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As redes sociais e o jornalismo regional no Norte: um estudo sobre o aproveitamento das potencialidades do mundo digital

Faria, Andreia Filipa Pereira

Abstract

As várias ferramentas que surgiram em paralelo ao desenvolvimento dos meios digitais reconfiguraram o jornalismo como profissão e deram-me uma nova vida. No caso do jornalismo de proximidade, plataformas como as redes sociais são ferramentas de utilização obrigatória que permitem um contacto cada vez “mais próximo” com o leitor. Estas novas plataformas permitem uma partilha cada vez mais simplificada e abrangente, abrindo assim a porta para novas oportunidades para os jornalistas. Com a sua ampla disseminação, a divulgação da informação deixou de ser exclusividade de um suporte só, o que se traduziu numa oportunidade de divulgar os conteúdos jornalísticos a uma escala cada vez maior. O ponto fulcral deste trabalho é compreender os desafios que surgiram com esta nova realidade, expor a forma como a imprensa regional encara plataformas como o Facebook e de que forma tira partido das potencialidades pode oferecer ao trabalho jornalístico. Para proceder a este estudo, foram então selecionados oito jornais regionais do Norte de Portugal, um por cada distrito, que serão objeto de análise relativamente às estratégias que desenvolvem na sua conta oficial da rede social Facebook. Questiona-se então a forma como estes media marcam presença nas suas redes sociais. Será que conseguem tirar proveito das novas ferramentas que o Facebook oferece para ultimar e potencializar o seu próprio conteúdo? Conseguem adequar a sua comunicação/conteúdos jornalísticos à rede social? Desta forma será possível perceber se os jornais escolhidos para este estudo utilizam as novas ferramentas que o mundo digital oferece e de que forma estas têm alterado a própria rotina de trabalho.

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Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais Andreia Filipa Pereira Faria outubro de 2020 As redes sociais e o jornalismo regional no Norte: um estudo sobre o aproveitamento das potencialidades do mundo digital Andreia Filipa Pereira Faria As redes sociais e o jornalismo regional no Norte: um estudo sobre o aproveitamento das potencialidades do mundo digital UMinho|2020 Andreia Filipa Pereira Faria outubro de 2020 As redes sociais e o jornalismo regional no Norte: um estudo sobre o aproveitamento das potencialidades do mundo digital Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Maria Elsa Sousa Costa e Silva de Morais Dissertação de Mestrado Mestrado em Ciências da Comunicação Área de Especialização em Investigação em Jornalismo Universidade do Minho Instituto de Ciências Sociais ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual CC BY-NC-SA https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/ iii Agradecimentos Os meus agradecimentos à Professora Doutora Maria Elsa Sousa Costa Silva Morais pela disponibilidade demonstrada e pelo apoio prestado na orientação desta investigação. Um obrigada do fundo do coração e muito especial aos meus pais e ao meu namorado por me terem apoiado e incentivado desde sempre. Por último, mas não menos importante agradeço a todos os docentes que contribuíram para o meu crescimento pessoal e profissional. iv Declaração de Integridade Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. v As redes sociais e o jornalismo regional no Norte: um estudo sobre o aproveitamento das potencialidades do mundo digital Resumo As várias ferramentas que surgiram em paralelo ao desenvolvimento dos meios digitais reconfiguraram o jornalismo como profissão e deram-me uma nova vida. No caso do jornalismo de proximidade, plataformas como as redes sociais são ferramentas de utilização obrigatória que permitem um contacto cada vez “mais próximo” com o leitor. Estas novas plataformas permitem uma partilha cada vez mais simplificada e abrangente, abrindo assim a porta para novas oportunidades para os jornalistas. Com a sua ampla disseminação, a divulgação da informação deixou de ser exclusividade de um suporte só, o que se traduziu numa oportunidade de divulgar os conteúdos jornalísticos a uma escala cada vez maior. O ponto fulcral deste trabalho é compreender os desafios que surgiram com esta nova realidade, expor a forma como a imprensa regional encara plataformas como o Facebook e de que forma tira partido das potencialidades pode oferecer ao trabalho jornalístico. Para proceder a este estudo, foram então selecionados oito jornais regionais do Norte de Portugal, um por cada distrito, que serão objeto de análise relativamente às estratégias que desenvolvem na sua conta oficial da rede social Facebook. Questiona-se então a forma como estes media marcam presença nas suas redes sociais. Será que conseguem tirar proveito das novas ferramentas que o Facebook oferece para ultimar e potencializar o seu próprio conteúdo? Conseguem adequar a sua comunicação/conteúdos jornalísticos à rede social? Desta forma será possível perceber se os jornais escolhidos para este estudo utilizam as novas ferramentas que o mundo digital oferece e de que forma estas têm alterado a própria rotina de trabalho. Palavras-chave: Facebook; Jornalismo de proximidade; Jornalismo online; Portugal; redes sociais vi Social networks and local journalism in the North: a study on achieving the potentials of the digital world Abstract The various tools that emerged in parallel with the development of digital media have reconfigured journalism as a profession and given IT a new life. In the case of proximity journalism, platforms such as social networks are mandatory tools that allow an “ever closer” contact with the reader. These new platforms allow an increasingly simplified and comprehensive sharing, thus opening the door to new opportunities for journalists. With its wide dissemination, the dissemination of information is no longer exclusive to a single medium, which has resulted in an opportunity to disseminate journalistic content on an increasing scale. The key point in this investigation is to understand the challenges that have arisen with this new reality, to expose the way the regional press views platforms such as Facebook and what potential it can offer to the journalistic work. To proceed with this study it were selected eight regional newspapers from the North of Portugal, one for each district, which will be the subject of a study regarding their presence on their own Facebook social network. The question is if these are present on their social networks. Can they take advantage of the new tools that Facebook offers to enhance their own content? Do they make the effort to adapt their communication/ journalistic content to the social network? Analysing the data collection made it will be possible to see if the newspapers chosen for this study use the new tools that the digital world offers and if these have changed their work routine. Keywords: Facebook; Local journalism; Online journalism; Portugal; Social media networks vii Índice de conteúdos Introdução .............................................................................................................................. 9 1. Imprensa Regional ...................................................................................................... 11 1.1. As particularidades do jornalismo de proximidade .................................................... 11 1.2. A proximidade e a ligação com a região ................................................................... 14 1.3. Funções e particularidades das rotinas de redação .................................................. 18 1.4. Contextualização da imprensa regional portuguesa .................................................. 20 2. A transição do jornalismo Regional para a Era Digital: Novos Territórios ......... 25 2.1. As características do meio digital ............................................................................. 29 2.2. Evolução do ciberjornalismo em Portugal: Breve Panorama ..................................... 32 2.3. Alterações das rotinas e adaptação dos jornalistas ................................................... 37 3. O jornalismo e as redes sociais ................................................................................ 42 3.1. O caso do Facebook: Uma nova plataforma ao serviço do jornalismo ................... 46 3.2. Implicações das redes sociais nas práticas jornalísticasOs novos desafios éticos e deontológicos ..................................................................................................................... 49 3.3. Práticas dos jornais nas redes sociais e interação dos leitores .................................. 52 4. Objetivos traçados e pertinência do tema ............................................................... 56 4.1. Seleção da amostra e período de observação .......................................................... 57 4.2. Criação da grelha de observação e Análise de Conteúdo .......................................... 58 5. Discussão dos resultados .......................................................................................... 62 5.1. Caracterização da amostra ...................................................................................... 62 5.2. Temáticas ............................................................................................................... 66 5.3. Conteúdo das publicações ....................................................................................... 68 5.4. Multimédia .............................................................................................................. 72 5.5. Interações ............................................................................................................... 73 Considerações Finais ......................................................................................................... 81 14 reivindicar o que pretende ou integrar-se na vida política, económica e social do concelho. Como refere Ribeiro (2005, p. 47), “o jornal local permite a polifonia ao abrir espaço para a dona de casa reivindicar melhores infraestruturas no seu bairro, ao mostrar a cultura dos municípios da redondeza e também ao questionar as irregularidades na administração”. Numa tese de mestrado defendida por Joana Martins é explicado precisamente que: “A imprensa regional ainda é a voz do público, o espelho dos problemas que o atormentam na sua própria rua, no seu bairro, na sua cidade, ou na sua região. É nos títulos de índole local que o leitor encontra a partilha das suas preocupações mais imediatas e que ele próprio ganha voz. É nesta imprensa de especificidade que o público lê a entrevista do presidente da sua Junta de Freguesia, encontra o resultado do jogo de futebol da equipa da sua vila e se inteira do que tem a dizer o vizinho do lado. A região é-lhe explicada e especificada no dia-a-dia, de acordo com as rotinas e preocupações dos seus habitantes, daqueles que com ele dividem o mesmo espaço geográfico» (2008, p. 7) Ghizzoni (2013, p. 137) acompanha afirmando que “a proximidade com o público é uma das maiores vantagens dos jornais impressos regionais em comparação aos de circulação nacional” Para acompanhar a vida quotidiana dos leitores geralmente os conteúdos publicados nestes veículos vão de encontro aos mesmo temas, e com isso, “os media regionais adquirem um grande poder de mobilização social para abordar reivindicações e necessidades sociais dos leitores” (Ghizzoni, 2013) 1.2. A proximidade e a ligação com a região Para esta investigação, uma melhor compreensão do conceito da geografia é indispensável, pois ao nível de cada localidade acrescenta-se a componente sociológica associada a essa determinada região. Paulo Ferreira (2005, p.157) afirma precisamente que “a imprensa local e regional tem, ou deve ter, como objetivo primeiro, a recolha, tratamento e divulgação de factos noticiosos que ocorrem na sua área de implantação, seja ela concelhia, distrital ou regional”. Sobre este aspeto, Carlos Camponez alertou, ainda em 2002, para o facto de não se dever valorizar apenas a localização, lembrando a questão da sociedade em rede e a disseminação das fronteiras espaciais. Assim sendo, este autor propõe a associação do lugar ao conteúdo onde “a imprensa regional e local opera por recorte de um espaço mais ou menos limitado, por seleção do tipo de informação, por uma escolha cultural e, em consequência, por identificação” (Camponez, 2002, p. 128). 