Turismo, culturas e comunicação intercultural: uma breve introdução
Abstract
[Excerto] O turismo cultural tem crescido de forma significativa no mundo atual. E dado que a cultura é um sistema de valores, tradições e modos de vida (Williams, 1958), hoje praticamente todas as viagens turísticas podem ser consideradas culturais (Smith & Richards, 2013). Na definição de Raymond Williams (1958), o turismo cultural compreende dois aspetos essenciais: a cultura contemporânea, entendida como modos de vida; e o desenvolvimento da cultura do indivíduo e do grupo, na divulgação do património e da tradição.
Full text
Turismo, Culturas e Comunicação Intercultural: Uma Breve Introdução https://doi.org/10.21814/uminho.ed.48.1 Moisés de Lemos Martins Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Univerisdade do Minho, Braga, Portugal https://orcid.org/0000-0003-3072-2904 [email protected] Rosânia da Silva Universidade Politécnica, Maputo, Moçambique https://orcid.org/0000-0002-1467-7077 [email protected] O turismo cultural tem crescido de forma significativa no mundo atual. E dado que a cultura é um sistema de valores, tradições e modos de vida (Williams, 1958), hoje praticamente todas as viagens turísticas podem ser consideradas culturais (Smith & Richards, 2013). Na definição de Raymond Williams (1958), o turismo cultural compreende dois aspetos essenciais: a cultura contemporânea, entendida como modos de vida; e o desenvolvimento da cultura do indivíduo e do grupo, na divulgação do património e da tradição. A cultura não se prende apenas com as atividades de uma elite, selecionada e educada para formular juízos estéticos, a respeito do sistema de valores, tradições e modos de vida de uma comunidade específica. A cultura é também a vida, assim como os interesses das pessoas comuns. A cultura é não apenas o passado e a tradição (história e património), e de igual modo as expressões criativas (obras de arte, performances), mas também os modos de vida dos indivíduos, os seus hábitos e costumes. Muitos turistas têm vindo a interessar-se pela cultura de outras populações, no mundo inteiro, tal como se interessam por espaços históricos, monumentos, museus e galerias. O turismo é parte integrante dos estilos de vida do nosso tempo, com a mobilidade geográfica e o usufruto cultural a desempenharem um papel central. E ao mesmo tempo, em muitos países e regiões, constitui um sector económico essencial, porque dele depende muitas vezes o crescimento. Foi, aliás, deste modo que as políticas na área do turismo se tornaram veículos decisivos para políticas económicas sustentáveis.
8TURISMO, CULTURAS E COMUNICAÇÃO INTERCULTURAL: UMA BREVE INTRODUÇÃO Esta tendência das políticas económicas sustentáveis articula-se com o desenvolvimento de uma sociedade orientada para a prestação de serviços avançados, em que as tecnologias de informação e comunicação (TIC) desempenham um papel fundamental. É, de facto, através das TIC que os destinos mais remotos podem tornar-se acessíveis. E ao facultarem espaços virtuais, que podem ser consultados previamente, as TIC podem até concorrer para criar novas oportunidades de atração de turistas a áreas periféricas ou longínquas. As novas tecnologias constituem o principal motor de incentivo ao processo de cocriação entre públicos, tanto de turistas como locais. O sector turístico tem, assim, a potencialidade de promover encontros entre comunidades locais e visitantes, como estratégia, tanto para manter vivo o património material e imaterial, como para estimular o diálogo intercultural e as práticas intergeracionais. À medida que as práticas turísticas levam os povos a entrar em contacto uns com os outros e se estabelecem relações entre as populações, logo emergem as questões da identidade e da alteridade. E as questões que se colocam são as seguintes: até que ponto os indivíduos que vivem nos lugares visitados pelos turistas são influenciados, nas suas práticas culturais e artísticas e nas representações que têm de si mesmos, pelas experiências que os turistas lhes transmitem? De que modo os turistas absorvem, transformam e incorporam o que veem e experimentam? Quais os impactos culturais, sociais e económicos desta relação? Estudos de campo realizados nos últimos anos salientam a capacidade de agência e performance das populações locais, que hoje são compreendidas como sujeitos ativos, que constroem representações da sua cultura para os turistas, representações baseadas quer nos seus próprios sistemas de referência quer no modo como estes interpretam os desejos