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A tragédia da impossibilidade do evento: os maias; o big brother e a pedagogia dos média

Grossegesse, Orlando

Abstract

O romance Os Maias (1888) de Eça de Queiroz pertence ao cânone da Literatura Portuguesa. Questionando a leitura integral de textos literários no Ensino Secundário, a definição de Os Maias no sistema sócio-comunicativo da época como romance de conversação leva à descoberta do seu carácter dilemático numa sociedade dos média. No cerne desta abordagem está uma reinterpretação do incesto, evento que irrompe na vida social da alta sociedade lisboeta representada no romance. Esta representação é comparada ao Big Brother, levando a uma crítica da cultura que também diz respeito à actualidade.

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A tragedia da impossibilidade do evento IC - 2010 - 7 / pp. 1 05 - 1 18 ISSN: 1696 - 2508 105 A TRAGÉDIA DA IMPOSSIBILIDADE DO EVENTO: OS MAIAS; O BIG BROTHER E A PEDAGOGIA DOS MÉDIA1 THE TRAGEDY OF THE IMPOSSIBILITY OF THE EVENT: OS MAIAS, “BIG BROTHER” AND MEDIA PEDAGOGY IC - Revista Científica de Información y Comunicación 2010, 7, pp. 105-118 Resumo O romance Os Maias (1888) de Eça de Queiroz pertence ao cânone da Literatura Portuguesa. Questionando a leitura integral de textos literários no Ensino Secundário, a definição de Os Maias no sistema sócio-comunicativo da época como romance de conversação leva à descoberta do seu carácter dilemático numa sociedade dos média. No cerne desta abordagem está uma reinterpretação do incesto, evento que irrompe na vida social da alta sociedade lisboeta representada no romance. Esta representação é comparada ao Big Brother, levando a uma crítica da cultura que também diz respeito à actualidade. Abstract The novel Os Maias (1888), by Eça de Queiroz, belongs to the canons of Portuguese literature. Questioning the integral reading of literary texts in secondary school education, the definition of Os Maias in the sociocommunicative system of the time as a conversation novel highlights its dilemma in the media society. At the bottom of this approach lies the reinterpretation of incest, an event that bursts into the social life of Lisbon high society represented in the novel. This representation is compared with “Big Brother”, leading to a critique of culture that is also related to current times. Palavras-chave Romance de conversação / Sociedade dos média / Crítica da cultura Keywords Conversation novel / Media society / Critique of culture 1 Originalmente presentado en el IIº Encontro Leituras em Português, Braga: IEP/Universidade do Minho [publ. CD, 2006]. Revisado y adaptado para la presente publicación. Orlando Grossegesse (Universidade do Minho) Orlando Grossegesse ISSN: 1696 - 2508 IC - 20 1 0 - 7 / pp. 1 05 - 1 18 106 « O resumo em vez dos clássicos»: sob este título, Judite França denuncia em Portugal Diário, por ocasião das provas de ingresso, a substituição de textos originais pelos livros auxiliares ou pelos resumos na Internet que «trazem a papa feita para decorar tudo»: «Os professores sabem que assim é, mas os alunos demonstram conhecimento. Mesmo que colado com cuspo, mesmo sobre uma obra da qual não leram uma única linha. Sabem o essencial: conhecem as personagens, a trama, o enredo, o estilo de escrita e as figuras de estilo mais utilizadas». (França, 2006) Realmente, existe uma diferença entre, por exemplo, saber os locais por onde passa a história e viver as aventuras da personagem principal. O segundo não se consegue através de livros de apoio e resumos na Internet que, no entanto, bastam «para responder às perguntas que os professores repetem ano após ano» (França, 2006). Perante esta caricatura da leitura no sistema do ensino, que cria hábitos de ‘como lidar com leituras obrigatórias’, é importante recuperar a ligação entre a vivência quotidiana actual e a experiência da leitura, em vez de utilizar o texto literário como ‘pedreira’ de perguntas sobre elementos da história, técnica narrativa e figuras de estilo. No cânone da literatura portuguesa, Os Maias (1888) de Eça de Queiroz é o romance que maior esforço quantitativo de leitura exige, tornando-se por isso objecto predilecto de livros de apoio, entre os quais se destaca A Introdução à leitura d’Os Maias de Carlos