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Sustentabilidade, circularidade e funcionalidade - otimização de vestuário de bebé

Silva, Luana Maria Cruz

Abstract

O presente projeto de dissertação foi realizado no âmbito do Mestrado em Design e Inovação de Produtos Têxteis e acessórios, tendo como principal objetivo desenvolver uma coleção de vestuário interior de bebé numa faixa etária dos 0 aos 24 meses, sustentável, durável que funcione numa economia circular e que responda de forma eficaz às necessidades físicas do bebé, uma vez que as peças estarão em contacto direto com a pele e o bebé é um ser extremamente frágil e sensível. Numa primeira fase foram estudadas as características da pele do bebé, bem como o desenvolvimento do seu corpo e identificadas as propriedades necessárias para obter um vestuário confortável a nível sensorial, termofisiológico e ergonómico, ou seja, que permita a utilização livre das estratégias de exploração características desta idade. Foi também identificado o impacto do uso do algodão, tendo em conta que esta é a fibra maioritariamente utilizada na indústria de vestuário infantil. Realizou-se ainda uma análise das estratégias de design para a circularidade que podem auxiliar no processo de criação de produto. Posteriormente iniciou-se o trabalho prático, baseado numa metodologia que auxiliou a guiar o pensamento circular, onde foram definidas quatro fases. A primeira fase teve como objetivo perceber a construção de produtos já existentes e que melhorias poderiam sofrer. Numa segunda fase definiu-se o público-alvo, a inspiração estética as cores e todos os requisitos do produto. Na terceira fase projetou-se o produto e na quarta avaliou-se os ciclos previstos. O resultado foi uma coleção composta por três artigos, uma camisola, umas calças e um tapa fraldas, feitos de fibra de bambu. Os artigos são reversíveis e podem ser utilizados separadamente ou unidos criando um body e um babygrow. São também mais duráveis por serem ajustáveis ao tamanho, estimando-se um tempo médio de uso entre 6 e 12 meses. A coleção final é sem gênero, durável, sustentável e funciona num ciclo fechado conseguindo reentrar em uso através de três estratégias diferentes.

Full text

i ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/ iii Agradecimentos A presente dissertação de mestrado é a materialização resultante de um longo percurso académico que, só foi possível de ser concluído com êxito graças a todas as pessoas que se fizeram presentes de alguma forma e às quais gostaria de agradecer por todo o apoio. Primeiramente queria agradecer à minha orientadora, professora doutora Joana Cunha, por aceitar caminhar comigo ao longo desta jornada, por tão bem orientar o meu trabalho e pela sua dedicação em todas as fases. Uma professora presente desde o meu primeiro dia na Universidade do Minho, ainda no primeiro ano de licenciatura, até aos dias de hoje. Em especial à minha família, á minha mãe, pai e irmão por todo o apoio e motivação durante os 5 anos académicos. Ao meu namorado sempre presente e sempre pronto a ajudar. Obrigada por serem pacientes, confiarem e acreditarem em mim. Aos meus amigos por tornarem o processo mais leve, em especial à Mariana, pelas memórias criadas, pela motivação, apoio e companheirismo. À Universidade do Minho por todo o suporte e estrutura e a todos os professores que tão bem transmitiram o seu conhecimento, tendo sido essencial para a minha formação. A todos os meus colegas de curso pelo companheirismo e especialmente à Eldeny que me auxiliou e transmitiu conhecimento de costura. Por fim, agradeço ainda à empresa Zippy Kidstore, à minha chefe e a todos os colegas de trabalho, que sem se aperceberem contribuíram para o meu percurso. Com eles aprendi muito do que é ser designer de moda. iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho. Assinado por: Luana Maria Cruz Silva Num. de Identificação: 15476407 Data: 2024.07.23 20:04:53+01'00' v Resumo Sustentabilidade, circularidade e funcionalidade – Otimização de vestuário de bebé O presente projeto de dissertação foi realizado no âmbito do Mestrado em Design e Inovação de Produtos Têxteis e acessórios, tendo como principal objetivo desenvolver uma coleção de vestuário interior de bebé numa faixa etária dos 0 aos 24 meses, sustentável, durável que funcione numa economia circular e que responda de forma eficaz às necessidades físicas do bebé, uma vez que as peças estarão em contacto direto com a pele e o bebé é um ser extremamente frágil e sensível. Numa primeira fase foram estudadas as características da pele do bebé, bem como o desenvolvimento do seu corpo e identificadas as propriedades necessárias para obter um vestuário confortável a nível sensorial, termofisiológico e ergonómico, ou seja, que permita a utilização livre das estratégias de exploração características desta idade. Foi também identificado o impacto do uso do algodão, tendo em conta que esta é a fibra maioritariamente utilizada na indústria de vestuário infantil. Realizou-se ainda uma análise das estratégias de design para a circularidade que podem auxiliar no processo de criação de produto. Posteriormente iniciou-se o trabalho prático, baseado numa metodologia que auxiliou a guiar o pensamento circular, onde foram definidas quatro fases. A primeira fase teve como objetivo perceber a construção de produtos já existentes e que melhorias poderiam sofrer. Numa segunda fase definiu-se o público-alvo, a inspiração estética as cores e todos os requisitos do produto. Na terceira fase projetou-se o produto e na quarta avaliou-se os ciclos previstos. O resultado foi uma coleção composta por três artigos, uma camisola, umas calças e um tapa fraldas, feitos de fibra de bambu. Os artigos são reversíveis e podem ser utilizados separadamente ou unidos criando um body e um babygrow . São também mais duráveis por serem ajustáveis ao tamanho, estimando-se um tempo médio de uso entre 6 e 12 meses. A coleção final é sem gênero, durável, sustentável e funciona num ciclo fechado conseguindo reentrar em uso através de três estratégias diferentes. Palavras-chave: Bambu; Circularidade; Durabilidade; Sustentabilidade; Vestuário de bebé. vi Abstract Sustainability, circularity and functionality – Newborn clothes optimization This dissertation project was made in the context of the Master’s degree “Mestrado em Design e Inovação de Produtos Têxteis e acessórios”, and its main objective lies on the development of a newborn clothing collection, wearable from 0 to 24 months that is sustainable, durable and built upon the ideas of a circular economy. Besides this, the collection should also effectively answer the physical needs of the baby, since the clothes are going to be in direct contact with the extremely fragile and sensitive baby skin. On an early stage, both the characteristics of the baby’s skin and the way that a baby’s body develops were studied as a way to identify the necessary properties to obtain a comfortable apparel on a sensorial and thermophysiologic level that allows free exploring, which is very characteristic of this age. The impact of the usage of cotton was also identified since this is the mostly used fibre in children clothing. Additionally, an analysis was carried out regarding the strategies for circular design that might support product development. Following that, the practical work was initialized, based on a circular implementation methodology that was divided into four stages. The first stage had the objective of understanding the build of alreadyexistent products and the possible improvements to be made. On a second stage, the target audience, the aesthetic inspiration, the colours and all the requirements of the products were established. On the third stage, the product was designed and on the last one, the predicted cycles were evaluated. The result consists of a collection built of three pieces made of bamboo fibre: a shirt, pants and a diaper cover. The pieces are reversible and can be utilized separately or united to create a body and a babygrow and are also more long-lasting due to their adjustable size that provides an estimated wear time from 6 to 12 months. The final collection is durable, sustainable and works on a closed cycle, allowing the reusage of the apparel through three different strategies. Keywords: Bamboo; Circularity; Durability; Sustainability; Newborn clothes. vii Índice Agradecimentos .................................................................................................................................. iii Resumo............................................................................................................................................... v Abstract.............................................................................................................................................. vi Índice ................................................................................................................................................ vii Índice de figuras .................................................................................................................................. x Índice de tabelas ............................................................................................................................... xiii 1. Introdução ................................................................................................................................. 1 1.1 Enquadramento ................................................................................................................. 1 1.2 Objetivos ........................................................................................................................... 2 1.3 Metodologia ....................................................................................................................... 2 1.4 Estrutura da dissertação .................................................................................................... 3 2. Revisão bibliográfica ................................................................................................................... 5 2.1 O bebé e o vestuário – Características, relação e lacunas ................................................... 5 2.2 Antropometria e desenvolvimento – Do nascimento ao segundo ano ................................... 6 2.3 Requisitos e necessidades: A pele, o conforto e a proteção ............................................... 12 2.3.1 A pele .......................................................................................................................... 13 2.3.2 Conforto e proteção no vestuário .................................................................................. 14 2.4 Segurança no vestuário infantil – Normas europeias ......................................................... 17 2.5 Atuais problemas da indústria de vestuário ....................................................................... 18 2.6 Sustentabilidade e circularidade na indústria da moda ...................................................... 23 2.6.1 Design sustentável e a economia circular ..................................................................... 24 2.6.2 Cradle-to-cradle na economia circular ........................................................................... 26 2.7 No caminho da solução – Estratégias e ferramentas para a circularidade ......................... 27 2.7.1 Design thinking ............................................................................................................ 28 1 1. Introdução Neste capítulo é apresentada uma introdução ao trabalho, onde é enquadrada a temática abordada e a motivação para a sua exploração. Seguidamente estão definidos os objetivos, tanto o principal como os mais específicos. Expôs-se também a metodologia adotada durante a elaboração de toda a investigação e a estrutura em que a dissertação está organizada. 1.1 Enquadramento O vestuário é um artigo fundamental no dia a dia, porém a forma como é pensado, produzido e distribuído é poluente e insustentável, utilizando recursos que muitas vezes não são renováveis. Sendo este um sistema de moda poluente, consequências começam a ser vistas e sentidas, como o aquecimento global, os aterros e a poluição dos oceanos, pelo que mudanças têm de ser feitas (Foundation Ellen Macarthur, 2017) . Tendo em conta a situação atual conceitos como sustentabilidade e circularidade começam a ganhar expressão nas indústrias têxteis e do vestuário. Assim sendo, num mundo onde a moda sustentável é uma das grandes temáticas, o vestuário para os mais novos, especialmente dos bebés precisa de atenção visto que também engloba algumas problemáticas. Nos seus primeiros meses de vida, os bebés, sofrem um salto de crescimento muito rápido e acentuado, o que faz com que as roupas deixem de servir num curtíssimo espaço de tempo, resultando num grande descarte de vestuário (Bridges, Henninger, Barbu, & Lupu, 2022). Em acréscimo ao problema da durabilidade está o material usado nestes artigos. A pele dos bebés à nascença é muito sensível e tem características muito próprias (Kutlubay et al., 2017), sendo que o material mais indicado é o algodão, uma fibra natural que não provoca alergias e é macio (Greendigo, n.d.). Porém o algodão, apesar de fibra natural, traz problemas a nível ambiental, devido ao seu cultivo e produção (Mendonça & Moutinho, 2019). A motivação para o desenvolvimento deste tema passa pela carência de conteúdo de melhoria sustentável no vestuário dos mais novos. É necessário um estudo que permita aumentar a sua durabilidade e melhorar a sustentabilidade sem descuidar das características e preocupações típicas do vestuário de bebé. Estamos num mundo onde mais do que nunca o vestuário deve funcionar num ciclo. O que os bebés vestem no presente, não deve condicionar o seu futuro no planeta. 2 1.2 Objetivos A presente dissertação tem como objetivo principal desenvolver uma coleção de vestuário interior de bebé, sustentável, durável, que funcione numa economia circular e que responda de forma eficaz às necessidades físicas do utilizador (uma vez que as peças estarão em contacto direto com a pele e o bebé é um ser extremamente frágil e sensível). Os objetivos específicos para este projeto são: • Identificar as necessidades e características específicas de um bebé, do seu desenvolvimento e da sua pele; • Perceber as características da sustentabilidade ambiental, social e económica bem como a circularidade na indústria da moda; • Estudar o impacto do uso do algodão; • Identificar um material sustentável com características equivalentes ou melhores que o algodão; • Desenvolver melhorias para aumentar a durabilidade. 