15 No seguimento desta mesma ideia, Jorge Pedro Sousa (2002) define também os meios de comunicação social local e regional através da incorporação de dois conceitos: o de comunidade e o de vizinhança. “A comunicação social local e regional é aquela que se estabelece numa comunidade de vizinhos, através de meios de comunicação que lhe são próximos” (Sousa, 2002, p. 4). Os dois conceitos interligam-se, pois, os leitores apresentam uma ligação “sentimental” à região sobre a qual o conteúdo do jornal regional incide, tendo assim em comum uma cultura que é derivada de raízes e gostos partilhados. Tendo em conta todas estas questões, Jorge Pedro Sousa (2002, p. 4) explica também que a comunicação social regional e local estabelece-se numa comunidade uma vez que este tipo de comunicação se desenvolve “entre pessoas em interação próxima” que, tal como referido partilham uma cultura em comum. Nesta vertente, é importante denotar novamente os elementos de uma comunidade que se afastaram fisicamente da região, mas que conseguem através da comunicação regional e local alcançar a informação além-fronteiras. A imprensa regional constitui-se assim como uma “força social ativa, guardiã da cultura local e elo de ligação com as comunidades emigrada” (Cascais, 2001, p. 109-110). Por outro lado, para Pedro Coelho (2005, p. 122), a missão da imprensa regional vai mais além ainda: “aos meios de comunicação social de proximidade não bastará denunciar os problemas que afetam a comunidade. Os média locais terão também que envolver-se no esforço coletivo de promoverem o debate e a discussão racionais com vista à procura de soluções para esses problemas”. Neste sentido, de acordo com este autor (2005, p. 122), pode-lhes ser atribuída a responsabilidade do “cumprimento daquilo que designamos por função social (dos média), uma meta que há muito parece ausente dos meios de comunicação social nacionais”. A questão da proximidade, que irá ser discutida de forma mais aprofundada no decorrer desta investigação, é referida também por Pedro Jerónimo (2013, p. 392) não só como a principal característica do jornalismo desenvolvido na imprensa regional, mas também como sendo o fator diferenciador do jornalismo da imprensa nacional, devido à distância menor com as fontes, o público e o território. O desenvolvimento da região é outro dos fatores que torna o jornal regional tão importante. Sobre este aspeto, Pedro Coelho (2006, p. 13) fala de um “pacto comunicacional entre emissor e recetor que assenta na vontade comum de promoção do desenvolvimento da região” e de conteúdos do interesse dos destinatários. Para além do facto de conseguir produzir informação especializada para a área 16 geográfica em que está inserida de uma forma que a imprensa nacional não consegue, tendo em conta as suas limitações, a imprensa regional é vista por alguns autores como uma alternativa aos modelos de comunicação de massa. Como já referido, a imprensa regional e local caracteriza-se pela sua aproximação com o espaço geográfico onde se insere, assim como o contacto direto e constante com a população e entidades locais. Estes são os meios que divulgam as várias notícias e informações das freguesias, atendendo às várias preocupações e necessidades da população, ou à agenda da região. Desta forma, atua num espaço específico sendo que o objetivo é exclusivamente comunicar para o público dessa localidade, pois é o único que tem interesse e compreende os conteúdos noticiados. De acordo com Carlos Camponez (2002, p. 19), as características que melhor definem a imprensa regional são precisamente “a sua forte territorialização, a territorialização dos seus públicos, a proximidade face aos agentes e às instituições sociais que dominam esse espaço, o conhecimento dos seus leitores e das temáticas correntes na opinião pública local”. Na mesma investigação sobre jornalismo regional e local, o autor afirma que “o espaço de difusão do jornal coincide, assim, com um espaço natural de identidade regional que substancia a identidade e a razão de ser do próprio projeto de informação” (Camponez, 2002, p. 112), sendo que “é nesta ligação conceptual entre a sua localização territorial e a territorialização dos seus conteúdos que a imprensa regional e local constrói a sua razão de ser, a sua especificidade e a sua força” (Camponez, 2002, p. 110). A territorialização estabelece-se então como um fator determinante no que se entende como imprensa regional. A proximidade com a população devido à convivência diária com as realidades regionais, de acordo com Jerónimo (2012, p.24), “nem mesmo nos ciberjornais tal se verifica, precisamente porque a Internet não chega, até ao momento, a toda a população”. Para caracterizar um jornal como local ou regional, o agendamento noticioso é também muito importante. García (2004) evidencia esta ideia ao afirmar que o jornalista que trabalha na comunicação local deve informar sobre a atualidade e sobre os factos que considera de interesse para o público daquela localidade, identificando assim o critério de proximidade e identidade com a região. O autor espanhol afirma inclusivamente que o território não é por si só um elemento definidor, sendo que é o agendamento noticioso feito no jornalismo de proximidade que permite a delimitação noticiosa da região. O conceito de proximidade apresenta-se então como uma questão bastante complexa nesta área jornalística devido ao facto de ser utilizada em vários sentidos. Voltando a Carlos Camponez (2012), 17 este autor aborda esta problemática, lembrando que a importância do conceito de proximidade se constitui como um dos centrais valores do jornalismo, “quer seja como valor-notícia orientador dos critérios noticiosos do jornalista, quer ainda como um produto comercial” (p. 35). Efetivamente, um jornal de âmbito regional é aquele que se dedica aos acontecimentos de um determinado território. No entanto, os limites não são fixos ao ponto de não se poder dedicar a mais do que um concelho ou freguesia. A limitação geográfica não é irrefutável, porém o importante, segundo Camponez, é a proximidade perante as instituições que controlam um determinado espaço e, mais importante ainda, um profundo conhecimento dos interesses dos seus leitores, independentemente da região que seja. Por outro lado, a este conceito de proximidade, que se torna fulcral quando se trata da prática do jornalismo regional, Cristina Moreira (2009, citada em Andrade, 2014, p.31) avança a hipótese de os media correrem o risco de criar “demasiada proximidade”. Apesar do panorama local em que está inserido, o jornalista deve ser capaz de manter a sua objetividade e um olhar imparcial sobre os acontecimentos que trata. Desta forma, a autora alerta para que o perigo de criar proximidade em excesso não seja desvalorizada, para que os conteúdos jornalísticos não sejam toldados por fontes externas. Barroso (2003) apoia também este pensamento, na medida em que considera que a proximidade pode ser de facto uma característica perigosa para o jornalismo local, sendo que “o contexto peculiar e restrito” dos meios de comunicação local ou regional criam “uma natural e enorme exposição do jornalista no seio da sociedade” (Barroso, 2003, p.311). Como refere Andrade: “Aumenta a probabilidade de, em círculos pequenos, os cidadãos se conhecerem, o que torna mais provável a possibilidade de um jornalista estar obrigado a escrever algo sobre pessoas por quem tem consideração ou estima e isso pode afetar o seu trabalho final”. (Andrade, 2014, p.32) Sobre esta problemática, na visão de Pedro Coelho (2005, p. 122) “os meios de comunicação de proximidade devem assumir o papel de auxiliadores na formação da opinião pública local, envolvendose diretamente no tratamento dos temas, porque a isso o pacto de proximidade os obriga, mas sem que esse envolvimento signifique o entrincheiramento do jornalista e do jornalismo à volta de uma causa”. 18 1.3. Funções e particularidades das rotinas de redação Sobre o campo do jornalismo regional e/ou local, ou de proximidade, importa também perceber quais são as suas funções. O papel que desempenha, de acordo com o autor Jerónimo (2013, p. 346) tem como objetivo acompanhar “com mais regularidade os assuntos localizados geograficamente”. Analisando com mais pormenor e referindo novamente o Estatuto da Imprensa Regional (DL n.º 106/88, de 31 de março) são descritas no artigo 2.º as seis funções específicas inerentes à atividade regional: “a) Promover a informação respeitante às diversas regiões, como parte integrante da informação nacional, nas suas múltiplas facetas; b) Contribuir para o desenvolvimento da cultura e identidade regional através do conhecimento e compreensão do ambiente social, político e económico das regiões e localidades, bem como para a promoção das suas potencialidades de desenvolvimento; c) Assegurar às comunidades regionais e locais o fácil acesso à informação; d) Contribuir para o enriquecimento cultural e informativo das comunidades regionais e locais, bem como para a ocupação dos seus tempos livres; e) Proporcionar aos emigrantes portugueses no estrangeiro informação geral sobre as suas comunidades de origem, fortalecendo os laços entre eles e as respetivas localidades e regiões; f) Favorecer uma visão da problemática regional, integrada no todo nacional e internacional” (1988, p. 1320). Nielsen (2015) afirma que o jornalismo local desempenha três funções importantes para as comunidades locais : “ informar, permitindo o acompanhamento dos assuntos públicos locais; envolver, gerando níveis mais altos de união cívica e política; e integrar, contribuindo para a representação e união da comunidade”. É relevante mencionar novamente Carlos Camponez (2002), que baseado num trabalho do jornalista francês Michel Mathien, discrimina também algumas funções da imprensa regional. Entre elas, o autor cita as seguintes: servir de elo da comunidade para a qual se comunica, completar a experiência quotidiana dos leitores através da informação sobre a realidade mais próxima, 19 reduzir as incertezas do leitor acerca do ambiente que o rodeia, servir como um banco de dados sobre a região de influência e desempenhar uma função de recreio e de psicoterapia social. Segundo Bob Franklin (2006), “o jornalismo de proximidade oferece comentários críticos e independentes a respeito dos acontecimentos locais e providenciam um meio de discussão para a comunidade debater os problemas da sua região”. Já Barreiras Duarte entende que “o futuro da informação de proximidade está em ser autenticamente regional, assumindo todos os problemas e vivências da respetiva zona de influência geográfica” (2005, p. 110). O autor refere-se assim ao facto de a comunicação regional estar cada vez mais atenta aos problemas locais, direcionando as diretrizes do seu conteúdo para notícias que incidam sobre as problemáticas da região. A par com esta premissa, Camponez descreve a função da imprensa local a par com a promoção de uma “saudável vida democrática, permitindo a troca de ideias, favorecendo o debate e procurando fazer com que os seus leitores se interessem pelo ambiente que os rodeia, por forma a levá-los a assumir uma atitude participativa do ponto de vista social” (2002, p. 122). A participação na vida social torna-se assim um dos elos de ligação ao jornalismo regional. Ao abordar e falar sobre os problemas da população realiza um trabalho que é impossível para os meios de comunicação nacionais, conseguindo assim atingir questões mais pormenorizadas e localmente pertinentes (Duarte, 2005, p. 110). É importante também perceber que, para a comunicação regional conseguir desempenhar este papel destacado anteriormente pelos autores Camponez e Duarte, “é necessário que o jornalista ultrapasse a missão de dar as notícias e ajude a melhorar a vida pública, assumindo o papel de observador-participante e atuando com justiça e imparcialidade” (Santos, 2007, p. 47). Isto significa, no plano regional, que o jornalista tem o papel de ajudar a comunidade e o desenvolvimento da região através da informação. A imprensa local e regional assume-se assim como um “elo social”, aspeto que é também focado por Amaral (2006, p. 4), autor que refere que estes órgãos de comunicação constituem “pilares fundamentais do desenvolvimento das comunidades”, ao contribuírem para “a amplificação de um espaço público local mais racional e comprometido com as causas do progresso coletivo”. O jornal regional pode também ultrapassar a missão de informar ao assumir-se como plataforma de debate em defesa de causas, projetos ou ideias transformadoras da vida quotidiana das pessoas. Nessa medida, importa perceber que “quanto mais profissional e independente for um jornal regional no que toca à sua relação com os interesses da comunidade e ao denunciar os aspetos negativos e 20 enaltecendo os positivos, mais essa comunidade tenderá a dar passos em frente na sua afirmação cívica, política e social” (Amaral, 2006, p.4). 1.4. Contextualização da imprensa regional portuguesa De acordo com o último estudo sobre a comunicação social regional e/ou local feito pela Entidade Reguladora para Comunicação Social (ERC) e publicado em 2010, em Portugal registavam-se cerca de 2.942 publicações periódicas 1 no final do ano de 2009. Deste englobado, 728 eram de âmbito local e regional e distribuíam-se pelos 18 distritos e pelas duas regiões autónomas do país. Para obter uma conceção mais concreta da realidade atual, a ERC apresenta no seu website uma listagem de registos de todas as publicações periódicas em Portugal, e que está em atualização permanentemente. Analisando esta base de dados é possível perceber que, a 3 de março de 2020, estavam registadas cerca de 1.741 publicações periódicas em Portugal. Deste universo, apenas 754 são de âmbito regional, sendo as restantes 986 de âmbito nacional. Existe ainda apenas uma publicação destinada às Comunidades Portuguesas no Estrangeiro. Analisando e comparando estes dados com os fornecidos pelo estudo feito pela ERC em 2010, é possível avançar que o universo de publicações periódicas sofreu um decréscimo significativo. Estatisticamente, no período de 10 anos, cerca de 1.201 publicações periódicas cessaram a sua atividade jornalística, afetando sobretudo a imprensa de cariz nacional. É importante, no entanto, realçar que foram criadas mais 26 publicações de âmbito regional. 1 São publicações periódicas todas as reproduções impressas de textos ou imagens, disponíveis ao público, quaisquer que sejam os processos de impressão e reprodução e o modo de distribuição utilizado, sendo consideradas publicações periódicas as editadas em série contínua, sem limite definido de duração, sob o mesmo título e abrangendo períodos determinados de tempo (ERC, 2010) 21 0500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 Nº Total Publicações Imprensa Regional Imprensa Nacional Panorama da Imprensa Portuguesa 2020 2010 Gráfico 1 - Evolução da Imprensa em Portugal no período de 10 anos (Construção própria com base nos registos da ERCdados retirados a 13 de maio 2020) Ao nível da distribuição por distritos, no final do ano de 2009, os jornais regionais estavam distribuídos na maioria pelo distrito do Porto (85), seguindo-se Aveiro (67), Braga e Leiria (56 cada), com menor peso Beja (9), Bragança e Madeira (11). Atualmente e de acordo com a base de dados consultada na ERC, os números não se alteraram muito. Naturalmente o distrito do Porto volta a sobressair com um total de 96 publicações regionais. Por outro lado, o distrito de Lisboa denota também um aumento exponencial existindo atualmente cerca de 109 publicações de cariz local e regional, em comparação com apenas 28 em 2010. Destacam-se ainda de forma positiva os distritos de Braga (74), com mais 18 publicações, Bragança (13), com mais duas publicações, e ainda Beja (12), com mais três. Por outro lado, os distritos de Leiria e de Aveiro destacam-se pela negativa, com uma diminuição expressiva no seu número de publicações. Têm atualmente 56 e 67, ou seja, menos 17 e sete publicações, respetivamente, quando comparado com o registo de 2009. 