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Interesses e preocupações de crianças e jovens: Os seus mundos nas suas próprias palavras

Pereira, Sara; Brandão, Daniel; Mourão, Marisa

Abstract

As crianças e os jovens são fontes privilegiadas e competentes para dar a conhecer as suas visões sobre o mundo. Escutá-las é fundamental para criar e expandir conhecimento sobre os seus mundos sociais e culturais e o seu bem-estar. Partindo deste pressuposto, este artigo visa conhecer os interesses e preocupações de uma amostra de 1131 estudantes a frequentar o 6.º, o 9.º e o 12.º anos. Os dados foram recolhidos através da aplicação de um questionário em 26 agrupamentos de escolas de Portugal continental. Os resultados mostram que as crianças e os jovens da amostra atribuem uma importância significativa aos media, conferindo-lhes um lugar de destaque nas suas vidas. Os media são apontados como motivo de interesse e de alegria, mas não são uma fonte de preocupação. A saúde surge como um dos assuntos que mais os preocupa, assumindo a incerteza face ao futuro uma preocupação para os mais velhos. A política é um assunto que gera pouco interesse e preocupação.

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INTERESSES E PREOCUPAÇÕES DE CRIANÇAS E JOVENS Os seus mundos nas suas próprias palavras Sara Pereira Universidade do Minho, Instituto de Ciências Sociais, Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Braga, Portugal Daniel Brandão Universidade do Minho, Instituto de Ciências Sociais, Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Braga, Portugal Marisa Mourão Universidade do Minho, Instituto de Ciências Sociais, Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Braga, Portugal Resumo As crianças e os jovens são fontes privilegiadas e competentes para dar a conhecer as suas visões sobre o mundo. Escutá-las é fundamental para criar e expandir conhecimento sobre os seus mundos sociais e culturais e o seu bem-estar. Partindo deste pressuposto, este artigo visa conhecer os interesses e preocupações de uma amostra de 1131 estudantes a frequentar o 6.º, o 9.º e o 12.º anos. Os dados foram recolhidos através da aplicação de um questionário em 26 agrupamentos de escolas de Portugal continental. Os resultados mostram que as crianças e os jovens da amostra atribuem uma importância significativa aos media, conferindo-lhes um lugar de destaque nas suas vidas. Os media são apontados como motivo de interesse e de alegria, mas não são uma fonte de preocupação. A saúde surge como um dos assuntos que mais os preocupa, assumindo a incerteza face ao futuro uma preocupação para os mais velhos. A política é um assunto que gera pouco interesse e preocupação. Palavras-chave: crianças, jovens, media, interesses, preocupações, bem-estar. Children and young people’s interests and concerns: their worlds in their own words Abstract Children and young people are privileged and competent sources for making their visions of the world known. Listening to them is fundamental to creating and expanding knowledge about their social and cultural worlds and their well-being. Based on this assumption, this article aims to find out about the interests and concerns of a sample of 1131 students attending 6th, 9th and 12th grade. The data was collected by applying a questionnaire in 26 school groups in mainland Portugal. The results show that the young people in the sample attribute significant importance to the media, giving them a prominent place in their lives. The media is mentioned as a source of interest and joy, but not as an object of concern. Health emerges as one of the issues that worries them most, while uncertainty about the future is a concern for older ones. Politics is a subject that is of little interest or concern to them. Keywords: children, young people, media, interests, concerns, well-being. Intérêts et préoccupations des enfants et des jeunes: leur monde dans leurs propres mots Résumé Les enfants et les jeunes sont des sources privilégiées et compétentes pour faire connaître leur vision du monde. Les écouter est fondamental pour créer et développer des connaissances sur leur univers social et culturel et sur leur bien-être. Partant de cette hypothèse, cet article vise à découvrir les intérêts et les préoccupations d’un échantillon de 1131 élèves de 7ème,4 ème et 1ère e année. Les données ont été collectées par l’application d’un questionnaire dans 26 groupements scolaires du Portugal continental. Les résultats montrent que les jeunes de l’échantillon accordent une importance significative aux médias, leur donnant une place prépondérante dans leur vie. Les médias sont perçus comme une source d’intérêt et de joie, mais pas comme un objet de préoccupation. La santé apparaît comme l’un des sujets qui les préoccupent le plus, SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 108, 2025, pp.1-21, e202510839710, DOI: 10.7458/SPP202510839710 tandis que l’incertitude quant à l’avenir préoccupe les élèves plus âgées. La politique est un sujet qui les intéresse et concerne peu. Mots-clés: enfants, jeunes, médias, intérêts, préoccupations, bien-être. Intereses y preocupaciones de los niños y jóvenes: sus mundos en sus propias palabras Resumen Los niños y los jóvenes son fuentes privilegiadas y competentes para dar a conocer sus visiones del mundo. Escucharlos es fundamental para crear y ampliar el conocimiento sobre su mundo social y cultural y su bienestar. Partiendo de este supuesto, este artículo pretende conocer los intereses y preocupaciones de una muestra de 1131 alumnos de 6.