura 206: PdV 1 - edifício 13. Sen tido no rte- sul. (F dA) ................................................................ ...................... 139
Figura 207: PdV 2 - edifício 13. Sen tido sul- norte. (FdA) ...................................................................................... 139
Figura 208: PdV 3 - detalhes “a” e “a.1”: edifício n º 13, porção s ul, escritó rio. (FdA) ........................................... 139
Figura 209: PdV 4 - edifício nº 13, mezanino, s entido su l -norte. (FdA) ................................................................ . 140
xv
Figura 210: PdV 5 - edifício nº 13, porção sul. (FdA) ........................................................................................... 140
Figura 211: cultur a material a bando nada no edifício nº 13. (FdA) ........................................................................ 140
Figura 212: PdV 6 - co nexão entre o edi fício nº 13 e n º 14. (FdA) ........................................................................ 141
Figura 213: croqui de referên cia com des taque ao edifício n º 14. (CdA) .............................................................. 142
Figura 214: excerto do croqui de referência com des taque ao edifício nº 14. (CdA) ................................ .............. 142
Figura 215: PdV 1 e 2 - edifício n º 14. (FdA) ....................................................................................................... 142
Figura 216: PdV 3, 3.1, 3.2, e 4 - edifício n º 14. Con exões (FdA) ................................................................ ........ 143
Figura 217: croqui de referên cia co m destaque ao edifício nº 15. (CdA) .............................................................. 144
Figura 218: excerto do croqui de referência com des taque ao edifício nº 15. (CdA) ................................ .............. 144
Figura 219, área on de se localizava o edifício n º 15. (Google E arth) .................................................................... 144
Figura 220: PdV 1 - áre a onde s e localizava o edi fício nº 1 5. (FdA) ................................................................ ...... 144
Figura 221: croqui de referên cia co m destaque ao edifício nº 16. (CdA) .............................................................. 145
Figura 222: excerto do croqui de refe rência com des taque ao edi fício nº 16. (CdA) ................................ .............. 145
Figura 223: PdV 1 - Cha miné de 1911. (FdA) ...................................................................................................... 145
Figura 224: PdV 2 - azulejo na bas e da chaminé de 1911. (FdA) ......................................................................... 146
Figura 225: azu lejo n a base da chaminé da Companh ia União Fab ril, no Porto. (F dA) ................................ ......... 146
Figura 226: azu lejo n a base da chaminé da Central Elét rica da Rib eira, em Viseu . (FdA) ...................................... 146
Figura 227: croqui de referên cia co m destaque ao edifício nº 17. (CdA) .............................................................. 147
Figura 228: excerto do croqui de referência com des taque ao edifício nº 17. (CdA) .............................................. 14 7
Figura 229: PdV 1 - edifício nº 17 (frente). (FdA) ................................................................................................ . 147
Figura 230: PdV 1 - edifício nº 17 (fundos ). (FdA) ................................................................................................ 147
Figura 231: croqui de referên cia co m destaque ao edifício nº 18. (CdA) .............................................................. 149
Figura 232: excerto do croqui de referência com des taque ao edifício nº 18. (CdA) ................................ .............. 149
Figura 233: PdV 1 - edifício nº 18. (FdA) ............................................................................................................. 149
Figura 234: croqui de referên cia co m destaque ao edifício nº 19. (CdA) .............................................................. 150
Figura 235: excerto do croqui de referência com des taque ao edifício nº 19. (CdA) ................................ .............. 150
Figura 236: PdV 1 - edifício nº 19. Detalhe dos resquícios da estrutu ra anterior. (FdA) ......................................... 150
Figura 237: corrente que del imita s imbolicamente a SFC. (FdA) .......................................................................... 151
Figura 238: divis ão en tre reutilização (am arelo) e abandon o (verde ). (GE) ............................................................ 151
Figura 239: croqui de refe rência sobre a organiz ação do co mplexo fabril pa ra 1896 -190 0. (Cd A) ........................ 195
Figura 240: SFC em 190 0 (s épia). (MIT ) ............................................................................................................. 195
Figura 241: SFC em 190 0 (pre to e branco). (MIT) ............................................................................................... 206
Figura 242: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 1900 -1913. (CdA) ........................ 207
Figura 243: SFC no jornal O Comércio do Po rto Ilustrado (1913). ( B PMP) ........................................................... 207
Figura 244: SFC no jornal O Comércio do Po rto Ilustrado (1913) . Alterações. (B PMP) ......................................... 208
Figura 245: enquad ramento da F igura 244 (E d. nº 12 e canal). (B PMP) .............................................................. 209
Figura 246: enquad ramento da F igura 244 (E d. nº 6 e 9). (B PMP) ...................................................................... 209
Figura 247: enquad ramento da F igura 244 (Ed. nº 16) . (BPMP) ................................................................ .......... 210
Figura 248: enquad ramento da F igura 244 (E d. nº 11) . (BPMP) .......................................................................... 213
Figura 249: proje to do açude no Amieiro Gale go. Fo nte: Archiv - Ave, Proc. 86/1909, p asta 1. .............................. 214
Figura 250: plant a para o açude no Amieiro Galego. Fo nte: Archiv -Ave, Proc. 86/1909, pasta 1 .......................... 215
Figura 251: c anal e casa dos mot ores. Fonte: Archiv -Ave, Proc. 86/1909, p asta 1 .............................................. 215
Figura 252: plant a da linha de al ta tensão entre Amieiro Galego e Riba d'Ave, 1905. (MI T) .................................. 216
Figura 253: enquad ramento da S FC n a Figura 252. (MIT) ................................................................................... 217
Figura 254: traç ado aproxima do da linh a de alta tensão. (GE) ............................................................................. 217
Figura 255: anúncio da OFC no jornal O Comércio do Porto Ilu strado, 1912. (B PMP) .......................................... 218
Figura 256: “Qua dro de recepç ão de en ergia elétrica” d a OFC, 19 12. (BP MP) .................................................... 219
Figura 257: “Salão de Fiação: g ru po de torces movidos a el etricidade” d a OFC, 1912. (B PMP) ........................... 219
Figura 258: “Salão de Fiação: g ru po de con tínuos movido s a eletricidade” d a OFC, 1912. (B PMP) ...................... 219
Figura 259: “Salão de Tecel agem” da OFC, 19 12. (BPMP) ................................................................................. 219
Figura 260: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 1913 -1915. (CdA) ........................ 224
Figura 261: SFC no jornal O Primeiro de Janeiro . 12 de ju lho de 1925. (JMLC) ................................................... 224
Figura 262: enquad ramento da F igura 261. Alterações na S FC, 1900-1913. (JML C) ........................................... 225
xvi
Figura 263: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 1915 -1917. (CdA) ........................ 226
Figura 264: SFC en tre 1915 e 19 17. (MIT ) ......................................................................................................... 226
Figura 265: enquad ramento da F igura 264 (E d. nº 2) . (MIT) ................................................................ ............... 226
Figura 266: Plan ta para el evar o açude n o Amieiro Galego (A rchiv - Ave. Proc. 171/1915) .................................... 227
Figura 267: croqui de referên cia so bre a organização do complexo f abril para 1917. ( CdA) ................................ . 233
Figura 268: c artaz “No tem po de Narciso Ferreira” (FNF). .................................................................................. 233
Figura 269: enquad ramento da S FC n a Figura 268 (SFC e m 1917 ). (F NF) .......................................................... 233
Figura 270: SFC em 191 7 no filme “As min as de S. Pedro da Cova” (1917). (CPMC) ......................................... 234
Figura 271: enquad ramento da S FC n a Figura 270. (CPMC) ............................................................................... 234
Figura 272: dat ação dos edifício s da SFC até 1917. ( CPM C) ............................................................................... 235
Figura 273: c apa da Revista Indú s tria Portuguesa de Ju lho de 1929 (Rollo , 2008, p. 80) .................................... 254
Figura 274: c artaz da Feira de A mostras de Es toril, 1929. (Anjo s, 2013, p. 45 do s Anex os) ................................ 254
Figura 275: Inscrição da SFC. "C atálogo Oficial da Feira de Amostr as de Esto ril" (1929). (FCO) .......................... 261
Figura 276: “Pers pectiva do Parque de Estoril onde foi ins talada a Feira” (1929). (FCO) ..................................... 261
Figura 277: c apa do "Catálogo O ficial da Feir a de Amo stras de Est oril" (1929). (FCO) ......................................... 262
Figura 278: plant a dos es tandes da Feira de Amostras de E storil (1929). (FCO) .................................................. 263
Figura 279: di ploma da med alha de ou ro da SFC na Fe ira de Amostras de E storil (1929). (MIT) .......................... 265
Figura 280: bandeir a da fáb rica SFC. ( 1). (MIT/Fa malicão Id) .............................................................................. 266
Figura 281: enquad ramento da F igura 280 (e mblema). (MI T/Fam alicãoId) ......................................................... 266
Figura 282: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 1934 -1943. (CdA) ........................ 275
Figura 283: SPC en tre 1934 e 19 43 (n orte). (CPF - ALV- 004424) ................................................................ ....... 276
Figura 284: SPC en tre 1934 e 19 43 (su l). (CPF - ALV- 004416) ........................................................................... 276
Figura 285: paisa gem-sequên cia da SFC en tre 1934 a 1 943. (CPF - ALV- 004424 e ALV - 004416) ....................... 276
Figura 286: enquad ramento da F igura 284 (E d. nº 16) . (CPF - ALV- 004416) ....................................................... 277
Figura 287: Riba d'Ave, poss ivelmente en tre 1944 e 1947. ( M achado & Rebelo, 1947 Apud Cout o, Correia, &
Matos, 2010 /2011, p. 491) ............................................................................................................................... 277
Figura 288: Riba d'Ave em, no mínimo, 1949 . (APA) ........................................................................................... 278
Figura 289: enquad ramento da F igura 283 (E d. nº 1, 2, 3 e 4) (CPF - ALV- 004424) ............................................ 278
Figura 290: enquad ramento da F igura 283 (E d. nº 10 e 12). (CPF - ALV- 004424) ............................................... 279
Figura 291: enquad ramento da F igura 283 (E d. nº 6, 7, 8 e 9) . (CPF - ALV- 004424) ........................................... 280
Figura 292: recor te da plant a adjunta ao P roc. 752/1948 ( Cf. Figu ra 355). (Archiv -Ave) ...................................... 281
Figura 293: SFC por vo lta de 194 0. In “Famalicão – 1940” (aos 7 min. e 37s eg.). Dir. Mano el de Oliv eira. (You Tube;
CITI) ................................................................................................................................................................... 282
Figura 294: enquad ramento da Figura 293 (E d. nº 6, 7 e 8). (YouTube; CITI) ...................................................... 283
Figura 295: SPC en tre 1934 e 19 43. Po rtaria e monu mento (1). ( CPF - ALV- 004425) ......................................... 291
Figura 296: SPC en tre 1934 e 19 43. Po rtaria e monu mento (2). (CPF - ALV- 004407) ......................................... 291
Figura 297: SPC en tre 1934 e 19 43. L argo do monu mento. (CPF - ALV- 004410) ................................................ 292
Figura 298: SPC en tre 1948 e 19 52. L argo do monu mento. (CPF - ALV- 004420) ............................................... 292
Figura 299: monumen to possive lmente entre 1948 e 1952. (CPF - ALV - 004419) ................................................ 292
Figura 300: enquad ramento fo tografia ALV - 004426. (CPF) .................................................................................. 294
Figura 301: paisa gem-sequên cia da en trada da S FC. (CPF - AL V-004421 e ALV- 004408) .................................... 294
Figura 302: "Largo e fachada principal". (CPF - ALV- 004418) .............................................................................. 295
Figura 303: c artaz estilo art déco . (Paris, 1925). (D'Elbo ux, 2013 , p. 64) ................................ ............................ 295
Figura 304: croqui de refe rência: monu mento (1934), Teatro (194 4) e Mercado (1 947). (CdA) ........................... 297
Figura 305: Construção do teatro Narciso Ferreira. (MMV) .................................................................................. 297
Figura 306: Tea tro Narciso Fe rreira. (M achado & Re belo, 1947 Apud Cou to, Correia, & M atos, 201 0/2011, p. 491)
.......................................................................................................................................................................... 298
Figura 307: Tea tro Narciso Fe rreira. (A AG) ................................................................................................ .......... 298
Figura 308: Tea tro Narciso Fe rreira, posterior a 1949. (F NF) ............................................................................... 298
Figura 309: Me rcado Narciso Fe rreira ( 1), pós -1949. (J FR) ................................................................................. 299
Figura 310: Me rcado Narciso Fe rreira (2), pós -1949. (APA) ................................................................................. 299
Figura 311: Me rcado Narciso Fe rreira (3), s /d. (FNF) .......................................................................................... 299
Figura 312: Me rcado Narciso Fe rreira (4), s /d. (JFR) .......................................................................................... 299
xvii
Figura 313: Me rcado Narciso Fe rreira (5), s /d. (Leit ão & Saraiva, 2012, p. 15) ................................................... 300
Figura 314: “Fest as do Trabalho em Famalicão – 1º de m aio de 1937 ” (frame aos 2min09s ) Dir.: Salazar Din iz
(1937) (CPMC) ................................................................................................................................................... 302
Figura 315: “Fest as do Trabalh o em Famalicão – 1º de m aio de 1937 ” (frame aos 4min05s ) Dir.: Salazar Din iz
(1937) (CPMC) ................................................................................................................................................... 303
Figura 316: “Fest as do Trabalho em Fam alicão – 1º de m aio de 1937 ” (frame aos 4min49s ) Dir.: Salazar Din iz
(1937) (CPMC) ................................................................................................................................................... 303
Figura 317: “Fest as do Trabalho em Famalicão – 1º de m aio de 1937 ” (frame aos 6min43s ) Dir.: Salazar Din iz
(1937) (CPMC) ................................................................................................................................................... 303
Figura 318: SFC no filme “Fest as do Trabal ho em F amalicão – 1º de maio de 1937” (f rame ao s 6min18s) Dir.:
Salazar Diniz (1 937) (CPM C) ................................................................................................ .............................. 304
Figura 319: etiqu eta da Fábrica d e F iação e Tecidos do Rio Vize la. (Ferreira D. V., 2014, p. 76) .......................... 307
Figura 320: etiqu eta da Fábrica d e Tecido s da Po nte de Negrelos. (Ferreira D. V., 2014, p. 56) ........................... 307
Figura 321: etiqu eta da Empres a Têx til de Caneiros. (Ephemera) ........................................................................ 308
Figura 322: etiqu eta da Compan hia de Fi ação e Tecido s de Gu imarães (Ephemera) ............................................ 308
Figura 323: etiqu eta da Fábrica d e Fiação e Tecidos Raúl Ferreira. (B orges, 2012, p. 192) ................................ . 309
Figura 324: etiqu eta dobrável de amostr a de tecidos da S FC. (CSFC) .................................................................. 309
Figura 325: etiqu eta simples de amostra de tecidos da S FC. (CSFC) ................................................................... 309
Figura 326: etiqu eta da S FC com o mon umento a Narciso Ferreira (1). (Ephemera) ............................................ 311
Figura 327: etiqu eta da SFC co m o monumen to a Narciso Fe rreira (2). (MI T) ...................................................... 311
Figura 328: monumen to a Na rciso Ferre ira, poss ivelmente 1934 -1 943. (CPF – ALV- 004415) ............................. 312
Figura 329: monumen to a Na rciso Ferreira, poss ivelmente 1934 -1943. (CPF – ALV- 004398) ............................. 313
Figura 330: SFC poss ivelmente 1 934 -1943. (CPF - ALV- 004417) ........................................................................ 314
Figura 331: monumen to a Na rciso Ferreira, poss ivelmente 1934 -1943. (CPF - ALV- 004414) ............................... 315
Figura 332: monumen to a Narciso Ferreira, possive lmente 1934 -1 943. (CPF - ALV- 004396) ............................... 315
Figura 333: plac a no mo numento, possive lmente 1934 - 1943. (CP F - AL V- 004397) ............................................. 315
Figura 334: plac a no mo nume nto a Narciso Fe rreira. (FdA) ................................................................ ................. 316
Figura 335: monumen to a Na rciso Ferreira, em 2016. (FdA) ............................................................................... 323
Figura 336: monumen to a Na rciso Ferreira, poss ivelmente en tre 1948 -1952. (CPF - ALV- 004427) ...................... 323
Figura 337: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 1948 -1952. (CdA) ........................ 350
Figura 338: plant a para amplia ção da SFC. (Archiv -Ave. Proc. 497 /1947) ................................ ........................... 351
Figura 339: SPC en tre 1948 e 19 52 (n orte). (CPF - ALV- 004428) ................................................................ ....... 351
Figura 340: SPC en tre 1948 e 19 52 (su l). (CPF - ALV- 004423) ........................................................................... 351
Figura 341: paisa gem-sequên cia da SFC en tre 1948 a 1952. (CPF - ALV- 004428 e ALV - 004423) ....................... 351
Figura 342: enquad ramento da F igura 339 (E d. 16 e 18 ). (CPF - A LV- 004423) ................................................... 352
Figura 343: edifício n º 18, in icialmente a cantin a da SFC. (FN F) .......................................................................... 353
Figura 344: edifício n º 18, in icialmente a cantin a da SFC. ( CPF - ALV- 004403) .................................................... 353
Figura 345: “Cozin ha das can tinas da Fábric as de Ri ba d'Ave”, 1947. (MIT) ................................ ....................... 353
Figura 346: plant a para am pliação da SFC (su l) (Archiv - Ave. Proc. 497/1947) .................................................... 354
Figura 347: enquad ramento da F igura 338 (E d. nº 10 e 12) . (CPF - ALV- 004428) ............................................... 354
Figura 348: paisa gem-sequên cia in terior da SFC, 1948 -1952 . ( CPF. ALV- 004422 e ALV - 004409) ....................... 355
Figura 349: enquad ramento da F igura 347 (E d. nº 10) . (CPF - ALV- 004409) ....................................................... 355
Figura 350: enquad ramento da F igura 338 (E d. nº 2, 3 e 4). (CPF - ALV- 004428) ............................................... 356
Figura 351: enquad ramento da F igura 347 (E d. nº 2, 3 e 4). (CPF - ALV- 004422) ............................................... 356
Figura 352: enquad ramento da F igura 338 (E d. nº 6, 7, 8 e 9) . (CPF - ALV- 004428) ........................................... 357
Figura 353: Dest aques na Figura 347 (E d. nº 7, 8 e 9). (CPF - ALV-004422 e ALV- 004409.) ............................... 357
Figura 354: anexo do edifício nº8 (interior). (FdA) ................................................................................................ 358
Figura 355: anexo do edifício nº8 (fro ntal). (FdA) ................................................................................................ . 358
Figura 356: plant a adjunta ao P ro c. 752/1948. (Archiv -Ave) ............................................................................... 359
Figura 357: recor te da Figura 35 6 (1) (Archiv -Ave) ................................................................ .............................. 360
Figura 358: recor te da Figura 35 6 (2) (Archiv -Ave) ................................................................ .............................. 360
Figura 359: recor te da Figura 35 6 (3) (Archiv-Ave). ............................................................................................. 360
Figura 360: recor te da Figura 35 6 (4) (Archiv -Ave). ................................................................ ............................. 362
xviii
Figura 361: recor te da Figura 35 6 (5) (Archiv -Ave). ................................................................ ............................. 362
Figura 362: enquad ramento da F igura 283 (E d. nº 6, 7, e 8). (CPF - ALV- 004424) .............................................. 362
Figura 363: edifício nº 6 (2 016). (FdA) ................................................................................................................ 363
Figura 364. Foto de satélite do e difício nº 6. (GE) ................................................................................................ 363
Figura 365: edifício n º 8, secção 8.1. primeiro piso, parte 2. (F dA) ...................................................................... 363
Figura 366: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 1952 -1954. (CdA) ........................ 364
Figura 367: plant a para amplia ção da SFC (no rte). (Archiv - Ave. Proc. 497/1947) ................................................ 364
Figura 368: SFC (no rte) entre 19 52 e 1954 . (MIT) .............................................................................................. 365
Figura 369: SFC (su l) entre 1952 e 1954. (MIT ) ................................................................................................ . 365
Figura 370: paisa gem-sequên cia da S FC entre 1952 e 1954 (com croqui hipotético - CdA). (MIT) ....................... 365
Figura 371: enquad ramento da F igura 368 (E d. nº 4, 10 e 12) (MIT) .................................................................. 368
Figura 372: enquad ramento da F igura 347 (E d. nº 4) (CPF - ALV- 004422) .......................................................... 368
Figura 373: extre mo-n orte do edi fício nº 4 (2016 -2018 ). (FdA) ............................................................................ 368
Figura 374: croqui de refe rência sobre a organiz ação do co mplexo fabril pa ra 1955 -195 7. (Cd A) ........................ 369
Figura 375: a SFC possivelmen te entre 1955 e 1957. (Fam a licão antigo) ............................................................ 369
Figura 376: enquad ramento da F igura 347 (E d. nº 10 e 12). (F amalicão Antigo ) ................................................. 370
Figura 377: Plan ta da SFC pos sivelmente en tre 1955 e 1957 . (Arc hiv -Ave. Proc. 353/1945) .............................. 370
Figura 378: recor te da Figura 37 6 (E d. nº 10 e 12). (Archiv -Ave. Proc. 353/1945). ............................................. 371
Figura 379: ALV-0043 95, “pavilh ão co m urdideira”. ( CPF) .................................................................................. 378
Figura 380: ALV- 0043 92, “pavilh ão de en rolamento do tecido”. (C PF) ................................................................ 379
Figura 381: edifício n º 4, secção 4.1. Rés do chão. (F dA) .................................................................................... 379
Figura 382: ALV-0043 90, "pavilhão de tecelagem". (CPF ) ................................................................................... 379
Figura 383: edifício n º6. (FdA) ............................................................................................................................ 379
Figura 384: ALV-0043 93, "pavilhão de tecelagem".(Fo nte CPF) ........................................................................... 380
Figura 385: ALV-0043 91, "operár ios a trabalha r na secção de estampage m". (Fonte CPF) .................................. 380
Figura 386: ALV- 0044 12, “operár ios a trabalha r na secção de estampari a”. (CPF) .............................................. 380
Figura 387: ALV-0043 91, Análise do telhado. (CPF) ............................................................................................ 381
Figura 388: ALV-0044 12, Análise do telhado. (CPF) ............................................................................................ 381
Figura 389: edifício n º 8 por vo lta de 1969 . (FNF) ............................................................................................... 382
Figura 390: ALV-0044 00, "pavilhão co m cardas de fiaç ão". (CPF) ....................................................................... 382
Figura 391: ALV- 0043 94, “pavilh ão com bo binadeiras”. (CPF) ............................................................................ 383
Figura 392: ALV-0044 02, "laminadores". (CPF) .................................................................................................. 383
Figura 393: edifício n º 10, sec ção 10.2 . rés do chão. (FdA) ................................................................ ................. 383
Figura 394: ALV-0043 99, "pavilhão de tinturaria de fio". (CPF) ............................................................................ 384
Figura 395: ALV-0044 13, "secção de acabamentos de tecidos". (F onte CPF) ...................................................... 384
Figura 396: enquad ramento da F igura 339 (E d. nº 12) (CPF - ALV-004428). ....................................................... 384
Figura 397: ALV- 0044 05, “painel de comando da centr al eléctrica ”. (CPF) .......................................................... 385
Figura 398: ALV-0044 01, "gerado r". (CPF) ......................................................................................................... 385
Figura 399: Enquad ramento da Figura 385. (F onte CPF - ALV- 004391) ............................................................... 3 92
Figura 400: Enquad ramento da Figura 386. ( CPF - ALV- 004412) ........................................................................ 392
Figura 401: interior d a SFC, pos sive lmente no edifício n º 10. s/d. (Pinto, 2014, p. 215) ..................................... 394
Figura 402: interior d a SFC, pos sive lmente no edifício n º 10. s/d. (MIT) .............................................................. 394
Figura 403: ALV-0044 24, vulto em fren te ao escritório. (CPF) .............................................................................. 397
Figura 404: ALV-0044 16, possível trabalhador. (CPF) .......................................................................................... 397
Figura 405: ALV-0044 28, trabalhadores . (CPF) ................................................................................................... 398
Figura 406: ALV-0044 23, trabalhadores . (CPF) ................................................................................................... 398
Figura 407: ALV-0044 17, destaq ue aos trabalhadores. (CPF) .............................................................................. 399
Figura 408: ALV-0044 22, destaq ue aos trabalhado res. (CPF) ................................................................ .............. 399
Figura 409: ALV-0044 09, destaq ue aos trabalhadores. (CPF) .............................................................................. 399
Figura 410: ALV- 0044 04, “porme nor das co lunas de edifício em cons trução” (CPF) ............................................ 403
Figura 411: ALV- 0044 06, “porme nor das co lunas de edifício em cons trução” (CPF) ............................................ 403
Figura 412: ALV- 0043 89, “funcion ários a abastecer automóvel em pos to da Shell nas instalações da fábrica têxtil
Sampaio, Ferreir a & Cia. Lda., Ri ba de Ave” ( CPF) .............................................................................................. 406
xix
Figura 413: ALV- 0044 08, “gradeamento e fachada principal da fábrica têx til”. (CPF) ........................................... 406
Figura 414: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 1958. ( CdA) ................................ . 411
Figura 415: fotog rafia aérea ver tical da SFC, 19 58. ( CigeoE) ............................................................................... 411
Figura 416: Enquad ramento da Figura 368. (MI T) ............................................................................................... 412
Figura 417: recor te da Figura 37 7. (Archiv - Ave. Proc . 353/194 5) ................................................................ ....... 412
Figura 418: enquad ramento da F igura 415(E d. nº 12). (Fon te CigeoE) ................................................................ 413
Figura 419: enquad ramento da F igura 415 (E d. nº 17) . (Fon te CigeoE) ............................................................... 413
Figura 420: enquad ramento da F igura 415 (E d. nº 6, 7, 8, e 9). (Fonte CigeoE) .................................................. 414
Figura 421: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 1959 -1964. (CdA) ........................ 415
Figura 422: croqui d a SFC anex ado ao Proc. 313/1961. (Archiv - Ave) ................................................................ .. 416
Figura 423: esboço topográfico d a SFC anexado ao Proc. 928/19 63. (Archiv -Ave) ............................................... 417
Figura 424: a SFC possivelmen te entre 1959 e 1964. (S ousa F. D., 2017, p. 34) ............................................... 418
Figura 425: enquad ramento da F igura 424 (E d. nº 12, 13, 14 e 17). (So usa F. D., 2017, p. 34) ......................... 420
Figura 426: enquad ramento da F igura 423 (E d. nº 8) . (So usa F. D., 2017, p. 34) ............................................... 420
Figura 427: dest aques na Figur a 348 (Ed. nº 9). (CPF - ALV-0044 09.) ................................................................ 421
Figura 428: edificaç ão nº 9 entre 2016 e 2018. (F dA) ................................................................ ........................ 421
Figura 429: edifício n º 9 en tre 2016 e 2018. ( FdA) ............................................................................................. 421
Figura 430: proje ção virtual n a Figura 348 (Ed. nº 8). (CPF ) ................................................................................ 422
Figura 431: SFC en tre 2016 e 20 18 (anex o em frente ao ed. nº 8). (FdA) ........................................................... 422
Figura 432: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 1964. ( CdA) ................................ . 423
Figura 433: plant a topográfica d a SFC anexada ao Pro c. 687/1 964. (Archiv -Ave) ................................................ 423
Figura 434: recor te da Figura 43 3. (E d. nº 1) (Archiv - Ave) ................................................................................... 424
Figura 435: recor te da Figura 43 3. (E d. nº 13 e 15). Fon te: Archiv- Ave) ............................................................... 424
Figura 436: proje to de elev ação do edifício n º 12. Fonte: Archiv -Ave, Proc.687/1964.) ........................................ 425
Figura 437: recor te da Figura 43 3. (E d. nº 12) ). (Archiv -Ave) ............................................................................... 425
Figura 438: rés do chão do edifício nº 12 (Archiv - Ave, Proc. 687/1964) .............................................................. 427
Figura 439: primei ro piso do edifício nº 12 Fonte: Archiv -Ave, Proc. 687/1964) .................................................. 427
Figura 440: segundo piso do edifício n º 12 (Archiv -Ave, Proc. 687/1964) ............................................................ 427
Figura 441: croqui de refe rência sobre a o rganização do co mplexo fabril para 1965. ( CdA) ................................ . 428
Figura 442: fotog rafia aérea ver tical da SFC, 19 65. (DGT) ................................................................................... 428
Figura 443: enquad ramento da F igura 442 (E d. nº 12) . (DGT) ............................................................................ 429
Figura 444: enquad ramento da F igura 442 (E d. nº 15 e 17). (D GT) .................................................................... 429
Figura 445: enquad ramento da F igura 442 (E d. nº 4 e 12, sec ção 1). (DGT ) ................................ ....................... 430
Figura 446: enquad ramento da F igura 442 (E d. nº n º 6, 7, 8, e 9) (DGT) ............................................................ 430
Figura 447: enquad ramento da F igura 442 (B ombeiros Vo luntários ). (D GT) ......................................................... 430
Figura 448: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 1966 -1968. (CdA) ........................ 433
Figura 449: fotog rafia aérea ver tical da SFC, 19 68. ( CigeoE) ............................................................................... 433
Figura 450: enquad ramento da F igura 449 (E d. nº 8 e 9). (CigeoE ) ..................................................................... 434
Figura 451: edifícios nº 8 e 9, 2016 -2018 . (FdA) ................................................................................................ 434
Figura 452: fotog rafia aérea o blíq ua baixa da SFC, 19 66-1968. (Sou sa F. D., 2017 , p. 28) ................................ . 434
Figura 453: fotog rafia aérea oblí q ua baixa da SFC, 19 66 -1968. (F NF/MMV) ....................................................... 435
Figura 454: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 1969. ( CdA) ................................ . 436
Figura 455: fotog rafia aérea oblí q ua baixa da SFC po r volta de 19 6 9 (1). (FN F) ................................................... 436
Figura 456: fotog rafia aérea oblí q ua baixa da SFC po r volta de 19 6 9 (2). (FN F) ................................................... 437
Figura 457: fotog rafia aérea oblí q ua baixa da SFC po r volta de 19 6 9 (3). (MMV/FNF) ......................................... 437
Figura 458: enquad ramento da F igura 455 (E d. nº 6). (FNF) ............................................................................... 438
Figura 459: enquad ramento da F igura 456 (E d. nº 6) . (FNF) ............................................................................... 438
Figura 460: enquad ramento da F igura 457 (E d. nº 6) . (MMV/FNF) ..................................................................... 438
Figura 461: passei o em frente à SFC, 2016 - 2018. (FdA) ..................................................................................... 439
Figura 462: “Fazer I ndústria”. ( FdA) ................................................................................................................... 440
Figura 463: “Fazer Ci dade”. ( FdA) ...................................................................................................................... 440
Figura 464: "Fazer regi ão". (FdA) ........................................................................................................................ 440
Figura 465: detalha mento da in scrição - monumen to “Fazer Indús tria”. ( FdA) ....................................................... 441
xx
Figura 466: Pos to da GNR. (FN F) ........................................................................................................................ 441
Figura 467: escola p rimária N arciso Ferreira (1). (SI PA) ...................................................................................... 441
Figura 468: escola p rimária N arciso Ferreira (2). (FNF) ....................................................................................... 441
Figura 469: Hospit al Narciso Fe rreira (1). (B orges, 2012, p. 163) ....................................................................... 442
Figura 470: Hospit al Narciso Ferr eira (2). (APA) .................................................................................................. 442
Figura 471: detalha mento da in scrição - monumen to “Fazer Cidade ”. (FdA) ................................ .......................... 443
Figura 472: edifício do s CTT (FN F) ...................................................................................................................... 443
Figura 473: Café de Riba d’Ave. (FN F) ................................................................................................................ 444
Figura 474: Café de Riba d’Ave (i n terior). (Famalicão anti go) ............................................................................... 444
Figura 475: Estal agem de São Pedro (1), antes de 1955. (JFR) ........................................................................... 444
Figura 476: Estal agem de São P edro (2). s /d. (FNF) ........................................................................................... 444
Figura 477: Estal agem de São Pedro (3). s/d. (So usa F. D., 2017, p. 38) ........................................................... 444
Figura 478: Estal agem de São Pedro (4). Sala de jant ar. s/d. (APA) ................................................................ .... 444
Figura 479: Estal agem de São Pedro (5), interior sépia. s/d. ( APA) ................................................................ ..... 445
Figura 480: Estal agem de São P edro (6). Interior p&b. s/d. ( APA) ....................................................................... 445
Figura 481: posto de combustível Mobil O il. s/d. (L eitão & Saraiva, 2012, pp. IX, anex os) ................................... 445
Figura 482: filme "Fa malicão" ( frames 9min54s a 10min08s ). Dir. : Ricardo Malheiro . (1955) (CPM C) ................ 446
Figura 483: filme "Fa malicão" ( frame aos 14min35s ). Dir.: Ricard o Malheiro. (1955) (CPMC) ............................. 447
Figura 484: filme "Fa malicão" ( frames 14min47s a 15min00s ). Di r.: Ricardo Malheiro . (1955) ( CPMC) .............. 44 7
Figura 485: filme "Fa malicão" ( frames 15min06s a 15min16s ). Di r.: Ricardo Malheiro . (1955) ( CPMC) .............. 447
Figura 486: filme "Fa malicão" ( frames 15min21s a 15min27s ). Di r.: Ricardo Malheiro . (1955) ( CPMC) .............. 448
Figura 487: filme "Fa malicão" ( frame aos 15min29s ). Dir.: Ricard o Malheiro. (1955) (CPMC) ............................. 448
Figura 488: filme "Fa malicão" ( frame aos 15min33s ). Dir.: Ricard o Malheiro. (1955) (CPMC) ............................. 449
Figura 489: fil me "Famalicão " (frame aos 15min 35s). Dir.: Ricard o Malheiro . (1955) (CPMC) ............................. 449
Figura 490: filme "Fa malicão" ( frame aos 15min 38s ). Dir.: Ricard o Malheiro. (1955) (CPMC) ............................. 449
Figura 491: filme "Fa malicão" ( frames 15min42s a 15min49s ). Di r.: Ricardo Malheiro. (1955) ( CPMC) .............. 450
Figura 492: filme "Fa malicão" ( frames 15min50s a 15min59s ). Di r.: Ricardo Malheiro . (1955) ( CPMC) .............. 450
Figura 493: filme "Fa malicão" ( frames 16min00s a 16min13s ). Di r.: Ricardo Malheiro . (1955) ( CPMC) .............. 451
Figura 494: filme "Fa malicão" ( frame aos 16min14s ). Dir.: Ricard o Malheiro. (1955) (CPMC) ............................. 452
Figura 495: filme "Fa malicão" ( frame aos 16min24s ). Dir.: Ricard o Malheiro. (1955) (CPMC) ............................. 452
Figura 496: plant a "Aquedu to do Ribeiro de Oliveira". ( Archiv - Ave. Proc. 861/1965) ........................................... 455
Figura 497: "Plan ta a que s e refere o requerimento de SFC" (Archi v -Ave. P roc. 861/1965) ................................ . 455
Figura 498: plant a do aquedu to da S FC ao Bairro do Quinteiro (Archiv -Ave. Proc. 75/1967) ................................ 456
Figura 499: recor te da Figura 49 8. (Archiv - Ave. Proc. 75/1967) .......................................................................... 456
Figura 500: restos do aqueduto e n tre a SFC e o Bairro do Qu inteiro (2016 -2018). (FdA) ................................ ..... 457
Figura 501: detalha mento da in scrição - monumen to “Fazer Região ”. (FdA) .......................................................... 462
Figura 502: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 1970 -1975. (CdA) ........................ 469
Figura 503: fotog rafia aérea ver tical da SFC, 19 70. ( CigeoE) ............................................................................... 469
Figura 504: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 1971 -1972. (CdA) ........................ 470
Figura 505: a SFC ent re 1971 e 1972. (CSFC) ................................................................................................... 470
Figura 506: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 1973. ( CdA) ................................ . 471
Figura 507: croqui anex ado ao Proc. 422/1973. (Archiv - Ave) .............................................................................. 472
Figura 508: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 197 4-1976. (CdA) ........................ 473
Figura 509: fotog rafia aérea ver tical da SFC, 19 74. ( CigeoE) ............................................................................... 473
Figura 510: fotog rafia aérea ver tical da SFC, 19 74. (DGT) ................................................................................... 474
Figura 511: enquad ramento da F igura 509 (E d. nº 1, 2 e 14). (CigeoE ) .............................................................. 474
Figura 512: enqu adramento da Figura 510 (E d. nº 1, 2 e 14) . (DGT) .................................................................. 474
Figura 513: enquad ramento da F igura 509 (E d. nº 6 e 8). (CigeoE ) ..................................................................... 475