22 0 20 40 60 80 100 120 Distribuição de Publicações de âmbito Regional por distrito 2010 2020 Gráfico 2 - Número de publicações regionais em 2020 (Construção própria com base nos registos da ERCdados retirados a 13 de maio 2020) Ao nível da periodicidade, de acordo com o estudo de 2009, a maioria das publicações de imprensa local e regional eram mensais (37,5%), seguindo-se os semanários (29,4%) e os quinzenários/ bimensais (23,9%). Apenas 18 títulos de imprensa local e regional eram diários (2,5%) existindo ainda alguns com diferentes periodicidades, como o caso dos bissemanais, trissemanais ou trimensais (2,5%). Atualmente há um dado bastante relevante a deter que é o aumento significativo das publicações diárias, que representam cerca de 20% deste universo, como é possível analisar no gráfico seguinte. 23 Diária 20% Anual 5% Bianual 0% Bimensal 1% Bimestral 4% Mensal 29% Quinzenal 14% Semanal 18% Semestral 4% Trimestral 5% Análise da Periodicidade Diária Anual Bianual Bimensal Bimestral Mensal Quinzenal Semanal Semestral Trimestral Gráfico 3 - Análise da Periodicidade (Construção própria com base nos registos da ERCdados retirados a 13 de maio 2020) Analisando os dados é possível ainda perceber que atualmente, os meios regionais com suporte online são 160, em comparação com 412 que publicam em formato impresso. Há um universo de 182 publicações que publica os seus conteúdos nos dois formatos. Mais recentemente, o relatório Reuters Digital News Repport de 2020 2 divulgou várias informações interessantes sobre a imprensa local/regional portuguesa. Relativamente ao perfil dos leitores, estatisticamente, o interesse por notícias locais e regionais observa-se mais na faixa etária compreendida entre os 35 e os 44 anos. Os mais jovens (18-24) e os mais velhos (65 e +) são, em proporção, os que menos interesse têm por conteúdos noticiosos desta escala geográfica, em percentagens respetivas de 32,6% e 41%. Os jornais locais, em formato impresso ou digital, foram utilizados por 43,3% dos portugueses na semana anterior, seguidos pelas páginas de grupos locais nas redes sociais ou em fóruns / grupos de discussão – 33,5% dos portugueses. Por outro lado, o contacto pessoal com outros moradores, vizinhos, amigos e / ou família tem também um papel preponderante na obtenção de informação sobre o que se passa a nível local (30,1%). 2 Estudo disponível online em: https://obercom.pt/wp-content/uploads/2020/06/DNR_PT_2020_19Jun.pdf 30 blocos de informação de maneira a navegar livremente pela página, em vez do texto jornalístico tradicional que obedece às regras da pirâmide invertida (Canavilhas, 2006). De acordo com Palacios (2002), o conceito de multimodalidade refere-se à convergência dos formatos dos média tradicionais (imagem, texto e som) na narração do acontecimento jornalístico. “Conceitos como criatividade, liberdade de escolhas e maior eficiência estão intrinsecamente ligados ao multimédia, garantindo que a audiência está perante a melhor forma de compreender a mensagem” (Vieira, 2009). Os diferentes tipos de conteúdos multimédia tornam também a notícia mais objetiva e coesa quando o formato é digital. Canavilhas apresenta o som e o vídeo como os principais tipos de conteúdos que são utilizados. No caso do áudio, a utilização de gravações originais da pessoa entrevistada vai além da simples citação e oferece um novo nível de objetividade. No caso do vídeo, esta característica é ampliada pelo facto de o leitor poder ver a imagem colhida no local do acontecimento, tal como se estivesse lá. “A imagem recolhida no local empresta à notícia uma veracidade e objetividade maior do que a simples descrição do acontecimento” (Canavilhas, 2001). Bardoel e Deuze (2011) sublinham a interatividade como uma das principais características do meio digital. Neste âmbito, explicam que a chave para se compreender esta característica é analisar a interatividade como uma característica relacionada com as audiências. Esta característica é inerente a todos os outros meios que não apenas os impressosdesde os programas de televisão, que incitam à participação do público, passando por exemplo, pelos famosos “discos pedidos” nas rádios locais do país até às cartas dos leitores às redações dos jornais. No entanto, é através da nova era digital que a interatividade alcança contornos mais relevantes, acabando por ser um dos grandes pilares para a transformação que tem originado no jornalismo impresso. Nas redes sociais, é importante mencionar que a interatividade ganha um novo patamar com as diferentes formas que o leitor tem de “reagir” ao conteúdo publicado pelos meios de comunicação social. Seja pelos comentários, gostos ou partilhas que se faz, é possível agora analisar os modos como se interage com o público e perceber de que forma se pode potencializar mais esta interação. A instantaneidade na publicação de informações é também um dos pontos fulcrais quando comparado o contexto online com o impresso é incomparável. Apesar de, referindo novamente as cartas dos leitores para as redações, serem também elas uma forma de interatividade, a forma como atualmente se pode responder ao leitor tem transformado a rotina e o trabalho do jornalista. Esta opinião é também partilhada por João Canavilhas, que afirma que “a possibilidade de interação direta com o produtor de notícias ou opinião é um trunfo forte a explorar pelo webjornalismo ” (Canavilhas 31 2001). Esta nova possibilidade resolve as questões de falta de resposta que aconteciam quando, por exemplo, um leitor enviava uma carta para o jornal com comentários a uma determinada publicação, mas que perdiam o seu carácter de notoriedade e atualidade pelo facto de demorarem muito tempo a chegar. A personalização dos conteúdos é referida por López (cit in Zamith, 2008), sendo que esta prática “consiste em alterar a configuração genérica de um sítio web de acordo com os critérios especificados por um usuário”. Em termos práticos, esta nova potencialidade baseia-se na “opção oferecida ao utilizador para configurar os produtos jornalísticos de acordo com os seus interesses individuais” (Palacios, 2002). Também Bastos entende que na Internet, “um dos maiores desafios dos jornais e dos jornalistas será tornar o oceano de informações armazenadas digitalmente em algo interessante e pertinente para os leitores” (Bastos, 2000, p. 119). Atualmente o leitor pode escolher o que pretende ler consoante os seus interesses e pode ainda gerir estes conteúdos de acordo com os “assuntos do momento”. Através do desenvolvimento das várias ferramentas tecnológicas e novas métricas, é possível atualmente que os jornais percebam posteriormente o número de leituras que cada notícia teve. Esta tendência é percebida pelo jornal que, depois pode analisar a quantidade de leituras, visualizações e partilhas nas redes sociais que conseguiu obter. Com esta contabilização e a subjacente análise, os jornalistas podem criar um caminho de informação que vá de encontro aos interesses das audiências, desde que seja congruente com os valores-notícia. Falar sobre as características do meio digital é também falar sobre a instantaneidade que lhe é patente. As publicações ao minuto são uma realidade cada vez mais atual nas redações. Já não é necessário esperar pela edição impressa dos jornais para receber os conteúdos atualizados, pois através de dispositivos com acesso à Internet é possível receber as informações ao minuto. Palacios (2002, p.4) refere precisamente que “a rapidez do acesso, combinada com a facilidade de produção e de disponibilização, propiciadas pela digitalização da informação e pelas tecnologias telemáticas, permitem uma extrema agilidade de atualização do material nos jornais da web. Isso possibilita o acompanhamento contínuo em torno do desenvolvimento dos assuntos jornalísticos de maior interesse”. 32 2.2. Evolução do ciberjornalismo em Portugal: Breve Panorama “Demorou 75 anos até que o telefone atingisse os 50 milhões de utilizadores. A televisão demorou 13. Já a Internet, só precisou de 5 anos para chegar lá. Em poucas décadas, a internet passou de uma novidade tecnológica e obscura para algo tão básico e essencial nas nossas vidas como a electricidade.” (Sagan & Leighton, 2010, p. 119) De acordo com Bastos (2011), os primeiros quinze anos do ciberjornalismo em Portugal podem ser divididos em três fases: a da Implementação, que decorreu entre 1995 e 1998; a da Expansão ou Boom , entre 1999 e 2000; e por último, a da Contração/Depressão seguida da Estagnação, que decorreu até 2010. Durantes estes períodos, foram vários os sentimentos vividos pelos meios de comunicação portugueses que sentiram o otimismo de uma nova etapa a começar. Com esta nova fase surgiram também novas oportunidades, que permitiram experiências e apostas em novas plataformas. No entanto, estas pautaram-se também pelo ceticismo, descrença e, no fim de década e meia, surgiu a estabilização. A visão e o estudo de Bastos sobre este tópico é pertinente na medida que permite uma explicitação e análise ampla do período de formação de jornalismo online em Portugal. No entanto, é relevante notar que atualmente, em 2020, o cenário é bastante diferente e existem práticas mais consolidadas no que toca à área da tecnologia e das plataformas da web. Ora, citando novamente Bastos (2011), a primeira fase da integração da Internet nas redações demarcou-se naturalmente com a crescente implementação das edições dos jornais na Web em plataformas online. Esta primeira adaptação à evolução tecnológica obrigou a um esforço dos media para conhecerem as novas ferramentas, o que o autor dominou como o modelo “ shovelware ”. Este conceito subentende a atitude perpetuada pelos jornais, que abriram “os respetivos sites para neles reproduzirem os conteúdos produzidos para a versão de papel, as rádios transmitem na Web o sinal hertziano, as televisões os seus telejornais” (Bastos, 2011). De acordo com Deuze (2008), esta reutilização de conteúdos do formato impresso para o digital é identificada como “canibalização de conteúdos”, tendo em conta a falta de preocupação com a adaptação dos conteúdos perante as diferentes plataformas. Numa análise recolhida por Bastos (2000), em novembro de 1996, registavam-se 39 edições de jornais que já tinham criado o seu próprio website. Em 1998, apenas dois anos depois, este número já 33 tinha atingido o dobro, sendo que o número de edições eletrónicas de jornais era já de 109. Foi então a partir de 1995 que o número de páginas cresceu exponencialmente. O Jornal de Notícias e o Público foram os jornais que se destacaram pela contínua atualização dos seus conteúdos online. A principal novidade era precisamente as atualizações de última hora, o único fator de diferenciação em relação ao jornalismo em formato impresso. Em julho de 1995, o Jornal de Notícias inaugurou a sua edição online e tornou-se assim pioneiro na utilização da Internet e ainda o primeiro diário de informação com atualizações diárias na Web (Bastos, 2010; Granado, 2002). Começou a atualizar, diariamente, a informação na sua edição na Web; e criou em paralelo uma redação digital, para a qual foram destacados dois jornalistas a tempo inteiro (Bastos, 2011). Seguiu-se o jornal Público, que, por sua vez, já desde 1994, fazia experiências na Web e colocava online alguns artigos da versão impressa. No seu website, o jornal começou por disponibilizar o dossiê “Público Eleições-95”, onde fazia a cobertura das legislativas e, em 1999, começou a produzir conteúdos independentes da versão impressa ao criar o separador “Última Hora” (Bastos, 2011). Ainda no pico do ano de 1995, o Diário de Notícias começou também a colocar online a sua edição diária. Já em 1997, o Expresso começou também a marcar a sua presença online. O jornalismo regional ficou também demarcado na história do ciberjornalismo quando em janeiro de 1998 foi criado o semanário regional Setúbal na Rede, o primeiro jornal exclusivamente online em Portugal. Desta forma, consagrou-se como o primeiro órgão digital a ser registado no Instituto da Comunicação Social. Já o primeiro jornal regional a registar o seu domínio eletrónico foi o Voz Portucalense, seguindo-se o Diário de Coimbra e do Região de Leiria que também abriram consequentemente a sua página na Internet. A segunda etapa, denominada como Expansão, é analisada por Bastos (2011) como uma “fase de euforia” relativamente à economia criada pela Internet. Este período ficou marcado pelo aparecimento de um número cada vez maior de jornais com suporte exclusivo online, exemplo do Diário Digital e o Portugal Diário. O jornal Público anunciou também a independência da sua edição online, onde iria publicar conteúdos exclusivos, a par com a criação de serviços online pagos, como o arquivo digital do jornal. No entanto, de acordo com Bastos (2011), “os jornais regionais portugueses estavam ainda longe de aproveitar as oportunidades da Web”. Os fatores económicos e a falta de incentivos justificavam o atraso, o que atrasou a imprensa regional portuguesa na perceção da importância da Internet na “amplificação da informação local” (Vilar, 2000). A última fase, a de Contração, é vista pelo autor como o “início do fim de uma ilusão”, que foi colmata com o encerramento de websites, cortes nos jornalistas e redução de despesas associadas à 34 Internet. O investimento foi reduzido amplamente, exemplo do Diário Digital que, em 2001, começou a dar os primeiros sinais de retração, ao integrar no seu próprio website mais duas publicações autónomas da Caneta EletrónicaSuper Elite e Desporto Digital. Também em 2001, o Expresso Online acabou com a atualização de notícias e dispensou metade da sua redação. Seguiu-se assim um período de estagnação em que as empresas jornalísticas não tinham poder económico para continuar a investir nas plataformas online. Num estudo, apresentado em outubro de 2003, intitulado “A Internet e a Imprensa em Portugal”, promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa (AIND) e pela empresa Vector 21, concluiu-se, no entanto que, com o surgimento e expansão das publicações online, cerca de 30% dos portugueses deixaram de comprar jornais nas bancas (Bastos, 2011). No entanto, é importante realçar que apesar da substituição do papel para a Internet, o número de cibernautas que lia jornais online permanecia ainda reduzido, na ordem dos 12%. Em 2006, a falta de investimento e o conservadorismo das empresas e dos jornalistas eram apontados como explicação para o facto de o ciberjornalismo português não dar um salto qualitativo (Bastos, 2011). De acordo com Zamith (2008), o cenário começou a alterar-se ligeiramente no segundo semestre de 2006, com o aparecimento