Reis (1983), um dos maiores êxitos de venda no passado. Actualmente, a maioria dos leitores que querem evitar a leitura do texto original contenta-se com sebentas, impressas (Cabral, 1997) ou on-line, que ainda simplificam ou esquematizam Carlos Reis (1983) e outros. Sejamos francos: o facto de muito poucos alunos do Ensino Secundário lerem Os Maias, da primeira até à última página, não desrespeita a dignidade de um dos maiores romances da Literatura Portuguesa, mas pode ser considerado um comportamento perdoável no contexto actual da cultura dos média. Menos perdoável é o contínuo fingimento da leitura completa como ‘fetiche’ dos programas educativos. Com efeito, foi o próprio Eça de Queiroz quem recomendou ao seu amigo Oliveira Martins apenas que folheasse os dois volumes de Os Maias por serem volumosos de mais para uma leitura integral: «Recomendo-te as cem primeiras páginas; certa ida a Sintra; as corridas; o desafio; a cena no jornal A Tarde; e, sobretudo, o sarau literário. Basta ler isso, e já não é pouco. Indico-te, para não andares a procurar através daquele imenso maço de prosa» (carta de 12 de Junho de 1888). Perante esta recomendação, Os Maias deve ser entendido como um romance que interage com uma cultura dos média que, já no seu tempo, privilegia a leitura descontínua e parcial. Em sintonia com a evolução europeia do fim do século XIX, Os Maias pode ser considerado um romance de conversação (vd. Grossegesse, 1989). Desde a sua juventude, o próprio A tragedia da impossibilidade do evento IC - 2010 - 7 / pp. 1 05 - 1 18 ISSN: 1696 - 2508 107 Eça adquiriu ao longo da sua carreira de escritor uma consciência cada vez mais nítida da decadência da leitura intensiva como consequência da vida cultural sob as leis do mercado, reforçada pelo surgir da nova indústria da imagem (ilustração, fotografia) e da imprensa como fenómeno globalizado, evolução na qual ele próprio colaborou (Grossegesse, 2003). A literatura coabita com os média (a imprensa; o teatro): misturando informação, crítica e diversão, procura-se um público interessado numa leitura que é comparável ao zapping da posterior cultura audiovisual, por sua vez actualmente numa fase de decadência perante os hábitos centrados na Internet e no telemóvel. O romance Os Maias abrange precisamente uma reflexão sobre a evolução da cultura dos média. Propomo-nos a exploração pedagógica desta dimensão, no intuito de articular a experiência da leitura com a vivência quotidiana actual. Partimos do conceito de romance de conversação que, no entanto, não se encontra na Introdução à leitura d’Os Maias, onde aprendemos que neste romance a visão determinista, o universo da ficção naturalista são subvertidos pela ideologia do trágico, condensada na irrupção do incesto fraternal (Reis, 1983, pp. 167-172): para Carlos da Maia, identificado como personagem trágica que se crê superior (hybris), «o absurdo de uma intriga inexplicável à luz de uma argumentação lógica destrói essa ilusão de segurança tão adequada a um século até certo ponto cientificamente eufórico e plenamente convencido de que o progresso técnico e social poderia ignorar a arbitrariedade transcendental» (Reis, p. 170). Consideramos esta visão não só redutora mas também, em certa medida, deformadora, por dois motivos principais: (i) não se pode considerar a acção das personagens elemento central do romance. A hipertrofia das conversas das personagens em relação à acção (casos de adultério; duelo; e só na parte final: caso do amor incestuoso) é um facto indiscutível, lamentado como defeito principal do romance – menos pela crítica do que por gerações de leitores, (mais ou menos) obrigados a ler a obra consagrada; (ii) não se pode estabelecer uma ligação directa entre a acção do incesto e a definição do romance como texto que expresse a descrença no Realismo / Naturalismo. Em primeiro lugar, também acontece a irrupção do insólito (do mítico), concretamente do incesto, na prática literária naturalista que, naturalmente, não obedece sempre à sua programática. Em segundo lugar, na verdade, nunca houvera, por parte de Eça de Queiroz, uma crença estável no Realismo / Naturalismo nem uma confiança na visão determinista; o escritor dedica-se, muito pelo contrário, e nomeadamente a partir de 1883, às problemáticas do diletantismo (na