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Internacionalização e o desempenho das empresas familiares

Ferreira, Bruna Macedo

Abstract

Para as empresas familiares (EFs), a exportação é normalmente o primeiro passo para a expansão internacional, possibilitando o crescimento e por vezes, até mesmo a sobrevivência da empresa num mercado cada vez mais globalizado e competitivo. Apesar de serem as empresas mais comuns em todo o mundo, não há um consentimento claro sobre o efeito da internacionalização no desempenho da empresa familiar. Esta dissertação permite então, através da literatura, elucidar a definição de empresa familiar, as suas particularidades a nível administrativo e ainda, os fatores que beneficiam e restringem a internacionalização do negócio familiar. Adicionalmente, de acordo com a metodologia escolhida, procura-se demonstrar evidências empíricas relacionadas entre o desempenho da EF e a sua decisão em exportar, comparando posteriormente, a mesma relação com organizações não familiares. Restringido o estudo a uma amostra de 5597 empresas dos três maiores setores da indústria transformadora em Portugal, foram considerados três modelos distintos, que por meio da regressão quantílica permitiu estudar a relação entre as diferentes variáveis ao longo dos diferentes quantis da amostra, respondendo às questões de investigação. O desempenho foi medido através do ROA, produtividade e crescimento de vendas, enquanto que a internacionalização foi medida através da intensidade de exportação.

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Bruna Macedo Ferreira Internacionalização e o desempenho das empresas familiares Dissertação de Mestrado Mestrado em Economia Industrial e da Empresa Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Natália Barbosa Novembro de 2020 iii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuic!ão-NãoComercial-SemDerivac!ões CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ iv AGRADECIMENTOS Á Professora Doutora Natália Maria Carvalho Barbosa, por ter aceite ser minha orientadora, pelo acompanhamento incansável nestes últimos meses, pelo apoio e compreensão nas fases mais atarefadas da minha vida. Á Universidade do Minho e á Escola de Economia e Gestão, por facultar todos os instrumentos necessários a realização desta dissertação. Em especial, à minha amiga Ana Cibrão pela companhia e motivação nas tardes de estudo. Por último, mas não menos importante, á minha família e amigos, por todo o carinho e suporte emocional oferecido ao longo deste processo. v DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. vi RESUMO Para as empresas familiares (EFs), a exportação é normalmente o primeiro passo para a expansão internacional, possibilitando o crescimento e por vezes, até mesmo a sobrevivência da empresa num mercado cada vez mais globalizado e competitivo. Apesar de serem as empresas mais comuns em todo o mundo, não há um consentimento claro sobre o efeito da internacionalização no desempenho da empresa familiar. Esta dissertação permite então, através da literatura, elucidar a definição de empresa familiar, as suas particularidades a nível administrativo e ainda, os fatores que beneficiam e restringem a internacionalização do negócio familiar. Adicionalmente, de acordo com a metodologia escolhida, procura-se demonstrar evidências empíricas relacionadas entre o desempenho da EF e a sua decisão em exportar, comparando posteriormente, a mesma relação com organizações não familiares. Restringido o estudo a uma amostra de 5597 empresas dos três maiores setores da indústria transformadora em Portugal, foram considerados três modelos distintos, que por meio da regressão quantílica permitiu estudar a relação entre as diferentes variáveis ao longo dos diferentes quantis da amostra, respondendo às questões de investigação. O desempenho foi medido através do ROA, produtividade e crescimento de vendas, enquanto que a internacionalização foi medida através da intensidade de exportação. PALAVRAS-CHAVES: Empresa familiar; Desempenho; Exportação; Portugal vii ABSTRACT For family businesses (FBs), export is usually the first step towards international expansion, enabling growth and sometimes even the survival of the company in an increasingly globalized and competitive market. Although they are the most common companies worldwide, there is no clear agreement on the effect of internationalization on the performance of the family business. This dissertation allows, through the literature, to elucidate the definition of family business, its particularities at administrative level and also the factors that benefit and restrict the internationalization of the family-owned business. Additionally, according to the chosen methodology, there's a seek to demonstrate empirical evidence related between the performance of FB and its decision to export, comparing later, the same relationship with non-family organizations. Restricting the study to a sample of 5597 companies from the three largest sectors of the manufacturing industry in Portugal, three different models were considered, which through quantile regression allowed to study the relationship between the different variables along the different quantiles of the sample, answering the questions research. Performance was measured through ROA, productivity and sales growth, while internationalization was measured by means of export intensity. KEY WORDS: Family firm; Performance; Export; Portugal viii ÍNDICE Capítulo I - Introdução ..................................................................................................................... 1 1.1. Enquadramento e motivação ...................................................................................... 1 1.2. Objetivo da investigação ............................................................................................... 2 1.3. Estrutura do projeto ........................................................................................................ 2 Capítulo II – Revisão da Literatura .............................................................................................. 4 2.1. Introdução ........................................................................................................................... 4 2.2. Principais teorias da internacionalização .............................................................. 4 2.3. Características particulares das empresas familiares ................................... 10 2.4. Fatores determinantes na internacionalização do negócio familiar ........ 13 2.5. A internacionalização e o desempenho das EF’s ............................................ 19 Capítulo III – Dados e Metodologia .......................................................................................... 26 3.1. Introdução ........................................................................................................................ 26 3.2. População e método de recolha dos dados ...................................................... 26 3.3. Descrição da Amostra ................................................................................................. 29 3.4. Variáveis empíricas e modelo econométrico ..................................................... 33 Capítulo IV – Análise e discussão de resultados ............................................................... 45 4.1. Introdução ........................................................................................................................ 45 4.2. Impacto da Internacionalização no desempenho das EFs .......................... 45 4.3. Análise comparativa entre indicadores de desempenho ............................. 50 Capítulo V – Conclusão ................................................................................................................. 56 5.1. Principais resultados ................................................................................................... 56 5.2. Limitações e Recomendações ................................................................................. 58 Capítulo VI – Referências Bibliográficas ................................................................................ 60 ix ÍNDICE DE TABELAS Tabela 1 - Principais teorias de internacionalização .......................................................... 8 Tabela 2 - Distribuição setorial de empresas familiares e não familiares ............. 29 Tabela 3 - Distribuição das empresas por antiguidade ................................................. 30 Tabela 4 - Distribuição das empresas por nº de trabalhadores ................................. 31 Tabela 5 - Distribuição das empresas por intensidade de exportação ................... 31 Tabela 6 - Descrição das variáveis empíricas ..................................................................... 37 Tabela 7 - Estatísticas descritivas ............................................................................................ 