dos turistas, num contexto em que a relação entre o local e o global mudou radicalmente. Sendo de complexidade crescente, o mundo contemporâneo, o desenvolvimento do turismo e a proliferação de redes translocais e transnacionais ilustram esta nova realidade, que impede o local de se cumprir num espaço fechado. Inscrito, é certo, num território, mas ligado a outros espaços por inúmeras redes, o local é doravante dependente do mundo exterior. Para discutir estas questões, realizou-se entre os dias 26 e 27 de novembro de 2018 o congresso internacional“Cultura e Turismo: Desenvolvimento Nacional, Promoção da Paz e Aproximação Entre Nações”, na Universidade Politécnica, em Maputo, Moçambique. Este evento, coorganizado pelo Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, da Universidade do Minho, reuniu estudantes, investigadores e profissionais das áreas de estudos culturais, comunicação, turismo e de outros campos das ciências sociais e humanas, assim como todos os interessados em debater o papel da cultura e do turismo no desenvolvimento nacional, na promoção da paz e na aproximação entre as nações. Alguns dos trabalhos apresentados neste congresso foram selecionados para publicação neste livro, que conta com 21 artigos, de investigadores oriundos de vários
9CULTURAS E TURISMO continentes1 e se encontra dividido em quatro secções, subordinadas aos temas “Turismo, Cultura e Arte”, “Turismo, Desenvolvimento e Comunicação”; “Património Cultural: Festividades, Artesanato e Gastronomia” e “Roteiros e Paisagens Turísticos”. A primeira parte abre com um texto de Alda Costa, intitulado “Notas Sobre Museus, Exposições e Discursos de Representação do Passado e do Presente”, onde a autora analisa as primeiras iniciativas para a criação de museus em Moçambique, os órgãos de acompanhamento e tutela da área do património cultural, e ainda, as medidas adotadas para a conservação do património cultural do país. De seguida, o artigo de José Carlos Venâncio, intitulado “Turismo, Arte e Contextos Periféricos. Considerações em Torno das Artes Plásticas Africanas”, reflete sobre a arte contemporânea africana e o seu potencial impacto no desenvolvimento do turismo em África e, especificamente, em Moçambique. Por sua vez, Moisés de Lemos Martins discute o fenómeno turístico enquanto experiência e como desejo de território e de viagem. Partindo de um olhar fenomenológico e sócio-antropológico, o autor desenvolve um ponto de vista que configura o turismo como uma atividade cultural, refletindo sobre a experiência da viagem, as massas, as máquinas, o património e os territórios, olhando as potencialidades de encontro que estes podem propiciar. Os dois artigos que se seguem exploram as potencialidades da literatura na promoção do turismo. “Um ‘Turismo Literário’: Percursos Africanos Pela Literatura”, de Sueli da Silva Saraiva, e “‘Viagens na Minha Terra’: A Literatura e a Cultura no Fomento do Turismo”, da autoria de Adelino Timóteo e Sara Jona Laisse, realçam o modo como os enredos literários potencializam a construção de imagens e narrativas que podem levar o turista a viajar, percorrendo, eventualmente, caminhos propostos nas obras literárias. Por sua vez, o trabalho “Propósito e Abordagem na Pesquisa Transdisciplinar do Campo do Património Cultural”, de Armando Jorge Lopes, encerra esta parte do livro. Centrando a análise em dois parâmetros da investigação científica, o propósito e a abordagem, o autor vê a cultura como um super-sistema, constituído por sistemas que interagem entre si, salientando a complexidade que envolve a investigação de uma determinada temática neste contexto. Na segunda secção deste livro, intitulada, “Turismo, Desenvolvimento e Comunicação”, no artigo “Turismo: Um Instrumento de Mudanças Sociais”, Ana Maria Pinho Guina e José Augusto Guina refletem sobre o fenómeno do turismo enquanto agente de mudança, quer do indivíduo/turista, quer da sociedade em que este está inserido. Os dois textos que se seguem nesta secção trazem para o debate um conjunto de desafios relacionados com o desenvolvimento do turismo e a sua relação com as identidades e as relações interculturais. Lurdes Macedo, no artigo “Turismo e Desenvolvimento – Desafios Comunicação Intercultural”, convoca os desafios que esta relação coloca à comunicação intercultural. A autora considera que o desenvolvimento deve ter por base um debate largamente participado sobre o futuro das 1 É a origem diversa dos autores que justifica que nesta obra se combinem diferentes versões ortográficas da língua portuguesa.