sequência de Essais de Psychologie Contemporaine de Paul Bourget) e da deformação da ‘realidade’ pelos média, já tema de fundo em O Primo Bazilio (1878). De facto, se aquele romance (ainda) cumpre a estética realista-naturalista, correspondendo ao projecto inicial de um ciclo chamado Cenas da Vida Orlando Grossegesse ISSN: 1696 - 2508 IC - 20 1 0 - 7 / pp. 1 05 - 1 18 108 Portuguesa ou Crónicas da Vida Sentimental, não devemos esquecer que Eça desenvolve uma estética sui generis, que sobretudo decorre do diálogo intertextual com a opereta offenbachiana (vd. Grossegesse, 1989; Carvalho, 1999). Fortes referências a Offenbach também não podiam faltar no primeiro volume, projectado mas nunca publicado, destas cenas ou crónicas que deveria tratar precisamente de um caso de incesto, conforme a correspondência do autor com o editor Chardron, acerca do projecto global. Escreve Eça, em Novembro de 1877: «Para produzir, porém, um alto grau de interesse – é necessário dar-lhes diversidade. Assim, alguns [volumes] pintarão costumes gerais da nossa sociedade […]. Outros serão o estudo de alguma paixão ou drama excepcional: assim A Genoveva é o incesto; […]» (cit. em Lima, 1987, p. 199). Portanto, joga-se aqui com as expectativas do público aristocrático e burguês de reencontrar via leitura casos que correspondam à ‘realidade’ apresentada nas narrações dramáticas ou melodramáticas das actualidades nos jornais – uma estratégia de marketing já utilizada aquando da criação de O Mistério da Estrada de Sintra (1870) como «jogo mistificador desenvolvido no periódico entre noticiário e folhetim» (Monteiro, 1985, p. 17). Os diferentes títulos propostos para este primeiro volume, entre O Desastre da Travessa do Caldas, O Caso Atroz de Genoveva, O Desastre da Rua das Flores e, finalmente, A Tragédia da Rua das Flores, dizem tudo, porque imitam as manchetes apregoadas pelos ardinas. Por outro lado, joga-se ainda com as expectativas dos leitores enquanto público de teatro (Trindade, Dos Condes) e ópera (São Carlos), uma vez que a relação de amor incestuoso «começa precisamente no Teatro da Trindade durante uma audição do Barba-Azul, cuja atmosfera irá presidir à continuação do romance (trata-se verdadeiramente de um romance-opereta!) e predominará quase até ao trágico desenlace» (Carvalho, 1984, p. 124). A recepção produtiva da estética da opereta offenbachiana por parte de Eça engloba assim uma crítica das relações de comunicação e dos média na alta sociedade lisboeta. É neste contexto que nos devemos interrogar sobre a função do incesto. Alguns romances posteriores, tradicionalmente considerados secundários, como O Conde d’Abranhos, O Mandarim e, nomeadamente, A Relíquia, um texto que nasce directamente da reflexão que acompanha a gestação prolongada de Os Maias, privilegiam uma escrita mais satírica, criticando (i) a volatilidade dos processos políticos e sociais, não só reflectida mas também potenciada pelos média, sempre à procura de novos escândalos, intrigas e catástrofes, e (ii) a incansável acumulação de novos conceitos (sempre reciclados), promovida em boa parte pelos mesmos média, originando aquela pluralidade de verdades que dificulta a afirmação e a vontade de acção que refere Paul Bourget na sua crítica do diletantismo. A tragedia da impossibilidade do evento IC - 2010 - 7 / pp. 1 05 - 1 18 ISSN: 1696 - 2508 109 Embora Carlos Reis se tenha afastado da visão inicialmente defendida em 1978 (vd. Reis, 1990), a fortuna pedagógica da Introdução à leitura d’Os Maias persiste, como o demonstram os textos de apoio que continuam a afirmar que a irrupção do incesto fraternal tem a função de subverter a ilusão de segurança no determinismo e progresso científico, explicando assim «todo este cuidado e importância da problemática do trágico» por um Eça «descrente dos valores da estética naturalista e dos pressupostos ideológicos que a enformam» (Cabral, 1997, p. 37). Para além de facilitar a esquematização de épocas ou fases da história da literatura nacional, esta persistência deixa entrever um subtexto pedagógico que está em sintonia com o discurso tradicional da identidade portuguesa, privilegiando a força do fatum face à problematização concreta da realidade social (satirizável), por exemplo em relação ao progresso científico vindo da ‘Europa’. Daí a