39 Tabela 8Matriz de correlação ................................................................................................. 43 Tabela 9 - Estimação do modelo com a variável dependente ROA .......................... 46 Tabela 10 - Estimação do modelo com a variável dependente LogProdutiv ........ 51 Tabela 11 - Estimação do modelo com a variável dependente CrescV .................. 53 6 et al., 2014). Assim, de acordo com esta teoria, as empresas selecionam os países que fornecem os custos mais baixos para suas operações. Quando os custos são superiores aos benefícios, as empresas não internalizam e preferem outros modos de entrada, tais como o licenciamento ou terceirização (Andersen et al., 2014). No entanto, o estudo de Buckey e Casson (1976) salienta ainda necessidade da existência de quatro grupos de fatores para que esta teoria possa ser colocada em prática: (1) fatores específicos da indústria, relacionados com a natureza do produto e com a estrutura do mercado externo; (2) fatores específicos da região, decorrentes das suas caraterísticas sociais e geográficas; (3) fatores específicos dos países, associados às suas relações políticas e fiscais; e (4) fatores específicos da empresa, que refletem a habilidade das estruturas de gestão em organizarem um mercado interno. Neste sentido, segundo os autores, a integração dos mercados de produtos intermediários através do IDE permitiria a redução de custos (Buckley e Casson (1976). Relativamente ao estudo de John H. Dunning, este foca-se na tomada de decisão em relação ao estabelecimento de unidades de produção no exterior. Para uma decisão favorável em relação à produção internacional, é essencial que a empresa possua vantagens em relação às concorrentes. As referidas vantagens são a base do Paradigma Eclético que toma a designação de OLI: O (ownership), que se refere à vantagem de propriedade (p. ex., tecnologia; recursos humanos; informações; marcas; patentes; processos produtivos) ; L (location), que significa a vantagem relacionada com a localização (p. ex., custos de mão de obra, impostos domésticos, infraestrutura), e I (internalization), representa a vantagem da internalização (p. ex. redução do custo de transação, controle das vendas) (Segalis e Guedes, 2012; Costa et al., 2017). Segundo o modelo de Uppsala, Johanson e Vahlne (1977) defendem que as empresas se internacionalizam através de um processo sequencial de conquista de mercado, privilegiando países com semelhanças ao país de origem e, de forma gradual, optam por mercados de maior distância psíquica. Este modelo teve origem na análise das empresas suecas que desenvolviam as operações internacionais em etapas, em detrimento de grandes investimentos de uma só 7 vez (Calixto et al., 2011). Ademais, para os autores deste modelo, as redes de relacionamento são cruciais no processo de internacionalização da empresa, pois permitem que uma empresa aprenda sobre as necessidades, recursos, estratégias e contextos de negócios de outras empresas conectadas através da rede (Calixto et al., 2011). Para além disso, em 2009, os autores reconheceram que as empresas, nos dias de hoje, já não sofrem um processo de internacionalização gradual, portanto o acesso aos mercados estrangeiros ocorre rapidamente, gerando empresas nascidas como globais (Meneses et al., 2014). Além disso, Oviatt e McDougall (1994) defendem que os empreendimentos com sustentabilidade internacional são aqueles que controlam determinados ativos, concretamente, o conhecimento para gerar valor em diferentes países (Segalis e Guedes, 2012). A capacidade empreendedora dos gestores para inovar e a disposição para correr riscos, permite o alcance de novas oportunidades de negócio em mercados externos (Silva, 2018). Cunningham (1985) assumiu que os mercados são como uma rede. Nesse âmbito, o processo de internacionalização depende quer da empresa, quer do mercado, pois são parte integrante da referida rede. Esta rede promove aprendizagem sobre o relacionamento fornecedor-cliente e novas parcerias (Segalis e Guedes, 2012). Conforme a Teoria das Redes de Johanson e Mattson (1986), quando a empresa se insere no mercado externo, consequentemente, há uma inserção noutras redes de relacionamento no exterior, com especial foco em relacionamentos comerciais duradouros, o que irá influenciar a continuidade do processo de internacionalização. Estas redes são importantes, uma vez que permitem superar barreiras, compensando a falta de recursos e experiência através da cooperação. (Picchiai e Teixeira, 2018). 8 Tabela 1 - Principais teorias de internacionalização Perspetiva Autor Teoria Principais características Económica Hymer (1976) Poder de mercado Após alcançar o poder do mercado interno, há um investimento estrangeiro. Consequentemente, o uso de vantagens competitivas das empresas, é de cariz monopolista Buckley e Casson (1976) Internalização Aproveitamento das imperfeições do mercado: seleção de países que fornecem custos operacionais mais baixos do que o mercado interno Dunning (1977) Paradigma eclético As empresas procuram internacionalizar quando possuem vantagens de propriedade, localização e internalização Comportamental Johanson e Vahlne Escola de Uppsala Trata-se de um processo de internacionalização lento e gradual de conquista de mercado, privilegiando países com semelhanças ao país de origem em detrimento de grandes investimentos de uma só vez.; Oviatt e McDougall (1994) Empreendedorismo Internacional Capacidade empreendedora dos gestores em inovar, correr riscos e explorar novas oportunidades Johanson e Mattson (1986) Teoria das Redes Foco em redes de relacionamentos comerciais duradouros Fonte: Elaboração própria. De acordo com Rodrigues (2010), as empresas decidem pela produção internacional se estiverem satisfeitas três condições cumulativas: (1) a empresa deve possuir vantagens de propriedade em relação às empresas locais; (2) a empresa tem de retirar benefícios em internalizar os mercados para gerar ou usar ativos; (3) a empresa deve lucrar em usar as vantagens referidas, em conjunto, em países estrangeiros. Apesar das diversas estratégias de internacionalizar, a exportação é normalmente o primeiro passo para a expansão internacional, principalmente para as PMEs (Lu e Beamish, 2001; Singla e George, 2013), até porque alternativas como joint ventures ou a criação de subsidiárias comprometem uma maior quantidade de recursos (Rua e França, 2016) e requerem mais riscos e uma menor flexibilidade estrutural e estratégica (Leonidou et al., 2011). Ao ampliar as bases de clientes por meio da entrada em novos mercados, as 9 empresas são capazes de atingir um volume maior de produção e vendas, beneficiando de economias de escala através do crescimento da receita inerente ao alargamento dos mercados (Lu e Beamish, 2001). A diversificação dos mercados promove outros benefícios associados à exportação, como a conquista de novos clientes e a menor dependência por parte da empresa face ao mercado interno (Rua e França, 2016). 10 2.3. Características particulares das empresas familiares As empresas familiares (EF) são as organizações mais comuns em todo o mundo e constituem a base predominante nas economias de mercado (Morck e Yeung, 2003). Mas o que é uma empresa familiar e como pode ser definida? Essa questão foi colocada por vários autores, como, por exemplo, Donckels e Frohlich (1991), Davis e Taguiri (1996), Faccio e Lang (2002) e Anderson e Reeb (2003), mas apesar da sua importância, não existe uma definição de EF que seja universalmente aceite. Aliás, segundo Ussman (2004), é possível encontrar tantas definições quantas as obras que se consultem, pelo que a forma mais comum de as definir é focar-se na propriedade ou na gestão da empresa. Gallo e Ribeiro (1996) referem que, se estiverem reunidas as três proposições seguintes, poder-se-á, muito provavelmente, afirmar que se está perante uma EF: • quanto à dimensão da propriedade, uma parte da empresa (frequentemente a maior) deverá ser possuída por uma família; • no que se refere à dimensão do poder/controlo, um ou vários proprietários deverão dedicar a totalidade ou uma parte importante do seu tempo a trabalhar na empresa, como gestores ou como membros do conselho de administração; • e por fim, deve haver uma evidente intencionalidade de transmissão bemsucedida da empresa para as gerações futuras e a empresa deve manter os valores próprios da família proprietária. Segundo a definição avançada pela Comissão Europeia (EC, 2009) uma empresa familiar é aquela em que uma família controla a maior parte dos direitos de decisão (ou, no caso de empresas cotadas em bolsa, um quarto dos direitos de decisão) e onde pelo menos um membro da família esteja formalmente envolvido na gestão da empresa. De acordo com Ussman (1996), as EF’s têm problemas únicos que advêm da interdependência entre a família e a empresa, ou seja, da relação entre a propriedade e direção, o que torna a tomada de decisões mais complexa. Isto alude ao estudo de Von Bertalanffy (1972), segundo a qual a EF resulta