de alguns projetos inovadores. A introdução do vídeo nos sites do Diário Económico a par com apostas no campo multimédia, designadamente no Portugal Diário e no Expresso Online. O despedimento coletivo na área do jornalismo iniciou-se em 2009 e arrastou para uma crise generalizada nos media até ao final de 2010. Apesar deste panorama conturbado entre 2001 e 2010, é importante relevar que foi neste período que o jornal Sol, a Sábado ou o “i”, lançaram as suas versões online. De destacar também a tentativa em 2002 feita pelo Correio da Manhã de começar a introduzir no seu website ferramentas de interatividade entre o jornal e os leitores, que permitia que os utilizadores comentassem assim as notícias publicadas e ainda partilhálas caso pretendessem. Em 2005, o Expresso começou a dar importância ao grafismo do portal, algo que até então era desvalorizado e em 2007 renovou completamente o seu site com a aposta notória de valorizar o conteúdo em vídeo, em criar fotogalerias, podcasts e interagir mais com os leitores. Foram estes os primeiros passos dados para a convergência de media . Já no final do século XXI, os dispositivos móveis como os telemóveis ou as tablets ganharam espaço para integrarem, sendo que desta forma começaram também a ser vistos como um canal de distribuição de conteúdos. Em retrospetiva, de acordo com Bastos (2010), o balanço dos primeiros quinze anos foi “pouco positivo” e justifica-se além do “insuficiente output jornalístico e ciberjornalístico dos media online portugueses”. Passa também por fatores “ligados à cultura das empresas jornalísticas, à classe 35 profissional dos jornalistas, à formação profissional e aos modelos de negócios” (Bastos, 2010). O investimento na Internet por parte dos jornalistas é visto por Cátia Mateus (2015) como uma “alternativa à crescente perda de público e audiências que se acentuou nos meios de comunicação tradicionais”. Atualmente existe já uma grande variedade de jornais cujo funcionamento é exclusivo online, tanto a nível nacional como regional. As exigências para publicar informações atualizadas em cima do acontecimento obrigam à constante mudança dos comportamentos dos meios de comunicação, de forma a responder à nova geração de leitores “ao minuto”. Daí a aposta de projetos híbridos, da criação de redes sociais e a aposta em interagir com o leitor em todas estas vertentes. Após a primeira década de ciberjornalismo em Portugal, o que se seguiu foi uma nova fase muito importante que dinamizou como nunca a profissão. Com a crescente digitalização e modernização dos suportes informativos, os hábitos de leitura começaram também a alterar-se. Desta forma, começou a verificar-se uma abrupta queda na procura de jornais impressos, face a um aumento das versões online dos jornais que assumiram uma maior preponderância nos seus consumos. Em linha com esta premissa, Mateus (2015, p.12) defende precisamente que é percetível que “o jornalismo procurou na Internet uma alternativa à crescente perda de público e audiências que se acentuou nos meios de comunicação tradicionais”. Refletindo sobre quebra do papel, a autora acrescenta, ainda, que “de todos meios de comunicação, a imprensa escrita é a que mais tem sentido o impacto da Internet e das mudanças que a transição do consumo de informação para o online gerou” (2015, p. 13). O próprio surgimento da Internet provocou nos leitores uma insatisfação apenas ao ter acesso às informações em formato impresso, e por isso os jornais tiveram que se adaptar às novas exigências, tanto para atrair leitores como para atingir melhores resultados económicos. Por esta razão grande parte dos jornais em Portugal tem atualmente uma plataforma própria online onde publica também os seus conteúdos. Ora, a digitalização e o crescimento da Internet a par com a emergência dos dispositivos moveis provocaram uma alteração na produção e distribuição dos conteúdos noticiosos. Neste processo, a imprensa escrita foi a mais afetada, sendo que no início do século XXI o número de jornais em atividade começou a diminuir. A maior facilidade e rapidez no acesso às informações através da Internet provocou uma queda exacerbada no número de leitores e no decréscimo de receitas provenientes da publicidade. A crise da imprensa em papel começou já, segundo Canavilhas (2013), no ano de 2008 e representa uma das piores fases da sua história. A concorrência do online provocou 36 assim uma crise generalizada e que tem ganho novos contornos até à atualidade. Nesta fase temporal é necessário também relembrar que, além dos novos contornos do jornalismo online que desgastaram a preponderância do jornalismo em papel, também a profunda crise económica que se instalou a nível global que reduziu, tal como já referido, substancialmente o investimento publicitário. Nas plataformas online, para onde alguns jornais “migraram” e transpuseram os seus conteúdos, não existem os custos associados à impressão e distribuição que exigem diferentes logísticas aos media. As receitas começam a cair, associado ao fenómeno da quebra de circulação. O caso da Newsweek é apresentado pelo autor Canavilhas (2013), como um dos mais conhecidos de migração para o online, provocado pela queda do papel a par com o aumento do consumo dos leitores de notícias online. Este era a segunda revista mais lida dos Estados Unidos e depois de cerca de 80 anos com a sua própria edição em papel começou a ter dificuldades em manter a rentabilidade económica, sendo que durante os últimos cinco anos de atividade exclusivamente impressa sofreu uma queda de 50% na sua circulação, com as receitas a estarem continuadamente em queda. Face a estes dados desanimadores, a revista optou por uma transformação interna, optando por uma edição online com paywall. Passado um ano a revista norte americana conseguiu voltar a investir na publicação em formato impresso. Este é, aliás, um dos conceitos que ganhou mais importância nesta fase do ciberjornalismo. Inicialmente, a publicação das notícias num website era de acesso gratuito, ao contrário dos jornais impressos, e por isso as receitas continuaram a ser um problema. Desta forma, o conceito de paywall surgiu como um novo modelo de negócio, no âmbito do qual foi criado um sistema de assinaturas utilizado por jornais e outros veículos de comunicação digital que permite ao seu assinante acesso a notícias restritas e diferenciado dos demais leitores 6 . Desta forma, esta foi a solução criada para os jornais com o objetivo de conseguir aumentar as receitas e se adequarem às características individuais dos leitores de jornalismo digital. Os dispositivos móveis ganham também uma importância dominante nesta fase. Além do aumento do número de assinantes de jornais com plataformas online, os dispositivos com ligação à Internet permitiram uma maior penetração dos jornais no quotidiano dos seus leitores, por permitirem aceder à informação sem qualquer obstáculo temporal ou espacial. Como resposta crescente ao uso dos vários dispositivos tecnológicosdesde telemóveis até tabletsCanavilhas (2013, p. 39) defende uma fase “caracterizada pela distribuição multiplataforma de produtos hipermultimediáticos, o que 6 Informação disponível em https://www.maven.com.br/blog/paywall-o-futuro-dos-jornalismo-digital/ Dados retirados a 15 de agosto de 2020 37 acontece como resposta ao crescente uso de novos dispositivosnomeadamente smartphones e tablets ”. Num panorama mais recente os jornais têm mudado de estratégia digital, reafirmando a importância cada vez maior que a fidelização dos clientes tem na sustentabilidade económica. Seja através da monetização pela publicitação de produtos ou serviços ou através da produção de conteúdo pago, os jornais têm investido numa relação mais próxima com o leitor, na medida em que este pague pelo conteúdo que lêseja através de assinaturas, doações ou acesos a artigs premium (Jenkins, 2020). Uma outra conclusão a que este autor chegou durante a sua pesquisa foi uma estratégia a que as redações estão a recorrer, no que toca à “mentalidade comercial”. Foram criados novos processos editoriais cujo objetivo único é aumentar as receitas digitaisum conceito-chave que é imprescindível atualmente. Este tipo de ações englobam a programação de conteúdo, análise do engagement que uma publicação conseguiu por parte dos leitores, reportagens mais detalhas, notícias de última hora online ou podcasts (Jenkins, 2020). No fundo a construção de uma relação “leal” com o leitor é cada mais enfatizada na ideologia de um jornal. Aqui surge a discussão sobre as redes sociais, que se tornaram um importante aliado para os jornais. São uma ferramenta estratégica que quando bem aproveitada por promover assinaturas e facilitar a conexão com os leitores e o alcance de novos públicos. 2.3. Alterações das rotinas e adaptação dos jornalistas Desde que a Internet entrou nas redações portuguesas, a rotina e o próprio papel do jornalista sofreram várias alterações. Com as constantes mudanças que ocorreram no interior dos meios de comunicação, a profissão do jornalista tem também vindo a ser moldada e por isso obrigada a reajustar-se. López (2007) afirma que, por esta razão, deveria dar-se mais atenção ao jornalista e o seu papel como catalisador das mudanças perpetradas nos veículos de comunicação, precisamente por ser o meio de conexão e fonte da progressão das mudanças. Pelo facto da Internet se configurar como um espaço aberto para a participação de todos, o fluxo de informação acaba por se tornar imparável. A informação é divulgada e de acesso global em segundos, associada à capacidade de armazenamento como nunca antes visto. 38 Tal como referido no tópico anterior, foi a partir da década de noventa que começaram a ser mais notáveis as implicações da Internet no jornalismo. Sobre este novo panorama, John V. Pavlik começou por defender que, com a adaptação às novas tecnologias, o jornalista viria a ser substituído por um software que hipoteticamente seria capaz de criar conteúdos automaticamente através de um algoritmo e acesso fontes online. No entanto, “volvidos cerca de 20 anos, tal não se verifica, pese embora já tenham surgido algumas experiências nesse domínio, isto é, notícias construídas sem qualquer intervenção humana” (Jerónimo, 2015). O risco, caso tal acontecesse, iria colocar-nos face a um conceito que Rebecca Greenfield (2012) denomina como “robot journalism”. Em Portugal, a transição para a Era Digital ficou, de acordo com Bastos (2012), marcada pela apreensão inicial. No entanto, com o tempo as novas ferramentas começaram a ser adaptadas ao quotidiano do jornalista e tornar-se parte integrante do seu trabalho: “Nos últimos dezassete anos, o ciberjornalismo foi crescendo, nuns países depressa e de modo assertivo, noutros, como Portugal, mais devagar, com hesitações e pouco sentido de risco. Pelo caminho, o novo ramo do jornalismo foi consagrando um conjunto de modelos, regras e práticas que se começam a normalizar, isto é, a tornar-se num conjunto de normas mais ou menos partilhadas pela tribo ciberjornalística. (Bastos, 2012, p. 284) As alterações que advieram com a integração da Internet nas rotinas das redações foram propiciadas pelo aperfeiçoamento do desenvolvimento tecnológico e pela criação de novas ferramentas de comunicação. McNair (2009, p. 348-349) enumera algumas alterações que ocorreram desde o começo da Era Digital no jornalismo: a passagem do analógico para o digital, a transformação do papel passivo do consumidor para uma parte ativa na construção do conteúdo e ainda a transposição das próprias plataformas que deixaram de ser fixas e passaram a ser móveis. Com todas as mudanças que têm ocorrido no mundo do jornalismo consequentes à implementação do digital, os desafios que se colocam aos meios de comunicação social regionais são inúmeros. Estas mudanças acontecem, de acordo com Teixeira (2011, p. 36), “numa altura em que, em termos de conteúdos jornalísticos, a quantidade é cada vez mais preferível à qualidade, fruto da imediatez da informação”, o que faz com que também os “meios circunscritos a um território mais delimitado precisem de se adequar a esta nova forma de informar” (Teixeira, 2011, p.36). Para Neveu, essa realidade faz com que as administrações dos órgãos de comunicação social local e regional deem 39 mais atenção à “informação orientada para as audiências (faitdivers, desporto) e à informação que visa atrair a publicidade”, o que faz surgir o “jornalismo de mercado” (2003, p.118). Ou seja, “o trabalho das redações é cada vez mais balizado pela contenção de despesas e pela caça às audiências” (2003, p.118) e com menos recursos, a qualidade jornalística decresce, a investigação de média e longa duração é colocada em segundo plano, pois constrangimentos de tempo e de recursos humanos obrigam a tais medidas. A quantidade de textos pode até aumentar, mas a sua extensão será reduzida, dando especial ênfase a takes de agências de notícias e aos comunicados de empresas e associações, o que traz alguns incómodos à prática jornalística (Teixeira, 2011, p.49). Os pilares do jornalismo acabam assim por serem ameaçados na sua essência. O jornalista, quando inserido numa redação digital, acaba por ser “enquadrado num conjunto de rotinas de produção, mais de caracter técnico do que propriamente jornalístico, que o afastam da possibilidade de recolher informação pelos seus próprios meios, de selecioná-la, de redigi-la, de colocá-la em contexto, de preparar os seus textos ou montar as suas peças” (Bastos, 2012, p. 286). Nesta premissa, mas com uma perspetiva igualmente pessimista, Fortunati et al. (2009) referem que a internet introduziu uma nova geração de profissionais dedicados a preparar edições online, muitas vezes jovens e mal pagos. Sendo que o ritmo do digital é bastante mais acelerado, os profissionais acabam por ter que tentar responder a deadlines apertados, em que o conteúdo não é aprofundado e muitas vezes falta o rigor na verificação. Com esta nova realidade, o ciberjornalista ocupa um lugar predominante na transposição de plataformas, o que lhe exige novas ferramentas e formação. “O ciberjornalista deve ser capaz de perceber as capacidades e a estética dos novos média, o que inclui o entendimento da natureza interativa dos média digitais em rede e a aprendizagem de novas maneiras, não lineares ou multilineares, de narrativa jornalística” (Bastos, 2005). As exigências dos leitores são também cada vez mais importantes e devem