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(Des) igualdades de género: um mergulho proverbial

Antão, Celeste; Anastácio, Zélia

Abstract

Apesar da evolução nos direitos e lugar das mulheres na sociedade atual, não se encontram ainda exemplos de expressões na linguagem popular que contrariem a recolha de provérbios. A linguagem é um veículo fundamental na transmissão de ideias e valores da sociedade. Neste trabalho pretende-se analisar as questões de (des)igualdade de género perpetuadas na linguagem proverbial. A partir da recolha de provérbios referentes aos papéis de homens e mulheres, veremos os que reafirmam regras de convivência social, os que conferem papel de soberania ao homem ou à mulher e os que colocam ambos em posição de igualdade. Foi feita uma análise categórica para verificar os papéis privilegiados. A importância atribuída às mulheres na educação e na preservação de valores culturais associados ao cuidado dos filhos e da família em geral é inquestionável, mas mais circunscrita ao lar. O homem, embora também considerado responsável pela educação dos filhos e transmissão de sabedoria, situa-se noutro contexto - o espaço público – razão do provérbio “homem na praça, mulher em casa”. Porém, a valentia do homem é por vezes reforçada pela capacidade de atuação da mulher, como encerra o provérbio “por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher”. Importa fomentar a desconstrução dos marcadores de identidade de género assentes na cultura patriarcal, promovendo a consciencialização das desvantagens de reproduzir atitudes e comportamentos estereotipados. Conclui-se que crenças culturais enraizadas, acerca dos papéis de género, dão azo a estereótipos encerrando visões redutoras, subjacentes a processos de justificação e desculpabilização dos comportamentos de dominação masculina.

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RESUMO Apesar da evolução nos direitos e lugar das mulheres na sociedade atual, não se encontram ainda exemplos de expressões na linguagem popular que contrariem a recolha de provérbios. A linguagem é um veículo fundamental na transmissão de ideias e valores da sociedade. Neste trabalho pretende-se analisar as questões de (des)igualdade de género perpetuadas na linguagem proverbial. A partir da recolha de provérbios referentes aos papéis de homens e mulheres, veremos os que reafirmam regras de convivência social, os que conferem papel de soberania ao homem ou à mulher e os que colocam ambos em posição de igualdade. Foi feita uma análise categórica para verificar os papéis privilegiados. A importância atribuída às mulheres na educação e na preservação de valores culturais associados ao cuidado dos filhos e da família em geral é inquestionável, mas mais circunscrita ao lar. O homem, embora também considerado responsável pela educação dos filhos e transmissão de sabedoria, situa-se noutro contexto - o espaço público – razão do provérbio “homem na praça, mulher em casa”. Porém, a valentia do homem é por vezes reforçada pela capacidade de atuação da mulher, como encerra o provérbio “por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher”. Importa fomentar a desconstrução dos marcadores de identidade de género assentes na cultura patriarcal, promovendo a consciencialização das desvantagens de reproduzir atitudes e comportamentos estereotipados. Conclui-se que crenças culturais enraizadas, acerca dos papéis de género, dão azo a estereótipos encerrando visões redutoras, subjacentes a processos de justificação e desculpabilização dos comportamentos de dominação masculina. Palavras-chave: provérbios; (des)igualdade de género; estereótipos ABSTRACT Gender (dis)equality: a proverbial dip. Despite the evolution in the rights and place of women in today’s society, there are still no examples of expressions in popular language that contradict the collection of International Journal of Developmental and Educational Psychology INFAD Revista de Psicología, Nº2 - Volumen 1, 2022. ISSN: 0214-9877. pp:83-92 83 DEL