da 11 sobreposição (em graus diversos) de dois sistemas distintos, mas interligados, que são a família e a empresa, sem descorar o meio envolvente. Uma perspetiva alternativa é a proposta por Barney (1991), segundo a qual a empresa pode adquirir competitividade pelos recursos únicos que a família traz para a mesma. Aliás, em comparação com as Empresas Não Familiares (ENF), as EFs apresentam vantagens competitivas e demonstram ser mais ágeis, mais focadas no cliente, mais focadas na qualidade e mais ativas na comunidade do que as ENFs (Ibrahim et al., 2008), embora tenham menos ativos totais, emprego e vendas (Andersson et al., 2017). A forma de gestão familiar típica das EFs gera três propensões dominantes que podem ser rotuladas como: parcimónia, personalismo e particularismo. Segundo Carney (2005), estas propensões oferecem vantagens na estratégia de liderança que dificilmente podem ser usadas pelos gestores profissionais das ENFs. Em particular, a parcimónia (hábito de economizar) gera vantagem em ambientes escassos. Em segundo lugar, o personalismo e o particularismo combinam-se para gerar uma série de vantagens em relação à criação de capital social (Miralles-Marcelo et al., 2014). Em terceiro lugar, estas tendências facilitam o empreendedorismo, o que pode ser fundamental no processo de internacionalização da EF (Amit et al., 2015). Gallo et al. (2004) são consonantes e referem que as EFs têm uma lógica financeira própria, distinta das ENFs, pois para as primeiras o valor da ação não é apenas o seu preço, mas inclui outras considerações, como passar uma “tradição”, oferecer oportunidades de trabalho a membros da família e permanecer no poder durante longos períodos. Uma outra diferença entre EFs e ENFs reporta-se à influência dos fundadores na EF, que se mantém ao longo do tempo. Assim, essa influência pode ser direta, se os fundadores ainda estiverem vivos, ou contínua, de uma forma indireta, através da tradição, pelos seus sucessores. Para Gallo et al. (2004), isto contrasta com o que poderia ser chamado de “geralmente aceite e recomendado” em termos de padrões de comportamento estratégico e financeiro, concretamente, atingir rapidamente um nível adequado de desenvolvimento e sobreviver com sucesso numa evolução de mercado. Serão as preferências pessoais do fundador, 12 em relação ao crescimento, risco e controlo de propriedade que constituirão as forças motrizes por trás desta “logica financeira peculiar” das EFs (Gallo et al., 2004). Jensen e Meckling (1976) referem que a separação entre propriedade e controlo é a principal fonte de custos de agência e que esses custos são eliminados quando a empresa é administrada pelo proprietário. De facto, a Teoria da Agência (Jensen e Meckling, 1976) tem sido frequentemente utilizada para argumentar que a gestão das EF’s é mais eficiente do que o das ENFs (Dyer, 2006), mas esta teoria não consegue explicar por si só essa diferença, até porque os proprietários não familiares também podem gerir os seus empreendimentos e, portanto, receber os mesmos benefícios da agência (Dyer, 2006). Para além disso, as EF’s não estão imunes a problemas de agência, uma vez que uma família não é um grupo homogéneo onde as pessoas têm os mesmos interesses, nem todas as EF’s são idênticas ou adotam os mesmos comportamentos organizacionais (Sharma et al., 1997). Schulze et al. (2001) referem que a presença de aspetos não económicos no seio das EFs pode gerar diversos problemas, designadamente, pode conduzir os proprietários a desenvolverem ações que ameaçam o seu próprio bem-estar, assim como o bem-estar daqueles que os rodeiam. Para Schulze et al. (2001), nas EFs, as relações de agência são distintas das verificadas nas ENFs porque estão inseridas nos relacionamentos pai-filho encontrados no lar e, portanto, caracterizadas pelo altruísmo. O altruísmo influencia a estrutura de incentivos das empresas de gestão familiar (Zaniewska, 2012), de tal forma que muitos dos benefícios obtidos pela agência são contrabalançados por problemas de autocontrolo e até de risco moral considerável. Não obstante, e segundo Fernandez e Nieto (2006), apesar da concentração da propriedade e o envolvimento da família nas EFs estarem interligados, ainda existem conflitos de agência, tais como estruturas mais centralizadas e conservadoras, que poderão limitar a obtenção de recursos financeiros e intangíveis necessários à internacionalização. 13 2.4. Fatores determinantes na internacionalização do negócio familiar Arregle et al. (2017) mencionam que a internacionalização aumenta a complexidade e os desafios das organizações empresariais, sendo que, no caso das EFs, a internacionalização é ainda mais desafiadora porque aumenta a pressão sobre os recursos da família. Para os mesmos autores, existem duas perspetivas sobre como o envolvimento da família pode influenciar a internacionalização do negócio familiar: (1) restrição da internacionalização em virtude das capacidade de gestão limitada pela presença da família, o medo de perder o controlo, a falta de vontade de aceitar gestores que não são da família e o desejo de proteger a riqueza sócio emocional; ou (2) o favorecimento da internacionalização em virtude de uma orientação a longo prazo, disposição maior para correr riscos, a existência de um forte capital social na família (Arregle et al., 2017). Para Carney et al. (2017), as EFs são mais propensas a apoiar estratégias de exportação bem-sucedidas do que estratégias de investimento estrangeiro bem-sucedidas. Partindo destas premissas e considerando as particularidades das EF’s, importa refletir mais detalhadamente sobre os vários fatores facilitadores e fatores de restrição da internacionalização do negócio familiar. Caracteristicamente, nas EFs existe identificação com uma família, sendo frequente que o nome da empresa e da família sejam o mesmo (Berrone et al., 2010; Dyer e Whetten, 2006), tendendo a sobrepor-se gerando uma identidade partilhada. Zellweger et al. (2013) referem que a identidade familiar faz com que os proprietários das EF’s sejam particularmente cuidadosos com a forma como a empresa é percebida pelos stakeholders não familiares externos à empresa. Segundo Bassetti et al. (2015), isto pode gerar alguma confusão nos limites entre a família e o negócio e pode influenciar negativamente a decisão de internacionalizar a empresa e o modo de entrada no processo de internacionalização, visto que o líder da EF tenderá a proteger a identidade da empresa, que também é a identidade da sua própria família. 14 De acordo com Zaniewska (2012), as EFs caracterizam-se, também, por um alto comprometimento dos membros da família, os quais possuem conhecimentos, habilidades e capacidades adquiridas que podem ter um impacto muito positivo no processo de internacionalização, assim como uma linguagem partilhada, normas e um alto nível de confiança que permitem construir relacionamentos efetivos com fornecedores, clientes, entre outros, que podem facilitar a entrada no mercado externo (Zaniewska, 2012). Em termos relacionais, as EFs são conhecidas pela troca estável de conhecimentos e experiências entre os membros da família, devido ao envolvimento da mesma no negócio (Bunkanwanicha e Wiwattanakantang, 2013). Esta troca permanente de informação, em combinação com a comunicação intensiva que a caracteriza, pode ser vista como uma característica que pode facilitar a internacionalização (Segaro, 2012; Zaniewska, 2012). De outra forma, as EFs dependem fortemente de controles informais e tomadas de decisões devido ao seu conhecimento intuitivo dos negócios (Buckley et al., 2014). Contudo, esse conhecimento pessoal pode deixar de ser suficiente quando os negócios da família crescem internacionalmente, pois os mercados estrangeiros são geralmente mais complexos do que os mercados domésticos, pelo que a cultura empresarial familiar característica pode restringir a criação das capacidades dinâmicas necessárias para responder aos mercados em mudança (Chirico e Nordqvist, 2010) e agir como fator restritivo da internacionalização do negócio familiar. Além disso, os fortes “laços internos” existentes entre os membros da família também podem afetar negativamente as decisões sobre a estratégia, operações e administração da empresa (Carney et al., 2015), tornando-se num passivo que bloqueia as ligações com potenciais novos contactos, impedindo a formação de redes com outras empresas muito relevantes para o processo de internacionalização (Zaniewska, 2012). Nas EFs coexiste uma dependência em relação ao fundador, ou seja, há uma forte relação entre a empresa e o fundador, o qual acaba por lhe transmitir valores e crenças particulares, perpetuados ao longo das várias gerações (Ussman, 2004). 