ser tomadas em consideração na hora da criação e publicação do conteúdo online. Santos (2007) alerta para a necessidade de satisfazer os utilizadores: “os chamados ciberjornalistas não podem esquecer que o perfil e as exigências dos leitores de jornais digitais diferem das dos leitores de jornais impressos (...) o leitor online, além de usar muito o computador, é por norma impaciente, menos enraizado na comunidade e mais interessado em noticiário personalizado” (Santos, 2007, p. 97). Por consequência, o profissional deve estar familiarizado com as ferramentas multimédia, envolvendo a fotografia, áudio ou vídeo. O desafio é então dominar todas as novas 46 a) Conectividade: desenvolver uma relação de proximidade com o leitor, não só através do diálogo, como também através de contextos em comum que gerem suficiente confiança de modo a permitirem que os leitores apresentem as suas próprias redes e colaborações; b) Serviços: oferecer produtos adaptados para as diferentes redes e com amplo espectro, de modo a se adaptar a novas práticas sociais ( widgets , aplicações para Facebook, liberação de código com conteúdo especial online, entre outros); c) Participação: abrir-se para a contribuição e colaboração do público; d) Orientar e dinamizar: a mera possibilidade de participação que o uso tecnológico permite não implica num envolvimento de qualidade. Os medias devem dinamizar os processos críticos através de estímulos, servindo mesmo como mediador do diálogo entre os diferentes públicos. e) Gestão de conhecimento: no seguimento do tópico anterior, esta gestão de conteúdo implica no sedimentar das relações entre os públicos mais ativos no seu interior, de modo a motivá-los e mantê-los ativos. Para potencializar o investimento nas redes sociais e conseguir marcar presença de uma forma positiva nas redes, devem ser analisados de forma crítica os tópicos anteriormente apresentados. Todas estas mudanças têm tido repercussões no jornalismo, ao nível da própria rotina de produção de conteúdo noticiosos, na agenda, nas fontes utilizadas e na forma como se relacionam com estas, as novas funções dos jornalistas e até a relação com o público. Tal como referido, é necessário compreender plenamente que o aparecimento de novos meios como as redes sociais apresentam tanto uma nova oportunidade como um desafio para os próprios jornalistas. O novo panorama criado pelas redes sociais exige adquirir novas formas de trabalho e reconhecimento da própria plataforma. 3.1. O caso do Facebook: Uma nova plataforma ao serviço do jornalismo A rede social escolhida para analisar neste estudo foi o Facebook. Dentro do leque de redes que existe atualmente e que mais são utilizadas, o Facebook tem sido considerado a rede social base e a que concentra em si a gênese das redes. Por ter sido a primeira a ganhar grande visibilidade e 47 adesão em todas as faixas etárias, criou uma linha de critérios que todas as outras seguiram, acrescentando posteriormente as suas próprias características. Segundo o relatório publicado pela Reuters em 2020 já mencionado anteriormente, “o Facebook continua a ser a rede social preferida dos portugueses, com 3/4 dos inquiridos a dizer tê-la utilizado para fins gerais e metade para consumo de notícias”. Para os jornalistas, o Facebook tornou-se mais do que uma rede para ler e publicar. Atualmente, é já possível admitir que esta rede, pelo seu vasto domínio e alcance de publico, é capaz de remodelar todo o fluxo de notícias (Paulussen, 2016). Um estudo publicado pela Obercom em 2017, realizado tendo por base dados reunidos pela Reuters, conclui que o Facebook é a rede social que os leitores mais escolhem para ler ou partilhar notícias. Estatisticamente, são cerca de 63% das respostas dos inquiridos para este estudo que revelam esta realidade e que apontam então o Facebook como sendo a plataforma mais utilizada para se manter contacto com notícias. Criada em 2004 por Mark Zuckerberg, tinha inicialmente o nome The Facebook. Esta foi a rede escolhida por ser atualmente a que tem o maior número de utilizadores e por ser uma das mais populares tanto para os utilizadores como para os jornalistas. O Facebook funciona como um site onde qualquer indivíduo se pode registar gratuitamente. Para a criação de uma página no Facebook, é necessário criar um perfil e adaptá-lo às próprias características pessoais. Esta plataforma permite criar ligações com outras pessoas, explorar os gostos pessoais em várias temáticas, seguir páginas e grupos de interesse. O utilizador pode ainda partilhar os seus pensamentos na caixa “O que estás a pensar?”. Esta rede foi originalmente concebida para estabelecer uma rede de contactos apenas entre estudantes da Universidade de Harvard, mas, apesar de não ser essa a sua génese, rapidamente se tornou numa rede social aberta a todos, seguindo assim uma política de expansão. O primeiro passo foi dado em setembro de 2005 quando o Facebook se começou a expandir por todas as escolas secundárias norteamericanas e a redes profissionais de grandes corporações. Posteriormente, a partir de 2006 a rede tornou-se pública e acessível a toda a população (Boyd & Ellison, 2007). Atualmente estima-se que em todo o mundo exista 1,56 mil milhões de utilizadores ativos diários, sendo que em Portugal 95,1% dos utilizadores de redes sociais tem conta no Facebook, de acordo com o estudo da Marketest Consulting – Os Portugueses e as Redes Sociais 2018 (Dinheiro Vivo, 2019). Estudos feitos por Cision, Oriella e pelo Eurobarómetro demonstram esta tendência e explicitam ainda a utilização alargada das redes sociais tanto para publicizing (Bruns, 2005), como para encontrar fontes para os conteúdos noticiosos ou procurar novas narrativas e variar os formatos de amplificação 48 das notícias. De maneira primordial, as redes sociais funcionam como campo de pesquisa para os jornalistas, que por si exige uma linguagem adequada. Esta plataforma é um espaço virtual que é utilizado tanto a título singular, para o cidadão comum, como para âmbito empresarial, no caso de empresas ou em específico, para os meios de comunicação social. Neste âmbito, o Facebook permite discutir e compartilhar diversos assuntos como, por exemplo, as reportagens do quotidiano que são publicadas por jornais de todo o mundo. É importante então analisar o porquê do Facebook ser tão utilizado pelos jornalistas. São várias as razões: por agregar notícias num só espaço, por funcionar como uma plataforma difusora de informação e pela facilidade com que consegue captar leitores. Além destes aspetos, esta rede permite também aos jornalistas recolherem informações e contactarem fontes. Ainda assim, esta rede não se sobressai pela faceta da pesquisa, sendo que nesse aspeto o Twitter, por exemplo, tem configurações que permitem pesquisas mais avançadas através de hashtags. No entanto, apesar de no Facebook não ser possível fazer pesquisas substanciais, é uma rede que se torna bastante útil pela quantidade massiva de grupos e pessoas que estão registadas na rede. É uma vantagem para a comunicação social, pois consegue aproveitar a plataforma ao criar um perfil e publicar os seus conteúdos para divulgá-los de uma forma fácil e abrangente. É significativo perceber também que com o Facebook o utilizador não é obrigado a pesquisar a informação, pois a partir do momento que coloca o gosto na página de um determinado meio de comunicação social, a partir desse momento o seu feed irá destacar automaticamente as publicações. Esta plataforma sustenta-se num processo relacional em que a partilha é bidirecional. Ao contrário de, por exemplo, o Twitter, no Facebook o utilizador tem que aceitar o pedido de amizade de um outro utilizador para este começar a pertencer à sua lista de “amigos” online. No seguimento desta personalização individual, Carvalheiro et al (2012) afiguram esta rede como um registo público de pessoas, sendo que até à criação do Facebook ainda não existiam bases de dados de acesso público que permitissem uma pesquisa de informações básicas sobre outras pessoas. Apesar deste aparente núcleo público, a rede pode, no entanto, tornar-se privatizada por cada utilizador, com a criação de grupos de “amigos chegados” com os quais podem publicar e partilhar todo o tipo de conteúdos. São, no entanto, vários os desafios postos à atividade jornalística, como começa por referir Catarina Rodrigues: “O número de utilizadores de redes como o Twitter e o Facebook permite equacionar questões fundamentais no jornalismo como o relacionamento com as fontes, a ampliação, valorização e distribuição de conteúdos, a fidelização dos leitores e a velocidade informativa” 49 (Rodrigues, 2010). No caso particular do Facebook, defende: “A utilização do Facebook pelos media é um dado adquirido, nomeadamente como agregador de notícias, como plataforma de difusão de informação e até como uma forma de captar leitores” (Rodrigues, 2010). João Canavilhas (2010) acrescenta que “as redes sociais facilitam uma troca na forma como os utilizadores se relacionam com os meios de comunicação, fortalecendo os vínculos. Este é o método de transformação da audiência em comunidades, situação que tende a criar uma lealdade dos consumidores por pertencerem a uma comunidade”. O limite ténue entre a esfera pública e privada é também perigoso para a atividade jornalística, apesar do potencial imenso que trouxeram as redes sociais: “O facto de a esfera privada ter passado a ser algo que é mostrado publicamente – tornando visíveis e partilháveis experiências pessoais, crenças políticas ou religiosas, estados de espírito, emoções ou preferências – expõe os jornalistas mais do que os protege no exercício da sua função, tendo em conta o seu compromisso com valores como a isenção e imparcialidade” (Mateus, 2015). 3.2. Implicações das redes sociais nas práticas jornalísticasOs novos desafios éticos e deontológicos A presença atual dos jornalistas nas redes sociais é uma realidade imprescindível. Novos hábitos profissionais num contexto informacional que também ele se modelou a novos parâmetros, confere à deontologia jornalísticas vários desafios. O jornalismo como sempre o conhecemos remete-nos a uma fundação bem cimentada e cujos pilares devem estar bem alicerçados para que a profissão continue a cumprir o seu objetivo. Devido ao ritmo frenético da globalização tecnológica e todos os novos comportamentos que tanto jornalistas como leitores adotaram é pertinente relembrar o cerne de questões que não devem ser descuradas. Por um lado, esta atividade é pautada por uma cada vez maior complexidade devido às multiplataformas em que se posiciona; é cada vez mais imediata e instantânea, o que incorre, por vezes, num ritmo incomportável de pressão para os jornalistas (em paralelo surge também a escassez de tempo para confirmar os conteúdos). Por outro lado, com as várias características das redes sociais tem ocorrido uma crescente perda de exclusividade no que toca ao processo de produzir informaçãodeixou de ser um processo unilateral tal como era. Neste âmbito é pertinente falar do papel que o online ganhou no quotidiano do jornalista e ainda o espaço que as redes sociais ganharam em vários 50 aspetos do processo jornalístico. Falar atualmente de jornalismo é pensar na interatividade, na rapidez, na personalização e nas novas possibilidades de divulgação e consumo de informação que as redes sociais permitem. Plataformas como, por exemplo, o Facebook ou o Twitter, revolucionaram a própria atividade dos media e das práticas dos jornalistas. Esta revolução implicou profundas mudanças nas práticas jornalísticas. Começando logo na própria relação com as fontes e o público que se tornou mais estreita e próxima; a velocidade na distribuição da informação e o novo alcance que esta tem; os diferentes métodos e plataformas que se criaram para investigar e confirmar as novas informações; e por fim, que é influenciado pelos fatores acima mencionados, o respeito dos aspetos da ética e deontologia que são pilares do exercício da profissão. É necessário, portanto, questionar o impacto da evolução tecnológica e social na essência própria do jornalismo. Ao falar de jornalismo atualmente e com toda a facilidade que o online permite tanto no acesso como na divulgação de conteúdos, pode tornar-se fácil de esquecer o facto de que esta profissão remete para uma atividade que se rege por várias regras deontológicas e éticas. Estes tipos de normas foram já estruturados por organismos com relevância na área que escrutinam diariamente a atividade dos media e regulamentam formas de atuar com isenção e imparcialidade. Em paralelo, o cumprimento destas regras, que molda o trabalho dos jornalistas é também analisado pelo próprio público que continua a exigir rigor, fontes válidas e veracidade nos conteúdos que lê diariamente. Com a porta que se abriu entre jornalista e leitor, o profissional vê-se atualmente numa nova esfera em que o fluxo entre as duas partes é mais constante, rápido, flexível e onde o leitor pode dar o seu contributo ao minuto. Desta forma, o papel do jornalista no processo informativo também sofreu alterações, a par da referida participação dos leitores e da sua exigência. A esfera pública na rede em que o profissional atualmente se vê inserido assenta na premissa de que o a ligação e a corrente entre jornalista e leitor se move constantemente. Tal como referido, através das redes sociais abre-se uma porta para o leitor para dar o seu contributo. Por consequência, alguns autores assumem que a função tradicional do jornalismo profissional fica enfraquecida (Paulussen, 2016). Embora muitos estudos enfatizem que os efeitos democratizantes do suposto aumento do controle do usuário sobre o processo de notícias não devem ser exagerados (Borger et al., 2013) é justo dizer que os media tornaram mais conscientes do papel ativo e participativo que os leitores podem (e cada vez mais) desempenhar na criação, bem como na curadoria de notícias (Singer et al., 2011; Villi, 2012). 