º, 9.º y 12.º curso. Los datos se recogieron mediante la aplicación de un cuestionario en 26 agrupaciones escolares de Portugal continental. Los resultados muestran que los niños y los jóvenes de la muestra atribuyen una importancia significativa a los medios de comunicación, otorgándoles un lugar destacado en sus vidas. Los medios de comunicación se consideran una fuente de interés y alegría, pero no una fuente de preocupación. La salud aparece como uno de los temas que más les preocupa, y la incertidumbre sobre el futuro preocupa a los alumnos mayores. La política es un tema que les interesa y les preocupa poco. Palabras-clave: niños, jóvenes, medios de comunicación, intereses, preocupaciones, bienestar. Nota introdutória: as crianças e os jovens como fontes privilegiadas de informação As culturas infantis, apesar de serem reflexo da cultura da sociedade em geral e de sedesenvolveremnasocialização comosadultos,apresentamespecificidadespróprias(Sarmento,2004).Ascriançassãovistascomosujeitosativos naproduçãodas suas próprias culturas e não como recetáculos passivos das culturas dos adultos (Sarmento,2007).Elasconstroemsignificadosprópriossobreocontextoemqueestão inseridas, têm capacidade de produção simbólica e de constituição das suas representações e crenças (Sarmento e Pinto, 1997). São, por isso, fontes privilegiadas parao conhecimentodosseusmundos.Nessesentido,maisdoquereconhecerque assuas visõeseopiniõesdevemconsideradas,importa reconhecerque têmessedireito, ou seja, têm o direito de expressar e de partilhar as suas visões sobre o mundo.Escutarassuas vozesé,portanto, essencial para (re)conhecer osseusmundose para concretizar os seus direitos. A aprovação da Convenção sobre os Direitos da Criança, em 1989, marcou umaviragemnaformadeolharparaoestatutodascrianças.ComorefereAlmeida, “inauguraumanova representação da criança econsagraoprincípiodo seu ‘superior interesse’” (2016: 20-21), dando visibilidade e importância à ideia de criança-cidadão (Pereira, 2000). Assiste-se a uma “apresentação pública de uma criança participativa,umacriança-sujeitoqueseimpõe,agora,comointerlocutorativodos seus educadores adultos” (Almeida, 2016: 21). Às crianças são atribuídas diferentes categorias de direitos, nomeadamente, o direito à participação (Comité Português para a UNICEF, 2019), aplicável hoje também aos ambientes digitais (Committee on the Rights of the Child, 2021). Destaca-se,naquelacategoria,odireitoaexpressarasuaopiniãoequeestasejatidaem consideração nos assuntos que as afetam (artigo 12.º). 2Sara Pereira, Daniel Brandão e Marisa Mourão SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 108, 2025, pp.1-21, e202510839710, DOI: 10.7458/SPP202510839710 Aatribuição de direitos parece, contudo, não ser suficiente. Apartir dos resultados de um inquérito respondido por 11834 crianças e jovens, no quadro da iniciativa “Tenho Voto na Matéria” da UNICEF Portugal, essa ideia é clara: “as crianças têm direito a expressar os seus interesses e preocupações e de estes serem tidos em consideração pelos adultos, mas 70% continua a afirmar que não tem essa oportunidade” (UNICEF Portugal, 2023: 3). Mesmo no quadro de uma culturaparticipativa, “com barreiras relativamentebaixas para a expressão artística e o envolvimento cívico” (Jenkins, 2009: 5), possibilita-se, mas não se assegura,queasvozessejamproferidas,escutadas,reproduzidasepartilhadas(Pereira, Brandão e Pinto, 2021). Encarando as crianças como seres no presente e não adultos em construção (Lee, 2001; Pereira, 2013), como protagonistas e atores sociais competentes e com direitos, em linha com o que a sociologia da infância tem procurado reconhecer, esteartigoanalisaasperspetivasde1131criançasejovenscomidadescompreendidas entre os 11 e os 19 anos, a frequentar os 6.º, 9.º e 12.