15 É habitual que a tomada de decisão se centre no fundador para o qual as questões emocionais são um fator-chave na tomada de decisões estratégicas, podendo agir como um fator restritivo à decisão de internacionalizar a empresa (Carney et al., 2016). A falta de estruturas formais nas EFs e as possibilidades mais difusas de uma carreira profissional também podem influenciar a capacidade das mesmas de atrair gestores mais qualificados, contrariando as necessidades de uma expansão externa (Schulze et al., 2002). Essa resistência da família à profissionalização da gestão e as suas tentativas de manter a sua independência e o controlo das decisões podem ser perniciosas para o processo de internacionalização (Schulze et al., 2001). De acordo com Denison e Mishra (1995), a cultura organizacional relacionase com o desempenho da empresa, sendo que, no caso das EFs, a cultura distinta que as caracteriza, parece melhorar o seu desempenho face às contrapartes ENFs (Denison et al., 2004). No entanto, com o passar do tempo, a cultura existente dentro dos negócios da família é transformada numa tradição, pelo que pode ser mais difícil implementar uma mudança estratégica radical para modificar a atividade original, o que pode ser prejudicial para a internacionalização do negócio familiar (Cucculelli e Storai, 2015). Gallo e Ribeiro (1996) também referem que a cultura organizacional das EFs pode constituir um fator de restrição da internacionalização, pois esta implica a passagem de uma cultura fechada e apoiada em valores locais, para se tornar uma cultura aberta, na qual têm de caber outros valores e áreas geográficas. Em relação aos “filhos” na empresa familiar, frequentemente, os mais jovens elementos da família sentem-se pressionados a entrar na empresa da família e acabam por fazer escolhas pessoais nesse sentido (Ussman, 2004). Segundo Sharma et al. (2001), a sucessão, que compreende a passagem da liderança entre um predecessor da família para um sucessor da família, representa um dos passos críticos para a sobrevivência das EFs. Gersick, et al. (1997) referem que o papel fundamental do fundador diminui à medida que a segunda geração e subsequentes se envolvem no negócio, conduzindo à tomada 22 acionistas são afetados de forma negativa pelo facto de a empresa ser propriedade de uma família. Anteriormente à realização desses estudos, McConaughy et al. (1998) e McConaughy et al. (2001) analisaram dados do COMPUSTAT dos anos de 1986 a 1988, tendo descoberto que as empresas controladas por famílias eram mais eficientes e valiosas do que as empresas não familiares. Nesses estudos, os autores incluíram apenas empresas controladas por famílias cujos CEOs eram fundadores ou descendentes do fundador. Também Menéndez-Requejo (2005), que trabalhou com um banco de dados misto de mais de 6.000 empresas de Espanha, a maioria delas empresas privadas, encontrou diferenças significativas em alguns indicadores de desempenho a favor das empresas familiares, apesar de outros indicadores não mostrarem resultados tão óbvios. Existe pouca pesquisa sobre as estratégias de crescimento das empresas familiares. O estereótipo das EFs aponta para que o seu planeamento seja conservador e a sua expansão orgânica, o que poderia limitar o seu crescimento em comparação com empresas não familiares. Por outro lado, evidências recentes mostram que as empresas familiares não têm constrangimentos em adquirir outras empresas (familiares e não familiares) para sustentar o seu crescimento (como a aquisição pela Haniel da Metro AG, a aquisição da Porsche pela Volkswagen ou a aquisição pela Fiat de uma parte substancial dos ativos da Chrysler). Na sua pesquisa inicial, Daily e Thompson (1994) não encontraram nenhuma relação significativa entre crescimento e orientação estratégica de crescimento ou estrutura de propriedade (ao comparar negócios empresariais administrados por proprietários, familiares e geridos por profissionais). Kellermanns et al. (2008) descobriram que o comportamento empreendedor está relacionado com o crescimento e com o número de gerações da família que esteve envolvida nos negócios. Miller et al. (2010) descobriram que, entre empresas familiares cotadas em bolsa, a propriedade da família está inversamente relacionada com a uma estratégia popular de crescimento: aquisições. Zahra (2005) considera que os CEOs entrincheirados (aqueles com longa permanência) exercem um efeito restritivo sobre o crescimento, enquanto 23 o empreendedorismo e o crescimento são promovidos por famílias envolvidas na supervisão e gestão de negócios. Casillas et al. (2009) estudaram a orientação empreendedora em mais de 300 empresas familiares e demostraram que a orientação empreendedora afeta positivamente o crescimento na segunda geração e esse relacionamento é moderado por vários fatores, incluindo o meio ambiente. Quando se trata de crescimento através da internacionalização, os resultados são variados. Algumas pesquisas e evidências sugerem que as EFs são relativamente lentas para internacionalizar (Okoroafo, 1999; Fernandez e Nieto, 2006; Graves e Thomas, 2008). Rauch (2001) sugere que as famílias fundadoras ou aliadas criam um núcleo de redes que pode promover ou inibir a internacionalização. Evidências empíricas mostram que as EFs competem com sucesso nos mercados internacionais (Zahra, 2003), algumas até sendo líderes globais de mercado nos seus nichos (Simon, 2009). Claver et al. (2009) constatam que uma orientação de longo prazo e uma gestão não familiar estão positivamente relacionados com o crescimento internacional. Graves e Shan (2013) desenvolveram um estudo através do qual pretendiam examinar o efeito da internacionalização no desempenho de EFs, comparativamente com ENFs. Os investigadores constataram que, embora as EFs privilegiem estratégias de internacionalização distintas das ENFs (e.g., licenciamento, estabelecimento de um escritório de vendas no exterior), à medida que se expandem internacionalmente, apresentam um desempenho superior em comparação com as contrapartes ENFs. Lu et al. (2015) também envidaram um estudo para investigar os efeitos diferenciais da internacionalização em duas dimensões do desempenho das EFs: o crescimento e a rentabilidade. Os investigadores concluíram que a internacionalização tem impacto positivo no crescimento, mas um impacto negativo na rentabilidade, apontando como explicação para estes resultados os desafios que a internacionalização das EFs chinesas enfrenta. Similarmente, Tsao e Lien (2013) desenvolveram um estudo cujos resultados permitiram constatar que a gestão familiar modera positivamente a relação entre internacionalização e desempenho e inovação. Para estes 24 investigadores, será o tipo de gestão da família que possibilita mitigar os eventuais problemas de agência que podem estar associados à internacionalização. Contrariamente, segundo Lee (2006), a influência da família na empresa nem sempre é positiva. Mesmo que os seus CEO’s possuam altos níveis de confiança e comprometimento, gerando maior lucratividade e maior eficiência, os possíveis conflitos criados entre membros da família podem prejudicar o desempenho da empresa. Outras pesquisas recentes (Pukall e Calabro, 2014; Diéguez-Soto et al., 2016; Carney et. al., 2017) sugerem que a influência da família e a propriedade da família, em particular, têm um impacto significativo na internacionalização das EFs: níveis moderados de propriedade estão relacionados com níveis mais altos de internacionalização, e níveis baixos e altos de propriedade estão relacionados com níveis mais baixos de internacionalização (Sciascia et al., 2013). Surpreendentemente, há muito poucas pesquisas que abordem a intencionalidade da internacionalização em EFs com sucesso, ao iniciar ou expandir atividades internacionais. Maury (2006) estabeleceu três categorias de propriedade de EFs: família, gestão familiar e sem gestão familiar. A categoria família é caracterizada pelo facto de o acionista que a controla ser uma família. Aplica-se gestão da família quando o CEO é um membro da família e, no caso de não-gestão familiar, quando o acionista principal é uma família, mas não há vínculos familiares na gestão da mesma. Segundo Anderson e Reeb (2003), a propriedade familiar também influencia o papel do CEO, porque uma EF pode escolher quem quer como CEO, e a forma como este se comporta, ativo ou passivo, tem influência no desempenho da empresa. Assim, o CEO pode influenciar o desempenho da EF, se tiver uma intenção de investimento mais longa, para que a empresa tenha uma visão a longo prazo, o que é bom para a sua continuidade. Assim, uma EF apresenta algumas características únicas que uma empresa não familiar não possui, nomeadamente influencia positivamente a perspetiva a longo prazo, a qual garante um melhor controlo dos gestores (Fama e Jensen, 1983), pelo que os proprietários da EF tendem a investir seu dinheiro com mais eficiência (James, 1999). 