DESARROLLO Y DE LA VIDA (DES) IGUALDADES DE GÉNERO: UM MERGULHO PROVERBIAL Celeste Antão Instituto Politécnico de Bragança, Campus de Santa Apolónia, Bragança, Portugal Health Sciences Research Unit: Nursing - UICISA: E [email protected] Zélia Anastácio CIEC – Instituto de Educação da Universidade do Minho, Braga, Portugal [email protected] Recepción Artículo: 30 marzo 2022 Admisión Evaluación: 30 marzo 2022 Informe Evaluador 1: 02 abril 2022 Informe Evaluador 2: 03 abril 2022 Aprobación Publicación: 05 abril 2022 07. B2 MELILLA Celeste Antão_M. Jesu?s 9/11/22 10:03 Página 83 proverbs. Language is a fundamental vehicle in the transmission of society’s ideas and values. In this paper we intend to analyze the issues of gender (un)equality perpetuated in proverbial language. By collecting proverbs referring to the roles of men and women, we will see those that reaffirm rules of social coexistence, those which confer a sovereign role on men or women, and those which place both in a position of equality. A categorical analysis was carried out to verify the privileged roles. The importance attributed to women in the education and preservation of cultural values associated with the care of children and the family in general is unquestionable, but more circumscribed to the home. The man, although also considered responsible for the education of children and transmission of wisdom, is located in another context - the public space - reason for the proverb “man in the square, woman at home”. However, the bravery of the man is sometimes reinforced by the woman’s capacity for action, as the saying “behind a great man there is always a great woman” concludes. It is important to foster the deconstruction of gender identity markers based on patriarchal culture, promoting awareness of the disadvantages of reproducing stereotypical attitudes and behaviors. It is concluded that deep-rooted cultural beliefs about gender roles give rise to stereotypes containing reductive views, underlying processes of justification and excuses for male-dominated behaviors. Keywords: proverbs; gender (un)equality; stereotypes INTRODUÇÃO Apesar da evolução nos direitos e lugar das mulheres na sociedade atual, não se encontram ainda exemplos de expressões na linguagem popular que contrariem muitos dos provérbios. Sendo a linguagem um veículo fundamental na transmissão de ideias e valores da sociedade importa perceber como o recurso aos provérbios pode ser promotor ou não da igualdade de género. No respeitante às questões de género, a regulação social exerce-se definindo papéis socio-sexuais que o duplo padrão sexual foi esbatendo nas décadas de 80 e 90, mas que agora parecem tender a regredir. Os provérbios traduzem esta tentativa de regulação social e a atribuição de papéis e estatutos, geralmente diferentes, a homens e a mulheres. Apesar de reconhecermos que o uso dos provérbios tem vindo a diminuir na sociedade, percebe-se uma lacuna sobre esta temática. O Índice de Igualdade de Género de acordo com o European Institute for Gender Equality (2020), mede o progresso da igualdade de género na UE em seis domínios principais: trabalho, finanças, educação, tempo, poder e saúde. O primeiro subdomínio, relacionado com as atividades de cuidado, mede as lacunas de género no envolvimento de mulheres e homens no cuidado e na educação de seus filhos e/ou netos, idosos e pessoas com deficiência, bem como o seu envolvimento na cozinha e nas tarefas domésticas. Os factos comprovam que na UE, as mulheres ganham, em média, 16% menos por hora do que os homens; as pensões das mulheres são 30,1% inferiores às dos homens; apenas 67% das mulheres na UE têm emprego, em comparação com 78% dos homens e 75% das tarefas domésticas e dos cuidados não remunerados são efetuados por mulheres (CE, 2020). Escola e Igualdade de Oportunidades A escola pode ter um papel de crucial importancia no esbatimento de esterótipos. No entanto, a “sua ação educativa, não permanece à margem da ideologia dominante, antes a reproduz e transmite (Morrow & Torres, 1997, cit in Cavalheiro et al., 2008: 24). Os estereótipos de género continuam a ser um fator importante na explicação da diferenciação das escolhas escolares das raparigas e dos rapazes, que Gomes da Silva (1999) indica como um processo designado por escolarização do estereótipo, “uma vez que as raparigas/mulheres “carregam” para a escola as práticas e comportamentos mais adequados ao seu sexo que são os que se associam ao estereótipo feminino, refletindo-se quer nas escolhas das áreas escolares, quer no seu comportamento” (p.26). Um estudo recente (Mendonça, Brazão, Nascimento & Freitas, 2019) realizado com estudantes universitários portugueses a frequentar os cursos de formação de Professores de 1.º Ciclo de Ensino Básico e Educadores de Infância, em que menos de 3% eram rapazes, tentou apurar as razões da discrepância em função do género, International Journal of Developmental and Educational Psychology 84 INFAD Revista de Psicología, Nº2 - Volumen 1, 2022. ISSN: 0214-9877. pp:83-92 (DES) IGUALDADES DE GÉNERO: UM MERGULHO PROVERBIAL 07. B2 MELILLA Celeste Antão_M. Jesu?s 9/11/22 10:03 Página 84 encontrando conceções relacionadas com o facto de ser uma profissão naturalmente associada ao género feminino e ao papel maternal das mulheres, mais vocacionadas para o trabalho na educação e cuidado das crianças. As estudantes argumentaram que existe igualdade de oportunidades no acesso a estes cursos, sendo por isso uma tendência natural, não havendo grande concordância com o estabelecimento de quotas de género para ingresar no curso. As questões de género, nomeadamente os estereótipos, a equidade e a violência baseado no género, fazem parte das orientações nacionais (Pereira & Cunha, 2017) e internacionais (UNESCO, 2018) de educação para a sexualidade. Nos vários contextos que a escola proporciona, crianças e jovens experimentam a sua sexualidade, quer seja nas suas brincadeiras, no estudo e nos namoros, mas também na relação com a restante comunidade educativa. Através de acontecimentos emocionais estruturados, vão construindo modelos promotores de valores e os direitos sexuais, de forma a desenvolver a sua própria identidade e o respeito para com os outros (DGE, 2018). A escola poderá promover uma educação com base em valores igualitários e inclusivos, permitindo que os seus alunos e alunas não se sintam reprimidos nas suas escolhas e nas suas identidades, ajudando a desconstruir as relações sociais de poder. Por outro lado, pode reproduzir uma ideologia de género que legitime situações de desigualdade entre homens e mulheres, compactuando com as diferentes relações de poder instauradas na sociedade (Carlos, 2019). Natureza versus Educação Os conceitos de sexo e de género distinguem-se na medida em que o sexo é um atributo de origem biológica, consoante as características fenotípicas dos indivíduos ao nascer, expressas sob a forma de sexo masculino ou sexo feminino, enquanto o género é um constructo de origem sociocultural que se relaciona com o papel que a sociedade espera que seja desempenhado pelos indivíduos atendendo ao sexo / características sexuais que o seu corpo comporta (Anastácio, 2021). Assim, a desigualdade de género não se fica a dever tanto às diferenças corporais, mas mais à hierarquização dos papéis de homens e mulheres, atribuindo mais valia às práticas masculinas do que as culturalmente consignadas às mulheres (Cavalheiro et al., 2008). O género insere-se no domínio da cultura sendo construído num quadro de conceções - valores e crenças – variáveis de sociedade para sociedade, atribuindo papéis sociais e juízos de valor assimétricos e hierarquizados logo na infância a meninas e a meninos, prolongando-se depois a mulheres e a homens. As diferenças de sexo são decorrentes da natureza biológica, adquirem maior constância e menor probabilidade de discriminação. Quando se comparam corpos masculinos e femininos e mesmo quando se discute a frequência de certas patologias infeciosas em mulheres é comum o uso do provérbio “Anatomia é