51 Tal como referido, além do jornalista, o leitor ganha também um papel de destaque no processo noticioso. Surge assim o conceito de cidadão-repórter, como um papel de auxílio ao profissional através da sua capacidade de captura e difundir informação na hora. Neste âmbito, os dispositivos tecnológicos (exemplo dos smartphones ) facilitam bastante a atuação neste novo papel, ao permitirem uma maior facilidade na captura de imagens e difusão destas de forma quase imediata. Desde a emergência das redes sociais o leitor deixou de ser o apenas o fim da cadeia de receção de informação e passou a ser parte integradora da rede de comunicação. No entanto, a este novo tipo de jornalismo colaborativo devem associar-se cuidados no que toca à relação com os jornalistas. As informações que o público possa fornecer ao profissional devem sempre ser alvo de investigação e confirmação, confirmando a sua viabilidade e veracidade. É importante também existir cuidado redobrado com as fontes anónimas e ainda a vontade privada e individual de querer que um determinado tema seja noticiado. O papel do cidadão-repórter online gera assim opiniões diversas no que toca à discussão sobre as implicações na ética jornalística. Inegável é a importância que o leitor tem vindo a alcançar, muitas vezes de forma anónima, ao ser forma de testemunho da notícia no local durante o acontecimento, ao invés do jornalista, que nem sempre consegue estar no local na hora H, e cujo trabalho passa por juntar as informações recolhidas através de testemunhos e imagens que obtém posteriormente no local. No entanto, para o cumprimento pleno das regras deontológicas, é necessário criar uma separação entre as duas partes e uma delimitação clara dos papéis de cada lado, apesar de ser difícil de o fazer em plena Era Digital, onde as mutações são constantes. Balsemão reforça dizendo: “não podemos equiparar o jornalismo do cidadão ao jornalismo profissional. Se não houver quem separe o trigo do joio, se não houver quem exerça as funções de depuração e filtragem, acentuar-se-á a tendência para cada vez mais alinhar por baixo, o que é nocivo para um sistema democrático enfraquecido” (Balsemão, 2013, p. 15). Ressalva-se assim a importância da atuação imparcial do jornalista, respeitando a sua essência independentemente do meio em que o publica. Não implica, no entanto, a um corte e bloqueio absoluto na progressão e aposta na modernização da profissão. Pelo contrário, a atualidade deve pautar-se por uma balança equilibrada onde os profissionais devem conseguir tirar o melhor proveito possível de cada meio. Importante é ressalvar que o código de ética do jornalismo não se altera consoante o meio. A imersão no mundo digital e todos os comportamentos que se alteram consoante esta nova dinâmica devem tornar os princípios éticos do jornalismo mais pertinentes, não o contrário. 52 Para tal, os jornalistas recorrem ao Facebook não apenas para recolher informações, ou seja, como fonte para as suas notícias, mas também para divulgar e observar o fluxo de notícias. No entanto, inclusivamente a própria forma de divulgar os conteúdos online alterou-se com as redes sociais. O conceito de click bait tornou-se cada vez mais comum no mundo jornalístico e representa uma forma de atrair mais rapidamente os leitores a ler determinado conteúdo ao escrever palavraschave. Isto representa também uma nova dinâmica para os profissionais, o que por sua vez revela também uma maior pressão para os jornalistas conseguires uma boa interação nos seus conteúdos e boa recetividade - neste caso gostos, partilhas e comentários. No entanto, os media devem saber distinguir o critério de relevância versus o da popularidade. A linha ténue entre os dois tem revelado uma preocupação por parte dos estudiosos de jornalismo face a esta nova dificuldade que afeta diretamente o ângulo em que os conteúdos são publicados, (Heinderyckx, 2015, p. 260). 3.3. Práticas dos jornais nas redes sociais e interação dos leitores A transformação do analógico para o digital trouxe ao jornalismo vantagens e novas potencialidades que são imprescindíveis. Com a inserção da Internet no quotidiano dos leitores e nas próprias redações provocou que com cada novidade que surgia sejam exigidas novas tentativas de apropriação por parte dos media. As redes sociais foram uma das plataformas que os jornalistas começaram a explorar de forma a perceberem de que forma poderiam tirar o melhor proveito para manter a sua competitividade. As redes oferecem novas formas de se conectarem com o público “num cenário de media cada vez mais fragmentado, mas também força os jornalistas a equilibrar a lógica interpessoal e subjetiva dos media com as normas jornalísticas” (Welbers; Opgenhaffen, 2019). De acordo com Ferreira (2012, p. 98), “o grande número de utilizadores, as características de comunicação que cada rede comporta e a facilidade de partilha de informação despertaram o jornalismo para a potencialidade dos chamados media sociais”. Neste aspeto as redes socias permitiram uma abertura ao próprio leitor no que toca à participação no trabalho do jornalista e na própria interação entre as duas partes. A Internet sempre influenciou diretamente o trabalho do jornalista, no entanto, através das redes sociais é exposta diretamente a perceção que o público tem sobre as notícias publicadas por determinado media. Neste aspeto, é efetivamente relevante refletir sobre os vários tipos de interação que são perpetuados nas redes, sendo que existem vários níveis de envolvimento. 53 De facto, os jornais têm fornecido conteúdo online desde a popularização da Internet em meados da década de 1990 e o fluxo relativamente recente das redes sociais como o Twitter e o Facebook forneceram várias novas plataformas para publicar notícias e ainda, para que o público consiga potencialmente interagir com o conteúdo fornecido (Larsson, 2018, p. 2). São vários os parâmetros comportamentais que cada jornal deve delinear ao iniciar a sua presença numa rede. De acordo com Bastos (2014), enquanto os jornais costumavam usar seus sites para fornecer histórias sobre desporto, entretenimento ou celebridades, os utilizadores de sites de redes sociais (não apenas o Facebook) preferem compartilhar hard news”. O tipo de linguagem que os jornais utilizam nas redes deve também ser analisada, pois devem adequar-se consoante o meio em que estão. Para chegar aos leitores de uma forma mais eficaz, a utilização de linguagem subjetiva pode ser uma mais valia, existindo efetivamente a crença de que a utilização de emoções, opiniões e personalizando os conteúdos são fatores que devem ser cumpridos para alcançar o envolvimento do público (Welbers; Opgenhaffen, 2019, p. 47). O estudo realizado pelos autores referidos confirma uma mudança comunicacional dos jornalistas para uma adaptação maior à utilização de linguagem subjetiva e um modelo de comunicação e de escrita mais positivo. No entanto, é necessário criar precauções pois a utilização de mensagens subjetivas para complementar o conteúdo noticioso resulta de facto de um processo de ajuste ao formato social e interpessoal das redes sociais, mas pode, no entanto, deteriorar o papel das notícias como uma fonte neutra (Welbers, Opgenhaffen, 2019, p. 58). A atuação dos jornalistas ao publicar conteúdos no Facebook é também ponderada ao pormenor. Sempre que um jornal partilha um conteúdo publicado em paralelo no seu website pode utilizar a caixa de texto do Facebook para adicionar conteúdo à notícia ou em alguns casos comentar de uma forma mais subjetiva. Ruigrok, Gagestein and Van Atteveldt (2016) demonstram que os editores que são responsáveis pela atividade do Facebook defendem que, para ter uma presença de sucesso nas redes, é importante que se transmitam notas de emoção e um tom positivo. Adicionar comentários como “Sabia que…” ou incitações diretas à participação do leitor na discussão. No entanto, o estudo de Welbers e Opgenhaffen defende que as mensagens publicadas devem ser utilizadas para conseguir inserir estes elementos sem, no entanto, comprometer o conteúdo noticiosoque deve ser imparcial e impessoal (por exemplo, uma pequena frase resumo da notícia partilhada). A lógica das redes sociais, de acordo com Klinger (2013, p. 722) é “construída sobre a lógica da viralidade”. Este conceito surge como “o processo que dá qualquer item de informação a exposição máxima, em relação ao público potencial, durante um curto período, distribuído por muitos nós” 54 (Nahon et al., 2011). Para que uma publicação de um jornal se torne viral, é necessário que os utilizadores a partilhem em grande escala para que esta se espalhe rapidamente. Neste âmbito, o tipo de atuação dos jornais também pode variar. São várias as temáticas que podem ser publicadas pelos media , desde política, tecnologia até ao desporto. Dependendo da estratégia de cada jornal, este deve conseguir perceber através das interações dos seus seguidores quais são os conteúdos que conseguem gerar mais interatividade, o que por sua vez, poderá indicar uma maior propensão a se tornar viral. De acordo com o estudo feito por Larsson (2018), é pertinente distinguir neste campo três tipos de interação presentes nos posts de Facebook. A forma de participação e interação mais simples são os gostos ( likes ), sendo que estes são vistos como uma “versão leve de participação”, de acordo com Hille e Bakker (2013, p. 666). Este tipo de reação sugere um apoio em relação ao conteúdo publicado (Larsson, 2015). Com as atualizações da rede, o gosto evoluiu para reações mais pormenorizadas através de emojis, como o adoro que ou o riso. As formas mais avançadas para expressas opinião são os comentários e as partilhas, que são também analisados no referido estudo. Assim, em segundo lugar, a prática de partilhar um conteúdo permite aos utilizadores da rede distribuir o conteúdo original (Larsson, 2018). A partilha pode indicar para uma maior disseminação do conteúdo e, por sua vez, uma maior visibilidade. De acordo com o autor, este tipo de interação é sugerido como uma função crucial da rede, sendo que a partilha do conteúdo jornalístico, com ou sem observações e comentários, faz de cada utilizador da rede um distribuidor. Se, num primeiro momento, o leitor pode sentir-se à vontade para deixar a sua reação ou até partilhar o conteúdo, caso pretenda de facto evidenciar a sua opinião mais especificamente, pode produzir através da sua própria conta individual um comentário à notícia publicada nos espaços criados para esse efeito. O autor ressalta um certo ceticismo que existe em relação a este tipo de envolvimento do leitor, pelo facto de ganhar uma visibilidade maior ao expressar publicamente a sua opiniãoe que pode não ser desejada. É sugerido ainda pelo autor que os “comentários em websites são certamente “mais anónimos” do que comentários em Facebook” (Hille e Bakker 2014, p. 570) – uma premissa que em comparação pode explicar o facto de o número de comentários nas redes ser comparativamente mais baixo. É importante ainda refletir que o tipo de reação realizada por parte da audiência pode diferir consoante o tipo de conteúdo publicado. Desta forma, o facto de as redes sociais exporem a perceção do público relativamente ao que é publicado acaba por influenciar diretamente o trabalho do jornalista. O facto de qualquer pessoa poder 55 comentar um conteúdo traz à tona um conceito também importante e já referidoo jornalismo colaborativo. Sendo que as redes sociais empoderam o utilizador através de uma liberdade de expressão e opinativa que é imediata e fácil, este agora ganha voz e torna-se um agente ativo na produção de notícias. É também, em muitos casos, uma fonte de informação que fornece ao jornalista factos de um determinado acontecimento em que, por exemplo, possa ter estado envolvido. O jornalista utiliza então as redes como um meio para se aproximar diretamente a uma possível fonte, ganhando assim uma maior agilização no seu trabalho. As redes permitem ainda monitorizar os conteúdos e divulgar em grande escala os trabalhos publicados. Da parte do leitor este torna-se um contributo para o trabalho jornalístico através do envio de materiais e comentários. Neste aspeto, é importante relembrar que os jornais têm um dever importante de manter a ética de verificar todas as informações enviadas pelos leitores e têm também uma responsabilidade acentuada de dar créditos às suas fontes. 62 5. Discussão dos resultados 5.1. Caracterização da amostra Tal como referido anteriormente, como amostra deste estudo procedeu-se a uma seleção criteriosa de um jornal regional por cada distrito do Norte. Respeitando os critérios já mencionados acima foram agrupados para este estudo os seguintes jornais: A Aurora do Lima, A Voz de Trás-Os-Montes, Correio do Minho, Diário de Aveiro, Diário de Viseu, Mensageiro de Bragança, O Gaiense, e por fim, O Interior. A periodicidade não é a mesma, porém esta é uma questão que já não tem pertinência devido às potencialidades tecnológicas que permitem uma atualização constante nas plataformas digitais de cada um. Para organizar de forma eficiente as informações de todos os jornais, foi criada a tabela 2 com uma visão geral das informações preliminares de cada jornal, com foco no investimento e evolução digital desde a sua data de criação. São apresentados os dados como o ano de criação da página no Facebook, os números de seguidores e de gostos que cada um regista até à data da recolha dos dados. Para registo informacional e de contextualização reuniu-se também as informações relativamente ao ano de fundação e ao domínio online. Incluir também a periodicidade do título em papel 63 Ano de Fundação Ano de Criação do Facebook Número de seguidores Número de gostos Domínio online 1855 2014 7135 7061 www.auroradolima.com 1947 2014 51 958 47 855 www.avozdetrasosmontes.pt 1926 2010 39 680 38 644 www.correiodominho.pt 1985 2012 45 166 43 999 http://www.diarioaveiro.pt 1925 2011 33 345 32 641 https://www.diarioviseu.pt 1940 2011 19 898 19 403 www.mdb.pt 2002 2011 51 812 46 262 www.ogaiense.pt 2000 2011 38 230 37 669 www.ointerior.pt Quadro 2Caracterização da amostra (Dados recolhidos a 28 de março de 2020) Com base no quadro apresentado é possível compreender que, à exceção d’A Aurora do Lima e d’A Voz de Trás-Os-Montes, os restantes jornais começaram a investir nas suas páginas online de Facebook durante um período de tempo próximo comum. No entanto, a recetividade e visibilidade que estes meios têm recebido por parte da comunidade online varia bastante . De denotar ainda as datas de fundação dos jornais, que vão desde 1855, no caso do jornal A Aurora do Lima, até 2002, que marcou a criação do jornal mais recentemente O Gaiense. Interessante refletir que o facto de o jornal mais antigo deste estudo ter também sido um dos últimos a criar a sua página online na rede pode também 64 revelar uma aversão à tendência tecnológica, na medida de querer preservar as rotinas do jornalismo impresso. De facto, a aposta nas redes sociais dos jornais em estudo é relativamente recente. Tal como mencionado no segundo capítulo deste estudo, a adaptação e integração da Internet nas redações começou apenas em 1995, no entanto a aposta numa presença nas redes socias apenas se fez notar a partir de 2010. Ao analisar os dados presentes na tabela apresentada verifica-se que a aposta nas páginas Facebook dos jornais A Aurora do Lima e A Voz de Trás-Os-Montes são as mais recentes, tendo sido apenas criadas em 2014. Os restantes jornais em estudo criaram a sua página na rede entre 2010 e 2012, sendo que o ano de 2011 se revelou predominante e uma tendência. Todos os jornais escolhidos foram selecionados com o cuidado de terem também já criado uma plataforma online independente do formato impresso. Ao analisar o conteúdo das redes é crucial cruzar o tipo de conteúdo publicado no site também, de forma a compreender se é adequado à comunicação da rede. A Voz de Trás-Os-Montes, apesar de ser um dos jornais que aderiu mais recentemente ao Facebook, surge neste panorama como um dos mais “populares” na rede em termos de número de seguidores na sua página, com um total de 51 958 à data da recolha. Segue-se O Gaiense, com 51 812 e com um maior distanciamento posiciona-se em terceiro lugar o Diário de Aveiro com 45 166 seguidores. Já abaixo da linha dos 40 000 seguidores está o Correio do Minho, com 39 680 seguidores, O Interior com 38 230 seguidores e o Diário de Viseu com 33 345 seguidores. Num nível mais baixo estão o Mensageiro de Bragança com 19 898 seguidores e A Aurora do Lima com apenas 7 135 seguidores. 