1.3 Metodologia Para o desenvolvimento desta dissertação iniciou-se o processo com a definição da problemática, sendo esta o objeto de investigação. Tendo em conta que este é um trabalho de investigação na área do design todo o pensamento foi guiado através do design thinking e do método da framework para a inovação, do Design Council (Design Council, n.d.), sendo assim possível uma boa estruturação de todo o projeto e uma solução criativa para a problemática. Esta framework defende que se deve definir o problema e através da seleção de uma metodologia de design adequada e da definição de princípios de design deve-se explorar, definir, desenvolver a solução e entregar (Design Council, n.d.). Com a problemática delimitada o primeiro passo foi realizar um estudo descritivo e análise do estado da arte, com o objetivo de aprofundar o conhecimento e recolher informações sobre diversas temáticas em volta do vestuário de bebé e da sustentabilidade. Este estudo permite dar bases e recolha de conhecimento essencial para o desenvolvimento prático da investigação. Após a análise do estado da arte, iniciou-se o desenvolvimento prático apoiado sobre a metodologia sugerida por Ellen Macarthur para o design circular, o “the circular design guide” (The Circular Design 3 Guide, n.d.). Esta é uma metodologia que sugere etapas e ferramentas para guiar o processo de redesign de forma sustentável e circular, sendo adaptável a cada projeto. Tendo isto em conta foram definidas as quatro fases de desenvolvimento, entender, definir, projetar e lançar, e quais os passos a ser dados em cada uma. Na primeira fase, entender, foi realizado um estudo de campo onde foram recolhidas informações sobre marcas infantis com critérios sustentáveis e circulares já existentes no mercado em Portugal e foram recolhidas peças para serem desconstruídas para análise das suas componentes. Ainda nesta fase foi realizado um brainstorming circular, com o objetivo de perceber onde os produtos atuais se encontravam nos ciclos do diagrama de borboleta e onde poderiam chegar. A segunda fase do desenvolvimento teve como foco a definição dos requisitos necessários para a resposta à problemática e a definição do público-alvo envolvido na utilização do produto, bem como de uma inspiração estética para guiar a coleção. Estando as fases da exploração e definição concluídas, segue-se a fase de projetar, onde foi realizado um percurso para obter uma solução da problemática. Nesta fase foram feitos estudos em sketchs, que foram avaliados e selecionados, foi realizado um processo de prototipagem para perceber as limitações da solução e foi criada e apresentada uma solução final. Por fim, a última etapa, lançar, baseia-se numa análise dos ciclos previstos da solução final e numa comparação e análise de resultados, que permitem avaliar se o processo foi bem conseguido e se respondeu á problemática inicialmente definida. 1.4 Estrutura da dissertação Esta dissertação encontra-se dividida em quatro capítulos. O capítulo I tem como objetivo uma introdução ao tema da investigação, apresentando o enquadramento teórico, os objetivos a metodologia de investigação utilizada e a estrutura do trabalho. No capítulo II apresenta-se uma revisão bibliográfica sobre todas as temáticas necessárias de estudo prévio para a realização do projeto. Foi então abordado a relação entre o bebé e o vestuário, as características de um bebé entre os 0-24 meses, como a antropometria e o desenvolvimento, os requisitos e necessidades. Analisou-se ainda os atuais problemas da indústria têxtil e a sustentabilidade e circularidade. 4 O capítulo III descreve detalhadamente o desenvolvimento prático que envolve quatro fases. Na primeira fase analisou-se brevemente marcas de vestuário de bebé portuguesas e sustentáveis. Realizouse um brainstorming e analisou-se algumas tipologias de produtos, descrevendo detalhes como os materiais usados, as componentes e como poderiam ser melhorados. Na segunda fase definiu-se o público-alvo, o desafio e os requisitos, a inspiração estética e as cores. A terceira fase inclui o desenvolvimento de ideias, a seleção de conceito, a descrição detalhada da criação do protótipo, o design do produto final após a criação do protótipo, sketchs criativos e a coleção final. Esta fase envolve ainda um mapeamento do que se prevê que seja o ciclo de vida do produto e uma análise e comparação dos resultados. Por fim, o capítulo IV apresenta as conclusões de todo o desenvolvimento e as propostas para trabalho futuro. 5 2. Revisão bibliográfica Neste capítulo é realizada uma revisão bibliográfica de temáticas que envolvem o vestuário de bebé, a sustentabilidade e circularidade. 2.1 O bebé e o vestuário – Características, relação e lacunas Criança e infância, são conceitos que nem sempre tiveram o mesmo significado. Atualmente uma criança é um ser que a partir do nascimento (Priberam, 2023) até aos 12 anos apresenta-se na fase da infância (Bee, 1977a) e que durante o crescimento é vulnerável, com necessidade de proteção, e atitudes características de descoberta e aprendizagem, como o ato de brincar, tocar e questionar. Outrora não havia o mesmo reconhecimento de criança ou da fase da infância, onde esta era apenas um curto período até existir alguma autossuficiência e tornar-se um adulto (Filipa Santiago, 2019). O mesmo acontece na indústria do vestuário e da moda, que por si só está em constante mudança, evolução e adaptação, espelhando características da época (Vanessa & Alves, 2019). Se em tempos anteriores predominava a ideia de que uma criança que já é autossuficiente passa a ser um adulto, não existindo a fase da infância, o mesmo conceito de “adultos em miniatura” refletia-se no ato de vestir (Filipa Santiago, 2019). Até ao século XVII, não havia grandes cuidados com a criança ou o bebé, originando um elevado número de mortalidade infantil. Após o seu nascimento os bebés eram envolvidos em faixas, chamadas de “cueiro”, feitas de linho ou cânhamo. Estas faixas eram utilizadas pelos pais para que o corpo do recém-nascido ficasse imóvel e com a coluna sustentada, visto que estes tinham receio que os movimentos do bebé desencadeassem alguma fratura (Vanessa & Alves, 2019). Após o primeiro ano de vida e assim que deixavam de usar o “cueiro”, as crianças vestiam-se como adultos, diferenciando-se apenas pela sua condição social (Filipa Santiago, 2019). Não existir diferença entre o vestuário para os adultos e para as crianças era extremamente problemático, visto que os trajes da altura não tinham em conta o conforto, ou a liberdade de movimentos necessária para a criança brincar e explorar, interferindo assim com o seu desenvolvimento (Bononi, 2016). Apesar de ao longo do tempo o vestuário infantil ter sofrido algumas alterações, foi após a segunda guerra mundial, que as mudanças nas características do mesmo foram mais acentuadas. Com a segunda guerra mundial, toda a indústria mudou, até mesmo a da moda. O vestuário de adulto passou a ser mais prático e consequentemente o infantil. Para além disto cresceu a preocupação com o bem-estar das crianças, surgindo organizações que lutam pelos direitos infantis, como a UNICEF, melhorando as suas 6 condições (Filipa Santiago, 2019). Foi também em 1960 que o vestuário começou a ser vendido por segmentos, permitindo assim um melhor estudo de mercado e melhor resposta a necessidades específicas de cada segmento (Bononi, 2016). Apesar de atualmente existir a distinção entre crianças e adultos e de existir preocupação pela saúde e pelos direitos das mesmas, a moda decorre num movimento muito rápido com a era do fast fashion , fazendo com que alguns aspetos que deveriam ser considerados na produção de vestuário infantil sejam colocados de lado. A evolução de um bebé recém-nascido é muito rápida nos primeiros meses, e estão suscetíveis a diversos problemas. O vestuário deve cuidar, proteger e adaptar-se às diferentes fases da sua vida (Filipa Santiago, 2019). Para que seja eficaz deve-se aliar o design, a funcionalidade, o conforto, a segurança e a sustentabilidade, durante o processo de criação (Martins, 2005a). 2.2 Antropometria e desenvolvimento – Do nascimento ao segundo ano Ao criar artigos de vestuário para crianças, é importante perceber as suas características enquanto utilizadoras dos mesmos, considerando que estão numa fase inicial da vida, onde todos os desenvolvimentos acontecem de forma muito rápida (Pereira, 2011). Este desenvolvimento reflete-se em várias aprendizagens de caráter motor, psicossocial e emocional. Estima-se que a nível físico, o bebé cresce aproximadamente 1 cm por semana (Filipa Santiago, 2019). Assim sendo, é essencial o estudo do desenvolvimento da criança a nível físico, cognitivo, social e emocional, para a criação de artigos que sejam duráveis e adequados às características da mesma (L.P.A. Steenbekkers, 1993). Considerando a finalidade da dissertação, este levantamento de informação sobre o desenvolvimento infantil incidirá apenas no intervalo de idade compreendido entre os 0 e os 24 meses. Os primeiros anos de vida são essenciais para a saúde física e mental, onde todas as situações ocorrem pela primeira vez. São criadas relações entre a criança, os pais e o ambiente envolvente (Filipa Santiago, 2019). O conceito de desenvolvimento, quando usado para abordar a evolução de um bebé, significa o aumento das capacidades individuais de agir, ao longo do tempo, sendo essencial a observação, a interação e a tentativa erro (Anzanello, 2010). É importante considerar que cada criança é única, porém é possível perceber semelhanças que permitem criar uma linha de tempo que determina quando, como e porquê acontecem certos desenvolvimentos (Bononi, 2016). É nestas semelhanças que o design pode apoiar-se para o desenvolvimento dos seus produtos. 7 Assim sendo, diversos autores, como Payne, Isaac, Kamisaki e Piaget, analisam o desenvolvimento através de fases que estão organizadas em faixas etárias e que são compostas por análises a nível cognitivo, físico, social e emocional (Bononi, 2016). Os primeiros dois anos de vida, são vistos pelos diversos autores como um período durante o qual as interações são realizadas e exploradas através das sensações, como ver e ouvir e por ações físicas, como tocar ou agarrar (Bee, 1977a). Esta exploração inicial vai ensinar os bebés sobre eles mesmos e o ambiente que os rodeia (Keli Schirmann et al., n.d.). Durante este período, o desenvolvimento progride em grande escala, representando o início da perceção e dos movimentos (Pereira, 2011). Existem diversos nomes dados pelos autores para esta fase de desenvolvimento dos 0 aos 2 anos, Piaget denomina-a como estágio sensório-motor e divide-o em seis fases: a 1ª fase envolve o primeiro mês; a 2ª fase abrange dos 2 até aos 4 meses; a 3ª fase até aos 10 meses; a 4ª fase que abrange até aos 12 meses; a 5ª fase até aos 18 meses; a 6ª fase e a última do estágio sensório-motor até aos 24 meses, (Piaget, citado por Bee, 1977b). Para uma melhor perceção do desenvolvimento ao longo das faixas etárias, o estudo apoia-se na forma de divisão de Piaget, refletindo toda a área de desenvolvimento, desde o físico ao social. • 1ª fase (0-1 mês) – Após o nascimento as ações de um bebé estão limitadas aos seus reflexos, como a sucção, então durante o primeiro mês o recém-nascido apenas utiliza e aprimora estes reflexos (Bee, 1977a). • 2ª fase (1-4 meses) - A partir dos dois meses o bebé começa a elevar a cabeça no espaço ainda que de forma oscilante, sendo este o primeiro passo na evolução motora. Até aos cinco meses apresenta um reflexo conhecido como “marcha do recém-nascido”, que se baseia numa flexão e extensão das pernas quando é mantido ereto. Este reflexo desaparece com o tempo. Aos três meses existe um aumento da estabilidade nas posições dorsal e ventral, sendo capaz de elevar o tronco com os braços estendidos. Aos quatro meses já consegue segurar o tronco com os braços estendidos e com a cabeça ereta, assim como olhar para ambos os lados. O equilíbrio melhora, porém ainda não é capaz de conseguir estabilidade na posição sentada (Anzanello, 2010). Nesta fase o bebé imite sons, sorri, chora e começa a exploração do ambiente e das sensações através da observação (Bee, 1977a) e da recente capacidade de pegar em objetos para levá-los à boca (Anzanello, 2010). • 3ª fase (4-10 meses) – Nesta fase surge a intenção, onde as ações começam a ter um propósito (Bee, 1977a). Aos cinco meses a criança torna-se mais estável e aprende o movimento de rolar 8 o corpo, conseguindo sentar-se autonomamente, porém ainda não consegue realizar movimentos coordenados na posição ereta. Quando iniciam os seis meses aparece um interesse pelos membros superiores, o que leva a que o controlo destes seja maior em relação aos inferiores, apesar do pé ser frequentemente levado à boca. Aos sete meses iniciam-se as primeiras tentativas de locomoção através de movimentos como arrastar, rastejar e engatinhar. Após os nove meses, iniciam-se os primeiros passos com algum auxílio. Este começo de autonomia na locomoção possibilita interações e situações novas, o que gera curiosidade. Neste estágio o bebé sorri durante atividades e em frente a espelhos, inicia o interesse com o meio ambiente através de reações com os objetos e pessoas ao seu redor (Anzanello, 2010). • 4º fase (10-12 meses) - Nesta fase o equilíbrio é bom em todas as posições, apesar de ainda não ser excelente em pé. O bebé começa a usar palavras com algum significado e repete ações ou expressões, movimenta facilmente objetos conseguindo até mesmo passar de uma mão para a outra (Anzanello, 2010). • 5º fase (12-18 meses) – A criança inicia a exploração dos objetos, como por exemplo novas formas de o segurar ou de interagir com ele, o que permite a geração de novas habilidades (Bee, 1977a). O bebé torna-se mais autónomo e finalmente consegue caminhar o que provoca e estimula o contacto com o ambiente, pessoas e a exploração (Anzanello, 2010). • 6º fase (18-24 meses) – Aqui inicia-se, finalmente, o pensamento e o começo do desenvolvimento de novas habilidades, deixando para trás as primitivas (Bee, 1977a). Os objetos começam a ser procurados, ou seja, a criança já não se limita ao que está ao alcance do seu campo de visão, uma vez que agora a locomoção permite-lhe explorar novos limites. Tendo isto como base consegue-se reconhecer o começo da exteriorização do mundo material (Pereira, 2011). Todas estas fases de desenvolvimento são desencadeadas por comportamentos conscientes e inconscientes das crianças que variam conforme a fase e o ambiente. Estes comportamentos são denominados por estratégias de exploração que são comuns a todos os seres humanos, sendo apresentadas na tabela 1 (Bononi, 2016). 9 Tabela 1 – Estratégias de exploração, adaptado de (Bononi, 2016) Estratégia de exploração Caracterização da estratégia Abocanhar objetos A boca é o órgão com maior sensibilidade e por este motivo é utilizada para explorar, através da inserção de objetos (Filipa Santiago, 2019). Olhar Através da visão o bebé começa a fazer uma associação visual aos objetos (Bononi, 2016). Mover, rodar e transferir objetos de mão para mão Ao mover os objetos inicia-se a perceção sobre a tridimensionalidade e sobre características como peso e tamanho (Bononi, 2016). Tocar, atirar e bater objetos Permite ao bebé explorar os sons e as texturas (Bononi, 2016). Combinar e diferenciar objetos Trabalha a perceção sobre a forma como os objetos podem interagir entre eles, assim como permite perceber conceitos como ser igual ou diferente (Bononi, 2016). Exploração da utilização dos objetos Permite um entendimento da correta utilização de objetos (Bononi, 2016). Atualmente, consegue-se perceber que a sequência de desenvolvimento e a sua rapidez pode variar consoante o ambiente que cerca a criança, a família, a estimulação externa e o seu temperamento (Bononi, 2016). Por estes fatores o vestuário não deve ser um impedimento ao desenvolvimento, devendo auxiliar a criança a explorar da forma mais segura possível e sem limitações. Como conseguimos concluir, desde o nascimento que o corpo humano inicia um processo de desenvolvimento de diversas fases e alterações ao qual podemos denominar de crescimento. Na faixa etária abordada o crescimento é a principal atividade do corpo infantil e por este motivo é importante haver um estudo de medidas que permitam desenvolver roupas que se adaptam mais facilmente a este rápido crescimento e é aqui que entra a antropometria (Bononi, 2016). Antropometria é a ciência que estuda as medidas e proporções do corpo humano, as suas interações e movimentos (Micaela & Machado, 2021), tornando-se essencial para uma melhor adequação do produto ao usuário. Para o designer esta é uma ferramenta que auxilia a consciência das dimensões corporais (Bononi, 2016). 