sina”, justificando razões assentes na biologia. Por sua vez, as desigualdades de género “são socialmente construídas, por isso geradoras de comportamentos discriminatórios e só mantidas num quadro de aceitação social generalizada” (CITE, 2003: 12). Género e Prescrição Social da Sexualidade Gagnon e Simon (1973, cit in Sprinthall & Collins, 1999) introduzem o conceito de script sexual, para especificar o caráter construído da sexualidade. Fazendo parte dos scripts sociais, os scripts sexuais são então definidos como esquemas de atribuição de significação e de orientação para a ação que são socialmente construídos. A sexualidade do rapaz é motivo de orgulho para a familia, sendo assim socialmente prescrita, enquanto a da rapariga pode pôr em causa a sua reputação. Similarmente, os estudos de Kanin (1967, cit in Sprinthall & Collins, 1999) revelaram que homens sexualmente agressivos eram a este nível mais insatisfeitos do que os considerados não agressivos. Comparando os seus ambientes sociais, constatou-se que os primeiros se inseriam em grupos onde a atividade sexual era bastante valorizada e lhes conferia um estatuto superior, sendo pressionados para se tornarem sexualmente ativos. International Journal of Developmental and Educational Psychology INFAD Revista de Psicología, Nº2 - Volumen 1, 2022. ISSN: 0214-9877. pp:83-92 85 DEL DESARROLLO Y DE LA VIDA 07. B2 MELILLA Celeste Antão_M. Jesu?s 9/11/22 10:03 Página 85 Embora sendo situações extremas, está aqui inerente a agressividade associada à masculinidade e à conceção de papel de género masculino, que difere entre os grupos sociais. Cultura e género A antropologia também tem mostrado amplamente que a diferença sexual entre homens e mulheres. Margarete Mead (cit in Sprinthall & Collins, 1999)no seu trabalho de campo na Ilha de Samoa, com três sociedades primitivas foi pioneira nos estudos de relações de gênero. Ela observou as personalidades atribuídas a homens e a mulheres em cada uma dessas sociedades, concluindo que características psicológicas femininas e masculinas (os temperamentos) não eram inatas, mas antes padrões culturais aprendidos e ensinados de uma geração a outra, sustentando, com isso, a ideia de que a cultura molda o comportamento, assim como produz a diferenciação de personalidades entre os sexos (Filipe & Oliveira-Macedo, 2018). Lamas (s/d) referindo-se à Carta Cultural Iberoamericana salienta que nascemos dentro de um tecido cultural onde as avaliações e crenças determinam “o que é próprio” para os homens e “o que é próprio” para as mulheres. A nossa perceção é condicionada e “filtrada”, pela cultura que habitamos, pelas crenças que nos foram transmitidas pelo nosso círculo familiar e social sobre o que cabe às mulheres e o que cabe aos homens. A nossa consciência já é habitada pelo discurso social. O corpo é a primeira evidência incontestável da diferença humana. Este feito da biologia é o material básico da cultura e em toda sociedade há oposição. Durante muito tempo acreditava-se que as diferenças entre mulheres e homens se deviam à diferença sexual. Hoje sabe-se que são fruto de uma produção histórica e cultural. A posição das mulheres, as suas atividades, limitações e possibilidades variam de cultura para cultura. As ordens do género, espaços diferenciados, tarefas complementares e atitudes diferentes para cada sexo, etorna difícil conceituar mulheres e homens como ‘iguais’, o que é valorizado como “feminino” (o que é “próprio” e desejável para as mulheres), varia conforme a cultura. Para Lamas (s/d) é a cultura, e não a biologia, que é responsável pela notória diferença que podemos ver entre a situação dos escandinavos, a latino-americana, muçulmana e oriental. A biologia é moldada por intervenção social e esta por simbolização. Diferença sexual é apenas isso, diferença sexual. Não é diferença intelectual ou ética. Sem dúvida, entre mulheres e homens há diferenças físicas, hormonais, procriativas, sexuais e de tamanho e força, mas são apenas diferenças biológicas que não se deveriam