Figura 514: enquad ramento da F igura 510 (E d. nº 6 e 8). (DGT ) ......................................................................... 475
Figura 515: recor te da Figura 35 6. (Archiv - Ave, Proc. 752/194 8) ....................................................................... 476
Figura 516: piso in ferior do edifíci o n º 8 (1). (FdA) .............................................................................................. 476
Figura 517: piso in ferior do edifíci o n º 8 (2). (FdA) .............................................................................................. 476
Figura 518: fotog rafia aérea ver tical da SFC, início da década de 1 970. (F amalicão Id) ........................................ 477
xxi
Figura 519: Riba d'Ave em 1º de maio de 1974 (1). (Ephemer a) ......................................................................... 478
Figura 520: Riba d'Ave em 1º de maio de 1974 (2). (Ephemer a) ......................................................................... 478
Figura 521: Riba d'Ave em 1º de maio de 1974 (3). (Ephemer a) ......................................................................... 478
Figura 522: Riba d'Ave em 1º de maio de 1974 (4 ). (Ephemer a) ......................................................................... 478
Figura 523: Riba d'Ave em 1º de maio de 1974 (5). (Ephemer a) ......................................................................... 479
Figura 524: Riba d'Ave em 1º de maio de 1974 (6). (Ephemer a) ......................................................................... 479
Figura 525: Riba d'Ave em 1º de maio de 1974 (7). (Ephemer a) ......................................................................... 479
Figura 526: Riba d'Ave em 1º de maio de 1974 (8). (Ephemer a) ......................................................................... 479
Figura 527: Riba d'Ave em 1º de maio de 1974 (9 ). (Ephemer a) ......................................................................... 479
Figura 528: Riba d'Ave em 1º de maio de 1974 (10). (Ephemer a) ....................................................................... 479
Figura 529: Riba d'Ave em 1º de maio de 1974 (11). (Ephemer a) ....................................................................... 480
Figura 530: Riba d'Ave em 1º de maio de 1974 (12). (Ephemer a) ....................................................................... 480
Figura 531: Riba d'Ave em 1º de maio de 1974 (13). (Ephemer a) ....................................................................... 480
Figura 532: Riba d'Ave em 1º de maio de 1974 (14). (Ephemer a) ....................................................................... 480
Figura 533: croqui de refe rência sobre a organiz ação do co mplexo fabril pa ra 1977 -197 9. (Cd A) ........................ 481
Figura 534: croqui anex ado ao Proc. 353/1945. (Archiv - Av e) .............................................................................. 482
Figura 535: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 1980 -1983/1984. ( C dA) .............. 484
Figura 536: plant a anexada ao Pro c. 1159/1952. (A rchiv -Ave) ............................................................................ 484
Figura 537: fotog rafia aérea ver tical da SFC, 19 83. (DGT) ................................................................................... 485
Figura 538: fotog rafia aérea ver tical da SFC, 19 84. (DGT) ................................................................................... 485
Figura 539: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 1985 -198 8. (Cd A) ........................ 486
Figura 540: fotog rafia aérea ver tical da SFC, 19 88. (DGT) ................................................................................... 487
Figura 541: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 1994 -1995. (CdA) ........................ 488
Figura 542: fotog rafia aérea ver tical da SFC, 19 94. (DGT) ................................................................................... 488
Figura 543: fotog rafia aérea ver tical da SFC, 19 95. ( CigeoE) ............................................................................... 489
Figura 544: plant a do açude anexada ao Proc. 353/1945. (Archiv -Ave) ............................................................... 493
Figura 545: “esboço topog ráfico” anex ado ao Pro c. 687/1962. (A rch iv -Ave) ....................................................... 522
Figura 546: esboço topográfico a nex ado ao Proc. 861/1965. (Arch iv -Ave) ........................................................... 528
Figura 547: Mari a da Con ceição e Ros a Maria Fons eca Maia (Arch iv- Ave) ............................................................ 537
Figura 548: esboço topográfico a nex ado ao Proc. 447/1956. (Arch iv -Ave) ........................................................... 540
Figura 549: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 2000. ( CdA) ................................ . 569
Figura 550: fotog rafia aérea ver tical da SFC, 20 00. (DGT) ................................................................................... 569
Figura 551: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 2004. ( CdA) ................................ . 570
Figura 552: fotog rafia de sa télite da S FC, 21 de m arço de 2004. ( GE ) ................................................................ . 570
Figura 553: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabri l para 2006. ( CdA) ................................ . 571
Figura 554: fotog rafia de satélite da SFC, 30 de ou tubro de 2006 . (GE) ................................ ............................... 571
Figura 555: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 2010. ( CdA) ................................ . 572
Figura 556: fotog rafias de sa télite da S FC em 2010. (GE) ................................................................................... 572
Figura 557: fotog rafia de satélite da SFC, e ntre agos to e dezembro de 2010 . (PGVN F) ........................................ 573
Figura 558: paredes do edifício n º 17. (B P) ......................................................................................................... 573
Figura 559: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 2012. ( CdA) ................................ . 574
Figura 560: fotog rafia de satélite da SFC, 22 de jun ho de 2012. (GE) .................................................................. 574
Figura 561: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 2013. ( CdA) ................................ . 575
Figura 562: fotog rafia de satélite da SFC, 12 de m aio de 2013. (GE) ................................................................ ... 575
Figura 563: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 2015. ( CdA) ................................ . 576
Figura 564: fotog rafia aérea ver tical da SFC, 20 15. ( CigeoE) ............................................................................... 576
Figura 565: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 2016. ( CdA) ................................ . 577
Figura 566: fotog rafia de satélite da SFC, 07 de julh o de 2016. (GE) ................................................................... 577
Figura 567: croqui de referên cia so bre a organização do complexo fabril para 2019. ( CdA) ................................ . 578
Figura 568: fotog rafia de satélite da SFC, ju lho de 2019. (G E) ............................................................................. 578
Figura 569: Avenid a Narciso Fe rreira, 2005. (J FR) .............................................................................................. 597
Figura 570: Avenid a Narciso Fe rreira, 2016 -2018 . (Fd A) ..................................................................................... 598
Figura 571: plac a comemor ativa das “obras de requalificaç ão” da Aven ida Narciso Fe rreira. (FdA) ...................... 599
xxii
Figura 572: “Pl anta de Orden amento I I - Património E dificado e Arqu eoló gico, ‘D’”. (PDM) . ................................ . 602
Figura 5 73: “Pl anta de Orden amento III D – Salvaguardas”. (P DM) ..................................................................... 607
Figura 574: “Pl anta de Orden amento I D – Qualificação do So lo”. (PDM) ............................................................ 608
Figura 575: plant a de Delimitaçã o da ARU de Ri ba d’Ave (VN F) ........................................................................... 611
Figura 576: plant a da Propost a de alteração à delimit ação da ARU . (VNF) ........................................................... 612
Figura 577: plant a da [Re]Delimit ação da ARU (VN F) ................................................................ ........................... 613
Figura 578: "Envo lvimento da comun idade". (VNF) ............................................................................................. 621
Figura 579: c artaz 150 anos de Narciso Fe rreira. (FNF) ...................................................................................... 635
Figura 580: bann er para as co memo rações dos 150 de N arciso Ferreir a. (1) (FNF) ............................................. 636
Figura 581: recor te da Figura 57 8. (F NF) ............................................................................................................ 637
Figura 582: c artaz de ativida des, 07 de julho de 2012. (F N F) ................................................................ .............. 637
Figura 583: c artaz de ativida des, 08 de julho de 2012. (F NF) ................................................................ .............. 637
Figura 584: vinho em ho menagem a Narciso Ferreira. (FN F) ............................................................................... 638
Figura 585: expos ição fotográfic a in augurada em 07 de ju lho de 2012. (F NF) ................................ ..................... 643
Figura 586: plac a comemor ativa na base do mo numento a Narciso Ferreira. (FdA) ............................................. 646
Figura 587: bann er da exposição fo tográfica come morativa no largo da SFC. (FN F) ............................................. 646
Figura 588: folheto de divulgaç ão e fotografia da peça “Narciso Fer reira In Memori an”. (FNF) ............................. 647
Figura 589: bann er para as co memo rações dos 150 de N arciso Ferreir a. (2) (FNF) ............................................. 648
Figura 590: plac a do Mus eu da Memória Viv a. (FdA) ........................................................................................... 651
Figura 591: fachad a do Mus eu da Memóri a Viva nos antigos CTT. (FdA) .............................................................. 651
Figura 592: expos ição MMV - "Te rritório". (F dA) .................................................................................................. 653
Figura 593: expos ição MMV - "ev olu ção urbana de Rib a d'Ave". (F dA) ................................................................ . 653
Figura 594: expos ição MMV - “In dús tria e Energia Hidro elétrica” ( 1). (F dA) ......................................................... 654
Figura 595: expos ição MMV - “In dús tria e Energia Hidro elétrica” ( 2). (F dA) ......................................................... 654
Figura 596: expos ição MMV - “P atrimônio ". (FdA) ............................................................................................... 655
Figura 597: expos ição MMV - bus to de Raúl Ferreira. (F dA) ................................................................................. 656
Figura 598: expos ição MMV - di s play (1). FdA) ................................ .................................................................... 656
Figura 599: expos ição MMV - b andeira da SFC (2) . (FdA) .................................................................................... 656
Figura 600: expos ição MMV - dis play (2). FdA) .................................................................................................... 656
Figura 601: expos ição MMV - dis play (3). De talhe par a fotografia d a SFC em 1915. (F dA) ................................... 656
Figura 602: expo sição MMV - con tinuidade da obr a de Narciso Ferreira. (FdA) ..................................................... 657
Figura 603: expos ição MMV - “ Cultura e Peda gogia Cívica”. ( FdA) ....................................................................... 658
Figura 604: expos ição MMV - "Na rcisinh o". (FdA) ................................................................ ................................ 658
Figura 605: plac a da RPI em fren te à S FC. (FdA) ................................................................ ................................ 665
Figura 606: menu princi pal do sit e da RPI. (RPI ) ................................ ................................................................ . 668
Figura 607: "Polo s da Rota". (RPI ) ...................................................................................................................... 669
Figura 608: site d a RPI – “S ampaio, Ferreira”. (RPI) ........................................................................................... 669
Figura 609: "Na rciso Ferreira". ( RPI) ................................................................................................................... 670
Figura 610: "Expos ições Virtuais" . (RPI ) .............................................................................................................. 672
Figura 611: "Expos ições Virtuais" - "Retratos do Trabalho". (RPI) ........................................................................ 672
Figura 612: "Expos ições Virtuais" - recurso de interatividade (1). (R PI) ................................................................ 674
Figura 613: "Expos ições Virtuais" - recurso de interatividade (2). (R PI) ................................................................ 674
Figura 614: "Expos ições Virtuais" - “A indústria no tempo” . ( RPI) ........................................................................ 676
Figura 615: "Expos ições Virtuais" - “Museu da Indústria Têx til”. (RPI) .................................................................. 678
Figura 616: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” - Introdu ção. (RPI) .......................................................... 679
Figura 617: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , diapos itivo 01. (RPI ) ...................................................... 680
Figura 618: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , diapos itivo 07. (RPI ) ...................................................... 681
Figura 619: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , diapos itivo 08. (RPI ) ...................................................... 682
Figura 620: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , diapos itivo 09. (RPI ) ...................................................... 682
Figura 621: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , diapos itivo 13. (RPI ) ...................................................... 682
Figura 622: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , diapos itivo 10. (RPI ) ...................................................... 682
Figura 623: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , diapos itivo 04. (RPI ) ...................................................... 683
Figura 624: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , diapos itivo 11. (RPI ) ...................................................... 683
xxiii
Figura 625: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , diapos itivo 12. (RPI ) ...................................................... 683
Figura 626: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , diapos itivo 03. (RPI ) ...................................................... 684
Figura 627: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , diapos itivo 16. (RPI ) ...................................................... 684
Figura 628: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , diapos i tivo 05. (RPI) ...................................................... 684
Figura 629: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , diapos itivo 06. (RPI ) ...................................................... 684
Figura 630: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , fábrica (01, 04, 05, 11 e 13). (RPI ) ............................... 685
Figura 631: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , fábrica (02, 03, 06, 09, 14 e 15). (RPI) ......................... 686
Figura 632: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , diapos itivo 02. (RPI ) ...................................................... 686
Figura 633: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , diapos itivo 14. (RPI ) ...................................................... 686
Figura 634: "Expos ições Virtuais" - “História Interativa” , recorte d a Figu ra 616. (RPI) .......................................... 687
Figura 635: “relatório”. Perei ra V. B., 2010b . (RPI) ............................................................................................. 688
Figura 636: SFC em modo 3D, sentido sul - norte. (GE) ................................................................ ......................... 696
Figura 637: cópi a da planta de 1978 (1). (MIT) ................................................................................................... 711
Figura 638: cópi a da planta de 1978 (2). (MIT) ................................................................................................... 711
Figura 639: propo sta CE003. P . 01. “Marcaç ão do percurso da fá brica” (E Arq) ................................................... 724
Figura 640: propo sta CE003. P . 01. Percu rso pedon al. (EArq) ............................................................................ 724
Figura 641: propo sta CE002. P . 01. Edifício s a serem demolido s. (E Arq) ............................................................ 726
Figura 642: propo sta CE002. P . 02 Passage m pedonal e ciclável . (E Arq) ............................................................ 726
Figura 643: propo sta CE002. P . 01. Planta do p rojeto. (EArq) ............................................................................. 726
Figura 644: propo sta CA016. P. 01. E difícios a serem demo lidos. (E Arq) ............................................................ 727
Figura 645: propo sta CA016. P. 01. Plan ta do projeto (EArq) .............................................................................. 727
Figura 646: propo sta CA017. P. 01. Plan ta do projeto (EArq) .............................................................................. 728
Figura 647: propo sta CA017. P. 01. "Praç a sul". (E Arq) ................................................................ ...................... 729
Figura 648: propo sta CA017. P. 04. P. 04. Al terações no edifício nº 1. (E Arq) ..................................................... 730
Figura 649: propo sta CA010. P. 01. Plan ta do projeto . (EArq) ............................................................................. 731
Figura 650: propo sta CA010. P. 02. Maquete do proje to. (EArq) ......................................................................... 732
Figura 651: propo sta CE017. 2º lugar. p.03. Alçado rio Ave. (EArq) ..................................................................... 736
Figura 652: propo sta CE002. 1º lugar. p.02. Alçado rio Ave. (EArq) ..................................................................... 737
Figura 653: propo sta CA016. 3º lu gar. p.01. Alç ado rio Ave. (E Arq) ..................................................................... 737
Figura 654: propo sta CA010. 1º lugar. p.03. Alçado rio Ave. (EArq) ..................................................................... 737
30
foram usadas e analisar su a relação intrínseca com a cultura material edificada da Sa mpaio,
Ferreira & Cia. O processo foi analisado em longa dura ção, de sde a fundação da fábrica (1896) ;
passando por seu crescimento e decadência no século XX; pelo encerramento de suas atividades
(2005), o que le vou ao abandono, deg radação , arruinamento parcial e a reutilizações
desqualificadoras de alguns de seu s edifícios ; até sua r essignificação com o patrimônio nas duas
primeiras décadas do século XXI .
Es ta investigação evidencia que as narrativas memoriai s h egemônicas, por m eio de suas
diferentes manifestações, compõem parte do capital simbólico (Bourdieu, 1986 [1983])
transmitido por Narcis o Ferreira e mostra que elas funcionaram como instrumentos de
fortalecimento polític o d os grupos que delas fizeram uso, quer t enham sido os herdeiros diretos
(os filhos de Narciso Fe rreira), quer tenham s ido herdeiros simbólicos (instituiç ões públicas e
privadas q ue fazem u so do seu patrimônio); e con tribuíram para a m anutenção da hierarquia n o
controle da memória social na localidade .
A partir das diferentes for mas que assumiram, as narrativas memoriais hegemôn icas não
apenas consolidaram uma v isão ideali zada sobre o pas sado como silenciaram vozes diss onan tes,
esqueceram ativament e (Ricoeur, 2007 [2004]) persp ectivas que não exaltassem positivamente
Narciso Ferreira e a Sampaio, Ferreira & Cia. e colocaram trabalhadores e t rabalhadoras da
comunidade de Riba d’Ave como coadjuvant es e não como sujeitos de sua pr ópria história ;
configurando-se, portanto, ao mesmo tempo, instrumento e estratégia de poder local.
O papel da Sa mpaio, Ferreira & Cia. na história da industrialização da Bacia do Ave já
seria suficiente para justificar sua escolha como objeto de estudo. Entretanto, sua singularidade
está no fa to de qu e, com o tempo, ela se tornou a materialização de narrativas memor iais
hegemônicas e foi a partir dela que se estruturou a orga nização econômica, política, social,
urbanística e simbólica na freguesia de Riba d’A ve, mesmo em s eu estado de aban dono e
degradação.
Compreendê-la de forma plu ral con tribui para sua val orização com o patrimônio e para
chamar a atenção à necessidade de se con ceder dignidade ao patri mônio in dustrial abandonado
e às ruínas industriais . Dig nidade esta que passa, n ecessariamente, pela ampliação d as formas
de inclusão das comunidades nos deba tes preservacionistas; e por se pluralizar as maneiras pelas
quais os cidadãos podem se relacionar com o patrimônio.
31
Nesse sentido, em termos patrimoniais, de um lado, esta investigação interess a à s
instituições (públicas ou privadas) int eressadas em preservar o patrimôn io, para que reflitam sobre
as práticas patrimoniais no sentido de torná -las mais inclusivas, plurais e democráticas.
Por outro lado, a i nvestigação interessa à própria comunidade local, pois poss ibilita uma
perspectiva crítica sobre a experiência humana a partir da cultura ma terial edificada da localidad e
e sobre como foi narrada a h i stória local. Assim, informada da s repres entações do passado nas
múltiplas m anifestações das narrat ivas memoriais hegemôn icas, qualifica -se a reivindicação, no
presente, por outras formas de repres entaçã o histórica e memorial e por maior participação ativa
no processo de preservação e ativação do patrimônio que lhe diz res peito h istoricamente.
Além disso, a investigação tem relevância à com unidad e cient ífica, seja por evidenciar as
relações entre a cultura mat erial edificada e os processos de construção mem orial; seja porque
os resultados que permitem melhor compreender o processo de industrialização e
desindustrialização na Bacia do Ave ; seja por apresentar uma proposta inovadora de m étodo de
investigação e interpretação do patrimônio industrial.
Nesse sentido, o s procedimentos estruturantes da investigação foram : a ampla coleta de
documentos; a plu ralidade de tipos documentais utiliz ados; a organização de sér ies docu mentais;
o exame sistemático e minucioso da doc umentação; uma abordagem interdisciplinar sobre o
fenômeno investigado; a in terpretação crítica dos dados recolhidos; uma perspect iva de longa
duração; uma análise aprofundada da literatura s obre a industrialização d a Bacia do Ave; sobre a
Sampaio, Ferreira & Cia. e sobre as p robl emáticas a serem an alisadas em t orno das narrativas
memoriais hegemôn icas; além do envolvimento relacional com o objeto de es tudo, a partir do
trabalho de campo no complexo edificado fabril.
As dive rsas visitas à fábrica para fotografar, registrar, medir, compreender a distribuição
do espaço e coletar doc ument os são parte do mét odo de investigação proposto pela Arqueologia
Industrial. Entreta nto, ao mesmo tempo, o trabalho de campo acabou por aproximar a investigaçã o
da prática das explorações urbanas e despertar am di versas que stões que se con verteram em
problemáticas de pesquisa tanto sobre o pat rimônio, quanto sobre a história da fábrica: como
valorizar o patrimônio indus trial arru inado? O que diz em práticas do espaço, como as explorações
de ru ínas industriais, sobre o patrimônio e sobre discursos patrimoniais autorizados e instituídos
oficialmente? Qual o significado social e político do patrimônio da Sa mpaio, Fer reira & Cia.? Q ue
32
história a arquitetura fabril da Sampaio, Ferreira & Cia. poderia contar? Como e por que se
realizaram as construções sucessivas que podem ser observadas no conjunto edificado? O que
sua estética diz sobre sua tr ajetória? O que o monumento a Narciso Ferreira conta s o bre a fábri ca
e sobre Riba d’Ave? Como este m onumento dialoga com as inscri ções -m onumento no passeio em
frente à fábrica? O que estas dizem sobre a urbanização de Riba d’Ave? Quais as relações entre
as infraestruturas urbanas como o Teatro, o Mercad o, o Ho spital Narciso Ferreira, o posto dos
CTT, além de t erem sido financiadas com o capit al proveniente da produção i ndustrial? Q ue
relações estabeleceram com os trabalhadores e trabalhadoras quan do estava em funcionamento ;
e qu e relações se estabelecem após ter sido encerrada e parcialmente aba ndonada? O que o
abandono diz sobre sua história, passada e presente?
Tais questões s urgiram ta mbém em função da extens a e plural coleta doc umental
realizada: a cultura material edificada, text os, fotografias (inclus ive aérea s e de satélite),
iconografia , cartografia e filmografia; foram analisados minuciosament e, sistematizados
cronológica e tematicamente para respon der às proble máticas da investigação . A plurali dade de
documentos permitiu o cruzamento de dad os para propor hipóteses sobre a trajetória construtiva
do complexo fabril e para perceber as diferentes manifestações da s narrat ivas memoriais
hegemônicas ao longo do tempo.
Portanto, foi impossível fugir a uma análise de longa duração (1896-2019) e a uma
abordagem interdiscipl inar, como proposta pela Arqueologia Industrial (Palmer & Neaverson, 2001
[1998]) , ainda que centrada na História. Afinal, para compreender a estruturação das narrativas
memoriais hegemônicas so bre Narciso Ferreira e sobre a Sampaio, Ferreira & Cia. foi preciso,
antes, compreender paralelamente d uas problemáticas: 1) as diferent es maneiras pelas quai s se
manifestaram em crônicas, coleções fotog ráficas, na dinâmica simbólica da industrialização, na
estética arquitetôn ica da fábrica e das outras infraestruturas urbanas em Riba d’A ve , n a
urbanização local, e no processo decadên cia, encerramento, patrimonialização e nas ações
patrimoniais; e, 2 ) como essas maneiras se relacionavam com a trajetória da cultura material
edificada da Sampaio, Ferre ira & Cia. ao longo do tempo, desde su a fundação, e m 1896, até as
últimas iniciat ivas de ativação patrimonial investigadas, o concurso de ideias para revi talizar a
fábrica (2016) e o Museu da Memória Viva (2019).
As hipóteses para a trajetória con strutiva do complexo fabril da Sampaio, Ferreira & Cia.
fo ram desenvolvidas pela an álise sistemática da cultura mat erial edificada da fábrica; de
33
fotografias antigas pres ervadas em diversos acervos e de diferentes períodos ; de processos de
licenciamento ju nto à Direção Ge ral dos Serv iços Hi dráulicos ( 1909 à década de 1 980, mas com
uma lacuna entre 1915 e 1945 ); de filmes antigos; plantas topográficas; fot ografias aéreas (a
partir de 1958) e de s atélite (a partir de 2004) . Observe-se que, no caso das fotografias, elas nem
sempre possuíam datas precisas, por isso foi essencial a comparação m inuciosa com ou tras
imagens, cuja periodização era mais segura, e o cruzamento com as informações proveni ent es
dos outros documentos e com a análise da s edificações.
Por sua vez, as diferentes manifestações das narrativas memoriais hegem ônicas foram
analisadas por meio de cr ônicas em peri ódicos do s séculos XX e XXI, o que incluiu notícias e
reportagens em porta is virtuais de informação ; de foto grafias industriais; da iconografia industrial
da Sampaio, Ferreir a & Cia. ; da estética
art déco
do conjunt o fabril, do mon umento a Narciso
Ferreira e da s outras infraestruturas urbanas a eles associados em Riba d’Ave; de filmes (a partir
da déca da de 1930) ; até os, mais recentes, processos de patrimonialização e ações patrimoniais
que envolveram a fábrica.
Os silêncios veri ficados nas n arrativas memoriais hegemônicas, sobre aspectos
contraditórios ou negativos de Narciso Ferreira e da Sampaio, Ferreira & C ia., foram analisados a
partir de jornais operários do início do século XX e de Processos junto à D ireção Ge ral do Serviços
Hidráulicos e Dir eção-Ge ral dos Serviços I ndustriais. Es tes esqueciment os ativos ( Ricoeur, 2007
[2004]) s e constituíram transgressões da memória que m inimizaram, omitiram e silenciaram as
visões divergentes sob re relação en tre Narciso Ferreira e o operariado , o s sistemát icos
descumprimentos à s regul amentações sobre construções e poluição n o rio A ve, e a falta de
segurança a que se submetiam trabalh adores e trabalhadoras da fábrica e a própria co munidade
de Riba d’Ave .
Em com um a t odas as problemáticas está a m aneira como se con struíram, reforçaram e
atualizaram periodicamente as narrat ivas memoriais hegemônicas. Precisamen te pelo fat o de
estas problemáticas serem diversas ao longo do tempo, optou-se por fazer do primeiro capít ulo de
cada uma das partes do trabalho uma análise da trajetória do conjunto edificado e , quando
necessário, da própria fábrica n a din âmica industrial e política para o período em foco. Somente,
então, desenvolvem-se as problemáticas relacionadas às n arrativas memoriais, pois verificou-se
que elas estavam atreladas à trajetória construtiva e à historicidade da fábrica para o referencial
cronológico a que se referiam. Isto explica a opção pela abordagem interdisciplinar propos ta pela
34
Arqueologia In dustrial, pois foi necessário buscar out ros saberes para explicar e propor hipóteses
aos dife rentes fenômenos c om o qual a inves tigação se defrontou , pois as diferentes problemáticas
e manifestações das narrativas memoriais hegemônicas demandaram diferentes pers pectivas.
No que diz respeito à literatura acadêmica sobre a ind ustrialização e sobre o pat rimônio
industrial d a Bacia do Ave , su a revisão serviu para posicion ar esta investigação nos debates por
meio de uma abordagem original e de resultados que mostram uma perspectiva crítica sobre a
produção acadêmica .
Isso porque a historiografia sobre Riba d’A ve, sobre Narciso Ferreira e sobre a Sa mpaio,
Ferreira & Cia., de um lado, não ident ifica essa estru tura narrativa estabelecida pelas memórias
hegemônicas nem suas diferentes ma nifestações ao longo do t empo; e, por outro lado, há casos
em estas n arrativas são assumidas pelos autores sem que se questione seu teor e significado
historiográfico, social e p olítico ; mesmo quando os trabalhos se amparam em análises
documentais .
Esta inc orporação do teor das n arrativas memoriais h egemônicas a investigações
acadêmicas encontra ressonância na própria forma com o se estruturaram os discursos que
embasaram a patrimonialização e as ações patrimoniais da cu ltura material da Sampaio, Ferreira
& Cia. e de outras infraes truturas urbanas associa das à fábrica, a N arciso Fer reira e seus
herdeiros. Isso porque o ve rniz científico que contêm serviu para a manuten ção de um discurso
de caráter positivo, pois silenciaram perspectivas divergen tes e/ou negativas sobre Narciso
Ferreira e sobre a Sampaio, Ferreira & Cia.; similar à produção historiográfica positivista, pela
centralização em torno dos gran des heróis locais; e excludente, porque reduziu traba lhadores e
trabalhadoras fabris a coadjuvantes nu ma dinâm ica histórica em que participaram ativamente , e
impediu a participação ampla e irrestrita n as decisões sobre o destino a dar ao patrimôn io h oje
parcialmente abandonado e arruinado.
Portanto , os procedimen tos escolhidos para desenvolver a investigaç ão buscaram evitar
um problema comum em estudos sobre patrimônio indu strial, sobretudo n a Arqueologia Industrial :
a falta de enquadramento teórico para sustent ar explicações e interpretações sobr e os objetos de
estudo (Palmer & Neaverson, 2001 [ 1998]).
Desta forma, as hipóteses e as int erpretações propostas buscaram evidenciar como as
diferentes manifestações das narrativas memoriais hegemôn icas se configuraram estratégias para
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representar um a visão de mundo idealizada sobre Narciso Ferreira, s eus herde iros e sob re a
Sampaio, Ferreira & Cia. ; e como as relações políticas, cultura is e sociais aca baram por ser
moldadas a partir delas (Van Leeuwen, 2005; Bezemer & Jewitt, 2009; Chouliaraki & Fairclough,
2007 [1999]).
Por esta razão, a cu ltura mat erial da Sampaio, Ferreira & Cia. e os outros doc umentos são
interpretados n ão como s imples re sultados das relações sociais , econômicas e políticas, ma s
também como estratégias para pr oduzi-la s e/ou reproduzi-las mesmo que apenas
simbolicamente. Estratégias text uais, visuais, icon ográficas, estéticas, s imbólicas e de organização
do espaço etc. confi guram-se discurs os que são constituídos pelas narrativas memoriais e podem
ser interpretados nas suas historicidades e nas relações entre si.
De um lado, es ta i nvestigação bus cou despe rtar a “imaginação científica” (Le Gof f, 19 90)
necessária à colet a de dados, à problematização e à interpretação sobre as r elações entre a
trajetória da cultura material edificada da fábrica e as narrativas memoriais hegemônicas. Por
outro lado, buscou evitar fazer uma história da arquitetura ilus trada ou uma análise das narrat ivas
memoriais sem dar importân cia à m aterialidade fabri l. Afinal, as duas problemáticas estão
intrinsecamente ligadas: a cultura material da Sampaio, Ferreira & Cia. t ornou-se com o tempo,
ela própria, uma manifestação dessas memórias persistentes.
Desta maneira, organizou-s e a tese em sete partes, sen do que a Parte I trata a expe riência
de investigação junto à Sampaio, Ferreira & C ia., cujo capítulo 1 mostra as opções procedimentais
de investiga ção e int erpretação. No capítulo 2, organizou-se o registro fotográfico das con dições
do conjunto fabril entre 2016 e 2019. Parale lament e descreveu-se as percepções, ques tões e
problemáticas suscitadas pela experiência imersiva e m meio às edificações aba ndonadas e em
estado de arruinamento e à s edificações reutilizadas. Foram estas experiências que aproximaram
a investigação das atividades de explorações urbanas que deram origem ao capítul o 3, em que se
desenvolveu uma an álise dessas práticas para evidenciar a importância de se ampliar as
concepções e formas de e xperimentar e valorizar o patrimônio, de promover m aior inclus ão e
participação da s comunidades nas decisões sobre preservação e at ivação pa trimonial e evidencia r
a importância da construção de processos relaciona is junto ao espaço e patrimôn io industrial
abandonado e arruinado.
36
Da Parte I I à Parte V II , c ada uma conta com seu respe ctivo capít ulo sobre a t rajetória
construtiva da cultura mat erial edificad a, seguido de capítulos que analisam problemáticas
relativas às manifestações das narrativas memoriais hegemônicas .
A Part e I I trat a da inserção da Sampaio, Ferreira & Ci a. n a industrialização d a Bacia do
Ave até a morte de Narciso Ferre ira, em 1933. O Capítulo 1 evidencia que a trajetória con strutiva
do com plexo fabril e as mudanças que provocou n o território são evidências não apenas das
necessidades econôm icas da produção industrial, mas também das relações política s e sociais
nas quais a fábrica se envolveu durante a consolidação da indústria têxtil algodoeira. Por meio da
revisão da literatura, analisam-se as particularida des da Sampaio, Ferreira & Cia. na
industrialização do Vale do Ave e suas espe c ificidades em Riba d'Ave. Através da análise
documental evidenciam -se as alterações nas dinâmicas de poder local nas duas primeiras dé cadas
de existência da fábrica. O capítulo 2 analisa as narrat ivas memoriais hegem ônicas por meio de
crônicas sobre Narciso Ferreira e mostra que elas se con stituíram uma forma de poder simbólico
(Bourdieu, 1989) que perpetu ou perspectivas positivas sobre a fábrica e s eu fundador na m emória
social. O capítulo 3, por sua vez, an alisa a participação da Sampaio, Ferreira & Cia. na Feira de
Amostras da Indústria Nacional de Estoril, em 19 29, par a t ratar da inserção da fábrica na dinâmica
simbólica da industrialização e de seu papel no fortalecimento da s narrativas mem oriais.
A Parte III trata da fábrica Sampaio, Ferreira & Cia. imediatamente após a morte de
Narciso Ferreira até a criação da F undação Narciso F erreira por seus herdeiros (1945). No capítulo
1, além da trajetória do conjunto fabril , evidencia- se como o Estado Novo impactou a produção
industrial em Portugal. No capítulo 2 an a lis am -se as memórias hegemôn icas como narrativa
simbólica manifesta da pelo mon umento a Narcis o Ferreira e pela estética
art déco
que sua
construção inaugura no complexo fabril e nas outras obras de infraestrutura em Riba d’Ave. O
Capítulo 3 trata das representações de Narciso Ferre ira e a Sampaio, Fer reira & Cia. na imprens a
operária no início do século XX e da s mudanças de estratégia de controle sobre o operariado, do
confronto direto às práticas paternalistas, para evidenciar o silenciamento e o esquecimento ativo
(Ricoeur, 2007 [2004]) das vozes que se contrapuseram às na rrativas memoriais hegemônicas.
A Parte IV trata d a expansão do complexo fabril da Sam paio, F erreira & Cia. entre 19 45 e
1957. Este período é coberto, em parte, pelo co njunto de fotografias do acervo Domingos Alvão;
objeto de análise do capítulo 2 para eviden ciar como a fotografia industrial fort aleceu as n arrativas
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memoriais hegemôn icas por meio da idealização do passado e do cot idiano fabril, tendo impactado
também na representação de trabalhadores e trabalhadoras na iconog raf ia da fábrica.
A Parte V aborda as t ransformações no conjunto edificado da fábrica entre 1958 e 19 69
e as narrat ivas memoriais hegem ônicas com o propulsores da produção do espaço urbano em
Riba d’Ave a partir de uma problemática do presente, o processo de m usealização da Avenida
Narciso Fer reira. Evidencia-se como a Sampaio, F erreira & Cia. estruturou a urbanização em Riba
d’Ave, ditou a estétic a da cultura mat erial edificada local e fez das obras s ociais , p romovidas por
Narciso Ferreira e seus herdeiros, uma forma de fortaleciment o das memórias dominantes.
A parte VI aborda u m período de 25 anos, entre 197 0 e 1995, q uando teve início o declínio
da Sampaio, Ferreira & Ci a. e no qual se int ensificaram as tran sgressões da fábrica junto às
instituições de fiscalização (como a Direção Geral do Serviços Hidráulicos e a Dir eção-Geral dos
Serviços In dustriais) e que foram su primidas d as narrativas m emoriais hegem ônicas sobre a
empresa, tendo sido ativamente esquecidas; da mesma forma como foram silenciad as visões
negativas sobre Narciso Ferreira.
A Parte V II encerra a tese com a an álise da Sampaio, Ferreira & Cia. já no século XXI.
Após a descr ição d o proce sso de degradação do conjunto edificado, no capítulo 1; o capítulo 2
analisa o encerramento das suas atividades produtivas em 2005 ; no capítulo 3 , analisa-se a
patrimonialização da cu ltura material re lacionada a Narcis o Ferreira e à Sampaio, Fer reira & Cia.;
no capítulo 4, examina-se inserção da Sampaio, Ferreira & Cia. na fracassada Ro ta do Patrimônio
Industrial do Vale do Ave (RPI); no capít ulo 5, investiga-se a transmissão do capital simbólico de
Narciso Ferreira aos seus herdeiros e a sua man ifestação em ações patrimoniais como a
comemoração dos 150 anos de seu nascimento (20 12) e a inauguração do Museu da Memória
Viva (20 19); no capítulo 6 investiga-se o Concurso de I deias para a revitalização da fábrica
organizado em 2016; e, por fim, no capítulo 7, e videncia - se que o pró prio processo de
patrimonialização e as açõ es patrimon iais j unto à cultura material relacionad a a Narciso F erreira
e à Sampaio, Ferreira & Cia. , ao se estruturare m sobre as narrat ivas m emoriais h egemônicas,
tornaram-se mais uma de suas manifestações.
39
Parte I
46
Também não foram encontrados estudos que an alisassem processos de construção da
memória a partir da cultura material edificada e i ndustrial. Por isso, esta investigação é pioneira
na identificação e análise d as n arrativas memoriais h egemônicas, a partir de suas múltiplas
manifestações, com vistas a problematizar suas ligações com a cultura material, seus usos, e seus
significados e implicações sociais, políticas e simbólicas.
Entretanto, t alvez pior do que n ão h aver estudos que tenham iden tificado as narrativas
memoriais hegemônicas, é fato de que algumas das inv estigações que faz iam referên cia à fábrica
acabaram por assumir de forma acrítica suas per spectivas (Ferreira, 2017; Borges, 2012; Couto,
Correia, & Matos, 2010/2011; Alves, 1999b). Além disso, até agora não havia investigações que
tivessem iden tificado e analisado os p rocessos de es quecimen to ativo e sil enciamento em relação
às transgressões fabris e suas implicações nos processos de construção memorial.
Embora os trabalhos sobre o operariado e as relações de classe deixem evidentes as
estratégias de controle utilizadas pelo patronato (Pe reira A. C., 2002; 1998; Alves, 2002c;
Ingerson, 1981), eles não fazem referência à maneira como trabalhadores e trabalhadoras foram
colocados como coadjuvantes nas n arrativas sobre a indústria n o Vale do A ve, ao mesmo tempo
em que se realçaram o protag onismo dos empresários fu ndadores das fábricas ; d e modo que a
construção dessa memória, em si mesma, se constitui uma forma de controle e d e exerc ício do
poder.
Como se pode observar, os estudos que fazem referência à fábrica ou Narciso Ferreira
são multidisciplinares, com an álises no campo da História, da Arquitetura (Sousa, F. D. , 2017;
Tomaz, 2017 ; Sousa, J. N. , 20 13; Leitão & Saraiva, 2012; Couto, Correi a, & Matos , 2010/2011)
da Geografia (Costa F. , 2 009; 2007; 2 004), da Arque ologia (Pastor, Vieir a, & Sa nchiz, 2017), da
museologia (Providência & Baptista, 2002).
Entretanto, ainda que a Bacia do Ave sej a profícua em ex emplares do patrimônio ind ustrial
edificado e tenha permitido abordagens multifacetadas (Mendes & Fernan des, 200 2), são raros
os es tudos qu e assumem as propostas metodológicas da Arqueologia I ndustrial (Pas tor, Vieira, &
Sanchiz, 2017), ou seja, que dão a tenção à cultura material como fio condutor d e suas an álises;
e inexistentes, at é agora, os que considerem a Sampaio, Ferreira & Cia. como principal objeto de
investigação.
47
No que se refere aos estudos sobre patrimôn io industrial da Bacia do Ave, a fábrica quase
sempre é mencionada nas discussões, tendo sempre s ua importân cia realçada (Costa F. , 2010a;
Faro & Cleto, 2002; Providência, 2002; Providência & Baptista, 2002; Seixas & Seabra, 2002) .