10 TURISMO, CULTURAS E COMUNICAÇÃO INTERCULTURAL: UMA BREVE INTRODUÇÃO sociedades. Depois, no artigo intitulado “As Identidades Culturais num Mundo Globalizado. A Lusofonia Enquanto Possibilidade Intercultural”, Vítor de Sousa reflete sobre a relação entre identidade e cultura e encara a lusofonia como possibilidade intercultural, transcultural, crítica e inclusiva. De seguida, Madalena Oliveira discute o lugar de Moçambique na rota do jornalismo de viagens, interrogando que representações são construídas sobre este país. A encerrar esta secção, Ivo Domingues apresenta uma reflexão teórica, intitulada “Qualidade Sistémica no Setor do Turismo”, centrando a análise na qualidade de três dimensões do sistema turístico: o ambiente, a paisagem e o destino. Iniciando com dois textos sobre festividades religiosas, “Património Cultural: Festividades, Artesanato e Gastronomia” é a terceira secção desta obra. João Cerejeira, Isabel Correia e Sílvia Sousa apresentam o estudo “A Semana Santa de Braga: Impacto Económico, Perfil do Visitante e Satisfação”. É aí traçado o perfil do visitante deste evento cultural. Em termos gerais, é objetivo do estudo concorrer para o desenvolvimento de programas e estratégias eficazes de marketing turístico. Por outro lado, em “Festa Religiosa em Dois Contextos – Brasil e Portugal”, Benalva Vitorio e José Gabriel Andrade dão conta dos resultados de um estudo comparativo sobre dois Santuários Marianos – Monte Serrat (São Paulo, Brasil) e Monte do Sameiro (Braga, Portugal). Os autores discutem os pontos de aproximação e distanciamento entre as festas religiosas no Brasil e em Portugal e analisam a inter-relação entre cultura, turismo e religião. Nos três artigos seguintes são explorados aspetos centrais na promoção da cultura e do turismo das regiões: as expressões musicais, o artesanato e a gastronomia. Em “Desafios da Política Patrimonial no Contexto da Timbila Moçambicana”, Vítor Chibanga analisa os desafios que a timbila enfrenta enquanto património cultural imaterial moçambicano e mundial e reflete sobre as medidas a adotar para a sua salvaguarda. Neste sentido, apresenta uma contextualização histórica dos fatores que conduziram à elevação da timbila a património cultural da humanidade, em 2005, e debruça-se também sobre as relações estabelecidas entre o Estado e as comunidades praticantes de timbila. Por sua vez, Jean Carlos Vieira Santos, no trabalho intitulado “Turismo Cultural, Gestão e Trabalho Artesanal Oleiro no Sul de Goiás (Brasil)”, analisa a produção e a gestão do trabalho artesanal oleiro. O autor questiona os processos de desenvolvimento e promoção desta arte popular nas cidades turísticas da mesorregião sul do estado de Goiás (Brasil), considerando que é fundamental atender aos estudos sobre as ressignificações sociais das relações que o meio físico estabelece com a atual condição social dos artesãos, em cidades que sofrem profundas transformações provocadas pelo turismo. Por sua vez, Alda Damas e Célia Mazuze encerram esta secção com um estudo sobre a gastronomia tradicional do bairro da Mafalala em Maputo (Moçambique). No trabalho “A Valorização da Gastronomia Tradicional na Mafalala e o Seu Impacto no Turismo da Cidade de Maputo”, estas autoras analisam a importância do turismo gastronómico para o desenvolvimento local, propondo um conjunto de pratos e bebidas a serem explorados e valorizados no contexto turístico da cidade de Maputo (e.g., badjia, mathapa). Este estudo propõe-se contribuir para a promoção da dimensão histórica, cultural e turística da região, através dos sabores e aromas das iguarias locais. Acima de outros aspetos, esta prática gastronómica é fonte essencial de rendimento para muitas mulheres do bairro.