traduzir em desigualdades sociais e económicas. OBJETIVOS Este trabalho teve como objetivos proceder a uma recolha e sistematização de expressões proverbiais alusivas à (des)igualdade de género, analisar as questões de (des)igualdade de género perpetuadas na linguagem proverbial, categorizando as tendências, assim como procurar mudanças no papel da mulher na sociedade portuguesa. METODOLOGIA A metodología é de natureza qualitativa. Recolheram-se e registaram-se os provérbios e ditados escritos e falados na linguagem portuguesa que entendemos relacionados com as questões de género e sexualidade. A partir da recolha de provérbios referentes aos papéis de género e socio sexuais de homens e mulheres, pensámos categorias de análise, tentando identificar os que: 1. reafirmam regras de convivência social; 2. conferem papel de soberania ao homem; 3. conferem papel de soberania à mulher; 4. Discriminatórios; 5. colocam ambos em posição de igualdade. International Journal of Developmental and Educational Psychology 86 INFAD Revista de Psicología, Nº2 - Volumen 1, 2022. ISSN: 0214-9877. pp:83-92 (DES) IGUALDADES DE GÉNERO: UM MERGULHO PROVERBIAL 07. B2 MELILLA Celeste Antão_M. Jesu?s 9/11/22 10:03 Página 86 RESULTADOS Procedeu-se a uma análise categórica dos provérbios recolhidos com o intuito de verificar os papéis privilegiados e/ou igualitários socialmente atribuídos. Na Tabela 1, reúne-se a distribuição dos provérbios pelas categorias estabelecidas a priori. Tabela 1: Provérbios distribuídos pelas cinco categorias estabelecidas Os estereótipos de género são bem notórios noutro conjunto de provérbios, podendo ser considerados outra categoria, bem mais ampla. Encontramos provérbios que caraterizam o género feminino através da habilidade inata e destreza manual para atividades domésticas, do mesmo modo que atribuem à mulher a responsabilidade International Journal of Developmental and Educational Psychology INFAD Revista de Psicología, Nº2 - Volumen 1, 2022. ISSN: 0214-9877. pp:83-92 87 DEL DESARROLLO Y DE LA VIDA Categorias Provérbios Regras de convivência social “A homem calado e a mulher barbada em tua casa não dês pousada” “A casa é das mulheres e a rua é dos homens” Papel de soberania para o homem “O homem pensa, a mulher dá que pensar” “O poder mostra o que o homem é” “Os homens fazem as leis; as mulheres, os costumes" “O homem é a trave da nossa casa” Papel de soberania para a mulher “Sem a mulher toda a casa fica vazia” “Não há nada como uma mulher para fazer do homem quanto quer” “Cem homens podem formar um acampamento, mas é preciso uma mulher para se fazer um lar”. Discriminatórios “Para quem perde a mulher e um tostão, a maior perda é a do dinheiro” “O homem é como o fósforo, sem cabeça não vale nada” (Silva, 2012) “Mulher bonita é como estrada boa: perigosa” “Mulher formosa ou leve ou presunçosa.” “Mulher pequenina, ou velhaca ou bailarina” “Homem de palha vale mais que mulher de ouro”. “A mulher é como o calo, incomoda” “Uma mulher sozinha faz muito, duas fazem pouco e três não fazem nada” “Mulher de janela, nem costura nem panela” “O inferno é uma série de diabos, a mulher é uma série de infernos” “As mulheres são como os sapatos, sempre podem ser trocadas” “As mulheres são como os autocarros, quando um parte outro chega” “Um homem a juntar com uma pá e uma mulher a gastar com um agulha, o homem não dá a conta à mulher” Homem e mulher em posição de igualdade “Por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher” “As mulheres sustentam metade do céu” 07. B2 MELILLA Celeste Antão_M. Jesu?s 9/11/22 10:03 Página 87 A Problemática atual em Portugal Antes do 25 de abril as mulheres eram alvo de inúmeras restrições sociais, desde o direito de voto ao impedimento de divórcio. A Revolução de 1974 trouxe reformas destinadas a melhorar a posição das mulheres portuguesas. Só em 1976 a Constituição Portuguesa lhes conferiu o direito completo de votar. No Índice da Igualdade de Género de 2020 do Instituto Europeu para a Igualdade de Género (EIGE), Portugal está a progredir, estando em 16.