Nesse sentido, os estudos sobre o patrimôn io industrial normalment e destacam a
importância histórica do patrimônio da região, de sua conservação e apresentam propos tas de
reutilização (Sá, 2017; Costa & Cordeiro, 2013a; 20 13b; Silva M. Â., 2012; Costa F., 2 010a;
2010b; A lves, 2004b). A RPI , por exem plo, foi an alisada na sua potencialidade quando de seu
lançamento ( Alves, 200 4b ; Faro & Cleto, 2002 ; P rovidência & Baptista, 2002), m as, at é agora ,
pouco se falou s obre os problemas que levaram ao seu fracasso como rota turís tica (Rodrigues J.
C., 2019) .
Entretanto, os estudos pa trimoniais sobre a Bacia do Ave ign oram com o se deu
ressignificação da cultura material edificada como patrimônio e os discursos estruturantes des se s
processos de patrimonialização, assim como seus usos e implicações s ociais e polít icas.
Com iss o, o pat rimônio ind us trial da Bacia do Ave é, muitas veze s, analisado em refe rência
ao seu passado (por su a im portância h istórica) ou ao seu fu turo ( em propostas de reutilização ou
valorização), mas pouco se fala dele no fluxo e nas dinâmicas do tempo presente em contextos de
desindustrialização. Embor a as disc ussões sobre a desindustrialização da B acia do Ave sejam
multidisciplinares (Pereira V. B., 2012) , a ên fase está nos aspectos sociológicos e econômico s
(Monteiro, 201 2b; Pereira, V. B., 2010a; 2010b). A cultura mat erial edificada das fábricas da
região, abandonadas e deg radadas n ão são mais que um cenário melancólico para o des emprego
regional (Queirós J. , 2012; Silva E. G., 2012) . E mes mo quando se investigam o aban dono e a
degradação da cultura material fabri l (Ferreira N. , 2017), não há reflexão sobre o significado
simbólico, social e polí tico q ue aqueles espaços podem adquirir.
Portanto, ao analisar as relações entre a cultura mater ial edificada da Sampaio, F erreira
& Cia. e as narrat ivas memoriais hegemônicas, em um processo de longa duração e a part ir de
uma perspectiva multidisciplinar como proposta pel a Ar queologia Industrial, a inves tigação busca
preencher diferentes lacunas na produção de conhecimento histórico sobre a industrializ ação e
desindustrialização da Bacia do Ave e apresentar propostas met odológicas e interpretativas que
contribuam para melh or conhecer e valorizar seu patrimôn io industrial.
48
1. 3. P rocedimentos de investigação
1. 3 .1. Coleta de d ados
Após a aproximaçã o inicial com o objeto de es tudo por m eio da investiga ção prévia, definiu -
se que seria n ecessário traçar paralelamente duas linhas de aproximação com o obj eto: o trabalho
de campo junto ao complexo fabril; e a investiga ção arquivística e virtual. Em consequência, a
investigação defrontou -se com diferentes t ipologias doc ument ais. O trabalho de cam po serviu à
coleta de dados sobre a cultura material edificada da fábrica Sampaio, Ferreira & Cia. Por sua
vez, a extensa pesquisa arquivística e virtual pe rmitiu acessar uma grande quant idade e variedad e
tipológica de documentos textuais, fotográficos, iconog ráficos, cartográficos e film ográficos. Com
o tempo, o próprio trabalho de campo passou a ser acom panhado de document os encon trados,
especialmente mapas, plantas e fotografias.
1 ) Trabalho de c ampo junto ao complexo fabr il
Durante o trabalho de campo recolher am -se dados que permitiram:
a) Registrar, por meio de fotografias, o atual estado de preservação e degradação;
b) Identificar as funções dos edifícios;
c) Recolher informações sobre a construção da fábrica (1896 -2019);
d) Compreender a implantação da fábrica no território e n a produção do espaço urbano de
Riba d’Ave;
e) Coletar doc umentos (text uais, iconog ráficos e de cultura material) ainda existent es na
fábrica;
f) In terpretar s ua cultura mat erial edificada em relação às narrativas m emoriais
hegemônicas;
2 ) Investigação arquivística e virtual
A investigação arquivística e virtual serviu à recolha de diferentes tipos de documentos,
nomeadamente:
a) Textua is : crônicas e reportagens jornalísticas, processos junt o a instituições
governamentais, informes do governo, leis e decretos etc.
49
b) Fotográficos: fotografias industriais, aé reas, de satélite e com fins de registro de eventos
ou de fotojornalismo
c) Iconográfic os : reprodução de pinturas ou gravuras;
d) Cartográfic os : plantas e croquis da fábrica, mapas da l ocalidade e cartas militares;
e) Filmográfic os : documentários e vídeo-reportagens;
f) Cultura mat erial: artefatos e objetos preservados em instituições de patrimônio.
1. 3.2. Orga nização das séries document ais
A partir da recolha dos doc umentos foram estruturadas séries doc umentais a serem
analisadas, primeiro, por tipo e arquiv o; depois, cronolog icamente; e, por fim, a par tir da leitura e
análise s istemática da docu mentação, organizadas séries temáticas quanto às manifes tações das
narrativas memoriais hegemônicas.
A sis temat ização dos documentos em série s vi sou iden tificar as etapas da traje tória
construtiva da fábrica (1896-2019) e as funções dos edifícios, de modo a verificar alterações no
complexo edificado, tenham sido construções, reformas, demolições, re construções, expansões e
supressões; identificar e analisar as diferentes man ifestações das n arrativas memoriais
hegemônicas ao longo do tempo; entender e entender as relações entre a trajetória da cultura
material edificada da fábrica, as man ifestações da s n arrativas memoriais hegem ônicas e os
esquecimentos ativos e sil en ciamentos.
Para isso , a documentação foi organizada em três séries :
1) Séries tipológicas
a) para cada arquivo;
b) por tipo de documento.
50
2) Séries cronológicas
A análise minuciosa das séries documentais permitiu verificar seis grandes períodos
2
na
história da fábrica em que as narrativas memoriais hegemôn icas estavam relacionadas à sua
trajetória construtiva, nomeadamente:
a) De 18 96, fundação da fábrica; a 1933, faleciment o de Narciso Ferreira;
b) De 1934, edificação do monumento a Narciso Ferreira e estética
art déco
no complex o
fabril; a 1945, criação da Fundação Narciso Ferreira
c) De 1945, criação da Fundação Narciso Ferreira; a 19 57, encerramen to do Proces so
mais longo da Sampaio, Ferreira & Cia. junto aos Serviços Hidráulicos do Douro (de
1945 a 1957) para alterações no conjunto fabril;
d) De 1958, primeira fotog rafia aérea em que aparece a fábrica Sampaio, F erreira &
Cia.; a 1969, inauguração do Cent ro Residencial Cond e de Riba d'Ave;
e) De 1970, início do período de maior número de Processos por transgressões da
fábrica, início da desindustrialização t êxtil em Portug al; à 1995, última alteração
significativa no conjunto fabril
f) De 1996; an o a partir do qual já não se alteram o complexo edificado; a 2019, a
Fundação Narcis o F erreira i naugura o Museu da Memória Viva em Riba d’ Ave, a última
ação patrimonial investigada.
3) Séries temát icas
As séries temát icas subdividiram -se em duas:
a) Nas qua is se ident ificaram as manifestações das narrativas m emoriais hegemônicas
a partir
i. de crônicas jornalísticas e memorialistas (ao longo do século XX) ;
ii. da inserção da fábrica n a dinâm ica simbólica da industrialização (década de
1920);
iii. da construção de um monumento em homenagem a o fundador na entrada
da fábrica (1934) e da tra nsformação estética do complexo fabril, que se
passou a usar o
art déco
em s uas edificações (da déca da de 1930 à de 1950);
2
As r azões par a esc olha d os referenciais cronológicos destes perío dos variara m: p or exemplo, podiam ser d atas significativas p ara a história da
fábrica (como ano de fundação e da morte de Narcis o Ferreira), alte rações impo rtantes em sua estrutura cons trutiva, uma nova tipologia doc umental
que permitiu u ma nova pe rcepção sobre a fábrica (como a p rimeira foto grafia aérea em que aparece a fábrica).
51
iv. de fot ografias industriais pe la Sampaio, Fer reira & Cia. ( por volta das déca das
de 1930 à década de 1950);
v. do process o de urbanização de Riba d’A ve (de sde a implant ação da Sampaio,
Ferreira & Cia. no final do século XIX até o projeto de museali zação da A venida
Narciso Ferreira, em frente à fábrica);
vi. do processo de encerramen to das at ividad es produtivas (final do século XX à
primeira década do século XXI);
vii. do pr ocesso de patrimonialização da área urbana de Riba d’Ave (início do
século XXI);
viii. de crônicas jornalísticas e memorialistas sobre os her deiros do fundador da
fábrica (por meio de crônicas ao longo do século XX);
ix. da patrimonialização da Sampaio, Fer reira & Cia. e de ações pat rimoniais, tais
como: a inserção da fábrica na RPI (início do século XXI); a comemoração aos
150 anos do nascimento de N arciso Fer reira (2012), na realização de um
concurso de ideias para revitalizar o espaço abandonado da fábrica (2016) e
da inauguração do Museu da Memória Viva (2019)
b) Nas q uais se iden tificaram proces sos de esquecimento ativo (Ricoeur, 2 007 [2004])
e de silenciamento a partir de:
i. de periódicos operários do início do s éculo XX que t ratavam de Narciso
Ferreira;
ii. de Processos junto aos Serviços Hidráulicos e aos Ser viços In dustriais sobre
as recorrentes transgressões da Sampaio, Ferreira & Cia.
Com a organização das séries document ais foi poss ível identificar as etapas construtivas
do complexo fabril e relacion á-las às man ifestações das narrativas memoriais hegemôn icas e aos
processos de esquecimento ativo e silenciamento. Por sua ve z, foi a ident ificação dess as temáticas
possibilit ou estruturar a s problemát icas h istóricas a s erem an alisadas em relação à Sampaio ,
Ferreira & Cia., definir as perspectivas teóricas e selecionar a literatura para analisá -las.
52
1. 3.3. A ident ificação das edif icações e das etapas de con strução do complexo fabr il
Para identificar as fu nções dos edifícios da Sampaio, Ferreira & C ia. a informa ção
cartográfica foi essencial. Durante a coleta documental, foram encontradas cin co plantas
topográficas (de 190 5, 1964, 1968 , 1978 e uma sem data ), dois mapas disponíveis no Portal
Geográfico de Vila Nova de Famalicão (de 1977 e de 2010) e de dua s cartas milita res, uma de
1948 e outra de 1956.
A plant a topog ráfica de 1905 provém do ace rvo do MIT (Figura 1) e é uma
“Planta geral
da linha de alt a tensão entre a Cen tral do Amieiro Galego e Riba d'A ve”.
Feita numa escala de
1:12500 ela apresenta o caminh o que a linha de alta tensão faria até Riba d'Ave e não se preocu pa
com a fábrica em si, com a disposição precisa da s edif icações ou com distinção das funções de
cada constru ção da en tão
“F ábrica de Fiação e Tecidos de Riba d'Ave”,
pr imeira de nominação da
Sampaio, Ferreira & Cia.
Figura 1 : planta da linha de al ta tens ão entre o Amieiro Galego e Riba d' Ave, 1905. (MIT )
O mesmo pode ser dito das cartas militares de 194 8, de 1978 e de 1997 do Cent ro de
Informação Geoespacial do Exército (CIGEOE) (Figura 2 , F igura 3 e Figura 4, destaques em
vermelho), a preocupação da s cartas é com o mapeio topográfico e toponímico da região e não
com especificidades locais. Desse modo , embora se perceba a diferença de vulto entre uma e
outra representações da fábrica nas cartas, n ão é possível utilizá -las para iden tificar as
construções.
53
Figura 2: carta milit ar de Portu gal, 1948. ( CigeoE)
Figura 3: carta milit ar de Portu gal, 1978. ( CigeoE)
Figura 4: cart a militar de Portu gal, 1997 . (CigeoE)
Os mapas disponíveis no Portal Geográfico de V ila Nova d e Famalicão (PGVNF), d e 1977
e 2010 ( Figura 5 e Figura 6), em contrapartida, evidenciam mais claramente o espaço ocupado
pelas edificações fabris, bem com o as construções em torno dela. Porém, também não há
detalhamento sobre a fábrica em si, embora sirva para marcar as diferenças de ocupação de
território entre esses anos.
Também n o MI T se encontram as plantas t opográficas de 1968 e uma não datada (Figura
7 e Figura 8). A primeira, numa es cala de 1:500 oferec e uma boa visualização dos espaços, mas,
Figura 5: a SFC e m excerto da pl anta topográfica de Vila
Nova de Famalicão, 1977. (PGVN F)
Figura 6: a SFC e m excerto da pl anta topográfica de Vila
Nova de Famalicão, 2010. (PGVN F)
54
além de ser apenas uma vista parcial da fábrica, não identifica as edificações. A plant a sem data
está numa escala de 1:10.000 e apresenta a fábrica hachurada en tre o bairro Sant’Anna, o bai rro
Quinteiro e Riba d'Ave. Entretanto, além de também não iden tificar as edificações ela contém erros
na representação escalar e das edificações do espaço fabril.
Figura 7: planta topográfica da S FC, 1968. ( MIT)
Figura 8: planta topográfica da S FC, sem da ta. ( MIT)
Da informação cartográfica encontrada , a s únicas que f orneciam indicações das funções
das edificações no conjunto fabril eram as plant as topográficas de 1964 , pr eservada n o Arch iv-
Ave (Silv a C. d., 201 5; Pozzer, 2016), e de 1978, t ambém preservada no M IT (Figura 9) . Foram
estes os documentos utilizados para identificar as funções dos es paços fabris.
Figura 9: pl antas topo gráficas da SFC de 1964 (Archiv- Ave) e de 1978 (MIT) .
Entre as duas plantas veri ficam -se acré scimos construtivos e mudanças nas
funcionalidades dos espaços. Isso most ra que, em a nos precedentes ou posteriores às datas das
plantas, as fu nções dos e spaços podem t ambém ter mudado con forme as necessidades da
em presa, pois as r efuncion alizações, as re formas e os acréscimos acompanham a própria
55
dinâmica pr odutiva e orga nização fabril, seja para adaptar novos equipamentos ou para se adequar
a novas demandas de mercado, por exemplo.
A plan ta de 1964 é parte do Processo 687/ 1964 da Direção -Geral dos Serviços, 2ª Secção
da Dir eção Hidráulica do Douro e foi el aborada em fu nção da s olicitação para ampli ar o complexo
fabril com a construção de um novo edifício (Figura 10 ) .
Figura 10 : plant a topográfic a da SFC , 1964. (Archiv-Ave – Proc. 6 87/1964)
Alterada para preto e branco com finalidade de f acilitar a visualizaç ão dos destaques.
A planta de 1964 é composta fundamentalmente por quatro elementos:
• o nome da fábrica e as divisões administrativas a que pertence (em amarelo);
• o desenh o da plant a em si na qual já aparecem indicadas as funções de suas edifica ções,
na qual constam também:
o a portaria da fábrica e o monumento a Narciso Ferreira (circulado em laranja;
o o traçado da Avenida N arciso F erreira, indicada como
“Estrada Nacional nº 310 ”
(pontilhado em laranja) ;
o o rio Ave e o canal para movimentação das turbinas da fábrica ( ambos tracejados
em azul claro) e os dois açudes con struídos pela fábrica (dest acados em
castanho);
• a identificação do tipo de planta (t opográfica), a escala, 1:500; e a seta indicadora no
norte (destacados em rosa)
• e o quadro iden tificador (destacado em verde no canto inferior direito), em que se identifica
o gabinete t écnico da fábrica como responsável pela sua elaboração em 12 de agosto de
1964.
62
Nesse sentido, a Análise Crí tica do Discurs o aproxima -se da Semiótica Social (Bezemer &
Jewitt, 2009; Van Leeuwen, 2005), método que tam bém emprestou à investigação ferramentas
de interpretação documental, pois ela se estr utura a partir da
“análise qualitativa e refinada de
registros de construção de sign ificado”,
como artefatos e textos,
“para exa minar a produção e
disseminação de discurso ”
em difere ntes
“contextos sociais e culturais nos quais o si gn ificado é
construído”
(Bezemer & Jewitt, 2009, p. 01).
Então, assim como um artefato material possui
“potencial semiótico”,
ou seja, para
produzir s ignificados (Van Leeuwen, 200 5, p. 05), a cultura material edificada também pode sê-
lo. Por iss o, esta investigação entendeu-se a cultura material edificada da Sam paio, Ferreira & Cia .
como
“um t ipo particular de li nguagem”
ou comunicação, que pode ser, portanto, “ lida ” e
interpretada, já que é composta por di scursos (Zarankin, 2002, p. 16; Eco, 1986, p. 323) . Para
Orser,
“questões sociais”
podem ser analisadas
“a partir de estruturas arqu itetôn icas”, pois “estas
podem ser ‘lidas’”
(Orser, 1999, pp. 15-16) e, assim, serem capazes de fornecer
informações sobre quando foram con struídos, o u se fo ram realiz adas reformas e quais
eram os es paços m ais important es. Alterações no tamanho dos ambientes ao longo do
tempo também podem ser u sadas co mo medida para es tudar as transform ações e as
mudanças nas postur as sociais ou culturais. (Orse r, 1999, pp. 15- 16)
A análise semiótica da arquitetura (Eco, 1986) busca compreender as edificações sob o
aspecto comunicativo e não apen as descrever as funções daqueles e spaços. Já no final da década
de 19 40, Zevi (1981 [ 1948]; 1969) havia evidenciado a importância de interpretar a arquitetura
a partir de seus múltiplos aspectos (culturais , psicológicas, simbolistas e linguísticas etc.) para
além de seus aspectos f uncionalistas e t écnicos. A es tes, é necessário acrescentar os asp ectos
históricos, sociais e simbólicos da arquitetura (Zarankin, 2002).
Nesse sent ido, a cultura material pode ser compreen dida como a materialização de
expressões culturais da sociedade que a gerou (Glass ie, 199 9, p. 4 1; Berrocal Ruiz, 199 5, p. 2 33);
e, portanto, como qualquer outro documento, é
“carente de significado por ela mes ma”
e soment e
adquire uma
“dimensão ativa e ideológica de ntro de um s istema cultur al determinado”
(Zaranki n,
2002, pp. 15- 16) .
Entretanto, indicar que a cultura material edificada, por ser um objeto social, possui
valores e sentidos próprios da sociedade que a gerou não significa dizer que ela é seu reflexo
passivo. Afinal, precisament e por ser int erpretada e reinterpretada, a cultura material colabora
63
para a formação das subjetividades daqu eles que a acessam e, portanto, ela participa ativamente
na sociedade (Zarankin, 2002, p. 39; Austin & Thomas, 1 986, p. 46; Hodder, 1986, p. 143) .
A partir desta perspectiva, a cultura material da Sampaio, Ferreira & Cia. e os document os
textuais, fotográficos, iconográficos, cartográficos e filmográficos são an alisados em suas
historicidades e interpretados criticament e , nas relações en tre si e não apenas como resultados
de relações sociais e políticas, mas também como estr atégias para produzi-las e/ou reproduzi-las
ainda que, por vezes, apenas simbolicamente.
Desta forma, os discursos destes documentos (por m eio de símbolos, da estética, das
estratégias t extuais, de organização do espaço etc.) e as narrativas memoriais que os con stituem
informam
“sobre as con sequências políticas do e spaço, desempenho e afeto”
(Smith , 2006, p.
13) e
“sobre as relações hum anas, as ações e questões s ociais”
(Smith , 2006, p. 15).
Assim, as interpretações sobre a documentação buscam compreender como as diferentes
manifestações das narrativas memoriais hegemônicas se configuraram estraté gias para seu
próprio fortaleciment o e difusão, qu ais os usos que pe ssoas e instituições (públicas ou privadas)
fizeram delas, quais seus significados simbólicos e de que forma el as moldaram rel ações de poder,
políticas, culturais o u sociais.
Portanto, a Sam paio, Ferreira & C ia. não é interpretada como simples con sequência de
relações sociais, econômicas e políticas n a localidade, mas como uma prot agonista na construção
destas relações e da memória em Riba d’Ave.
65
Capítulo 2. A memória degradada : a Sampaio, Ferreira & Cia. entre o abandono, a
ruína e a reutili zação desqualificadora.
Era uma vez um mundo que co nhecíamos,
mas esse mundo seguiu adiante.
(Stephen Kin g, “As terras devas tadas”)
O trabalho de campo na Sampaio, Ferreira & Cia. foi realizado em divers os momentos e
expressou diferent es formas de experimentação daquele espaço. Obviamente e em última
instância, teve-se como objetivo registrar a condição física do an tigo es paço fabril no período entre
10 e 15 anos apó s o encerramento das at ividades pr odutivas têxteis e recolher dados para a
composição das hipóteses sobre a trajetória construtiva do conjunto edificado.
Assim, à medida que se encontravam documentos e os organizavam em séries
documentais, os retornos ao espaço fabril permitiram sistematizar informa ções e descrições q ue
compuseram as hipóteses sobre a trajetória con strutiva do conjunto edificado.
Simultaneamente ao trabalho de registro fotográfico das condições do conjunto edificado,
desenvolveu- se um processo de experiência do espaço proporcionado pelas caminhadas no
interior da fábrica. Essas experiências acabaram por se configurar mais
“um diálogo do que u m
inquérito”
(Hol gersson, 2 014, p. 223) às estruturas, per mitindo também os re gistros da percep ção
do autor sobre o espaço.
Portanto, não se pode ne gar que parte da investigação aca rretou um en gajamento
emocional com o objeto e sus citou diferentes percepções sobre o espaço. Tal engajam ento , ao
invés de turvar o olhar an alítico , foi um dos g randes i mpulsionadores das questões co locad as à
cultura material da Sa mpaio, Fer reira & Cia., o
“ suporte visível ”
de sua memória (Bres ciani M. S.,
1999) , desdobradas nas problemáticas historiográficas e a nalisadas a partir dos d ados coletados.
66
O perímetro do complexo fabril
Pelo norte, ch ega -se ao complexo fabril pela N-310, que, em Riba d ’ Ave, torna-se a Avenida
Narciso Ferreira, assim nomeada em homenagem ao fundador da fábrica ( F igura 14 ). Seus mais
de 35.000m 2 situam-se ao long o da Avenida Narciso Ferreira, na margem esquerda do rio Ave. O
longo muro que cerca parcialmente a área e o declive em qu e foi implantada dificultam a
visibilidade do seu con junto edificado a partir do ext erior ou mesmo que se tenha total noção de
sua dimensão.
Figura 14 : pe rcurso à Fe rreira, d esde o norte, pela N310 à Av . Na rciso Fe rreira . (GE )
Ainda assim, é possível ver o t elhado de uma das edificações localizadas mai s ao norte
(Figura 14 , PdV 1; Figura 15 ) e, ao se aproximar da fábrica, pode -se ver claramente parte do
telhado destruído (Figura 14 , PdV 2a ; Figura 16 ) e ve rificar que o mato invade o t erreno fabril
(Figura 14 , PdV 2b; Figura 17 ). Pouco mais adiante, e m uma parte onde o muro fica mais baixo
(Figura 14 , PdV 3; Figura 18 ), fica visível uma janela, cujos vidros estão praticamente t odos
quebrados (Figura 14 , PdV 4; Figura 19 ), e é pos sível espiar o vazio interior recheado por
escombros que p arecem se r do telhad o.
67
Figura 15 : PdV 1 – exterior d a Fe rreira. (FdA)
Figura 16 : PdV 2a – ex te rior da F erreira. (Fd A)
Figura 17 : PdV 2b – exterior d a F erreira. (Fd A)
Figura 18 : PdV 3 – exterior d a Fe rreira. (FdA)
Rumo à en trada da fábrica avista -se, ainda ao longe, uma con strução que foi adaptada
para abrigar um minimercado (Figura 14 , PdV 5; Figura 20 ). Mesmo em frent e ao portão principal,
vê -se o letreiro com o nom e da fábrica e, ao fundo, o mon umento a Narciso Fer reira (Figura 14 ,
PdV 6; Figura 21 ).
Figura 19 : PdV 4 – exterior d a Ferreira. (FdA)
Figura 20 : PdV 5 – exterior d a Ferreir a. (FdA)
68
Figura 21 : PdV 6 – entrada da Fe rreira. (FdA)
Mais adian te, passa -se em frente a uma da s chaminés ( Figura 14 , PdV 7; Figura 22 ), a
única, das duas que há, visível em su a totalidad e pelo exterior.
Figura 22 : PdV 7 – chamin é ao su l da Fe rreira. (FdA)
A seguir, passa-se pelo pos to dos correios ( Figura 14 , PdV 8; Figura 23 ) e pela sede da
Associação dos Bombeiros V oluntários de Riba d’A ve ( Figura 14 , PdV 9; F igura 24 ). Adiante, vê-se
o Mercad o Narci so Fe rreira (Figura 14 , PdV 10; Figura 25 ) e, no o utro lado da A venida Narciso
Ferreira, vê-se o Teatro Narciso F erreira (Figura 14 , PdV 11; Figura 26 ) e, à esquerda, a sede da
Fundação Narciso Ferreira (Figura 14 , PdV 12; Figura 27 ).
69
Figura 23 : PdV 8 – posto do s correio s – CTT (FdA)
Figura 24 : P dV 9 – antiga sede dos Bo mbeiros
Volun tários. (FdA)
Figura 25 : PdV 10 – Mercado Na rciso Ferreira. (FdA)
Figura 26 : PdV 11 – Tea tro Narci so Ferreira. (FdA)
Figura 27 : PdV 12 – Fun dação N arciso Ferreira. (FdA)
Ao final da Avenida Narciso Ferreira, ao sul, ao se virar à direita, já na Avenida da
Cerqueda, na Ponte de Sant’Anna, sobre o rio Ave, vê-s e edificação da chaminé encoberta pela
vegetação (Figura 14 , PdV 13; Figur a 28 ).
70
Figur a 28 : P dV 13 – á rea ao sul da Ferreir a. (FdA)
Observe- se parte do Merc ado Narcis o Ferreira, p arte da antiga sed e do s Bo mbeiros Vo luntários e, ao fundo , a
chaminé da porção sul da fá brica. ( FdA)
Ao final da ponte, à direita, há uma pequena passagem para caminhantes, n a Travessa
das Escadinhas, já n a margem direita d o rio Ave, de onde é pos sível ter uma ideia da dimensão
da fábrica (Figura 14 , PdV 14; Figura 29 ).
Figura 29 : PdV 14 – exterio r da Fe rreira, marge m direita do rio Ave . ( FdA)
Ainda pe la Travessa das Escad inhas, chega -se à Rua S an ta A na, pe la qual, ao longe se vê
parte do monumental complexo fabril entre algumas árvores e m uros de uma casa ( Figu ra 14 ,
PdV 15; Figura 30 , destacado em am arelo), confundindo -se com outras con struções na paisagem.
Por essa perspectiva, chama a atenção o alinhamento entre o monumento a Narciso Ferreira e
uma das chaminés da fábrica, entre o símbolo da memória do fundador da fábrica e o símbolo
maior da indústria.
71
Figura 30 : PdV 15 – exterior d a Fe rreira. (FdA)
Destacado em am arelo o mo numento a Narciso Ferreira e a chami né mais ao n orte. À direita, vê - se a chaminé
localizada ao s ul do complexo fabril.
Depois de ap roximad amente 180m em direção ao nort e, a Rua Santa Ana t ransforma-se
na Rua São Jos é. Aproxi madamente 50m adiante, à dir eita, há uma viela e m dire ção ao rio Ave e,
então, depois de pouco m ais de mais 100m , vê-se uma grande ex tensão da Sampaio, Ferreir a &
Cia., ainda que parcialmente encoberta pela vegetação. (Figura 14 , PdV 16; Figura 31 )
Figura 31 : PdV 16 – exterio r da Fe rreira desde a margem direi ta do rio Ave. (FdA)
Ao long e, as janelas já não parecem quebra da s, a estrutura dos edi fícios já não parece
tão degradada, as paredes já não parecem tão desgastadas. Não se veem os edifícios
individualmente, mas fi ca nítida a sobrepos ição das con struções que formam o con junto fabril, a
adaptação da fábrica às curv as do rio Ave e as modificações que algumas partes desse conjunto
sofreram ao long o dos anos. Ao longe, portanto, a monumentalidade da fábrica se sobrepõe à
degradação que acaba por ser escamoteada pelo olhar à distância.
78
A similaridade dos traços do escritório com o Teatro Narciso Ferre ira leva à reflexão: o que
a estética fabril da Sampaio, Ferreira & Cia. diz sobre sua trajetória?
O escritório dá uma mostra do nível de degradação dos espaços int eriores (Figura 42 , PdV
2 a 6 ; F igura 44 ). T elhas quebradas, parte do teto caído, o chão parci almente destr uído e coberto
de lixo e partes da própria construção que sofre com as intempéries.
Figura 44 : PdV 2 a 6 - in terior do edifício nº 1.
79
Edifício nº 2: Armazém de expedição
Figura 45 : croqui de refe rência c om destaque ao edifício nº 2. (CdA)
A edificação nº 2 (Figura 45 ) era ocupada pelo “ A rmazém de expedição ” conforme con sta
na planta de 1964 como su bdividido em duas partes: n o rés do chão , o “ Armazém de fazenda ” ;
e, no primeiro piso, o “ Armazém de dobragem ” .
Secção 2.1. Rés do c hão
O rés do chão da edificação nº 2 tem sua
entrada voltada para o corredor central da fábrica
que é parcialmente encoberto pelo primeiro piso
da edificação nº 2 ( Figura 46 , PdV 1 , Figu ra 47 e
Figura 46 , PdV 2 ; Figura 48 ). O corredor central
permite o acesso à secção 2.2, no r és do chão, do
edifício nº 2 e o conecta com edificação nº 12 ,
além de permitir o acesso às edificações m ais ao
norte do co mplexo fabril (Figura 46 , PdV 3; Figura
49 ; Figura 46 , PdV 4; Figura 50 ; Figura 46 , PdV 5 e Figura 51 ).
Figura 46 : excerto do croqui de referência com
destaque ao edifício nº 2, sec ção 2.1. (CdA)
80
Figura 47 : PdV 1 - edifício nº 2. (FdA)
Figura 48 : PdV 2 - corredor cen tral abaixo
do edifício nº 2. ( FdA)
Figura 49 : PdV 3 - corredo r central abaix o do edifício nº 2. ( FdA)
Figura 50 : PdV 4 - corredor central abaixo do edi fício nº
2. (FdA)
Figura 51 : PdV 5 - corredor central abaixo do edi fício nº
2. (FdA)
O rés do chão da edificação hoje encontra -se vazio, exceto por uma mesa n o local e algum
lixo espalhado (Figura 46, PdV 6 ; Figura 52 ; Figura 46, PdV 7 ; Figura 53 ).
81
Figura 52 : PdV 6 - e difício nº 2, en trada d a
secção 2.1. ( FdA)
Figura 53 : PdV 7 - edifício nº 2, interior da secção 2.1 ( FdA)
82
Secção 2.2. Rés do c hão – li gação com edifíc io nº 12
A secção 2.2 da edificação nº 2 t em uma
cobertura metálica e o pé direito bastante alto. A
porta ao fundo da construção n ão dá acesso a
lugar algum, mas pe rmite a visualização da secção
12.1 da edificação nº 12 (Figura 54 , PdV 1 ; Figura
55 , PdV 1). A escada de madeira ali construída,
por s ua vez, dá acess o à s ecção 2.3 da edificaçã o
nº 2 (Figura 54 , PdV 2 ; Figura 55 , PdV 2). Ao
voltar-se o olhar para a por ção sul da secção 2. 2
vê -se o acesso à secção 12.3 da edificaçã o n º 12 ( Figura 54 , PdV 3 e 4; e Figura 55 , PdV 3 e 4;
respectivamente ). Neste espaço, chamam a at enção o pouco de lixo es palhado e as pichações
que começam a cobrir algumas das paredes da fábrica.
Figura 55 : PdV 1, 2, 3 e 4 - edifício nº 2, secção 2.2. Ligação com edifício n º 12 . (FdA)
Figura 54 : excerto do croqui de referên cia co m
destaque ao edifício nº 2, sec ção 2.2. (CdA)
83
Secção 2.3. Pr imeiro piso
O 1º pi so da edificação n º 2, secção 2.3,
está ligado a o escritório e ao corredor cen tral por
meio de um corredor e de dois lanços de escadas
(Figura 56 , PdV 1 a 4 e Figura 57 , PdV 1 a 4;
respectivamente ).
Figura 57 : PdV 1 a 4 - edifício nº 2, secção 2.3. ( FdA)
Parte da s ecção 2.3 foi subdividida em pequenos c ubículos interligados por portas,
corredores e janelas de vidro (Figura 56 , PdV 5 ; Figura 58 ).
Figura 58 : PdV 5 - edifício nº 2,
secção 2.3. ( FdA)
Ao fundo, na sua por ção mais ao norte e que se conec ta com a secção 2.2 pela escada
de madeira, ainda é possível encontrar uma g rande quantidade de cultura material da Sampaio,
Ferreira & C ia. produzida sob a forma de document os text uais, iconográficos e m ateriais de
Figura 56 : excerto do croqui de referência com
destaque ao edifício nº 2, secção 2.3. (CdA)
84
trabalho que ficaram para trás, não t endo sido resguardad os , senão por amostras aleat órias
recolhidas pelo MIT (Figura 56 , PdV 6; Figura 59 ; e Figura 56 , PdV 7 ; Figura 60 ).
Figura 59 : PdV 6 - edifício nº 2, secção 2.3. (FdA)
Figura 60 : PdV 7 - edifício nº 2, secção 2.3. (FdA)
Foi nessa área do “A rmazé m de expedição ” que uma ima gem se repet ia num pe queno
montículo (Figur a 56 , PdV 8; F igura 61 ; e Figura 56 , PdV 8.1; Figura 62 ) onde havia cabides para
apresentar amostras têxteis , em meio ao mobiliário qu e sobrou , a res tos de t ecidos, e blocos de
faturas e pedidos. Aparentement e, uma repr odução em preto e bran co de u ma pintura da
Sa mpaio, Ferreir a & Cia. cuja data era, at é então, impossív el precisar (Figura 62 , P dV 8.1.1).
Figura 61 : PdV 8 - edifício nº 2, secção 2.3. (FdA)
Figura 62 : PdV 8.1 e 8.1.1 - Fo tografia da S FC encon trada no edifício nº 2, secção 2.3. (FdA)
85
No chão, nas estantes e me sas ainda restam exemplares da cultura material da industri al
têxtil que ali funcionou: um exemplar de
um
“livro protocolo para registrar
amostras em arquivo”
( Figura 63 “ a ” );
um livro de amostras de tecidos e cores
em inglês com o selo da
“Ribale ne
Fabrics” ,
nome usado pela fábrica em
seus últimos anos ( Figura 63 “ b ” );
cabides com amostras de tecido (Figura
63 “ c ” ); e amostras de linhas (Figura 63
“ d ” ). Além disso, muitos registros de
correspondência estão espalhados ali ,
algo que permitiria, talvez, compreender
melhor as conexões nacionais e
internacionais entre a Sampaio, Ferreira
& Cia. e outras fábricas (Figura 63 “ e ” ,
amostra dos regis tros de
correspondência da Sampaio, Ferreira & Cia. da tado de 1993, com a fábrica de r oupas
Slimma
PLC
, com sede em Leeks, na Inglaterra, fundada em 19 35 e fechada em 2010 .
Figura 63 : a, b, c, d, e - cultura material da produ ção têxtil n a
SFC. (FdA)
86
Edifício nº 3: Creche
Figura 64 : croqui de refe rência c om destaque ao edifício nº 3. (CdA)
Na entrada da edificação nº 3 (Figura 64) cresce
mato à beira da escadaria tornando difícil o acesso (Figura
65 , Pd V 1 e 2; e Figura 66 PdV 1 e 2; respectivamente).
Na porta, u m aviso de
“N ão Passar” ,
“Perigo de
queda”, “Pe rigo de tropeçament o”
e, por fim,
“ Perig os
vários”
(Figura 67 ).
Figura 66 : PdV 1 e 2 - exterior d o edifício nº 3 . (FdA)
Figura 65 : excerto do cro qui de referência
com destaque ao edifício nº 3. (C dA)
87
Figura 67 : advertênci as no edifício nº 3. (FdA)
Apesar da s ad vertências, a porta entreaberta é um convite à entrada . Dali, vê -se que a
escada ao primeiro piso se encon tra quebrada, de modo que o acesso dem anda certa cautela
para que o s degraus não cedam (Figura 65 , PdV 3 e 3.1; e Figura 68 , PdV 3 e 3.1;
respectivamente). O primeiro piso está coberto por fe zes de aves, as janelas estão quebradas e a
cobertura do telhado está aparente ( Figura 65 , PdV 4; e Figura 68 , PdV 4).
Figura 68 PdV 3, 3.1 e 4 - interior d o edifício nº 3. (FdA)
No edifício nº 3 há muitos documentos relativos à organização sindical (Figura 69 ), os
quais foram recolhidos, li mpos e organ izados para serem en tregues ao MIT para avaliação n o caso
de se desejar preservá-los. Além disso, pela quantidade de documentos relativos à saúde dos
trabalhadores, ali parece ter funcionado um posto de saúd e qu e atendia os t rabalhadores. Porém,
muito da documentação que estava ali se perde u, pois as ch uvas que caem d entro do prédio
destruíram a maior parte da documen tação em papel.