10 Um recém-nascido possui a cabeça grande em relação à proporção com o corpo que tem membros pequenos, assumindo mesmo que “a estrutura de um recém-nascido é aproximadamente 3,8 vezes da dimensão da cabeça e o tronco é equivalente ao comprimento do braço”, como se pode verificar na tabela 2 (Lida, 2005, citado por Micaela & Machado, 2021). Tabela 2 – Proporção de um bebé, adaptado de (Micaela & Machado, 2021) Idade Estatura vs. cabeça Tronco vs. braço Recém-nascido 3,8 1,00 2 anos 4,8 1,14 Apesar destas características gerais que são comuns entre as crianças, existem grandes diferenças a nível de medidas, estatura e peso (Micaela & Machado, 2021), que podem variar devido a diversos fatores, como por exemplo a região geográfica à qual a criança pertence. Por este motivo é essencial utilizar uma tabela de medidas que corresponda eficazmente às características do consumidor. Como o foco não é realizar um estudo antropométrico, selecionou-se uma tabela de medidas que se enquadrasse com uma criança europeia entre os 0 e os 24 meses. Por este motivo utilizar-se-á as medidas da ESMOD, uma escola de moda francesa, como se verifica na Figura 1 onde se encontra as medidas dos 0 aos 18 meses e na Figura 2 que inclui as medidas para os 2 anos. 17 2.4 Segurança no vestuário infantil – Normas europeias Com o objetivo de aumentar a segurança e diminuir o risco de acidentes graves provocados por características do vestuário, foram criadas normas de segurança para o vestuário infantil a nível europeu. A organização responsável pela criação e atualização destas normas é o CEN - European committe for standarization , que através de estudos dos acidentes mais comuns com vestuário, organizou uma série de regras e standarts que os designers e empresas produtoras de moda infantil devem seguir de forma a não colocar as crianças em risco. Para a criação das normas o CEN teve em consideração a idade das crianças, o seu comportamento e atividades características para a idade ( Segurança de Vestuário de Criança e Artigos Têxteis de Puericultura :: CITEVE , n.d.). As duas principais normas são a EN 14682:2014 e a norma CEN/TR 16792, que abordam a segurança dos cordões e a segurança mecânica, estas são normas de acesso pago pelo que só algumas características da primeira norma são divulgadas ao público ( Segurança de Vestuário de Criança e Artigos Têxteis de Puericultura :: CITEVE , n.d.). A norma EN 14682:2014, foi criada com o objetivo de minimizar os riscos associados a sérios acidentes com cordões, devido ao entrelaçamento. Segundo os estudos feitos "às crianças novas" 1 , por exemplo, frequentemente ficam presas nas cordas do capuz resultando em fatalidades. Quanto à norma CEN/TR 16792, foi criada com o objetivo fornecer recomendações ao design e à produção sobre perigos mecânicos que podem decorrer com o vestuário das crianças ( Segurança de Vestuário de Criança e Artigos Têxteis de Puericultura :: CITEVE , n.d.). É importante que estas normas sejam tidas em conta desde uma fase muito inicial da criação do vestuário de forma a criar artigos que permitam que as crianças explorarem todo o ambiente que as rodeia com o fator de perigo minimizado, sendo alguns destes o estrangulamento, asfixia, queimadura e intoxicação ( Segurança de Vestuário de Criança e Artigos Têxteis de Puericultura :: CITEVE , n.d.). A norma EN 14682:2014, está dividida pelo tamanho das crianças e por áreas corporais, tendo em conta que umas podem potenciar maior risco que outras. Por exemplo, na área da cabeça e pescoço é proibido haver qualquer tipo de cordões sejam deslizantes ou fixos, pois constituem um grave perigo de estrangulamento. Extremidades de cordões deslizantes, funcionais e tiras/faixas não podem ter nós 1 Termo utilizado na norma CEN/TR 16792 18 ou ornamentos tridimensionais, não devem ser demasiado compridos e devem ser bem seguros ( Segurança de Vestuário de Criança e Artigos Têxteis de Puericultura :: CITEVE , n.d.). Quanto á segunda norma, a mesma engloba regras para materiais têxteis e componentes. Como exemplo, os materiais têxteis não devem ter buracos grandes nem ser usados em zonas que causem aprisionamento. Todos os componentes devem ser muito bem fixos e permanecerem assim durante o uso. Componentes pequenas que possam se separar do vestuário representam grande risco de asfixia, visto que a criança pode levá-los à boca. Assim sendo o tamanho destes deve ser muito bem analisado para conter medidas que sejam seguras. As molas de pressão, ribetes, ilhós e outros componentes semelhantes devem ser corretamente selecionadas e posicionadas. Para as malhas devem ser usadas molas apropriadas para malha e não as molas utilizadas tradicionalmente em tecido ( Segurança de Vestuário de Criança e Artigos Têxteis de Puericultura :: CITEVE , n.d.). Por fim, existem ainda normas que abordam a obrigatoriedade do vestuário de dormir para crianças a partir dos 9 meses seja resistente à chama ( Segurança de Vestuário de Criança e Artigos Têxteis de Puericultura :: CITEVE , n.d.). 2.5 Atuais problemas da indústria de vestuário A atual indústria de produção de moda baseia-se no modelo fast-fashion , garantindo uma oferta constante de produtos de tendência a um preço muito baixo. Esta forma de produção é extremamente poluente. São produzidas grandes quantidades de produto, através de recursos que não são renováveis e após a compra, os produtos são rapidamente descartados (Foundation Ellen Macarthur, 2017). Apesar de algumas empresas já começarem a querer perceber como podem ser “mais sustentáveis”, a quantidade de vestuário produzido e descartado continua a aumentar. Segundo a UE no ano de 2020, o consumo médio de têxteis por pessoa provocou uma pegada carbónica de 270 kg, como podemos verificar na Figura 3 (Atualidade, 2023). 19 Para além disto, o setor têxtil foi considerado, no ano de 2020, a terceira maior fonte de degradação da água, sendo responsável por cerca de 20% da poluição de água potável. Estima-se também, que 10% das emissões de carbono a nível mundial são responsabilidade deste setor (Atualidade, 2023). O descarte de vestuário é outra situação que agrava o problema. A maioria da roupa é descartada para aterros, menos de metade da roupa é recolhida para reutilização/reciclagem e apenas 1% é transformado em novos produtos (Atualidade, 2023). Analisando a área de incidência desta investigação que são as crianças entre os 0 e os 24 meses, conseguimos perceber, através de dados recolhidos anteriormente, que estes são consumidores que estão em constante desenvolvimento, deixando de utilizar as suas roupas muito rapidamente, o que aumenta o número de peças para descarte, e o aumento da compra de novas roupas (Elian, n.d.). Em Portugal, no ano de 2017, a Agência Portuguesa do Ambiente, afirma que cerca de 200 mil toneladas de vestuário vão para o lixo por ano. A Figura 4 demonstra, aproximadamente, os resíduos têxteis, por zona do país (Mendonça & Moutinho, 2019) Figura 3 - Impacto ambiental dos têxteis por pessoa (Atualidade, 2023) 20 O aumento do consumo e produção de artigos em poliéster é outra parte do problema, visto que através destes artigos são libertados micro plásticos para o ambiente e a sua poluição tem um enorme impacto na saúde das populações e ecossistemas. Para além disto, o poliéster não é biodegradável (Mendonça & Moutinho, 2019). A maioria dos têxteis atualmente é feito de materiais sintéticos, que são tingidos e tratados de forma a serem macios e ganharem mais propriedades, porém é preciso estar atento, porque com os acabamentos e propriedades “maravilhosas” acompanham-se químicos nocivos (Mustela, n.d.). Um estudo da “GreenPeace” encontrou diversas substâncias químicas perigosas em roupas de marcas muito conhecidas (Greenpiece International, 2014). Estes químicos são outro problema que faz parte da indústria e que é ainda mais prejudicial na indústria de moda infantil, que deve seguir regulamentos e requisitos legais mais rígidos. Felizmente já existe uma certificação que permite dar a conhecer ao consumidor se o artigo é seguro e livre de químicos prejudiciais, o rótulo STANDARD 100 OEKO-TEX ( OEKO-TEX® STANDARD 100 , n.d.). Figura 4 – Estimativa de toneladas de resíduos têxteis em Portugal, no ano de 2017 (Mendonça & Moutinho, 2019) 21 Apesar dos matérias sintéticos serem a principal escolha no vestuário em geral, para as crianças da faixa etária em análise um dos materiais mais eleitos é o algodão, pelas suas ótimas propriedades, porém este material natural traz consigo sérios riscos ambientais. O problema do algodão para o meio ambiente está no seu cultivo e produção. O cultivo de algodão degrada o solo e utiliza demasiados recursos naturais. Todos os anos são usadas cerca de 200 mil toneladas de pesticidas na produção de algodão, contaminando solos, rios, lagos e prejudicando a saúde dos trabalhadores e das aldeias. Para além disto, o cultivo do algodão faz com que o solo não fique saudável para outro tipo de cultivo, como alimentos, e sendo que em 2030 prevê-se que a população global seja cerca de 8,5 mil milhões de pessoas, poderá resultar num conflito entre usar os terrenos para produção de matéria têxtil ou cultivo de alimentos (Mendonça & Moutinho, 2019). Na Figura 5, conseguimos analisar a produção de algodão ao longo dos anos. O consumo excessivo de água é outro problema da utilização do algodão na indústria têxtil. Para fabricar uma única t-shirt são necessários cerca de 2700 litros de água, que em média reflete-se no consumo de água de uma pessoa em dois anos e meio (Atualidade, 2023). De forma a contornar o impacto ambiental as empresas começaram a substituir o algodão tradicional pelo algodão orgânico, que apesar de ter muitos benefícios em relação ao tradicional, continua a ter as suas desvantagens. O algodão orgânico, por definição, é um material que foi cultivado sem aditivos sintéticos, pesticidas e que não foi geneticamente modificado (Bain, 2017). As suas vantagens passam pelo cultivo sem uso de químicos nocivos, o que traz mais saúde para o solo, um sistema de produção mais justo, Figura 5 – Produção de algodão em milhões de toneladas (Mendonça & Moutinho, 2019) 22 proporcionando melhores condições e redução da poluição da água (Tidswell, n.d.). Porém não é por ser orgânico que este tipo de algodão está isento de problemas, aliás a palavra “orgânico” é usado por muitas marcas como uma ferramenta de marketing, para promover a mensagem de que estão a combater a pegada ambiental (Bain, 2017). Infelizmente os problemas do algodão orgânico não se ficam só pelas jogadas de marketing, levantando questões como rastreabilidade, gestão de solo e autenticidade (Vanderweide, 2023). Tendo isto em conta, as desvantagens do algodão orgânico passam por: • Qualidade – não é por ser um material orgânico que a qualidade é melhor. O algodão apresenta um toque macio e de qualidade devido ao comprimento da fibra, que quanto maior, melhor as suas propriedades. Infelizmente, devido a forma como o algodão orgânico deve ser colhido as suas fibras não são tão longas, para além que o seu cultivo apresenta menos de 1% do algodão mundial (Vanderweide, 2023); • Rendimento – O cultivo de algodão orgânico produz um rendimento bastante inferior face ao cultivo do algodão tradicional, segundo o New York Times cerca de 28% menos rendimento. Ou seja, para poder oferecer-se a mesma quantidade de algodão que uma cultura convencional, o algodão orgânico exige mais solo, mais cultivo, água e energia, o que pode levar a maiores emissões de gases com efeito de estufa, maior quantidade de água, maior ocupação de terrenos e desflorestação (Vanderweide, 2023); • Origens – Uma etapa importante para perceber a veracidade do algodão orgânico é determinar as suas origens, e para ajudar o consumidor já existem certificações como a GOTS. Apesar das certificações, a maioria do algodão orgânico presente nas lojas pode não ser verdadeiramente orgânico, isto porque até mesmo instituições como o GOTS já descobriram esquemas fraudulentos para criação de certificados, tendo mesmo que banir empresas do seu sistema (Wicker et al., 2022). Sendo a Índia o maior produtor de algodão orgânico, soube-se que grande parte do algodão orgânico que é exportado de lá pode não ser genuíno (Vanderweide, 2023); • Informação – A falta de informação dos consumidores pode ser uma das desvantagens. Apesar das certificações sustentáveis, serem algo positivo e essencial para a informação do que o consumidor está a comprar, podem gerar algumas confusões. Isto acontece porque atualmente já existem inúmeras siglas para diversas questões sustentáveis e rapidamente o consumidor pode confundi-las. Nem todo o algodão que está certificado é orgânico. Por exemplo, o algodão certificado pela Better Cotton Initiative não tem de ser orgânico (Tidswell, n.d.). 23 Uma boa notícia é que o consumidor já começa a preocupar-se com as suas escolhas, estudos demonstram que o conforto, a função e a sustentabilidade também são fatores para além da estética, principalmente em produtos que estão em contacto direto com a pele (Broega & Silva, 2010). Após a pandemia da Covid-19, notou-se um aumento na procura de produtos confiáveis e os consumidores melhoraram a consciência das suas escolhas (Elian, n.d.). Para o vestuário das crianças, a melhor escolha a fazer é pensar no seu conforto, na sua pele, no seu desenvolvimento, na saúde e na sua proteção. O vestuário deve ser uma extensão do corpo e considerar o seu meio ambiente, não o prejudicando (Bononi, 2016). 