º lugar no ranking, em relação ao 21.º que ocupava em 2015. Contudo, destacase também a persistente segregação sexual na educação e profissões em Portugal, representando as mulheres apenas 16% das pessoas especialistas e 19% das diplomadas nas Tecnologias de Informação e Comunicação. Dados estatísticos de 2019 referentes à temática da (des)igualdade de género na Europa distanciam Portugal da EU 6,6 pontos e 22,5 do país com um índice maior de igualdade de género - Suécia (Figura 1). Um aspeto importante a referir é que na União Europeia, 75% das tarefas domésticas e dos cuidados não remunerados são efetuados por mulheres (CE, 2020). Estes dados são congruentes com uma “genderização” do mercado de trabalho, que penaliza as mulheres na vida profissional e que resiste a libertar os homens para uma maior participação na vida familiar. Desta forma, o homem continua ser visto como o provedor da família e a mulher como a gastadora do dinheiro que ele ganha como veicula o proverbio “Um homem a juntar com uma pá e uma mulher a gastar com um agulha, o homem não dá a conta à mulher” Figura 1: Desigualdade de género na Europa (Fonte: https://eige.europa.eu/gender-equality-index/2020/compare-countries/index/bar) Além de ser preocupante a posição de Portugal a nível global, essas desigualdades ainda são mais críticas nalguns subdomínios. Destaca-se o “tempo” e o “poder” com 47,5 e 51,1 respetivamente (Figura 2). International Journal of Developmental and Educational Psychology 88 INFAD Revista de Psicología, Nº2 - Volumen 1, 2022. ISSN: 0214-9877. pp:83-92 (DES) IGUALDADES DE GÉNERO: UM MERGULHO PROVERBIAL 07. B2 MELILLA Celeste Antão_M. Jesu?s 9/11/22 10:03 Página 88 Figura 2. Índice global de igualdade e diferentes subdomínios (Fonte: https://eige.europa.eu/gender-equality-index/2020/PT) DISCUSSÃO Os provérbios, como portadores de cultura descrevem o retrato vívido da posição subordinada das mulheres durante um período bastante longo da história. No entanto, os provérbios mostram apenas um aspeto da cultura, não um panorama de toda a sociedade. Nos Standards para a Educação Sexualidade na Europa (WHO, 2010), assim como no Referencial de Educação para a Saúde da Direção Geral da Educação (Pereira & Cunha, 2017) e no guia da UNESCO para a Educação para a sexualidade (UNESCO, 2018) encontramos vários tópicos correspondentes a conteúdos de sexualidade a trabalhar. Alguns dos proverbios encontrados podem ser utilizados na abordagem desses tópicos. Por exemplo, ao tópico “Fertilidade e Reprodução” adequa-se à discussão do provérbio “Os homens produzem as mulheres reproduzem”. A discussão deve ser orientada numa perspetiva desconstrutiva da mensagem que encerra, estimulando o pensamento crítico dos alunos e levando-os à reflexão de que para a reprodução tanto o homem como a mulher estão implicados de modo igualitário, da mesma forma que também as mulheres produzem. Ao trabalhar o tema das “Emoções” faz sentido incluir os provérbios “O homem vence pela coragem, a mulher pelo carinho” e “Um homem nunca chora”, na medida em que estas expressões da linguagem proverbial traduzem o género socialmente construído que atribui as manifestações de afeto e sensibilidade ao género feminino e a frieza e contenção de emoções ao género masculino. Parece haver ainda um longo caminho a percorrer, já que 39 % dos deputados no Parlamento Europeu são mulheres. Exemplo disso são as questões de soberania que vão surgindo mais associadas ao homem a nível proverbial, como nos casos “O homem pensa, a mulher dá que pensar” e “O poder mostra o que o homem é”. No tópico “Relacionamentos e estilos de vida”, inclui-se o subtópico “Violência nas relações”. Sendo este um assunto bastante discutido atualmente, e assistindo-se a uma mudança de mentalidade e de normas sociais, importa salientar o provérbio “Entre homem e mulher ninguém mete a colher”, que contradiz a atitude de denúncia de situações de violência conjugal, hoje aceite, mas durante muito tempo não praticada, remetendo a