94
Edifícios nº 6, 7 e 8: Tecelagem “C”, “B ” e “D”
Figura 82 : croqui de refe rência c om des taque aos edifícios nº 6, 7 e 8. (CdA)
As edificações da “Tecelagem ‘C’” (nº 6), mais pr óxima da A venida Narcis o Ferreira; da
“Tecelagem ‘B’” (nº 7), edificações do m eio ; e a da “Tecelagem ‘D’” (nº 8) , próxima ao rio Ave ;
estão implant adas em um declive que vai ao rio, encon trando-se o rés do chão de cada uma em
diferentes alturas (Figura 82 ) . En tretanto, a “Tecelagem ‘D’” (nº 8), por possuir do is pisos, tem o
telhado à mesma altura da “Tecelagem ‘B’” (nº 7). Dos t rês, apenas a “Tecelagem ‘C’” possui
cobertura de telhas.
Edifício nº 6: Tecelagem “C”
A “Tecelagem C” não t eve sua função alt erada entre os
anos de 1964 e 1978. À entrada da edificação, vê -s e n a parede o
desenho do que deveria ser uma construção que já n ão existe mais
(Figura 83 , PdV 1 ; Figura 84 ) e que foi edificada sobre um pequeno
aterro para nivelar o terreno, no qual t ambém foi feita uma
construção, ao nível da “Te celagem ‘B’” ( Figura 83 , PdV 2 ; Figura
85 ). Dali e ra pos sível ver- se a entrada das edificações nº 7, 8 e 9
(Figura 83 , PdV 3 ; Figura 86 )
Das t rês edificações qu e com põem esse conjunt o, a
“Tecelagem ‘C’” era a mais da nificada quando se iniciou a
investigação. U ma grande porção do telhado havia caído e o
entulho acumula va -se em seu int erior. O s pilare s de ferro que
sustenta va m o telhado t inham sua cor bran ca já desgastada e corroída pela ferrugem , além de a
Figura 83 : ex cer to do croqui de
referência com dest aque ao
edifício nº 6. (CdA)
95
porta na porção nort e, que levava à edificação n º 7, ter sido fechada com tijolos (Figura 83 , PdV
4, 5 e 6; e Figura 87 ; PdV 4, 5 e 6; respectivament e ).
Figura 84 : Pd V 1 - res quício da c on strução em frente
ao edifício n º 6. ( FdA)
Figura 85 : PdV 2 - aterro para nivel ar o terreno em
frente ao edifício n º 6. ( FdA)
Figura 86 : PdV 3 - vis ta da entrad a do edifício nº 6 para os edifícios nº 7, 8 e 9. ( FdA)
Figura 87 : PdV 4, 5 e 6 - interior do edifício n º 6. ( FdA)
Hoje em dia, porém, tal como se fez na edificação nº 4, retiraram -se as telhas sem
qualquer cuidado. Entretanto, também desapareceram os pilares, aparentement e, s em que
houvesse qualquer preocupação em preservá-los (Figura 88 ; Figura 89 ).
96
Figura 88 : interior do edifício nº 6, sentido norte- sul .
(FdA)
Figura 89 : interior do edifício nº 6, sentido sul-no rte .
(FdA)
97
Edifício nº 7: Tecelagem “B”
O pavilhão da “Tecelagem ‘B’” (Figura 90) parece ser um
dos que ain da recebem “vis itas” regulares. Ali organ izou-se o q ue
parece ser um pequeno espaço para audiências ou u ma pequena
“ sala do tron o ” : uma poltron a elevada sobre dois caix otes ,
posicionada em frente a dois bancos paralelos e posici onados ao
lado de uma palete e de uma pequ ena mesa e um caixote que faz
as vezes de cadeira ( Figura 90 , PdV 1 ; Figura 91 ) . A limpeza dessa
área contrasta com o lixo no chão, ao fundo. Não faltam palavras
e desenh os grafitados, m uitos relacionad os à prática do skate,
para a qual se utiliza uma pequena rampa ( Figura 90 , PdV 2 ;
Figura 93 , detalhe ao cent ro).
Figura 91 : PdV 1 - in terior do edif ício n º 7, “sala do trono ”. De talhes Figuras 92 e 94. (FdA)
Por alg uns instantes é impossível n ão se perguntar que tipo de
“evento” se realizaria ali ou quem ocuparia cada uma das posições. Da
mesma forma, é inevitável pensar n a contradição ent re a disposição
meticulosamente hierarquizada dos móveis com os grafites de um pe q ueno
símbolo anarquista ( ) atrás do “trono” (Figur a 92 ). A autoridade e
estrutura de poder evoca da pela disposição dos móveis no espaço
contrastam com a
“liberdade”
grafitada em uma parede lateral (Figura 90 ,
PdV 2; Figura 93 ) . De out ro m odo, pode -se pensar que o m obiliário, n a forma como foi disposto,
Figura 90 : ex cer to do croqui de
referência com dest aque ao
edifício nº 7. (CdA)
Figura 92 : símbolo
anarquista no edifício
nº 7. (F dA)
98
evoca certa ordem no es paço arruinado e vazio da fábrica. Essa apropriação do espaço
abandonado e, de certa maneira, esquecido e invi sível, evoca , portan to, um recomeço.
Figura 93 : PdV 2 - interior do edif ício nº 7, "liberdade". (FdA)
Ao lado do símbolo an arquista na parede atrás do “trono” , há um
pequeno símbolo do
“OM”
( ) (Figur a 94 ). Pel o significado qu e possu i em
relação ao lugar em q ue se encont ra, um espaço aba ndonad o e arruinado,
é um con vite à re flexão. De origem h indu, o símbolo representa o que é
eterno, atemporal e imutável. Contrasta -se o símbolo daquilo que
transcende o tempo com a ruína, uma metáfora material da passagem do
tempo. E é impossível resistir à experi ência de se pronunciar o
“OM”
em
voz alta no pavilhão e ouvir um eco da eternidade entre as paredes do que é efêmero.
Uma pass agem de B oym vem à me mória:
“as ru ínas nos fazem pensar no pass ado que
poderia ter sido e no futuro que nunca ocorreu, atormentando -n os com sonhos utópicos de es capar
da irreversibilidade do tempo”
(Boym, 2017, p. 43). Para ela, o olh ar contemporâneo sobre as
ruínas
“requer a aceitação da desarmonia e da t emporalidade humana, histórica e natural”
(Boym,
2017, p. 45) .
Em direção ao fundo do e difício, na sua porção mais a o norte, na mesma parede em que
está escrito
“liberdade”,
passa-s e por outros dois grafites (Figura 90 , PdV 3 ; Figura 95 ). U m
desenho que lembra pi nturas rupestres evoca o que parece ser uma pessoa de cabelo moicano e
com os braços abertos. A o seu lado, o t orso monumental da figura masculina com longos cabelo s
e barba, ambos n egros, mas com os bigodes brancos. Penso em um “eremita ” . O bigode, no
entanto, está ape nas cont ornado e a tinta do pró prio edifício faz as vezes de tinta do g rafite. Chama
Figura 94 : interior do
edifício nº 7, " OM ".
(FdA)
99
a aten ção a dualidade que este profeta evoca em conju nto com o edifício. A iluminação nat ural
cobre apenas um lado da pi ntura. Neste lado, os cabelos estão calmos , mas a sobrancelha est á
tensa, embora ambos os olhos estejam fechados. No lado escuro do profeta sua sobrancelha
sugere tran quilidade, ao passo que os cabelos estão e svoaçantes e ag itados en quanto escorrem
lágrimas formadas pelas infiltrações do edifício.
Figura 95 : PdV 3 - in terior do edif ício n º 7, o “moicano” e o "profeta". (FdA)
Ao fundo da edificação nº 7 , vê-se uma porta que leva a antigas casas de banho e a porta
que foi selada com t ijolos que da ria aces so à edificaçã o n º 6 ( Figura 90 , PdV 4 ; Figura 96 ). No
retorno à frent e da edificação, cruza-se com vários out ros grafites e pichações, m as um cham a a
atenção:
“live after death”
(F igura 90 , PdV 5 ; Figura 97 ). Uma possível referência a o álbum “
Live
after death
” (1 985) da banda ing lesa
Iron Maiden
, mas que leva a pensar sobre a vi da da Sampaio ,
Ferreira & Cia. antes da morte das suas atividades industriais. E que vida tem ou terá? O qu e será
de seu corpo?
Figura 96 : PdV 4 - interior da e dificaç ão nº 7, antigo
acesso à edificaç ão nº 6. (FdA)
Figura 97 : PdV 4 - interior da edif icação nº 7, "live after
death" . (FdA)
100
Edifício nº 8: Tecelagem “D”
Secção 8.1. Pr imeiro piso, parte 1
Das três tecelagens, a “D” é a
maior, t anto porque tem dois pisos
quanto porque avança em direção ao
corredor central e à edificação n º 9.
Na planta de 1964, porém, era de
menor com primento e sua função
era de “Estamparia Manual”.
O primeiro piso divide-se e m
duas partes, em que a primeira, onde
está a entrada , se conecta com o
edifício nº 9 (Figura 98 , PdV 1 ; Figura
99 , PdV 1). Uma porta metálica leva ao interior e é pos sível notar que, acima da janela que fica à
direita da porta, parte da plat ibanda foi demolida (Figura 98 , PdV 2 ; Figura 99 , PdV 2). Dentro do
edifício há entulho da qu ebra de paredes , latas de tinta, alguns móveis , o que parecem ser restos
de t ecidos, paletes e caixotes. O telhado está com muitos furos, as paredes de scascadas , muitos
d os tijolos estão aparentes e as ja nelas voltadas ao rio Ave estão com os vidros quebrados e
tomadas por hera (Figura 98 , PdV 3; Figur a 99 , PdV 3; e Figura 98 , PdV 4; Figura 100 ) .
Figura 99 : PdV 1 e 2 (ex terior) e PdV 3 (interior) - edifício nº 8, s ecção 8.1. ( FdA)
Figura 100 : PdV 4 - panor âmica do interior do edifício nº 8, s ecção 8.1. ( FdA)
Figura 98 : ex certo do croqui de referência com destaque ao edifício
nº 8, secção 8.1. (CdA)
101
Secção 8.2. Pr imeiro piso, parte 2
A segunda parte do primeiro piso encontra -se vazio (Figura
101 , PdV 1; Figur a 102 ; e Figura 101, PdV 2 ; Figu ra 103 ). O
telhado co nserva-se praticament e inteiro, a não ser por uma área
ao fundo do edifício onde há dois gra ndes buracos. Ali há duas
grandes janelas, uma sobr e a outra, volt adas ao norte, e parece
ter havido algum tipo de ma quinário; e uma pequena abertura que
lega à edificação nº 7 (Figura 101 , Pd V 3 ; Figura 104)
Figura 102: PdV 1 - interior do edifício nº 8, secção 8.2.
Sentido sul-no rte. (FdA)
Figura 103 : PdV 2 - interior do edifício nº 8, secção 8.2.
Sentido norte- sul. (FdA)
Figura 104: PdV 3 - interior do edifício nº 8, secção 8.2,
porção no rte. (FdA)
Figura 101 : excerto do croqui de
referência com dest aque ao
edifício nº 8, sec ção 8.2. (CdA)
102
Secção 8.3. Rés do c hão
A entrada do rés do chão do edifício nº 8, ao fim do
corredor cen tral e próximo ao edifício nº 9, pos sui três abert uras,
mas apenas o pórtico do meio é destinado à passagem pedonal
(Figura 105, PdV 1 ; Figura 106 ). A o se observar a en trada,
verificam-se evidências d e ela foi con struída em diferentes
momentos: as diferentes es truturas construtivas que com põem os
pilares e o teto mostram que, em um primeiro momento, pode se
ter construído da porta metálica às pilastras circulares e daí às
aberturas da entrada (Figura 105 , PdV 1.1 ; Figura 107 ).
A escada (Figur a 105, PdV 1.1, 1.2 e 1.3; e,
respectivamente, Figur a 107; Figura 108 ; e Figura 109) parece ter
sido con struída apenas após a primeira parte, para ligar ao
primeiro piso, pois ela atravessa uma parede que parece ser preexistente à sua con strução (Figura
105 , PdV 1.2 e 1.3; e, respectivamente, Figura 108 ; e Figura 109). Além disso, há uma pequena
abertura qu e dá ace sso a um pat amar no ex terior do ed ifício que leva a uma sala ent re a edificação
nº 8 e 9 (Figura 105, PdV 1.2 e 1.2.1 ; Figura 108).
Figura 106 : P dV 1 - edi fício nº 8 , secção 8.3, vis to d o
corredor central. (Fd A)
Figura 107 : PdV 1.1 - entrada do edifício nº 8, s ecção
8.3. (FdA)
Figura 108 : PdV 1.2 - escad a de acesso à secção 8.1.
A abertura (PdV 1.2.1) dá acesso a u ma sala entre o s edifícios nº 8 e 9. ( FdA)
Figura 105 : excerto do croqui de
referência com dest aque ao
edifício nº 8, secção 8.3. (CdA)
103
Figura 109 : PdV 1.3 - escada de acesso à secção 8.1.
(FdA)
O piso inferior também está vazio ( Figura 105 , PdV 2 ; Figur a 110 ) e pos sui alg umas
pichações e grafites (Figura 105 , PdV 3 e 4; e, respectivamen te, Figura 111 e Figura 112 ).
Figura 110 : PdV 2 - secção 8.3. Sen tido sul-norte. (FdA)
Figura 111 : PdV 2 - secção 8.3. Sen tido sul-norte. (FdA)
Figura 112 : PdV 4 - secção 8.3. S entido norte-s ul. (FdA)
110
os padrões para tecelagem e muitos deles espalhados pelo chão (Figura 119, PdV 8; Figura 129 ,
PdV 8 e 8. 1 ).
Figura 129 : PdV 8, 8.1 e 8.2 - edi fício nº 10. Secção 10.1. Salão de desperdício. ( FdA)
Desse espaço tem-se acesso a um corredor qu e leva à secção 12.1 do edifício 12 ( Figura
119 ; F igura 129, PdV 8.2) e ao corpo principal do edifício nº 10 ( Figur a 119, PdV 9, 10; e,
respectivamente, Figura 130 e Figura 131 ) no primeiro piso, numa área em que a iluminação
natural se dá apenas em uma parte do telhad o (Figura 119 , PdV 11 e 12; e, respectivament e,
Figura 132 e Figura 133 ).
Figura 130 : PdV 9 -
edifício nº 10. Secção
10.1. Conexõ es
internas. (FdA)
Figura 131 : PdV 10 - edifício nº 10. S ecção 10.1.
Passagem à edific ação nº 12 ( FdA)
111
Figura 132 : PdV 11 - edifício nº 10. Secção 10.1 . Conex ões internas ( FdA)
Figura 133 : PdV 11 - edifício nº 10. Secção
10.1. Conex ão interna ( FdA)
Ali des cansa m os restos do que parecem ter sido dois “Abridor es ” (Figura 119 , PdV 13 ;
Figura 135 ), máquinas cuja fu nção era abrir e limp ar as fibras têxteis, enrola ndo - as para a
alimentar a “Carda” . Hoje um esqueleto inerte e sem “vida”, mas capaz de provocar o obs ervador:
quem o operou? Sempre e steve ali? Que sons fazia? Há quanto tempo deixou de funcionar? Por
que ficou para t rás? Passa dos alguns an os, já se via m os “Abridor es ” tombado s e com sua
estrutura cada vez mai s deteriorada (Figura 119 , PdV 12 ; Figura 134). A corrosã o do tempo foi
acompanhada por at os aleatórios de vandalismo e falta de cuidado.
Figura 134 : PdV 12 e 12.1 -
edifício n º 10. Secção 10.1.
Abridores. (Fd A)
112
O espaço sensibiliza o olh ar para re conhecer a beleza da composição em meio a um
cenário caót ico e deg radado. Esse paradox o estético do processo de arruina mento é acompan hado
da angústia de não se saber se o que restava n o local, naquele instante, estará lá noutro m omento.
Uma grande parede de vidro divi de esta secção com a segui nte (Figura 119 , PdV 13 ;
Figura 13 5), a m ais ampla e il uminada de toda a fábrica , on de, segundo a pl anta de 196 4,
funcionava a “Tecelagem ‘A’” (Figura 119 , PdV 14 e 15; e, respectivamente, Figura 136 e Figura
137 ). O telhado em
shed
e a iluminação zenital nesta área amplificam a explosão de cores
provenientes do mobiliário que ainda resta ali.
Figura 135 : Pd V 13 - edifício nº 10.
Secção 10.1. E ntrada para a
Tecelagem ‘A’. ( FdA)
Figura 136 : PdV 13 - edifício nº 10. Secção 10.1 . Tecelagem ‘A’ , pano rama (1). (FdA)
Figura 137 : PdV 13 - edifício nº 10. Secção 10.1 . Tecelagem ‘A’ , pano rama (2). (FdA)
Mas não só, a m esma água que entra pelo telhado e pelas jan elas quebradas corrói e
permite o crescimento de líquen e musgo nas paredes brancas e n o assoalho ( Figura 119 , PdV
16, 17 e 18; e Figura 138 , PdV 16, 17, e 18, respectivamen te ), enquanto a hera cresce pelas
janelas voltadas ao rio Ave (Figura 119, PdV 19; e Figura 138 , PdV 19 ).
113
Figura 138 : PdV 16, 17, 18 e 19 - edi fício nº 10. Secção 10.1. Tec elagem ‘A’ , in terior. (FdA)
Misturam-se tons esverdea dos e acinzent ados da nat ureza que invade m o loc al aos
amarelos, ve rmelhos, verdes , castanhos, laranjas e brancos da cultura material qu e jaz ali ( Figura
119 , PdV 20 ; Figura 139 ). Que história a arquitetura fabril da Sampaio, Ferreir a & Cia., sua cultura
material edificada, pode contar?
Figura 139 : PdV 20 - edifício nº 10. Secção 10.1 . Tecelagem ‘A’, c ultura material ( FdA)
114
Secção 10.2. Rés do ch ão
Figura 140 : excerto do croqui de referência com des taque ao edifício nº 10, secção 10.2. (CdA)
O rés do chão da edificaçã o de n º 10 é um dos mais difíceis de se ver o estado em que
se encont ra, porque a estrutura construtiva dificu lta a iluminação, de modo que apenas em
algumas horas do dia, e s e houver sol, é que s e pode ver suas condições. Na parte sul, abaixo do
“salão de desperdício” do p rimeiro piso funcionavam os “n ovos batedores”, segundo a planta de
1964 (Figur a 140 , PdV 1 e 2; e, respectivamente, Figura 141 e Figura 142 ).
Figura 141 : PdV 1 - edifício nº 10, secção 10.2. Conex ão
ao edifício n º 11. ( FdA)
Figura 142 : PdV 2 - edifício nº 10, secção 10.2. “Novos
batedores” ( Fd A)
Adiante, voltando-se em direção ao ri o A ve, ch ega-se a um grande corredor no sent ido sul -
nor te (Figur a 140 , PdV 3 ; Figura 143 , PdV 3) que parece um cen ário de guerra: um grande buraco
no solo percorre de pon ta a ponta a edificação n º 10. Segundo informa ções de diversas fontes,
tais buracos foram feitos para qu e se roubassem os fios de cobre que ali estavam. Dali, as divisões
115
internas interligam - se (Figura 140 , PdV 4; Figura 143 , PdV 4) com a área em frente à chaminé
(Figura 140, PdV 5; Figura 143 , PdV 5)
Figura 143 : PdV 3, 4 e 5 - edifício nº 10, secção 10.2. Conexões internas. ( FdA)
Seguindo-se o corredor esburacado em direção ao norte, vê -se à direita uma parede
divisória com janelas (Figura 140 , PdV 6; Figura 144). Ali tem -se acesso a uma áre a ampla que
permite vi sualizar uma abertura com frisos que pa rece servir como divisória, mas que permite a
circulação de ar (Figura 140, PdV 7; Figura 145 ) .
Figura 144 : PdV 6 - edifício nº 10, s ecção 10.2. ( FdA)
Figura 145 : PdV 7 - edifício nº 10, s ecção 10.2. ( FdA)
116
Adiant e chega-se à área do rés do ch ão em que funcionava a “Fiação”, segundo a planta
de 1964, e que faz ligação com a edificação n º 9 . O lo cal está repleto de tonéis que cont inh am
tecidos, alguns dos quais inclus ive ainda estão ali, e outros poucos que pare c em ter co ntido
produtos químicos (Figura 140 , PdV 8 e 9; e respectivament e, Figura 146 e Figura 147).
Figura 146 : PdV 8 - edifício nº 10, s ecção 10.2. ( FdA)
Figura 147 : PdV 9 - edifício nº 10, s ecção 10.2. ( FdA)
Ao norte da edifi cação, ainda no r és do ch ão , há uma porta que dá acesso ao corredor
central do con junto (Figura 140 , PdV 10; Figura 148 ). A porta dá acesso, ant es, a um corredor
estreito que percorre a edificação de norte a sul
(Figura 140, PdV 11 e 12; e, respectivamente,
Figura 149, PdV 11, sent ido sul -norte; e PdV 12 ,
sentido norte- sul ). Ali, u ma rampa vol tada ao
norte dá acesso ao corredor cent ral e vai ao
encontro das edificações nº 8 e 9 (Figura 14 0 ,
PdV 13 e 14; e, respectivament e, Figura 149 ,
PdV 13 e 14).
Figura 148 : PdV 10 - edi fício nº 10, secção 10.2.
Conexão ao corredor cen tral. (Fd A)
117
Figura 149 : con exão do edifício nº 10, s ecção 10.2 , ao corredor ce ntral (FdA)
A edificação nº 10 contém ainda muita cultura mat erial da fábrica , alg um mobiliário,
especialmente pequenos armários (Figura 150 e Figura 151 ), num dos quais chama a aten ção
um “Livro de cores” (Figura 152 e Figura 153 ). Além diss o, há documentação cujo processo de
degradação está tão avançado que impede qualquer tentativa de preservação (Figura 154 ), alg uns
manuais de manutenção de máquinas entulhados num cant o ( F igura 155 ) e m uitos cartões-pon to
com nomes dos funcionários (Figura 156).
Figura 15 0: edifício nº 10, secção 10.2. Cultura
material, armá rio. (FdA)
Figura 15 1: edifício nº 10, secção 10.2. Cultura
material, armá rio. ( FdA)
Figura 15 2: edifício nº 10, secção 10.2. Cultura
material, livro de cores. ( FdA)
Figura 15 3: edifício nº 10, secção 10.2. Cultu ra
material, livro de cores. (FdA)
118
Figura 154 : edi fício nº 10, s ecção 10.2. Degradação
da cultura material. ( Fd A)
Figura 155: edifício nº 10,
secção 10.2. Cultura
material, manuais d e
manutenção. (FdA)
Figura 15 6: edifício nº 10,
secção 10.2. Cultura
material, cartões -ponto .
(CSFC)
119
Edifício nº 11 : Caldeiras
Figura 157 : croqui de refe rência co m destaque ao edifício nº 11. (CdA)
O edifício das “Caldeiras” vincula-se à ch aminé (Figura
157 ), talvez a mais emblemát ica das construções de um com plexo
fabril, a mais antiga das duas que exis tem n a Sampaio, Ferreira &
Cia.
O tet o sofre com algumas telhas quebradas, a porta que
dá ao exterior já não existe e h á buracos n o piso. Entretanto, há
alguma cultura material que poderia ser preservada . Aind a há os
canos da serpe ntina que aq uecia a ág ua ( Figura 158, PdV 1 ; Figura
159 , PdV 1, no detalhe ). Uma grande por ta está fecha da pelo mat o
e uma pequena porta permite o acesso a um estreito corredor qu e,
por sua vez, leva a uma sala que dá acesso a um corredor que leva à chaminé e ao edifício nº 12
(Figura 158, PdV 1 , Figura 159 , PdV 1 e detalhes 1 .1 e 1.2).
Figura 159 : PdV 1, 1.1 e 1.2 - in terior do edifício n º 11 e suas conexões . ( FdA)
Figura 158 : excerto do croqui de
referência com dest aque ao
edifício nº 11. (CdA)
126
Figura 172 : PdV 3 e 4 - edifício n º 12, sec ção 12.2. Con exões . ( FdA)
Entretanto, n ão é possível saber se nos últimos anos da fábrica aque le espaço era
efetivamente destinado à “Estampari a
mecânica”. A dúv ida surge porque na por ção
noroeste do edifício há u ma divi sória n a qual
ainda resta algum mobiliário do que pa rece se r
um escritório (Figura 172 , PdV 4, det alhe; e
Figura 173 ).
A rampa (Figura 174 , 4. 1 e 4. 2) que leva
ao piso inferior leva a u m corredor sem qua lquer
iluminação qu e dá ace sso à edificação n º 1 1, onde está a cham iné (C f. Figura 199 , PdV 10,
adiante) e à secção 12.5 da edificação nº 12, onde se localizava a tint uraria.
Figura 174 : 4.2 e 4.3 : edifício nº 12, secção 12.2. co nex ão à chaminé e à secção 12.5. ( FdA)
Alguns trechos do corredor encont ram -se na escuridão absoluta e são necessári as
lanternas para que se possa caminhar entre algum entulho que ain da h á no chão. O ar é pesado
e úmido devido à pouca ventilação e iluminação (Figura 175 , 4.3 a 4.6) .
Figura 173 : edifício nº 12, secção 12.2. Cultura
material. (Fd A)
127
Figura 175 : PdV 4. 3, 4.4, 4.5 e 4 .6 - edifício n º 12, secção 12.2 ; conex ões internas. (FdA)
128
Secção 12. 3. P reparação para a tecelagem ( segundo piso)
Figura 176 : excerto do croqui de referência com des taque ao edifício nº 12, secção 12.3. (CdA)
A “Preparação para tecelagem” (Figura 176 ) é o segundo piso da porção sul da edificação
e está ao nível do escritório (edificação nº 1) e do
monumento a Narciso Fer reira, de m odo que é
avistado logo que se entre no complexo fabril
(Figura 176 , PdV 1 ; Figura 177 ).
Desde a porta da ent rada pode-se ver ao
fundo e à esq uerda, na parte sudoeste da
edificação, um elevador que vai até o rés do chão
(Figura 176 , PdV 2; e Figura 178 , detalhe a). Colado à parede um pequeno cartaz de alerta para
que se tenha o cuidado de não sujar tecidos, pois os cl ientes não aceitariam (Figura 176 , PdV 2;
e Figura 178, detalhe b).
Figura 178 : PdV 2 - edifício 12, secção 12.3 . ( FdA)
Há ainda um pequeno escritório ao lado da porta de e ntrada (Figur a 176, PdV 3 ; F igura
179 , seta vermelha).
Figura 177 : PdV 1 - edifício 12, s ecção 12.3, visto do
largo em frente ao monumento . (FdA)
129
Figura 179 : PdV 3 - edifício 12, secção 12.3, desta que ao pequen o escritó rio. ( FdA)
Uma porta dá acesso a um anexo que parece ter servido a carg as e descargas (Figura
176 , PdV 3, 4, 4 .1 e 4 .2; Fi gura 179 , no detalhe; F igura 180 , PdV 4, detalhe; PdV 4.1 e PdV 4.2)
Figura 180 : PdV 4 - edifício 12, secção 12.3 .
Seta vermelha indic a o pequeno escritório e o detalhe pontilh ado vermelho in dica os P dV 4.1 e 4.2 . (FdA)
Do lado oposto ao elevador, na parte norte da edificação, portanto, uma escada desce ao
primeiro pi so, secção 12.4 , onde funcionava a “Estamparia” (Figur a 176 , PdV 5 ; Figura 181 , seta
vermelha); e uma porta, ao lado do anexo de carg a e descarga, leva à secção 2.2 da edif icação nº
2 (Figura 176 , PdV 5 .1; Figura 181 , PdV 5.1; Cf. Figura 55 , PdV 4 ).
Figura 181 : PdV 5 e 5.1 - edifício 12, secção 12.3 .
Conexõ es secção 12.4 (s eta vermelha P dV 5) e edifício 2, s ecção 2.2 (PdV 5.1) . (FdA)
De modo geral essa secção 12.3 parece bem conserv ada e não parece ser um alvo
frequente de vandalismo, talv ez por estar expost a à ent rada do complexo fabril, onde há constante
movimentação de carros e pessoas. Algum mobiliário de pequeno porte ain da está no local, a
130
maioria pequenas mesas alta s, para que se pudessem fazer anot ações em pé (Figura 176 , PdV
6; e Figura 182, PdV 6).
Figura 182 : P dV 6 e detalhe “a” - edifício 12, s ecção
12.3. Cultura ma terial ( FdA)
Nas gavetas ainda é possível encontrar pequenos cartõe s nos quais se parecem des crever
as peças produzidas ( Figura 182 , a, detalhe a1). Des taca-se nos cartões o símbolo da
“Ribalene
Fabrics”,
nom e comercial adotad o pela Sampaio, Fer reira & Cia. nos seu s últimos an os. Ali as
chaminés continuam a fumegar (Figura 183).
Figura 18 3: det alhe “a.1” - edifício 12, secção 12.3 ,
documentação – cartões. (CSFC)
Destaque para o sím bolo da “Rib alene Fabrics” .
131
Secção 12.4 . Estamparia (primeiro pi so)
Figura 184 : excerto do croqui de referência com des taque ao edifício nº 12, secção 12.4. (CdA)
Há cinco form as de s e acessar a secção 12.4 da edificação nº 12 ( Figura 184 ), ond e
funcionava a “Estamparia”: por meio da secção 12.2 ( Cf. Figura 172 ) ; por meio da secção 12.3
(Cf. Figura 181 , PdV 5), pelo elevador e pela escada; e pela porta que leva ao corredor cent ral
abaixo da edificação nº 2 (Figura 184 , PdV 1; Figura 185 , PdV 1 e detalhe 1.1).
Figura 185 : PdV 1 e 1.1 - acesso ao edifício 12, secç ão
12.4, pelo co rredor central . ( FdA)
Da sua porção mais próxima ao rio Ave (Figura 184 , PdV 2 e 3; e, respectivamente, Figura
186 e Figur a 187 ) é pos sível ver o el evador ao fundo e verificar que uma parede c om janelas de
vidro faz a divisão com a porção voltada ao interior da fábrica (Figura 184 , PdV 4 e 5; e,
respectivamente, Figura 188, PdV 4; e Figura 189 ).
132
Figura 186 : PdV 2 - edifício , 12, secç ão 12.4, porção o este, sen tido n orte-su l. (FdA)
Figura 187 : P dV 3 - edifício, 12,
secção 12.4, porção oeste, sentido
sul-n orte. (FdA)
Apesar das infiltrações e do lixo no chão a secção está r elativamente be m conservada. Há
poucos objetos nessa secçã o, uma grande mesa próxima ao elevador ( Figura 184 , PdV 3; Figura
187 ) e vários armários do q ue possivelmente seria um vestiário (Figura 188, det alhe 4 .1 ).
Figura 188 : PdV 4 e 4. 1 - edifício, 12, secção 12.4,
porção leste, s entido n orte- sul ( FdA)
Figura 189 : PdV 4 - edifício , 12, secção 12.4, por ção
leste, sen tido sul -norte (FdA)
133
Secção 12.5 . Tinturaria (rés do chão )
Figura 190 : excerto do croqui de referência com des taque ao edifício nº 12, secção 12.5. (CdA)
A secção da “Tint uraria” tem o pé direito mais alt o do conjunto e é a mais extensa
longitudinalmente, de modo a ocupar t odo o rés do ch ão do edifício n º 12 ( Figura 190). É também
um dos mais degradados, com infiltrações, paredes mofad as a desfazer em - se a os poucos e o
chão muito esburacado (Figura 190 , PdV 1 e 2 ; Figura 191 , PdV 1 e 2, respectivamente ) .
Figura 191 : PdV 1 e 2 - edifício n º 12, sec ção 12.5, sen tido su l-norte. (FdA)
A porção sul da tint uraria faz ligação e estende -se pelo edifício nº 13 (Figura 190, PdV 3 ;
Figura 192).
Um conjunto relativamente ext enso de
pequenas salas parece ter sido construído em
momento posterior à construção do edifício, pois,
além de ocupar apenas a metade da altura do pé
direito, ele se adapt a aos pilare s (Figura 1 90, PdV
4 ; Figura 193 , à esquerda). Pelas janelas à direita ,
Figura 192 : PdV 3 - edifício n º 12, secção 12.5.
porção sul. Seta: edifício nº 13. (FdA)
134
voltadas para o rio A ve, é p ossível ver o segundo açude construído pela fábr ica (Figura 190 , PdV
4; Figura 193, detalhe; Figura 194).
Figura 193 : PdV 4 - edifício nº 12, secção 12.5, sentido norte-sul. (FdA)
Figura 194 : PdV 4.1 - açude mais ao
sul da SFC visto do edi fício nº 12.
(FdA)
Próximo a esse conjunto de pequenas salas, vê -se a rampa que dá acesso ao corredor
escuro e que leva à “Estamparia mecân ica” no primeiro piso (Figura 190, PdV 5 ; Figura 195 , Cf.
Figura 174 e Figura 175 , s etas verdes).
Figura 195 : PdV 5 - edifício nº 12, secção
12.5. escada que leva à secção 12.2. ( FdA)
Casas de banho foram construídas na parte externa, por sobre o rio Ave, mantendo-se no
interior da edificação apenas a ent rada para elas (Figura 190 , PdV 6 ; Figura 196 , PdV 6, à
esquerda). Na po rção norte há out ra divisória int erna que parece ter sido construída
135
posteriormente ao corpo do edifício, mas que, ao con trário da ant erior, é mais estreita e ocupa
todo o pé direito (Figura 190, PdV 6; Figura 196 , P dV 7).
Figura 196 : PdV 6 e 7 - edifício nº 12, s ecção 12.5, divis ória inter na. ( FdA)
O ponto mais ao norte da “T inturaria” faz conexão com o rés do chão da edificação nº 10
(Figura 190, PdV 8 ; Figura 197 , PdV 8), pois ao se pas sar por duas pequenas salas (Figura 197 ,
detalhe 8.1) chega-se ao corre dor em qu e foram fe itos buracos no chão para roubarem os fios de
cobre (Cf. Figura 143 , PdV 3).
Figura 197 : PdV 8 e 8.1 - edifício n º 12, sec ção 12 .5. Salas do laboratório. ( FdA)
Embora caót ico e vandaliza do, nas duas pequenas salas o mobiliári o parece estar qu ase
integralmente n o local em que era utilizado. Por sobre as bancad as, gavetas e mesas há
recipientes de vidro e latas de produtos químicos, e papéis os mais variados . Tudo indica que ali
funcionava um t ipo de laboratório, hipótese acei tável tendo em vista que esta era a secção em que
produtos químicos eram utilizados para tingir a produção têxtil (Figura 198 , 8.2 e 8.3).
Se há risco para quem estiver ali nestas condições, é uma questão que surge
naturalmente. Assim como a reflexão sobre o significad o da ocupação de um es paço que oferece
riscos como esse; o que essas práticas dizem sobre o patrimônio e sobre discursos patrimoniais
instituídos oficialmente?
142
Edifício nº 14 : Armazém d e ramas (em silos)
Figura 213 : croqui de refe rência co m destaque ao edifício nº 14. (CdA)
A edificação nº 14 (Figura 213 ) servia de “Garagem” e como “Armazém da Secção África” ,
segundo a planta de 1964. À época, tinha um menor volume do
que o repr esent ado na planta de 1978, em que sua função era
indicada como de “Armazém de ramas (em silos)”.
Apenas o rés do chão do edifício n º 14 está acessív el, pois
a entrada ao primeiro piso situa-se n a área que foi ve ndida para
outros empreendiment os e parece não t er uso n o momento.
Parece ter sido construído de modo que u ma parte s e sobrepunha
ao edifício nº1 3 ( Figura 214 , PdV 1 e 2 ; e Figura 215,
respectivamente, PdV 1 e 2 ). Sua face lon gitudinal, voltada para o rio Ave, liga -se com a parte do
edifício nº 13 à qual se teve acesso.
Figura 215 : PdV 1 e 2 - edifício n º 14. ( FdA)
Do buraco na parede n o edifício nº 13 (Cf. F igura 212) chega -se a dois corredores , o
primeiro leva a uma porta pela qual se pode ver o monumento a Narciso Ferreira, apes ar do mato
Figura 214 : excerto do croqui de
referência com dest aque ao
edifício nº 14. (CdA)
143
que ali cres ce (F igura 214 , PdV 3 ; Figura 216 PdV 3, 3 .1 e 3.2); o segundo corredor pos sui
algumas divisórias em alvenaria e ao fundo possui apenas uma janela (Figura 214, PdV 3; Figura
216 PdV 4).
Figura 216 : PdV 3, 3.1, 3.2, e 4 - edifício nº 14. Conexões ( FdA)
A edificação de nº 14 é a última que se encontra em estado de ruína e abandono. As
outras, a seguir, fo ram ve ndidas an os antes de se fech ar a fábrica e readaptadas a usos
comerciais. Talvez por isso o primeiro piso esteja inacessível, pois se encontra na área daquelas
edificações que pouco lembram que ali funcionou um e spaço de trabalho, destinado à produção
fabril.
A partir daqui o com plexo fa bril foi reu tilizado para outros fi ns e tem-se a nítida impres são
de que
“o mundo seguiu adian te”
para a Sampaio, Fer reira & Cia. O que este estado de abandono
diz sobre sua história, passada e presente?
144
Edifício nº 15 : Preparação de ramas
Figura 217 : croqui de refe rência co m destaque ao edifício nº 15. (CdA)
A edificação nº 15, da “Preparação de ramas” (Figura 217 , Figura 219 ), foi construída
após 1964, de modo que consta apenas na plant a de 1978.
Aparentemente foi demolida de forma controlada, man tendo -se hoje
apenas as paredes exteriores (Figura 218 , PdV 1; Figura 220).
Figura 21 8: ex certo do
croqui de referência
com destaque ao
edifício nº 15. (CdA)
Figura 219 , área o nde se localizava o edifício nº 15 .
(Google E arth)
Figura 220 : P dV 1 - área o nde
se localizava o edi fício nº 15 .