2.6 Sustentabilidade e circularidade na indústria da moda Os materiais têxteis são produtos que estão presentes no dia-a-dia, sendo até mesmo fundamentais para algumas necessidades básicas, como o vestir, através das roupas que são fortemente associadas á moda (Foundation Ellen Macarthur, 2017). Com o desenvolvimento da indústria, o fast fashion começou a ser o modelo de negócio usado para dar resposta ao aumento da procura que é constantemente provocada pelo surgimento de novas tendências de moda. Estas tendências fomentam o rápido consumo e descarte de vestuário que é agravado pelo fast fashion que produz de forma rápida, barata e de baixa qualidade peças de roupa que por si só já têm uma vida curta (Claxton & Kent, 2020). São muitos os setores com problemas ambientais, porém a indústria da moda, uma das maiores e mais importantes para a economia global, tem consequências desastrosas no meio ambiente. O sistema linear em que a moda está pensada, utiliza muitos recursos não renováveis, substâncias preocupantes e produz muito lixo, tendo esta sido identificada como a maior contribuidora para o problema dos plásticos no oceano. A procura por moda rápida é tanta que numericamente estima-se que mais de metade da produção de moda é descartada em menos de um ano, apenas 1% do material é reciclado de forma a voltar a ter valor e as emissões de CO2 rondam 1.2 bilhões de toneladas (Foundation Ellen Macarthur, 2017). Os problemas não são só ambientais, de momento o impacto negativo da moda é também a nível social e económico, pondo em risco todo o desenvolvimento sustentável. As descargas indevidas poluem a água, afetando comunidades que usam a mesma para pescar e beber (Foundation Ellen Macarthur, 2017). O descarte indevido de resíduos têxteis e a falta de capacidade de gestão dos mesmo resulta em desastres, como o exemplo do “deserto do Ataacama” que se transformou num gigante aterro da moda 24 visto que, a maioria dos atuais produtos têxteis são tóxicos e não são biodegradáveis, podendo demorar mais de 200 anos para decomporem-se (Athie, 2022).As consequências são catastróficas, sendo necessário alterar a forma de consumo e produção. Através do conceito de sustentabilidade encoraja-se a inovação para desenvolver produtos, soluções e serviços para satisfazer as necessidades da geração atual sem influenciar negativamente o campo social, económico e ambiental, garantindo assim um futuro próspero para gerações vindouras (Henninger et al., 2020). O designer, como um profissional essencial no sistema da moda, pode auxiliar na transformação e tem grande influência na criação do produto e num impacto ambiental mais positivo (Claxton & Kent, 2020). Os designers são os responsáveis pela seleção dos materiais e pela criação do produto, podendo criar vestuário que seja destinado para tendências de curta duração ou dar-lhe um significado e uma funcionalidade que em pouco ou nada se relacione com as tendências, criando artigos duradouros. Nesta profissão existe um grande poder para criar produtos pensando na circularidade, funcionalidade, durabilidade e no seu impacto nas diferentes fases do ciclo de vida (Claxton & Kent, 2020). Posto isto, atualmente o designer já não pode responder só ao briefing, terá de ter valores e conhecimentos ao nível da sustentabilidade, do ciclo de vida e das ferramentas disponíveis para o ajudar nesse processo. Só assim irá oferecer um produto que responda às necessidades do cliente de forma positiva em todos os âmbitos e que no futuro não vá afetar negativamente o meio envolvente (Claxton & Kent, 2020). 2.6.1 Design sustentável e a economia circular Como referido anteriormente, o caminho que a indústria está a percorrer, caso não se altere, terá um final desastroso e tendo em conta as consequências que já se vão manifestando, tanto as empresas como os consumidores estão a aperceber-se do cenário negativo e de todo o impacto que o sistema linear traz. Esforços começam a ser feitos para tentar contornar os problemas e começam a aparecer no mercado produtos têxteis que se intitulam sustentáveis. Apesar de ser uma melhoria, a maioria das tentativas das empresas por serem sustentáveis baseiam-se apenas em reduzir ou minimizar o impacto, mantendo o sistema linear, mas oferecendo produtos feitos de matérias sustentáveis ou com pequenas alterações nos processos de produção (Foundation Ellen Macarthur, 2017). Para gerar mudanças verdadeiras é necessário pensar em toda a cadeia de valor, alterar todo o processo e produtos e não apenas reduzir impactos ambientais. Para isto é importante reconhecer o 25 conceito de design sustentável e circularidade e de que forma podem estar relacionados com o objetivo de trazer impactos positivos. Design sustentável e economia circular não significam o mesmo. O design sustentável é uma prática de design que se baseia numa visão holística dos três campos da sustentabilidade, ambiente, sociedade e economia. Através do design sustentável consegue-se criar produtos/serviços que sejam funcionais, mas que combinem características como a qualidade, o tempo de vida, o preço e o seu impacto ambiental, pensando sempre nas mesmas ao longo do ciclo de vida (Shaharuddin & Hatef Jalil, 2021). Por sua vez, a economia circular foca-se em melhorias ambientais criando um ciclo fechado onde os recursos devem permanecer sempre em uso. Para isto ser possível, todo o ciclo de vida de criação de um produto é analisado com o intuito de que no fim não resulte em descarte (Foundation Ellen Macarthur, 2017). Este conceito apoia-se em três princípios: projetar de forma a não gerar resíduos nem poluição; manter os produtos, materiais e recursos em uso contínuo; e regenerar sistemas naturais (Foundation Ellen Macarthur, 2017). O objetivo é usar recursos renováveis, sem poluir o ambiente (Foundation Ellen Macarthur, 2017), mantendo em uso os produtos aproveitando o máximo do seu valor durante a vida útil e após serem usados, reaproveitá-los ou reciclá-los de forma a entrarem novamente na economia, nunca resultando em lixo (Claxton & Kent, 2020). Para manter os recursos num ciclo fechado a economia circular divide-se em dois ciclos, o técnico e o biológico. No ciclo técnico a recuperação é feita através de estratégias de circularidade, como a reparação, a reciclagem e a reutilização. No ciclo biológico, a recuperação apoia-se no ciclo que acontece na natureza, ou seja, os materiais são de base biológica e criados para “realimentar o sistema” através de processos como a compostagem (Foundation Ellen Macarthur, 2017). Estes ciclos podem ser ilustrados pelo diagrama de borboleta representado na Figura 6. 26 Os benefícios de usar o design aliado à economia circular como uma estratégia sustentável podem ser muitos. Ambientalmente e socialmente, incluem a redução do consumo de fibras virgens, de energia, de resíduos instalados no meio ambiente e das emissões de CO2 e a eliminação da utilização de produtos tóxicos e nocivos á saúde, o que reduz reações alérgicas e melhora a qualidade dos postos de trabalho (Foundation Ellen Macarthur, 2017). O design sustentável pode então usar positivamente a economia circular, analisando o ciclo dos produtos desde a seleção das matérias-primas até a sua duração de vida e o seu reaproveitamento (Claxton & Kent, 2020). Projetar para a circularidade pode ser uma ferramenta para atingir os objetivos de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas, como por exemplo a ODS 12 que aborda a “produção e consumo sustentáveis por meio do uso reduzido e gestão eficiente de bens e recursos naturais” (Abdelmeguid et al., 2022). 2.6.2 Cradle-to-cradle na economia circular As origens do conceito da economia circular encontram-se nos princípios de cradle-to-cradle , fornecendo-lhe as suas bases de criação de produtos que funcionem num ciclo. Figura 6 – Diagrama de borboleta segundo a fundação de Ellen Macarthur (Ellen Macarthur Foundation, 2019) 33 • Quando o material que resulta do processo de reciclagem se torna num produto de menor valor ou qualidade, classifica-se como um artigo resultante de downcycling . Quando se consegue gerar um produto com valor equivalente, então o processo foi de upcycling (Sandin & Peters, 2018). É de extremo interesse esta classificação da reciclagem como upcycling ou downcycling , tendo em conta que atualmente a maioria dos resíduos resultam em produtos de downcycling , transformando-se em trapos, enchimentos e materiais de isolamento. Para além disso, na maioria dos casos, a reciclagem de fibra é também considerada downcycling, visto que durante os processos de reciclagem o seu comprimento e qualidade são afetados, resultando em fibras de qualidade inferior (Sandin & Peters, 2018). Por outro lado, o upcycling é um método de reciclagem muito interessante do ponto de vista de design, visto que através deste os resíduos têxteis podem ser alterados, tornando-se num novo produto (Claxton & Kent, 2020). De um modo geral este método é utilizado em pequena escala devido às suas peculiaridades. Ou seja, como os novos produtos são realizados com material de pré ou pós consumo que podem variar de tamanho, cor e forma, os produtos finais nunca vão ser exatamente iguais, como requerido atualmente para a produção em grande escala. Por este motivo o processo de design através de upcycling requer o conhecimento das características dos resíduos, assim como as quantidades disponíveis, alto conhecimento de processo de criação de vestuário, inovação e criatividade (Aus et al., 2021). 2.7.5 Design para a desmontagem Até ao momento, a maioria dos produtos de vestuário são criados pensando só na estética e necessidade, não estando incluídos fatores pós uso. Por este motivo muitas roupas são diretamente descartadas visto que demorariam demasiado tempo a ser desmontadas utilizando muitos recursos e o custo desse processo seria elevado, tornando-se impossível reaproveitar essa peça através de processos como a reciclagem (Dissanayake & Weerasinghe, 2021). Através do design para a desmontagem, criam-se produtos que consideram o fim de vida e o desgaste, podendo ser facilmente desconstruídos. Os produtos tornam-se assim, facilmente reutilizáveis ou recicláveis. As vantagens são imensas e entre elas estão: simplificação do processo de desconstrução, que atualmente trata-se de cortar linhas e pequenas peças de forma manual; redução de tempos e 34 custos; recuperação de materiais que ainda estão bons para uso ou a simples substituição de componentes que estão degradados, dando assim uma nova vida à peça. Apesar de parecer simples, o processo de design de um produto desmontável envolve a seleção de materiais que sejam apropriados e o design e arquitetura de componentes para criar métodos de fácil desconstrução (Dissanayake & Weerasinghe, 2021). 2.7.6 Zero-waste Design para o zero-waste na moda, refere-se a uma prática de desenvolvimento de produto onde, durante o processo de criação haverá pouco ou, numa visão ideal, nenhum desperdício de material (Jafar Pingki et al., 2017). O objetivo é reduzir os impactos ambientais durante o processo de produção de vestuário (Claxton & Kent, 2020), eliminando o desperdício desde a fase inicial de desenvolvimento criativo do desenho (Italiano et al., 2022). Para este processo de design existem diversas metodologias que podem ser adotadas. Numa fase inicial é muito importante pensar em qual peça irá ser desenvolvida e com um pensamento criativo, achar a solução ideal para a mesma não ter desperdício. Para isto existem algumas soluções e técnicas que passam pelo drapeado para dar forma ao vestuário sem ter de fazer cortes desnecessários, tricotar a peça sem costuras e cortes, ou criar moldes de vestuário que garantam a eliminação do desperdício (Jafar Pingki et al., 2017). Esta última técnica, criação de moldes sem desperdício, implica que, o processo de modelação já seja pensado durante o design do artigo, o que não acontece no desenvolvimento de design tradicional onde a fase de modelação só é pensada após o design estar realizado. É dever do designer enquanto cria o produto pensar de que forma o mesmo pode não gerar resíduos e, caso seja inevitável pequenos desperdícios resultantes do corte de material, o mesmo deve ser integrado na peça de vestuário de forma criativa (Italiano et al., 2022). 2.7.7 Transformar produtos em serviços A moda rápida e a complexidade das necessidades e desejos do consumidor aumentaram o consumo de vestuário a um nível insustentável e problemático, sendo necessárias alternativas que diminuam a necessidade de produção de novos produtos e a poluição. Por este motivo transformar os produtos em serviços pode ser útil numa nova economia têxtil. 35 Os serviços são uma oportunidade de negócio importante e que pode trazer inúmeras vantagens consoante os diferentes modelos de venda, como aluguer, a subscrição, serviços de personalização e revenda. Utilizar o aluguer como modelo de venda pode conquistar os consumidores que pretendem roupas para ocasiões especiais ou para um curto período. Já os serviços de subscrição, onde o cliente paga por um serviço de aluguer mensal onde pode receber em casa um determinado número de peças, permite ao consumidor ter o guarda-roupa atualizado mensalmente sem acumular todas as peças que já usou, podendo assim acompanhar as novas tendências. Para além disto a subscrição traz vantagens para as marcas visto que é uma oportunidade para criar laços e relações fortes e duradouras com o consumidor. Para os compradores que acumulam constantemente vestuário e que pretendem estar em constante mudança, a revenda pode ser uma solução para diminuir a produção de novas roupas e consequentemente diminuir a utilização de recursos e materiais. Através deste serviço o consumidor pode vender os produtos que já não usa e comprar o de outras pessoas, havendo assim uma circulação de produto e o aumento do uso do valor do vestuário (Foundation Ellen Macarthur, 2017). 2.8 Metodologias para desenvolvimento de produto sustentável e circular Utilizar metodologias garante ao designer uma boa preparação e uma perspetiva completa sobre os processos necessários, levando a um bom resultado no desenvolvimento de produtos. Diversos autores criaram metodologias que guiam o desenvolvimento e geração de novos produtos, servindo como um mapa de ações, ou roteiro. Por norma cada metodologia vai explorar diferentes especificidades, podendo o designer escolher aquela que melhor se enquadra no seu projeto. O ideal é que seja flexível para que o designer possa ir ajustando á sua realidade, pois cada projeto tem as suas características próprias (Scomazzon, 2019). O British Design Council propôs uma metodologia de design, denominada “Inovation framework”, apresentada na Figura 8, que engloba o conhecido “Double Diamond” e que inclui não só o processo de design como princípios-chave e métodos a adotar. Neste método o processo de exploração começa por ser mais divergente para de seguida tornar-se convergente e divide-se em quatro subprocessos (Design Council, n.d.): • Descobrir – compreender e explorar a problemática, identificando as necessidades do projeto; 36 • Definir – exploração dos dados obtidos no primeiro processo e análise para filtrar quais são importantes para o desenvolvimento da solução; • Desenvolver – trata-se da fase de desenvolvimento do produto, onde há uma busca por alternativas e soluções ao problema é a fase onde acontece o design de esboços e protótipos; • Entregar – testar as soluções rejeitando aquelas que não funcionam e chegando a uma solução que vai ser entregue ao utilizador. Esta é uma simples e eficaz framework para a geração de novos produtos, porém não foi pensado especificamente para o auxílio na criação de produtos circulares. Sendo o objetivo deste projeto um produto que funcione numa economia circular, é importante complementar com a utilização de uma metodologia que tenha este fator como objetivo primordial. O método proposto no “Circular Design Guide” de Ellen MacArthur Foundation (The Circular Design Guide, n.d.) foi criado com o objetivo de ajudar os stakeholders no desenvolvimento e redesign de produtos para funcionarem circularmente. O método tem como base a abordagem do design thinking e permite explorar formas de criar valor sustentável, resiliente e duradouro. Para isto, o método propõe quatro fases: entender, definir, fazer e lançar (The Circular Design Guide, n.d.). Figura 8 – Inovation framework do British design Council (Design Council, n.d.) 37 O ponto de partida é claro, a existência de um problema para resolver. Cada fase da metodologia Circular Design Guide tem 6 técnicas/processos, para que o designer possa escolher as ferramentas que serão mais compatíveis com a sua problemática (The Circular Design Guide, n.d.). A primeira etapa “entender” permite perceber que soluções de design circular existem e como se pode mudar do pensamento linear para o circular. As técnicas/processos propostas para esta etapa são (The Circular Design Guide, n.d.): • Entender os fluxos circulares – permite perceber de que forma um produto ou serviço se pode tornar