25 Além disso, uma EF pode desenvolver uma certa imagem de solidez, baseada no facto de pertencer a uma família, fazendo assim parte da mesma. Com efeito, a sensação de fazer parte da família, a partilha de identidades e a celebração dos seus triunfos são elementos que permitem colocar os negócios da família numa posição de destaque. Eventualmente, essa imagem pode levar a um melhor desempenho da empresa (Zellweger et al., 2012). Conforme Sirmon e Hitt (2003), as EFs também trazem estabilidade financeira, pois possuem recursos financeiros (capital de sobrevivência) que podem ser usados durante uma crise, quando o cenário económico é mais difícil, impedindo a empresa de falir quando são tomadas decisões estratégicas erradas. Em suma, a literatura demonstrou que se podem encontrar resultados diferentes sobre o efeito da propriedade familiar na internacionalização do negócio, dado que as EFs possuem características organizacionais únicas que podem afetar de forma positiva ou negativa o desempenho da empresa. 26 Capítulo III – Dados e Metodologia 3.1. Introdução Neste capítulo expõe-se o público-alvo deste estudo, o método de recolha dos dados e ainda os critérios escolhidos para a definição das EFs. Posteriormente, há uma descrição da amostra e apresentam-se as variáveis empíricas e a sua devida análise estatística. Por fim, especificam-se os modelos econométricos a estimar. 3.2. População e método de recolha dos dados O contexto deste trabalho foca-se nas empresas familiares em Portugal. Segundo Marques (2018), as empresas familiares têm uma presença significativa nas indústrias transformadoras. Posto isto, devido à presença de um número elevado de empresas disponíveis na base de dados utilizada, à incerteza da localização das EFs nas variadas indústrias e de forma a facilitar a definição da população, optou-se por confinar o estudo a três setores importantes para a economia portuguesa: Fabricação de produtos metálicos, exceto máquinas e equipamentos, Indústria da Alimentação e Indústria do Vestuário. Estes setores foram alvo de escolha por serem as indústrias transformadoras de maior dimensão, com base no número de empresas e, por consequência, com maior distribuição de pessoal ao serviço (DGAE, 2019). Segundo a DGAE (2019), a fabricação de produtos metálicos, exceto máquinas e equipamentos, engloba cerca de 17.1% do total de empresas e 12,21% do pessoal ao serviço dentro da indústria transformadora. A indústria da alimentação abrange 13.81% das empresas e 13.67% do pessoal ao serviço. Do mesmo modo, estes valores não diferem muito relativamente à indústria do vestuário, que é responsável por 12.72% do pessoal ao serviço e aglomera 13.06% das empresas do total da indústria. Relativamente aos dados utilizados, estes serão essencialmente quantitativos e secundários. A vantagem deste tipo de dados é que permite ao investigador uma maior independência e uma maior cobertura da população, 27 sendo que a sua recolha não depende de terceiros, como é o caso das entrevistas ou questionários. Os dados foram então retirados do banco de informações Bureau van Dijk, através da base de dados ORBIS EUROPA e SABI, possibilitando a comparação do desempenho entre empresas familiares e as não familiares, com a ajuda de indicadores financeiros e não financeiros. De notar que, a AMADEUS não só agrega dados com informação sobre empresas (relatórios financeiros, por exemplo), como também informação sobre diretores, estrutura de propriedade, entre outros, fundamental para distinguir o tipo de empresa (EF ou ENF), uma vez que é a única base de dados que o permite fazer. A base de dados SABI foi utilizada para complementar com dados em falta nas empresas selecionadas, porém necessários, como o Valor Acrescentado Bruto (VAB), as Exportações e o Retorno sobre os Ativos (ROA). Para identificar as empresas familiares foi necessário definir critérios que as caracterizassem como tal e, ao mesmo tempo, que as distinguisse das não familiares. Atendendo à literatura estudada por Belenzon e Zarutskie (2012), adotou-se o mesmo método de investigação e definiu-se dois critérios para classificar a empresa como familiar: • pelo menos dois acionistas ou sócios possuem o mesmo sobrenome; • e detêm a maioria das ações ou quotas da empresa, respetivamente; Assim sendo, a análise concentra-se nas empresas com forma jurídica de sociedade. As EF’s serão compostas por proprietários casados (se tiverem o mesmo sobrenome, mas género diferente) ou proprietários de sangue (como irmãos e/ou filhos por exemplo); De salientar que, ao excluir algumas empresas em que os acionistas maioritários são casados, mas a esposa não adota o apelido do marido, podem ocorrer erros de subavaliação, uma vez que se classifica como ENF uma EF. De igual forma, quando os apelidos são iguais, mas não existe qualquer laço familiar, ocorrem erros de sobreavaliação. Estas limitações são a principal desvantagem deste método, uma vez que poderão introduzir erros no reconhecimento da 28 empresa familiar, que deste modo ficarão excluídas ou incorretamente incluídas no estudo. Considerando todos os raciocínios descritos anteriormente, alcançou-se uma população de 16446 empresas. Porém, o tamanho da amostra diminuiu para um total de 5597 empresas, após serem excluídas aquelas que não apresentavam informação completa referente às variáveis selecionadas e para as quais o valor do VAB e das Vendas era nulo ou negativo. O ano em análise é o de 2018, dado que é o último ano para o qual os dados estão disponíveis. 29 3.3. Descrição da Amostra A seguinte tabela 2 resume informação relativa à repartição setorial das empresas e da representatividade da amostra. Tabela 2 - Distribuição setorial de empresas familiares e não familiares Classificação da Indústria População (%) Amostra Total (%) EF (%) ENF (%) NACE 10 – Indústria Alimentar 5546 34% 2190 39% 1139 40% 1051 38% NACE 14 – Indústria do Vestuário 4129 25% 835 15% 393 14% 442 16% NACE 25 –Produtos metálicos, exceto máquinas e equipamentos (NACE 28) 6771 41% 2572 46% 1298 46% 1274 46% Total 16446 100% 5597 100% 2830 100% 2767 100% Fonte: Elaboração própria. Observando a tabela supra, notar que a amostra é composta por 2830 empresas familiares e 2767 empresas não familiares, refletindo cerca de 34% do total da população. Verifica-se ainda que a indústria alimentar é a que apresenta uma maior percentagem do setor (39%) na amostra. Comparativamente, as indústrias dos produtos metálicos e do vestuário exibem uma representatividade sobre a amostra de 38% e 20%, respetivamente. A estrutura (em %) da população por setor difere apenas ligeiramente da estrutura da amostra, o que sugere que amostra representa de forma adequada a população. Relativamente à antiguidade das empresas, sabe-se que os primeiros anos de vida de uma empresa são os mais difíceis no que toca ao desenvolvimento do seu negócio, sustentabilidade e criação de emprego (Marques, 2018), principalmente porque a empresa não possui ainda todos os recursos e conhecimentos necessários para fazer face a concorrentes já instalados. Assim 30 sendo, espera-se que, quanto mais antigas forem as empresas, melhor serão os seus resultados. A distribuição das empresas por antiguidade pode ser analisada através da tabela 3. Tabela 3 - Distribuição das empresas por antiguidade Antiguidade Nº EFs (%) Nº ENFs (%) Menos de 5 anos 262 9% 346 13% Entre 5 a 19 anos 1126 40% 1141 41% Entre 20 a 39 anos 1221 43% 1039 38% Entre 40 a 60 anos 188 7% 207 7% Mais de 60 anos 33 1% 34 1% Total 2830 100% 2767 100% Fonte: Elaboração própria. Averigua-se assim, através da tabela 3, que metade das empresas familiares (51%) são empresas maduras com mais de 20 anos de existência, o que é expectável visto que, por norma, são empresas orientadas para o longo prazo, procurando estratégias que garantam a continuidade do negócio para as gerações futuras (Fama e Jensen, 1983; Gómez-Mejía et al., 2001; Ussman, 2004 e Arregle et al., 2017). Contudo, a distribuição das empresas não familiares é idêntica, sugerindo a mesma preocupação pela sobrevivência da empresa. No que que toca à dimensão das empresas, e focando somente no número de trabalhadores afetivos, estas podem ser classificadas por microempresas (as que empregam até 9 trabalhadores), pequenas empresas (empregam entre 10 a 49 trabalhadores), médias (entre 50 a 250 trabalhadores) e grandes empresas (aquelas que empregam mais de 250 trabalhadores). De acordo com os dados da PORDATA, o tecido empresarial português é composto por 99,9% de PMEs. Deste modo, não se espera que haja um valor significativo de grandes empresas na amostra. A tabela 4 permite estudar a distribuição das empresas familiares e não familiares por dimensão, que será medida através do número de trabalhadores. 31 Tabela 4 - Distribuição das empresas por nº de trabalhadores Dimensão Nº EFs (em %) Nº ENFs (em %) Até 9 trabalhadores 1563 55% 1488 54% Entre 10 a 49 trabalhadores 1126 40% 1091 39% 50 a 250 trabalhadores 139 5% 181 7% Mais de 250 trabalhadores 2 0% 7 0% Total 2830 100% 2767 100% Fonte: Elaboração própria. Observa-se assim que os dados vão ao encontro do esperado: são as PMEs que predominam na amostra, principalmente as microempresas. Pressupõe-se assim, que uma menor dimensão, associada a uma menor quantidade de recursos e conhecimentos, possa ser um obstáculo à escolha pela internacionalização (Claver et al., 2008). Para além da antiguidade e dimensão das empresas, a capacidade de internacionalizar é crucial para a sustentabilidade e prosperidade da empresa, face a uma concorrência cada vez mais dinâmica. A distribuição das empresas por intensidade de exportação está apresentada na tabela 5. Tabela 5 - Distribuição das empresas por intensidade de exportação Intensidade de Exportação Nº EFs (em %) Nº ENFs (em %) Sem exportação 1775 63% 1595 58% Até 25% 662 23% 662 24% Mais de 25% a 50% 141 5% 164 6% Mais de 50% a 75% 114 4% 142 5% Mais de 75% 138 5% 204 7% Total 2830 100% 2767 100% Fonte: Elaboração própria. 