(FdA)
145
Edifício nº 16 : Carpint aria, Armazém de Fazenda , Caldeira
Figura 221 : croqui de refe rência co m destaque ao edifício nº 16. (CdA)
Na planta de 1978 , a edificação nº 16 da “C arpintaria, Armazém de Fazenda,
Caldeira” (Figura 221 ) é u ma da s mais an tigas no sítio. Entretanto, n ão foi em sua tot alidade
construída pela Sampaio, Ferreira & Cia., poi s, originalmente, fez
parte da fábrica de lã m ovida por um moinho pertencent e ao Barão
da Trovisqueira e incorporada ao complexo fabril .
Na plant a de 1964 o
edifício nº 16 e stava dividi do em
duas partes que compunham um
único volume: a “ Caldeira e
Turbina a vapor ” e o “ Armazém e
secção África ”.
Pelo ext erior, não fosse
pela impon ente chaminé (Figur a 222, PdV 1 ; Figura 223) e pelo
local em que se encontra, possiv elmente passaria incógn ito com o
um edifício ind ustrial com mais de 100 an os. Em bora não tenha
sido permitido fotografar i nternamente o edifício, é poss ível ver as
estruturas de pedra gran ítica e alvenaria que sustentam as
paredes, remodelados para atender a novos usos.
Na base da chamin é, lê-se numa pequena placa azulejada:
“CONSTRUCTOR / Joaquim
Cardoso / Sucessor de Lino S Guedes. / Porto viii- 911”
(Figura 222, PdV 2; Figura 224 ).
Figura 222 : excerto do croqui de
referência com dest aque ao
edifício nº 16. (CdA)
Figura 223 : PdV 1 - Chaminé de
1911. (FdA)
146
Figura 224 : PdV 2 - azulejo na base da ch aminé de 1911. ( FdA)
Quem já fez vis itas a outras fábricas e estruturas industriais pode não estranhar o nome
de Lino e de Joaquim Cardoso. Na chaminé da antiga C ompanhia União Fabril, junto à Companhia
de Moagens Harmo nia, no Porto , l ocalizada num co njunt o edificado em ruínas, lê -se no azulejo da
chaminé:
“1888. Lino fez”
(Figura 225) .
Figura 225 : azu lejo n a base da ch aminé da Comp anhia União Fabril, no Po rto. ( FdA)
Dificilmente seria out ro Lino. E certamente é o mesmo Lino a quem o mesmo Joaqui m
Cardoso menciona na chaminé da antiga Central Elétrica da Ribeira, em Viseu, numa inscrição
muito similar à da Sam paio, Ferreira & Cia.:
“ CONSTRUCT OR / Joaquim Cardoso / Suces sor de
Lino S. Guedes / 19-6-1909, PORTO ”
(Figura 226).
Figura 226 : azu lejo n a base da ch aminé da Central Elét rica da Ri beira, em Viseu . (FdA)
147
Edifício nº 17 : Serralharia e létrica, Armazém de Ferragem
Figura 227 : croqui de refe rência co m destaque ao edifício nº 17. (CdA)
A edificação nº 17 (Figura 227) , segundo a planta de 1978, era o espaço da “Ser ralharia
elétrica, Armazém de Ferragem”. Na planta de 1964,
porém, o edifício consta é o de nº13 e estava subdividida
segundo os pisos da edificação: na Cave, o “Armazém
Secção de África”; no r és do chão , o “Armazém de
Fardos”; e n o 1 º an dar, o “A rmazém de limpeza das tel as”
e a “Arrecadação de Acessórios”
Possivelmente, é a área mais acessada pelo
público hoje em dia , por abrigar um m inimercado, à entrada do complexo fabril ( Figura 228 , PdV
1 e 2; e, respectivamente, Figura 229 e Figura 230).
Figura 229 : PdV 1 - edifício nº 17 (fren te). (FdA)
Figura 230 : PdV 1 - edifício nº 17 (fu ndos). ( FdA)
Tal como a edificação anterior, as adaptações pouco fazem lembrar seu cará ter ind ustrial.
É esta edificação que fica no limiar do espaço ocupado para o aban donado.
Figura 228 : excerto do croqui de referência
com destaque ao edifício nº 17. (CdA)
148
Ali, vê-se que o esqueciment o perpassa ambos os espaços: de um lado , por não estar
ocupado e em processo de degradação e abandono; de outro, porque a função at ual e a
requalificação do edifício não fazem qualquer referência à atividade fabril que ali se desenvolvia.
Ali, no limite ent re os dois espaços, parece q ue se está entre duas das cidades invisíveis
de Ítalo Calvino. A primeira, Ma urília, na qual m uitas cida des se sucederam
“no mesmo solo”,
“com o m esmo nome”,
m as qu e nasceram e morreram
“sem se conhecer”,
“incomunicáveis
entre si”
(Calvino, 2003, p. 23). A segunda, Zora, que foi
“ obrigada a permanecer imóvel e
imutável para facilita r a memorização ”
e, assim,
“ definhou, desfez-se e su miu. F oi es quecida pelo
mundo ”
(Calvino, 2003, p. 15).
Haverá outros destinos à Sampaio, Ferreir a & Cia.?
149
Edifício nº 18 : Armazém d e fardos
Figura 231 : croqui de refe rência co m destaque ao edifício nº 18. (CdA)
O edifício nº 18 (Figura 231) , destinado ao “Armazém de
fardos”, em 1978, er a a “Cant ina da Sampaio, Ferre ira & Cia. em
1964.
Juntamente com o minimercad o é um espaço
constantemente fr equentado, sendo utiliz ado como ginásio
poliesportivo ( Figura 232 ; Figura 233 ). En tretanto, h oje está
descaracterizado externa e internamente.
Figura 232 : excerto do croqui de
referência com dest aque ao
edifício nº 18. (CdA)
Figura 233 : PdV 1 - edifício nº 18. (FdA)
150
Edifício nº 19 : Cantina
Figura 23 4: croqui de refe rência com destaque ao edifício nº 19. (CdA)
O edifício nº 19 (Figura 23 4) pare ce ter assumido as funções de Can tina entre os an os de
1964 e 1978. A área oc upada no terreno parece t er s e
mantido a mesma, mas a edificação está bastan te
descaracterizada. Aind a ass im, há resquícios da fo rm a que
poderia ter t ido a estrutura ant erior da s portas ( Figura 235 ,
PdV 1 ; Figura 236). Na área de acesso, o calçament o do piso
está desgastado e as ervas dan inhas começaram a crescer.
Entretanto, à época da s visitas e stava em reforma para
receber um novo destino.
Ao se descer os deg raus em direção à can tina e
refazer os passos de t rabalh adoras e trabalhador es, ouve-se
na imag inação as conversas nas re feições, os sussurros abafados pelo som do rio A ve ao fu ndo ;
vê -se homen s e mulheres cumprir em pequenos r ituais do cot idiano fabril. Experiências e vivências
para além do t rabalho que, com o t empo, se
transformaram e desapareceram, sil enciadas pelo
encerramento da fábrica.
Figura 235 : excerto do croqui de
referência co m destaqu e ao edifício nº
19. (CdA)
Figura 236 : PdV 1 - edifício nº 19. Detalhe dos resquício s
da estrutura ante rior. (FdA)
151
De volta à ent rada da fábrica
O explorador que não retorna, n em manda su as naves de volta pa ra
narrarem a aventur a, não é um explorador; n ão é sen ão um aventu reiro e
seus filhos nascerão no exílio.
(Os despo ssuído s. Ursula K. Le Guin)
A saída do complexo fabri l leva novam ente à en trada da fábrica. Foi somente após
percorrer todos os edifícios que saltou aos olhos a divisão do conjunt o edificado da Sampaio,
Ferreira & C ia. En quanto a área ao norte da portaria encontra -se em processo d e deg radação
contínua, a área mais ao sul sofreu reformas com vistas a reutilizar aquelas edificações para
comércio e serviços (Figura 237 ) .
Embora mantenha no exterior a volumetria básica, as edificaçõ es pouco lembram que ali
funcionou uma indústria t êxtil. Não foss e pela chaminé de 19 11, ter - se -ia a com pleta impress ão
de que sua conexão histórica e espacial com a Sampaio, Fer reira & C ia. foi perdida.
Assim, é somente neste caminho de volta à entrada d a fábrica, depois de ter percorrido
todas as edificações, q ue se dá atenção a um elemento que an tes passara de spercebido : uma
corrente (F igura 2 37; e F igura 238 , li nha vermelha) coloca da pr ecisamente en tre os espaço s
abandonados (Figura 238, em verde) e os espaços reutilizados (Figura 238 , em amarelo).
Figura 237 : corrente que
delimita simbolica mente a
SFC. (FdA)
Figura 238 : divis ão en tre reutilização (amarelo) e abandono (verde ) . (GE )
254
Figura 273 : capa d a Revista In dústria Po rtugues a de
Julho de 1929 (Rollo, 2008, p. 80)
Figura 274 : cartaz da Feira de Amostras de Estoril,
1929. (Anjos, 2013, p. 45 do s Anexo s)
Assinado por P. Ca mpos, o cart az (F igura 274) fora concebido com um fundo azul escuro
e possuía três planos fundamentais: no terceiro plan o havia um quarto de uma ro da dentada
dourada que cont rastava com o fu ndo azul. Em bora a r eferência à ent rada da Feira de A mostras
fosse nítida (Figura 277 ), a roda dentad a do cart az possuía mais dentes do que a qu e compunha
o grande arco que dava acesso ao parque da exposição.
No segundo plano duas figuras dividem o protagonismo: à direita do cartaz, vê - se a metade
superior de um obelisco branco encimado pelo brasão de armas de Portugal , tal com o os da
entrada da Feira de Amostras. Por ém, o brasão repousa por sobre o que parecem ser folhas d e
acanto, que adorn avam as coluna s d e ordem coríntia. Estas folhas, por sua vez, r epousam por
sobre um fu ste liso sem caneluras, que lembra a ordem toscana. À esquer da do cartaz, uma figura
feminina vestida com uma túnica branca, que deixa seu ombro esqu erdo n u, usa uma coroa de
louros por sobre o s cabelos encara colados. Ela tem o seu braço e squerdo ocultad o pelo obelisco
e carrega na sua m ão direita, que está à altura de seu rosto, uma tocha em t om bege. Em sua
face simétrica se destaca a boca vermelha que con trasta com o tom dourado da pele; a fineza dos
traços horizontais que compõem seus olhos e sobrancelhas tran smitem calma e serenidade. Muito
255
comum na icon ografia industrial, a figura feminina pode fazer r eferência à deusa Atena/Minerva
(Alexander, 2016, p p. Cap. 5, parág. 5) do panteão greco-romano, uma vez que ela é comumente
associada à capacidade estratégica, à sabedoria e ao progresso.
Por fim, em primei ro plano, estão os t extos qu e compõem o cart az. Em es tilo tipográfico
que remete ao
art déco
(D' Elboux, 2013), eles dão aos observadores as informações principais
sobre a Fei ra de Amost ras, por sobre o con junto de imagens e fora de seu enquadrament o, embora
alinhado na part e superior c om o topo do obelisco, aparecem em cast anho e vermelho a localidade
e o ano,
“Estoril 192 9”
; exatamente em frente às i magens identificam-se o evento e o organizador
nas cores dourada, vermelha e castanha,
“Feira de Amostras de I ndústria Nacional organizada
pela Associação Industrial Portuguesa”
; abaixo, tam bém fora do enquadrament o das imagens, em
castanho, est ão identificados os meses
“setembro e ou tubro”
.
A correlação dos elementos que compõem o cart az parece buscar estimular o patriotismo
dos que o observam, convidando-os a verem pes soalmente as novidades que promovem o
desenvolvimento e o progresso industrial português .
A consciência da AIP sobre a
“modesta”
produção industrial portuguesa não impedia de
afirmar seu valor, como na solicitação de isenção de e ncarg os fiscais ao s empre sários nacion ais
para viabilizar e estimular sua participação:
“augurando -se uma condigna representação dos
nossos industriais servirá
[a Feira]
simultaneamente à afirmação de que, embora modesto, não é
de todo nulo o valor da nossa produção”
.
107
Assim, a Feira de Amostra s e t rataria de
“ uma verdadeira parada da s atividades n acionais
que, como tal, tem de ser vista e apreciada”
,
108
con figurando-se uma oportunidade para
“admirar
e apreciar tudo o qu e de bo m e de belo a indústria n acional pode produzir ”
.
109
Tratava-se, portanto,
de celebrar o presente, a capacidade inventiva e produtiva industrial por tuguesa.
A Feira de Amostras investia-se, portan to, de um cará ter político e com forte tom patriótico
(Anjos, 2 013, p. 65) que se traduziu precisamente pela exaltação da indústria portuguesa . Ali
estaria
“ efetivamente, represent ado t udo o que a nossa at ividade possui de marcan te e digno de
107
Revista
Indústria Portuguesa
, junho de 1 929, p. 09.
Apud
Anjos, 2013, p. 64
108
FMS. Diário de Lisboa. 04 de outub ro de 1929. P. 02.
109
FMS. Diário de Lisboa. 04 de outub ro de 1929. P. 02.
256
nota. Nele figuram as mais importan tes casas, as que com as suas firmas já consagradas e as
que constituem tentativas lou váveis a acarinhar e a encorajar”
.
110
Desta maneira,
“ uma das
grandes vantagens desta Feira de Amostras ”
seria
“ precisamente a de dem onstrar que entre nós
se produz tão be m, e muitas vezes se produz melhor do que lá fora”
.
111
Além da exa ltação à nação, o carát er político da Feir a de Am ostras fi ca evidente pela
composição da comissão organizadora do evento . Embora a AI P presidisse a Com issão
Organizadora, personagens de vult o na política portu guesa se encont rassem na Comissão de
Honra, presidida pelo Ch efe de Est ado; e na Comissão A dministrativa, pres idida Ministro do
Comércio (Anjos, 2013, pp. 62-63) .
O envolvimen to de figuras de vulto da política portuguesa n o even to se dera já em junho
de 1929 , quando a AIP s olicitou isenção fiscal como man eira de facilitar a participação dos
empresários ( Anjos, 2013, p. 64), a qu em foi preciso
“ demonstrar (...) toda a vantagem que para
eles devia res ultar de uma colaboraç ão ass ídua e carinhosa”
.
112
F oi apenas após
“uma propaganda
saturada e de demonstração real de decidida vantagem, que a cooperação dos industriais se
tornara numerosa, valiosa e ent usiástica”
.
113
À época, não faltaram louvores aos
“dirigentes da Associação Industrial Portuguesa”
que
“tomaram sobre os seus ombros” a realização de um evento que se mostrara u ma “ tão pesada
como honrosa (..) iniciativa”
; sobretudo, porque muitos desacreditaram qu e
“ela pudesse s er
levada a cabo com êxito”
, afinal
“o s céticos não eram em pequeno número e vibravam a n ota
consagrada das dificuldades de ocasião”
.
114
Foi preciso, portanto,
remover dificu ldades de toda a ordem, desde as que se refere m à or ganização de uma
parte artística cuidados a e pos ta de acordo com as circunstâncias especiais em que o
110
FMS. Diário de Lisboa. 04 de outub ro de 1929. P. 02.
111
FMS. Diário de Lisboa. 02 de nov embro de 192 9. P. 02.
112
FMS. Diário de Lisboa. 04 de outub ro de 1929. P. 02.
113
FMS. Diário de Lisboa. 04 de outub ro de 1929. P. 02.
114
FMS. Diário de Lisboa. 04 de outub ro de 1929. P. 02.
257
certame era preparado, até às que implicam a colabo ração de entidades oficiais. E tudo
se removeu .
115
O resultado deste esforço teria sido que
“a comissão organizadora conseguiu , por fim, ver
reunido a sua volta, um co njunt o de pessoas que são a clara indicação da empatia com que os
poderes públicos encaram a marcha desta iniciativa”
.
116
Portanto, a expectativa era de que após a superação das
“ dificuldades e con tratempos
que, porventura, surgiram no seu caminho”
os integrantes da com issão organizadora fossem
“suficientemente compensados pela import ância e sign ificado que”
se haveria
“de re ves tir o ato
solene”
da inauguração da Fei ra de Amostras. Assim,
“em nome até do interesse geral”
era
necessário
“augurar e desejar para essa instituição [AIP] o concurso e o reconhecimento de um
público que sa iba corresponder int egralmente aos sacrifícios que, pa ra sua satisfação, foram
feitos”
.
117
O at o inaugural, caracterizado como
“de grande importância”
e de
“grande brilha ntismo”
,
culminou com a abertura da Feira de Amostras aos visitant es, que deram uma
“volta (...) pelo
Parque do Estoril, e que termin ou muito t arde”
dei xando
“a todo s deixou m agnificamente
impressionados”
.
118
Porém, apesar de a Feira ter sido aberta ao público, o ato inaugural é simbólic o
na sua con figuração como um at o político com forte demarcação social evidenciada pela
“pela
natureza e qualidade das pessoas que s e associaram a tão importante acontecimento, como pe lo
ambiente em que este decorreu ”
.
119
Participaram da inauguração
o Chefe do Estado e o chefe do Governo, diverso s ministros, categorias do s elementos
do funcion alismo, representantes das coletividades econô micas, da imprensa e muitos
expositores (...) [e] (...) antes da festa oficial da abertura d a Feira foi o almoço oferecido
aos expo sitores, ao qu al assistiram cerca de duzen tos con vivas e que serviu de pretexto
a discursos de interess e e significado .
120
115
FMS. Diário de Lisboa. 04 de outub ro de 1929. P. 02.
116
FMS. Diário de Lisboa. 04 de outub ro de 1929. P. 02.
117
FMS. Diário de Lisboa. 04 de outub ro de 1929. P. 02.
118
FMS. Diário de Lisboa. 07 de outub ro de 1929. P. 02.
119
FMS. Diário de Lisboa. 07 de outub ro de 1929. P. 02.
120
FMS. Diário de Lisboa. 07 de outub ro de 1929. P. 02.
258
Destacaram-se os discurso s dos represent ante s da indús tria, o pres idente da AIP José
Maria Alvarez e o empres ário Fausto de Figueir edo; e das autoridades pol íticas, um representante
do ministro do Comércio,
121
do presidente do Ministério
122
e do Presidente da República.
123
Enquanto nas falas das aut oridades pol íticas se deu destaque à associação do governo
“a
tão significativa manifestação de atividade”
124
e do seu decisivo
“apoio e proteção à Feira de
Amostras”
;
125
os repres entan tes da indústria puseram
“em relevo tudo o que dele [‘do certam e’ ]
pode res ultar de benéfico”
126
e que
“iniciativas (...) com o esta, visam o progresso e o futuro do
país”
.
127
Portanto, fica evident e a p ercepção de que a Feira de Amostras n ão apenas se rvir ia à
celebração das capacidades da indústria portuguesa daquele momen to presente, mas também de
suas potencialidades futur as :
“pode -se assegurar que a iniciativa da Associação Industrial
Portuguesa se destina a ser correspondi da por todos aqueles a quem interessa o futuro e a
prosperidade nacionais”
.
128
Assim, a Feira de A mostras se constituía aos olhos de seus
contemporâneos
“a prova eloquente de que as n ossas possibilidades devem considerar -se
imensas e de qu e se ap resentam ju stificadas e leg ítimas as mais o usadas esperan ças postas n o
nosso futuro industrial”
.
129
Desde o advento da industrialização, os eventos inauguradores de máquinas, espaços e
edificações sempre foram profundamente marcados por pe rspectivas futuras positivas e
progressistas sobre o desen volvimento regional ou n acional (Pozzer, 2015). Conf iguravam-se ao
mesmo tempo rituais de autocongratulação e de projeção de um futuro promissor.
Entretanto, apesar de haver um disc urso de que tal des envolvimento seria compartilhado
pela nação como um todo, os at os inaugurais sempre foram lembrados pela participação quase
121
João Antunes Gui marães foi m inistro do c omércio de Po rtugal entre 08 d e julho de 1929 e 05 de julho de 1932.
122
O Primeiro-Minist ro de Portugal entre 9 de julho de 1929 e 16 de outubro de 1929 foi Artur Ivens Ferraz.
123
Supõe-se Ant ónio Óscar de Fra goso Car mona que presi diu Portugal entre 15 de abril de 1928 e 11 de abril de 193 3.
124
FMS. Diário de Lisboa. 07 de outub ro de 1929. P. 02. Fala do representante do minist ro do Comércio.
125
FMS. Diário de Lisboa. 07 de outub ro de 1929. P. 02. Fala do Primeiro-Ministro e do Presidente da República.
126
FMS. Diário de Lisboa. 07 de outub ro de 1929. P. 02. Fala do presidente da AIP Jos é Maria Alvarez.
127
FMS. Diário de Lisboa. 07 de outub ro de 1929. P. 02. Fala do emp resário Faust o de Figueire do.
128
FMS. Diário de Lisboa. 07 de outub ro de 1929. P. 02.
129
FMS. Diário de Lisboa. 07 de outub ro de 1929. P. 02.
259
exclusiva da elite local e/ou nacional, evidenciando a demarcação política, econ ômica e social que
simbolizavam (Pozzer, 2015) .
Desta forma, embora a Feira de Am ostras pudesse masca rar as diferença s e as
desigualdades de poder na sociedade, a celebração em torno de um ideal de progresso comum
acabava por servir precisamen te à manutenção destas desigualdades . Portanto, o alcance social
da Feira de Amostras e a
“l arga ades ão popular”
(Santos, 1994, p. 69) que teve o evento servi am
também como forma de realçar as posições sociais dos grupos envolvidos.
É significativo n esse sentido que a Feira tenh a ocorrido
“no reduto aristocrático e mundano
de Estoril”
(Santos, 1994, p. 69), pois a localidade fora escolhida com o sede por duas razões
fundamentais: em primeiro lugar pe la
“urbanidade”
lo cal, pois o ramal ferroviár io de Cascais já
estava devidamente el etrificado e p ela
“modernidade”
da arquitetura
art déco
do Cais do Sodré;
em segundo lugar, pela
“aflu ência”
ao local, pois, conforme explicou à época a A IP,
130
por ali
passariam via jantes, inclusive sul -americanos, rumo à s exposições e spanholas de Barcelona e
Sevilha (Anjos, 2013, p. 62). Nesse s entido, a vi sibilida de qu e o evento daria não seria apenas às
empresas participantes, mas dos seus pr óprios valores e símbolos.
O
Catálogo O ficial da Feira de Amostras
131
realça que a organização optou por um
“Agrupamento dos Expositores ”
por
“ secções ”
:
• Secção I –
Ourivesaria e Joalharia
, com 03 expositores;
• Secção II –
Tecidos e Vestuário
, com 14 expositores, incluindo -se a Sampaio,
Ferreira & Cia., sob a inscrição nº 33;
• Secção III –
Artes gráficas, objeto s de escritório e pape laria
, com 05 exposi tores ;
• Secção IV –
Vidros, loiças, utilidades e mobiliári o
, com 15 expositores;
• Secção V –
Alimentação
, com 18 expos itores;
• Secção VI –
Química e Minas
, com 16 expositores;
• Secção VII –
Cortiças, Madeiras, Materiais de construção
, com 14 expositores;
• Secção VIII –
Metalurgia, aparelhagem elétrica
, com 10 expos itores;
• Secção IX –
Engenharia e arq uitetura
, com 05 expositores;
130
Revista
Indústria Portuguesa,
junho 1929 , p.46. Apud Anjos, 20 13, p. 62.
131
FCO . Catálogo Oficial da Feira d e Amostras da Indústria Nacional realizada pela Asso ciação Industrial P ortuguesa no Parque do Estoril. Outono
de 1929.
260
• Secção X –
Indústrias diversas ( borracha, peles etc.)
, com 09 expositores.
A diversidade produtiva da indústria portuguesa não se evidenc iava apenas pelas secções,
mas também pela participação de algumas companhias portuguesas em mais de uma secção.
Assim, embora houvesse 98 empre sas inscritas na Feira de Amostras, o t otal de
expositores por secção era de 11 1:
132
• Instituto Superior Técnico (inscrição nº 8) participou da s secções IX e X;
• Fábrica Portugal - H. Meira, Ltda. (inscrição nº 19) pa rticipou das secçõ es IV e
VIII;
• Empresa Electro-Cerâmica (inscrição nº 25) participou das secções IV e VIII;
• Empresa de João Ferreira Gomes (inscrição nº 2 9) participou das secçõe s IV e
VII;
• Empresa d’Encerados e Oleados (inscrição nº 30) participou das secções IV e VII;
• Companhia I ndustrial e Mineira de Portugal (inscrição n º 36) participou das
secções VI e VII;
• Laboratório Sanitas (inscrição nº 51) participou das secções VI e X
• Fábrica de Cerâmica Constância, Ltda. (inscrição nº 71) participou das secções
IV e VII;
• Companhia Industrial Portuguesa (inscrição n º 77) part icipou das secções IV , VI
e VII;
133
• Fábrica de Loiça de Sacavem (inscrição nº 83) participou das secções IV e VII;
• Empresa de Carlos de Lima (inscrição nº 86) participou das secções IV e VIII;
• Companhia Decoradora Predial (inscrição nº 96) participou das secções V e VII
Os dados que constavam na Lis ta de Expositores eram o nome da empresa, a localidade,
o telefone, o telegrama, a su a especialidade e a secção e os estandes que ocupari am na Feira de
Amostras.
132
No cas o das e mpresas que participa ram em mais de u ma secção , há uma disparid ade na s informações providas pel o Catálogo no “Agrupam ento
dos Expositores, po r secçõ es” e na “Lista de Expositores”, pois nesta nã o se mostr am todas as s ecções de que est es exposit ore s participara m.
133
A referência à Co mpanhia Indust rial Port uguesa na Secçã o VI aparece repet ida.
261
No caso da Sampaio, Ferreira & Cia., inscrita sob o nº 33, con stava que era esp ecializada
em
“Riscados, Cotins, Cobertores”
e indicavam que ela teria três estandes, apesar de participar
de apenas uma secção (Figura 275 ).
Figura 275 : Inscrição da SFC . "C atálogo Oficial da Feir a de A mostras de Estoril" (1929). (FCO)
Ainda que haja disparidades nas informações sobre o número de estandes no
Catálogo
,
ao que tudo indica, d as 98 empresas q ue estavam inscritas n a Feira de Amostras , a Sampaio,
Ferreira & Cia. era uma das duas que possuíam três estandes participando de apenas uma
secção,
134
sendo que a s outras com três ou mais es tandes participaram de mais de uma secção.
135
O croqui com a pers pectiva do parque onde foi instalada a Fei ra, que consta no
Catálogo
,
mostra que a feira foi disposta n o sent ido sul – norte; da en trada da Feira (com os obeliscos e a
roda dentada) próxima à orla m arítima, ao C assino de Est oril (à época em construção) ( F igura
276).
Figura 276 : “ Pers pectiva do Parque de Es toril onde foi in stalada a Feira” (1929). (FCO)
No lado opo sto da ent rada, para encobrir a obra do Cassino de Estoril,
“ as Companhias
Reunidas de Gás e Eletricid ade montaram dois pilares para suportar placar es lumi nosos ”
(Anjos,
2013, p. 63) com um
“ecrã colossal de 5m x6m”
(Sant os, 1994, p. 66) no qual se projetaram
filmes,
“ películas comerciai s ”
(An jos, 2013, p. 63) e
“ documentá rios de propaganda relat ivos à
134
A outra era a empresa José Olaio & Compa nhia, Filho, insc rita sob o nº 89.
135
A Fábrica Portugal - H. Meira, Ltda. ( insc rição nº 19) parece que possuía 3 est andes apenas na secção IV e ao menos um est ande na secção
VIII; e a Com panhia Industrial Portuguesa (inscriçã o nº 77) possuía dois estandes n a secções IV e VI e, ao menos, u m estand e na secção VII.
262
vida industrial do país, q ue alternavam com filmes cômicos e dram áticos, convertendo o local num
ver dade iro ‘ cinematógrafo ao ar livre ’”
(Santos, 1994, p. 66).
136
O m onumental arco de entrada (Figura 27 7) parece ter sido inspirado no cart az de P.
Campos e fora elaborado n a forma de uma roda dent ada com dois obeliscos ador nad os, n a su a
parte superi or, com o brasão de armas de Portugal. As metad es inferiores dos obeliscos foram
“apoiadas em pirâmides de coradas com linhas irradian tes”
, cujo estilo
art déco
“harmonizava -se
com o monumentalismo dos obelis cos”
(San tos, 1994, p. 65) .
Figura 277 : c apa do "Catálogo Oficial da Fei ra de A mostras de Est oril" (1929 ). (FCO)
Segundo Santos,
Augusto Pina foi o primeiro a realizar publicamente a propo sta arquitetural de um
modernismo do mesticado e mo numentalist a que, no escapando ao olhar o ficial, teria
vida longa asse gurada em pedra e ca l no quadro p osterior de uma invo lução plástica do
modernismo ar quitetônico nacional.
(Santos, 1994 , p. 65)
136
Revista
Indústria Portuguesa
, Setembro 1929
Apud
A njos, 2013, p. 63; e Revista
Indústria Portuguesa
, O utubro de 1929,
Apud
Santos, 1994,
p. 66.
263
Os estandes de exposição foram dispostos em q uatro fileiras ao longo da s palmeiras do
Parque de Estoril e na área em frente ao Cass ino. Isso permitiu
“ dedicar a zona central do re cinto
a passeios e a manifestações lú dicas paralelas ”
(Anjos, 2013, p. 63).
Para Santos, as fileiras de estandes
“ funcionavam como uma ‘ guarda avança da dos
pavilhões da feira ’ , concentrados no terraço superior fronteiro ao Ca s sino em ‘ t rês filas
sobrepostas e a toda a largura ’ , rematadas por dois pares de ‘ torre õe s artísticos ’”
(Santos, 199 4,
p. 65), conforme se pode v erificar pela planta da Feira de Amostras que consta em seu
Catálogo
(Figura 278 ).
Figura 278 : plant a dos es tandes da Feira de Amostras de Estoril (1929 ). (FCO)
Assim, este
“ jogo de ortogon ais ”
e a
“uniformização arquitetural das duas alas de
pavilhões centrais, concebidos como ‘um único e grande pavi lhão, dividi do em numerosos stands
(...) absol utament e iguais’”
; evidenciavam
“ um certo racionalismo ”
que se adequava ao evento
(Santos, 1994, p. 65).
A estética
art déco
caracteriz ou as estruturas edificadas (Sant os, 1994, p. 66) que tiveram
como prioridade a funcionalidade, o custo e a velocidade de con strução , pois
nã o se tra tav am de ‘ constru çõ es art ís ticas, de difícil arquitetura e cus toso fabr ico ’ , nã o
só porque a escasse z de t empo não o perm itira como também, par a fa cili tar a inscri çã o
dos expos itores, a Asso cia çã o Indu strial Po rtuguesa tom ara a iniciativa da sua
270
representava m, para a bur guesia , u ma oportun idade ím par de difu ndir amplamente o
quanto a civilização europeia podia contribuir para o aperfeiço amento da vi da hu mana e
para a introdução de ‘valo res universais’ como o trabalho, a jus tiça, a paz e a moral. E,
principalmente, de mon stravam o quanto ainda po deria ser feito, via técnica e inventos,
para extirpar do mundo a barbárie e qualquer princípio contrário à civi lização. (Castro,
1993, pp. 17- 18)
Não por acaso, con forme evidencia Hardm an,
“os catálogos e relatórios desses eventos
iluminam de forma ímpar vários aspectos do ot imismo progressista que impregn ava a atmosfera
da sociedade bu rguesa em formação”
(Hardman, 1988, p. 49). As expo sições podem ser
analisadas como repres entações da t entativa de e xpandir os valores dessa mes ma burguesia
industrial por meio do poderio econômico e político, fortalecidos pela cren ça de que seriam os
mensageiros do progress o e da civil ização, sob o manto do discurso de moderni zação que a
industrialização con tinha em si,
“europocentrismo [sic.], garbosamente fant asiado de
cosmopolitismo liberal e altruís ta”
(Hardman, 1988, p. 50) .
Portanto, as exposições, com o
“símbolos produzidos p ela ideologia do progresso”, seriam
uma forma de “penetração e a consolidação”
dessa mesma ideologia
“ao nível das mentalidad es ”
(Neves, 1986, p. 1 9). Entretan to, são, antes de qualqu er cois a,
“espaços da dramatização do que
se espera do real, con stroem a ilu são do progresso co mo realidade t angível para aqueles q ue as
visitam ou delas têm notícias através da imprensa”
(Neves, 1986, p. 17).
Os es paços em que se realizavam estas exposiçõe s tornar am -se verdadeiros templ os da
sociedade indus trial,
“lugares de peregrinações ao fetiche mercadoria”
(Benjami n, 2009, p. 45) ,
nas quais eram realizados
“giga ntescos rituais de autocongratulação”
(Hobs bawm, 1 996, pp. 57-
58) , com
“sua própria liturgia, seu ritual e seus símbolos”
(Neves, 1986, p. 25)
Rituais e símbolos, uma vez encenados, ser v em à atualização e renovação periódica dos
mitos das sociedades a que perten ciam (Cam pbell, 1990; Eliade, 1972). En tretanto, ao contrário
das
“sociedades arcaica s”
, para as quais o decorrer do tempo implica um distanciamento
progressivo do princípio e, portanto, na perda da perfe ição inicial a ser recuperada pelos rituais
(Eliade, 1972, pp. 3 2-34); nas sociedades que passaram por process os de industrialização, às
quais pertenciam os templos das exposições industriais, ess es r ituais atualizavam - nas acerca do
próprio progre sso q ue adveio com o transcorrer do tempo: eram as novas invenções , eram os
novos espaços e lu gares, os novos m odos de ag ir, as novas formas de pensar, as n ovas formas
271
de viver. Os event os das exposições eram ri tuais que at ualizavam os mitos da civiliz ação e do
progresso contínuo como resu ltados da raz ão e do trabalho e se reproduziram por todos os locais
aonde a indústria chegou, em diferentes escalas e formatos.
Se , nas sociedades arcaicas, h avia a crença de que os rituais beneficiariam a comunidade
inteira; nas sociedades indus trializadas, embora os rit uais fossem controlados pela burguesia
industrial, eles visavam b eneficiar a
“nação”
e eram acessados t ambém por operários e
trabalhadores:
“era preciso que estes se reconhecessem nos produtos saídos de suas jo rnadas
de trabalho e que fi cassem na obra da civil ização e do progresso m undiais”
(Neves, 1986, p. 28).
No espaço das construções das exposições, de modo geral, a
“emoção mecânica
encontrava o seu melhor cenário. Sonho e cotidiano h armonizavam -se segundo os art ifícios da
técnica”
, tor nando
“visível e táct il o conceito de merc ad o mundial”.
Nu trindo a fé n a unidade
humana, esses
“rituais esplendorosos de confraternização do mercado mundial, o oti mismo
esclarecido e triunfan te da sociedade burguesa joga ainda com a crença em projetos de paz
factíveis entre as n ações”
(Hardman, 1988, pp. 56-61).
142
Mesmo as
“mani festações de
colonialismo”
(Plum, 19 79, p. 60) eram mostradas como benéficas às colônias e exploravam
“ideias de com o levar a civilização a outros povos e aproveitar economicam ente os recursos de
lugares long ínquos”
(Matos P. F., 20 06, p. 163). A s exposições deveriam se constituir, port anto,
“sob todos os pontos de vista numa a rena pacífica”
(Neves , 1986, p. 28) .
Com isso, porém, a celebração do progresso, ao reunir
“milhares de visitan tes com
formações e objetivos divers ificados”
(Mat os & Malve iro, 2015, p. 26 2), também most rava-se
“capaz de minimizar, ou mesmo anular, nas consciências de muitos con temporâneos, a dura
realidade que quase sempr e se contrapunha a ela”
(Castro, 1993, p. 02). Para H ardman , esse é
um aspecto marcante da s exposições,
“a exhibitio bur guesa”
foi capaz de induzir a sociedade a
“pináculos da falsa euforia”
e, ao mesmo t empo em que se con stituíam os espelhos
“da s ociedade
surgida nos bastidores da i ndústria m oderna”
, configuraram -se também
“seu delí rio m ais bem
arquitetado”
(Hardman, 1988, pp. 51-56).
142
Vale not ar que foram organizadas t ambém as cha madas “expos ições colonia is”, cujo objetivo era divulgar os i mpérios, seus recu r sos nat urais e
humanos (Matos P. F., 2006, p. 162) . Estas também, “no gera l, pr ocurava-s e mostrar o s be nefícios do colonialis mo e do im perialismo,
considerados es senciais para o p rogresso e para a civilizaç ão” (Ribeiro, 2014, p. 0 5) .
272
Tal como se verificou em estudo sobre as estações ferroviárias do século XIX (Pozzer,
2007, p. 135), outro templo da sociedade tecn ológica (Lessa, 1993; Bem, 1998), as
“catedrais
do século XIX”
(Hardman, 1988, p. 37); as exposições industriais ao também receberem pe ssoas
de t odas as condições sociais poderiam ser con sidera das
“monumentos para as relações sociais
do mundo moderno”
(Graham, 1973, p. 124). Ent retanto, também como as estações, elas
poderiam se configurar co mo
“palcos dilet os nas ar tes modernas de simular”
e minim izar
diferenças sociais apen as
“na aparência, realçan do - as, porém, efetivamente”
(Hardman, 1988,
pp. 37-38).
Isso porqu e as exposições podem ser analisadas também como uma tentativa su til de
imposição do poder de gove rnos e empresários, de s eu s valores e for mas de pensar, à sociedade;
sem que se precisasse recorrer à força ou vi olência, conferi ndo -lhes legitimidade e credibili dade.
(Neves, 1986)
Para Neves, a imprensa (m as pode-se acrescent ar também a publicidade) multiplicou
“os
efeitos destas verdadeiras procissões secularizadas”
e at raiu
“a opinião pública p or ocasião das
premiações. O s vencedores, como heróis, recebem me dalhas e dipl omas”
(Neves, 1986, p. 25) ,
tal como a Sampaio, Ferreira & Cia. recebeu na Feira de Amostras, em 1929.