circular, disponibilizando uma grelha que permite perceber que posição o produto integra atualmente (caso seja um produto existente) e qual ciclo pode alcançar; • Pensamento regenerativo – esta técnica permite criar valor para todos os incluídos no ecossistema, como funcionários e parceiros; • Transformação em serviço – uma grelha que permite analisar se um produto pode ser repensado para um serviço; • De dentro para fora – esta técnica serve para perceber os produtos. Através da sua desmontagem pode-se perceber diversas questões, como dificuldades na separação e recuperação de peças; • Inspiração em sistemas digitais – nesta técnica são observadas as características dos sistemas digitais para servirem como inspiração para projetos circulares; • Aprender a partir da natureza – em semelhança com a anterior esta técnica também se baseia na observação e inspiração, porém desta vez na natureza. Na etapa “definir” o objetivo é explorar e estabelecer objetivos do projeto e para isto o método propõe 6 técnicas/processos (The Circular Design Guide, n.d.): • Definir o desafio – esta técnica auxilia a definir o problema a ser solucionado, bem como os objetivos e o impacto esperado e quais as ações a tomar para chegar ao resultado; • Encontrar oportunidades circulares – trata-se de uma grelha que permite identificar oportunidades para projetar para a circularidade; • Construir equipas –formar uma equipa multidisciplinar para a otimização do projeto; • Compra circular – esta técnica é usada para mapear os stakeholders para entender as suas perspetivas e fazê-los sentirem-se entusiasmados com o objetivo; • Modelo de negócio circular – técnica para redesenhar um modelo de negócio através de uma perspetiva circular; 38 • Criar compromisso de marca – Reforçar o propósito da marca em volta da circularidade. Após entender as necessidades do utilizador e ter os objetivos estabelecidos, passa-se para a terceira etapa, “fazer”, onde se desenvolve ideias, seleciona-se conceitos e constrói-se protótipos para testá-los. Esta etapa inclui as seguintes técnicas/processos (The Circular Design Guide, n.d.): • Pesquisa centrada no utilizador – compreender as necessidades dos envolvidos no ciclo de utilização; • Brainstorming circular – exploração de ideias sem filtros tendo em conta os princípios da circularidade; • Incorporar mecanismos de feedback – a inclusão de mecanismos de feedback antes que o produto seja lançado permite uma contínua monitorização da opinião dos clientes em relação ao produto/serviço; • Escolhas inteligentes de materiais – esta ferramenta permite auxiliar na escolha dos materiais e perceber o seu impacto no sistema; • Seleção de conceito – selecionar qual o melhor conceito para prosseguir; • Prototipagem rápida – tem o intuito de construir um protótipo para testar a sua funcionalidade. Por fim a etapa “lançar”, onde acontece a colocação do produto/serviço no mercado, obtendo continuamente o feedback para a evolução e melhoria (The Circular Design Guide, n.d.): • Mapeamento da jornada de produto – a circularidade significa que um produto nunca terá verdadeiramente um fim na sua vida útil, assumindo sempre uma nova forma. Mapear a sua vida permite que o produto continue útil num maior espaço de tempo; • Lançar para aprender – Lançar um produto num período piloto permite que se possa testar os resultados e a forma como se relacionam com os objetivos previstos; • Imaginar novas parcerias – Pensar em novas parcerias auxilia a fortalecer a cadeia de valor e aumenta a eficácia; • Criar narrativa – Uma história envolvente e emocional faz as pessoas sentirem-se ligadas ao produto; • Alinhar a organização – É importante que toda a empresa esteja organizada no objetivo e por isso a empresa deve ser preparada para receber a circularidade; • Loops de aprendizagem contínua - Analisar o feedback permite melhorar continuamente o produto e fazê-lo evoluir. 39 3. Desenvolvimento do projeto Este capítulo retrata todo o desenvolvimento prático do projeto até à obtenção do produto final, seguindo uma metodologia que auxilia a manter o pensamento circular e sustentável em todas as fases. 3.1 Metodologia e organização das etapas Para o desenvolvimento prático será adotada uma metodologia baseada na Fundação Ellen Macarthur, “The Circular Design Guide” (The Circular Design Guide, n.d.), sustentando o pensamento com algumas grelhas e técnicas existentes neste método. Como referido anteriormente esta é uma metodologia que inclui um conjunto de etapas e ferramentas adaptáveis a cada desenvolvimento/redesign de produto, porém que permite seguir uma linha de pensamento circular ao longo de todo o processo criativo. Tendo como base a otimização de vestuário de bebé, foi feita uma seleção de cada processo a executar nas quatro etapas existentes, entender, definir, fazer e lançar, assim como demonstrado na tabela 3, porém também houve a necessidade de adicionar alguns processos que não estavam descritos no método do “The Circular Design Guide”, como a definição da inspiração e cores. Tabela 3 – Metodologia e fases adotadas no desenvolvimento do projeto METODOLOGIA PARA DESENVOLVIMENTO DE PRODUTO SUSTENTÁVEL E CIRCULAR 1ª FASE - ENTENDER Análise de marcas Análise de produtos de marcas em Portugal que já oferecem produtos circulares. Brainstorming circular Nesta etapa, com o auxílio da grelha disponibilizada pela Fundação Ellen Macarthur, será realizado um brainstorm onde se vai identificar a posição atual do produto no ciclo, qual dos loops do diagrama de borboleta o produto poderia integrar e qual seria mais alcançável. De dentro para fora Serão identificados alguns produtos comuns de vestuário de bebé para serem desmontados e analisados. 40 Serão também respondidas algumas questões sobre a sustentabilidade, circularidade e o que pode ser feito para otimizar funcionalmente o produto 2ª FASE - DEFINIR Desafio Será definido com exatidão o utilizador e os envolvidos na escolha pelo produto. Seguidamente irá definir-se o objetivo e todos os requisitos. Inspiração Definição de uma inspiração estética e storytelling. 3ª FASE - PROJETAR Geração de ideias Fase de geração de esboços e ideias para soluções do produto. Seleção da solução Seleção da melhor solução dentro dos vários sketchs através de matriz de critérios. Seleção de materiais Nesta etapa os processos serão: • Listagem de materiais necessários; • Identificação dos requisitos dos materiais; Rápida prototipagem Prototipagem rápida. Produto final Apresentação com detalhes do resultado do produto final após todas as fases anteriores que permitiram correções no produto. Sketchs criativos Fase criativa de geração de esboços para a parte estética da coleção. Coleção final Apresentação da coleção unindo a parte técnica e estética e todo p conceito por detrás. 4ª FASE - LANÇAR Mapeamento da jornada de produto Estudo e análise dos ciclos previstos do produto. Como referido o desenvolvimento seguiu quatro fases de forma a resultar num processo lógico, pensado e com um fio condutor. O objetivo é o redesign de um produto existente com foco na sua melhoria. 41 3.2 Primeira fase – Entender Na primeira fase foram analisadas algumas marcas, seguindo-se um brainstorming inicial e por fim, foram desconstruídos alguns artigos com foco em perceber a sua construção. 3.2.1 Análise de marcas de vestuário infantil No seguimento do trabalho realizar-se-á um pequeno estudo e análise de algumas marcas em Portugal que vendem vestuário na faixa etária pretendida e que já oferecem produtos sustentáveis. Este estudo tem o objetivo de analisar os seguintes tópicos: • Tipologia e características dos produtos; • Perceber o que já é vendido e trabalhado de forma sustentável em Portugal; • Materiais utilizados. Para selecionar o grupo de marcas a ser analisadas foi realizada uma pesquisa no google através de uma nova janela privada. Após visitar alguns sites foi encontrado o site, "Time Out Lisboa" ( Time Out Lisboa , n.d.) que aborda interessantes marcas portuguesas que trabalham vestuário infantil e até mesmo brinquedos e puericultura de forma sustentável. Apesar deste site abordar marcas que trabalham outras tipologias como a puericultura e os brinquedos, apenas era de interesse as marcas que produzissem vestuário, pelo que foram sintetizadas na tabela 4. Tabela 4 – Listagem de marcas infantis sustentáveis " Time Out Lisboa: Marcas infantis sustentáveis para pequenos amigos do planeta" (Moura & Silva, 2020) Marca Descrição "Hey Soleil" Site: https://heysoleil.com/ Artigos para bebé e criança em algodão orgânico. "Tailor by Maria do Mar" Site: https://mariadomarshop.com/ É uma concept store , que une várias marcas sustentáveis. "Tigers At Play" Site: https://www.tigersatplay.com/ Roupa para crianças produzida em Portugal em pequenas quantidades. "Pecegueiro & F.os" Site: https://www.pecegueiro.com/ Trabalha com parceiros locais e tecidos de fibras naturais. 42 "Playup" Site: https://www.playupstore.com/pt/ Produção e design em Portugal, com vestuário feito em algodão orgânico e preocupação com a pele dos bebés. "Le Petit Chiffon" Site: https://www.lepetitchiffon.pt/ Marca que alia o conforto e a sustentabilidade. Roupa feita com algodão biológico e algumas de bambu. "One of Us" Site: https://oneofus.pt/ Peças em algodão orgânico ou com tecidos de excedentes. "Gloop" Site: https://gloopbaby.com/ Vestuário feito de algodão orgânico e estampados com tintas à base de água. "Cherry Papaya" Site: https://cherrypapaya.com/ Roupas divertidas para crianças. A marca usa algodão orgânico em algumas das suas peças. "NaturaPura" Site: https://naturapura.com/ A marca produz roupa em algodão biológico sem tingimentos. "Piupia" Não foi possível encontrar o site pessoal. Roupas produzidas de forma ética e sustentável "Grace Baby and Child" Site: https://gracebabyandchild.com/ Coleções produzidas em Portugal em pequenas quantidades. De seguida realizou-se uma rápida pesquisa no site de cada marca e procedeu-se à seleção de quatro marcas para explorar mais a fundo. Para esta seleção observou-se quais marcas eram mais ativas (pelo que se notou que algumas já não têm os seus sites ativos ou então têm poucos produtos), quais se enquadravam melhor na faixa etária pretendida, no caso dos 0 aos 24 meses e por fim se realmente tinham características de sustentabilidade e circularidade. Tendo isto em conta chegou-se á seleção das quatro marcas apresentadas na tabela 5. 49 Deste estudo resultaram algumas ideias que poderiam auxiliar o produto a prolongar o seu tempo de uso tais como: • Aumentar o tempo de uso criando um produto multifuncional e que aumente de tamanho; • Design emocional nas peças através de frases positivas; • Conseguir que o produto se transforme noutro com utilidade; • Conseguir reparar facilmente o produto; • Usar apenas um material têxtil para poder ser reciclado. Todas estas características são ideias que podem auxiliar o desenvolvimento do produto. Figura 14 – Brainstorming do ciclo técnico 50 3.2.3 De dentro para fora Para otimizar um produto é importante conhecê-lo a 100%, de que é feito, como é feito, quantas peças integra e como pode ser desfeito. Assim sendo, procedeu-se á desmontagem de uma gama de artigos de bebé, com o objetivo de entender os produtos. Ao realizar a desmontagem, foi importante reconhecer os seguintes tópicos: • Tipo de material; • Se os componentes podem ser recuperados, substituídos ou reutilizados; • Se a desmontagem é viável; • Se os artigos são fáceis de vestir/despir; • Como podem ser otimizados. Estes tópicos vão ajudar a perceber detalhes importantes para ter em conta durante o processo de design e escolha de matéria-prima, de forma a ter sempre presente as melhorias necessárias e que tipos de costuras e acabamentos são usados. Foram então selecionadas 4 peças de vestuário, que iam ser descartadas, todas com tipologias diferentes: um body estilo americano, um babygrow , umas calças e um body envelope. Estes artigos foram desmontados e os seus elementos fotografados como se verifica nas Figura 15Figura 16, 17, 18. Enquanto se procedia à desmontagem, foram construídas as tabelas 6, 7, 8 e 9 com as informações necessárias de cada peça de vestuário e os painéis das imagens das peças desconstruídas. Figura 15 – Desconstrução do body estilo americano 51 Tabela 6 – Análise do body estilo americano Artigo: body estilo americano Tipologia têxtil: malha Composição têxtil: 100% algodão Peças e componentes: 1. Painel frontal em malha jersey; 2. Quatro peças de malha rib 2x1 para acabamento na gola e no entre pernas; 3. Molas de 0,8 cm de metal no entre pernas; 4. Dois painéis de manga em malha jersey; 5. Painel costas em malha jersey; 6. Linhas; 7. Etiqueta com composição, informações legais e recomendações de lavagem. Modo de vestir/despir: As molas no entre pernas facilitam a muda de fralda sem ter de despir. A modelação nos ombros permite vestir facilmente por baixo, visto que garante uma boa abertura sem o uso de botões ou molas. Os componentes poderiam ser recuperados, substituídos ou reutilizados? Tanto as molas como as fitas de malha rib podem ser substituídas caso fiquem danificadas. As componentes têxteis podem ser reutilizadas e recuperadas para outros fins, através de upcycling. A desmontagem é viável? A desmontagem não teve um grau de dificuldade muito elevado visto que foi só desmanchar costuras e remover as molas. Porém a remoção das costuras é um procedimento minucioso caso não se queira prejudicar a integridade do material têxtil e que ainda demora algum tempo. Otimizar: Pode-se aumentar o ajuste no entre pernas para aumentar os tamanhos. 52 Tabela 7 – Análise do babygrow Artigo: babygrow Tipologia têxtil: malha Composição têxtil: 100% algodão Peças e componentes: 1. Dois painéis frontais em malha jersey; 2. Painel costas em malha jersey com elástico de fita costurado na zona do tornozelo; 3. Painel de meia-lua no entre pernas em malha jersey; 4. Painel para molas à volta do entre pernas (costas) em malha jersey; 5. Quatro painéis para os pés (dois para cada) em malha jersey; 6. Dois reforços de costura nos ombros em malha jersey; 7. Dois painéis de manga em malha jersey; 8. Painel de malha rib para o acabamento na gola; 9. Linhas; 10. Etiqueta com composição, informações legais e recomendações de lavagem; 11. Molas de 0,8 cm de metal; Figura 16 – Desconstrução babygrow 53 Modo de vestir/despir: As molas em toda a frente e no entre pernas permitem uma abertura total tornando o processo de vestir mais fácil. Os componentes poderiam ser recuperados, substituídos ou reutilizados? Apesar das molas poderem ser substituídas (caso estejam danificadas), como ficam diretamente presas ao material têxtil principal a sua remoção pode danificar o mesmo. As componentes têxteis podem ser reutilizadas e recuperadas para outros fins, através de upcycling. A desmontagem é viável? A desmontagem não teve um grau de dificuldade muito elevado visto que foi só desmanchar costuras e remover as molas. Porém a remoção das costuras é um procedimento minucioso caso não se queira prejudicar a integridade do material têxtil e que ainda demora algum tempo. Otimizar: O artigo não permite um ajuste de tamanho, o que poderá ser importante. Para além disso pode-se tentar não danificar tanto o material têxtil para que possa ser recuperado. Figura 17 – Desconstrução das calças 54 Tabela 8 – Análise das calças Artigo: calças com pé Tipologia têxtil: malha Composição têxtil: 100% algodão Peças e componentes: 1. Painel da cintura em malha rib 1x1; 2. Quatro painéis de pernas em malha jersey; 3. Quatro painéis para os pés em malha jersey; 4. Linhas; 5. Etiqueta com composição, informações legais e recomendações de lavagem. Modo de vestir/despir: Veste sem aberturas, através da cintura em malha rib que se torna suficientemente elástica. A malha rib na cintura é dupla para aumentar o conforto. Os componentes poderiam ser recuperados, substituídos ou reutilizados? As componentes têxteis podem ser reutilizadas e recuperadas para outros fins, através de upcycling. A desmontagem é viável? A desmontagem não teve um grau de dificuldade muito elevado visto que foi só desmanchar costuras. Porém a remoção das costuras é um procedimento minucioso caso não se queira prejudicar a integridade do material têxtil e que ainda demora algum tempo. Otimizar: Estas calças são um artigo simples, pelo que a sua otimização pode passar pela melhoria dos materiais e pela tentativa de servir durante mais tempo, através de simples ajustes de tamanho. 