º anos, sobre os seus interesses e preocupações, as suas alegrias e tristezas. Pretende-se,comestesdados,expandiroconhecimentosobreosmundosdas crianças e dos jovens, ligando-os com o seu bem-estar, assim como contribuir para a tomada de decisão e a concretização dos direitos dos mais jovens. A voz das crianças e dos jovens e o seu bem-estar Oconceitode“bem-estar”éumconstructonãoconsensualecontestado,cujasdefiniçõessãofrequentemente descritivas(WoodeSelwyn, 2017). Deacordocom Rees et al. (2010: 8), “não existe uma definição consensual do termo ‘bem-estar’, no entanto, é geralmente definido como um conceito abrangente relativo à qualidade de vida das pessoas”. Shah e Marks (2004: 2) definem-no da seguinte forma: “o bem-estar é mais do que apenas felicidade. Para além de se sentir satisfeito e feliz, o bem-estar significa desenvolver-se como pessoa, sentir-se realizado e dar um contributo para a comunidade”. Ainda segundo os autores, o bem-estar é influenciadopelospais (pelagenéticafamiliar); pelascircunstânciasda vida(salário,local onde se vive e outros fatores externos, como o clima); bem como pelas atividades quotidianas (amizade, envolvimento com a comunidade, desporto e tempo livre) (Shah e Marks, 2004). As abordagens que propõem a medição do bem-estar assentam em dois tipos de dados: (1) medidas factuais objetivas (como os resultados escolares) e (2) bem-estar subjetivo (Wood e Selwyn, 2017). Neste campo, é ainda comum a distinção entre bem-estar subjetivo e psicológico, incluindo este último o sentido de propósito ou significado e crescimento pessoal (Rees et al., 2010). O bem-estar subjetivo “refere-se à forma como as pessoas avaliam a sua vida, tantoemgeralcomoemdomíniosespecíficos(família,amigos,temposlivres,etc.)” (Navarro et al., 2017: 176). De acordo com Rodríguez-Pose et al. (2024: 312), “julgamentos individuais e subjetivos sobre a satisfação com a vida e reações emocionais (positivasenegativas)aosacontecimentosdavida”definemobem-estarsubjetivo. INTERESSES E PREOCUPAÇÕES DE CRIANÇAS E JOVENS 3 SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 108, 2025, pp.1-21, e202510839710, DOI: 10.7458/SPP202510839710 Tal como referem Navarro et al. (2017: 176), “hoje, existe um consenso de que não é possível determinar o bem-estar subjetivo das crianças e dos adolescentes sem lhes perguntar sobre isso diretamente”. A sua caracterização implica então uma autoavaliação (Diener, 1994; Rodríguez-Pose et al., 2024), neste caso, da criança: éa avaliaçãoda satisfação com avida eda felicidadepelas própriascrianças. Foiderivado do termo genérico “bem-estar infantil” e foi recentemente abordado por vários académicos como um indicador positivo do estatuto das crianças (Lippman et al., 2011).Em comparação comos quadrosanterioressobre o bem-estardas crianças,que se centravam na sobrevivência, nas necessidades básicas e na identificação de fatores derisco negativos,a investigação recentedestacou aimportância deenfatizar osfatores positivos e as avaliações subjetivas da qualidade de vida global das crianças, em vez de se basear em avaliações definidas pelos adultos (Casas, 2011). (Park, Jung e Han, 2023: 16802) Falar de bem-estar subjetivo das crianças é falar das suas próprias perceções sobre as suas vidas e o seu bem-estar (Andresen, Bradshaw e Kosher, 2019). Os estudos neste domínio consideram diferentes dimensões: família, amigos, bens, vida escolare,maisrecentemente,osefeitosdastecnologias,entreoutros(Gündogan,2022). Comefeito,sãováriososfatorescomimpactonobem-estarsubjetivodascrianças, que vão desde uma rede de apoio (familiar, de amigos, escola e comunidade), às condições de vida, idade, género e ambiente cultural específico (Rodríguez-Pose et al.,2024).Talcomonocasodosadultos,asrelaçõesinterpessoaissãoumimportantefatorpara obem-estarsubjetivo dascriançaseadolescentes, nãosepodendo ignorar as relações estabelecidas através das tecnologias audiovisuais (Casas, 2011). Aliás, já em 2011, Casas referia que estas teriam, possivelmente, um papel mais importante nas culturas infantis e juvenis do que nas culturas dos adultos. Quando se procura conhecer a perceção que os mais jovens têm do seu próprio bem-estar e o que o influencia, percebe-se que a família e os amigos são, de facto, elementosessenciais(Navarroet al., 2017).Reportamo-nosaqui a umestudoem torno da realidade espanhola, com participantes entre os 10 e os 15 anos (Navarro et al., 2017). Na definição e nos fatores que contribuem para o bem-estar subjetivo encontram-se, em todas as idades, as relações familiares e com os amigos e a saúde. No que diz respeito aos fatores que reduzem o bem-estar subjetivo, também aparecem, em todas as idades,asrelaçõescomafamíliaeosamigos.Aqui,surgemaindaosaspetosrelacionadoscoma escola.Viver situaçõesnegativascoma família(doença,morte, discussões ou divórcio) ou com os amigos (discussões, mal-entendidos, críticas, insultos, os amigos não estarem ao seu lado quando precisam ou terem uma influêncianegativa)afeta-osnegativamente.Naescola,afetanegativamenteoseu bem-estar“(i)termásnotas;(ii)estudarmuitoenãoseraprovado;(iii)apressão dos pais para estudarem; e (iv) ter muitos exames e trabalhos de casa” (Navarro et al.,2017:181).Considerandotambémoutrosfatoresqueosafetampositivaou negativamente, apesar de não serem comuns a todas as faixas etárias, são mencionados: sentir-se bem consigo mesmo, aspirações/objetivos pessoais, jogar e 4Sara Pereira, Daniel Brandão e Marisa Mourão SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 108, 2025, pp.1-21, e202510839710, DOI: 10.7458/SPP202510839710 divertir-se com as tecnologias, relações interpessoais no geral e necessidades básicas (como comida, bebida e uma casa). Embora neste artigo não esteja em causa a avaliação do bem-estar subjetivo