Entretanto, a medalh a de ouro n a Feira de Amostras de 1929 é mais do que um indício
do su cesso da fábrica na dinâmica econômica da prod ução têxtil e industrial. Era a evidência da
capacidade da Sa mpaio, Ferreira & C ia. de tornar pública sua competência técnica, sua
sofisticação e su as con tribuições para o progresso da nação portuguesa . S e u estande e seus
produtos eram os símbolos de seus valo res e da identidade fabril que criara para si e foram
incorporados à sua própria bandeira pela inserção de el ement os simbólicos da indústria . Não fo ra,
portanto, apenas capacidade produtiva da fábri ca que valeu à Sampaio, Ferre ira & C ia. a medalha
de ouro, mas sua competência em mostrar publica mente que estava inserida n a dinâmica
simbólica da industrialização.
273
Parte II I
275
Capítulo 1. Trajetória do conjunto edi ficado (1934-1945) : a fábrica após a morte de
Narciso Ferreira e o alin hamento com o Estado Novo.
1.1. 1934-1943 : ampliações do conjunto (monumento a Narciso Ferreira e edificações nº 2, 3, 7,
8 e 12).
Figura 282 : croqui de referên cia so bre a o rganização do co mplexo fabril para 1934 -194 3 . (Cd A)
A morte de Narciso Ferreira , em 23 de m arço de 1933 , fez com q ue a Sa mpaio, Ferreira
& C ia. registrasse a importância de seu fundador no próprio conjunto fabril edificado, pois, à
entrada d a fábrica, foi construído um monumento em s ua homenagem, ao que se sabe, em 1 934
(Borges, 2012, p. 179). O recorte historiográfico para este período vai , portan to, da con strução
deste monumento à criação da Fundação Narciso Fer re ira em 1945 (Figura 282 ).
Uma das bases documentais para registrar as transformaçõ es n o c on junto edificado
provém do Centro Português de Fotografia, onde es tá preservado o acervo da Casa Fotográfica de
Domingos Alvão, que con ta com um total de 40 fot ografias sobre a Sampaio, F erreira & Cia.
Entretanto, os registros do CPF não indicam com preci são os anos das fotografias e apenas
assinalam que foram tiradas entre 1920 e 1950 , cobri ndo um período de 30 anos.
Desta forma para se levantar hipóteses o mais precis as possíveis sobre a s datas das
imagens foi preciso analisá-las a partir do con fronto com informações de outros document os
provenientes de diferentes arquiv os e da análise minuciosa da composição fotográfica para
identificar a trajet ória co nstrutiva do conjunto fabril. Esta análise en volveu, portan to, a busca por
outros elementos estruturais , da própria fábrica ou do entor no (como o Teatro ou o Mercado
Narciso Ferreira), sobre os quais as datas estão registr adas com precisão e que, pel a presença ou
276
ausência nas image ns, poderiam auxi liar n a restrição do recorte histórico a qu e pertencem as
fotografias.
Desse conjunto de fotografias, dois pares foram t irados da margem direita do rio Ave e
formam paisagens-sequ ência da fábri ca em perí odos di stintos . O primeiro par (Figura 283 ; Figur a
284 ) t em sua datação sugerida a partir do ano de inauguração do monumento a Narciso Ferreira,
presente na imagem, de modo que ela é de no mínimo 1934 ; e d a inauguração do Teatro Narcis o
Ferreira (1944), ausente na fotografia , o que faz com que ela seja de, no máximo, 1943.
Figura 283 : SPC entre 1934 e 19 43 (no rte). (CPF -
ALV- 004424)
Figura 284 : SPC en tre 1934 e 19 43 (su l). (CPF - ALV-
004416)
Figura 285 : paisa gem-sequên cia da SFC entre 1934 a 1 943. (CPF - ALV-004424 e ALV - 004416)
À direita na paisagem-sequência (Figura 285 ) destaca m-se duas edificações, a antiga
fábrica do Barão da Trovisqueira ( Figura 286 , destacado em amarelo), agora incorporado
totalmente ao espaço da Sampaio, Ferreira & Cia., e um a edificação que viria a se t ornar sede dos
Bombeiros V oluntários (Figura 2 86, destaca do em verde), embora, nesse período, não haja
indicação do uso que se dava àquela edificação.
277
Figura 286 : enquadr amento da F igura 284 (Ed. n º 16) .
(CPF - AL V- 004416)
Destaque ao edifício nº 16 e à edificação no local da
sede dos Bombeiros V olun tários de Riba d’Ave.
A identificação do edifício q ue viria a se t ornar sede dos Bombeiros V oluntários, ao menos
no qu e se refe re à implantação no local em qu e está, foi pos sível pela análise de fotog rafias
posteriores. A primeira fotografia em que el e aparece, poss ivelmente, é datada entr e 1944 e 1947
(Figura 2 87, destacada em verde). Isso porque, n a imagem o Teatro Narcis o Ferreira, de 1944, já
aparece, mas o Mercado Narciso Ferreira, de 1947, ai nda nã o. À esqu erd a da fotografia mostra-
se uma construção que pode ser a edificação que aparece na fot ografia do CPF.
Figura 287 : Riba d' Ave, possivelmente entre 1944 e
1947. (Machado & Rebelo, 1947 Ap ud Cou to, Correia,
& Matos, 2010 /2011, p. 49 1)
A segunda fotografia é um postal que data de 1949, no mínimo, na qual aparecem as
chaminés da edificação que vi ria a ser dos bombeiros (Figura 288 , de stacado em verde) por detrás
da edificação do Mercado ( 1947). À esquerda da fot ografia, vê -se a edificaçã o da a nt iga fábrica do
Barão da Trovisqueira e a cham iné de 1911 (Figura 288, destacado em amarelo). Ao fu ndo, vê-se
o Teatro Narciso Ferreira e a edificação que viria a ser a Estalagem de São Pedro (que não aparece
na Figura 287), de 1949, r azão pela qual a fotog rafia é, pelo menos , desse an o. Nenh uma das
outras edificações aparecem, nem o Café de Riba d'Ave, nem os CTT.
278
Figura 288 : Riba d'Ave em, no mínimo, 1949 . (APA)
Já o lado esquerdo da paisagem-sequência ent re 1934 e 1943 ( Figura 285) apr esenta
mais elementos da Sampaio, Ferreira & Cia. e mostra algumas alterações no conju nto fabril.
A começar pelas edificações sobre as quais a fotografia pe rmite ter maior gr au de
probabilidade de que as mudanças aconteceram, confirma -se a presença da edificação (Figura
289 , de stacado em roxo) que apareceu pela primeira vez na fotografia de 1917 (Cf. Figura 271 ),
construída ao lado da edificação nº 4. Ao que tudo indica, foi construído o edifício nº 3, da creche
(Figura 289 , destacado em amarelo); e o edifício nº 2 parece t er sido e stendido em direção ao
corredor central do conjunto, ganhando um novo corpo edificado ( Figur a 28 9, destacado em
verde ).
Figura 289 : enqu adramento da F igura 283 (E d. nº 1, 2, 3 e 4) (CPF - ALV - 004424)
Destaque aos edifícios n º 1 (vermelho ), 2 (v erde), 3 (amarelo) e 4 (roxo ).
Como não há, porém, nenhuma pl ant a dessas alterações, registre-se q ue a hipótese sobre
a extensão do edifício nº 2 tem como referência as outras edificações q ue o circundam, como o
edifício nº 3 e o escritório ( nº 1 ). O escritório passou p or uma reforma que parece se harmon izar
com a estética do monume nto a Narciso Ferreir a: construiu - se uma extensão onde se colocou o
letreiro com o nom e da fábrica, mudou-se os t elhados de duas águas e construiu- se uma
platibanda na edificação.
279
Hou ve também significativas mudanças no conjunto de edifícios n º 12 (hoje identificad os
como espaço das engomadeiras , das estamparias e da tintura ria) e, aparen temente, a construção
do segundo açude, ainda n uma versão aparentemente menor do que veio a ser ( Figura 290,
destacado em azul).
Figura 290 : enqu adramento da F igura 283 (Ed. n º 10 e 12) . (CPF - ALV- 004424)
Destaque aos edifícios n º 10 (ao fundo ) e 12 (de stacado) e do segundo açude na foto grafia da SFC en tre 1934 e
1943 (no rte).
Foi construído um segundo edifício, ao qu e tudo indica idêntico a um já existente, v oltado
para o corredor central do c omplexo fabril (Figura 290 , destaca do em verde) e um anexo ao edifício
da tinturari a que havia sido con struído en tre 190 0 e 1913 ( Figura 290 , destacado em am arelo).
Acrescentou-se também um novo edifício à tinturaria (edificação nº 12), construído por sobre o
canal (Figura 290 , destaca do em vermelho) que se guiu o mesmo padrão e stabelecido pela
alteração entre 1900 e 19 13, man tendo -se o telhado do tipo lant ernim (Figura 290 , destacado
pela linha preta pontilhada).
No recorte da fot ografia q ue mostra o ext remo-nort e do com plexo fabril da Sa mpaio,
Ferreira & Cia., o edifício nº 9 (Figur a 29 1, destaca do em amarelo) parece ter tido o pé-direito
ampliado, pois em comparação com as fotografias anteriores o nível do topo do telhad o parece
estar mais alto do que o telhado da edificação nº 10 da fiação e tecelagem.
286
O fim da década de 1930, em específico o an o de 1939 , porém, pode ser con siderado
como o
“fim do primeiro ciclo de transformação do se ctor industrial”
d a Bacia do A ve devido às
“consequências e às alterações provocadas pelo surgimen t o do segundo conflito mundial”
(Cordeiro, 2001, pp. 69- 70) , especialmente n o que se r efere ao setor de energia e m Portugal, pois
a II Guer ra não apenas p rovocou, em parte,
“irregularidades no fornecimento de energia”
originadas da
“escassez de combustíveis, em parte pe la insuficiência da potên cia inst alada nas
centrais eléctricas do norte do país”
(Cordeiro, 2001, p. 26).
Para Cordeiro, a própria Lei dos Aproveitament os Hidráulicos de 1926 embora tenha
lançado
“as bases da opção en ergética que o país deveria seguir”
, a
“carência de meios
financeiros”
não permitiu co ncretizar de modo satisfatóri o o aproveitamento hidroelétrico; situação
que veio s e alterar com a Lei da Eletrificação Nacio nal ( n º 2002 de 2 6 de dezembro de 194 4) que
estabeleceu
“as bases da produção, t ransporte e distribuição da en ergia eléctrica”
em Port ugal
(Costa F. , 2007, p. 558) e permitiu a
“coparticipação do Estado no seu financiamento”
(Cordeiro,
2001, p. 29)
Com o objetivo de privilegiar a energia elétrica de origem hidráulica como a base para a
eletrificação em Por tugal, a lei deixava as centrais térm icas em segundo plano, num papel de
suporte à energia hidroelétrica (Costa F. , 2007, p. 5 58; C ordeiro, 2001, p. 27) . Ainda assim,
conforme recorda Cordeiro,
“no âmbito de uma política de incentivo ao co nsumo dos carvões
nacion ais, agora preconizada pelo Estado Novo como uma manifestação de patriotismo”
(Cordeiro,
2001, p. 45), desde 1926, por meio do decreto 11.852, de 3 de Julho daquele ano, estimulou-se
“o es tudo dos carvões nacionais”
e tomaram-se uma s érie de
“medidas legislativas”
com vistas à
sua melhor utiliz ação (Cordeiro, 20 01, p. 43) . Nesse sentido, a própr ia Bacia do A ve s e destacou,
pois, conforme um dos estudos desenvolvidos em 19 33 ali encontravam -se bons exemplos de
indústrias que utilizavam o carvão nacion al
“conforme as condições de exploraçã o do respectivo
estabelecimento industrial e conforme as condições de trabalho das respectivas caldeir as”
.
149
Ao se confront ar as det erminações governamentais do Estado N ovo s obre a pol ítica
energética port uguesa entre as déca das de 1 930 e 1940 e a estrutura pr odutiva instalada n a
Bacia do Ave, verifica-se que esta região, pelas particularidades históricas de sua industrialização,
149
J. A. Lopes Galvã o (1933 ), "Força motriz: elemento s naciona is de produção e distri buição de energia e seu embaratecim ento", 1º Congresso da
Indústria Portu guesa. Lisboa, p. 14.
Apud
Cordeiro, 2001, p. 45.
287
estava desde o princípio alinh ada com as diretrizes energéticas impostas pelo Estado Novo, uma
vez que o uso dos recursos h ídricos pa ra gerar energia elétrica es tava n a base do seu
desenvolvimento ind ustrial. Essa característica se estende à própria Sampaio, Ferreira & Cia., pois
ela tinha na h idroeletricidade sua principal mat riz en ergética e recorri a ao carvão para aliment ar
as turbinas a vapor apenas nos períodos de estiagem.
Entretanto, para o desenrol ar deste processo de inc rement o energético , Cordeiro verifica
que foi necess ário surgir, ain da na década de 1930,
uma no va orien tação económico -in dustrial que rompe (ain da que dentro dos limites
impostos p ela p ró p ria polí tica do Estado No vo) c om ‘a t eoria do desen volvimento
harmónico e prudente que iria entrar em crise após o choque do segundo con flit o
mundial ter rompido a precári a es tabilidade glo bal do s istema’ .
150
(Cordeiro, 2001, p. 29)
Talvez por esta razão, Costa afirme que, apes ar de uma intervenção protecionista ter sido
iniciada em 1926, a década seguinte, até 1936, continuou marcad a pelas pr incipais
“características do primeiro ciclo de desenvolvimen to”
industrial,
“a iniciativa local e a não
regulamentação dos merca dos”,
pois se mant eve o
“quadro jurí dico da lei nº 5 785, de 1919, que
instaura uma política de facilitar a outorga de concessões”
(Costa F. , 2007, p. 556).
Para Costa, o período entre 1926 e a II Gu erra é caract erizado pela ingerência estatal
“ao
nível da evolução do sector eléctrico português pela criação de estruturas de controlo”
(Costa F. ,
2007, p. 557). Essa mesma ingerência do Estado Novo é encontrada na atividade industrial nesse
período com regime de condicionamento industrial, a partir de 1931.
151
Segundo A lves ,
“a iniciativa
empresarial, a racion alização técn ica e produtiva, a m ão de obra etc. passam a ser limitadas por
intervenção administrativa”
(Alv es J. F., 2005, p. 467) .
Entretanto, no que se refere à indústria têxtil, a partir do momento em que se buscou
incentivar a ampliação das export ações de t ecidos , foi preciso modernizar o m aquinário . Tal
situação se fez s entir, especialmente, após a II Guer ra (Alves J. F., 2 005, p. 467), pois já no início
da década de 1940, relatórios oficiais passaram a caracterizar
“a indústria têxtil, como
apresentando excessiva pulverização industrial tanto n a fiação como n a tecelagem, número de
150
Rosas , 1986, p. 34
Apud
Cordeiro, 20 01, p. 29.
151
Decretos nº 19354, 19404 e 29521), de 1931.
288
fusos reduzido em relação aos teares inst alados, obsolência [sic.] dos maquinismos, em particular
dos fusos, número reduzi do de teares automáticos”
(Alve s J. F., 2005, p. 470).
A limitação do número de fusos e teares, com vistas a evitar o acúmulo de estoque e a
consequente redução dos preços, acarretou um atraso tecnológ ico na indústria têxtil, razão pela
qual, por meio de despacho de 17 de dezembro de 1946, estabeleceu- se
“novas normas de
condicionamento que permitiam a instalaçã o de n ovas fiações autón omas, a instalação de novas
fábricas completas”
(Alves J. F., 2005 , p. 470) . Pouco antes, com o obje tivo de estabelecer
“ condições de fornecimento de alg odão ultramarino ”
para evitar a flutuação de preços da mat éria-
prima (Alv es J. F., 2005, pp. 466-467) , o Estado N ovo, em 31 agosto de 1946, havia lan çado o
Decreto 358 44 para regulamenta r a cultura de algodão nas colônias portuguesas con cedendo-
lhes isenção fiscal.
Ao se olhar em retrospecto, apesar de ter s ido durante o Estado Novo, com a Lei da
Eletrificação Nacion al (1944) , que se aumentou a
“produção de energia eléctrica como resultado
dos grandes aproveitamentos hidroelétricos”,
qu e acabaram por contribuir
“para um incremento
da industrialização do país”
(Cordeiro, 2001, p. 26) ;
as condições artificiais mantidas durante os restantes anos do Estado Novo – que
prolongaram a situ ação de protecio nismo, aliadas a salários baixos e ausência de
reivindicações, à manutenção de um parque tecno lógico obso le to, à relutância pela
inovação tecnoló gica, assim como à progressiva descapitalizaç ão das empres as – traria
graves consequên cias a médio e longo prazo.
(Cordeiro, 2006, p. 509)
Assim, embora haja perspectivas que busquem analisar o condicion amento industrial, não
como uma das
“causas de estagnação”,
e, sim, como uma tentativa de remediar
“a subsistência
de atividades exceden tárias num mundo industrial objet ivamente exíg uo, mas, mesmo assim
endemicamente ferido pelo sobreequipamento [sic.] e pela sobreprodução [sic.] ”
(Rosas, 1994,
p. 878) ; para Mendes, o condicionamento industrial imposto pelo Estado Novo , somado às
“preferências ag raristas de alguns responsáveis máximos do regime político”,
pode, sim, ser
apontado como responsável pelo fato de que o
“crescimento industrial fosse moderado, at é aos
anos 50”
(Mendes, 2010, p. 84).
Mas na co njuntura da década de 1930, para o patronato, era
“prioritária a regulação da
entrada na produção e da capacidade instalada: a necessidade de condicionamento é o primeiro
ponto da agenda dos meios patronais”
(Madureira, 1998, p. 788) .
289
Por esta razão, há uma perspectiva historiográfica que afirma, especificamente sobre a
década de 1930, que o Estado Novo n ão se con stituiu
“ um travão ao (ou o at raso do)
desenvolvimento capitalista em Portugal , mas foi, antes, um dos seus suportes, nas con dições
existentes então na formação s ocial portuguesa ”
exatamente pelo seu papel na regulação e
controle social tant o sobre a burguesia quanto sobre o o perariado. Seg undo Amaro, o Est ado Novo
teria se sobreposto às divergên cias en tre
“facções da burguesia”
ao mesmo tempo em que
reprimiu a
“classe operária”
(Amaro, 1982-3, p. 1006).
Para Madureira, porém, a
“tese de que o Estad o Novo corresponde à tentativa de
arbitragem entre os diferentes interesses da clas se do minante, ou ent re as fracções da lavoura e
da indústria, ou ain da entre toda s as camadas da burguesia e da classe média”
ganhou força
precisamente porque, de um lado,
“as re lações entre o Estado Novo e o patro nat o industria l
português”
evoluíram com frequência
“da cooperação para a indiferença e da cumplicidade táctic a
para a divergência pública”
, de modo que
“raras vezes existiu hostilidade aberta”
. Por ou tro lado,
as investigações que propõem esta tese ignoram a necessidade de se delimitar sociologicamente
se conceitos como
“‘classe’, ‘camada’ ou ‘fracção de classe’ se adequam aos dados empíricos
disponíveis sobre a sociedade portuguesa das primeiras décadas do século XX ”
; ao mesmo t empo
em qu e n ão definem o que significa a
“arbitragem”,
pois ela pode ter sentidos múltiplos
152
(Madureira, 1998, p. 778). Segundo Madurei ra,
“toda a dinâmica de luta, rei vindicação e
confronto nas vésperas do salazarismo procede de interesses sociais fragmentados”
(Madurei ra,
1998, p. 820 ), razão pela q ual
“o Esta do Novo não foi, assim, obrigado a dialogar nem com um a
frente patronal unida nem com uma fronda operária forte”
, mas, antes, ouviu
“os interesses
instalados ” e desenvolveu “u ma política paternalista em relação ao operariado”
(Madureira, 1998,
p. 821) ,
“subordinada a fins instrument ais de ‘ordem pública’ e ‘paz social’”
(Gar rido, 2018, p.
201) .
N a Bacia do Ave tais práticas paternalistas, porém, são anteriores à emergência do Estado
Novo . Em Riba d'Ave, foi pre conizado por Narciso F erreira , a partir de uma reorientação estrat égic a
no t rato com o operariado, após as greves da pri meira met ade da década de 1910; e ,
152
Segundo Ma dureira,
esta expr essão pode co mportar sentidos bastante dif erentes, caracterizan do a procura ta nto d e equilí brios a
partir de int eresses autóno mos ao Est ado e regula dos por este (arbi trage m em s entido estrito) como de
equilíbrios entre formas de r epresentaç ão d e i nteresses não autónomos do Estado (co-arbitragem), ou a inda
processo s de r egulação de co nflitos totalmente diferidos da expressão e repres entaçã o dos inter esses
(regulação s em arbitrage m).
(Madureira, 1998, p. 778)
290
posteriormente à sua mort e , con solid ado por seus herdeiros no cont role das fábr icas e também
por meio da Fundação Narciso Ferreira, fundada em 1945 .
Em Riba d' Ave, d e um lado, essas práticas de controle político e social paternalistas
sufocaram as mobilizações operárias, mas, por outro lado, a construção memorial sobre Narciso
Ferreira e a Sam paio, Ferreira & Cia. foi fundamen tal para silenci ar as vozes dissonantes sobre a
atuação do fundador da fábri ca em Riba d'Ave. Neste processo, a construção do monumento a
Narciso Ferreira em 19 34, e as consequentes alterações na entrada e no escritório da fábrica
(entre 1934 e 1943 ), ina ugura ra m uma nova estética na arquitetura da Sa mpaio, Ferreira & Cia.
que não só dialogou com a narrativa memorial hegem ônica sobre Narciso Ferreira como contribuiu
para sua con solidação e eviden ciou simbolicamente seu alinh amento com a estru tura política que
caracterizou o Estado Novo em termos sociais.
291
Capítulo 2. A memória e dificada: o monumento a Na rciso Ferreira e a no va estética
da Sampaio, Ferreira & Cia.
Nunca h ouve um monu mento da cultu ra que não fos se também um
monumento da barbárie.
(Walter Ben jamin. “So bre o con ceito da história”)
Em 1934, a entrada da Sampaio, Fer reira & Cia. passou pela transformação estética que
a caract eriza até h oje. Naquele ano erigiu- se um mon ument o à ent rada da fábrica ( Figura 295 ;
Figura 296) ,
“ao jeito de u m pequeno t emplo”
,
153
em homenag em a Narciso Ferreira, que h a via
falecido no ano anterior, com um busto voltado para a en trada da fábrica, de costas para o rio
Ave. Segundo a epígrafe, a iniciativa de sua con strução partiu dos filhos, da própria fábrica, da
Oliveira Ferreira e Cia., da Empresa Têxtil Eléctrica e da Companhia Hidro Eléctrica do Varoza.
Figura 295 : S PC entre 1934 e 1943. Portaria e
monumento (1) . (CPF - AL V- 004425)
Figura 296 : S PC entre 1934 e 1943. Portaria e
monumento (2) . ( CPF - ALV- 004407)
Em t ermos de estrutura construtiva, o monumento é composto por uma base g ranítica
(Figura 297 ; Figura 298 ) que sustent a o bus to de N arciso Ferreira (Figura 299 ) em que há uma
área de circulação ao público, cujo acess o se dá por dois pequ enos lanços de escadas, à esquerda
e à direita, que levam a um arco pelo qual se pode at ravessar de um lado a outro ou ir ao fundo,
onde há um pequeno mirante voltado para o rio Ave .
153
http://www. famalicaoid.org/ ficha.as px?t=i&id=2692
292
Figura 297 : SPC en tre 1934 e 1943. Largo do
monumento . (CPF - ALV- 004410)
Figura 298 : SPC en tre 1948 e 1952. Largo do
monumento . (CPF - ALV- 004420)
Figura 299 : monu mento pos sivelmente entre 1948 e 1952. ( CPF - ALV- 004419)
Destaque para o bus to a Narcis o Ferreira no topo.
Luís Pereira (2011, pp. 190- 191) afi rma que
“o poder sempre utilizou meios espetaculares
para marcar sua entrada e posição na história”
e suas manifestações
“não se coadunam com a
simplicidade, sendo a grandeza o seu veículo”
. En tretanto, paradoxalm ente, são as linhas
despojadas de adornos ou rebuscamento do m onumen to a Narciso Ferreir a que o torna m
verdadeiramente grandioso, pois evocam caract erísticas que foram exaltadas n a própria
construção de sua memória, como a austeridade, a simplicidade de sua ori gem e dos modos, a
seriedade e a organização com que conduziu seus negócios.
293
O projeto do monumento dialoga com a arquitetura
art déco
, que prima pela pr ecisão
geométrica, pelas linhas limpas e verticais, cujo propósito é dar a sensação de que as construções
são mais altas e, consequentemente, mais impon entes. A própria escolha deste estilo, para
homenagear um industrial como Narciso Ferreira, é sig nificativa n a medida em qu e o
art déco
evidencia a presença cada vez m ais forte da indústria e do des enho industrial nas diferent es
formas de manifestação artística.
Celebrado na
Exposição Internacional de Artes Decorativas e In dustriais Mod ernas
, em
1925, o
art déco
teve seu apogeu nos anos 19 20 e 19 30 e tornou-se o símbo lo de toda s as
tendências entre as décadas de 1910 e de 1930 (Charles, 2012; Miller J. , 2005; Bayer, 1999;
Brunhammer, 1983).
Segundo Bayer (1999) , em muitos casos b uscou- se in spiração em estilos do passado e
lhes imbuiu de um
“inegável senso de modernismo”
:
Este não era o modernismo que nó s at ribuí mos hoje ao “Movimen to Internacion al”, mas
“modernismo” em forma mais simples, como aplicado nos anos 20 e 30, significando
alguma coisa nova e diferen te, alguma cois a ex citante e hete ro doxa, alguma coisa
caracterizad a pelo s enso de “alegria de viver” que se manifestava em termos de co res,
altura, decoraç ão e, algumas vezes, no s três ao mesmo tempo.
(Bayer, 1999, p. 12)
Para Correia, entretant o, o termo
art déco
apresenta restrições en quanto estilo
arquitetônico, pois
“o que se en tende por arquitetura a rt déco” pode não apenas “en globar uma
diversidade de formas”
como alg umas construções associadas a ele podem conter em si
“aspectos relevantes qu e podem ser ass ociados a outras vertentes arquitetônicas”
(Corr eia, 2008,
p. 48). Além disso, o termo passou a ser utilizado na arquitetura apen as após a déca da de 1960
(Correia, 2008, p. 4 8) quando
“após s er u tilizado pelo historiador inglês Bevis Hill ier, ao re ferir -se
a esse e stilo, consagrado na exposição de 1 925, e que foi tema da mostra retrospectiva Les Anée s
25, realizada em 1966 n o Museu de Artes Decorativas de Paris”
(D'Elboux, 2013, p. 61).
154
At é
então o estilo era conhecido por
“Style Moderne”
ou
“Paris 1925”
(Sousa F. D., 2017, p. 41) .
154
D’Elboux ( 2013, p. 61) mostra que antes da década de 1960 a exp ressão
art déco
“já havia aparecido anteriormente no livro Paris 1925 de
Armand Lanoux, de 1957
” (Roiter, Marcio. 2011. Rio de Janeiro
Art Déco
. Rio de Janeiro: Casa da Palavra. P. 46) e fora utilizada de maneira
polêmica por Le Corbusie r em seu livro
L’art décorat if d’aujourd’houi
, de 1925, na forma de vinheta de int rodução aos difer entes capítulos, como
“
1925 – EXP O. A RTS. DÉCO
”. (Bresler, H enri. 1997. “O Art Déco ratif Moderno na França”. In: Art Déco na América Lat ina. Centro de Arquitetura
e Urbanismo – 1º. S eminário Internac iona l. Rio de Janeiro: Prefe itura da Cida de do Rio de Janeiro/SMU, Solar Grandj ean de Montigny – PUC/RJ.
P. 16).”
294
Conforme evidencia D’Elboux,
“uma definição formal mais exa ta do Art Déco tem se
mostrado difícil e imprecisa, devido à grande quantidade de influências e ver sões en contradas no
estilo”
(D'Elboux, 2013, p. 61), além de seu uso ter sido
“expresso não somente n as artes
aplicadas, mas também na escultura, arquitetura, fotog rafia, moda e desenho in dustrial”
(Duncan,
2009, p. 06
Apud
D'Elboux, 2013, p. 61).
Nesse sent ido, não só o monumento, mas a tipografia escolhida para o letreiro com o
nome da fábrica tam bém é
art déco
(Figur a 300 ; Figura 301 , F igura 302). Assim, colocado na
fachada do escritório, à direita do portão de entrada, estava integrado à nova estétic a arquitetônica
que iria caracterizar a Sampaio, Ferreira & Cia. dali em diante.
Figura 300 : enquad ramento fotog rafia ALV- 004426 . ( CPF)
Destaque ao le treiro da fá brica em fotogr afia da SFC possivelmen te ente 1934 e 1943.
Figura 301 : paisa gem-sequên cia da entrada da S FC . (CPF - ALV- 004421 e AL V- 004408)
A composição en quadra o monumen to, a portaria e o edifício nº1 com o le treiro, poss ivelmente, en tre 1934 e 1943 .
Observe-s e que o padrão da grad e lembra as tramas de um tecido .
295
Figura 302 : "Largo e fach ada principal". ( CPF - ALV-
004418)
Destaque pa ra o letreiro art déco na fachada do
escritório (e difício nº 1)
Como em outras man ifestações do
art déco
, a tipografia tam bém desenvolveu um a série
de estilos ( D'Elboux, 2013) . No caso da Sa mpaio, Ferreira & Cia., a fonte tipográfica escolhida
para o letreiro tem semelhança com o t ipo usado no cart az da
Exposição Internacional de A rte s
Decorativas e Industriais Modernas
de Paris (19 25) de autoria de Émile Antoine B ourdelle (Figura
303 ).
Figura 303 : cartaz estilo art déco . (P aris , 1925) .
(D'Elbo ux, 2013, p. 64)
Cartaz da Exposição Internacional de Artes Deco rativ as
e Industriais Modernas de Paris (1925) de Émile Antoin e
Bou rdelle.
Ambos, o letreiro da Sampaio, Ferreira & Cia. e o cartaz da Exposição de 1925, têm a
barra horizontal da s let ras “A”, “P” e “R” em posição ab aixo da linha central; t êm a li nha horizontal
dos “E” e “F” e o vértice central dos “M” posicionados acima da linha central; os “S” têm em
302
estética seguiu esse estilo que lhe s era próprio, conforme permite verificar o filme oficial do
evento.
158
Torgal ch ama a atenção para o fato de que
“o cinema foi considerado um instrumento
importante da propaganda do regime”
para
“impor a sua doutrina”
(Torgal, 2011, p. 67) .
Exatamente por se com preender a importância do cinema n a formação da população portuguesa,
o Estado Novo criou
“órgãos governamentais qu e o promovessem”
e que refletissem no cinema a
ideologia do regime, como o Secret ariado da Propaganda Nacional (SPN) de 1933, dirigido por
António Ferro (Recchia, 2018, pp. 73- 74) .
Se é possível afirmar que as produções cin ematográficas de modo geral serviram com o
instrumento propag andístico do Estado Novo, isso fica ainda m ais claro em um f ilme oficial do
regime. Tanto o desfile quanto a montagem do fi lme exibem claramente as componentes
paternalista, corporativista e nacionalista do Estado Novo por meio da participação dos
trabalhadores na pr omoção de exal tações de cun ho patriótico a partir da exibiç ão da riqu eza
cultural e produtiva, rural e industrial, do Concelho; e por meio da presença do Ministro do
Comércio, Pedro Teotónio Pereira, e Subsecretário d e Estado das Cor porações e Previdência
Social, Rebelo de Andrade, e de outras autoridades locais (Figura 314 ) .
Figura 314 : “Fest as do Trabalho em Famalicão – 1º de
maio de 1 937” (frame aos 2min 09s) Dir.: Salazar Diniz
(1937) (CPMC)
Antes de ser uma ode aos v alores do trabalho e aos trabalhadores, o filme (mas ta mbém
o desfile em si) do diretor S alazar D iniz era, portan to, uma ode ao Estado Novo e a o discurso de
valorização aos trabalhad ores pelo regime. Desse modo, ao formarem os valores do operariado e
158
CPMC. “Festas do Trabalho em Famali cão – 1º de maio de 1937” Dir.: Salazar Diniz (1937) Portugal, Prod.: Secretari ado da Propaganda
Naciona l (SP N) In http:// www.cin emateca.pt /Cinemateca-Digit al/Ficha.a spx?obraid=3156&type= Video
303
conduzirem-nos ideologicamente, os filmes funcionavam como instru mentos de controle político e
social.
Por esta razão o filme destaca a presença do carro alegó rico da Secção de Braga do
Sindicato Nacional da Indústria Têxt il que, segundo o fi lme, possuía
“já pra cima de 15 mil sócios” ;
e dos t rabalhadores sindicalizados que soltavam
“aclamações de exaltação n acionalista e
pat riótica”
(Figura 315 e Figura 316 ).
Figura 315 : “Festas do Trabalho em Famalicão – 1º de
maio de 1 937” (frame aos 4min 05s) Dir.: Salazar Diniz
(1937) (CPMC)
Figura 316 : “Fest as do Trabalho em Famalicão – 1º de
maio de 1 937” (frame aos 4min 49s) Dir.: Salazar Diniz
(1937) (CPM C)
De maneira exagerada o fi lme afirma que de Riba d'Ave participaram do desfile
“ milhares
de operários e operárias ”
que repetiam
“ as mais vibrantes aclam ações à Pátria, a Carmona e a
Salazar, victoriando tam bém o Dr. Teotónio Pereira e o Eng enheiro Rebel o de Andrad e ”
(Figura
317).
Figura 317 : “Fest as do Trabalho em Famalicão – 1º
de maio de 1937” (f rame ao s 6min43s) Dir.: Salazar
Diniz (1937) (CPMC)
304
O carro alegórico das
“Fábricas de Riba d'Ave”
tem como destaque Narciso Fer reira, a
atividade t êxtil e foi, nitidamente, inspirado na estética
art déco
pelas formas geomét ricas e
verticalização do corpo central que o compõe (Figura 318).
Figura 318 : SFC no filme “Fest as do Trabalho em Fa malicão – 1º de maio de 1937 ” (frame aos 6min18s) Dir.:
Salazar Diniz (1 937) (CPMC)
À frente e ao alto , vê -se uma efigie circular com o rosto de Narciso Ferreira, inclusive,
muito semelhante à que veio adornar a fachada principal do Teatro alguns anos depois ; abaixo da
efígie, parece h aver um tea r m anual e, em volta da al egoria cen tral, operárias parecem t ecer o
algodão. Embora pequeno (e efêmero), o car ro alegórico carrega va símbolos d a industrialização
de Riba d'Av e: a mão de o bra feminina, que compunha grande part e do operariado fabril e a
memória do empreendedor cujas origens humildes li gav am -se à tecelagem manual.
Além disso, n o desfile de 1937, o carro alegó rico das
“Fábricas de Riba d' Ave”,
ao exibir
o mesmo estilo
art déco
que começara a ser promovido como a principal linguagem estética e
arquitetônica na Sampaio, Ferreira & Cia. desde a construção do mon umento a Narcis o Ferreira
em 1934; era, em si me smo, não apenas uma ode aos valores do t rabalho e à importân cia da
indústria têxt il, mas uma ode ao progresso industrial, à modernização e à m odernidade que ele
representava simbolicamente.
305
Então, ao contrário do que afirma Silva (2012), para q uem
“a arquitetura industrial não
foi destinada à transmissão de valores para a po steridade, como sempre foi o destino da
arquitetura monumental”
, de modo que
“a sua razão de s er consiste unicamente na extração, na
produção, no fabrico, na transformação ou na armaze nagem dum produto específico”
(Silva M.
Â., 2012 , p. 435)
;
a partir da edif icação do monum ento a Narcis o Ferreira, a arquitetura da
Sampaio, Fer reira & Cia. se torn ou uma manifestaç ão das narrativas m emoriais h egemônicas e,
portanto, uma forma de transmitir valores da fábrica e de Narciso Ferreira à posteridade.
Entretanto, se, por um lad o, os significados simbólicos da estética do monumento a
Narciso Ferreira evidenciam a trajetória e o s valores associad os a ele e à fábrica Sam paio, Ferreira
& Cia.; por outro lado, esse s mesmos significados eviden ciam o paradoxo de sua utilização como
estratégia de construção memorial. Segundo Mumford (1970, p. 438) a própria noção de u m
monumento moderno é verdadeiramente u ma con tradição em termos:
“se é um monumento não
é modern o, e se é um moderno não pode ser um monumento ”.
Isso porque, ao m esmo tempo
em que é esteticamente associado à modernização e à modernidade para simbolicamente
glorificar aquele que foi co nsiderado o responsável por modern izar Riba d'Ave; o monumento é
uma tentativa de moldar, cri stalizar e tran smitir o passado segundo a int erpretação que m elhor
convém à manutenção da memória positiva sobre Narciso Ferreira e sua obra industrial.
Edificado com uma s implicidade imponente, os blocos de granito que estruturam o
monumento t ransmitem ro bustez, resistên cia e te nacidade duradouras . A base vertical tem o
formato de uma escada, o que evoca simbolicament e a ascensão econômica e social de Narciso
Ferreira, além de ser uma referência ao poder q ue adq uiriu ao longo de sua vida, a os deg raus que
galgou para se t ornar quem se t ornou. O busto é adornado com motivos florais em sua base que
lembram as coroas de louro comumente associadas à vitória , ao t riunfo, ao sucesso, à
prosperidade, características t ípicas dos
self-made men
, imagem recorrente na construção
memorial de Narciso Ferreira.