65 Figura 1 - Estrutura de uma publicação na rede Facebook do jornal “O Gaiense” A figura mostra o que representa a estrutura típica de uma notícia no Facebook. O conteúdo aparece geralmente associado a uma fotografia, vídeo ou link que direciona o leitor para a sua ou outra plataforma online com conteúdo referente ao post . Junto aos conteúdos multimédia aparece geralmente por baixo o texto da publicação original, uma ou várias frases do lead da notícia original ou, com acontece na maior parte das vezes, um link para o URL do website do jornal. No topo da publicação o autor pode adicionar um conteúdo extra ou comentar a notícia para, por exemplo, resumir o conteúdo para o leitor. Pode também ser uma citação da notícia ou um parágrafo importante para contextualizar o leitor. Para acompanhar o movimento de modernização, os media podem também acrescentar emojis para expressar emoções relativamente à notícia, ou ainda incitar o leitor a dar a sua opinião sobre o assunto. 66 5.2. Temáticas Uma das primeiras questões de pesquisa para este estudo analisa as temáticas sobre as quais mais publicações são feitas pelos jornais nas suas respetivas páginas Facebook. A tabela 2 abaixo apresentada, permite precisamente analisar esta questão, tendo congregados todos os dados reunidos após a análise feita durante um mês completo. De forma geral é possível perceber que em termos de contabilização total, do universo em estudo, é possível denotar em alguns jornais uma maior atividade online. O Gaiense é o que totaliza um maior número de publicações (N= 113), seguindo-se do jornal O Interior (N=99), o Correio do Minho (N=96), o Diário de Viseu (N=84), a Aurora do Lima (N=83), a Voz de Trás-Os-Montes (N=80), o Mensageiro de Bragança (N=76) e por fim, o Diário de Aveiro (N=63). A Auror a do Lima A Voz de TrásOsMonte s Correi o do Minho Diári o de Aveir o Diári o de Viseu Mensageir o de Bragança O Gaiens e O Interio r TOTA L Acidente / Desastre s 0 2 2 3 3 8 14 5 37 Cultura 21 9 11 11 7 6 8 25 98 Desporto 7 24 20 7 20 5 33 14 130 Economi a 3 0 4 1 0 0 0 0 8 Educaçã o 9 5 10 4 6 2 1 6 43 Justiça 8 6 2 0 4 16 2 6 44 Política 4 7 10 5 1 19 12 11 69 67 Religião 7 1 6 3 1 3 5 0 26 Saúde 1 0 5 2 2 3 8 3 24 Sociedad e 21 19 24 13 20 7 26 6 136 Outros 2 7 2 14 20 7 4 23 79 Total 83 80 96 63 84 76 113 99 Tabela 1 - Contabilização das temáticas dos posts pelos jornais nas suas respetivas páginas Facebook (N) De acordo com a tabela, é possível perceber que relativamente aos tópicos abordados nas notícias vinculadas nos posts da página do jornal Aurora do Lima oferece maioritariamente histórias de interesse cultural e social (cada tema com 21 posts ). Seguindo a mesma dinâmica, o Diário de Aveiro publicou também em maior número conteúdos sobre as temáticas já mencionadas, com 24 sobre Sociedade e 11 sobre Cultura. Já o Correio do Minho e o Diário de Viseu tem uma quantidade comparativamente grande de notícias relacionadas com o Desporto, ambos com 20 publicações. O Mensageiro de Bragança destaca as temáticas de Justiça (16) e de Política regional (19). O Gaiense, o jornal com mais publicações registadas, regista também uma inclinação para histórias relacionadas de âmbito social (26) e desportivo (33). A cultura continua a ser um tema dominante no jornal O Interior, que publicou cerca de 25 histórias neste âmbito e que regista também 23 publicações que englobam conteúdos que se encaixam noutras temáticas (Exemplo das crónicas do jornal “A Subir”, “A Descer” e o Editorial). Em suma, a atividade geral destes jornais nas suas páginas resulta numa análise que apresenta o que pode ser considerado um padrão geral típico de publicação de notícias dadas as tradições editoriais de um jornal regional. De facto, as temáticas de Cultura, Sociedade e Desporto ganham um espaço de maior de divulgação nas páginas destes jornais tendo em conta que são também as que envolvem as pessoas do local nos eventos e que maior interesse gera pela proximidade entre os leitores. Referindo um panorama mais geral, é possível também perceber que do universo estudado, as notícias de âmbito social e desportivo são as mais publicadas, com 136 e 130 respetivamente. Desta forma, é possível compreender uma comunicação comum entre os jornais, que apostam nestas temáticas para publicar nas suas redes. Por outro lado, a Economia (8), a Saúde (24) e a Religião (26) são as áreas menos divulgadas pelas redes. 68 5.3. Conteúdo das publicações Quadro 3 - Origem do conteúdo publicado nas páginas Facebook Além da facilitação de um contacto direto com o leitor, as redes sociais permitem também potencializar o engagement que o público tem com as restantes plataformas digitais de cada jornal. É uma nova forma de divulgar o conteúdo online e multimédia que cada jornal cria além das suas versões impressas. Sendo que a internet potencializou em massa a divulgação de conteúdos noticiosos, os websites surgiram como um dos principais meios para publicação de notícias. Por sua vez, as redes sociais tornaram-se uma nova forma de repartilhar esse mesmo conteúdo. No caso dos jornais em estudo, a realidade mais expressiva das publicações advém de uma partilha do link do website, onde a notícia completa está publicada. O jornal O Interior é o que apresenta esta realidade de uma forma mais expressiva com mais de 95% das suas publicações na sua página Facebook incluir um link que direciona o leitor para o website do jornal. Também o Correio do Minho e a Aurora do Lima apresentam a mesma metodologia. Apenas A Voz de Trás-Os-Montes e o Gaiense apresentam uma tendência inversa, com uma aposta maior na criação de conteúdo próprio, com recurso a fotografias ou vídeos, e textos originais. 020 40 60 80 100 120 A Aurora do Lima Correio do Minho Diário de Aveiro Diário de Viseu Mensageiro de Bragança O Gaiense O Interior A Voz de Trás-Os-Montes Tipo de Conteúdo Partilha Facebook Conteúdo Próprio Partilha Link 69 Figura 2 - Exemplo de uma publicação do jornal A Aurora do Lima onde partilha um conteúdo do seu website sem complemento escrito na caixa de texto do Facebook A estratégia do Diário de Aveiro na sua página passa por criar conteúdos próprios além do seu website, o que denota um esforço para que a sua rede não seja apenas mais uma montra dos trabalhos noticiosos já publicados. Exemplo do post apresentado de seguida, em que o jornal aposta em criar conteúdo sucinto fazendo questões relacionadas com temáticas de grande peso da atualidade e incitando à participação do leitor com perguntas. Este tipo de conteúdo foi criado com rigor e pensando especificamente para uma rede social, pelo facto de ser rápido de ler e mais uma vez, incentivar à criação de um debate em que os leitores possam interagir e dar as suas opiniões. 70 Figura 3 - Publicação do Jornal Diário de Aveiro questionando os seus leitores e incitando à interação Outro bom exemplo de uma comunicação adequado ao meio são as seguintes publicações do jornal Mensageiro de Bragança e O Gaiense. Não são considerados conteúdos informativos, mas apostam no entretenimento e demonstram um sentido apurado de oportunidade. Para captar a atenção do leitor é necessário apostar na criatividade escrita. Por consequência torna-se também pertinente abordar novos tipos de conteúdos além dos meramente informativos para criar uma interação mais pessoal entre o utilizador e o jornal nas suas plataformas. 71 Figura 4 e 5 – Publicações dos jornais Mensageiro de Bragança e O Gaiense Tal como referido anteriormente, a aposta nos conteúdos multimédia deve ser cada vez maior, e deve aliar-se a este tipo de conteúdos posts que cativem o utilizador. Nestes casos é importante recorrer a frases sugestiva e emojis, e criar ainda crónicas na própria rede social, por exemplo. No cado da publicação do Mensageiro de Bragança, o jornal aproveitou uma boa oportunidade de publicidade. Tanto a utilização de emojis como o próprio sentido de humor que o jornal transmite nesta publicação demonstra uma boa apropriação das características da rede. Já O Gaiense criou ao longo do tempo um conjunto de publicações em que coloca na sua página fotografias de pessoas junto à onte sob o mote “Quem vem e atravessa o rio” 78 reações são bastante homogéneas entre todas as temáticas: Educação (287), Economia (278), Religião (259), Sociedade (257), e Desporto (248). Outra tendência importante de relevar são os conteúdos de saúde que se revelaram os que mais recebem partilha por parte dos usuárioscom um total de 3104. A tendência para uma maior recetividade em conteúdos noticiosos de âmbito social mantem-se no Diário de Viseu. Em termos de interações conseguiu cerca de 706 e, também com um valor significativo, 290 partilhas neste universo de publicações. Relativamente a este jornal destacaram-se também os conteúdos desportivos, com 174 reações, e os de âmbito educativo, com 124 reações. Na página do Mensageiro de Bragança, além dos conteúdos relacionados com a editoria de sociedade que alcançaram as 1235 reações, nota-se pela primeira vez uma ligação com as notícias relacionadas com acidentes ou desastres. Neste campo, o jornal recebeu cerca de 628 reações e ainda 268 partilhas. Do universo de jornais estudado, o Gaiense é o jornal que alcançou um melhor nível de interação com os leitores de uma forma geral. Todos os conteúdos publicados, independentemente da área em que incidiam, conseguiram alcançar um bom engagement com os seguidores da página. Também pela primeira vez, a área da Religião ganha destaque, alcançando um total de 3514 reações, 392 comentários e 491 partilhas. De seguida, os temas de âmbito social destacam-se igualmente com um total de 2741 reações, 720 comentários e 223 partilhas. A política recebeu também um feedback positivo dos leitores, com um total de 1971 reações, 571 comentários e ainda 365 partilhas. Para terminar a análise, O Interior comprova a premissa já refletida acima de que as publicações com conteúdos noticiosos relativos à Sociedade têm maior destaque. Na totalidade das publicações alcançaram 595 reações e ainda 424 partilhas. Em termos gerais, encontra-se uma tendência entre todos os jornais para publicarem notícias do tipo humano, com os leitores a interagirem mais com conteúdos relacionados com temáticas de sociedade, educação e acidentes/ desastres. O desporto provoca também uma grande afluência nas caixas de comentários e obtém também um lugar de destaque. É possível ainda analisar que no Facebook as reações são a forma mais utilizada para os leitores expressarem as suas opiniões. As partilhas são também mais recorrentes, em detrimento dos comentários que são em menor número. No que toca à interação direta com o público, os jornais em estudo demonstraram ao longo do mês de análise diferentes abordagens comunicativas. Uma das principais vantagens da aposta nas redes sociais por parte dos media é precisamente a maior facilidade para uma apropriação de um 79 modelo de comunicação bidirecional. Este conceito surge como uma nova faceta da Web 2.0, traduzindo-se num tipo de comunicação que permite a oportunidade de resposta e consequente interação entre os emissores e recetores de uma mensagem. Criam-se assim um conjunto de princípios importantes como a colaboração mútua, participação coletiva e produção em massa. No caso das redes sociais, um jornal pode beneficiar de vários aspetos se apostar num tipo de comunicação bidirecional. Por um lado, consegue criar uma relação ainda mais direta com o seu público, e por outro, pode de facto obter informações pertinentes de novas fontestal como já mencionado anteriormente. O jornal O Gaiense é o que tenta criar uma relação mais próxima com o utilizador, no âmbito do entretenimento. Exemplo da figura apresentada abaixo, onde na caixa de texto da publicação o jornal cumprimenta os leitores e incita à interação com estes. Na caixa de comentários deste post é possível ver as respostas em espelho dos utilizadores, onde a estes comentários o jornal acaba também por responder individualmente a cada pessoa o que demonstra uma atitude positiva em direção à personalização do contacto com os seguidores. Este tipo de conteúdos, apesar de não serem de âmbito noticioso, acabam por criar uma relação mais pessoal com quem segue a página diariamente. Além deste aspeto demonstram também uma visão de apreciação à região onde se inserem, uma característica já própria do jornalismo de proximidade. 80 Figura 6 - Tipos de interação na página do jornal O Gaiense De uma forma geral, no entanto, não se denota um comportamento semelhante relativamente aos restantes jornais em estudo. As potencialidades da comunicação bidirecional não são devidamente aproveitadas, visto que além do texto escrito nos posts não se denotou uma interação direta com o público. Por outro lado, pode ser importante denotar que as nas publicações dos jornais existe interação entre os leitores. Apesar do papel do jornal se caracterizar como passivo, pode criar na sua própria página uma oportunidade de partilha de informações ou de opiniões entre os seus seguidores. 