38 Neste seguimento, as variáveis escolhidas proporcionaram a criação de três modelos distintos. Modelo geral: !"#"$%"&ℎ( = *+*(-.,0&1_-3%,-.0&1_-3%,4(5!6$,4(507,-&768,9:6$"&1;<,="#1>á<6() * Onde o desempenho é medido através do ROA, Produtividade ou Crescimento de Vendas. A variável EF é uma variável dummy que assume valor 1 se a empresa é familiar ou valor 0 caso contrário, enquanto as variáveis Int_Exp corresponde à intensidade de exportação e a EFInt_Exp mede o efeito adicional para a empresa familiar. A restantes variáveis são de controlo e estão presentes em todos os modelos: LogDim representa a dimensão da empresa medida pelo logaritmo do número de trabalhadores no ano de 2018, LogId corresponde ao logaritmo da idade da empresa e o Endiv refere-se ao nível de endividamento da empresa. As variáveis idade e dimensão foram transformadas em termos logarítmicos, de forma a terem mais peso nos resultados estimados. As variáveis – Alimentar e Vestuário - explicam o setor de atividade da empresa. Na presença de outliers, alta assimetria e heterocedasticidade nos dados, verificado através da tabela 7 (estatística descritiva), a regressão linear deve ser precavida e, por esse mesmo motivo, os modelos foram estimados por meio da regressão por quantis. A regressão quantílica, introduzida por Koenker e Basset (1978), é uma boa alternativa à regressão por OLS (ou Método dos Mínimos Quadrados, em português), uma vez que permite estimar os diferentes quantis – Q10 , Q25, Q50, Q75, Q90 – desta amostra. Enquanto o OLS estima modelos para a função média condicional da variável dependente para determinados valores das variáveis independentes, a regressão por quantis produz estimativas aproximadas à mediana e a qualquer quartil desejado. (John e Nduka, 2009). Por outras palavras, a regressão linear averigua a relação entre a média da variável explicada e as variáveis explicativas, presumindo a existência de uma relação direta entre estas. Mas por si só, a média não descreve toda a distribuição e, assim, a regressão 39 quantílica permitirá que a distribuição da variável dependente possa ser estudada mais detalhadamente através dos quantis escolhidos. Ademais, a estimação dos modelos por este método supera outros problemas que a regressão por OLS enfrenta, como a heterocedasticidade. Permite obter resultados mais robustos em relação aos outliers e, por isso, mais útil na presença de dados distorcidos. A Tabela 7 exibe as estatísticas descritivas da amostra num todo, como também de modo discriminado para as empresas familiares e empresas não familiares. Expõe o número de observações, o valor mínimo e o valor máximo, a média encontrada, o desvio-padrão e ainda, o nível de assimetria e de curtose associados. Tabela 7 - Estatísticas descritivas Variáveis Obs Min. Máx. Média Mediana DesvioPadrão Assimetria Curtose ROA 5597 - 139.791 365.821 2.056 2.507 17.238 0.017 8.385 Produtiv 5597 0.106 544.490 20.169 16.602 15.928 9.419 0.790 CrescV 5597 0.082 29.890 1.181 1.043 1.262 15.099 1.069 IntExp 5597 0 1 0.119 0 0.255 2.282 2.143 Idade 5597 1 107 20.845 19 13.649 1.177 0.655 Num_Trab 5597 1 1048 16.429 8 30.277 13.100 1.843 Endiv 5597 0.005 15.180 0.789 0.627 1.01 7.010 1.27 Alimentar 5597 0 1 0.391 0 0.488 0.445 1.247 Vestuário 5597 0 1 0.149 0 0.356 1.969 2.388 Prod_Meta licos 5597 0 1 0.459 0 0.498 0.162 1.084 Empresas Familiares (EF=1) Obs Min. Máx. Média Mediana DesvioPadrão Assimetria Curtose ROA 2830 - 136.691 134.816 1.982 2.563 16.776 - 2.399 8.463 Produtiv 2830 0.188 544.490 20.089 16.527 17.559 12.114 0.874 CrescV 2830 0.082 22.488 1.152 1.042 1.120 15.041 0.966 40 IntExp 2830 0 1 0.102 0 0.235 2.553 2.308 Idade 2830 1 101 21.423 20 13.057 1.080 0.609 Num_Trab 2830 1 342 15.057 8 21.462 5.142 1.425 Endiv 2830 0.005 15.180 0.786 0.615 1.009 6.863 1.284 Alimentar 2830 0 1 0.402 0 0.490 0.398 1.218 Vestuário 2830 0 1 0.139 0 0.346 2.088 2.491 Prod_Meta licos 2830 0 1 0.459 0 0.498 0.166 1.086 Empresas Não Familiares (EF=0) Obs Min. Máx. Média Mediana DesvioPadrão Assimetria Curtose ROA 2767 - 139.791 365.821 2.131 2.563 17.701 2.120 8.306 Produtiv 2767 0.106 223.325 20.250 16.527 14.068 3.576 0.695 CrescV 2767 0.087 29.890 1.211 1.042 1.398 14.698 1.155 IntExp 2767 0 1 0.137 0 0.273 2.050 1.998 Idade 2767 1 107 20.254 18 14.206 1.274 0.701 Num_Trab 2767 1 1048 17.832 9 37.142 13.267 2.083 Endiv 2767 0.012 14.872 0.792 0.642 1.002 7.163 1.266 Alimentar 2767 0 1 0.380 0 0.485 0.495 1.278 Vestuário 2767 0 1 0.160 0 0.366 1.857 2.294 Prod_Meta licos 2767 0 1 0..460 0 0.499 0.159 1.083 Fonte: Elaboração própria com recurso ao Stata. Através da análise descritiva, presente na tabela supra, é possível observar que, em média, existem diferenças nos indicadores entre os dois tipos de empresas. Ademais, denota-se a existência de empresas muito diferentes a nível de desempenho, com valores negativos ou muito elevados em relação à média. De forma generalista, para todos os indicadores de desempenho (ROA, Produtividade e Crescimento de vendas), os valores médios são positivos para ambos os tipos de empresas, mas ligeiramente superiores no caso das ENFs. 41 Principalmente quando analisamos a assimetria do indicador financeiro ROA, verifica-se que, no caso das EFs, os dados apresentam uma distribuição assimétrica negativa, ou seja, uma cauda esquerda mais pesada (valores abaixo da média), ao passo que nas ENFs acontece o contrário. A Produtividade e o Crescimento de vendas apresentam altos níveis de assimetria à direita, isto significa que os dados mostram a existência de uma maior quantidade de empresas com níveis de desempenho superior à média, principalmente para as ENFs. Os resultados de desempenho inferiores associados às EFs, poderão ser derivados do facto de os proprietários-gestores terem como prioridade o seguimento de estratégias que privilegiam a sobrevivência da empresa, invés de maximizar os lucros e o valor do acionista (Fama e Jensen, 1983; Gómez-Mejía et al., 2001). Por outro lado, outras correntes literárias indicam que os piores resultados de desempenho associados às EFs podem ser justificados pela procura dos proprietários em extrair benefícios extras, através de renumeração excessiva ou com a distribuição de dividendos especiais (Schleifer e Vishny, 1997; DeAngelo e DeAngelo, 2000). Estes resultados são similares com Morck e Yeung (2004), que afirmam que a propriedade e o controle da família tendem a levar a um pior desempenho face as ENFs. O valor médio da intensidade de exportação é relativamente baixo, demonstrando um comportamento conservador na aposta por esta estratégia pela maioria das empresas da amostra. Ainda assim, as ENFs apresentam uma média de intensidade de exportação (13,7%), ainda que ligeiramente superior às EFs (10,2%). Os valores encontrados podem ser fundamentados por diversos motivos, como a resistência da família à profissionalização da gestão (Schulze, 2001), o conhecimento insuficiente dos mercados externos (Chirico e Nordqvist, 2010), contratação de gestores sem experiência internacional (Carney et al., 2015) e/ou a necessidade de financiamento externo que pode ser visto como uma ameaça no controlo das empresas familiares. Estes resultados são análogos a Claver et al. (2009). Na mesma medida, as variáveis de controlo também ajudam a explicar variações no desempenho da empresa. Relativamente à variável Idade, a antiguidade das empresas familiares e das não familiares não difere em muito, 42 existindo uma quantidade considerável de empresas maduras nos setores estudados. No caso das EFs, metade das empresas tem uma idade igual ou superior a 20 anos, mostrando, em média, uma idade ligeiramente superior às ENFs. A literatura sugere que a idade pode ter um efeito ambíguo no desempenho. Se por um lado, as empresas mais jovens tendem a adaptar-se mais facilmente a um ambiente em constante mudança, por outro lado, as empresas mais velhas são mais experientes e conseguem reunir uma maior quantidade de recursos e competências ao longo dos anos (Majumdar, 1997; Anderson e Reeb, 2003; Singla e George, 2013). No que refere à dimensão, medida através do número de trabalhadores, verifica-se que uma proporção significativa das empresas são microempresas (valor mediano da idade igual a 8 anos). Assim, como já foi referido anteriormente, sabe-se que o tecido empresarial português é composto por 99,9% de PMEs e, por norma, a menor dimensão associada à falta de