E esses valores não escaparam à percepção das narrativas memoria is, como se v ê pela
descrição da
Estrela do Mi nho
que faz uma associação direta entre o monumento e os valores
positivos com os quais se construíram a memória sobre Narcis o Ferreira:
Mais do que um símbolo , o bron ze de N arciso Ferreira que en cima o mo numento de
granito que em su a h omena gem os filhos fizeram er guer, no coração de Riba d’Ave,
dominando a en trada des se templo de trabalho que so ube co nstruir a golpes de talento
306
e de vontade, mais do que um sí mbolo, co mo dizíamos, o bronze de N arciso Ferreira é
uma afirmação de presença cuja so mbra estimula e protege o s c ontinu adores da sua
obra grandiosa e revo lucio nária.
159
Se a fábrica era um templo ao t rabalho, o trabalho em s i ser ia a prece; e talento e vontade,
os valores esperados de qu em a ele se dedicasse. O m onumento era a
“afirmação de presença”
de Narciso Ferreira, que ganh a va ares santificados de protetor daqueles q ue con tinuariam a
“ obra
grandiosa e revolucionária ”
, fossem eles os herdeiros, o s trabalhadores ou a própria Riba d’ Ave.
Os valores positivos que o monumento bus ca transmitir se fizeram s entir também por uma
pequena, mas significativa , mudança simbólica na cultura fabril da Sa mpaio, Ferr eira & C ia. que
parece destacá- la de outras empresas d a Bacia do A ve . Enquanto ou tras empresas utilizavam nas
etiquetas dos rolos de tecidos apenas desenhos de seu s respectivos conjuntos fabris, a Sampaio,
Ferreira & Cia. utilizava também a imagem do monumento a Narciso Ferreira.
N a et iqueta da F ábrica de Fiação e Tecidos do Rio Vizela (Figura 319 ), a mais antiga
fábrica de fiação e tecidos d a Bacia do Ave, tendo sido fundada em 1845, verifica-se que o
complexo fabril foi inserido de forma harmônica com a paisagem nat ural n a qual está inserido.
Além disso, na repres entaçã o iconográfica, as edificações estão dispostas de uma f orma dife rente
da realidade. A centro o selo de marca registrada da fábrica aparece cercado por peq uenas
medalhas douradas e com a inscrição
grand prix paris 1900
, em referência ao prêmio recebido
na Exposição Universal de Pari s de 1900, algo que serviria de indicador à qualidade de seus
tecidos.
159
MIT. Estrela do Minh o. 03 de o utubro de 1949.
307
Figura 319 : etiqueta d a Fábric a de Fiação e Tecidos do
Rio Vizela. (Fe rreira D. V., 2014 , p. 76)
A etiqueta da Fábrica de Tecidos da Ponte de Negrelos (Figura 320 ), fundada em 1928,
destaca o próprio rio Vizela, a ponte roma na de Negrelo s (ao fundo) , seu açude e um par de rodas
d’água que compunha sua antiga fábrica de moagem e serração de madeira que ali funcionava
antes de reconstruírem e ampliarem a edificação fabril também representada com sua chaminé.
Figura 320 : etiqueta da Fábrica de Tecido s da Ponte de
Negrelos. (Ferreira D. V., 2014, p. 56)
A Empresa Têxtil de Caneiros, localizada em Guim arães (Figura 321), por sua vez
apresenta em s ua etiqueta a imag em da fábrica com três chaminés fumegantes em meio a um a
paisagem natural, no cen tro de uma com posição adornada com o que parecem s er um ramo de
louro, à esquerda; e uma figura feminina em tronco nu, sentada ao lado de uma eng renagem
com um braço a estender uma coroa de louros sobre a fábrica, à direita. Antes de um personagem
real, a figura feminina pode ser a personificação de um ideal, seja de modernidade, progresso ou
modernização.
308
Figura 321 : eti queta da Empres a Têx til de Caneiros.
(Ephemera)
A etiqueta da Com panhia de Fiação e Tecidos de Guim arães (Figur a 32 2), por sua vez,
apresenta a imponente figura de Afonso Henriques ladeado por representações da
“Fábrica da
Avenida”
e da
“Fábrica de Campelos”
, ambas inseridas numa paisagem natural c om imponentes
edificações.
Figura 322 : etiqueta da Companhia de Fi ação e T ecidos
de Guimarães (Ephemera)
A Fábrica de Fiação e Tecidos Raúl Ferreira (Figura 323 ), também aparece, em sua
etiqueta, inserida numa paisagem natu ral pouco vistosa, mas, em compensação, apresenta a
representação de grande edifí cios e uma chaminé ao fundo. Chama a atenção o destaque ao
nome do proprietário, filho de Narciso Ferreira, talvez como forma de fazer referência à própria
família e à tradição têxtil que foi herdada por ele.
309
Figura 323 : etiqu eta da Fáb rica de Fiação e Tecidos
Raúl Ferreira. (B orges, 2012, p. 192)
Por fim, a própria Sampaio, Ferreira & Cia. produziu etiquetas de amostras de tecidos n os
quais o complexo fabril era o des taque (Figur a 324 ; Figur a 325 ). As etiquetas pos suem pequ enas
diferenças de enquadramento, m as reproduzem a mesma imagem na qual a fábrica é
representada praticamente na su a totalidade. O corte que h á nas edificações nº 6, 7 e 8, à
esquerda da etiqueta, provavel mente foi feito porque, do ângulo escolhido para a reprodução, caso
não se cortassem aqueles edifícios, a Oliveira, Ferreira & Cia. Ltda. apareceri a ao fundo na
imagem. A paisagem n atural em volta da fábrica é repr o duzida de forma esfumaçada /sombreada,
sem a mesma definição que se dá às edificações; e o rio Ave, por sinal, s ó aparece nitidam ente
em uma delas (Figura 325).
Figura 324 : eti queta dobrável de amos tra de tecidos da SFC. ( CSFC)
Figura 325 : eti queta simples de amos tra de tecidos da SFC. ( CSFC )
310
A reprodução das etiquetas da Sampaio, Ferreira & Cia., em preto e branco e com alto
contraste, t orna difícil perceb er que a imagem não é uma pintura, assemelhando -a com uma
fotografia. Com isso, ao salien tar a magnitude do compl exo fabril com a reproduçã o da extensão
quase tot al da fábrica, a etiqueta parece buscar um e feito de realidade que demonstraria todo o
poderio da empresa. Diferentemente das empresas anteriores, em amb as as etiquetas da
Sampaio, Fer reira & Cia., a imagem da fábrica aparece isolada dos outros eleme ntos que fazem
referência à ela; e em uma delas (Figura 325 ), não há n enhuma referência a nome ou contatos
da empresa, como se a apenas a iconog rafia bastasse para re conhecê -la.
Em uma análise de selos corporativos , González (2003) detalha o significado simbólico
dessas representaçõ es icon ográficas. No estudo, ela afirma que, embora at uassem sobre uma
base real mais ou menos s ólida, os desenh istas realçavam as edificações, eng randecendo -as e
embelezando-as, com o o bjetivo de valor izá-las e frequentemente idealizavam-nas. Não raro,
diferentes complexos arquitet ônicos eram inte grados no mesmo desenho, por exemplo. Im agens
das sedes comerciais e industriais, dos com plexos financeiros e dos grandes imóveis serviam para
representar o sucesso dos empreendedores industriais e comerciais.
Ao inc orporar edifícios ou conjunto s edificados à iconografia em selos de todo o tipo,
buscava-se transmitir os g ran des feitos comerciais des sas empresas. A representação iconográfica
da arquitetura da s empr esas se con verteu, portant o, em um elemen to que n ão só destacava o
potencial eco nômico das empresas, mas também poderia representar a h ierarquia dos espaços,
a ordem social estabelecida e o volume de atividade indus trial com que a empresa poderia atuar.
Por vezes os desenhos dos complexos edificados eram inseridos em um panorama pais agístico ,
cujo objetivo vai além de pr over um referencial geográfi co e podia representar a disponibilidade de
recursos naturais à disposição d a indústria. Para Gon zález, não há dúvi das de que as edificações
se t ransformavam, então, em um
“emblema de pres tígio”
(Gonzál ez, 20 03, p. 213) das empresas.
Nos cinco exemplos de outras fábricas da Bacia do Ave , os conjuntos das estruturas fabris
são representados de forma imponente e suas chaminés a fumegar como que em uma evocação
do trabalh o contínuo e de suas capacidad es produt ivas. Nas composições iconográficas
harmonizam-se as relações entre as estru turas das fábricas e a nat ureza, o que aca ba por suavizar
o impact o que, na realidade, havia na paisagem; de modo que a força transformadora da indústria
é mostrada sem que se traga à t ona seus aspectos negativos.
311
Dessa forma, as etiquetas dos rolos de t ecido além de servirem ao propósito de at estar a
qualidade dos produtos pela associação à grandeza das próprias fábricas , estas estão
representadas nas iconografias de forma idealizada, algo que fica claro ao se observar o uso de
cores primárias e de for te saturação e a absoluta ausência de pessoas nos des enhos, pois as que
aparecem são personagens históricos idealizados, com o Afonso He nriques; ou personagens
desprovidos de identidade, q ue represent am ideais, e n ão su jeitos históricos reais. Os operários,
por exemplo, cuja presença s e destaca no ambie nte fabril, e qu e seriam facilmente recon hecíveis,
não aparecem representados de forma alguma. Com isso, desaparece o componente humano n as
representações de modo a fazer da “fábrica” em si o sujeito social e histórico.
Entretanto, se nos exempl os de etiquetas os conjuntos fabris e suas repr esentações
arquitetônica s são os s ímbolos do progresso e modernização das empresas; no caso d a Sampaio ,
Ferreira & Cia. especificamente, a estratégia escolhida para a composição iconográfica de suas
etiquetas foi além, pois não apenas optou por destacar o conjunto fabril, mas também colocou
como elemento principal o monumento a Narciso Ferreira (Figura 326 ; Figura 327 ) .
Nestas etiqueta s, o nome da fábrica encon tra suas duas versões:
“Fábrica de Fiaçã o e
Tecidos de Riba d'Ave”
e
“Sam paio, Ferreira & C ia.”
. Ambas usam outra for ma do estilo tipográfico
Figura 326 : eti queta d a SFC c om o monu mento a
Narciso Fe rreira (1). (Ephemer a)
Figura 327 : eti queta d a SFC c om o monu mento a
Narciso Fe rreira (2). (MIT)
318
muitas ve zes, as elites polític as ergu em mon umentos para promover na rrativas
históricas seletivas que se concentram e m eventos e indivíduos conven ientes, ao mesmo
tempo em que elimin am o que é des confortável. Ao rep resentar narr ativas his tóricas
seletivas, monu mentos po dem inculcar con cepções es pecíficas do presente e enco rajar
possibilidades futuras. Como tal, o s monumentos to rnam-se essen ciais para a
articulação das políticas nacio nais de memória e iden tidade, atrav és das quais as el ites
políticas defin em agendas políticas e legitimam o poder político .
(Bellen tani & P anico,
2016, p. 28)
Desta forma, o monumento a Narciso Ferreira, além de apresentar um valor estético,
desempenha uma função política ao repres entar valores por meio de sua estética. Assim, ele
cumpre também a função de conferir um
“ significado dom inante ao espaço ”
em que está alocado
(Bellentani & Pa nico, 2016), quer se con sidere a f ábrica Sampaio, F erreira & Cia., quer se
considere Riba d'Ave.
Entretanto, o mon umento a Narciso Ferreira tem uma particularidade justamente pelas
características dessa n arrativa memorial hegemônica que, ao mesmo t empo, evoca o poder de
Narciso Ferreira e de seu s herdeiros e remete constant emente aos valores adquiridos graças à
sua origem humilde. Dess e modo, a o mesmo t empo que o m onumento representa uma ordem
social altamen te hierarq uizada, ele permite qu e di ferentes estrat os sociais dessa hierarquia se
identifiquem com o sujeito ali repr esent ado : o Narciso Ferreira que construiu um império in dustrial
é o mesmo que nasceu em uma família pobre. Com isso, o mon umento transmit e à comunidade
valores transversais (trabal ho, perseverança, din amismo) que podem ser apropriad os de acordo
com a posição social de quem observa e experimenta o mon umento.
Com iss o, o próprio monum ento imita o duplo papel na ordem social que a própria fábrica
assumia: de um lado, er a eficaz
“como espaço de exploração capitalista” que legitimava
“hierarquias de aut oridade”;
por ou tro, era um
“espaço de socialização do operari ado”.
E,
“ enquanto tal, assumia-se , portant o, como espaço-t empo de mediaçã o indispensável nas
estratégias de reprodução social do patronato e operariado locais”
(Monteiro, 2012a, p. 454).
Então, por um lado, preci samente por tra nsmitir valores tran sversais, o mon umento ,
embora sugira uma m inimização das diferenças s ociai s, ele acaba por reforçá-las, coadunan do-se
com as narrativas memoriais h egemônicas sobre Narciso Ferreira . Entretanto, por outro lado,
“uma v ez erguidos, os monumentos tornam -se propriedades sociais e os usuários podem
319
reinterpretá- los de maneiras diferentes ou contrárias às intenções dos projetistas”
(Bellentani &
Panico, 2016, p. 28) .
Assim, o mesmo monumen to que visa perpetuar a memória hegem ônica sobre Narciso
Ferreira pode servi r como um inst rumento de questiona mento dos próprios valores e m emória que
ele quer transmitir, não apenas por que os sujeitos s ociais que se apropriam dess es símbolos têm
suas próprias perspectivas, mas porque a condição do monumento se alterou ao longo do te mpo.
Antes inserido numa fábrica que representava o progr esso, a modernização , a modernidade e o
poder de seus proprietários; h oje encon tra-se em meio a um espaço abandon ado, obsoleto,
arruinado e despojado de suas funções originais.
Portanto, o monumento a Narciso Ferreira, como documento de cultura material, é o que
Le Gof f (1990, p. 546) chama de
“produto da sociedade que o fab ricou s egundo as relações de
forças que aí detinham o poder”:
o documento não é inócuo. É a ntes de ma is nada o resultado de uma montagem,
conscie nte ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produziram, mas
também das épo cas suces sivas durante as quais co ntinuo u a viver, talvez esqu ecido,
durante as quais contin uou a ser mani pulado, ainda que pelo silêncio .
(Le Goff, 1990,
p. 548)
Dessa forma, o monumento a Narcis o F erreira, como documento de cultura material, além
de ter sido resultado do período em que foi construído, t ambém foi res ultado de todo s os presentes
subsequentes, por meio das transformações n o entorno, nas percepções sobre o mesmo, na
realocação n a memória coletiva ao longo do tempo, n as r essignificações pelas quais passou, nas
condições de existência do mesmo.
Por isso, t al como propõe E co (198 6) ao sugerir uma análise semiótica da arquitetura, o
monumento a Narciso Ferreira também poderia ser lido com o um discurso, detentor de linguagem
ou com unicação própria, e que pode ser, então , interp retado. Assim, o monumento configura-se
um intermediário, um significant e semiótico da memória que se quer t ransmitir, servindo à
necessidade de at ualizá-la ao estabelecer uma ligação entre memória e o espaço (Dimković,
2016) . O monumento contém em si, portan to , uma
“narrativa simbólica”
que
“expressa um modo
de pensar a sociedade, com vistas à sua história”,
como afirma Uhle (2006, p. 57) .
320
Para es sa autora,
“o estudo da imagi nária urbana é capaz de revelar ao h istoriador o
processo de construção de representações, a pa rtir de diversos símbolos – artísticos,
arquitetônicos, urbanísticos – inscritos na cidade”
. E é apenas ao se perceber que h á uma
“íntima
relação en tre a memória coletiva e o espaço urbano”
é que pode com preender
“o pot encial
simbólico dos m onumentos e o espaço de conflito que se con solida n a cidade”
(Uhle, 2006, p.
09) .
Para Bourdieu, os s ímbolos pos suem o poder de construir a realidade, de promover a
integração social e de confirmar ou transformar a visão de mundo. Entretanto, para que seja eficaz
é necessário que s eja sutil, isto é, que não seja percebido com o
“arbitrário”
, uma vez que ele nad a
mais é do que uma forma
“transformada, quer dizer, irreconhecível, tran sfigurada e legitimada,
das outras formas de poder”
(Bourdieu, 1989, pp. 09- 14) .
Uhle evidencia, a partir da perspectiva de Paulo Kn auss,
161
que os mon umentos possue m
uma
“capacidade de h omogeneizar e universalizar, abstraindo os con flitos s ociais, através da
elevação do sentimen to de grupo”.
Daí a importância de se observar que a estrutura construtiva
simbólica do monumen to a Narciso Ferreira possui uma fu nção s ocial que vai além da construção
da m emória, pois ele propõe esteticamente valores e modos de agir incorporados pela figura
idealizada de Narciso Ferreira materializadas pela construção.
É por isso que o mon umento seleciona apenas alg uns aspectos da vida de Narciso Ferreira
em detrimento de outros, nom eadamente aqueles que t iveram impacto pú blico e q ue estimulam
a cont inuidade dos progres sos que re presentam, pois ele faz part e da con s tituiçã o do imaginário
urbano e serve, entre outras coisas,
“à construção de discursos s obre o passado”
(Uhle, 2006, p.
12) . Assim,
cada so ciedade elege seu s heróis, eventos representativos, o u seja, seus lugares da
memória. Essa escolh a não se dá de maneira essen cialmente coletiva, ge ralmente são
grupos es pecíficos, de maior influ ência política, que perpetuam su a memóri a e a dos
seus.
(Uhle, 2006, p. 11)
Desse modo, segundo Knauss,
161
Knauss, Paulo. I magens urbanas e poder simbólico: escult uras e monu mentos públicos na s cidades do Rio de Janeiro e Nite rói. Tese de
Doutorado em H istória, UF F, 1998.
321
a constituição do acervo de i magens urbanas se ca racteriz a por oper ações de
significação, qu e organizam simb olicamente o tempo e o es paço da cidade ao instaurar
referências un iversais no cotidia no da vida urbana. Frequen temente, es se movimen to
relacio na -se com motivações da conju ntura social, atualizando e redefinin do
constantemente o significado das imagens urbanas.
(Knauss, 19 98
Apud
U hle, 2006,
pp. 11- 12)
Pode-se afirmar, portan to, que o mon umento funciona como um dispositivo de
representação, pois interpret á-lo permite observar três formas de se relacionar com o mundo s ocial
(Chartier, 2002, p. 11). As sim, o monumento é, em primeiro lugar, evidência de uma realidade
“contraditoriamente construída pelos diferentes grupos”
que compõem a sociedade , pois é o
resultado das dinâmicas sociais que permitiram a ascensão econ ômica e s ocial de Narciso Ferreira
e que o consolidaram como símbolo máx imo da indust rialização da região d a Bacia do Ave. Em
segundo lugar, o mon umento permite identificar
“as práticas que visam fazer recon hecer uma
identidade social, exibir uma man eira própria de estar n o m undo, significar simbolicamente um
estatuto e uma posição”;
pois a construção é um r egistro simbólico da t raje tória (ainda que
selecionada) de Narciso Ferreira e dos valores a ele associados. Em terceiro lugar, o mon umento
joga luz sobre
“as formas institucion alizadas e objetivadas graças às quais uns ‘ representantes’
(instâncias coletivas ou pessoas singulares) marcam de forma visív el e pe rpetuada a existência do
grupo, da classe ou da com unidade”;
porque a trajetória de Narciso Ferreira q ue o mon umento
evoca serve tan to como ode ao passado (individ ual de Narciso Ferreira e coletivo da comunidad e
de Riba d’Ave) co mo vislumbre de futuro àqueles que o cont emplam.
Dessa maneira, a função simbólica do mon umento osci la entre
“ substituição da realidade
e sua evocação mimét ica ”
(Gi nzburg, 2 001, p. 63), ao mesmo tempo em que solidifi ca a m emória
sobre Narciso Ferreira, sob re a Sampaio, Ferreira & C ia. e seu papéi s na narrativa sobre Riba
d’Ave. Por um lado, tem a capacidade de fazer as veze s de real idade representad a, isto é,
consolida a narrativa da t rajetória e dos valores r epr esentados pela fi gura de Narciso Ferreira
(trabalho, esforço individual, a indústria, o progress o de Riba d’Ave e d a Bacia do Ave etc.); por
outro lado, tem o potencial de tornar visível a realidade representada, chamando a atenção do
observador para a narrat iva h istórica ali delineada e pa ra o próprio lugar em que se encont ra o
observador, ou seja, a fábrica Sampaio, Ferreira & Cia. e a própria Riba d’Ave.
A própria etimologia do termo monumento remete a essa con strução da realida de, por
meio da memória à qual ele se vincula. Do latim
monumentum
, termo derivado do verbo
monere
,
322
que significa advertir, recordar, avisar, ilu minar, instruir ( Le Gof f, 19 90; Choay , 1 999), u m
monumento é um
“sinal do pass ado”
(Le Goff, 1990, p. 536) e, em seu sentido original,
“interpela
a memória”
(Choay, 1999, p. 16) e
“é tudo aquilo q ue pode evocar o passado, perpetuar a
recordação”
e
“ligar -se ao poder de perpetuação, vo luntária ou involuntária, das sociedades
históricas”,
constituindo -se, portanto, um
“legado à memória coletiva”
(Le Goff, 1 990, pp. 536-
537) .
Para Halbwacks,
a memória coletiva tem seu ponto de a poio so bre as ima gens espaciais”
(Halbwacks, 1990 [1950], p. 136 ), de modo que
“as demanda s s ociais se traduzem em termos
espaciais”
(Uhle, 2006, p. 09). Portanto,
“quando um grupo humano vive muito tempo em um
lugar adaptado a seus h ábitos, não somente os seus moviment os, mas também seus
pensamentos se regulam pela sucessão de ima gens q ue lhe representam os obje tos ext eriores”
(Halbwacks, 1990 [1950], p. 136).
Com isso, seria pos sível afirmar que a cultura material n a qual uma sociedade está imers a
seria fo rtalecedora dos laço s dos homen s com o local em que vivem, sendo partic ipe d a própria
modelagem da realidade social com as quais se constro em as memórias. Estas, por sua ve z, num
processo de retroaliment ação, fortalecem a relação entre os homens e a cultura material
produzida, ainda que venham a ocorrer múltiplas mutações na su a apropriação ao longo da sua
existência.
O monumento, portanto, busca
“excitar, pela emoção, uma memória viva”
(Choay, 1999,
p. 16), de modo qu e possui, necessariamente uma intencionalidade (Le Goff, 1990, p. 53 7; Choay ,
2011, p. 12). Segundo Choay,
a es pecificidade do monumento prende -se então, precisamente, com o seu mo do de
ação sobre a memória. Não só ele tra balha, como também mobiliza pela medi ação da
afetividade, de for ma a record ar o passado, f azendo -o vibrar à maneira do presente. M as
esse passado invo cado e convocado, de cert a forma enc antado, não é u m passado
qualquer: foi localizado e selecion ado para fins vitais, na medida em qu e pode
diretamente contribuir para manter e preserv ar a identid ade de u ma comunidade, étni ca
ou religio sa, nacional, tribal ou familiar.
(Cho ay, 1999, p. 16)
323
Uhle, ao analisar a perspectiva sobre os mon umentos de Alois Riegl,
162
explica que os
monumentos in tencionais, por terem sido atribuídos no passado a algum s ujeito
“idealizado e
construído”
, estão imersos
“em referenciais e valores con temporâneos à obra, mas com a
prescrição da imortalidade e da perenidade de seu estado origi nal”
(Uhle, 200 6, p. 12).
Sendo assim, afirma a autora,
a beleza das marcas do tempo impre gnadas no edifício, a lenta degradação da o bra
simbolizando a con tinuida de e o en raizamento de determin ada socie dade (...) seri am,
de fato, inimigos mortais do mo numento intencional [, pois] a celebra ção desta ou
daquela me mória de pende do perfeito estado da obra, tendo em vis ta a vis ibilidade e
compreensão das ale gorias, do s detalhes e das in scrições.
163
(Uhle, 2006, pp. 11- 13)
Também por es sa razão, torna- se significativo e simbólico o estado atual do monumento
a Narciso Fe rreira (Figura 335), sob retudo pela comparaçã o quase inevitá vel com as ima gens de
seus primeiros anos ( Figura 336 ). Nas con dições em q ue se encontra, quando co nfrontad o com
as condições da Sampaio, Ferreira & Cia , e m meio às construções obsoletas, abandon adas e em
ruínas da fábrica, em meio à degradação material do espaço fabril, o monumento se mant é m
intacto na sua estrutura c onstrutiva, mas desga stado e em process o de degradação ,
aparentemente, mais lento que o conjunto fabril edificado.
Figura 335 : mon umento a Narciso Ferreira, em 2016 .
(FdA)
Figura 336 : monumento a N arciso Ferreira,
possivelmente entre 1948 - 1952. (CPF - ALV- 004427)
Para Mumford,
“o impulso humano de criar monume ntos eternos surge, talvez, do desej o
dos vivos de se perpetu ar”
de
“superar o flu xo e a evanescência de toda s a s coisas vivas”
162
Riegl, Alois. L e culte moderne des monument s: son essenc e et sa genèse. Paris, Éditions du Seuil, 1984.
163
Riegl, Alois. Ide m.
324
(Mumford, 1970, p. 433). Nes se mesmo sentido, Choay afirma que um
“monumento é uma
defesa cont ra o traumatismo da existência, um dispositivo de segurança”
que
“assegura, sossega,
tranquiliza ao conjurar o s er do t emp o”.
Os monumentos se apresentam como
“uma garantia das
origens”
e procuram acal mar
“a inquietude que gera a incerteza dos princípio s”
, de modo a
“apaziguar a angústia da morte e da aniquilação”
(Choay, 1999 , p. 16) .
Em sentido contrário, as ruínas evocam a
“onipresença da morte”
(S chönle, 2006, p. 649)
e põem quem as experimenta de frente com a morte e a a niquilação, confronta ndo -os com a
própria finitude. Ao contrário dos monumentos, portanto, que t entam dar respostas a quem o
observa, a quem o experimenta e a quem o sente, as ruínas su scitam perguntas, d ú vidas e
incertezas; sugerem sensações confusas, ambíguas e, não raro, absolutamente contraditórias.
Se, por um lado, o monumento de Narciso Ferreira teve
“por finalidade fazer reviver no
presente um passado engoli do pelo tempo”
(Choay, 1999, p. 22); por outro lado, quando
confrontado com a degradação da fábrica, fica evident e sua exposi ção permanente às
“injúrias do
tempo vivido”
(Choay , 1999, p. 22) e a fragilidade, em oposição à impon ência origin al. Da mesma
maneira, se, por u m lado, a deg radação pau latina d a obra pode repre sentar con solidação e a
transmissão da s caract erísticas de uma s ociedade (Uhle, 2006, p. 1 2), por outro lado , faz
questionar se suas promessas de perenidade não eram falsas.
Assim, as edificações deg radadas, parcialmente arruinadas, da Sampaio, Ferreira & Cia .
ganham nova conotação simbólica porque passam a ter o que Apel (2015) ch ama de
“apelo
paradoxal” :
um a
“beleza”
que
“ajuda a lidar com o terror de um declín io apocalíptico”
(Apel, 2015,
p. 75). Con templar e exp eriment ar o mon umento a Narciso Ferreira, cujo propósito é fazer
perdurar sua memória e seu significado de modo a evocar sua presença de forma atemporal ; e
confrontá -lo com a degradação do local em que está , permite uma experi ência vívida de
temporalidade por meio do espaço, do lugar, da cultura mat erial.
A trajetória do monumento em meio à trajet ória da fábrica e à própria construção memorial
sobre Narciso Ferreira n ão difere, portanto, da trajetória de outros mon umentos, c onforme expli ca
E co (19 86, p. 308), para quem a história há de os revestir com novos sig nificados e os
acontecimentos os modificam, quando o que se prete ndia, ao serem erigidos , era, na verdade,
justamente o oposto.
325
Assim, com todo seu potencial simbólico, ao mesmo tempo em que evoca a força de tudo
o que pretendeu s imbolizar , em seu e stado at ual, na situação em qu e se encontra; e com as
múltiplas apropriações que se possa ter sobre seu significado ; o monumento suscita, paralela e
contraditoriamente, a fr agilidade a que o tempo submete todas as cois as, por mais f ortes e pe renes
que se proponham ser. D essa maneira, embora o atual estado físico do monu mento ainda o
distancie relativamente daqu ele em que se encon tra a Sam paio, Ferreira & Cia., ele se aproxim a
simbolicamente das ruínas da fábrica, pois deixa de ser uma ode à eternidade para se tornar u ma
evidência da finitude.
327
Capítulo 3. A memória si lenciada: Narciso Ferreira e a Sampaio, Fe rreira & Cia. na
imprensa operária no início do século XX.
Eu aprendi agor a que, enquanto aqueles que falam acerca d as suas misérias
normalmente sofre m, aquel es que guard am silêncio sofrem mais.
(C. S. Lew is. “ Carta para Sir Hen ry Willink ” )
À medida que o processo de industrialização atingiu a Bacia do Ave com mais intensidade,
a partir do final do s éculo XI X, seu desenvolvi mento promoveu o aumento do número d e
trabalhadores na a tividade fabril, m esmo que muitos deles n ão tenham aba ndonado as at ividades
agrícolas (Ing erson, 1981; Lima M. P., 1982) . Com isso, n ovas relações s ociais e de trabalho
passaram a fazer parte d o cot idiano d a Bacia do Ave e trouxeram con sigo novas qu estões
associadas às condições de trabalho que os operários enfrentavam (Alves J. F., 20 05; Lima,
1982).
Desde a publicação dos decretos de 14 de abril de 1891 e de 16 de m arço de 18 93
aprovou-se um a legislação que regulamentava e orientava a inspeção do trabalho de menores de
idade e de mulheres em
“estabeleciment os indus triais”
, pelos quais definia -se a idade mínima de
admissão, a proibição de que executassem trabalhos penosos ou perigosos, além de fixar duração
máxima do trabalh o, que, para homens, ficou esta belecida em oito horas.
164
Além disso, a
legislação estabelecia que as fábricas que operassem com mais de 50 mulheres por dia deveriam
ter uma creche (fosse da p rópria fábrica o u n ão) a, no máx imo, 300 m do local de trabalho, co m
as acomodações e con dições higiénicas con forme os dispunham os regulamentos . Para Alves,
entretanto, esta
“ legislação restou letra m orta na m aioria dos casos, quer durant e a fas e final d a
monarquia, quer com a república ”
(Alves J. F., 1999b, p. 24).
Assim, embora já houvesse legislação q ue t entasse oferecer alguma proteção ao
trabalhador, is so não impediu que as fábricas fossem
“alvos atacados pelo discurs o operário, qu e
fazia sobressair os rigorismos disciplinares, a o posição ao associativismo e à aç ão operária, bem
164
ACT. Ministério das Obras Públicas, Com ércio e Indústria. Decreto de 14 de abril de 1891. E Decreto de 16 de Marços de 1 893.
334
se todos os operários se declararam em greve, por que razão fomo s vistos ap enas seis?
Mas s e não tính amos outro defeito , que não de ser grevistas e éramos trabalhado res,
por que razão nos retiraram o trabalho? (...) Vinganças, e só vinganças, é o qu e vemos.
180
O que os operários chamaram de vingança por parte do empresário proprie tário da fábrica
pode ser int erpretado, por u m lado, como fruto da ausê ncia de legislação que os protegesse, pois,
à época, a greve era considerada ilegal e que só viria a s er estabelecida como direito com o decreto
republicano de 06 de dezembro de 1910 (Borges, 2012, p. 13 0). Por outro lado, pode ser
considerada parte da estratégia de con trole sobre o s operários por pa rte de Narciso Ferreira, visto
que a demissão dos seis viri a servir de exemplo a outros que apoiassem tai s m ovimentos grevistas
no futuro, de modo a tentar garantir, assim, a continuidade do trabalho fabril.
Como mostrado antes, a construção da memória do fundador da Sampaio, Ferreira & Cia.
passou pela recordação constante de sua origem pobre. Origem essa le mbrada também do ponto
de vista do operariado ao fazer críticas à sua atuação muitas vezes t ruculenta para com seus
funcionários. Não por acaso, na crônica escrita em nome dos seis empregados demitidos por
apoiarem a greve, busca-se utilizar a própria origem de Narciso Ferreira como fator sensibilizador
para ele viesse a recontratar os operários:
Não se lembra o tal sr. Ferrei ra do tempo em que andav am mendigando, de porta em
porta? Não. Agora só se lembra do que t em explorado, aos pobres o perários com mul tas
pesadíssimas, s e reparar se esses operários as poderão pagar”.
181
Não se lembra o sr. Ferreira do tempo em que era tecelão como eles ? Não, por certo.
Pois quisesse lembrar-se de tem pos antigos, readmitia imediatame nte no tra balho es ses
desgraçados arre messados à miséria, ao meno s aqueles que têm um rebanho de filhos
para s ustentar, e que u m dia arrebatado s pela fome, podem precipitar -se no caminho
do rou bo e da desgraça fa miliar.
182
Sua atuação na manutenção do con trole sobre o operariado é, para a crônic a, fator
decisivo para que amealh asse sua fortuna:
“Ainda há pouco tempo porque dois operários se
zangaram, por qualquer motivo, não tendo a mínima importância – , o sr. Ferreira mandou-os
180
MIT. Luta Ope rária. 15 de out ubro de 1910.
181
MIT. Luta Ope rária. 15 de out ubro de 1910.
182
MIT. Luta Ope rária. 22 de out ubro de 1910.
335
embora com 8 dias de multa cada um! ( ...) Ora e com estes processos de gatuno q ue o sr. Ferreira
juntou alguma fortuna que possui”
.
183
Ou seja, da parte do operariado, ao contrário do que veio destacar a memória constru ída
sobre Narciso Ferreira, sob retudo após sua morte, de staca -s e a exploração do trabalha dor com
um dos fat ores para seu e nriquecimento. Além disso, a narrat iva salienta a contradição ent re o
que di sse Narciso Ferreira à época da greve, como fo rma de retomar as atividades fabris, em
comparação com sua atuação depois desta ter cessado:
Ainda lembramos aquelas p alavras de ternura, que o sr. Ferreira dirigiu ao povo n a
ocasião da greve. Diss e das grad es do seu quintal, que fica próximo à fábrica estando o
pessoal reunido, que era amigo de todo s os seus o perários, e, porta nto, que fossem
trabalhar po rque o s rece beria tod o s de braços abertos, que nenhum seria expulso p elo
motivo de s er grevist a etc. etc. P ois bem. Co mo o sr. Ferrei ra dis se alto e e m bom so m
que não se vin gava de nin guém po r causa do movimento grevista, e nós e stamos sem
trabalho, simples mente porque é ramos grevis tas. (...) quase a ch o rar, com l agrimas de
manhoso, disse que tudo estava perdoado aos operários; agora morde -os como uma
víbora.
184
Da mesma forma, a pou ca instrução, que foi m otivo para evidenciar a capacidade de
superação e a int eligência para os negócios na construção memorial de sua figura, para os
operários era mot ivo de escárnio. Por ocasião da gre ve, os operário s fizeram u m cad erno de
reclamações e reinvindicações para ser entregue nas diversas fábricas qu e participaram do
movimento grevista.
Assim, quando em Riba d’Ave, foram à residência de Narcis o Ferreira, situada em frente
à fábrica Sampaio, Ferreira & Cia., para entregar o referido documen to. Segun do o relato da
crônica, Narciso Ferreira não só n ão aceitou recebê-los, com o disse a um repórter do
Diário de
Notícias
que os acompanhava e queria entrevis tá -lo sobre a greve, que não lhe devia explicações.
Bastou is so para dizerem que Narciso Fer reira possuía uns
“modos um tanto burl escos, de qu em
não tem n enhuma educação social nem cív ica”
e qu e
“educação, nunca soube o que é; instru ção
183
MIT. Luta Ope rária. 15 de out ubro de 19 10.
184
MIT. Luta Ope rária. 15 de out ubro de 1910.
336
muito menos”
e, por fim, que
“esse sr . Ferreira não é mais nem menos do que um
desqualificado”.
185
As tensões ent re a i mprens a operária e a Narciso Ferreira talve z tenham c omo marco
mais important e o dia e m que funcionários da Sampaio, Ferreira & Cia. atacaram o vendedor da
Luta operária
, t omaram 200 exem plares do jornal e atearam fogo. Além de acusar os operários
de traição, o jornal responsabiliza pessoalmente Na rciso Ferreira pe lo ocorrido e o acusa de
“atentar contra a liberdade individual dos cidadãos”
.
186
Segundo Mónica (1987, p. 84 8), em Portugal, para os industriais,
“qualquer prot esto lhes
parecia uma insurr eição, qu alquer greve um ato de ingratidão, qualquer associação de classe uma
organização criminosa” .
Seg undo a autora, era incompreensível ao pat ronato que seus operário s
se voltassem cont ra eles e localizavam em
“elementos de fora”
as razões pa ra tais ações. No
episódio da queima da
Luta operária
, em sentido oposto, a acusação de que teria sido Narciso
Ferreira o manda nte da ação, colocam os operários n o papel de sujeitos manipulados pelos
patrões (Borges, 2012, p. 130) .
Como se vê, se os operários se revoltavam, eram acusados pelos pat rões de serem
manipulados por ag entes externos; e se eram contrários aos movimentos eram tomados pelas
organizações operárias como manipulados pelos patrões.
Ou seja, quer nos dis cursos patron ais ou das organizações operárias, o trabalhador deixa
de ser sujeito e torna -se obj eto das vont ades dos adversários desse campo político; sua voz parece
ser sil enciada n ão apenas pela falta de registros qu e não passem pelo fi ltro da imprensa operária
ou da visão dos pat rões, mas pela con strução da memória sobre esse período em que ele se torna
um peão no tabuleiro dos j ogos de poder qu e se constituem as lutas por melhore s con dições de
trabalho.