11CULTURAS E TURISMO A última secção deste livro intitula-se “Roteiros e Paisagens Turísticos” e conta com cinco textos. Carlos Estrela Brito e Sandra Manuel Estrela Brito apresentam “Explorações e Impactos do Turismo. Moçambique Como Roteiro Turístico Internacional”. Trata-se de um estudo em que Moçambique é encarado como um destino internacional, com um fluxo turístico apreciável, comprovado pelo seu impacto a nível sociocultural, económico e ambiental. Concluem os autores que este fenómeno deve ser discutido e aprofundado. Depois, Magno Angelo Kelmer e Annaelise Fritz Machado apresentam o trabalho “A Relação Dialética Turistas/Moradores em Baependi (Minas Gerais): Percepções Diferentes Sobre a Mesma Produção Socioespacial”. Os autores analisam neste estudo a presença da atividade turística religiosa no Município de Baependi, no sul do Estado de Minas Gerais (Brasil), onde viveu Nhá Chica, beatificada por Roma, em 2013. Além disso, procuram compreender o processo de reprodução do espaço, assim como o modo da sua reprogramação para a mercantilização e o consumo. No trabalho que se segue, intitulado “Paisagens Culturais e Património da Mafalala: A Casa de Eusébio”, Dulámito Ardichir Aminagi reflete sobre as razões que levam a que aquele lugar, em ruínas, seja considerado como património e estruture a memória coletiva do bairro, alimentando a história do bairro da Mafalala. No texto seguinte, Annaelise Fritz Machado, Magno Angelo Kelmer e Zilpa Helena Lovisi de Abreu discutem o desenvolvimento da atividade turística na cidade de Capitólio, Minas Gerais (Brasil). Os autores conduziram uma investigação qualitativa, com uma amostragem não probabilística, entrevistando os moradores locais, assim como os representantes do poder público e das forças vivas locais, com o intuito de apresentar as atrações turísticas e as opções de lazer existentes na cidade. A finalizar Culturas e Turismo: Reflexões Sobre o Património, as Artes e a Comunicação Intercultural, José Francisco Marcos Manjate e J. M. Vilas-Boas da Silva apresentam um estudo de caso na empresa Petróleos de Moçambique, tendo como unidades de análise o negócio, a estrutura e os sistemas de informação. Agradecimentos Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto UIDB/00736/2020. É ainda apoiado no âmbito da “Knowledge for Development Initiative”, pela Rede Aga Khan para o Desenvolvimento e pela FCT - Fundação para a Ciência e Tecnologia, IP (n.º 333162622) no contexto do projeto Memories, cultures and identities: how the past weights on the present-day intercultural relations in Mozambique and Portugal? Referências Smith, M., & Richards, G. (2013). The Routledge handbook of cultural tourism. Routledge. Williams, R. (1958). Culture and society: 1780-1950. Penguin.