55 Tabela 9 – Análise body envelope Artigo: body envelope Tipologia têxtil: malha Composição têxtil: 100% algodão Peças e componentes: 1. Dois painéis frontais em malha jersey; 2. Um painel costas em malha jersey; 3. Dois painéis de manga em malha jersey; 4. Painel de malha rib para acabamento; 5. linhas 6. Molas 7. Etiqueta com composição, informações legais e recomendações de lavagem. Modo de vestir/despir: Consegue abertura total através das molas e do seu formato cruzado. Os componentes poderiam ser recuperados, substituídos ou reutilizados? As componentes têxteis podem ser reutilizadas e recuperadas para outros fins, através de upcycling. As molas e o painel de malha rib podem ser substituídos caso estejam danificados. Figura 18 – Desconstrução body envelope 56 A desmontagem é viável? A desmontagem não teve um grau de dificuldade muito elevado visto que foi só desmanchar costuras. Porém a remoção das costuras é um procedimento minucioso caso não se queira prejudicar a integridade do material têxtil e que ainda demora algum tempo. Otimizar: O artigo não permite um ajuste de tamanho, o que poderá ser algo a rever. Ao analisar estes artigos, conseguiu-se perceber que a malha é a estrutura têxtil comum entre os quatro artigos, pois tendo em conta a tipologia dos mesmos, confere algum conforto e elasticidade permitindo maior liberdade nos movimentos. Conseguiu-se concluir que as componentes têxteis podem ser recuperadas e reutilizadas para outros fins, utilizando técnicas como upcycling, enquanto ainda estiverem em bom estado. Como já era de esperar, estas peças têm todas apenas uma utilidade e não permitem grande ajuste ao rápido crescimento o que as faz ser rapidamente descartadas. Ao realizar a desmontagem as costuras continuam a ser a maior dificuldade, visto que para separar os painéis é necessário remover as costuras, o que se torna minucioso para que não se destrua mais o material têxtil. As molas são também muito usadas pela sua facilidade no vestir/despir, o que é importantíssimo devido às muitas trocas de fralda, porém é importante certificar que as molas não tenham componentes alergénicos e prejudiciais, como níquel e que não estejam diretamente em contacto com a pele. 57 3.3 Segunda fase – Definir A segunda fase foca-se em especificar e delinear o desafio, com todos os seus requisitos e em definir toda a inspiração estética. 3.3.1 Público-alvo Estudar os consumidores auxilia os profissionais a criar produtos que sejam compatíveis com os mesmos (Lee, 2023). Os produtos devem incluir atributos que espelhem as características do consumidor, tais como os seus valores e experiências (Frederico et al., 2008), garantindo assim uma excelente conexão com o público-alvo (Lee, 2023). É então importante reconhecer para qual público o produto é orientado e compreender as suas escolhas e estilo de vida (Frederico et al., 2008). Identifica-se o público-alvo como sendo mães e/ou pais com bebés entre os 0 e os 24 meses. Neste caso é importante ter como público o bebé pelas suas características e requisitos para os quais o produto foi pensado, porém também é de extrema importância os pais como sendo os compradores e os que têm o comportamento de escolha, pelo que é o estilo de vida e atitudes dos mesmos que influenciam a compra. Considera-se então como público-alvo a família de mães, pais e os seus bebés dos 0 aos 24 meses. Estas famílias são europeias e têm um estilo de consumo ético, considerando os interesses da sociedade e do ambiente que o rodeia para além dos seus próprios interesses (Lee, 2023), tendo um estilo de vida que se enquadra no estilo L.O.H.A.S., que é um acrónimo para “ lifestyle of health and sustainabilty”. Este modo de viver baseia-se na saúde e sustentabilidade (Choi & Feinberg, 2021). Para este público a saúde e o bem-estar pessoal e principalmente dos seus filhos é de extrema importância, pelo que optam por produtos naturais ou orgânicos para cuidar dos seus pequeninos, pois a saúde e segurança está sempre em primeiro lugar. Estas mães e pais exploram serviços de saúde alternativos, como a acupuntura, mas não negam a medicina convencional. Para além disto, optam sempre por comprar alimentos saudáveis e têm uma grande preocupação em fazer uma boa introdução alimentar aos seus bebés, para que estes possam ter uma boa alimentação o que irá refletir na saúde da criança. Optam sempre por produtos que não sejam tão nocivos e que necessitem de menos energia, comprando os alimentos para a sua família em produtores locais ou biológicos. Para conseguirem obter informações sobre alimentação gostam de comunicar com o seu círculo de amigos (Choi & Feinberg, 2021). 58 Nos seus tempos livres praticam atividades como o yoga e a meditação, para poderem cuidar do seu corpo e mente (Choi & Feinberg, 2021). Gostam de passar muito tempo com os seus filhos e realizar atividades com os mesmos que permitam um bom momento em família e o contacto com a natureza, como piqueniques e passeios em parques. Levando um estilo de vida menos tradicional e mais prático, as suas escolhas a nível de vestuário para os filhos refletem estas características. Optam por roupas mais funcionais, duradouras que respeitam a saúde e o corpo do seu bebé e que ao mesmo tempo sejam sustentáveis, ou ecologicamente corretas. Como já referido este público-alvo tem uma grande consciência ambiental, pelo que todos os seus comportamentos de compra envolvem este fator. O impacto ambiental do que vestem é importante durante todo o ciclo de vida, considerando a forma de produção, como é consumido e eliminado (Choi & Feinberg, 2021). É importante para estes pais e/ou mães assegurar um bom e seguro futuro para os seus bebés e por este motivo o que vestem e consomem não deve prejudicar esse futuro. Pode ver-se o público-alvo representado na Figura 19. Figura 19 – Painel público-alvo 65 Figura 24 – Sketchs de ideias 3 66 Figura 25 – Sketchs de ideias 4 67 3.4.2 Seleção de soluções através de matriz de critérios No final do processo de geração de ideias convergiu-se e uniu-se alguns esboços chegando a três opções de soluções. A solução número 1, representada na Figura 26, trata-se de um body que consegue ser extensível através de costuras elásticas em zonas estratégicas. No entre pernas tem três níveis de ajuste através de molas. As mangas são ajustáveis através de uma peça costurada que desdobra. A Figura 27 é a solução número 2, um body que ajusta a largura através de uma extensão que pode-se fechar ou abrir com molas de pressão. O entre pernas tem três linhas de botões para ajustar o comprimento. As mangas conseguem evoluir de tamanho através de um punho em malha rib que pode ser estendido. Figura 26 – Solução número 1 68 A solução número 3, ilustrada na Figura 28, é um conjunto de três peças modulares, um tapa fraldas, um body e uma camisola. Estas peças podem ser usadas separadamente com outros artigos de vestuário ou unidas transformando-se num body ou num babygrow . As peças são também extensíveis em largura e comprimento e reversíveis, para aumentar o seu uso. Figura 27 – Solução número 2 69 Após a identificação das soluções na fase de geração de ideias, realizou-se uma matriz representada na tabela 11, com todos os requisitos identificados a nível de design/forma do produto, estes requisitos serão os critérios. A finalidade foi chegar a uma solução final, e que essa seja a que melhor se integra no objetivo pretendido. Cada critério/requisito terá um score sendo que a totalidade da percentagem de todos os requisitos será 100%. Por outro lado, cada solução será avaliada com um rank de 1 a 5 em cada critério/requisito sendo o “1” a pior avaliação e o “5” a melhor. Este rank multiplicado pela percentagem deu um score . A solução com o total de score mais elevado foi a selecionada. O critério com maior peso, com 25%, foi o das normas de segurança, tendo em conta que este é um requisito que não pode ser posto em causa em nenhum momento, a segurança dos bebés e crianças está sempre acima de tudo. Segue-se a viabilidade e a durabilidade/longevidade. Estes dois critérios partilham a mesma percentagem 20% que, no caso da viabilidade foi alocada devido a ser muito importante que o produto tenha viabilidade técnica e possa ser produzível e vestível. Já a durabilidade/longevidade tem esta percentagem de importância visto que o design para a longevidade foi a estratégia mais pensada para que o produto possa ser mais sustentável a nível de design. Na tabela Figura 28 – Solução número 3 70 segue-se a capacidade de movimentação livre e a sustentabilidade, com 15% cada um. Por fim, com 10%, o design indicado para bebé dos 0-24 meses, que apesar de ser importante, refere-se mais a uma questão de adequabilidade estética e não técnica como no caso da segurança. Tendo estas percentagens em conta foi então calculado o rank e score de cada critério para cada solução. No critério que se refere às normas de segurança todas as soluções obtiveram um rank 5 visto que, durante o processo de geração de ideias este era um critério que nunca foi esquecido e todas as soluções respeitam-no. A solução 3 recebeu o maior rank , entre as três soluções, para o critério da viabilidade. Com um rank de 4, o sketch desta solução parece o mais viável e mais facilmente reproduzível. Já a solução número 2, recebeu o mais baixo, um 2, isto porque as molas laterais teriam de ser muitas e esta forma de ajustar nas laterais com molas poderia não funcionar. Quanto á durabilidade, a solução número 3 recebeu um rank de 5, porque comparado com as outras soluções é a que aparenta melhor ajuste de tamanhos, o que vai tornar a peça mais durável, bem como a reversibilidade. Segue-se na tabela a liberdade de movimentos, onde a solução 3 voltou a receber o melhor rank e a solução 2 o pior. A solução número 3 não aparenta ter nada que possa impossibilitar os movimentos, pelo contrário, a aplicação do rib pode auxiliar nos mesmos por ter mais elasticidade. Quanto á solução 2 as molas aplicadas na lateral podem abrir com os movimentos tornando o mesmo mais desconfortável. No critério da sustentabilidade a solução número 3 foi a melhor, visto que inclui menos aviamentos, ou detalhes que possam estragar o material têxtil. Para além disso o facto de poder ficar maior tempo em utilização e até mesmo de diversas formas estende a vida útil do produto sem perda de valor ou sem gastar mais energia. Por fim, no último critério todas as soluções receberam o mesmo rank . Tendo isto em conta a solução selecionada foi a número 3 visto que obteve o score mais alto, como se pode verificar na tabela 11. 71 Tabela 11 – Matriz de critérios Critérios Importância Solução 1 Solução 2 Solução 3 Rank Score Rank Score Rank Score De acordo com as normas de segurança 25% 5 1,25% 5 1,25% 5 1,25% Viabilidade 20% 3 0,60% 2 0,40% 4 0,80 % Durabilidade/longevidade 20% 3 0,60% 3 0,60% 5 1,00% Permita movimentos livres 15% 4 0,60% 3 0,45% 5 0,75% Sustentável e que funcione num ciclo 15% 3 0,45% 3 0,45% 4 0,60% Design indicado para bebé dos 0-24 meses 10% 5 0,50% 5 0,50% 5 0,50% Total 100% 4,00% 3,70% 4,90% 1 – Não respeita; 2 – Respeita pouco; 3 – Respeita; 4 – Respeita muito; 5 – Respeita totalmente 72 3.4.3 Sketch selecionado Após a realização da tabela de seleção de esboços, identificou-se a solução número três como a vencedora. A solução número três, como já referido anteriormente é um conjunto de três peças, uma camisola, umas calças e um tapa-fraldas, que podem ser utilizados separados, ou unidos através de molas, formando um body e um babygrow . Para melhor visualização da solução desenhou-se a mesmo em vetor com os detalhes que a compõem, como se verifica na Figura 29. Figura 29 – Ilustração sketch selecionado 73 3.4.4 Seleção de materiais Não há vestuário sem os materiais têxteis e aviamentos. Quando unidos e modelados transformam-se em vestuário que interage com a pele, ganhando uma grande responsabilidade na sensação de conforto, segurança e proteção. No caso do vestuário de bebé, a maioria das roupas que estão em contacto com a pele do mesmo são feitas de algodão ou algodão orgânico, o que, como já vimos anteriormente não são a melhor escolha a nível ambiental. Apesar de serem um material que apresenta boas propriedades para as especificidades deste tipo de vestuário e utilizador o cultivo de algodão (mesmo sendo orgânico) e produção gastam enormes quantidades de campo e de solo que poderia estar a ser utilizado para a agricultura. O material têxtil usado nesta coleção deve atender aos requisitos propostos na tabela 12, bem como ser passível de viver numa economia circular sendo responsável ambientalmente. Tabela 12 – Requisitos para os materiais REQUISITOS DESCRIÇÃO Permita movimentos livres O material deve permitir a adaptação aos movimentos e ao corpo do bebé. Sem propriedades tóxicas, nocivas e alergénicos Os materiais devem ser livres de alergénios ou propriedades nocivas, protegendo a pele e a saúde do bebé. Conforto Sensorial O material não deve incomodar a pele, não deve ser áspero ou comprimir demais. Deve ser macio e flexível. Conforto termofisiológico O material deve permitir a pele respirar e ter propriedades de transferência de humidade, para que o bebé não fique em contacto com o suor e a baba, o que prejudicaria a sua pele. Resistência ao desgaste e durabilidade O material deve apresentar resistência para que não se desgaste rapidamente. 74 Sustentável e que funcione num ciclo fechado O material deve ser sustentável, tentando prejudicar sempre o menos possível o meio ambiente e permitir que o produto funcione numa economia circular. Tendo isto em conta, neste capítulo foi apresentada a fibra a utilizar na coleção, a sua caracterização e se corresponde positivamente aos requisitos necessários. Para além do material têxtil é identificado os aviamentos necessários para a produção do produto. 