vítima ao silêncio e à perpetração da violência. Isto é particularmente perigoso, pois muitas pessoas não reconhecem facilmente essa discriminação, tornando-se problemático porque os indivíduos devem ser capazes de identificar corretamente os atos da discriminação, evocar a mudança e promover a igualdade de género. O estudo de International Journal of Developmental and Educational Psychology INFAD Revista de Psicología, Nº2 - Volumen 1, 2022. ISSN: 0214-9877. pp:83-92 89 DEL DESARROLLO Y DE LA VIDA 07. B2 MELILLA Celeste Antão_M. Jesu?s 9/11/22 10:03 Página 89 Martins, Coimbra Sá e Oliveiras (2020), realizado com estudantes permitiu concluir que os mesmos têm consciência das mudanças ocorridas nos papéis do homem e da mulher, acompanhando a evolução do conceito de família e a emergência de novos modelos sociais. Contudo, os autores verificaram que ainda persistem estereótipos de género, que continuam a condicionar as relações interpessoais na família, o que comprova a importância da reflexão e consciencialização dos estudantes sobre esta temática, a reforçar em contexto escolar. O Instituto Europeu para a Igualdade reconhece que a igualdade gera crescimento e a melhoria da igualdade de género na UE criaria até 10,5 milhões de novos postos de trabalho até 2050. A taxa de emprego atingiria quase 80% e o produto interno bruto (PIB) da UE poderia aumentar em quase 10 % até 2050. Só quando as mulheres tiverem um papel igual aos homens e direitos dignos é que a discriminação terminará. Simultaneamente, como veículo de um fenómeno social e cultural, a língua muda à medida do desenvolvimento social e cultural. Daqui decorrerá uma melhoria do papel social da mulher (Sun, 2017). Corroboramos a ideia do EIGE (2018), quando afirma que a pesar de a igualdade de género ser um princípio fundamental da União Europeia, ainda não é uma realidade e que nas empresas, na política e na sociedade em geral, só poderemos concretizar plenamente o nosso potencial se utilizarmos todos os nossos talentos e diversidade de género (EIGI, 2018). Também Sousa, Marchante, Coelho e Quintais (2019) salientam que apesar de uma maior aceitação face ao tema e da aplicação de leis e políticas promotoras da igualdade de género, os progressos dos últimos anos têm sido considerados reduzidos, sendo os estereótipos de género uma das principais barreiras à igualdade. Estas mensagens contidas na linguagem proverbial continuam a perpetuar a aculturação e aceitação de normas sociais que não promovem a equidade de género. CONCLUSÕES De modo sumário, a recolha de provérbios feita em relação à temática da (des)igualdade de género, traduz uma herança cultural que vai perpassando gerações sem conseguir esbater o duplo padrão sexual. A categorização que operacionalizámos permite-nos sistematizar as seguintes conclusões: A importância atribuída às mulheres na educação e na preservação de valores culturais associados ao cuidado dos filhos e da família em geral é inquestionável, mas mais circunscrita ao lar. O homem, embora também considerado responsável pela educação dos filhos e transmissão de sabedoria, situa-se noutro contexto - o espaço público. A valentia do homem é por vezes reforçada pela capacidade de atuação da mulher, como encerra o provérbio “por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher”. Os estereótipos de género acentuam caraterísticas físicas diferenciadas, valorizando a estética na mulher e o vigor físico no homem, assim como fazem uma localização diferenciada dos dois géneros, atribuindo o espaço público, as funções de decisão e chefia e o domínio financeiro ao masculino, enquanto o espaço da casa, as tarefas e cuidados aí prestados ao feminino. Acreditamos que esta abordagem trouxe contribuições ao conhecimento de representações sociais que continuam a ser perpetuadas e refletidas nas desigualdades atuais e que poderão ser objeto de reflexões no contexto socioeducativo, no sentido da minimização das desigualdades ainda observadas. 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