separação da «intriga do incesto» da «crónica de costumes» até ao extremo: «Há entre os dois níveis uma relação de independência» (Cabral, 1997, p. 34). Concordamos com Jacinto do Prado Coelho quando fala da «inserção do insólito do incesto (trágico, sim, mas sob o prisma oitocentista, romanesco, folhetinesco também) na trivialidade do quotidiano, na prosa chã da comédia lisboeta» (Coelho, 1976, pp. 182-183). No entanto, o que assim fica concebido em termos da poética de Victor Hugo no famoso Préface de Cromwell, acaba por ser ‘purificado’, para salvar o trágico da ameaça de ser dissolvido «pela ironia ou pela censura crítica», concluindo este autor que «o trágico subsiste n’ Os Maias como um dos valores estéticos maiores» (ibidem). É notável como os exames do Ensino Secundário de 1977 até 1998 (bem como os tópicos para resolução) permanecem fiéis a estas fórmulas, que foram, como tal, retiradas do seu contexto argumentativo. Depois de Jacinto do Prado Coelho, é Ofélia Paiva Monteiro (1988) quem compreende o elemento do incesto no âmbito de uma poética do grotesco romântico: «O efeito do grotesco está precisamente neste jogo entre o trivial e o enorme, o corriqueiramente acontecível e a catástrofe absurda e fatal, revelador das potências obscuras ou malignas que se ocultam sob a fachada do quotidiano mais vulgar» (Monteiro, 1988, p. 28). Para além da irrupção do evento insólito no meio da trivialidade do quotidiano, realçamos a ideia da deturpação do trágico pelos média (o folhetinesco, o melodrama), já presente em Jacinto do Prado Coelho, que lembra os títulos propostos por Eça para o primeiro volume das Cenas da Vida Portuguesa que trata precisamente de um caso de incesto. O complemento desta deturpação é a configuração do quotidiano pelos média, no intuito de tornar este quotidiano menos trivial através da sua transformação em conversação e espectáculo, em talk show e reality show: as atenções que um indivíduo ou um evento (tal como adultério, separação e reencontro) conseguem despertar tornam-se numa ‘moeda’ de valor comum. É um grande erro conceber a economia como área limitada à economia do Orlando Grossegesse ISSN: 1696 - 2508 IC - 20 1 0 - 7 / pp. 1 05 - 1 18 110 dinheiro e de bens materiais, havendo também bens imateriais cujo único pressuposto é a eficácia na satisfação de desejos e necessidades (cf. Franck, 1998, p. 22), funcionalizados através de sistemas de comunicação. No caso concreto, a representação da vida social em Os Maias corresponde ao «conceito global do modo de vida burguês em Lisboa» (Carvalho, 1984, p. 71): […] do Passeio Público para o Chiado – zona pombalina em que se encontrava a Ópera, o célebre café Marrare, os clubes chiques, a tabacaria Havaneza e as lojas de modas – , do Chiado para as touradas, […], das touradas para o Parlamento, que se seguia à ópera e ao teatro na hierarquia dos divertimentos públicos – só depois é que vinha o circo – , assim a alta roda repartia o seu tempo, assim ganhavam consideração pública os burgueses que queriam fazer carreira de negócios, política ou até literária, ou as burguesas que sonhavam com casamentos românticos. Passeio, café e ópera, também Parlamento e touradas, tornam-se instrumentos equiparáveis de satisfação de necessidades de divertimento e exibição do eu. Não admira, portanto, que se reúnam simultaneamente sob a cúpula da Ópera, […]. (ibidem) Por isso, em vez da poética do grotesco, a nossa abordagem parte da consciência crítica desta realidade social no espaço reduzido do ‘Passeio’ ou do high life lisboeta, aprendida através da recepção das operetas de Offenbach – uma leitura de Os Maias a partir da «poesia dos média» (Hörisch, 1999) que se acha ausente dos planos do Ensino Secundário. Não deixa de ser significativo que as abordagens sociológicas de Mário Vieira de Carvalho (1984) e Isabel Pires de Lima (1987) ou são silenciadas ou aparecem somente nas referências bibliográficas dos livros de apoio. No entanto, a ênfase na execução fiel da tragédia clássica enobrece sem dúvida o romance (para além de recordar aos alunos os ingredientes necessários para uma tragédia clássica, na lógica do texto literário como ‘pedreira’), mas também ofusca a crítica do relacionamento entre indivíduo, média e realidade contida neste romance, que nos parece uma boa lição no