das crianças e dos jovens, consideramos que analisar os assuntos que geram preocupação ou interesse, bem como tristeza ou alegria, nos pode dar pistas importantesparaentenderasua(in)satisfaçãocomassuasvidas eoseubem-estarsubjetivo. É a partir desta ideia que formulamos a questão de investigação que orienta este trabalho: “que interesses e que preocupações expressam crianças e jovens entre os 11 e os 19 anos?” Na secção seguinte descrevemos os métodos que orientaram esta parte do estudo. Métodos Reconhecendo a necessidade e a importância de ouvir as crianças e os jovens para conhecer os seus mundos e os assuntos que lhes dizem respeito, encarando-as como seres sociais competentes e cidadãos com direitos, este artigo tem por base uma amostra constituída por 1131 crianças e jovens com idades entre os 11 e os 19 anos de idade, a frequentar o 6.º, o 9.º e o 12.º anos em escolas públicas nacionais. Partindo da questão “que interesses e que preocupações expressam crianças e jovens entre os 11 e os 19 anos?”, pretende-se conhecer e analisar o que, no mundo atual, preocupa e interessa as crianças e os jovens da amostra. Esteestudo,que integraoprojeto deinvestigação“bYou: Estudo das vivências e expressões de crianças e jovens sobre os media”, financiado pela FCT, tem por base dados provenientes de um questionário digital aplicado a nível nacional. Para a sua aplicação foi solicitada autorização à Direção-Geral da Educação e às direções dos agrupamentos de escolas. Foi também solicitado consentimento aos próprios participantes e aos seus encarregados de educação, através do preenchimento de um consentimento informado disponibilizado e enviado previamente. Seguindo uma técnica de amostragem não probabilística, o questionário foi distribuído por alunos de 26 agrupamentos de escolas de 23 unidades territoriais de Portugal continental. Os critérios de seleção tiveram em consideração as NUTS III,1tendo-secontempladomaistrêsagrupamentos:umdacidadedeBraga,porser o local onde se desenvolve o estudo; outro da área metropolitana do Porto e outro da área metropolitana de Lisboa. O questionário, aplicado no primeiro semestre de 2022, totalizou uma amostra de 1131 crianças e jovens dos 11 aos 19 anos,2de 78 turmas (26 do 6.º, 26 do 9.º, 26 do 12.º). Acaracterização da amostra é apresentada no quadro 13eno quadro 2. INTERESSES E PREOCUPAÇÕES DE CRIANÇAS E JOVENS 5 1 2 Considerou-se a nomenclatura das unidades territoriais para fins estatísticos vigente à data de execução do estudo. Nos questionários, apenas 1,7% da amostra tem 19 anos. A distribuição das idades é a seguinte: 11 anos 20,9%; 12 anos 9,9%; 13 anos 1,1%; 14 anos 21,8%; 15 anos 8,8%; 16 anos 2,0%; 17 anos 23,1%; 18 anos 10,8%; 19 anos 1,7%. SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 108, 2025, pp.1-21, e202510839710, DOI: 10.7458/SPP202510839710 A análise estatística dos questionários foi realizada recorrendo ao software IBM SPSS Statistics. A codificação das perguntas abertas (relativas aos assuntos que provocam mais tristeza e aos que provocam mais alegria) foi realizada após a leitura de todas as respostas dadas pelos inquiridos e originou a criação de categorias. Estas, depois de submetidas a um processo de validação interna interpares, foram tratadas e analisadas com recurso ao SPSS. Sempre que se revele oportuno, e como forma de aprofundar a informação obtida, estes dados são confrontados/complementados com os resultados de 59 grupos de foco realizados com uma subamostra de participantes que preencheram o questionário. Os grupos focais foram realizados em oito agrupamentos de escolas de Portugal continental, envolvendo 390 alunos: 127 do 6.º ano, 136 do 9.º ano e 127 do 12.º ano. Destes, 206 são raparigas e 184 são rapazes. Resultados Nos seus tempos livres, as crianças e os jovens apreciam sobretudo realizar atividades que envolvem os media, nas quais se incluem ouvir música, ver séries, filmes, documentários, ir ao cinema, jogar videojogos, etc. (44,2% das respostas), bem como atividades desportivas, de passeio e ar livre (35,7%). No 6.º ano, este último tipo de atividades tem mais expressão do que aquelas realizadas com os media, reduzindo-se 6Sara Pereira, Daniel Brandão e Marisa Mourão Ano Rapariga Rapaz Prefiro não dizer Total 6.º ano 185 160 12 357 9.º ano 180 182 14 376 12.º ano 259 131 08 398 Total 624 473 34 11310 Quadro 1 Caraterização da amostra por ano de escolaridade e sexo Ano Média Mediana Desvio--padrão Mínimo Máximo 6.º ano 11,4 11 0,6 11 14 9.º ano 14,4 14 0,7 13 18 12.º ano 17,4 17 0,6 17 19 Total 14,5 14 2,5 11 19 Quadro 2 Caraterização da idade por ano de escolaridade 3A opção “prefiro não dizer” relativamente ao sexo não foi contemplada nos cruzamentos de variáveis já que apenas foi selecionada por 3,0% da amostra, tornando o teste não fiável. Por este motivo, também não é considerada na apresentação de resultados. SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 108, 2025, pp.1-21, e202510839710, DOI: 10.7458/SPP202510839710 INTERESSES E PREOCUPAÇÕES DE CRIANÇAS E JOVENS 7 6.