recursos, competências e estruturas torna a internacionalização mais desafiante e, por consequência, poderá limitar o crescimento da empresa (Claver et al., 2008). Finalmente, o nível de endividamento é, no geral, elevado para todas as empresas. Isto significa que estas podem estar muito dependentes de crédito externo. Sem esquecer que o financiamento da divida é muitas vezes usado como ponto de partida para novos investimentos, como poderá ser o caso da internacionalização, segundo os autores Lisboa (2017) e Aziz e Abbas, (2019). Contudo, uma relação negativa entre desempenho e endividamento é esperada, e explica-se pela instabilidade e pressão nos recursos das empresas, de acordo com o estudo de Lawless et al. (2015). A matriz de correlação, apresentada na página seguinte - Tabela 8, permite determinar a intensidade da relação entre as variáveis independentes e as variáveis dependentes, através do coeficiente de Pearson. O objetivo é eliminar fatores que possam levar à multicolinearidade antes de executar o modelo de regressão 43 Tabela 8Matriz de correlação (1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) (8) (9) (10) (11) (12) (1) ROA 1.000 (2) Produtiv 0.274*** 1.000 (3) CrescV 0.016 0.058*** 1.000 (4) EF - 0.004 - 0.005 - 0.023* 1.000 (5) Int_Exp 0.041*** 0.163*** 0.016 -0.069*** 1.000 (6) EFInt_Exp 0.030** 0.107*** 0.013 0.292*** 0.606*** 1.000 (7) Num_Trab 0.031** 0.083*** - 0.034** - 0.046*** 0.255*** 0.123*** 1.000 (8) Idade - 0.007 - 0.008 - 0.145*** 0.043*** 0.0216 0.054*** 0.167*** 1.000 (9) Endiv - 0.351*** - 0.174*** 0.016 - 0.003 -0.071*** - 0.055*** - 0.064*** - 0.068*** 1.000 (10) Alimentar - 0.059*** -0.159*** -0.042*** 0.023*** -0.282*** -0.175*** -0.034** 0.020 0.126*** 1.000 (11) Vestuário - 0.022 -0.072*** 0.0209 -0.029** 0.408*** 0.243*** 0.166*** -0.0007 -0.0148 -0.336*** 1.000 (12) Prod_Metalicos 0.073*** 0.207*** 0.026** -0.002 -0.015 -0.003 -0.085*** -0.019 -0.113*** -0.739*** -0.386*** 1.000 Fonte: Elaboração própria com recurso ao Stata Legenda: Erros padrão entre parêntesis. Nível de significância: * p<0,1; ** p<0,05; *** p<0,01. 44 Neste caso, constata-se que as correlações encontradas são predominantemente baixas, não apresentando uma forte associação linear entre as variáveis explicativas. Por este motivo, não se espera que os modelos estimados tenham problemas de multicolinearidade. 45 Capítulo IV – Análise e discussão de resultados 4.1. Introdução Após a descrição dos dados e metodologia utilizada, serão neste capítulo apresentadas as tabelas elaboradas pela autora com os resultados da estimação dos modelos descritos anteriormente, através da regressão quantílica e regressão OLS (termo comparativo de análise). A posteriori, segue-se a análise e discussão dos resultados encontrados, fundamentandos através revisão de literatura efetuada. Para demonstrar o poder analítico da regressão quantílica, o Stata foi o software utilizado para investigar as questões de investigação levantadas, consoante o indicador económico utilizado. 4.2. Impacto da Internacionalização no desempenho das EFs O principal objetivo desta investigação passa por responder a duas questões: em primeiro lugar, comparar diferenças de desempenho entre EF e ENFs, e em segundo lugar, analisar o impacto de internacionalizar, medido através das exportações, no desempenho das empresas familiares, comparativamente às ENFs, em Portugal. A tabela 9 exibe os resultados obtidos pela estimação do modelo, quer por regressão OLS, como por regressão quantílica, para a variável dependente Rentabilidade sobre os Ativos (ROA), bem como o número de observações e o valor do pseudo-R2. 46 Tabela 9 - Estimação do modelo com a variável dependente ROA Regressão Quantílica OLS Q10 Q25 Q50 Q75 Q90 EF -0.133 0.173 0.234 0.357*** 0.342 0.226 (0.51) (0.65) (0.24) (0.19) (0.42) (0.74) Int_Exp 1.688*** 2.017 1.407* 0.854*** 1.077 3.318*** (0.86) (1.30) (0.48) (0.47) (0.83) (1.76) EFInt_Exp 0.528 -0.392 -0.443 -0.241 0.438 0.519 (1.24) (1.56) (0.71) (0.64) (1.24) (2.20) LogDim 0.041 2.128* 0.989* 0.231* -0.182 -1.105* (0.23) (0.24) (0.13) (0.07) (0.16) (0.34) LogId -0.571*** -1.339** -1.378* -1.276* -2.093* -2.543* (0.31) (0.55) (0.18) (0.14) (0.23) (0.48) Endiv -5.963* -16.740* -9.757* -6.191* -3.382* 0.268 (0.74) (1.30) (0.69) (0.52) (0.76) (1.05) Alimentar -0.782 -4.275* -1.788* -0.652* 0.908** 3.496* (0.51) (0.65) (0.26) (0.19) (0.44) (0.98) Vestuário -2.241* -3.411* -1.717* -1.172* -1.092** -1.381 (0.58) (0.98) (0.32) (0.21) (0.45) (0.91) _cons 8.723* 4.317** 7.924* 9.831* 15.068* 22.243* (1.10) (2.05) (0.69) (0.64) (1.02) (1.78) R2 0.126 Pseudo R2 0.269 0.134 0.060 0.028 0.030 Nº de obs. 5597 F 12.00 Prob>F 0.000 Fonte: Elaboração própria com recurso ao Stata. Legenda: Erros padrão entre parêntesis. Nível de significância: * p<0,1; ** p<0,05; *** p<0,01. Considera-se que quanto maior for o coeficiente de determinação (R2), melhor o modelo se ajusta aos dados. Este coeficiente é utilizado como medida de qualidade de ajustamento para análise da regressão linear, porém, neste caso, o que importa analisar é o pseudoR2 obtido por meio da regressão quantílica, 47 sendo que este será sempre inferior ao R2. Analisando a tabela supra e os coeficientes assumidos pelo pseudoR2, no caso do modelo cuja variável dependente é o ROA, entre 3% a 27% da variabilidade observada desempenho financeiro é explicada pelas variáveis explicativas ponderadas. Por norma, era expectável que os Pseudo R2 obtidos fossem valores baixos, pois trata-se de uma análise seccional para o ano de 2018. Apesar disto, na presença de variáveis empíricas estatisticamente significativas, ainda é possível retirar conclusões importantes sobre como alterações nos coeficientes associados às variáveis explicativas influenciam no valor da variável dependente. Contrariamente ao esperado nas estatísticas descritivas, é possível verificar alguma evidência estatística de que as empresas familiares portuguesas apresentam um melhor desempenho financeiro, comparativamente às empresas não familiares. Na presença da variável dummy EF, confere-se que uma empresa de caracter familiar parece ser mais rentável, em cerca de 0.357 pontos percentuais, relativamente a uma empresa não familiar, para o quantil mediano. Desta forma, os resultados obtidos podem ser justificados pelo facto de as empresas familiares serem orientadas para o futuro, e por isso mais preocupadas em manter a estabilidade, reputação e reconhecimento no mercado. Estas empresas procuram investir com mais eficiência para que o negócio seja perpetuado ao longo das gerações. Adicionalmente, o alto controlo e comprometimento dos seus funcionários, especialmente dos gestores responsáveis pela implementação de estratégias, são fatores que contribuem para uma baixa expectativa de lucro a curto prazo, em prol de maiores ganhos futuros e um melhor desempenho. Estes resultados estão em conformidade com vários autores, como p. ex. Lee (2006), Chu (2009), Belenzon e Zarutskie (2012), Miralles-Marcelo et al. (2014) e Andersson et al. (2017). Salienta-se ainda que não foram encontradas evidências estatísticas noutros quantis, sugerindo que apenas para níveis intermédios de rentabilidade, as vantagens provenientes das particularidades familiares sobressaem sobre outras presentes nas empresas não familiares, talvez por controlarem o risco associado sobre os investimentos da empresa. 54 É relevante evidenciar que entre 2% a 9% da variabilidade observada na produtividade é explicada pelas variáveis explicativas do modelo. Deduz-se desta forma, que o modelo explica melhor mudanças no desempenho, através do ROA e da produtividade, em relação ao crescimento de vendas. Ainda assim, observase a existência de coeficientes estatisticamente significativos que ajudam a explicar variações no crescimento de vendas. Através da tabela 11, é possível apurar evidência estatística de que as empresas familiares portuguesas apresentam um pior desempenho no crescimento vendas, comparativamente às empresas não familiares. Deste modo, a variável dummy EF demonstra que uma empresa familiar tem um crescimento de vendas inferior em relação a uma empresa não familiar, em cerca de 0.014 pontos percentuais, no caso do quantil 75, e em cerca de 0.039 pontos percentuais, no caso do quantil 90, ceteris paribus Uma das explicações para isto acontecer poderá derivar da existência de uma estrutura organizacional descentralizada, habitualmente presente nas empresas não familiares, que permite uma maior facilidade de expansão, a tomada de decisões mais rápidas e eficientes, e por consequência uma maior autonomia dos funcionários, induzindo rapidez e um maior crescimento de vendas. Quando a liderança é centralizada, como no caso das EFs, os gerentesproprietários podem ser menos eficientes em questões rotineiras de cada departamento, uma vez que estão concentrados em decisões mais burocráticas. Também a resistência da familia, a profissionalização da gestão e a preferência por colocar familiares em cargos de chefias, como p. ex. no departamento de vendas, pode limitar o crescimento das vendas se este não possuir as qualificações para tal. Os resultados são coerentes com Belenzon e Zarutskie (2012) e Andersson et al. (2017). Como se pode apurar, apenas nos quantis superiores se encontra evidência estatisticamente significativa em relação à variável EF, apontando que apenas para os níveis mais elevados de crescimento de vendas é que existe um desempenho superior por parte das ENFs. Isto acontece porque, provavelmente, as vantagens presentes numa organização decentralizada, com divisão de tarefas e respostas mais rápidas, são mais eficientes em níveis superiores de crescimento de vendas. 