Para Alves, episódios como a queima da
Luta operária
são evidências de que teria sido
“radicalismo”
da impr ensa operária q ue a impediu de
“chegar aos trabalha dores q ue dizia
representar”,
uma vez que não raro se voltavam con tra
“o próprio operariado n ão aderente às
suas t eses”
(Alves J. F., 1 999b, pp. 20- 21) . Entretanto, essa int erpretação pare ce transferi r a
185
MIT. Luta Ope rária. 22 de out ubro de 1910.
186
MIT. Luta Ope rária. 29 de out ubro de 1910. P. 0 1
337
responsabilidade des se distanciamento aos operários, às organizações de t rabalhadores e aos
veículos d ifusores de suas ideias, mas esquece de que o próprio s istema econômico e social
organizado em tor no da ativ idade fabril era estruturado de modo a colocar os trabalh adores sob a
proteção, dependência e submiss ão ao pat ronato. Conf orme assinala Ingerson (1 982, p. 1497) ,
entre os t rabalhadores têxteis d a B acia do Ave, a
“sem pre presente ameaça de despedimento”
criava uma “atmosfera de medo e desconfiança” .
Assim, a violência física, sob a forma de castigos corporais , e a violência psicológica, sob
a forma da am eaça de despedimento sumário e, pior, pela possibilidade de não mais encontrar
trabalho pos teriormente, fo ram instrum entos de poder que, entre outras coisas, possibilitavam
reduzir a proximidade entre os operários e as organ izações que tentavam representá -los.
Várias são as razões que se bus caram encontrar para expl icar o porquê de as associações
de operários terem sido enfraquecidas perante o poder dos industriais. Para Alves,
“a transferênci a
da ind ústria para o Vale do Ave representa um rude golpe para as org anizações operárias
habituadas à dinâmica urbana”
em função da dificuldade de difundir ideais socialistas e
mutualistas em função de h aver um
“operariado majoritariament e feminino, vigiado e alvo de
reduzidas contemplações no que tocava despedimentos”
(Alves J. F., 1999b, pp. 20-21) .
Para Ingers on, é pr ecisamente porque os tecelões rurais viam na atividade industrial uma
forma de ascensão social qu e acabaram por se distanciar dos movimentos operários . Nas análises
da autora sobre os inquéritos de 1888 e 1910, todos os sindicat os de trabalhadores têxteis que
os responderam eram do Porto, o que pode significar que
“esses inquéritos ign orassem os
sindicatos que at uam junto dos trabalhadores têxteis rurais, ou en tão ess es sindicatos não
responderam”.
En tretanto, tanto os sindicat os portuenses quanto os
“trabalhadores que
responderam aos inquéritos, se queixavam da concorrência por parte dos trabalhadores rurais”.
Desta forma, em áreas como Riba d’Ave, entre o final do sé culo XIX e a década de 191 0, não se
pode ignorar a possibili da de de que
“os sindicatos urbanos parecem ter en contrado poucos
ativistas ou simpatizantes fora das cidades”
(Ingerson, 1982 , p. 1486) .
Para Alves, doi s outros fatores desmobilizadores das ma nifestações do operariado residem
em características próprias da industrialização d a Ba cia do Ave: de um lado, a dispe rsão das
fábricas pela região tiveram um
“efeito desmobil izador”
; por outro lado, o patrocinato que se
338
desenvolveu na região a partir das greves de 1910 acabou por
“recrutar”
para si o operariado, o
que reduziu as p ossibilidad es de mobilização (Alves, 2 005, p. 481).
Para Borges (2012 , p. 131), Riba d'A ve acaba por congregar todo s estes fatores como
razões at enuantes da m obilização operária n a B acia do Ave: o trabalho nas fábricas era
complementar ao trabalho rural; a implantação dispersa das fábricas; a exi stência de formas de
frágeis de associação operária; a
“atmosfera mental propícia ao pat rocinato, ao autoritarismo e a
padrões de obediência e dependências” ;
além da atuação de caráter paternalist a de Narciso
Ferreira.
Cabe lembrar, porém, que o fat o de o movimento operário ter sido desmobiliz ado n a Bacia
do Ave não significa que os patrões das fábricas e proprietários de empre sas estivessem
perfeitamente organizados. Ao contrário, como mostra Alves, pois , mesmo t endo se organ izado
em 1921 a Associação C omercial e Industrial , as r ivalidades sobre a direção da instituição
acabaram por g erar
“abandonos consta ntes”
,
“inscriç ões efêmeras”
e uma
“instabilidade que
originava a necessidade de recorrer a sócios benemér itos, como foi o caso de N ar ciso Ferreira,
em alturas de sufoco financeiro”
(Alves J. F., 2005, p. 482).
Lima (19 82, p. 1 302) mostra qu e, no período da 1ª Rep ública, a organização do
movimento operário foi limitada por uma série de fatores: a
“fraca con centração industrial”
que
teria levado a
“uma grande dispers ão dos operários”;
a persistência do
“sistema de
semiproletariado”;
a
“subsistência de modo s de submis são formal do trabalho ao capital (indústria
doméstica, oficinas artesanais)”;
as rivalidades entre diferentes correntes polí tico -ideológicas
dentro do movimento (reformis tas, sindicalistas-revolucionários e anarquistas); a fraca organização
dos sindicatos, além, é claro, da aberta repressão ao movimento proletário.
De todo modo, embora as razões para a fragilidade do movimento operário n a Bacia do
Ave advenham de vários fatores, é inegável que as greves da década de 1 910 foram significativas
ao pont o de marcar uma muda nça funda mental na es tratégia de controle de Narciso Fer reira sobre
o operariado: do confronto direto passou-se à con cessão de benefícios . Dessa forma, na década
de 1920, mesmo que a facilidade de t ransportes permitisse aos ativistas sindicais se deslocarem
das cidades às áreas mais rurais e contribuí sse m par a a organização dos trabalhadores fabris
(Ingerson, 1982, pp. 1486- 1487) , estavam as sentadas as base s da estrutura de con trole social
339
de cunho paternalista que a cabou por su focar quaisquer possibilidades de mobilizações de maior
vulto .
A resolução dos movimentos grevistas passou a se dar de forma cada vez menos
conflituosa, como ocorreu na greve de 191 3, quando da con vocação à nova mobilização e m
função da aplicação de multas a alguns operários:
“o sr. Administrador compareceu n o lugar par a
solucionar a greve, o que se conseguiu sem ser preciso o emprego da força ou am eaças da
autoridade. Antes assim”
.
187
Para Lima (1982, pp. 1 302-1303), fica claro que o patron ato precis ava ultrapassar as
“formas de luta ex cessivamente perturbadoras”,
como as g reves, e qu e para isso era import ante
“modernizar”
as relações com o operariado. Infere-se que as
“diferente s tentat ivas de
enquadramento e de integração ideológica da classe operária”
ocorreria segundo as n ecessidades
da indústria, mas sob o manto do
“objetivo comum de progresso s ocia l”.
Conforme evidencia a autora, ganharam destaque no período discursos s obre a
“cooperação de classes para o arranque econ ómico”
e propostas de
“reorganização industrial”
que se manifestariam, entre ou tros projetos, por exemplo, pela doutrinação dos ope rários a partir
ênfase na ideia do valor do trabalho, at ravés de propost as educa cionais reformistas cuja finalidade
seria formar mão de obra para as indústrias, além da aplicação de sistemas de racionalização do
trabalho (Lima, 1982, pp. 1302-1303).
Todos ess es processos configuraram -se estratégias para disciplinar os trabalhadores , tal
como o desenvolviment o d e relações paternalistas en tre o patronato e o operariado. Lima , ao
explorar o t ema, utiliza uma definição da Companhia União Fabril (CUF), dat ada de 1945:
“n a
perspectiva paternalista, a empresa torna -se uma grande família, em que o patronat o toma a seu
cargo t odos os aspectos da vida do seu pess oal, cr iando um clima de cooperação e de reprodução
endógena da força do trabalho ”
.
188
Cantinas, crech es, h ospitais, escolas, re sidências, bairros operário s, e toda s as
infraestruturas das chamadas obras sociais com o as q ue a Narciso Ferre ira criou, serviriam ao
187
MIT. Font e não identificada. 15 de fevereiro de 1913. P. 01.
188
Álbum Come morativo da CUF , 1945, pp. 13- 14.
Apud
Lima, 1982, p. 1329, no ta 107.
340
propósito de controlar os trabalhadores, mantê-los sob a vigilância da empresa e submetê-los às
necessidades desta sem que fosse precis o recorrer a métodos diretamente conflituos os.
Conforme Ribeiro, o domínio dos donos das fábricas pass ou pela
“esfera laboral e social,
e as obediências estão dominadas pelo fator económico”
(Rib eiro L. S., 2017, p. 56) e se estendeu
“ao uso de equipamentos”
(Rémy & Voyé, 1994, p. 56
Apud
Ribeiro L. S., 2 017, p. 56 ). Moradias
operárias, por exemplo, torna ra m-se extensões do poder do prop rietário fabril sobre a pró pria
“moralidade das populações”:
uma vez que a promoção de habitações er a um a iniciativa pontual, teriam acesso a
alojamento de pro moção fabril apenas os ope rários conside rado s exemplares, que
agr ad assem a o patrão. Inclus ivamente, por vezes, nesta din âmica de relações de poder,
uma parte mais ou menos s ignificativ a do salário do operário era dada sob a forma de
bens de con sumo imediato, co mo pão ou carvão, com mais ou men os validade para
serem co ns umidos, sobrepondo -se a dependência salarial a u ma depen dência
paternalista, que se queria, co mo já referido, educa tiva.
(Ribeiro L . S., 2017 , p. 56)
O pat ernalismo em Riba d'Ave iniciado com Narciso Ferreira por meio de suas obras
sociais teve continuidade co m seu s herdeiros que criaram a Fundação N arciso F erreira em 194 5:
Primeiro com os Mo ntepios do pessoal das e mpresas – Sa mpaio, Ferrei ra & Cia.,
Oliveira, Ferreira & Cia. Ltd a., Empresa Têxtil Elétrica Ltda. – g arantia-se ao p esso al
subsidias na doença , n o p a rt o e na in validez, no caso de morte o subsídio de funeral e
em casos de dep auperamento o es tágio em s anatórios , surgindo depois o ho spital, as
escolas primárias. Finalmente a Fu ndação veio ampliar e dar sentido de conjunto a essas
e outras iniciativas, que inclui arranjos urbanísticos . Igreja local e um imp ortante
património imobiliário (T eatro, Quartel de Bombeiros , Estalagem, Mercado), ao mesm o
tempo que des envo lvia apoio a indigen tes e desp rotegidos e ação edu cativa. numa v asta
ação filantrópic a.
(Alves J. F., 2005, p. 483)
Para Lima, o paternalismo fazia u m tipo de
“inves timent o a longo prazo”,
em que os
trabalhadores en travam nas fábricas muito jovens e paulatinament e galgavam postos na
hierarquia da fábrica durante toda sua vida produtiva. Tal investiment o na produção de
trabalhadores seria re ntabilizado por meio da criaçã o de ví nculos pe ssoai s entre os operários e as
empresas,
“numa progressiva apropriação do espaço e do tempo do t rabalhador”
(Lima, 1982,
p. 1329). Não por acaso, portanto, a Sampaio, Ferreira & C ia. pode ser analisada como uma
“fábrica -e scola”
que empr egou
“sucessivas gerações de operários locai s”
t endo dali saído
341
“trabalhadores mais especializados para assu mirem l ugares de direção”
em outras fábricas da
família (Alves, 2005, p. 456).
Entretanto, é interessante observar como os periódicos d a B acia do Ave constru íam as
narrativas sobre essa mudan ça de paradigma na relação entre patronato e oper ariado que levou
ao desenvolvimento do paternalismo nas empres as, no período em que elas ocorriam. Isso porque
tais narrativas são parte f undam ental da própria construção memorial de Narciso Ferreira e da
Sampaio, Ferreira & Cia. na su a atuação junto à c omunidade local.
As obras sociais não foram explicitadas ao público como formas de controle do operariado
e de exploração do trabalho, mas com o formas de superar as falhas da legislação, n o que s e refere
a direitos trabalhistas, e da ausência ou leniência por parte do Estado em prover as necessidades
da comunidade. A atuação da iniciativa priv ada da parte da Sampai o, Fer reira & Cia. seria, então,
uma forma de compensar a inação do Estado n o proviment o de direitos e infraestruturas básicas
à comunidade de Riba d’Ave.
É por isso qu e, quando da morte de Joaqui m Ferre ira, filho de Narciso Ferreira em 1948,
a
Estrela do Minho
não h esitou em explicar essa mudança de modo a evidenciar o papel d a
Sampaio, F erreira & Cia. n a con tenção das manifestações por meio não do atendimento a
reinvindicações, mas de interess es dos trabalh adores:
Estava lon ge a legislaçã o que viria acautelar e defender os interesses sagrados da s
massas trabalhador as e já Riba d’Ave, co m os Montepios das suas três po derosas
empresas (Sam paio, Fer reira & Cia., L tdª, Oliveir a, Ferreira & Ci a., L tdª, e Emp resa Têxtil
Elétrica, L tdª) enfrentava o mom entos o problema qu e garantia ao pes soal de ambos os
sexo s o s ubsídio na do ença, no parto e na invalidez, no caso de morte o s ubsídio de
funeral e em caso s de depaupe ramento o estágio em sana tórios.
E surgiram juntamente a s creches , o s lactários, os bairros oper ários e as cantin as e toda
uma obr a s ocial que é legítimo título de o rgulho para a re gião de Riba d’ Ave e que a
Fundação Narciso Fe rreira h oje a mpliou extrao rdinariamen te e administra com eno rme
carinho e não meno r zelo”.
189
Não é fo rtuita, portan to, a afirmação categórica da
Estrela do Minho
de que nas fá bricas
de Narciso Ferreira, posteriorment e administradas por seus herdeiros,
“não havia um ambiente
189
MIT. Estrela do Minh o. 11 de a bril de 1948. P. 0 1.
342
político, dando à expressão um sent ido de reivindicação operária, pela s imples razão de o social
haver sid o atacado na hora própria. A revolução foi operada de cima para ba ixo”
.
190
E, possivelmente, mesmo que h ouvesse qualquer e spaço para mobilização operária, a
narrativa dos periódicos se alinha aos in teresses da fábrica e coloca sua adminis tração como
concessora de benesses e n ão os trabalhad ores como reivindicadores de dire itos. Na construção
da m emória do trabalho na Sampaio, Ferreir a & Cia., não houve moviment ações operárias porque
não era preciso que houvesse, afinal, os op erários já t inham tudo que n eces sitavam. Reclamar
seria visto como ingratidão.
Práticas paternalistas, como as adotadas pela Sampaio, Fer reira & Cia., ganharam e spaço
e s e difundiram não apenas pela
“inexistência de iniciativas por parte de líderes de event uais
movimentos operários”,
mas também porque o próprio Estad o português falho u em dar
assistência pública ao operariado,
“ação insufi ciente do estado”,
qu e era
“mais s entida em zonas
descentralizadas como o Vale do Ave”
(Ribeiro L. S., 2017, p. 55) , so bret udo ent re 1910 e 1 926
(Pereira D. , 2013). Por esta razão as medidas paternalistas se tornaram ainda mais presentes a
partir da década de 1930, na medida em que passaram a ter respaldo do governo de Salazar.
Tal como a mudan ça de parad igma nas práticas da Sampaio, Ferreira & Cia. no trat o co m
seus trabalhadores, a re organização da i ndústria têxtil em Portugal n a década de 1930 pelo Estado
Novo se deu
“de cima para baix o”
(Ingerson, 1982) ; e, seja no microcosmo de Riba d’A ve ou no
macrocosmo do Est ado português, o paternalismo configurou -se como a principal estratégia
política de controle social (Madureira, 1998; Ingerson, 1982; Lima M. P., 1982).
Entretanto, segundo Alves (1999b) , por um lado, n ão se deve pensar que as medi das do
Estado Novo para controlar as man ifestações operárias tenham surtido efeito porque
desapareceram os problemas que causavam reivindicações operárias:
“rigorismos disciplinares,
a oposição ao associativismo e à ação operária, o não cumpriment o da legislação (no tocante a
mulheres e crianças e ao cumprimento dos h orários de t rabalho)”
continuaram a existir;
“o
cumprimento do horário de trabalh o de 8 horas decretado durante a Repúbli ca era de novo
ignorado ou contornado, be m com o a utilização, contrária à lei, de mulheres e cria nças nos turnos
da n oite”
; acrescenta-se uma hora ao t rabalho,
“voltando -se às 9 horas como compensação pela
190
MIT. Estrela do Minh o. 11 de a bril de 1948. P. 0 1.
343
obrigatoriedade imposta pelo governo do descont o de 2% para o desemprego”
(Alves J. F., 1999b,
p. 21) .
Para Alves, não foi a falta de problemas enfrentados pelo operariado q ue red uziu as
mobilizações operárias n a Bacia do Ave e, sim, as pr óprias características do operariado d a B acia
do Ave que aten uaram os conflitos en tre patrões e empregados (Alves J. F., 1999b, p. 22) .
Entretanto, Ingerson afirma que a at uação do Estado Novo foi fundamental para a con tenção das
mobilizações operárias, pois, frequ entemen te, tentativas de greves eram abafadas rapidamente
com a ajuda do gover no, por meio da Polícia Internacional e de D efesa do Estado (PIDE) que, não
raro, prendia, interrogava, h umilhava e espancava os ope rários considerados líderes do s
movimentos. Geralmente, porém, o
“maior castigo”
seria
“a subsequent e impossibilidade de
encontrar emprego”.
Tudo isso cont ribuía para que se t ornasse muito dif ícil a realização de
manifestações operárias po r direitos e melhores condições de trabalho ( Ing erson, 1982, p. 1487).
Por outro lado, para Alves, não se pode supor também que as medidas de cont role político
e social do Estado Novo sobre os trabalhadores, t ais como a
“aniquilação da s associações de
classe”
e a criação dos
“sindicatos n acionais, num processo acompan hado de muito perto pelo s
delegados do In stituto Nacional do Trabalho, o órgão oficial mediador entre pat rões e trabalhadores
no sistema corporativista”;
tenham feito com que o patronato, por sua vez, deixasse de se opo r a
medidas do governo:
Bastará dizer co mo foi sentida e alvo de inquérito a oposição do patronato local à
instalação, em Delães, da secç ão co ncelh ia do Sindicato Nacional dos Operários da
Indústria T êxtil do distrito de Br aga, o u evocar os folhetins das re visõ es s alariais, ain da
que com o há bito de nivela r os ordenados mínimos pelos habi tualmente pagos nas
principais fábric as.
(Alves J. F., 1999b, p. 22)
Segundo Ingerson, entretanto, ainda que tenha havido atritos entre o patronato e o Estad o
Novo quando este, por exemplo, tentou
forçar os industriais a cumprir as suas obrigações sociais e a garantir uma sobrevivência
digna aos seu s trabalh adores” o s conflitos entre a mbos ac abavam por ser efêmeros
dado que “as relações entre o Estado e os industriais acabaram por segu ir as regras do
mercado da con tratação .
(Ingerson , 1982, p. 1489)
Além diss o, mesmo os inv estimento s em cantinas, creches e bairros ope rários ou em
infraestruturas de carát er público com o escolas, h ospitais, iluminação, tinham como objetivos
350
1.1. 194 8-1952: ampliações do con junto (ed ificações nº 2 a 1 0, 1 2, 14 e 18) na Sa mpaio, F erreira
& Cia. a partir da opção e stética pelo
art d éco
.
Figura 337 : croqui de referên cia so bre a o rganização do co mplexo fabril para 1948 -195 2. (Cd A)
Entre 1948 e 1952, ident ificou-se muitas alterações no co njunto fabril (Figura 337 ).
Conforme comunicado do
“mestre dos rios”
205
e conforme o edital do Proces so 497/1947 ju nto à
Direção Geral do Serviços Hidrául icos, a Sampaio, Ferreira & Cia. re queria licença para
“ampliar
u ma fábrica de fiação e tecidos em quatro pon tos diferentes, na m argem esquerda do rio Ave”
.
206
De modo mais específico, o formulário de Informação sobre Licenças assim descreve o objetivo
da obra:
“o aument o do edifício destina -se à arrecad ação de fio, que fica anexo à secção da
tinturaria”
.
207
A licença para ampliar o con junto fabril foi concedida em 17 de agosto de 1948 e
resumiu as obras com o sendo destinadas a
“melhorar as instalações”
e deu 360 dias para
completar as obras.
208
Entretanto, ess a descrição não contempla t odas as modificações propo stas pelo projeto,
que incluíam a construção de um segundo piso na porção nort e da edificação nº 10 (Figura 3 38 ,
destacado pela linh a a zul) e a extensão da edificação nº 12 na parte da
“Arrecadação do fio”
a
partir do edifício da
“T inturaria ”
(Figura 338 , destaca do pela linha verde).
205
Arc hi v-Ave. Proc . 497/1947. Orde m de Serviço 1068 (manu scrito), 07 de julho de 1947. P. 01.
206
Archiv-Ave. P roc. 497/1947. Ed ital. 15 d e julho de 1947. P. 01.
207
Archiv- Ave. P roc. 497/1 947. Registro do Reque rimento nº 442. In formação sobre Licença s pa ra obras a concede r pela Direção Geral ou pela
Direção Hidráulica . 13 de abril d e 1948 P. 01
208
Archiv-Ave. P roc. 497/1947. Dip loma de licença 1035, Proc . 475/948. P. 01
351
Figura 338 : plant a para am pliação da S FC . (Archiv-Ave. P roc. 497 /1947)
Da série de fotografias ident ificadas como relativas a esse período duas fotos se destacam
(Figura 3 39 e Figura 340 ) e parecem t er sido tiradas a partir do mes mo ponto de vista da s
fotografias do período 1934- 1943 (Cf. Figura 283 e Fig ura 284 ).
Figura 339 : SPC entre 1948 e 19 52 (no rte). (CPF -
ALV- 004428)
Figura 340 : SPC en tre 1948 e 19 52 (su l). (CPF - ALV-
004423)
Tal com o nas fotografias entre 1934 e 1943 (Cf. Figura 285 ), as fotog rafias se
complementam para formar uma paisagem-sequência da fábrica, de norte a sul (Figura 341 ).
Figura 341 : paisa gem-sequên cia da SFC entre 1948 a 1 952. (CPF - ALV-004428 e ALV - 004423)
352
Mais uma vez, por meio d os elementos que compõem a fotografia é possível supor o
período em que foi tirada. Na parte s ul da fábrica, à direita da foto grafia, ao fundo, v ê -se o edifício
do Teatro Narciso Ferreira , de 1944 ( Figura 342, desta cado em roxo); o Mercado Narciso Ferrei ra,
de 1947 ( Figura 342, desta cado em vermelho); e, ao lado do Teatro, a construção que abrigou a
Estalagem São Pedro, de 1949 ( Figura 342, destacad o em verde). Vê -se tam bém a mesma
edificação que viria a ser usada como sede dos Bombei ros Voluntários, que já aparecia en tre 1934
e 1943. Se o an o inicial de referência para essas fotografia s é 1948 em função de ter sido nesse
ano que se con cedeu a lice nça para ampliar o conjunt o fabril; a h ipótese para a dat a limite é o
ano de 1952, pois correspon de ao ano em que se deu início ao Processo 1159 j unto à Direção
geral dos Serviços Hidráulicos
209
para u ma nova ampliação do que se acredit a ser a edificação nº
10. Entretanto, ain da que a fotografia seja po sterior ao 1952, ela não deve ser po sterior ao ano
de 19 55, pois ali não se não se vê a edificação qu e viria a ser usada pelos CTT, a partir de 1955.
Figura 342 : enqu adramento da F igura 339 (Ed. 16 e 18) . (CPF - AL V- 004423)
Além dos edifício s nº 16 (azul) e nº 18 (amarelo), destaca m -se outras infr aestruturas u rbanas: Merc ado (vermelho ),
Teatro (roxo ) e a Es talagem São Pedro (verde)
Além disso, n a fotog rafia 1948-1 952 v eem -se duas n ovas con struções que fazem parte
do conjunto fabr il : a primeira (Figura 342, des tacada em azu l) foi construída próxima à edificação
nº 16 (que compunha a antiga fábri ca do Barão da Trov isqueira) e qu e inicialmen te era uma
garagem e depois, con forme a pl anta de 1978, se tornou o “Armazém de ramas ( em silos)”; e a
segunda construção do edif ício nº 1 8 q ue abrigou inicialmente a cantina da fábrica ( Figura 342 ,
destacada em amarelo), que além de ser uma edificação de grande porte, em harmonia com a
arquitetura
art déco
que passou a predomina r na fábrica, chama a atenção pelo ajardinamento à
sua frente (Figur a 343 , Figura 344 e Figura 345).
209
Archiv-Ave. P roc. 1159/1952.
353
Figura 343 : edi fício nº 18, inicialm ente a cantina da
SFC. ( FNF)
Figura 344 : edi fício nº 18, inicialmente a cantina da
SFC. (CPF - ALV- 004403)
Figura 345 : “Cozin ha das cantina s da F ábricas de Riba
d'Ave” , 1947. ( MIT)
In “O Concelho de Famalicão: eco nômico , monumental
e pitoresco”, 1947.
O lado esqu erdo da fot ografia pan orâmica, por s ua vez, permite perceber que a pri meira
fase do pro jeto de ampliação fabril do Processo 497/1947 (Figura 346) foi a única descrita na
Informação sobre Licenças de 1948 e dizia respeito à extensão da edificação nº 12 na parte da
“Arrecadação do fio” a partir do edifício da “Tinturaria” ( Figura 347, destacado em a marelo). Além
disso, verifica-se que a construção do segundo piso na porção norte da edificação n º 10 ainda
sequer havia começado. Por is so, caso tenha se seguido o cronograma estabelecido pela Direção
Geral de Serviços Hidráulicos, a fotografia é de, pelo menos, 1948 .
354
Figura 346 : plant a para am pliação da SFC (su l) (Archiv-Ave. Proc. 497/1947)
Figura 347 : enqu adramento da F igura 338 (Ed. n º 10 e 12) . (CPF - ALV- 004428)
Chama a a tenção o fato de que o segundo açude sofreu um aumento (Figura 347 ,
destacado em azu l) e as du as edificações voltadas para o int erior da fábrica, que possuíam telhad o
de duas ág uas cada uma , foram unidas em um único edifício com um pe queno anexo ao s ul
(Figura 347, destacado em roxo).
A sér ie fotográfica da qu al faz parte a fotografia de 194 8-1952 contém duas image ns qu e
unidas produzem uma paisagem -sequência do interior do con junto fabril a partir do ponto mais ao
norte do corredor central, em direção ao sul (Figura 348).
355
Figura 348 : paisa gem-sequên cia interior da SFC , 1948 - 1952 . ( CPF . ALV- 004422 e ALV- 004409 )
À direita da paisagem-sequência, pode-se ver que a parte do edifício nº 10 destinada a o
“salão de desperdício” e “n ovos batedores” aparece construída já nessa época (Figura 3 47 e
Figura 349 , ambos destacados em vermelho). O rés do chão dessa construção é geminado à
edificação nº 10; dessa for ma, é possível supor que em função da construção do edifício do “salão
de desperdício” houve u ma extensão do edifício nº 10 até ali ( Figura 349, destaque em verde).
Figura 349 : enquadramento da F igura 347 (Ed. n º 10) .
(CPF - AL V- 004409 )
Outras alterações no conjunto da edificação que a fotografia de 1948-1952 p ermite
visualizar diz respeito às edificações nº 2, nº 3 e nº 4 (Figura 350 ).
356
Figura 350 : enqu adramento da F igura 338 (Ed. n º 2, 3 e 4) . (CPF - ALV- 004428)
Destaque aos edifícios n º 2 (vermelho ), 3 (azu l) e 4 (amarelo e ve rde).
À edificação nº 2 foi acresci da um segundo piso (Figura 350 , destacada em vermelho) , de
modo que seu telhado ficou relativamen te nivelado com a edificação nº 1, do escritório. Também
ganhou um segundo piso a edificação n º 3, além de uma cobertura em frente à porta de entrada
(Figura 350 , destaca da em azul). Já a edificação nº 4, a ntes seccionada em quat ro partes , foi
unificada em um único edifí cio de grande porte (Figura 350 e Figura 3 51, ambos destacados em
verde) tendo sua porção mais ao norte com apenas um piso e com m enor profundidade em relação
ao resto da edificação (Figura 351 , tracejado preto). Alé m disso, à época da fotograf ia, a edificação
nº 4 tinha sua porção sul e m construção (Figura 350, destacado em am arelo), onde se construiu
também um tanque d’água.
Figura 351 : en quadra mento da F igura 347 (Ed. n º 2, 3
e 4) . (CPF - ALV- 004422)
Destaque ao edifício n º 2 (vermel ho) , nº 3 (azu l) e nº 4
(verde), no qual se most ra pela linha tracejad a sua
porção mais ao norte.
Nesse período, também sofreram modificações as edificações nº 6, 7, 8 e 9. Os registros
de alterações na edificação nº 9 são apenas fotográficos; e as imagens do período 1948-1952
evidenciam que seus dois edifícios foram unidos em uma só construção e sua fachada remodel ada
a partir do novo padrão
art déco
que se disseminou pelo conjunto fabril (Figura 352 e Figura 353
destacado em amarelo).
357
Sobre o edifício nº 6 não há registros s enão os fotográficos ; e sobre os outros dois edifícios
(nº 7 e 8) só existem por que afet ariam o rio Ave . De sse modo , dada a escassez documental,
apresentam-se aqui hipóteses sobre o processo construtivo desses três.
Os edifícios nº 6, 7 , e 8 foram con struídos em diferentes patamares, estando o nº 6 num
patamar mais elevado, mais próximo da atual Avenida Narciso Ferreira ( Figura 352, em verde ); a
seguir do nº 7 (Figura 35 2, pontilhado verde; e Figura 353 , em verde); e do nº 8 (Figura 352 e
Figura 353, em ve rmelho), cujo rés do chão está ao mesmo n ível do rés do chão dos edifícios nº
4 e 9 (Figura 353) e está mais próximo do rio Ave.
Figura 352 : enquad ramento da F igura 338 (Ed. n º 6, 7, 8 e 9) . (CPF - ALV- 004428)
Enquadramento do ex tremo-n orte do complexo fabril da SFC en tre 1948 e 1952. Em des taque, edifício s nº 6, em
roxo; nº 7, pontilhado ve rde; nº 8 em ver melho ; e n º 9 em amarelo .
Figura 353 : Dest aques na Figura 347 (E d. nº 7, 8 e 9) . (CPF - ALV-004422 e ALV- 004409.)
Destaque para edi fícios n º 7, em verde; n º 8, em vermelh o; e n º 9 em amarelo; na paisa gem-sequê ncia do in terior
da SFC, possive lmente entre 194 8 e 1952.
Quanto ao edifício nº 8, o que se vê na s fotog rafias (Figura 352 e Figura 353 , em vermelho)
é, na verdade, a primeir a fa se con strutiva de um anexo edificado à s ua fr ente (Figura 354 e Figur a
355 , em vermelho ). Ao que tudo indica, um dos propós it os desse anexo era conectar internamente
as edificações nº 7 e nº 8 por meio de uma escada (Figura 354 e F igura 355 , dest acada em
358
amarelo), poi s estavam em níveis difere ntes. A análise
in situ
deixa evident e as diferenças na
estrutura em relação ao pavilhão da edificação n º 8 (Figura 354 e Figura 355 , destaca da em azul).
Figura 354 : anexo do edi fício nº8 (in terior).
(FdA)
Vista do interior do anexo (em vermelho)
construído em frente ao edifí cio nº 8 para
conectar o rés do chão ao primeiro piso. Em
azul, o local da fachada anterior. E m amarelo
a escada.
Figura 355 : anexo do edifício nº8 (fro ntal). (FdA)
Vista fron tal do anexo (em vermelho) construído em frente ao
edifício nº 8 pa ra co n ectar o rés do ch ão ao primeiro piso . Em
azul, o lo cal da fachada anterior. E m amarelo a escad a.
Como evidenciado anteriormente, a hipótese é de que a edificação nº 6 tenha tido, n a su a
primeira configuração algo em torno de 40m de e xtensão, qu ando construída entre 190 0 e 1913 .
O primeiro registro de que poderia haver uma construção n a área do edifício nº 7 está na foto
entre 193 4 e 1943 e, caso tenha existido, talvez poss uísse a mesma extensão da edificação nº 6.
Aproximadamente n a área onde se encontra a edificação nº 8 já havia um edifício desde 1900 e ,
pelas fotos, possuía uma extensão bastante inferior à edificaç ão nº 6.
A hipótese sobre a ext ensão das edificações nº 6 e 7 te rem aproximadament e 4 0m se
deve ao fato de elas es tarem no limite n orte da fábri ca e de que ali, por meio do Processo 752 de
1948 , deriva do do Processo 353 de 1945, junto à Direção Hidráulica do Douro, f oi solicitado o
359
uso do terreno para a ampliação da Sampaio, Ferreira & Cia., com a exte nsão dos edifícios nº 7 e
8, que os acrescia em torno de 50 m.
210
Segundo o edital daquele Processo, a Sam paio, Ferreira & Cia. solicitou de forma vag a
“fazer um aumento no edifício na margem esqu erda do rio Ave, no sítio da Fábrica”.
211
Apenas no
documento de informa ções para licenças , n o campo
“es pecificação da obra”,
é que se tem um a
primeira descrição das medidas do projeto, pois evidencia que se queria
“aument ar o edifício da
fábrica de tecidos na extensão de 58,0m x 35,5m de fu ndo, conforme pla nta junta ”
(Figura 356 ) .
212
Figura 356 : plant a adjunta ao Pr oc. 752/1948. (Archiv- Ave)
Esta planta adju nta ao Proces so 752/1948 ( Figura 3 56) s ubdividia-se em uma planta
topográfica, na escala 1/500 (em que o
“novo au mento da fábrica”
estava hachurado e m
vermelho); num
“alçado do novo aumento voltado ao rio”
e num
“perfil transversal”
dos edifícios,
ambos em escala 1/100; n um perfil transversal, na esc ala 1/260, que mostrava o próprio rio Ave;
e num recorte da
“parte do alçado voltado à montante”,
sem escala.
Ao que tu do indica, a “frente” do projeto era o
“alçado do novo aumento voltado ao rio”
(Figura 357 ) e os “ fundos ” correspondiam ao
“perfil tran sversal”
(Figura 358), a di stân cia da parte
mais próxima do rio até a parte con struída mais próxim a da atual Avenida Narciso Ferreira.
210
Archiv-Ave. P roc. 752/1948.
211
Archiv-Ave. P roc. 752/1948. Edit al. 03 de set embro de 1948. P. 01
212
Archiv-Ave. Proc. 752/1948. Info rmação so bre Licenças para obras a conc eder pela Direção Geral ou pela Direção Hidráulica. 01 de janeiro de
1949. P. 01
366
não aparecer na fotografia da porção sul da fábri ca, que compõe a paisagem -s equência, reforça a
hipótese de que a data de 1954 se ja a mais precisa.
Em 09 de dezembro de 1952 a Sampaio, Ferreira & Cia. enviou um comunic ado ao
Engenheiro Diretor da Direção Hidráulica do Douro no qual solicita licença para
ampliar o edifício da sua fábric a na parte co nfinante co m a c orrente [do ] Rio Ave,
construin do mais um andar so br e o já exis tente, e des tinado ao mesmo fim, aplicando
materiais de alven aria, ferro e cimen to armado, em ó timas condiçõ es de s egurança, sem
prejuízos para a co rrente nem para terceiros .
219
Em 25 de fevereiro de 1953 a fábrica Sampaio, Ferreira & Cia. foi n otificada para
“apresentar na 2ª Secção destes Serviços em Braga, plant a devidamente elaborada, do pedido
formulado, para ampliação do edif ício da sua fábrica”.
220
Porém, conforme a Folha de Informaçã o,
até 07 de maio de 1954 a fábrica não deu
“cumprimento à intimação”
de quase nove meses
antes e que a obra já se encontrava pronta.
221
Em 24 de março de 1955, o 5º lanço comunicou ao Chefe da 2ª Secção de Braga que,
durante uma fiscalização em Riba d’Ave realizada por e le e pelo Gu arda-rios, aproveitou
“a ocasião
para insistir com a Sa mpaio, F erreira & Cia. para a apresentação do projeto”.
Segundo o chefe do
5º lanço, a
“firma”
dis se
“que só por lapso não tinh am en via do a planta e que a insistência da
mesma não tinha chegado ao conhecimento da ge rência, pois que doutra forma teria sido
oportunamente elaborada e apresentada”.
Dito isto, o chefe do 5º Lanço ressalva que como se
tratava
“ duma obra de elev ado valor e que abriga maqu inarias e que só teria de s er demolida por
capricho da firma ou ren itên cia da mesma em leg alizá - la”,
o que el e acreditava que não
aconteceria. Com isso, solicita ao Chefe da 2ª Secção que se suspendesse
“o processo de
execução coerciva”,
pois em 15 dias a Sa mpaio, Ferreir a & Cia. seria
“lembrada”
e a s plan tas
certamente seriam entregues.
222
219
Archiv-Ave. Pr oc. 1159/ 1952. Comunic ado da Sampaio, Ferreira & Cia. ao Engenheiro Diretor da Direção Hidráulica do Douro. (assinatura
ilegível) 09 de dezembro de 1952. P. 01.
220
Archiv-Ave. P roc. 1159/1952. No tificação da Direção geral dos Serviços Hid ráulico s. 25 de fevereiro de 1953. P. 01.
221
Archiv-Ave. P roc. 1159/1952. F olha de Informaçã o nº 155/54. 07 de maio d e 1954. P. 02.
222
Archiv-Ave. P roc. 1159/1952. No ta de Serviço nº 82. 24 de março de 1955. P. 0 1
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