º ano 9.º ano 12.º ano Total Atividades com os media 39,4 45,8 46,7 44,2 Atividades culturais e artísticas 13,4 13,1 10,8 12,4 Atividades de rotina diária 02,6 03,5 00,8 2,2 Atividades desportivas, de passeio e ar livre 43,1 35,4 29,4 35,7 Atividades escolares e extraescolares 01,1 00,8 00,8 00,9 Conviver com família, amigos, colegas e namorado 07,1 13,7 18,6 13,4 Jogos e outras atividades lúdicas 05,7 01,6 01,5 02,9 Outro 02,0 01,1 01,5 01,5 Nota: Pergunta de resposta múltipla (% dos casos válidos; n = 1121). este interesse à medida que o ano de escolaridade avança. Por oposição, a preferência por atividades com os media tende a crescer com o ano de escolaridade (logo, a idade). Conviver com a família, os amigos e os colegas surge em terceiro lugar, mas com uma percentagem bem mais reduzida (13,4%). A preferência por esta convivência aumenta nos anos de escolaridade mais avançados. Já o interesse por atividades culturais e artísticas reduz-se entre os mais velhos. As atividades escolares e extraescolares surgem mencionadas como preferidas por um grupo muito residual de inquiridos (0,9%). O quadro 3 apresenta estes dados. Relativamente às diferenças entre rapazes e raparigas, será de destacar, entre os rapazes, a maior expressão das atividades desportivas, de passeio e ar livre (48,7% dos rapazes e 26,7% das raparigas) face às atividades com os media (39,1% dos rapazes e 47,3% das raparigas). As preferências dos rapazes estão mais concentradas nas atividades com os media e atividades desportivas, de passeio e ar livre, havendo uma maior dispersão das preferências das raparigas entre as restantes opções. Entre os assuntos de que mais falam com os amigos, os media e os amigos estão em destaque, com uma dispersão pouco significativa das respostas. A partir da média das respostas (numa escala de1a5pontos) (ver quadro 4), percebe-se que depois de conversas sobre dois agentes determinantes no contexto das suas vidas — os pares (4,15) e a escola (3,94) — seguem-se os media, primeiro numa dimensão que podemos entender como mais associada ao entretenimento (séries - 3,78), mas também numa outra formativa/informativa (por exemplo, notícias/assuntos da atualidade - 3,58). As conversas sobre a família (3,52) surgem depois das séries (3,78), tecnologia e media (internet, redes sociais, televisão, rádio, jornais, etc. - 3,77), filmes (3,72), música (3,58) e notícias/assuntos da atualidade (3,58). No caso dos rapazes, o lugar dos media é ainda mais expressivo: os videojogos (4,00), o desporto (3,74) e a tecnologia e media (3,73) surgem como como temáticas ligeiramente mais frequentes nas suas conversas do que a escola (3,68). Os distintos media não recebem o mesmo nível de interesse nas conversas. Em pólos opostos encontram-se as séries (3,78), abordadas com maior frequência, e as Quadro 3 Atividades que as crianças e os jovens da amostra mais gostam de fazer nos tempos livres, por ano de escolaridade (em %) SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 108, 2025, pp.1-21, e202510839710, DOI: 10.7458/SPP202510839710 telenovelas, com menor (2,04), sendo de notar um maior interesse das raparigas (2,33) por este último tipo de conteúdo do que dos rapazes (1,70). As notícias acolhem algum interesse nos alunos do 12.º ano, ocupando o terceirolugardosassuntosmaisfaladoscomosamigos(3,97).Omesmoacontececom a política, embora de forma menos expressiva (2,90). Os dados recolhidos no âmbito dos grupos de foco reforçam a importância dos media, mas também das atividades desportivas e artísticas. Os media são comentadossobretudonumavisão positiva,sendo porvezesapresentadoscomo um modode ultrapassaroudeevasãodeproblemas, oque nãosignifica queignorema existência de dimensões negativas. Entre as atividades desportivas e artísticas, surgem mais frequentemente as desportivas, com grande variedade. Estas também são algumas vezes apresentadas como um modo de ultrapassar ou de fugir de problemas e de alcançar o bem-estar. O tema da guerra assume particular destaque nos resultados dos grupos de foco, sendo de notar que estes foram realizados pouco tempo depois do início da guerra na Ucrânia (24 de fevereiro de 2022). 8Sara Pereira, Daniel Brandão e Marisa Mourão 6.º ano 9.º ano 12.º ano Total da amostra Valor-p N M DP N M DP N M DP N M DP Amigos 357 4,18 1,00 376 4,13 0,89 398 4,13 0,86 1131 4,15 0,92 0,133 Escola 357 3,84 1,13 376 3,86 1,00 398 4,10 0,86 1131 3,94 1,00 0,003 Séries 357 3,73 1,05 376 3,80 1,08 398 3,81 0,95 1131 3,78 1,02 0,460 Tecnologia e meios de comunicação 357 3,79 1,09 376 3,79 1,03 398 3,72 0,95 1131 3,77 1,02 0,182 Filmes 357 3,71 1,03 376 3,72 1,06 398 3,72 0,94 1131 3,72 1,01 0,952 Música 357 3,35 1,17 376 3,6 1,02 398 3,76 0,97 1131 3,58 1,06 0,000 Notícias/ assuntos da atualidade 357 3,23 1,18 376 3,5 1,11 398 3,97 0,86 1131 3,58 1,09 0,000 Família 357 3,54 1,19 376 3,46 1,07 398 3,55 1,00 1131 3,52 1,09 0,310 Celebridades/ influenciadores digitais 357 3,62 1,22 376 3,51 1,11 398 3,28 1,08 1131 3,46 1,14 0,000 Desporto 357 3,45 1,14 376 