âmbito de uma pedagogia dos média. Conforme a nossa argumentação, o que está em causa não é o evento do incesto em si, mas o problema da sua comunicação no seio da sociedade representada: é a incapacidade de comunicar a catástrofe absurda e fatal no espectáculo transformador do quotidiano e através de uma linguagem deformada pela conversação. Isto produz efeitos grotescos, porque o discurso se esgota em duas estratégias principais: a dramatização e a banalização, ambas causando uma espécie de tragédia da impossibilidade do evento. A anagnórise consiste no reconhecimento da A tragedia da impossibilidade do evento IC - 2010 - 7 / pp. 1 05 - 1 18 ISSN: 1696 - 2508 111 incapacidade de transmitir um evento que requer acção para além do discours de loisir (Zima, 1980, p. 116). Este discurso cinge-se à troca de ‘semas valiosos’ conforme a economia das atenções, sem relacionamento maior com a realidade fora deste espaço de lazer, definido pela dominância deste discurso. A catástrofe, individual e colectiva, consiste na incapacidade de desencadear uma acção que transcenda o espectáculo contínuo da exibição narcisista de indivíduos em competição. Neste drama, o hybris diz respeito não tanto a Carlos da Maia, incapaz de abdicar do amor incestuoso mesmo depois do seu conhecimento, mas sobretudo ao seu amigo, o dandy João da Ega. Precisamente esta personagem privilegiada, tão segura da sua competência comunicativa, conseguindo, graças ao seu esprit e a sua ironia, mais atenções do que o político (Conde Gouvarinho) e o poeta (Alencar), revela-se agora incapaz de comunicar um acontecimento que extravasa as intrigas e escândalos criados e funcionalizados na economia das atenções. Evidentemente, a aflição de Ega possui uma dimensão metadiscursiva. Surge uma dúvida acerca da capacidade de Os Maias: este romance de conversação que narra, descreve e representa, nas conversas abundantes, o high life de Lisboa, é capaz de transmitir ao leitor a crítica desta cultura, na mesma linguagem deformada? Não há dúvida que Eça possui plena consciência da decadência da linguagem; daí a crítica discursiva da alta sociedade, e nomeadamente dos média, com os quais ele próprio, como membro desta sociedade, jornalista e escritor, colabora. Resistimos à tentação de fazer disto uma nova leitura alegórica do incesto, como já se fez relativamente à decadência nacional (Moura, 1983), extrapolando as pistas de António Coimbra Martins (1967, pp. 286-287); na comparação através de mais de um século, dir-se-ia que o dilema de Eça corresponde à coabitação dos intelectuais da vida portuguesa actual com o espectáculo televisivo. O estudo social de 1871 publicado n’As Farpas, com destaque para a análise dos processos comunicativos no microcosmo do Teatro de São Carlos, corresponde, em certa medida, à radiografia do interregno do Primeiro Ministro Santana Lopes por José Gil: «Nada tem realmente importância, a impunidade populista vive do pronto a esquecer e do apagamento imediato que sofre qualquer acontecimento. São tantos os acontecimentos mediáticos que depressa caminhamos para o nãoacontecimento» (Gil, 2004, p. 138). Destacando a «espectacularização mediática que apaga tudo», Gil denuncia a redução da existência à «pura imagem da presença» (ibidem): «O que é próprio do santanismo, com toda a sua avidez pelo controlo dos meios da comunicação social, não é trazer a vida para o palco mediático, mas moldar a vida à imagem, os comportamentos ao capital de mediatização, produzir acontecimentos cuja importância se deverá medir pelo seu grau de eficácia mediática» (ibidem). Orlando Grossegesse ISSN: 1696 - 2508 IC - 20 1 0 - 7 / pp. 1 05 - 1 18 112 O que José Gil atribui ao estilo de Pedro Santana Lopes marca uma evolução maior que persiste até à actualidade, no seio do contexto europeu – convém não esquecer isto para não (sempre) sobrevalorizar a ‘miséria portuguesa’. É uma evolução que se coaduna perfeitamente com as características do Big Brother (e de outros espectáculos televisivos de competição como Chuva de Estrelas), tendo em conta a mesma duplicidade de contextos, nacional e europeu. A comparação do universo ficcional de Os Maias com o Big Brother português não pretende desrespeitar a dignidade dum texto considerado dos maiores da Literatura Portuguesa. O objectivo é outro: despertar a reflexão sobre o relacionamento entre sujeito, os média e a realidade através de uma leitura de Os Maias que pode ser parcial, mas deve ser intensiva. Procuramos estabelecer comparações, através de mais de um século, neste relacionamento: tanto o romance queirosiano como a chamada ‘telenovela em tempo real’ oferecem representações das cumplicidades, atritos, relações amorosas dum grupo restrito de pessoas num espaço mais ou menos fechado, no entanto bem observado por um público de fora que está interessado na narração textual (romance) ou audiovisual (Big Brother) da vida social e íntima deste grupo. Obviamente, há grandes diferenças entre (i) a ficção narrativa que pretende produzir na mente do leitor imagens da vida da alta sociedade, numa configuração restrita e até tipológica, com lugares e personagens que evocam uma realidade social concreta, e (ii) uma espécie de reality show, em condições laboratoriais da vida social e íntima de um grupo restrito. Seguindo a narração de uma competição, esta vida é estruturada por tarefas, co-narrada por um comentador popular que guia a leitura voyeurista. Com estas indicações já entrámos na abordagem do Big Brother como produção estratégica, por parte de Fernando R. Contreras: La primera impresión que posee el espectador es que los hechos son mostrados en un estado bruto a través del directo de las cámaras ocultas. Pese a este efecto de realidad, existe detrás la manipulación que encierra toda realización televisiva. La selección y exclusión de planos puede transmitir un acontecimiento de varios modos dando lugar a distintas interpretaciones y por tanto, a distintas historias. […]. La propia narrativa audiovisual y sus recursos suponen una selección de lo real que tras una focalización autorial de los productores puede transmitir muy bien lo que ellos deseen (Contreras, 2006). A tragedia da impossibilidade do evento IC - 2010 - 7 / pp. 1 05 - 1 18 ISSN: 1696 - 2508 113 Os eventos, aparentemente imprevisíveis, nascem principalmente dos esforços de auto-exibição dos participantes, verbais e não-verbais, em troca de (maior) popularidade, previamente calculados por psicólogos e manipulados pela escolha do material filmado: Las estrategias psicológicas se basan en la selección rigurosa y controlada de los participantes. Estas pruebas psicológicas permiten a los productores conocer aproximadamente el perfil de los protagonistas de la historia. Así más o menos se puede predecir cuales serán las reacciones de cada uno frente a ciertas situaciones (las pruebas del concurso, la convivencia entre ellos) e incluso las posibilidades de que se establezcan relaciones personales que den lugar a las parejas. (ibidem) Enquanto os produtores de Big Brother trabalham com pessoas reais, iniciando-os num jogo de convivência bem definido, o autor do romance imagina personagens e espaços reconhecíveis na ‘realidade’. No entanto, argumentando a partir da perspectiva do leitor perante a narração literária ou audiovisual, estamos em ambos os casos perante universos ficcionalizados de grande semelhança. Em espaços quase laboratoriais, os ‘actores’ pretendem construir ou encenar a sua biografia, com mais ou menos autonomia, sabendo da observação de todos os seus actos neste espaço: Como espectadores somos protagonistas de la espectacularización de la vida íntima y violamos ese espacio sagrado para el individuo que es la intimidad desde los sentimientos más enfermos. El espectador de BIG BROTHER sufre una psicopatología, es un mirón. No obstante, no hay consciencia individual, ni examen de su psicopatología porque es una enfermedad colectiva que padece toda la sociedad y en la mayoría social queda disuelta la anomalía: Si todos somos mirones es que no será una enfermedad. El propio sistema social admite esta incongruencia en un discurso que parece decir que tampoco es tan importante que nuestra intimidad personal desaparezca. Por ello, reconozcámoslo, es preocupante. Así, mediáticamente somos formados o deformados en la ausencia de crítica a la violación de las intimidades individuales, […]. (ibidem) Neste sentido, o Big Brother ‘totalitariza’ as condições da economia das atenções que no século XIX existiram nos espaços restritos da exibição do eu. O neologismo realça a banalização do totalitarismo no seio de uma