81 Considerações Finais A presente investigação pretendeu analisar de que forma o conjunto selecionado de títulos de imprensa regional do Norte de Portugal marca presença nas suas páginas de Facebook. A evolução tecnológica e a crescente penetração da Internet nas redações dos jornais geraram, ao longo da sua história, profundas alterações na atuação dos profissionais que se foram adaptando aos desafios que os novos meios trouxeram. Atualmente, as redes sociais fazem inevitavelmente parte dos novos contextos comunicacionais que emergiram através da Internet. Por essa razão é tão importante conseguir analisar de que forma os jornais se adaptaram às novas formas de partilhar conteúdo e de comunicar com o leitor. O jornalismo regional ocupa um papel essencial no processo comunicacional da sociedade no que toca à sua função de informar e divulgar a nível local. “No complexo paradigma da relação entre o campo jornalístico e a sociedade democrática, a imprensa regional tem especial importância no contributo para a ‘regeneração’ de um espaço público local” (Correia, 2012, p. 1). Pela sua natureza tradicional e as suas culturas de trabalho de campo e de proximidade, este tipo de meios tem vindo a sentir mais dificuldades na adaptação à nova Era Digital. No entanto, apesar dos vários obstáculos, a emergência das redes socias como novas plataformas online trouxe um novo mundo de possibilidades com um imenso potencial para a partilha e difusão de informações. A proximidade que já existia pelas suas características subjacentes adensou-se ainda mais e permitiu também uma maior e mais facilitada interatividade. É essencial perceber então, tendo em conta estes aspetos, com que parâmetros se forma a realidade atual da presença dos jornais regionais nas redes sociais. No caso, plataformas como o Facebook podem suscitar profundas alterações na prática jornalística e, tal como referido, nos modelos de difusão da informação que até à emergência da Web 2.0 eram conhecidos. Estas oferecem novas formas de consumo a um público que “exige” que os conteúdos sejam cada vez mais personalizados e instantâneos. O hábito de aguardar pelo início do jornal da noite para estar a par com as notícias do quotidiano já não é uma realidade corrente, visto que o próprio público tem mudado os seus hábitos de leitura. Já não existem limites temporais nem espaciais para a informação pois ela está em todo o lado e é personalizada para cada um de nós. A visão do autor Ferreira (2012, p. 98), já partilhada, sublinha o que atrai os jornalistas para as redes sociais: “o grande número de utilizadores, as características de 82 comunicação que cada rede comporta e a facilidade de partilha de informação despertaram o jornalismo para a potencialidade dos chamados media sociais. Sabemos então que o jornalismo regional assenta em pilares essenciais de proximidade com a região, registando-se, porém, na sua gênese fragilidades persistentes ao nível da sua sustentabilidade económica e financeira. Existe uma escassez crónica de recursos humanos e o que, associado ao generalizado fraco nível de receitas, leva ao pouco investimento na formação dos profissionais para habilitá-los a maior aproveitamento das ferramentas digitais. Por estas razões, as redações de jornais regionais não reúnem as melhores condições para conseguirem aproveitar em pleno as potencialidades que plataformas como as redes sociais oferecem. Esta circunstância ajuda a compreender os resultados e evidências que foram encontradas no decurso desta investigação. Assim, a falta de investimento nas redes que foi investigação é visível na leitura dos resultados deste trabalho traduziu-se em três grandes conclusões. Em primeiro lugar, as páginas Facebook dos jornais em estudo são, na sua maioria, utilizadas apenas como uma montra para as publicações do website. Com esta investigação, foi possível demonstrar que mais de 50% dos posts (N=301) analisados representam um redireccionamento para as publicações do website. Desta forma, o utilizador não tem acesso a conteúdos novos pensados e produzidos especificamente tendo em conta as características das redes sociais, mas apenas um acesso direto para o conteúdo já publicado digitalmente. A realidade do jornal O Interior é a que mais comprova este dado, sendo que cerca de 95% do seu conteúdo representa este tipo de partilha em espelho. Este indicador pode então evidenciar duas premissas distintas: um esforço contínuo para divulgar cada vez mais a plataforma online do jornal, ou, por outro lado, uma ação desprovida de investimento e estratégia própria na gestão da rede social. Neste âmbito, é ainda importante refletir que as partilhas que os jornais fazem nas suas redes são sempre dos seus próprios conteúdos, ainda que em diferentes plataformas. Não partilham posts ou conteúdos de outros jornais, nem por exemplo websites de âmbito nacional público com documentos que poderiam ser interessantes para o leitor. Isto revela que os jornais não estão dispostos a abdicar da sua função de gatekeeping e criaram um circuito próprio e individual para ‘fechar’ os leitores, de forma a que estes navegam entre os vários conteúdos sempre do mesmo jornal. O conceito de hipertextualidade, já referido, é associado a esta facilidade tecnológica e digital de interconectar os conteúdos. Efetivamente os jornais recorrem bastante a esta prática, sendo que transportam o utilizador através da partilha de links para diferentes conteúdos e plataformas. Esta é 83 uma capacidade bem explorada pelos media analisados sendo que criam uma cadeia de informação e conseguem relacioná-la de forma autónoma pelas páginas. A segunda conclusão que se retira deste estudo é que ainda não é visível uma estratégia própria definida para o digital. Não existe um hábito estabelecido de produzir conteúdo a pensar nas características da rede, o que é uma consequência imediata do ponto referido acima. É importante relembrar que os conteúdos criados para um formato impresso, digital ou para um post de Facebook devem ter contornos distintos, visto que a própria visão e disponibilidade do leitor varia também consoante o tempo que dedica a cada meio. Os jornais em estudo não revelam então uma proposta de comunicação na sua página que seja adequada face à falta de criação de conteúdos multimédia independentes ou utilização das ferramentas do Facebook, como por exemplo, os diretos ou as sondagens. Neste âmbito não é aproveitada a multimodalidade das redes, sendo que a criatividade e liberdade associadas à convergência de formatos acaba por se perder. Os jornais não revelam preocupação no que toca à criação de conteúdos mais diversos como imagens, vídeo ou áudio, como complemento ao texto. Esta é uma das características com mais relevância no que toca à criação do conteúdo para o digital, pois permite ao jornalista associar múltiplas linguagens na narração jornalística. Por último, mas não menos importante, uma outra conclusão retirada deste estudo é a escassez de interação entre jornal e utilizador. As várias vantagens que podem surgir com esta nova característica que emergiu com a Internet não é devidamente aproveitada, sendo que não existe troca de comentários, nem de informações entre os dois polos comunicacionais. As poucas vezes em que esta interação se registou durante o período de análise revelou-se apenas entre os próprios utilizadores que partilharam entre si comentários ou reações. Esta conclusão não vai de encontro ao exposto na literatura, tendo em conta o facto de que os jornais em questão têm um papel pouco ativo nas suas páginas e não criam uma boa linha de interação com os seguidores. Recuero (2009) apresenta as redes sociais como um espaço de partilha. Desta forma, as páginas dos jornais, além de servirem como espaço de circulação de informações, poderiam promover o debate e permitir que os utilizadores contribuíssem ou discutissem os mais variados aspetos encontrados nas publicações jornalísticas, ainda que nem sempre participem diretamente nestes. Esta que é uma das funções principais das redes sociais não é devidamente aproveitada pelos jornais em questão, o que pode ser justificado pela falta de profissionais destacados para a gestão das redesuma vez mais provocado pelas dificuldades económicas para tal. 84 Efetivamente, a falta de investimento na formação dos profissionais face às novas características que o jornalismo digital acarreta, e ainda a incapacidade de investir na gestão das redes sociais, pode justificar estes resultados negativos. O facto de não ser evidente uma estratégia inovadora nas suas redes provoca também nos seguidores destas páginas um sentido de inércia, sendo que acabam também por interagir pouco e envolvem-se com pouca frequência nos conteúdos publicados. Estes são resultados negativos face a uma profissão cuja realidade atual tem imperativamente de passar por uma presença assídua online nas redes sociais para o seu próprio desenvolvimento. Podemos sublinhar que, ainda que com diferentes níveis, o Gaiense, O Interior e o Correio do Minho são as publicações que mantém a sua presença no Facebook mais atualizada e que alcançaram o maior número de publicações durante o período de estudo. Durante o mês de análise, foram analisadas cerca de 694 publicações, o que perfaz em média cerca de 86 posts por jornal. As temáticas de Cultura, com 98 publicações; de Sociedade, com 136; e Desporto, com 130, são as que têm um espaço de maior de divulgação nas páginas destes jornais. Este tipo de conteúdos são as que envolvem as pessoas do local nos eventos e que maior interesse gera pela proximidade entre os leitores, o que pode justificar esta aposta mais significativa. Por outro lado, denota-se também a falta de destaque que é dado a temas sobre Economia, com apenas 8 publicações registas; Saúde, com 24; e Religião, com 26. Outro indicador que nos permite analisar a recetividade que cada jornal conseguiu alcançar por parte leitores é precisamente o número de seguidores que cada um alcançou até à data da recolha dos dados. Neste âmbito, a amostra estudada revela uma completa heterogeneidade. O que alcança o maior número de seguidores é A Voz de Trás-Os-Montes, com quase 52 mil à data da recolha dos dados. Por outro lado, o que tem menos é A Aurora do Lima, com apenas 7 135 seguidores. De notar que estes números são meramente indicativos e podem ou não traduzir a atividade que cada jornal realiza diariamente; no entanto, pode existir uma corelação entre uma atividade diária mais regular vs dinamização e seguidores. Tal como referido inicialmente, outro aspeto que os jornais não tiram partida remete-nos para o conceito da multimodalidade. É importante voltar a mencionar a importância deste tipo de conteúdos (imagem, texto e som), pois permitem uma maior criatividade ao jornalista e maior liberdade para narrar o acontecimento noticioso, que até agora se via “limitado” ao formato de texto. Ainda sobre a criação de conteúdo direcionado para as redes, Welbers & Opgenhaffen (2019, p. 47) referem na sua investigação que, para chegar aos leitores de uma forma mais eficaz, a utilização de linguagem 85 subjetiva pode ser uma mais valia, existindo efetivamente a ideia de que a utilização de emoções, opiniões e personalizando os conteúdos são fatores que devem ser cumpridos para alcançar o envolvimento do público. Existem assim alguns aspetos e comportamentos-chave que são necessários pensar para uma boa atuação na rede: fazer questões chamariz para incitar o utilizador a responder ou criar uma discussão na caixa de comentários; partilhar frases simples com o conteúdo noticioso sucinto para leitura fácil e por sua vez, reação rápida; utilização de emojis, quando o conteúdo assim o permite, pois são uma das ferramentas mais utilizadas atualmente para tentar complementar um conteúdo escrito; e ainda a utilização de hashtags , que se revelou outra ferramenta indispensável para organizar os conteúdos e agrupar temáticas para um acesso mais fácil do público. Relembrando estes aspetos, e cruzando com a análise feita aos jornais regionais do Norte de Portugal, foi possível compreender que o processo comunicacional é bastante heterogêneo entre os jornais e não cumpre todos os requisitos mencionados acima. Das abordagens recolhidas durante a análise destaca-se a utilização de perguntas sobre um determinado tema para incentivar a interação com o utilizador, como por exemplo a publicação do Diário de Aveiro onde apresenta cenários sobre o mundo político que poderiam marcar o ano de 2020. Os jornais apostam também bastante na criação de conteúdos do âmbito do entretenimento ao invés dos de cariz informativo, como os posts apresentados do Mensageiro de Bragança e O Gaiense. Neste tipo de publicações os jornais apostavam também na utilização de emojis e hashtags. Em conclusão, é importante referir que o jornalismo regional tem tudo a ganhar com o total aproveitamento das potencialidades provenientes das novas tecnologias. É necessário, no entanto, criar uma identidade e presença própria, a par com uma estratégia de informação centralizada na proximidade e na personalização para o leitoro que não é evidente ainda nas páginas dos jornais analisados. É sabido atualmente que o jornalismo online representa um dos pontos de mudança mais relevantes da sua história e que mais mudanças provocou, tendo, no entanto, vários estudos, como por exemplo o de Bastos (2014), que apontam a falta de aproveitamento das potencialidades que as novas plataformas digitais trouxeram. Apesar da atitude positiva e constante revelada pelos jornais nas suas páginas, torna-se evidente ponderar que os meios de imprensa locais estão ainda numa fase de exploração de todas as potencialidades das redes sociais. 86 Referências Bibliográficas Assembleia da República. (1988). Decreto-Lei n.o 106/88 de 31 de março - Estatuto da Imprensa Regional. Obtido de: erc.pt/documentos/legislacaosite/DecretoLein106_88.pdf Assembleia da República. (1999). Lei n.o 2/99 de 13 de janeiro - Lei de Imprensa . Obtido de: dre.pt/application/dir/pdf1sdip/1999/01/010A00/02010208.PDF Balsemão, F. (2014) - O futuro do jornalismo e o jornalismo do futuro . 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