3,44 1,09 398 3,29 1,16 1131 3,39 1,13 0,092 Namorados/ namoradas 357 3,06 1,36 376 3,48 1,22 398 3,51 1,06 1131 3,36 1,23 0,000 Viagens 357 2,91 1,11 376 3,1 1,08 398 3,58 1,02 1131 3,21 1,10 0,000 Saúde 357 3,22 1,25 376 3,04 1,05 398 3,32 0,98 1131 3,20 1,10 0,001 Aparência física/ beleza 357 2,90 1,3 376 3,31 1,15 398 3,37 1,05 1131 3,20 1,18 0,000 Videojogos 357 3,50 1,32 376 3,31 1,36 398 2,60 1,32 1131 3,12 1,39 0,000 Sexualidade 357 2,33 1,21 376 3,12 1,24 398 3,40 1,02 1131 2,97 1,24 0,000 Moda 357 2,66 1,35 376 2,90 1,32 398 3,09 1,21 1131 2,89 1,30 0,000 Gastronomia/ alimentação 357 2,72 1,26 376 2,78 1,13 398 3,00 1,09 1131 2,84 1,16 0,001 Questões ambientais 357 2,88 1,06 376 2,62 1,01 398 2,93 0,95 1131 2,81 1,01 0,000 Artes e espetáculos 357 2,64 1,19 376 2,47 1,10 398 2,58 1,03 1131 2,56 1,11 0,073 Política 357 1,91 1,05 376 2,15 1,06 398 2,90 1,08 1131 2,34 1,15 0,000 Religião 357 2,20 1,19 376 2,09 1,02 398 2,22 0,95 1131 2,17 1,05 0,066 Telenovelas 357 2,08 1,19 376 1,98 1,16 398 2,07 1,14 1131 2,04 1,16 0,248 Nota. N = número válido de casos; M = média; DP = desvio padrão; escala de Likert: 1 = nuncaa5=sempre; resultados de acordo com o teste não paramétrico de Kruskal-Wallis a 95% de confiança com a correção de Bonferroni (os valores estatisticamente significativos estão assinalados a negrito). Quadro 4 Assuntos de que as crianças e os jovens falam com os amigos, por ano de escolaridade SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 108, 2025, pp.1-21, e202510839710, DOI: 10.7458/SPP202510839710 Regressando novamente aos questionários, os resultados evidenciam a saúde como o assunto que mais preocupa (4,54), gerando um grau de preocupação ligeiramente superior nos alunos do 6.º ano (quadro 5). Este resultado estará relacionadocomapandemiadeCovid-19aindaaservividanomomentodeaplicaçãodosquestionários.Osgruposdefoco,realizadosjánumperíododedesconfinamento, confirmaram esta perceção. Os participantes falaram do receio pela sua saúde e dos seus familiares, em particular dos seus avós. Mas falaram também muito da sua saúde mental, mostrando-se preocupados por não ser um assunto muito debatido nem valorizado. Ainda nos primeiros lugares, há uma preocupação com o futuro profissional (4,48), racismo (4,29), crime e violência (4,28) e direitos humanos (4,23). Entre os cincoassuntosmaisexpressivos,no casodas raparigas,estãoa saúde(4,59), ofuturo profissional (4,58), depressão e ansiedade (4,51), o racismo (4,51) e crime e violência (4,49). No caso dos rapazes, surgem nas primeiras cinco posições a saúde (4,48),ofuturoprofissional(4,37),ocrimeeaviolência(4,02),odesemprego(4,00)e o racismo (4,00). Como se pode verificar, a saúde e o futuro profissional são INTERESSES E PREOCUPAÇÕES DE CRIANÇAS E JOVENS 9 6.º ano 9.º ano 12.º ano Total Valor-p N M DP N M DP N M DP N M DP Saúde 357 4,71 0,70 376 4,44 0,83 398 4,48 0,78 1131 4,54 0,78 0,000 Futuro profissional 357 4,38 0,92 376 4,44 0,82 398 4,61 0,71 1131 4,48 0,82 0,001 Racismo 357 4,32 0,85 376 4,20 0,94 398 4,33 0,79 1131 4,29 0,86 0,149 Crime e violência 357 4,41 0,86 376 4,16 0,93 398 4,29 0,82 1131 4,28 0,87 0,000 Direitos humanos 357 4,24 0,89 376 4,10 0,89 398 4,36 0,81 1131 4,23 0,87 0,000 Liberdade de expressão 357 4,23 1,02 376 4,09 1,01 398 4,30 0,92 1131 4,21 0,99 0,008 Pobreza 357 4,39 0,87 376 3,98 1,04 398 4,24 0,88 1131 4,20 0,95 0,000 Desemprego 357 4,16 1,01 376 4,04 1,01 398 4,35 0,82 1131 4,18 0,96 0,000 Depressão/ ansiedade 357 4,17 1,10 376 3,98 1,15 398 4,35 0,90 1131 4,17 1,06 0,000 Guerra 357 4,21 1,03 376 4,00 1,07 398 4,25 0,90 1131 4,15 1,01 0,002 Desigualdades sociais 357 4,20 0,97 376 3,99 0,99 398 4,24 0,86 1131 4,14 0,94 0,001 Questões ambientais/ alterações climáticas 357 4,21 0,99 376 3,88 0,96 398 4,12 0,88 1131 4,07 0,95 0,000 Solidão/ isolamento social 357 4,18 0,98 376 3,85 1,12 398 4,02 1,01 1131 4,01 1,05 0,000 Cyberbullying 357 4,28 0,94 376 3,85 1,09 398 3,87 0,99 1131 3,99 1,03 0,000 Escola 357 4,15 0,99 376 3,70 1,11 398 3,95 1,04 1131 3,93 1,06 0,000 Falta de aceitação por parte de amigos 357 4,26 1,07 376 3,81 1,24 398 3,65 1,29 1131 3,90 1,23 0,000 Drogas 357 4,16 1,21 376 3,70 1,21 398 3,30 1,24 1131 3,70 1,27 0,000 Discursos de ódio online 357 3,77 1,10 376 3,48 1,18 398 3,74 1,05 1131 3,66 1,12 0,001 Desinformação/ notícias falsas 357 3,57 1,09 376 3,20 1,05 398 3,52 0,98 1131 3,43 1,05 0,000 Conflitos políticos, sociais ou religiosos 357 3,22 1,18 376 3,27 1,10 398 3,67 1,01 1131 3,40 1,11 0,000 Álcool 357 3,90 1,23 376 3,30 1,20 398 2,91 1,21 1131 3,35 1,28 0,000 Política 357 2,69 1,21 376 2,80 1,19 398 3,43 1,08 1131 2,99 1,20 0,000 Nota. N = número válido de casos; M = média; DP = desvio padrão; escala de Likert: 1 = não me preocupa nada a 5 = preocupa-me muitíssimo; resultados de acordo com o teste não paramétrico de Kruskal-Wallis a 95% de confiança com a correção de Bonferroni (os valores estatisticamente significativos estão assinalados a negrito). Quadro 5 Assuntos que preocupam as crianças e os jovens da amostra, por ano de escolaridade SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 108, 2025, pp.1-21, e202510839710, DOI: 10.7458/SPP202510839710 bem como o desgaste físico e psicológico que sentem. A este respeito, são notórias algumas falas, pelo nível de reflexão que denotam, nomeadamente esta de uma aluna de 12 anos, do 6.