3.4.4.1 Material têxtil O material têxtil usado para a coleção deve ser de composição única, para facilitar a sua reciclagem e a fibra deve conter as mesmas propriedades ou melhores que o algodão, respeitando a saúde, a pele e segurança do bebé. Por estes motivos a fibra utilizada na coleção é a fibra de bambu que contém excelentes características técnicas e ambientais. A fibra de bambu faz parte do grupo de fibras celulósicas regeneradas, sendo o bambu um importante recurso de biomassa florestal (Prakash et al., 2013). O bambu é a planta lenhosa de maior crescimento, conseguindo amadurecer em 4 anos apenas com chuvas naturais, sem fertilizantes ou quaisquer outros químicos. As plantas de bambu garantem ainda um consumo eficiente de espaço e captação de carbono (Yoo et al., 2013), auxiliam na regeneração dos solos e pode ser apanhado sem que se danifique o meio ambiente, visto que após o corte ele regenerasse (Tum Cebeci, 2019). Esta é uma planta que pode ser aplicada no fabrico de inúmeros produtos. Um deles é a fibra ecológica de bambu, considerada um recurso que consegue ser renovável a curto prazo, apresentando assim vantagens quando analisada ao lado de outras fibras, como o caso do algodão (Yoo et al., 2013). A fibra de bambu é uma fibra celulósica regenerada (Das, 2007) que vem da polpa de uma espécie de bambu chamada “Moso” (Majumdar & Arora, 2015) e que pode ser produzida de diversas formas, sendo os processos ecológicos e sem o uso de químicos os mais interessantes e responsáveis, tendo em conta a sua finalidade de utilização. 81 Figura 32 – Desenho técnico para o protótipo das calças 82 3.4.5.2 Processo de criação dos moldes Após a realização da ficha técnica do protótipo, iniciou-se a criação dos moldes necessários, com o auxílio do livro “Le vêtement d’enfant” da ESMOD Editions (Wargnier, 2020a). A tabela de medidas e alargamentos usados também foram os indicados no livro e o tamanho usado para a criação dos moldes do protótipo foi o tamanho 6 meses, sendo que quando necessário usaram-se medidas do tamanho 18 meses para tornar o protótipo ajustável a este tamanho. Todos os moldes foram criados digitalmente, através da ferramenta Adobe Illustrator, reduzindo assim o consumo de papel. Para verificar se eram os moldes pretendidos, numa fase inicial modelou-se os modelos base sem as alterações necessárias para o design pretendido. O processo começou com o desenho do corpo base, como se verifica na Figura 33. De seguida criou-se os alargamentos necessários para criar uma camisola de malha, resultando no molde ilustrado na Figura 34. As medidas dos alargamentos são as indicadas no livro. Figura 33 – Processo de construção molde do corpo base 83 Com este molde base concluído, conseguiu-se dar início ao molde básico da camisola “estilo americano”, fazendo os ajustes necessários, como aumentar o comprimento e criar a sobreposição dos ombros, assim como se vê na Figura 35. Seguidamente criou-se uma manga “estilo kimono” que garante maior conforto. Como se pode verificar na Figura 36. Figura 34 – Alargamentos ao molde do corpo base Figura 35 – Processo criação do molde base da camisola “estilo americano” 84 Com o molde da camisola pronto iniciou-se o molde do tapa-fraldas, com um processo idêntico e seguindo as etapas apresentadas no livro, como se observa na Figura 37. Figura 36 – Processo criação da manga base no estilo “kimono” Figura 37 – Processo de criação do molde base do tapa fraldas 85 O mesmo foi realizado para as calças, resultando no molde da Figura 38. Com os moldes dos modelos base concluídos foi acrescentada margem de costura e transferidos para uma construção que permite imprimir os moldes em A4 e uni-los como um puzzle. Após unidos com fita cola recortou-se os moldes, como se verifica no painel da Figura 39. Figura 38 – Criação do molde base das calças Figura 39 – Painel de processo de montagem e recorte dos moldes base 86 Com os moldes prontos, marcou-se e recortou-se os mesmos numa malha e costurou-se para verificar se estavam corretos. Por indisponibilidade de máquina e como eram só um teste foram costurados numa máquina reta doméstica, com um ponto que imita a corte e cose. Todo este processo pode ser verificado no painel de imagens da Figura 40. Terminado o processo de teste dos moldes básicos procedeu-se então há modelação dos modelos pretendidos através de alterações aos moldes realizados anteriormente. Na camisola, começou-se por marcar a zona da malha rib nas laterais com 2 cm na frente e 2 cm nas costas, para que a camisola possa ajustar-se ao tamanho da circunferência abdominal. Seguidamente aumentou-se a terminação da camisola 2.5 cm e marcou-se 5 cm criando o cós de malha rib da camisola. O próximo passo foi a marcação das molas. Como se verifica na Figura 41. Figura 40 – Costura dos moldes dos modelos base 87 Na manga também se marcou a malha rib de 2 cm que fica situado ao longo da mesma na zona de união e o punho de malha rib com 5 cm após a terminação do tamanho normal da manga. Estas alterações permitem assim o ajuste de tamanho. Foram também marcados todos os picas necessários para a posterior costura dos moldes, tanto na manga como na camisola. Este processo está ilustrado na Figura 42. Após todas as marcações retirou-se cada molde para ser adicionada a margem de costura e as informações necessárias, como ilustrado na Figura 43. Figura 41 – Criação do molde da camisola para prototipagem Figura 42 – Criação do molde da manga para prototipagem 88 Figura 43 – Moldes da camisola para prototipagem com margem de costura 89 O molde que se seguiu foi o do tapa fraldas, sendo o processo semelhante ao anterior, com a marcação das zonas de malha rib e molas. Começou-se por marcar a zona de malha rib no cós frente e costas com 7 cm e seguidamente marcou-se a zona de molas e o reforço. Para dar acabamento na zona do cós decidiu-se que este molde seria refletido para poder ser dobrado. De seguida fez-se o aumento necessário para o ajuste de tamanho no entre pernas e marcou-se a zona das molas de pressão e o reforço. Por fim marcou-se a zona de malha rib das laterais com 2 cm de largura na frente e nas costas. Todo este processo está demonstrado na Figura 44. Por fim, marcou-se os picas e retirou-se cada molde para ser adicionada a margem de costura e informações necessárias, como se verifica na Figura 45. Figura 44 – Criação do molde do tapa-fraldas para prototipagem 90 Terminando esta etapa, como pode ser observado na Figura 46, realizou-se o molde das calças que há semelhança do tapa fraldas foi marcada uma zona de malha rib no cós com 7 cm, bem como a zona de aplicação das molas e reforço. Para dar acabamento na zona do cós, assim como no tapa fraldas, o molde foi refletido para poder ser dobrado. Delimitou-se a zona de malha rib das laterais frente e costas com 2 cm de largura. Na terminação criou-se um punho com 10 cm que permite ajustar a altura das calças. Figura 45 – Moldes 97 Para terminar o tapa-fraldas iniciou-se a construção do cós. Unindo-se os moldes através de costura e colocando todas as molas necessárias. O tapa fraldas contém duas camadas de cós com molas de pressão. Ao coser o mesmo, percebeu-se que não funcionaria desta forma e por isso não se uniu à restante peça, para ser possível de avaliação, como se verifica na Figura 54. Tendo este detalhe em conta iniciou-se a construção das calças. Há semelhança da peça anterior começou-se por unir a malha rib das laterais em ambas as cores tanto na frente como nas costas. Seguidamente uniu-se a frente com as costas de cada perna em ambas as cores. Alfinetou-se o reforço do entre pernas, fechou-se o interior de cada perna e costurou-se o reforço, fechando assim toda a perna. O processo repetiu-se nas duas cores e está ilustrado na Figura 55. Figura 54 – Construção do cós do tapa-fraldas Figura 55 – Costura das calças 98 Após as pernas estarem prontas passou-se para o punho que ainda está aberto. Uniu-se então os painéis da frente e do verso do punho nas suas laterias. Com os punhos prontos uniu-se os mesmos á terminação das pernas. Após esta união desvirou-se a peça de forma a conseguir fechar o punho de forma embutida. O painel da Figura 56 representa este processo. A última etapa seria a construção do cós e a sua união à peça, porém como o cós das calças utilizava o mesmo sistema do tapa fraldas, também não foi unido para poder ser avaliada uma melhor solução. Figura 56 – Costura do punho das calças 99 3.4.5.4 Avaliação, redesign e finalização do protótipo Durante o processo de costura do protótipo, enquanto já se conseguia perceber a sua forma final, foram-se detetando detalhes a corrigir no produto final para que seja 100% reproduzível e que seja de fácil utilização. Como abordado no processo de costura a forma como se tinha projetado o cós para permitir total reversibilidade não é possível. Apesar de nessa forma ser possível usar as peças com todas as combinações, quando unido o cós á camisola para transformar em body iria criar-se muita sobreposição de material, o que poderia incomodar o bebé. Para além disto o cós das partes de baixo estava mais largo que a parte de cima pelo que para unir com a camisola iria acumular ainda mais material. Outro problema encontrado foi na grande quantidade de molas em todas as peças, o que torna a utilização do produto confusa. No tapa fraldas, o elástico usado também não foi o mais correto visto que é muito forte. O elástico a utilizar no produto final deve ser extremamente macio e fino, para não magoar o bebé e poder esticar sem grandes esforços. Por fim, apesar de não se ter usado os materiais da qualidade correta, conseguiu-se perceber que a massa linear das malhas precisa ser menor, resultando numa malha mais fina. Isto porque, como a peça é reversível uma malha mais grossa cria acumulo de tecido e uma espessura de material desconfortável. A malha do rib deve seguir também estas instruções e ser mais fina, porém com um bom grau de recuperabilidade. Em suma os detalhes a alterar estão ilustrados na Figura 57 e são: • Ter em atenção há espessura do material; • Ter em atenção na seleção do elástico, para que seja macio; • Redesenhar o cós; • Diminuir a quantidade de molas de pressão. 100 Tendo em conta os problemas técnicos identificados no cós, repensou-se o mesmo, sendo o passo seguinte a construção de um novo molde para a terminação do cós da camisola e das peças inferiores. No cós da camisola reduziu-se de 16 molas (8 machos e 8 fêmeas), 4 perto de cada lateral, para apenas 8 molas no total, todas fêmeas, 4 na frente e 4 nas costas. Assim, diminui-se o número de molas, mantendo-se o nível de ajuste para o body . Para o cós do tapa-fraldas e calças, de forma a reduzir espessura, alterou-se a construção e acabamento. O novo cós é de dupla face, aberto, com acabamento em corte e cose e apenas ligeiramente dobrado para dentro. No seu interior apenas leva 8 molas,4 machos numa face e 4 fêmeas na outra, permitindo assim unir á camisola e quando não usado em conjunto permite unir-se um ao outro para fechar o cós. Para além disto diminuiu-se a largura do cós das calças e tapa fraldas, ficando com 23,50 cm, menos 50 mm que a camisola que tem 24 cm, como se pode observar no redesign dos moldes na Figura 58. Figura 57 – Avaliação do protótipo 101 Com estes problemas solucionados e os moldes prontos, recortou-se os novos cós e costurou-se aos restantes protótipos Figura 59, que estavam previamente prontos. Por fim, fechou-se com ponto invisível as pequenas aberturas das laterais da camisola dando-se por terminado o processo de prototipagem, com os resultados demonstrados na Figura 60 e Figura 61. Figura 58 – Correção dos moldes do cós da camisola, do tapa-fraldas e das calças Figura 59 – Alteração e finalização dos protótipos 102 Figura 60 – Protótipo final Figura 61 – Protótipo final em utilização 103 Todo este processo foi relevante para perceber a viabilidade do design e as melhorias que eram necessárias, permitindo assim apresentar moldes finais e fichas técnicas mais assertivas. 104 3.4.6 Produto final Após todo o processo de prototipagem chegou-se, então aos produtos finais, que obtiveram algumas pequenas alterações desde a fase do sketch. Os artigos finais são então uma camisola, um tapa-fraldas e umas calças. Todos estes artigos são reversíveis, extensíveis, podem ser usados separadamente e podem ser unidos através de molas de pressão para criar um body ou um babygrow . Estas variações garantem que todas as peças possam ter várias e diferentes utilizações, estendendo o seu tempo de vida em uso. As peças são feitas de malha jersey de bambu e malha rib 2x2 também de bambu, contribuindo para um mundo mais ecológico, protegendo a pele do bebé e garantindo o máximo de conforto. As molas de pressão não contêm níquel na sua composição. Os tamanhos destes artigos são 0-6 meses, 6-18 meses e 18-24 meses. A camisola foi pensada no “estilo americano” com um trespasse nos ombros que permite a cabeça entrar facilmente na camisola, ou até mesmo vestir pelas pernas. As mangas e a base da camisola adaptam-se à largura do bebé devido às aplicações de malha rib nas laterais, proporcionando também maior conforto nos movimentos. As mangas têm um punho em malha rib que permite a mesma ter três tamanhos, devido á possibilidade de dobras diferentes. O cós em malha rib permite que o bebé fique confortável na zona da barriga. Este cós inclui ainda molas para poder ser unido às calças ou ao tapa-fraldas com dois níveis de ajuste de altura. O tapa-fraldas tem um cós em malha rib para dar mais conforto e segurança ao bebé. Este cós é aberto e entre as suas faces tem molas de pressão que permitem unir á camisola, ou então, quando usado apenas o tapa-fraldas pode ser fechado. A largura é ajustável através de aplicações em malha de rib nas laterais. O entre pernas também pode ser ajustado em dois níveis através de molas de pressão. A cava das pernas tem um elástico muito fino e macio permitindo um melhor ajuste á perna e auxiliando a segurar a fralda. Por fim as calças partilham os mesmos detalhes e características do cós do tapa fraldas. A largura também é ajustável com aplicações de malha rib nas laterais. No entre pernas existe um reforço em malha rib que permite maior liberdade de movimentos e maior conforto. O punho em malha rib também permite um ajuste de três níveis devido á possibilidade de dobras diferentes. Todos estes detalhes foram sintetizados nas Figura 62 e Figura 63 105 Figura 62 – Ilustração das características do produto final 106 3.4.7 Fichas técnicas finais Com os produtos bem definidos criou-se as fichas técnicas finais que garantem a boa compreensão do produto para a sua produção, com indicação de materiais e aviamentos necessários. Ao todo são três fichas técnicas, uma para a camisola (Figura 64 e Figura 65), uma para o tapafraldas (Figura 66 e Figura 67) e outra para as calças (Figura 68 e Figura 69). Figura 63 – Ilustração do produto final 113 3.4.8 Moldes finais Neste capítulo apresentam-se as imagens dos moldes finais para o produto poder ser reproduzível de forma correta. Todos os moldes aqui apresentados já tem as correções realizadas durante o processo de avaliação do protótipo. Os moldes têm, também a informação de que parte do produto são, se são frente ou costas, o tamanho e quantas vezes se deve cortar o molde. Estes moldes foram projetados para vestir o tamanho 6 meses e ser extensível até aos 18 meses. 3.4.8.1 Moldes camisola Este molde é constituído pelo molde da base da camisola com trespasse. O molde das laterais e cós em malha rib, bem como a localização das molas. Para além disto contém o molde da manga comprida, das suas laterais em malha rib e do punho extensível. Como se pode verificar na Figura 70 114 Figura 70 – Moldes finais da camisola 115 3.4.8.2 Moldes tapa-fraldas A Figura 71, retrata o molde do tapa-fraldas inclui a base do tapa-fraldas, as peças em malha rib, os reforços, as localizações das molas de pressão e o cós. Figura 71 – Moldes finais tapa-fraldas 116 3.4.8.3 Moldes calça O molde das calças inclui a base das calças, das laterais em malha rib, bem como dos punhos ajustáveis, do cós, as marcações das molas de pressão e o molde do reforço do entre pernas. Como se verifica na Figura 72 Figura 72 – Moldes finais calça 117 3.4.9 Sketchs criativos Tendo em conta a inspiração e o painel foram elaborados sketchs com a finalidade de criar prints e dar rumo ao produto a nível estético. De forma a apelar ao emocional, os prints têm de representar a história a ser contada. Foi essencial conseguir passar a mensagem de conforto, aconchego, conexão não só através das cores que já foram selecionadas, mas também através dos estampados. Pretendeu-se também, criar pequenos detalhes de positividade que relembram a família que o mais importante são os momentos, a conexão e as memórias criadas. Um incentivo e um detalhe que cria uma ligação entre o bebé o produto, a família e o momento. A Figura 73, Figura 74 e Figura 75 representam alguns estudos realizados. 