55 Olhando para a variável de interesse Intensidade de Exportação, os resultados obtidos indicam efeitos contraditórios ao longo dos quantis, entre a Int_Exp e o CrescV. À vista disso, encontrou-se evidência estatística de uma relação positiva entre exportação e crescimento de vendas nos quantis 75 e 90, mas uma ligação negativa desta relação para o percentil 10. Estes resultados sugerem que as empresas exportadoras retiram vantagens em comparação com as não exportadoras, até porque a entrada em novos mercados potencia o aumento das vendas. Para empresas com baixo crescimento de vendas, as vantagens de exportar serão absorvidas pelos custos de entrada e de marketing. Estes resultados são idênticos a Vu et al., (2014). Em conformidade com os modelos anteriores, nenhuma evidência foi encontrada sobre o diferente efeito estimado da intensidade exportadora no desempenho das empresas familiares portuguesas entre EFs e ENFs. Uma justificação poderá centrar-se no facto da empresa familiar, à semelhança de outra de propriedade não familiar, permitir a entrada de novos gestores com experiência internacional, por exemplo. Este resultado é coerente ao estudo de Merino et al., (2012). 56 Capítulo V – Conclusão O presente capítulo tem como finalidade apresentar as principais conclusões do estudo, as limitações enfrentadas, bem como recomendações de investigação futura sobre o corrente tema. 5.1. Principais resultados Apesar dos negócios familiares desempenharem um papel fundamental na economia mundial, estas empresas continuam a receber pouca atenção, nomeadamente pela falta ou dificuldade em adquirir dados confiáveis sobre as mesmas. Tem-se verificado um interesse gradual pelos investigadores em estudar o impacto da internacionalização nas empresas em geral, mas no que toca ao impacto deste processo no desempenho das empresas familiares, existe pouco conhecimento sobre a temática, principalmente no caso de Portugal. Assim sendo, a presente investigação contribui para a literatura com resultados consistentes sobre diferenças de desempenho entre EF e ENFs, e o impacto da internacionalização, via exportações, no desempenho das empresas familiares. A revisão de literatura serviu de base teórica para fundamentar este estudo, permitindo sintetizar as principais teorias da internacionalização, bem como as características únicas da EF. Isto serviu como ponto de partida para explorar os fatores que determinam a internacionalização do negócio familiar e a sua influência no desempenho. Arregle et al. (2017) sugerem que o envolvimento da família pode influenciar a internacionalização do negócio de duas formas distintas: restringido, por medo de perder o controlo, pela sua capacidade de gestão limitada e pela falta de vontade em aceitar gestores externos à família; ou incentivando, em virtude de uma orientação a longo prazo, disposição para correr riscos e um forte capital social na família. Estas características únicas da EF poderão ser uma mais-valia ou não para o desempenho da empresa, caso decidam internacionalizar. A partir de uma amostra de 5597 empresas dos três maiores setores da indústria transformadora em Portugal, foram estimados três modelos por meio de regressão por OLS e regressão quantílica, através do software Stata. O 57 desempenho foi medido através da rentabilidade dos ativos, produtividade e crescimento de vendas, ao passo que a internacionalização foi medida através da intensidade de exportação, já que a exportação é normalmente o primeiro passo para a expansão internacional (Singla e George, 2013). Por sua vez, o efeito adicional deste processo no desempenho da EF foi medido através da variável EFInt_Exp. Os resultados encontrados indicam que as características distintas associadas à propriedade familiar proporcionam ganhos de desempenho para níveis intermédios de rentabilidade dos ativos. A orientação das EFs para o futuro, a preocupação pelas gerações seguintes, um maior controlo, comprometimento dos funcionários e expetativas de ganhos a longo prazo são fatores que podem explicar um melhor desempenho financeiro. Contudo, as EFs demonstram perdas de desempenho para níveis mais elevados de crescimento de vendas, comparativamente às ENFs. A literatura destaca uma estrutura organizacional mais centralizada, um comportamento mais conservador, a preferência por gestores familiares e resistência pela profissionalização da gestão, fatores estes que poderão ser as principais explicações para um pior desempenho em relação às empresas de propriedade não familiar. Embora um grande número de empresas na amostra não arrisque em exportar, as que o fazem beneficiam de aumentos no desempenho, tanto a nível financeiro como económico. Essas empresas estão mais dispostas a arriscar em projetos de internacionalização e à entrada de gestores com experiência internacional, superando dificuldades relacionadas com a gestão de recursos e beneficiando de economias de escala e por consequência, redução de custos de produção. Adicionalmente, verifica-se que não há diferenças de desempenho entre EFs e ENFs quando decidem internacionalizar-se, por via de exportações. As variáveis de controlo escolhidas – dimensão, idade, endividamento e setor - também contribuem para explicar resultados de desempenho. Constatou-se assim que, por norma, as empresas de maior dimensão, mais jovens e menos endividadas são aquelas que conseguem alcançar um melhor desempenho empresarial. 58 5.2. Limitações e Recomendações Assim como na maioria das investigações, este estudo também possui algumas limitações que pode encorajar pesquisas futuras. Como já mencionado anteriormente, a identificação de empresa familiar foi a primeira dificuldade enfrentada. Sendo a empresa familiar definida pela presença de acionistas com o mesmo sobrenome e detentores da maioria das ações ou quotas da empresa, famílias em que a esposa não adota o apelido do marido ou a existência de apelidos iguais, mas sem qualquer relação familiar, pode criar erros na distinção de EF ou ENF. A falta de informação sobre o sobrenome de todos os acionistas é outro problema no reconhecimento deste tipo de empresa e, por isso, foram excluídas do estudo. Outra limitação centra-se no facto de o estudo ser seccional, isto é, apenas sobre o ano de 2018, o que não permite estudar o comportamento das variáveis ao longo de um intervalo de tempo considerável, nem encontrar a relação de causa e efeito das mesmas. Informações sobre o desempenho de anos passados aumentaria o poder explicativo dos modelos. Devido às dificuldades em definir EF e à exaustividade que acarreta em selecionar todas as empresas pertencentes à indústria transformadora, a análise foi restringida às empresas dos três maiores setores dessa indústria, e por isso, propõe-se em trabalhos futuros que este estudo seja alargado a outras indústrias num período mais alargado. Por último, é importante mencionar que apesar desta pesquisa ser essencialmente construída a partir de números, é imperativo realizar estudos de caracter qualitativo e mais aprofundados à gestão administrativa e social destas empresas, de forma a perceber como a estrutura organizacional e as motivações dos empreendedores familiares se reflete nas decisões e estratégias associadas a incentivos em I&D e, consequentemente, à entrada nos mercados internacionais. Ademais, seria interessante estudar qual a geração familiar que administra a empresa e o seu impacto no desempenho e na internacionalização da mesma, reforçando estudos como o de Villalonga e Amit, 2004. Deve-se ter em mente que as empresas familiares não são um grupo homogéneo desprendido de problemas de agência, e por isso nem todas as EFs 59 são idênticas ou adotam os mesmos comportamentos organizacionais (Sharma et al., 1997). Mais pesquisas sobre a temática podem gerar conclusões mais assertivas sobre a relação entre empresa familiar e a internacionalização. 60 Capítulo VI – Referências Bibliográficas Amit, R., Ding, Y., Villalonga, B. & Zhang. H. (2015). The role of institutional development in the prevalence and performance of entrepreneur and family-controlled firms. Journal of Corporate Finance, 31, 284–305. Andersen, P., Ahmad, S. & Chan, W. M. (2014). Revisiting the Theories of Internationalization and Foreign Market Entry Mode: A Critical Review. 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