º ano de escolaridade: “os professores preocupam-se mais com as notas do que com a saúde dos alunos”. Ou esta de um aluno de 15 anos, do 9.ºano:“aquinaescolanóssomosquasevistoscomonúmeros,porquenãopensam emnóscomocadapessoa quenós somos”.Ouainda esta,de umaalunade 18anos, do 12.º ano: “a saúde mental devia ser discutida mais na escola. Os professores deviamtermaisconsideraçãopelo factodeocontextoda escolapoderperturbar-nos. Eu tenho muito stresse com a escola”. A saúde mental, que os jovens consideram que é colocada em risco pelo stresse causado pela instituição escolar, surge como uma das suas preocupações mais constantes, associada à depressão e à ansiedade que muitos dizem viver. Como foco de preocupações, surgem assuntos que marcam a atualidade e a agenda mediática à data da realização do estudo, nomeadamente a saúde (relacionado com a pandemia Covid-19) e a guerra (na Ucrânia). Curiosamente, considerando que, “nos últimos anos, o movimento juvenil para as alterações climáticas ganhou um destaque extraordinário através de greves e manifestações escolares e de uma forte presença online” (Carvalho, Russill e Doyle, 2021: 9), as questões climáticas não apareceram com particular destaque. Com efeito, durante os grupos de foco, apercebemo-nos que alguns dos participantes não sabiam quem era a ativista pelo clima Greta Thunberg nem estavam a par da greveclimáticadosestudantes.Nãopodemos,aindaassim,ignoraraquelesque estavam informados a este propósito e, portanto, atender à diversidade dentro dos grupos. Como nos recordam Rebelo et al. (2023: 21), num outro estudo centrado no público juvenil, embora as questões climáticas sejam valorizadas e vistas como relevantes para as vidas dos jovens, nem todos as consideram prioritárias. Por exemplo, os jovens diretamente afetados por barreiras estruturais como a pobreza ou a discriminação social consideram outras lutas sociais e políticas mais urgentes. Para o total da amostra, a política é o assunto que menos os preocupa, aumentando ligeiramente a preocupação no 12.º ano, momento em que o seu direito ao voto começa a estar presente. Este último lugar não será propriamente surpreendente, considerando que se tem vindo a aludir a um maior défice na cultura cívica associado aos mais jovens, colocando-se, umas vezes, a tónica na sua apatia, outras, no entretimentomediático ena culturado consumoe, outrasainda, noafastamento dospolíticos das questões que preocupam os jovens e da comunicação com eles (Banaji e Buckingham, 2013). Em geral, são os estudantes mais velhos que, mesmo não tendo interesse por política, têm consciência da sua importância e se mostram preocupados com o seu próprio desinteresse. Estes jovens parecem sentir pouca motivação para serem cidadãos politicamente informados e participantes ativos na esfera política.AtendendoaestesdadoseparafraseandoBuckingham(2000:98),ficaaquestão: “há motivos significativos para preocupação quanto ao futuro da democracia”? Outra questão que estes dados também nos levantam, na linha de conclusão de 16 Sara Pereira, Daniel Brandão e Marisa Mourão SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 108, 2025, pp.1-21, e202510839710, DOI: 10.7458/SPP202510839710 Buckingham(2000:98), é se“dealguma forma, afaltade interesse pelapolíticaparece ser entendida como parte da condição de ser criança”. Um aspeto interessante a registar é o facto de os jovens não mostrarem interesse pela política, mas se mostrarem preocupados com a incerteza quanto ao futuro. Esta preocupação, naturalmente, envolve questões de natureza política, revelando também um certo pensamento político por parte dos jovens. A este respeito, vale a pena seguir a proposta de Buckingham (2000: 207), quando refere que “ao analisarmos o desenvolvimento da compreensão política, temos de adotar uma definição mais ampla de política, que reconheça as dimensões potencialmente políticas da vida ‘pessoal’ e da experiência quotidiana”. Citando de novo o autor, osjovensdesenvolvempolíticaatravésdassuasexperiências quotidianasnavidafamiliar, na escola, no bairro e no grupo de pares […]. O “lado pessoal” não é automaticamente “político”: só se torna político em virtude das formas como está ligado às preocupações e experiências de outros grupos sociais. (Buckingham, 2000: 219-220) Neste sentido, vale a pena retomar as falas dos jovens, anteriormente citadas, em quedefendiamque a política deviaserabordada e debatidanaescola. Efetivamente, este é um contexto privilegiado para trabalhar esta matéria, começando por alargar a aceção de política e entender que as decisões que são tomadas a nível da escola, da família e do município são de natureza política, e que participar delas significa envolver-se politicamente. Por