118 Figura 73 – Sketchs criativos 1 119 Figura 74 – Sketchs criativos 2 120 Figura 75 – Sketchs criativos 3 121 3.4.10 Coleção final Todo o desenvolvimento e estudo anterior culminou numa coleção, dedicada a bebés dos 0 aos 24 meses que alia a sustentabilidade e a longevidade com a estética. A coleção é composta por nove artigos reversíveis, três camisolas, três tapa fraldas e três calças, que juntos formam três bodys e três babygrows . Os prints e as cores foram pensados para toda a coleção ser sem gênero e transmitir toda a inspiração definida anteriormente, a importância dos momentos, do presente, da natureza e das memórias. A coleção está apresentada nos próximos tópicos através de conjuntos de peças que se coordenam entre si. Cada conjunto inclui a definição das cores base, das cores dos prints e medidas dos mesmos. 3.4.10.1 Conjunto nº1 O conjunto número um tem como cores base o jet stream 11-0605 tcx e desert sage 16-0110 tcx. A opção de cor jet stream tem um print localizado e a opção desert sage um all over print. Como se visualiza no painel da Figura 76 e Figura 77. Figura 76 – Conjunto nº1 122 Figura 77 – Prints do conjunto nº1 129 Por fim, caso os artigos após o uso ou se já tiverem passado por muitos ciclos, estejam bastante danificados segue-se um processo de desconstrução, recuperação e reciclagem. Neste procedimento os artigos são desconstruídos para separação do material têxtil e dos aviamentos. Após a desconstrução os componentes são analisados e caso existam materiais que possam ser recuperados e reutilizados sem necessitarem de passar pelo processo de reciclagem são reaproveitados. Os materiais que já não poderem ser recuperados são reciclados, voltando assim á fase de design e produção, para depois continuarem o seu ciclo. Esta última fase é possível devido á escolha dos materiais e aviamentos. As linhas utilizadas facilitam uma rápida desconstrução. O material têxtil pode ser reciclado e em condições adequadas pode ser biodegradável. As molas podem ser fundidas. Todos estes ciclos têm o objetivo de tentar que o uso dos materiais não tenha um fim e sejam circulares, minimizando o desperdício. A Figura 83 exemplifica os ciclos previstos do produto. Figura 83 – Gráfico de previsão de circularidade do produto 130 3.6 Análise e comparação dos resultados obtidos Para perceber os resultados obtidos e quais as melhorias conseguidas no redesign dos artigos, comparou-se as características de vestuário de bebé tradicionais facilmente encontradas no mercado, com as características do resultado obtido no desenvolvimento do projeto. A nível dos materiais a maioria dos artigos encontrados no mercado são de algodão ou algodão orgânico. Como estudado anteriormente o algodão apesar de apresentar boas características para a pele do bebé acarreta inúmeras consequências, tais como a grande utilização de água, a ocupação e degradação de solos que poderiam ser usados para a agricultura e a utilização de químicos nocivos. Alternativamente a indústria utiliza o algodão orgânico que apesar de ter características ambientais melhores, não deixa de apresentar problemas na ocupação de solos, entre outros. Em comparação a coleção desenvolvida utiliza fibra de bambu, um recurso renovável a curto prazo, através do processo de lyocell que garante uma produção livre de químicos nocivos e num ciclo fechado. Para além disto a plantação de bambu acarreta benefícios como consumo eficiente de espaço, captação de carbono e regeneração de solos. Sendo a indústria da moda maioritariamente fast-fashion a fase de design e conceção dos artigos de vestuário é extremamente rápida não permitindo pensar em questões de conforto e segurança, o que é extremamente importante para o vestuário de bebé. A maioria dos artigos utiliza molas com níquel, alergénios e químicos nocivos para a pele do bebé. Equiparando com o artigo criado, este foi desenvolvido após um estudo sobre o conforto e as características da pele do bebé e da sua segurança. Por este motivo não utiliza alergénios ou químicos nocivos, as peças são respiráveis, garantem conforto térmico e são confortáveis devido ao ajuste de tamanho. Por fim, uma grande problemática presente no vestuário de bebé atualmente é o rápido descarte devido ao rápido crescimento, o que causa danos ambientais, visto que os artigos na sua maioria não estão pensados para ser sustentáveis ou circulares. Por outro lado, a coleção resultante deste estudo permite que o produto e os materiais circulem num ciclo fechado. Para melhor observação desta comparação de características sintetizou-se os resultados na tabela 14 que compara os materiais, o conforto, a durabilidade, a sustentabilidade e circularidade. 131 Tabela 14 – Comparação dos resultados obtidos Características Artigos facilmente encontrados no mercado Artigos resultantes do desenvolvimento do projeto Materiais • Maioritariamente o algodão ou o algodão orgânico como fibra para a produção de artigos de vestuário de bebé; • Utiliza grandes quantidades de água; • Cultivo e produção nocivos; • Feito de lyocell de bambu que utiliza um processo de produção circular e livre de químicos nocivos. • A plantação de bambu inclui diversos benefícios ambientais e não prejudica os solos. Conforto e segurança • Rápido processo de design e conceção não permite pensar claramente sobre questões como conforto e segurança, muito importantes para um bebé. • Muitos artigos utilizam molas com níquel que é um alergénio, bem como químicos nocivos á pele do bebé. • Exaustivo estudo sobre as características do conforto e segurança; • Peças confortáveis devido á facilidade de ajuste e adaptação; • Material que permite respirabilidade da pele e conforto térmico; • Sem alergénios ou químicos nocivos; Durabilidade • Atualmente as peças de vestuário de bebé são rapidamente descartadas. • Devido ao seu rápido desenvolvimento as peças deixam de servir num espaço de tempo muito rápido, entre 1 e 3 meses. • Artigos desenhados para uma extensão da vida útil, em comparação com os artigos tradicionalmente encontrados no mercado; • Durabilidade entre 6 e 12 meses; • Reversibilidade que permite maior utilização. 132 Sustentabilidade e circularidade • Maioritariamente os produtos encontrados no mercado não são pensados para ser circulares. • Alguns apresentam algumas preocupações a nível de sustentabilidade, sendo uma minoria. • Seleção de materiais e design pensado para o artigo ser circular e sustentável; • Identificação de ciclos previstos e estratégias de reentrada na indústria. Pode-se verificar que o resultado é uma gama de artigos otimizada em relação aos tradicionais do mercado, envolvendo um conjunto de benefícios a nível de conforto, segurança, durabilidade, sustentabilidade e circularidade. 133 4. Conclusões Neste capítulo foram apresentadas as considerações finais e conclusões de todo o desenvolvimento do projeto de dissertação e as propostas para melhorias ou trabalhos futuros. 4.1 Considerações finais O principal objetivo deste projeto de dissertação foi desenvolver uma coleção de vestuário interior de bebé sustentável, durável que funcione numa economia circular e que responda de forma eficaz às necessidades físicas do bebé, um objetivo de muita relevância tendo em conta que o rápido crescimento dos bebés provoca um elevado descarte de vestuário. Para cumprir este grande objetivo foi necessária a sua divisão em pequenos objetivos, tais como: (1) Identificar as necessidades e características específicas de um bebé, do seu desenvolvimento e da sua pele na faixa etária entre os 0-24 meses; (2) Perceber as características da sustentabilidade ambiental, social e económica bem como a circularidade na indústria da moda; (3) Estudar o impacto do uso do algodão; (4) identificar um material sustentável com características equivalentes ou melhores que o algodão e identificar a sua adequabilidade; (4) Desenvolver melhorias para aumentar a durabilidade da peça. Assim sendo, procedeu-se a um exaustivo estudo teórico que permitiu responder á identificação das necessidades e características de um bebé, sendo relevante considerar que na faixa etária dos 0 aos 24 meses o bebé é extremamente vulnerável. Identificou-se que a pele do bebé é delicada e suscetível a alergias, devendo ser protegida de alergénios, químicos nocivos e fibras sintéticas. Deve-se ressaltar que o conforto foi outra característica tida em conta, visto que o bebé deve ter liberdade de movimentos para poder utilizar as estratégias de exploração, deve sentir-se confortável a nível termofisiológico e sensorial. Quanto ao impacto do uso do algodão, este é um grande problema da indústria têxtil, tendo em conta que ocupa espaços e degrada solos que poderiam estar a ser utilizados para o setor da agricultura, para além de consumir muitos litros de água, quer no cultivo ou na produção. Tendo isto em conta foram identificadas as características da sustentabilidade ambiental e as ferramentas e estratégias que poderiam ser úteis para o desenvolvimento do projeto, tais como o design para a longevidade, design thinking , design emocional , recycling, upcycling, downcycling , design para a desmontagem, zero-waste e serviços. Estas estratégias foram fundamentais e auxiliaram na posterior fase do design. 134 Para conseguir concluir o objetivo de criar um produto sustentável e circular foi importante o apoio numa metodologia que guia o processo prático. A eleita foi a metodologia de “Ellen Macarthur” que por ser adaptável permitiu fazer as alterações necessárias para o bom desenvolvimento do projeto. Prosseguiu-se posteriormente para a fase de desenvolvimento do projeto iniciada por uma análise de marcas portuguesas sustentáveis presentes atualmente no mercado e uma análise de uma gama produtos através da sua desconstrução. Estas etapas foram importantes para perceber melhor o processo de construção dos artigos e os materiais e aviamentos envolvidos. Seguiu-se uma geração de ideias onde foi conseguido explorar várias ideias para aumentar a durabilidade e o número de utilizações do vestuário. Tendo sido esta fase realizada maioritariamente em desenho sentiu-se alguma dificuldade na perceção da viabilidade das ideias, porém após ter sido selecionada uma ideia através de matriz de critérios a prototipagem foi uma etapa fundamental para a melhor visualização das limitações e dificuldades. A ideia finalista tratou-se de uma camisola, umas calças e um tapa fraldas, reversível, com detalhes que permitem ajuste de tamanho. Estes detalhes são aplicações de malha rib em zonas estratégicas e molas que permitem um ajuste de largura e comprimento. Em acréscimo a camisola pode ser unida às calças ou ao tapa fraldas criando um body ou um babygrow . A escolha dos materiais e aviamentos foi fundamental para a circularidade e sustentabilidade do produto. O material eleito para substituir o algodão foi a fibra de bambu produzida através do mesmo método do lyocell que garante a eliminação de químicos nocivos numa produção de ciclo fechado. Para além deste fator o bambu garante excelentes características para a pele do bebé, sendo algumas melhores que o algodão. A fase de prototipagem foi então muito importante para conseguir-se perceber que alguns detalhes que tinham sido inicialmente criados para o aumento da durabilidade não eram viáveis, tais como o elevado número de molas e o acúmulo de camadas na zona da barriga, porém estas questões foram contornadas executando um redesign aos detalhes que não eram tão funcionais. Apesar de não se ter conseguido que as peças fossem reversíveis em todas as formas possíveis (unido a cor de dentro com a de fora), o resultado considera-se positivo na medida em que se projetou três produtos que podem ser usados separadamente ou unidos. Podem ser reversíveis separadamente ou entre si desde que na mesma face, aumentando as possibilidades de uso. As alterações criadas para ajustar vários tamanhos permitiram aumentar de um tempo médio de uso previsto de entre 1 a 3 meses 135 para 6 a 12 meses, quando comparado com os tamanhos usados tradicionalmente. E por fim todas as características do produto possibilitam que o mesmo funcione num ciclo fechado conseguindo reentrar em uso através de três estratégias diferentes (pelo menos em conceito). Este projeto de dissertação é de relevância para o meio académico tendo em conta que este carece de mais estudos e contribuições na área de desenvolvimento de produto infantil que vise responder às necessidades atuais de sustentabilidade e circularidade. 4.2 Propostas para trabalho futuro No que respeita ao trabalho a realizar futuramente sugere-se a produção do produto final nos materiais com a composição e características corretas para conseguir-se avaliar, estudar e analisar se o tempo de uso previsto corresponde ao tempo de uso real através do teste em bebés na faixa etária em causa. Seria igualmente interessante desenvolver um modelo de negócio que permita testar não só o produto, mas também a sua circularidade. Poderá também ser avaliada uma hipótese que permita que os artigos sejam reversíveis entre as suas duas faces quando unidos, permitindo usar uma face da parte de cima com a face contrária da parte de baixo. Seria também de extrema relevância estudar-se a hipótese e adequabilidade de estampagem e tingimento natural através de corantes vegetais. Sabe-se que na indústria já se utiliza este tipo de corantes em marcas como a Play up ( Tingimento Natural | Moda Infantil Outono-Inverno | PlayUp , n.d.), ou a Colorifix que cria corantes através da identificação do ADN de uma planta, animal ou micróbio ( Como Funciona - Colorifix , n.d.). Tratando-se de uma área que está a crescer e a desenvolver-se, a exploração da mesma poderá ser mais uma oportunidade de melhoria sustentável para o produto. Por fim, seria relevante realizar um estudo mais aprofundado para alternativas de materiais para as molas de pressão, visto que o material destas continua ainda a não ser o mais adequado a nível ambiental, carecendo de procura por soluções inovadoras e mais sustentáveis. 136 Referências Bibliográficas Abdelmeguid, A., Afy-Shararah, M., & Salonitis, K. (2022). Investigating the challenges of applying the principles of the circular economy in the fashion industry: A systematic review. Sustainable Production and Consumption , 32 , 505–518. https://doi.org/10.1016/J.SPC.2022.05.009 About Bamboo Lyocell | Sustainable T shirts | Eco Staples . (n.d.). Retrieved April 22, 2024, from https://www.ecostaples.co/pages/about-bamboo-lyocell Anzanello, J. (2010). Oportunidades de estimulação, desenvolvimento motor e desenvolvimento social de crianças no primeiro ano de vida em diferentes contextos . https://lume.ufrgs.br/handle/10183/28119 Are Bamboo Clothes Eco Friendly? 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