último, vale a pena realçar que a apreensão, sobretudo dos jovens mais velhos,quantoaofuturo,nomeadamenteanívelprofissional,apareceligadaaproblemas de saúde mental, considerada, como já mencionado, como uma das suas preocupações. Os dados aqui apresentados permitem-nos conhecer os interesses e as preocupações dos participantes no estudo, expandindo o nosso conhecimento sobre os mundos sociais e culturais das crianças e dos jovens, a partir das suas perspetivas. Muito embora não fosse objetivo do estudo medir o bem-estar subjetivo das criançasedosjovens,os dadosrelativosaos seusinteressese àssuas preocupações,bem como aos assuntos que lhes provocam tristeza e alegria, fornecem-nos evidências sobreasatisfaçãonassuasvidastendoporbaseumconjuntodeassuntosedeatividades.Permitem-nostambémconfirmar apremissade Becchetti, Pelloni eRossetti (2008) relativa à importância de “bens relacionais” 4para a felicidade. Os resultados não esgotam os olhares sobre os seus próprios mundos, sobretudoconsiderandoaheterogeneidadeetáriaesocioeconómica.Entendemos,ainda assim, que contribuem para a construção de conhecimento sobre as suas culturas, emgeral,eoseubem-estar,emparticular,podendosubsidiaratomadadedecisões eaconcretizaçãodosdireitosdascrianças.Umadasprincipaisconclusõesdesteestudo é a importância de escutar ativamente as crianças, ouvi-las sobre os seus INTERESSES E PREOCUPAÇÕES DE CRIANÇAS E JOVENS 17 4De acordo com os autores, os bens relacionais incluem o companheirismo, o apoio afetivo, a aprovação social, a solidariedade, o sentimento de pertença e de viver a sua história, o desejo de ser amado ou reconhecido pelos outros, etc. (Becchetti, Pelloni e Rossetti, 2008: 346). SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 108, 2025, pp.1-21, e202510839710, DOI: 10.7458/SPP202510839710 interesses e preocupações. Num artigo de opinião publicado no jornal Público em 2022, a realizadora Teresa Villaverde dava conta da sua experiência de seleção de uma rapariga de 10/11 anos do interior do país para entrar no seu novo filme. Do contacto com cerca de 500 raparigas e do que viu nos vídeos que pediu a cerca de 200 (em que lhes pediu para dizer o que é que as fazia mais felizes e o que é que as preocupavamaisnofuturo),arealizadorateceualgumasreflexõesmuitopertinentes, das quais destacamos esta: “temos que as deixar falar [às crianças] do que as preocupa. Não me parece que seja facultativo, nem me parece que seja uma coisa que possa esperar. Não lhes podemos atribuir angústias e preocupações que elas talvez nem tenham, têm de ser elas a dizer-nos o que as preocupa” (Villaverde, 2022: 17). Financiamento Este trabalho é parte do projeto “bYou: Estudo das vivências e expressões de crianças e jovens sobre os media”, financiado por fundos nacionais através da FCT — Fundação para a CiênciaeaTecnologia, I.P. (PTDC/COM-OUT/3004/2020), em curso no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho. O estudo obteve parecer positivo da Comissão de Ética para a Investigação em Ciências Sociais e Humanas da Universidade do Minho (CEICSH 041/2022). Referências bibliográficas Almeida, Ana Nunes de (2016), Para Uma Sociologia da Infância. Jogos de Olhares, Pistas para a Investigação, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais. Andrade, Belén, Ignacio Guadix, Antonio Rial, e Fernando Suárez (2021), Impacto de la Tecnología en la Adolescencia. Relaciones, Riesgos y Oportunidades, Madrid, UNICEF España, disponível em: https://www.unicef.es/publicacion/impacto-de-la-tecnologia-en-la-adolescencia (ultima consulta em julho de 2025). 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E-mail: [email protected] ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9978-3847 20 Sara Pereira, Daniel Brandão e Marisa Mourão Contribuições para o artigo: concetualização, curadoria dos dados, análise formal, aquisição de financiamento, investigação, metodologia, administração do projeto, supervisão, validação, redação do original, revisão e edição. SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 108, 2025, pp.1-21, e202510839710, DOI: 10.7458/SPP202510839710 Daniel Brandão. Professor auxiliar do Departamento de Ciências da Comunicação e investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, Portugal. E-mail: [email protected] ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6331-0354 Contribuições para o artigo: curadoria dos dados, investigação, aquisição de financiamento, administração do projeto, revisão e edição. Marisa Mourão. Doutoranda em Ciências da Comunicação na Universidade do Minho e assistente convidada na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Portugal. E-mail: [email protected] ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5662-3168 Contribuições para o artigo: análise formal, visualização, redação do original, revisão e edição Receção: 28/12/2024 Aprovação: 14/04/2025 INTERESSES E PREOCUPAÇÕES DE CRIANÇAS E JOVENS 21 SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 108, 2025, pp.1-21, e202510839710, DOI: 10.7458/SPP202510839710